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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Sem mais ambição, o Plano de Restauro da Natureza arrisca falhar a recuperação da biodiversidade



Na consulta pública do Plano Nacional de Restauro da Natureza, deixámos um alerta claro: tal como está, o plano não garante que a natureza em Portugal recupere ao ritmo e à escala de que precisa.

“O Plano Nacional de Restauro da Natureza é uma oportunidade única para travarmos a perda da biodiversidade em Portugal. Este é o momento para decidir se queremos apenas cumprir metas no papel ou recuperar verdadeiramente a natureza”, diz Joana Andrade, coordenadora do nosso Departamento de Conservação Marinha.

Na nossa participação na consulta pública que terminou a semana passada, reconhecemos o esforço feito para integrar diagnósticos, estratégias e medidas num único plano, mas consideramos que a versão final tem de ir mais longe. Restaurar a natureza não pode significar apenas contar hectares: é necessário avaliar se as espécies e ecossistemas estão efetivamente a recuperar. É necessário restaurar a conectividade, e não criar “ilhas” de natureza isolada.

Recompor números não chega, é preciso recuperar a vida selvagem
Sublinhamos a necessidade de reforçar a integração da biodiversidade e das espécies nos objetivos, metas e indicadores do plano, defendendo que aves e outros grupos devem ser utilizados como indicadores da eficácia do restauro. Sem isso, alerta, corre-se o risco de investir em medidas que não se traduzem em melhorias reais no estado da natureza.

Sublinhamos também a importância de olhar para os ecossistemas como um todo ligado: florestas, zonas húmidas, áreas agrícolas, mar e cidades estão interligados, tal como as espécies que deles dependem ao longo do seu ciclo de vida.

Outra falha preocupante é a resposta ainda insuficiente e fragmentada a pressões crescentes como a poluição luminosa, apesar dos seus impactos nas aves marinhas e noutros grupos - uma ameaça silenciosa, mas cada vez mais evidente.

O restauro deve chegar às cidades e aos edifícios
A natureza não está apenas nas áreas protegidas - está também onde vivemos. Defendemos que o Plano Nacional de Restauro da Natureza deve entender o ecossistema urbano como um contínuo, promovendo a biodiversidade não só nos espaços verdes, mas também nos espaços edificados. Isso implica proteger e criar condições para a nidificação de aves nos edifícios, restaurar vegetação em avenidas, reduzir a impermeabilização dos solos e adotar soluções que minimizem os impactos da urbanização, evitando que a biodiversidade fique confinada a pequenas ilhas verdes numa selva de asfalto.

Entre as propostas da organização estão a criação e proteção de locais de nidificação, instalação de caixas-ninho e outras estruturas em edifícios, prevenção de colisões com superfícies transparentes ou espelhadas e o reforço da conectividade ecológica nas cidades. Estas soluções mostram que todos podem fazer parte da recuperação da natureza, e que o plano não diz respeito apenas a grandes áreas naturais, mas também às nossas ruas, bairros e casas.

Sem financiamento estável, não há restauro duradouro
Alertamos que o plano assenta em bases financeiras frágeis e pouco claras. Falta ligar, de forma transparente, as medidas propostas aos custos reais e às fontes de financiamento, bem como garantir recursos nacionais estáveis e de longo prazo.

“Restaurar não é plantar hoje e esquecer amanhã”, frisa Joana Andrade. “Sem financiamento para manter, monitorizar e adaptar as medidas ao longo do tempo, os resultados dificilmente serão duradouros.”

Sublinhamos ainda que o financiamento deve ser alinhado com as metas reais do plano, partindo do custo efetivo das medidas em vez de contabilizar fundos já existentes, e defende que o investimento privado só pode ser aceite com garantias rigorosas de transparência e ausência de greenwashing, incluindo um registo público de projetos e resultados. Alertamos também para a necessidade de rever os subsídios públicos que continuam a prejudicar a biodiversidade e de usar a Avaliação Ambiental Estratégica como ferramenta para testar a coerência global do plano e assegurar ganhos ecológicos efetivos.

Sem medir bem, não se sabe se está a resultar
Outro ponto crítico é a monitorização. Defendemos sistemas robustos, com indicadores biológicos que permitam perceber se a natureza está efetivamente a recuperar.

Programas de ciência-cidadã, como o Censo de Aves Comuns, são essenciais para esse acompanhamento, mas precisam de financiamento estável e reconhecimento institucional para continuar a produzir dados de longo prazo.

Restauro faz-se com pessoas, no terreno
Destacamos ainda que o sucesso do plano depende da participação ativa de proprietários, agricultores, comunidades locais e organizações da sociedade civil.

Modelos como a custódia do território - baseados em acordos voluntários e colaboração de longo prazo - são apontados como ferramentas-chave para garantir que as medidas saem do papel e chegam ao terreno, mantendo-se no tempo.

Ilhas e mar não podem ficar para trás
Alertamos também para lacunas importantes no que toca às Regiões Autónomas e aos ecossistemas marinhos, onde continuam a faltar medidas claras para proteger espécies e responder a pressões específicas. A aplicação uniforme de indicadores nacionais ignora a existência de realidades ecológicas distintas nas ilhas, o que compromete a eficácia do plano. Mesmo quando não sejam considerados no reporte europeu, devem ser adotados indicadores regionais que permitam avaliar adequadamente a recuperação da biodiversidade nos Açores e na Madeira.

Uma oportunidade decisiva para a natureza em Portugal
O Plano Nacional de Restauro da Natureza é uma oportunidade única de inverter décadas de degradação ambiental - oportunidade que a formulação atual do plano não está a aproveitar.

“Sem mais ambição, melhor financiamento e uma implementação eficaz, baseada na ciência e na participação, Portugal arrisca perder uma oportunidade que pode não voltar tão cedo”, conclui Joana Andrade.

Mais informação

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Refúgios climáticos: a solução que pode tornar as cidades mais resilientes às ondas de calor


As ondas de calor têm-se tornado mais frequentes, mais intensas e mais prolongadas, afetando sobretudo quem vive nas cidades. Ruas asfaltadas, edifícios de betão, falta de árvores e escassez de zonas de sombra criam o chamado efeito de ilha de calor urbana, fazendo com que a temperatura nas cidades seja significativamente superior à das áreas envolventes.

Nos últimos anos têm surgido várias iniciativas para responder a este desafio. Em Portugal, por exemplo, foi recentemente apresentado o Pro Nat.Urbe, um programa que pretende investir na criação de mais espaços verdes, corredores ecológicos e redes de conforto climático para tornar as cidades mais resilientes.

Agora surge uma nova medida complementar. O Turismo de Portugal lançou a Rede de Refúgios Climáticos | Stay Cool, integrada na Agenda para a Ação Climática no Turismo 2030, que pretende criar uma rede nacional de espaços preparados para proteger residentes e visitantes durante períodos de calor extremo.

Mas afinal, o que são refúgios climáticos? E porque poderão tornar-se tão importantes como os parques urbanos ou as bibliotecas?
O que são refúgios climáticos?

Os refúgios climáticos são espaços gratuitos onde qualquer pessoa pode encontrar conforto térmico durante uma vaga de calor.

Podem ser espaços interiores, como bibliotecas, museus, centros comerciais, equipamentos culturais, igrejas ou edifícios públicos climatizados, mas também espaços exteriores desde que ofereçam sombra, vegetação e condições adequadas de descanso.

Para integrarem a rede devem disponibilizar, sempre que possível:
  • sombra natural ou artificial;
  • vegetação;
  • água potável;
  • zonas de descanso;
  • instalações sanitárias;
  • boa ventilação ou climatização;
  • acessibilidade para pessoas com mobilidade reduzida;
  • informação sobre proteção durante ondas de calor.

O objetivo é simples: permitir que qualquer pessoa possa encontrar rapidamente um local seguro para recuperar do calor intenso.

Os grupos mais vulneráveis incluem idosos, crianças, pessoas com doenças crónicas, trabalhadores expostos ao exterior e famílias que vivem em habitações sem condições adequadas de isolamento térmico.

Em Portugal, muitas casas permanecem demasiado quentes durante o verão devido à pobreza energética, tornando os refúgios climáticos uma extensão do próprio espaço habitacional durante os dias mais extremos.

Barcelona tornou-se uma referência mundial
Uma das cidades que mais tem investido nesta estratégia é Barcelona.

