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sábado, 25 de julho de 2026

A Odisseia é ficção. Mas os seus monstros e magia podem ter bases científicas

Pellegrino Tibaldi (1550–1551) - Ulisses acceca Polifemo (em português: Ulisses cega Polifemo)

A Odisseia é um mito. É duvidoso que um homem tivesse demorado, literalmente, uma década a viajar desde Tróia, uma cidade situada na costa da Turquia, até à ilha grega de Ítaca após a guerra de Tróia, tivesse sido amaldiçoado para fazer amor com bruxas, viajado até ao Hades e lutado com um ciclope. Ou, se tivesse mesmo demorado assim tanto tempo, a sua maldição deveria incluir não pedir indicações.

No entanto, o relato da viagem extraordinariamente longa de Ulisses alude a coisas que as pessoas poderão ter encontrado no mundo antigo, desde um ciclope de carne e osso a remoinhos assassinos e plantas alucinogénicas. Seguem-se algumas das realidades científicas por trás das suas lendárias aventuras.

O ciclope
Na história, o ciclope Polifemo - um gigante que aprecia carne humana e, como é óbvio, tem apenas um olho no meio da cabeça - prende a tripulação de Ulisses e come alguns dos seus homens ao almoço. Ulisses cega Polifemo com uma lança aquecida e depois eles conseguem fugir, amarrados às barrigas das ovelhas de Polifemo.

Uma das hipóteses para a origem deste gigante mítico com um só olho encontra-se nos fósseis do Deinotherium giganteum, um parente do elefante que deambulou pela Europa, a Ásia e África há entre 23 e 8 milhões de anos. Paleontólogos desenterraram os seus ossos na ilha de Creta, onde os antigos gregos também os podem ter encontrado. Os crânios de elefante têm cavidades oculares relativamente pequenas, com um orifício enorme no centro. Esse orifício aloja a tromba. Contudo, uma vez que os elefantes alcançavam 4,6 metros à altura do ombro, o enorme crânio poderá ter sido confundido com a cabeça de uma pessoa gigante com um só olho.

No entanto, os gregos também poderiam estar familiarizados com a ciclopia, um defeito congénito raro e mortal, em que as órbitas oculares e o cérebro não se dividem da forma correcta durante o desenvolvimento do embrião humano. Em vez de um nariz, o feto desenvolve um apêndice tubular que aparece geralmente acima de um único olho. A ciclopia só ocorre uma vez em cada 100.000 nascimentos humanos. Infelizmente, 39 por cento são nados-mortos e os que resistem ao nascimento não sobrevivem mais do que 13 horas.

Embora seja uma condição muito rara, os cientistas estimaram que na época d’ A Odisseia, poderiam nascer cerca de 53 casos de ciclopia humana por ano em todo o mundo. Além disso, outras espécies também podem padecer de ciclopia, incluindo ovelhas, vacas e cabras - sobretudo se as progenitoras ingerirem plantas como heléboro.

O monstro e o remoinho
Ulisses escapou a Polifemo de forma inteligente, mas uma vez encurralado entre o monstro marinho Cila, com as suas seis cabeças, e o poderoso remoinho Caríbdis, já não teve tanta sorte. Perdeu a sua tripulação numa tempestade intensa. Na manhã seguinte, Ulisses encontra-se entre os dois. Esta perigosa passagem baseia-se num sítio real – o Estreito de Messina, um canal estreito entre a Calábria, na península itálica, e a ilha da Sicília.

No estreito, o Mar Jónico encontra-se com o Mar Tirreno e os dois corpos de água têm marés opostas – a maré alta no Jónico é maré baixa no Tirreno e vice-versa, diz Sergio Longhitano, sedimentologista da Universidade de Basilicata, em Itália, que publicou um artigo sobre as águas traiçoeiras do estreito em 2018. Por isso, “no meio do Estreito de Messina, existe um ponto conhecido na oceanografia como ponto anfidrómico”, diz Longhitano, onde a altura da água nunca muda.

