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sexta-feira, 17 de julho de 2026

O Elogio da Lentidão

Estava na minha lista de espera há alguns anos. Esta semana conclui a sua leitura. Foi como um longo suspiro de alívio que eu nem sabia que precisava de dar. A própria capa do livro Elogio da Lentidão, com aquele tom azul sereno e uma tipografia que se impõe sem gritar, já parecia antecipar o tom da leitura. Porque, no fundo, ler o Lamberto Maffei é exatamente isso: uma conversa pausada com um cientista que nos tenta resgatar da nossa própria exaustão diária. Por ser um ensaio, não há personagens ou uma narrativa de ficção; o protagonista aqui é o próprio funcionamento da nossa mente. Além disso, para quem já leu o Elogio da Rebeldia, a ligação é imediata: no mundo de hoje, recusar a pressa é a forma mais pura de insubmissão.

Curiosamente, este título partilha o nome exato com outro clássico contemporâneo: o Elogio da Lentidão do jornalista Carl Honoré (2004), o grande manifesto do movimento Slow. No entanto, a forma como os dois autores abordam o mesmo problema revela perspectivas muito diferentes, embora profundamente complementares. Enquanto Honoré adopta uma abordagem sociológica e cultural, mapeando como a pressa invadiu a nossa alimentação, o sexo, o trabalho e as cidades, Maffei vai à raiz biológica do problema. Honoré foca-se no estilo de vida e nas escolhas do quotidiano, propondo uma revolução comportamental; já Maffei foca-se na evolução da espécie, demonstrando que a pressa digital é uma violência contra a nossa própria anatomia cerebral. Para Honoré, abrandar é uma questão de qualidade de vida; para Maffei, é uma necessidade de preservação neurológica.

Vivemos numa época em que a rapidez é aplaudida como a virtude suprema e a pressa é constantemente confundida com produtividade. Como nos lembra o historiador Eric Hobsbawm, o século XX consagrou o triunfo da velocidade, transformando a aceitação da aceleração num mito que dita as regras do mundo contemporâneo. Desde o Manifesto Futurista de Marinetti, decretou-se que o tempo e o espaço tinham morrido em nome de uma pressa omnipresente. Hoje, quem escolhe ser lento é frequentemente visto como indolente ou pouco perspicaz. No entanto, o que Maffei faz, com a mestria e a bagagem de um neurobiologista, é desmontar essa armadilha em que todos caímos. Ele explica-nos, com uma clareza desarmante, que o cérebro humano é, essencialmente, uma máquina lenta. A tecnologia tornou as comunicações externas instantâneas, mas as conexões entre os nossos neurónios permanecem inalteradas desde a nossa filogénese. O cérebro rápido e reativo pertence aos nossos mecanismos ancestrais mais primitivos - aqueles focados apenas na sobrevivência imediata, que não calculam consequências. O pensamento profundo - aquele que nos permite criar significado, resolver problemas complexos e construir memórias que perduram - exige algo que a sociedade moderna detesta: tempo e silêncio.

A literatura já nos tinha avisado disso. Como bem escreveu Milan Kundera, a lentidão está diretamente ligada à intensidade da memória, enquanto a velocidade nos empurra para o esquecimento. No final luminoso de As Vinhas da Ira, de Steinbeck, o adjetivo "lentamente" repete-se como um mantra no gesto de compaixão pura de Rosa de Sharon.

É essa a grande lição partilhada pela ciência de Maffei e pela arte da escrita: a lentidão não melhora apenas a qualidade do nosso pensamento; ela é a condição necessária para a empatia, para o cuidado e para a solidariedade.

No final, ler este livro deixa-nos com uma cumplicidade desarmante e com uma certeza irrefutável. Maffei comprova biologicamente aquilo que o nosso corpo já tentava dizer-nos em cada momento de exaustão: nós fomos feitos para abrandar.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Ghost Cop - A Shot in the Dark


Letra

Just as you are
Rebel, roused
Scratching some weird skin
I heard your voice
Come as you are
Tempted by
This morning star
It's happening

Like a sinner picks the saint
Like a moth flies to a flame
I'm lost without control
As you know
Like a gray before the storm
The end before it's begun
The wheels turn round again

Just let it go
Everything you want
It's better than nothing
Just let me go
Everything you want
Well, that's what you get

Like a shot in the dark
A solo survivor
Straight through the heart
No one makes it out alive
As you know
Like the angel loves the Fall
The way to the City of Woe
What's buried in the snow
Comes forth in the thaw

Just let me go
Everything you want
It's better than nothing
I close my eyes
Everything you want
Well, that's what you get

Just let me die
You get everything you want

Like a shot in the dark
Like a shot in the dark (just let me go)
Like a shot in the dark

Lançada originalmente em 2023 (e presente também no aclamado álbum Trouble), "A Shot in the Dark" (expressão em inglês que significa "dar um tiro no escuro" ou tentar algo sem qualquer garantia de sucesso) explora temas profundos de pessimismo, ciclos viciosos e desconforto psicológico.

