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sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Pensamento e Filosofia de Desmond Tutu

"Esperança é conseguir ver que há luz apesar de toda a escuridão." - Desmond Tutu

Desmond Tutu (07/10/1931 26/12/2021) foi uma das figuras morais mais relevantes do século XX, articulando de forma original a filosofia africana, a teologia cristã e a ética política. O seu pensamento desenvolveu-se sobretudo como resposta a contextos históricos concretos de injustiça estrutural, em particular o regime do apartheid na África do Sul, o que confere à sua reflexão um carácter marcadamente prático e aplicado. Mais do que construir um sistema filosófico abstrato, Tutu propõe uma ética orientada para a transformação social e para a reconstrução da humanidade ferida pela opressão.

No centro do seu pensamento encontra-se o conceito africano de Ubuntu, que funciona simultaneamente como fundamento ontológico e ético. Segundo esta conceção, o ser humano não é um indivíduo isolado, mas um ser relacional, cuja identidade se constrói no interior da comunidade. A ideia de que “eu sou porque nós somos” expressa uma ontologia relacional que contrasta com modelos individualistas predominantes na tradição filosófica ocidental. Para Tutu, a realização pessoal só é possível quando as relações humanas são justas, solidárias e reconhecedoras da dignidade de todos. O Ubuntu sustenta, assim, uma ética comunitária em que o bem individual não pode ser separado do bem comum.

A noção de dignidade humana ocupa um lugar central nesta perspetiva. Tutu defende que a dignidade é intrínseca e universal, não dependendo de raça, estatuto social, cultura ou reconhecimento jurídico. Nenhum sistema político ou económico pode legitimamente negar a humanidade de um grupo sem, ao mesmo tempo, desumanizar toda a sociedade. Esta convicção fundamenta a sua crítica moral ao apartheid, entendido não apenas como um erro político, mas como uma violação profunda da condição humana, tanto das vítimas como dos opressores. A partir daqui, o pensamento de Tutu aproxima-se das éticas dos direitos humanos, rejeitando qualquer relativismo cultural que pretenda justificar a exclusão ou a violência.

Um dos contributos mais relevantes de Desmond Tutu para a reflexão ética e política contemporânea é a defesa da justiça restaurativa. Esta abordagem ganhou expressão institucional na Comissão da Verdade e Reconciliação da África do Sul, que Tutu presidiu após o fim do apartheid. Ao contrário da justiça retributiva, centrada na punição do culpado, a justiça restaurativa procura reconhecer a verdade, responsabilizar moralmente os perpetradores e, sobretudo, reparar as relações sociais destruídas pela violência. A justiça deixa de ser entendida apenas como aplicação da lei e passa a ser concebida como um processo de cura social, no qual a memória, o reconhecimento do sofrimento e o diálogo desempenham um papel fundamental.

Neste contexto, o perdão assume uma dimensão ética e política central. Para Tutu, perdoar não significa esquecer nem negar a gravidade do mal cometido. O perdão pressupõe a verdade e a responsabilização, mas recusa a perpetuação do ressentimento como base da vida coletiva. Trata-se de um ato moral exigente, que rompe ciclos de vingança e cria condições para uma convivência futura. O perdão é, assim, entendido como uma forma de práxis transformadora, capaz de libertar tanto as vítimas como os ofensores da lógica da violência contínua.

A relação entre religião, ética e política é outro eixo fundamental do pensamento de Tutu. Embora profundamente enraizado na tradição cristã, ele rejeita uma separação absoluta entre fé e esfera pública. A religião, na sua perspetiva, deve funcionar como consciência crítica da sociedade, denunciando estruturas de injustiça e interpelando o poder quando este viola a dignidade humana. A sua célebre frase resume bem esta posição:“Se és neutro em situações de injustiça, escolheste o lado do opressor.” A neutralidade perante a injustiça é, para Tutu, uma forma de cumplicidade moral, o que levanta importantes questões filosóficas sobre responsabilidade ética, compromisso cívico e o papel das convicções morais na vida pública.

