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quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Portugal lidera subida de preços da habitação na UE entre 2020 e 2025


Se tentar comprar ou arrendar casa em Portugal hoje em dia, o diagnóstico é quase unânime: encontrar uma habitação adequada a um preço razoável tornou-se uma missão quase impossível. Dados recentes do Pordata apontam que cerca de 80% dos portugueses rejeita a ideia de que seja fácil encontrar casa a preços acessíveis, um valor que atinge os 82% na Área Metropolitana de Lisboa e escala até aos 88% na
Área Metropolitana do Porto. Mais do que uma perceção geral da população, as estatísticas confirmam a dimensão do fenómeno. Entre 2020 e 2025, os preços da habitação em Portugal subiram 41,5%, registando o maior incremento de toda a União Europeia nesse quinquénio e consolidando uma escalada acumulada de 81,9% desde o ano de 2010.

A explicação para este comportamento do mercado imobiliário em Portugal, manifestamente divergente de parceiros europeus como Espanha ou Itália, assenta no choque direto entre uma oferta cronicamente escassa e uma procura invulgarmente intensa. Do lado da oferta, o país vive um défice estrutural de construção que remonta à crise financeira de 2011. Com reduções anuais de 35% na construção civil nos anos de 2012 e 2013, o setor ficou profundamente desmantelado. Como resultado, em 2025 foram construídas apenas cerca de 27.000 novas casas em Portugal, o que representa menos de um quarto do volume registado no início do século XXI. A esta escassez junta-se o facto de a habitação pública ser quase inexistente, cobrindo apenas cerca de 1% do parque habitacional nacional, uma das percentagens mais baixas da OCDE. Nem mesmo o stock de imóveis vagos tem servido de almofada, uma vez que nas zonas de maior pressão urbana a percentagem de casas devolutas em condições imediatas de habitabilidade é reduzida, encontrando-se a maioria dependente de obras profundas, processos de herança ou litígios jurídicos.

Ao mesmo tempo que a construção estagnava, a procura de habitação em Portugal transformava-se radicalmente. A partir de meados da década passada, o país tornou-se um polo de atração para o turismo e para o investimento direto estrangeiro, impulsionado por incentivos fiscais e regimes de residência específicos. Esta dinâmica levou à conversão de milhares de fogos habitacionais em Alojamento Local e retirou imóveis do mercado tradicional de arrendamento nas grandes cidades. Em simultâneo, a longa década de taxas de juro e Euribor em mínimos históricos estimulou a compra de habitação própria, levando a que a maioria das famílias considerasse a prestação do crédito bancário mais vantajosa do que o valor da renda cobrado no mercado.

Esta combinação de fatores explica a discrepância em relação a outros mercados europeus. Enquanto em Espanha a subida dos preços desde 2010 se ficou pelos 34%, beneficiando do enorme excedente de habitação construída antes da crise de 2008, e em Itália os preços caíram ligeiramente fruto do menor dinamismo económico e demográfico, Portugal enfrentou uma valorização acelerada devido à incapacidade de resposta da construção perante um fluxo de procura externa e interna sem precedentes.



As consequências desta encruzilhada fazem-se sentir no quotidiano das famílias e nas decisões de longo prazo da população. Cerca de metade dos portugueses assume que os custos com a habitação condicionam o resto do seu orçamento mensal, e um em cada quatro inquiridos já viu decisões estruturais da sua vida afetadas pelo acesso à casa. O impacto é particularmente visível nos mais jovens: os dados do INE / Censos revelam que apenas 42% dos jovens entre os 25 e os 34 anos eram proprietários em 2021, em forte contraste com os 70% registados na mesma faixa etária para a geração nascida nos anos 70. Sem um reforço expressivo do parque habitacional público e um aumento real na capacidade de construção e reabilitação, a pressão sobre o mercado imobiliário continuará a marcar o panorama socioeconómico do país.

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Os 10% mais ricos de Portugal enriqueceram 73% em 15 anos

Neste Dia Europeu da Estatística, Banco de Portugal revela base de dados sobre distribuição da riqueza. Reforço patrimonial dos mais ricos acontece porque detêm cada vez mais imóveis.

Os 10% de famílias mais ricas em Portugal controlam quase 60% da riqueza líquida total do país (o valor do património depois de deduzidas as dívidas), tendo conseguido reforçar esta posição em termos relativos e absolutos, mostram as novas estatísticas sobre a evolução, composição e distribuição da riqueza das famílias portuguesas divulgadas pelo Banco de Portugal (BdP), esta terça-feira, 20 de outubro, Dia Europeu da Estatística.

Entre o final de 2010 e o primeiro trimestre deste ano, os 10% mais ricos reforçaram a respetiva riqueza líquida (valor do património depois de deduzidas as dívidas, segundo o BdP) em 73%, de 413 milhões de euros para 714 milhões de euros.

Em proporção da riqueza total das famílias (1,2 mil milhões de euros no início de 2026), os mais ricos conseguiram subir o respetivo peso, controlando agora 59% do património familiar declarado em Portugal.

Neste período de 15 anos, o maior impulso ao enriquecimento dos mais ricos vem do valor crescente em imóveis.

Segundo o BdP, atualmente, cerca de 40% do valor total em imobiliário na posse das famílias em Portugal pertence às 10% mais ricas.

Os menos abonados (50% das famílias) controlam apenas 15% do referido valor total em património imobiliário.

Este fosso de desigualdades tem vindo a ficar cada vez mais cavado desde a pandemia.

Há quinze anos, aquele grupo dos mais ricos controlava 34% do valor em imóveis (compara com 40% agora); os 50% mais pobres detinham quase 20% do património imobiliário (compara com 15% atualmente).

As grandes componentes do património são, em termos médios e gerais: imóveis (média de 52% do total da riqueza), depósitos bancários (cerca de 19%) e participações em capital (como fundos de investimento), cujo valor agregado rondará 16%, segundo o novo estudo do banco central.

Esta expansão da riqueza entre os mais ricos contrasta com a progressão mais lenta no grupo de famílias que cai "abaixo da mediana", ou seja, os 50% menos ricos, onde está o grosso da população, que detém uma fração muito reduzida da riqueza total.

Neste caso, nestes 15 anos, segundo cálculos do DN a partir dos dados preliminares do BdP, a riqueza do grupo de famílias menos abonadas aumentou 51% (comparando com a progressão superior a 70% dos mais ricos), perdendo peso no total, ao deslizar de 6,7% no final de 2010 para 5,9% no primeiro trimestre deste ano.

O Banco de Portugal explica que "nos últimos 15 anos, a riqueza líquida das famílias portuguesas, ou seja, o valor do seu património depois de deduzidas as dívidas, aumentou, sobretudo devido aos imóveis e aos ativos financeiros".

"Os imóveis residenciais continuaram a representar a maior parte do património das famílias, seguidos dos depósitos e das participações em capital, que ganharam peso ao longo deste período. Contudo, a composição do património varia consoante o nível de riqueza, sendo as participações em capital mais relevantes entre as famílias com maior património."

Desigualdade persiste
Nos 15 anos em análise (até final de 2026), "a riqueza líquida manteve-se distribuída de forma desigual entre as famílias portuguesas".

Segundo o BdP, "a riqueza mediana, isto é, o valor que divide as famílias em duas metades, uma com mais riqueza e outra com menos, aumentou, mas permaneceu abaixo da observada na área do euro".

Os indicadores relativos à forma como a riqueza total se distribuía entre as famílias "apontam para níveis de desigualdade próximos em Portugal e na área do euro".

Como referido, o Banco confirma que "entre 2010 e 2025, os 10% de famílias com maior riqueza concentravam 59% da riqueza líquida total, enquanto os 50% com menor riqueza líquida detinham 6%".

Estes resultados "evidenciam uma distribuição da riqueza que se manteve desigual e relativamente estável ao longo do período em análise".

A situação só não é pior porque, diz o BdP, o património imobiliário dos menos ricos (as casas compradas com empréstimos bancários ao longo de décadas) valorizou bastante, o suficiente para que hoje essa parcela seja mais importante em Portugal do que no conjunto da zona euro.