A faixa aborda a dissonância emocional e a sensação de se estar perdido, avançando às cegas (o tal "tiro no escuro") por entre dinâmicas desgastantes e ambientes sombrios.

A letra e a melodia assombrada canalizam sentimentos de isolamento e ansiedade - algo muito presente no trabalho da banda, que costuma usar a música eletrónica industrial como uma catarse para lidar com a depressão e a neurodivergência. É uma música feita para dançar, mas com uma forte carga de melancolia e urgência noturna.

A faixa acaba por ser um poema sobre o fatalismo - a ideia de ver o fim de algo antes mesmo de começar, condenado a repetir os mesmos erros como uma mariposa atraída pela chama

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Mini models of the human brain are revealing how this complex organ takes shape

Artigo científico aqui

In many ways, the brain is a black box. While we’ve devised various techniques to measure and track its activity, scientists are still looking for ways to directly observe the brain as it develops. Such advancements could help us better understand conditions like autism spectrum disorder, schizophrenia, and Alzheimer’s.

One relatively recent development in this arena doesn’t involve human brains at all, but rather Petri dishes holding infinitesimally small clumps of tissue called organoids. First developed in 2013 by researchers in Austria, these structures have garnered the nickname “mini brains” because they form rudimentary models of the human brain.

Organoids begin as single cells, sometimes stem cells—but they could also begin as, say, skin cells that undergo a chemical process to become stem cells—before developing into a structure comprising millions of neurons. Developed organoids tend to represent specific areas of the brain, such as the thalamus, albeit more simplified because they’re not integrated within a larger system.

As more labs have adopted this methodology, they’ve created increasingly complex structures, including interconnected systems of organoids called assembloids. One of the most developed assembloids incorporates four different types of organoids to model a pain sensory pathway, connecting brain organoids to a spinal organoid.

As assembloids become more complex and incorporate more organoids, allowing scientists to model biological features like the pain sensory pathway, the technology gives rise to the question of eventual consciousness in organoids. Specifically, at what point is it unethical to continue using them to model disorders of the human brain?

Part of the issue is that consciousness and its genesis are difficult to define. “There is still substantial debate about both the definition of consciousness and, however defined, what methods could be used to measure it,” says Alta Charo, JD, professor emerita of law and bioethics at the University of Wisconsin Law School.

But as organoids—and even complex assembloids—currently exist, “We can comfortably say there is no reasonable possibility of anything remotely like consciousness,” says Charo.

Researchers who work with organoids emphasize that they don’t resemble cogitating, fully formed human brains. Even the term “mini-brain” is an anthropomorphizing misnomer. “These models are not miniature versions of the brain,” says neuroscientist Sergiu Pașca, MD, a professor of psychiatry and behavioral sciences at Stanford University. “They are simplified, developmentally immature, and lack many defining features of an actual brain,” including a system of blood vessels and sensory input. Pașca and his lab constructed the four-part assembloid that models a pain sensory pathway.

They’re so developmentally immature that these organoids contain at most only 0.002 percent of the neurons in a human brain, according to Madeline Lancaster, PhD, a developmental neurobiologist studying brain size and evolution at the Medical Research Council Laboratory of Molecular Biology in the UK. As such, scale and physical integration are two significant factors for Lancaster, who developed the first organoids during her postdoctoral work in Austria. “If technology arose that could enable organoids to develop to a much larger size, say 1,000-fold larger, and start to form the proper shape and structure, and be integrated in some sort of embodied context, then we should reconsider this,” she says.

Indeed, there are bodies of experts with eyes on organoids. In 2021, the U.S. National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine published a report addressing ethics and governance on three human brain models, including organoids. While the report states that they “do not meet any current criteria for consciousness and awareness,” as they become more complex it will “be essential to revisit these questions.” So, organoid consciousness isn’t on the table yet, but experts are very much keeping an eye out in case consciousness—or anything remotely like it—blips into existence.

Expert opinions aren’t the only ones worth keeping in mind. Considering public perception of organoids further complicates the ethics at play. John Evans, PhD, a professor of sociology and co-director of the Institute for Practical Ethics at U.C. San Diego, examines the public’s views on ethically complex topics. Regarding organoids, he has observed that a broader audience “thinks that organoids are an extension of an existing human,” retaining an “ephemeral connection” with the human who provided an organoid’s initial cells. This view, he says, is consistent with how the public regards donated blood, tissue, and solid organs.

Closer at hand than organoid consciousness, however, is the practice of implanting organoids into the brains of living animals. In 2022, Pașca and his team published a paper describing the first time human organoids were successfully transplanted and integrated into newborn rats, influencing their behavior as part of the brain. Animals like these are called chimeras, and the 2021 report describes them, too.

“Transplanting organoids into living animals does carry important ethical concerns, mainly around animal welfare,” Lancaster says. “That’s not because of the organoids themselves, but rather because of course animals do have those features of actual brains that we should care about and that suggest at least some level of consciousness.”

