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sábado, 4 de julho de 2026

Contra a pós-verdade do eucalipto e dos "matos": cumprir escrupulosamente a Lei


Mitigar a tragédia dos incêndios florestais exige atacar o problema em duas frentes: travar as ignições e mudar radicalmente a estrutura da floresta. O eucalipto não pode continuar a ser o "combustível perfeito" do nosso território.

A prioridade absoluta? Quebrar a continuidade do combustível através do ordenamento. A nossa floresta deixou de ser um ecossistema para passar a ser um mar contínuo de eucaliptos. É urgente criar mosaicos na paisagem, intercalando os eucaliptais com faixas de espécies autóctones - como o carvalho, o castanheiro ou o sobreiro. Estas árvores têm copas mais húmidas e folhas muito menos inflamáveis, funcionando como verdadeiras barreiras naturais contra o fogo.

Mas o ordenamento não chega; a gestão ativa e a limpeza são vitais. Os dados mostram que as áreas de eucaliptal geridas profissionalmente, pela indústria papeleira, ardem pouco (as taxas andam pelos 2%). O drama está nos milhares de hectares privados deixados ao abandono. Para mudar isto, é preciso limpar o mato do subcoberto, respeitar o espaçamento entre árvores e, acima de tudo, controlar a regeneração natural - aquela que nasce sozinha e sem regras logo a seguir a um incêndio.

No terreno, porém, a realidade bate de frente com a ineficácia do Estado e a falta de fiscalização. Há regras, sim, mas os pequenos proprietários continuam a avançar com plantações clandestinas e sem qualquer licenciamento. O eucalipto tornou-se o refúgio financeiro da terra abandonada: exige pouco investimento e dá algum lucro a curto prazo, mesmo sem cuidados. Para desarmar este barril de pólvora, o caminho passa por criar incentivos financeiros sérios que convençam os proprietários a trocar o risco do eucalipto pela segurança das florestas de conservação ou dos sistemas agroflorestais. Algo que, na prática, continua a falhar.

Do lado do combate, o sucesso depende de vigilância, tecnologia e mão dura contra o crime. Apostar em videovigilância e patrulhas nas horas críticas permite apagar o fogo nos primeiros minutos, antes que o eucaliptal comece a projetar faúlhas a quilómetros de distância. Só que o sistema falha onde devia ser mais forte.

Primeiro, nas comunicações: em cenários de grande catástrofe, o SIRESP continua a falhar por saturação ou perda de sinal. Quando a rede vai abaixo, a coordenação no terreno colapsa. Segundo, o subaproveitamento da tecnologia: os drones com sensores térmicos seriam ideais para vigiar a floresta à noite, mas a sua utilização esbarra sempre numa burocracia absurda, na falta de pilotos certificados, nas forças de segurança e na ausência de uma frota pública que esteja mesmo operacional.

Enquanto não resolvermos o caos das plantações clandestinas, os apagões do rádio e a paralisia tecnológica na vigilância, o eucaliptal vai continuar a arder sem controlo. E, de nove em nove anos, estaremos exatamente no mesmo sítio: a lamentar os "piroverões", a ver casas arder e a chorar tragédias que eram perfeitamente evitáveis

quarta-feira, 1 de julho de 2026

O milagre dos eucaliptos de Melres

A 28 de Junho, o jornal Nascer do Sol publicou uma peça com um título que vale por si: “Eucaliptos resistem onde ardeu tudo”. O ponto de partida é real. Dois povoamentos de eucalipto ficaram intactos no meio de um incêndio que, em 2024, queimou cerca de quatro mil hectares em Penafiel, Paredes e Gondomar. Quem sobe ao miradouro de Melres vê hoje duas ilhas verdes numa encosta carbonizada. A imagem é forte e a pergunta que ela levanta é legítima. A resposta que o jornal lhe dá é que o problema do fogo está na gestão e não na espécie, e o título dá um salto que o resto do texto não sustenta.

A rubrica #areiaparaosolhos existe também para separar as frases que seduzem daquilo que as frases escondem. Vamos por partes.

O que o título promete e o que o próprio texto admite
O título diz “eucaliptos resistem”. Sugere que a espécie tem uma qualidade de resistência ao fogo. A explicação que o jornal apresenta aponta para o contrário. Segundo a peça jornalística, aquele povoamento aguentou porque foi plantado em terraços, porque as máquinas conseguem entrar para controlar a vegetação, e porque beneficiou de preparação do terreno e de redução de combustível. Por outras palavras, o que ali resistiu foi um regime de gestão intensiva, assente no uso de petróleo como energia barata, com solo trabalhado e biomassa retirada à mão e à máquina.

A própria peça responde, portanto, ao seu título. Aquelas árvores não pararam o fogo por serem eucaliptos. Pararam o fogo apesar de o serem, graças a um esforço de limpeza que removeu quase tudo o que era inflamável à volta delas. Atribuir esse mérito à espécie é o primeiro grão de areia para os olhos de quem lê. O mérito é do trabalho, e o trabalho foi feito precisamente porque o eucalipto, sozinho e em quantidade, arde com violência.

A frase que viaja sem o seu contexto
O artigo cita um investigador da Universidade de Lisboa para sustentar a ideia de que a espécie não é o problema e que o que conta é a quantidade de biomassa disponível para as chamas. A frase é defensável em termos estritos de comportamento do fogo. A carga de combustível pesa, e muito, na forma como um incêndio se propaga. O investigador é uma fonte independente e o reparo que aqui se faz não é sobre ele. É sobre o uso que o artigo faz das suas palavras.

A frase chega ao leitor decapada do contexto. “A espécie não é o problema” é verdade quando se fala apenas de física da combustão num talhão específico. Deixa de ser verdade quando se usa essa meia-ideia para ilibar um modelo inteiro de ocupação do território. Já o escrevi noutro texto neste site: o que desertifica o solo não é a árvore em si, é o regime de monocultura em que é plantada e explorada. A reportagem do Nascer do Sol fica-se pela primeira metade dessa frase, a que tira o foco do eucalipto, e descarta a segunda, a que devolve o foco ao regime que o multiplica em talhões de idade igual, sem estratos, sem sombra e sem água retida no solo.

O que a montra esconde: água, solo, microclima
Ao fixar todo o problema na quantidade de combustível e na limpeza do chão, o artigo apaga a dimensão que mais importa quando se fala de paisagens que ardem. Uma floresta biodiversa e estratificada, com plantas a ocupar diferentes alturas, funciona como um condensador. A atividade fotossintética arrefece o ar à sua volta, atrai humidade da atmosfera, condensa-a e prende-a no primeiro palmo de terra. Esse solo húmido e sombreado abranda o fogo. Um eucaliptal em monocultura faz o oposto. Deixa o vento seco correr, aquece, evapora e prepara o terreno para arder.


A ciência feita em Portugal já mediu estes factos. O investigador Joaquim Sande Silva ordenou, num estudo de 2009, as formações florestais por propensão para arder, e colocou o pinheiro-bravo e o eucalipto no topo, com o sobreiro, o castanheiro, a azinheira e o pinheiro-manso no fundo da lista. Vale a pena reter que o pinheiro-manso, também ele uma resinosa, fica entre os menos inflamáveis, sinal de que a etiqueta da espécie não decide tudo. Trabalho posterior da equipa de Jordi Garcia-Gonzalo, no mesmo Instituto Superior de Agronomia, mostrou que os povoamentos mistos e de folhosas reduzem o risco de fogo face ao pinheiro-bravo e ao eucalipto. O risco mora na monocultura densa e contínua de espécies inflamáveis, e a diversidade trabalha como corta-fogo.

E há uma razão económica para que estas espécies menos inflamáveis ocupem hoje tão pouco terreno. O carvalho, o castanheiro e o sobreiro são de crescimento lento, próprios das fases maduras da floresta, daquilo a que se chama o regime de abundância, e que podem levar décadas ou séculos a instalar-se. Esse tempo longo não serve o modelo da indústria da pasta de papel, que vive de cortar depressa e em grande quantidade. A própria Navigator descreve o eucalipto globulus como a espécie que está na origem dos seus papéis e valoriza-o justamente por ser de crescimento rápido, com ciclos de plantação e corte de cerca de doze anos, em povoamentos plantados exclusivamente para esse fim. Uma floresta que arde menos é, quase sempre, uma floresta que amadurece devagar, e uma floresta que amadurece devagar é tudo o que um modelo da indústria da celulose não pode permitir.

