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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A próxima crise financeira global? O alerta do FMI sobre a dívida e as lições de 2008

Vamos deixar isto escrito agora, porque depois da próxima crise não faltarão especialistas a explicar, com a segurança que só o passado permite, por que razão ninguém poderia tê-la previsto: há sinais cada vez mais sérios de que a próxima grande crise financeira está a formar-se. Não sabemos quando chega, nem onde começa, e quem apresentar uma data está provavelmente a vender previsões ao quilo. Mas há uma diferença entre adivinhar e olhar para aquilo que está diante de nós. E aquilo que está diante de nós começa a ficar pouco recomendável.

A dívida pública mundial chegou a quase 94% do PIB em 2025 e o FMI prevê no Fiscal Monitor que atinja 100% já em 2029. O problema, porém, não é apenas haver muita dívida. Os Estados vivem há décadas a refinanciá-la: quando uma obrigação vence, emitem outra e seguem caminho. Durante os anos de juros próximos de zero, este mecanismo era extraordinariamente confortável. Agora deixou de ser. Em 2026, grande parte do dinheiro que os governos da OCDE vão buscar aos mercados destina-se simplesmente a refinanciar dívida já existente, como detalha a OCDE no seu Sovereign Borrowing Outlook. E estão a fazê-lo a taxas muito superiores às que pagavam quando boa parte dessa dívida foi emitida. É aqui que a brincadeira muda de natureza.

Nos Estados Unidos, a taxa das obrigações a 10 anos ultrapassou recentemente os 4,75% e a de 30 anos chegou aos 5,327%, o nível mais elevado desde 2007, segundo dados de mercado recolhidos pela U.S. Department of the Treasury. No Reino Unido, a dívida a dez anos chegou este ano aos 5,13%, máximo desde 2008. No Japão, onde durante uma geração praticamente se esqueceu que a dívida pública pagava juros, a taxa a dez anos ultrapassou os 3% pela primeira vez desde 1996, conforme registado pelo
Bank of Japan. Alemanha e França também estão a assistir a fortes subidas das taxas de longo prazo. Não estamos a falar da Grécia em 2011 ou de um qualquer país periférico a quem os mercados resolveram fechar a torneira. Estamos a falar dos mercados de dívida das maiores economias do mundo.

E isto interessa muito mais do que parece. Se um Estado tinha 100 mil milhões de euros de dívida financiada a 1% e passa progressivamente a refinanciá-la a 4% ou 5%, não precisa de pedir mais dinheiro para começar a ter um problema. Basta substituir dívida barata por dívida cara. A factura dos juros cresce, ocupa uma parcela maior das receitas e começa a disputar dinheiro com tudo o resto: saúde, educação, pensões, investimento público. É nesta altura que regressam palavras como “consolidação”, “ajustamento” e “responsabilidade”, geralmente pronunciadas por pessoas que nunca são objecto de nenhuma das três.

E há uma parte essencial desta equação que torna tudo isto bastante menos confortável: estas montanhas de dívida não estão a ser suportadas por economias a crescer 4% ou 5% ao ano. Estão a ser carregadas por algumas das maiores economias do mundo com crescimentos débeis ou praticamente estagnadas. O
Banco Mundial prevê no Global Economic Prospects apenas 2,5% de crescimento mundial em 2026. Na zona euro, o FMI aponta no World Economic Outlook para apenas 0,9%. Isto não é um pormenor: uma economia que cresce depressa consegue suportar uma dívida elevada com muito mais facilidade porque as receitas, os rendimentos e a própria base económica que sustenta essa dívida também crescem. Quando a economia quase não cresce e o Estado começa simultaneamente a refinanciar dívida a 4% ou 5%, o custo da dívida pode crescer muito mais depressa do que a economia que terá de a pagar. A partir daí, as soluções começam a ser aquelas velhas conhecidas que costumam aparecer com nomes tecnicamente tranquilizadores: mais impostos, menos despesa, inflação ou mais dívida.

E o mercado não está a pedir apenas dinheiro aos Estados. Governos e empresas deverão emitir este ano o equivalente a cerca de 25 biliões de euros em dívida. Ao mesmo tempo, a corrida à inteligência artificial está a exigir quantidades colossais de capital e algumas das maiores empresas tecnológicas começaram a financiar parte desse investimento através da emissão de obrigações. Há, portanto, cada vez mais dívida a disputar o mesmo dinheiro, justamente numa altura em que os investidores começaram a exigir melhor remuneração para o emprestar. A OCDE calcula que a dívida soberana em obrigações dos seus membros já atingiu o equivalente a cerca de 53 biliões de euros e que o peso da dívida dos governos centrais deverá chegar este ano a 85% do PIB, 39 pontos percentuais acima do nível de 2007.

Do outro lado temos mercados financeiros extraordinariamente valorizados. O estudo Global Balance Sheet, do McKinsey Global Institute, mostra que a riqueza das famílias aumentou o equivalente a cerca de 35 biliões de euros em 2025, atingindo aproximadamente 492 biliões de euros, mas apenas cerca de 20% desse aumento resultou de novo investimento líquido em activos reais. A maior parte veio da valorização dos activos e de outros ganhos financeiros. Não quer dizer que a riqueza seja imaginária. Quer dizer que uma parte enorme dela depende de casas, acções e outros activos continuarem a valer aquilo que os mercados decidiram que valem.

Mas há uma diferença importante em relação a 2008. Depois daquela crise, os bancos foram obrigados a reforçar capital, liquidez e financiamento mais estável. O risco, porém, não desapareceu por delicadeza. Uma parte considerável mudou simplesmente de sítio. Fundos de investimento, hedge funds, crédito privado e outros intermediários financeiros não bancários representam hoje o equivalente a cerca de 222 biliões de euros, 51% de todos os activos financeiros mundiais, e este sector cresceu ao dobro do ritmo da banca tradicional. O próprio Financial Stability Board (FSB) reconhece no seu Global Monitoring Report limitações sérias nos dados disponíveis sobre áreas como o crédito privado. E isto não significa que bancos e restante sistema financeiro vivam agora em apartamentos separados e tenham deixado de se falar. Pelo contrário. Os bancos financiam estes fundos, concedem-lhes linhas de crédito, fazem operações de repo, negoceiam derivados, fornecem alavancagem e serviços de margem e recebem deles financiamento. O Banco Central Europeu (BCE) no Financial Stability Review e o Comité de Basileia têm vindo precisamente a alertar para estas ligações e para a possibilidade de um choque nos mercados obrigar fundos alavancados a desfazer posições rapidamente, provocando vendas forçadas e transmitindo novamente as perdas à banca. O próprio BCE admite que existem falhas de informação que limitam a capacidade de perceber todas estas exposições.

É esta combinação que merece atenção: Estados muito mais endividados do que estavam antes de 2008, dívida antiga a ser refinanciada a juros bastante mais altos, necessidades recorde de financiamento, mercados financeiros muito valorizados e um sistema financeiro não bancário gigantesco, alavancado, profundamente ligado à banca e em partes importantes bastante menos transparente.

Separadamente, nenhuma destas coisas provoca necessariamente uma crise. O problema começa quando acontecem ao mesmo tempo e aparece um choque que obriga alguém a vender. Foi assim que funcionaram muitas das anteriores. Primeiro existe liquidez, crédito e valorização. Depois os preços sobem durante tempo suficiente para que a subida passe a ser considerada normal. A seguir vem a alavancagem, porque ganhar dinheiro com dinheiro emprestado parece uma ideia extraordinária enquanto os activos sobem. Finalmente aparece qualquer coisa que ninguém tinha colocado no modelo, os preços caem, alguém precisa de liquidez, começam as vendas forçadas e descobre-se que o sistema era muito mais interligado do que parecia.

Há ainda uma razão adicional para levar a próxima crise particularmente a sério. Em 2008, quando o sistema financeiro começou a cair, foram os Estados que apareceram para o segurar. Garantiram bancos, injectaram capital, aumentaram despesa, assumiram riscos privados e deixaram os bancos centrais baixar os juros para níveis próximos de zero. Na próxima grande crise, muitos desses Estados entrarão em campo já carregados com dívidas muito superiores às de 2008 e a pagar bastante mais para as financiar. A capacidade de salvar novamente o sistema sem apresentar depois a factura à economia real será, por isso, bastante menos confortável. O Banco de Pagamentos Internacionais (BIS) analisa no seu Annual Economic Report precisamente este paradoxo: os bancos estão hoje mais capitalizados e líquidos do que antes da grande crise financeira, mas as ligações entretanto criadas com o sector não bancário abriram novos canais indirectos através dos quais o risco soberano e financeiro pode regressar aos bancos. Em algumas economias, as exposições dos bancos à própria dívida soberana continuam também enormes relativamente ao seu capital.

