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segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Como os Grandes Arquitetos Portugueses Moldaram a Crise Habitacional


Da estética à gentrificação: como a arquitetura de autor acelerou a Crise da Habitação em Portugal

Fiz uma análise quais são os arquitetos portugueses mais requisitados em Portugal e em que cidades têm obra, o custo elevado das casas nas nossas cidades e a conexão com a crise habitacional. Eis os resultados (por ordem decrescente de impacto)
1. Álvaro Siza Vieira
O trabalho de Álvaro Siza Vieira encontra-se presente em Leça da Palmeira (Matosinhos) com a Piscina das Marés e a Casa de Chá da Boa Nova, no Porto com o Museu de Arte Contemporânea de Serralves e a Faculdade de Arquitectura da U.Porto (FAUP), em Lisboa com a Reconstrução do Chiado e o Pavilhão de Portugal, em Évora com o Bairro da Malagueira, no Marco de Canaveses com a Igreja de Santa Maria, em Viana do Castelo com a Biblioteca Municipal e em Arouca com o Edifício da Câmara Municipal.
2. Eduardo Souto de Moura
As intervenções de Eduardo Souto de Moura situam-se em Braga com o Estádio Municipal de Braga (Estádio da Pedreira) e o Mercado Cultural de Carandá, em Cascais com a Casa das Histórias Paula Rego, no Porto com as estações e linhas do Metro do Porto e a Casa das Artes, em Viana do Castelo com o Centro Cultural de Viana do Castelo, em Cantanhede com o Centro de Inovação e Tecnologias de Informação (ABIPLUG) e em Viseu com a Reconversão do Convento de São Francisco em Pousada.
3. Francisco e Manuel Aires Mateus (Atelier Aires Mateus)
A produção do atelier dos irmãos Aires Mateus distribui-se por Lisboa com a Sede da EDP na Av. 24 de Julho e a Reabilitação do Colégio da Trindade, por Alcácer do Sal com o Lar de Idosos de Alcácer do Sal, por Monsaraz (Reguengos de Monsaraz) com a Casa na Terra, por Leiria com a Casa em Leiria, por Sines com o Centro de Artes de Sines e por Ílhavo com a Reabilitação e ampliação do Museu Marítimo.
4. João Luís Carrilho da Graça
A obra de João Luís Carrilho da Graça destaca-se em Lisboa com o Terminal de Cruzeiros de Lisboa, o Pavilhão do Conhecimento dos Mares e a Musealização da Praça Nova do Castelo de São Jorge, em Évora com a Entrada do Templo Romano e recuperação do centro histórico, no Crato com a adaptação do Mosteiro da Flor da Rosa a Pousada, em Portalegre com a Escola Superior de Comunicação e Design e em Coimbra com a Ponte Pedonal Pedro e Inês.
5. Gonçalo Byrne
O percurso de Gonçalo Byrne inclui intervenções em Lisboa com a Sede da Ordem dos Arquitectos, a Reabilitação do Palácio do Muge e o Teatro Tália, em Estoi (Faro) com a Reconversão do Palácio de Estoi em Pousada de Portugal, em Coimbra com a Reabilitação do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra e em Viseu com as intervenções no centro histórico e espaço público.
6. Spaceworkers (Henrique Marques e Rui Dinis)
O trabalho do gabinete Spaceworkers desenvolve-se em Penafiel com a Casa de Sambade e o Centro de Interpretação do Românico, estendendo-se também a Paredes e Lousada.
7. João Mendes Ribeiro
As obras de João Mendes Ribeiro encontram-se em Coimbra com a Casa da Escrita e o Teatro Académico de Gil Vicente, e na Ribeira Grande (Açores) com o Centro de Artes Arquipélago.
8. AND-RE (Bruno André e Francisco Ré)
Os projetos do estúdio AND-RE situam-se em Águeda com o Centro de Artes de Águeda, expandindo a sua atuação às cidades do Porto e de Vila Nova de Gaia.
9. Luís Pedro Silva
A intervenção de Luís Pedro Silva localiza-se em Matosinhos / Porto com o Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões.
10. Diogo Aguiar Studio
O trabalho do Diogo Aguiar Studio marca presença no Porto com o Pavilhão do Museu de Serralves, bem como em Guimarães e Lisboa.
ANÁLISE e CONCLUSÃO
A proliferação de grandes obras de autor em Portugal revela o lado mais amargo e paradoxal da transformação urbana das últimas décadas. Quando observamos o mapa das intervenções assinadas pelos arquitetos mais celebrados do país - de Lisboa ao Porto, passando por Évora, Braga, Viseu ou pelas faixas costeiras -, torna-se evidente que o prestígio estético e a requalificação formal caminharam lado a lado com a proliferação da gentrificação, com a escalada da especulação imobiliária e com o agudizar de uma crise habitacional sem precedentes.
Em cidades como Lisboa e o Porto, as intervenções de grande escala no património e no centro histórico funcionaram, na prática, como o grande íman do capital imobiliário internacional. Onde Álvaro Siza Vieira desenhou a reconstrução do Chiado ou a dupla Aires Mateus ergueu grandes sedes corporativas e edifícios de linguagem minimalista, o valor do solo disparou a níveis incomportáveis para os salários nacionais. A "boa arquitetura" tornou-se uma chancela de valorização especulativa: os centros urbanos deixaram de ser lugares de vida comunitária para se transformarem em montras de luxo, condomínios exclusivos e fundos de investimento imobiliário encapuçados em reabilitação de charme.
Paralelamente, a proliferação de grandes infraestruturas vocacionadas para a atração de fluxos massivos - como os terminais de cruzeiros de Lisboa, por Carrilho da Graça, e de Leixões, por Luís Pedro Silva - atuou como um acelerador da turistificação. Bairros inteiros viram a sua população residente ser gradualmente substituída por Alojamento Local e o comércio tradicional por serviços direcionados ao consumo efémero. O custo de vida nestas zonas escalou rapidamente, tornando o simples ato de viver e consumir na própria cidade num privilégio inacessível para as famílias locais.
Mesmo fora das duas grandes metrópoles, a reconversão de edifícios históricos em hotéis e pousadas de luxo - seja pelas mãos de Eduardo Souto de Moura em Viseu, de Gonçalo Byrne em Faro ou de Carrilho da Graça no Crato - exemplifica a subtração de património público ao usufruto da comunidade. Espaços de memória e identidade coletiva foram devolvidos à sociedade na forma de enclaves privados de acesso reservado, onde o valor cultural é capitalizado em benefício da indústria turística de alto padrão.
O resultado desta dinâmica é a rutura moral que hoje empurra milhares de jovens para as ruas em protesto. A arquitetura portuguesa mais requisitada acabou por desenhar a moldura estética de um modelo urbano excluidor. Construiu-se uma cidade de fachada, cenográfica e altamente rentável para o turismo e para os fundos de investimento, mas profundamente hostil, inflacionada e inabitável para a população que dela necessita para construir a sua vida quotidiana.
Foto: Terminal de Cruzeiros de Lisboa - Carrilho da Graça

