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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Capitalismo e Esquizofrenia - dossier Anti-Édipo

Edição Antiga. A mais recente é da Assírio Alvim 

Em 1972 saía em França "O Anti-Édipo", imediatamente transformado em livro de referência. O "Anti-Édipo" foi o volume inaugural de "Capitalismo e Esquizofrenia", concluído com "Mil Planaltos", também publicado em Portugal.

Anos volvidos, depois da morte trágica de Deleuze e do triunfo do liberalismo capitalista, "O Anti-Édipo" readquire uma renovada importância com reedições em vários países.

E-Livro completo aqui

A. Introdução

A Ecologia do Desejo: Porque precisamos de ler Deleuze e Guattari para salvar a Terra
No BioTerra, falo frequentemente de sustentabilidade como um conjunto de práticas: reciclar, plantar, conservar. Mas e se a crise ambiental que enfrentamos não for apenas uma crise de recursos, mas uma crise do nosso desejo? Para mudar a forma como tratamos o planeta, precisamos primeiro de entender como o sistema capturou a nossa vontade e a transformou em consumo passivo.

É aqui que entra uma das obras mais radicais do século XX: O Anti-Édipo, de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Este "dossier" sobre o capitalismo e a esquizofrenia oferece-nos as ferramentas para uma Ecologia Profunda, que não separa o Homem da Natureza, mas vê ambos como parte de um fluxo contínuo de vida.

O Desejo como Revolução: Mergulhando no "Anti-Édipo"
Se alguma vez sentiu que a vida moderna tenta encaixar-nos em caixas cada vez mais pequenas, o livro "O Anti-Édipo", primeiro volume da série Capitalismo e Esquizofrenia, de Gilles Deleuze e Félix Guattari, é o grito de libertação que precisa de conhecer. Publicada em 1972, no rasto dos movimentos de maio de 68, esta obra não é apenas um tratado filosófico; é uma "máquina de guerra" contra as formas de controlo da subjetividade.

No cerne do livro está uma crítica feroz à psicanálise tradicional. Para os autores, Freud cometeu um erro estratégico ao confinar o desejo humano ao "teatro familiar" do Complexo de Édipo. Ao reduzir as nossas angústias e sonhos à relação com o "papá e a mamã", a psicanálise teria domesticado a força vital do ser humano. Deleuze e Guattari propõem o oposto: o inconsciente não é um palco de representações familiares, mas sim uma fábrica. O desejo é uma força produtiva, biológica e social que eles designam como "máquinas desejantes". O desejo não quer "possuir" um objeto por falta, quer sim ligar-se, fluir e criar realidades.

A obra lança também um olhar radical sobre o sistema em que vivemos. Argumentam que o Capitalismo possui uma natureza paradoxal: ele "desterritorializa", ou seja, destrói tradições e códigos antigos para libertar fluxos de dinheiro e mercadoria, mas, ao mesmo tempo, cria novas prisões — como o consumo desenfreado e a burocracia estatal — para impedir que o desejo se torne verdadeiramente revolucionário.

É aqui que entra a figura do esquizofrénico, não como uma patologia clínica a ser lamentada, mas como um "processo" de fuga. Para os autores, o "esquizo" é aquele que consegue escapar às codificações do sistema, rompendo as fronteiras do que a sociedade considera normal ou produtivo.

Para substituir a análise tradicional, o livro propõe a Esquizoanálise. Em vez de perguntar "o que é que isto significa?" em relação ao passado, o objetivo é perguntar "como é que isto funciona?" no presente. Como é que o seu desejo se liga à política, à arte, à terra e ao outro? É um convite para abandonarmos as identidades rígidas e abraçarmos o que eles chamam de Corpo sem Órgãos — um estado de pura experimentação onde a vida flui sem as amarras das hierarquias impostas.

Ler "O Anti-Édipo" é um desafio, pois o texto é denso e propositadamente caótico, espelhando a própria multiplicidade que defende. No entanto, a sua mensagem permanece urgente: a verdadeira ecologia e a verdadeira liberdade começam quando libertamos o nosso desejo das fábricas de conformismo do sistema.

Conclusão

Ligar-se à Terra, Desligar-se da Máquina
Ao transmutarmos a visão do desejo de "consumo" para "produção", a ecologia deixa de ser um dever moral e passa a ser uma forma de libertação. Ser "Bio", nesta perspetiva, é permitir que o nosso desejo se conecte novamente com os ciclos da terra, com o crescimento das plantas e com a regeneração dos ecossistemas, em vez de ser canalizado para a acumulação de objetos obsoletos.

A verdadeira sustentabilidade exige que sejamos um pouco "esquizofrénicos" aos olhos do sistema: que saibamos fugir das rotas traçadas pelo hipercapitalismo para traçarmos os nossos próprios mapas de vida. Afinal, cuidar da Terra é, antes de mais, cuidar da liberdade do nosso próprio inconsciente.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Ecosofia: O Despertar da Sabedoria para Reabitar o Mundo


Vivemos numa era de urgências climáticas e desconexão social. Frequentemente, olhamos para a crise ambiental como um problema puramente técnico que pode ser resolvido com novas tecnologias ou políticas de carbono. No entanto, a ecosofia nos lembra que a ferida é mais profunda: ela reside na forma como pensamos, sentimos e nos relacionamos com a vida.

Relembrar a importância da ecosofia é entender que a ecologia não pode estar separada da subjetividade humana. Como propôs Arne Næss, precisamos de uma "Ecologia Profunda", que abandone o antropocentrismo e reconheça o valor intrínseco de cada ser vivo. Não protegemos a floresta porque ela nos dá oxigênio, mas porque ela tem o direito soberano de existir.

Para o pensamento contemporâneo, essa sabedoria desdobra-se em duas vertentes complementares:

1.A ação Política de Félix Guattari: Ele nos convoca a agir em três frentes inseparáveis — a ecologia ambiental (biosfera), a social (nossas relações comunitárias) e a mental (nossa psique). Para Guattari, não há mudança ambiental sem uma revolução no desejo e no combate às desigualdades.

2.A Sensibilidade de Michel Maffesoli: Maffesoli traz o olhar do "reencantamento". Para ele, a ecosofia é uma racionalidade sensível. Ela não nasce de leis impostas de cima para baixo, mas do afecto, do "tribalismo" e do cuidado com o território onde vivemos. É o retorno ao sagrado e ao prazer de pertencer a uma "casa comum".

Em resumo, a ecosofia sugere que plantar uma horta ou reduzir o plástico são atos incompletos se não forem acompanhados por uma mudança de espírito. É a união entre a militância social e a celebração da vida quotidiana. Ao curarmos nossa relação com a Terra, curamos a nós mesmos.

Referências Bibliográficas 
GALLO, Sílvio. "Ecosofia, Ética e Educação: por uma pedagogia do habitar". Anais do X Encontro de Filosofia e História da Biologia, p. 145-158, 2012. (Excelente para fundamentar o conceito do "habitar" com sabedoria).

GUATTARI, Félix. As Três Ecologias. Tradução de Maria Cristina F. Bittencourt. 21. ed. Campinas: Papirus, 1990. (A obra que define as ecologias mental, social e ambiental).

MAFFESOLI, Michel. Ecosofia: uma ecologia para o nosso tempo. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2021. (A referência mais atual de Maffesoli sobre o reencantamento e a sensibilidade).

MORAES, Almir Ferreira de. "A Ecosofia de Félix Guattari: por uma nova subjetividade". Revista de Filosofia Aurora, Curitiba, v. 23, n. 32, p. 117-134, jan./jun. 2011. (Ótima síntese acadêmica disponível online).

NÆSS, Arne. Écologie, communauté et style de vie. Paris: Éditions MF, 2008. (Obra seminal da Ecologia Profunda e da ecosofia original).

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

A mística e a educação ambiental na conservação da natureza


A mística e a educação ambiental na conservação da natureza

Resumo
A crise socioambiental contemporânea evidencia os limites de abordagens exclusivamente técnico-científicas na conservação da natureza. Neste contexto, a mística — entendida como uma experiência profunda de conexão, sentido e transcendência na relação ser humano–natureza — emerge como um elemento relevante para a educação ambiental. Este ensaio analisa o papel da mística na educação ambiental e sua contribuição para a conservação da natureza, defendendo que dimensões simbólicas, éticas, espirituais e afetivas são fundamentais para promover mudanças duradouras de valores, atitudes e práticas socioambientais.

Palavras-chave: mística; educação ambiental; conservação da natureza; ética ambiental; espiritualidade ecológica.

1. Introdução
A degradação ambiental, a perda de biodiversidade e as alterações climáticas colocam desafios complexos à humanidade. Apesar dos avanços científicos e tecnológicos, observa-se uma persistente distância entre o conhecimento ambiental e a transformação efetiva dos comportamentos sociais. Tal cenário tem levado educadores e investigadores a questionar modelos de educação ambiental centrados apenas na transmissão de informação e no racionalismo instrumental.

Neste contexto, a mística surge como uma dimensão frequentemente marginalizada no campo académico, mas historicamente presente nas relações humanas com a natureza. Diferentes culturas, tradições espirituais e movimentos sociais reconhecem a experiência mística como fonte de sentido, compromisso ético e cuidado com o mundo natural. Este ensaio propõe reflectir sobre a articulação entre mística, educação ambiental e conservação da natureza, argumentando que a integração desta dimensão pode fortalecer processos educativos mais críticos, transformadores e emancipatórios.

