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sábado, 30 de maio de 2026

O adeus a Edgar Morin. 104 a resistir, pensador global, herdeiro do iluminismo

Quando em 2001 lhe perguntaram, à beira da celebração dos 100 anos de vida, onde é que ele ia buscar a transbordante vitalidade, Edgar Morin respondeu: ”É porque consigo ser ao mesmo tempo infantil, juvenil e velho. Admito que mais ou menos adulto, mas não muito.” 

Edgar Morin, um dos últimos mestres do pensamento da cultura contemporânea, sociólogo, filósofo, antropólogo e epistemólogo, morreu a pouco mais de um mês de em 8 de julho chegar aos 105 anos de vida (n.1921, em Paris).

Morin, sempre luminoso e generoso (veio muitas vezes a Portugal, arranjava sempre tempo para quem queria conversar com ele), é um dos últimos herdeiros do Iluminismo. Com mais de 100 livros publicados, continuou até ao fim da longa vida a intervir e a a posicionar-se em muitos dos debates dos nosso tempo (sobre ecologia, sempre sobre a educação, também  questões sensíveis como as caricaturas de Maomé ou a política de colonização israelita, de que era muito crítico). Edgar Morin também ousou imaginar o futuro e interrogar as incertezas do tempo pela frente. Ele gostava de repetir que, do ponto de vista da evolução do pensamento, “ainda estamos na pré-história.”

Ao pensarmos em Edgar Morin pensamos sempre em humanismo. Admirado pelo espírito corajoso e livre, fez da dúvida e da autocrítica ferramentas indispensáveis ​​para a reflexão orientada para enfrentar e entender as metamorfoses e a complexidade do mundo contemporâneo.

Em toda a vida foi um e resistente aos esquematismos ideológicos e aos guetos disciplinares, combateu as arrogâncias, aliou o gosto pela reflexão à relevância da observação, com abordagem interdisciplinar orientada para a concretização da ecologia de ideias que, a par da centralidade da ética, considerava indispensável para chegarmos a uma sociedade mais justa. Para Morin, o trabalho intelectual só faz sentido se resultar em propostas políticas realistas e exequíveis. E, nesta perspetiva, embora consciente dos muitos riscos que o planeta enfrenta, acreditava que os períodos de crise como o tempo de agora são, ainda assim, ricos em potencial, desde que “a civilização ocidental renuncie à obstinada busca de uma ideia de progresso baseada exclusivamente na fé cega no poder da tecnologia e da economia".

Nascido em Paris numa família judaica sefardita, Edgar Nahoum participou ativamente na resistência anti-nazi no início da década de 1940, adotando então pela primeira vez o pseudónimo Morin, que manteria durante toda a sua vida. Após a guerra, frequentou regularmente os meios intelectuais, foi próximo de Marguerite Duras.

Logo a seguir ao final da II Grande Guerra, Morin, oficial da Resistência francesa, foi mobilizado para a Alemanha ocupada. Tinha 24 anos, publicou L’an zéro de l’Allemagne (1946), em que corajosamente propõs a superação do rancor, com aposta na reconciliação franco-alemã. Foi o primeiro título de uma notável bibliografia que, no final da sua vida, contaria com mais de 100 livros. La Méthode, monumental e fundamental obra sociológica e filosófica, foi publicada em seis tomos, ao longo de 17 anos, de 1977 a 2004.

Em Autocritique (1959),Morin relata como foi expulso do Partido Comunista Francês (PCF), de que fora figura de relevo, e reconhece a “cegueira inicial em relação ao estalinismo” que viria a criticar veementemente. Tornou-se também um dos fundadores do comité de intelectuais contra a Guerra da Argélia.

No tempo final de vida, Morin lastimou recorrentemente o estado sombrio do mundo. Quis intervir ativamente em censura à invasão russa da Ucrânia. Publicou um último ensaio,  De guerre en guerre: de 1940 à l’Ukraine (De guerra em guerra: de 1940 à Ucrania). Assentou então: “Estamos a assistir à escalada da desumanidade e ao colapso da humanidade, à escalada do pensamento simplista e ao colapso da complexidade. E, acima de tudo, à escalada para uma guerra mundial que representa o mergulho da humanidade no abismo.” 

No livro de memórias, Les souvenirs viennent à ma rencontre (As Lembranças vêm ao meu encontro), publicado em 2019, quando tinha 97 anos, prenunciou o fim que chegou neste final de 2026 “Eu também partirei para a terra onde cresce a flor de laranjeira.”

Morin resistiu sempre. Contra o populismo, contra o totalitarismo, contra o nacionalismo, contra a violência, contra as ofensas ao ambiente,  contra a desigualdade, contra o ódio, contra a estupidez, contra tudo o que divide e separa. Nunca desistiu, nunca se rendeu.

Morin argumentou ferozmente contra o «reducionismo» — o hábito de dividir os problemas em caixas isoladas e unidisciplinares. Em vez disso, acreditava que os maiores desafios do mundo estão fundamentalmente interligados.

Conceitos-chave que deixa como legado
O trabalho de Morin deu-nos lentes totalmente novas para olhar para as crises modernas:
  1. A Policrise: um termo que co-pioneou para descrever como as crises ambientais, económicas, sociais e políticas não acontecem de forma isolada. Pelo contrário, alimentam-se e amplificam-se mutuamente de forma dinâmica.
  2. O Princípio hologramático: a ideia de que, tal como num holograma, a parte está no todo, mas o todo também está embutido na parte (por exemplo, um indivíduo carrega em si toda a cultura da sua sociedade).
  3. Religação (Reliance): a capacidade humana de construir e sustentar laços significativos, que ele defendeu como a nossa ferramenta máxima de solidariedade num mundo profundamente fragmentado.
«Enquanto for possuído pelas forças da vida, o espetro da morte recua.» — Edgar Morin

Era, como em França gostam de classificar, um maître à penser. O presidente Macron foi certeiro no primeiro comentário ao fim da vida de Edgar Morin: “era o Humanismo feito pessoa.”

Saber mais:

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Diplomata do Mundo: O Papel de Ted Turner no Degelo da Guerra Fria

A influência de Ted Turner no fim da Guerra Fria é um exemplo notável de como o "soft power" e a convicção pessoal podem contornar os canais governamentais tradicionais para alterar o curso da história. Enquanto os diplomatas se mantinham bloqueados em batalhas ideológicas rígidas, Turner atuou como um "diplomata cidadão", alavancando o seu império mediático e a sua fortuna pessoal para perfurar a Cortina de Ferro e humanizar o "inimigo".
Uma das suas contribuições mais significativas foi a criação dos Goodwill Games (Jogos da Boa Vontade) em 1986. Após os boicotes sucessivos aos Jogos Olímpicos de Moscovo, em 1980, e de Los Angeles, em 1984, o intercâmbio atlético e cultural entre as superpotências tinha estagnado completamente. Turner financiou pessoalmente os jogos em Moscovo para reunir atletas americanos e soviéticos, perdendo milhões de dólares no processo, mas alcançando o seu objetivo de provar que a interação pacífica era possível.
Simultaneamente, Turner transformou a comunicação global através da CNN. Ao criar o primeiro ciclo de notícias globais de 24 horas, estabeleceu, de forma não intencional, uma ponte para a diplomacia em tempo real. Os líderes na Casa Branca e no Kremlin podiam subitamente ver os acontecimentos desenrolarem-se no país do outro sem o atraso dos relatórios de inteligência, e Turner utilizou a sua plataforma para transmitir entrevistas com oficiais soviéticos que desafiavam a narrativa simplista do "Império do Mal" frequentemente vista nos meios de comunicação ocidentais.
Esta era testemunhou também o desenvolvimento de uma amizade genuína entre Turner e Mikhail Gorbachev. Turner tornou-se um apoiante assumido das reformas de Gorbachev, a Glasnost e a Perestroika, ajudando a enquadrar estas mudanças como uma oportunidade para a paz e não como um engano tático. A relação entre ambos foi tão profunda que, mais tarde, associaram-se para formar a Green Cross International, unindo as causas da paz e do ambientalismo.
Em última análise, o ativismo de Turner foi movido por um medo visceral da aniquilação nuclear.
Turner defendeu incansavelmente a redução dos arsenais nucleares, argumentando que a verdadeira segurança não vinha da "Destruição Mútua Assegurada", mas da cooperação. Este ativismo culminou mais tarde na criação da Ele defendeu incansavelmente a redução dos arsenais nucleares, argumentando que a verdadeira segurança não vinha da "Destruição Mútua Assegurada", mas da cooperação. Este ativismo culminou mais tarde na criação da Nuclear Threat Initiative (NTI), que trabalha para reduzir os riscos de armas de destruição maciça.
Ele encarava a Guerra Fria não apenas como uma luta política, mas como uma ameaça existencial para o planeta. Ao defender o desarmamento nuclear e ao fomentar a compreensão mútua através do desporto e dos media, ajudou a criar a atmosfera psicológica necessária para que o conflito terminasse sem que um único tiro fosse disparado entre as duas superpotências. O seu legado permanece como um testemunho da ideia de que a segurança global é melhor alcançada através do diálogo e da humanidade partilhada.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Faleceu António Lobo Antunes

Morreu António Lobo Antunes (1942-2026): "Já estou coberto de glória, mas isso não interessa nada, queria era fazer livros bons"

António Lobo Antunes - o Escritor maior e grande contador de histórias
“Eu não quero nem que me compreendam, nem que me discutam, quero que apanhem os livros como quem apanha uma febre.”
Figura maior da literatura portuguesa tinha 83 anos. Entre crónicas e romances, deixa-nos uma vasta obra, com mais de 40 livros escritos entre 1979 e 2024. Venceu o Prémio Camões em 2007.
Especializou-sem em Psiquiatria na Faculdade de Medicina em Lisboa. Em 1970, foi mobilizado para o serviço militar, período que foi central na sua obra, começando pelos primeiros livros, “Memória de Elefante”, “Os Cus de Judas” e “Conhecimento do Inferno”.
A sua obra foi traduzida em várias línguas, e o escritor foi, durante décadas, apontado como candidato ao Prémio Nobel da Literatura.