A “limpeza” que a reportagem celebra é, vista por este ângulo, parte do problema e não a solução. Um chão raspado até ao osso é um chão que perde água por evaporação, que regride na sucessão ecológica e que precisa de recomeçar do zero o trabalho de se cobrir. A peça apresenta o solo exposto como virtude. Em rigor, é a assinatura de um ecossistema mantido em estado de adolescência permanente, ao serviço da extracção, sempre pronto a recomeçar e nunca autorizado a amadurecer até à fase em que a paisagem se torna húmida e pouco inflamável.

A escala que falta à fotografia
A reportagem mostra dois talhões. O país tem outra dimensão. Portugal tem perto de oitocentos mil hectares de eucalipto e mais de um milhão de hectares de plantações industriais de espécies de crescimento rápido. As áreas onde o eucalipto não arde de forma explosiva são as parcelas bem geridas e protegidas pelas celuloses, uma minoria do total. A larga maioria, a que alimenta a indústria, é onde se exprimem as características mais combustíveis da espécie, a biomassa que se acumula depressa e o material incandescente que salta a quilómetros de distância e abre novas frentes.

Há ainda um problema de método na própria escolha do caso. Mostrar dois povoamentos que sobreviveram dentro de quatro mil hectares ardidos é seleccionar pelo resultado. Falta a pergunta que daria sentido ao número: quantos talhões de eucalipto, geridos ou não, arderam naquele mesmo incêndio? Sem essa conta, dois sobreviventes são uma anedota fotogénica e não uma prova.

Quem explica o “milagre”
A fonte que explica a resistência daqueles povoamentos é um engenheiro florestal da Navigator, a empresa proprietária dos eucaliptais. O perito que elogia a gestão dos talhões trabalha para a dona dos talhões. A reportagem apresenta-o entre especialistas, sem uma palavra sobre o conflito de interesse evidente. Não é preciso supor má-fé de ninguém para reconhecer o óbvio. Quem tem o ativo a defender não é uma fonte neutra sobre o valor ou risco desse ativo.

O desvio para os quatrocentos mil proprietários
No fim, a peça empurra a culpa. Diz que o problema da floresta portuguesa está nos mais de quatrocentos mil proprietários com parcelas minúsculas, sem escala para oferecerem rentabilidade. Repare o leitor neste movimento. Um problema de água, de solo e de modelo ecológico é convertido num problema de escala empresarial. E a solução implícita nesse diagnóstico é concentrar a terra em explorações grandes e geridas, ou seja, mais do mesmo modelo que produziu a paisagem inflamável e influenciou o clima seco. A pergunta que falta é simples. A floresta serve para dar rentabilidade a um sector que a quer tornar num chão de fábrica, ou serve para segurar água, sombra e comunidades? A reportagem responde à primeira e finge que é a única.

Veredito
O mais difícil de desmontar num texto destes não são as mentiras. São os factos verdadeiros postos ao serviço de uma conclusão falsa.

O facto de base é verdadeiro. Dois povoamentos de eucalipto sobreviveram ao incêndio em Melres, e sobreviveram por terem sido geridos, com terraços, acessos e remoção de combustível. Isso aconteceu e está correctamente descrito.

O título é falso. “Eucaliptos resistem onde ardeu tudo” generaliza dois talhões geridos para a espécie inteira e afirma quase o contrário do que a ciência e o próprio corpo do artigo dizem. O que resistiu foi a gestão do deserto verde.

A tese geral é descontextualizada. Constrói-se a partir de uma frase verdadeira retirada do seu contexto técnico, ilustra-se com um caso escolhido pelo resultado, sustenta-se numa fonte com interesse directo no assunto, e omite a água, o solo, a estratificação e a escala real do eucaliptal português. Cada peça, isolada, quase se defende. O conjunto conduz o leitor a uma conclusão que os factos não autorizam.

Por tudo isto esta notícia, tendo em conta a disposição dos factos e a falta de independência da fonte é   Areia Para Os Olhos.

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terça-feira, 23 de junho de 2026

Domingos Xavier Viegas: "Ainda vemos muitas pessoas a enfrentar o fogo de calções e chinelos"

Licenciou-se em engenharia mecânica com especialidade na engenharia do vento, mas foi o fogo que chamou a sua atenção. Aos 76 anos, o diretor do Centro de Estudos de Incêndios Florestais, da Universidade de Coimbra, dedica-se a investigar a forma como o fogo se comporta em vários tipos de território e de condições climáticas numa tentativa de prevenir grandes incêndios e proteger as populações

Estudam há anos a resiliência dos solos quanto à humidade?
Começámos em 1986 a recolher amostras de combustíveis finos - plantas que podem arder como as folhas secas do pinheiro e do eucalipto -, que são recolhidas próximo do aeródromo. No verão, todos os dias é feita uma colheita a meio do dia, a hora de maior calor, e durante o resto do ano, uma vez a duas por semana. A humidade das folhas secas vai variando e sabemos que se quando a humidade é baixa pode representar condições de perigo elevado de incêndio. Trabalhamos com o Instituto Portugês do Mar e da Atmosfera e podemos prever antecipadamente qual vai ser a humidade combustível nos próximos dias em face das condições meteorológicas e difundimos esses dados às autoridades, para estarem informados.

Que descobertas realizaram no laboratório?
Fomos os primeiros no mundo a estudar o comportamento do fogo em estruturas com a forma de desfiladeiros. Percebemos que mesmo que seja um pequeno foco de incêndio, se começar num desfiladeiro, ele cria o seu próprio vento e este faz acelerar a velocidade de propagação. Foi o que aconteceu em Armamar. Aquilo que as pessoas muitas vezes diziam ter-se tratado de uma mudança do vento, conseguimos mostrar que não é nada disso, é o próprio fogo que cria o vento e faz alterar o seu comportamento.

É esse o fogo a que se chama de sexta geração?
Não. O fogo de sexta geração refere-se a intensidade de propagação do fogo, ou seja, quando o fogo tem uma intensidade de propagação que é superior a 60 megawatt (MW). Mas um fogo de primeira geração, que gera uma intensidade de propagação superior a 10 MW, que corresponde a chamas superiores a 10, 15 metros de altura, liberta uma potência calorífica que já não se consegue combater. Já é considerado extremo. Quando o fogo tem uma propagação de 20, 30, 40, até 60 megawatts, são chamados de 2ª, 3ª, 4ª, 5ª, até 6ª geração. Só nos últimos anos é que se tem vindo a observar incêndios com estas intensidades de propagação.

O incêndio de Pedrógão Grande, em 2017, foi de sexta geração?
Correto, foi um dos incêndios mais intensos que nós tivemos. De acordo com os nossos dados, ainda é um incêndio que teve a maior velocidade de propagação que temos registo. Estamos a falar é da convecção que é criada pelo incêndio e faz essa aceleração. Isso pode acontecer até num pequeno incêndio, como o de Armamar, em que a extensão de área ardida não foi grande, mas que levou à morte de 14 bombeiros.

O que aconteceu em Pedrógão Grande para atingir aquelas proporções?
Dois focos de incêndio encontraram-se e interagiram. Esse é outro dos nossos contributos. Verificámos, ao estudar casos reais na natureza e depois em laboratório, que quando dois incêndios que estão perto um do outro e se juntam geram velocidades de propagação muito grandes, das mais altas que se têm registado. Foi o que aconteceu em Pedrógão Grande. Houve dois focos de incêndio que começaram debaixo de uma linha elétrica, em dois pontos diferentes, mas que, a certa altura, com a proximidade da tempestade, eles ficaram deitados no terreno e a propagar-se, mais ou menos, paralelamente na mesma direção. E ao interagirem, deram origem a esse incêndio de grandes proporções, que atingiu uma velocidade de 14 km por hora, é das velocidades mais altas registadas em Portugal.

Quando é que o combate ao fogo se torna impossível?
Quando a intensidade de propagação ultrapassa 10 MW por metro torna-se impossível de combater de forma diretamente, mesmo com aviões pesados, não se consegue suprimir uma frente de chamas que está a propagar-se com uma altura de chamas de mais de 10 metros.

A quantidade de árvores caídas provocadas pela tempestade Kristin aumenta o risco de um incêndio destas proporções?
Existem dois fatores: um é a quantidade de combustível e o outro é a velocidade de propagação. Se tivermos maior quantidade de combustível, maior é a intensidade de propagação, maior é a energia libertada. Na zona de Leiria, onde foram derrubadas muitas árvores e em que a carga de combustível duplicou em algumas zonas do terreno, podemos ter grandes intensidades de propagação mesmo que o fogo se propague a baixa velocidade.