2. Compreendendo a mística no contexto socioambiental
A mística pode ser compreendida como uma experiência de profundidade existencial caracterizada pela sensação de unidade, interconexão e pertença a uma totalidade maior. No contexto ambiental, essa experiência manifesta-se na relação sensível e ética com a natureza, percebida não apenas como recurso, mas como comunidade de vida.

Diferentemente de uma abordagem estritamente religiosa, a mística ecológica pode assumir formas laicas, interculturais e plurais. Ela expressa-se no encantamento diante da biodiversidade, no silêncio contemplativo, no cuidado com os ecossistemas e na reverência pela vida. Autores da ecologia profunda e da ética ambiental defendem que tal experiência é essencial para superar a lógica utilitarista que sustenta a crise ecológica.

Assim, a mística não se opõe à ciência, mas complementa-a, oferecendo uma base simbólica e afetiva para a construção de valores ecológicos e de uma ética do cuidado.

3. Educação ambiental: limites e possibilidades
A educação ambiental consolidou-se como um campo interdisciplinar voltado para a formação de sujeitos críticos e comprometidos com a sustentabilidade. No entanto, práticas educativas excessivamente normativas, informativas ou tecnocráticas tendem a produzir resultados limitados, sobretudo quando desconsideram as dimensões emocionais, culturais e espirituais dos educandos.

A incorporação da mística na educação ambiental amplia suas possibilidades pedagógicas, ao favorecer experiências vivenciais, sensoriais e reflexivas. Caminhadas interpretativas, atividades de imersão na natureza, narrativas simbólicas, arte, rituais ecológicos e momentos de silêncio são exemplos de práticas que podem despertar vínculos afetivos e sentido de responsabilidade ecológica.

Essa abordagem contribui para uma educação ambiental que não apenas informa, mas transforma, ao tocar dimensões profundas da subjetividade humana.

4. Mística e conservação da natureza
A conservação da natureza depende, em grande medida, de escolhas éticas e políticas fundamentadas em valores. A mística pode atuar como força mobilizadora, capaz de inspirar atitudes de respeito, cuidado e solidariedade interespécies. Comunidades tradicionais e povos indígenas, por exemplo, frequentemente articulam práticas de conservação a cosmovisões espirituais que reconhecem a sacralidade da natureza.

Ao integrar a mística à educação ambiental, promove-se uma mudança de paradigma: da dominação para a convivência, da exploração para o cuidado, da fragmentação para a interdependência. Tal mudança é crucial para sustentar estratégias de conservação que sejam socialmente justas, culturalmente sensíveis e ecologicamente eficazes.

5. Considerações finais
A mística, enquanto experiência de conexão profunda com a natureza, constitui um elemento potente para a educação ambiental e a conservação da natureza. Sua integração no campo educativo contribui para superar reducionismos racionalistas e fortalecer uma ética ecológica baseada no cuidado, na responsabilidade e na pertença à comunidade da vida.

Este ensaio defende que a educação ambiental deve reconhecer e valorizar a dimensão mística como parte legítima dos processos formativos, promovendo abordagens pedagógicas integradoras, críticas e sensíveis. Num contexto de crise civilizatória, a reconciliação entre conhecimento, sensibilidade e espiritualidade pode representar um caminho fecundo para a construção de sociedades mais sustentáveis.

Referências bibliográficas

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

A era das relações tóxicas


“Todos estamos em perigo”, disse Pasolini em sua última entrevista, poucas horas antes de ser assassinado. Esta frase me vem à mente ao ler o último livro da psicanalista Clotilde Leguil, A Era do Tóxico – Ensaio sobre o novo mal-estar na civilização [sem tradução para no Brasil]. Todos estamos em perigo não apenas pela ameaça externa de poderes destrutivos para a vida, mas também pela possibilidade de que o veneno da destrutividade atue e se espalhe a partir do nosso próprio interior. Nós somos parte do perigo.

É isso que Leguil se propõe a pensar, escutando o que diz uma palavra-sintoma que circula hoje por toda parte: o “tóxico”. Com o auxílio da literatura, do cinema e da psicanálise, Leguil interpreta o tóxico como um novo imperativo de gozo, a compulsão por uma satisfação bruta e imediata, uma voracidade que não pode ser saciada de forma alguma. O mal do ilimitado. O regime do hiper (hiperatividade, hiperestimulação, hipersexualização).

O filósofo Félix Guattari propôs, há vinte e cinco anos, pensar interligados três “ecossistemas”: o íntimo, o relacional e o planetário. O ensaio de Leguil reflete sobre o “veneno” que hoje ameaça desertificar os três, esgotando o corpo individual, social e terrestre. E propõe uma ética do desejo, da responsabilidade perante o nosso desejo, como resistência e limite.

O mal-estar do ilimitado
Apesar de Heidegger, que afirmava que a fala corrente é uma fala “inautêntica”, repleta de clichês, a senhora decide escutar o mal-estar na linguagem ordinária e fixa-se numa palavra de uso corrente hoje: o tóxico. Um exercício de escuta analítico, poderíamos dizer, de um sintoma de época. Quais possibilidades e riscos tem este exercício de escuta? A senhora teme ter contribuído para legitimar uma palavra que provém do âmbito da autoajuda, do coaching, da educação sentimental das redes sociais?
Interessei-me por este significante do “tóxico” a partir do seu novo uso, que me fez levantar questões. Apostei em levar a sério esta extensão do termo, própria da nossa época. Hoje em dia, o tóxico já não designa apenas as substâncias em si, mas uma modalidade de relação com o outro, que se assemelharia a um veneno. Partindo desta constatação, tentei interpretar esta nova metáfora do nosso mal-estar, uma nova metáfora que capturei primeiro através da linguagem, do discurso concreto, da forma como os sujeitos falam do seu mal-estar. Não se trata apenas de usar esta palavra para legitimá-la, mas de interpretá-la e tentar ver o que ela abrange, de que é sintoma.

O tóxico, diz a senhora, fala-nos de um novo mal-estar, do mal-estar específico da nossa época. Já não estamos na época em que o mal-estar tinha a ver com a proibição e a lei, com um esmagamento do desejo através da repressão, mas houve uma mudança. Do que se trata?
Efetivamente, interpretei esta influência do tóxico nas relações humanas a partir da psicanálise. Na minha opinião, ela testemunha uma nova figura do Supereu, aquela que Lacan definiu em seu escrito Kant com Sade em 1963. Estaríamos nos encontrando perante uma inversão do Supereu da proibição, do Supereu freudiano. E esta inversão revelaria também a verdadeira função do Supereu, que é sempre da ordem da forçatura, do forçamento. Este novo Supereu é aquele que força a gozar cada vez mais. Produz o que Lacan chamou a busca de um plus de gozo, que se impõe a cada um. O termo “tóxico” poderia dar testemunho dos efeitos deste “excesso” de gozo, não no sentido de “excesso” de prazer, mas no sentido de “excesso” de forçamento do prazer, de exigências pulsionais que aniquilam o desejo.

O tóxico, no uso corrente do termo, faz-nos pensar sempre que é um problema do outro. O outro é a pessoa tóxica da qual convém afastar-se, o tóxico vem de fora, etc. No entanto, a senhora complexifica o termo para nos dar a entender que o tóxico está em nós mesmos. O “fora”, o que vem de fora, articula-se ou ativa algo “dentro”, no nosso próprio interior. Como é essa dialética dentro-fora?
Sim, a experiência tóxica, tal como a interpreto, é da ordem de uma nova dialética entre o exterior e o interior. Algo do outro vem tocar o nosso corpo, como uma flecha envenenada que nos fere, mas, antes disso, também nos embriaga. É o lado anfibológico do tóxico: por um lado, a experiência tóxica faz experimentar uma forma de prazer estranho e novo; por outro lado, conduz a derivar para um gozo mau e destrutivo.

A marca do excesso no nosso interior, diz a senhora, é a “pulsão”. O mandato de época impele à satisfação pulsional total. Mas, o que é a pulsão? É biológica, é cultural? É ontológica, é histórica? Um cruzamento de ambas?
A pulsão, tal como a define Freud, é uma força libidinal que se situa entre o somático e o psíquico. Direi com Lacan que a pulsão é também o que responde no corpo a uma angústia perante o desejo do outro. É a forma como o vínculo com o outro pode suscitar uma espécie de exigência pulsional, à qual o sujeito não consegue dizer “não”. A dimensão da hýbris, do excesso, poderia ser a que evoca o termo “tóxico”. Há algo que é “demasiado” e que provoca angústia.

No gozo, no tóxico, o outro, o diferente, desaparecem. Desaparece o vínculo, desaparece o tempo como duração, desaparece o mundo compartilhado. Evaporam-se como simples instrumentos ou ocasiões de gozo. Isso tem efeitos terríveis sobre o que Félix Guattari chamava de “as três ecologias”: o ecossistema pessoal, o ecossistema social e o ecossistema terrestre. Em todos os três casos, um tipo de forçamento ameaça chegar até o colapso e o esgotamento (da energia, da atenção, dos vínculos).
Sim, no meu ensaio interessei-me por estes três campos: o campo íntimo, o campo ecológico e o campo político. Porque o interesse deste termo “tóxico” é que se situa na encruzilhada dos três. Em cada um deles, o que se denomina “tóxico” é o que põe em perigo a vida, o que obriga os seres vivos a suportar uma estimulação que vai além do suportável.