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

É preciso grande lata de culparem António Costa pelos baixos níveis de construção em Portugal

Não vale fugir à realidade a troika foi um momento de assassinato da lusa economia empresarial 

Vejamos a evolução Histórica (2005 - 2024) da construção de fogos
2005 - 2007 (tempo Socrates)

O período começou com volumes ainda elevados. Em janeiro de 2007, registou-se o máximo histórico com mais de 4.800 edifícios licenciados num único mês. O país construía a ritmos elevados antes do embate financeiro.

2008 - 2015 (A Crise e o Mínimo Histórico em tempo que caiu de Sócrates para o passosportismo)

Com a crise do subprime e a intervenção da Troika, o setor colapsou. O mínimo histórico absoluto ocorreu em agosto de 2015, (a PAF passospórtista lembram-se?) com apenas 1.084 unidades licenciadas a nível nacional.

2016 - 2024 (tempo António Costa e inicio Montenegro)

O setor iniciou uma retoma sólida alavancada pelo turismo, reabilitação urbana e nova procura. O licenciamento de fogos (habitações) subiu consistentemente dos cerca de 10.000/ano na crise para 39.096 fogos em 2023 e 42.612 fogos em 2024.

Vejamos a evolução
Ano Fogos
2016 15.500
2017 21.300
2018 25.000
2019 36.000
2020 34.800
2021 39.000
2022 37.930
2023 39.096
2024 42.612
2025 48.844
2026 26.000 até julho
Mas entretanto lembremos outra realidade: a dos fogos devolutos.

Censo Fogos devolutos
2011 735.000
2021 723.215
Isto é a apropriaçao privatista retira do Mercado para travar a Oferta: algo entre 723.216 e 735.000 fogos de 2011 a 2021!

Ora estes fogos devolutos de aocupados resolveriam 50,8% das necessidades de habitaçoes em Portugal!

Assumamos de qualquer forma que o ano de 2025 consolidou a maior atividade do setor desde a crise financeira:

Edifícios Licenciados: 26.227 edifícios (+1,4% face a 2024).

Fogos (Habitações) Licenciados: 48.844 fogos, um salto expressivo de +14,6% face ao ano anterior, marcando o valor mais elevado desde 2011. Deste total, 42.066 foram destinados a construções totalmente novas.

O Cenário Atual em 2026 (Sinais Mistos)
Os dados acumulados até ao segundo e terceiro trimestre de 2026 mostram uma mudança de dinâmica: há menos projetos aprovados (edifícios), mas cada projeto inclui mais habitações (fogos):

Queda nos Edifícios: No primeiro semestre de 2026, as licenças totais de construção e reabilitação caíram cerca de 6,9% a 7,1% em termos homólogos. No 2.º trimestre de 2026 foram licenciados 6,2 mil edifícios (recuo de 5,6% nas construções novas e queda de 11,9% na reabilitação).

Crescimento nos Fogos Habitacionais: Apesar de haver menos edifícios a avançar, o número total de fogos licenciados em construções novas subiu 4,5% no acumulado até julho. Só no 2.º trimestre de 2026, o licenciamento de habitações familiares novas acelerou 10,8% face ao ano anterior. Até setembro de 2026, a AICCOPN registava 25.854 fogos licenciados em construções novas no acumulado do ano.

A capacidade de construção
Mas vejamos um outro contexto desta atividade: a da capacidade de construção!

Desde 2010, encerram atividade 39.641 empresas de construção e imobiliário em Portugal.

Em 2014, as falências caíram 17,3% mas ainda representam mais de um quarto do total nacional, diz a CPCI.


E mais:

“Em novembro bateram-se recordes negativos no que diz respeito ao lançamento de concursos de obras públicas, já que apenas foram promovidos 56,4 milhões de euros, menos 28% que em setembro, é o valor mais baixo desde janeiro de 2010. Segundo a Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas (AICCOPN), é possível concluir que 2015 é ‘o pior ano de sempre em termos de investimento público em Portugal’.” (idealista)

Portugal sobreviveu apesar de ter perdido o império colonial mais duradouro de todos (por inflexibilidade salazarenta e do caetano padrinho de Marcelo Rebelo de Sousa) mas vive desde então em sistemática fragilidade que não se vê somente na habitação.

A cultura privatista portuguesa talvez a sua maior limitação passou da micro propriedade rural (hoje ainda existente e criadora da maioria dos incêndios florestais) para a “casinha portuguesa concerteza” que está por detrás da especulação feita a partir da retirada do mercado dos tais 700 mil fogos!