A altura pode nunca mudar, mas as correntes mudam, acelerando até uns estimados 5 metros por segundo quando há ventos fortes ou tempestades, diz Longhitano. As correntes rápidas e em constante mudança e as marés contrastantes formam padrões estranhos na água. “Por vezes, vêm-se as correntes divergentes”, diz Longhitano. As correntes mais fortes fluem em sentidos opostos, enquanto as mais pequenas puxam para dentro. Quando as correntes que puxam para dentro fluem na mesma direcção “ou quando as duas correntes convergem, pode haver remoinhos”, diz ele. As marés desta região mudam a cada seis horas, o que significa podem surgir remoinhos no estreito várias vezes por dia. Caríbdis está sempre à espera.

Quanto a Cila, o monstro de seis cabeças, existe “uma enorme falésia que pode ser vista à distância, sobretudo ao pôr do Sol. Conseguimos ver uma forma muito escura estendendo-se em direcção ao norte do Estreito de Messina”, explica Longhitano. Embora seja impossível conhecer a inspiração exacta de Homero, este pode ser um bom sítio para um monstro.

Os comedores de lótus
Alguns encontros d’ A Odisseia acarretam menos perigos, assemelhando-se mais a festas com drogas à disposição. Ao chegar a uma ilha, Ulisses envia batedores para conhecer os habitantes, mas eles são “comedores de lótus”, que partilham deliciosos frutos de “lótus”, pondo os tripulantes num transe que os leva a abandonar as suas tarefas.

Muitas pessoas pensam imediatamente em drogas viciantes como o ópio, mas os antigos gregos conheciam as papoilas e o ópio e não lhe chamavam lótus. Além disso, o ópio é mencionado especificamente na Odisseia, como “nepente”, uma droga que Helena de Tróia mistura com vinho para ajudar os gregos a esquecerem as suas adversidades.

O que era então o lótus? Numa análise efectuada em 2020, cientistas conseguiram identificar sete géneros diferentes de plantas às quais os antigos gregos chamavam “lótus”.

Algumas são os nenúfares que podemos descrever actualmente como flores de lótus, do género Nymphaea. Mas Homero diz que o “lótus dos Lotófagos” era uma árvore e autores posteriores como Heródoto, Teofrasto e Plínio situam os comedores de lótus no norte de África, na região da cidade de Trípoli, na Líbia.

“Não conheço nenhum ‘lótus’ que cause perda de memória, diz Joe Schwarcz, químico da Universidade McGill, em Montreal, no Canadá. “Alguns historiadores supuseram que os gregos se referissem à jujubeira (ou tamareira-chinesa) como ‘lótus’.” Plantas arbustivas como a jujubeira pertencem ao género Ziziphus. As plantas deste género produzem um tipo jujuba que existe no norte de África. Este fruto não tem propriedades psicoactivas, mas pode ser fermentado e um golo de álcool é sempre bom para esquecer.

A bruxa que transformou homens em porcos
Noutra ilha, a bruxa Circe faz uma emboscada a Ulisses à a sua tripulação, causando-lhes mais problemas de memória. Fá-los beber uma poção com “drogas potentes que os fazem esquecer completamente o seu lar”. Ao beberem, os homens transformam-se em porcos. Ulisses vai libertá-los, auxiliado pelo deus Hermes, que colhe uma planta chamada moli, com raízes negras e flores brancas. Armado com a planta, Ulisses resiste à magia de Circe e salva os seus homens.

Seria necessária magia de verdade para transformar homens em porcos. Mas fazer homens acreditar que são porcos é muito mais fácil, diz Schwarcz. “Os antigos gregos conheciam certamente as plantas que tinham capacidades psicoactivas.” Plantas como a datura (Datura stromonium), frequentemente chamada figueira-do-inferno, e a beladona (Atropa belladonna) contêm compostos como atropina e escopolamina que bloqueiam os receptores de um mensageiro químico do cérebro chamado acetilcolina. “No cérebro, [este químico] participa na criação de memórias e o bloqueio da sua actividade causa alucinações e, possivelmente, delírios”, diz Schwarcz.

Quanto à “moli” que manteve Ulisses em segurança, “o antídoto para o envenenamento com atropina é a fisostigmina, que está presente no feijão-de-Calabar (Physostigma venenosum)”, diz Schwarcz. Num artigo publicado em 2022, Schwarcz também sugere que a flor branca de Ulisses pudesse ser Galanthus nivalis, que produz galantamina. Ambos os químicos bloqueiam a enzima que decompõe a acetilcolina, o que poderia aumentar os níveis do mensageiro químico. (Patologias como a doença de Alzheimer estão associadas a uma actividade reduzida da acetilcolina no cérebro e a galantamina e a fisostigmina foram ambas estudadas como tratamento.)

