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domingo, 22 de março de 2026

«Manipulação climática»: gigantes dos combustíveis fósseis abandonam metas de neutralidade carbónica


Nova análise alerta que algumas das maiores petrolíferas mundiais entraram numa fase de manipulação para aumentarem os lucros

As grandes petrolíferas são acusadas de estarem a “abandonar discretamente” as suas promessas climáticas para justificarem a continuação do uso de combustíveis fósseis poluentes.

Uma nova investigação da Clean Creatives, um projeto para profissionais de relações públicas e publicidade conscientes do clima, acompanhou como as Big Oil têm vindo a mudar “de forma sistemática” a sua narrativa nos últimos quatro anos, apesar dos repetidos alertas sobre o aquecimento do planeta.

Intitulado Toxic Accounts: From Greenwashing to Gaslighting , o relatório analisa mais de 1.800 peças de campanha das gigantes dos combustíveis fósseis BP, Shell, ExxonMobil e Chevron entre 2020 e 2024.

Inclui anúncios pagos em redes sociais como o Facebook, YouTube, TikTok e Instagram, bem como spots de televisão, arquivos de bibliotecas, comunicados de imprensa, informação para investidores e discursos de executivos.

Grandes petrolíferas fazem “gaslighting” climático
No início do período analisado, as campanhas enfatizavam metas climáticas e compromissos com a transição para energia limpa, apresentando frequentemente as empresas como parceiras de transição.

No entanto, em 2023, a mensagem passou a apresentar cada vez mais o petróleo e o gás como “permanentes, indispensáveis e essenciais para a estabilidade económica e a segurança nacional”.

Em 2020, a BP passou da promessa de neutralidade carbónica e da retórica de “tornar as empresas mais verdes” para campanhas que, segundo a Clean Creatives, defendem a continuação da expansão do gás e do petróleo, ao mesmo tempo que recua nas suas ambições em matéria de energias renováveis.

A Chevron também abandonou o posicionamento “Human Energy” e passou para uma “mensagem nacionalista” que associa a produção interna de combustíveis fósseis à segurança económica e nacional, revela o relatório.

Investigadores alertam que, apesar das diferenças de tom, todas as grandes petrolíferas analisadas seguiram mudanças narrativas semelhantes, passando de se apresentarem como “parte da solução” para uma mensagem de “não podem viver sem nós”.

As campanhas passaram também a promover cada vez mais o gás natural liquefeito (GNL), a captura e armazenamento de carbono (CCS), o hidrogénio azul, os biocombustíveis e o gasóleo renovável como soluções climáticas, apesar de existirem provas de que estas tecnologias continuam a ser derivadas de combustíveis fósseis ou não estão comprovadas em larga escala.

“A velocidade com que as empresas passaram para mensagens centradas na segurança energética correlacionou-se com o seu desempenho financeiro”, lê-se no relatório.

“A Chevron e a ExxonMobil foram rápidas a orientar a sua mensagem para a predominância dos combustíveis fósseis e, como resultado, lideraram o mercado.”

O estudo concluiu também que a Shell, acusada no ano passado de minimizar o impacto climático dos combustíveis fósseis, deixou de se apresentar como líder da neutralidade carbónica para passar a destacar o GNL como mercado de crescimento a mais longo prazo.

Combustíveis fósseis mantêm-se “lucrativos” apesar da mudança de atitudes
“O ‘greenwashing’ assume agora uma nova forma”, afirma Nayantara Dutta, responsável pela investigação na Clean Creatives e autora principal do relatório.

“Em vez de fazerem afirmações falsas, as grandes petrolíferas promovem falsas soluções como a CCS e o gás natural, apesar de serem derivadas de combustíveis fósseis e de criarem uma dependência de longo prazo desses combustíveis.”

Dutta defende que as petrolíferas constroem uma narrativa que as mantém “lucrativas e no poder” perante uma oposição crescente.

A transição para longe dos combustíveis fósseis tornou-se um dos pontos de maior tensão na cimeira COP30 das Nações Unidas em Belém, no ano passado, apesar de não constar oficialmente da agenda.

Mais de 90 países, incluindo a Alemanha e os Países Baixos, apoiaram a ideia de um roteiro que permita a cada nação definir as suas próprias metas para avançar para a energia verde.

Apesar do apoio crescente a esta ideia, todas as referências aos combustíveis fósseis foram retiradas do acordo final nas últimas horas da cimeira. Isto significa que a esperança de um futuro sem combustíveis fósseis fica agora fora do âmbito das Nações Unidas.

