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domingo, 1 de junho de 2025

quarta-feira, 9 de abril de 2025

O preço do boom da Portucel Moçambique, empresa do grupo The Navigator Company


O papel é visto como uma alternativa sustentável ao plástico. As novas regulamentações verdes e as embalagens descartáveis, entre outros fatores, estão a aumentar o consumo de papel exponencialmente. Mas será que a indústria do papel é realmente um modelo sustentável?

Para descobrir, mergulhámos no ano passado na luta pela terra dos habitantes da província de Manica, em Moçambique, onde descobrimos como uma multinacional estava a implementar um modelo falhado já testado em Portugal.

sábado, 30 de dezembro de 2023

UNESCO quer investigação ao homicídio de João Chamusse


Diretora-geral da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), Audrey Azoulay, condenou o homicídio do jornalista moçambicano João Chamusse e pediu uma investigação às circunstâncias do crime.

Numa posição divulgada por aquela organização das Nações Unidas, a que a Lusa teve hoje acesso, Audrey Azoulay pede uma investigação sobre as circunstâncias da morte daquele profissional, no dia 14 de dezembro, em Maputo, e afirma "que a impunidade para tais crimes não deve ser tolerada e os criminosos devem ser levados à justiça".

"A Unesco promove a segurança de jornalistas por meio da conscientização global, capacitação e coordenando a implementação do Plano de Ação das Nações Unidas sobre a Segurança de Jornalistas e a Questão da Impunidade", recorda a organização.

O Serviço Nacional de Investigação Criminal (Sernic) anunciou em 22 de dezembro a detenção de mais dois suspeitos de envolvimento no assassínio do jornalista moçambicano João Chamusse.

"Eles foram detidos na posse dos telemóveis e do computador pertencentes à vítima", declarou Henrique Mendes, porta-voz do Sernic na província de Maputo, durante uma conferência de imprensa.

João Chamusse, de 59 anos, foi encontrado morto no dia 14 de dezembro no quintal da sua residência, em Nsime, na província de Maputo, sem roupa e com um ferimento na nuca.

As autoridades acreditam existirem elementos fortes que provam o envolvimento dos indiciados, de 23 e 18 anos, incluindo o instrumento contundente que terá sido usado para assassinar João Chamusse.

"Um deles, que é confesso, alega que terá realizado alguns trabalhos na casa da vítima e não foi pago. Por isso, optou por ajustar as contas com vítima, ele era um vizinho da vítima [...]. O outro suspeito foi detido na posse de um dos telemóveis da vítima, em resultado do trabalho que fizemos", observou o porta-voz do Sernic.

Segundo as autoridades, as outras três pessoas que tinham sido detidas suspeitas de estarem envolvidas no caso na semana passada foram entretanto libertadas.

Piloto comercial de formação, pela Escola Aeronáutica de Lisboa, João Chamusse era diretor editorial do jornal eletrónico "Ponto por Ponto" e comentador televisivo, caracterizando-se por uma abordagem crítica, irónica e, por vezes, cómica, sobretudo em temas de política interna.

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Ainda a Homenagem a Sara Tavares - afinal o racismo negro contra os brancos existe em Portugal


Porque é que Cristina Roldão não escreve em cabo-verdiano "bunita"?? Bela homenagem logo no título!! Diz a cronista que corriam os anos de 1993 e 1994 e que "naqueles breves minutos - quando a Sara Tavares cantou e venceu o Chuva de Estrelas e o Festival da Canção- , deixámos de ser mandadas para a “nossa terra”, porque subitamente éramos daqui; deixámos de ser as “pretas da Guiné que lavavam a cara com chulé”, as “barrote queimado”, as “macacas” que cheiravam a “catinga”. Só se for em Lisboa.
Quantos "brancos" portugueses que conheço e adoptaram menino(a)s moçambicanos, cabo-verdianos, tomeenses já antes dessa altura.... Os próprios retornados de África foram os pioneiros na adopção de crianças africanas. Não trouxeram ódio. Muitos dos seus filhos mantiveram a dupla-nacionalidade (Angola-Portugal, Moçambique-Portugal, Guiné-Bissau-Portugal, por aí fora).  Cristina Roldão mal!! Não convoquemos racismo negro. Sara Tavares não era racista!! Contudo e por falar  nos anos 80 (e 90) na faculdade onde estudei havia muitos estudantes universitários CPLP. Portugal nunca falhou o pagamento da bolsa. Já os seus países de origem demoravam a pagar. Tinham que trabalhar para concluir os estudos. Os macaenses também igual sorte. 
Outra homenagem racista leio em Joacine Katar Moreira, apelando ao orgulho preto, dizendo que morreu "uma luz para todas nós, meninas negras". Sara foi adoptada por avós brancos no Pragal. Morreu uma MULHER. Ponto. Grande voz, amor eterno à música. Lembremos a Sara Tavares, sem etnia nem côr. 
P.S. Uns tios meus "brancos" ( já falecidos ) adoptaram uma menina manca moçambicana. Isto há 40 anos atrás. Agora é uma mulher realizada, está casada com um homem "branco" e têm dois filhos mestiços. Já conversei com ela muitas vezes sobre se alguma vez sentiu em Portugal alguma discriminação por  ser "preta" e ela diz-me que não e que está-se a marimbar para o Black Lives Matters. "Isso é um fenómeno dos States", diz ela. E tem razão.

sexta-feira, 28 de julho de 2023

Moçambique perde 267 mil hectares de florestas todos os anos

Moçambique perde todos os anos 267 mil hectares de florestas, segundo dados avançados em Maputo pelo diretor nacional de Florestas, Cláudio Afonso.

“Temos estado a registar algumas preocupações porque anualmente perdem-se cerca de 267 mil hectares de florestas”, afirmou o responsável à margem da primeira reunião do Comité Técnico para a Operacionalização da Declaração de Maputo sobre a Gestão Sustentável e Integrada da Floresta de Miombo, evento de dois dias que arrancou na quinta-feira.

As atividades madeireiras são apontadas como responsáveis por este cenário.

A iniciativa da Declaração de Miombo foi lançada pelo Presidente da República, Filipe Nyusi, e durante estes dois dias de reunião está a ser discutido o regulamento do funcionamento dos comités (técnico e ministerial) e o plano de ação bienal dos onze países da região austral de África que adotaram a declaração.

Para a implementação destas ações, Moçambique já garantiu cerca de 17 milhões de dólares, para necessidades totais avaliadas em 30 milhões de dólares identificadas para a implementação do plano de ação traçado e que deve vigorar por um período de dois anos.

Neste evento, foi anunciado que o Fundo Global vai disponibilizar a Moçambique cerca de 12 milhões de dólares para revitalização das reservas florestais, restauro, apoio institucional e implementação do sistema de monitoramento florestal do país. Outros cinco milhões de dólares serão disponibilizados pela Agência de Cooperação Italiana, anunciou ainda a secretária permanente do Ministério da Terra e Ambiente de Moçambique, Emília Fumo.

A Floresta do Miombo é responsável pela manutenção da bacia hidrográfica do Zambeze, ao longo da qual vivem mais de 40 milhões pessoas dos oito países atravessados por este curso de água.

Em Moçambique, a Floresta de Miombo alarga-se da parte norte de Inhambane às províncias de Manica, Tete, Sofala e Zambézia, zona centro, e Nampula, Niassa e Cabo Delgado, na região norte do país.

A pressão sobre os recursos da floresta de Miombo, segundo o diretor nacional de Florestas, Cláudio Afonso, são mais intensos nas províncias da Zambézia, Nampula e Niassa.

A Declaração de Miombo foi adotada em agosto de 2022 e estabelece a necessidade de união de esforços dos países da África austral para o incremento de opções de proteção e conservação da Floresta de Miombo e desenvolvimento da região do grande Zambeze.