A cidade iniciou a sua rede em 2020 com cerca de 70 espaços e atualmente disponibiliza centenas de refúgios climáticos distribuídos por praticamente todos os bairros. O objetivo é que todos os residentes tenham um refúgio a menos de cinco minutos a pé de casa.

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, um refúgio climático não é apenas um edifício com ar condicionado.

Barcelona definiu critérios rigorosos para estes espaços, incluindo temperatura adequada, acesso gratuito, água potável, casas de banho e zonas para descansar. Nos espaços exteriores, exige igualmente sombra e áreas verdes.

A cidade utiliza bibliotecas, escolas, museus, centros cívicos, mercados e parques urbanos, todos identificados através de sinalização própria e integrados num mapa digital acessível aos cidadãos.

Lisboa também começa a dar passos

Em Portugal, Lisboa tem vindo igualmente a desenvolver soluções.

Além de vários jardins, bibliotecas, museus e equipamentos culturais que funcionam como locais de abrigo durante episódios de calor extremo, foram criados mapas que identificam estes espaços, permitindo aos cidadãos encontrar rapidamente um local para descansar e refrescar-se.

Investigadores portugueses têm também desenvolvido ferramentas que ajudam a identificar as zonas da cidade mais vulneráveis ao calor, cruzando informação como:
  • intensidade da ilha de calor urbana;
  • densidade populacional;
  • distância a parques e jardins;
  • existência de árvores;
  • proximidade de bibliotecas e outros equipamentos públicos.
Esta análise permite priorizar os locais onde novos refúgios climáticos poderão ter maior impacto.

Adaptar a cidade, não apenas criar edifícios frescos
Os especialistas defendem que os refúgios climáticos são apenas uma parte da solução.
O verdadeiro desafio passa por transformar as cidades para que estas sejam naturalmente mais frescas.

Algumas das medidas mais eficazes incluem:
  • plantar mais árvores nas ruas;
  • criar corredores verdes;
  • instalar estruturas de sombra temporárias ou permanentes;
  • substituir superfícies impermeáveis por materiais mais permeáveis;
  • aumentar as zonas com água, como fontes e espelhos de água;
  • reduzir áreas asfaltadas;
  • criar microflorestas urbanas;
  • instalar bebedouros públicos;
  • preservar corredores naturais de ventilação;
  • diminuir o tráfego automóvel, reduzindo o chamado calor antropogénico.
Mesmo pequenas intervenções podem fazer diferença. Em Lisboa, por exemplo, projetos experimentais recorreram a estruturas têxteis para criar sombra em espaços onde a plantação de árvores não era possível, demonstrando que soluções simples podem melhorar significativamente o conforto térmico.

Os mapas podem salvar vidas
À medida que as ondas de calor se tornam mais frequentes, os mapas digitais assumem um papel cada vez mais importante.

Saber onde existe um refúgio climático próximo pode ser tão importante como localizar um hospital ou uma farmácia.

Aplicações móveis, sistemas de informação geográfica e plataformas de turismo podem integrar estes locais, permitindo aos utilizadores encontrar rapidamente um espaço fresco, verificar horários de funcionamento e receber indicações através da geolocalização.

A informação torna-se assim uma ferramenta de proteção da saúde pública.

Um investimento na adaptação ao calor extremo
Durante décadas, o planeamento urbano privilegiou o automóvel, o betão e a impermeabilização do solo. Hoje, as prioridades começam a mudar.

Criar cidades mais resilientes passa por aumentar a sombra, reforçar os espaços verdes, recuperar zonas de água e garantir que todos têm acesso a locais seguros durante as ondas de calor.

Os refúgios climáticos representam uma resposta concreta, relativamente simples e de rápida implementação, que pode proteger milhares de pessoas enquanto as cidades se adaptam aos períodos de calor extremo.

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sexta-feira, 31 de julho de 2026

As estratégias das plantas: o arsenal invisível de defesa

Saiba como as plantas são capazes de se defender de ataques de animais, da seca e da competição com outras plantas neste novo artigo da série botânica dedicada às extraordinárias estratégias das plantas, em Portugal e no mundo.

Ao longo de milhões de anos de evolução, as plantas desenvolveram estratégias únicas de defesa para enfrentar a seca, temperaturas extremas e solos pobres, além do ataque de herbívoros, microrganismos e até de outras plantas.

Desde espinhos afiados até venenos letais, passando por redes subterrâneas de comunicação e técnicas de engano, o arsenal invisível das plantas revela uma impressionante capacidade de adaptação ao ambiente. E o mais surpreendente? Muitas destas defesas são ativadas apenas quando necessário, garantindo uma resposta altamente eficiente e ajustada às circunstâncias.

Defesas físicas: a primeira linha de proteção
A defesa mais evidente das plantas encontra-se nas suas estruturas físicas, verdadeiros escudos naturais contra predadores e condições adversas. Estas adaptações ajudam a conservar água, a reduzir danos causados por herbívoros e a minimizar a entrada de microrganismos prejudiciais.

Por exemplo, plantas como a silva (Rubus ulmifolius), o pilriteiro (Crataegus monogyna), a roseira-brava (Rosa sempervirens), a salsaparrilha (Smilax aspera) e o abrunheiro-bravo (Prunus spinosa), têm espinhos ou acúleos que dificultam a predação e causam desconforto aos herbívoros.

Além disso, algumas plantas possuem tricomas – estruturas semelhantes a pêlos que cobrem folhas e os caules – com funções como a redução da perda de água, a criação de barreiras físicas para dificultar a movimentação de insetos.

As urtigas (Urtica dioica), por exemplo, libertam substâncias irritantes ao contacto, enquanto o alecrim (Salvia rosmarinus) e a esteva (Cistus ladanifer) têm tricomas glandulares que emitem compostos aromáticos capazes de afastar os insetos.

Para enfrentar a seca e a exposição solar intensa, muitas espécies protegem-se através de cutículas cerosas que cobrem as folhas, como acontece com a esteva (Cistus ladanifer), o medronheiro (Arbutus unedo), a azinheira (Quercus rotundifolia) e o sobreiro (Quercus suber), cujas folhas coriáceas com cutículas espessas reduzem a desidratação e dificultam a entrada de microrganismos prejudiciais, como os fungos e bactérias.

Certas plantas têm folhas modificadas que reforçam a sua defesa. As folhas em forma de agulha, como as do pinheiro-bravo (Pinus pinaster), do pinheiro-silvestre (Pinus sylvestris) e do pinheiro-manso (Pinus pinea), ajudam a conservar água em ambientes secos. A forma reduzida e a cutícula espessa destas folhas minimizam a superfície exposta ao ambiente, diminuindo a perda de água por evaporação e transpiração.

Outras plantas possuem catafilos – folhas modificadas para proteger os gomos contra condições adversas. É o caso de árvores como a cerejeira-brava (Prunus avium), a aveleira (Corylus avellana) e o castanheiro (Castanea sativa), cujos catafilos envolvem os gomos, protegendo-os do frio e da desidratação. Em plantas bolbosas como a campainha-amarela (Narcissus bulbocodium) e a cebola-albarrã (Drimia maritima), os catafilos desempenham um papel semelhante, envolvendo os órgãos subterrâneos para reduzir a perda de água e assegurar a sobrevivência em períodos de seca.

Já as trepadeiras, como a ervilhaca-comum (Vicia sativa) e a salsaparrilha (Smilax aspera), têm gavinhas foliares que se enrolam em ramos, caules ou outras estruturas, garantindo estabilidade à planta enquanto ela cresce em direção à luz e reduzindo o risco de danos mecânicos causados pelo vento ou pelo seu próprio peso.

A gilbardeira (Ruscus aculeatus) apresenta cladódios, que são caules modificados semelhantes a folhas, que desempenham a função fotossintética. Rígidos e com um espinho terminal, contribuem para a proteção da planta. As verdadeiras folhas da gilbardeira estão reduzidas a pequenas escamas membranáceas localizadas nas axilas dos cladódios.

As cascas espessas de algumas árvores também protegem contra predadores e condições extremas, como incêndios e temperaturas elevadas. A cortiça do sobreiro (Quercus suber), por exemplo, atua como barreira térmica e protege os tecidos internos da planta contra o fogo.

Por fim, algumas plantas desenvolveram adaptações especializadas. As orvalhinhas (Drosera sp.) têm folhas modificadas em forma de armadilhas para capturar insetos, complementando as suas necessidades nutricionais em solos pobres.