E lembremos a mais atenta Cidadã, de sempre, no risco da especulação imobiliária, “Conselhos a uma ministra jovem”:

"Em 1974 havia no nosso país mais famílias do que casas, estimando-se na altura a falta de mais de meio milhão de fogos. Hoje a situação inverteu-se, há muito mais casas do que famílias. O excedente em casas vazias, excluindo naturalmente as residências secundárias, é superior a 700.000 alojamentos. A mobilização de uma pequena parte deste excedente, em condições devidamente reguladas, permitiria multiplicar a habitação disponível. É altura de pedir à academia e aos poderes públicos que promovam o estudo aprofundado das razões para um tão grande e inaceitável desperdício de recursos habitacionais."

Conselhos a uma ministra jovem, Helena Roseta, in publico.

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Crise da habitação: o imigrante tem as costas largas

A crise da habitação em Portugal transformou-se num dos debates mais acesos e fraturantes dos últimos anos, e a frase “o imigrante tem as costas largas” sintetiza com precisão a forma como a população estrangeira tem sido transformada num bode expiatório conveniente para um problema socioeconómico profundo. Em crónicas e intervenções públicas, analistas como o jornalista Daniel Oliveira têm vindo a desconstruir essa narrativa, demonstrando que atribuir a subida vertiginosa das rendas e a escassez de casas a quem chega de fora serve apenas para desviar as atenções de décadas de falhas graves no planeamento urbano, na intervenção pública e na regulação do mercado imobiliário.

Os dados do setor mostram claramente que a escassez de habitação não começou com os fluxos migratórios recentes de baixos rendimentos. O país arrasta um défice estrutural de oferta desde a crise financeira de 2008, altura em que a construção nova praticamente parou. A somar a este bloqueio, Portugal manteve ao longo de décadas um parque habitacional público irrisório - que representa apenas cerca de 2% do total nacional, muito abaixo da média europeia -, deixando o acesso à casa totalmente entregue ao mercado privado. Ao mesmo tempo, as políticas públicas focaram-se em atrair capital estrangeiro de elevado rendimento e investir no turismo de massas, promovendo instrumentos como os Vistos Gold, o regime para Residentes Não Habituais e a expansão desregulada do Alojamento Local. Foram estas escolhas, aliadas à lentidão crónica dos licenciamentos autárquicos e à existência de centenas de milhares de imóveis devolutos, que verdadeiramente inflacionaram o valor do metro quadrado nas áreas metropolitanas.

Naturalmente, um aumento populacional célere num mercado habitacional já sufocado gera uma pressão imediata sobre a procura, como têm assinalado relatórios de várias instituições financeiras. Contudo, o problema não reside no ato de imigrar em si, mas sim na ausência de um planeamento infraestrutural por parte do Estado, que falhou em prever e acompanhar o crescimento demográfico nos setores da habitação, da saúde e dos transportes. Além disso, existe uma clara segmentação do mercado: enquanto os estrangeiros de altos rendimentos e os investidores pressionam os preços da habitação média-alta, a grande maioria dos trabalhadores imigrantes não tem capacidade financeira para disputar casas no mercado formal, sendo empurrada para cenários graves de sobrelotação, precariedade e exploração no mercado informal.

A maior ironia deste debate reside no facto de a população imigrante ser, em simultâneo, a principal vítima da especulação e o pilar que sustenta a própria solução do problema. Com o setor da construção civil a enfrentar uma escassez histórica de mão de obra nacional, são hoje os trabalhadores imigrantes que edificam, reabilitam e colocam de pé as infraestruturas de que o país necessita desesperadamente. Culpar os imigrantes pela crise da habitação pode ser uma estratégia politicamente rentável e de assimilação fácil, mas é uma simplificação que ignora a realidade económica: não destrava licenciamentos, não combate a especulação e não constrói uma única habitação pública.

Para acompanhar esta perspetiva comentada em detalhe, vale a pena ver este debate com Daniel Oliveira sobre Habitação e Imigração, no qual o jornalista analisa as causas estruturais da crise imobiliária e desmonta os mitos em redor do impacto da imigração em Portugal.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Barragem de Girabolhos: entre o negócio concessionado e a ausência de uma visão estratégica


O anúncio da construção da Barragem de Girabolhos, no sistema do Baixo Mondego, surge mais uma vez envolto na retórica da ação governativa. No entanto, por trás da propaganda da "obra", esconde-se uma fragilidade desconcertante: a ausência de uma estratégia integrada para o território e um modelo de financiamento que coloca o interesse público em segundo plano.

Estamos perante a clássica política da obra como substituto da visão de futuro. Para compreender o real impacto desta decisão, é preciso analisar o projeto sob três prismas fundamentais: a viabilidade financeira, a inversão do processo de avaliação e a falta de propósito regional.

1. O dilema financeiro e o conflito de interesses na exploração
A realidade financeira do projeto é simples: a União Europeia não financia a sua construção e o Governo não tem orçamento para ela. Resta, por isso, a via da Parceria Público-Privada (PPP), entregando a construção e exploração a uma empresa privada que procurará, legítima e prioritariamente, o lucro através da produção hidroelétrica.

Esta opção privatizada gera um conflito de interesses técnico que anula um dos principais argumentos públicos a favor da barragem: a segurança das populações a jusante (rio abaixo).

Objetivo público (minimização de cheias)Objetivo privado (produção de energia)
Exige que a albufeira esteja com a cota de água muito baixa durante o inverno para ter capacidade de reter as pontas de cheia.Exige que a albufeira esteja o mais cheia possível para maximizar a pressão da água e gerar mais eletricidade (e receita).
O impasse: Como pode uma empresa privada, cujo modelo de negócio depende de ter a barragem cheia, garantir de forma eficaz a segurança das populações que exige que a barragem esteja vazia no inverno? O fim prioritário da segurança pública acaba inevitavelmente subjugado ao lucro da concessionária.