Tudo ao contrário e atrasado do que foi proposto em 2016 na conferência da Rede do Miombo

Saber mais:

domingo, 25 de junho de 2023

“Tenho muita dificuldade em ver um país muçulmano exemplar nos direitos humanos” – xeque Munir


O imã da Mesquita Central de Lisboa, xeque David Munir, admitiu hoje à agência Lusa que tem “muita dificuldade” em ver um país islâmico exemplar, sobretudo no domínio dos direitos humanos, afinal, um dos pilares do Islão.
“Na teoria, o regime islâmico é baseado na tolerância, na misericórdia e na igualdade. […] Mas a questão que se coloca é que, no Islão, à partida, para dizer a verdade, eu tenho muita dificuldade de ver um país Islâmico exemplar. Em tudo. Nos direitos humanos e, acima de tudo, em valorizar o próximo”, afirmou o xeque Munir.
Numa entrevista à agência Lusa, o imã, que sábado foi um dos oradores de uma conferência subordinada ao tema “A Reforma no Islão”, organizada pela Comunidade Islâmica de Lisboa (CIL), Observatório do Mundo Islâmico (OMI) e Centro Cultural Colinas do Cruzeiro (CCCC), frisou, porém, que o regime islâmico tem consagrado os direitos de igualdade, liberdade de expressão, liberdade de crença e tolerância.
“Cabe ao califa, que já não existe, ao emir, implementar. Tem de estar disposto a ouvir várias opiniões (…) na assembleia de pessoas, dos sábios ou dos mais entendidos ou dos líderes, os que têm a liberdade de dar a sua opinião”, explicou.
David Munir deu como exemplo o caso da democracia, quando, em eleições, um partido ganha eleições democraticamente com maioria absoluta, que lhe permite “fazer e desfazer”, sem dar hipóteses às restantes forças políticas representadas no Parlamento.
“Nos países islâmicos, temos militares e temos ditadores e temos pessoas que querem o poder e que não o querem deixar. Quando há uma pequena abertura para a possibilidade de haver um governo civil, há sempre golpes de Estado. Este é o mundo islâmico atual, em que a democracia não entra. Isto é assim, mesmo que a pessoa queira [mudar], não dura muito”, argumentou.
Para o xeque Munir, atualmente no Islão qualquer pessoa que levante a voz contra o regime, passa a ser considerado não islâmico, situação que lamenta.
"As opiniões das pessoas são válidas até a pessoa conseguir provar que não vai contra os princípios básicos do Islão. Mas, do outro lado, o que acontece nos dias de hoje, em termos gerais, qualquer pessoa que dê uma opinião diferente da do líder ou do partido que está no poder, não tem hipótese”, defendeu.
“Se for um país um pouco mais pacífico, tudo bem, tem o seu espaço, mas há pessoas que passam por represálias, põem a sua vida em risco, não se pode dizer nada, não se pode falar nada. Isto não tem nada a ver com o Islão”, acrescentou, admitindo que foi assim que surgiram movimentos extremistas, como o grupo Estado Islâmico, os Talibã ou o Al Shabbab.
“A falta de conhecimento, o querer o poder a todo custo, alguma influência também do Ocidente para criar uma certa instabilidade, enfim, se misturarmos tudo isto, temos uma boa refeição. No mundo Islâmico, ou em alguns países islâmicos, quando alguém sofre política, social e economicamente, quando se perde tudo, não tem razão de viver, então vai-se criando psicologicamente uma certa raiva, um certo ódio contra aqueles que estão no poder. Do outro lado, vem um grupo que usa o Islão e diz que vai manter a justiça ou igualdade. Dão alguma esperança à pessoa que perdeu quase tudo e esta acaba por se alinhar com alguma esperança. Mas depois, também acaba por ver que também não são diferentes dos outros”, explicou.
No entanto, na opinião de Munir, quem mais sofre com os grupos terroristas islâmicos “são os próprios muçulmanos”.
“A vida é sagrada para todos nós. Mas como há muçulmanos que não compactuam com a ideia deles e com a filosofia deles, passaram a ser inimigos também", afirma.
"Temos, infelizmente, vários grupos, vários 'lobos solitários' à solta e, quando um grupo é detido, desfeito, cada um faz aquilo que puder, na medida do possível, para manter a política, a filosofia, a ideia, a ideologia do grupo, e muitas vezes vai tentando influenciar o outro”, afirmou o imã da Mesquita Central de Lisboa.
“A falta de conhecimento faz com que as pessoas adiram sem saber porquê. E quando começam a estudar, quando começam a ler, abrem a mente e descobrem que, afinal, não é bem assim. E, ao abrirem a mente, quando começam a confrontar o líder, ou os líderes, são postos do lado”, justificou.
Questionado pela Lusa sobre quais os países muçulmanos que convivem num regime democrático, o xeque Munir admitiu ter “alguma dificuldade em responder”, uma vez que, apesar de já ter vivido em muitos países, não residiu em nenhum Estado muçulmano, pois sempre morou em Portugal, “no Ocidente”.
“O que eu sei sobre os países islâmicos é aquilo que sabemos das notícias. No entanto, os países que eu visitei, que não foram poucos, foram muitos, na prática não notei aquilo que eu gostava de notar. A justiça, a igualdade, a parte económica e social. Temos pessoas muito, muito ricas ou temos os muito, muito, muito pobres. Um dos pilares do Islão é a caridade obrigatória, 12,5%. Se todos dessem, iríamos melhorar muito a situação dos mais carenciados. Mas os ricos querem ficar mais ricos e os pobres vão ficar mais pobres. Esta desigualdade é social, mas também é islâmica”, explicou.
Admitindo que há ainda muito a fazer para pacificar o Islão no seu todo, o xeque Munir lembrou que “os grupinhos, grupos, líderes e congregações” que querem impor o radicalismo porque a leitura que fazem do Islão é muito limitada, não estão abertos a dialogar com os outros, mesmo sendo muçulmanos.
“Isso obriga a que o processo avance lentamente. Nalguns casos deram-se passos à frente e depois para trás e isso é um bocado complicado”, concluiu.

Sheik David Munir foi professor de Língua árabe no Instituto Oriental da Universidade Nova de Lisboa, na Universidade Independente e na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias.

É ainda membro do Conselho Consultivo Internacional da Fundação Paz e Democracia Monsenhor Martinho da Costa Lopes.

Tem como obras publicadas: “Deus que nunca o foi” (1987), “Ensinamentos Elementares do Islão” (1988) e “Da Ciência e Filosofia à Religião” (1996).

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Os contentores da Humana recuperam 2.700 toneladas de têxteis usados ​​em Portugal em 2021 para dar-lhes uma segunda vida


A Humana Portugal, uma associação sem fins lucrativos que trabalha desde1998 a favor da proteção do meio ambiente, promovendo a reutilização têxtil e levando a cabo programas de cooperação para o desenvolvimento em África e de apoio local em Portugal, no ano passado recuperou 2.700 toneladas de têxteis usados ​​para dar-lhes uma segunda vida. 

A organização recolheu apenas 1,4% dos têxteis gerados em Portugal, o que mostra que no país ainda há um longo caminho de conscientização em conjunto com o sector de recuperação têxtil para a recolha das cercas de 200 mil toneladas de roupas que são descartadas anualmente no país, segundo os dados da Agência Portuguesa do Ambiente (APA).

Sónia Almeida, responsável pela recolha têxtil em Portugal comenta que são números preocupantes, ainda mais quando a recolha seletiva tem um enorme potencial, já que 50% dos resíduos têxteis podem ser reaproveitados e mais de 35% podem ser reciclados. A reutilização de têxteis é fundamental para a economia circular e a criação de empregos verdes, razão pela qual a Associação Humana está empenhada há 24 anos em dar uma segunda vida às peças de vestuário que não são utilizadas.