Defesas químicas: um laboratório natural de toxinas
Quando as defesas físicas não são suficientes, as plantas recorrem a compostos químicos, verdadeiros “laboratórios naturais” que atuam como defesa direta ou indireta contra predadores. Algumas produzem substâncias tóxicas que podem ser fatais para herbívoros, enquanto outras libertam compostos que atraem aliados naturais para combater os seus inimigos. 

O teixo (Taxus baccata) sintetiza taxanos, substâncias altamente tóxicas para muitos animais e até para humanos. O trovisco (Daphne gnidium), por sua vez, contém diterpenos e cumarinas, compostos irritantes e tóxicos que desencorajam herbívoros. O azevinho (Ilex aquifolium) produz saponinas, compostos amargos que tornam as suas folhas e frutos tóxicos e de difícil digestão, afastando predadores. O sabugueiro (Sambucus nigra) também utiliza glicosídeos cianogénicos, que podem libertar cianeto, tornando as suas folhas e frutos verdes potencialmente tóxicos para herbívoros.

Algumas plantas ajustam a produção de substâncias químicas em resposta ao ataque. O carvalho-negral (Quercus pyrenaica), por exemplo, aumenta a concentração de taninos nas folhas quando estas são atacadas, tornando-as menos apetecíveis. Já a morganheira-das-praias (Euphorbia paralias) excreta um látex branco e leitoso, que é altamente irritante para a pele e mucosas.

Outras plantas utilizam estratégias químicas mais subtis. O aipo (Apium graveolens), por exemplo, emite feromonas que atraem predadores naturais dos seus inimigos. O tomilho (Thymus sp.) exala substâncias repelentes que podem afastar herbívoros. Da mesma forma, o rosmaninho (Lavandula stoechas) e o funcho (Foeniculum vulgare) produzem compostos aromáticos que atraem polinizadores, ao mesmo tempo que atuam como repelentes naturais contra insetos nocivos.

Curiosamente, muitas das substâncias que as plantas produzem para se defenderem têm também aplicações medicinais. Os taxanos do teixo, por exemplo, são usados no tratamento do cancro, os compostos do sabugueiro possuem propriedades antivirais e os taninos de várias espécies são valorizados pelas suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Assim, as estratégias de defesa das plantas acabam também por nos proteger.

Defesas comportamentais: enganando predadores
Algumas plantas adotam estratégias comportamentais para escapar de ataques. Embora não se movam de forma ativa como os animais, as plantas têm maneiras engenhosas de manipular os seus predadores.

Uma das estratégias mais fascinantes é o movimento. Algumas plantas, como a dormideira (Mimosa pudica), originária do continente americano, fecham as suas folhas ao menor toque, confundindo e afastando os herbívoros que tentam alimentar-se delas.

Outra estratégia é o disfarce. Muitas plantas imitam o ambiente ao seu redor, seja através da forma, da cor ou da textura, para passar despercebidas pelos herbívoros. A fritilária (Fritillaria lusitanica), por exemplo, possui flores pendentes com cores e padrões que se confundem com a vegetação rasteira e o solo calcário onde cresce, passando despercebida por herbívoros.

De forma semelhante, a serrátula-do-algarve (Klasea algarbiensis) possui folhas basais avermelhadas que se integram visualmente no solo rochoso e arenoso, dificultando a sua deteção.

A erva-abelhão (Ophrys tenthredinifera), por sua vez, utiliza o mimetismo para atrair polinizadores: as suas flores imitam insetos específicos, o que beneficia a reprodução da planta e também pode confundir herbívoros ocasionais, fazendo-os pensar que as flores são insetos perigosos ou pouco apetecíveis.

Além disso, outras plantas podem descartar algumas partes mais frágeis, como folhas ou caules, quando são atacadas, de forma a minimizar os danos e garantir a sobrevivência. Esta estratégia confunde o predador e dá à planta o tempo necessário para recuperar. Um exemplo são os fetos, como o feto-real (Osmunda regalis) e o feto-pente (Blechnum spicant) que libertam as frondes (folhas) quando danificadas. Este mecanismo protege o rizoma subterrâneo, permitindo que a planta volte a rebentar quando as condições forem favoráveis.

Também a esteva (Cistus ladanifer) pode perder as folhas para reduzir a perda de água e concentrar energia nas partes mais resistentes, como os caules lenhosos, em períodos de seca extrema ou face a um ataque de herbívoros.

Rede “Wi-Fi” das plantas: comunicação invisível
Embora não tenham um sistema nervoso como os animais, as plantas desenvolveram formas sofisticadas de comunicação que lhes permitem trocar informações sobre ameaças e condições ambientais por meio de sinais químicos voláteis ou redes subterrâneas de fungos micorrízicos.

Quando atacadas por herbívoros ou patógenos, plantas como o alecrim-da-serra (Thymus caespititius), a murta (Myrtus communis) e o rosmaninho (Lavandula stoechas) libertam compostos aromáticos que funcionam como um alarme, ativando os mecanismos de defesa das plantas vizinhas antes que o ataque se propague.

As plantas também “falam” umas com as outras através da “Wood Wide Web“, uma rede subterrânea complexa formada por fungos micorrízicos que estabelecem relações simbióticas com as raízes de diferentes plantas. Esta rede permite a troca de nutrientes, sinais químicos e alertas sobre ameaças.

Plantas como o castanheiro (Castanea sativa), o carvalho-português (Quercus faginea) e o freixo (Fraxinus angustifolia) estabelecem relações simbióticas com fungos micorrízicos, melhorando a absorção de nutrientes e aumentando a resiliência a condições adversas.

Além disso, algumas plantas, quando bem estabelecidas – como o sobreiro (Quercus suber) e o carvalho-alvarinho (Quercus robur) – podem transferir nutrientes para plantas mais jovens ou debilitadas, contribuindo para a regeneração do ecossistema.

Longe de serem organismos passivos, as plantas desenvolveram um repertório incrível de estratégias para se defender. Algumas usam barreiras físicas, outras apostam na química e, em certos casos, recorrem à comunicação e ao engano para garantir sua sobrevivência.

No entanto, algumas espécies também combinam múltiplas estratégias de defesa, utilizando simultaneamente barreiras físicas e químicas ou aliando defesas comportamentais à comunicação, revelando a versatilidade e a complexidade das suas adaptações.

Esse arsenal invisível não só as protege, mas também influencia diretamente a dinâmica dos ecossistemas.

Da próxima vez que vir uma planta aparentemente indefesa, lembre-se: ela pode ter mais truques do que imagina.

Se quiser aprender mais sobre plantas e a sua importância nos jardins e no ambiente, recomendo explorar alguns dos artigos da série “Abra espaço para a natureza”. No texto Como criar um jardim para borboletas?descubra espécies específicas que ajudam a atrair e a sustentar estes polinizadores essenciais. Já no artigo Como criar um jardim para a vida selvagem? encontra algumas práticas que incentivam a presença de fauna diversa no jardim. E se a curiosidade for por plantas carnívoras, o texto Como ter um jardim num apartamento: plantas carnívoras oferece uma abordagem prática para cultivar estas espécies mesmo em espaços reduzidos. Estas leituras complementares mostram como pequenas escolhas no planeamento de jardins podem ter impactos significativos na biodiversidade e na qualidade de vida, promovendo uma relação mais harmoniosa entre o ser humano e a natureza.

domingo, 19 de julho de 2026

Plano verde em Madrid

Madrid transformou milhares de árvores numa das suas principais estratégias para enfrentar o calor urbano. Em vez de depender apenas de obras de concreto, a cidade expandiu sua cobertura vegetal e criou uma verdadeira floresta em meio às ruas.

Hoje, a capital espanhola reúne mais de 300 mil árvores espalhadas pelas vias públicas. Somando parques e áreas verdes administradas pelo município, esse número passa de 1,5 milhão.

O efeito aparece no dia a dia
Mais sombra, melhora da qualidade do ar e temperaturas mais amenas numa cidade que, assim como outras regiões da Europa, enfrenta verões cada vez mais intensos.

Esse planeamento de longo prazo também rendeu reconhecimento internacional. Madrid recebeu por sete anos consecutivos o título de "Cidade das Árvores do Mundo", concedido às cidades que se destacam pela gestão e preservação da arborização urbana.