2. Um processo invertido: o estudo pago por quem quer construir
O modelo de concurso atual prevê que o futuro concessionário tenha até 18 meses para entregar o Estudo Prévio e o Estudo de Impacte Ambiental (EIA), e mais 12 meses para o projeto de execução após a Declaração de Impacte Ambiental (DIA).

Este procedimento inverte a lógica do planeamento rigoroso e da defesa do interesse público:
  1. Falta de independência científica: um Estudo de Impacte Ambiental pago pelo próprio concessionário à empresa que o elabora fica inevitavelmente condicionado pelos interesses económicos de quem passa o cheque.
  2. Decisão sem dados: o Governo deveria ter solicitado e pago um EIA independente, adequado ao contexto atual de alterações climáticas, ou um estudo de suporte à decisão política elaborado por especialistas multidisciplinares antes de decidir abrir o concurso público.
  3. Decidir avançar para o concurso sem estes estudos é avançar às cegas, protegendo o promotor privado em detrimento da qualidade ambiental e da segurança regional.
3. Obra sem visão: para quê esta barragem?
A nível estratégico, a pergunta essencial continua sem resposta: qual é o verdadeiro propósito desta infraestrutura?
Será para abastecer um território marcado pelo despovoamento, quando o verdadeiro desafio é criar condições socioeconómicas para fixar pessoas e investimento?
Será para expandir um modelo de agricultura de regadio intensivo numa região cuja vocação natural não se adequa a esse caminho?
Será para regular caudais, sem que se tenha demonstrado, com rigor e transparência, que esta é a solução mais custo-benefício e ecologicamente sustentável?

Portugal continua preso ao velho dogma de que "construir é resolver". Mas uma barreira de betão no rio não substitui uma política de ordenamento do território, não resolve a gestão integrada da água e não é, por si só, uma estratégia de adaptação às alterações climáticas.

Conclusão: o interior precisa de futuro, não apenas de betão
O interior do país e a região do Mondego precisam de conhecimento, inovação, emprego qualificado e valorização dos seus recursos naturais. Precisam de soluções que ataquem as causas do despovoamento, e não apenas os seus sintomas através de megaprojetos de engenharia.

A questão central não é uma postura cega contra ou a favor de barragens. É exigir que as grandes decisões públicas sejam fundamentadas, transparentes e sustentadas em evidência científica independente. Defender as populações e o ambiente do Mondego exige que paremos de medir a ambição nacional pelo volume de betão e passemos a medi-la, de uma vez por todas, pela qualidade e clareza da nossa visão.

Nota: o texto é um cruzamento das críticas de Helena Freitas e de Pedro Proença Cunha

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segunda-feira, 29 de junho de 2026

Europa: milhões com quartos a mais agravam crise da habitação


A Europa enfrenta ao mesmo tempo um problema de espaços vazios e uma grave crise da habitação.

Apesar da falta de habitação a preços acessíveis em todo o bloco, uma em cada três pessoas na UE vive em casas com quartos a mais, segundo o Eurostat. Os números evidenciam o desfasamento entre a oferta de alojamento e as necessidades dos agregados familiares, bem como diferenças marcadas nos padrões de habitação na Europa.

Subocupação designa habitações maiores do que aquilo de que os moradores necessitam, geralmente por terem mais quartos do que o necessário. É o oposto de sobrelotação e está muitas vezes associada a pessoas mais velhas que continuam a viver na casa de família depois de os filhos saírem de casa.

Embora as condições habitacionais inadequadas continuem a ser um desafio em quase todos os países da UE, a dimensão da crise e as suas causas profundas variam de forma significativa, de acordo com o Conselho Europeu.

Quais são, então, os países com taxas mais elevadas de subocupação? 
No conjunto da UE, 33,4 % das pessoas vivem em habitações subocupadas, mas a percentagem varia entre 8,1 % na Roménia e 69,4 % em Chipre.

Europa de Leste regista as taxas mais baixas de subocupação
A subocupação é, em geral, muito menos comum na Europa de Leste e do Sudeste do que no resto do continente.

Após a Roménia (8,1 %), a proporção de pessoas que vivem em casas subocupadas mantém-se abaixo dos 15 % na Sérvia (8,2 %), Turquia (10,3 %), Letónia (10,5 %), Grécia (12,5 %) e Croácia (14,7 %).

A percentagem de pessoas que vivem em casas subocupadas é também relativamente baixa na Bulgária (15,8 %), Eslováquia (15,9 %), Macedónia do Norte (17 %), Polónia (17,9 %), Lituânia (18 %) e Itália (18,2 %).

Em conjunto, estes países formam o grupo com valores mais baixos na Europa, seguido da Estónia, Chéquia e Hungria, onde as taxas rondam os 27 %.

Onde a subocupação é mais frequente
Chipre regista a taxa de subocupação mais elevada da Europa, com 69,4 %, seguido da Irlanda (66 %) e de Malta (63,2 %). Importa notar que os três são países insulares.

A proporção de pessoas que vivem em casas com quartos a mais também supera 50 % nos Países Baixos (58,5 %), Bélgica (57 %), Espanha (54,3 %), Luxemburgo (52,2 %) e Noruega (51 %).

Entre os países nórdicos, a Finlândia (46,6 %) e a Dinamarca (42,4 %) situam-se igualmente muito acima da média da UE.

O quadro diverge claramente entre as quatro maiores economias da UE.
A Espanha tem uma das taxas de subocupação mais elevadas, de 54,3 %, contra apenas 18,2 % em Itália. A França situa-se nos 40,4 %, enquanto a Alemanha está praticamente em linha com a média da UE, com 33,3 %.

Sul da Europa mostra duas realidades habitacionais distintas
Embora a taxa seja bastante mais baixa em grande parte do sudeste e do leste da Europa, o próprio sul da Europa está dividido. Chipre, Malta e Espanha apresentam valores elevados, enquanto Itália, Grécia, Turquia e grande parte dos Balcãs registam taxas reduzidas. Isto sugere que a tendência não se explica por uma simples clivagem norte-sul.

