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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Felsmann + Tiley - Open Fields (feat. The Kite String Tangle)


Letra
[Verse]
I feel you close, I could hold you
But the walls are cold, I could fall through
And I know it’s hard, but I told you
When you’re gone

[Chorus]
Oh, these open fields where I’ll meet you
Will be worlds apart, but I’ll see you
Radiating through the cracks, just light intertwined

[Post-Chorus]
Mmh oh, oh, oh, oh

[Verse]
I feel you close, I could touch you
But the air is cold all around you
And I know it’s hard, but I told you
When you’re gone

[Chorus]
Oh, these open fields where I’ll meet you
Will be worlds apart, but I’ll see you
Radiating through the cracks, just light intertwined

[Post-Chorus] 2X

[Chorus]
Oh, these open fields where I’ll meet you (mmh oh, oh, oh, oh)
Will be worlds apart, but I’ll see you (mmh oh, oh, oh, oh)
Radiating through the cracks, just light intertwined (mmh oh, oh, oh, oh)

Oh, these open fields where I’ll meet you (mmh oh, oh, oh, oh)
Will be lighting up when I see you (mmh oh, oh, oh, oh)
Radiating through the cracks, just you and I (mmh oh, oh, oh, oh)

[Post-Chorus]

Open Fields de Felsmann + Tiley: estilo, significado e influências filosóficas
A canção "Open Fields", lançada em 2025 pelo duo alemão Felsmann + Tiley em colaboração com o artista australiano The Kite String Tangle (Danny Harley), aborda temas como a distância, a desconexão física e a presença emocional. A letra estabelece um contraste marcante entre o frio da separação física e o calor de uma ligação afetiva persistente, sugerindo que os chamados "campos abertos" representam um espaço metafórico ou pós-físico no qual a intimidade prevalece sobre a distância espacial.

No que respeita ao estilo musical, o tema enquadra-se na música eletrónica neoclássica e no ambient pop de cariz cinematográfico. Fiel à identidade estética de Felsmann + Tiley, a composição prescinde de percussão e bateria tradicionais, construindo a sua tensão dinâmica e carga emocional através da modulação de sintetizadores, de camadas harmónicas e do desempenho vocal intimista.

Do ponto de vista das influências literárias e filosóficas, a narrativa da canção evoca o conceito de espaço liminar e a noção de "não-lugar", proposta pelo antropólogo Marc Augé, apresentando os campos abertos como zonas de transição onde as barreiras físicas se diluem em prol da memória. Adicionalmente, a obra reflete o dualismo corpo-mente de matriz cartesiana e fenomenológica - ao explorar como a perceção e o afeto transcendem os limites do corpo -, mantendo igualmente pontos de contacto com a tradição romântica, na qual a paisagem natural serve de espelho e extensão dos estados emocionais humanos.

domingo, 26 de julho de 2026

Xénia - A regra de Zeus

Zeus Xenios-Philoxenon
A Odisseia de Christopher Nolan pode não ser totalmente fiel ao poema épico de Homero mas tem o dom de por toda a gente a falar desta obra fundamental que, com a Ilíada, fundou a chamada civilização ocidental. Interessa pouco a escolha dos intérpretes  de alguns personagens, pois no fundo todos eles são inadequados já que não há gregos entre o cast, o que até é bastante insultuoso para a Grécia. 

Adiante. O que mais importa na Odisseia é que se tornou numa obra universal e ainda hoje pode ser entendida por todos, desde japoneses a congoleses: é um épico de provação e superação das dificuldades que podia ocorrer em qualquer civilização. E está tão bem relatado, que se torna no primeiro livro de aventuras digno desse nome. E a regra de Zeus (xénia), da hospitalidade obrigatória aos que chegam, de dar comida, bebida e abrigo sem perguntar nada e a gratidão intrínseca que os migrantes devem ter aos seus hospitaleiros ainda hoje tem eco nos migrantes actuais. 

Essa regra foi quebrada por Ulisses e também por alguns dos hospitaleiros, como Polifemo, e isso levou às desgraças que cada um teve de sofrer. E esta regra de Zeus não podia ser mais actual, pois ainda hoje a quebramos constantemente com os emigrantes, sejam os desgraçados africanos que atravessam o Mediterrâneo, sejam os hindus que povoam Lisboa que são rejeitados pela extrema-direita, sejam os latinos expulsos pelo ICE nos EUA. 