11 Milhões de artigos tiveram uma segunda vida em 2021
As 2.700 toneladas recuperadas equivalem a quase 11 milhões de peças de vestuário que tiveram uma segunda vida através da reutilização e reciclagem. Além disso geram um duplo benefício: ambiental, pois reduz a geração de resíduos e contribui para o combate às mudanças climáticas. A reutilização de têxtil usado contribuiu para a redução das emissões de CO2: por cada kg de roupa recuperada (e não levados a um centro de tratamento de resíduos e incinerada) é evitada a emissão de 6,1 kg de CO2, de acordo comum estudo da Federação Humana People to People. As 2.700 toneladas recuperadas no ano passado em Portugal evitaram a emissão de 16.470 toneladas de CO2 à atmosfera, que equivalem à emissão anual de 6.186 carros que circulam15.000 km cada ou à absorção anual de dióxido de carbono de 122.910 árvores. O benefício social consiste na criação de empregos inclusivos, estáveis ​​e de qualidade: a Humana gera um emprego indefinido para cada 24.545 kg de têxteis recolhidos. Por outro lado, os recursos obtidos destinam-se a programas de cooperação para o desenvolvimento em Moçambique e na Guiné-Bissau como de apoio local em Portugal.

Desafios para 2022
Sónia Almeida assegura que “a recolha seletiva de têxteis usados passará a ser obrigatória em 2025 em toda a EU e a Humana pretende, ao lado dos municípios, juntas de freguesias e empresas, ampliar a sua rede de contentores, que atualmente é de 842, e aumentar a sua recolha, que hoje é insignificante frente ao que é descartado em Portugal”. A rede de estabelecimentos de moda em segunda mão da Humana em Portugal é composta por 15 lojas (10 em Lisboa e 5 no Porto) e outro grande desafio é incentivar o consumo de itens secondhand, que também é pequeno. De acordo com um estudo encomendado pela MyNametags apenas 8% dos portugueses compram frequentemente roupa em segunda mão.

domingo, 16 de janeiro de 2022

Crise climática e guerra civil causam onda de deslocados em Moçambique

A ONU considera Moçambique um dos países mais vulneráveis às mudanças climáticas. Desde 1970, o país passou por 79 eventos extremos – o segundo mais atingido do continente depois da África do Sul. Além disso, há anos muitas regiões moçambicanas convivem com uma severa crise hídrica e consequente dificuldade para a produção de alimentos. Os problemas ambientais e a fome somados a um conflito civil iniciado em 2017 têm levado uma multidão – mais de 700 mil pessoas – a se deslocar pelo país em meio à violência generalizada contra mulheres e crianças. A Folha descreve em detalhes a situação crítica de Moçambique, um dos países que menos contribuíram para as mudanças climáticas e que já figura entre os primeiros a pagar esta conta. Por falar em conta, a BBC Brasil questiona quem vai pagar os prejuízos dos impactos causados pela crise climática – tema que será central na COP27, no Egito. Os países ricos deixaram claro em Glasgow sua forte resistência a assumir responsabilidades no tema, insistindo em abordagens de auxílio humanitário, insuficientes para lidar com a questão. Sobretudo agora que as mudanças no clima estão destruindo safras e inflacionando o custo dos alimentos em nível global, como destaca o FT. No mesmo tema, o Climate Home reporta como o Tufão Rai, que atingiu severamente as Filipinas em dezembro matando mais de 400 pessoas, está levando a uma severa crise de fome no país. Autoridades locais estimam os danos em US$ 230 milhões, na pesca e na agricultura, e US$ 350 milhões no caso de infraestruturas danificadas, como casas, estradas, linhas de eletricidade e tubulações de água. E é claro que nem todos os prejuízos podem ser resolvidos com dinheiro. “Quando os países perdem suas ilhas devido ao aumento do nível do mar e eventos extremos, eles perdem sua cultura e suas tradições. Não existe adaptação para isso”, disse à BBC Le-Anne Roper, coordenadora de perdas e danos da Aliança dos Pequenos Estados Insulares (AOSIS, na sigla em inglês).

Em tempo: É possível que a emergência climática leve o país mais fechado do mundo a uma maior cooperação internacional. Devastada nas últimas décadas por uma série de eventos climáticos extremos, a Coreia do Norte é quase completamente dependente de dinheiro e conhecimentos externos para lidar com o tema. Durante um treinamento online em outubro, Pyongyang demonstrou estar disposta a se engajar em uma série de questões ambientais, incluindo a luta global contra a mudança climática. O principal interesse norte-coreano está no “crescimento verde”, relata o FT.

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Edward O. Wilson, um dos mais proeminentes naturalistas do mundo, morreu aos 92 anos


Edward Osborne Wilson, tido como o “herdeiro de Darwin” e um dos mais proeminentes naturalistas do mundo, morreu a 26 de Dezembro em Burlington, Massachusetts (Estados Unidos), aos 92 anos, informou a E. O. Wilson Biodiversity Foundation.

Wilson, um perito em insectos e ecossistemas que lutou para travar o declínio mundial da biodiversidade, era um biólogo premiado e professor nas Universidades de Harvard e Duke. Chamavam-lhe o herdeiro natural de Charles Darwin.

“Wilson dedicou a sua vida a estudar o mundo natural e a inspirar outros para cuidarem desse mundo natural tal como ele”, segundo uma nota daquela Fundação.

Nas palavras de Paula J. Ehrlich, presidente da Fundação, “o santo Graal do Edward era o puro entusiasmo da conquista de conhecimento”. “O seu foco científico corajoso e a voz poética transformaram a forma como nos compreendemos a nós próprios e ao nosso planeta. A sua maior esperança era que estudantes por todo o mundo partilhassem a sua paixão pela descoberta como a fundação científica para a gestão futura do nosso planeta. O seu legado foi uma crença profunda nas pessoas e na nossa vontade humana partilhada de salvar o mundo natural.”

E.O. Wilson era chamado o “herdeiro natural de Darwin” e era afectuosamente conhecido como o “homem das formigas” pelo seu trabalho pioneiro como entomólogo. Wilson lembrava, fascinado, que se conheciam mais de 20.000 espécies de formigas desde o Círculo Polar Árctico à ponta da América do Sul. Só na floresta tropical da Amazónia, as formigas representam mais de 10% da biomassa de todos os animais.

No seu livro The Diversity of Life, de 1992, escrevia sobre uma expedição que fez à floresta tropical da Amazónia e sobre os seus insectos: “Subitamente apercebi-me do quão pouco se sabe sobre estas criaturas da floresta tropical e quão profundamente gratificante seria passar meses, anos, o resto da minha vida neste lugar até conhecer todas as espécies pelo nome e cada detalhe das suas vidas.”

E.O Wilson era professor Emérito da Universidade de Harvard, onde deu aulas durante 46 anos, presidente da E.O. Wilson Biodiversity Foundation e presidente do Half-Earth Council.

Autor de mais de 30 livros e centenas de artigos científicos, recebeu por duas vezes o Prémio Pulitzer, primeiro em 1979 com o livro de On Human Nature e depois em 1991 com o livro The Ants.

Wilson nasceu em 1929 em Birmingham, Alabama (Estados Unidos), e desde cedo cresceu nele um interesse pelo mundo natural. Estudou na Universidade de Alabama e fez o doutoramento em Harvard, onde ensinou durante 46 anos.

Durante a sua carreira, E.O. Wilson descobriu mais de 400 espécies de formigas e provou que as formigas usam excreções de feromonas para comunicar umas com as outras.

Este investigador, que estudou como a selecção natural e outras forças podem influenciar o comportamento dos animais, era também um ávido activista pela conservação e foi instrumental em lançar a Encyclopedia of Life, uma base de dados online gratuita que documenta todas os 1.9 milhões de espécies da Terra reconhecidas pela Ciência.

Em 2016 publica o livro Half-Earth: Our Planet’s Fight for Life, onde propõe um plano exequível para salvar a biosfera: dedicar metade da superfície da Terra à natureza. Entre as regiões do planeta que Wilson defendia ainda poderem ser reclamadas para o mundo natural estão o Parque Nacional da Gorongosa (Moçambique), a bacia hidrográfica do rio Amazonas e as planícies do Noroeste da Europa.