António Lobo Antunes e actividade Política
António Lobo Antunes manteve, ao longo da sua vida, uma relação complexa e frequentemente crítica com a política, caracterizando-se por uma postura de independência e um ceticismo profundo em relação às instituições partidárias. Embora tenha tido momentos de aproximação, como quando integrou as listas da Aliança Povo Unido (APU) nas legislativas de 1980, o escritor rapidamente se afastou, justificando que a sua natureza individualista e rebelde era incompatível com a disciplina de qualquer partido. Mais tarde, em 1985, manifestou um apoio público à candidatura presidencial de Maria de Lourdes Pintasilgo, movido por uma convicção íntima nos seus valores. Em anos posteriores, chegou a admitir que, na falta de alternativas, o seu voto tenderia para o Partido Socialista, embora notasse com nostalgia que a força política já não era a mesma dos tempos de Mário Soares.

Para Lobo Antunes, a política era vista através de uma lente quase irracional; ele defendia que as opções políticas eram tão afetivas como as escolhas de clubes de futebol, argumentando que as ideologias tradicionais se estavam a dissolver em fórmulas caducas. Esta visão era acompanhada por uma indisfarçável antipatia pela classe política, moldada em grande parte pelo trauma da Guerra Colonial. O autor nunca perdoou os líderes que enviavam homens para o combate sem nunca terem vivido o horror da guerra. No plano social, as suas posições foram igualmente marcantes: causou polémica ao defender o Iberismo — a ideia de que Portugal e Espanha deveriam ser um só país — e utilizou frequentemente a sua voz para denunciar a pobreza, a desigualdade social e o abandono da classe média, que considerava serem as verdadeiras raízes da violência na sociedade. 

Recordo-me bem destas entrevistas: Por Outro Lado: 2001 e 2006

domingo, 1 de março de 2026

Europe: From the myth of denazification to suicidal Russophobia or The Triumph of the Kakistocracy


The European ruling class is in a terminal state. Elizabeth Kübler-Ross, the Swiss psychiatrist who dedicated herself to treating terminal patients, identified five stages of grief that we go through when we lose someone. The first stage of grief described by Kübler-Ross is denial. Faced with the loss of its prestige, influence, and economic power, and above all with the rise of China and the other BRICS countries, the European ruling class reacts exactly as predicted in this first stage of grief: with denial.

Very angry, confused and astonished by the profound transformations of the world, the European ruling class vehemently denies its own inevitable decline, its growing impotence and the definitive end of the colonial period, its glorious past.

This class, which in 2022 reacted euphorically to Russia’s special military operation in Ukraine, certain of a quick victory in which economic sanctions combined with NATO’s military might would lead to Russia’s defeat and the fall of Vladimir Putin, opening the door to the exploitation of Russia’s natural resources and its colonization by the West, now desperately denies that Ukraine and NATO’s entire arsenal have already been defeated, violently punishing those voices in Europe who dare to state the obvious, that this war is already lost. The mainstream European press, spokesperson for this dying class, without realizing its own ridiculousness, persists in spreading the most absurd lies about the Russian “threat,” about the “imminent collapse” of the Russian economy and its inevitable future, always future, defeat in Ukraine. Denying reality so emphatically does not change reality, it only makes the enormous and lamentable effort of denial even more pathetic. In its terminal state, the European ruling class has lost all shame and credibility, but it is still capable of causing a great deal of harm. To better combat it, then, it is important to remember a little of its history and denounce its most dangerous lies.

The European ruling class and the myth of denazification
The myth of denazification at the end of World War II is a fundamental pillar in the construction of the supposed “moral superiority” of the European ruling class, which is so important in legitimizing its control. This class presents itself as a proud defender of democracy and human rights, as a historical enemy of Nazism and all fascist movements.

The truth that this class tenaciously seeks to hide is that the reconstruction of European capitalism that allowed its own rise to power was carried out with the support and participation of Nazis and Nazi collaborators, especially in Germany.

At the end of World War II, Germany was divided into distinct occupation zones by the Allied armies—the US, the UK, France, and the USSR. However, as historian Mary Fulbrook wrote in her book A History of Germany 1918–2014, there was a huge difference in the treatment of Nazis and their collaborators between the Soviet occupation zone and the other zones:

“In the Soviet zone, given the primarily structural and socioeconomic interpretation of Nazism which prevailed, major efforts were devoted to the land reform which served to abolish the Junker class, the resources of certain Nazi industrialists were expropriated and there were reforms of industry and finance which had not merely reparations as their aim, The Soviets were concerned also to oust individual Nazis from important positions. They carried out purges not only in the political and administrative spheres, but also in the teaching profession and the judiciary.”

“Quite apart from their attempts to gain some sort of compensation for the enormous material and human losses imposed on them by German aggression, the Soviets implemented certain economic policies designed so to transform the socioeconomic structure of their zone that could never again, in the Soviet view, be the material basis for a Nazi capitalist militarism. They sought to eradicate the Junker class and the large capitalists in a stroke.”

Regarding the occupation by Western powers, Mary Fulbrook states:
“It is notable that, in contrast to the Soviet zone, there were no radical transformations in economic structure in the Western zones of occupation.”

“Denazification lurched along in curious ways in the Western zones. It was not quite clear whether the aim was to punish or to rehabilitate former Nazis; and whether the intention was to cleanse the political, administrative and economic spheres of their presence, or to cleanse former Nazis of the taint of Nazism in order to reinstate them in their former areas of expertise. In contrast to the Soviet zone, which effected a major restructuring of society, along with a replacement of the old elites by new personnel, as well as permitting individual rehabilitation, the Western zones tended towards rehabilitation rather than transformation.”

Also, according to Mary Fulbrook:

“Nevertheless, it can be argued that in more subtle, less immediately obvious ways, there was in fact a major socioeconomic reorientation taking place in the Western zones of Germany. In the immediate postwar period, many people thought the way was open for a socialist transformation of Germany. The Allies’ decision to suppress indigenous anti-fascist groups and support moderate and conservative political parties was paralleled in the sphere of economic policy. Indigenous demand, for example, for the socialization of mines, were peremptorily dealt with by the Americans. Socialization measures proposed by the Land governments of Hesse and North-Rhine-Westphalia were suppressed by the Americans and – under American pressure – the British respectively. Subtle pressures were exerted by the Americans to split communist and socialist trade unions, to isolate the former and moderate the latter.”

Finally:

“Former Nazis, both the committed and the conformists, were able to fit easily into Adenauer’s Germany. Although in the immediate postwar period about 53,000 civil servants had been dismissed for membership in the NSDAP, only 1,000 were excluded permanently from any future employment. Under the 1951 Reinstatement Act many were reemployed in the civil service and obtained full pension credits for their service in the Third Reich. By the early 1950s between 40 and 80 per cent of officials were former NSDAP members. Similarly, only a very few members of the judiciary were permanently disqualified. Former Nazis were even able to gain prominent positions in public life. Adenauer was quite prepared to include former Nazis in his cabinet, such as former SS-member Oberlaender as Minister for Refugees. Perhaps the most controversial of Adenauer’s appointments was that of Hans Globke, the author of the official commentary of the Nuremberg Race Laws of 1935, as Adenauer’s chief aide in his Chancellery. “

Regarding the courts responsible for prosecuting Nazis, Mary Fulbrook comments:

“The tribunals soon came to be likened to laundries. One entered wearing a brown shirt and left with a clean starched white shirt instead. Denazification had finally become, not the cleansing of German economy, administration and society of Nazis, but rather the cleansing and rehabilitation of individuals.”

David de Jong, a Dutch journalist who has investigated some particular cases of Nazi industrialists and bankers in Germany, published in 2022 the book Nazi Billionaires – The Dark History of Germany’s Wealthiest Dynasties, where he informs:

“By 1970, Friedrich Flick, August von Finck, Herbert Quandt and Rudolf-August Oetker made up West Germany’s top four wealthiest businessmen in descending order of fortune. All four were former members of the Nazi Party; one of them had been a volunteer Waffen-SS officer; they had all become billionaires.”