"A parcela da riqueza detida pelas famílias com menor riqueza líquida era maior em Portugal. Entre 2010 e 2025, as famílias abaixo da mediana detinham, em média, 6,1% da riqueza total em Portugal, comparado com 4,5% na área do euro. Esta diferença está associada ao peso elevado dos imóveis no património das famílias portuguesas com menor riqueza", indica a equipa de economistas do banco central.

Mais ricos, mais diversificados
Os dados permitem ver também que "as famílias com maior nível de riqueza líquida têm um património mais diversificado".

"A composição do património das famílias varia consoante o seu nível de riqueza. Do lado dos ativos, os imóveis predominam em todos os grupos, mas o seu peso é menor nos grupos com maior riqueza".

Pelas contas do BdP, "em 2025, representavam cerca de 74% dos ativos das famílias com riqueza líquida abaixo da mediana e menos de 40% dos ativos dos 10% de famílias com maior riqueza líquida", sendo que, "neste grupo, as participações em capital representavam 28% do total" dos ativos.

Já os depósitos mantêm "uma importância relevante em todos os grupos, representando entre 17% e 21% dos ativos das famílias em 2025".

"Ainda assim, entre os 10% de famílias com maior riqueza líquida, as participações em capital tinham um peso superior ao dos depósitos, refletindo uma maior diversificação do seu património financeiro. Este grupo concentrava também a maior parte dos outros ativos detidos pelas famílias", indica o Banco.

Do lado dos passivos, sem surpresa, "os empréstimos à habitação constituíam a principal componente da dívida em todos os grupos".

Página Oficial do Dia Europeu da Estatística

Saber mais:
Fatia do imobiliário na mão dos 10% mais ricos subiu para 40%

sábado, 17 de outubro de 2026

"Encostem-nos à parede", disse o deputado Bruno Nunes (Chega)

Francisco de Goya - "El tres de mayo de 1808" 

Durante o debate parlamentar sobre habitação e segurança, o Ministro dos Assuntos Parlamentares, Carlos Abreu Amorim, defende a ação policial e avisa que o Executivo "não vai ceder aos gritos que vêm da rua" (...)

Paulo Núncio (líder parlamentar do CDS-PP): " que não falte ao Governo, coragem e determinação, à CMP para porem na ordem esta minoria de arruaceiros 

Logo a seguir, o deputado Bruno Nunes (Chega) saúda ironicamente o PSD por apresentar "finalmente um ministro de direita a debate". 

O regresso do "Encostem-nos à parede": Bruno Nunes aproveita o discurso do ministro para reintroduzir a polémica frase do seu partido, afirmando que ao Governo só faltou dizer: "Encostem-nos à parede duma vez por todas por aquilo que têm feito em Portugal e por esta vergonha de intervenção, de ataque às forças de segurança". [video]

A linguagem de violência é a antecâmara da repressão. É isto que preparam se chegarem ao poder.

A realidade:
1. Desemprego elevado:  realidade laboral dos jovens portugueses é fortemente marcada por dois desafios estruturais: a alta taxa de desemprego juvenil e os elevados índices de contratação a termo, também conhecida como precariedade. Enquanto a taxa média de desemprego geral no país ronda os 5,7%, o desemprego na faixa etária dos 16 aos 24 anos atinge os 19,8%, o que significa que praticamente 1 em cada 5 jovens que terminam os estudos e tentam entrar no mercado laboral não conseguem encontrar emprego. Este indicador coloca Portugal significativamente acima da média da União Europeia, que se fixa nos 15,4%.

2. Precariedade laboral: Para além disso, quando os jovens conseguem ingressar no mercado de trabalho, a maioria enfrenta uma grande instabilidade contratual, visto que quase 40% de todos os trabalhadores com menos de 30 anos têm vínculos temporários ou contratos a termo. Esta realidade posiciona Portugal como o 4.º país da União Europeia com os níveis mais graves de precariedade laboral jovem, triplicando o risco registado na população ativa em geral, cuja média nacional de contratos temporários é de 12,8%. Esta conjugação de instabilidade contratual e desemprego inicial explica em grande parte o envelhecimento da população ativa e a persistência da emigração jovem.

3. Jovens saem mais tarde de casa: Este estudo identifica três fatores principais por detrás destas mudanças: o envelhecimento demográfico, a redução da natalidade e o aumento das separações e divórcios.

4. A percentagem de famílias proprietárias da residência principal é menor entre os jovens: Riqueza das famílias "aumentou de forma acentuada" nos últimos anos "devido ao forte crescimento dos preços da habitação". Jovens cada vez mais excluídos deste progresso. BdP/INE

5. Os ciganos e exclusão dos subsidiodependentes : De acordo com os dados estatísticos partilhados pelo Instituto da Segurança Social e analisados em relatórios parlamentares e plataformas de verificação de factos como o Polígrafo, as pessoas de etnia cigana representam uma fração reduzida do universo total de beneficiários, situando-se historicamente entre os 3% e os 6% do total de famílias que auferem a prestação. Isto significa que a esmagadora maioria dos titulares do apoio - mais de 94% - pertence à população maioritária não cigana. Do ponto de vista do impacto orçamental global, o montante canalizado para este grupo representa uma percentagem residual das despesas totais da Segurança Social.

6. Radiografia do RSI em Portugal- o desfasamento entre os mitos sociais e a realidade dos números: Os dados estatísticos oficiais mais recentes de 2026, publicados pelo Gabinete de Estratégia e Planeamento do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, traçam o perfil real do Rendimento Social de Inserção (RSI) em Portugal. O indicador estrutural mais relevante é que o número de beneficiários do RSI atingiu em 2026 o valor mais baixo dos últimos 20 anos, fixando-se em torno de 153.000 a 160.000 indivíduos, distribuídos por cerca de 73.000 a 78.000 famílias, ou seja 1.8% das famílias residentes em Portugal. Para encontrar números tão reduzidos na série histórica, é necessário recuar até ao ano de 2005. Esta radiografia demográfica oficial e os montantes atribuídos revelam a realidade do apoio em Portugal, cuja distribuição contraria vários mitos do senso comum, evidenciando que a prestação protege sobretudo menores e mulheres em situação de vulnerabilidade monoparental. No que respeita à idade, as crianças são um terço, sendo o grupo etário mais representativo o de menores de 18 anos, que compõem 33% do total de beneficiários do RSI. Os jovens dos 18 aos 29 anos representam apenas 13,7%, dividindo-se os restantes beneficiários entre adultos em idade ativa e a população com mais de 50 anos, que tem vindo a registar uma tendência ligeira de subida devido ao envelhecimento demográfico. Quanto ao género, as mulheres continuam a ser a maioria dos cidadãos abrangidos, cifrando-se em cerca de 52,7% contra 47,3% de homens, estando muitas vezes associadas a agregados familiares monoparentais com menores a cargo. Geograficamente, o maior volume de beneficiários concentra-se nos distritos com maior densidade populacional e focos urbanos de pobreza, com Lisboa a liderar o volume total de pessoas apoiadas, seguida de perto pelo Porto e por Setúbal, enquanto os distritos de Bragança, Guarda e Portalegre registam os números mais baixos do país.
Ao analisar os valores médios reais das prestações, os montantes monetários transferidos reforçam o caráter assistencialista de "última linha" da medida, situando-se substancialmente abaixo de qualquer salário de referência. Por indivíduo, o valor médio mensal recebido por cada beneficiário individual fixa-se nos 160,32 €, ao passo que o valor médio transferido para o total do agregado familiar ronda os 336 € mensais. O próprio valor de referência, que serve de teto máximo legal para calcular as capitações de quem não tem qualquer outro tipo de rendimento, está fixado em 247,56 € por adulto em 2026. Esta modéstia orçamental é corroborada por um estudo recente do ISCTE, o qual revela que o RSI cobre hoje apenas cerca de 40% da população que se encontra efetivamente abaixo do limiar da pobreza em Portugal, demonstrando critérios de triagem patrimonial e financeira muito apertados, como o limite de depósitos bancários de até 60 vezes o Indexante de Apoios Sociais (IAS).