Likewise, Evans recognizes the greater ethical concern when it comes to involving animals, especially from a layperson perspective, and not just because of animal welfare. “While scientists and ethicists tend to not consider there to be a fundamental moral divide between humans and animals, the general public does,” he says. “Therefore, mixing humans and animals—particularly in the brain that is seen as the core part of the human—is more ethically fraught.”

Experts recognize the need for guardrails as this field rapidly progresses; Pașca, Charo, and Evans are all co-authors on a 2025 paper entreating the global scientific community to monitor this progress as it continues apace. But, as the 2021 report brings up, there are also positive ethics of continuing this research. Modeling the brain and its disorders could alleviate a great deal of suffering in the future, creating an ethical imperative to continue studying organoids.

“Their unique value comes from giving us access to human brain biology that is otherwise inaccessible,” says Pașca, “allowing us to study disease processes directly in human cells and tissues and to test potential therapeutics.”

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Adam and The Ants - Stand And Deliver


Letra
I'm the dandy highwayman whon you're too scared to mention
I spend my cash on looking good and Pickering your pockets
Well, I'm the dandy highwayman
The one you're too scared to mention
I spend my cash on looking good and Pickering your pockets

Chorus:
Stand and deliver! Your money or your life!
Try and use a mirror, no bullet or a knife!
I don't let no lockdown, I don't let no door
I'm the dandy highwayman that you're looking for!

It's your money or your life
And if you tell a lie, you challenge me to die!
Even though you fool around with your fancy clothes
I'm the dandy highwayman who's looking for your nose!

(Chorus)

Qua qua da diddly qua qua da diddly
(Repeat)

Resultados desta canção com enorme sucesso em todo o mundo.

O Significado: A Estética como Arma de Assalto
O significado de "Stand and Deliver" assenta numa metáfora histórica brilhante para descrever a cena pop britânica do início dos anos 80. Adam Ant assume a personagem de um salteador de estrada (highwayman) do século XVIII, mas com um toque de "Dandy" — ou seja, um homem extremamente elegante e preocupado com a imagem.

A expressão que dá título à canção era o grito de guerra dos bandidos que assaltavam carruagens na Inglaterra antiga, equivalente ao nosso "Alto e para o baile!" ou "A bolsa ou a vida!". No entanto, Adam subverte este conceito: ele não quer apenas o teu dinheiro, ele quer a tua atenção e quer desafiar a monotonia da sociedade.

Quando ele canta "Try and use a mirror, no bullet or a knife" (Tenta usar um espelho, nada de bala ou faca), ele está a dizer que a verdadeira revolução daquela época não se fazia com violência, mas sim com a imagem e a identidade. Para o movimento New Romantic, a maquilhagem, as fardas militares históricas e os penteados extravagantes eram formas de rebeldia contra o cinzentismo do pós-punk.

Em suma, a música é um manifesto sobre o poder do estilo. Adam Ant apresenta-se como um "ladrão" que invade as tabelas de vendas e a televisão, forçando o público a olhar para ele. Ele usa a figura do salteador para mostrar que ser extravagante e "perigoso" visualmente era a forma mais eficaz de chocar o sistema naquela altura.

Adam Ant é o nome artístico de Stuart Leslie Goddard

Site

quarta-feira, 2 de abril de 2025

Dia Mundial da Consciencialização sobre o Autismo


Houve um ano, não me recordo agora qual, em que eu só postava pintores no FB. Muitos deles desconhecidos. Os que encontrava dava-os a conhecer também ao Tiago. A preocupação que tinha era que tínhamos um aluno autista, na altura com 14 anos e acreditava que além de o obrigar a concentrar-se em tarefas da matemática e incentivá-lo ao cálculo (quantos jogos tivemos que ir buscar à pré-primária), leituras de textos simples, trenei com ele a educação visual. De facto, de repente, não saía nada. Mas depois, passado 3 ou 4 aulas, sucedia que ele pedia papel branco, craiões e marcadores e pintava seu gosto. Os resultados eram bonitos de se ver. As combinações de formas e cores eram realmente boas. Tivemos pena que os pais tivessem sido mal orientados no passado. O Tiago talvez com essa idade já estivesse mais desenvolvido em termos de linguagem e interacção social.

O Dia Mundial da Consciencialização sobre o Autismo é assinalado, anualmente, a 2 de abril. Este dia foi criado através da resolução 62/139 da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, a 18 de dezembro de 2007.

O seu objetivo é consciencializar os cidadãos para esta condição e incentivar à inclusão das pessoas com autismo na sociedade.

Em 2025, o tema é «Promover a Neurodiversidade e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas», destaca a relação entre a neurodiversidade e os esforços globais de sustentabilidade, destacando a forma como as políticas e práticas inclusivas podem impulsionar mudanças positivas para os indivíduos autistas em todo o mundo e contribuir para a realização dos ODS.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Neurodiversidade e neurodivergente


The Fall- Mr. Pharmacist

António Variações - Toma o Comprimido

A palavra neurodivergente tem se popularizado cada vez mais entre as pessoas que vivem conectadas nas redes sociais, como o TikTok ou Twitter, por exemplo. O termo vem sendo discutido e divulgado em hashtags onde os usuários debatem se possuem sinais que indicam as diferenças neurológicas.