In his book, David de Jong devotes special attention to the use of forced labor of prisoners of war in factories in Germany and occupied countries. Mentioning Friedrich Flick, for example, the author writes:

“By 1943, those performing forced labor at Flick’s coal mines increasingly consisted of women and children deemed fit for work in the open-pit mines. Many were Russian teenagers from thirteen to fifteen. By the time Flick’s sixty-first birthday came around, his conglomerate had 120,000 to 140,000 workers. About half of them were forced or enslaved.”

And also:

“IG Farben, Siemens, Daimler-Benz, BMW, Krupp, and various companies controlled by Günther Quandt and Friedrich Flick were some of the largest private-industry users of forced and salve labor.”

“Slave labor collaborations between SS-run concentration camps and German companies included Auschwitz with I.G. Farben, Dachau with BMW, Sachsenhausen with Daimler-Benz, Ravensbrück with Siemens, and Neuengamme with Günther’s AFA, Porsche’s Volkswagen, and Dr. Oetker.”

Ferdinand Porsche, the famous designer and owner of the car factory that bears his name and also of Volkswagen, was a dedicated collaborator with the Nazi regime and a producer of weapons for the German army. Porsche used slave labor not only in Germany, but also at the Volkswagen factory in occupied France. According to de Jong, Porsche was acquitted by a court in Dijon, France, in 1948. And, according to de Jong, “not even mentioned in the trial” was the use of “thousands of French civilians and soldiers as forced laborers and slaves in the Volkswagen complex.”

In 1951, at the height of the Adenauer era, the Stille Hilfe (Silent Help) Association was founded in Germany. The German organization Zukunft braucht Erinnerung (The Future Needs Memory) (1) states on its website that Stille Hilfe is “an organization that was primarily dedicated to supporting Nazi murderers, but which, unfortunately, only became known to the public very late and in a rudimentary form. What was frightening about this aid organization, apart from its incomprehensible intentions, was the fact that certain people were involved in it or supported it. At least until 2011, the organization was still very active.”

Its founder, Princess Helene Elisabeth von Isenburg, devoted herself mainly to providing legal assistance to Nazi war criminals sentenced to death who were imprisoned in Landsberg Prison, under Allied control. She became known as the “Mother of the Landsbergers.” This association also provided financial assistance to Nazi criminals and their families.

It is also important to mention the Blue Division, a group formed by Spanish Francoist volunteers who joined the Nazi army in the fight against the Soviet Union. In 2015, several members of the Die Linke party in Germany questioned the German government (2) about the payment of around €100,000 per year in pensions that were still being made to these former Nazi combatants and their families by the German government, which the Die Linke party considered scandalous. (3)

The fact that an association with the objectives of Stille Hilfe could have been created in Germany in 1953 and that pensions to former Nazi combatants from a foreign country were still being paid in 2015 by the German government are two more striking pieces of evidence against the myth of denazification. Similar events occurred throughout Western Europe, where Nazis and their collaborators played an important role not only in the reconstruction of European capitalism but also in the repression of popular movements demanding revolutionary changes in social organization, such as the socialization of mines mentioned by historian Mary Fulbrook. It was this popular pressure that led to the creation of the welfare state in countries such as Germany, France, and England. It is important to remember that capitalism as an economic system emerged from the war completely discredited and had to be reimposed throughout Europe by the United States with the collaboration of the former European elites who had supported fascism in Italy and Nazism in Germany. With the end of World War II, the fascists, Nazis, and their collaborators had another function of the utmost importance: the fight against the USSR.

The many faces of Russophobia
Russophobia in both Europe and the US have a long history, dating back to the Russian Revolution of 1917. The Cold War period accentuated Russophobia, which became firmly established even in popular culture, where Soviets were always portrayed as caricatured villains in a wide variety of films and books. Paradoxically, it was after the dissolution of the USSR in 1991 that Russophobia took on new dimensions. The years of Boris Yeltsin’s presidency in Russia from 1991 to 1999 were a period of great euphoria in the West regarding its former adversary. The USSR had been defeated, and Russia’s immense natural resources were now available for privatization. According to IMF estimates, capital flight from Russia in the 1990s amounted to about $150 billion. The country was plunged into chaos and economic depression, and in the eyes of the West, Russia was very close to becoming a new Western colony. Upon succeeding Yeltsin in 1999, Vladimir Putin managed to reverse this process of political and economic decline, preventing the neo colonization of Russia, which the West has never forgiven. This is the origin of the demonization of Vladimir Putin, an important ingredient fueling current Russophobia. With the special military mission in Ukraine, Putin has once again thwarted the interests of the West. Through a proxy war in Ukraine, Western powers, with their economic blockades and NATO’s military might, hoped to destroy the Russian economy, overthrow Putin’s government, and put someone like Yeltsin in power in Russia.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Mariana Mortágua, o ISCTE e a pós-verdade



Primeiro ponto: a frase "o ISCTE é um nicho de esquerditas" é tão firme e mentirosa, que se transforma em pós-verdade.
Precisamente é na área de Gestão e Economia do ISCTE onde a Direita e os Liberais têm mais peso e presença que investigadores "socialistas". O ISCTE mantem a pluralidade

O ISCTE é muitas vezes associado a uma matriz de pensamento mais próxima da esquerda ou do centro-esquerda, em parte devido à forte tradição nas Ciências Sociais e à ligação de vários dos seus fundadores e docentes ao Partido Socialista. Contudo, na faculdade de gestão (IBS - Iscte Business School) e no departamento de Economia, encontram-se vozes que defendem o liberalismo económico, a eficiência de mercado e críticas à intervenção estatal excessiva. Figuras da área jurídica no ISCTE tendem a apresentar visões mais próximas do constitucionalismo clássico, muitas vezes associado ao centro-direita.

Investigadores do ISCTE nitidamente de Direita e Liberiais .

Segue lista: 
João Duque: Embora seja mais conhecido pela sua ligação ao ISEG, tem colaborações e é uma voz influente na análise económica com uma perspetiva liberal e de mercado.
Paulo de Andrade: Professor e economista que frequentemente apresenta análises críticas à despesa pública e à carga fiscal, alinhadas com o pensamento económico de direita.
Pedro Lomba: Jurista e professor que, embora com um perfil académico vasto, é uma figura pública claramente identificada com o PSD, tendo ocupado cargos em governos deste partido.
Nuno Garoupa: Embora com uma carreira internacional muito forte, as suas passagens e colaborações académicas em Portugal (incluindo o ISCTE em certas fases) trazem uma visão da Análise Económica do Direito que é fortemente influenciada por escolas de pensamento liberais.
Riccardo Marchi: Investigador no Centro de Estudos Internacionais (CEI-Iscte), é um dos maiores especialistas em Portugal sobre a "nova direita" e movimentos de direita radical. Embora o seu trabalho seja académico, a sua presença mediática é constante na análise e explicação do crescimento da direita e extrema-direita na Europa.
João Pedro Vidal Nunes: Professor da Iscte Business School (IBS), é uma voz ativa em órgãos internos e tem um perfil mais focado na gestão e economia, áreas onde o pensamento liberal e de eficiência de mercado é mais prevalente.
Filipe Nunes: Professor Associado, tem um currículo que inclui assessoria em governos e instituições internacionais. Embora com um perfil técnico, a sua área de atuação em Políticas Públicas e Relações Internacionais cruza-se frequentemente com quadros de pensamento mais institucionais e de centro-direita.
Sandro Mendonça: Professor Associado na IBS e antigo administrador da ANACOM. Embora o seu foco seja Economia da Inovação, as suas análises sobre regulação e mercado tendem a ser pragmáticas e menos ideologizadas à esquerda do que as de colegas de outros departamentos.
João José Trocado da Mata: Professor Auxiliar Convidado, é também advogado e tem intervenção na área do Direito das Políticas Públicas. 

Por fim é interessante notar que o ISCTE é frequentemente o palco de "duelos" intelectuais. Por exemplo, enquanto o departamento de Economia tem nomes como Ricardo Paes Mamede (identificado com o pensamento desenvolvimentista e de esquerda), a Business School funciona como um contraponto natural, com docentes acima listados que defendem a iniciativa privada, a redução da carga fiscal e a competitividade.
Também é comum que figuras públicas como Helena Garrido (jornalista económica com visão liberal) ou José Gomes Ferreira tenham ligações académicas ao ISCTE (como ex-alunos ou convidados), o que reforça a ideia de que a instituição, apesar da sua fama, é um espaço de debate plural.

Também enquanto o departamento de Economia tem nomes como Ricardo Paes Mamede (identificado com o pensamento desenvolvimentista e de esquerda), a Business School funciona como um contraponto natural, com docentes que defendem a iniciativa privada, a redução da carga fiscal e a competitividade.