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A próxima crise financeira global? O alerta do FMI sobre a dívida e as lições de 2008

Vamos deixar isto escrito agora, porque depois da próxima crise não faltarão especialistas a explicar, com a segurança que só o passado permite, por que razão ninguém poderia tê-la previsto: há sinais cada vez mais sérios de que a próxima grande crise financeira está a formar-se. Não sabemos quando chega, nem onde começa, e quem apresentar uma data está provavelmente a vender previsões ao quilo. Mas há uma diferença entre adivinhar e olhar para aquilo que está diante de nós. E aquilo que está diante de nós começa a ficar pouco recomendável.

A dívida pública mundial chegou a quase 94% do PIB em 2025 e o FMI prevê no Fiscal Monitor que atinja 100% já em 2029. O problema, porém, não é apenas haver muita dívida. Os Estados vivem há décadas a refinanciá-la: quando uma obrigação vence, emitem outra e seguem caminho. Durante os anos de juros próximos de zero, este mecanismo era extraordinariamente confortável. Agora deixou de ser. Em 2026, grande parte do dinheiro que os governos da OCDE vão buscar aos mercados destina-se simplesmente a refinanciar dívida já existente, como detalha a OCDE no seu Sovereign Borrowing Outlook. E estão a fazê-lo a taxas muito superiores às que pagavam quando boa parte dessa dívida foi emitida. É aqui que a brincadeira muda de natureza.

Nos Estados Unidos, a taxa das obrigações a 10 anos ultrapassou recentemente os 4,75% e a de 30 anos chegou aos 5,327%, o nível mais elevado desde 2007, segundo dados de mercado recolhidos pela U.S. Department of the Treasury. No Reino Unido, a dívida a dez anos chegou este ano aos 5,13%, máximo desde 2008. No Japão, onde durante uma geração praticamente se esqueceu que a dívida pública pagava juros, a taxa a dez anos ultrapassou os 3% pela primeira vez desde 1996, conforme registado pelo
Bank of Japan. Alemanha e França também estão a assistir a fortes subidas das taxas de longo prazo. Não estamos a falar da Grécia em 2011 ou de um qualquer país periférico a quem os mercados resolveram fechar a torneira. Estamos a falar dos mercados de dívida das maiores economias do mundo.

E isto interessa muito mais do que parece. Se um Estado tinha 100 mil milhões de euros de dívida financiada a 1% e passa progressivamente a refinanciá-la a 4% ou 5%, não precisa de pedir mais dinheiro para começar a ter um problema. Basta substituir dívida barata por dívida cara. A factura dos juros cresce, ocupa uma parcela maior das receitas e começa a disputar dinheiro com tudo o resto: saúde, educação, pensões, investimento público. É nesta altura que regressam palavras como “consolidação”, “ajustamento” e “responsabilidade”, geralmente pronunciadas por pessoas que nunca são objecto de nenhuma das três.

E há uma parte essencial desta equação que torna tudo isto bastante menos confortável: estas montanhas de dívida não estão a ser suportadas por economias a crescer 4% ou 5% ao ano. Estão a ser carregadas por algumas das maiores economias do mundo com crescimentos débeis ou praticamente estagnadas. O
Banco Mundial prevê no Global Economic Prospects apenas 2,5% de crescimento mundial em 2026. Na zona euro, o FMI aponta no World Economic Outlook para apenas 0,9%. Isto não é um pormenor: uma economia que cresce depressa consegue suportar uma dívida elevada com muito mais facilidade porque as receitas, os rendimentos e a própria base económica que sustenta essa dívida também crescem. Quando a economia quase não cresce e o Estado começa simultaneamente a refinanciar dívida a 4% ou 5%, o custo da dívida pode crescer muito mais depressa do que a economia que terá de a pagar. A partir daí, as soluções começam a ser aquelas velhas conhecidas que costumam aparecer com nomes tecnicamente tranquilizadores: mais impostos, menos despesa, inflação ou mais dívida.

E o mercado não está a pedir apenas dinheiro aos Estados. Governos e empresas deverão emitir este ano o equivalente a cerca de 25 biliões de euros em dívida. Ao mesmo tempo, a corrida à inteligência artificial está a exigir quantidades colossais de capital e algumas das maiores empresas tecnológicas começaram a financiar parte desse investimento através da emissão de obrigações. Há, portanto, cada vez mais dívida a disputar o mesmo dinheiro, justamente numa altura em que os investidores começaram a exigir melhor remuneração para o emprestar. A OCDE calcula que a dívida soberana em obrigações dos seus membros já atingiu o equivalente a cerca de 53 biliões de euros e que o peso da dívida dos governos centrais deverá chegar este ano a 85% do PIB, 39 pontos percentuais acima do nível de 2007.

Do outro lado temos mercados financeiros extraordinariamente valorizados. O estudo Global Balance Sheet, do McKinsey Global Institute, mostra que a riqueza das famílias aumentou o equivalente a cerca de 35 biliões de euros em 2025, atingindo aproximadamente 492 biliões de euros, mas apenas cerca de 20% desse aumento resultou de novo investimento líquido em activos reais. A maior parte veio da valorização dos activos e de outros ganhos financeiros. Não quer dizer que a riqueza seja imaginária. Quer dizer que uma parte enorme dela depende de casas, acções e outros activos continuarem a valer aquilo que os mercados decidiram que valem.

Mas há uma diferença importante em relação a 2008. Depois daquela crise, os bancos foram obrigados a reforçar capital, liquidez e financiamento mais estável. O risco, porém, não desapareceu por delicadeza. Uma parte considerável mudou simplesmente de sítio. Fundos de investimento, hedge funds, crédito privado e outros intermediários financeiros não bancários representam hoje o equivalente a cerca de 222 biliões de euros, 51% de todos os activos financeiros mundiais, e este sector cresceu ao dobro do ritmo da banca tradicional. O próprio Financial Stability Board (FSB) reconhece no seu Global Monitoring Report limitações sérias nos dados disponíveis sobre áreas como o crédito privado. E isto não significa que bancos e restante sistema financeiro vivam agora em apartamentos separados e tenham deixado de se falar. Pelo contrário. Os bancos financiam estes fundos, concedem-lhes linhas de crédito, fazem operações de repo, negoceiam derivados, fornecem alavancagem e serviços de margem e recebem deles financiamento. O Banco Central Europeu (BCE) no Financial Stability Review e o Comité de Basileia têm vindo precisamente a alertar para estas ligações e para a possibilidade de um choque nos mercados obrigar fundos alavancados a desfazer posições rapidamente, provocando vendas forçadas e transmitindo novamente as perdas à banca. O próprio BCE admite que existem falhas de informação que limitam a capacidade de perceber todas estas exposições.

É esta combinação que merece atenção: Estados muito mais endividados do que estavam antes de 2008, dívida antiga a ser refinanciada a juros bastante mais altos, necessidades recorde de financiamento, mercados financeiros muito valorizados e um sistema financeiro não bancário gigantesco, alavancado, profundamente ligado à banca e em partes importantes bastante menos transparente.

Separadamente, nenhuma destas coisas provoca necessariamente uma crise. O problema começa quando acontecem ao mesmo tempo e aparece um choque que obriga alguém a vender. Foi assim que funcionaram muitas das anteriores. Primeiro existe liquidez, crédito e valorização. Depois os preços sobem durante tempo suficiente para que a subida passe a ser considerada normal. A seguir vem a alavancagem, porque ganhar dinheiro com dinheiro emprestado parece uma ideia extraordinária enquanto os activos sobem. Finalmente aparece qualquer coisa que ninguém tinha colocado no modelo, os preços caem, alguém precisa de liquidez, começam as vendas forçadas e descobre-se que o sistema era muito mais interligado do que parecia.