É por isso que há razões para recear que a próxima grande crise possa ser mais difícil de conter do que a de 2008. Não apenas porque existe mais dívida, mas porque o sistema que terá de absorver o choque é maior, mais interligado e tem uma parcela muito superior dos seus activos fora da banca tradicional. Os fundos de investimento, por exemplo, passaram do equivalente a cerca de 18 biliões de euros em activos em 2008 para aproximadamente 45 biliões de euros em 2023. Mudámos algumas regras depois da última crise, reforçámos os bancos e deslocámos uma quantidade considerável de risco para outros lugares. O risco teve a gentileza de acompanhar a mudança.

Há anos que vamos escrevendo sobre isto. Não porque saibamos prever o futuro, mas porque ainda nos lembramos do passado. E se há uma coisa que a História financeira ensina é que as crises nunca parecem iminentes enquanto os mercados estão a subir. Quando finalmente parecem óbvias, já começaram.

Países europeus têm retirado ouro dos Estados Unidos. A Alemanha, que detém a segunda maior reserva de ouro do mundo, concluiu uma grande repatriação parcial em 2017 (tendo trazido ouro de Nova Iorque e Paris para Frankfurt), mas ainda mantém cerca de 37% (mais de 1.200 toneladas) nos cofres da Reserva Federal em Nova Iorque.  Embora existam debates políticos e apelos de economistas para retirar o restante devido a tensões transatlânticas e imprevisibilidade política, o governo alemão não avançou com uma retirada total recente.

A França concluiu a repatriação total das suas reservas que ainda estavam guardadas no estrangeiro. O banco central francês (Banque de France) finalizou a substituição e transferência das últimas 129 toneladas de ouro que mantinha nos cofres da Reserva Federal de Nova Iorque. Com este movimento estratégico de arbitragem e conformidade regulatória, a totalidade das cerca de 2437 toneladas de ouro que compõem o tesouro soberano francês encontra-se agora centralizada a cem metros de profundidade, no cofre subterrâneo conhecido como La Souterraine, localizado na sede do banco em Paris. A evolução histórica detalhada e os contornos políticos destas movimentações podem ser consultados no artigo sobre a Repatriação de Ouro na Wikipédia. 

Por sua vez, a Itália adota um modelo de custódia mista e mantém o seu stock intocável há décadas, resistindo a pressões de venda mesmo em períodos de crise. O país possui a terceira maior reserva mundial, com cerca de 2452 toneladas de ouro. Deste total, aproximadamente metade (cerca de 1100 toneladas) está guardada localmente nos cofres fortificados do Palazzo Koch, a sede institucional do Banca d'Italia em Roma. A outra metade da reserva italiana permanece dispersa no estrangeiro por razões logísticas e de liquidez de mercado, dividida maioritariamente entre a Reserva Federal de Nova Iorque, o Banco de Inglaterra em Londres e o próprio Bundesbank em Frankfurt. Mais pormenores sobre o enquadramento económico destas reservas estão disponíveis nas estatísticas atualizadas de mercado da Trading Economics. 

Finalmente, Portugal destaca-se internacionalmente pela elevada proporção de ouro face ao total das suas reservas financeiras globais. O país detém 383 toneladas de ouro e posiciona-se no topo dos países com maior quantidade de metal precioso por habitante. A gestão da custódia do ouro português pelo Banco de Portugal assenta historicamente numa forte componente externa para facilitar operações financeiras internacionais, embora uma parte relevante continue salvaguardada em território nacional, dividida entre os cofres da sede em Lisboa e o cofre-forte do Complexo do Carregado.

No dia 2 deste mês os Países Baixos transferiram 86 toneladas de ouro dos EUA e Canadá para o Reino Unido

Por isso deixamos o aviso agora. As dívidas são maiores, os custos de financiamento estão a aumentar, os mercados estão extraordinariamente valorizados e uma parte crescente do risco financeiro encontra-se em estruturas sobre as quais os próprios reguladores reconhecem não possuir toda a informação necessária. Não sabemos qual será o detonador nem quando alguém acenderá o fósforo. Mas já existe combustível suficiente para que não seja particularmente sensato discutir se há perigo de incêndio.

Mas não se preocupem demasiado. Enquanto isto se passa, haverá certamente um dérbi, uma polémica nas redes sociais, a final de um reality show ou qualquer assunto suficientemente importante para ocupar três dias de televisão.

Quando chegar a factura, então falamos de economia. Considerem-se avisados.
Baseado no texto de Rise Up Portugal, com alguns ajustes.

sábado, 29 de agosto de 2026

Por que razão a desigualdade social e a crise da habitação alimentam a ascensão do Chega em Portugal?


A perceção de que a desigualdade em Portugal possa ter abrandado resulta de uma confusão frequente entre a variação pontual dos rendimentos diários e o fosso abissal na acumulação de património. Embora o discurso político enfatize pequenos aumentos no salário mínimo, as análises do World Inequality Database revelam que a fratura social é profunda e estrutural. Em Portugal, a extrema concentração de recursos significa que o topo 10% mais rico controla entre 50% a 60% de toda a riqueza nacional, enquanto o 1% das elites económicas detém cerca de 20% do património total. No extremo oposto dessa balança, a metade mais pobre da população sobrevive com apenas 1% a 4% dos ativos do país, perpetuando um ciclo vicioso onde quem nasce sem património dificilmente consegue ascender socialmente.

Esta disparidade passa muitas vezes despercebida no debate público porque a cobertura mediática dá prioridade às métricas do Instituto Nacional de Estatística focadas na pobreza imediata e na folha de pagamentos mensal. Em contrapartida, os relatórios do Banco de Portugal e da OCDE expõem a realidade mais crua: a valorização imobiliária galopante pós-2015 enriqueceu desproporcionalmente os grandes proprietários e fundos de investimento, enquanto esmagava o poder de compra das famílias dependentes de um salário.

Durante o período em que este abismo social se cavou, o país foi governado pelo Partido Socialista (PS) sob a liderança de António Costa - através do XXI Governo Constitucional (2015–2019), do XXII Governo Constitucional (2019–2022) e do XXIII Governo Constitucional (2022–2024). Foi nesta fase que Portugal ultrapassou os Estados Unidos (em 2017/2018) e Espanha (em 2019/2020) na inacessibilidade à habitação. A estagnação salarial combinada com o custo de vida inflacionado deixou a classe média e os jovens sem qualquer perspetiva de mobilidade social, alimentando uma sensação sufocante de injustiça e abandono por parte do Estado.

Esta vulnerabilidade estrutural foi novamente posta em evidência nas previsões macroeconómicas e recomendações que a Comissão Europeia publicou no âmbito do Semestre Europeu. Nas suas diretrizes para o país, Bruxelas sublinhou a urgência de acelerar a execução dos fundos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) direcionados para a habitação acessível, o reforço da produtividade e a sustentabilidade das contas públicas perante o envelhecimento demográfico. A Comissão Europeia alertou ainda que, sem reformas profundas que melhorem a eficiência dos serviços públicos e incentivem investimentos de alto valor acrescentado, os ganhos de rendimento arriscam-se a ser absorvidos pela pressão inflacionista do mercado imobiliário e pelos custos de vida.

É precisamente no terreno fértil desta desigualdade social sufocante e da lenta resposta institucional que o Chega constrói a sua força eleitoral. A perceção de que o sistema protege as elites económicas enquanto a maioria da população luta para pagar a renda transformou a frustração num voto punitivo de rutura. Para travar a expansão do populismo, o PS e o PSD não podem limitar-se a gerir o status quo: têm de acolher estas recomendações europeias e combater diretamente as causas desta fratura, promovendo reformas profundas na habitação, na justiça e nos serviços públicos para devolver aos cidadãos a certeza de que o trabalho compensa mais do que o privilégio acumulado.

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sábado, 20 de dezembro de 2025

Mariana Mortágua despediu-se do Parlamento e ouviu elogios de quase todas as bancadas


Mariana Mortágua despediu-se do Parlamento e ouviu elogios de quase todas as bancadas. Cumpriu e fê-lo, com elevação e ética, características que infelizmente já não abundam muito na Assembleia da República.
Como sempre, vejo as redes sociais a destilar ódio a quem combateu o sistema, como pôde. À Mariana devemos sobretudo o seu empenho em desmascarar a rede do BES e isso não interessa para esta gente que nunca gostaram de quem interfere e denuncia o poder podre do país. Doutorada em Economia pela Universidade de Londres. A Mariana já tem emprego, estejam descansados. Em princípio será Professora Universitária no ISCTE. Destaco três livros que são actuais, infelizmente:

1. "Isto é um Assalto" (2013)
Com ilustrações e BD de Nuno Saraiva e design de Rita Gorgulho, este livro descreve o assalto que Portugal está a sofrer. Eles estão a cobrar impostos acima das nossas possibilidades, a retirar subsídios de férias e de Natal que eram as nossas possibilidades, a destruir o Serviço Nacional de Saúde, a escola pública e a Segurança Social que deveriam ser a devolução dos nossos tributos. Eles querem tudo. Eles, a finança, cobram uma renda sobre o nosso futuro e ainda querem convencer-nos de que somos culpados. Por isso, em Isto é um Assalto, faz-se a conta e cobra-se a fatura: verá como os bancos foram financiados pelos nossos impostos, como a austeridade e a chantagem da dívida estão a criar o maior desemprego da história do nosso país, como a troika destrói a vida das pessoas.