Fonte: Wilder

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

COP26. Indústria dos combustíveis fósseis tem mais representantes na cimeira do que qualquer país


Análise da lista de participantes concluiu que a indústria dos combustíveis fósseis tem mais delegados presentes na cimeira do clima da ONU do que o Brasil, o país que participa com a maior delegação, e do que o conjunto dos oito países mais afetados pelas alterações climáticas

A indústria dos combustíveis fósseis tem 503 representantes a participar na Cimeira do Clima da ONU. É a maior "delegação" presente na COP26, mas ativistas defendem que a sua presença devia ser banida.

O número foi apurado pela Global Witness que analisou a lista de participantes na conferência que está a decorrer em Glasgow, na Escócia. A ONG internacional avança ainda que estão representadas mais de cem empresas e 30 associações deste setor.

"Se o lobby dos combustíveis fosseis fosse a delegação de um país seria a maior de todas", escreve a organização. A indústria tem mais 24 representantes do que o Brasil, o país com mais delegados (479) entre os cerca de 40 mil presentes.

Por outro lado, "o lobby dos combustíveis fósseis na COP é maior do que o total combinado das oito delegações dos países mais afetados pelas alterações climáticas nas últimas duas décadas - Porto Rico, Myanmar, Haiti, Filipinas, Moçambique, Bahamas, Bangladesh e Paquistão".

A ONG acrescenta que muitos destes países mais afetados "têm criticado o acesso desigual à COP26, referindo barreiras à participação, entre os quais o apartheid na vacinação, as dispendiosas restrições às viagens e a falta de garantias salvaguardadas".

Além destes 503 participantes, 27 delegações oficiais de países incluem participantes com ligações a este lobby. No total estão representadas mais de cem empresas e 30 associações do setor.

"A COP26 tem sido vendida como o lugar para aumentar a ambição [nas metas climáticas], mas está invadida de lobbyistas dos combustíveis fósseis cujo único objectivo é manter-se no negócio", critica Pascoe Sabido. Para o investigador não faz sentido empresas como a BP ou a Shell estarem nestas conferências quando "admitem abertamente que vão aumentar a produção de gás fóssil". "Se estamos a falar a sério sobre aumentar a ambição, estes lobbyistas têm de ser excluídos das conversações."

A posição é corroborada pelo ativista Murray Worthy, também ligado à análise da Global Witness, para quem a "presença de centenas daqueles que estão a ser pagos para promover interesses tóxicos das empresas poluidoras só vai aumentar o cepticismo dos ativistas climáticos que vêem nestas conversações prova de que os líderes globais estão a hesitar e a atrasar." E acrescenta: "A escala do desafio que temos pela frente significa que não temos tempo para ser distraídos por promessas corporativas de greenwashing e sem significado que não correspondem à prática. É tempo dos políticos mostrarem que estão a falar a sério sobre acabar com a influência dos grandes poluidores nos processos políticos de tomada de decisão e assumirem o compromisso com um futuro onde especialistas e ativistas têm o palco principal".

Por este motivo, os ativistas defendem a necessidade de estabelecer regras quanto aos conflitos de interesses dos participantes nas negociações da ONU sobre o clima. Alguns ativistas dão o exemplo do tabaco, cuja proibição só começou a ser levada a sério quando os lobbyistas foram excluídos das conferências da OMS.

Em resposta os lobbyistas defendem a sua presença. À BBC, um porta-voz da International Emissions Trading Association (que tem uma delegação de 103 pessoas ligadas a vários setores, incluindo três das quais com ligação à BP) defende que há um processo de transição em curso e que o seu objetivo é encontrar as formas mais eficientes de reduzir emissões, embora admita que a associação "serve os interesses das empresas de combustíveis fósseis".

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

As alterações climáticas vão atuar como um multiplicador de ameaças

Serge Stroobants é o diretor para a Europa, Médio Oriente e Norte de África do Instituto de Economia e Paz, conhecido pelo seu Global Peace Index, e apresenta hoje em Lisboa o Relatório de Ameaças Ecológicas. Ao DN, por email, falou do aquecimento global e do aumento da violência no mundo.

                               

Normalmente quando pensamos em aquecimento global ou alterações climáticas não pensamos em conflitos ou guerra. Qual é a ligação entre os dois conceitos?
O Relatório de Ameaças Ecológicas [ETR, na sigla em inglês] mostra que estas e as alterações climáticas representam sérias ameaças ao desenvolvimento global e à paz. Os efeitos adversos vão afetar de forma desproporcional os países mais pobres e mais vulneráveis do mundo e criar pressões indiretas nos países vizinhos através do movimento em massa de pessoas e extração de recursos. Construir resiliência às ameaças ecológicas será cada vez mais importante e irá requerer já hoje um investimento substancial. Muitas ameaças ecológicas existem independentemente das alterações climáticas. Contudo, estas têm um efeito amplificador, causando mais degradação ecológica e empurrando alguns países para pontos de inflexão violentos. Olhando para o futuro, as alterações climáticas vão atuar como um multiplicador de ameaças, exacerbando potencialmente a concorrência e tensões entre os países com menos recursos e resiliência.

E que países são esses?
O relatório identificou 30 países que são hotspots [pontos quentes], sendo que 28 desses 30 estão também na metade inferior do Global Peace Index [GPI] do Instituto de Economia e Paz. Onze dos 15 países com maior impacto ecológico estão já em conflito e os outros quatro países estão a cair na armadilha da violência e estão à beira desse conflito. Os recursos vão continuar a esgotar-se e a luta para aceder e eventualmente gerir esses recursos vai continuar a intensificar-se. Por exemplo, notámos um aumento de 270% nas disputas relacionadas com água na última década, concentradas em países como o Iraque ou o Iémen, mas também vimos um aumento forte (250%) da violência para resolver essas disputas. Esta é uma tendência que irá continuar. Estes são os ciclos viciosos que o relatório
 menciona.

É importante a Administração de Joe Biden ter vindo dizer que as alterações climáticas representam uma ameaça crescente à segurança nacional dos EUA?
É importante porque sublinha a relação entre as ameaças ecológicas e a segurança. Chama a atenção para a luta por recursos e os seus efeitos nas migrações. Como disse, o relatório identificou 30 hotspots, países onde o impacto das ameaças é maior e a resiliência é menor. Estes países são a casa de 1,26 mil milhões de pessoas, que enfrentam o risco potencial de deslocamento. Ao todo, 3,3 mil milhões de pessoas vivem hoje em 47 países que enfrentam riscos ecológicos elevados ou extremos, sendo que o número irá aumentar 2% até 2050, quando 4,7 mil milhões de pessoas ou 48,7% da população mundial viverá nesses países. O relatório refere ainda que a evolução demográfica será mais forte nos países mais afetados ou onde a ameaça é maior, que são também países com níveis baixos ou muito baixos de paz.

Quais são as ameaças para Portugal?
Portugal tem uma pontuação de 1 no índice, o que revela uma ameaça muito baixa. Está em 28.º de 178 países, mas esta é uma classificação relativa. O maior risco prende-se com o indicador da água e das anomalias de temperatura. Mas Portugal é um país europeu e, como a maioria dos países da União Europeia, está exposto a um número reduzido de ameaças e desenvolveu altos níveis de resiliência. Daí o ranking muito bom. Os países onde a resiliência é alta não têm pontuações más, porque têm a adaptabilidade para tomar os passos necessários para evitar ou mitigar as ameaças.