Segundo ponto: outra mentira partilhada intensamente nas redes sociais é que Mariana Mortágua só começou a dar aulas no ISCTE depois de deixar o Parlamento. Falso. Mais uma pós-verdade.

A Mariana Mortágua é doutorada desde 2019, foi sujeita a um concurso em 2023 e foi seleccionada para o ISCTE.
Ainda bem que temos a Mariana Mortágua que defende uma intervenção estatal forte no mercado imobiliário e limitação de alojamentos locais/rendas e uma maior taxação sobre grandes fortunas (o que levou à criação do Adicional ao IMI, popularmente chamado de "Imposto Mortágua").

sábado, 24 de janeiro de 2026

JP Simões & Norberto Lobo - Canção da Paciência


O último disco em que José Afonso participou activa e integralmente. Passou despercebido a muita gente (que, provavelmente, achou terem sido suficientes as lágrimas vertidas por altura do espectáculo do Coliseu) e, no entanto, é um testemunho espantoso de vitalidade e lucidez criativa. Gravado entre Novembro de 82 e Abril de 83, com arranjos repartidos por Júlio Pereira, José Mário Branco e Fausto (concebidos, em boa parte dos casos, a partir de ideias de Zeca, como, de resto, aconteceu com a grande maioria das suas composições), constitui um verdadeiro olhar em volta, amadurecido e calmo, só possível por parte de quem viveu a vida com muita intensidade, com muita paixão. Uma autêntica viagem entre a utopia e o desencanto, é o que nos oferece Zeca Afonso neste álbum magnífico, onde é possível descobrir todas as memórias cruzadas dos tempos vividos, os desejos insatisfeitos, os sonhos. Onde pode descobrir-se, por exemplo, um dos mais belos poemas sobre o 25 de Abril («Papuça»), uma reflexão serena e quase existencial sobre o que se fez e o que ficou por fazer («Canção da Paciência»), uma certa angústia que não renega, antes reforça, tudo aquilo por que se passou («Eu Dizia»). E, também, a crítica acutilante («O País Vai de Carrinho»), o prazer dos sons e das novas experiências («O Canarinho»), a esperança que não morre («Utopia»). Um disco ao nível dos melhores, capaz de sobreviver aos tempos e às fronteiras.

Muitos sóis e luas irão nascer
Mais ondas na praia, rebentar
Já não tem sentido ter ou não ter
Vivo com o meu ódio, a mendigar

Tenho muitos anos para sofrer
Mais do que uma vida, para andar
Beba o fel amargo, até morrer
Já não tenho pena sei esperar

A cobiça é fraca, melhor dizer
A vida não presta, para sonhar
Minha luz dos olhos que eu vi nascer
Num dia tão breve a clarear
As águas do rio, são de correr
Cada vez mais perto, sem parar
Sou como o morcego, vejo sem ver
Sou como o sossego, sei esperar

sábado, 10 de janeiro de 2026

Filme - O Triunfo dos Porcos (1954)


Escrita por George Orwell em plena Segunda Guerra Mundial e publicada em 1945 depois de ter sido rejeitada por várias editoras, essa pequena narrativa causou desconforto ao satirizar ferozmente a ditadura stalinista numa época em que os soviéticos ainda eram aliados do Ocidente, na luta contra o eixo nazifascista. Contudo, com o acirramento da Guerra Fria, o livro passa a ser amplamente usado pelo Ocidente nas décadas seguintes como arma ideológica contra o comunismo. O próprio Orwell, adepto do socialismo (Orwell  definia-se como um “socialista democrático”) e inimigo de qualquer forma de manipulação política, sentiu-se incomodado com a utilização de sua fábula como panfleto. 

Resumo da obra e filme animado
O Triunfo dos Porcos é uma fábula política que utiliza uma quinta para criticar o totalitarismo e mostrar como o poder pode corromper. Na Quinta do Solar, os animais vivem sob o domínio do Sr. Jones, um fazendeiro cruel e negligente. Inspirados pelo discurso do velho porco Major, que sonha com uma sociedade igualitária sem humanos, os animais decidem rebelar-se contra o seu dono. Após a morte de Major, os porcos Napoleão e Bola-de-Neve lideram a revolta. Os animais expulsam o Sr. Jones e assumem o controlo da quinta, renomeando-a Quinta dos Animais, passando a trabalhar juntos sob o lema “todos os animais são iguais”.

Rapidamente surgem disputas entre Napoleão e Bola-de-Neve. Napoleão utiliza estratégias violentas e manipulação para expulsar Bola-de-Neve, concentra o poder em si, controla a informação e cria uma polícia secreta de cães para intimidar os outros animais. Com o tempo, Napoleão e os porcos começam a viver luxuosamente, enquanto os restantes animais enfrentam dificuldades e veem os princípios da revolução serem alterados. A máxima “Todos os animais são iguais” transforma-se em “Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que outros”.

No final, os porcos tornam-se indistinguíveis dos humanos e os animais percebem que a liberdade conquistada foi perdida, com a quinta a voltar a ser dominada por uma elite poderosa e corrupta. O livro transmite uma crítica à corrupção do poder e à manipulação política, mostrando como revoluções podem ser traídas por aqueles que deveriam defendê-las, sendo também uma metáfora da Revolução Russa e do surgimento do totalitarismo soviético.

Personagens

Porcos
Major – Um velho porco doméstico premiado em uma exposição que dá a inspiração que alimenta a rebelião no livro. É uma alegórica combinação Karl Marx, um dos criadores do comunismo, e Lenin, líder comunista da Revolução Russa e da recém-criada União Soviética, onde elabora os princípios da revolução. Seu crânio sendo colocado em exposição pública reverenciado lembra Lenin, cujo corpo embalsamado foi colocado em exposição.

Napoleão – Grande porco da raça Berkshire. De poucas palavras, mas com reputação de possuir um braço forte. É comumente associado como alegoria de Joseph Stalin.

Bola de Neve – Rival de Napoleão e líder após a queda de Jones. É comumente associado como alegoria de Leon Trótski.

Garganta – Porta-voz de Napoleão. É comumente associado como alegoria de Viatcheslav Molotov ou ao Pravda

Equinos
Sansão – O mais devotado dos animais. Trabalhador incansável, segue duas máximas na vida: "Trabalharei cada vez mais" e "Napoleão tem sempre razão", geralmente sendo uma alegoria ao proletariado.

Benjamim – O mais céptico dos animais. Não acredita na revolução e mantém-se alheio às disputas políticas. Há interpretações que o colocam como a representação do autor, na quinta.

Outros Animais
Ovelhas – Limitadas intelectualmente, as ovelhas não sabem ler e não conseguem memorizar todas as regras da granja, resumindo-se a balir incessantemente "Quatro pernas bom, duas pernas mau!". Em diversas passagens, debates são impossibilitados pela barulheira do rebanho.

Cães – Tirados da mãe logo cedo e criados por Napoleão, tornam-se sua guarda pessoal. São eles os responsáveis por ajudar Napoleão no golpe contra Bola-de-Neve e também em mantém os outros animais sob controle, através da violência e do medo, representando a KGB

Moisés – Corvo domesticado de Jones, foge depois da revolução para reaparecer algum tempo depois, sempre incentivando os animais a acreditarem que uma vida melhor os espera no céu, com várias promessas que incluem montanha de amar e feno à vontade. Apesar de não trabalhar, sua presença é tolerada pelos porcos, sendo a representação da Igreja

Humanos
Sr Jones – Dono da Quinta do Solar. Alcoólatra e cruel com os animais, que sofrem pelo chicote e pela fome, sendo uma representação do czar Nicolau II

Sr Frederick – Dono da Quinta Pinchfield, uma pequena fazenda vizinha a A Quinta dos Animais. Entra brevemente em aliança com Napoleão, para depois atacar a Granja. É comumente associado como alegoria de Adolf Hitler, e o acordo e o ataque a Pacto Molotov-Ribbentrop e Operação Barbarossa, respectivamente.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Não é o socialismo: como o capitalismo morre


Muitos liberais e conservadores que defendem o bom e velho capitalismo tendem a encarar o socialismo como o seu principal rival. Estão a mirar no alvo errado. Nota: socialismo e democracia dizem respeito, sobretudo, a arranjos políticos, enquanto capitalismo e economia planeada são arranjos económicos. A oposição relevante, portanto, não é apenas entre “capitalismo” e “socialismo”, mas entre diferentes formas de organizar o poder político e económico.

A discussão aqui desenvolvida é que o capitalismo não é a condição normal da vida económica da humanidade. A condição “normal” é a economia de compadrio (cronyism): um sistema no qual elites políticas e económicas cooperam para obter privilégios em benefício próprio.

O capitalismo — entendido como mercados impessoais, com direitos de propriedade estáveis, possibilidade de entrada e saída, alguma previsibilidade institucional — só conseguiu emergir, e de forma sempre parcial e frágil, quando estruturas jurídicas e institucionais deixaram de proteger, ou passaram a limitar, essa economia de compadrio.