2."Privataria" de 2015
«Portugal foi tricampeão de privatizações em 2012, 2013 e 2014, ocupando sempre, nesses anos, o primeiro lugar em volume de vendas a nível europeu. Esta revolução, pela sua escala e pelos setores alcançados - os correios e os aeroportos, por exemplo, tinham sido sempre públicos -, é isso mesmo: uma revolução. Mas a apropriação por privados (ou entidades estatais estrangeiras) de monopólios naturais e outros recursos estratégicos iniciou-se vinte anos antes. Com entoações diferentes, a justificação política foi sempre a da superioridade da gestão privada, aliada à pressão das instituições europeias para a redução do défice e da dívida, uma constante ao longo do tempo, ora em função das regras do "mercado comum", ora dos critérios de convergência para a moeda única, ora do memorando com a troika ou ora ainda do tratado orçamental europeu.»

3. "No Sonho Selvagem do Alquimista" de 2021
Como se cria o dinheiro? Quem é que controla a criação do dinheiro? E quem o detém? Como é que as nossas vidas são condicionadas pelo sistema financeiro mundial?
Neste livro destinado ao grande público, Mariana Mortágua explica os principais processos de criação de moeda e o modo de funcionamento dos bancos. Acompanhando a sua evolução desde a Idade Média, a autora reflete sobre o poder associado às relações financeiras e de dívida. E sobre as novas formas de poder financeiro, nomeadamente a «banca-sombra» e as criptomoedas. O principal argumento é que a moeda, a banca e a finança são demasiado importantes para se manterem fora do espaço de discussão e decisão democráticas.

E quanto ao seu papel, tão criticado pelos portugueses, quando fez parte da flotilha por Gaza, infelizmente a situação continua calamitosa, agravada com as inundações deste Inverno. O acordo de paz na Faixa de Gaza, que vigora desde 10 de outubro é um frágil cessar-fogo entre Israel e o grupo radical palestiniano. Os Palestinianos continuam vítimas de Netanyahu. Israel continua a restringir a ajuda humanitária vital (77% da população ainda sofre de fome aguda, apesar do cessar-fogo) e vários relatos mostram que o país viola o cessar-fogo, não apenas o Hamas como os media destacam mais, os habitantes de Gaza sofrem com tendas inundadas, fome, poluição e doenças.

sábado, 13 de dezembro de 2025

A fuga de talento jovem continua, apesar da narrativa ‘cor-de-rosa’


A ideia de que Portugal deixou para trás o problema da emigração jovem e da fuga líquida de talento não resiste a uma análise séria dos dados completos.

Esta crónica procuro desmontar uma narrativa recente — e agora convenientemente repescada — que retrata a economia portuguesa como estando numa trajetória excecionalmente favorável. Trata-se de uma leitura profundamente deslocada da realidade e enviesada, assente em dados incompletos e interpretações apressadas. Entre os seus argumentos mais repetidos está a ideia de que Portugal estaria finalmente a inverter o seu padrão de especialização, alegadamente sustentado por fluxos migratórios positivos e pelo regresso de jovens emigrantes altamente qualificados. Se tal fosse verdade, significaria que o país teria ultrapassado o problema estrutural da emigração jovem e da contínua fuga de talento.

Nada poderia estar mais distante dos factos. O saldo migratório positivo recentemente observado é essencialmente temporário e artificial, resultando de fatores extraordinários e não de uma mudança estrutural do modelo económico. A fuga de talento não só persiste como continua a refletir o baixo perfil de especialização da economia portuguesa, incapaz de oferecer, de forma consistente, oportunidades qualificadas e bem remuneradas. As leituras otimistas que sugerem o contrário assentam em dados incompletos e em análises que ignoram dimensões essenciais do fenómeno migratório.


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Infelizmente, este retrato “cor-de-rosa” está muito longe de corresponder à realidade. Como mostrarei de seguida, a evidência aponta no sentido inverso, revelando um quadro que contraria de forma quase absoluta essa visão simplista e auto-complacente. E a verdade é dura, mas incontornável: Sem reformas profundas que elevem o perfil de especialização da economia e criem oportunidades qualificadas em todo o território, Portugal continuará a perder jovens e qualificados, prolongando a sangria demográfica e comprometendo o seu potencial de desenvolvimento.

Saldo migratório dos ‘naturais’ positivo apenas conjuntural, já diminuto e dependente de apoios
Decompor o saldo migratório total — entradas menos saídas — entre o contributo dos estrangeiros e o dos nacionais, que inclui tanto os nascidos em Portugal como os que adquiriram a nacionalidade pelos mecanismos previstos na lei, com destaque para a naturalização, não é tarefa simples. Mais difícil ainda é isolar, dentro desse conjunto, o saldo migratório daqueles que efetivamente nasceram em Portugal, a que me refiro ao longo desta crónica como “naturais”.

Os principais resultados da análise encontram-se representados nas Figuras 1 e 2. Os valores dos saldos migratórios — não incluídos nas Figuras — podem ser consultados na parte C da Tabela 1 (que passarei a designar Tabela 1C), construída a partir dos dados de imigrantes (Tabela 1A) e de emigrantes (Tabela 1B). A Tabela 1 apresenta ainda (nas suas três partes), na última linha antes dos dados, o detalhe dos cálculos efetuados, e é acompanhada de notas explicativas, incluindo sobre as assunções relevantes utilizadas.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Nota de 7 euros de Ronaldo é falsa, alerta Banco de Portugal

Em causa está a emissão de uma nota, no valor de 7 euros, em homenagem ao futebolista Cristiano Ronaldo

O Banco de Portugal (BdP) alertou esta quinta-feira para publicações falsas, nas redes sociais, sobre a emissão de uma nota em homenagem ao futebolista Cristiano Ronaldo, esclarecendo que não o fez nem tem previsto emitir uma nota assim.

"O Banco de Portugal tem tomado conhecimento de publicações falsas, divulgadas nas redes sociais, relativamente à emissão, pelo Banco de Portugal, de uma nota, no valor de 7 euros, em homenagem ao futebolista Cristiano Ronaldo", lê-se no comunicado publicado esta quinta-feira.

O banco central reiterou que não emitiu nem colocou em circulação, nem tem previsto emitir ou colocar em circulação, "qualquer nota alusiva à personalidade em questão".

"Esclarece-se ainda que a emissão de notas de euro pelo Banco de Portugal é feita no quadro do Eurosistema", acrescentou o banco central.


O Eurosistema é a autoridade monetária da área do euro, composta pelo Banco Central Europeu (BCE) e pelos bancos centrais nacionais dos países da União Europeia que adotaram o euro. A sua principal função é manter a estabilidade de preços, e as suas atividades incluem a definição e implementação da política monetária, a realização de operações cambiais, a gestão das reservas cambiais e a promoção do bom funcionamento dos sistemas de pagamento. 

Composição e objetivos
Composição: O Eurosistema inclui o BCE e os bancos centrais nacionais dos Estados-Membros que adotaram o euro, como o Banco de Portugal.
Objetivo principal: Manter a estabilidade de preços na área do euro, procurando um aumento anual dos preços inferior, mas próximo, de 2%.

Outras funções:
  1. Salvaguardar a estabilidade financeira.
  2. Promover a integração financeira europeia.
  3. Emitir notas de euro.
  4. Compilar estatísticas. 
  5. Funcionamento
Tomada de decisões: As decisões de política monetária são tomadas pelo Conselho do BCE, que é composto pelos membros executivos do BCE e pelos governadores dos bancos centrais nacionais.

Implementação: A implementação dessas decisões é feita de forma descentralizada pelos bancos centrais nacionais. O Banco de Portugal, por exemplo, interage com as instituições bancárias portuguesas para executar as decisões do BCE no mercado nacional.

Instrumentos: O Eurosistema utiliza instrumentos como a fixação das taxas de juro diretoras, operações de mercado aberto, facilidades permanentes e programas de compra de ativos financeiros para influenciar a liquidez do sistema bancário. 