Daí o termo xenófobo, que é o contrário de bem-receber e à regra de Zeus, que podia ser de Deus, o tal que unificou o Olimpo num só omnipotente ser divino, que com todos os seus poderes não consegue aplacar as atrocidades que se cometem todos os dias contra emigrantes e não só.

Ler mais:
Deconstruction in a nutshell : a conversation with Jacques Derrida

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Drab Majesty - Cold Souls

Melhor som aqui
Letra
When you walked away at dawn
I heard your song
And now it's on my mind
Made a design on the right side of my heart
It may be wrong
But it wasn't black or white

[refrão]
Wondering when I look at your life if I caught you dead and numb
If you were only just a dreamer
If we were all night

When you were dead I took you by your head
When you were dead I took you by your head

What a wasted ode to hope
My heart is on the line
Staring at the time
And I gazed amazed
While a quiet storm was born inside your eyes
All dressed in black and white

[refrão]

When you were dead I took you by your head (4X)

Ambiguidade emocional e luto em "Cold Souls" de Drab Majesty
O projeto musical Drab Majesty, oriundo de Los Angeles, Califórnia, destaca-se no cenário alternativo contemporâneo por sua fusão singular de sonoridade vintage e profunda carga conceitual. Idealizado pelo multi-instrumentista Andrew Clinco sob o alter ego andrógino Deb Demure, o projeto conta também com a colaboração do teclista e vocalista Mona D (Alex Nicolaou). A sonoridade do grupo, frequentemente autodenominada como "Tragic Wave", navega pelas vertentes do darkwave, post-punk, synth-pop e shoegaze, caracterizando-se por guitarras arpejadas repletas de chorus e delay, sintetizadores analógicos, ritmos marcados por drum machines e camadas densas e atmosféricas que remetem à estética de gravadoras emblemáticas dos anos 80, como a 4AD.

O conceito do Drab Majesty ultrapassa a dimensão puramente musical, amparando-se em uma complexa teia de influências filosóficas, literárias e esotéricas. Deb Demure adota uma postura de anulação do ego, posicionando-se não como um frontman tradicional, mas como um vaso ou canal transceptor responsável por captar frequências do universo. O visual andrógino, marcado por perucas platinadas, rostos pintados de branco e óculos escuros, busca transcender marcadores tradicionais de género, raça e individualidade. As suas composições dialogam com o hermetismo, o misticismo ocidental, a mitologia clássica - como o mito de Narciso - e a fenomenologia da ufologia e de cultos neocosmológicos dos anos 70 e 80.

A faixa "Cold Souls", integrante do aclamado álbum The Demonstration (2017), exemplifica essa proposta ao explorar temáticas de alienação, desapego material e paralisia emocional. Inspirado pela narrativa de movimentos como o culto Heaven's Gate e Unarius Academy of Science , o álbum e a canção abordam o corpo humano como uma mera "casca terrena", da qual a alma precisa se libertar em busca de transcendência e purgação espiritual. 

Leia também
  1. This is what Drab Majesty would play at their funeral
  2. Q&A: Deb DeMure & Mona D (Drab Majesty) Dispelled & Unmasked
  3. "Too Soon To Tell" if Drab Majesty will be gig of the year

quinta-feira, 9 de abril de 2026

The Unbroken Thread


Tentilhão-comum (Fringilla coelebs) @ José Morgado Martins

"The bird is not on the branch, but of it
A momentary flowering of the wood,
A pulse of warm blood singing the sky’s own blue.

She does not stand apart to name the world;
She is the world’s own throat,
Translating the deep, silent sap of the cherry tree
Into a language of air and light.

There is no "I" that watches and no "it" that sings,
Only the single, shimmering web of being
Where the frost of the bark and the heat of the heart
Are one slow-burning fire.

To hear her is to feel the weight of centuries
Of starlight and soil rising through those tiny claws,
A testimony that we are not masters of this place,
But plain members of its magnificent, grieving,
And wildly living body.

When she opens her beak, the universe exhales—
Not for us, but because the song is the only way
For the earth to know the depth of its own belonging."