Podem as políticas públicas reduzir a subocupação?
A Federação Europeia de Organizações Nacionais que Trabalham com Sem-abrigo (FEANTSA) sublinha que a questão essencial é saber se o parque habitacional, e em especial a nova oferta, responde à crescente procura de casas mais pequenas.

"Essas casas mais pequenas existem de facto e são acessíveis?", disse um porta-voz da FEANTSA à Euronews Business.

Ao referir-se à "bedroom tax", introduzida no Reino Unido em 2013, a organização afirmou que a medida foi ineficaz, porque muitas vezes não existiam casas com a dimensão adequada, o que levou a perdas de rendimento para agregados que pouco mais podiam fazer senão ficar onde estavam.

A organização defendeu que recuperar habitações devolutas para arrendamento acessível e habitação social poderá ser mais eficaz do que focar a subocupação.

"Penalizar a subocupação sem abordar as causas mais estruturais que conduzem à habitação inacessível, como o subinvestimento em verdadeira habitação social e a financeirização e especulação imobiliária, representa um erro de diagnóstico", afirmou o porta-voz.

O efeito da propriedade da habitação
Segundo o Eurostat, a proporção de pessoas que vivem em habitações subocupadas é de 14,2 % entre inquilinos, contra 40,5 % entre proprietários.

O professor Sebastian Kohl, da Universidade Livre de Berlim, afirmou que as diferenças entre países são fortemente condicionadas pelos enquadramentos institucionais, sobretudo pelas taxas de propriedade de habitação e pela composição demográfica.

"Estruturas institucionais como o regime de ocupação têm um papel decisivo. Nos nossos modelos, a propriedade da habitação é o fator isolado que melhor prevê a subocupação objetiva", disse à Euronews Business.

Quem tem maior probabilidade de viver numa casa subocupada?
Um estudo de Jonas Lage e colegas concluiu  que o tipo de agregado familiar está intimamente ligado à subocupação.

A maioria dos quartos subocupados encontra-se em agregados de uma ou duas pessoas. As taxas são também, em geral, mais elevadas nos agregados sem crianças.

Na UE, 41 % das habitações subocupadas situam-se em cidades, com cerca de 30 % em zonas rurais e outros 30 % em vilas e pequenas cidades.

Na maioria dos países, e em média na UE, os agregados com rendimentos mais elevados têm maior probabilidade de viver em casas subocupadas e representam uma fatia maior dos quartos subocupados.

O que conta como divisão depende do país
Kohl destaca também a dificuldade de harmonizar as medições, decorrente das diferentes definições nacionais do que é uma divisão.

Sublinha que Espanha, Irlanda e Finlândia contam explicitamente as cozinhas como divisões nos respetivos inquéritos.

Chama ainda a atenção para o forte desfasamento entre os indicadores objetivos e a perceção subjetiva das pessoas. Os investigadores verificaram que apenas duas em cada cinco pessoas consideravam a sua casa demasiado grande, embora fosse classificada como subocupada segundo os critérios oficiais.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

O efeito de ilha de calor de dados: quantificação do impacto dos centros de dados de IA num mundo em aquecimento.



O "Efeito de Ilha de Calor de Dados" (Data Heat Island Effect) refere-se ao aumento localizado na temperatura da superfície terrestre causado pela dissipação massiva de calor dos centros de dados voltados para Inteligência Artificial (IA). Um estudo pioneiro liderado por investigadores da Universidade de Cambridge e da Universidade Tecnológica de Nanyang quantificou globalmente este impacto, demonstrando que estas instalações alteram os microclimas à sua volta. [1, 2, 3]
Abaixo estruturam-se as principais conclusões e métricas avançadas pela investigação. [1, 2]

Métricas de impacto térmico
O estudo analisou dados de satélite da NASA recolhidos entre 2004 e 2024, cobrindo mais de 6.000 localizações fora de áreas densamente urbanizadas para isolar o efeito das infraestruturas de dados: [1, 2, 3]
  • Aumento médio: a temperatura da superfície da terra aumenta 2°C em média após o início das operações de um centro de dados de IA. [1]
  • Casos extremos: foram registados picos de aquecimento extremo de até 9,1°C na proximidade imediata de algumas infraestruturas. [1]
  • Raio de influência: o efeito térmico propaga-se através do espaço, sendo detetável a uma distância de até 10 quilómetros da instalação. [1]
  • Degradação da intensidade: a intensidade do calor gerado reduz-se para cerca de 30% quando atinge um raio de 7 km de distância. [1]
Dinâmica e Causas do Fenómeno
Os centros de dados focados em modelos de IA operam com milhares de unidades de processamento gráfico (GPUs) de alto desempenho a funcionar continuamente sob cargas de trabalho extremas. Esta arquitetura gera duas fontes principais de perturbação térmica: 
  • Exaustão direta [1]: Os sistemas de refrigeração industrial extraem calor do interior dos edifícios, expelindo massivamente ar quente e vapor de água para a atmosfera circundante. [1, 2]
  • Pegada da construção: As próprias características físicas do complexo (grandes telhados, superfícies de asfalto e betão) absorvem a radiação solar e criam um efeito semelhante ao das ilhas de calor urbanas tradicionais. [1, 2, 3]
Populações e regiões afetadas
Estima-se que mais de 340 milhões de pessoas vivam em zonas sob o raio de influência térmica destas instalações a nível global. Os investigadores apontaram que anomalias de temperatura anteriormente difíceis de justificar coincidem diretamente com a expansão de grandes polos de dados em regiões como: 
  • Aragão (Espanha)[1]
  • Bajío (México)
  • Teresina, Piauí (Nordeste do Brasil) [1, 2]
Caminhos para Mitigação
Para conter o aparecimento destas zonas microclimáticas sem travar a inovação tecnológica, o ecossistema aponta soluções em duas vertentes principais: 
  • Otimização de hardware e refrigeração[1, 2]: integração de tecnologias de refrigeração líquida avançada de ciclo fechado e reaproveitamento do calor residual para sistemas de aquecimento residencial local ou processos industriais. [1, 2, 3, 4]
  • Eficiência de software: desenvolvimento de algoritmos e modelos de IA estruturalmente focados em eficiência energética e sustentabilidade desde a sua conceção, reduzindo o esforço computacional bruto. [1]
A notícia já tinha sido avançada aqui