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Álvaro Santos Pereira - salário pornográfico


Álvaro Santos Pereira recebe mensalmente, como governador do Banco de Portugal, 19.496,39 €, o equivalente a 22 salários mínimos. Os restantes administradores, na foto, ganham “só” cerca de 17 mil. Qualquer um deles ganha mais do que o Presidente da Reserva Federal Americana. Um disparate crónico e revoltante que ninguém tem coragem de eliminar!

sábado, 11 de outubro de 2025

O truque silencioso dos Bancos para te fazer gastar mais


Os bancos sabem mais sobre ti do que imaginas. Não apenas quanto dinheiro tens mas como e quando o gastas. E é com essa informação que aplicam um truque silencioso, quase invisível, que te leva a gastar mais sem te aperceberes. Mas no que consiste o truque silencioso dos bancos?

Este truque dos bancos não é magia. É psicologia (e dados)
Todos os bancos modernos utilizam sistemas de análise comportamental. Ou seja, algoritmos que estudam os teus hábitos de consumo, horários, tipo de compras e até o humor que transpareces nas tuas transações. Sim, o teu cartão também fala. E é aqui que entra o truque.

Cartões virtuais são seguros? Só se fizeres isto antes da compra!
O “limite invisível” que muda tudo
Quando recebes um aumento automático do limite de crédito ou do plafond do cartão, parece um gesto simpático, certo? Na realidade, é uma jogada calculada.

O banco aumenta ligeiramente o teu limite para dar-te uma falsa sensação de folga financeira. Não é suficiente para parecer excessivo, mas o bastante para te fazer pensar: “posso comprar isto, ainda tenho margem”.

E é assim que pequenas compras, 20€ aqui, 30€ ali, transformam-se em dívidas com juros de 15%, 18%, até 25%.

Os arredondamentos “sem dor”
Outro truque muito comum são os pagamentos automáticos arredondados:
Cada vez que pagas com o cartão, o sistema arredonda o valor para cima e coloca os cêntimos “de lado”, geralmente num fundo de poupança ou numa conta associada.

Parece uma boa ideia e até pode ser mas psicologicamente desliga-te do valor real que estás a gastar. Pagas 19,20€ mas sentes que gastaste “menos de 20€”. Esse “quase nada” repetido dezenas de vezes por mês é o que mantém os lucros constantes dos bancos de retalho.

O atraso calculado das notificações
Já reparaste que às vezes as notificações das tuas compras demoram a chegar? Não é sempre erro da app. Alguns bancos atrasam propositadamente o envio de alertas quando o cliente está a fazer várias transações seguidas.

A ideia é simples: não interromper o fluxo de compras. Se recebes notificações a cada 10 segundos, paras para pensar. Mas se só chegas a casa e vês todas de uma vez, já é tarde  e o cartão já trabalhou por ti.

Como não cair nestas armadilhas
Não há como escapar completamente, mas há formas de contrariar a psicologia do sistema:
  1. Desativa limites automáticos e aumentos “pré-aprovados”.
  2. Vê o teu saldo real, não o “disponível”.
  3. Usa apenas alertas imediatos por SMS ou push.
  4. Evita cartões com pagamento diferido porque mascaram o impacto do gasto.
O segredo é simples: quanto mais consciência tens do que gastas, menos te conseguem influenciar.

quarta-feira, 14 de maio de 2025

Amadeu Guerra gasta 613 mil euros em nove carros



A Justiça em Portugal nem sempre é célere. Mas se, em muitos casos, a lentidão da Procuradoria-Geral da República (PGR) tem sido criticada, a partir de agora os magistrados do Palácio dos Duques de Palmela, junto ao Largo do Rato, não se podem sequer queixar da falta de bons meios de locomoção: a PGR acaba de contratar, em regime de aluguer operacional (AOV), nove viaturas ‘novinhas em folha’ para acelerar em serviço. Quantia gasta: 613.455 euros, uma média de 68 mil euros por veículo.

A despesa foi efectuada através de um concurso público, distribuído por três lotes, todos ganhos pela mesma empresa de Santarém, a PPL Car, sendo que os contratos foram assinados anteontem, com uma duração de seis anos. No final desse prazo, os carros serão devolvidos à PPL Car, que os pode revender no mercado de veículos usados.

Um dos lotes destinou-se à contratação de duas viaturas topo de gama que, por exigência da PGR, têm de estar equipadas com estofos em pele de cor preta, vidros traseiros escurecidos, faróis LED, assistente de estacionamento e um ‘pack premium plus’, segundo o caderno de encargos do procedimento.

Assim, neste caso, a PGR contratou duas viaturas novas híbridas ‘plug in’, da categoria ‘Superior I’, por 176.234 euros (IVA incluído), resultando num preço médio por viatura de 88.117 euros. Nas especificações técnicas, além de terem de ter quatro portas, estas duas viaturas têm ainda de ter entre 1.900 e 2.500 centímetros cúbicos de cilindrada e uma carroçaria ‘Sedan’.

Embora o contrato não explicite a marca, os preços e especificações são compatíveis com o BMW 530e, um modelo de luxo que atinge os 230 quilómetros por hora, ou alguns modelos da gama Mercedes GLC, que se fica pelos 220 quilómetros por hora, bem como o Lexus ES Luxury.

No segundo lote, a PGR alugou quatro viaturas novas híbridas, de categoria média inferior, pelo preço de 235.569 euros, uma média de quase 59 mil euros por veículo. A carroçaria destas viaturas tem de ser ‘Sedan’ ou ‘Berlina’ com 1.300 a 1.800 centímetros cúbicos de cilindrada. Têm de vir equipadas com faróis LED e câmara traseira, entre outros acessórios.

Num terceiro lote que foi a concurso público, a PGR contratou três viaturas novas da categoria ‘médio superior III’ por 201.651 euros, com o preço médio a rondar os 67mil euros. A cilindrada destas viaturas de quatro ou cinco portas deve situar-se entre os 1.350 e os 2.500 centímetros cúbicos e vir apetrechadas com faróis LED, câmara traseira, sistema de navegação e ar-condicionado em três zonas.

Neste tipo de aluguer de viaturas, o fornecedor tem de prestar “serviços obrigatórios associados ao fornecimento dos veículos”, designadamente, os serviços de gestão de encomenda, de entrega e de documentação, bem como a gestão de manutenção preventiva e correctiva. Tem também de fazer a gestão de pneus, de veículos de substituição, de seguro automóvel, de sinistros, e do Imposto Único Automóvel durante o período de vigência do contrato de ‘renting’, que neste caso é de 72 meses.

Segundo os requisitos da PGR, “os veículos são fornecidos em estado novo com o máximo de 100 quilómetros registados, com exceção dos casos em que a distância entre o concessionário e o local de entrega seja superior, não podendo ultrapassar os 400 quilómetros”.

As viaturas “deverão ser entregues nas instalações da PGR, sitas em Lisboa na Rua da Escola Politécnica, 140, no prazo máximo” de 60 dias, no caso do lote 1, e 90 dias, nos dois restantes lotes contratados.

Para a PPL Car, que venceu os três concursos públicos lançados pela PGR, este foi o seu maior negócio com entidades públicas. A empresa tem vindo a acelerar a sua presença no sector público nos últimos dois anos.

Até 2024, a empresa de Santarém ganhava poucos contratos junto de entidades públicas. O primeiro foi em 2015, seguiu-se outro em 2016 e outro em 2017. Em 2020, ganhou dois e em 2022 venceu um. Até então, todos os contratos foram obtidos por ajuste directo. Em 2023, a empresa obteve dois por consulta prévia.

A maré mudou em 2024, quando a PPL Car ganhou seis contratos públicos dos quais dois através de ajuste directo, um por consulta prévia, um por concurso e dois através do procedimento ‘Setores especiais – isenção parte II’, junto da AS – Empresa das Águas de Santarém.

Este ano, em cinco meses, a PPL Car já venceu nove procedimentos por concurso público e um por ajuste directo. Ou seja, dos 26 contratos públicos que a empresa tem registados no Portal Base numa década, 16 foram obtidos apenas nos últimos dois anos.

Os outros contratos públicos que a PPL Car conseguiu este ano foram com a EDM – Empresa de Desenvolvimento Mineiro, S. A., a Entidade Nacional para o Setor Energético, a ADENE – Agência para a Energia, os municípios de Vagos e de Catanhede, a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo, e a Metro do Porto, com a qual a empresa conseguiu fechar três contratos.