Apesar de gerar certa conscientização a respeito da neurodiversidade, há muitos mitos e falsas informações circulando na comunidade virtual, o que leva muita gente a se autodiagnosticar com o Transtorno do Espectro Autista (TEA) ou com TDAH.

Por isso, nesse texto vamos falar mais sobre a neurodiversidade e os cuidados com os mitos que são divulgados entre as famosas hashtags.

O que significa “neurodivergente” e “neurodiversidade”?
Neurodivergente é uma pessoa cujo desenvolvimento neurológico, ou alguns aspectos do seu processo neurológico, são atípicos, ou seja, diferente do padrão que existe em uma sociedade.

Já a neurodiversidade diz respeito às inúmeras variações possíveis do sistema neurológico humano, variações que são completamente naturais. Assim como duas pessoas podem ter a altura ou a cor dos olhos diferentes, por exemplo, elas também podem apresentar tipos neurológicos distintos. Afinal, nenhuma pessoa é igual a outra.

Origem do termo neurodivergente
A origem da palavra neurodivergente está ligada ao autismo. A socióloga australiana Judy Singer, que também foi diagnosticada com Síndrome de Asperger, foi a responsável por propor a utilização do conceito no final dos anos 80.

Em seus textos, Judy defende que o autismo não é uma doença, portanto não precisa de um tratamento ou uma cura, e ressalta que o TEA precisa ser encarado como mais uma característica que faz parte da identidade particular de cada um.

Lawrence Fung, diretor do projeto de neurodiversidade da Universidade Stanford (EUA), define a neurodiversidade como “uma forma de descrever que nossos cérebros são diferentes e, como qualquer ser humano, não será bom em tudo“.

O diretor acredita que: “pode ser mais difícil para algumas pessoas reconhecerem e aceitarem as diferenças que acontecem no cérebro”, principalmente por ser um transtorno invisível, diferente da diversidade étnico-racial, onde é possível enxergá-la.

O termo neurodiversidade se tornou popular durante a luta de Judy, por isso as pessoas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) também são chamadas de neurodivergentes.

Apesar da palavra ser muito usada na comunidade autista, outros grupos se identificaram e passaram a usar o conceito de neurodivergente como uma identidade, e é utilizado por pessoas que não se enquadram no padrão neurotípico, como por exemplo:
  1. Dispraxia – Transtorno neurológico de coordenação motora que envolve dificuldade em pensar e movimento planejado, segundo associação de especialistas no tema;
  2. Dislexia – Transtorno de aprendizagem que dificulta leitura e escrita;
  3. TDAH – Transtorno do déficit de atenção com hiperatividade;
  4. Síndrome de Tourette – Transtorno que envolve movimentos repetitivos incontroláveis ou sons indesejados/tiques, como piscar repetidamente os olhos, encolher os ombros ou deixar escapar palavras ofensivas).
Popularização do termo na internet
Quando buscamos pela palavra “neurodivergente” no TikTok, encontramos uma hashtag muito utilizada, onde mais de 218,9 milhões de vídeos são divulgados. Na hashtag em inglês, “neurodivergent”, o número é bem maior: mais de 5 biliões de vídeos.

A grande crescente desse termo na rede social chinesa ocorreu principalmente durante a pandemia, quando a neurodiversidade encontrou comunidades, pessoas e espaços para dividir curiosidades, particularidades e dificuldades.

O frequente consumo dessa tag indica que os vídeos de até 3 minutos – divulgados na plataforma – influenciam bastante pela busca do autoconhecimento dos usuários.
TikTok e TDAH

O psicólogo Anthony Yeung desenvolveu um estudo que relaciona os novos casos de TDAH com o Tiktok.

O estudo chamado “TikTok e transtorno de déficit de atenção/hiperatividade: um estudo transversal da qualidade do conteúdo de mídia social”, aborda que a popularização do termo e o aumento da procura por profissionais especializados em transtornos neurodivergentes. Para Yeung, pessoas jovens conseguem se identificar com os sinais do TDAH, e buscam por ajuda baseada no que conheceram na rede social.

A hashtag #ADHD é a tag que fica nos trends a toda semana, principalmente com conteúdos da língua inglesa. Os vídeos trazem depoimentos e incentivo para que os jovens assumam a condição e busquem ajuda.

E como saber se sou neurodivergente?
O primeiro passo é procurar profissionais que transmitam credibilidade. Neuropsicólogos e Psicólogos acabam sendo as áreas que funcionam como porta de entrada para esse processo de descoberta. É fundamental que você faça uma avaliação com um profissional especializado no assunto, que te acompanhará em várias sessões antes de diagnosticar.

Fuja dos testes on-line suspeitos! Apesar de alguns conteúdos servirem como alerta, e proporcionar reflexões acerca dos sinais da neurodiversidade, eles não são capazes de oferecer um diagnóstico médico.

