Mostrar mensagens com a etiqueta James Lovelock. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta James Lovelock. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Manifesto Contra o Colonialismo Espacial e a Soberba Antropocêntrica

cosmic web and earthly root

from void's embrace, our tethered light,
framed through the lens at five p.m. daylight.
a blue moon sings a solemn tune,
of phases shared by dust and dune.

in root and earthly connection below,
we feel where galaxies and wonder grow.

each part a whole, no life divine,
is separate from the cosmic vine.

we are but star-dust, earth-bound breath,
uniting sky and biome, birth and depth.

João Soares, 21.08.2026

Introdução
A Terra não é um mero depósito de recursos ou um cenário passivo para a atividade humana, mas sim um superorganismo vivo e autorregulado, em linha com a Hipótese de Gaia de James Lovelock. Sob a perspetiva da ecologia profunda, cada ecossistema, bioma e espécie no nosso planeta possui o direito inerente de existir e evoluir naturalmente, livre do domínio humano destrutivo. Os seres humanos não são os mestres da Terra, mas simples membros de uma comunidade biótica complexa, onde a perturbação de uma única parte do sistema, como o clima ou as correntes oceânicas, prejudica a totalidade da teia da vida, incluindo a própria humanidade. Por essa razão, os ecologistas profundos defendem o respeito rigoroso pelos limites ecológicos do planeta, rejeitando categoricamente modelos de crescimento económico baseados na extração infinita de recursos terrestres.

À medida que a atividade humana se expande para o espaço através da mineração lunar, dos voos comerciais e da proposta de bases permanentes, esta filosofia estende-se também aos corpos celestes, num campo conhecido como ética espacial ou cosmoecologia. Os pensadores deste movimento sustentam que as estruturas naturais não vivas, como as crateras, o rególito e as paisagens intocadas da Lua, possuem um valor geológico e estético intrínseco, não devendo ser reduzidas a simples locais de mineração para a extração de minerais raros ou combustíveis como o Hélio-3. A corrida à colonização e exploração do espaço é vista como uma extensão da mesma mentalidade antropocêntrica que devastou a Terra, considerando que tentar resolver a escassez de recursos terrestres através da exploração lunar evita confrontar a verdadeira questão moral da sobreintensidade do consumo humano. Assim como advoga a criação de zonas selvagens livres da presença humana na Terra através do reassilvagemento, a ecologia profunda moderna defende que a Lua representa uma forma de vida selvagem cósmica que merece ser protegida da poluição industrial, da saturação comercial e da militarização.

Enquanto a visão antropocêntrica convencional considera a Terra um armazém de recursos naturais para sustentar a civilização e a Lua ou Marte uma plataforma estratégica para a ciência, mineração e expansão humana, a ecologia profunda moderna interpreta a Terra como um sistema sagrado e vivo com direitos inerentes, onde a humanidade deve habitar dentro dos seus limites naturais, a Lua e Marte como uma paisagem cósmica intocada dotada de valor próprio que deve ser preservada da exploração industrial.
Disto isto propomos este manifesto.

1. O Mito do Quintal Extraterrestre
A proposta de transferir a indústria pesada para a Lua ou Marte sob o pretexto de "salvar a Terra" é uma ilusão. Aplica a mesma lógica inconsequente que criou a nossa catástrofe ambiental: tratar outro ecossistema intocado como um caixote do lixo. A mineração da superfície lunar não salva a Terra - apenas normaliza a destruição cósmica de ambientes que não temos o direito de profanar.

2. A Falácia do Planeta "Plano B"
A obsessão em colonizar e "terraformar" Marte trata a Terra como algo descartável - uma casa gasta para abandonar quando for conveniente. Gastar energia, recursos e esforço humano para construir suporte de vida artificial num mundo tóxico enquanto deixamos a biosfera viva da Terra colapsar é um ato de cobardia ética. Marte não é um disco externo para a vaidade humana.

3. O Valor Intrínseco da Vida Selvagem Cósmica
Cada canto do cosmos possui um valor intrínseco independente da utilidade humana. As crateras milenares da Lua, os desertos intocados de Marte e o silêncio frágil dos corpos celestes possuem uma integridade ecológica e geológica que precede a existência humana. Não são ativos imobiliários. Não são concessões mineiras corporativas.

Estes dois vídeos permitem escrutinar os propósitos de Jeff Bezos e Elon Musk acerca mineração da Lua e a colonização de Marte e confirmar as nossas preocupações éticas e ambientais.

1.1. Vejam este discurso do Jeff Bezos e o seu plano de colonização da Lua
This Time We Are Going to the Moon to Stay" Bezos Reveals Blue Origin’s Moon Colony Plan

1.2. Elon Musk’s Vision for Humanity: Mars, AI & the Future of Civilization

O Nosso Compromisso
Rejeitamos a narrativa perigosa de que o universo é um livro de contabilidade de recursos à espera de ser explorado pelo capital humano.

A crise planetária que enfrentamos hoje não foi causada pela falta de matérias-primas, mas por uma crise de valores humanos - um antropocentrismo descontrolado que trata sistemas naturais intocados como ferramentas descartáveis para o crescimento económico infinito.

Não precisamos de colonizar outros mundos para provar a nossa inteligência; precisamos de cultivar a maturidade de viver dentro dos limites naturais do mundo que nos deu origem.

O verdadeiro progresso não é colocar fábricas na Lua ou bandeiras em Marte - é a expansão do Eu Ecológico, reconhecendo o nosso lugar dentro da teia da vida e defendendo a integridade sagrada e autorregulada da Terra e do universo contra a conquista corporativa.

Referências Bibliográficas
  1. Abram, D. (1996). The Spell of the Sensuous: Perception and Language in a More-Than-Human World. New York: Vintage Books.
  2. Devall, B., & Sessions, G. (1985). Deep Ecology: Living as if Nature Mattered. Salt Lake City: Gibbs M. Smith.
  3. Krenak, A. (2019). Ideias para Adiar o Fim do Mundo. Lisboa: Objectiva.
  4. Lovelock, J. (1979). Gaia: A New Look at Life on Earth. Oxford: Oxford University Press.
  5. Næss, A. (1973). "The Shallow and the Deep, Long-Range Ecology Movement: A Summary". Inquiry, 16(1-4), 95–100.
  6. Næss, A. (1989). Ecology, Community and Lifestyle: Outline of an Ecosophy. Cambridge: Cambridge University Press.
  7. Rolston III, H. (1986). "Preserving Wild Value on the Moon and Planets". The Earth First! Journal, 7(2), 23–25.
  8. Schwartz, J. S., & Milligan, T. (Eds.). (2016). The Ethics of Space Exploration. Cham: Springer.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Aiko Sakamoto

Rapariga com borboletas, da série Nocturnos (2022)

Aiko Sakamoto é uma artista plástica nascida em 1977 na província de Tóquio, no Japão, onde reside e trabalha actualmente. A sua formação académica foi realizada na Universidade de Arte Tama (Tama Art University), onde se graduou no Departamento de Pintura Japonesa e, posteriormente, concluiu o mestrado na mesma especialidade.
O seu estilo é profundamente enraizado no Nihonga (pintura tradicional japonesa), mas apresenta uma abordagem contemporânea e lírica que explora a relação entre o visível e o invisível. Utiliza técnicas que misturam pigmentos minerais, pó de ouro e prata sobre papel japonês (washi), destacando-se pela criação de borboletas tridimensionais feitas de papel e folha metálica que são aplicadas sobre a tela plana. Esta técnica permite que a luz seja refletida de diferentes ângulos, conferindo uma sensação de vitalidade e movimento às obras.

Os seus temas centram-se em fenómenos naturais efémeros e conceitos abstratos, como o vento, o som, as ondas e as flutuações da luz e da água. Através de uma paleta onde predominam o azul profundo e o preto denso, Sakamoto procura expressar a essência da existência humana e a circulação da vida em ciclos infinitos, fundindo figuras biomórficas com o cosmos e o silêncio.


A sua obra encerra um simbolismo contemporâneo que nos convoca ao desvelar de uma liberdade ancestral, sintonizando o ser com a génese de Gaia e o repouso absoluto de uma harmonia que transcende o visível.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Gaia e Nossa Conexão Cósmica


“Que nosso tempo seja lembrado pelo despertar de um nova reverência face à vida, pelo compromisso firme de alcançar a sustentabilidade, pela intensificação da luta pela justiça e pela paz e pela alegre celebração da vida”.