O que é que influencia a velocidade de propagação?
Em primeiro lugar é o teor da humidade do combustível no terreno, depois são as condições de topografia e as condições do vento. Se tivermos um declive maior, a velocidade de propagação é maior, se tivermos um vento mais forte, a velocidade da propagação é mais elevada. Mas quando existe muita carga combustível, como em Leiria, não é preciso haver tanto vento, nem declive para termos uma velocidade e uma intensidade de propagação que pode dar origem a incêndios que não são combatíveis.

O eucalipto permanece o vilão dos fogos?
Nós temos três espécies dominantes: o sobreiro, o eucalipto e o pinheiro. Realmente, se só tivéssemos o sobreiro e floresta como existe, por exemplo, no Alentejo, em que as árvores estão espaçadas e há pouco combustível no solo, muito provavelmente não teríamos grandes incêndios. O problema é que nós temos na grande parte do país, todo o centro e norte, dominado pelo pinheiro e eucalipto e com um clima cada vez mais agravado. São áreas que não estão geridas, ou seja, onde não há capacidade para retirar a biomassa que existe. E, muitas vezes, são áreas com grande densidade de pinhal e eucaliptal: em vez de terem poucos pés por hectare e espaçados uns dos outros, são como que florestas de árvores muito finas, muito densas e que se o fogo entra nelas é difícil dar-lhe combate. porque não há condições de defesa. Nesse sentido, estas duas espécies são realmente perigosas.

Mas o eucalipto causa maior risco?
O eucalipto traz condições agravantes porque a mesma quantidade de folhas liberta muito mais calor do que as do pinheiro. Por outro lado, também liberta focos secundários, sobretudo pedaços de casca que podem ser transportados pelo vento a arder a distâncias grandes. Em Portugal, temos registo de focos secundários a distâncias de 10 quilómetros ou mais.

E é mais usado?
Sim. Aponta-se como vilão porque é uma espécie de investimento rápido. Num período de 10, 15 anos, as árvores estão crescidas e é possível ter algum retorno do investimento feito. O pinheiro precisa de mais tempo, 20 a 30 anos, e por isso, o risco de arder é maior. Nesse sentido, o eucalipto tem-se difundido muito e infelizmente em terrenos que não são apropriados e não são geridos. Por exemplo, as empresas de celulose gerem algumas plantações de eucalipto e, de modo geral, são bem cuidadas e não são tão afetadas pelo fogo.

O abandono do interior do país é um dos fatores para o aumento dos incêndios?
Não é apenas o abandono, porque há muitos proprietários que têm os seus terrenos e que são bem geridos. Mas quando essas propriedades são muito pequenas - a nossa propriedade está muito dividida, devido às heranças - torna-se muito difícil tirar qualquer rendimento dessas propriedades e caem no abandono, ficam cobertas de mato e, nas condições climáticas que estamos a ter, vão sendo cada vez mais sujeitas aos incêndios.

O Estado deveria intervir aí com sapadores florestais?
É muito difícil gerir toda a floresta, mas algumas partes do território deveriam ser geridas no sentido de reduzir a biomassa. E isso pode ser feito de diferentes maneiras, quer por meios manuais, mecânicos, quer pelo uso de fogo, quer pelo uso de pastoreio. Pelo menos, aquelas faixas de descontinuidade dos combustíveis, que existem nos altos das serras, que criam intervalos e permitem ajudar a parar o fogo.

Como?
Quando o fogo tem uma intensidade de propagação muito alta e não se pode atacar diretamente, pode-se fazer um contra-fogo que vai ao encontro da frente principal e parar um incêndio dessa maneira. Mas, para tal, precisamos ter essas faixas de descontinuidade na paisagem e na vegetação.

Na Catalunha, Espanha, está a investir-se em vinha para travar o fogo. É uma solução viável?
É a paisagem em mosaicos de que se fala muito hoje em dia. Uma paisagem feita de cobertos florestais diferentes, que não seja só a mesma espécie e que não tenha toda a mesma idade. A ideia é criar zonas agrícolas sem continuidade porque havendo essa continuidade o fogo propaga-se de um modo mais violento.

Isso implica um regresso ao interior.
Haver empreendimentos agroflorestais, onde se fomente a agricultura com a floresta e com a pecuária ajudava a gerir a biomassa e trazia mais pessoas para o interior que ajudam a vigiar e a intervir em casos de incêndio. Nos anos 40 do século passado, quando havia mais gente a viver no campo, as pessoas acorriam prontamente quando ocorria uma ignição e havia poucas dezenas de incêndios e algumas centenas de hectares ardidos.

Faltam bombeiros e recursos para combater estes grandes incêndios?
Quando há grandes incêndios, todos os recursos são poucos. O nosso país tem uma estrutura de prevenção e combate muito razoável. E mesmo em relação ao número de bombeiros, penso que estamos bem em comparação com outros países. Mas mais importante que o número é a preparação e a formação dos bombeiros: temos de dar uma formação ainda melhor aos bombeiros. Agora, quando temos grandes incêndios, muito alargados pelo país, na verdade, todas as pessoas são poucas e até os próprios cidadãos podem ajudar.

Os habitantes devem ajudar no combate?
No ano passado, em agosto, tivemos uma boa parte do centro do país a arder. Não tivemos muita destruição de casas e tivemos, relativamente, poucas vítimas mortais face à intensidade de propagação dos incêndios. Uma das razões é porque havia muita gente presente no território por ser agosto. Havia pessoas que tinham ido visitar as aldeias, os imigrantes que vieram de estrangeiro e, ao estarem lá, contribuíram no combate.

É importante dar formação de combate à população?
Sem dúvida. Existe o mito que o interior é povoado apenas por pessoas de idade, já sem capacidade, mas não é bem assim. Parte da população está envelhecida, mas também há muitas pessoas válidas que conhecem o fogo, sabem lidar com os incêndios, mas não têm os meios para o fazer. Desde logo, por exemplo, não têm roupa adequada e vemos pessoas a enfrentá-lo de calções, t-shirts e chinelos. E recorrem a baldes e alguidares quando deveriam ter realmente recursos necessários para proteger as suas casas e as suas aldeias. E, se possível, dar apoio aos bombeiros no combate, porque isso já foi uma realidade.

Quando?
No incêndio de Águeda de 1986, fez 40 anos no dia 14 de junho. O incêndio começou na Serra do Caramulo e os bombeiros demoraram mais de uma hora a chegar ao local do início do fogo. As pessoas que viviam nas aldeias da serra deram-se conta de que se tivessem meios poderiam ter até atacado o fogo e evitar a morte de 16 pessoas [13 bombeiros e três civis]. Mais tarde essas pessoas criaram unidades locais de proteção civil: através de subscrições e ofertas, adquiriram veículos de combate iguais aos dos bombeiros e tiveram treino fornecido pelos bombeiros. No verão estavam preparados e se havia incêndios naquela zona eles em 5 ou 10 minutos estavam em cima do incêndio.

Ainda existem hoje?
Sim, estas unidades locais foram replicadas em vários outros pontos do país e devem existir cerca de uma centena em todo o país. É o que se faz também noutros países do mundo.

O centro de estudos colaborou na construção de abrigos coletivos. O que são?
Os abrigos resultam do estudo e da análise de vários incêndios em que as pessoas se encontraram ameaçadas por um incêndio sem possibilidade de se retirarem em segurança. Podem ser refúgios em espaços abertos, como um campo de futebol ou uma piscina. Ou abrigos, espaços fechados que tenham resistência ao fogo, em geral são as igrejas, ou então, construções feitas para esse fim. Colaborámos em alguns desses projetos. Um deles na aldeia de Ferrarias de São João, em Penela.

Quais são as características do abrigo?
É uma área de betão completamente coberta, fechada, com espaços no interior onde as pessoas possam permanecer durante horas, preservadas de fumos e de gases quentes, até mesmo pessoas com necessidades respiratórias. Em outros casos, estamos a aproveitar construções que já existam e que são adaptadas, por exemplo, um salão de festas ou uma cave. O que é desaconselhado em absoluto é que as pessoas fujam à última hora, que se metam nos carros para o meio do incêndio, é assim que têm acontecido as maiores tragédias.

O que aprendemos com Pedrógão Grande?
Pelo menos nos primeiros anos, notámos uma sensibilidade grande relativamente à limpeza da vegetação em torno das casas. Também as autoridades têm sido mais atentas, a fiscalizar essa medida legal, que já havia de antes, só que não era respeitada. A diferença é que antes de Pedrógão, a maior parte das vítimas eram bombeiros, depois a maioria das vítimas foi entre cidadãos comuns. Qualquer pessoa em quase qualquer ponto do território pode ser atingida por um incêndio.