João Soares, 09.04.2026


sábado, 12 de julho de 2025

Marci Shore saiu dos EUA e agora deixa o aviso: "A Europa não deve absolutamente confiar em nós"



A grande questão neste momento, defende Marci Shore, "é saber quem vai forçar quem" na "situação sem precedentes" em que os Estados Unidos se encontram. "Trump e Vance não são omnipotentes nem imortais, são habilitados por muitas outras pessoas, incluindo quase todos os republicanos".

Isso é notório, por exemplo, na recente aprovação da "lei grande e bela" que vai enriquecer os mais ricos e empobrecer os mais pobres, num país que está a resvalar para o autoritarismo. "O terror atomiza-nos, e os regimes tirânicos alimentam-se dessa atomização – e o único antídoto é a solidariedade ", ressalta a historiadora especializada em fascismo.

Aos que dizem que a América será salva pelos "pesos e contrapesos" que sempre orientaram a política norte-americana, Shore deixa um aviso. "As estruturas e instituições não são proteções mágicas e sobrenaturais, são criadas e geridas por pessoas" – e se a História nos mostra algo, é a facilidade com que coisas impensáveis são normalizadas. "Os seres humanos têm uma capacidade extraordinária de normalizar o anormal; o que parecia inconcebível num dado momento pode tornar-se o novo normal alguns meses mais tarde, e mal nos apercebemos de como as fronteiras recuaram."

Com uma carreira de décadas dedicada à cultura eslava e à Europa Central e de Leste, Shore trocou a Universidade de Yale, nos EUA, pela Universidade de Toronto, no Canadá, uma decisão que, garante, foi tomada após muita ponderação em família. Se dependesse do marido, o historiador e escritor Timothy Snyder, é possível que a mudança nunca tivesse acontecido. "O meu marido não é uma pessoa ansiosa por natureza. Se estivesse sozinho, teria regressado a New Haven, não apesar, mas precisamente por causa da vitória de Trump, para lutar pela democracia dos Estados Unidos."

Ao ver o vídeo que o NYT fez consigo e com outros dois especialistas em Fascismo da Universidade de Yale, Jason Stanley e o seu marido, Timothy Snyder, achei muito marcante a analogia que faz com o Titanic, em relação a esta ideia do ‘excecionalismo americano’. Continua a haver muita gente, dentro e fora dos Estados Unidos, a acreditar que os pesos e contrapesos vão impedir o navio de se afundar, apesar de a realidade apontar na direção oposta. Vislumbra alguma forma de esses pesos e contrapesos prevalecerem, por exemplo, por via das eleições intercalares no próximo ano ou do ramo judiciário? Ou estamos destinados a ver o navio afundar-se?
Não existe nada “destinado”. Os “pesos e contrapesos” referem-se a estruturas e instituições – não são proteções mágicas e sobrenaturais, são criadas e geridas por pessoas. Há certamente juízes que estão a recuar e a dizer ‘não’ – e a administração Trump está, muitas vezes, a recusar-se a honrar essas decisões judiciais. Torna-se então uma questão de saber quem vai forçar quem. Esta é, de certa forma, uma situação sem precedentes nos Estados Unidos.

E como se sai dessa situação?
Tudo depende das pessoas. Trump não é omnipotente nem imortal – e JD Vance também não. Eles são habilitados por muitas outras pessoas – incluindo quase todos os membros republicanos do Congresso, que fizeram barganhas faustianas. Esta “Lei Grande e Bela”, que priva milhões de americanos de cuidados de saúde e milhões de crianças de comida, não teria sido aprovada se o Partido Republicano não tivesse alinhado com Trump. Eles podiam dizer ‘não’.

A votação no Senado estava a 50-50 antes de JD Vance ter dado o voto de desempate na sua qualidade de vice-presidente. Juntamente com todos os democratas, três senadores republicanos votaram contra. Se mais um senador republicano tivesse votado contra, o projeto de lei não teria sido aprovado.

Logo após o voto, o meu irmão, que é compositor de ópera, publicou este vídeo [uma música chamada “Na noite passada sonhei que vi Jesus”, que termina com o verso “E ele disse-me que eu podia ir para o inferno” e com a adenda: “Mantenham-se seguros, amigos – e não fiquem doentes”. Desde a eleição de Trump, Dan Shore tem usado os seus dotes musicais para compor sátiras políticas de protesto contra as políticas da administração.]