O tóxico articula-se com a linguagem. Há uma palavra que envenena. Como entender isto?
Situo a experiência tóxica no nível de uma modalidade do discurso que exige uma forma de forçamento pulsional que coloca o sujeito em perigo: uma frase tóxica seria uma frase que envenena o sujeito, injetando em seu corpo uma forma de crença, mas também transgredindo uma fronteira. Penso nos discursos tóxicos como aqueles que te fazem abandonar toda ética.

Poderíamos entender assim o discurso das novas ultradireitas? Um discurso que induz e justifica a rejeição ao diferente (as mulheres, os migrantes), a cegueira em relação aos limites (as desigualdades, o entorno natural), etc. Judith Butler fala do “sadismo desavergonhado” de Trump como novo tipo de poder, uma nova retórica de poder, uma nova exibição do poder.
Podemos falar de toxicidade do poder, pensando na dimensão predatória de certa modalidade de exercício do poder. O que há então de tóxico nestes discursos é a abolição de toda relação com a verdade, a história e a ética. É também o que se denomina pós-verdade, que permite reescrever a História. O apagamento da verdade histórica é sempre um mau augúrio. Lembremos 1984, de George Orwell. O regime do Grande Irmão, mediante uma propaganda contínua, tenta envenenar a psique dos indivíduos até fazê-los renunciar a toda singularidade. O poder tóxico é aquele que conduz à renúncia de toda ética. Portanto, continua a ser necessário perguntar-se sempre: “A que obedecemos? Em que acreditamos? A que consentimos?”.

A resistência do desejo
Não é fácil limitar o gozo. Não se trata de uma questão racional, de informação, de melhores argumentos ou novas pedagogias, mas sim de algo do corpo. O mal, o perigo, estão no corpo. O que cura, o que salva, portanto, também deve provir do corpo. Aqui encontro um limite ao racionalismo progressista da esquerda, tão confiante sempre no discurso, na política da explicação, mas tão ignorante por vezes do corpo, da realidade pulsional.

A busca de um limite é o resultado de uma forma de angústia perante esta desmedida, perante esta deriva. Mas este limite não dependerá de nenhuma pedagogia. Porque, com a experiência tóxica, trata-se daquilo que o sujeito não compreende, não sabe, não vê. Portanto, trata-se também do inconsciente. E de um inconsciente que se acopla ao corpo, como diz Lacan em Televisão. Por isso, a palavra na psicanálise não é da mesma ordem que uma racionalização ou uma introspecção. Trata-se de poder dizer o que nos supera, o que nos transborda, o que nos confronta também com um enigma na relação com o desejo e o gozo.

Os limites clássicos evaporam-se: o Saber, o Pai, a Lei mostram hoje uma face obscura, muito inquietante para o pensamento ilustrado. Retomando a análise de Lacan, a senhora faz uma crítica das insuficiências de Kant e do seu imperativo categórico. Em que consiste essa crítica?
Lacan mostrou em Kant com Sade – escrito que a princípio era um prefácio para A Filosofia no Boudoir do Marquês de Sade – uma proximidade entre o dever moral kantiano e o imperativo do gozo sádico. Um seria a outra face do outro. Tanto no imperativo categórico kantiano quanto no imperativo do gozo sadiano, trata-se de sacrificar algo do próprio desejo e da relação com o objeto do desejo. Em Kant, este sacrifício faz-se em nome da relação com o universal; em Sade, este sacrifício faz-se em nome da necessidade de obedecer à natureza, que segundo ele quer o crime, ou seja, o prazer sem limites. Portanto, deve existir uma terceira via, que abra caminho ao desejo.

A palavra é toxikon e phármakon. Pode envenenar o corpo, como dissemos antes, mas também pode acalmá-lo, aliviá-lo, curá-lo. Que tipo de palavra é essa que cura, ou pode curar, diferente, pelo que entendo, do mero Logos-Lei (deves/não deves)?
Se algumas palavras podem ser tóxicas, ou seja, empurrar para a pulsão de morte, outras palavras podem ser remédios. A cura pela palavra que é a psicanálise faz da experiência de “dizer” um phármakon. Tentar “dizer” o que nos envenenou também nos leva a desfazermo-nos disso, a desprender-nos disso, a separar-nos disso. Através da palavra como phármakon, o sujeito volta a conectar com o seu desejo, ou seja, com o seu poder de agir. Porque, ao interpretar os conflitos e tormentos da sua existência, também pode perceber o ponto em que tem certa responsabilidade na forma como responde aos acontecimentos da sua existência.

O que pode limitar o gozo é o desejo. É a proposta forte do livro, desenvolvida na sua última parte. Qual é a diferença entre gozo e desejo? Por que “só o desejo pode desintoxicar-me”?
Sim, esta distinção lacaniana entre desejo e gozo é fundamental, já que proporciona uma orientação ética. Permite ver com maior clareza a questão: “Mas o que é o bom?” Ou também: “Como saber o que devo fazer?”, “Como saber se devo dar rédea solta a uma forma de gozo ou se devo virar noutra direção?”. A fórmula de Lacan no seu seminário sobre A Ética da Psicanálise, “não ceder no desejo”, permite valorizar o desejo como um antídoto contra a pulsão de morte.

Essa última parte, aviso, está escrita em primeira pessoa. Pensando o tempo todo que o seu livro aborda o problema do gozo nos seus aspetos sociais, coletivos, políticos (emergência climática, management, poder tóxico), pergunto-me: há uma dimensão ou declinação coletiva, política, partilhada do desejo? Podemos conceber “políticas do desejo”, antídotos coletivos?
A relação com o desejo não é alheia à civilização e trata-se precisamente de abrir um caminho ao desejo para que a civilização seja em si mesma desejável. Neste sentido, há uma dimensão política na ética do desejo.

Em cada um dos meus livros, direi que há um elogio da singularidade do sujeito, do valor do desejo, mas também da necessidade do encontro. Porque o desejo sempre supõe também o encontro com o “desejo do outro”. Como escreveu Alexandre Kojève, o grande introdutor de Hegel em França, a nossa história é sempre a dos “desejos desejados”. Este é, a propósito, o tema do meu novo ensaio: O Desprendimento – Ensaio sobre as molas íntimas da desobediência, que acaba de ser publicado.

sábado, 1 de novembro de 2025

Ghost Cop - All Souls Day

Melhor som aqui

Os Ghost Cop são um duo de música eletrónica sediado em Nova Iorque, nos Estados Unidos, formado pela vocalista e artista multidisciplinar Lucy Swope e pelo produtor e músico Sean Dack.  A sonoridade do projeto - que a própria banda descreve de forma provocatória como "feel-bad dance music" - assenta numa fusão densa de Darkwave, Synth-pop, Coldwave e Post-punk, profundamente impregnada pela estética e pelas bandas sonoras de filmes de terror e de ficção científica da década de 1970 e 1980. O estilo é de facto inovador precisamente porque o duo não se limita a replicar a nostalgia retro dos anos 80: eles desconstroem o género. Enquanto o Synthwave tradicional tende a ser brilhante ou focado em melodias melancólicas fluídas, os Ghost Cop sobrepõem graves analógicos punitivos, ritmos industriais secos e linhas de sintetizador pontiagudas a vocais frios, sussurrados e etéreos. O resultado é um híbrido cinemático e noturno - uma música dançável, mas que mantém uma tensão e claustrofobia constantes, como se a pista de dança fosse o cenário de um filme slasher ou cyberpunk.  
No tema "All Souls Day" (lançado no álbum Trouble em 2024), a canção explora o significado espiritual e profano do Dia dos Fiéis Defuntos. O tema aborda a fronteira porosa entre os vivos e os mortos, a memória, o luto coletivo e a permanência dos "fantasmas" interpessoais que carregamos. É uma reflexão sobre a finitude, onde a dança serve como um ritual moderno de purgação e invocação, sugerindo que as nossas perturbações e remorsos não desaparecem; apenas mudam de forma e habitam as sombras do presente.  No plano visual e videográfico, os Ghost Cop são conhecidos por realizar e produzir a sua própria identidade estética. O videoclipe de "All Souls Day" utiliza uma linguagem cinematográfica em lo-fi e película texturada, carregada de iluminação contrastada e claros-escuros típicos do cinema giallo e do terror B. O significado do vídeo centra-se na despersonalização e na vigilância: figuras em movimento contínuo que transitam entre a presença e a ausência, transmitindo a ideia de que a cidade moderna é um cemitério de memórias e que os corpos em movimento estão possuídos pelo próprio ritmo da máquina.  
As influências literárias e filosóficas do duo e desta faixa em específico ancoram-se no Existencialismo (a busca de sentido perante a finitude e o absurdo) e nas teorias do filósofo francês Jacques Derrida sobre a "Hauntologia" (Hauntology) - o conceito de que o presente está sempre assombrado pelos "fantasmas" dos futuros perdidos do passado. Do ponto de vista literário, nota-se a forte influência da ficção científica distópica de J.G. Ballard (o erotismo mecânico e a alienação urbana), o terror psicológico de H.P. Lovecraft e Edgar Allan Poe (o medo do invisível e o macabro) e a poesia do Romantismo Negro, onde a beleza e a decadência caminham lado a lado.  