Esta frase emblemática encerra o preâmbulo da Carta da Terra, um documento fundamental que apela a uma nova consciência global, apelando ao respeito pela diversidade, sustentabilidade ecológica, justiça social e uma cultura de paz. Este apelo visa transformar a sociedade em direcção a um futuro mais justo e sustentável.

domingo, 14 de dezembro de 2025

Onde a Terra respira

"A Montanha não pensa em mim,
e por isso ensina-me tudo.
Está ali,
antes do meu nome
e depois do meu cansaço.
Não argumenta,
não explica,
não promete salvação.
É pedra respirando devagar,
um tempo tão vasto
que o tempo deixa de ser pressa.
Aprendo com ela a não querer mais
do que estar.
Um órgão antigo
desta grande vida que se regula sozinha,
que se cura sem pedir licença,
que mantém o equilíbrio
mesmo quando a esquecemos.
Quando me torno vento entre os seus picos
sou menor —
e isso é um alívio.
A Montanha não é símbolo.
É presença.
E ao aceitá-la assim, inteira,
aprendo a pertencer
à Terra viva."
Joao Soares -14.12.2025

sábado, 13 de dezembro de 2025

Ecologia espiritual: uma nova visão para a conservação da natureza

E-Livro aqui

Introdução
A ecologia espiritual tem vindo a ganhar relevância no debate ambiental contemporâneo, ao propor uma ligação profunda entre o ser humano e a Terra. Mais do que uma abordagem científica, trata-se de uma visão que integra ética, cultura, espiritualidade e ecologia. Num momento marcado por crises climáticas, perda de biodiversidade e degradação dos ecossistemas, esta perspetiva convida a repensar a relação humana com o planeta.

Este artigo tem como objetivo explorar os fundamentos conceptuais da ecologia espiritual, identificar os seus principais pensadores e avaliar a forma como esta perspetiva contribui para práticas e políticas de conservação da natureza.

A essência da ecologia espiritual
A ecologia espiritual parte da ideia de que a natureza possui valor intrínseco, independentemente da sua utilidade para a humanidade. Inspirada em tradições ancestrais e em contributos da ecologia profunda, esta visão realça três princípios fundamentais:
  • Interdependência entre todos os seres vivos;
  • Valor intrínseco da Terra como comunidade de vida;
  • Transformação ética e espiritual para enfrentar a crise ecológica.
Pensadores que moldaram esta abordagem
Vários autores contribuíram para consolidar a ecologia espiritual:
  1. Arne Næss, filósofo da ecologia profunda, defendeu uma mudança do antropocentrismo para uma visão ecocêntrica.
  2. James Lovelock e Lynn Margulis, com a Hipótese Gaia, mostraram a Terra como sistema vivo e autorregulado.
  3. Thomas Berry, historiador cultural, apelou à criação de uma nova narrativa cosmológica capaz de reconectar humanidade e planeta.
  4. Joanna Macy articula espiritualidade e ativismo ambiental em processos de reconexão com a vida.
  5. Vandana Shiva destaca o valor das cosmologias indígenas e ecofeministas na proteção dos ecossistemas.
  6. Seyyed Hossein Nasr lembra que a crise ecológica também é uma crise espiritual da modernidade.
  7. A espiritualidade franciscana, atualizada na Laudato Si’, reforça a ideia de “casa comum”.
Um impacto visível na conservação da natureza
A ecologia espiritual contribui para a conservação de várias formas:
Motiva comportamentos ambientais mais profundos e duradouros, baseados no cuidado e não apenas na gestão técnica.
Valoriza saberes ecológicos tradicionais, que têm protegido florestas, rios e territórios ao longo de séculos.
Influência narrativas ambientais globais, reforçando a ética da responsabilidade e do cuidado planetário.

Conclusão
A ecologia espiritual não substitui a ciência ecológica, mas amplia-a, oferecendo novas linguagens, valores e horizontes de sentido. Num tempo de grandes desafios ambientais, esta perspetiva pode ajudar a construir culturas de cuidado e práticas de conservação mais integradas, participativas e transformadoras. Ao reconectar o ser humano com a Terra, abre caminho para uma verdadeira mudança civilizacional.

Referências bibliográficas
  1. Berry, T. (1999). The Great Work: Our Way into the Future. Bell Tower.
  2. Lovelock, J. (2000). Gaia: A New Look at Life on Earth. Oxford University Press.
  3. Macy, J., & Brown, M. Y. (2014). Coming Back to Life: The Updated Guide to the Work That Reconnects. New Society Publishers.
  4. Margulis, L. (1998). Symbiotic Planet: A New Look at Evolution. Basic Books.
  5. Næss, A. (1989). Ecology, Community and Lifestyle. Cambridge University Press.
  6. Nasr, S. H. (1968). Man and Nature: The Spiritual Crisis of Modern Man. Allen & Unwin.
  7. Pope Francis. (2015). Laudato Si’: On Care for Our Common Home. Vatican Press.
  8. Shiva, V. (2016). Earth Democracy: Justice, Sustainability, and Peace. North Atlantic Books.

quinta-feira, 10 de agosto de 2023

Ebulição Global


Está a ocorrer um aquecimento inesperado da Terra. A média geral de sua temperatura é de 15 º C. Estamos  chegar como se nota na Europa agora, até mais de 40 graus com mortes de muitas crianças e idosos.

Que cenários poderemos enfrentar? São todos sombrios, caso não ocorrer um salto da consciência coletiva que defina outro caminho e outro destino para o sistema-vida e o sistema-Terra. Não se pode negar que o planeta, dia após dia, está se aquecendo. Os órgãos da ONU que acompanham a evolução deste evento desastroso nos alertam que entre os anos 2025-2027 teremos ultrapassado o acréscimo de 1,5 º C, previstos para 2030 pelo acordo de Paris em 2015. Tudo se antecipou e nesta data, entre 2025-2027, chegaremos ao que está ocorrendo atualmente na Europa: um clima que poderá se estabilizar acima de 35 graus, chegando a 38-40 graus nalgumas regiões do planeta.

Milhões deverão emigrar por não poderem mais viver em suas pátrias queridas e safras serão totalmente perdidas. O Brasil, atualmente,um dos maiores exportadores de alimentos, verá a sua produção profundamente reduzida. Segundo James Lovelock, (Veja, Paginas Amarelas de 25 de outubro de 2006), o Brasil, por causa de sua vasta extensão ensolarada, será um dos mais atingidos pelo aquecimento global e pelas mudanças climáticas.

Os do agronegócio deveriam estar atentos a estas advertências, pois como escreveu o Papa Francisco na encíclica "Laudato Si: como cuidar da Casa Comum", dirigida a toda a humanidade e não apenas aos cristãos: “As previsões catastróficas já não se podem olhar com desprezo e ironia; deixaríamos para as próximas gerações demasiadas ruínas, desertos e lixo”(n.161).

É o que ninguém quer para seus filhos e netos. Mas para isso devemos nos munir de coragem e de ousadia para mudar de rumo. Só uma radical mudança ecológica nos poderá salvar, equilibrando o clima suportável para nós e para os demais seres vivos.

segunda-feira, 26 de junho de 2023

Deep Green Politics


Dark Green Environmentalism
Dark Green Environmentalism is closely associated with ideas of ecocentrism, Deep Ecology, degrowth, anti-consumerism, post-materialism, holism, the Gaia hypothesis of James Lovelock, and sometimes a support for a reduction in human numbers and/or a relinquishment of technology to reduce humanity's effect on the planet and the environment. As Alex Steffen notes, Dark Greens believe that environmental problems are an inherent part of industrialised civilisation, and seek radical political change. Dark Greens believe that currently and historically dominant political ideologies (sometimes referred to as Industrialism) inevitably lead to consumerism, overconsumption, waste, alienation from nature and resource depletion. Dark Greens claim this is caused by the emphasis on economic growth that exists within all existing ideologies, a tendency referred to as growth mania.