Falou no GPI, pelo qual o instituto é mais conhecido. Este é o segundo relatório sobre ameaças ecológicas. Porque é que decidiram abordar este tema e qual é a correlação entre os dois relatórios?
Foi simplesmente por causa da forte relação entre a degradação ecológica e os conflitos. O instituto tem como objetivo uma mudança de paradigma de forma a que o mundo pense na paz, usando investigação baseada em dados para mostrar que a paz é uma medida positiva, tangível e alcançável do bem-estar humano e desenvolvimento. Fazemos isto desenvolvendo índices globais e nacionais, calculando os custos económicos da violência, analisando o risco dos países e as fragilidades e compreendendo a Paz Positiva. Ao todo, 19 dos 20 países com a maior pontuação no ETR estão entre os cem países menos pacíficos medidos pelo GPI. Estes países incluem o Afeganistão, o Iémen, a Somália, o Níger, o Burkina Faso e o Paquistão. À medida que a paz se deteriora, o nível do ETR tende a piorar. Como resultado, os países com alto ou muito alto índice de paz tendem a ter um ETR melhor do que os países com níveis de paz médios, baixos ou muito baixos.

Angola e Moçambique, dois dos membros da Comunidade de Países de Língua Portuguesa, estão entre aqueles com o ETR mais elevado. Porquê?
As previsões apontam para que ambos dupliquem a sua população até 2050. No caso de Angola terá o segundo maior crescimento populacional a nível mundial. Ambos também têm alguns dos níveis mais elevados de malnutrição e insegurança alimentar. A relação entre a paz e a insegurança alimentar, a falta de água e o crescimento populacional é complexa. Mudanças adversas no ambiente natural podem levar ao aumento das tensões sociais e à agitação civil se as sociedades não tiverem os níveis necessários de resiliência para lidar com estas ameaças. Da mesma maneira, o conflito e o crescimento populacional descontrolado têm impactos bem documentados no ambiente. Estas duas dinâmicas - de aumento da escassez de recursos e conflito - podem criar um ciclo vicioso onde uma aumenta a possibilidade da outra, levando a sociedades falhadas.

O vosso relatório não mostra apenas o cenário negro, também oferece recomendações para tentar quebrar este ciclo. O que pode ser feito para impedir que a situação piore?
Em 2020, o instituto organizou uma série de seis seminários com 60 peritos de governos, think tanks, instituições militares e organizações de desenvolvimento para explorar opções políticas com base no relatório do ano passado. A principal contribuição desse relatório foi a identificação e análise do ciclo vicioso que existe entre os conflitos violentos e a degradação dos recursos. Países que sofrem a pior degradação ecológica também tendem a ser alguns dos mais violentos. Uma mensagem recorrente dos seminários foi que é pouco provável que a comunidade internacional consiga reverter os ciclos viciosos em algumas partes do mundo. É o caso em particular no Sahel ou no Corno de África, com os seus elevados níveis de degradação de recursos, crescimento populacional e correntes conflitos.
A recente queda do Afeganistão para os talibãs pôs em destaque a incapacidade de as grandes democracias ocidentais implementarem uma agenda de desenvolvimento para o país. O estudo da Universidade de Brown sobre os custos da guerra diz que o governo norte-americano gastou 2,261 biliões de dólares na guerra do Afeganistão. Isso não inclui os gastos das forças da coligação ou os gastos norte-americanos no vizinho Paquistão. Ou seja, o custo per capita da guerra é mais do que cem vezes o rendimento anual per capita do Afeganistão e dado que o estudo foi conservador, o verdadeiro custo pode ser muito maior. O exemplo afegão demonstra que o modelo para os programas de desenvolvimento e de construção de resiliência precisa de ser revisto para desenvolver um alinhamento mais próximo às necessidades das comunidades locais. Os desafios sistémicos requerem análises sistémicas que levam a soluções sistémicas. Aconselhamos o agilizar da revisão dos esforços de desenvolvimento com uma abordagem internacional compreensiva e concertada. Enfrentar a degradação ecológica reforçada pelas alterações climáticas está na casa dos mil milhões agora, mas irá ser de biliões nos próximos anos. Só os conflitos custam 600 mil milhões por ano, isto irá aumentar gradualmente até aos biliões se não for tratado de forma adequada e sistemática. O custo total da violência é estimado em 14,5 biliões. Imagine quanto dinheiro poderia ser redirecionado para a ajuda ao desenvolvimento e climática se mudássemos o paradigma existente! Apenas um ou dois por cento, sendo que 1% já representa o equivalente ao orçamento para a ajuda global ao desenvolvimento.

O que espera ver dos líderes mundiais na cimeira do clima em Glasgow (COP26) que começa no domingo? Acha que haverá algum avanço?
Eles precisam de concordar num investimento mais considerável do que o que está a ser feito hoje para responder a muitos dos temas e quebrar o ciclo vicioso de degradação ecológica e violência que muitos países sofrem e vão continuar a sofrer. O que devíamos esperar dos nossos líderes era uma mudança de paradigma e a concentração na natureza sistémica dos problemas em causa.

domingo, 24 de outubro de 2021

Livro- O Império Derrotado


Em 1974, uma rebelião militar liderada de inicio pelos tenentes e só depois pelo general António Spínola, pôs fim a mais de quatro décadas de ditadura em Portugal. Marcelo Caetano era o primeiro-ministro em substituição a António Salazar que havia tomado o poder em 1928, através de um golpe fascita e Militar. Só que ele havia sofrido um derrame cerebral em 1968 e morreu 2 anos depois .As tropas do Movimento das Forças Armadas que entraram em Lisboa a 25 de abril, uma quarta-feira chuvosa, para destituir o primeiro-ministro Marcelo Caetano, não encontraram resistência. Ao passarem pelos floristas do Rossio, no centro da Capital, os soldados ganharam dúzias de cravos vermelhos, surgindo assim a expressão Revolução dos Cravos, pelo qual o levante se tornou conhecido. Apesar de todo esse romantismo , Portugal esteve a beira de uma guerra civil, mas soube domar sua revolução começo da revolução foi a publicação pelo general António Spínola em 1974 do livro "Portugal e o Futuro" que com a adesão de oficiais menos graduados, os "capitães de abril" colocou o salazarismo na linha de tiro. A repercussão do livro foi tanta que apesar de António Spínola não haver aderido a revolução em princípio, foi chamado por Marcelo Caetano, acuado no castelo do Carmo, que somente a ele se renderia. Tornou-se assim o chefe da revolução. A política colonialista de Portugal foi decisiva pela derrubada de Caetano. Havia eclodido uma série de revoluções na África portuguesa exigindo sua independência( Angola, Moçambique, Guiné entre outras). Marcelo Caetano insistia no expediente das guerra, o que acarretava despesas colossais de guerra, 50% do orçamento nacional. O livro denunciava isso e a dualidade dos EUA, que apesar de favorável a princípio não movia uma palha para ajudar os movimentos e eles se bandaram para órbita soviética. Quando os EUA perceberam que os movimentos de independência guinaram para a órbita soviética, eles apoiaram Portugal, mas apenas nominalmente. A OTAN também só percebeu e reconheceu o movimento guerrilheiro quando a causa de Portugal, nos anos 70 já era insustentável.

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Moçambique pode ser condenado à pobreza alerta Tony Blair



Num prefácio a um relatório intitulado "Uma Transição Justa para África: Defesa de um Caminho Justo e Próspero para Zero Emissões", Blair alertou para as consequências do fim do financiamento a energia produzida a partir de gás natural.

Se países com rendimento elevados "limitarem as oportunidades de desenvolvimento, por exemplo, suspendendo o financiamento para energia gerada a partir do gás, sem fazer provisões para alternativas igualmente acessíveis, correm o risco de condenar os países à contínua pobreza e insegurança alimentar".

Um efeito indesejado, acrescenta o antigo governante, poderá ser o recurso dos países africanos a financiamento de outros países menos preocupados com o ambiente e as alterações climáticas.

"A ação climática global e a abordagem de zero emissões (de dióxido de carbono) em África muitas vezes não levam em consideração a necessidade urgente de desenvolvimento e industrialização em grande parte do continente", lamenta.