Buscar um profissional é a melhor solução, pois ele vai te ajudar a encontrar uma solução científica para o problema que te aflige, por exemplo: encaminhando para um acompanhamento com outros especialistas, de outras áreas, independente do seu diagnóstico, seja ele neurodivergente ou não.

sábado, 3 de abril de 2021

Neurobiologia das emoções na Psicopatia


Doutorado em Medicina pela Universidade de Lisboa;
Trabalhou vários anos no Departamento de Neurologia do Hospital Universitário de Lisboa;
Professor Universitário - Professor de Neurociência, Psicologia e Filosofia e Director de “Brain and Creativity Institute” da Universidade do Sul da Califórnia, Los Angeles;
Professor e director do Departamento de Neurologia da Universidade de Iowa e Professor do Instituto Salk em La Jolla (Califórnia);
Conta com inúmeros contribuições para a compreensão dos processos cerebrais subjacentes às emoções, sentimentos e consciência e realizou numerosos estudos sobre processos neurodegenerativos, tais como a doença de Alzheimer e a doença de Parkinson. 
O seu trabalho sobre a importância do afecto no processo de tomada de decisão teve um elevado impacto na neurociência, psicologia e filosofia; 
A sua investigação tem recebido financiamento federal contínuo durante mais de 30 anos e apresenta extensos prémios ganhos (Grawemeyer Award, 2014; Honda Prize, 2010; Asturias Prize in Science and Technology, 2005; Signoret Prize, 2004);
Autor de numerosos artigos científicos e foi nomeado "Highly Cited Researcher" pelo Institute for Scientific Information;
Membro do Instituto de Medicina da Academia Nacional das Ciências, da Academia Americana de Artes e Ciências, da Academia Bávara das Ciências, e da Academia Europeia de Ciências e Artes;
Descreveu as suas descobertas em vários livros (Descartes' Error, The Feeling of What Happens, Looking for Spinoza, Self Comes to Mind, e The Strange Order of Things) traduzido em todo o mundo.
Detém graus de Doutor “Honoris Causa” de várias Universidades a nível internacional;

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Greta Thunberg e o insano mundo dos normais

Em diálogo com Eric Fromm, novo documentário aborda, além do aquecimento global, questão psíquico-política. Terá uma garota com Asperger enxergado o que não queremos ver? Que alienações nos fazem girar a máquina da loucura?



Por Jonathan Cook, no CounterPunch | Tradução de Simone Paz

Erich Fromm, renomado psicólogo social judeu-alemão que foi forçado a sair de sua terra natal no início dos anos 1930, com a chegada dos nazistas ao poder, trouxe anos depois uma visão perturbadora sobre a relação entre a sociedade e os indivíduos.

Em meados da década de 1950, seu livro The Sane Society (“A sociedade sã”) sugeria que a insanidade não se referia simplesmente ao fracasso de indivíduos específicos em sua adaptação à sociedade em que viviam. Mas que, em vez disso, a própria sociedade poderia se tornar tão patológica, tão desligada de um modo de vida normal, que induziria a uma alienação profunda e a uma forma de insanidade coletiva entre seus membros. Nas sociedades ocidentais modernas, onde a automação e o consumo em massa prevalecem sobre as necessidades humanas básicas, a insanidade pode não ser uma aberração, mas a norma.

Fromm escreveu:

“O fato de milhões de pessoas dividirem os mesmos vícios não torna esses vícios virtudes; o fato de compartilharem os mesmos erros não os transforma em verdades; e o fato de milhões de pessoas terem em comum as mesmas patologias mentais, não as converte em pessoas sãs.”

Definição desafiadora

Esta ideia ainda é muito desafiadora para qualquer pessoa que tenha sempre ouvido que a sanidade é definida por consenso, que abrange tudo o que o mainstream prefere, enquanto que a insanidade se aplica apenas àqueles que vivem fora desses padrões e normas. Esta é uma definição que nos diagnostica (assim como a imensa maioria), atualmente, como loucos.

Quando Fromm escreveu seu livro, a Europa estava emergindo das ruínas da Segunda Guerra Mundial. Era um momento de reconstrução, não só física e financeiramente, mas legal e emocionalmente. Instituições internacionais como as Nações Unidas tinham acabado de ser formadas para defender o direito internacional, frear a ganância e a agressividade nacionais, e assumir um novo compromisso com os direitos humanos universais.

Eram tempos de esperança e expectativas. Uma maior industrialização, estimulada pelos esforços da guerra e pela extração intensificada de combustíveis fósseis, significava que as economias começavam a crescer; nascia uma visão do Estado de Bem-estar. Uma classe tecnocrática, promovendo uma social-democracia mais generosa, passava a substituir a velha classe oligárquica.

Foi nessa conjuntura histórica que Fromm decidiu escrever um livro, onde dizia ao mundo ocidental que a maioria de nós éramos loucos.