A inteligência artificial é usada no combate aos incêndios?
É usada num projeto nacional que se chama Gémeo Digital da Floresta em que estamos a criar um sistema informático que utiliza bases de dados sobre a floresta, desde o coberto vegetal, o terreno, a história dos incêndios passados, áreas ardidas e meteorologia. Quando lidamos com um número muito grande de bases de dados, a inteligência artificial identifica a relação entre parâmetros e facilita a tomada da melhor decisão na prevenção e no combate.

domingo, 7 de junho de 2026

Portugal deixa arder à vontade, o que é errado e perigoso

Grandes incêndios em julho de 2025

Em Portugal, os bombeiros não têm um plano estratégico de controlo de incêndios. Correm a salvar edifícios à medida que o incêndio se aproxima, enquanto deixam o fogo florestal arder para onde quiser, o que é imprudente». A denúncia é de Gary Morgan, perito mundial que melhor conhece o caso português. Foi contratado pelo Governo de António Costa para auditar o nosso dispositivo.

Depois da carnificina de 2017, que matou 116 civis e 13 operacionais, o anterior Governo deu instruções à Proteção Civil para se concentrar na salvaguarda da vida humana. A floresta pode arder à vontade, desde que não atinja aldeias e casas isoladas. O património edificado também pode ser destruído, desde que não tenha gente lá dentro. As evacuações tornaram-se banais.

Os Governos de Luís Montenegro conformaram-se com o mesmo objetivo. Os resultados desta política são catastróficos. No ano passado, Portugal sofreu o maior e o terceiro maior incêndios florestais da história. No dia 13 de agosto, deflagrou um em Piódão, concelho de Arganil, que alastrou aos concelhos vizinhos de Pampilhosa da Serra e Oliveira do Hospital, ainda no distrito de Coimbra. Manteve-se ativo durante dez dias. Invadiu os municípios de Seia, distrito da Guarda, Covilhã, Fundão e Castelo Branco, no distrito de Castelo Branco. Arderam 645 quilómetros quadrados, uma área superior à dos concelhos de Lisboa, Amadora, Odivelas, Oeiras, Cascais e Sintra. No final desse mês, deflagrou em Trancoso um incêndio que consumiu 320 quilómetros quadrados, área semelhante à soma dos concelhos do Porto, Matosinhos, Maia, Valongo e São João da Madeira.

«Os incêndios grandes, múltiplos e complexos continuam difíceis de conter», lamenta a OCDE, em relatório publicado há dois meses sobre o caso português. O nosso dispositivo tem um desempenho vexatório, quando analisado no plano internacional. A OCDE denuncia que «a coordenação e a tomada de decisão operacional continuam a ser dificultadas pela ausência de qualificações uniformes». Há muitos chefes no terreno, grande parte deles incompetentes. «A hierarquia tem sido priorizada em detrimento da especialização técnica, reduzindo, em última análise, a eficácia operacional», conclui o relatório.

Como mostra a experiência da Austrália, a força de braços é mais importante do que os aviões e os autotanques para travar a progressão dos fogos rurais. «Usar apenas água para apagar um incêndio florestal é assumir um risco inaceitável de propagação do incêndio», ensina Gary Morgan. Na Austrália, a opinião pública associa o combate aos fogos a sapadores florestais, de machado e sachola na mão, a abrir clareiras no terreno. «A intensidade do fogo determina como a barreira de terra mineral é criada, seja por maquinaria ou ferramentas manuais», descreve o homem que comandou essas forças durante dez anos, no estado de Victoria.

Os bombeiros tradicionais merecem o reconhecimento da sociedade, mas precisam de ser qualificados. «Devido ao grande respeito do público pelos bombeiros, muitas pessoas pensam que qualquer bombeiro pode suprimir todos os incêndios. Isso é um mito», escreve o perito australiano. Portugal já dispõe de forças especializadas em criar barreiras aos incêndios, para os travar no sítio e no momento adequados, mas precisam de ser reforçadas.

O pior é que o comando das operações no terreno está entregue às personalidades erradas. «Portugal tem pessoas com competências para evitar que os incêndios florestais não atinjam níveis catastróficos», garante Gary Morgan. Mas também denuncia que, muitas vezes, «a pessoa que assume a responsabilidade como Controlador de Incidentes não é competente nem capaz de tomar decisões estratégicas, nem tem uma abordagem voltada para a supressão de incêndios».

É preciso pôr os mais qualificados no comando. E, no terreno, corpos especializados no uso de máquinas de rasto, ferramentas manuais e fogo tático. «Uma parte do dispositivo não pode estar preocupada com casas, nem com pessoas. Se ninguém lhe tirar o alimento, o fogo agradece, passa por aldeias e destrói tudo», lamenta Akli Benali.

domingo, 3 de maio de 2026

Floresta: Portugal vai buscar insetos ao outro lado do mundo para salvar 3.000 milhões de euros por ano de exportações


Um escaravelho minúsculo, mas voraz, está a preocupar o setor florestal português. A traquimela - uma praga que se alimenta das folhas de eucalipto — ameaça um dos pilares das exportações nacionais: a fileira da pasta e do papel vale mais de 3.000 milhões de euros por ano.

A resposta está a milhares de quilómetros. Na Austrália, origem do eucalipto e também das suas pragas, investigadores portugueses procuraram aliados naturais: insetos que se alimentam da traquimela. No final do ano passado, cerca de 200 exemplares foram trazidos para Portugal e estão agora em quarentena, sob vigilância apertada.

O objetivo é simples, mas o processo é tudo menos trivial: garantir que estes “insetos bons” atacam exclusivamente a praga e não colocam em risco outras espécies ou culturas. “Como estamos a introduzir uma espécie nova, temos que ter a certeza que esse bicho só vai atacar a praga que nós queremos destruir”, explica Catarina Gonçalves, investigadora do RAIZ – Instituto de Investigação da Floresta e Papel.

Em laboratório, a estratégia passa por simular o que acontece na natureza. Os investigadores criam a traquimela e expõem os potenciais predadores a diferentes espécies, incluindo insetos autóctones, para testar o seu comportamento alimentar.

A lógica segue um princípio conhecido como controlo biológico: combater uma praga com os seus inimigos naturais, evitando o recurso a químicos e tentando reequilibrar o ecossistema. “Vamos buscar à Austrália porque o eucalipto é de lá. As pragas são de lá e os insetos benéficos também”, resume a especialista em proteção de plantas e florestas.

O instituto RAIZ, criado pela Navigator, tem duas décadas de experiência neste tipo de intervenção — e já ajudou a resolver outras pragas em Portugal. Mas cada nova introdução exige testes demorados e rigorosos.

Só depois de meses - por vezes anos - de validação é que estes aliados improváveis podem ser libertados no terreno.

“Um inseto importado evitou que a cultura de eucalipto fosse completamente destruída”
Para compreender melhor a importação de armas biológicas da Austrália, a CNN Portugal entrevistou Catarina Gonçalves, investigadora do RAIZ - Instituto de Investigação da Floresta e Papel.

Há quanto tempo vamos buscar bichos à Austrália?
Os primeiros trabalhos na Austrália aconteceram em 2008. Os primeiros insetos foram importados em 2009. Desde então temos ido regularmente à Austrália, tendo a última vez sido em final de 2025, para procurar insetos contra uma praga que está a ser muito destrutiva, chamada traquimela, e para uma planta invasora, a acácia mimosa.

Esses imigrantes já foram espalhados pela floresta?
Sim. Já libertámos na natureza três espécies. Todas passaram por vários anos em quarentena, para testes. Só depois foram libertadas, com as autorizações das entidades competentes. Atualmente, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

Com que resultados?
Os resultados têm oscilado entre o sucesso total, em que a praga que queremos controlar deixou de ser um problema, e um caso em que o inseto benéfico não conseguiu competir com outro que já estava estabelecido. Ou seja, não causou danos, mas também não teve uma contribuição significativa. Há um caso extremo de sucesso de um inseto, o ‘Anaphes nitens’, contra o gorgulho-do-eucalipto, que é um verdadeiro caso de estudo a nível mundial. Em Portugal, há um estudo científico que coloca o benefício deste inseto em, pelo menos, 1,8 mil milhões de euros. Na prática, este inseto foi a diferença entre ser possível produzir eucalipto em Portugal ou ter a cultura completamente destruída pela praga. Importa ainda referir que os insetos podem ser eficazes sozinhos ou complementarmente com outras técnicas de controlo das pragas, como o uso de plantas resistentes (o chamado melhoramento genético) ou boas práticas de silvicultura.