Há ainda uma razão adicional para levar a próxima crise particularmente a sério. Em 2008, quando o sistema financeiro começou a cair, foram os Estados que apareceram para o segurar. Garantiram bancos, injectaram capital, aumentaram despesa, assumiram riscos privados e deixaram os bancos centrais baixar os juros para níveis próximos de zero. Na próxima grande crise, muitos desses Estados entrarão em campo já carregados com dívidas muito superiores às de 2008 e a pagar bastante mais para as financiar. A capacidade de salvar novamente o sistema sem apresentar depois a factura à economia real será, por isso, bastante menos confortável. O Banco de Pagamentos Internacionais (BIS) analisa no seu Annual Economic Report precisamente este paradoxo: os bancos estão hoje mais capitalizados e líquidos do que antes da grande crise financeira, mas as ligações entretanto criadas com o sector não bancário abriram novos canais indirectos através dos quais o risco soberano e financeiro pode regressar aos bancos. Em algumas economias, as exposições dos bancos à própria dívida soberana continuam também enormes relativamente ao seu capital.

É por isso que há razões para recear que a próxima grande crise possa ser mais difícil de conter do que a de 2008. Não apenas porque existe mais dívida, mas porque o sistema que terá de absorver o choque é maior, mais interligado e tem uma parcela muito superior dos seus activos fora da banca tradicional. Os fundos de investimento, por exemplo, passaram do equivalente a cerca de 18 biliões de euros em activos em 2008 para aproximadamente 45 biliões de euros em 2023. Mudámos algumas regras depois da última crise, reforçámos os bancos e deslocámos uma quantidade considerável de risco para outros lugares. O risco teve a gentileza de acompanhar a mudança.

Há anos que vamos escrevendo sobre isto. Não porque saibamos prever o futuro, mas porque ainda nos lembramos do passado. E se há uma coisa que a História financeira ensina é que as crises nunca parecem iminentes enquanto os mercados estão a subir. Quando finalmente parecem óbvias, já começaram.

Países europeus têm retirado ouro dos Estados Unidos. A Alemanha, que detém a segunda maior reserva de ouro do mundo, concluiu uma grande repatriação parcial em 2017 (tendo trazido ouro de Nova Iorque e Paris para Frankfurt), mas ainda mantém cerca de 37% (mais de 1.200 toneladas) nos cofres da Reserva Federal em Nova Iorque.  Embora existam debates políticos e apelos de economistas para retirar o restante devido a tensões transatlânticas e imprevisibilidade política, o governo alemão não avançou com uma retirada total recente.

A França concluiu a repatriação total das suas reservas que ainda estavam guardadas no estrangeiro. O banco central francês (Banque de France) finalizou a substituição e transferência das últimas 129 toneladas de ouro que mantinha nos cofres da Reserva Federal de Nova Iorque. Com este movimento estratégico de arbitragem e conformidade regulatória, a totalidade das cerca de 2437 toneladas de ouro que compõem o tesouro soberano francês encontra-se agora centralizada a cem metros de profundidade, no cofre subterrâneo conhecido como La Souterraine, localizado na sede do banco em Paris. A evolução histórica detalhada e os contornos políticos destas movimentações podem ser consultados no artigo sobre a Repatriação de Ouro na Wikipédia. 

Por sua vez, a Itália adota um modelo de custódia mista e mantém o seu stock intocável há décadas, resistindo a pressões de venda mesmo em períodos de crise. O país possui a terceira maior reserva mundial, com cerca de 2452 toneladas de ouro. Deste total, aproximadamente metade (cerca de 1100 toneladas) está guardada localmente nos cofres fortificados do Palazzo Koch, a sede institucional do Banca d'Italia em Roma. A outra metade da reserva italiana permanece dispersa no estrangeiro por razões logísticas e de liquidez de mercado, dividida maioritariamente entre a Reserva Federal de Nova Iorque, o Banco de Inglaterra em Londres e o próprio Bundesbank em Frankfurt. Mais pormenores sobre o enquadramento económico destas reservas estão disponíveis nas estatísticas atualizadas de mercado da Trading Economics. 

Finalmente, Portugal destaca-se internacionalmente pela elevada proporção de ouro face ao total das suas reservas financeiras globais. O país detém 383 toneladas de ouro e posiciona-se no topo dos países com maior quantidade de metal precioso por habitante. A gestão da custódia do ouro português pelo Banco de Portugal assenta historicamente numa forte componente externa para facilitar operações financeiras internacionais, embora uma parte relevante continue salvaguardada em território nacional, dividida entre os cofres da sede em Lisboa e o cofre-forte do Complexo do Carregado.

No dia 2 deste mês os Países Baixos transferiram 86 toneladas de ouro dos EUA e Canadá para o Reino Unido

Por isso deixamos o aviso agora. As dívidas são maiores, os custos de financiamento estão a aumentar, os mercados estão extraordinariamente valorizados e uma parte crescente do risco financeiro encontra-se em estruturas sobre as quais os próprios reguladores reconhecem não possuir toda a informação necessária. Não sabemos qual será o detonador nem quando alguém acenderá o fósforo. Mas já existe combustível suficiente para que não seja particularmente sensato discutir se há perigo de incêndio.

Mas não se preocupem demasiado. Enquanto isto se passa, haverá certamente um dérbi, uma polémica nas redes sociais, a final de um reality show ou qualquer assunto suficientemente importante para ocupar três dias de televisão.

Quando chegar a factura, então falamos de economia. Considerem-se avisados.
Baseado no texto de Rise Up Portugal, com alguns ajustes.

sábado, 29 de agosto de 2026

Por que razão a desigualdade social e a crise da habitação alimentam a ascensão do Chega em Portugal?


A perceção de que a desigualdade em Portugal possa ter abrandado resulta de uma confusão frequente entre a variação pontual dos rendimentos diários e o fosso abissal na acumulação de património. Embora o discurso político enfatize pequenos aumentos no salário mínimo, as análises do World Inequality Database revelam que a fratura social é profunda e estrutural. Em Portugal, a extrema concentração de recursos significa que o topo 10% mais rico controla entre 50% a 60% de toda a riqueza nacional, enquanto o 1% das elites económicas detém cerca de 20% do património total. No extremo oposto dessa balança, a metade mais pobre da população sobrevive com apenas 1% a 4% dos ativos do país, perpetuando um ciclo vicioso onde quem nasce sem património dificilmente consegue ascender socialmente.

Esta disparidade passa muitas vezes despercebida no debate público porque a cobertura mediática dá prioridade às métricas do Instituto Nacional de Estatística focadas na pobreza imediata e na folha de pagamentos mensal. Em contrapartida, os relatórios do Banco de Portugal e da OCDE expõem a realidade mais crua: a valorização imobiliária galopante pós-2015 enriqueceu desproporcionalmente os grandes proprietários e fundos de investimento, enquanto esmagava o poder de compra das famílias dependentes de um salário.

Durante o período em que este abismo social se cavou, o país foi governado pelo Partido Socialista (PS) sob a liderança de António Costa - através do XXI Governo Constitucional (2015–2019), do XXII Governo Constitucional (2019–2022) e do XXIII Governo Constitucional (2022–2024). Foi nesta fase que Portugal ultrapassou os Estados Unidos (em 2017/2018) e Espanha (em 2019/2020) na inacessibilidade à habitação. A estagnação salarial combinada com o custo de vida inflacionado deixou a classe média e os jovens sem qualquer perspetiva de mobilidade social, alimentando uma sensação sufocante de injustiça e abandono por parte do Estado.

Esta vulnerabilidade estrutural foi novamente posta em evidência nas previsões macroeconómicas e recomendações que a Comissão Europeia publicou no âmbito do Semestre Europeu. Nas suas diretrizes para o país, Bruxelas sublinhou a urgência de acelerar a execução dos fundos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) direcionados para a habitação acessível, o reforço da produtividade e a sustentabilidade das contas públicas perante o envelhecimento demográfico. A Comissão Europeia alertou ainda que, sem reformas profundas que melhorem a eficiência dos serviços públicos e incentivem investimentos de alto valor acrescentado, os ganhos de rendimento arriscam-se a ser absorvidos pela pressão inflacionista do mercado imobiliário e pelos custos de vida.