The H. P. Lovecraft Archive

Páginas oficiais
Ghost Cop

sexta-feira, 21 de julho de 2023

Capitalismo anal


A discussão em torno do texto que publiquei no semanário Sol, intitulado "A Questão do Cocó: Um estudo de caso" (14 de Julho de 2023), justifica algumas linhas de reflexão.
A primeira é que o ânus é um tema que importa desmistificar e tirar do seu lugar de vergonha. Falar do ânus não devia ser visto como uma coisa obscena, ilegítima, escandalosa. Nem os leitores se deveriam sentir atingidos ou violentamente perturbados na sua normalidade sexual (por exemplo, quando se utiliza o cocó como uma representação substitutiva do pénis).
O ânus não é um sujeito impuro, nem representa um perigo social, pode e deve ter lugar no espaço público. Se provoca riso e desprezo é porque também fascina e possui a atracção da vertigem (e a vertigem, segundo Freud, é sexual...).
Como se sabe (ou devia saber-se), o ânus foi o primeiro órgão do corpo humano a ser expulso do espaço público: "As nossas sociedades modernas procederam a uma vasta privatização dos órgãos, que corresponde à descodificação dos fluxos que se tornaram abstractos. O primeiro órgão a ser privatizado, colocado fora do campo social, foi o ânus, que se tornou o modelo da privatização enquanto o dinheiro passou a exprimir o novo estado de abstracção dos fluxos. Daqui a relativa verdade das observações psicanalíticas sobre o carácter anal da economia monetária. Mas a ordem 'lógica' é a seguinte: substituição dos fluxos codificados pela quantidade abstracta; desinvestimento colectivo dos órgãos que se faz segundo o modelo do ânus" (Gilles Deleuze & Felix Guattari, O Anti-Édipo (1972). É este o verdadeiro processo histórico que tem de ser tido em conta.
De acordo com Néstor Perlongher, a privatização do ânus e a sua exclusão do campo social (e dos circuitos de produção de prazer) serviram para construir o corpo heterossexual masculino, mas também para instaurar o poder da racionalidade sobre o corpo e a sedução dos prazeres.
Assim, falar de construção biopolítica do corpo, como fez Michel Foucault, é falar do processo de racionalização que conduziu à diferenciação dos órgãos do corpo humano e que atribuiu, para cada um deles, funções associadas estritamente ou à masculinidade ou à feminilidade. Ao mesmo tempo, definiram-se as fronteiras entre as práticas consideradas normais e as práticas consideradas patológicas.
Ao longo do tempo e da história, verificou-se, segundo Deleuze & Guattari, um desinvestimento colectivo no ânus: "Não é o anal que se propõe à sublimação, é a sublimação que é completamente anal; assim, a crítica mais simples que podemos fazer à sublimação é dizer que ela não nos faz sair da merda (só o espírito é que é capaz de cagar). A analidade é tanto maior quanto mais desinvestido estiver o ânus". Ou, como disse o filósofo Paul B. Preciado, "foi necessário fechar o ânus para sublimar o desejo".
O ânus pode até não estar presente no campo social, mas isso não quer dizer que a sua presença não actue e não produza os seus efeitos (tanto mais fortes quanto nós os deliberadamente reprimirmos).
Dito de outra maneira, a castração colectiva do ânus levou a um sobre-investimento individual nesse órgão, como compensação. Quanto mais repelimos o ânus, mais nos sentimos atraídos por ele, pois a ideia do que está ausente excita-nos mais do que aquilo que está presente.
Durante muito tempo, o ânus esteve submetido a um apagamento sistemático, foi uma barreira intransponível, permanecendo invisível, quer como sujeito, quer enquanto objecto.
Portanto, a questão do ânus não é apenas uma, mas várias: pode o ânus falar? O ânus pode ou não falar? Que ocorre quando o ânus fala? Como tornar o ânus público? Ou, utilizando a sugestão de Paul B. Preciado, em "Terror Anal" (2009), como é que o ânus pode ser uma forma superior de fazer filosofia? Como é possível fazer filosofia mostrando o ânus? Como é possível pensar a partir do ânus, ou através do ânus?
A meu ver, falar do ânus é elevá-lo à visibilidade e ao enunciado, transformando-o numa potência que afirma e que se afirma (Deleuze). É atribuir-lhe agência social e dignidade filosófica, contribuindo para aquilo a que muitos chamam "a revolução do ânus".
O que é a revolução do ânus? É, nada mais simples, dar voz ao ânus, fazendo dele uma arena da acção política contra os saberes hegemónicos que silenciam as narrativas não-hegemónicas.
É olhar para ele como arma de luta política e como tecnologia contracultural, como uma estratégia de constituição de novas possibilidades de existência, de novos estilos de vida, como em Michel Foucault, que era gay e frequentador assíduo, em São Francisco, de backrooms sadomasoquistas; ou em Guillaume Dustan (1965-2005), na sua trilogia auto-pornográfica, onde o autor francês exibe cruamente a sua sexualidade quotidiana na Paris das décadas de 1980 e 1990 (Dans ma chambre, romance de 1996), a noite gay parisiense marginal (Je sors ce soir, 1997) e o sadomasoquismo (Plus fort que moi, diário íntimo de 1998).
Para autores como Paul Preciado, Guy Hocquenghem, Paco Vidarte, Valesca Popuzuda, Javier Sáenz ou Sejo Carrascosa, o simples facto de se mencionar o ânus constitui, em si mesmo, um desafio aos aparelhos ideológicos do Estado e do mercado.
Nesse sentido, é preciso pensar no ânus como uma ferramenta de emancipação, como uma forma de violar um lugar destinado a tabus, enfiando um dedo no cu do capitalismo (Linn da Quebrada e Mulher Pepita).
Como Foucault não se cansou de demonstrar, impor limites ao corpo, delimitando as suas zonas perigosas, que não podem ser ultrapassadas, foi uma das mais poderosas armas de ingerência dos Estados na subjetividade e nos modos de vida dos indivíduos.
Foi no domínio do ânus que se começou por estabelecer uma separação entre o que é vergonhoso e o que é conveniente, que se operou uma distinção entre o que é honroso e o que é desonroso, numa tentativa de anular a certeza das zonas indecisas.
Sem dúvida, a partir dos séculos XVI-XVII, o ânus tornou-se um lugar de medo, de desprezo e de nojo. E, consequentemente, um tema indelicado, inapropriado, transgressor.
Por conseguinte, nomear o ânus é nomear uma coisa silenciada, não-citada, incessantemente remetida ao esquecimento e ao não-questionamento. É desafiar a territorialização do ânus como espaço de interdito nos discursos, como lugar de não-fala, afrontando a moral dominante e as políticas de vigilância de tudo aquilo que tenha que ver com o ânus.
Por outro lado, o que diria Michel Foucault desta mercantilização neoliberal do ânus, na actual moda literária, constituída por obras de autores como Ottessa Moshfegh, Karl Ove Knausgaard, Gary Shteyngart, Michael Ondaatje, Anatole Broyard, Robert Stone ou Sheila Heti?
É verdade que podemos e devemos falar livremente dos verdadeiros temas do nosso tempo, aqueles que são profundamente reveladores do mundo social. Mas a questão, aqui, está no modo algo esquemático como se abordam tais assuntos, a começar por uma excessiva e não menos entorpecente textura psicanalítica sem atenção ao social como processo histórico.
A minha segunda observação refere-se às ligações entre ânus, sexualidade e política.
No final do século XVIII, já o Marquês de Sade, em Filosofia na Alcova, questionava o modelo clássico da cópula pénis-vagina, defendendo que o lugar natural do pénis é no ânus. Segundo esta leitura política do prazer anal, "levar no cu" é uma prática que liberta a mulher da pesada carga da procriação, por não se tratar de uma técnica reprodutiva.
No século XX, Georges Bataille via no ânus um dispositivo de construção de algo palpável, que acrescenta materialidade ao ser humano: é real tudo o que pesa, é real tudo o que pode ser avaliado pelo peso que carregamos no nosso interior. Para ele, a matéria fecal é aquilo que permite um regresso orgânico à nossa animalidade, porque a merda é real em nós.
Dentro da mesma ordem de ideias, Antonin Artaud dizia: "Onde cheirar a merda, cheira a ser. O homem podia muito bem deixar de cagar, deixar de abrir a bolsa anal, mas preferiu cagar como poderia ter preferido viver em vez de consentir em viver morto. É que para não fazer cocó teria de aceder a não ser, mas ele é que não foi capaz de se resolver a perder o ser, isto é, a morrer vivo. Existe no ser algo particularmente tentador para o homem, algo que vem a ser justamente O COCÓ" (excerto de "A Procura da Fecalidade", incluído em Para Acabar de Vez com o Juízo de Deus, seguido de O Teatro da Crueldade", tradução de Luiza Neto Jorge e Manuel João Gomes, edições VS).
O ânus como elemento do prazer sexual remete para a produção de um prazer inútil ou estéril, sem função reprodutora. Pois o ânus, como centro de produção de prazer, não possui género exclusivo, não é masculino nem feminino, não é cisgénero nem não-binário, é um orgão comum a todos.
Privilegiar o ânus sobre o pénis e sobre a vagina tende a eliminar as fronteiras de género, a produzir um curto-circuito na hierarquia da sexualidade heteronormativa e a questionar a dicotomia "heterossexuais e homossexuais", já que tanto uns como outros se penetram no ânus. Daí que este não nos remeta necessariamente para as formas de desejo homossexual.
O gesto de valorizar o ânus como objecto teórico, filosófico e político, justamente, visa confrontar a linguagem hegemónica, o silêncio construído dentro das instituições culturais e da produção do saber.
Mas o ânus não é apenas um lugar que se presta a ser furado, não serve apenas para ser penetrado. Contrariamente à ideia de que se trata de um órgão passivo, penetrado, receptor do pénis (ou de um dildo, um dedo, etc.), o ânus pode desempenhar também um papel activo e penetrador: fazer merda é uma forma de foder o mundo exterior, reporta-nos à sensação de penetrar o real, de fornicar a realidade envolvente.
A complacente voluptuosidade com que se faz merda serve igualmente para anular a oposição "voyeurismo e exibicionismo". Porque, enfim, nem o exibicionismo puro nem o voyeurismo puro existem. Todo o exibicionista é um voyeurista e todo o voyeurista é um exibicionista (o exibicionismo nunca é primário, é um voyeurismo virado contra si, e vice-versa).
Contra os que defendem a reprivatização e a castração do ânus, impondo o pénis e a vagina como significantes despóticos; contra os que acham que o ânus deve permanecer completamente fechado, privatizado, codificado e domesticado; e contra os que pretendem vigiar os fluxos do corpo humano, temos de falar abertamente do ânus, legitimando a sua presença no espaço público.
Termino com Paul B. Preciado: "É necessário filosofar não a golpes de martelo [referência à frase "A filosofia a golpes de martelo", subtítulo da obra de Nietzsche O Crepúsculo dos Ídolos], mas sim de dildos. Já não se trata de romper os tímpanos, mas de abrir o ânus". Ou, como sugere Javier Sáenz, "abre o teu ânus e a tua mente abrir-se-á".
 João Pedro George