Colaboram com universidades?
Felizmente, temos uma rede de parcerias de luxo. Começámos por trabalhar com a Navigator Forest Portugal, a Altri Florestal e com o Instituto Superior de Agronomia. Com o tempo fomos alargando as parcerias, que incluem hoje também a Universidade de Coimbra, a Escola Superior Agrária de Coimbra, o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, a ENCE (Espanha), a University of the Sunshine Coast (Austrália), a CSIRO (Austrália), Servicio Agrícola y Ganadero (Chile), o Instituto Nacional de Investigación Agropecuaria (Uruguai), o Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais (Brasil), entre outros.

Como articulam a vossa atividade com o Estado?
Trabalhamos sempre com acompanhamento e supervisão do ICNF.

Oferecem ou vendem as espécies importadas a terceiros?
Não vendemos insetos, mas doamos a quem nos contacte através das equipas de apoio aos produtores. A estratégia é sempre libertar o máximo viável dentro das possibilidades de criação e ter como objetivo o benefício da floresta em geral. É normal que boa parte das áreas beneficiadas com o controlo biológico sejam de terceiros, frequentemente de pequenos produtores, que muitas vezes não têm acesso a outras formas de controlo, como as plantas resistentes.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Espanha: 'burros bombeiros' evitam há uma década incêndios em Doñana


Todos os verões, Espanha é devastada por incêndios florestais. Milhares de hectares são consumidos pelas chamas, não só devido ao calor e à seca, mas também ao abandono rural: menos pessoas, menos rebanhos e mais vegetação que cresce sem ser vigiada.

No entanto, tal como em Portugal, algumas comunidades encontraram uma solução tão antiga como eficaz – trazer de volta os burros, que caminham ao lado dos seres humanos há mais de 7.000 anos, para participar numa nova missão de combate aos incêndios florestais. Estes animais trabalham em pequenas brigadas, deslocando-se silenciosamente pela floresta, arrancando ervas daninhas e comendo-as dia após dia.

A urgência dessa missão tem vindo a aumentar. Em Agosto de 2025, cerca de 400 hectares arderam em várias regiões de Espanha, tornando-o o pior ano de incêndios florestais das últimas três décadas. A magnitude desta crise levou o governo a declarar estado de calamidade nas regiões de Castela e Leão, Galiza, Astúrias, Extremadura, Madrid e Andaluzia.

Nesse contexto, o trabalho lento e deliberado destes burros parece quase radical – um regresso a ritmos antigos para enfrentar uma crise muito moderna.

Desde cerca de 2014, 18 burros patrulham os arredores do Parque Nacional de Doñana. Pertencem todos a uma associação chamada El Burrito Feliz. O grupo resgata animais abandonados e transforma-os naquilo a que o seu presidente, Luis Manuel Bejarano, descreve como “os melhores bombeiros herbívoros”.

Mortadelo, Magallanes, Leonor, Ainoa e Ume são alguns dos recrutas do Batalhão de Burros Bombeiros de Doñana. Eles seguem um plano táctico: patrulham durante cinco horas por dia, entre Março e Novembro, ao longo de caminhos quebra-fogos assinalados por limitações que vão mudando de sítio. Todos os dias, estes burros dirigem-se à zona que lhe está atribuída, comem uma faixa de vegetação com cerca de 40 por 15 metros, bebem cerca de 30 litros de água e depois regressam para descansar. No final do dia, consumiram todo o material inflamável na área que lhes foi atribuída, diminuindo drasticamente o risco de incêndio.

A estratégia funciona. Embora Espanha enfrente incêndios florestais cada vez mais intensos, o Parque Nacional de Doñana — um refúgio essencial para aves europeias e africanas, linces ibéricos e outras espécies ameaçadas – não sofreu um único incêndio florestal nos últimos nove anos. “Os burros bombeiros tornaram-se um símbolo de eficiência”, diz Bejarano.

O seu sucesso até conquistou o apoio da unidade militar de emergência (UME), o serviço espanhol que responde a incêndios, cheias e terramotos quando os recursos civis ficam sobrecarregados. Durante uma visita ao parque, soldados da UME adoptaram um dos burros e ofereceram-lhe um pequeno capacete – igualzinho ao de um bombeiro.

Os burros não estão sozinhos no terreno. São constantemente monitorizados por voluntários do grupo ambiental Mujeres por Doñana, que fornece apoio logístico de campo, transportando água em carrinhos de mão através de áreas florestadas que não são acessíveis através de veículos.

Parece um trabalho difícil – e é –, mas da perspectiva dos burros é um paraíso. Eles podem alimentar-se à vontade durante o dia, recebem cuidados e afecto dos seus cuidadores e dos visitantes do parque e até recebem visitas como a rainha Sofia, que já passou algum tempo com a burra Leonor.

Apesar do aumento dos incêndios florestais ocorridos em Espanha nos últimos anos, o Parque Nacional de Doñana não sofreu um único incêndio nos últimos nove anos.

O que faz com que os burros sejam bons bombeiros
Ao contrário das vacas ou das ovelhas, os burros não têm um sistema digestivo complexo, o que lhes permite consumir repetidamente o mesmo alimento. Comem lenta, mas frequentemente, transformando até a erva mais rija em energia – uma adaptação perfeita para sobreviver em ambientes inóspitos. A sua dieta simples e apetite constante criam um efeito cumulativo: cada ramo que mastigam é menos combustível que arde na vaga de calor seguinte.

Especialistas em ecologia de pasto e restauro de ecossistemas, como Rosa María Canals Tresserrras, professora de ecologia de pradarias e restauro na Universidade Pública de Navarra concordam: os burros reduzem a quantidade de vegetação que serve de combustível e, consequentemente, a propagação do fogo em paisagens cada vez mais cobertas por arbustos e plantas lenhosas.

“Os burros, por exemplo, eram outrora bastante comuns, não enquanto animais que forneciam carne, mas enquanto animais de carga – para transportar mercadorias, trabalho agrícola e lavoura”, explica Canals. “A chegada dos tractores, automóveis e maquinaria substituíram-nos gradualmente. Aquela era a sua função e, como muitas coisas na vida, só nos apercebemos do seu valor depois de desaparecerem.”

A ausência de burros está a fazer-se sentir mais do que nunca noutros locais. Em algumas regiões, a ausência de herbívoros selvagens de grande porte – desde mamutes-lanudos a gado mantido em liberdade – associada ao declínio do pasto tradicional, o abandono do uso da lenha e o despovoamento rural deixaram as paisagens mais densas e secas, transformando-as em sítios onde as alterações climáticas podem funcionar como acelerador natural.

Trazer os burros de volta às zonas rurais não é apenas uma questão cultural ou simbólica, mas uma estratégia preventiva. À medida que pastam, eles criam zonas-tampão com pouco combustível em redor das aldeias e ajudam a conter os incêndios antes de estes sequer começarem.

Como outros sítios estão a seguir este exemplo
O sucesso do projecto andaluz inspirou outros. Nos anos subsequentes, comunidades rurais de Espanha começaram a replicar a ideia, adaptando-a às suas próprias paisagens. Na Catalunha, País Basco e Galiza, surgiram novas brigadas, aliando a conservação ambiental à prevenção de incêndios.

Durante milénios, o burro foi considerado o símbolo da teimosia. “Os cavalos fazem as coisas por obrigação. Os burros fazem-nas por convicção”, diz Joan Cedó, que lançou o programa Burros Bombeiros de Tivissa em 2020.

Aquilo que começou como um projecto-piloto, com três burros em dois hectares, foi crescendo até se transformar no trabalho diário de cerca de 40 animais – todos resgatados de negligência ou maus-tratos – que se dedicam a limpar cerca de 300 hectares de terrenos públicos e privados na região montanhosa de Tarragona, na Catalunha.

“Um burro pesa três vezes mais do que uma cabra, por isso, quando se desloca, destrói a vegetação de forma mais eficaz”, diz Cedó. “Um burro também come cerca de dez vezes mais do que uma cabra. Isto significa que o seu impacto diário é muito maior”.

Se têm sido tão eficazes como os seus homólogos de Doñana? “Desde que introduzimos os burros no nosso município, não tem havido incêndios florestais”, diz Cedó. Ele acha que, com mais apoio do estado, a burricada poderá crescer até alcançar 300 animais e proteger uma área muito maior.