Alex Steffen continues by describing how, more recently, ‘Bright Greens’ have emerged as a group of environmentalists who also believe that radical changes are needed in the economic and political operation of society in order to make it sustainable, but that better designs, new technologies and more widely distributed social innovations are the means to make those changes—and that society can neither stop nor protest its way to sustainability.

Buddhism and the Ecological Self
As Joanna Macy’s notes in her work on ‘The Ecological Self’, Lynn White, Jr., suggested as long ago as 1967 that Western philosophical and religious traditions had led to a devaluation of nature and an anthropocentric view of the world. This, he (White) argued, has been a major contributor to our current ecological crisis. Others subsequently proposed Buddhism as a source for more ecologically friendly ways of being in the world due to its conception of humans being deeply interconnected with their environment. In recent years, scholars have investigated into Asian and Western religious approaches to ecology, with Buddhism offering fertile ground for many thinkers striving to provide a theoretical basis for a more sustainable relationship with the environment.

Although it would be short-sighted to suggest that the founders of Buddhism were Deep Ecologists, it is possible to identify many elements of Deep Ecology in Buddhism, and elements of Buddhism in Deep Ecology, and they have long been inextricably linked. Buddhist teachings focus on reducing suffering, which is indeed how humans should strive to treat all living creatures, including the Earth itself – an idea also tied to Buddhism's belief in interconnectedness and its opposition to consumerism. Buddhist moral thought encourages refraining from activities such as consuming certain types of meat, polluting water and cutting down trees – all of which are seen as contributing towards creating an ecologically sustainable existence. Furthermore, the sacred precept against killing other living beings - even those lower down the food chain – along with encouraging goodwill towards others, not just within humankind, but also other sentient creatures is often seen as embodying the essence of ecological sustainability and compassion.

quarta-feira, 31 de maio de 2023

O aquecimento global empurrará biliões para fora do "nicho climático humano"



Mundo caminha para 2,7°C e com um sofrimento humano 'fenomenal', alertam cientistas

O aquecimento global tirará biliões de pessoas do “nicho climático” no qual a humanidade floresceu por milénios, estimou um estudo, expondo-os a temperaturas sem precedentes e climas extremos.

O mundo está a caminho de 2,7°C de aquecimento com os planos de ação atuais e isso significaria que 2 biliões de pessoas experimentariam temperaturas médias anuais acima de 29°C até 2030, um nível em que poucas comunidades viveram no passado.

Até 1 bilhão de pessoas poderiam optar por migrar para lugares mais frios, disseram os cientistas (área a roxo do mapa) embora as áreas que permanecerem dentro do nicho climático ainda sofram ondas de calor e secas mais frequentes.

No entanto, uma ação urgente para reduzir as emissões de carbono e manter o aumento da temperatura global em 1,5°C reduziria o número de pessoas empurradas para fora do nicho climático em 80%, para 400 milhões.

A análise é a primeira do género e é capaz de tratar todos os cidadãos de forma igualitária, ao contrário das avaliações econômicas anteriores sobre os danos da crise climática, que foram desviadas para os ricos.

Em países com grandes populações e climas já quentes, a maioria das pessoas será empurrada para fora do nicho climático humano, com a Índia e a Nigéria enfrentando as piores mudanças. A Índia já está a sofrer com ondas de calor extremas , e um estudo recente descobriu que mais de um terço das mortes relacionadas ao calor no verão de 1991-2018 ocorreram como resultado direto do aquecimento global causado pelo homem.

O professor Tim Lenton, da Universidade de Exeter, no Reino Unido, que liderou a nova pesquisa, disse: “Os custos do aquecimento global são frequentemente expressos em termos financeiros, mas nosso estudo destaca o custo humano fenomenal de não enfrentar a emergência climática.

“As estimativas económicas quase sempre valorizam mais os ricos do que os pobres, porque eles têm mais ativos a perder e tendem a valorizar os vivos agora em detrimento dos que viverão no futuro. Estamos considerando todas as pessoas como iguais neste estudo”.

O professor Chi Xu, da Universidade de Nanjing, na China, e também parte da equipa de pesquisa, disse: “Tais altas temperaturas [fora do nicho] têm sido associadas a problemas como aumento da mortalidade, diminuição da produtividade do trabalho, diminuição do desempenho cognitivo, aprendizado prejudicado, problemas adversos resultados da gravidez, diminuição do rendimento das colheitas, aumento de conflitos e propagação de doenças infecciosas”.

O professor Marten Scheffer, da Universidade de Wageningen, na Holanda, e autor sénior do estudo, disse que aqueles que foram empurrados para fora do nicho climático podem considerar a migração para lugares mais frios: “Não apenas a migração de dezenas de milhões de pessoas, mas pode ser um bilião ou mais. .”

A ideia de nichos climáticos para animais e plantas selvagens está bem estabelecida, mas o novo estudo, publicado na revista Nature Sustainability, identificou as condições climáticas nas quais as sociedades humanas prosperaram.

Ele descobriu que a maioria das pessoas vivia em lugares com temperaturas médias anuais em torno de 13°C ou 25°C. As condições externas são muito quentes, muito frias ou muito secas e associadas a taxas de mortalidade mais altas, menor produção de alimentos e menor crescimento económico.

“O nicho climático descreve onde as pessoas floresceram e floresceram por séculos, senão milénios no passado”, disse Lenton. “Quando as pessoas estão fora [do nicho], elas não prosperam.”

Scheffer disse: “Ficamos surpresos com o quão limitados os humanos permaneceram quando se trata de sua distribuição em relação ao clima – isso é uma coisa fundamental em que colocamos o dedo”.

Os cientistas então usaram modelos climáticos e populacionais para examinar as prováveis mudanças futuras no número de pessoas fora do nicho climático, que eles definiram como acima de uma temperatura média anual de 29°C.

Existem 60 milhões de pessoas vivendo fora do nicho e expostas ao calor perigoso, disseram os pesquisadores. Mas com cada aumento de 0,1°C na temperatura global acima dos 1,2°C de aquecimento global causado pelo homem já visto hoje, 140 milhões de pessoas extras são expulsas do nicho.

Se a temperatura global continuar subindo para 2,7°C, o aquecimento combinado com uma população global crescente significará 2 biliões de pessoas vivendo fora do nicho em 2030 e 3,7 biliões em 2090.

No pior cenário, com o clima mais sensível ao aumento dos gases de efeito estufa do que o esperado, a temperatura global subiria 3,6°C e deixaria quase metade da população mundial fora do nicho climático.

Cortes rápidos e profundos nas emissões para manter o aquecimento em 1,5°C reduziriam enormemente o número de pessoas fora do nicho, descobriram os pesquisadores. Por exemplo, 90 milhões de pessoas na Índia viveriam com uma temperatura média acima de 29°C, em comparação com 600 milhões se a temperatura global subisse para 2,7°C. Outros países que seriam severamente afetados por altas temperaturas incluem Indonésia, Filipinas e Paquistão.

Lenton disse que o estudo enfatizou a “enorme desigualdade” da emergência climática com as pessoas com baixas emissões sofrendo as maiores mudanças na exposição ao calor extremo.

Ele disse que a opção mais prática e imediata para se adaptar às altas temperaturas era aumentar os espaços verdes nas cidades: “Isso pode reduzir em 5°C as temperaturas extremas e fornecer sombra – isso é enorme”.

O Dr. Richard Klein, do Instituto Ambiental de Estocolmo, na Suécia, e que não faz parte da equipa, disse: “O que este estudo mostra muito bem é o sofrimento humano direto que a mudança climática pode causar – viver fora do nicho significa sofrer devido a um calor insuportavelmente quente. e possivelmente clima húmido.

Laurence Wainwright, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, disse: “Os humanos se acostumaram a viver em áreas específicas com certas temperaturas. Quando as coisas mudam, surgem problemas sérios, seja em termos de saúde física, saúde mental, criminalidade e agitação social.”

sábado, 7 de janeiro de 2023

O crescimento populacional é um dos principais impulsionadores da degradação do clima e da perda de biodiversidade

As pessoas se reuniram em Paris para os fogos de artifício da véspera de Ano Novo. 'A humanidade ultrapassou 8 biliões no ano passado.' Fotografia: Julien de Rosa/AFP/Getty Images

Devemos prestar atenção às palavras do falecido ambientalista James Lovelock sobre superpopulação, diz Robin Maynard.