Cada árvore plantada faz parte de um projeto maior: tornar a cidade mais agradável para viver, fortalecer a biodiversidade e preparar os espaços urbanos para um clima cada vez mais desafiador. No fim das contas, algumas das obras mais valiosas de uma grande cidade continuam crescendo silenciosamente, folha por folha.

Pois cá está. Portugal sempre em retrocesso. E a dendrofobia é estrutral. Encontra muita resistência. Só mesmo uam visão acodemocrática de um autarca visionário, como o que aconteceu em Guimarães. 

Guimarães foi distinguida recentemente com o prestigiado título de Capital Verde Europeia 2026, um galardão atribuído pela Comissão Europeia que reconhece o compromisso e o esforço da cidade na vanguarda da sustentabilidade ambiental. Para conquistar este prémio, a cidade minhota apresentou-se sob o lema "One Planet City" e superou na final as cidades de Heilbronn, na Alemanha, e Klagenfurt, na Áustria.

Além do prestígio internacional, a distinção garantiu a Guimarães um apoio financeiro de 600 mil euros destinado a impulsionar novos projetos ambientais e a acelerar a meta local de neutralidade climática. Este prémio junta-se a outros reconhecimentos recentes obtidos pelo município, como o prestigiado prémio internacional Green Flag Award, que distingue a excelência na gestão de espaços verdes como o Parque da Cidade e o Jardim do Monte Latito, e a presença entre os finalistas europeus na Semana Europeia da Prevenção de Resíduos, consolidando a cidade como uma referência em políticas de sustentabilidade e ecologia urbana.

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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Mau tempo: País não podia evitar tempestades mas deve usar melhor o território


Maria José Roxo, um dos nomes mais relevantes da Geografia portuguesa e especialista em catástrofes e riscos ambientais considera que o país não podia evitar as recentes tempestades, mas poderia minimizar os efeitos dos fenómenos meteorológicos extremos com outra forma de ocupar e “usar o território”.

“Não podíamos evitar porque aquilo que está a acontecer em Portugal, e em muitas outras áreas do planeta, como estamos a ver nos últimos dias, com a tempestade de neve nos Estados Unidos muitíssimo forte e com as chuvas muito intensas no Brasil, são fenómenos que têm a ver com algo que nós andamos há muitíssimo tempo a falar, que é o efeito do aquecimento global”, afirmou Maria José Roxo.

Em declarações à Lusa, a professora do departamento de Geografia e Planeamento Regional da Universidade Nova de Lisboa, analisou os efeitos das recentes depressões Kristin, Leonardo e Marta, que desde a madrugada de 28 de janeiro provocou pelo menos 18 mortos, centenas de feridos e desalojados, principalmente nas regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo.

A também investigadora do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais (CICS), da Nova, salientou que Portugal possui a particularidade de ter um clima de grande variabilidade, de características mediterrânicas e atlânticas, que “tem sido perturbada por este aquecimento global”, tornando as tempestades e as superfícies frontais cada vez mais intensas.

“Não podíamos evitar, mas podíamos minimizar. E aqui é que temos que nos concentrar. Este minimizar implicava o que há muito tempo se vem falando sobre a forma como se está a ocupar e a usar o território, e esse é que é o grave problema”, apontou.

O problema, sublinhou, está na maneira como se utilizam os recursos naturais, perturbando a dinâmica dos sistemas naturais, com a canalização dos cursos de água nas áreas urbanas e o uso do “recurso solo”, com a impermeabilização das áreas urbanas.

“Pensar cidade é pensar cidade com a natureza. As cidades têm que ser cidades esponjas, que absorvam água, viu-se o exemplo de Setúbal, com a bacia de retenção, e todos esses aspetos de mais verde nas cidades, mais espaços de absorção, menos impermeabilização”, defendeu, aludindo ao exemplo do parque urbano da cidade junto ao Sado que amorteceu as recentes cheias.

A especialista em desertificação, catástrofes e riscos ambientais, recursos naturais e geomorfologia, exemplificando com as caleiras nas cidades para colocar árvores, constatou que em muitos sítios “são mínimas, muitas vezes até impermeabilizadas”, tornando difícil compreender até como é que as “árvores sobrevivem”.

“Esta questão de como fazemos planeamento tem que ser equacionada devidamente, porque é necessário pensar de uma forma diferente” e de uma forma integrada, defendeu Maria José Roxo, acrescentando que não se pode só pensar nos solos, mas também nos cobertos vegetais e na água, três elementos que “têm que estar sempre associados”.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Relatório aponta aumento da mortalidade pelo calor extremo na Galiza e norte de Portugal


Cidades da região espanhola da Galiza e do norte de Portugal têm registado um excesso de mortalidade, em alguns casos até 60%, como consequência do calor extremo, segundo um relatório do Eixo Atlântico divulgado na quarta-feira.

Esta investigação, apresentada pela organização em Pontevedra, revela que cidades como o Porto, Viana do Castelo, Ourense, Braga, Guimarães e Lugo registaram entre 50% e 60% de excesso de mortalidade durante períodos de altas temperaturas.

O estudo, liderado por Francesc Cárdenas, diretor da Agência de Ecologia Urbana do Eixo Atlântico, propõe que se preste “especial atenção” à conceção dos espaços públicos e à integração da saúde em todos os processos de planeamento urbano e territorial.

Cárdenas indicou que é necessário promover uma “cultura do calor”, que inclua a adaptação das cidades, a criação de refúgios climáticos e a elaboração de planos de ação para as ondas de calor, de forma a proteger os cidadãos.

Argumentou ainda que “padrões mais rigorosos” para a qualidade do ar e o controlo do ruído devem ser implementados para melhorar a saúde ambiental e humana nas cidades.

“Precisamos de uma mudança cultural”, enfatizou o diretor do relatório, que indicou que 80% dos fatores que influenciam a saúde humana dependem do planeamento urbano.

O documento salienta que o limite crítico de 1,5 graus Celsius de aquecimento global já foi ultrapassado em 2024, o que exige ações com “microcirurgia urbana”.

Neste sentido, o relatório inclui também boas práticas como os corredores ecológicos de A Coruña, as rotas escolares seguras e as zonas de baixas emissões de Pontevedra, a via verde de Vigo e as rotas termais de Ourense.

Vázquez Mao insistiu que as câmaras municipais devem decidir “como e onde construir” para garantir que as novas áreas residenciais não se tornam blocos habitacionais sem vida e insalubres.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Sobre este Inverno chuvoso - não aprendemos nada com as ideias de Gonçalo Ribeiro Telles