É precisamente no terreno fértil desta desigualdade social sufocante e da lenta resposta institucional que o Chega constrói a sua força eleitoral. A perceção de que o sistema protege as elites económicas enquanto a maioria da população luta para pagar a renda transformou a frustração num voto punitivo de rutura. Para travar a expansão do populismo, o PS e o PSD não podem limitar-se a gerir o status quo: têm de acolher estas recomendações europeias e combater diretamente as causas desta fratura, promovendo reformas profundas na habitação, na justiça e nos serviços públicos para devolver aos cidadãos a certeza de que o trabalho compensa mais do que o privilégio acumulado.

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sábado, 20 de dezembro de 2025

Mariana Mortágua despediu-se do Parlamento e ouviu elogios de quase todas as bancadas


Mariana Mortágua despediu-se do Parlamento e ouviu elogios de quase todas as bancadas. Cumpriu e fê-lo, com elevação e ética, características que infelizmente já não abundam muito na Assembleia da República.
Como sempre, vejo as redes sociais a destilar ódio a quem combateu o sistema, como pôde. À Mariana devemos sobretudo o seu empenho em desmascarar a rede do BES e isso não interessa para esta gente que nunca gostaram de quem interfere e denuncia o poder podre do país. Doutorada em Economia pela Universidade de Londres. A Mariana já tem emprego, estejam descansados. Em princípio será Professora Universitária no ISCTE. Destaco três livros que são actuais, infelizmente:

1. "Isto é um Assalto" (2013)
Com ilustrações e BD de Nuno Saraiva e design de Rita Gorgulho, este livro descreve o assalto que Portugal está a sofrer. Eles estão a cobrar impostos acima das nossas possibilidades, a retirar subsídios de férias e de Natal que eram as nossas possibilidades, a destruir o Serviço Nacional de Saúde, a escola pública e a Segurança Social que deveriam ser a devolução dos nossos tributos. Eles querem tudo. Eles, a finança, cobram uma renda sobre o nosso futuro e ainda querem convencer-nos de que somos culpados. Por isso, em Isto é um Assalto, faz-se a conta e cobra-se a fatura: verá como os bancos foram financiados pelos nossos impostos, como a austeridade e a chantagem da dívida estão a criar o maior desemprego da história do nosso país, como a troika destrói a vida das pessoas.

2."Privataria" de 2015
«Portugal foi tricampeão de privatizações em 2012, 2013 e 2014, ocupando sempre, nesses anos, o primeiro lugar em volume de vendas a nível europeu. Esta revolução, pela sua escala e pelos setores alcançados - os correios e os aeroportos, por exemplo, tinham sido sempre públicos -, é isso mesmo: uma revolução. Mas a apropriação por privados (ou entidades estatais estrangeiras) de monopólios naturais e outros recursos estratégicos iniciou-se vinte anos antes. Com entoações diferentes, a justificação política foi sempre a da superioridade da gestão privada, aliada à pressão das instituições europeias para a redução do défice e da dívida, uma constante ao longo do tempo, ora em função das regras do "mercado comum", ora dos critérios de convergência para a moeda única, ora do memorando com a troika ou ora ainda do tratado orçamental europeu.»

3. "No Sonho Selvagem do Alquimista" de 2021
Como se cria o dinheiro? Quem é que controla a criação do dinheiro? E quem o detém? Como é que as nossas vidas são condicionadas pelo sistema financeiro mundial?
Neste livro destinado ao grande público, Mariana Mortágua explica os principais processos de criação de moeda e o modo de funcionamento dos bancos. Acompanhando a sua evolução desde a Idade Média, a autora reflete sobre o poder associado às relações financeiras e de dívida. E sobre as novas formas de poder financeiro, nomeadamente a «banca-sombra» e as criptomoedas. O principal argumento é que a moeda, a banca e a finança são demasiado importantes para se manterem fora do espaço de discussão e decisão democráticas.

E quanto ao seu papel, tão criticado pelos portugueses, quando fez parte da flotilha por Gaza, infelizmente a situação continua calamitosa, agravada com as inundações deste Inverno. O acordo de paz na Faixa de Gaza, que vigora desde 10 de outubro é um frágil cessar-fogo entre Israel e o grupo radical palestiniano. Os Palestinianos continuam vítimas de Netanyahu. Israel continua a restringir a ajuda humanitária vital (77% da população ainda sofre de fome aguda, apesar do cessar-fogo) e vários relatos mostram que o país viola o cessar-fogo, não apenas o Hamas como os media destacam mais, os habitantes de Gaza sofrem com tendas inundadas, fome, poluição e doenças.

sábado, 13 de dezembro de 2025

A fuga de talento jovem continua, apesar da narrativa ‘cor-de-rosa’


A ideia de que Portugal deixou para trás o problema da emigração jovem e da fuga líquida de talento não resiste a uma análise séria dos dados completos.

Esta crónica procuro desmontar uma narrativa recente - e agora convenientemente repescada - que retrata a economia portuguesa como estando numa trajetória excecionalmente favorável. Trata-se de uma leitura profundamente deslocada da realidade e enviesada, assente em dados incompletos e interpretações apressadas. Entre os seus argumentos mais repetidos está a ideia de que Portugal estaria finalmente a inverter o seu padrão de especialização, alegadamente sustentado por fluxos migratórios positivos e pelo regresso de jovens emigrantes altamente qualificados. Se tal fosse verdade, significaria que o país teria ultrapassado o problema estrutural da emigração jovem e da contínua fuga de talento.

Nada poderia estar mais distante dos factos. O saldo migratório positivo recentemente observado é essencialmente temporário e artificial, resultando de fatores extraordinários e não de uma mudança estrutural do modelo económico. A fuga de talento não só persiste como continua a refletir o baixo perfil de especialização da economia portuguesa, incapaz de oferecer, de forma consistente, oportunidades qualificadas e bem remuneradas. As leituras otimistas que sugerem o contrário assentam em dados incompletos e em análises que ignoram dimensões essenciais do fenómeno migratório.

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Infelizmente, este retrato “cor-de-rosa” está muito longe de corresponder à realidade. Como mostrarei de seguida, a evidência aponta no sentido inverso, revelando um quadro que contraria de forma quase absoluta essa visão simplista e auto-complacente. E a verdade é dura, mas incontornável: Sem reformas profundas que elevem o perfil de especialização da economia e criem oportunidades qualificadas em todo o território, Portugal continuará a perder jovens e qualificados, prolongando a sangria demográfica e comprometendo o seu potencial de desenvolvimento.

Saldo migratório dos ‘naturais’ positivo apenas conjuntural, já diminuto e dependente de apoios
Decompor o saldo migratório total - entradas menos saídas - entre o contributo dos estrangeiros e o dos nacionais, que inclui tanto os nascidos em Portugal como os que adquiriram a nacionalidade pelos mecanismos previstos na lei, com destaque para a naturalização, não é tarefa simples. Mais difícil ainda é isolar, dentro desse conjunto, o saldo migratório daqueles que efetivamente nasceram em Portugal, a que me refiro ao longo desta crónica como “naturais”.

Os principais resultados da análise encontram-se representados nas Figuras 1 e 2. Os valores dos saldos migratórios — não incluídos nas Figuras — podem ser consultados na parte C da Tabela 1 (que passarei a designar Tabela 1C), construída a partir dos dados de imigrantes (Tabela 1A) e de emigrantes (Tabela 1B). A Tabela 1 apresenta ainda (nas suas três partes), na última linha antes dos dados, o detalhe dos cálculos efetuados, e é acompanhada de notas explicativas, incluindo sobre as assunções relevantes utilizadas.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Nota de 7 euros de Ronaldo é falsa, alerta Banco de Portugal

Em causa está a emissão de uma nota, no valor de 7 euros, em homenagem ao futebolista Cristiano Ronaldo

O Banco de Portugal (BdP) alertou esta quinta-feira para publicações falsas, nas redes sociais, sobre a emissão de uma nota em homenagem ao futebolista Cristiano Ronaldo, esclarecendo que não o fez nem tem previsto emitir uma nota assim.