Damian Carrington cataloga os eventos ambientais de 2022 ( Revisão ambiental de 2022: outra milha na 'estrada para o inferno climático', 30 de dezembro ), que ele vê como um símbolo do “colapso climático para o qual a humanidade está caminhando”. Ele observa corretamente que não é apenas o nosso clima que está desmoronando catastroficamente, mas a natureza por atacado - com o relatório World Wide Fund for Nature's Living Planet 2022 (seria melhor intitulado o relatório Dying Planet) registando uma perda de 69% de todas as populações de vida selvagem ao longo o último meio século.

Nesse mesmo período de 50 anos, nossa população humana mais do que dobrou – um fator-chave tanto para a mudança climática quanto para a perda de biodiversidade, visivelmente ausente do artigo. Não menos importante, o evento da humanidade superando 8 biliões no ano passado em 15 de novembro.

Carrington termina assinalando a morte de James Lovelock, o brilhante cientista por trás da hipótese de Gaia e alguém que não se esquivou de destacar fatos inconvenientes, que certa vez disse: “Aqueles que não conseguem ver que o crescimento populacional e as mudanças climáticas são dois lados do mesma moeda são ignorantes ou estão se escondendo da verdade. Esses dois grandes problemas ambientais são inseparáveis ​​e discutir um ignorando o outro é irracional”. 

Robin Maynard - Diretor Executivo, Population Matters

Leituras:

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Conferência de Estocolmo: os problemas que resistem

Corço no rio Almanguês, Coimbra @  Manuel Malva

Suportada pela Lei de Bases do Ambiente (1987) durante décadas, a política de Ambiente permitiu ao país escapar a um pior desordenamento e a uma maior destruição dos equilíbrios dinâmicos, ecológicos e paisagísticos, até que surgiram uns sobredotados que resolveram inventar a pólvora e criaram o caos.

A grande compreensão mundial sobre a necessidade de defender o Ambiente terá começado com James Lovelock quando lançou a sua ideia da Gaia, o sistema vivo que só é mantido se nós o soubermos manter; depois em 1972 a Conferência de Estocolmo como que obrigou todos os países a preocuparem-se com o assunto. Nessa célebre conferência ouvimos declarar que “ o homem tem direito fundamental à liberdade ( logo a liberdade à frente de tudo!!), à igualdade e ao desfrute de condições de vida adequadas a um ambiente de qualidade” e também : “o homem tem a responsabilidade especial de preservar e administrar judiciosamente o património natural e os seus habitats”

Portugal, em pleno “marcelismo”, criou então em 1971 a Comissão Nacional do Ambiente, entregue a um dos poucos políticos portugueses da altura que conhecia a situação – o engenheiro Correia da Cunha, pessoa muito competente e de amplo diálogo, sempre com fortes bases de conhecimento, que muito ajudaram a ampliar a compreensão pública das questões ambientais. E criou-se também em 1971 o Parque do Gerês, classificado como nacional.

Olhemos então para Portugal:

1- o interior despovoado

2- o sector agro-florestal desmantelado

3- a política de Ambiente desarticulada

4- a passividade cívica de grande parte da população, assoberbada com problemas do dia-a-dia e indiferente às questões ambientais.

Abordemos, pois, estas questões.

1- Desde que um Governo na década de 90 do século passado decidiu dar subsídios aos pequenos e médios agricultores para deixarem de produzir, milhares de hectares de solos agricultáveis foram abandonados e a falta de actividades no mundo rural atirou milhares de pessoas jovens para as cidades. Muitos dos solos acabaram plantados com eucaliptos sem que tivesse havido um ordenamento florestal que permitisse localizar esses povoamentos estremes apenas e só onde eles tivessem lugar sem interferir com as outras culturas. E outros milhares de hectares de solos ficaram simplesmente abandonados. Mas ainda agora continua a sair legislação para ampliar a área de eucaliptais como tem sido denunciado por ONGs.

2- O sector agro-florestal foi sendo desarticulado e chegou ao extremo actual de agricultura e “floresta” estarem em Ministérios diferentes, dizendo que este é o caminho actual para o futuro.

Começou com a extinção dos Serviços Florestais, que existiam desde o século XIX, instituição fundamental para a defesa do Ambiente.

Durante décadas a quadrícula de pessoal florestal distribuído pelo território garantiu o controlo dos fogos rurais, porque os focos de incêndio eram detectados geralmente logo no início e possibilitavam uma intervenção atempada. Pessoal florestal e bombeiros eram então suficientes para controlar os fogos. Agora todos os anos se gastam milhões e milhões com os incêndios só porque seguimos este “caminho de futuro”.

A política agrícola tem privilegiado e subsidiado os pomares de regadio intensivo, sem cuidar do recurso água, esquecendo as culturas alimentares e forrageiras de que o País tem carência, nas pequenas e médias explorações.

Oras, as preocupações com o Ambiente e com os processos ecológicos não são pertença de qualquer profissão específica, podem citar-se muitos exemplos de grandes personalidades envolvidas nestas matérias provindo das mais diversas formações científicas. Mas é forçoso reconhecer que em Portugal, onde as especializações por vezes estreitaram a visão global do Meio, coube aos arquitectos paisagistas, pela sua formação generalista e de síntese das Ciências da Terra e da Arte, a oportunidade de se destacarem na reflexão e definição da política de Conservação indispensável ao Ambiente tal como ao Ordenamento do Território, que entre nós se entendeu sempre como ordenamento paisagístico.

Sem esquecer outros participantes que se revelaram fundamentais para a definição e execução da política de ambiente - e não deixarei de citar pelo menos os Professor Delgado Domingos e Manuel Gomes Guerreiro e o engenheiro Carlos Pimenta – recaiu pois sobre os arquitectos paisagistas o grande papel fundacional dessa política, quer com Francisco Caldeira Cabral e logo com Gonçalo Ribeiro Telles que soube apoiar-se, entre muitos outros colegas, em António Viana Barreto e Ilídio Alves de Araújo, dois pilares inesquecíveis da política ambiental.

As Áreas Protegidas – Parques Naturais e Reservas Naturais - deixaram de ter a sua direcção e perderam a sua ligação com as populações locais; os planos de ordenamento não são cumpridos e a tragédia recente da Serra da Estrela é o último exemplo; já arderam áreas significativas pelo menos nos Parques Naturais do Alvão e da Serra d’Aire e Candeeiros; a Serra de Montemuro (1999), nunca viu o seu plano de ordenamento ser aprovado - agora é um vasto eucaliptal. Hoje Conservação e Ordenamento, os dois pilares do Ambiente, estão em tutelas diferentes - porquê? Porque dá jeito a alguém.

Suportada pela Lei de Bases do Ambiente (1987) durante décadas, a política de Ambiente permitiu ao país escapar a um pior desordenamento e a uma maior destruição dos equilíbrios dinâmicos, ecológicos e paisagísticos, até que surgiram uns sobredotados que resolveram inventar a pólvora e criaram o caos a que, se quisermos ser sérios, todos os cidadãos assistem impávidos e onde, quem aponta o dedo, é acusado de estar ultrapassado pela modernidade.

Cinquenta anos depois da Conferencia de Estocolmo que cada um faça o seu juízo!

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

O que é a hipótese de Gaia, que defende que a Terra 'está viva'



Ela foi considerada por mais de quatro décadas uma das teorias mais belas (e criticadas) da ecologia.

Na década de 1970, James Lovelock, um biólogo britânico, propôs uma hipótese que causou escândalo, admiração e suspeita em proporções iguais.

Ele disse que a Terra estava viva.

Lovelock, que trabalhava na época para a NASA (agência espacial dos EUA) e era considerado um cientista respeitável, não se embasava em crenças animistas.

Ele também foi controverso entre seus colegas cientistas ambientais e ativistas porque defendia a energia nuclear.

E embora tenha a chamado de hipótese de Gaia, referindo-se à deusa primordial da mitologia grega, ele embasava suas ideias em paradigmas científicos.

Com sua pesquisa, vislumbrou um sistema que refletia o equilíbrio (e a relação) entre os seres vivos e o resto do planeta.