Este comboio de tempestades não é único. Muitas destas tempestades em sucessão são alimentadas por rios atmosféricos. São faixas estreitas de humidade tropical concentrada que atravessam o Atlântico. Quando o "corredor" se abre em direção à Península Ibérica, as tempestades seguem esse rasto como se estivessem em carris. Tudo depende de um "braço de ferro" de pressão entre os Açores e a Islândia. Quando esta oscilação está numa determinada fase, o jet stream (uma corrente de ar a grande altitude) empurra todas as tempestades diretamente para nós, em vez de as desviar para o Reino Unido ou Escandinávia. Antigamente não dávamos nomes às tempestades (como Joseph, Leonardo e Kristin), o que dava a ideia de que era apenas "um inverno chuvoso". Hoje, ao darmos nomes individuais a cada depressão, temos muito mais consciência de quantas estão a passar por nós seguidas. A perceção de excecionalidade resulta, em grande parte, da forma como os fenómenos recentes são lembrados. A nossa memória meteorológica é curta e estamos mais marcados pelos episódios de secas severas que têm sido a marca dos últimos ano. 𝐃𝐞𝐯𝐢́𝐚𝐦𝐨𝐬 𝐬𝐞𝐫 𝐦𝐚𝐢𝐬 𝐩𝐫𝐞𝐯𝐞𝐧𝐭𝐢𝐯𝐨𝐬 𝐩𝐞𝐥𝐨 𝐡𝐢𝐬𝐭𝐨́𝐫𝐢𝐜𝐨 𝐝𝐞 𝐢𝐧𝐯𝐞𝐫𝐧𝐨𝐬 𝐜𝐡𝐮𝐯𝐨𝐬𝐨𝐬. Aprender a não voltar a repetir a tragédia de 1967 (25 para 26 de novembro) em que choveu num só dia o equivalente a um quinto de todo o ano. A região da Grande Lisboa e do Vale do Tejo foi devastada. O regime de Salazar tentou "abafar" a dimensão da tragédia. Oficialmente falou-se em cerca de 460 mortos, mas estimativas reais apontam para mais de 700 vítimas.
𝐆𝐨𝐧𝐜̧𝐚𝐥𝐨 𝐑𝐢𝐛𝐞𝐢𝐫𝐨 𝐓𝐞𝐥𝐥𝐞𝐬 𝐚𝐥𝐞𝐫𝐭𝐨𝐮-𝐧𝐨𝐬 𝐚𝐧𝐨𝐬 𝐞 𝐚𝐧𝐨𝐬 𝐜𝐨𝐦𝐨 𝐞𝐯𝐢𝐭𝐚𝐫 𝐝𝐚𝐧𝐨𝐬 𝐦𝐚𝐭𝐞𝐫𝐢𝐚𝐢𝐬 𝐞 𝐡𝐮𝐦𝐚𝐧𝐨𝐬 𝐝𝐮𝐫𝐚𝐧𝐭𝐞 𝐞𝐬𝐭𝐞𝐬 𝐢𝐧𝐯𝐞𝐫𝐧𝐨𝐬 𝐜𝐡𝐮𝐯𝐨𝐬𝐨𝐬 𝐞 𝐚𝐩𝐫𝐞𝐬𝐞𝐧𝐭𝐚𝐯𝐚 𝐬𝐨𝐥𝐮𝐜̧𝐨̃𝐞𝐬. 𝐍𝐚̃𝐨 𝐚𝐬 𝐨𝐮𝐯𝐢𝐦𝐨𝐬. 𝐈𝐧𝐬𝐢𝐬𝐭𝐢𝐦𝐨𝐬 𝐞𝐦 𝐜𝐨𝐧𝐬𝐭𝐫𝐮𝐢𝐫 𝐞𝐦 𝐥𝐞𝐢𝐭𝐨𝐬 𝐝𝐞 𝐜𝐡𝐞𝐢𝐚, 𝐞𝐧𝐭𝐮𝐛𝐚𝐫 𝐫𝐢𝐨𝐬 𝐞 𝐫𝐢𝐛𝐞𝐢𝐫𝐚𝐬 𝐞 𝐚 𝐩𝐚𝐯𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐚𝐫 𝐭𝐮𝐝𝐨 𝐜𝐨𝐦 𝐚𝐬𝐟𝐚𝐥𝐭𝐨 𝐞 𝐜𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨.
𝐎 𝐂𝐨𝐫𝐫𝐞𝐝𝐨𝐫 𝐕𝐞𝐫𝐝𝐞 𝐝𝐞 𝐌𝐨𝐧𝐬𝐚𝐧𝐭𝐨, 𝐞𝐦 𝐋𝐢𝐬𝐛𝐨𝐚 𝐞́ 𝐮𝐦 𝐞𝐱𝐞𝐦𝐩𝐥𝐨 𝐩𝐚𝐫𝐚𝐝𝐢𝐠𝐦𝐚́𝐭𝐢𝐜𝐨: 𝐝𝐞𝐦𝐨𝐫𝐨𝐮 𝐪𝐮𝐚𝐬𝐞 𝟑𝟎 𝐚𝐧𝐨𝐬 𝐚 𝐬𝐞𝐫 𝐜𝐨𝐧𝐜𝐥𝐮𝐢́𝐝𝐨 𝐞𝐱𝐚𝐭𝐚𝐦𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐩𝐨𝐫𝐪𝐮𝐞 𝐞𝐥𝐞 𝐭𝐞𝐯𝐞 𝐝𝐞 𝐥𝐮𝐭𝐚𝐫 𝐜𝐨𝐧𝐭𝐫𝐚 𝐦𝐮𝐢𝐭𝐨𝐬 𝐢𝐧𝐭𝐞𝐫𝐞𝐬𝐬𝐞𝐬 𝐢𝐦𝐨𝐛𝐢𝐥𝐢𝐚́𝐫𝐢𝐨𝐬 𝐩𝐚𝐫𝐚 𝐦𝐚𝐧𝐭𝐞𝐫 𝐚𝐪𝐮𝐞𝐥𝐞 "𝐞𝐬𝐜𝐨𝐚𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨" 𝐧𝐚𝐭𝐮𝐫𝐚𝐥 𝐝𝐚 𝐜𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞.

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Oposição à Central Solar Fotovoltaica SOPHIA e às Linhas de Muito Alta Tensão (LMAT) - posição da Rewilding Portugal


A Rewilding Portugal manifesta a sua oposição firme e fundamentada ao projeto de instalação da Central Solar Fotovoltaica SOPHIA (CSF Sophia), e às Linhas de Muito Alta Tensão (LMAT) associadas, atualmente em consulta pública. Esta posição assenta na análise detalhada dos dados oficiais do Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e na avaliação dos riscos ecológicos, sociais e territoriais que o projeto representa para o centro interior de Portugal, em particular para os concelhos do Fundão, Penamacor e Idanha-a-Nova, com impactos significativos e irreversíveis para os ecossistemas locais, para a paisagem, para as comunidades desta região e para o modelo de desenvolvimento sustentável do território que defendemos.

Embora reconheçamos a urgência e a importância da transição energética, consideramos que o projeto em causa não cumpre critérios mínimos de sustentabilidade territorial, ecológica e social. Foram revelados impactos significativos e irreversíveis sobre ecossistemas de elevado valor, sobre a paisagem rural da Gardunha e sobre comunidades que têm vindo a investir na regeneração ecológica e no turismo de natureza. As medidas de mitigação e compensação apresentadas são insuficientes e não respondem à escala dos danos previstos e não acreditamos que exista mitigação possível para tamanha destruição e artificialização da paisagem em causa. Entendemos por isso que o projeto SOPHIA não representa uma transição energética justa, mas sim um modelo de artificialização do território incompatível com os princípios de conservação, restauro ecológico e coesão territorial.

O que está em causa?
Segundo o EIA, esta central solar ocupará uma área total superior a 3.500 hectares, dos quais cerca de 434 serão diretamente impermeabilizados por painéis solares, caminhos e infraestruturas associadas. O projeto estende-se por três concelhos e integra duas linhas de muito alta tensão (400 kV), com cerca de 22 km cada, para ligação à subestação do Fundão. Estas linhas atravessam zonas agrícolas, povoamentos florestais e vales de ribeiras que mantêm ainda uma conetividade ecológica relevante.

Reconhece-se ainda que a área de implantação abrange e marginalmente intercepta zonas classificadas, nomeadamente a Zona Especial de Conservação (ZEC) da Serra da Gardunha (Rede Natura 2000) e a Área de Paisagem Protegida Regional da Serra da Gardunha. O limite sul do projeto aproxima-se também do Geopark Naturtejo Mundial da UNESCO, inserido numa paisagem de alto valor natural e patrimonial. Foram identificados portanto sete tipos de habitats naturais de elevado valor ecológico, incluindo montados de Quercus de folha perene, carvalhais, salgueirais, freixiais e florestas aluviais, ecossistemas protegidos pela legislação nacional e comunitária.

O mesmo estudo regista 231 espécies de vertebrados na área em causa, das quais 30 com estatuto de ameaça. Entre as espécies mais sensíveis estão a Cegonha-preta (Ciconia nigra), o Abutre-preto (Aegypius monachus), a Águia-imperial (Aquila adalberti) e várias espécies de quirópteros, anfíbios e répteis protegidos. No domínio florístico, foi confirmada a presença de Bufonia macropetala, endemismo ibérico raro e indicador de solos mediterrânicos intactos. Espécies frágeis, com estatutos de conservação preocupantes e habitats disponíveis já reduzidos e fragmentados.

O estudo confirma ainda que a construção implicará a desmatação e abate de árvores legalmente protegidas, nomeadamente azinheiras e sobreiros isolados, com impacto qualificado como negativo e significativo. As medidas compensatórias propostas, como a conversão de 135 hectares de eucalipto em azinheiras e sobreiros, num total de 228 hectares de compensação ecológica, não demonstram ganhos líquidos de biodiversidade e não eliminam a perda irreversível de habitats locais. Não podemos continuar a substituir habitats complexos, bem estabelecidos e com influência num enorme número de espécies com populações estabelecidas por novas plantações que demorarão muito tempo a chegarem a esse estado de funcionalidade. A análise técnica confirma também a interrupção dos corredores ecológicos designados “Raia Norte” e “Raia Sul” (PROF Centro Interior), fragmentando áreas críticas para deslocação e reprodução de fauna selvagem. Numa altura em que falamos na necessidade urgente de criar e reforçar corredores ecológicos que permitam movimentos de fauna pela paisagem, um corte a meio num desses corredores é incoerente, perigoso e injustificável.