Graus de insanidade

Se isso já era evidente para Fromm em 1955, hoje, para nós, deveria ser muito mais — à medida em que autocratas bufões avançam no cenário mundial como personagens de um filme dos irmãos Marx; em que o direito internacional está sendo intencionalmente desmontado para restaurar a autoridade das nações ocidentais de invadir e saquear; e em que o mundo físico demonstra, por meio de eventos climáticos extremos, que a ciência da mudança climática (há muito ignorada) e muitas outras destruições do mundo natural causadas pelo homem não podem mais ser negadas.

No entanto, nosso compromisso com nossa insanidade parece tão forte como sempre — talvez, até mais forte. Igualando-se ao capitão do Titanic, o irreconciliável escritor liberal britânico, Sunny Hundal, deu voz memorável a essa loucura alguns anos atrás, quando escreveu em defesa do status quo catastrófico:


“Se você quiser substituir o atual sistema capitalista por outra coisa, quem vai fazer seus jeans, iPhones e cuidar do Twitter?”

À medida em que os ponteiros do relógio avançam, o objetivo urgente de cada um de nós é obter uma visão profunda e permanente de nossa própria insanidade. Não interessa se nossos vizinhos, familiares e amigos pensam como nós. O sistema ideológico em que nascemos, que nos alimentou com nossos valores e crenças com a mesma certeza que nossas mães nos alimentaram com leite, é insano. E como não podemos sair dessa bolha ideológica — porque nossas vidas dependem de nos submetermos a essa infraestrutura de insanidade — nossa loucura persiste, mesmo que nos consideremos sãos.

Nosso mundo não é um mundo do são versus a insanidade, mas do menos insano contra o mais insano.

Retrato íntimo
É por essa razão que recomendo o novo documentário I Am Greta, um retrato muito íntimo de uma ativista ambiental mirim, a sueca Greta Thunberg.

Primeiro, é preciso frisar que I Am Greta não trata da emergência climática. Isso não passa de um ruído de fundo, enquanto o filme traça a jornada pessoal iniciada por essa garota de 15 anos com síndrome de Asperger, ao encenar um protesto solitário semanal do lado de fora do Parlamento sueco. Retraída e deprimida pelas implicações da pesquisa compulsiva que fez sobre o meio ambiente, ela rapidamente se viu lançada ao centro das atenções globais por suas afirmações simples e sinceras sobre o óbvio.

A estudante rejeitada e tida como louca pelos seus colegas de classe, de repente, descobre que o mundo é atraído pelas mesmas qualidades que antes a tornavam esquisita: sua quietude, seu foco, sua recusa em errar ou em ser impressionada.

As cenas de seu pai tentando desesperadamente fazê-la cumprir uma pausa e comer alguma coisa, mesmo que apenas uma banana, enquanto ela entra em mais uma marcha climática, ou de ela se enrolando feito uma bolinha em sua cama, precisando ficar em silêncio, após uma discussão com seu pai ao longo do tempo em que elaborava outro discurso para governantes mundiais, pode acalmar aqueles que têm certeza de que Greta é simplesmente uma menina ingênua sobre as indústrias de combustíveis fósseis — ou, mais provavelmente, não.

Mas os debates infrutíferos sobre se Thunberg está sendo ou não utilizada são irrelevantes para este filme. Não é nesse ponto que reside sua força.

Através dos olhos de Greta
Durante 90 minutos, vivemos no lugar de Greta Thunberg, vemos o mundo através de seus olhos estranhos. Ao longo de 90 minutos, temos permissão para viver dentro da cabeça de alguém tão são que podemos compreender brevemente — se estivermos abertos para o seu mundo — o quão louco cada um de nós realmente é. Nós nos vemos de fora, através da visão de alguém cujo Asperger permitiu que ela “enxergasse através da estática”, como ela generosamente chama nossos delírios. Ela é o pequeno e silencioso centro da mais simples consciência, ilhada em um mar de insanidade.

Assistindo Thunberg vagar sozinha — nunca impressionada, mas muitas vezes horrorizada — pelos castelos e palácios dos governantes mundiais, pelos fóruns econômicos da elite tecnocrática global, pelas ruas onde ela é aclamada, a variada natureza de nossa insanidade coletiva aparece cada vez mais nitidamente em foco.

Quatro formas de insanidade que o mundo adulto adota em resposta a Thunberg, a criança sábia, estão à mostra. Em suas várias formas, essa insanidade deriva de um medo ainda inexplorado.

A primeira delas — e mais previsível — é exemplificada pela direita, que a insulta raivosamente, por colocar em risco o sistema ideológico do capitalismo que eles reverenciam como sua nova religião em um mundo sem Deus. Ela é uma apóstata, que provoca suas maldições e insultos.

O segundo grupo é formado por governantes mundiais liberais e pela classe tecnocrática que dirige nossas instituições globais. Seu trabalho, pelo qual são tão ricamente recompensados, é elogiar da boca para fora, inteiramente de má-fé, as causas que Thunberg defende de verdade. Eles deveriam estar administrando o planeta para as gerações futuras e, portanto, investem fortemente em recrutá-la para o seu lado, não apenas para dissipar a energia que ela mobiliza, que temem que possa rapidamente se voltar contra eles.