Blair defende que os países mais ricos devem não só assumir a maior parte da redução dos gases com efeito de estufa para combater o aquecimento global, mas também aumentar significativamente o financiamento associado à adaptação e proteção dos países em desenvolvimento contra o impacto das alterações climáticas.

Moçambique é destacado no estudo publicado pelo Instituto Tony Blair para a Transformação Mundial como um caso emblemático, pois as reservas de gás natural no norte do país representam um potencial para o desenvolvimento económico e social do país.

"O sucesso dos projetos de gás de Moçambique representa uma questão de justiça intra e intergeracional, permitindo que os seus cidadãos desfrutem dos frutos do desenvolvimento hoje, ao mesmo tempo que os ajudam na transição para uma economia de baixo carbono amanhã", escrevem os autores.

Embora parte do gás natural extraído, o que não deverá acontecer antes de 2026, esteja destinado ao consumo doméstico, referem, a maior parte será exportada e ajudará outros países a dependerem menos de fontes de energia mais poluidoras, como o carvão e petróleo.

"Aproveitar o poder transformador do gás é um imperativo de desenvolvimento que serve as pessoas, a prosperidade e o planeta, ao mesmo tempo que reconhece as legítimas aspirações dos moçambicanos", acrescentam.

O relatório é publicado menos de um mês antes da conferência climática COP26 em Glasgow, entre 31 de outubro e 12 de novembro.

A conferência vai procurar pôr em prática os compromissos do Acordo de Paris, alcançado em 2015, de limitar o aquecimento global abaixo dos dois graus centígrados, de preferência a 1,5 graus centígrados.

Mais de 120 líderes mundiais são esperados num encontro de alto nível nos primeiros dias da COP26, que deverá juntar cerca de 25 mil participantes, entre políticos, ativistas, especialistas e negociadores nacionais.

domingo, 3 de outubro de 2021

Cães treinados salvam mais de 40 rinocerontes da ação de caçadores

Um grupo de cães foi treinado para impedir a ação de caçadores

Um grupo de cães das raças pastor belga malinois, fox hound e coon hound (black and tan bluetick) foi treinado desde o nascimento para proteger os animais do Parque Nacional Kruger, na África do Sul. Com 18 meses de vida, os cachorros começaram a patrulhar a região e já salvaram 45 rinocerontes.

O Kruger Park é a maior área de proteção ambiental do país, cobrindo mais de 20 mil quilômetros quadrados. a região, muito procurada por ecoturistas, é habitada por mais de 140 espécies de mamíferos – entre eles, o Big Five: leões, leopardos, elefantes, búfalos e rinocerontes – que também atraem muitos caçadores furtivos.
Os cães de guarda

Os rinocerontes estão em risco de extinção tanto na Ásia (há espécies nativas da Índia e da Indonésia), quanto na África (onde ocorrem os rinocerontes-brancos e negros, que apesar do nome, são acinzentados).


O chifre desses animais é muito procurado em função de alegadas propriedades medicinais. Os caçadores matam os rinocerontes, serram os chifres e deixam os cadáveres para trás. Em 2014, houve um recorde de abates: 1.215 animais foram encontrados apenas na África do Sul. Em países vizinhos, como Moçambique, eles não são mais avistados.

A caça ilegal e descontrolada motivou os administradores do parque a encontrar soluções para impedir a ação dos criminosos. Na última década, diversas raças caninas foram empregadas para dar combate à carnificina: de beagles a wolfhounds.


Em função dos instintos, todos os cães podem ser treinados tanto para caçar quanto para defender animais, em atividades de guarda e pastoreio. As raças que melhor se adaptaram à experiência desenvolvida na África do Sul são os hounds ou sabujos.

Os cachorros começam o treinamento assim que são desmamados e, até atingir a maturidade física, aprendem a lidar com todas as situações relacionadas à caça. Sean Viljoen, fotógrafo da Cidade do Cabo, registrou imagens dos cães em ação no campus avançado da Universidade Sul-Africana.


O grupo de cães aprende inicialmente os comandos básicos e de obediência. Depois disso, eles são estimulados a farejar e rastrear os animais da reserva – e também os humanos que não deveriam estar por lá.

Na temporada 2019-20, foram encontrados 104 rinocerontes mortos nos limites sul-africanos da savana. Em 2020-21, o número caiu para 59. Isto significa que foi poupada a vida de 45 rinocerontes. É a primeira tentativa bem-sucedida de reduzir massivamente a caça ilegal.

O projeto

O fotógrafo da Cidade do Cabo está desenvolvendo uma parceria com a Universidade Sul-Africana. Viljoen é proprietário de uma produtora de vídeo, a Conservation Film Company, que pretende registrar a vida dos animais e as histórias das pessoas que estão na linha de frente das estratégias de conservação da vida.

Os cães do Kruger Park são os protagonistas da primeira produção do projeto. Eles foram filmados desde o nascimento, passando pelo adestramento e pelo trabalho em campo, com rondas e exercícios para identificar invasores e predadores.


Nas áreas em que os cachorros atuam – a participação teve início em fevereiro de 2018 –, a taxa de sucesso no salvamento de rinocerontes já atinge 68%. Sem a parceria com os cães, apenas entre 5% e 8% dos animais caçados conseguiam sobreviver.

O treinador master dos cachorros, Johan van Straaten, trabalha na universidade há nove anos. O projeto de conservação visa avaliar as estratégias de combate à caça ilegal. Os cachorros de salvamento patrulham a região nordeste do país 24 horas por dia e já identificaram algumas técnicas insuspeitadas.

Ao contrário do que se imaginava, os caçadores investem contra os rinocerontes com o dia claro, preferencialmente depois do meio-dia. Eles abatem os animais e esperam o escurecer para só então serrar os chifres e seguir a pé até a fronteira com Moçambique, onde o tráfico ilegal encontra menos vigilância.

Com o sucesso obtido em menos de três anos desde que a primeira “patrulha canina” começou a atuar, a administração do Kruger Park e a Universidade Sul-Africana já têm planos avançados para introduzir matilhas em outras áreas do parque. As técnicas estão sendo exportadas para outros países do continente.

Na última década, estima-se que oito mil rinocerontes tenham sido abatidos nas savanas da África do Sul, dado que colocava o país no topo das atividades predatórias no continente. Com a adoção das matilhas, este número vem sendo reduzido ano a ano e pode ser a resposta natural para superar o problema.

 


Amaury de Almeida Costa (amaury.alcosta@gmail.com) é redator publicitário há mais de 30 anos. Escreve para diversos blogs desde 2008. Presente nas redes sociais desde a época do Orkut, foi editor da revista Animanews, sucesso editorial do final dos anos 1990, que trazia informações sobre pets – além de cães, gatos e aves, trazia informações sobre répteis, anfíbios, peixes e invertebrados de estimação.

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Água – um direito que nos escorre por entre os dedos?


Na Europa, a consciência da necessidade de providenciar água de qualidade aos cidadãos foi uma das grandes mudanças da segunda metade do século XIX, fruto da compreensão das relações da água com a saúde e de que esta relação tem efeitos na produção económica. Em consequência, foi considerada necessária a modernização dos sistemas de captação, tratamento e distribuição de água.

Em alguns países europeus, além de uma rede de fontes públicas, criaram-se redes de abastecimento urbano, o que levou ao abastecimento público em larga escala, muitas vezes suportado por uma taxa de utilização.

A existência desta taxa é justificada pelos gastos obrigatórios em obras de construção e manutenção das captações e das redes de distribuição, bem como com os tratamentos da água.

No entanto, essa taxa transformou-se no centro da disputa pela gestão e distribuição da água, pondo em conflito o poder público e as empresas privadas – a taxa existe para cobrir os gastos resultantes da sua disponibilização ou é um fator do lucro num negócio que transaciona um bem essencial? As empresas privadas ou semiprivadas, parcerias público privadas incluídas, sempre se posicionaram no sentido de que a água poderia e deveria ser um negócio.