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Mapeado: Como variam os preços das rendas nas principais cidades do mundo (valores em dólares)

Para melhor visualização amplie aqui
Metodologia
Este mapa compara os preços mensais de arrendamento de um apartamento de três quartos no centro das grandes cidades globais em 2025. Os dados para esta visualização são da Numbeo, via Deutsche Bank. O conjunto de dados da Numbeo é maioritariamente colaborativo, baseado em informações sobre o custo de vida enviadas por utilizadores de cidades de todo o mundo.

Análise
A nível global, a crise habitacional em 2026 não é um fenómeno isolado de Portugal, mas sim uma tendência que afeta grandes metrópoles e economias desenvolvidas. Embora as causas locais variem, existem macrotendências mundiais que explicam por que comprar ou arrendar casa se tornou um desafio global.
Aqui estão as principais causas a nível mundial:
1. Financeirização da Habitação
Este é um dos conceitos mais importantes em 2026. A habitação deixou de ser vista apenas como um direito social para se tornar um ativo financeiro.
Capital Global: grandes fundos de investimento internacionais compram milhares de imóveis para gerir carteiras de arrendamento, o que aumenta a competição com as famílias e inflaciona os preços.
Imóveis como Reserva de Valor: em tempos de instabilidade económica, investidores preferem "guardar" o dinheiro em imobiliário em cidades seguras (como Nova Iorque, Londres, Berlim ou Lisboa), muitas vezes mantendo as casas vazias apenas para valorização de capital.

2. Mudanças Demográficas e Urbanização
Urbanização Acelerada: a ONU estima que, até 2050, 70% da população mundial viverá em cidades. A procura concentra-se em centros urbanos com melhores empregos, enquanto as zonas rurais se desertificam.
Agregados Familiares Menores: há uma tendência mundial de as pessoas viverem sozinhas ou em famílias mais pequenas. Isto significa que são precisas mais casas para o mesmo número de pessoas em comparação com décadas anteriores.
Envelhecimento da População: em 2026, com os primeiros baby boomers a atingirem os 80 anos, há uma retenção de stock imobiliário por gerações mais velhas, dificultando a rotatividade para os mais jovens.

3. Choques nas Cadeias de Abastecimento e Custos
Materiais de Construção: os efeitos das crises geopolíticas globais e da pandemia elevaram o custo de materiais como o aço e o alumínio a níveis históricos. Construir uma casa nova custa hoje significativamente mais do que há 10 anos em qualquer parte do mundo.
Escassez de Mão de Obra: existe um défice global de trabalhadores qualificados na construção civil, o que atrasa projetos e encarece o produto final.

4. Políticas de "Zonamento" e Regulação
Restrições de Planeamento: em muitos países (especialmente nos EUA, Reino Unido e Canadá), leis de urbanismo restritivas impedem a construção de prédios altos ou de maior densidade, favorecendo moradias unifamiliares que ocupam muito espaço para pouca oferta.
Exigências Ambientais: embora necessárias, as novas normas de eficiência energética (edifícios de balanço nulo) aumentam o custo inicial da construção, que é invariavelmente passado para o consumidor.

5. Fenómeno dos "Nómadas Digitais"
A tecnologia permitiu que trabalhadores de países com salários altos (como EUA ou Alemanha) se mudassem para países com custo de vida mais baixo.
Gentrificação Transnacional: isto cria uma pressão de preços em cidades de "acolhimento" (como Cidade do México, Banguecoque ou Madrid), onde os residentes locais, com salários nacionais, não conseguem competir com o poder de compra estrangeiro.

O Ciclo Imobiliário de 18 Anos
Alguns economistas apontam que estamos a chegar ao pico do Ciclo de Kuznets (um ciclo imobiliário que dura cerca de 18 anos). Segundo esta teoria, 2026 seria um ano de tensão máxima antes de uma potencial correção ou estagnação global, devido ao desajuste extremo entre os preços e os rendimentos reais.

domingo, 4 de janeiro de 2026

Este é o sistema hidroelétrico mais potente do mundo. Projeto secreto de Pequim pode dar início a conflito entre duas potências nucleares


Megabarragem está a ser edificada no curso inferior do rio Yarlung Tsangpo, no Tibete. Este projeto no remoto rio dos Himalaias exigirá o realojamento de aldeias onde vivem grupos indígenas que dependem da agricultura para a sua subsistência. Na Índia, já a imprensa apelida a construção megalómana chinesa como a "bomba de água"

A centenas de quilómetros da populosa linha costeira da China, uma curva acentuada num remoto rio dos Himalaias está prestes a tornar-se a peça central de um dos mais ambiciosos - e controversos - projetos de infraestruturas do país até à data.

Ali, espera-se que um sistema hidroelétrico de 168 mil milhões de dólares (cerca de 143 milhões de euros) produza mais eletricidade do que qualquer outro no mundo - um grande benefício para a China, à medida que se aproxima de um futuro em que os veículos elétricos dominam as suas estradas e os modelos de IA, ávidos de energia, correm para superar os rivais internacionais.

O líder chinês, Xi Jinping, apelou a que o projeto “avançasse de forma enérgica, sistemática e eficaz” durante uma rara visita no início do ano ao Tibete, uma região onde Pequim continua a apertar o cerco em nome do crescimento económico e da estabilidade.