A Odisseia torna bem claro que as plantas podem ser remédios, mas também podem ser venenos. “A ideia mais enganadora talvez seja que “o natural é seguro” e “a natureza sabe o que faz”, diz Schwarcz.

E embora alguns dos encontros do poema épico possam ter uma base científica, um pouco de magia nunca fez mal a ninguém. É possível inventar monstros, os homens podem contar histórias sobre o submundo e as bruxas podem fazer venenos. “É apenas uma história. E numa história vale tudo”, diz Schwarcz. “As plantas podem transformar homens em porcos, embora algumas pessoas possam dizer que não são necessárias [plantas] para essa transformação.”


quarta-feira, 6 de maio de 2026

A história do adufe na Beira Baixa é uma viagem fascinante que atravessa continentes e milénios, fundindo heranças religiosas, culturais e sociais


1. A Origem Árabe e a Expansão Islâmica
A palavra adufe deriva do árabe ad-duff. O instrumento chegou à Península Ibérica durante a ocupação muçulmana (a partir do século VIII). Naquela época, os panderos quadrados eram comuns em todo o Médio Oriente e Norte de África, sendo utilizados tanto em contextos festivos como religiosos.

2. A Reconquista e a Fixação no Interior
Com a Reconquista Cristã, muitos elementos da cultura árabe foram assimilados pela população local em vez de serem erradicados. A Beira Baixa, devido ao seu relativo isolamento geográfico e carácter fronteiriço, tornou-se um "baluarte" onde estas tradições se enraizaram profundamente. Enquanto noutras regiões o instrumento se perdeu ou evoluiu para o pandeiro redondo, na Beira Baixa ele manteve a sua forma quadrangular original.

3. O Papel das Mulheres e da Religião
O adufe sobreviveu e prosperou principalmente através das mãos das mulheres (as adufeiras). Houve uma transição curiosa do seu uso:
  1. Contexto Profano: Ritmos de trabalho no campo e festas populares.
  2. Contexto Sagrado: O instrumento foi adotado pelas irmandades e festividades católicas. Tornou-se indissociável do culto à Senhora do Almortão ou à Senhora da Póvoa, onde o toque do adufe acompanha os cânticos litúrgicos e as procissões.
4. Por que é que ficou "preso" na Beira Baixa?
Existem várias teorias para a exclusividade regional:
  1. Isolamento: As serras da Estrela e da Gardunha dificultaram a entrada de influências externas que pudessem substituir o adufe por instrumentos mais "modernos".
  2. Identidade Comunitária: O adufe tornou-se um símbolo de resistência cultural e identidade local, passado de mães para filhas como uma herança viva.

Curiosidade Técnica
O que torna o adufe da Beira Baixa especial é a sua construção: dois quadrados de madeira revestidos com pele de ovelha (ou cabra), contendo no seu interior sementes ou pequenas soalhas (pedrinhas), que conferem aquele som de "chuva" característico quando o instrumento é vibrado.

Sabia que? Apesar de ser o símbolo da Beira Baixa, existem registos históricos e iconográficos que mostram que o adufe foi usado em quase todo o Portugal até ao século XVII, incluindo na corte de Lisboa, antes de se tornar uma exclusividade do interior.


quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Rãs galáxia em risco de extinção devido a práticas fotográficas antiéticas


Cientistas da Sociedade Zoológica de Londres alertam para o possível desaparecimento das rãs galáxia de Querala, na Índia. Os resultados constam de um estudo publicado esta quarta-feira na revista científica Herpetology Notes.

As Melanobatrachus indicus, nome científico das rãs galáxia, são endémicas das florestas do sul da Cordelheira dos Gates Ocidentais, da Índia, mais concretamente da floresta tropical de Querala. Trata-se de pequenos anfíbios, do tamanho da ponta de um dedo e que se caracterizam pelas suas manchas reluzentes, usadas como forma de comunicação entre os espécimes.

É a “única representante” da sua subfamília no reino animal e está classificada como “vulnerável” pela Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza, desde 2020.