"O Banco de Portugal tem tomado conhecimento de publicações falsas, divulgadas nas redes sociais, relativamente à emissão, pelo Banco de Portugal, de uma nota, no valor de 7 euros, em homenagem ao futebolista Cristiano Ronaldo", lê-se no comunicado publicado esta quinta-feira.

O banco central reiterou que não emitiu nem colocou em circulação, nem tem previsto emitir ou colocar em circulação, "qualquer nota alusiva à personalidade em questão".

"Esclarece-se ainda que a emissão de notas de euro pelo Banco de Portugal é feita no quadro do Eurosistema", acrescentou o banco central.


O Eurosistema é a autoridade monetária da área do euro, composta pelo Banco Central Europeu (BCE) e pelos bancos centrais nacionais dos países da União Europeia que adotaram o euro. A sua principal função é manter a estabilidade de preços, e as suas atividades incluem a definição e implementação da política monetária, a realização de operações cambiais, a gestão das reservas cambiais e a promoção do bom funcionamento dos sistemas de pagamento. 

Composição e objetivos
Composição: O Eurosistema inclui o BCE e os bancos centrais nacionais dos Estados-Membros que adotaram o euro, como o Banco de Portugal.
Objetivo principal: Manter a estabilidade de preços na área do euro, procurando um aumento anual dos preços inferior, mas próximo, de 2%.

Outras funções:
  1. Salvaguardar a estabilidade financeira.
  2. Promover a integração financeira europeia.
  3. Emitir notas de euro.
  4. Compilar estatísticas. 
  5. Funcionamento
Tomada de decisões: As decisões de política monetária são tomadas pelo Conselho do BCE, que é composto pelos membros executivos do BCE e pelos governadores dos bancos centrais nacionais.

Implementação: A implementação dessas decisões é feita de forma descentralizada pelos bancos centrais nacionais. O Banco de Portugal, por exemplo, interage com as instituições bancárias portuguesas para executar as decisões do BCE no mercado nacional.

Instrumentos: O Eurosistema utiliza instrumentos como a fixação das taxas de juro diretoras, operações de mercado aberto, facilidades permanentes e programas de compra de ativos financeiros para influenciar a liquidez do sistema bancário. 

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Álvaro Santos Pereira - salário pornográfico


Álvaro Santos Pereira recebe mensalmente, como governador do Banco de Portugal, 19.496,39 €, o equivalente a 22 salários mínimos. Os restantes administradores, na foto, ganham “só” cerca de 17 mil. Qualquer um deles ganha mais do que o Presidente da Reserva Federal Americana. Um disparate crónico e revoltante que ninguém tem coragem de eliminar!

sábado, 11 de outubro de 2025

O truque silencioso dos Bancos para te fazer gastar mais


Os bancos sabem mais sobre ti do que imaginas. Não apenas quanto dinheiro tens mas como e quando o gastas. E é com essa informação que aplicam um truque silencioso, quase invisível, que te leva a gastar mais sem te aperceberes. Mas no que consiste o truque silencioso dos bancos?

Este truque dos bancos não é magia. É psicologia (e dados)
Todos os bancos modernos utilizam sistemas de análise comportamental. Ou seja, algoritmos que estudam os teus hábitos de consumo, horários, tipo de compras e até o humor que transpareces nas tuas transações. Sim, o teu cartão também fala. E é aqui que entra o truque.

Cartões virtuais são seguros? Só se fizeres isto antes da compra!
O “limite invisível” que muda tudo
Quando recebes um aumento automático do limite de crédito ou do plafond do cartão, parece um gesto simpático, certo? Na realidade, é uma jogada calculada.

O banco aumenta ligeiramente o teu limite para dar-te uma falsa sensação de folga financeira. Não é suficiente para parecer excessivo, mas o bastante para te fazer pensar: “posso comprar isto, ainda tenho margem”.

E é assim que pequenas compras, 20€ aqui, 30€ ali, transformam-se em dívidas com juros de 15%, 18%, até 25%.

Os arredondamentos “sem dor”
Outro truque muito comum são os pagamentos automáticos arredondados:
Cada vez que pagas com o cartão, o sistema arredonda o valor para cima e coloca os cêntimos “de lado”, geralmente num fundo de poupança ou numa conta associada.

Parece uma boa ideia e até pode ser mas psicologicamente desliga-te do valor real que estás a gastar. Pagas 19,20€ mas sentes que gastaste “menos de 20€”. Esse “quase nada” repetido dezenas de vezes por mês é o que mantém os lucros constantes dos bancos de retalho.

O atraso calculado das notificações
Já reparaste que às vezes as notificações das tuas compras demoram a chegar? Não é sempre erro da app. Alguns bancos atrasam propositadamente o envio de alertas quando o cliente está a fazer várias transações seguidas.

A ideia é simples: não interromper o fluxo de compras. Se recebes notificações a cada 10 segundos, paras para pensar. Mas se só chegas a casa e vês todas de uma vez, já é tarde  e o cartão já trabalhou por ti.

Como não cair nestas armadilhas
Não há como escapar completamente, mas há formas de contrariar a psicologia do sistema:
  1. Desativa limites automáticos e aumentos “pré-aprovados”.
  2. Vê o teu saldo real, não o “disponível”.
  3. Usa apenas alertas imediatos por SMS ou push.
  4. Evita cartões com pagamento diferido porque mascaram o impacto do gasto.
O segredo é simples: quanto mais consciência tens do que gastas, menos te conseguem influenciar.

quarta-feira, 14 de maio de 2025

Amadeu Guerra gasta 613 mil euros em nove carros



A Justiça em Portugal nem sempre é célere. Mas se, em muitos casos, a lentidão da Procuradoria-Geral da República (PGR) tem sido criticada, a partir de agora os magistrados do Palácio dos Duques de Palmela, junto ao Largo do Rato, não se podem sequer queixar da falta de bons meios de locomoção: a PGR acaba de contratar, em regime de aluguer operacional (AOV), nove viaturas ‘novinhas em folha’ para acelerar em serviço. Quantia gasta: 613.455 euros, uma média de 68 mil euros por veículo.

A despesa foi efectuada através de um concurso público, distribuído por três lotes, todos ganhos pela mesma empresa de Santarém, a PPL Car, sendo que os contratos foram assinados anteontem, com uma duração de seis anos. No final desse prazo, os carros serão devolvidos à PPL Car, que os pode revender no mercado de veículos usados.

Um dos lotes destinou-se à contratação de duas viaturas topo de gama que, por exigência da PGR, têm de estar equipadas com estofos em pele de cor preta, vidros traseiros escurecidos, faróis LED, assistente de estacionamento e um ‘pack premium plus’, segundo o caderno de encargos do procedimento.

Assim, neste caso, a PGR contratou duas viaturas novas híbridas ‘plug in’, da categoria ‘Superior I’, por 176.234 euros (IVA incluído), resultando num preço médio por viatura de 88.117 euros. Nas especificações técnicas, além de terem de ter quatro portas, estas duas viaturas têm ainda de ter entre 1.900 e 2.500 centímetros cúbicos de cilindrada e uma carroçaria ‘Sedan’.

Embora o contrato não explicite a marca, os preços e especificações são compatíveis com o BMW 530e, um modelo de luxo que atinge os 230 quilómetros por hora, ou alguns modelos da gama Mercedes GLC, que se fica pelos 220 quilómetros por hora, bem como o Lexus ES Luxury.

No segundo lote, a PGR alugou quatro viaturas novas híbridas, de categoria média inferior, pelo preço de 235.569 euros, uma média de quase 59 mil euros por veículo. A carroçaria destas viaturas tem de ser ‘Sedan’ ou ‘Berlina’ com 1.300 a 1.800 centímetros cúbicos de cilindrada. Têm de vir equipadas com faróis LED e câmara traseira, entre outros acessórios.