Segundo os especialistas, o sistema hidroelétrico, construído no curso inferior do rio Yarlung Tsangpo, no Tibete, será um feito de engenharia sem igual. Aproveitando uma queda de 2 mil metros de altitude, através da abertura de túneis numa montanha, permitirá à China aproveitar um rio importante numa região conhecida como a torre de água da Ásia e numa altura em que os governos estão a concentrar-se mais na segurança da água.

O projeto poderá contribuir para os esforços globais no sentido de abrandar as alterações climáticas e ajudar a China - atualmente o maior emissor de carbono do mundo - a abandonar a energia produzida a partir do carvão. Mas a sua construção poderá também perturbar um ecossistema raro e imaculado e as casas ancestrais dos habitantes indígenas.

Dezenas de milhões de pessoas também dependem do rio a jusante, na Índia e no Bangladesh, onde os especialistas dizem que o potencial impacto no ecossistema, incluindo na pesca e na agricultura, continua a ser pouco estudado.

As manchetes na Índia já apelidaram o projeto de uma potencial “bomba de água” - e a sua proximidade da fronteira disputada entre a China e a Índia coloca-o em risco de se tornar um ponto de inflamação numa disputa territorial há muito acesa entre as duas potências com armas nucleares.

Apesar destes riscos, o projeto continua envolto em secretismo, aprofundando as questões sobre um plano que mostra as imensas capacidades técnicas da China e a sua vontade de obter energia limpa, mas também a sua falta de transparência, mesmo quando se trata de um empreendimento com consequências potencialmente de grande alcance.

Pistas sobre a conceção do projeto - tanto referenciadas em relatórios oficiais ou científicos como em informações de fonte aberta compiladas pela CNN - sugerem um sistema complexo que poderá incluir barragens e reservatórios ao longo do rio Yarlung Tsangpo, bem como uma série de estações hidroelétricas subterrâneas ligadas por túneis, aproveitando a energia à medida que uma parte desviada do rio faz um declínio acentuado da elevação.

“Este é o sistema de barragens mais sofisticado e inovador que o planeta já viu”, disse Brian Eyler, diretor do Programa de Energia, Água e Sustentabilidade do Centro Stimson, em Washington. “É também o mais arriscado e potencialmente o mais perigoso”.

A China discorda. Num comunicado enviado à CNN, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da China afirmou que o projeto “passou por décadas de investigação aprofundada” e “implementou medidas rigorosas de segurança de engenharia e proteção ecológica para garantir que não afetará negativamente as áreas a jusante”.

“Desde a preparação inicial e o início oficial do projeto, a parte chinesa sempre manteve a transparência em relação às informações pertinentes e manteve linhas abertas de comunicação com os países a jusante”, disse o ministério, acrescentando que “à medida que o projeto avança” Pequim “partilhará as informações necessárias com a comunidade internacional” e “reforçará a comunicação e a cooperação com os países a jusante”.

O projeto, explicou, “visa acelerar o desenvolvimento de energia limpa, melhorar os meios de subsistência locais e abordar ativamente as alterações climáticas”.

Mas Pequim pode também ter outras prioridades em mente. A ambiciosa iniciativa em matéria de infraestruturas surge numa altura em que Xi se esforça por reforçar a segurança nacional, não só assegurando o fornecimento de energia à China, mas também reforçando o controlo ao longo das fronteiras disputadas e das regiões onde vivem as minorias étnicas.

“Se ligarmos os pontos do desenvolvimento das infraestruturas chinesas nos Himalaias, especialmente nas áreas onde a China faz fronteira com a Índia ao longo do Tibete, elas estão estrategicamente colocadas”, aponta Rishi Gupta, diretor adjunto do Asia Society Policy Institute em Nova Deli.

“O projeto alinha-se com o objetivo mais amplo da China de aproveitar os seus recursos naturais para consolidar o controlo sobre regiões críticas como o Tibete e as suas fronteiras.”

Informações de fonte aberta dão pistas sobre o que poderá ser o projeto de barragem maciça da China
A CNN e especialistas do Centro de Estudos Stimson criaram esta simulação de um possível projeto utilizando informações de fonte aberta e avaliações técnicas. Prevê-se que o projeto inclua cinco estações hidroelétricas em cascata e um sistema de túneis que desvie uma parte do rio, permitindo-lhe perder cerca de 2.000 metros de elevação ao longo de 50 quilómetros e gerar energia através desta rápida queda de elevação.

Jogo de poder nos Himalaias
Conhecido como o maior rio do mundo, o Yarlung Tsangpo serpenteia a partir de um glaciar nos Himalaias, atravessando o planalto que abrigou o budismo tibetano, em direção ao extremo sul do país.

Um dos troços do rio, junto à fronteira de facto do Tibete com um estado indiano cujas terras a China reivindica, há muito que chama a atenção pelo seu potencial de produção de energia.

Aí, a via fluvial faz uma dramática curva em ferradura ao contornar uma massa de montanhas no que é conhecido como a Grande Curva - uma trajetória que faz com que o rio perca cerca de 2 mil metros de altitude em aproximadamente 50 quilómetros.

Estima-se que essa descida tenha potencial para gerar cerca de 300 mil milhões de quilowatts-hora de eletricidade por ano - aproximadamente o triplo da produção da barragem chinesa das Três Gargantas, atualmente a mais potente do mundo.

O desenvolvimento hidroelétrico no curso inferior do Yarlung Tsangpo “não é apenas uma iniciativa hidroelétrica”, é também um projeto de segurança nacional, que engloba a segurança dos recursos hídricos, a segurança territorial e muito mais, afirmou Yan Zhiyong, então presidente da Power Construction Corporation of China (PowerChina), num discurso proferido em 2020, de acordo com a publicação da imprensa estatal chinesa.