O seu habitat a ser conquistado por explorações agrícolas de café e chá.
Se uma investigação feita pelos autores do estudo em 2020 dava conta da existência de sete espécimes debaixo de “troncos caídos incrustados na serapilheira”, as buscas efetuadas em 2021 e 2022 não detectaram a presença de rãs galáxia na floresta.

Ao jornal britânico The Guardian, o investigador Rajkumar KP alerta para a destruição do micro-habitat destes animais. Um dos troncos estava “completamente destruído e fora do lugar” e a vegetação estava “pisada”.

Alerta para os perigos da prática fotográfica desregulada
De acordo com vigilantes locais, “grupos de quatro a seis fotógrafos visitaram o local” em várias ocasiões, entre junho de 2020 e abril de 2021. Tiraram fotografias com flash e tocaram nos espécimes encontrados para serem levados para locais mais “fotogénicos, como musgos e troncos”.

Numa das ocasiões, juntaram cinco espécimes, sendo que as visitas podem ter resultado na morte de dois deles, algo não confirmado pelo estudo. Cada sessão fotográfica durava cerca de quatro horas.

Apesar de tentarem impedir a entrada destes grupos, os fotógrafos utilizavam autorizações oficiais para terem acesso aos habitats protegidos.

Tendo em conta que estes animais respiram pela pele, que é ultrassensível, o estudo aponta para o perigo de dessecação dos corpos dos espécimes decorrente do uso de flashs e de transmissão de doenças provocado pela ausência de uso de luvas na captura dos animais.

O incidente chama a atenção para os riscos do turismo fotográfico desregulado, de acordo com Rajkumar, que coloca em causa espécies vulneráveis e a preservação dos seus habitats, assim como provoca alterações de comportamento dos animais e até a sua morte.

O estudo propõe medidas para “promover” práticas de fotografia de natureza “mais éticas”, como a inclusão de “conhecimento das práticas éticas na fotografia de vida selvagem para o procedimento de seleção de guias licenciados” pelo Ministério do Turismo e a elaboração de um código de ética que inclua “restringir a captura, manuseamento e perseguição” dos espécimes, assim como a minimização do uso de “luzes de alta intensidade”.

Também é proposta a penalização dos fotógrafos que não cumpram as medidas.

As restrições à fotografia na Índia não são inéditas, existindo já proibições na fotografia durante as épocas de acasalamento e de ninhos durantes competições fotográficas.

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Terras de Barroso é notícia em França

A Serra do Barroso, no extremo norte de Portugal, é única na sua história, património, paisagens e biodiversidade. É um dos oito territórios europeus atualmente classificados como Património Mundial da Agricultura pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura [Fonte].

Infelizmente, o seu subsolo é considerado rico em lítio, um elemento essencial no fabrico de baterias para telefones e veículos elétricos. Vendo isto como uma oportunidade económica, o governo português deu luz verde ao seu desenvolvimento. Os habitantes locais lutam contra o projeto, mas sem grande esperança. Uma crónica de um desastre ecológico anunciado. 

A base e a elevação
Do topo de um forte que data da Segunda Idade do Ferro, a estátua de pedra de um poderoso guerreiro gaélico, descoberta na região, contempla milhares de anos e uma paisagem de cortar a respiração moldada pela pura paciência do tempo: a do Barroso, uma região de média montanha que se estende pelos concelhos de Boticas e Montalegre, no distrito de Vila Real (região histórica de Trás-os-Montes). Os caminhantes que se aventuram até aqui não estão imunes ao encontro com uma alcateia de lobos ibéricos, numerosos na região e uivantes durante a noite. Mais abaixo, é o gado Barrosã, com a sua pelagem fulva e os seus chifres longos e curvos, cuja herança genética está enraizada nas profundezas do tempo, que domina esta obra-prima.

Em Agosto último, ambientalistas de todo o mundo reuniram-se ali, precisamente na aldeia de Covas do Barroso, no quintal de uma antiga quinta convertida em ecomuseu (um grande número na região ). A sua luta local: a mina de lítio que ameaça desfigurar a área, mais precisamente a exploração de pegmatitos contendo lítio para a produção de concentrado de espodumena, um mineral utilizado no fabrico de lítio para baterias. Segundo um relatório do Serviço Geológico dos Estados Unidos, publicado em 2023, Portugal detém as maiores reservas de lítio da Europa e a oitava maior do mundo. O seu Primeiro-Ministro, António Costa, tem afirmado repetidamente que o país está sentado sobre um tesouro.