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Franco “Bifo” Berardi - Desejo, Depressão e Deserção

Desejo depressão e Deserção
"Uma onda de depressão parece engolir a primeira geração que aprendeu mais palavras com uma máquina do que com a mãe. Mas será realmente depressão?
Notas sobre a depressão. Lendo Mark Fisher, Depressão e desejo
Desaparecimento do sexo na evolução da humanidade. Hiper-semiotização do desejo
Desejo, sexualidade ou antes deserção. O que é a deserção?"

Três anos depois de ter estado em Lisboa para a inauguração do TBA, dois anos passados desde o início da pandemia e da publicação das suas Crónicas da Psicodeflação pelo TBA e pelo Jornal Punkto, e um ano após o deflagrar da guerra da Ucrânia, Franco “Bifo” Berardi regressa a Lisboa para falar sobre desejo, depressão e deserção numa conversa com Ideal Maia,  ativista climático. Trata-se de pensar os tempos que correm a um ritmo nunca antes experienciado. 

Franco "Bifo" Berardi é uma figura de destaque do operaísmo italiano, em particular na sua ala mais criativa e dedicada à experimentação com os media e a produção cultural. Fundou a Rádio Alice, primeira rádio livre em Itália (1976-1978), e a revista A/traverso (1976-1981), que combinava maoísmo e dadaísmo numa crítica antiautoritária. Exilado em Paris, trabalhou com Félix Guattari em esquizoanálise. Desde os anos 1990 que o seu trabalho tem incidido sobre a relação entre psicopatologia, tecnologias da informação e capitalismo.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Maturana: sem cooperação e alteridade, não há futuro

Biólogo chileno, falecido a 6/5/21, influenciou as ciências sociais com seus estudos sobre os seres vivos. Crítico das lógicas neoliberais, constatou, pela teoria da autopoiese: humanidade pode reconstruir o mundo, mas evolução só vem a partir do Cuidado.


A Ciência, além dos frequentes ataques que vem sofrendo nas últimas décadas, em decorrência de fenômenos como revisionismo histórico, negacionismo e outras distorções cognitivas que alimentam as regressões do sombrio tempo atual, perdeu, em 6/5/2021, um dos seus maiores expoentes, o neurobiólogo chileno Humberto Maturana, que tinha 92 anos. Resgato aqui algumas ideias que escrevi em setembro de 2020, num texto intitulado A biopolítica do desacoplamento, acerca da genialidade e do espírito humanístico desse notável pensador.

Para quem conhece o extraordinário legado de Maturana, não é necessário, portanto, muito esforço cognitivo para percebermos que o atual modo de vida hegemônico da civilização é totalmente insustentável, em qualquer perspectiva que o observemos. Essa incongruência civilizatória tem a ver com as diversas visões de mundo que foram sendo elaboradas e vivenciadas ao longo da história, até chegarmos à visão econômica de mundo, que impera quase absoluta na época atual. Isso porque todas as cosmovisões já experimentadas, desde o teocentrismo da idade média, passando pelo antropocentrismo da cultura renascentista e moderna, que foi mesclado com o mecanicismo determinista iniciado no século XVII e desembocou no economicismo atual (e até mesmo a aposta no transumanismo proporcionado pelos algoritmos, que alguns projetam para o futuro próximo), foram permeadas pela cultura patriarcal, a qual está amparada na apropriação da verdade de que o mundo é uma grande arena regida pela ideia de luta, hierarquia, poder, controle e extração de recursos naturais. E esta cultura patriarcal, em muitos momentos da história da humanidade, desencadeou processos de profunda regressão, porém nunca tão intensa e impactante quanto a que aparenta estar em curso na contemporaneidade.

Em sua intensa e abrangente prática científica, Maturana deixou para a humanidade, como veremos adiante, contribuições relevantes para a compreensão do que seja a vida, em especial, sobre os fundamentos biológicos que sustentam (ou deveriam sustentar) não só o comportamento humano mas também o social. Diferentemente dos muitos pensadores que, ao longo da história, fizeram e continuam fazendo, a partir das ciências sociais, a crítica ao nosso sistema-mundo que está amparado na lógica de mercado, Maturana desenvolveu ao longo da sua trajetória investigativa as concepções biológicas que demonstram que estamos vivendo, há milênios, sob um paradigma civilizacional totalmente incongruente com os processos de sustentação da vida, que tem afetado as mais diversas dimensões da experiência humana: científica, econômica, cultural, política, social, religiosa, dentre outras.

Humberto Maturana, de Santiago do Chile, doutorou-se em Biologia por Harvard (1958), trabalhou em neurofisiologia no MIT (Massachusetts Institute of Technology) e também transitou pela filosofia, antropologia e algumas áreas específicas da medicina como anatomia, genética e cardiologia, com um interesse permeado pela compreensão dos seres vivos e, especialmente, do humano e da relação entre humanos. Maturana é reconhecido em vários países e em vastas áreas do saber pelos seus estudos, tendo sido agraciado por diversos prêmios e distinções como Doutor Honoris Causa pela Universidade Livre de Bruxelas e o Prêmio McCulloch pela Sociedade Americana de Cibernética. Dos muitos livros que escreveu, destacaria Autopoiesis and Cognition (Reidel, 1980) e El Arbor del Conocimiento (Editorial Universitária, Chile, 1984), os dois escritos junto com o biólogo e filósofo chileno Francisco Varela, falecido em 2001, com quem ele concebeu na década de 1970 a noção de autopoiese (autoprodução, a criação de si), conceito que extrapolou o domínio da biologia e foi incorporado noutras áreas da ciência e da filosofia, tendo sido utilizado por nomes reconhecidos como Felix Guattari, Gilles Deleuze, Niklas Luhmann, Antonio Negri e outros.

Embora sua atuação estivesse voltada para a biologia, o trabalho de Maturana extrapolou para o campo da política. Por meio das suas ideias foi possível refletir sobre a fenomenologia da política a partir da fenomenologia da biologia e, assim, podermos perceber como o biológico e o cultural se imbricam, por uma condição inerente à natureza dos seres vivos, e como essa relação dissociou-se ao longo da história da humanidade, contrariando os princípios que regem os metabolismos constituintes da vida. Depois de Charles Darwin, cujas descobertas no campo das ciências naturais (Teoria da Evolução das Espécies – 1859) pôs por terra a aura de divindade em torno do homem até então, tornando-o mortal e colocando-o na mesma categoria dos seus parentes animais, Maturana talvez tenha sido quem melhor conseguiu ampliar a compreensão acerca da dinâmica da vida, inclusive alcançando, por meio da biologia, uma melhor compreensão também acerca do comportamento humano e da vida em sociedade.

Talvez a principal contribuição de Maturana para a ciência tenha sido a ampliação do entendimento do que seja conhecimento e realidade e qual a relação entre eles. Maturana concebe que a vida, em suas mais variadas formas, trata-se de um processo de conhecimento entrelaçado com a realidade. Nas palavras dele, “todo ato de conhecer faz surgir um mundo”. Assim, a realidade na qual cada indivíduo vive é o que ele constrói a partir da sua percepção, ou seja, da sua visão de mundo ou modelo mental, ao mesmo tempo em que esta mesma realidade também retroage sobre o indivíduo, construindo-o. Convencionou-se chamar esse campo de estudo de biologia da cognição. Aliás, o que Maturana revelou pela fenomenologia biológica, nomes como Nietzsche já intuíam pela via da filosofia, quando enunciou: “Contra o positivismo, que para perante os fenômenos e diz: ‘Há apenas fatos’, eu digo: ‘Ao contrário, fatos é o que não há; há apenas interpretações’. Não podemos constatar nenhum fato ‘em si’: talvez seja um disparate querer algo assim. Tudo é subjetivo.” Lembrando que Nietzsche, como grande parte dos notáveis de sua época, era um pensador mais próximo da visão patriarcal, mas com bons insights não patriarcais. Afinal de contas, por mais brilhante que seja uma mente em sua capacidade de compreensão da complexidade do mundo real, não há como escapar totalmente dos condicionamentos patriarcais estando imerso em um modo de vida que assim se sustenta.