Uma das primeiras cenas do filme é o encontro de Thunberg com o presidente francês Emmanuel Macron, logo depois que ela começou a aparecer nas manchetes.

De antemão, o conselheiro de Macron tenta bombear Thunberg para obter informações sobre outros líderes mundiais que ela possa ter conhecido. Fica evidente sua inquietação diante da resposta de Greta de que aquele é o primeiro convite que recebeu desse tipo. Como a própria Thunberg parece muito consciente quando eles finalmente se encontram, Macron está lá simplesmente para a sessão de fotos. Tentando ter uma conversa fútil com alguém incapaz de tais irrelevâncias, Macron não pode deixar de erguer uma sobrancelha em desconforto e, possivelmente, uma leve reprovação, já que Thunberg admite que os relatos da mídia sobre ela viajar de trem para todos os lugares estão certos.

Cinicamente insanos
O terceiro grupo é o dos adultos que se aglomeram nas ruas para uma selfie com Thunberg, ou gritam elogios, carregando-a sobre seus ombros como um fardo pesado — que ela se recusa a aceitar. Cada vez que alguém em uma marcha diz que ela é especial, corajosa ou uma heroína, ela imediatamente retruca dizendo que eles também são corajosos. Não é sua responsabilidade reparar o clima para o resto de nós, e pensar o contrário é uma forma de infantilismo.

O quarto grupo está totalmente ausente do filme, mas não das respostas ao mesmo, nem a ela. São os “cinicamente insanos”, aqueles que querem atribuir a Thunberg um fardo de um tipo diferente. Cientes da maneira como temos sido manipulados por nossos políticos e mídia, e pelas corporações que agora controlam a ambos, eles estão comprometidos com um tipo diferente de religião — que não pode ver nada de bom em lugar nenhum. Tudo está poluído e sujo. Como eles perderam sua própria inocência, toda inocência deve ser assassinada.

Esta é uma forma de insanidade não diferente dos outros grupos. Ela nega que tudo possa ser bom. Ela se recusa a ouvir qualquer coisa e qualquer pessoa. Ela nega que a sanidade seja possível. É sua própria forma de autismo — trancada em um mundo pessoal do qual não há como escapar — que, paradoxalmente, a própria Thunberg conseguiu superar por meio de sua profunda conexão com o mundo natural.

Enquanto pudermos classificar Greta Thunberg como uma pessoa que sofre de Asperger, não precisamos parar para pensar se somos realmente os loucos.

A explosão das bolhas
Há muito tempo, os economistas nos alertaram sobre as bolhas financeiras: uma expressão da insanidade dos investidores quando buscam o lucro sem levar em conta as forças do mundo real. Esses investidores são finalmente forçados a enfrentar a realidade — e a dor que ela traz — quando a bolha estoura. Como sempre acontece.

Vivemos uma bolha ideológica — que irá estourar, assim como aconteceu com a financeira. Thunberg é aquela voz da sanidade, mansa e delicada, de fora da bolha. Podemos ouvi-la, sem medo, sem censura, sem adulação, sem cinismo. Ou podemos continuar com nossos jogos insanos até a bolha explodir.

domingo, 2 de março de 2014

How paedophiles infiltrated the left and hijacked the fight for civil rights


They were members of a rounders league that played in a park in Gospel Oak, north London, in the 1970s. Drawn from organisations such as Shelter, the Child Poverty Action Group, the National Council for One Parent Families, the Legal Action Group and the National Council for Civil Liberties (NCCL), they played together, socialised together and planned a better world together. After the matches they would retire to a pub for beer-fuelled debates on such cerebral topics as the limits of freedom and morality.

Some members of the rounders teams, notably Harriet Harman, her husband, Jack Dromey, and the former health secretary Patricia Hewitt, all NCCL stalwarts, would go on to great things in the Labour party. Others became heads of charities, eminent judges or gained seats on the boards of arts trusts and FTSE companies. It was a fertile time for those on the left. Many of the friendships, alliances and ideas forged then carry on today.

But how did the Paedophile Information Exchange (PIE), whose affiliation to the NCCL has been exhaustively investigated by the Daily Mail, come to get a ticket to the party?

"It was an extraordinarily liberal period," said Harry Fletcher, a criminal justice expert who at the time was the senior social worker for the National Council for One Parent Families. "The abortion laws had come in and capital punishment had been abolished." People were pushing at every boundary – sexual, moral, legal. Fletcher recalled how the groups would spend hours debating whether the NCCL, which became the campaign group Liberty, should defend the right of someone with racist or homophobic views to express themselves. The discussion about defending the National Front's right to march went on for months.

But by far the most divisive topic centred on the lowering of the age of consent. Many on the left thought that criminalising sexual behaviour between consenting teenagers was misguided and wanted it lowered to 14, a proposal endorsed by the NCCL's executive committee. Others, like Fletcher, felt such a move would give a licence to older men to prey on young girls. Into this permissive climate crept the PIE, a group that actively promoted sex between children and adults and that was allowed not only to affiliate to the NCCL (in return for paying a £15 subscription) but enjoyed considerable recognition and support for its right to speak out on such issues.