"A realidade é que ele não sabe mais do que eu e tu, porque estes são recursos deduzidos", interrompe Carlos Leal Gomes, professor da Universidade do Minho e especialista na matéria. "Quinto, sexto, oitavo lugar, para já não temos absolutamente nada. Só saberemos esta classificação quando começarmos a produzir." O grupo britânico Savannah Resources Plc [Fonte], que obteve a concessão para a operação, apresentava, no entanto, números muito precisos antes do Verão: uma produção de 25.000 toneladas, o equivalente à quantidade de material necessária para fabricar baterias para aproximadamente 500.000 veículos por ano. Mas, mais uma vez, Carlos Leal Gomes modera o entusiasmo que prevalece em Lisboa: "Nesta fase, estes são apenas números indicativos, sabendo que neste campo estão comprovadas muito poucas estimativas." Além disso, os minérios de Barroso não são dos melhores em termos de qualidade. Exigirão muito trabalho para serem exploráveis."

O projeto Barroso Lithium envolve perfurações até 1.700 metros de profundidade numa área de 593 hectares e a criação de uma cratera a céu aberto com 800 metros de diâmetro, a menos de 200 metros das povoações mais próximas! Este é o pior método de extração existente, equivalente ao do gás de xisto, com a sua série de danos colaterais. A extraordinária floresta de pinheiros, que conseguiu o milagre de se regenerar após grandes incêndios há alguns anos, será novamente sacrificada, mas deliberadamente desta vez. Tínhamos lido muito sobre o assunto antes de o virmos visitar in loco, mas quando descobrimos o local, foi o suficiente para nos fazer chorar.

No bar da aldeia, o apropriadamente chamado "O Nosso Café", podíamos sentir os clientes um pouco relutantes em conversar. Não sabemos muito, não acompanhamos de perto e somos sempre encaminhados para outra pessoa. "As pessoas não entendem por que, com o objetivo louvável de reduzir a poluição, vamos destruir florestas, "rios, todo um ambiente e, em última análise, as suas vidas", resume Nelson Gomes, presidente da associação Unidos pela Defesa de Covas do Barroso. "Já estamos a assistir ao colapso climático com os nossos próprios olhos e, para o contrariar, vamos agravá-lo aqui. É uma aberração."

A comunidade intermunicipal do Alto Tâmega, da qual Barroso faz parte, é o ponto de encontro do norte de Portugal. A água está em todo o lado, em abundância, tanto que se pode ouvi-la cantar continuamente o seu fado. O Posto de Turismo fez dela a sua imagem de marca: "O território da água e 
bem-estar." Mas a evisceração da montanha, claro, perturbará este belo e intemporal equilíbrio. "A extracção interferirá inevitavelmente com a irrigação das nossas terras, o que acabará por condenar a produção", lamenta Aida, outra voz de protesto. "No entanto, esta natureza é a nossa única riqueza, a nossa mãe nutritiva." Acima de tudo, são necessários entre 41.000 e 1,9 milhões de litros de água para produzir uma tonelada de lítio.

Então, José promete alguma alegria à cidade distante: "Para além da interrupção do sistema de rega e das projecções de poeiras, todo este lítio terá de ser lavado antes de ser enviado. E é a água daqui que recebem no Porto, em Braga ou em Guimarães." Os promotores do projeto diriam que se trata apenas de fantasias sem base científica, enquanto realizaram estudos muito sérios. Mas os habitantes mais antigos da região recordam que a exploração de volframite, um mineral que contém tungsténio, um metal muito útil para o fabrico de armas, durante a Segunda Guerra Mundial quase condenou a tribo Barrosa.

Portugal é já o maior produtor de lítio da Europa, com 900 toneladas por ano [Fonte]. Este número continua, no entanto, a ser muito modesto em comparação com as 55.000 toneladas da Austrália (46,3% da produção mundial) ou as 26.000 toneladas do Chile (23,9%). Mas as suas reservas estão estimadas — ainda condicionalmente — em 60.000 toneladas. Assim, decidiu-se minerar em seis locais do interior do país, onde tinham sido identificados jazigos. O que salvou Portugal até então? O custo de extracção, duas a três vezes superior na Europa do que no Chile, por exemplo. Mas os avanços tendem a diminuir este fosso e, à medida que se começou a sentir uma certa inquietação quanto a uma possível futura escassez global, a decisão foi rapidamente tomada.