A nossa posição contra este projeto assenta por isso em três pilares: biodiversidade, comunidades e visitação:

1. Biodiversidade
A natureza precisa de espaço e conectividade para prosperar e o projeto SOPHIA ignora esse princípio de forma flagrante, ao implantar uma megaestrutura solar num mosaico de habitats que funciona como corredor ecológico regional, cortando a continuidade entre áreas naturais da Gardunha, Raia e Malcata, e criando assim uma barreira física e ecológica difícil de reverter.

A fragmentação e impermeabilização do solo comprometem a mobilidade de mamíferos de grande e média dimensão, como o lobo-ibérico (Canis lupus signatus), entre outros, e afetam espécies frágeis e a flora mediterrânica adaptada a solos pobres, como a rara Bufonia macropetala. A destruição destes habitats e comunidades vegetais, reconhecida pelo próprio EIA como um impacto negativo e significativo, prejudica polinizadores, aves insectívoras e a cadeia trófica nesta região.

Esta postura contraria compromissos nacionais e europeus de proteção de habitats prioritários, que continuam a ser ignorados em situações como esta e nos quais falhamos metas sucessivamente, incorrendo em constantes multas que continuam a ser pagas como o preço de uma inação nacional difícil de compreender.

A chamada “transição verde” não pode justificar a repetição de erros de fragmentação da paisagem que a conservação e muitas entidades neste sector lutam por corrigir há décadas, com dificuldades e muitas vezes em contexto de subfinanciamento.

2. Comunidades
A Rewilding Portugal sublinha que as comunidades locais afetadas por este projeto estão a ser duplamente penalizadas pela sua interioridade: sofrem o impacto direto desta instalação e, apesar das promessas genéricas de retorno económico e de mitigação de impacto, não têm garantido qualquer benefício tangível ou proporcional aos custos ambientais e sociais que estarão a suportar. A ausência de processos verdadeiramente participativos para as comunidades, revela uma falta de transparência que não pode ser aceite em projetos de tamanha dimensão e risco.

Importa referir que as populações locais serão confrontadas com: perda de áreas agrícolas e florestais, ruído e poeiras durante a construção, alteração irreversível da paisagem rural até do ponto de vista visual, desvalorização de propriedades e limitação de usos tradicionais da terra e principalmente: a perda das paisagens biodiversas e ricas que são muitas vezes o motivo da sua continuidade no território. Os territórios da Beira Interior têm uma forte identidade rural e ecológica, hoje dinamizados por pequenos negócios de turismo, agricultura biológica e iniciativas de restauro ecológico com impacto positivo na paisagem em que se inserem. A sua substituição por uma megaestrutura de painéis solares representa um choque cultural e económico.

É inaceitável que a transição energética seja feita à custa dos territórios de menor densidade populacional, destruindo-lhes o maior ativo que ainda existe e perpetuando assim desigualdades históricas e contrariando o princípio de justiça ambiental que devia imperar.

3. Visitação
A Beira Interior tem vindo a afirmar-se como destino emergente de turismo de natureza e conservação. A Serra da Gardunha, a ZEC adjacente e o Geopark Naturtejo oferecem uma combinação única de paisagem, biodiversidade e património cultural. O impacto visual deste projeto, com intrusão paisagística e reflexos visíveis a grandes distâncias vai impactar de forma irreversível a perceção de “natureza intacta” que ainda persiste neste território e que o torna tão atrativo.

Este tipo de impacto ameaça diretamente o turismo de natureza, que tem crescido consistentemente nos últimos anos, assente num modelo de desenvolvimento sustentável que tem pautado a estratégia recente destes territórios e da qual temos sido promotores, vendo agora todo o trabalho realizado a ser colocado em causa.

Muitos dos nossos parceiros da Rede Côa Selvagem, que têm criado novas oportunidades e emprego local baseado na natureza, em comunhão com o território e garantindo novas estratégias de atração para esta região, enquanto contribuem também para o restauro ecológico destes espaços naturais, vão ser diretamente ou indiretamente afetados por este projeto: ou porque operam também no território afeto ao projeto ou porque, mesmo estando em localizações limítrofes como é o caso do Grande Vale do Côa, sentirão também os inevitáveis impactos negativos do projeto principalmente no que diz respeito à severidade com que o mesmo afetará a biodiversidade e ecossistemas locais, podendo criar uma descontinuidade profunda na paisagem.

Um modelo de desenvolvimento como este que agora nos é apresentado, destrói a paisagem e a biodiversidade e elimina assim o próprio ativo que sustenta a economia verde da região: o próprio verde da paisagem.

Posto isto,
A falta de transparência neste processo é um aspeto grave que já devia sido endereçado mais cedo. A falta de clareza quanto às origens e intenções do investimento suscita dúvidas legítimas sobre o seu enquadramento estratégico e ambiental. Uma transição energética justa exige transparência total: quem ganha, quem perde e como são tomadas as decisões.

Rejeitar o SOPHIA não significa rejeitar a energia solar. Significa exigir planeamento responsável, transparência e justiça ecológica. Existem muitas outras áreas já artificializadas, abandonadas após uso e intervenção humana, ou mesmo a cobertura de edifícios públicos e outras faixas, que permitiriam a produção desta mesma energia sem implicar a destruição de habitats e a criação de uma monocultura tecnológica. Exista coragem para tomar essas decisões, porque centrais solares de grande escala, se mal localizadas, substituem ecossistemas vivos por superfícies mortas, criando desertos ecológicos num país que precisa de se renaturalizar, reconectar e restaurar.

Propomos por isso ao Governo e às entidades competentes que promovam: o mapeamento de áreas artificializadas disponíveis para este tipo de instalações; incentivos fiscais robustos à colocação de painéis em edifícios públicos, logísticos e industriais; e a criação de um programa de Transição Energética com Natureza, que assegure que cada megawatt produzido contribui também para restaurar ecossistemas, e que é produzido sem os colocar em causa.

Perante os factos expostos e a gravidade dos impactos reconhecidos pelo próprio EIA, a Rewilding Portugal apela à rejeição integral do projeto SOPHIA e das LMAT associadas.

Acreditando que o futuro da energia deve caminhar lado a lado com uma recuperação da biodiversidade e de ecossistemas completos e funcionais, a Rewilding Portugal defende ainda que Portugal deve liderar uma verdadeira transição ecológica, e não apenas energética. A crise de biodiversidade e climática a que estamos a assistir exige decisões corajosas, não susceptíveis a pressões externas e fins meramente económicos.

Não existe mitigação possível para se cortar um corredor ecológico ao meio, criando novas barreiras a uma natureza já por si tão obstruída e fragmentada. Se o preço a pagar é a própria biodiversidade, não lhe chamem energia verde.


Segue um dossier com textos e intervenções dos editores do Jornal O Maio. "Não comemos painéis solares"

quarta-feira, 22 de maio de 2024

Os benefícios da Natureza para a Saúde e Bem-estar


No dia 22 de maio, celebramos o Dia Internacional da Biodiversidade, destacando atividades que visam sensibilizar para a sua perda. Além dos serviços essenciais que a natureza oferece, como a qualidade do ar, os alimentos e a água, o seu impacto na saúde e no bem-estar é igualmente relevante, sendo que vários estudos recentes confirmam a conexão entre a biodiversidade e a saúde mental.

Um estudo publicado recentemente por cientistas ingleses na revista Scientific Reports (14:7051, 2024), utilizou um aplicativo móvel (Urban Mind) para analisar os contextos e saúde mental de cerca de 2.000 participantes, observando em tempo real as suas reações à biodiversidade em ambiente urbano. Os resultados mostraram que ambientes com uma maior variedade de elementos naturais, como plantas e aves, estavam associados a um maior bem-estar mental, sugerindo um efeito mediador da diversidade natural na relação entre a exposição à natureza e o bem-estar, e sublinhando a necessidade de políticas que promovam a biodiversidade para a saúde pública.