Em tempos como estes, as pessoas tentam encontrar esperança onde quer que seja e muitas estão algo esperançosas perante notícias recentes como a libertação de Mahmoud Khalil, ativista da Universidade de Columbia, e a vitória de Zohran Mamdani nas primárias democratas à Câmara Municipal de Nova Iorque. O que podem estes eventos indiciar no contexto da busca por um caminho alternativo para os EUA?
Os Estados Unidos são um país profundamente dividido, é por isso que todas as eleições presidenciais são uma competição por um grupo demográfico relativamente mínimo, os chamados “swing voters”, ou eleitores indecisos. Há uma verdadeira resistência, há momentos de esperança, e é importante estar ciente e reconhecer esses momentos.

Estou a participar numa iniciativa do Seminário de Democracia da New School para documentar “pequenos atos de resistência democrática”. Este site pretende ser uma plataforma de solidariedade, reconhecimento e apoio moral, mas também um recurso para jornalistas, especialmente jornalistas fora dos Estados Unidos.

Recentemente, deu uma palestra na Universidade Metropolitana de Toronto onde avisou os canadianos – numa mensagem também dirigida, presumo, aos europeus e a outras sociedades – que “não podem confiar” no atual governo americano e que, por conseguinte, não podem confiar nos Estados Unidos. A verdade, porém, é que a arquitetura da relação transatlântica assenta nesta dependência europeia dos EUA, por exemplo, em matéria de defesa e segurança. Quão exequível seria “sair” desta relação? Ou existe outra forma de negociar (e fazer acordos) com os EUA, reduzindo essa dependência?

Eu nem sequer o descreveria como uma mudança de paradigma, mas sim como um salto para o niilismo. Para Trump, não existe a verdade versus a mentira ou o bem versus o mal; existe apenas o que é vantajoso ou desvantajoso para si próprio num dado momento. Todas as relações são puramente transacionais. Não existem valores ou princípios.

Estamos a olhar para um abismo. Pode acontecer, claro, que algo que Trump entenda como sendo do seu interesse num determinado momento tenha, por acaso, efeitos positivos – mas isso não deve ser mal interpretado como uma política coerente ou um paradigma que reflita qualquer tipo de valores consistentes.

A Europa não deve absolutamente confiar em nós. É isto mesmo: o fim do namoro.

Num artigo que escreveu em maio, afirmava que se deve “evitar fetichizar” conceitos como autocracia, fascismo, autoritarismo, etc., porque “nenhuma situação histórica é exatamente igual a outra”. Ainda assim, impõe-se a pergunta: que lições é que o passado pode ensinar-nos no que toca a lutar contra este sentimento de paralisia da sociedade?
Conceitos como o fascismo são muito úteis, só não devem ser fetichizados. Quanto às lições: os seres humanos têm uma capacidade extraordinária de normalizar o anormal. O que parecia inconcebível num dado momento pode tornar-se o novo normal alguns meses mais tarde, e mal nos apercebemos de como as fronteiras recuaram. Habituamo-nos a uma nova realidade e depois não conseguimos ver verdadeiramente o que está a acontecer à nossa volta.

Após as eleições de novembro de 2016, o comediante John Oliver disse ao seu público televisivo: "Vai ser demasiado fácil as coisas começarem a parecer normais – especialmente se se for alguém que não é diretamente afetado pelas ações [da administração Trump]. Por isso, lembrem-se: isto não é normal. Escreva-o num post-it e cole-o no seu frigorífico." O contexto era um programa de comédia política, mas isto não era uma piada, e o conselho de John Oliver foi absolutamente correto.

Há aqui dois desafios: abanar a sociedade, para que reconheça as implicações aterradoras da livre expressão da violência e da crueldade, e encontrar métodos para fundamentar o nosso discurso na verdade empírica"

É essencial não normalizar o anormal. É também essencial insistir na verdade – procurando-a, dizendo-a em voz alta. O terror atomiza-nos, e os regimes tirânicos alimentam-se dessa atomização. O único antídoto para isso é a solidariedade. Conhecemos a famosa citação de Martin Niemöller, o simpatizante da direita alemã que se tornou prisioneiro político dos nazis: "Primeiro vieram atrás dos socialistas, e eu não me pronunciei – porque não era socialista. Depois vieram atrás dos sindicalistas, e eu não falei – porque não era sindicalista. Depois vieram buscar os judeus, e eu não falei – porque não era judeu. Depois vieram atrás de mim – e já não havia ninguém para falar por mim".