A Savannah Resources já está em casa em Portugal (o seu site está agora disponível em inglês e em português), onde criou uma agência dedicada de relações com os media. De facto, o grupo britânico está a beneficiar de uma impressionante campanha de portas abertas na imprensa portuguesa, onde, através de artigos que fazem lembrar publieditoriais, todos os bons motivos para a próxima operação são reafirmados sobre as suas condições. Boas pessoas, estejam descansadas, o nosso projeto é sustentável e obedece às técnicas mais virtuosas.

Para garantir o seu sucesso, a empresa, claro, cumpriu uma série de requisitos: a promessa de indemnizações às comunidades afetadas, a construção de uma nova estrada para o transporte de lítio para limitar os incómodos aos residentes locais, a proibição de captação de água do Rio Covas, mecanismos de compensação, etc. A Savannah chega mesmo a gabar-se da potencial renaturalização do local após o esgotamento da mina (falamos de uma duração de exploração em dezassete anos).

Com a autorização da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), que deu a sua aprovação esta primavera, a Savannah Resources pretende iniciar as escavações até 2026.

"Mas fomos tão enganados desde o início, com argumentos falaciosos, que já não acreditámos neles", diz João, que regressa à sua aldeia natal todos os verões. "Na verdade, só fomos informados depois do lançamento do projeto." E, como sabem, é difícil protestar em Portugal. Recentemente, activistas tentaram erguer um bloqueio na estrada nacional que atravessa o norte do país de leste a oeste, mas em menos de uma hora foram removidos sem cerimónias pelas autoridades. Assim, o protesto limita-se modestamente a inscrições ou faixas com os dizeres: Não à mina, sim à vida  ou, mais simplesmente, "Não à Mina".

Porque a vida tem sentido na região do Barroso, onde os habitantes sempre respeitaram todos os seres vivos. Sentimo-lo em Sofia, cuja família possui uma quinta perto de Chaves, a cerca de vinte quilómetros. De longe, uma genuína admiração por eles: "A vida deles foi difícil durante muito tempo. Muito difícil. Estavam completamente isolados do resto do país. A eletricidade só chegou lá em 1966. Assim, foram organizados em comunidades para a gestão dos recursos." Tal isolamento que, no Concílio de Trento, em 1542, foi pedida uma isenção para permitir que os padres do Barroso se casassem! Tal não aconteceu, mas as aldeias mais remotas, como Vilarinho Seco, não mudaram nada no seu modo de vida, que alguns comparariam, sem dúvida, ao dos Amish.

Na década de 1980, o fotógrafo Gérard Fourel imortalizou esta "terra dos últimos homens", que fala por si. Quarenta anos depois, os seus habitantes ainda lá vivem com os seus animais e cozem pão no forno comunitário, que se assemelha a uma ágora. E os baldios, terras comunais geridas colectivamente, são ainda numerosos na zona. É esta obra-prima da humanidade que a UNESCO mencionou "a forma tradicional de trabalhar a terra, cuidar dos animais e a entreajuda entre os seus habitantes", que David Archer, ex-CEO da Savannah Resources, descreveu em 2021 no Diário de Noticias como uma região moribunda em processo de desertificação, apresentando a sua mina como "a" solução para inverter a tendência e revitalizá-la, prometendo "a procura imobiliária (sic) e a realocação de serviços públicos"[Desde 18 de setembro de 2023 que o português Emanuel Proença é o novo CEO da Savannah Resources Plc ]. Comparada com a carrinha de compras que abastece Covas de Barroso, a perspectiva roça o grotesco. Como sempre acontece com um projecto deste tipo, fala-se na criação de 600 postos de trabalho, mas isso dificilmente afectará a população local, uma vez que a dita mina "inteligente" será parcialmente gerida remotamente.