No caso dos três lotes colocados pela PGR a concurso público, ficaram pelo caminho as outras duas concorrentes, a Leaseplan Portugal e a Locarent-Companhia Portuguesa de Aluguer de Viaturas, que perderam a corrida contra a empresa de Santarém. Até porque a PPL Car apresentou um valor global abaixo do máximo previsto no caderno de encargos dos três lotes que previa uma despesa de 639 mil euros.

Ainda assim, os contribuintes vão ficar com um encargo mensal de 8.520 euros para suportar o aluguer destas nove viaturas agora contratadas pela PGR.

domingo, 16 de junho de 2024

Banco Mundial prepara Relatório sobre Clima e Desenvolvimento em Cabo Verde


O Banco Mundial vai apresentar este ano um Relatório sobre Clima e Desenvolvimento (CCDR, sigla inglesa) dedicado a Cabo Verde, devido aos riscos que o arquipélago enfrenta, anunciou a instituição.

“O Banco Mundial está a levar a sério estes desafios e está a preparar um Relatório sobre Clima e Desenvolvimento dedicado a Cabo Verde, em estreita colaboração com o Governo”, lê-se no mais recente boletim de atualização económica da instituição.

Fonte do Banco Mundial (BM) contactada pela Lusa referiu que a publicação deverá ser feita ainda este ano.

A instituição classifica Cabo Verde como “o país com o maior risco de desastres climáticos na África Subsariana e um dos níveis de risco mais elevados a nível global”.

Os episódios de secas cíclicas prolongadas, desertificação e eventos extremos de precipitação que causam cheias repentinas, especialmente nas áreas urbanas, são exemplos das ameaças.

A subida do nível do mar, a erosão costeira e a perda de biodiversidade e ecossistemas são problemas que afetam particularmente as praias e zonas costeiras, “pondo em risco a sustentabilidade do setor do turismo”, o motor da economia.

“As mudanças na temperatura da superfície do mar, salinidade, acidez e níveis de oxigénio terão provavelmente efeitos catastróficos nas pescas”, acrescenta o último boletim do BM em relação a outra área de atividade, a pesca, responsável pela maioria da exportação de bens e pela segurança alimentar.

No caso de Cabo Verde, um dos objetivos do relatório será ajudar a compreender os impactos das alterações climáticas sobre a quantidade de captura de peixe e a sua composição ao longo do tempo, algo “vital para construir resiliência e adaptação no setor”.

O BM destaca a parceria do Governo de Cabo Verde com a Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) para realizar um estudo abrangente sobre os impactos das alterações climáticas nas pescas, com ênfase na importância socioeconómica para o país.

Os relatórios CCDR foram produzidos inicialmente para 25 países e estão a ser implementados em todos os países do Grupo Banco Mundial.

O objetivo é envolver Governos, setor privado, meio académico, grupos de reflexão e a sociedade civil na discussão sobre as mudanças climáticas.

Enquanto documentos públicos, pretendem ajudar a enquadrar ações na agenda do desenvolvimento e clima, assim como sinalizar ações de alto impacto que podem atrair financiamento.

“Este diagnóstico central integra as mudanças climáticas com o desenvolvimento para ajudar a priorizar as ações mais eficazes na mitigação das emissões de gases com efeito de estufa”, acrescenta o BM.

Cabo Verde tem apresentado como um bom exemplo a nível internacional a iniciativa celebrada com Portugal de troca de dívida por financiamento orientado para o clima.

Portugal assumiu em 2023 o compromisso de ser o primeiro participante no fundo climático de Cabo Verde, com 12 milhões de euros, para projetos relacionados com o reforço de energias renováveis.

Ainda no que respeita às alterações climáticas, o Fundo Monetário Internacional (FMI) está a apoiar o arquipélago com um financiamento de 31,7 milhões de dólares (29,3 milhões de euros) ao abrigo do Mecanismo de Resiliência e Sustentabilidade (RSF).

O apoio destina-se aos esforços do Governo em áreas relacionadas com a captação de investimento externo e reformas governamentais para mitigação das alterações climáticas e transição energética.

O primeiro-ministro de Cabo Verde, Ulisses Correia e Silva, tem defendido a criação de novos mecanismos de financiamento para os pequenos Estados insulares poderem enfrentar alterações climáticas sem recorrer às verbas orçamentadas para o desenvolvimento.

Da mesma forma, defende o recurso a índices ajustados às características dos Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento (SIDS, sigla inglesa), saudando a criação de um Índice de Vulnerabilidade Multidimensional pelas Nações Unidas, com a capacidade de ajustar a elegibilidade para financiamentos à realidade dos países.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

A pobreza é uma estratégia ideológica no nosso País, por Raquel Varela

Se usarmos outra metodologia para a pobreza podemos chegar aos 70% de pobres em Portugal: se contabilizarmos acesso à cultura, aprendizagem de artes, férias e lazer, compra de proteína de qualidade, ar puro e vida activa na zona urbana de moradia das famílias, saúde na velhice, no fundo se utilizarmos a qualidade de vida do século XXI em vez dos índices de privação - alguns do século XIX - o que temos é um país de onde desapareceram as classes médias, engolidas em impostos, salário muito abaixo do mínimo para 50% da população trabalhadora (abaixo dos 1200 euros).
A Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030 (ENCP) não elimina a pobreza. Cria novos pobres e encobre problemas sociais de desemprego e baixos salários que se perpetuam já há alguns anos.



quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Portugal deveria construir uma Central Nuclear?




1. O custo do MWh produzido depende do fator de capacidade e da taxa utilizada para descontar os “cash flows” do projeto. Para o mostrar, construímos uma tabela para o grupo nuclear de 1420 MW.

Verifica-se que, para um fator de capacidade de 50% e uma taxa de desconto de 7,5%, o custo do MWh produzido é de $176.

Mesmo com valores de capacidade e taxas de desconto muito favoráveis, o nuclear fica com custos muito para lá do que se consegue com eólica ou solar.

2.A taxa de desconto é outro factor chave no custo do MWh produzido no qual 2.5% de redução da taxa de desconto vale mais que 10% de factor de capacidade durante toda a vida do activo.

A taxa de desconto depende desde logo da taxa de juro da república de longo prazo que neste momento se encontra a crescer.

Depende ainda do modelo comercial da energia produzida. Quanto menor o risco assumido pelos promotores, mais baixa será a taxa. Quanto mais longo for o contrato, menor será a taxa.

Uma taxa baixa consegue-se se o sistema assumir riscos de inflação, sobrecustos de construção e até mesmo um factor de capacidade mínimo tipo take-or-pay.

Hinkley C tem um contrato de 35 anos que a valores de 2021 é de £106/MWh. No ultimo leilão solar em Portugal, os preços fixaram-se em menos de 20€/MWh para 15 anos.

3.Um outro aspecto essencial do contrato será a questão da segurança e do risco de acidente. É óbvio que se constrói a central para que não haja acidentes e as centrais são tão seguras quanto é possível fazê-las, mas o contrato tem de prever o que acontece e como são geridos os custos.

Um projecto nuclear terá que ter um backstop a partir do qual os custos são assumidos pelo Estado. Quanto mais alto for o backstop, mais alta será a taxa de desconto.

4. No nosso modelo, considerámos que a construção levaria 6 anos. Mas o provável é que demorasse pelo menos 10 anos, e que os estudos prévios, demorassem 5 anos.

Qualquer atraso no início de funcionamento da central, atrasa o início de “cash flows” positivos, e tem um grande impacto no custo de MWh e ou rentabilidade do projecto.

No mundo real vale a pena olhar para os casos das centrais europeias recentes, de Hinkley C e de Olkiluoto 3, que tiveram tempos de construção de 17 anos.

5. Concluindo. A construção de uma central nuclear tem um custo do MWh nuclear não competitivo com o MWh renovável porque não trabalha horas suficientes para recuperar o investimento e precisa de um contrato comercial com baixo perfil de risco, difícil de assumir socialmente, para poder ser financiável

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Documentário - Uma história do neoliberalismo em Portugal


Desde os anos 80, as ideias económicas conhecidas por neoliberais tornaram-se dominantes em Portugal. A sua aplicação, em consonância com a integração europeia, modificou as estruturas económicas, mas registou fracos resultados no desenvolvimento do país. Como foi que essas ideias chegaram a Portugal, se difundiram e espalharam até se tornarem hegemónicas? E por que é tão difícil removê-las? Este filme procura responder as estas perguntas e questionar o futuro.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Eficácia de medidas verdes para setor financeiro levanta dúvidas


Lisboa, 02 fev 2022 (Lusa) - As questões do reporte ligadas à sustentabilidade levantam dúvidas de implementação e eficácia e o uso de subsídios pelo sistema financeiro à energia verde pode ter efeitos contraproducentes, segundo um estudo de economistas do Banco de Portugal (BdP).