Líderes como Donald Trump são regularmente aplaudidos pela sua “honestidade”, mas essa honestidade não corresponde à ideia de falar verdade no sentido do que se pode empiricamente provar como verdadeiro – corresponde, antes, a falar sem qualquer filtro, mesmo quando o que se está a dizer é o oposto do que é verdadeiro. Isto coloca um desafio aos cidadãos em geral, e aos jornalistas em particular, tornando ainda mais difícil navegar a realidade e reportá-la nos dias que correm. Desde que Trump anunciou a sua primeira candidatura à presidência, há uma década, os jornalistas têm tentado combater a desinformação com factos, mas isso não parece ser suficiente, nem nos EUA, nem na Europa. Qual é o caminho?
O que os apoiantes de Trump entendem como “honestidade” é o tipo de libertação da repressão que Freud descreveu em “A Civilização e os seus Descontentamentos: a livre expressão de Eros e Thanatos”. Hoje, se virmos uma mulher a andar na rua e desejarmos violá-la, é perfeitamente admissível expressá-lo em voz alta. Freud dir-nos-ia que a civilização se baseia na repressão. A libertação dessa repressão é a verdadeira libertação – pela qual pagamos o pequeno preço da destruição da civilização. E estamos a pagar esse preço.

As possibilidades tecnológicas de disseminação e consumo de informação – e desinformação – não têm precedentes. É um alvo em movimento: a tecnologia acelera mais rapidamente do que conseguimos compreender o problema e formular soluções. Em 2016, os jornalistas americanos ficaram sem saber o que fazer. Estavam habituados a verificar factos individuais – não estavam habituados a um completo afastamento da realidade empírica. E ninguém conseguia verificar os factos tão rapidamente quanto Trump conseguia mentir.

Portanto, há aqui dois desafios. Um é abanar a sociedade, para que reconheça as implicações aterradoras da livre expressão da violência e da crueldade. O outro é encontrar métodos para fundamentar o nosso discurso na verdade empírica.

Diz que “a grande lição de 1933 é que se deve sair mais cedo do que tarde”, num paralelismo entre o que aconteceu na Alemanha, com a ascensão de Adolf Hitler ao poder, e o que está a acontecer agora nos EUA. Porque é que decidiu abandonar o seu país-natal?
Receio que a mudança da minha família para Toronto tenha sido um pouco dramatizada de forma absurda. Na verdade, não é assim tão dramática. Foi uma decisão familiar muito gradual e complexa, que começou muito antes das eleições. Por um lado, Yale é uma instituição excecional; adorei ensinar em Yale, tenho lá amigos e colegas de quem sentirei muitas saudades. Por outro lado, nunca pensei ficar tanto tempo na mesma cidade ou na mesma instituição; parecia que estava na altura de mudar a meio da carreira.

Há muito que queria criar os meus filhos num lugar onde não houvesse tanta violência armada – mesmo em tempos muito melhores politicamente, a quantidade de violência armada nos Estados Unidos é horrível. New Haven [a cidade do Connecticut que alberga a Universidade de Yale] fica a menos de uma hora de Sandy Hook, onde uma turma inteira de alunos do primeiro ano foi assassinada por um atirador numa escola primária há pouco mais de 12 anos. Na altura, um dos meus alunos de licenciatura trabalhava como paramédico a tempo parcial e foi um dos primeiros a responder. Chegou ao local e não havia nada a fazer – estavam todos mortos.

A posse de armas per capita é mais elevada nos Estados Unidos do que em qualquer outra parte do mundo. Sou eslava e sabe o que Anton Chekhov disse sobre as armas? "Quando a arma está em cena, tem de disparar até ao fim do último ato." Receio que isso seja verdade tanto na vida quanto no teatro. Em qualquer sábado à noite em New Haven, as urgências estão cheias de vítimas de ferimentos provocados por armas de fogo.

Foi por isso que decidiu ir dar aulas na Universidade de Toronto?
A Munk School for Global Affairs começou a recrutar-me a mim e ao meu marido, Tim Snyder, há cerca de três anos. E há muitas razões pelas quais não só Toronto em geral, mas também a Munk School da Universidade de Toronto em particular, eram especialmente atrativas. Estudei na Universidade de Toronto nos anos 90 e adorei tanto a cidade como a universidade. A Munk foi concebida para promover e apoiar a interdisciplinaridade, o envolvimento, tanto académico como público. Há lá um grupo fantástico de académicos, liderado pela extraordinária cientista política Janice Stein, muito inspiradora para mim.