É facto que o socialismo representou, ao longo do século XX, uma grande ameaça ao sistema económico que mais elevou o padrão de vida da humanidade. No entanto, a competição histórica entre economias de mercado e regimes de planeamento central confirmou algo que hoje é amplamente reconhecido: uma economia de mercado é capaz de gerar resultados superiores a um arranjo em que um grupo restrito de burocratas, num sistema de partido único, toma todas as decisões económicas.

Os socialistas que admiravam a URSS — onde os meios de produção eram controlados por um partido que supostamente “representava” o povo — sofreram um choque profundo com a sua dissolução.

Após a vitória ocidental na Guerra Fria, alguns liberais concluíram que o “fim da história” havia chegado: a democracia liberal e o capitalismo teriam demonstrado a sua superioridade e nada mais poderia ameaçar a sua hegemonia.

A China, porém, introduziu um elemento de complicação nesse quadro. Trata-se de um modelo híbrido: sistema político fechado, de partido único, combinado com uma economia relativamente liberalizada em vários setores, mas com forte intervenção e controlo sobre grandes empresas. Ainda assim, é algo bastante distinto da rigidez económica da antiga URSS.

Hoje, o capitalismo continua a ser questionado como sistema económico sustentável, mas as alternativas apresentadas como substitutas pouco inovam. Em geral, são releituras de modelos anteriores que tentam apenas corrigir falhas já conhecidas de arranjos estatistas.

Os críticos apontam, com razão, para a crescente parceria entre elites políticas e económicas, que alimenta a estagnação, a desigualdade e a erosão democrática. Marx não foi o primeiro a constatar este entrelaçamento.

Os liberais clássicos, por sua vez, também condenaram os privilégios e a procura de rendas (rent seeking) gerados pelo Estado através do conluio, ainda que cheguem a diagnósticos distintos. Adam Smith tentou alertar-nos:

“A proposta de qualquer nova lei ou regulamento comercial que provenha desta classe deve ser sempre examinada com grande precaução e cautela, não só com a atenção mais escrupulosa, mas também com a maior desconfiança. É uma proposta que advém de uma classe de pessoas cujo interesse jamais coincide exatamente com o do povo, as quais, em geral, têm interesse em enganá-lo e mesmo oprimi-lo e, consequentemente, têm, em muitas oportunidades, tanto iludido como oprimido esse povo” (SMITH, 2023, p. 228).

Smith via o mercantilismo como um sistema que enriquecia interesses particulares e enfraquecia a prosperidade geral. De facto, essa descrição ajusta-se ao sistema económico vigente no Brasil: um arranjo no qual elites políticas e económicas cooperam para obter benefícios mútuos à custa da sociedade.

O caso recente do Banco Master, os escândalos de corrupção envolvendo a JBS, Odebrecht, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, Braskem e uma lista praticamente inesgotável de empresas com forte envolvimento político ilustram claramente este padrão.

Diante deste quadro, o “socialismo” chinês — ou qualquer variação contemporânea de experiência estatista — não é a maior ameaça ao capitalismo. A ameaça principal vem de dentro: do entrelaçamento entre grandes empresários, políticos, burocratas e juízes.

A maioria dos defensores do capitalismo interpreta a situação atual como uma traição aos princípios originais do sistema, um subproduto não intencional do ideal de liberdade natural de Adam Smith. Nota: dentro da tradição da Escola de Virgínia, há um debate importante: de um lado, a visão de que o capitalismo tende a evoluir para um “capitalismo de compadrio”, à medida que grupos de interesse aprendem a usar o aparelho estatal em seu favor; de outro, a perspetiva de que mercados e Estados estão inerentemente entrelaçados, de modo que o cronyism é uma característica recorrente — e não uma anomalia — de todas as economias políticas.

Já os críticos de inspiração marxista afirmam que o Estado é um comité que administra os interesses da burguesia (MARX; ENGELS, [2024], p. 46). Esta análise capta parte da realidade, mas é incompleta e enganosa. Parte da premissa de que a captura do Estado é uma via de sentido único, na qual agentes económicos subordinam a autoridade política. Nesta leitura, o capitalismo é o problema.

O erro começa ao tratar políticos como déspotas benevolentes ou figuras ingénuas, sem poder próprio de decisão, supostamente manipuladas por capitalistas gananciosos. Tal como contribuintes, consumidores e eleitores — que, em larga medida, são as mesmas pessoas — têm os seus interesses, os políticos e os grandes empresários também têm os seus. O que vemos não é um lado “puro” corrompido pelo outro, mas um conluio de interesses: uma ordem de laços ou compadrio em que elites políticas e económicas se reforçam mutuamente — e em que a sociedade paga a conta.

Esta forma de análise parte de uma redução simplista de “mercado” e “Estado”, quando, na verdade, deveríamos olhar para os indivíduos. Apenas os indivíduos agem. A unidade básica de decisão é o indivíduo. Coletivos não são agentes que “tomam decisões” por si mesmos; toda a decisão coletiva é sempre o resultado de algum mecanismo de escolha — votação, negociação — baseado nas decisões individuais.

O “Estado” não é um bloco monolítico orientado por objetivos homogéneos; é um conceito abstrato que reúne uma multiplicidade de objetivos que, muitas vezes, são conflituosos entre si. Um exemplo pode ser visto quando o Estado – encarado como o monopólio legítimo da força – oferece serviços de segurança e policiamento. De um lado, há órgãos que querem endurecer punições, ampliar o poder da polícia, facilitar prisões e alargar o uso da força. De outro, há instituições que defendem garantias individuais, o devido processo legal, limites à ação policial, proteção de minorias e a redução do encarceramento em massa.

Algo semelhante ocorre no que chamamos de “mercado”: algumas empresas produzem e comercializam cigarros, enquanto outras vendem pastilhas e medicamentos para ajudar as pessoas a deixar de fumar. Não há um “propósito único” do mercado, mas uma multiplicidade de estratégias e objetivos individuais que, em conjunto, produzem resultados muitas vezes contraditórios.

E por que razão os interesses destas elites – que são minorias – prevalecem sobre os interesses do resto da sociedade? Pelo mesmo motivo apontado anteriormente: a sociedade não é um bloco monolítico dotado de um interesse homogéneo.

A maioria das pessoas está ocupada a trabalhar, a ganhar a vida, a cuidar da família e a ter algum tempo para o lazer. Do ponto de vista individual, faz pouco sentido investir tempo e esforço para se informar profundamente sobre política ou para tentar mudar o governo, porque a probabilidade de a sua opinião ou o seu voto alterarem o resultado é extremamente baixa. Trata-se do problema da ignorância racional: é racional para o cidadão médio não se envolver politicamente de forma intensa.

Já os grupos que se beneficiam de favores políticos enfrentam um conjunto de incentivos muito diferente. Empresários que recebem subsídios, proteção regulatória ou contratos privilegiados possuem empresas; essas empresas têm empregados; e tanto empresários como empregados têm um forte interesse em preservar estes arranjos que garantem os seus ganhos e os seus empregos.

Estes grupos são relativamente pequenos, organizados e enfrentam custos de coordenação muito menores. Isto gera um forte incentivo para que se organizem.

No entanto, este interesse é antagónico ao interesse dos consumidores, que passam a pagar preços mais altos ou a consumir produtos e serviços de pior qualidade, sofrendo uma perda de bem-estar. É também antagónico ao interesse dos contribuintes, que veem uma parte significativa da receita fiscal ser utilizada para criar ou perpetuar privilégios em vez de financiar bens públicos genuínos.

Assim, benefícios concentrados para poucos são financiados por custos difusos impostos sobre muitos, o que ajuda a explicar por que os interesses das elites organizadas frequentemente prevalecem sobre os da sociedade em geral.

Do lado político, a assimetria de informação faz com que as elites políticas influenciem os eleitores através de narrativas. Eles "vendem" estas políticas de defesa do emprego, proteção da indústria nacional, justiça social, soberania nacional, estabilidade, etc.

Em vez de forçar ou comprar poder, as elites políticas usam o discurso, a propaganda e o enquadramento (framing) para tornar desejáveis políticas que criam ou preservam privilégios em seu favor. As pessoas acabam por usar o voto expressivo para, de alguma forma, “se sentirem do lado certo da história”, “reforçarem a sua identidade de grupo (trabalhador, empresário, patriota, socialista, liberal, etc.)” ou para “não se sentirem culpadas depois”.

O resultado é que o processo democrático fornece uma aparência de consentimento popular a arranjos que, na prática, beneficiam minorias organizadas às custas do restante da sociedade. E o problema reside aqui: as pessoas que mais beneficiam de uma economia livre não se manifestam para a defender.

Para Schumpeter, o capitalismo não sucumbe por fracasso económico, mas porque o seu próprio sucesso destrói a base social que o apoiava. Ao burocratizar a atividade empresarial e fomentar o surgimento de uma intelligentsia hostil, o sistema gera uma sociedade na qual quase ninguém está disposto a defendê-lo. O capitalismo, em última instância, morre não por falta de eficiência, mas por falta de defensores.