Há décadas que se fala de um projeto deste tipo ao longo do curso inferior do rio, mas nunca foi tentado - há muito que é visto como um desafio notório numa zona remota e traiçoeira, difícil mesmo para um país que lidera a construção de megabarragens a nível mundial.

Agora, imagens de satélite, documentos empresariais disponíveis ao público e publicações nas redes sociais da zona analisadas pela CNN mostram que estão em curso obras de construção e alargamento de estradas, construção de pontes, construção de instalações de armazenamento de explosivos, expansão do serviço de telemóvel e realojamento de aldeões - tudo esforços aparentes para abrir caminho à construção, que começou oficialmente em julho.

Os documentos oficiais referem-se frequentemente ao projeto utilizando as iniciais romanas “YX” para designar uma abreviatura do curso inferior do Yarlung Tsangpo, mas fornecem poucas informações sobre a sua conceção. Os meios de comunicação social estatais afirmam que o projeto emprega principalmente um método de “endireitar e desviar o rio” através de túneis e inclui cinco estações hidroelétricas em cascata.

A análise da CNN de informações de fonte aberta, incluindo trabalhos de investigação académica, concursos oficiais, patentes de projetos de centrais elétricas registadas por uma subsidiária da PowerChina, um documento de planeamento urbano local, bem como imagens de satélite e publicações nas redes sociais da zona, permitiram esclarecer melhor a forma como este projeto de grande envergadura pode estar a tomar forma.

Uma simulação baseada nesta informação e produzida em conjunto com especialistas do Programa de Energia, Água e Sustentabilidade do Centro Stimson, que forneceram análises técnicas e geográficas, sugere que o projeto poderá ser um sistema extenso de centrais hidroelétricas, túneis e reservatórios, que no seu conjunto poderão estender-se por cerca de 150 quilómetros em linha reta desde a primeira até à última central elétrica.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Mão de obra imigrante é nove anos mais jovem do que a portuguesa – estudo


Os imigrantes que trabalham em Portugal são, em média, nove anos mais novos que a força de trabalho portuguesa, segundo uma análise estatística hoje divulgada.

De acordo com uma pesquisa da plataforma Prepara Portugal, com base nos dados cruzados do Instituto Nacional de Estatística (INE) e da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), “em 2023, a idade mediana dos trabalhadores estrangeiros era de 33 anos, enquanto a dos trabalhadores portugueses atingia os 42 anos”, um sinal de que os imigrantes contribuem para o “rejuvenescimento do mercado de trabalho nacional”.

Por outro lado, o estudo indica que mais de 85% da população estrangeira residente em Portugal encontra-se em idade ativa, muito acima da população portuguesa.

“Entre os nacionais, o grupo com 65 anos ou mais representa mais de 24% da população, enquanto entre os imigrantes esse valor não ultrapassa 8,5%”, refere Higor Cerqueira, diretor pedagógico do Prepara Portugal, uma plataforma destinada a estudantes internacionais e imigrantes que procuram inserção profissional no mercado português.

Segundo o estudo, cuja versão final será apresentada em janeiro, os imigrantes “estão fortemente inseridos em setores estratégicos como construção civil, turismo, restauração, agricultura, serviços administrativos e tecnologia da informação, áreas que enfrentam escassez estrutural de mão de obra nacional”.

De acordo com Pedro Stob, formador do curso de Análise de Dados e Tecnologia da Informação Aplicada à Gestão, do Centro de Formação Prepara Portugal, o objetivo final foi formar “alunos a trabalhar com dados reais, interpretar fenómenos sociais complexos e comunicar conclusões com impacto para a sociedade”.

“O estudo aponta ainda para uma integração progressiva dos imigrantes no mercado laboral, refletida na melhoria das taxas de emprego e no aumento gradual das remunerações médias ao longo do período analisado, apesar da persistência de desafios como diferenças salariais, reconhecimento de qualificações e estabilidade contratual em alguns setores”, referem os autores.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Tribunal suíço vai julgar caso histórico contra gigante do cimento Holcim



A Swiss court is set to hear a climate case against cement giant Holcim after admitting a complaint filed by four residents of the low-lying Indonesian island of Pari.

The residents say rising sea levels are swallowing their home and accuse Holcim of failing to cut carbon emissions.

The Cantonal Court of Zug admitted the complaint in full, marking the first time climate litigation against a corporation will proceed in Switzerland, according to Swiss Church Aid (HEKS/EPER), one of the NGOs assisting the islanders.

The case is part of a global effort to hold major companies accountable for climate damage that threatens millions, especially in poorer countries.

Climate change could submerge Pari by 2050
The case was brought in 2023 by four residents of Pari Island, Ibu Asmania, Pak Arif, Pak Edi, and Pak Bobby, to the court in Zug, where Holcim is headquartered. Rising waters linked to climate change could submerge most of the island by 2050. Pari sits just 1.5 meters (5 feet) above sea level.

The plaintiffs, supported by international NGOs including Swiss Church Aid (HEKS/EPER), the European Center for Constitutional and Human Rights, and The Indonesian Forum for Living Environment (WALHI), say Holcim is one of the world's largest emitters of greenhouse gases. They are demanding rapid cuts in CO2 emissions — 43% by 2030 and 69% by 2040 — as well as compensation for damage and funding for flood protection.

Ibu Asmania said he and the other plaintiffs were "very pleased" by the court's decision.

"This decision gives us the strength to continue our fight," he said. "This is good news for us and our families."

Cement giant plans to appeal
Holcim, which has not operated cement plants in Indonesia since 2019, plans to appeal the court's decision to allow the case to move ahead. The company has repeatedly stressed it is committed to reaching net zero by 2050 but argues lawmakers should decide how those goals are met.

"Holcim remains convinced that the courtroom is not the appropriate forum to address the global challenge of climate change," the company said.

Cement production accounts for about 9% of global carbon dioxide (CO2) emissions, according to the Global Cement and Concrete Association.