A hipótese, que estudos posteriores transformaram em teoria, se tornou popular nas universidades do mundo todo e foi central para o entendimento sobre o impacto humano no clima.

E embora tenha sido questionada à exaustão, também consagrou seu principal teórico. Ele morreu em 26 de julho, no mesmo dia em que completou 103 anos.

Lovelock morreu aos 103 anos de idade

Considerado um dos biólogos mais importantes do século 20 no Reino Unido, Lovelock realizou também uma contribuição especial por seu descobrimento de que era possível medir a concentração atmosférica de clorofluorcarbonos, os compostos que eram usados para esfriar geladeiras e o ar-condicionado.

Isso levou ao descobrimento do buraco na camada de ozônio e à proibição dos clorofluorocarbonos em 1987.

Ele também criou um dispositivo ainda usado para medir a propagação de compostos tóxicos criados por humanos na natureza, o que cimentou suas teorias sobre a ação humana sobre o planeta.

No entanto, o que o deixou mais conhecido internacionalmente foi sua hipótese que começou a ver a vida na Terra como um sistema em que cada ser vivo tinha um papel: Gaia.

Da astronomia à ecologia

Lovelock baseou sua hipótese inicial em sua observação científica da atmosfera da Terra e de Marte.

Naquela época, nos anos 1960, ele trabalhava na equipe de exploração espacial da Nasa no Laboratório de Propulsão a Jato, em Pasadena, Califórnia.

Como especialista na composição química dos planetas, Lovelock se perguntou por que nossa atmosfera era tão estável.

Ele considerou que, diferentemente de Marte, algo deveria estar regulando o calor, o oxigênio, o nitrogênio e outros componentes essenciais.

"A vida na superfície é o que deve estar fazendo a regulação", escreveu com a microbióloga americana Lynn Margulis, que foi coautora em seu estudo sobre Gaia.


Lovelock e Margulis avaliaram que os organismos e seu entorno inorgânico na Terra estavam estreitamente integrados para formar um sistema complexo, único e autorregulado.

Isso era, por sua vez, o que mantinha as condições para o desenvolvimento da vida.

"O clima e a composição química do meio ambiente da superfície da Terra estão e têm estado regulados num estado estável para a biota (o conjunto dos organismos vivos)", dizia a pesquisa.

Lovelock trabalhou em sua hipótese inicial por anos e logo recuperou modelos e dados de outras ciências para tentar criar uma teoria.

Foi assim que desenvolveu o modelo chamado "Daisyworld" (sobre como crescem as margaridas num mundo imaginário), que serviu para ilustrar como pode funcionar Gaia.

Segundo a teoria, num planeta imaginário, similar em muitos aspectos à Terra, só crescem margaridas, com abundância de nutrientes e água.

Mas as margaridas brancas e negras competem por espaço.

Ainda que ambos os tipos de margaridas cresçam melhor à mesma temperatura, as margaridas negras absorvem mais calor que as brancas. Quando o sol brilha mais intensamente, aquecendo o planeta, as margaridas brancas se estendem, e o planeta esfria novamente.


Enquanto isso, quando diminui a luminosidade do sol, as margaridas se esticam, aquecendo o planeta.

Dessa maneira, as interações competitivas entre as margaridas proporcionam um mecanismo homeostático para o planeta em seu conjunto.

Em seu livro O futuro do clima mundial, Kendal McGuffie  e Ann Henderson-Sellers explicam que esse modelo ofereceu um "marco matemárico" inicial para compreender a autorregulação da vida na Terra e que tornou Gaia "a teoria ecológica mais ambiciosa baseada na auto-organização".

A fama da teoria fez com que, menos de uma década após ter sido exposta, cientistas do mundo todo tenham se reunido na Universidade de Massachusetts na Primeira Conferência sobre a Hipótese Gaia, cujo tema era: "A Terra é um organismo vivo?"

A hipótese, no entanto, não recebeu uma chancela universal no universo científico.

Muitos pesquisadores a questionaram, fazendo com que Lovelock fosse desenvolvendo novos experimentos e modificações na teoria ao longo dos anos.

Os principais críticos afirmam que a noção de que há um equilíbrio entre os organismos vai contra os princípios da seleção natural. Dizem ainda que a teoria tem um componente teleológico (concebe um fim ou uma meta: a continuação da vida).

Muitos cientistas consideram ainda que ela tem pouco embasamento ou está em desacordo com as evidências disponíveis, a tal ponto que o pesquisador Tyler Volk a classificou de "pensamento otimista".

Mas além dos argumentos favoráveis ou contrários à teoria, uma de suas inovações foi o lugar que ela deu aos humanos dentro desse sistema e como nos apresenta como uma das principais ameaças para o equilíbrio natural da Terra.

"Estamos jogando um jogo muito perigoso. Estamos interferindo diretamente nos principais mecanismos de regulação de Gaia", disse Lovelock à BBC em 2020.

"Minha razão principal para não me aposentar é que, como a maioria de vocês, estou profundamente preocupado com a probabilidade de uma mudança climática enormemente danosa e a necessidade de fazer algo a respeito agora", acrescentou.

Fonte: BBC (BR)

Ler mais: 

sexta-feira, 26 de julho de 2019

James Lovelock celebra seu centenário e 50 anos da Teoria de Gaia


Neste ano de 2019, celebra-se o centenário do nascimento de James Lovelock e sua Hipótese ou Teoria de Gaia cumpre meio século, pois foi descrita pela primeira vez em 1969 e publicada 10 anos depois, em 1979.

A Hipótese Gaia
James Lovelock ficou famoso por ser o primeiro em formular uma teoria científica na qual se aborda uma intuição profunda no pensamento humano: que o Planeta está vivo e que é um organismo complexo em si mesmo. Lovelock formulou esta hipótese, que na atualidade é uma teoria, enquanto trabalhava como consultor da Agência Espacial dos Estados Unidos, a NASA, na década de 60.

Nessa mesma época, a petrolífera Shell Oil o convidou como consultor para um programa cuja finalidade era imaginar como seria o mundo no ano 2000; enquanto a maioria dos expertos falava de veículos alimentados por energia obtida através da fusão e outras tecnologias futuristas, Lovelock previu que para o ano 2000 o grande problema seria ambiental e “estaria afetando o seu negócio”.

Ao esboçar sua hipótese, Lovelock definiu Gaia como “uma entidade complexa que inclui a biosfera, atmosfera, oceanos e terra, constituindo na sua totalidade um sistema retroalimentado que busca um entorno físico e químico propício para a vida no Planeta”.

Naquele momento, a Hipótese de Gaia gerou intensos debates na comunidade científica e filosófica pelas suas implicações sociais e inclusive metafísicas. Era uma nova “fronteira”. O nome de Gaia foi sugerido pelo seu amigo, o escritor e Prémio Nobel de Literatura de 1983, William Golding, autor de “O senhor das moscas”. O que ficou de Gaia meio século depois?

Num artigo publicado por The Guardian, Lovelock, diz que “43 anos depois, isso foi o que aconteceu”, destacando a sua autoria por se antecipar ao que está acontecendo no nosso Planeta. Segundo Decca Aitkenhead, jornalista do The Guardian, suas predições, emitidas desde um “laboratório de um só homem”, lhe garantiram um lugar como um dos cientistas britânicos independentes mais respeitados.

Trabalhando sozinho desde que tinha 40 anos, Lovelock inventou o detector de captura de eletrões, que permitiu detectar componentes tóxicos em regiões tão remotas como a Antártida e o crescente buraco na Camada de Ozono (o trabalho do químico mexicano Mario Molina, que o levou a conquistar o Prémio Nobel de Química em 1995, está inspirado em Lovelock).

No seu último livro, “The Revenge of Gaia” (A Vingança de Gaia), James Lovelock previu que o clima extremo seria a norma causando grande devastação. Também afirmou que no ano 2040 Europa se pareceria com o Saara e boa parte de Londres estaria sob a água. Estes cálculos são mais radicais do que os do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), mas não completamente distantes das suas estimativas.

Na opinião de Lovelock, houve sete desastres similares ao que está por acontecer desde que os humanos evoluíram. “Acredito que estes eventos continuam, separando o joio do trigo e, eventualmente, sim teremos um ser humano no Planeta que entenderá isso e viverá de forma apropriada. Essa é a fonte do meu otimismo”, disse.