Este conflito sofreu evoluções.

Às vezes, por imposição das entidades financeiras que intervêm nos países que estão em crise económica, as suas redes de água foram privatizadas, como na Grécia, nos últimos anos.

Mas a verdade é que o movimento em sentido inverso, de municipalização ou nacionalização, se tem vindo a impor como reação aos efeitos perversos verificados em resultado dos processos de privatização da água.

Na verdade, contrariamente ao apregoado para a sua concretização, a privatização teve como consequências o encarecimento das tarifas de consumo, serviços inflacionados, ineficientes e com investimentos insuficientes.

As vozes contra a privatização da água multiplicam-se. Paris, Budapeste, Bamako (Mali), Buenos Aires, Maputo (Moçambique), La Paz e outras 260 cidades remunicipalizaram os serviços de gestão e fornecimento de água.

“Outro exemplo…é o de Berlim, onde o governo privatizou 49,99% do sistema hídrico em 1999. A medida foi extremamente impopular e, após anos de mobilização de moradores e um referendo em 2011, ela foi revertida por completo em 2013…, mas, por outro lado, o Estado precisou pagar 1,3 bilhão de euros para reaver o que antes já lhe pertencia”.

Este vídeo é elucidativo:

Em Portugal, o assunto é de uma enorme atualidade. Os resultados dos processos de privatização de sistemas de gestão da água têm vindo a ser fortemente contestados pelas populações, quer a nível urbano, como em Viana do Castelo, quer a nível rural, como no conflito que opõe a Associação de Beneficiários do Mira a pequenos agricultores e à Junta de Freguesia de Santa Clara.

Mas há luz ao fundo do túnel: processos de resgate de concessões de água e saneamento atribuídas a entidades privadas já tem sido realizados. Por exemplo, em Mafra, com efeitos a partir de 1 de setembro de 2019, ou, mais recentemente, em Paredes.

O problema da seca no Algarve implicará rever a gestão, quer por associações de regantes, quer das Águas do Algarve, e não se compadece com a criação de novos negócios como as centrais de dessalinização.

Conscientes da gravidade da situação e dos perigos que se perfilam no horizonte várias associações e movimentos criaram um plataforma – A PAS- Plataforma Água Sustentável, constituída por A Rocha, Água é Vida, CIVIS, FALA, Faro 1540, Glocal Faro, LPN, ProBaal, Quercus e Regenerarte.

Estamos em crer que a consciência da importância da água como um direito inalienável dos povos é cada vez mais forte e premente.

 

 Autoras: Alice Pisco e Rosa Guedes são membros da Glocal Faro


quarta-feira, 28 de julho de 2021

Óscar e Otelo

A história escreve-se mesmo quando não nos apercebemos que isso está a ser feito. Não é o caso aqui. Sabemos todos que a forma como o Estado Português trata a morte de Otelo fará parte da história e influenciará o seu decurso

“Não teve pelotões de fuzilamento”. É assim que Robert Fisk, no livro “A Grande Guerra pela Civilização”, se refere ao 25 de abril. Foi numa conversa com um conselheiro do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano e para lhe dar um exemplo, uma demonstração, de que era possível. Não sabia que Robert Fisk tinha feito a cobertura da nossa revolução. Foi com orgulho que constatei que a sua excepcionalidade é reconhecida. Uma revolução que é referenciada pelo vermelho dos cravos e não pelo do sangue. Sangue. Já lá iremos.

Morreu Otelo Saraiva de Carvalho, o homem que organizou a revolução do 25 de abril e a quem devemos um fim da ditadura inteiro e limpo. Terão sido as suas qualidades militares e as suas virtudes pessoais a permitir que um golpe militar se transformasse numa revolução e uma revolução numa festa que foi bonita. O reconhecimento por tal facto parece ser transversal, com as exceções, claro, de quem preferia que a revolução não tivesse acontecido. Temos aqui uma boa oportunidade para finalmente se fazer tal contagem, mas não é para esses que escrevo.

O que opõe as pessoas, e que não surpreende, é a medida do reconhecimento público e histórico que Otelo Saraiva de Carvalho merece; se a sua participação nas Forças Populares 25 de Abril, FP-25, é uma razão para que o país e a história não lhe concedam as honras que os seus feitos de abril exigem.

Diz-se de Otelo que matou e sempre com referência ao terrorismo das FP-25. Nunca vi interesse em saber se Otelo também matou na Guerra Colonial onde combateu. Ainda bem. Não seria justo. Otelo serviu Portugal em África, é assim que costuma dizer-se de quem combateu as forças organizadas pelos movimentos de libertação das antigas províncias ultramarinas de Angola, Guiné e Moçambique. O regime de Salazar, e depois de Marcelo Caetano, não cedeu às oposições internas nem às pressões internacionais, quis manter o império colonial e impedir a independência dos países africanos. Haverá quem se orgulhe deste passado, talvez os mesmos da contagem do parágrafo acima. A maioria dos portugueses não. É certo que a nossa democracia assenta no repúdio pelo colonialismo.

As mortes da Guerra do Ultramar não mancham currículos. Comprovámos isso mesmo quando a Assembleia da República aprovou um voto de pesar pela morte do Tenente-Coronel Marcelino da Mata. Um voto de pesar por um militar que matou e torturou, sem pejo, em nome da ditadura. Foram, aliás, os seus únicos feitos.

O governo e o Presidente da República foram unânimes na recusa ao luto nacional pela morte de Otelo. Assisti, e muito bem, ao luto pelas mortes de Gonçalo Ribeiro Telles, Agustina Bessa-Luís, Eduardo Lourenço e Carlos do Carmo. Houve mais. Já agora: também assisti ao luto nacional pela irmã Lúcia. Nunca o percebi, um estado laico não deveria prestar-se a isto, mas respeito quem é devoto. Assisti também ao luto nacional pela morte do General António de Spínola, que presidiu ao movimento de extrema-direita MDLP, ao qual foram atribuídos o atentado que vitimou o Padre Max e a Maria de Lurdes e mais algumas centenas de ações de luta armada.

O envolvimento de António Spínola na luta armada não foi impedimento ao decretar de luto nacional. No caso de Otelo foi. Recordar aqui que as lutas armadas que lhes foram atribuídas tinham várias semelhanças e uma grande diferença: a de Spínola pretendia a reposição da ditadura do antigo regime e a de Otelo a concretização da revolução de abril no seu radicalismo, a imposição da ditadura do proletariado.

Não é um caso de “venha o diabo e escolha” e ninguém se deve conformar que assim seja tratado. O sonho da ditadura do proletariado terá morrido e não acredito no seu retorno. As suas concretizações não foram boas. Mas ele não nos envergonha. Foi esse sonho que levou às revoluções igualitárias. Continuam a ser os seus princípios a orientar as políticas sociais nos dias de hoje. Foi sempre a aproximação a esses princípios que marcou os melhores momentos da história. Eles são a base da social democracia europeia.

Deve aceitar-se que Otelo Saraiva de Carvalho não tenha o justo reconhecimento pelo seu contributo único para a fundação da democracia portuguesa? Qual é a razão honesta para que o seu nome não fique inscrito na memória colectiva acompanhado desse reconhecimento?

A história escreve-se mesmo quando não nos apercebemos que isso está a ser feito. Não é o caso aqui. Sabemos todos que a forma como o Estado Português trata a morte de Otelo fará parte da história e influenciará o seu decurso. Não há inocentes. Assistimos a uma deslocação lenta mas firme, na política portuguesa, para a direita. Os maiores partidos portugueses assim o determinam. Como admitiu Rui Rio, o PSD está muito mais à direita do que o lugar que ocupou com Sá Carneiro. Este definia o PSD como um partido de esquerda não marxista.

