Se tentar comprar ou arrendar casa em Portugal hoje em dia, o diagnóstico é quase unânime: encontrar uma habitação adequada a um preço razoável tornou-se uma missão quase impossível. Dados recentes do Pordata apontam que cerca de 80% dos portugueses rejeita a ideia de que seja fácil encontrar casa a preços acessíveis, um valor que atinge os 82% na Área Metropolitana de Lisboa e escala até aos 88% na
Área Metropolitana do Porto. Mais do que uma perceção geral da população, as estatísticas confirmam a dimensão do fenómeno. Entre 2020 e 2025, os preços da habitação em Portugal subiram 41,5%, registando o maior incremento de toda a União Europeia nesse quinquénio e consolidando uma escalada acumulada de 81,9% desde o ano de 2010.
A explicação para este comportamento do mercado imobiliário em Portugal, manifestamente divergente de parceiros europeus como Espanha ou Itália, assenta no choque direto entre uma oferta cronicamente escassa e uma procura invulgarmente intensa. Do lado da oferta, o país vive um défice estrutural de construção que remonta à crise financeira de 2011. Com reduções anuais de 35% na construção civil nos anos de 2012 e 2013, o setor ficou profundamente desmantelado. Como resultado, em 2025 foram construídas apenas cerca de 27.000 novas casas em Portugal, o que representa menos de um quarto do volume registado no início do século XXI. A esta escassez junta-se o facto de a habitação pública ser quase inexistente, cobrindo apenas cerca de 1% do parque habitacional nacional, uma das percentagens mais baixas da OCDE. Nem mesmo o stock de imóveis vagos tem servido de almofada, uma vez que nas zonas de maior pressão urbana a percentagem de casas devolutas em condições imediatas de habitabilidade é reduzida, encontrando-se a maioria dependente de obras profundas, processos de herança ou litígios jurídicos.
Ao mesmo tempo que a construção estagnava, a procura de habitação em Portugal transformava-se radicalmente. A partir de meados da década passada, o país tornou-se um polo de atração para o turismo e para o investimento direto estrangeiro, impulsionado por incentivos fiscais e regimes de residência específicos. Esta dinâmica levou à conversão de milhares de fogos habitacionais em Alojamento Local e retirou imóveis do mercado tradicional de arrendamento nas grandes cidades. Em simultâneo, a longa década de taxas de juro e Euribor em mínimos históricos estimulou a compra de habitação própria, levando a que a maioria das famílias considerasse a prestação do crédito bancário mais vantajosa do que o valor da renda cobrado no mercado.
Esta combinação de fatores explica a discrepância em relação a outros mercados europeus. Enquanto em Espanha a subida dos preços desde 2010 se ficou pelos 34%, beneficiando do enorme excedente de habitação construída antes da crise de 2008, e em Itália os preços caíram ligeiramente fruto do menor dinamismo económico e demográfico, Portugal enfrentou uma valorização acelerada devido à incapacidade de resposta da construção perante um fluxo de procura externa e interna sem precedentes.
As consequências desta encruzilhada fazem-se sentir no quotidiano das famílias e nas decisões de longo prazo da população. Cerca de metade dos portugueses assume que os custos com a habitação condicionam o resto do seu orçamento mensal, e um em cada quatro inquiridos já viu decisões estruturais da sua vida afetadas pelo acesso à casa. O impacto é particularmente visível nos mais jovens: os dados do INE / Censos revelam que apenas 42% dos jovens entre os 25 e os 34 anos eram proprietários em 2021, em forte contraste com os 70% registados na mesma faixa etária para a geração nascida nos anos 70. Sem um reforço expressivo do parque habitacional público e um aumento real na capacidade de construção e reabilitação, a pressão sobre o mercado imobiliário continuará a marcar o panorama socioeconómico do país.