André, natural de Montalegre, Toulouse, que regressa todos os verões para fazer caminhadas com a filha, faz a triste observação de que "mesmo aqui, onde pensávamos estar em segurança, estamos presos à política do dinheiro". O neoliberalismo europeu tem as suas garras sobre Barroso, e agora será difícil para ele libertar-se. Com a autorização da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), que deu o seu aval na primavera, a Savannah Resources pretende iniciar a escavação até 2026. A estrada de trinta quilómetros para transportar o lítio até à autoestrada, no entanto, ainda não está concluída até lá. João vê nisso "talvez uma forma de atrasar o prazo, porque muitos municípios têm de ser atravessados ​​e um certo número de proprietários está recalcitrante". 

Mas mantém-se pessimista: "As pessoas não têm muitas ilusões: o projecto vai avançar porque já foi investido muito dinheiro." No início de setembro, a APA chegou mesmo a dar o seu aval a um segundo projeto, em nome da "importância estratégica do lítio para os objetivos de neutralidade carbónica e a transição energética", este em Montalegre: a construção de uma unidade de refinação do metal extraído pela empresa portuguesa Lusorecursos. Montalegre, "750 anos de história" e "uma ideia de natureza", como gosta de se apresentar. Parte do território do concelho estende-se até à Reserva da Biosfera da Peneda-Gerês.

As associações de defesa de Barroso, no entanto, sustentam que a luta ainda não terminou e prometem recorrer à justiça, se necessário. Desde o verão que António Costa tem aparecido em grandes outdoors de 15x10 cm, a três quartos de distância, a abraçar idosos que imaginamos vulneráveis. "Governar a pensar nas pessoas", diz o lema Quem sabe por que razão os apoiantes de Barroso não se sentem preocupados.

Mineração de ouro deixa cicatrizes tóxicas na reserva de Dimonika, no Congo


Acredita-se que estes buracos escancarados no coração da Reserva da Biosfera de Dimonika sejam o resultado da mineração de ouro. Observe esta vasta extensão, recordo que estamos numa reserva estadual,e veja por si mesmo: já não há floresta.
Localizada na República do Congo,a 50 km da costa atlântica, a Reserva da Biosfera de Dimonikacobre 136.000 hectares de floresta. Reconhecida como Património Mundial da UNESCO em 1988,esta área protegida serve como um laboratório vivo: para a conservação da biodiversidade, pesquisa científicae gestão sustentável dos recursos naturais.
Mas, desde a chegada daempresa chinesa City SARLno final de 2023,esta área protegida pode estar perigo. De acordo com os meios de comunicação locais, estas retroescavadeiras já destruíram5 hectares de floresta, o equivalente a sete campos de futebol. Alguns garimpeiros locais receberamc ompensação financeira da empresa para abandonar o local. 
Estes três homens recusaram. Tinham vindo com uma política de dar às pessoas uma pequena quantia [equivalente a 70 dólares] para libertar os lugares para que eles próprios pudessem vir trabalhar. Mas se pudéssemos ficar aqui, trabalharíamos durante décadas. 
Sem terra, esta comunidade local de cerca de 3.000 pessoas também está privada de água potável.O Rio Yanika, que costumava atravessar a área, está agora quase seco. Costumávamos ter fontes de água, fontes de água muito boas. Hoje está tudo amarelo, até tem medo de lavar as mãos nele.
No final de 2024,em resposta às preocupações das comunidades locais, a ONG Congo Nature Conservation recolheu amostras de água. As suas análises laboratoriais mostraram um teor anormalmente elevado de mercúrio. Assim, o nível normal é de 0,00005 mg/l, mas estamos nos 0,007 mg/l, que está bem acimado nível permitido em água doce. Isto é mais de 140 vezes mais do que o habitual.
O mercúrio ficará nos pulmões, no fígado, e, em segundo lugar, pode causar danos às pessoas que consomem essas águas. 
Portanto, é tempo de apontar e interromper a exploração anárquica de ouro nesta reserva de Dimonika. Em Brazzaville, as nossas equipas reuniram com um dos gerentes da empresa chinesa em causa, que negou ser responsável pelos danos. Os danos já eram visíveis antes de chegarmos. É como a chegada de um inquilino: se não houve um inventário feito antes de o inquilino ocupar a casa, e se é feito um inventário só depois de o inquilino já estar alojado, vemo-nos carregando tudo o que veio antes de nós. Os inquilinos anteriores nesta analogia seriam mineiros artesanais do distrito de Mvoutique aqui prospectam ouro há décadas com a autorização das autoridades locais. Alguns recusaram-se a deixar o local diante da empresa mineira e continuam a trabalhar a terra com ferramentas mais rudimentares. O que fazemos num ano, as máquinas chinesas fazem-no numa semana. Com a mineração artesanal de ouro, não conseguimos cortar 10 ou 15 árvores. Com as suas máquinas, arrasam tudo. Então, como vamos alimentar as nossas famílias? E os nossos filhos, como sobreviverão? Perante a escala do desastre, a ministra do Ambiente, Arlette Soudan-Nonault, ordenou a proibição das atividades da empresa em novembro de 2024. Mas, entretanto, a biodiversidade foi severamente danificada, a água está imprópria para consumo e alguns habitantes foram obrigados a fugir.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