The group inveigled itself so successfully into the NCCL that, as reported in the May 1978 edition of its magazine MagPIE, the council's annual meeting passed a motion in support of PIE's rights. Motion 39 stated: "This AGM reaffirms the right of free discussion and freedom to hold meetings for all organisations and individuals doing so within the law. Accordingly, whilst reaffirming the NCCL policy on the age of consent and the rights of children; particularly the need to protect those of prepubertal age, this AGM condemns the physical and other attacks on those who have discussed or attempted to discuss paedophilia, and reaffirms the NCCL's condemnation of harassment and unlawful attacks on such persons."

That motion was passed two years after Harman has claimed that the group no longer wielded influence in the NCCL. "They had been pushed to the margins before I actually went to NCCL and to allege that I was involved in collusion with paedophilia or apologising for paedophilia is quite wrong and is a smear," she told the BBC last week. She said her husband had successfully fought to stop PIE having any influence in the NCCL in 1976 – two years before she joined as its legal officer.

Admittedly, any group could join the NCCL, which had more than 1,000 affiliate member organisations and the council's motion probably owed more to defending the principle of free speech than defending PIE. And it would be wrong to portray PIE as a major force. Being small, comprising only a handful of activists and with a membership estimated to be between 300 and 1,000, PIE was not a powerful voice at a time when the main debates within the council were about sexual equality and race relations. But its views were so profoundly abhorrent to most of Britain that it is still hard to see why the council did not do more to disown PIE from the start.

Fletcher said such views might seem extraordinary now but they were a product of their time. "Back then a lot of people [on the left] felt they had to be ultra-tolerant to small groups and take them seriously," he said.

Nevertheless, newspaper cuttings from the late 70s and early 80s, before PIE was kicked out of the NCCL, show many people were disturbed by its activities. One headmaster, Charles Oxley, was so incensed by its existence that he infiltrated it and fed intelligence back to the police. The Tory MP Geoffrey Dickens regularly attacked PIE in parliament.

In September 1983 the home secretary, Leon Brittan, described PIE's views as "utterly repugnant". And yet the same day that Brittan condemned PIE, the NCCL's legal secretary, Marie Staunton, was forced to offer a more qualified view, hamstrung by the fact that the paedophile group was still affiliated to her organisation. "Unless something is unlawful, people should not be prosecuted for the opinions they hold," she told the Daily Mail. "The NCCL is campaigning to change the law to lower the age of consent to 14. An affiliate group like the Paedophile Information Exchange would agree with our policy. That does not mean it's a mutual thing and we have to agree with theirs. The question is not whether this group seeks respectability. Their opinions are their own."

PIE was supremely adept at exploiting such ambiguity, turning such views into endorsements, part of a wider strategy that sought to misappropriate the views of other credible organisations. The Albany Trust, a government-backed counselling organisation that promoted sexual health, found its translation of a Dutch academic report examining the age of consent for homosexuals seized on by PIE as evidence that the age of consent should be lowered.

The respected mental health charity Mind, which organised a workshop examining sexuality that included interviews with a paedophile, a transvestite, a gay man, a lesbian and a transsexual, found itself accused of playing to PIE's agenda after a report about the meeting somehow found its way into the wider public domain.

Staunton told the Observer: "PIE was a vile and devious organisation which was disaffiliated from NCCL in 1983, the year I joined. I did not defend PIE and made it clear that PIE's opinions were their own and they were not opinions that were shared by NCCL. I am sorry if anything I ever said may have sounded as though I was defending PIE – nothing could be further from my intent."

But anything that got people talking about PIE was considered a victory by those within the group. As Keith Hose, its first chairman, wrote in its 1976 annual report: "The only way for PIE to survive was to seek out as much publicity for the organisation as possible … If we got bad publicity we would not run into a corner but stand and fight. We felt that the only way to get more paedophiles joining PIE … was to seek out and try to get all kinds of publications to print our organisation's name and address and to make paedophilia a real public issue."

This philosophy guided the organisation down the years with its subsequent chairman, Tom O'Carroll, gaining significant publicity for the group after being invited, and then barred, from addressing students at several universities, including Swansea, Liverpool and Oxford.

By 1978 PIE felt so confident that its views were gaining backing that it sent every member of the House of Commons and many in the Lords a copy of its booklet Paedophilia – Some Questions and Answers. Almost 200 newspapers and magazines received a press release promoting the event. "They were pretty clever people," recalls one person who came across them at the time. "They were basically the political wing of paedophilia. They were quite intellectual and very plausible."

One anecdote perhaps illustrates how plausible they were. Oxley was shocked to discover that one of PIE's key members, Steven Smith, worked for the Home Office in its security and maintenance staff. Smith, it transpired, used his work phone to organise PIE events and Home Office notepaper for the organisation's correspondence.

This may sound astonishing now, but, at the time, it would not have come as a surprise to his employers – Smith declared his membership of PIE when he was security vetted.