O Tim e eu viemos para Toronto em agosto de 2024 com os nossos filhos, num ano sabático de Yale. Por isso, já estávamos a viver aqui durante as eleições de novembro. E é muito provável que tivéssemos ficado em Toronto e aceitado as ofertas da Munk mesmo que Kamala Harris tivesse vencido. O meu marido não é uma pessoa ansiosa por natureza; se estivesse sozinho, teria regressado a New Haven, não apesar, mas precisamente por causa da vitória de Trump, para lutar pela democracia dos Estados Unidos.

Mas aceitou mudar-se pela família?
Sim, concordou em ficar em Toronto por mim e pelos nossos filhos. Estou muito disposta a assumir a minha própria ansiedade, mas encolho-me quando vejo a imprensa infligir-lhe a minha ansiedade e cobardia. “Fugir” é o tipo de palavra que quer Jason Stanley quer eu, enquanto judeus neuróticos, usaríamos – mas o Tim não foge.

A minha posição é influenciada pelo facto de, apesar de ser americana, não ser uma americanista – ou seja, o meu trabalho intelectual sempre se centrou na Europa Central e de Leste. Há muito que estou mais empenhada na Ucrânia do que nos Estados Unidos, e muito do que faço é desempenhar o papel de mediadora cultural, ajudando os americanos a compreender a Europa de Leste.

A minha vida intelectual nunca esteve centrada no meu próprio país, o que talvez contribua para o meu sentimento geral de que é possível trabalhar em prol do bem a partir de onde quer que seja – ainda que de formas diferentes. Além disso, tendo saído dos Estados Unidos, sinto-me ainda mais obrigada a falar sobre o que se está a passar lá, em nome dos meus amigos e colegas que se encontram em posições mais vulneráveis.

sexta-feira, 4 de julho de 2025

Para ler "A Magia do Sensível" de David Abram


David Abram é um ecologista e filósofo, os seus livros e conferências têm tido uma influência aprofundada no movimento da ecologia. Não é fácil encontrar os livros dele em português. Felizmente existe esta edição da Fundação Calouste Gulbenkian, do seu livro “A Magia do Sensível”.

“Juntamente com os outros animais, as pedras, as árvores e as nuvens, somos personagens dentro de uma imensa história que está a desdobrar-se visivelmente à nossa volta, participantes na vasta imaginação, ou sonho, do mundo.” ~ David Abram

Em "A Magia do Sensível - Percepção e Linguagem num mundo mais do que humano", David Abram convida os leitores a uma jornada profunda por nossas experiências sensoriais, reconectando-nos com o mundo natural que nos nutre. Premiado com o International Lannan Literary Award for Nonfiction, esta obra de filosofia ecológica desafia percepções convencionais ao explorar a relação profundamente enraizada que os seres humanos uma vez compartilharam com o meio ambiente. Tirando de uma rica tapeçaria de influências — que vão da filosofia de Merleau-Ponty ao xamanismo balinês — Abram examina como nossa compreensão da linguagem e da cognição está intrinsecamente ligada aos ritmos da natureza. Através de uma mistura de prosa lírica e exploração intelectual, ele nos instiga a uma reconexão com a terra viva, lembrando-nos da interdependência vibrante que foi negligenciada na vida moderna.

domingo, 6 de novembro de 2022

Bailado - Achterland (1990)


Achterland é uma coreografia seminal na obra de Anne Teresa De Keersmaeker. Nesta performance de 1990, pela primeira vez, a coreógrafa deu aos músicos uma posição central no palco e os deixou desempenhar um papel ativo na dinâmica geral – uma abordagem que ela repetiria em muitos projetos subsequentes. 

A combinação incomum da música de György Ligeti e Eugène Ysaÿe inspirou De Keersmaeker e ós seus dançarinos a criar uma banda sonora original com um delicado equilíbrio entre virtuosismo energético e desaceleração. 

Essa também foi a primeira vez que a coreógrafa escreveu material de dança especificamente para homens; ela acrescentou três dançarinos ao que até então era uma companhia predominantemente feminina. Em Achterland, a feminilidade e o minimalismo predominantes de vários dos trabalhos anteriores de Rosas deram lugar a uma terra de ninguém ambígua caracterizada por uma indefinição de limites e símbolos.