No 'occasional paper' “Alterações climáticas e economia: uma introdução”, divulgado hoje, os economistas do BdP mostram-se céticos entre a eficácia das medidas dirigidas ao setor financeiro para mitigar o impacto das alterações climáticas e aquelas que têm sido as diretrizes para o sistema financeiro, nomeadamente as medidas anunciadas na estratégica de política monetária do Banco Central Europeu.

“O primeiro passo na análise de medidas dirigidas ao sistema financeiro deve passar por identificar as falhas de mercado às quais estas podem responder”, pode ler-se no 'paper' assinado por Bernardino Adão, António Antunes, Miguel Gouveia, Nuno Lourenço e João Vale e Azevedo.

No estudo, cujas opiniões não vinculam o BdP, os economistas identificam como falhas as insuficiências no reporte de informação sobre os efeitos ambientais de determinadas indústrias ou empresas e sobre a sua suscetibilidade às alterações climáticas, “que podem gerar um escasso reconhecimento do risco que lhes está associado, e consequente excessivo investimento”, bem como “externalidades de determinadas atividades, que serão negativas se gerarem emissões de GEE [Emissões de Gases com Efeito de Estufa] demasiado elevadas face ao que seria socialmente desejável” e “positivas no caso de investimento demasiado baixo em desenvolvimento e adoção de tecnologias de energias renováveis, caracterizadas por ganhos na produção em massa ou economias de rede”.

Para os economistas a primeira falha “pode ser colmatada com divulgação adicional de informação; as segundas podem ser resolvidas com medidas fiscais ou equivalentes”, considerando que medidas enquadráveis na regulação e supervisão do sistema financeiro, como “a divulgação padronizada de dados ambientais pelas empresas e a correspondência com uma taxonomia globalmente aceite” iriam contribuir para uma “melhor avaliação dos riscos climáticos e do impacto ambiental das empresas por parte dos consumidores e dos investidores”.

Contudo, alertam ser “necessário garantir que a qualidade do reporte exigido seja verificável e que os respetivos custos não sejam demasiado elevados”.

Os economistas argumentam ainda que “as questões de reporte são relevantes para a aferição e controle de risco, dimensão que tem assumido um papel relevante no desenho de políticas dirigidas ao sistema financeiro”.

No entanto, relativamente às propostas para um tratamento regulatório mais favorável, em termos de requisitos de capital e outros, a crédito “verde”, ou crédito a empresas ou projetos com esta vertente, argumentam que “o objetivo dos requisitos de capital é garantir que os bancos têm capacidade de absorver perdas”.

“À partida, não há razões para crer que os projetos verdes têm menos risco do que outros projetos. De facto, este tipo de políticas parece ter como objetivo sintetizar um subsídio a atividades verdes. Em qualquer caso, levantam questões relevantes de implementação e eficácia”, assinalam.

Os economistas apontam, neste sentido, “a enorme dificuldade em caracterizar projetos ou empresas de acordo com o seu caráter verde”.

Argumentam ainda que a “existência de um regime mais favorável cria incentivos à designada arbitragem regulatória, que, neste caso, irá no sentido de designar quaisquer projetos ou empresas como verdes”, considerando que seria “necessária uma camada adicional de escrutínio à supervisão do sistema financeiro, que pode resultar num significativo dispêndio de recursos”.

“Do ponto de vista dos bancos também haveria dispêndio de recursos na exploração da diferença de tratamento regulatório entre os tipos de crédito. Em geral, este custo seria tanto maior quanto mais favorável fosse o tratamento regulatório dos projetos verdes”, acrescentam.

Classificam ainda como “difícil garantir que um determinado financiamento se destina a um fim específico dentro de uma empresa ou grupo empresarial” e advertem que “nada impede que formas não bancárias de financiamento ou financiamento externo com origem em jurisdições mais lenientes nesta dimensão, num contexto de livre circulação de capitais, continuem a suportar as atividades pouco verdes”.

“Tal deveria suceder porque estas medidas são ineficazes para reduzir a diferença, que pode ser muito significativa, entre o retorno privado e o retorno social de projetos intensivos em GEE”, referem.

Os economistas consideram ainda que a subsidiação de atividades verdes, através da compra de obrigações verdes ou, no contexto de operações de refinanciamento aos bancos “pode ter efeitos contrapruducentes”.

Ainda assim, admitem que tal “não impede que os bancos centrais, enquanto organizações relevantes, cumpram critérios de sustentabilidade e responsabilidade corporativa”.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

The Neoliberal Looting of America

Não foi só a América que foi saqueada pelo neoliberalismo: o artigo pode ser generalizado a quase todo o mundo desenvolvido. Poucos ideólogos terão feito tanto mal ao mundo como Friedrich Hayek.


“It’s hard to separate what’s good for the United States and what’s good for Bank of America,” said its former chief executive, Ken Lewis, in 2009. That was hardly true at the time, but the current crisis has revealed that the health of the finance industry and stock market are completely disconnected from the actual financial health of the American people. As inequality, unemployment and evictions climb, the Dow Jones surges right alongside them — one line compounding suffering, the other compounding returns for investors.

One reason is that an ideological coup quietly transformed our society over the last 50 years, raising the fortunes of the financial economy — and its agents like private equity firms — at the expense of the real economy experienced by most Americans.

The roots of this intellectual takeover can be traced to a backlash against socialism in Cold War Europe. Austrian School economist Friedrich A. Hayek was perhaps the most influential leader of that movement, decrying governments who chased “the mirage of social justice.” Only free markets can allocate resources fairly and reward individuals based on what they deserve, reasoned Hayek. The ideology — known as neoliberalism — was especially potent because it disguised itself as a neutral statement of economics rather than just another theory. Only unfettered markets, the theory argued, could ensure justice and freedom because only the profit motive could dispassionately pick winners and losers based on their contribution to the economy.

Neoliberalism leapt from economics departments into American politics in the 1960s, where it fused with conservative anti-communist ideas and then quickly spread throughout universities, law schools, legislatures and courts. By the 1980s, neoliberalism was triumphant in policy, leading to tax cuts, deregulation and privatization of public functions including schools, pensions and infrastructure. The governing logic held that corporations could do just about everything better than the government could. The result, as President Ronald Reagan said, was to unleash “the magic of the marketplace.”

The magic of the market did in fact turn everything into gold — for wealthy investors. Neoliberalism led to deregulation in every sector, a winner-take-all, debt-fueled market and a growing cultural acceptance of purely profit-driven corporate managers. These conditions were a perfect breeding ground for the private equity industry, then known as “leveraged buyout” firms. Such firms took advantage of the new market for high-yield debt (better known as junk bonds) to buy and break up American conglomerates, capturing unprecedented wealth in fewer hands. The private equity industry embodies the neoliberal movement’s values, while exposing its inherent logic.

Private equity firms use money provided by institutional investors like pension funds and university endowments to take over and restructure companies or industries. Private equity touches practically every sector, from housing to health care to retail. In pursuit of maximum returns, such firms have squeezed businesses for every last drop of profit, cutting jobs, pensions and salaries where possible. The debt-laden buyouts privatize gains when they work, and socialize losses when they don’t, driving previously healthy firms to bankruptcy and leaving many others permanently hobbled. The list of private equity’s victims has grown even longer in the past year, adding J.Crew, Toys ‘R’ Us, Hertz and more.

In the last decade, private equity management has led to approximately 1.3 million job losses due to retail bankruptcies and liquidation. Beyond the companies directly controlled by private equity, the threat of being the next takeover target has most likely led other companies to pre-emptively cut wages and jobs to avoid being the weakest prey. Amid the outbreak of street protests in June, a satirical headline in The Onion put it best: “Protesters Criticized For Looting Businesses Without Forming Private Equity Firm First.” Yet the private equity takeover is not technically looting because it has been made perfectly legal, and even encouraged, by policymakers.

According to industry experts, 2019 was one of the most successful years for private equity to date, with $919 billion in funds raised. The private equity executives themselves can also garner tremendous riches. Their standard fee structure involves collecting around 2 percent of the investor money they manage annually, and then 20 percent of any profits above an agreed-upon level. This lucrative arrangement also lets them tap into the very favorable “carried interest” tax loophole, allowing them to pay much lower capital gains tax rates on their earnings, rather than normal income taxes like most people.

An examination of the recent history of private equity disproves the neoliberal myth that profit incentives produce the best outcomes for society. The passage of time has debunked another such myth: that deregulating industries would generate more vibrant competition and benefit consumers. Unregulated market competition actually led to market consolidation instead. Would-be monopolies squeezed competitors, accrued political power, lobbied for even more deregulation and ultimately drove out any rivals, leading inexorably to entrenched political power. Instead of a thriving market of small-firm competition, free market ideology led to a few big winners dominating the rest.