Dizer que cada indivíduo produz o mundo e por ele é produzido, num processo recursivo e circular, vai de encontro com a ideia ainda hoje predominante chamada representacionismo, na qual há uma realidade objetiva independente do observador, que constitui a base da cultura patriarcal. Nela, o mundo já é algo pré-dado em relação à experiência humana, que nos faz adotar uma atitude passiva diante da realidade. É assim que opera, por exemplo, a visão econômica de mundo, hoje, hegemônica, que nos impõe como verdade a ideia de que o mundo é um grande mercado regido pela competição, meritocracia, consumo e acumulação, por meio da qual se procura justificar que não há outra forma de sociabilidade que não seja a que nós vivemos atualmente, que tem como centralidade o capital.

Para uma melhor compreensão dessa biologia do conhecer, segue uma tentativa de síntese dos principais conceitos e estudos desenvolvidos por Maturana e Varela que melhor explicam os fundamentos biológicos que sustentam a dinâmica da vida e do fenômeno social, os quais servem de argumentos para entender que o comportamento humano foi moldado por uma cultura patriarcal em desacordo com tais fundamentos, e que também nos permite entender como, a partir dos séculos XVII e XVIII, o capitalismo foi gradualmente engendrando uma biopolítica de desacoplamento crescente dos processos que sustentam a vida no nosso planeta, que inclui as sociedades humanas.

Autopoiese e acoplamento estrutural: a dinâmica da vida
O termo “autopoiese”, que vem do grego poiesis, referente à produção, significa autoprodução. Foi utilizado pela primeira vez no mundo acadêmico em 1974, em um artigo escrito por Maturana, Varela e Ricardo Uribe (PhD em cibernética pela Universidade Brunel, Londres) para explicar como os seres vivos produzem continuamente a si mesmos. Como diz Maturana, a autopoiese é o “centro da dinâmica constitutiva dos seres vivos”. Os organismos vivos, desde o nível dos componentes celulares às comunidades de seres vivos, são, desse modo, sistemas autônomos que se autoproduzem e se autorregulam. Entretanto, paradoxalmente, eles também são dependentes, pois precisam recorrer aos recursos disponíveis no meio ambiente para manter sua autopoiese. Daí a necessidade do pensamento complexo (que abraça as contradições) para compreendermos conceitos que melhor explicam a complexidade inerente ao mundo real.

Por outro lado, os organismos vivos também estão determinados por sua estrutura, o que Maturana e Varela chamaram de “determinismo estrutural”. Cada ser vivo tem uma organização que o define, o modo como ele se configura, a qual é sustentada por uma estrutura resultante da forma como seus componentes se interconectam e interagem sem que a sua organização se altere. Ou seja, a estrutura muda o tempo todo para manter sua organização, adaptando-se às modificações do seu ambiente, que também são contínuas. O determinismo aqui, portanto, não se confunde com previsibilidade, pois a estrutura está em constante mudança para manter sua congruência com o meio, também em permanente mudança. Mais um paradoxo da dinâmica dos sistemas vivos: estão em contínua desordem interna, no âmbito da estrutura, para manter a ordem externa, no âmbito da organização. Dizendo de outro modo, os seres vivos estão permanentemente em estado de entropia (degradação) e neguentropia (regeneração). Esse fluxo, que é necessário e imprescindível para que o ser vivo mantenha uma espécie de harmonia com o meio no qual está inserido, só cessa com a perda da organização, ou seja, com a morte.

Daí vem a noção de “acoplamento estrutural”, também desenvolvida por Maturana e Varela. O ser vivo, para manter sua organização, precisa estar em um permanente estado de congruência com o ambiente em seu entorno. O mundo vivo constitui-se, assim, de uma grande comunidade com variadas formas de vida, todas em um contínuo estado de interação, em diversas ordens de organização, cujos comportamentos afetam-se mutuamente (ser vivo e meio) e, assim, vão estabelecendo consensos contextuais que garantem a coexistência e a evolução de todos os integrantes dessa imensa rede que é a comunidade de biodiversidade na qual estamos inseridos. Como diz Maturana, “o que define uma espécie é o seu modo de vida, uma configuração de relações variáveis entre organismo e meio”.

Quando apreciamos a harmonia e a exuberância de uma grande floresta amazônica, por exemplo, na verdade estamos observando uma imensa rede de biodiversidade em acoplamentos estruturais, entre um número incalculável de seres vivos, em processos adaptativos complexos de coexistência. Só no corpo humano, segundo os microbiologistas, coexiste uma comunidade da ordem de 3 biliões de milhão  de bactérias e micro-organismos. Conforme Maturana e Varela, “a contínua mudança estrutural dos seres vivos com conservação de sua autopoiese acontece a cada instante, incessantemente e de muitas maneiras simultâneas. É o palpitar da vida”.

Aceitação do outro: a origem do social
A partir desses conceitos como autopoiese e acoplamento estrutural, a visão da chamada biologia moderna (século VII), que entendia a evolução a partir das configurações genéticas que se conservam na história reprodutiva dos seres vivos, dá um enorme salto de compreensão acerca da dinâmica da vida. Nessa nova perspectiva, a explicação do fenômeno da evolução, segundo Maturana, “está na mudança do modo de vida, e em sua conservação na construção de uma linhagem de organismos congruentes com sua circunstância, e não em desacordo com ela”. No caso dos seres humanos, Maturana sustenta, com base em estudo de registros fósseis de 3,5 milhões de anos, que a origem do humano está no surgimento da linguagem e no seu entrelaçamento com a emoção, a qual constitui a base das ações humanas, ao contrário do que pensa o senso comum que dá centralidade à razão e à objetividade nas nossas ações, entendimento que constituiu a base do desenvolvimento da ciência moderna, surgida nos séculos XVI e XVII na Europa. Como ele mesmo diz, “todo sistema racional tem um fundamento emocional”. No entanto, “pertencemos a uma cultura que dá ao racional uma validade transcendente, e ao que provém de nossas emoções, um caráter arbitrário.”

Maturana também sustenta que, do ponto de vista biológico, a aceitação do outro é o que dá origem ao social como acontece em qualquer comunidade de seres vivos. Entretanto, não é isso que ocorre entre os humanos. As sociedades humanas funcionam a partir de uma dinâmica de comportamentos forçados, que é o padrão da cultura patriarcal, na qual se sustenta a visão econômica de mundo. Esse padrão de comportamento foi reforçado ainda mais pelo chamado darwinismo social, que traz a noção de que o mundo é uma grande arena, ideia concebida pelo filósofo, biólogo e antropólogo inglês, Herbert Spencer, por alguns considerado o profeta do capitalismo laissez-faire, que cunhou a expressão “sobrevivência do mais apto”. Essa é uma versão da teoria evolutiva da seleção natural, não aceita totalmente pelo próprio Darwin, que ultrapassou o domínio da biologia, e estendeu-se até o âmbito cultural.

A noção de autopoiese, da mesma forma que explica a dinâmica de qualquer comunidade de seres vivos, também deveria se estender aos agrupamentos humanos. No entanto, a cultura patriarcal subverteu essa dinâmica da vida e, assim, vivemos uma sociabilidade patológica nesse sentido, uma vez que ela privilegia uma ínfima minoria da espécie humana em detrimento de um enorme contingente de indivíduos. Nas palavras do escritor e médico psicoterapeuta Humberto Mariotti, “uma sociedade só poderia ser vista como autopoiética se satisfizesse a autopoiese de todos os seus indivíduos. Logo, uma sociedade que descarta indivíduos vivos enquanto eles ainda estão vivos, e portanto atual ou potencialmente produtivos (por meio de expedientes como produção de subjetividade, exclusão social, guerras, genocídios e outras formas de violência), é automutiladora e portanto patológica.” Dizendo de outro modo, somos culturalmente condicionados a viver em competição, e não raro de forma predatória, que nega a presença do outro, enquanto biologicamente só podemos manter nossa autopoiese e nossa congruência com o meio se aceitarmos o outro como legítimo outro na convivência.

Nesse sentido, o que há na natureza é uma grande coexistência de variadas formas de vida que interagem entre si e a melhor forma para compreender essa dinâmica é por meio da noção de cooperação. No entanto, quando à natureza se junta à cultura, esta pode se sobrepor àquela, o que parece ter ocorrido com os seres humanos quando a cultura patriarcal se instalou desde o neolítico. Mariotti descreve bem como tentamos inutilmente nos projetar na natureza: “quando o homem chama determinados animais de predadores está antropomorfizando-os, ou seja, projetando neles uma condição que lhe é peculiar. Como não competem entre si, os sistemas vivos não-humanos não ‘ditam’ uns aos outros normas de conduta. Mantidas as condições naturais, entre eles não há comandos autoritários nem obediência irrestrita. Os seres vivos são sistemas autônomos, que determinam o seu comportamento a partir de seus próprios referenciais, isto é, a partir de como interpretam as influências que recebem do meio. Se tal não acontecesse, seriam sistemas sujeitados, obedientes a determinações vindas de fora.”