Em 1995, De Keersmaeker fundou em Bruxelas a escola P.A.R.T.S. (Performing Arts Research and Training Studios), em associação com De Munt/La Monnaie.




Natureza criadora: o projecto bio-filosófico de Henri Bergson

sábado, 20 de abril de 2019

Ensaios produzidos por Adauto Novaes agora estão disponíveis na internet


Mutações: A Resistência pelo Pensamento
As revoluções biotecnológica, científica e digital empurraram-nos para mutações vertiginosas, que tendem a eliminar o pensamento e a tornar-nos reféns do que o poeta Paul Valéry chamou de "barbárie dos factos". Há 13 anos que Adauto Novaes coordena ciclos sobre múltiplos aspetos das mutações, com a participação de alguns dos mais brilhantes intelectuais brasileiros e estrangeiros. Publicou seis volumes de ensaios, que abordam os temas da violência, da velocidade, da preguiça produtiva, da destruição do pensamento, da revolução digital, do vácuo dos valores e da necessidade de cultivar "as coisas vagas" (a arte, o pensamento, o ócio criativo e a crítica).

Mas, agora, o ciclo entra numa nova etapa, com a chegada à plataforma digital. Uma vaga de 313 ensaios e 24 filmes está disponível, gratuitamente, no site Artepensamento; em breve, serão acrescentados mais 345 ensaios, perfazendo quase 900. O alvo são, principalmente, os estudantes universitários. Lá, poderão ler textos de François Hartog, José Miguel Wisnik, Jacques Rancière, Marilena Chauí, Nicole Loraux, Gérard Lebrun, Benedito Coutinho, José Américo Pessanha, entre outros.

Nos ensaios, os autores travam um corpo a corpo dramático com os temas urgentes do nosso tempo:
"É quase uma enciclopédia", comenta Adauto Novaes. O professor Antônio Candido escreveu que o ciclo das mutações constitui um dos feitos mais importantes do nosso tempo no país. E, nesta entrevista, Adauto fala sobre o percurso dos 13 anos de mutações, a perspetiva de interação digital, o diálogo com as novas gerações e os desafios de um tempo sem passado e sem futuro, refém de um eterno presente.

As plataformas digitais foram temas de reflexões e críticas nos ciclos por si promovidos. O que é que elas proporcionam na difusão do projeto das mutações? 
Na realidade, temos de ser coerentes com o que discutimos há 13 anos: as mutações produzidas pelas revoluções biotecnológica, científica e digital. Seria uma incoerência não usarmos a plataforma digital. É algo incontornável para quem deseja comunicar e interagir com as novas gerações. Os livros são muito importantes, fizeram história, como disse Antonio Candido. Mas as novas gerações procuram o conhecimento dos textos através dos novos meios. Pouco tempo após o lançamento, temos mais de 130 mil acessos. Mas o próprio Antonio Candido escreveu que os ciclos da mutação constituem um dos feitos mais importantes do nosso tempo no Brasil. Traçam os rumos da civilização contemporânea. Por todas estas razões, é importante que cheguem às novas gerações.

Como avalia o trajeto do ciclo das mutações? 
Começámos com os sentidos da paixão, o desejo, temas que mesmo o pensamento de esquerda não levava em conta. Diziam que eram coisas ilusórias. Mas são elas que definem a atividade humana. Chegou um momento em que a ideia de "crise" já não era suficiente para explicar o que acontecia no mundo. Então, começámos com a ideia das mutações.

O que caracteriza, essencialmente, o tempo de mutações? 
Diferente do Iluminismo, é uma era feita no vazio do pensamento, como dizia Hannah Arendt. A contribuição que damos é essa. Incluiremos os seis primeiros livros sobre as mutações. É algo muito sério. Se a política está neste estado, se os valores tendem a desaparecer, temos de refletir. Gostaria de ressaltar que grandes pensadores do Brasil e do exterior, na atualidade, participaram no ciclo. Poderia citar François Hartog, Frédéric Gros, Nicole Loraux, Jacques Rancière. E também do Brasil: José Américo Pessanha, Marilena Chauí, José Miguel Wisnik, Gerard Lebrun. Se não tivéssemos criado a plataforma, as novas gerações não saberiam. Os ensaios foram publicados em livro, mas, quase sempre, só estavam acessíveis às pessoas de algumas capitais. No Nordeste, por exemplo, muitas pessoas não têm acesso a esses livros. Preparámos cuidadosamente a apresentação; cada ensaio é precedido de uma síntese; trabalho com uma equipa há dois anos.