As 7 Novas Maravilhas do Mundo e outras e muitas mais


Texto adaptado
 daqui e com as respectivas hiperligações

As 7 Maravilhas do Mundo eram monumentos construídos pelo homem e foram selecionados por Philon of Bizantium no ano de 200 AC com seus amigos gregos. Talvez por esta razão todas eram próximas ao Mar Mediterrâneo.

Estes monumentos eram os seguintes:
1) O Farol de Alexandria

2) O Templo de Artemis

3) A Estátua de Zeus

4) O Colosso de Rhodes

5) Os Jardins Suspensos da Babilónia

6) O Mausoléu de Halicarnassus

7) As Pirâmides do Egito (Gize)

Todos foram construídos entre os anos de 2.500 AC e 200 AC.Das 7 Maravilhas do Mundo, originais, resta somente hoje, as Pirâmides de Gizé no Egipto.

Este fato foi determinante para que o suíço Bernard Weber aproveitasse a oportunidade para lançar uma proposta global de escolha das 7 Novas Maravilhas do Mundo (The New 7 Wonders of the World) em 2000.

O conceito para a escolha permaneceu o mesmo, ou seja, os monumentos têm que ter sido construídos pelo homem. A eleição para a escolha das 7 Novas Maravilhas do Mundo será feita através dos votos de toda a população e abrangem os monumentos erguidos desde o início da civilização até o ano de 2000 quando foi lançado o projeto. Após as duas primeiras seleções realizadas pelo voto de cerca de 19 milhões de pessoas pelo mundo todo, restaram somente 21 monumentos que são os seguintes:
01) Acrópolis – Athenas/Grécia

02) Alhambra – Granada/Espanha

03) Angkor – Cambodia

04) Chichen Itza – Yucatan/México

05) Cristo Redentor– Rio de Janeiro/Brasil

06) Coliseo – Roma/Italia

07) Estátuas da Easter Island – Chile

08) Torre Eiffel – Paris/França

09) Grandes Muralhas – China

10) Hagia Sophia – Istambul/Turquia

11) Templo Kyomizu – Kyoto/Japão

12) Kremlin – Moscou/Rússia

13) Machu Picchu – Perú

14) Castelo de Neuschwanstein – Fussen/Alemanha

15) Petra – Jordania

16) Piramides de Gize - Egito

17) Estátua da Liberdade – Nova York/USA

18) Stonehenge – Amesbury/Inglaterra

19) Ópera de Sydney – Austrália

20) Taj Mahal – Agra/India

21) Timbuktu – Mali

As 7 Novas Maravilhas do Mundo serão conhecidas num grande espectáculo em Lisboa, no próximo dia 07 de Julho de 2007, após a apuração dos votos pelo mundo todo. E todo mundo poderá votar.

Votei em Stonhenge
Em Portugal também nós temos muitos vestígios megalíticos, principalmente no Interior e Sul, onde estão mais bem preservados. Eu já visitei Carnac (France) e megalitismo em Espanha e Malta. Por quê? Talvez porque representam o poder metabólico verdadeiro do Homem (usando poucas ferramentas) e o respeito profundo à natureza (pedras locais) e ao Cosmos - geralmente são templos em devoção às estrelas ou Sol ou Lua. Megalitismo porque também é essa resposta ligada, contrapeso e dimensão espiritual, perpetuando-se essa mensagem em rocha.

Mas quantas maravilhas poderiam ser eleitas: umas 860 que são já Património Mundial da UNESCO....ou todos os centros históricos de todas as cidades do mundo ou todas as paisagens protegidas....