Num terceiro lote que foi a concurso público, a PGR contratou três viaturas novas da categoria ‘médio superior III’ por 201.651 euros, com o preço médio a rondar os 67mil euros. A cilindrada destas viaturas de quatro ou cinco portas deve situar-se entre os 1.350 e os 2.500 centímetros cúbicos e vir apetrechadas com faróis LED, câmara traseira, sistema de navegação e ar-condicionado em três zonas.

Neste tipo de aluguer de viaturas, o fornecedor tem de prestar “serviços obrigatórios associados ao fornecimento dos veículos”, designadamente, os serviços de gestão de encomenda, de entrega e de documentação, bem como a gestão de manutenção preventiva e correctiva. Tem também de fazer a gestão de pneus, de veículos de substituição, de seguro automóvel, de sinistros, e do Imposto Único Automóvel durante o período de vigência do contrato de ‘renting’, que neste caso é de 72 meses.

Segundo os requisitos da PGR, “os veículos são fornecidos em estado novo com o máximo de 100 quilómetros registados, com exceção dos casos em que a distância entre o concessionário e o local de entrega seja superior, não podendo ultrapassar os 400 quilómetros”.

As viaturas “deverão ser entregues nas instalações da PGR, sitas em Lisboa na Rua da Escola Politécnica, 140, no prazo máximo” de 60 dias, no caso do lote 1, e 90 dias, nos dois restantes lotes contratados.

Para a PPL Car, que venceu os três concursos públicos lançados pela PGR, este foi o seu maior negócio com entidades públicas. A empresa tem vindo a acelerar a sua presença no sector público nos últimos dois anos.

Até 2024, a empresa de Santarém ganhava poucos contratos junto de entidades públicas. O primeiro foi em 2015, seguiu-se outro em 2016 e outro em 2017. Em 2020, ganhou dois e em 2022 venceu um. Até então, todos os contratos foram obtidos por ajuste directo. Em 2023, a empresa obteve dois por consulta prévia.

A maré mudou em 2024, quando a PPL Car ganhou seis contratos públicos dos quais dois através de ajuste directo, um por consulta prévia, um por concurso e dois através do procedimento ‘Setores especiais – isenção parte II’, junto da AS – Empresa das Águas de Santarém.

Este ano, em cinco meses, a PPL Car já venceu nove procedimentos por concurso público e um por ajuste directo. Ou seja, dos 26 contratos públicos que a empresa tem registados no Portal Base numa década, 16 foram obtidos apenas nos últimos dois anos.

Os outros contratos públicos que a PPL Car conseguiu este ano foram com a EDM – Empresa de Desenvolvimento Mineiro, S. A., a Entidade Nacional para o Setor Energético, a ADENE – Agência para a Energia, os municípios de Vagos e de Catanhede, a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo, e a Metro do Porto, com a qual a empresa conseguiu fechar três contratos.

No caso dos três lotes colocados pela PGR a concurso público, ficaram pelo caminho as outras duas concorrentes, a Leaseplan Portugal e a Locarent-Companhia Portuguesa de Aluguer de Viaturas, que perderam a corrida contra a empresa de Santarém. Até porque a PPL Car apresentou um valor global abaixo do máximo previsto no caderno de encargos dos três lotes que previa uma despesa de 639 mil euros.

Ainda assim, os contribuintes vão ficar com um encargo mensal de 8.520 euros para suportar o aluguer destas nove viaturas agora contratadas pela PGR.

domingo, 16 de junho de 2024

Banco Mundial prepara Relatório sobre Clima e Desenvolvimento em Cabo Verde


O Banco Mundial vai apresentar este ano um Relatório sobre Clima e Desenvolvimento (CCDR, sigla inglesa) dedicado a Cabo Verde, devido aos riscos que o arquipélago enfrenta, anunciou a instituição.

“O Banco Mundial está a levar a sério estes desafios e está a preparar um Relatório sobre Clima e Desenvolvimento dedicado a Cabo Verde, em estreita colaboração com o Governo”, lê-se no mais recente boletim de atualização económica da instituição.

Fonte do Banco Mundial (BM) contactada pela Lusa referiu que a publicação deverá ser feita ainda este ano.

A instituição classifica Cabo Verde como “o país com o maior risco de desastres climáticos na África Subsariana e um dos níveis de risco mais elevados a nível global”.

Os episódios de secas cíclicas prolongadas, desertificação e eventos extremos de precipitação que causam cheias repentinas, especialmente nas áreas urbanas, são exemplos das ameaças.

A subida do nível do mar, a erosão costeira e a perda de biodiversidade e ecossistemas são problemas que afetam particularmente as praias e zonas costeiras, “pondo em risco a sustentabilidade do setor do turismo”, o motor da economia.

“As mudanças na temperatura da superfície do mar, salinidade, acidez e níveis de oxigénio terão provavelmente efeitos catastróficos nas pescas”, acrescenta o último boletim do BM em relação a outra área de atividade, a pesca, responsável pela maioria da exportação de bens e pela segurança alimentar.

No caso de Cabo Verde, um dos objetivos do relatório será ajudar a compreender os impactos das alterações climáticas sobre a quantidade de captura de peixe e a sua composição ao longo do tempo, algo “vital para construir resiliência e adaptação no setor”.

O BM destaca a parceria do Governo de Cabo Verde com a Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) para realizar um estudo abrangente sobre os impactos das alterações climáticas nas pescas, com ênfase na importância socioeconómica para o país.

Os relatórios CCDR foram produzidos inicialmente para 25 países e estão a ser implementados em todos os países do Grupo Banco Mundial.

O objetivo é envolver Governos, setor privado, meio académico, grupos de reflexão e a sociedade civil na discussão sobre as mudanças climáticas.

Enquanto documentos públicos, pretendem ajudar a enquadrar ações na agenda do desenvolvimento e clima, assim como sinalizar ações de alto impacto que podem atrair financiamento.

“Este diagnóstico central integra as mudanças climáticas com o desenvolvimento para ajudar a priorizar as ações mais eficazes na mitigação das emissões de gases com efeito de estufa”, acrescenta o BM.

Cabo Verde tem apresentado como um bom exemplo a nível internacional a iniciativa celebrada com Portugal de troca de dívida por financiamento orientado para o clima.

Portugal assumiu em 2023 o compromisso de ser o primeiro participante no fundo climático de Cabo Verde, com 12 milhões de euros, para projetos relacionados com o reforço de energias renováveis.

Ainda no que respeita às alterações climáticas, o Fundo Monetário Internacional (FMI) está a apoiar o arquipélago com um financiamento de 31,7 milhões de dólares (29,3 milhões de euros) ao abrigo do Mecanismo de Resiliência e Sustentabilidade (RSF).

O apoio destina-se aos esforços do Governo em áreas relacionadas com a captação de investimento externo e reformas governamentais para mitigação das alterações climáticas e transição energética.

O primeiro-ministro de Cabo Verde, Ulisses Correia e Silva, tem defendido a criação de novos mecanismos de financiamento para os pequenos Estados insulares poderem enfrentar alterações climáticas sem recorrer às verbas orçamentadas para o desenvolvimento.

Da mesma forma, defende o recurso a índices ajustados às características dos Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento (SIDS, sigla inglesa), saudando a criação de um Índice de Vulnerabilidade Multidimensional pelas Nações Unidas, com a capacidade de ajustar a elegibilidade para financiamentos à realidade dos países.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

A pobreza é uma estratégia ideológica no nosso País, por Raquel Varela

Se usarmos outra metodologia para a pobreza podemos chegar aos 70% de pobres em Portugal: se contabilizarmos acesso à cultura, aprendizagem de artes, férias e lazer, compra de proteína de qualidade, ar puro e vida activa na zona urbana de moradia das famílias, saúde na velhice, no fundo se utilizarmos a qualidade de vida do século XXI em vez dos índices de privação - alguns do século XIX - o que temos é um país de onde desapareceram as classes médias, engolidas em impostos, salário muito abaixo do mínimo para 50% da população trabalhadora (abaixo dos 1200 euros).
A Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030 (ENCP) não elimina a pobreza. Cria novos pobres e encobre problemas sociais de desemprego e baixos salários que se perpetuam já há alguns anos.



quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Portugal deveria construir uma Central Nuclear?