Em síntese, o pensamento de Desmond Tutu pode ser compreendido como uma ética da interdependência humana, fundada no Ubuntu, na dignidade universal e na convicção de que a justiça deve restaurar, e não apenas punir. A sua reflexão permanece particularmente актуada em contextos de pós-conflito, nos debates sobre memória histórica, reconciliação e direitos humanos, bem como na educação para a cidadania democrática. Trata-se de uma filosofia que, partindo de uma experiência histórica concreta, propõe princípios com clara relevância universal, convidando à construção de sociedades mais justas, solidárias e humanas.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Transformando Tradições em Novos Ciclos


Hoje lembrei-me de África. Um super-continente riquíssimo de recursos naturais, mas politicamente cheio de regimes ditatoriais, milícias, refugiados, exploração e escravidão. Incontáveis os maus momentos, mesmo desumanos.
Quem vai a África fica marcado. Há uma sensação em nós que foi ali a diáspora do Homo Sapiens.
Os céus de dia são de um azul cobalto. Os céus de noite amplos e luminosos. Milhões de estrelas e galáxias.
O calor e o sorriso das gentes de várias tribos. Imensas lições de bondade e família quando regressamos.
O exotismo da fauna e flora também incluídos.
Os dias parecem demorar mais que 24 horas.
Porém as mudanças por uma democracia e autodeterminação dessas gentes são muito lentas e bem merecidas. Muito culpa nossa, o Norte Global e a China.

quarta-feira, 27 de maio de 2020

‘Artists for Amazonia’: artistas e cientistas se unem em campanha para arrecadar fundos e ajudar a proteger os povos indígenas no combate ao coronavírus


Os atores Jane Fonda, Wagner Moura, Morgan Freeman e Barbra Streisand, a expert em gorilas Jane Goodall, o climatologista Carlos Nobre e o cientista Thomas Lovejoy, os músicos Sting, Carlos Santana, Peter Gabriel e Maria Gadu, são alguns dos nomes à frente da iniciativa Artists United for Amazonia: Protecting the Protectors.

Em parceria com o Amazon Emergency Fund (Fundo de Emergência da Amazônia), eles estão arrecadando dinheiro para apoiar os povos indígenas da floresta amazônica durante a pandemia de COVID-19 e contra as ameaças de invasores, que os expõem ainda mais à doença e arrasam seus territórios.

O valor arrecadado será 100% repassado para comunidades e organizações indígenas e florestais que enfrentam a COVID-19 na Amazônia para ajudar seuss povos a garantir prevenção e cuidados contra coronavírus, além de prover alimentos e suprimentos médicos e incrementar a comunicação, entre outros serviços. Mas tem mais.

No próximo dia 28 de maio, a partir das 20h (horário de Brasília), alguns deles se unirão a cientistas e líderes indígenas em encontro online com transmissão ao vivo para fortalecer esse movimento e ouvir reflexões e denúncias a cerca da realidade da Amazônia e de seus povos, como também trocar ideias para que todos compreendam porque é tão vital a união de indígenas e não-indígenas em ações como esta.

A condução do encontro será feita pela atriz Oona Chaplin, de Game of Thrones (na foto de destaque), que apresentará líderes indígenas – como Sonia Guajajara e Nina Gualinga -, cientistas e representantes de ONGs, com o apoio de Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Sigourney Weaver, Shailene Woodley, Gigi Hadid e Lil Nas X, entre outros.

A transmissão ao vivo será feita pela página do encontro no Facebook e pelo site Artists for Amazônia. Neste caso, é preciso fazer inscrição, confirmando sua presença (RSVP).

Até lá, faça sua doação e compartilhe este movimento em suas redes sociais.

Foto: Reprodução do site

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Ubuntu, uma “alternativa ecopolítica” à globalização económica neoliberal


A ética do ubuntu se pronuncia contra uma interpretação ideológica capitalista da realidade. Sua filosofia nativa espiritual está em maior consonância com a Terra, suas criaturas e suas formas vivas, afirma a educadora sul-africana Dalene Swanson
Por: Por Moisés Sbardelotto | Tradução Luís Marcos Sander

Reconhecido como “um sistema de crenças, uma epistemologia, uma ética coletiva e uma filosofia humanista espiritual do sul da África”, o ubuntu é, em suma, “uma forma ética de conhecer e de ser em comunidade”. Essa é a opinião da doutora em Educação nascida na África do Sul e hoje residente no Canadá, Dalene Swanson.