Em Allariz, uma vila na província de Ourense, no noroeste de Espanha, os burros da Associación Andrea trabalham de forma semelhante, cuidando de cerca de mil hectares de floresta dentro de uma Reserva da Biosfera da UNESCO. O projecto começou numa aldeia abandonada, onde o grupo, colaborando com o conselho local, testou um modelo de restauro da terra: efectuando primeiro uma limpeza manual e depois mantendo o terreno limpo com a ajuda dos burros.

Com o passar do tempo, o esforço estendeu-se à zona central da reserva. Os burros vagueiam em liberdade e são monitorizados através de GPS, o que permite alertar os seus cuidadores para o caso de se desviarem para além dos limites de segurança. Podem percorrer até 19 quilómetros por dia, alimentando-se maioritariamente de arbustos pequenos – o mesmo tipo de vegetação que causa incêndios florestais.

Em todos estes anos, a área principal onde os burros pastam não ardeu uma única vez. “E neste ano, a província de Ourense foi devastada”, diz o presidente da associação, David Lema. “Nunca houvera incêndios tão grandes nesta província”.

Lema acrescenta que, embora esta nova táctica de combate aos incêndios seja bem-sucedida, a prevenção real dos incêndios depende daquilo que se cultiva nas zonas circundantes.

“A verdadeira solução reside no planeamento do uso da terra”, diz ele. “Aquilo que não pode continuar a acontecer plantarem-se espécies pirófitas, como pinheiros ou eucaliptos, em terras florestais, pois isso é uma garantia de incêndios. Embora os animais sejam uma ferramenta valiosa, não são uma solução completa – fazem parte da solução”.

quarta-feira, 18 de março de 2026

Ecoparolice - Maior árvore eólica do país instalada no concelho de Pampilhosa da Serra

A instalação de uma árvore eólica, parte integrante da empreitada de arranjo urbanístico da entrada oeste da vila de Pampilhosa da Serra, encontra-se em fase de testes e será responsável por alimentar a quase totalidade das necessidades energéticas do espaço assim que a obra estiver finalizada.
A energia produzida por esta energia permitirá “assegurar o funcionamento de vários sistemas do novo arranjo urbanístico, desde a iluminação pública ao sistema de tratamento e recirculação da água, garantindo que estas infraestruturas funcionem com um custo de energia praticamente nulo”, explica a autarquia em nota enviada à comunicação. Trata-se de uma solução inovadora em meios urbanos, que reforça o compromisso com a eficiência energética e a sustentabilidade ambiental.
Inspirada na natureza, a chamada “WindTree” funciona como um sistema complementar de produção de energia elétrica. A estrutura é composta por 36 microturbinas eólicas, com uma potência total de 10.800 W, num sistema eletrónico inteligente que regula continuamente o funcionamento das turbinas, ajustando a produção às condições do vento e garantido o máximo aproveitamento energético.
Integrada no projeto de requalificação da entrada oeste da vila, esta árvore eólica assume-se como “um elemento simbólico de inovação, sustentabilidade e valorização do espaço público, contribuindo para um futuro energeticamente mais eficiente em Pampilhosa da Serra”, salienta ainda na mesma nota.
De relembrar que em Portugal existe apenas outra árvore eólica de menor potência com características semelhantes (CascaiShopping), sendo esta a de maior dimensão.
Ora esta região é densamente povoada por eucaliptais e monoculturas intensivas. O concelho de Pampilhosa da Serra é, de facto, caracterizado por uma forte presença de eucaliptais (frequentemente em regime de monocultura) e pinheiro bravo, o que tem gerado debates sobre sustentabilidade, biodiversidade e risco de incêndio. Após os grandes incêndios de 2017 e 2025, a Montis tem sido uma voz crítica e ativa no terreno, defendendo que a reconstrução da Pampilhosa não pode ser "mais do mesmo". Eles focam-se na regeneração natural assistida, ajudando a floresta a recuperar-se sozinha mas com uma composição mais variada e segura. Outra associação ambientalista, MilVoz sofreu um revés pesado nos incêndios recentes. Em agosto de 2025, a sua Bio-Reserva mais importante (localizada no Vale da Aveleira, na Lousã, vizinha da Pampilhosa) foi severamente fustigada pelas chamas. Manuel Malva classificou o evento como uma "calamidade ecológica", sublinhando a dificuldade de proteger estas "ilhas de biodiversidade" quando a paisagem em redor é altamente inflamável.

Aqui estão os pontos principais sobre a situação florestal nesta área:
Elevada densidade de eucalipto: o eucalipto (Eucalyptus globulus) é predominante na paisagem, muitas vezes explorado intensivamente para a produção de pasta de papel.
Riscos associados: a elevada presença destas espécies, que são altamente combustíveis, tem contribuído para a facilitação da propagação de grandes incêndios na região.
Ações de conservação: existem iniciativas, como a da organização Montis, que actuam na região para reconverter eucaliptais em matas mais biodiversas e resilientes, nomeadamente através do corte de eucaliptos em áreas específicas.
Contexto de despovoamento: a monocultura intensiva está também ligada ao despovoamento do interior, onde estas plantações ocupam terras que antes tinham outros usos.
Artigo científico (2021)

sábado, 7 de março de 2026

Forest restoration would reduce the risk of forest fires. Countries like Portugal stand to benefit greatly


Fern Forest campaigner Siim Kuresoo shares insights from a recent field-trip to meet with foresters, local leaders and community members in Portugal – a country that has increasingly experienced severe forest fires.

As European summers get hotter and drier, devastating forest fires are becoming the Portuguese norm, along with dramatic images of fast-moving flames, airplanes trying to quell them, and people fleeing for their lives.

The overriding impression is that this is what we need to expect in the era of climate change. But is there more to this story?

To find out, Anna Muizniece (she/her) and I spent a few days in northern Portugal meeting with experts to find out what’s happening: João Paulo Fidalgo Carvalho (forestry academic and head of Pro Silva Portugal); Miguel Ribeiro (a forestry and restoration officer at NGO Quercus); and Fernando Antunes Amaral (forest fire survivor and activist). We visited impacted areas and talked with people eager to prioritise community safety and resilience.

They taught us much about the history of the problem, including that this is not a naturally occurring problem. The fires are heightened by the eucalyptus plantations that have been expanding for more than half a century, taking over land as rural abandonment grows and agricultural patterns change. Such plantations provide raw material for the mighty pulp and paper industry, and money for landowners struggling to find a purpose for their land.

But the social and environmental costs are enormous
Portugal’s natural tree species form less flammable, more biodiverse and carbon-rich ecosystems able to provide higher long-term economic returns for the landowner, but shifting to continuous cover forestry takes work, and the financial rewards aren’t immediate.

Nonetheless, some municipalities and communities are taking on the hard work and financial burden, despite receiving little of the external support they need, like funding and technical advice. And while the EU is helping by coordinating emergency help to put out fires, it would be cheaper in the long run for EU funds to help prevent the fires from happening in the first place. The Nature Restoration Regulation (NRR) explicitly requires Portugal to support the transition away from eucalyptus and EU funds could initiate a systemic change in land use.

But change will not happen while the pulp industry dominates policy and resource allocation. Funds from the Common Agricultural Policy must not be used to subsidise an industry determined to put production of short-lived products above people's safety.

EU funds must prioritise ambitious National Restoration Plans.
Doing so would support the inspiring people we met on our journey such as José and Joaquim, the former and current mayor of the local municipality of Bragança. Despite being fierce political opponents, they both take huge pride in the region’s forest restoration and share smiles when discussing turning a eucalyptus plantation into an oak forest. O Sr. Sergio, from Talhadas village, who responded to a big fire in 2024 by organising the community to restore natural forests. He doesn’t mind long working days but is increasingly worried about being seen as an enemy by the pulp industry and its powerful friends, and what this means in terms of obstacles to his mission.

So there is more to the story of Portugal’s fires. The very landscape has become a danger to its inhabitants because of one powerful industry, and because of the perverse use of funds to support this harmful type of forestry. But sadly, this is not just the case in Portugal. Similar stories are occurring across the EU, as revealed by Metodi Sotirov’s recent study Funding resilient forests: Rethinking EU and State subsidies. We still have time to implement the changes he recommends, but do we have the political will?

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Espetacular vitória dos ecologistas galegos: a Junta da Galiza rejeita o projeto da multinacional portuguesa Altri de construir uma celulose em plena Galiza verde


O governo da Galiza negou a autorização ambiental à Altri devido à recusa do governo central em conectar a fábrica de celulose à rede elétrica.