1. O custo do MWh produzido depende do fator de capacidade e da taxa utilizada para descontar os “cash flows” do projeto. Para o mostrar, construímos uma tabela para o grupo nuclear de 1420 MW.

Verifica-se que, para um fator de capacidade de 50% e uma taxa de desconto de 7,5%, o custo do MWh produzido é de $176.

Mesmo com valores de capacidade e taxas de desconto muito favoráveis, o nuclear fica com custos muito para lá do que se consegue com eólica ou solar.

2.A taxa de desconto é outro factor chave no custo do MWh produzido no qual 2.5% de redução da taxa de desconto vale mais que 10% de factor de capacidade durante toda a vida do activo.

A taxa de desconto depende desde logo da taxa de juro da república de longo prazo que neste momento se encontra a crescer.

Depende ainda do modelo comercial da energia produzida. Quanto menor o risco assumido pelos promotores, mais baixa será a taxa. Quanto mais longo for o contrato, menor será a taxa.

Uma taxa baixa consegue-se se o sistema assumir riscos de inflação, sobrecustos de construção e até mesmo um factor de capacidade mínimo tipo take-or-pay.

Hinkley C tem um contrato de 35 anos que a valores de 2021 é de £106/MWh. No ultimo leilão solar em Portugal, os preços fixaram-se em menos de 20€/MWh para 15 anos.

3.Um outro aspecto essencial do contrato será a questão da segurança e do risco de acidente. É óbvio que se constrói a central para que não haja acidentes e as centrais são tão seguras quanto é possível fazê-las, mas o contrato tem de prever o que acontece e como são geridos os custos.

Um projecto nuclear terá que ter um backstop a partir do qual os custos são assumidos pelo Estado. Quanto mais alto for o backstop, mais alta será a taxa de desconto.

4. No nosso modelo, considerámos que a construção levaria 6 anos. Mas o provável é que demorasse pelo menos 10 anos, e que os estudos prévios, demorassem 5 anos.

Qualquer atraso no início de funcionamento da central, atrasa o início de “cash flows” positivos, e tem um grande impacto no custo de MWh e ou rentabilidade do projecto.

No mundo real vale a pena olhar para os casos das centrais europeias recentes, de Hinkley C e de Olkiluoto 3, que tiveram tempos de construção de 17 anos.

5. Concluindo. A construção de uma central nuclear tem um custo do MWh nuclear não competitivo com o MWh renovável porque não trabalha horas suficientes para recuperar o investimento e precisa de um contrato comercial com baixo perfil de risco, difícil de assumir socialmente, para poder ser financiável

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Documentário - Uma história do neoliberalismo em Portugal


Desde os anos 80, as ideias económicas conhecidas por neoliberais tornaram-se dominantes em Portugal. A sua aplicação, em consonância com a integração europeia, modificou as estruturas económicas, mas registou fracos resultados no desenvolvimento do país. Como foi que essas ideias chegaram a Portugal, se difundiram e espalharam até se tornarem hegemónicas? E por que é tão difícil removê-las? Este filme procura responder as estas perguntas e questionar o futuro.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Eficácia de medidas verdes para setor financeiro levanta dúvidas


Lisboa, 02 fev 2022 (Lusa) - As questões do reporte ligadas à sustentabilidade levantam dúvidas de implementação e eficácia e o uso de subsídios pelo sistema financeiro à energia verde pode ter efeitos contraproducentes, segundo um estudo de economistas do Banco de Portugal (BdP).

No 'occasional paper' “Alterações climáticas e economia: uma introdução”, divulgado hoje, os economistas do BdP mostram-se céticos entre a eficácia das medidas dirigidas ao setor financeiro para mitigar o impacto das alterações climáticas e aquelas que têm sido as diretrizes para o sistema financeiro, nomeadamente as medidas anunciadas na estratégica de política monetária do Banco Central Europeu.

“O primeiro passo na análise de medidas dirigidas ao sistema financeiro deve passar por identificar as falhas de mercado às quais estas podem responder”, pode ler-se no 'paper' assinado por Bernardino Adão, António Antunes, Miguel Gouveia, Nuno Lourenço e João Vale e Azevedo.

No estudo, cujas opiniões não vinculam o BdP, os economistas identificam como falhas as insuficiências no reporte de informação sobre os efeitos ambientais de determinadas indústrias ou empresas e sobre a sua suscetibilidade às alterações climáticas, “que podem gerar um escasso reconhecimento do risco que lhes está associado, e consequente excessivo investimento”, bem como “externalidades de determinadas atividades, que serão negativas se gerarem emissões de GEE [Emissões de Gases com Efeito de Estufa] demasiado elevadas face ao que seria socialmente desejável” e “positivas no caso de investimento demasiado baixo em desenvolvimento e adoção de tecnologias de energias renováveis, caracterizadas por ganhos na produção em massa ou economias de rede”.

Para os economistas a primeira falha “pode ser colmatada com divulgação adicional de informação; as segundas podem ser resolvidas com medidas fiscais ou equivalentes”, considerando que medidas enquadráveis na regulação e supervisão do sistema financeiro, como “a divulgação padronizada de dados ambientais pelas empresas e a correspondência com uma taxonomia globalmente aceite” iriam contribuir para uma “melhor avaliação dos riscos climáticos e do impacto ambiental das empresas por parte dos consumidores e dos investidores”.

Contudo, alertam ser “necessário garantir que a qualidade do reporte exigido seja verificável e que os respetivos custos não sejam demasiado elevados”.

Os economistas argumentam ainda que “as questões de reporte são relevantes para a aferição e controle de risco, dimensão que tem assumido um papel relevante no desenho de políticas dirigidas ao sistema financeiro”.

No entanto, relativamente às propostas para um tratamento regulatório mais favorável, em termos de requisitos de capital e outros, a crédito “verde”, ou crédito a empresas ou projetos com esta vertente, argumentam que “o objetivo dos requisitos de capital é garantir que os bancos têm capacidade de absorver perdas”.

“À partida, não há razões para crer que os projetos verdes têm menos risco do que outros projetos. De facto, este tipo de políticas parece ter como objetivo sintetizar um subsídio a atividades verdes. Em qualquer caso, levantam questões relevantes de implementação e eficácia”, assinalam.

Os economistas apontam, neste sentido, “a enorme dificuldade em caracterizar projetos ou empresas de acordo com o seu caráter verde”.

Argumentam ainda que a “existência de um regime mais favorável cria incentivos à designada arbitragem regulatória, que, neste caso, irá no sentido de designar quaisquer projetos ou empresas como verdes”, considerando que seria “necessária uma camada adicional de escrutínio à supervisão do sistema financeiro, que pode resultar num significativo dispêndio de recursos”.

“Do ponto de vista dos bancos também haveria dispêndio de recursos na exploração da diferença de tratamento regulatório entre os tipos de crédito. Em geral, este custo seria tanto maior quanto mais favorável fosse o tratamento regulatório dos projetos verdes”, acrescentam.

Classificam ainda como “difícil garantir que um determinado financiamento se destina a um fim específico dentro de uma empresa ou grupo empresarial” e advertem que “nada impede que formas não bancárias de financiamento ou financiamento externo com origem em jurisdições mais lenientes nesta dimensão, num contexto de livre circulação de capitais, continuem a suportar as atividades pouco verdes”.

“Tal deveria suceder porque estas medidas são ineficazes para reduzir a diferença, que pode ser muito significativa, entre o retorno privado e o retorno social de projetos intensivos em GEE”, referem.

Os economistas consideram ainda que a subsidiação de atividades verdes, através da compra de obrigações verdes ou, no contexto de operações de refinanciamento aos bancos “pode ter efeitos contrapruducentes”.

Ainda assim, admitem que tal “não impede que os bancos centrais, enquanto organizações relevantes, cumpram critérios de sustentabilidade e responsabilidade corporativa”.