Em 2050, prevê-se que 70% da população mundial viva em cidades densamente povoadas. A vida urbana, apesar dos seus benefícios, aumenta o risco de doenças mentais devido à menor exposição à natureza. Evidências empíricas indicam que níveis mais elevados de natureza urbana se correlacionam com resultados positivos de saúde mental – ou porque a exposição à natureza restaura a função cognitiva, ou porque ela protege contra o stress urbano.

A investigação destaca várias características naturais urbanas, como a presença de árvores, jardins, parques, avifauna e cursos de água, que estão ligadas a maior bem-estar mental e à redução das doenças mentais, apoiando claramente intervenções baseadas na natureza para promover a saúde nas populações urbanas. Importa, no entanto, entender, como diferentes características naturais interagem para influenciar a saúde mental. Os estudos demonstram que a maior diversidade natural incentiva comportamentos saudáveis, reduz doenças crónicas inflamatórias e fornece serviços de ecossistema, como regulação da temperatura e aumento da produção de alimentos. Alguns estudos, contudo, mostram outras relações. Os impactos da biodiversidade no bem-estar mental são menos estudados, desconhecendo-se qual a diversidade mínima exigida e as características mais favoráveis dos espaços verdes.

O estudo mencionado utilizou a avaliação ecológica momentânea via smartphone, capturando impactos em tempo real da diversidade natural no bem-estar mental e permitindo medições repetidas ao longo do tempo. Este método facultou uma observação dinâmica das mudanças de bem-estar mental e dados importantes sobre diversos ambientes ao longo do tempo.

Face às alterações climáticas e ao rápido declínio da biodiversidade, estes estudos destacam a importância da biodiversidade não apenas para a saúde dos ambientes naturais, mas também para o bem-estar mental de quem reside em ambientes urbanos. As autoridades municipais devem priorizar a biodiversidade também para melhorar a saúde mental, promovendo uma vida urbana mais saudável através da diversidade dos ambientes naturais.

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Cidades esponjas e telhados verdes: as cidades incorporam a natureza para mitigar e criar empregos

Cidade de Medellín (Colômbia) criou um corredor verde de 1,3 Km 

As cidades abrigam mais de metade da população mundial e são responsáveis ​​por mais de 70% das emissões de gases com efeito de estufa . Portanto, têm um papel fundamental a desempenhar na travagem e na adaptação à dupla crise da perda de biodiversidade e das alterações climáticas. Chegamos a tempo de atingir as metas do Acordo de Paris, mas isso só será possível se reduzirmos as nossas emissões atmosféricas em 43% nos próximos sete anos. Caso contrário, enfrentaremos as consequências das inundações e das secas, que são cada vez mais frequentes e fazem-se sentir em todo o mundo.

Uma forma de tornar as cidades mais sustentáveis ​​e resilientes é incorporar a natureza na sua gestão e design. Estas soluções protegem, restauram e gerem o ecossistema de forma sustentável, garantindo a biodiversidade, melhorando a qualidade do ar e garantindo maior segurança alimentar e hídrica. As soluções baseadas na natureza são diversas e vão desde a ecologização das cidades até à restauração de zonas húmidas e recifes e à melhoria da gestão das águas pluviais. Não são apenas positivos para o ambiente, mas também para o bem-estar e a economia. Na verdade, têm potencial para gerar mais de 59 milhões de empregos em todo o mundo .

Um grande número de cidades está a adotar soluções inovadoras baseadas na natureza. Por exemplo, Guangzhou (China) embarcou numa viagem em 2017 para se tornar uma cidade esponja com o objetivo de combater a degradação ambiental. Ao aplicar este conceito, Guangzhou e muitas outras metrópoles chinesas reduziram o risco de inundações e melhoraram a gestão da água. Outras cidades, como Toronto (Canadá), implantaram uma política que exige que os novos edifícios tenham telhados verdes, o que pode reduzir a temperatura e o consumo energético dos edifícios, além disso, de proporcionar um habitat para a fauna urbana e melhorar a qualidade do ar. Por sua vez, Medellín (Colômbia) criou um corredor verde de 1,3 quilómetros que oferece ao bairro fácil acesso a áreas verdes.

As soluções baseadas na natureza podem proporcionar mais de um terço da mitigação climática necessária até 2030 . No entanto, apenas 0,3% dos gastos em infra-estruturas urbanas são atribuídos a isto.

Este ano, o Dia Mundial do Metropolitano , comemorado todo dia 7 de outubro, focou no “poder da natureza”. Com este tema, foi feito um apelo aos governos para que trabalhem para além dos limites administrativos das suas cidades e coloquem a natureza no centro da ação local. Mais de 240 pessoas, incluindo representantes políticos, reuniram-se em Istambul (Turquia) para trocar experiências sobre como melhorar a resiliência das suas áreas metropolitanas. Este evento global , organizado pela MARUF, Metropolis e ONU-Habitat, foi seguido por eventos noutras cidades como Kinshasa, Austin, Barcelona, ​​​​Vale de Aburrá e Cidade do México.

Uma das grandes conclusões dos debates é que os desafios que as cidades enfrentam não podem ser resolvidos apenas a nível municipal. Os limites de uma cidade já não reflectem a realidade quotidiana dos seus habitantes, pelo que os governos precisam de olhar para além das divisões geográficas e institucionais tradicionais. A vida é construída em escala metropolitana. Consequentemente, deve ser governado na mesma escala em que é vivido: é um exercício de corresponsabilidade que permite reduzir a desigualdade territorial, superando assim a narrativa binária de ganhar e perder territórios.

Além disso, a perspectiva metropolitana reconhece que as cidades não são fundamentalmente diferentes dos seus arredores. Nem são contrários à natureza. As grandes cidades dependem do seu entorno para aceder a recursos naturais como água, energia ou alimentos e, ao mesmo tempo, têm um grande impacto no seu ecossistema. No cenário global, as cidades são atores-chave nos assuntos mundiais devido ao seu âmbito, tamanho e importância cultural.

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sexta-feira, 22 de setembro de 2023

A arquitectura paisagística está há 80 anos a pensar o futuro, mas ninguém a ouve

Francisco Caldeira Cabral foi o propulsor da arquitetura paisagista em Portugal

E se as cheias ou os incêndios não fossem uma tragédia anual? O cenário parece de sonho, mas é uma realidade possível aos olhos dos arquitetos paisagistas. Têm na sua génese muito mais do que a estética. Aprendem sobre anatomia, plantas, sociedade, cultura e tanto mais. A disciplina tem cerca de 80 anos de história e 50 de reconhecimento, apresentando soluções para a gestão equilibrada entre o ser humano e a natureza. O que falta para ser escutada?

Não fosse estar em causa o bem-estar (e até a vida) do ser humano e poderíamos considerar a história da arquitetura paisagista um autêntico filme. Um daqueles em que o “bom da fita” nunca é ouvido. Até ser tarde de mais. E, à imagem de muitos filmes, não falta neste um cliché: o do “eu avisei”. A expressão parece ser utilizada pelos arquitetos paisagistas para demonstrar que há algo com que todos se preocupam agora que, para estes profissionais, já é uma “cantiga antiga”. Mas do que se trata? Das alterações climáticas. Ou melhor, de como a atividade do ser humano exacerbou e acelerou alterações climáticas ao ponto de sofrermos atualmente com fenómenos climáticos extremos, diários, em torno de todo o Globo. Mas tudo poderia ser diferente. Como? Já lá vamos.

Primeiro, reforcemos o “eu avisei”. “O fenómeno parece novo. Fala-se em todo o lado. Faz capas de jornais quase todos os dias. Mas, para nós, arquitetos paisagistas, não é novidade nenhuma. Estavam à espera que acontecesse o quê?” Quem o questiona é Aurora Carapinha, arquiteta paisagista, investigadora, docente e apaixonada por jardins, que realça que não foi apenas um alerta que a profissão deixou à sociedade, tendo também apontado soluções. “Todos os nossos projetos da altura, por volta dos anos 1980, procuravam dar respostas para que situações extremas com que nos deparamos anualmente hoje não ocorressem.”

Fala-se de cheias, incêndios, perda de biodiversidade, recuo da linha de costa, entre tantos outros assuntos que, hoje, são tema recorrente e catalogados como “nova crise”. Aurora Carapinha lamenta que muitos desses projetos inovadores e solucionadores “tenham sido metidos na gaveta”. Problemas que todos os anos são recorrentes poderiam ser mitigados se tivesse havido um trabalho real com a arquitetura paisagista nos últimos anos? “Sem dúvida alguma. E não o digo por arrogância”, remata.