Segundo ele, a evolução do nosso Planeta, não se comporta de uma maneira linear, mas sofre descontinuidades e grandes saltos no seu trajeto. A história da Terra e a dos modelos climáticos simples baseados na noção de um Planeta vivo e responsivo sugere que a mudança repentina e supressiva é mais possível do que a suave curva ascendente da temperatura que predizem a maioria dos modelos para os próximos 90 anos.

Na Teoria de Gaia, estabelece que a Terra é um superorganismo, composto por uma rede vivente que, através de sua interação configura o delicado equilíbrio da biosfera. O Planeta é um ser vivo possivelmente inteligente (sua inteligência é a evolução mesma); uma unidade da qual todas as formas de vida são parte, que se reproduz autorreferencialmente através da autopoiesis e se autorregula para se manter homeostática.

Ainda que a sua teoria fosse usada para firmar as crenças do New Age e as do “movimento verde”, Lovelock não acredita nas ações estilo “salvar o planeta deixando de usar sacolas de plástico”, ou coisas pelo estilo. Lovelock acredita que este tipo de coisas são uma fantasia e uma ilusão que nos fizeram acreditar para nos sentirmos melhor, mas não fazem diferença.

“É tarde demais. Talvez se tivéssemos tomado uma rota diferente em 1967, teria ajudado. Mas, não temos tempo. Estas coisas verdes, como o desenvolvimento sustentável, eu acredito que são apenas palavras que não significam nada. Muitas pessoas vêm até mim e me dizem que não posso dizer isso, porque faz que não tenham nada a fazer. Eu digo que, pelo contrário, nos dá uma imensa quantidade de coisas a fazer. Só que não do tipo de coisas que querem fazer”, disse respondendo a perguntas numa entrevista do The Guardian.

Há que dizer que James Lovelock é sumamente controvertido e que suas predições foram apoiadas pelo IPCC. Parece amar a polêmica. Não acredita que a energia renovável permita alimentar uma sociedade como a nossa. Em troca, prefere a energia nuclear.

Ele considera que, ao ter ultrapassado um ponto crítico, o aquecimento global fará com que boa parte do mundo seja inabitável e que desaparecerão até 80% dos seres humanos. O que fazer perante isso tudo? Lovelock diz sorridente: “Desfrutar da vida enquanto se pode. Porque se se tem sorte ainda ficam 20 anos antes que tudo se desmorone”.

A Teoria de Gaia se baseia na ideia de que a biosfera autorregula as condições do Planeta para fazer seu entorno físico (especialmente temperatura e química atmosférica) mais hospitaleiro para as espécies que conformam a “vida”. A Teoria de Gaia define esta “hospitalidade” como uma completa homeostase. Um modelo simples que se usa para ilustrar a Hipótese de Gaia é a simulação do mundo das margaridas.

De acordo com a Segunda Lei da Termodinâmica, um sistema fechado tende à máxima entropia. No caso do Planeta Terra, sua atmosfera deveria estar em equilíbrio químico, composta maioritariamente de CO2 (estimou-se que a atmosfera deveria se compor de, aproximadamente, 99% de CO2) apenas com vestígios de oxigênio e nitrogênio. Segundo a Teoria de Gaia, o fato de que hoje em dia a atmosfera se configure com 78% de nitrogênio, 21% de oxigênio e apenas 0,3% de dióxido de carbono se deve a que a vida, com sua atividade e sua reprodução, mantém estas condições que a fazem habitável para muitas formas de vida.

Antes da formulação da Hipótese Gaia se supunha que a Terra possuía as condições apropriadas para que a vida acontecesse nela; e que esta vida tinha se limitado a se adaptar às condições existentes, assim como as mudanças que se produziam nessas condições.

A Hipótese de Gaia propõe que dadas as condições iniciais que fizeram possível o início da vida no Planeta, teria sido a própria vida que foi se modificando e, portanto, as condições resultantes são consequência e responsabilidade da vida que a habita. Para explicar como a vida pode manter as condições químicas de Gaia, a bióloga Lynn Margulis co-criadora da Teoria de Gaia desde 1971 e autora de “The Symbiotic Planet”, destacou a grande capacidade dos microrganismos para transformar gases que contêm nitrogênio, enxofre e carbono.

A cosmovisão da Terra viva
Ainda que o conceito de uma Terra viva seja antigo, devemos a Newton a comparação do Planeta com um animal ou um vegetal. James Hutton, (1726-1797), considerado um dos precursores da Hipótese de Gaia, Aldous Huxley, Vladimir Vernadsky e Pierre Teilhard de Chardin expressaram pontos de vista similares, mas, ao carecer de dados quantitativos, essas ideias pioneiras ficaram na anedota ou em meras declarações.

Lovelock iria depurando a sua proposta. Em 1981 criou um modelo de plantas de cores escuras e claras que competiam num planeta com crescente irradiação de luz solar. Tratava de mostrar que a Hipótese de Gaia era coerente com a seleção natural.

Em 1986, o climatologista Robert Charlson, Lovelock, Meinrat Andreae e Steven Warren descobriram o nexo existente entre o gás biogênico dimetilsulfureto (produzido por algas oceânicas), sua oxidação na atmosfera para formar núcleos de condensação nebulosa e o efeito subsequente de criação das nuvens. Margulis, aportou ao modelo a função desempenhada pelos microrganismos que constituem a infraestrutura biológica da Terra. Se durante boa parte da história do Planeta ocuparam todos os espaços da biosfera, em nosso tempo resultam também vitais para uma regulação eficaz da mesma.

Com efeito, os microrganismos do solo são os responsáveis pela produção de gases que encontramos na atmosfera; o vapor de água, o dióxido de carbono e o amônio reduzem a perda de radiação da Terra ao espaço, graças a sua absorção infravermelha.

Estamos falando do Efeito Estufa, graças ao qual a atmosfera mantém o Planeta bastante mais quente do que estaria por si mesmo. Tudo indica que nos primeiros estágios da Terra o Efeito Estufa desempenhou uma missão principalíssima, que foi diminuindo conforme o Sol ia enviando mais calor. Mas, não percamos de vista que os gases decisivos do Efeito Estufa são produzidos pelos organismos.

Geofisiologia
Como o próprio Lovelock declarou em 1969 a Terra é um sistema auto-regulável capaz de manter o clima e a composição química confortável para os organismos. Essa hipótese – a Hipótese de Gaia, agora Teoria de Gaia – ainda deve ser provada. Uma crítica a essa teoria é a que se relaciona com a Teologia. “Esta acusação é injusta, pois nunca me propus atribuir-lhe um propósito ou uma visão do futuro. Seja correta ou não, é uma teoria comprovável e capaz de realizar predições “arriscadas”. Uma delas foi que deveria haver uma emissão de sulfato de dimetilo suficientemente grande desde os oceanos para equilibrar o pressuposto de sulfuro natural”.

“Uma confirmação preliminar veio de minhas próprias medições em 1972, e foi completamente confirmada por M. O. Andreae de forma independente. Mais tarde, considerando a predição por parte de Gaia da regulação do clima, Robert Charlson, Lovelock, Meinrat Andreae e Steven Warren postularam que a densidade das nuvens estava modulada pela abundância de sulfato de dimetilo na atmosfera, e que isso por sua vez mudava o albedo da Terra e a temperatura média da superfície”. “Esta proposta foi publicada como artigo na revista científica Nature em 1987 e ainda está a ser provada. A Teoria de Gaia também ofereceu uma interpretação da regulação em longo prazo do dióxido de carbono e o clima através da erosão biótica das rocas. Esta proposta foi confirmada por Schwartzman e Volk em 1989”.

A obra científica de James Lovelock
Lovelock é autor de quase 200 artigos científicos, distribuídos equitativamente entre temas de medicina, biologia, ciência instrumental e geofisiologia. Possui mais de 50 patentes, na sua maioria de detectores para uso em análises químicas. Um deles, o detector de captura de eletrões, foi importante para o desenvolvimento da consciência ambiental. Revelou pela primeira vez a distribuição ubíqua dos resíduos dos pesticidas e outros compostos químicos que contêm halogêneos.