Smith escrevia num contexto em que a economia política dominante era o mercantilismo: um sistema supostamente voltado para o “interesse nacional”, no qual o Estado distribuía sistematicamente privilégios a guildas, burocratas e companhias de comércio. Este arranjo começava a ser desafiado por uma ordem emergente de livre comércio. De certa forma, o padrão permanece o mesmo, com o Estado contemporâneo a atuar como vendedor de favores, enquanto elites económicas investem recursos para os capturar, produzindo um sistema de compadrio.

Tanto o período que antecede Smith como o momento atual indicam que o padrão histórico é uma economia política de manutenção de privilégios. A liberdade económica não aparece como ponto de partida, mas como um “acidente da história”, resultado de mudanças institucionais específicas que, por algum tempo, limitaram a capacidade de grupos organizados de usar o poder político em benefício próprio.

O que chamamos de capitalismo — entendido como mercados impessoais, com direitos de propriedade estáveis, possibilidade de entrada e saída, alguma previsibilidade institucional — surge, assim, como uma rutura rara com essa lógica de privilégio, e não como o “estado natural” da cooperação social. Nota: isto não constitui um argumento contra a ideia de que o ser humano é naturalmente inclinado à troca voluntária, mas sim o reconhecimento de que, na maior parte da história, os arranjos institucionais vigentes impediram que essa inclinação se traduzisse em mercados livres e competitivos.

A economia livre é uma construção institucional improvável e frágil, que precisa continuamente de resistir às pressões de grupos organizados — pressões essas frequentemente legitimadas por apoiantes que, em tese, deveriam defender justamente o contrário.

Se o capitalismo do tempo de Adam Smith já não existe, o que precisamos de fazer para que algo semelhante volte a prevalecer? De modo geral, tomo o pensamento de Randall Holcombe e Richard Wagner como base para escrever este texto e para uma síntese de resolução.

Os defensores da economia de mercado devem atuar em três frentes: política, económica e no mercado de ideias.

1. Ordem espontânea não é passividade Em primeiro lugar, os liberais precisam de compreender a importância da ordem espontânea. Isto significa abandonar a ilusão de que a sociedade pode (ou deve) ser planeada de cima para baixo por algum agente benevolente. Não trabalhamos com a hipótese de imposição centralizada. Isto, porém, não implica uma postura passiva. Pelo contrário: é preciso agir sobre regras, incentivos e ideias para que a ordem social emergente seja mais compatível com a liberdade económica. Não se trata de desenhar um “plano perfeito”, mas de criar arranjos institucionais que limitem a capacidade de grupos organizados de capturar o Estado para fins privados.

2. Promover a “destruição criativa” entre as elites Em segundo lugar, é necessário fomentar a concorrência entre elites estabelecidas e elites emergentes — aquilo que Holcombe descreve como o conflito entre o grupo do “getting ahead” (chegar à frente) e o do “staying ahead” (manter-se à frente).

O grupo do staying ahead é composto por empresas e empresários que já estão no topo. Trata-se de uma elite económica consolidada, cuja sobrevivência depende, em larga medida, de lucros e ganhos derivados de rent seeking. Para este grupo, a concorrência deixa de ser oportunidade e passa a ser ameaça; por isso, os seus membros tendem a usar o poder político para erguer barreiras à entrada, proteger mercados e congelar a ordem existente.

Já o grupo do getting ahead é formado por aqueles que querem “chegar lá”: empreendedores inovadores que, em geral, não têm acesso direto ao poder político. Para eles, a única via legítima de ascensão é a inovação, a criação de valor, a expansão da oferta de bens e serviços que melhoram a vida das pessoas. O espírito empreendedor é, por natureza, criativo o suficiente para contornar barreiras e encontrar brechas — desde que essas barreiras não sejam institucionalmente intransponíveis. Uma sociedade mais livre é aquela em que este segundo grupo consegue desafiar o primeiro em vez de ser bloqueado por uma muralha de privilégios legais.

3. Fortalecer a democracia constitucional Por fim, é preciso fortalecer a democracia constitucional, não como ídolo, mas como instrumento. Isto requer uma constituição que limite de maneira clara o poder da elite política de intervir na economia e, sobretudo, que restrinja o espaço para interpretações discricionárias por parte de juízes e tribunais. Os juízes devem dizer o que a lei é, não o que acham que ela deveria ser. Quanto maior a margem para “criar” direitos, benefícios ou privilégios a partir da caneta judicial, mais vulnerável o sistema se torna à pressão de grupos organizados.

À primeira vista, pode parecer contraditório dedicar boa parte do texto a criticar os problemas da democracia e, ao mesmo tempo, defendê-la como componente de uma sociedade livre. Mas a tensão é apenas aparente. Apesar de todas as suas falhas, a democracia ainda é o melhor mecanismo político de que dispomos para limitar o poder concentrado e permitir a alternância desse poder. Ela não é uma forma de santidade política, mas sim uma tecnologia institucional imperfeita, porém superior às alternativas historicamente testadas.

A proposta, portanto, não é tratar a democracia como um fim em si mesma, mas como um meio: um arranjo que, quando combinado com um Estado de direito robusto e limites constitucionais claros, pode abrir espaço para que uma ordem de mercado relativamente livre floresça.

Não podemos resolver todos os problemas de maneira perfeita, mas podemos criar um ambiente em que uma sociedade livre possa experimentar, errar, corrigir e produzir modelos institucionais melhores ao longo do tempo.

Defender o capitalismo, neste contexto, não é defender o status quo, mas exatamente o oposto: é recusar o comodismo de um sistema de privilégios travestido de mercado e trabalhar pela reconstrução de um arranjo institucional em que a regra geral, e não o favor particular, seja a norma.

Isto exige clareza conceptual, coragem intelectual para chamar pelo nome o capitalismo de compadrio que nos cerca e disposição para atuar simultaneamente na política, na economia e no mercado de ideias, limitando o poder discricionário do Estado, abrindo espaço para novas elites empreendedoras e reforçando os travões constitucionais à manipulação das regras do jogo.

Não há promessas de harmonia perfeita nem de fim definitivo do compadrio. O que há é a possibilidade modesta, mas real, de construir instituições que tornem mais difícil comprar e vender privilégios, que preservem algum grau de concorrência e que mantenham aberto o espaço para que pessoas comuns possam melhorar de vida sem precisar de um padrinho político.

Se o capitalismo é, como sugerimos, um “acidente feliz” na história da humanidade, cabe-nos decidir se aceitaremos passivamente o retorno ao padrão histórico de privilégios ou se estaremos dispostos a defendê-lo — não como dogma, mas como a melhor oportunidade que temos de conciliar prosperidade, liberdade e dignidade individual numa ordem social imperfeita, porém continuamente aperfeiçoável.

Referências

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. 1. ed. São Paulo: CEDET, mar. 2024.

SMITH, Adam. A riqueza das nações: investigação sobre a sua natureza e suas causas. Vide Editorial, 2023, p. 228.

HOLCOMBE, Randall G. “Crony Capitalism: By-Product of Big Government.” Independent Review, 2013

HOLCOMBE, Randall G. Political Capitalism: How Economic and Political Power Is Made and Maintained. Cambridge University Press, 2018.

HOLCOMBE, Randall G. Coordination, Cooperation, and Control: The Evolution of Economic and Political Power. Springer, 2020.

HOLCOMBE, Randall G. Following Their Leaders: Political Preferences and Public Policy. Cambridge University Press, 2023.

WAGNER, Richard E. Politics as a Peculiar Business: Insights from a Theory of Entangled Political Economy. Edward Elgar, 2016.

WAGNER, Richard E. (org.). Entangled Political Economy. Emerald, 2014.

EKELUND, Robert B.; TOLLISON, Robert D. Mercantilism as a Rent-Seeking Society: Economic Regulation in Historical Perspective. Texas A&M University Press, 1981.

HODGSON, Geoffrey M. “Capitalism, Cronyism, and Democracy.” The Independent Review, v. 23, n. 3, 2019, p. 345–355.

TULLOCK, Gordon. “The Transitional Gains Trap.” Bell Journal of Economics, 1975.

OLSON, Mancur. The Logic of Collective Action: Public Goods and the Theory of Groups. Harvard University Press, 1965.

CAPLAN, Bryan. The Myth of the Rational Voter: Why Democracies Choose Bad Policies. Princeton University Press, 2007.

BRENNAN, Geoffrey; LOMASKY, Loren. Democracy and Decision: The Pure Theory of Electoral Preference. Cambridge University Press, 1993.

MUNGER, Michael C.; VILLARREAL-DÍAZ, Mario. “The Road to Crony Capitalism.” The Independent Review, 2019.