Professora adjunta da University of British Columbia, em Vancouver, e de Alberta, em Edmonton, ambas no Canadá, Dalene encontra no ubuntu uma das formas de “humanismo africano”. Mas, diferentemente da filosofia ocidental derivada do racionalismo iluminista, “o ubuntu não coloca o indivíduo no centro de uma concepção de ser humano”: “A pessoa só é humana – explica – por meio de sua pertença a um coletivo humano; a humanidade de uma pessoa é definida por meio de sua humanidade para com os outros”.

O ubuntu, afirma Dalene, “é uma expressão viva de uma alternativa ecopolítica” e também “a antítese do materialismo capitalista”. Mas hoje, diz, a industrialização, a urbanização e a globalização crescentes ameaçam corromper esse modo de ser africano tradicional, pois o ubuntu se posiciona “contra essa interpretação ideológica da realidade por meio de uma filosofia nativa espiritual que está em maior consonância com a Terra, suas criaturas e suas formas vivas, e isso diz respeito a toda a humanidade em toda parte”.

Dalene Swanson é professora adjunta da Faculdade de Educação das University of British Columbia, em Vancouver, e de Alberta, em Edmonton, Canadá. Nascida na África do Sul, é membro associada do Centre for Culture, Identity and Education da University of British Columbia. É doutora em Educação pela University of British Columbia, com a pesquisa Voices in the Silence: Narratives of disadvantage, social context and school mathematics in post-apartheid South Africa. Sua tese lhe garantiu diversos prêmios de excelência, dentre eles o Canadian Association of Curriculum Studies Award de 2005; o prêmio Ted T. Aoki, do mesmo ano; e o American Educational Research Association Award de 2006. Dentre outras publicações, é autora do capítulo Where have all the fishes gone?: Living ubuntu as an ethics of research and pedagogical engagement, do livro In the Spirit of ubuntu: Stories of Teaching and Research [No espírito do ubuntu: Histórias de ensino e pesquisa] (Sense Publications, 2009).

Ubutu em Portugal: Escolas Livres

Confira a entrevista.

sexta-feira, 7 de outubro de 2005

Here Today | Aqui e agora

Os objectivos do Milénio estão em andamento em várias partes do globo...eis alguns projectos que ilustram bem o que há hoje em dia...temos em nossas mãos o aqui e agora para andar em frente...a sustentabilidade ambiental e a Paz são linguagens universais...

1. Na América do Sul
Espólio de cultura e conhecimento inca no site Tapuy Tabuni. Se conhecermos os hábitos ancestrais de povos nativos, podemos também hoje em dia tentar resolver criativamente soluções para o combate à desertificação e à exploração de recursos naturais que estes povos têm sido submetidos....porque a globalização não traz soluções globais.

2. Na Ásia (Japão)
Chegou-me esta ONG World Peace Now , de um país que todos sabemos serviu de testing ground para duas experiências atómicas.

3. Na ONU
Está a organizar vários encontros internacionais para a Paz, entre os quais a rede UBUNTU .
UBUNTU é uma palavra africana que siginifica Bondade.
Nessa perspectiva criou-se esta rede mundial para a promoção da Cooperação entre os Povos.
UBUNTU is a world forum of civil networks promoting Peace. UBUNTU is an age-old African term for humaneness - for caring, sharing and being in harmony with all of creation. As an ideal, it promotes co-operation between individuals, cultures and nations.

4. Na Lusofonia
Destaco o site dedicado ao Desenvolvimento Económico e Social do Território através do Turismo nos Países Lusófonos, como ferramenta de combate à Exclusão Social.

5. Nos países árabes
Leio e acompanho as notícias ecológicas dos países árabes, em inglês ou árabe (sempre pode haver quem saiba árabe entre os meus leitores) e verificamos que têm as mesmas preocupações socioambientais!