Take the banking sector. For most of American history, banks were considered a public privilege with duties to promote the “best interest of the community.” If a bank wanted to merge or grow or offer new services, the regulators often denied the request either because a community could lose a bank branch or because the new product was too risky. During the neoliberal revolution of the 1980s and ’90s, Congress and bank regulators loosened the rules, allowing a handful of megabanks to swallow up thousands of small banks.

Today, five banks control nearly half of all bank assets. Fees paid by low-income Americans have increased, services have been curtailed and many low-income communities have lost their only bank. When federally subsidized banks left low-income communities, vulture-like fringe lenders — payday, title, tax-refund lenders — filled the void. As it turns out, private equity firms are invested in some of the largest payday lenders in the country.

Faith in market magic was so entrenched that even the 2008 financial crisis did not fully expose the myth: We witnessed the federal government pick up all the risks that markets could not manage and Congress and the Federal Reserve save the banking sector ostensibly on behalf of the people. Neoliberal deregulation was premised on the theory that the invisible hand of the market would discipline risky banks without the need for government oversight. Even a former Fed chairman, Alan Greenspan, the most committed free market fundamentalist of the era, admitted in the understatement of the century, that “I made a mistake.”

We can start fixing the big flaws propagated over the last half century by taxing the largest fortunes, breaking up large banks and imposing market rules that prohibit the predatory behaviors of private equity firms.

Public markets can take over the places that private markets have failed to adequately serve. Federal or state agencies can provide essential services like banking, health care, internet access, transportation and housing at cost through a public option. Historically, road maintenance, mail delivery, police and other services are not left to the market, but provided directly by the government. Private markets can still compete, but basic services are guaranteed to everyone.

And we can move beyond the myths of neoliberalism that have led us here. We can have competitive and prosperous markets, but our focus should be on ensuring human dignity, thriving families and healthy communities. When those are in conflict, we should choose flourishing communities over profits.

Mehrsa Baradaran (@MehrsaBaradaran) is a professor of law at the University of California, Irvine, and author of “The Color of Money: Black Banks and the Racial Wealth Gap.”

Saber mais:

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Excelente documentário: Quando a Europa salva os bancos, quem paga?



Excelente documentário do canal Arte de Junho de 2013 sobre os beneficiários dos resgates bancários na Europa - não, não foram os países nem sequer os cidadãos que com os seus impostos pagam estes regates. Trata-se de um documentário extremamente sóbrio e objectivo. Inclui entrevistas a vários ministros das finanças europeus, a ex-administradores de bancos (os actuais não dão entrevistas), a activistas, etc. Mostra quem realmente beneficiou dos resgates e mostra também as profundas consequências destes resgates.

Dossiê Austericídio foi actualizado.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

“Habitação Colaborativa” – Uma opção que ganha adeptos em tempo de crise

Le Grand Portail, Nanterre

A “habitação colaborativa”, modelo originário do norte da Europa, chega a Espanha como uma forma de aceder a uma casa sem necessidade de hipotecas ou bancos, constituindo uma alternativa para pessoas que não querem acabar num lar de idosos.

A cohousing  é uma alternativa às soluções de habitação tradicionais que funciona há mais de cem anos nos países escandinavos, na Alemanha, América Latina, Estados Unidos ou Grã-Bretanha. Na Dinamarca, 10% das habitações funcionam segundo este modelo.

Em Espanha, existem diversas associações que promovem esta ideia sob uma cultura de poupança e eficiência, proporcionando o acesso a casas fora do circuito comercial e em que o respetivo uso e gestão se faz de forma cooperativa.

Um destes movimentos é o grupo Cover, que procura cinco famílias para impulsionar casas colaborativas em Maeztu (Álava), a escassos quilómetros de Vitória.

Em julho, a Cover lançará uma plataforma que reunirá interessados que desejem implementar este tipo de projetos em Espanha, por forma a partilhar informações e unir forças.

Entre as vantagens que podem ser encontradas neste tipo de solução de habitação estarão os respetivos custos, que são “significativamente mais reduzidos” que os de uma habitação comum, pois as pessoas compartilham bens e serviços como por exemplo máquinas de lavar, internet, automóvel ou até financiamentos, se os houver.

As casas são propriedade da cooperativa, e os seus membros desfrutam da respetiva utilização vitalícia através do direito que adquirem.

Além disso, a construção é sustentável, como é o caso da aldeia de finais do século XVIII em Maeztu, que acolherá um grupo de famílias dispostas a viver e conviver segundo valores que cultivam a coesão social.

Ritxar Bacete, líder da Cover e do projeto de Maeztu, explicou em entrevista à Efe que pretendem construir nesta aldeia cinco apartamentos com cerca de 45 metros quadrados para cada família, a que acrescem amplos espaços comuns.

Bacete garante que cada vez mais gente se interessa por este tipo de solução de habitação, pois com a crise as pessoas vão-se apercebendo de que “necessitam sentir-se apoiadas pela comunidade, uma vez que o Estado não as protege e o mercado não lhes proporciona oportunidades”, sublinhou.

Em Euskadi existem outras iniciativas parecidas, tal como a protagonizada pela Etxekoop, uma organização que procura um imóvel para levar a cabo este tipo de projeto; em Madrid, a associação Jubilares conseguiu após 12 anos pôr de pé um “cohousing” prestando agora apoio ativo a outras associações também autogeridas.

Em San Sebastián, a associação de pessoas idosas Housekideak também pretende fazer algo semelhante porque os seus membros querem ser eles próprios a decidir com irão viver o seu tempo de reforma, explicou Bacete.

O perfil mais ativo no mercado da procura de habitação colaborativa é o das “pessoas com mais de 50 anos que objetivamente viveram segundo padrões de vida acima da média e que não se revêem no conceito tradicional da residência de idosos”, como sublinhou.

Este conceito é aliás o ideal para fomentar a entreajuda nas diferentes etapas da vida.

Os reformados da comunidade gay constituem o segundo maior grupo na procura da cohousing, pois tendo um dia dado o passo de tornar pública a sua orientação sexual “não querem agora voltar ao armário entrando numa residência tradicional”, disse Bacete, que deu como exemplo um projeto desse tipo em Rivas Vaciamadrid.

Famílias monoparentais reconhecem também nesta forma de vida uma opção para poder conciliar trabalho com dedicação aos seus filhos.

Outra caraterística da cohousing é que as pessoas procuram viver em comunidade, apoiando-se mutuamente, estabelecendo regras de convivência também comuns.

A diferença para uma comunidade hippie é no entanto substancial, pois cada família vive em habitações privadas tendo garantido o seu espaço pessoal.

A cultura dominante da “defesa da privacidade” é ainda um impedimento para o avanço da cohousing, contudo cada vez mais pessoas já perceberam que a condição de proprietário individual se tornou para os próprios uma verdadeira “prisão”, opinou Bacete.

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

A quem pertence o banco central europeu?

O Banco Central Europeu, ou BCE, pouco o nada tem a ver com a União Europeia.

Ao juntar os termos "Central" e "Europeu", a ideia era transmitir a sensação de que este fosse o banco da União.
E a ideia passou, pois muitos confundem as duas coisas.
Mas a verdade é bem diferente.





Se ainda existirem dúvidas acerca da total independência do BCE, é bom ler o Artigo 130 (ex-artigo 108 do TCE):

No exercício dos poderes e no cumprimento das tarefas e deveres que lhes são conferidos pelos Tratados e pelos Estatutos do SEBC e do BCE, nem o Banco Central Europeu, nem os bancos centrais nacionais, nem qualquer membro dos respectivos órgãos de decisão podem solicitar ou receber instruções das instituições, órgãos ou agências da União, dos governos dos Estados-Membros ou de qualquer outra entidade.

Instituições, órgãos e agências da União e os governos dos Estados-membros se comprometem a respeitar este princípio e a não tentar influenciar os órgãos de decisão do Banco Central Europeu ou dos bancos centrais nacionais no exercício das suas funções.

No documento de 18 de Dezembro de 2003, "Das percentagens detidas pelos bancos centrais europeus no esquema de subscrição dos capitais do Banco Central Europeu", assinado pelo Presidente Jean-Claude Trichet e publicado na Gazeta Oficial da União Europeia (15.1.2004 L 9/28), é possível observar a quem pertence, de facto, a mesma BCE.