Fonte

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Sérgio Godinho - A vida é feita de pequenos nadas


[Verso 1]
(Segunda-feira 
trabalhei de olhos fechados 
na terça-feira 
acordei impaciente 
na quarta-feira 
vi os meus braços revoltados 
na quinta-feira 
lutei com a minha gente 
na sexta-feira 
soube que ia continuar 
no sábado 
fui à feira do lugar 
mais uma corrida, mais uma viagem 
fim-de-semana é para ganhar coragem) 

[Refrão]
Muito boa noite, senhoras e senhores 
muito boa noite, meninos e meninas 
muito boa noite, Manuéis e Joaquinas 
enfim, boa noite, gente de todas as cores 
e feitios e medidas 
e perdoem-me as pessoas 
que ficaram esquecidas 
boa noite, amigos, companheiros, camaradas 
a vida é feita de pequenos nadas 
a vida é feita de pequenos nadas 

Somos tantos a não ter quase nada 
porque há uns poucos que têm quase tudo 
mas nada vale protestar 
o melhor ainda é ser mudo 
isto diz de um gabinete 
quem acha que o casse-tête 
é a melhor das soluções 
para resolver situações 
delicadas 
a vida é feita de pequenos nadas 

Repete [Verso 1] e [Refrão]

E o que é certo 
é que os que têm quase tudo 
devem tudo aos que têm muito pouco 
mas fechem bem esses ouvidos 
que o melhor ainda é ser mouco 
isto diz paternalmente 
quem acha que é ponto assente 
que isto nunca vai mudar 
e que o melhor é começar a apanhar 
umas chapadas 
a vida é feita de pequenos nadas 

Ouvi dizer que quase tudo vale pouco 
quem o diz não vale mesmo nada 
porque não julguem que a gente 
vai ficar aqui especada 
à espera que a solução 
seja servida em boião 
com um rótulo: Veneno! 
é para tomar desde pequeno 
às colheradas 
a vida é feita de pequenos nadas 
boa noite, amigos, companheiros, camaradas 
a vida é feita de pequenos nadas.

A música 'A Vida É Feita de Pequenos Nadas', tema do álbum "Pano Crú" (1978) de Sérgio Godinho é uma reflexão poética sobre a rotina diária e as desigualdades sociais. A letra começa descrevendo a semana de trabalho de uma pessoa comum, com dias que se repetem em um ciclo de cansaço e luta. A repetição dos dias da semana simboliza a monotonia e a exaustão do trabalho quotidiano, onde cada dia parece uma batalha a ser vencida.

No refrão, Godinho saúda diversas pessoas, independentemente de suas origens ou condições, e reforça a ideia de que a vida é composta por pequenos momentos e detalhes. Essa saudação inclusiva sugere uma união entre todos, independentemente das diferenças, e destaca a importância de valorizar os pequenos gestos e momentos que compõem a vida.

A música também aborda a desigualdade social, criticando aqueles que possuem quase tudo às custas dos que têm muito pouco. Godinho denuncia a indiferença e a opressão dos poderosos, que preferem silenciar as vozes dos oprimidos. A letra sugere que a mudança é difícil, mas necessária, e que a passividade não é uma solução. A metáfora do 'veneno' servido desde pequeno representa as ideologias e sistemas que perpetuam a desigualdade e a injustiça.

'A Vida É Feita de Pequenos Nadas' é uma canção que mistura crítica social com uma mensagem de esperança e resistência. Sérgio Godinho, conhecido por suas letras engajadas e poéticas, utiliza sua música para provocar reflexão e incentivar a valorização dos pequenos momentos que, juntos, formam a essência da vida.


domingo, 7 de dezembro de 2025

Cinema da Noite : Eu sou David- filme realizado por Paul Feig (2003)

David, um rapaz de cerca de 12 anos, vive num campo de trabalhos forçados na Bulgária comunista. O único adulto de confiança que tem é Johannes (interpretado por Jim Caviezel), um prisioneiro gentil que lhe ensina línguas, valores humanos e formas de sobreviver emocionalmente. Johannes acaba por morrer (provavelmente executado), mas deixa em David uma profunda marca de esperança.

Um dia, um guarda misterioso dá a David a oportunidade de fugir, dizendo-lhe para seguir apenas para norte, transportando uma carta que deve entregar na Dinamarca. Apesar de desconfiar de tudo e todos — resultado de anos de trauma — David inicia a longa jornada a pé.

Ao escapar pela fronteira, David atravessa:

🇬🇷 Grécia

Onde é ajudado por marinheiros, mas foge por não confiar em ninguém.

🇮🇹 Itália

É acolhido por uma família, especialmente por uma criança que cria laços com ele. No entanto, temendo colocar todos em risco, parte novamente.

No caminho, David cresce emocionalmente ao contactar com pessoas que lhe mostram diferentes formas de humanidade: bondade, ingratidão, desconfiança e amor.

Ao chegar à Suíça, ele descobre parte da verdade sobre si:
A carta que carrega contém informações que revelam que a sua mãe está viva e vive agora na Dinamarca.

Com a ajuda de pessoas que encontra, David chega finalmente à casa dela.
A mãe, ao ver uma nota deixada por Johannes anos antes, percebe quem ele é.
David reencontra a mãe num final emotivo em que, depois de anos de sofrimento e fuga, encontra paz e pertencimento.


🎭 ANÁLISE DOS TEMAS PRINCIPAIS


1. Liberdade
O filme contrapõe dois mundos: o campo, onde David não pode decidir nada, e a Europa livre, onde cada pequena escolha se torna um ato enorme.
A jornada física é também uma libertação psicológica.

2. Identidade
David não sabe quem é, de onde veio nem quem foram os pais.
Descobrir a sua identidade é tão importante quanto alcançar a liberdade.

 3. Trauma e Cura
David tem medo de confiar — pegar comida, aceitar ajuda ou tocar em objetos que lhe ofereçam.
A cura ocorre gradualmente graças às pessoas bondosas que encontra.
 
4. Bondade vs. Crueldade
O filme mostra como um simples gesto (como o de Johannes ou de pessoas comuns) pode salvar uma vida marcada pela opressão.
 
5. Esperança
Mesmo nos momentos mais duros, a memória de Johannes funciona como bússola emocional de David. 📚 COMPARAÇÃO COM O LIVRO
ElementoLivroFilme
TomMais introspectivo, filosófico, centrado nos pensamentos de DavidMais sentimental, focado nas emoções e nas relações
Idade de David12 anosCerca de 12, mas com abordagem mais madura
Origem da fugaPlaneada por Johannes e outros prisioneirosNo filme, atribuída a um guarda que sente culpa
Revelação sobre a mãeMais gradual e menos romantizadaMais dramática e emocional
FinalSem grande dramatização, mas igualmente emocionalA reencontrar a mãe é mais cinematográfico
Temas políticosMais explícitos sobre totalitarismo communistaMais suavizados para público jovem

O filme segue fielmente a estrutura geral do livro, mas suaviza elementos mais duros e reforça aspetos emocionais.


🎬 FICHA TÉCNICA DO FILME

Título: I Am David
Título em português: Eu Sou David
Ano: 2003
Realização: Paul Feig
Baseado no livro: I Am David (1963), de Anne Holm
Género: Drama, Aventura
País: EUA / Reino Unido / Dinamarca / Itália
Principais atores:

  • Ben Tibber — David

  • Jim Caviezel — Johannes

  • Joan Plowright — Sophie

  • Hristo Shopov — O Guarda

  • Maria Bonnevie — Mãe de David

Duração: ~90 minutos
Classificação etária: Apropriado para adolescentes e adultos

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Morreu Constança Cunha e Sá, figura singular do jornalismo português


Bem que andávamos desassossegados com o silêncio de Constança e Sá, sobretudo na rede X. Jornalista corajosa e frontal.
 
Ouvir os seus argumentos nos tempos da Troika era um bálsamo numa época bem negra que o País atravessou. Tinha a acutilância e a inteligência como algumas das características mais marcantes.

Outra característica marcante: no debate público em geral, representou sempre um compromisso com a verdade e com a independência editorial.

A primeira visibilidade foi na redação do Independente, do qual foi diretora-adjunta e diretora, tendo ainda sido redatora principal no Diário Económico. Porém ficou ainda mais famosa e conhecemos a sua personalidade na Televisão.

Durante muitos anos, integrou então a redação da TVI, em que foi editora de Política, mas abandonou esta estação de televisão em 2020 quando a Cofina estava em vias de entrar na Media Capital. "Saí da TVI, que durante muitos anos foi a minha casa, por uma questão de dignidade, saúde mental e higiene. Nunca acabaria a minha vida profissional a trabalhar para a Cofina. Lamento", justificou então.

Era assim, uma mulher de valores.

Um ano depois, acabaria por voltar à TVI para fazer comentário político.

Amante de livros e música erudita, fumadora assumida, na vida pessoal foi uma mulher de paixões e prazeres. Constança Cunha e Sá nunca se deixou encantar por carros. Até hoje, não tirou a carta de condução. "Nunca me inscrevi para tirar a carta e já não o vou fazer. Odeio burocracias e papelada", assumiu, sem medo das palavras.