Como vê as possibilidades de uso deste material pelas novas gerações e pelos cursos universitários? 
Isso é fundamental. E está a ser usado. Não é que o livro vá desaparecer. Mas a tendência é que as novas gerações procurem o conhecimento nos novos meios. Encontro-me com professores e eles dizem que está a ser muito útil. Se quer discutir filosofia, história, tecnologia, biociência ou ética, está tudo ali. É um pouco uma enciclopédia.

Que balanço faz das séries, que vão do silêncio dos intelectuais ao desejo, às paixões, às novas tecnologias e à barbárie? 
Sempre nos preocupámos muito com isso. Vai sair um novo livro do ciclo, Dissonâncias do Progresso. É uma crítica contra o progresso, que se tornou extremamente atual. Há uma negação muito grande em relação às humanidades. Veja-se o que está a acontecer com as grandes empresas de mineração em Minas Gerais. É o resultado de uma ideia de progresso que não quer saber do que acontece. A questão da bomba atómica e a possibilidade apocalíptica rondam-nos o tempo todo.

Estas linhas de pensamento ajudam a pensar ou a repensar o Brasil e o mundo? 
Esse é o grande problema. O próprio Claude Lefort disse-me uma vez: "Temos de repensar todos os conceitos, até o de luta de classes. A própria classe operária tende a desaparecer. Existe a classe de trabalhadores". Ajuda a repensar os conceitos da política. A globalização criou um estado de desespero para os indivíduos. O pensador polaco Zygmunt Bauman disse que, antes da globalização, existia a luta de classes; hoje, existe a luta do indivíduo contra o resto do mundo.

O que pensa dessa afirmação? 
É que, na globalização, existe uma tendência para o egoísmo organizado; a ideia de comunidade tende a desaparecer da história. Robert Musil dizia que o capitalismo é o egoísmo organizado. Há um problema muito maior aí: a própria política tende a desaparecer. Quem manda são os conglomerados e os técnicos. Numa sociedade tecnicizada, a política também tende a ser tecnicizada.

É precisa muita velocidade de pensamento para acompanhar as mutações do mundo globalizado? Fizemos um ciclo muito importante, O Elogio da Preguiça. Sem o tempo do ócio, não se cria nem obra de arte nem pensamento. Vivemos um momento em que não se vive o tempo do pensamento. As pessoas submetem-se a este tempo veloz da vida. E isso é terrível.

E como é que este estado de coisas está a afetar a escalada da violência? 
As pessoas acabam por interiorizar muito a violência e o ódio. Albert Camus deu conferências nos Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial. Muitos acreditam que o monstro morreu, mas o veneno não morreu: o nazismo e o nazi-fascismo. A civilização criou muitas coisas importantes e corretas, mas também acumulou muito ódio. Só é possível superar este estado de coisas com um trabalho cuidadoso da educação e da sociedade. Temos de pensar mais profundamente sobre a constituição do ódio e da violência.

O que cria um clima favorável aos valores do nazismo e do fascismo nos dias de hoje? 
O neofascismo adquiriu uma nova forma. Não é a mesma coisa de 1940. E estamos a ver como estas coisas estão a acontecer. O domínio da tecnociência distrai o pensamento, ninguém pensa mais. A sociedade já não tem forma porque não tem ideias. Qualquer coisa que se apresente tem probabilidades de obter adesão. Não é só no Brasil, mas também na Holanda, na Áustria e na Alemanha. Paul Valéry tem uma ideia interessante; diz que a barbárie é o império dos factos, e que precisaríamos das "coisas vagas", que são a arte, as ideias políticas e as utopias. A ausência de pensamento é um "prato cheio" para os aventureiros se estabelecerem. Valéry dizia, também, que estamos a viver um tempo em que desapareceram as duas maiores invenções da humanidade: o passado e o futuro. Não sabem o que aconteceu há 10 ou há 50 anos. As revoluções anteriores permitiam dar um salto. Mas, se o passado desaparece, não temos futuro. Ficamos reféns do presente e da barbárie dos factos.

domingo, 17 de junho de 2007

Dossiê Filosofia

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