Esta informação permitiu a Rachel Carson escrever seu livro “Primavera silenciosa” (considerado o iniciador da tomada de consciência ambiental. Mais tarde permitiu a descoberta da presença de PCB (Bifenilos policlorados) no meio ambiente. Mais recentemente, o detector de captura de eletrões permitiu descobrir a distribuição global de óxido nitroso e de clorofluorcarbonos, ambos importantes na química do ozônio estratosférico. Algumas dessas descobertas foram adotadas pela NASA nos seus programas de exploração interplanetária. A NASA lhe outorgou 3 certificados de reconhecimento .

James Lovelock fora de ser o criador da Hipótese de Gaia (agora chamada Teoria de Gaia) e escreveu outros quatro livros sobre esse tema: “Gaia: A New Look at Life on Earth – Gaia: Um Novo Olhar sobre a Vida na Terra” (1979); o segundo é “Ages of Gaia – As Eras de Gaia” (1988).

O terceiro é “Gaia: The Practical Science of Planetary Medicine – Gaia: una ciência para curar o planeta” (1991) e o quarto, “Homage to Gaia: The Life of an Independent Scientist – Homenagem a Gaia. A vida de um cientista independente” (2000). O principal interesse de Lovelock se focaliza nas Ciências da Vida. No início. através da pesquisa médica e, depois, em relação com a Geofisiologia, a ciência dos sistemas da Terra. Seu segundo âmbito de interesse, o do projeto e desenvolvimento de instrumentos, interagiu com o primeiro gerando benefício mútuo.

As conferências sobre a Hipótese de Gaia
As comunidades científicas de Ciências da Terra, Ciências da Vida e de Filosofia da Biologia debateram nestes 50 anos os diversos aspectos da Hipótese de Gaia. São muitos os aspectos problemáticos de uma cosmovisão tão interdisciplinar como esta. No ano 1985 celebrou-se na Universidade de Massachusetts a Primeira Conferência sobre a Hipótese de Gaia, sob o título: “A Terra é um organismo vivo?” Três anos mais tarde, em 1988 o climatólogo estadunidiano Stephen Schneider organizou a Segunda Conferência de Gaia, onde James Kirchner criticou a Hipótese de Gaia pela sua imprecisão e afirmou que Lovelock e Margulis não tinham apresentado uma Hipótese de Gaia, mas quatro:

– Gaia Co-evolucionária: a hipótese afirma que a vida e o ambiente evoluíram de forma vinculada. Kirchner afirmou que esta ideia já era aceita cientificamente e não era novidade.

– Gaia Homeostática: afirma que a vida mantém a estabilidade do entorno natural, o que permite que a vida possa continuar existindo. Esta hipótese pode-se dividir em Gaia Débil e Gaia Forte, como se indica a seguir.

– Gaia Geofísica: a Hipótese de Gaia gerou interesse pelos ciclos geofísicos, dando lugar a uma nova pesquisa interessante na dinâmica geofísica terrestre.

– Gaia Optimizada: Gaia deu forma ao Planeta de uma forma que fez um ambiente propício para a vida no seu conjunto. Kirchner afirmou que isto não era comprovável e, portanto, não era científico.

Segundo Kirchner, pode-se dividir a Hipótese original (Gaia Homeostática) numa série de hipóteses, desde a inegável Gaia Débil, até a radical e, em sua opinião, não comprovável, Gaia Forte.

Desta forma, numa Gaia Débil, a própria biosfera atuaria como um sistema auto-organizado que mantém um meta-equilíbrio permitindo a vida. Porém uma Gaia Forte incluiria a biosfera, a atmosfera, os oceanos e a terra, dentro de um sistema retroalimentado para conseguir um entorno físico e químico adequado à vida em seu conjunto no Planeta onde os organismos se reproduzem, controlam e adaptam baseando-se nas mudanças ecológicas que o sistema vai sofrendo de acordo com sua evolução.

Outras Conferências
A Terceira Conferência de Gaia (que é a Segunda Conferência Chapman sobre a Hipótese de Gaia) teve lugar em Valência, Espanha, em Junho de 2000, e foi organizada pela Universidade de Valência e a American Geophysical Union. Nessa ocasião a atenção se centralizou nos mecanismos específicos pelos quais a homeostase básica de curto prazo da Terra pode-se manter no âmbito das mudanças estruturais.

Em Outubro de 2006 celebrou-se no campus da Universidade George Mason em Arlington, Virgínia (EUA), una Quarta Conferência Internacional sobre a Hipótese de Gaia. Nessa conferência se abordou a Hipótese de Gaia como ciência e como metáfora, buscando um elemento para entender de que forma poderíamos começar a solucionar os problemas do Século 21, tais como o aquecimento global e a destruição do meio ambiente.

Num artigo na Investigación y Ciencia (versão espanhola da revista Scientific American), [“Gaia, Asentamiento de una teoría controvertida”, 2015], seu autor, Luis Alonso, comentou um ensaio de Michael Ruse [The Gaia hipothesis: Science on a pagan planet – The University of Chicago Press, Chicago, 2013]. Meses depois da publicação do livro de Michael Ruse, James Lovelock publicava o que se considera como o último capítulo de uma série de trabalhos em torno à mesma: A rough ride to the future: The next evolution of Gaia.

Os fundamentos científicos e epistemológicos da ideia de Gaia, lançada em 1969, se mantêm. Estabelecem que a Terra é um sistema autorregulado: organismos e entorno físico evolucionam de forma conjunta e mutuamente retroalimentados. Os organismos regulam a atmosfera no seu próprio interesse. Há um acordo de que se trata de uma metáfora, pois a Terra não é nenhum sistema vivo, mas se comporta como se fosse, no sentido de que mantém constantes a temperatura e a composição química face às perturbações, esclarece Lovelock.

As críticas à Hipótese de Gaia
James Lovelock nunca disse que Gaia, a Terra, era um ser pensante, nem que tinha consciência, mas, apesar disso, suas ideias foram perseguidas e ridiculizadas ferozmente pelos cientistas durante muito tempo, até que, a partir dos anos noventa, começaram a ser aceites de forma mais ampla.

As críticas mais duras procedem do campo do darwinismo radical. Assim, Richard Dawkins [Dawkins, Richard (1982). “The Extended Phenotype: the Long Reach of the Gene”. Oxford University Press], Stephen Jay Gould [Gould S. J. June 1997. “Kropotkin was no crackpot”. Natural History. 106: 12–21].e Ford Doolittle [Doolittle, W. F. (1981). “Is Nature Really Motherly”. The Coevolution Quarterly. Spring: 58–63] nos anos oitenta e noventa, criticaram duramente a hipótese de Lovelock.

Num tom mais moderado se manifestou a bióloga Lynn Margulis considerada como a mãe de Gaia. Sua principal contribuição científica radica na chamada Teoria da Endossimbiose Sequencial a qual explica, entre outros dados, a presença de mitocôndrias ou cloroplastos nas células eucariotas (de animais e plantas) como resultado da fusão de duas bactérias que teriam obtido um benefício mútuo; a existência de organelas ou organoides, que compõem as células eucariontes tenha surgido como consequência duma associação simbiótica estável entre organismos em determinadas formas celulares; ou a presença de motilidade (movimentos intracelulares) em células evolucionadas. Isto é, que os caracteres dos organismos pluricelulares são produto da incorporação simbiótica e em muitas ocasiões de bactérias que antes tinham uma vida livre.

Margulis também colaborou com James Lovelock no desenvolvimento da Teoria de Gaia. Diferentemente de Lovelock, Lynn Margulis não acreditava que a Terra fosse um único e gigantesco “superorganismo”.

Segundo ela, Lovelock dizia isso “porque acreditava que se as pessoas pensassem no Planeta como se fosse um ser vivo, o cuidariam mais. Eu não acredito nisso. Pode-se dizer que Gaia é um ecossistema muito complexo, mas não um organismo”.