Portanto, a competição é um fenómeno que pertence ao âmbito cultural. O que dá origem ao social é a aceitação da legitimidade da existência do outro, sem a qual não poderia haver convivência humana. Maturana, além de afirmar que “a origem antropológica do Homo sapiens não se deu através da competição, mas sim através da cooperação”, ainda vai mais longe quando diz que “o amor é a emoção central na história evolutiva humana desde o início”. A palavra amor aqui está mais associada à noção de cuidado mútuo do que a qualquer conotação cristã ou romantizada que ela enseja no senso comum, ou seja, diz respeito à “emoção que constitui o domínio de condutas em que se dá a operacionalidade da aceitação do outro como legítimo outro na convivência”. Por isso é que Maturana afirma, com base na biologia, que 99% das enfermidades humanas estão relacionadas à negação do amor, na medida em que a aceitação do outro é o fundamento biológico do fenómeno social. “Como também reforça o filósofo político britânico John Gray, “a saúde pode ser a condição natural das outras espécies, mas no caso dos homens o normal é a doença. Estar cronicamente doente é parte do que significa ser humano”.

Negação da política: a origem da barbárie
Hoje, como já é quase um continuum na História, a humanidade vive mais um processo de deterioração da política e, por consequência, observamos o crescente esgarçamento do tecido social, que, via de regra, descamba para os autoritarismos e nacionalismos acompanhados de extrema violência contra a dignidade humana. Os horrores do século XX confirmam isso. Aliás, segundo o historiador inglês Eric Hobsbawm, “a história é o registo dos crimes e loucuras da humanidade”. E não poderíamos esperar algo diferente se a cultura que permeou toda a trajetória humana nos últimos seis ou sete mil anos foi a patriarcal.

No fundo, a humanidade é refém de uma espécie de autobloqueio cultural, que a aprisiona em sua própria cultura e assim não consegue ver outra forma de sociabilidade. Isso tem a ver com aquela afirmação atribuída a Einstein de que “nós não podemos resolver um problema, com o mesmo estado mental que o criou”. Em outras palavras, encaramos de um modo muito natural e, portanto, sem qualquer questionamento, a cultura em que nascemos e nos desenvolvemos, sem perceber que estamos incongruentes com a própria condição humana, a qual nos permitiu, ao longo do processo evolutivo do Homo sapiens, que durou em torno de 350 mil anos, chegar até aqui. A normalização da negação do outro e, no extremo, a banalização da violência que essa normalização gera é o padrão de sociabilidade da cultura patriarcal. Maturana vincula esse condicionamento cultural à atual crise civilizatória nos seguintes termos: “para os membros da comunidade que a vivem, uma cultura é um âmbito de verdades evidentes. Elas não requerem justificação e seu fundamento não se vê nem se investiga, a menos que no futuro dessa comunidade surja um conflito cultural que leve a tal reflexão. Esta última é a nossa situação atual.”

O fato é que a negação da política está atualmente em acelerada expansão, em várias partes do mundo, como reflexo do exacerbamento do capitalismo por meio da doutrina neoliberal em curso nos últimos cinquenta anos. O movimento do capitalismo a partir desse ideário neoliberal, impulsionado pelo desenvolvimento tecnológico, consiste, de um lado, em desarticular e suprimir as forças do Estado e, de outro, impor o padrão empresa de sociabilidade ou, como prefere Maturana, estamos vivenciando a “abertura para a tirania empresarial”. Por isso é que o neoliberalismo deve ser compreendido como uma nova forma de totalitarismo, que agora se dá invertido, ou seja, sob uma ditadura de mercado, como sustenta a filósofa Marilena Chauí. E como tal, revela-se uma doutrina econômica fadada ao fracasso, mas não sem antes produzir uma profunda regressão civilizatória, tendente a ser muito mais avassaladora do que outras registradas na história, uma vez que há dois componentes novos que potencializam e amplificam assustadoramente seus efeitos: as mudanças climáticas e o desmoronamento dos Estados-nação, os dois fenômenos de abrangência global. Na verdade, a humanidade coloca-se de frente com a sua primeira crise de alcance planetário, o que leva muitos pensadores mais atentos às múltiplas dimensões da atual crise civilizatória compararem o antropoceno como mais um dos processos de extinção em massa que a Terra teve no passado, em face da acentuada e acelerada perda de biodiversidade que vem sendo constatada pela ciência nas últimas décadas.

Gray afirma que “novas espécies de despotismos surgem em muitas partes do mundo. Governos recorrem às mais recentes tecnologias para desenvolver técnicas hipermodernas de controle muito mais invasivas que das tiranias tradicionais.” A nova biopolítica que opera no tempo atual ajuda a compreender essas mudanças em curso no sistema do capital. Com o neoliberalismo iniciado nos anos 1970, associado à revolução dos algoritmos, que fez emergir o fenômeno da globalização, financeirização e transnacionalização do capital, esse metabolismo desencadeou um processo quase imperceptível de reformulação da democracia de mercado dos últimos quatrocentos anos, ampliando ainda mais a incongruência do sistema capitalista. Estamos vivenciando, de um lado, o declínio das democracias liberais e, de outro, o provável advento de um capitalismo de hipervigilância como desdobramento da simbiose entre mercado e tecnologia.

Numa recente entrevista ao jornal chileno La Tercera, em 30/4/2020, Maturana mostrou-se bastante preocupado com a atual crise sanitária e ecológica e foi muito contundente em afirmar que se não nos escutarmos e não nos encontrarmos na mútua aceitação e na colaboração, por meio da convivência democrática, “não geraremos mudança alguma orientada para o bem-estar da humanidade, sem pandemia viral ou com ela, iremos direto à nossa extinção”. O sistema capitalista não só é incompatível com a dinâmica da natureza como está deteriorando de forma muito acelerada essa dinâmica. Na visão de Mariotti, “uma sociedade verdadeiramente autopoiética não pode coexistir com o capitalismo de competição predatória e de índole excludente que hoje predomina no mundo. O mesmo vale, é claro, para o capitalismo de Estado, pelo menos o que se tem posto em prática até agora, em regimes que não primam pelo respeito à diversidade de ideias. Se somos determinados a partir de dentro, qualquer forma de autoritarismo é e sempre será uma agressão.” Daí o impasse entre a biopolítica de sustentação do capital e a dinâmica da imensa comunidade de vida, da qual nós humanos fazemos parte, que se sustenta numa delicada teia de acoplamentos estruturais, os quais vêm sendo rompidos desde quando inauguramos o antropoceno.

Infelizmente, a ciência e a história não avançam de forma harmoniosa. Não é porque Maturana e outros, antes e depois dele, descobriram melhores fundamentos para explicar a condição humana e a realidade na qual ela se insere que o nosso modo de viver será ressignificado para melhor. Os avanços e retrocessos que a humanidade experimentou não foram impulsionados pela ciência e sim pela visão de mundo hegemônica em cada época histórica, a qual sempre se apropriou da ciência da forma que melhor lhe convém para se impor, como foi o caso do darwinismo social citado anteriormente. Como afirma Gray, “a ciência é um método de investigação, e não uma visão de mundo”. O motor da história, desde quando o capital tornou-se o eixo estruturador da civilização, tem sido a liberdade da política e do mercado, este sempre submetendo aquela e, por vezes, chegando a anulá-la. E não há sinais de que haverá uma inversão dessa dinâmica em um horizonte próximo.

Segundo a socióloga austríaca Riane Eisler, a partir de algum momento do neolítico, quando houve a grande bifurcação cultural do Ocidente, os povos guerreiros indo-europeus fizeram uso das armas para promover a passagem da “sociedade de parceria”, até então predominante, para a “sociedade de dominação” (O Cálice e a Espada: nossa história, nosso futuro, Palas Athena, 2008). Por isso, talvez seja mais razoável e proveitoso compreendermos e aceitarmos que a história da humanidade coincide com a história das regressões impostas pelo patriarcado e, provavelmente, terá seu ápice e esgotamento na contemporaneidade. Não há como o antropoceno ter vida longa diante dos desacoplamentos que estão em curso.

Se os achados científicos de Maturana e de muitos outros, nessa linha investigativa em torno da fenomenologia social, não estão sendo incorporados pela política e pelo mercado, e tudo indica que não o serão, pelo menos servirão para nos fornecer os fundamentos biológicos para compreendermos a barbárie e o colapso climático para os quais a civilização está deslizando. Com a crescente anulação da política, já há fortes indícios de que estamos inaugurando uma fase muito sombria da história em que o ego humano, em suas mais destrutivas expressões, ameaça reinar absoluto, sem contrapesos para contê-lo ou pelo menos mitigá-lo. Por isso vale sempre lembrar a advertência do neuropsiquiatra austríaco Viktor Frankl, que sentiu na pele os horrores do nazismo: “Portanto, fiquemos alerta — alerta em duplo sentido: Desde Auschwitz nós sabemos do que o ser humano é capaz. E desde Hiroshima nós sabemos o que está em jogo.”.

Segundo o poeta Thomas Eliot, “a humanidade não suporta muita realidade”. Vista de uma certa perspectiva, tal afirmativa não deixa de ser um grande alento. Isso porque talvez a nova biopolítica que está sendo gestada pelas forças do capital, lastreada nos algoritmos, que alguns acham mais adequado chamar de tanatopolítica ou necropolítica, como o faz o filósofo camaronês Achille Mbembe, nos conduzirá a uma realidade tão distópica e, por isso, tão insuportável que, no fim das contas, esse esvaziamento do humano, do vital, da política, da reflexão, da contemplação, talvez represente uma preparação para a travessia da difícil metamorfose que poderá nos permitir resgatar a nossa humanidade perdida. Quem sabe, uma última chance de redenção, um fragmento de esperança de que a cultura patriarcal e os conflitos internos que ela infligiu aos humanos seja, finalmente, dissipada e regresse ao seu estado contingencial, e que a comunidade de vida e o amor que lhe dá sustentação retornem, depois de um longo tempo, ao seu curso natural, como nos ensinou Humberto Maturana!