Um relatório da Carbon Majors concluiu recentemente que 17 dos 20 maiores emissores em 2024 eram empresas controladas por países que vieram a bloquear o roteiro da COP30. Entre eles contam-se a Arábia Saudita, o Irão, o Qatar, a Índia, a Rússia e a China.

Irão: grandes petrolíferas e a guerra
“A transição do ‘greenwashing’ para a defesa da predominância da energia de origem fóssil é a mais recente reviravolta retórica na manipulação da opinião pública para aceitar as emissões de gases com efeito de estufa como apenas parte da atividade económica”, afirma Robert Brulle, sociólogo ambiental da Universidade Brown.

“Ao mesmo tempo, a guerra no Médio Oriente evidencia o erro da ideia de que os combustíveis fósseis proporcionam ‘segurança energética’.”

Vários especialistas têm usado a guerra contra o Irão para sublinhar a necessidade urgente de uma transição para a energia limpa, numa altura em que os preços do petróleo e do gás continuam a disparar.

A organização sem fins lucrativos 350.org apelou recentemente aos países do G7 para que apliquem um imposto sobre lucros extraordinários às grandes petrolíferas que, segundo a organização, estão a “lucrar” com a escalada do conflito no Médio Oriente.

Embora a guerra no Irão também tenha reforçado os apelos para que o Reino Unido abra novas licenças de perfuração no mar do Norte, uma análise da Universidade de Oxford concluiu que apostar nas energias renováveis é muito mais provável que faça baixar as faturas de energia das famílias.

“O que estamos a ver é a desinformação climática a evoluir em tempo real”, afirma Dana Schran, da coligação Climate Action Against Disinformation (CAAD).

“Em vez de negarem a crise, grandes petrolíferas como a BP e a Shell estão a reescrever a narrativa para que a expansão dos combustíveis fósseis pareça necessária e responsável. É um esforço sofisticado para proteger a influência política e os lucros, mesmo à medida que os impactos climáticos se agravam.”

Saber mais: 


sexta-feira, 20 de março de 2026

EUA e Irão estiveram à beira de um acordo nuclear, diz Omã


O Ministro dos Negócios Estrangeiros de Omã, que mediou as negociações entre EUA e Irão, revelou que Teerão e Washington estiveram, por duas vezes, “à beira de um acordo” nuclear nos últimos nove meses. Por isso, Badr Albusaidi sublinha que o ataque conjunto de Israel e EUA contra o Irão foi recebido com “choque”. Para o chefe da diplomacia de Omã, o ataque norte-americano ao Irão foi o “maior erro de cálculo” da administração Trump.

“Por duas vezes em nove meses, os Estados Unidos e o Irão estiveram à beira de um acordo concreto sobre a questão mais complexa que os divide: o programa nuclear iraniano e os temores americanos de que ele se possa transformar num programa militar. Portanto, foi um choque, mas não uma surpresa, quando a 28 de fevereiro — apenas algumas horas após as últimas e mais substanciais negociações — Israel e os Estados Unidos lançaram novamente um ataque militar ilegal contra a paz que, por um breve período, parecera realmente possível”, sublinhou Badr Albusaidi, num artigo publicado no Guardian

sexta-feira, 6 de junho de 2025

Netanyahu admite que Israel "mobilizou" milícias rivais do Hamas em Gaza, incluindo o ISIS: "O que há de errado nisso?"



O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, reconheceu esta noite que seu governo armou clãs armados na Faixa de Gaza que estão em desacordo com o Hamas , após uma figura da oposição e ex-ministro acusá-lo de fazer isso. "Mobilizamos clãs em Gaza que são rivais do Hamas. O que há de errado nisso?", disse Netanyahu num vídeo publicado em sua conta no X. "É simplesmente bom. Salva vidas de soldados."

A declaração do presidente ocorre horas depois de o líder da oposição e ex-ministro Avigdor Lieberman dizer numa entrevista na rádio pública israelita Kan que o governo está fornecendo armas para outras milícias em Gaza.

No seu vídeo, Netanyahu defendeu a estratégia como uma medida apoiada por autoridades de segurança e acusou Lieberman de comprometer a operação ao torná-la pública. "Revelar essa informação só beneficia o Hamas", disse ele.

De acordo com algumas ONGs e meios de comunicação, esses grupos estariam roubando ajuda humanitária e alimentos, causando ainda mais caos no enclave.