Eis as percentagens detidas pelas várias instituições financeiras:
Nationale Bank van België/Banque Nationale de Belgique 2,8297 %
Danmarks Nationalbank 1,7216 %
Deutsche Bundesbank 23,4040 %
Bank of Greece 2,1614 %
Banco de España 8,7801 %
Banque de France 16,5175 %
Central Bank and Financial Services Authority of Ireland 1,0254 %
Banca d'Italia 14,5726 %
Banque centrale du Luxembourg 0,1708 %
De Nederlandsche Bank 4,4323 %
Oesterreichische Nationalbank 2,3019 %
Banco de Portugal 2,0129 %
Suomen Pankki 1,4298 %
Sveriges Riksbank 2,6636 %
Bank of England 15,9764 %

Duas coisas bastantes interessantes: a presença da Bank of England, isso é, do banco central dum País que ainda não adoptou o Euro como moeda oficial, e o facto do documento falar de forma explicita de senhoriagem.

O mesmo princípio aplica-se à repartição dos proveitos monetários dos BCN [bancos centrais nacionais, NDT] em conformidade com o artigo 32.1 do Estatuto, à distribuição da receita de senhoriagem, à remuneração dos créditos dos BCN iguais aos activos de reserva transferidos para o BCE [...]

Um assunto particularmente complexo este último, mas que cedo ou tarde terá de ser enfrentado dada a importância.

A quem pertencem os bancos nacionais? Mas agora vamos em frente na nossa viagem.

Estabelecido o facto da BCE pertencer aos vários bancos centrais, a próxima pergunta que segue é: a quem pertencem os bancos centrais dos vários Países? Também neste caso a resposta pode parecer óbvia: tal como o Banco Central Europeu deveria pertencer à União Europeia, assim os bancos centrais nacionais deveriam pertencer aos vários Estados nacionais.Deveria, mas não é.

Descobrir os verdadeiros donos é muito difícil: os bancos centrais não gostam de divulgar este tipo de noticia. Mas temos sorte. O banco central italiano, a Banca d'Italia, publica na internet a lista das instituições que detêm as quotas de participação e que têm direito de voto.

Eis a lista completa:
Participante Quota participação/número de votos
Intesa Sanpaolo S.p.A. 91.035/50
UniCredit S.p.A. 66.342/50
Assicurazioni Generali S.p.A. 19.000/42
Cassa di Risparmio in Bologna S.p.A. 18.602/41
INPS 15.000/34
Banca Carige S.p.A. - Cassa di Risparmio di Genova e Imperia 11.869/27
Banca Nazionale del Lavoro S.p.A. 8.500/21
Banca Monte dei Paschi di Siena S.p.A. 7.500/19
Cassa di Risparmio di Biella e Vercelli S.p.A. 6.300/16
Cassa di Risparmio di Parma e Piacenza S.p.A. 6.094/16
Cassa di Risparmio di Firenze S.p.A. 5.656/15
Fondiaria - SAI S.p.A. 4.000/12
Allianz Società per Azioni 4.000/12
Cassa di Risparmio di Lucca Pisa Livorno S.p.A. 3.668/11
Cassa di Risparmio del Veneto S.p.A. 3.610/11
Cassa di Risparmio di Asti S.p.A. 2.800/9
Cassa di Risparmio di Venezia S.p.A. 2.626/9
Banca delle Marche S.p.A. 2.459/8
INAIL 2.000/8
Milano Assicurazioni 2.000/8
Cassa di Risparmio del Friuli Venezia Giulia S.p.A. (CARIFVG S.P.A.) 1.869/7
Cassa di Risparmio di Pistoia e Pescia S.p.A. 1.126/6
Cassa di Risparmio di Ferrara S.p.A. 949/5
Cassa di Risparmio di Alessandria S.p.A. 873/5
Cassa di Risparmio di Ravenna S.p.A. 769/5
Banca Regionale Europea S.p.A. 759/5
Cassa di Risparmio di Fossano S.p.A. 750/5
Cassa di Risparmio di Prato S.p.A. 687/5
Unibanca S.p.A. 675/5
Cassa di Risparmio di Ascoli Piceno S.p.A. 653/5
Cassa di Risparmio di S. Miniato S.p.A. 652/5
Cassa dei Risparmi di Forlì e della Romagna S.p.A. 605/5
Banca Carime S.p.A. 500/5
Società Reale Mutua Assicurazioni 500/5
Cassa di Risparmio di Fabriano e Cupramontana S.p.A. 480/4
Cassa di Risparmio di Terni e Narni S.p.A. 463/4
Cassa di Risparmio di Rimini S.p.A. - CARIM 393/3
Cassa di Risparmio di Bolzano S.p.A. 377/3
Cassa di Risparmio di Bra S.p.A. 329/3
Cassa di Risparmio di Foligno S.p.A. 315/3
Cassa di Risparmio di Cento S.p.A. 311/3
CARISPAQ - Cassa di Risparmio della Provincia dell'Aquila S.p.A. 300/3
Cassa di Risparmio della Spezia S.p.A. 266/2
Cassa di Risparmio della Provincia di Viterbo S.p.A. 251/2
Cassa di Risparmio di Orvieto S.p.A. 237/2
Cassa di Risparmio di Città di Castello S.p.A. 228/2
Banca Cassa di Risparmio di Savigliano S.p.A. 200/2
Cassa di Risparmio di Volterra S.p.A. 194/1
Cassa di Risparmio della Provincia di Chieti S.p.A. 151/1
Banca CRV Cassa di Risparmio di Vignola S.p.A. 130/1
Cassa di Risparmio di Fermo S.p.A. 130/1
Cassa di Risparmio di Savona S.p.A. 23/1
TERCAS - Cassa di Risparmio della Provincia di Teramo S.p.A. 115/1
Cassa di Risparmio di Civitavecchia S.p.A. 111/1
CARIFANO - Cassa di Risparmio di Fano S.p.A. 101/1
Cassa di Risparmio di Carrara S.p.A. 101/1
CARILO - Cassa di Risparmio di Loreto S.p.A. 100/1
Cassa di Risparmio di Spoleto S.p.A. 100/1
Cassa di Risparmio della Repubblica di S. Marino S.p.A. 36/ -
Banca CARIPE S.p.A. 8/ -
Banca Monte Parma S.p.A. 8/ -
Cassa di Risparmio di Rieti S.p.A. 8/ -
Cassa di Risparmio di Saluzzo S.p.A. 4/ -
Banca del Monte di Lucca S.p.A. 2/ -
Total quotas: 300.000 Total votos: 539

No meio desta floresta de bancos privados é possível encontrar duas participações do Estado Italiano: INPS, com 15.000 quotas e 34 votos, e INAIL, 2.000 quotas e 8 votos. Assim, no total. o Estado é representado no Banco Central Italiano com 42 votos, menos de 10%.

Para perceber a importância destes factos, é possível observar a "evolução" das antigas moedas italianas, hoje substituídas com o Euro. Neste caso a comparação é entre uma nota de 500 Lire (1974 - 1979) e uma de 1.000 Lire (1990 - 1998):

No primeiro caso, 500 Lire, temos uma nota do Estado Italiano. No segundo caso, uma nota dum banco privado. É exactamente o que se passa com as notas dos Euros: se o Euro for da União Europeia, ao seria lógico encontrar a escrita "UE"?.Mas em lado nenhum podem encontrar "União Europeia", apenas "BCE".

Uma ligeira diferença...

A quem pertencem os bancos privados? (o caos intencional)
Este esquema repete-se na maior dos bancos centrais nacionais que, de facto, são privados.

Mas a quem pertencem os bancos privados?
Aqui entramos no sancta sanctorum, uma espécie de caixa de Pandora na qual é difícil orientar-se.
Os bancos não pertencem a uma pessoa mas a conjuntos de accionistas que, por suas vezes, pertencem a outros accionistas. O Banco Unicredit, por exemplo, conta entre os próprios accionistas um banco líbio, o grupo Allianz (Alemanha), um banco inglès com um cadastro assustador (Barclays: ajuda ao governo do Zimbabwe, acusações de reciclagem de dinheiro, envolvimento no comércio de armas...), uma sociedade americana (BlackRock) com participação inglesa (Merlin Entertainments), a Autoridade de Investimentos da Líbia.O Monte dei Paschi di Siena vê a participação do grupo francês Axa e da JP Morgan (!!!).

Resumo: o BCE é privado

Uma super-Matryoshka que constitui a melhor forma de protecção: uma maneira para afastar os curiosos e para tornar o esquema incompreensível, pois tudo perde-se num jogo de percentagens de empresas espalhadas pelo globo.
O que pode ser afirmado com certeza é que os bancos centrais nacionais não pertencem aos Estados (há muitas poucas excepções neste sentido) mas aos privados.
Agora, se o BCE é independente da União Europeia e de propriedade dos bancos nacionais, que são privados, o mesmo BCE não passa dum banco privado.

RESUMO: a economia da União Europeia está nas mãos dos interesses privados.
O que não é uma novidade: também a Federal Reserve é um banco privado...