O PS também acompanha esse movimento. Contrariamente ao que os seus ferozes críticos apontam não é rigoroso que se trate de um partido de ideologia socialista, prevalecendo sim o seu carácter liberal. Temos ainda o aparecimento com expressão da extrema-direita neofascista. Quem diria.

O aparecimento do partido Chega mudou o tabuleiro da política em Portugal. Não foi para melhor. Não me refiro às razões que determinam a sua ilegalidade mas à nova dinâmica que veio imprimir. As forças políticas mais prejudicadas por esta praga, os partidos à direita, optaram por não excluir entendimentos. A partir daí, e mesmo para se justificarem perante o país, o seu discurso sobre o partido neofascista foi de aceitação; só precisa de se moderar um bocadinho. Uma espécie de: não sejam tão racistas, vamos lá suavizar isto. Esta aceitação do Chega pelos partidos tradicionais veio dar-lhe força. Resultado: a direita está refém do Chega para chegar ao poder. Bonito serviço.

O Partido Socialista agradece. Não poderia ter aparecido melhor forma de perpetuar o seu poder. Na verdade não poderia ter aparecido pior forma. Grande ironia aqui: os que tanto odeiam o governo de António Costa, e falo de toda a direita, facilitam-lhe a vida. Pagaremos todos por este erro, esta falta de coragem da direita. As minorias já estão a receber uma factura muito pesada.

Daqui resultam pelo menos três coisas: por um lado os partidos que se mantêm numa esquerda sem cedências liberais são considerados de extrema esquerda. Trata-se sobretudo de uma classificação que desconhece o conceito. Pacheco Pereira escreveu sobre o tema e de forma irrepreensível. Sugiro a sua leitura.

Por outro lado existe uma crescente relativização de tudo o que tem a ver com o 25 de abril e com as suas conquistas. É a constituição que precisa de ser alterada, são os capitães de abril que, como diz Vasco Lourenço, não estão na moda, são os princípios que precisam de ser atualizados, é a democracia que teria acabado por aparecer mesmo sem revolução.

E a terceira: a tolerância colectiva que é pedida perante o partido Chega. Todos sabem que se trata de um partido racista, muitos saberão que essa característica é fundamento para a extinção do partido nos termos da Lei dos Partidos mas muitos acreditam que seriam um ato muito radical extinguir um partido político com assento parlamentar. O sistema parece estar disposto a ignorar as suas próprias regras para proteger quem diz estar na vida política para o derrubar. Em cada esquina uma ironia.

Assim vai a política portuguesa.

O consentimento na existência de um partido político que viola a lei, e os princípios fundamentais da democracia, gera a radicalização política no espaço público. Não apenas a radicalização de quem a ele adere mas também a dos que a ele se opõem. Este fenómeno tem um aspecto positivo - o despertar de mais pessoas para a política - e muitos negativos. A existência de muitas tribos é certamente um bom exemplo dos aspectos negativos.

É aqui que voltamos ao Otelo. A sua morte, novamente como previu Pacheco Pereira, foi tribalizada. Sucede que nessa guerra tribal ganhou quem Otelo combateu. A sua partida poderia servir para lembrar os perigos do fascismo, a escuridão da ditadura e a fragilidade da paz. Mas não, como escreve um amigo: a única coisa que a história nos ensina é que a história não nos ensina nada.

António Costa afirmou que “o importante é não termos uma polémica sobre o tema”. Lamento, não é assim. Este nunca poderá ser o objectivo. As polémicas não matam a democracia, as cedências nos princípios sim.

Otelo Saraiva de Carvalho já foi julgado por crimes de sangue das FP-25 e foi absolvido. Já tinha sido julgado, e nesse caso condenado, por associação terrorista. Cumpriu uma pena de prisão de cinco anos.

Óscar acertou as suas contas com a sociedade.

Otelo parte sem que lhe tenha sido feita justiça. Só a dos seus amigos e a dos que escolheram não fazer parte do silêncio manso de quem consente. É preciso coragem para celebrar Otelo. Coragem, uma coisa que a ele nunca faltou.

segunda-feira, 26 de julho de 2021

Otelo Saraiva de Carvalho


«A notícia da morte do Otelo Saraiva de Carvalho magoou-me e surpreendeu-me. Magoou-me, por se tratar de mais um amigo que parte. Surpreendeu-me, porque estive, recentemente, com o Otelo, no funeral da sua mulher, e achei-o, naturalmente, abatido, mas, aparentemente, com vigor e saúde. Conheci o Otelo na Guiné, onde o substituí na Direcção da Secção de Radiodifusão e Imprensa do Comando-Chefe. Tornámo-nos amigos. Foi, aliás, essa amizade que me levou a testemunhar em seu favor no julgamento a que foi submetido, apesar de muitos reparos e apelos para que o não fizesse. O Otelo era um homem bom, generoso, embora, por vezes, pouco prudente, pouco realista – contraditório, mesmo. Adorava representar, até na vida real, esquecendo que a representação exige um espaço delimitado, em que tudo o que aí é normal não o é na vida real. Para mim, e apesar de todas as contradições, o Otelo tem direito a um lugar de proeminência histórica. E tem esse direito, apesar da autoria de desvios políticos perversos, de nefastas consequências, porque foi ele quem liderou a preparação operacional do 25 de Abril, a mobilização dos jovens capitães, o comando da operação militar bem-sucedida. E penso assim porque entendo que um Homem é uma unidade e continuidade, uma totalidade complexa, e que só é bem julgado quando considerando, historicamente, esse quadro e o seu contexto. Mas há homens que, num momento histórico especial, se ultrapassam, ganhando dimensão nacional, indiscutível, porque souberam perceber e explorar uma oportunidade histórica única, e sentir os anseios mais profundos do seu povo. Otelo é uma dessas personalidades. A ele a pátria deve a liberdade e a democracia. E esta é dívida que nada, nem ninguém, tem o direito de recusar.»
António Ramalho Eanes

terça-feira, 13 de julho de 2021

Dia Mundial do Rock: a origem da data


Há 36 anos, um evento beneficente impulsionou a comemoração do Dia Mundial do Rock. Estamos falando do Live Aid, um show realizado, ao mesmo tempo, na Inglaterra e nos Estados Unidos, no dia 13 de julho de 1985.

O Live Aid tinha como objetivo angariar fundos para combater a fome na Etiópia e foi um dos maiores festivais beneficentes da história.

O Live Aid foi organizado por Bob Geldof, vocalista de uma banda chamada Boomtown Rats, com Midge Ure, vocalista de uma banda chamada Ultravox.

A ideia surgiu em 1984, depois de eles terem feito a música Do they know it’s Christmas? e contactado artistas ingleses para gravá-la com o objetivo de ajudar a Etiópia, que estava passando por sérias dificuldades.

Como a iniciativa da música foi um sucesso, veio a inspiração para organizar o evento musical que viria a ser o Live Aid.

Grande parte dos artistas e das bandas mais famosas da época participaram, por exemplo: Bob Dylan, Elton John, Madonna, Paul McCartney, Phil Collins, Queen e U2.

O evento teve a duração de 24 horas, foi realizado em dois estádios: Wembley Stadium, em Londres (Inglaterra) e JFK Stadium, na Filadélfia (Estados Unidos). A transmissão do evento foi feita para vários países, que arrecadou cerca de 150 milhões de libras.

A repercussão do evento foi tão boa que, no fim, Phil Collins disse que aquele dia deveria marcar a comemoração do Dia Mundial do Rock.

Phil Collins participou no evento apresentando-se nos dois países, Inglaterra e Estados Unidos. O artista conseguiu esse feito indo de Concorde, um avião veloz, de um país para o outro.

Os números do Live Aid
Data: 13 de julho de 1985 (há 38 anos)
Número de espectadores: cerca de 162 milhões nos estádios (72 mil na Inglaterra e 90 mil nos Estados Unidos)
Número de países onde foi transmitido: 100
Valor arrecadado: cerca de 150 milhões de libras