Sentidos pêsames à família e amigos. Sentida vénia, Constança, que nunca se vergou ao sistema plutocrático.

domingo, 23 de novembro de 2025

Havia um plano de tomar o poder no 25 de Novembro? Não. Não houve e não há qualquer prova de um plano de tomada de poder, quer por parte do PCP, quer por parte dos militares esquerdistas no 25 de Novembro



Estamos em plena mistificação política associada às comemorações do 25 de Novembro, que o Governo entregou ao CDS, exactamente um partido que pouco teve a ver com o 25 de Novembro e se teve foi um dos derrotados dessa data ao não conseguir, por via dos sectores da direita militar, interditar o PCP.A mistificação assenta no combate político dos nossos dias, na minimização do papel das eleições para a Constituinte, no apagar do papel do “Verão Quente” de Agosto de 1975, e na falsa atribuição de papéis e intenções ao PCP no 25 de Novembro. Essas interpretações não se sustentam em nenhuma base sólida com o carácter de fonte histórica e destinam-se a dar ao 25 de Novembro um papel de “segundo 25 de Abril”, na prática, mais relevante para a construção da democracia, o que não é verdade.

Que problemas defrontava o PCP na 2.ª metade de 1975?
Essencialmente quatro: a formulação de uma estratégia e uma táctica que conciliasse a situação portuguesa com a orientação internacional do movimento comunista ligado à URSS no período da distensão (détente); a perda da influência no interior do poder militar do MFA; o assalto anticomunista com destruição de sedes, perseguição a militantes conhecidos do PCP no Norte, atentados; e a “rua” dominada pelos esquerdistas com o apoio dos militares ligados ao Copcon. O Departamento Internacional do PCUS era já, há mais de uma década, o substituto da Internacional. Era por aí que passava o controlo político dos partidos comunistas, os financiamentos e as operações de apoio clandestino. Em 1974-1975, antes e durante a “revolução portuguesa”, a estratégia soviética resultava de uma discussão interna sobre o golpe de Pinochet no Chile. Essa discussão era entre os que achavam que Allende devia ter ido mais longe, e os que achavam que tinha ido longe demais. A segunda posição era dominante e acompanhava a política externa da URSS ligada à Conferencia de Helsínquia. Suslov, de quem Cunhal era próximo, e Ponomariev, a última coisa que queriam era uma “Cuba na Europa” ou uma “comuna de Lisboa” e Cunhal sabia-o muito bem. A preocupação com Angola e a sua independência e a guerra civil é outra dimensão, mas não altera a orientação soviética ao PCP.

2.º A perda de influência do PCP no MFA
Para o PCP, o mais grave da situação de 1975 era a perda de influência nas cúpulas do MFA, em particular depois dos fracos resultados das eleições para a Constituinte, da queda de Vasco Gonçalves e do ascenso do Grupo dos Nove. Cunhal, num discurso ao Comité Central do PCP em Agosto de 1975, que permaneceu secreto na sua integralidade —​ o que significa que temos de o tomar muito a sério —, manifestou essa preocupação maior e pretendia responder, não com a rua, mas com a “ronha”, termo que utilizou.

3.º O terrível mês de Agosto
O PCP foi o alvo principal (mas não único, com o MDP e a FSP) de uma sublevação a norte de Rio Maior que juntou as organizações clandestinas de extrema-direita, como o ELP, e a Igreja, mas que ia mais longe: era um movimento genuinamente popular, resultado de um anticomunismo alimentado pelos medos de perda da propriedade das terras no minifúndio, resultado entre outras coisas dos erros das campanhas de dinamização, e da defesa da Igreja. O PCP sai desse mês acossado, e consciente de que os militares não lhe davam a protecção de que precisava. O resultado foi um “basta” interior, com o PCP disposto a ter uma defesa mais agressiva, em particular das sedes. A minimização do que aconteceu em Agosto é um dos aspectos da mistificação actual das “comemorações” do 25 de Novembro, ao negar essa parte do contexto.

4.º O PCP perdeu o controlo da “rua” 
A partir de Agosto, em particular em Lisboa, o PCP perdeu o controlo da “rua” para os “esquerdistas”. Isto era, para Cunhal e para a direcção do PCP, um enorme problema, porque punha em causa a táctica da “ronha”, acelerava o processo político e acentuava uma radicalização que o PCP sabia ser imprudente. O PCP, como sempre, não podia abandonar a “rua”, e mantinha-se na sua habitual posição de ter um pé dentro e outro fora. Mas actuava com relutância, como aconteceu na entrada e saída da FUR, ou na participação incomodada em manifestações em que se gritava contra o “social-imperialismo soviético”. Este padrão de um pé dentro e outro fora foi seguido para o “cerco” da Assembleia e o 25 de Novembro.

Que "esquerdistas" são estes?
Podemos designar o esquerdismo de 1974-75 aquele que participa nas manifestações, aquele que cria comissões de moradores, comissões de trabalhadores, ocupações de empresas, organizações dentro dos quartéis, e que tem no topo militar o Copcon, como um neo-esquerdismo, diferente do que vinha de antes do 25 de Abril. As organizações dominantemente maoistas anteriores ao 25 de Abril eram, na sua maioria, constituídas por estudantes, e quase sem penetração nos meios operários. Todas estão presentes nos movimentos de 1975, mesmo no campo militar com os trotkistas nos SUV, mas tinham políticas diferenciadas, como o MRPP ou o PCP(ML)/Vilar, e estão longe de controlar as movimentações, em comparação, por exemplo, com as organizações das intercomissões dos trabalhadores.Este neo-esquerdismo tem uma força de movimento popular muito mais significativa do que o antigo esquerdismo, e é um fruto do impacto da liberdade pós-25 de Abril. Em bom rigor, os dois movimentos com base popular são o contra-revolucionário a norte e o “popular” na zona de Lisboa e Setúbal, estendendo-se já, com influência do PCP, pelo Alentejo. Este neo-esquerdismo lida muito melhor com organizações não-leninistas, como o PRP-BR e a LUAR, e nalguns aspectos como o MES.A radicalização da “rua” vem deste neo-esquerdismo.

A comparação com a Revolução Russa de 1917
Uma das acusações da direita, que o PS também usou, apresenta alguns acontecimentos de 1975 como uma repetição por parte do PCP do modelo da revolução bolchevique.O único aspecto que pode permitir a comparação é a existência de uma dualidade de poderes, como em 1917, entre os sovietes e o Governo menchevique. Em Portugal, há de facto em 1975 uma dualidade de poderes, entre o Governo fragilizado, mas com um apoio militar que se veio a perceber ser poderoso em 25 de Novembro de 1975, a legitimidade eleitoral da Assembleia Constituinte, e o “poder popular” esquerdista, que foi sempre a nível nacional fraco, embora mais forte na “comuna” de Lisboa, mas que estava a perder poder de forma acelerada.

Havia um plano de tomar o poder no 25 de Novembro?
Não. Não houve e não há qualquer prova de um plano de tomada de poder, quer por parte do PCP, quer por parte dos militares esquerdistas no 25 de Novembro. Nenhum assalto ao poder nas movimentações militares dos pára-quedistas cujos objectivos eram corporativos e, quando muito, reforçar a componente “popular” da dualidade de poderes. Como aconteceu em várias manifestações de apoio ao Copcon, mesmo com chaimites, quando chegavam ao fim, apontavam as armas, gritavam frases revolucionárias e iam-se embora pacificamente. Não sabiam o que fazer.

Esteve o PCP presente no 25 de Novembro?
Sim, no princípio, mas não o iniciou nem participou nele para tomar o poder e instituir uma qualquer variante de ditadura do proletariado. Como referimos antes, o PCP em casos como este tem sempre um pé dentro e outro fora, e o pé dentro tem muito a ver com a decisão de não mais ficar passivamente a ver o que se tinha passado a norte de Rio Maior em Agosto. Tinha logística na rua, principalmente com os veículos pesados da construção civil que já tinham estado presentes no “cerco” à Constituinte, no aparelho de comunicações paralelo, e nos militantes armados nas sedes para as defender. Mas não só os sectores militares mais significativos ligados ao PCP como a Marinha desde cedo informaram Costa Gomes que aceitavam o seu comando, como todo este aparelho foi retirado quando o PCP se apercebeu de que a movimentação militar esquerdista ia falhar, logo, nem sequer valia ter um pé dentro. Mas nada disto significa iniciativa, plano, intenção de tomar o poder, comando dos acontecimentos.

Deve-se comemorar o 25 de Novembro?
Pode e deve-se, se for com rigor. Sem dúvida que o 25 de Novembro é um passo fundamental do caminho aberto pelo 25 de Abril. No dia 25 com a vitória militar contra o esquerdismo; e no dia 26 pela recusa da ilegalização do PCP. Os heróis do 25 de Novembro são aqueles que se quer hoje apagar da história por serem inconvenientes para a visão da direita radical do que aconteceu: Costa Gomes, Presidente da República, o Grupo dos Nove do MFA, com relevo para Vasco Lourenço, Ernesto Melo Antunes, o general Ramalho Eanes como elemento do comando, e entre os comandados Jaime Neves e no plano civil Mário Soares e o PS. Essa comemoração, se for séria, deve acompanhar os passos que vão da liberdade à democratização. Durou mais de dez anos, mas resultou."