Lovelock é polêmico por suas controvertidas declarações em favor da energia nuclear, mesmo sendo considerado um dos pais da ecologia moderna, e suas críticas em relação à maioria dos ecologistas, considerando que eles “não só desconhecem a ciência, mas que, além disso, a odeiam”. Seu apoio à energia nuclear o converteu no alvo das críticas de muitos dos seus colegas. Numa entrevista virtual realizada pelo jornal espanhol El País foi preguntado ao cientista se levava em consideração as emissões de dióxido de carbono (CO2 ))produzidas pela mineração e processamento do urânio, e na construção/demolição das centrais nucleares e seus cemitérios.

Lovelock respondeu radicalmente: “A energia produzida por um quilo de material nuclear equivale à energia produzida por um milhão de quilos de carvão. Portanto, as emissões de CO2 produzidas na extração do urânio é um milhão de vezes menor do que aquela necessária para extrair carvão”.

James Lovelock defende que a energia nuclear é uma das formas com as quais pode se ajudar a frear o aquecimento global, posto que possa aliviar o enorme consumo de energia da atualidade sem prejudicar a atmosfera e, além disso, é muito rentável.

Implicações filosóficas e teológicas da Hipótese de Gaia
Do ponto de vista filosófico e teológico, a Hipótese Gaia foi etiquetada como uma religião neo-pagã. Qualquer um que tenha estudado o movimento verde global, sem nenhuma dúvida ouviu falar de Gaia. Os crentes de Gaia, ou “gaianos“, como se referem frequentemente a si mesmos, afirmam que a Terra é um ser vivente, um antigo espírito da deusa, merecedor de adoração e reverência.

Na opinião destes autores, James Lovelock, no seu libro “Gaia: A New Look at Life on Earth – Gaia: um novo olhar sobre a vida na Terra”, afirma que “todas as formas de vida neste Planeta são parte de Gaia – parte de uma deusa do espírito que sustenta a vida na Terra. A partir desta transformação num sistema vivo, as intervenções de Gaia trouxeram com ela a diversidade na evolução das criaturas viventes no Planeta Terra”. Os gaianos ensinam que a “Deusa da Terra”, ou a Mãe Terra, deve ser protegida da atividade humana destrutiva. É essa crença que alimenta o movimento ambientalista, o desenvolvimento sustentável e um impulso global pela mudança nas nações industrializadas por uma forma de vida mais primitiva.

Os gaianos afirmam que “somos parte da natureza e a natureza é parte de nós, portanto, Deus é parte de nós e está em todas as partes, tudo é Deus”. Na realidade Gaia é um renascimento da “deusa da Terra” que se encontra em muitas religiões pagãs antigas. O atual culto a Gaia é uma astuta mistura de ciência, paganismo, misticismo oriental e wicca.

A Teoria de Gaia encontrou sua maior ressonância no movimento New Age que ficou fascinado pelo lado místico de Gaia. Eles acharam fácil conceber que os seres humanos podem ter uma relação espiritual com Gaia. Uma conexão com a natureza e a crença de que os seres humanos são uma parte dessa consciência coletiva chamada Gaia apela fortemente à sua cosmovisão.

Uma simples busca no Google sobre a Gaia pagã revelará milhares de organizações orgulhosamente se proclamando a si mesmas, literalmente, sacerdotes pagãos e discípulos da grande Deusa Gaia. Há dezenas de grupos de Gaia na maioria das cidades importantes. A Wicca, que se diz que é a religião de mais rápido crescimento nos Estados Unidos, está intimamente relacionada com a adoração a Gaia. Com efeito, muitos gaianos se chamam de bruxas e bruxos.

O movimento feminista também acolheu calorosamente o conceito de uma Deusa Gaia. Para muitos desses defensores, uma parte integral da adoração da Deusa é seu tema predominante em declarações anti-masculinas. Nessa visão filosófica do mundo, posto que o culto à Deusa é bom então, por necessidade, qualquer uso da terminologia masculina em referência a Deus ou qualquer prominência dos homens na cultura ou na sociedade é geralmente desalentado.

De um ponto de vista filosófico, aquele de que a Terra era um planeta vivo, uma ideia de muito longa história no pensamento ocidental, na realidade desde a origem da reflexão científica na Jônia mediterrânea se relaciona com a teleologia ou finalidade do cosmos e seu conteúdo. Platão percebeu uma forma de desenho num mundo que distava muito de um caos que se movimentasse sem nenhuma razão, cego.

A complexidade manifesta não podia ser fruto do acaso, senão que devia subjazer em todo um sentido e uma finalidade. As coisas têm uma explicação finalista, imposta desde o exterior, pelo demiurgo que a planejou. A finalidade convergia com o bem do objeto ou do processo, expõe Platão no “Timeu” onde especula sobre a natureza do mundo físico e os seres humanos. Já Aristóteles, seu discípulo, da um passo adiante e implanta a finalidade no próprio objeto ou organismo. Os animais, por exemplo, carentes de razão, atuam por um fim, que é o que lhes foi conferido pela sua própria natureza.

Lovelock diferenciou entre causas próximas (o escultor que cinzela a figura e vai eliminando partes do mármore) e o propósito ou finalidade que guia o escultor na talha: a criação da figura. Por um imperativo da natureza e com um propósito, a andorinha constrói o ninho e a aranha tece sua rede, as plantas dão frutos e afundam suas raízes no solo em busca de nutrientes. Com a revolução científica, começou-se a separar com nitidez o trabalho do cientista focado no mecanismo, e não na tarefa do filósofo ocupado no por quê.

Sobre James Lovelock
Lovelock graduou-se como químico na Universidade de Manchester em 1941 e em 1948 obteve o doutorado em Medicina na Faculdade de Higiene e Medicina Tropical de Londres. Em 1959 recebeu o título de Doctor of Science em Biofísica na Universidade de Londres. Depois trabalhou no Conselho de Pesquisa Médica do Instituto Nacional de Pesquisa Médica de Londres por cinco anos, de 1946 a 1951, na Unidade de Pesquisa do Resfriado Comum do Hospital Harvard de Salisbury (Wiltshire, Reino Unido).

No ano 1974, James Lovelock foi eleito membro da Royal Society, a Academia das Ciências do Reino Unido e em 1975 recebeu a medalha Tswett de Cromatografia. Anteriormente recebeu um prêmio da Fundação CIBA por sua pesquisa sobre o envelhecimento. Em 1980 recebeu o Prêmio em Cromatografia da Sociedade Americana de Química e em 1986 obteve a Medalha de Prata e o Prêmio do Laboratório Marinho de Plymouth.

Em 1988 foi um dos destinatários do Prêmio Norbert Gerbierde da Organização Meteorológica Mundial e em 1990 foi lhe concedido o primeiro Prêmio Amsterdam pelo Meio Ambiente da Real Academia de Artes e Ciências dos Países Baixos. A relevante contribuição à ciência dada através da sua hipótese lhe valeu a prestigiada Medalha Wollaston da Sociedade Geológica de Londres.

Em 1996 recebeu tanto o Prêmio Nonino quanto o Prêmio Volvo Environment. Em 1997 recebeu o Prêmio Blue Planet do Japão. Foi nomeado Doutor Honoris Causa pelas Universidades East Anglia (1982), Exeter (1988), Politécnica de Plymouth – atualmente Universidade de Plymouth – (1988), a Universidade de Estocolmo (1991), Edimburgo (1993), Kent, East London (1996) e a Universidade de Colorado (1997). A Rainha Elizabeth II o sagrou Comandante da Excelentíssima Ordem do Império Britânico em 1990.

Em 1954 James Lovelock recebeu uma bolsa para medicina da Fundação Rockefeller, na Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard, em Boston. Em 1958 foi professor visitante na Universidade de Yale durante um período similar. Em 1961 renunciou ao seu cargo no Instituto Nacional de Pesquisa Médica de Londres para trabalhar em tempo integral como professor de química na Faculdade de Medicina da Universidade de Baylor em Houston (Texas) onde permaneceu até 1964.

Durante sua permanência nos EUA colaborou junto com outros colegas no Jet Propulsion Laboratory da NASA em Pasadena, Califórnia, em pesquisa lunar e planetária. Desde 1964 é cientista independente, mas manteve associações acadêmicas honorárias como professor visitante, primeiro na Universidade de Houston e depois na Universidade de Reading. Desde 1982 colaborou na Associação de Biologia Marinha de Plymouth, primeiro como membro do Conselho, e entre 1986 e 1990, como presidente.