Arquitetura sem teto
E como é que a arquitetura paisagista tem um poder tão grande perante as alterações climáticas e os fenómenos extremos? Porque tem capacidade de prever e gerir mudanças a longo prazo, indica Carapinha. “O Professor Nuno Portas chamava-nos, com muita graça, os arquitetos sem teto. E trabalhar sem teto é o maior desafio que existe, porque é uma arquitetura que está exposta à intempérie, à mudança das estações, à mudança da luminosidade, às diferentes temperaturas. Enquanto na ‘arquitetura com teto’ posso controlar essas variáveis, aqui não.”

E, por isso, o arquiteto paisagista tem de aprender, por exemplo, onde chove, quanto chove, de que forma se comporta e acumula a chuva. Entre outros dados. E, acima de tudo, completa a docente da Universidade de Évora, “o arquiteto paisagista tem de saber como aproveitar essa chuva”. Em suma, além de prever acontecimentos, a disciplina trabalha para que esses acontecimentos sejam aproveitados em benefício do bem-estar humano e do “bem-estar” da natureza. “Eu não trabalho contra a natureza. Trabalho com as dinâmicas dos sistemas naturais. E tenho de ter duas coisas: a ciência para os saber e a arte para os reinventar, criando novos lugares e oportunidades de vida.”

É no balanço entre ciência e arte que se baseia a definição da arquitetura paisagista, que, nas palavras de Caldeira Cabral, figura histórica da profissão, “é a ciência e a arte de ordenar o espaço exterior em relação ao homem”. E os equilíbrios parecem ser o ex-líbris. “Equilíbrios que vão além do estético, mas que alcançam dimensões como o equilíbrio económico, ecológico ou social”, afirma Carapinha.

A primazia do económico
Nestes vários equilíbrios, João Ceregeiro, arquiteto paisagista e presidente da Associação Portuguesa dos Arquitetos Paisagistas (APAP), acredita que se encontra a fórmula (ou fórmulas) que poderia solucionar diversos problemas da sociedade. Fórmulas essas que, tal como já frisado por Aurora Carapinha, não são novas para a profissão. “O que hoje se fala de conforto climático, de sequestro de carbono, da economia circular, da economia verde… tudo isso são temas que para os arquitetos paisagistas não são novos, porque estão implícitos na sua própria prática há muitas décadas”, esclarece o dirigente. E, agora, a pergunta de “milhões”.

Porque é que essas tais soluções não foram aplicadas e esses tais alertas escutados? “Porque a prática da arquitetura paisagista não se compagina com aquilo que é a agenda dos decisores políticos e económicos, ela está sistematicamente a ser protelada em função de outras prioridades”, em especial, prioridades economicistas, que não têm uma visão complexa e de longo prazo como a profissão assim exige, denuncia Ceregeiro. Porque construir uma praça viável ou ordenar uma mata ou uma floresta poderá ter um custo no momento presente que só será “devolvido” dali a décadas, e nem sempre se trata de um retorno financeiro – o que parece ser difícil de aceitar para uma sociedade que vive em torno do lucro.

A visão exclusivamente economicista e de prazo limitado é também criticada por Aurora Carapinha. Passemos a um exemplo. E logo dos mais complexos. “O problema dos incêndios é muito mais do que dizermos que há árvores demasiado perto das casas. É uma consequência de anos de desertificação do interior. E se quem vive lá é constantemente colocado à margem da sociedade e vive na pobreza, tem de procurar forma de subsistência, para a qual a solução foi, muitas vezes, a exploração do pinhal. É um rendimento fixo e a curto prazo que, de três em três anos, serve para subsistir a família e para pagar as contas extra. Não podemos simplesmente chegar a um local e arrancar de lá as pessoas ou tirar-lhes a forma de sobrevivência.” Por muito prejudicial que essa forma seja para o ambiente.
Aurora Carapinha considera que o arquiteto paisagista pensa “na complexidade social, económica, cultural, simbólica e ecológica da paisagem”, sendo muito mais do que plantar “a árvore certa”.

segunda-feira, 21 de agosto de 2023

Experiências de vida e genética influenciam a forma como vemos a Natureza

Para alguns de nós, a Natureza pode estar refletida em espaços verdes bem mantidos e cuidados (à direita), ao passo que para outros ela está em lugares ‘selvagens’, em que o toque e presença humanos é residual ou praticamente inexistente (à esquerda). 

A Natureza é definida por muitos como um ‘universo’ além dos espaços humanos, ao qual estão confinados os animais e as plantas selvagens, lugares intocados, ou ligeiramente alterados, embora as paisagens agrícolas possam também caber nessa categoria.

Apesar de o conceito de Natureza, como algo destacado da experiência e vivência humanas, tenha as suas raízes no pensamento ocidental, que pressupõe uma linha divisória entre os mundos social, ou humano, e natural, continua a ser a base da tradição científica dominante. Como tal, e numa altura em que se mobilizam muitos esforços, vontades e fundos para atenuar os impactos humanos sobre o planeta, saber como as pessoas veem a Natureza é fundamental para que se possa perceber onde estará o epicentro dos problemas.

Cada pessoa tem uma forma diferente de percecionar a Natureza – umas adoram-na, outras olham para ela como um conjunto de recursos a explorar, e outras são indiferentes –, mas investigadores suíços acreditam que essas perceções são influenciadas quer pela nossa genética, quer pelas experiências e aprendizagens ao longo das nossas vidas.

Num artigo publicado na revista ‘Trends in Ecology & Evolution’, os cientistas da Universidade de Gotemburgo e da Universidade Sueca de Ciências Agrárias defendem que a hereditariedade e o ambiente em que crescemos são ambos fatores que determinam as nossas atitudes para com a Natureza.

Através da revisão de múltiplos estudos sobre como os humanos percecionam o mundo natural, os investigadores concluíram que essas perceções são construídas por “uma interação entre a hereditariedade e a influência ambiental”, salientando que cada um de nós reage de forma diferente perante a Natureza.

Um dos trabalhos revistos foi um estudo realizado no Japão que comparou os batimentos cardíacos de pessoas enquanto passeavam na floresta e na cidade, e revelou que 65% dos sujeitos experienciou uma redução do ritmo cardíaco enquanto caminhava por entre as árvores. Os investigadores consideram que esta é uma prova de que nem todas as pessoas reagem da mesma forma à Natureza.

Outro estudo apontava que as pessoas cujas infâncias tiveram uma forte componente de contacto com o mundo natural eram mais atraídas pela Natureza do que as demais.

Isto, relativamente ao peso das experiências de vida na forma como vemos a Natureza. No que toca à influência genética, Bengt Gunnarsson, um dos autores do artigo, recorda que um outro trabalho sobre gémeos idênticos e ‘falsos’ mostrava que “uma componente genética influencia a relação positiva ou negativa de um indivíduo com a Natureza”, acrescentando que esse trabalho “também salientava a importância do ambiente”.

A dupla de cientistas suecos diz, no entanto, que devemos evitar generalizações sobre como as pessoas veem a Natureza e sobre o que entendem que ela seja. Para uns, a Natureza pode ser vista em jardins urbanos bem mantidos, com relva aparada, ao passo que para outros pode significar florestas repletas de animais e plantas selvagens.

E acreditam que mesmo essa distinção pode ser influenciada quer pela genética, quer pelas experiências que essas pessoas tiveram aos longo das suas vidas.

Apesar das conclusões desta investigação, Bengt Gunnarsson afirma que futuros estudos que aprofundem a compreensão “das interações entre os fatores de hereditariedade e ambientais são essenciais se quisermos compreender o que molda as relações dos indivíduos com a Natureza”.

Diversos são os planos implementados e em marcha para tornar mais verdes as cidades em que vivemos. Mas a diversidade de visões sobre o que é, ou o que deveria ser, a Natureza, poderá ter efeitos muito diferentes sobre cada uma das pessoas. Por isso, o cientista sublinha que “temos de nos recordar que somos todos diferentes” e que os planos para aumentar os espaços verdes em contextos urbanos devem ter em conta as diversas perceções e não assumir que existem ‘soluções de tamanho único’.

A consciência dessa diversidade de perceções, na ótica destes autores, será fundamental para que todas as pessoas possam encontrar nas suas cidades espaços verdes que correspondam à sua ideia de Natureza e nos quais possam experienciar os benefícios que têm sido associados a esses lugares.