Referências

EISLER, Riane. O cálice e a espada: nosso passado, nosso futuro. Tradução de Tônia Van Acker. São Paulo: Palas Athena, 2007.

FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Tradução: Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline. 2ª ed. São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes, 1991.

GRAY, John. A alma da marionete: um breve ensaio sobre a liberdade humana. Tradução: Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Record, 2018.

GRAY, John. O silêncio dos animais: sobre o progresso e outros mitos modernos. Tradução: Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Record, 2019.

HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. Tradução: Marcos Santarrita. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

MARIOTTI, Humberto. Autopoiese, cultura e sociedade. 1999. Disponível em: 

MATURANA, Humberto R. A ontologia da realidade. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2001.

MATURANA, Humberto R. Conversações matrísticas e patriarcais. In: ______; VERDEN-ZÖLLER, G. Amar e brincar: fundamentos esquecidos do humano. Tradução de Humberto Mariotti e Lia Diskin. São Paulo: Palas Athena, 2004.

MATURANA, Humberto R. Emoções e linguagem na educação e na política. Tradução: José Fernando Camos Fortes. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998.

MATURANA, Humberto R. Reportagem de Paulina Sepúlveda, publicada por La Tercera, 30 de abril de 2020. A tradução é do Cepat. Disponível em: <http://www.ihu.unisinos.br/598691-sem-escuta-respeito-mutuo-e-colaboracao-iremos-direto-a-nossa-extincao-adverte-humberto-maturana>

MATURANA, Humberto R.; VARELA, Francisco J. A árvore do conhecimento: as bases biológicas da compreensão humana. São Paulo: Palas Athena, 2010.

NIETZSCHE, Friedrich. Fragmentos póstumos: 1885 – 1887: volume VI. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2013.
Fonte: aqui

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Tubérculos , Capitalismo, Esquizofrenia e a Internet segundo Deleuze e Guattari



O que é que um tubérculo, a esquizofrenia, o capitalismo e a Internet têm em comum? A resposta é: dois franceses. Gilles Deleuze e Felix Guattari. São eles os autores de "Mille Plateaux", o segundo, e último, volume da obra "Capitalisme et Schizofrenie". O Trabalho em conjunto desta dupla começou no início da década de setenta com o propósito de elaborarem uma espécie de genealogia do capitalismo. Ironicamente, veremos mais à frente que eles não advogam qualquer tipo de árvore, muito menos genealógica.

Guattari, falecido em 1992, foi um psicanalista, muito crítico de Freud, e também um activista político, nomeadamente no final dos anos sessenta. Deleuze, falecido em 1995, é considerado um dos mais importantes filósofos franceses depois da segunda grande guerra. Talvez não tenha recebido a atenção que mereceram outros contemporâneos, como Foucault e Derrida, porém parece estar agora a recuperar. O seu nome é cada vez mais citado, mesmo em áreas para onde nem o próprio eventualmente sonhava deslocar-se. Este texto é talvez um exemplo disso.

No primeiro volume da genealogia que atrás referimos, que publicaram em 1972 com o nome de "Anti-Édipo", era notória a presença das ideias políticas imanadas dos acontecimentos de Maio de 68 em França. Isso é patente no conceito de Inconsciente que apresentaram. Em vez do freudiano em que o inconsciente anda sempre a brincar com a mamã, Deleuze e Guattari (DG) acham que este jogo pode ter estes dois intervenientes mas também outros como as raças, os continentes, a História, a Geografia, enfim toda a moldura social que o envolve. O inconsciente de DG é também entendido como uma máquina de desejos instalada num mundo capitalista donde só a esquizofrenia pode libertar-nos. A esquizofrenia é aqui encarada, não como patológica, mas como movimento de fuga criadora. Não há dúvida que o esquizofrénico de DG também sofre, mas a sua condição é a de partida para uma nova forma de pensar, criadora e inventora de si próprio.

Oito anos depois, quando é publicado o segundo volume, "Mille Plateaux", DG substituem este processo esquizofrénico por aquilo a que chamaram de Nomadologia.

É também aqui neste volume que DG introduzem um tubérculo muito especial. Trata-se de um conceito inspirado na botânica, transplantado para a filosofia e com semelhanças no mundo electrónico. A este tubérculo DG chamaram de Rizoma. Antes de ir verificar ao dicionário aqui fica o que se encontra no Lello Universal:

"Substantivo masculino, do Grego Rhizoma, i. e Raíz. Trata-se de um caule subterrâneo cujos rebentos se elevam para fora da terra durante a sua evolução completa. Este caule emite raízes adventícias pela parte inferior"

O Rizoma de DG é diferente mas com pontos em comum: Não existe nenhum centro nem centros, é como um corpo sem orgãos, nada está pré-definido, as ligações fazem-se através de linhas que podem interligar qualquer ponto com qualquer outro ponto, não respeitando nenhuma hierarquia. No Rizoma não há uma unidade central, um eixo que conduza o crescimento de uma forma dicotómica ou genealógica. As suas linhas não são ramificações de uma árvore, são apenas linhas que a qualquer momento podem deixar de existir e dar lugar a outras de natureza diferente. O que encontramos no Rizoma são multiplicidades sem sujeito nem objecto. No Rizoma circulam apenas estados momentâneos sem qualquer controlo ou codificação central de um qualquer General ou autómato. Os pontos não são fixos, existem sem princípio e sem fim, apenas no meio. Estes "meios" são, para DG, "Plateaux". O conceito de Plateau, inspirado em G. Bateson, traduz o "meio" onde toda a multiplicidade é conectável por outros caules subterrâneos que formam e desenvolvem o Rizoma. Agora percebe-se melhor o título de "Mille Plateaux".

Todos os Rizomas de DG regem-se por uma meia dúzia de princípios: Conexão e Heterogeneidade, Multiplicidade, Ruptura Assignificante, Cartografia e Decalcomania.

De uma forma sucinta, os princípios de Conexão e Heterogeneidade caracterizam o Rizoma como sistema não hierárquico, aliás ele é mesmo anti-hierarárquico. Nenhum ponto é mais importante que outro mas todos os pontos devem estar conectados. As conexões são heterogéneas: uma ligação biológica pode conduzir a outra política ou económica, etc.

O princípio da Multiplicidade diz-nos que no Rizoma não há uma unidade, um eixo central, como existe por exemplo na árvore. O que temos são multiplicidades de dimensão e natureza variável.

A Ruptura Assignificante soluciona o problema do rompimento das ligações. Qualquer linha pode quebrar-se que logo outra ocupará o seu lugar com outra dimensão e outra natureza. Da quebra não resulta qualquer significado. Trata-se apenas de um movimento de desterritorialização e territorialização do Rizoma.

O Rizoma não pode ser decalcado de qualquer outra estrutura, da árvore por exemplo. As suas formas e conteúdos não se alteram de um forma pré-estabelecida e quando se alteram fazem sempre diferente. A cartografia parece ser a melhor solução para desenhar o mapa do Rizoma, mas só se aceitarmos que tenha várias entradas e nunca definitivas. Caso contrário estariamos a representar algo que existe definido. O rizoma não existe, está sempre existindo, sempre em construção.

E a Internet o que é que tem a ver com tudo isto?

A Internet concretiza no mundo real o sistema rizomático de DG. Também na Internet encontramos uma estrutura feita de linhas e pontos que se podem ligar a quaisquer outros, e todos estão ligados. Não existe uma hierarquia que nos obrigue a passar por um ponto específico, pelo menos a partir do momento em que estamos ligados. Os conteúdos que trocamos com outros pontos podem ser de natureza diversa ou até podemos não trocar nada. Também na Internet o que existe é uma multiplicidade sem qualquer unidade axial que nos condicione as linhas de contacto ou de fuga. A ruptura não se traduz no fim de uma ligação mas na produção de outra ligação, a procura de um novo endereço. Qualquer tentativa de cartografar a Internet revela-se infrutífera. A sua constante mutação inviabiliza qualquer representação estáctica. O acentralismo do Rizoma é verificável na Internet. Apesar de algumas tentativas recentes, não há ainda nenhum General que comande a estrutura e hierarquize as ligações. Se tal acontecesse estaríamos na presença de uma Rizomatoze. A prevenção desta doença que ataca os Rizomas deverá ser feita pela manutenção do nomadismo, preconizado por DG e que o individuo concretiza hoje em dia na Internet.

Todavia não deixa de ser irónico que todas estas semelhanças entre a Internet e o conceito de Rizoma de DG só sejam possíveis através de uma lógica binária de zeros e uns, precisamente a lógica dicotómica, rígida e pré estabelecida que DG combateram. Não deixa de ser também irónico que seja o conservador capitalismo, através das suas necessidades publicitárias, a tornar possível o desenvolvimento de uma estrutura rizomática como a internet.

Ironias à parte, não deixa ser extremamente interessante uma abordagem da Internet através do estudo dos conceitos de Rizoma e Nomadologia de DG.