O governo de Alfonso Rueda admite que o projeto de uma fábrica de celulose em Palas de Rei (Lugo) é inviável, após o governo central tê-lo excluído do planejamento energético do estado.

Várias pessoas seguram cartazes após uma performance em Palas de Rei (Lugo) organizada na primavera passada por moradores contrários à Altri, juntamente com a construtora Concomitentes. 

O governo da Galiza decidiu não aprovar a autorização ambiental integrada para o projeto de macrocelulose que a multinacional de papel Altri e a empresa galega de eletricidade Greenalia pretendiam instalar na cidade de Palas de Rei, em Lugo, e que nos últimos anos provocou a maior reação social vista na Galiza desde o desastre da fábrica Prestige, em 2002.

A informação foi anunciada na sexta-feira pela Ministra da Economia e Indústria do Governo de Alfonso Rueda , María Jesús Lorenzana , que se baseou na inviabilidade do projeto da empresa dirigida por José Soares de Pina, após o Governo de Pedro Sánchez ter excluído a Altri, no ano passado, dos seus planos de desenvolvimento energético para os próximos anos, privando-a, assim, da ligação à rede elétrica necessária para o seu funcionamento.

"Cabia ao governo central fornecer a ligação à empresa. O arquivamento [do processo] e sua expiração estão ligados à falta de ligação; se não houver ligação à subestação, o projeto é arquivado ", afirmou Lorenzana, acrescentando que considera "difícil" reviver a ideia da fábrica de celulose de Palas porque a próxima revisão do planeamento energético do Estado só ocorrerá em 2030.

O governo galego (Xunta) tomou a sua decisão após meses de protestos em torno de um projeto que o governo de Alberto Núñez Feijóo tentou disfarçar como uma fábrica de fibras têxteis ecológicas, mas que causou indignação na sociedade galega quando se descobriu que se tratava de uma fábrica de celulose convencional, a ser instalada numa área protegida junto a um sítio Natura 2000 e ao Caminho de Santiago, que emitiria gases e partículas tóxicas através de uma chaminé de 75 metros, equivalente às emissões de CO2 de 21.500 carros , e que extrairia 46 milhões de litros de água do rio Ulla, dos quais 30 milhões de litros, purificados mas ainda contaminados, seriam devolvidos ao aquífero que desagua no estuário do rio Arousa .

Apesar de tudo, o governo galego (Xunta) emitiu um parecer favorável sobre o impacto ambiental da Altri no ano passado , um primeiro passo que foi posteriormente condicionado à exclusão do projeto do financiamento europeu através de fundos de descarbonização que a multinacional procurava. A Ministra da Indústria, Rueda, também indicou que "esta semana" informou a empresa de que ela tem três meses, o prazo legalmente estipulado, para "justificar a ligação" que apresentou na proposta do projeto, a qual o governo central negou. Caso não o faça, " o arquivamento formal do processo da Altri será automático ".

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Morreu Serafim Riem (1954-2026), um dos primeiros ambientalistas em Portugal


Veterano do movimento ambientalista, Serafim Riem morreu no Porto, aos 72 anos. Co-fundador da Quercus e do FAPAS e actual dirigente da Íris, “manteve um compromisso firme e generoso” com a natureza.

O ambientalista Serafim Riem, descrito como um veterano da luta em defesa da natureza, morreu quarta‑feira no Porto, aos 72 anos, confirmou ao Azul a direcção nacional da Íris — Associação Nacional de Ambiente, da qual fazia parte. Figura marcante do movimento associativo português, foi fundador e dirigente do Grupo Ecológico Terra Viva, esteve no Núcleo Português de Estudo e Protecção da Vida Selvagem e co-fundou as associações Quercus e FAPAS.

“O seu amor pela causa ambiental levou-o muito cedo a uma intervenção activa e consequente. Foi um dos primeiros ambientalistas em Portugal, esteve na origem de vários movimentos e nunca deixou de estar disponível para as causas que deram sentido à sua vida”, recorda a bióloga Helena Freitas, professora catedrática da Universidade de Coimbra, de quem Serafim Riem era amigo.

A bióloga recorda com emoção a viagem que fez, há dois anos, com Serafim Riem e a mulher, Mila, ao Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique. “A Mila era tudo para o Serafim, e o Serafim era tudo para a Mila — um amor profundo, cúmplice, indissociável.”

Combate aos eucaliptais
Economista de formação, Riem consolidou, ao longo de mais de várias décadas, um percurso singular na defesa das florestas e da biodiversidade. Viveu sempre no Porto, cidade onde estudou e se afirmou como uma das vozes mais combativas do ambientalismo.

“O seu trabalho em prol da conservação da natureza confunde-se com a própria vida. Economista por imposição familiar, o Serafim gostava mesmo era de árvores, pássaros, animais. A natureza, a que ele dedicou toda uma existência, corria-lhe no sangue”, recorda Marta Leandro, membro do Conselho do Gabinete Europeu de Ambiente (EEB, na sigla em inglês)​.

Foi um dos fundadores da Quercus — Associação Nacional de Conservação da Natureza em 1985. Os anos 1980 ficariam marcados pela contestação pública à expansão das monoculturas de eucalipto. “Não são florestas, são monoculturas”, afirmou ao Azul em 2023. Numa entrevista ao Jornal de Notícias, há 20 anos, era descrito como “o ecologista que afrontou o lóbi das celuloses, fundou associações e denunciou as autarquias que faziam podas destrutivas às árvores dos seus jardins”.

“Sem exagero, o Serafim estava sempre no terreno, a plantar, a denunciar, a exigir a defesa dos valores naturais, a apoiar comunidades locais — o arranque de eucaliptos em Veiga do Lila, Valpaços, uma revolta popular que ele ajudou a organizar contra forças da GNR montadas a cavalo, em Março de 1989, ficará nos anais da história do ambiente em Portugal. Tal como ele”, acrescenta Marta Leandro, numa declaração ao Azul por escrito.

Amor por aves selvagens
A década de noventa trouxe a cisão com a Quercus que daria origem ao FAPAS – Fundo para a Protecção dos Animais Selvagens, associação onde intensificou o trabalho ligado à conservação de aves selvagens, à instalação de ninhos artificiais e à criação de pequenos bosques educativos, iniciativas que marcaram a intervenção ambiental no Norte do país.

Licenciou‑se em Economia pela Universidade do Porto e completou um mestrado em Gestão e Conservação da Fauna Selvagem Euro-mediterrânica na Universidade de León, em Espanha. A Agência Ecclesia refere que, mais tarde, frequentou ainda uma pós‑graduação em Arboricultura Urbana no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa.

O seu trabalho foi distinguido com o título de membro honorário da Ordem do Infante D. Henrique (1992) e o prémio Global 500 das Nações Unidas (1992).

Em 2014, recebeu o Prémio Internacional Terras Sem Sombra, atribuído pela Diocese de Beja, distinção que sublinhava o contributo continuado para a salvaguarda da natureza e da biodiversidade.

“Generoso” e ​“incontornável”
Integrava actualmente a direcção nacional da Íris – Associação Nacional de Ambiente, entidade da qual também foi fundador. A sua trajectória, atravessada por confrontos políticos, divergências internas no associativismo e décadas de voluntariado, deixou a imagem de um activista que fez da intervenção ambiental uma forma de cidadania.

“A palavra incontornável deve ser usada parcimoniosamente, mas aplica-se a Serafim Riem no caso do ambientalismo em Portugal”, afirma Raul Cerveira Lima, astrofísico e professor na Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico do Porto.

O investigador na área da poluição luminosa foi um dos amantes da natureza que bateu à porta de Serafim Riem, ainda nos tempos de estudante universitário, “animado pelas intervenções que vira nos jornais em defesa do Parque Nacional da Peneda-Gerês por parte do FAPAS”.

“Recebeu-me sempre com amizade, que perdurou. Por sua iniciativa, recentemente apalavráramos uma reunião, “em breve”, para incluir a poluição luminosa na agenda da protecção ambiental em Portugal. Além da muito triste perda para a família, os amigos, a natureza, dia e noite, todos ficamos agora mais pobres. Tentar dar seguimento ao seu incessante trabalho de protecção da Natureza não será tarefa fácil, mas devemos-lhe isso”, afirma Raul Cerveira Lima.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Jornalismo Florestal - Prémios PINUS distinguem reportagens da RTP e da Antena 1


O prémio pretende distinguir o trabalho jornalístico que, pela qualidade e originalidade, contribua para um maior conhecimento sobre a importância ambiental, económica e social das florestas.

Assim, o Primeiro Prémio de Reportagem Diária foi para um trabalho de Daniela Santiago, Manuel dos Santos, Fábio Siquenique e Joana Melo, sobre o valor da Floresta e o Circuito do Carbono

O Primeiro Prémio de Grande Reportagem foi para um investigação do programa A Prova dos Factos, de Emanuel Boavista, com Paulo Maio Gomes e Guilherme Terra, sobre o facto de as verbas europeias para a floresta não chegarem ao terreno.

A RTP recebeu ainda uma Menção Honrosa para outra peça do programa A Prova dos Factos sobre o abandono do Pinhal de Leiria, também de Daniela Santiago.

A reportagem da Antena 1 sobre as Florestas Miyawaki recebeu igualmente uma Menção Honrosa. Esta distinção foi atribuída à jornalista Arlinda Brandão.

Esta é considerada "uma oportunidade para reforçar o reconhecimento do jornalismo como serviço público e celebrar a importância da floresta", segundo o promotor da iniciativa.A cerimónia da 7ª edição do Prémio Centro PINUS - Jornalismo Florestal teve lugar no Clube de Jornalistas, em Lisboa.

O Prémio Centro PINUS de Jornalismo Florestal é atribuído bianualmente e, segundo a organização, "pretende homenagear os jornalistas e as peças que aproximem a floresta do cidadão através do rigor e da informação.

Paralelamente, reconhece o papel do jornalista na sua missão de serviço público e valoriza o jornalismo livre, independente e de qualidade".

Ver as reportagens aqui


domingo, 23 de novembro de 2025

Hoje é Dia da Floresta Autóctone. Porém há poucos motivos para festejar

Hoje é Dia da Floresta Autóctone. Porém há poucos motivos para festejar. Se celebramos o “dia da floresta autóctone” com a imagem romântica de florestas antigas, biodiversas e protegidas, a realidade florestal em Portugal torna essa celebração algo ambígua: a maioria das florestas são plantações, privadas, de reflorestação e sem uma gestão unificada ou ecológica profunda.

Há mais motivos para preocupação (incêndios, gestão deficiente, fragmentação) do que para festejo triunfal de uma floresta “autóctone” bem conservada.                                                                      Embora haja sinais de progresso: os programas de reflorestação com espécies autóctones, a certificação e os relatórios recentes mostram que há algum movimento para melhorar a qualidade (não só a quantidade) da floresta.

Segundo o relatório FRA 2025 , estima-se para 2025 uma área florestal de 3,36 milhões de hectares, o que corresponde a cerca de 36,7% do território nacional. 

Isso representa um ligeiro aumento comparado a alguns momentos anteriores, embora haja incerteza: a estimativa baseia-se em tendências, já que o último IFN (Inventário Florestal Nacional) completo disponível é o IFN6, relativo a 2015. 

Por outro lado, a Carta de Uso e Ocupação do Solo (COS) 2023 aponta para uma percentagem de floresta de 31,8% do território continental, o que sugere uma diminuição — embora sejam metodologias diferentes (COS vs IFN). 

Mas os grandes desafios persistem:
1. A predominância de plantações (74% segundo FRA 2025) continua alta, o que significa que muito da floresta não é “autóctone original” nem está em estado natural antigo.

2. A fragmentação da propriedade, com muitos proprietários muito pequenos, limita a coordenação para a gestão sustentável ou preventiva (incêndios, biodiversidade, restauração).

3. A falta de planos de gestão em muitas áreas torna a floresta vulnerável: sem gestão sistemática, mesmo as iniciativas de reflorestação serão fragilizadas (manutenção, crescimento, proteção).

4. A privatização massiva torna difícil ao Estado impor metas de renaturalização ou conversão para espécies autóctones em larga escala, sem incentivos ou regulamentação forte.

5 .Segundo a avaliação da FAO (FRA 2025), cerca de 74% da floresta estimada para 2025 é floresta plantada (2,49 M ha), enquanto apenas ~26% é regeneração natural e menos de 1% é floresta primária (i.e., muito antiga / original). 

Isso reforça a ideia de que, mesmo que muitas formações sejam “autóctones” (espécies locais), grande parte da floresta é resultado de plantações (muito geridas, monoculturas de eucalipto e de Pinus), não remanescentes naturais primários.

6. Propriedade florestal
Continua a haver elevada percentagem de floresta privada: fontes da PEFC afirmam que 84% da floresta é de propriedade privada. 
Segundo o FRA 2025 citado por Florestas , mais de 92% da floresta portuguesa é privada (dado de 2020 usado como base). Só cerca de 2% da floresta é de domínio público (Estado).

A pequena propriedade é ainda muito comum: por exemplo, segundo o ECO, a área média por propriedade florestal em Portugal é de apenas 0,57 hectares, o que dificulta a gestão integrada. 

7. Gestão florestal / planos de gestão
Portugal tem uma das menores percentagens de floresta com plano de gestão de longo prazo na UE. 
Isso significa que, mesmo com propriedade privada dominante, nem toda a floresta é eficazmente “gerida” para prevenir riscos como incêndios, de modo coordenado.

8. Certificação florestal
Quanto à floresta plantada certificada (PEFC), há cerca de 248 mil hectares certificados em Portugal no final de 2022. 
Isso mostra um esforço de parte dos proprietários para uma gestão mais “sustentável” (no sentido de certificação), mas esse número é apenas uma fração da floresta total privada.

9. Incêndios e resiliência da floresta autóctone
Monoculturas de eucaliptos (o eucalipto ocupa cerca de 26,2% da área florestal segundo o PEFC)  e de Pinus, os matos, o desconhecimento das demarcações de territórios rústicos, com muitos proprietários muito pequenos e a falta de limpezas,  continuam a ser um fator crítico.

A solução não está em plantar mais árvores — está em gerir melhor
Plantámos muito nas últimas décadas.
O problema é o que acontece depois: falta manutenção; falta continuidade ecológica, falta criação de solos saudáveis, falta acompanhamento de 3, 5 ou 10 anos, falta gestão para reduzir o risco de incêndio.
O país troca sistematicamente a restauração ecológica por “eventos de plantação”.
É o equivalente florestal às “selfies de voluntariado”.

O que fazer então?
Aqui está um caminho realista — e urgente.
1. Agrupar a gestão da pequena propriedade ZIF, AIGP, condomínios rurais — chamem-lhe o que quiserem. Sem gestão conjunta, nada funciona. Só assim se consegue escala para limpar, planear, prevenir e restaurar.

2. Incentivos sérios para gestão a longo prazo
Precisamos de financiamentos que mantenham a floresta viva, não só plantada: fundo nacional de manutenção, contratos de 5–7 anos para gestão ativa, apoio à condução de povoamentos e criação de descontinuidades.

3. Restaurar floresta autóctone verdadeira
Não basta escolher espécies nativas.
É preciso: restaurar linhas de água, proteger solos, criar bosques contínuos, ligar manchas de habitats, aumentar a idade média da floresta.
A natureza não se reconstrói com eventos: constrói-se com décadas de persistência.

4. Reequilibrar o modelo das plantações industriais
Não se trata de eliminar o eucalipto — mas de o domar: limitar onde pode ser plantado, impedir a continuidade total, obrigar a mosaicos com espécies nativas.

5. Reforçar fiscalização e meios
Uma lei sem fiscalização é só poesia jurídica.
É preciso garantir: cumprimento de planos, gestão mínima obrigatória, controlo de novas plantações ilegais, eliminação de invasoras, recrutar mais técnicos e vigilantes da natureza e criar melhores incentivos 

6. A sociedade civil também tem um papel crucial
Exigir políticas públicas com base em dados, não slogans.
Apoiar projetos de restauração que fazem manutenção, não apenas plantação simbólica.
Aumentar a literacia ecológica (saber distinguir floresta de matagal e de plantação).
Um país que não entende o que é a sua floresta não pode defendê-la.

Conclusão: Celebrar menos, transformar mais
Em vez de celebrar uma floresta autóctone que quase não existe,
talvez seja tempo de trabalhar para que ela exista realmente.
A boa notícia?
Há conhecimento, há técnicos, há soluções e há vontade local.
O que falta é coragem política, coordenação e persistência.
Se queremos que o “Dia da Floresta Autóctone” deixe de ser simbólico e passe a ser real, então é preciso fazer o que nunca fizemos: gerir o território como um todo, com ciência, escala e visão ecológica.
Porque a floresta não precisa de aplausos — precisa de cuidado e de uma política florestal de médio e longo prazo.

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