Lieberman, que foi ministro da Defesa de 2016 a 2018, quando Netanyahu também era primeiro-ministro, afirmou que Israel está fornecendo armas a "criminosos" que se identificam com o Estado Islâmico (EI, ISIS ou Daesh). Segundo ele, essa política não foi aprovada pelo Gabinete, mas foi executada com o conhecimento do chefe do Shin Bet, a agência de inteligência doméstica.


A Suprema Corte israelita decidiu que a demissão do chefe da Inteligência Nacional, Ronen Bar, que liderou a investigação do Qatargate, foi "ilegal".

Na terça-feira, um novo grupo armado de Gaza, autodenominado Forças Populares, pediu aos palestinianos na Faixa de Gaza que se mudassem para o leste de Rafah, uma área proibida para o exército israelita, para receber comida, remédios e abrigo, de acordo com sua conta no Facebook.

O líder do grupo, Yasser Abu Shabab, foi acusado pelo Hamas, ONGs e pela media internacional de saquear camiões que transportavam ajuda humanitária, enquanto as forças israelitas supostamente assistiam sem intervir.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Pedro Aibéo - Se sou um cidadão do mundo, que morra então como tal, no caminho


Desde pequeno que dizia querer ser engenheiro. Pedro Aibéo, 44 anos, nasceu no Porto e estudou no Liceu de Gaia, atualmente Escola Secundária Almeida Garret, antes de concorrer a Engenharia Civil na Faculdade de Engenharia da U.Porto (FEUP) em 1997.

“A minha resposta standard às perguntas deste género era que queria construir coisas, mas que queria compreendê-las, antecipando-me à pergunta de porque então não arquitetura?” explica.

Mais tarde acabou mesmo por estudar Arquitetura em Darmstadt, na Alemanha, e diz que “obviamente entendi que saber como funciona em detalhe o betão armado e outros detalhes está longe de significar entender-se o que é uma casa ou uma ponte. O todo não é só maior que a soma das partes, mas algo completamente diferente e inesperado.”

Terminou o curso na FEUP em 2002. Um ano antes, quase por acaso, candidatou-se a uma mobilidade Erasmus e foi parar a Seinäjoki, na Finlândia, país que acabaria por escolher mais tarde para viver. “Mesmo no último dia de candidatura, um amigo falou-me desta possibilidade, num dia de chuva no novo Campus da Asprela (antigamente a FEUP era na Rua dos Bragas a poucos metros de onde eu tinha nascido) e eu escolhi a última opção ainda disponível, a Finlândia. Na altura, em 2001, ninguém realmente queria ir para a Finlândia”, explica o alumnus.

A vida de Pedro não se fica apenas pela Engenharia. É músico, escritor, investigador, empreendedor e ativista político com inúmeros projetos finalizados e outros tantos em progresso.

“Estou a finalizar um doutoramento em Architectural Democracy sobre política e construção com o famoso escritor John Keane da Austrália, criei três companhias à volta da “Gamified Cohousing”, criei uma organização sem fins lucrativos, a World Music School e sou Deputy Member do Departamento de Planeamento Urbano da cidade de Lohja. Além disso, faço parte de uma galeria de arte, a Myymälä, no coração de Helsínquia e tenho publicado vários livros, um deles o “Isto não é só Matemática”, já tendo em vista o próximo, que será sobre astronomia. Também escrevi peças de teatro para as Nações Unidas e para o teatro estatal alemão, toquei e toco música profissionalmente com os “Homebound” e os “Wolfenmond” e sou Vice-Chairman dos “Artists at risk”, uma associação que ajuda refugiados políticos através das artes”, resume o engenheiro civil.

Com uma vida cheia de planos, Pedro é muito mais que um engenheiro na verdadeira essência do querer construir e compreender o mundo à sua volta. E todo este trabalho tem dado os seus frutos.

“Tenho recebido vários prémios para alimentar o meu ego. O mais recente foi há uns meses atrás, o prémio estatal de artes (Taike), o maior prémio nacional deste género na Finlândia. Outros têm sido à volta da arquitetura e engenharia. Recentemente, desenhei um Hospital e um centro de estudo de reciclagem para o Nepal, patrocinado pela Koica – Korea International Cooperation Agency, a agência sul coreana para o desenvolvimento, tendo ambos os projetos sido premiados”, acrescenta.

O projeto que quer mudar as cidades
Em 2018, Pedro começou a “Gamified Cohousing”, uma spin-off da sua investigação sobre Architectural Democracy, que se traduz num projeto que quer resolver os problemas crescentes de solidão e desperdícios de recursos (naturais e humanos) nas cidades, combinando esse facto com o potencial de existirem vários edifícios vazios no mundo.

“Com a Gamified Cohousing temos agora cinco propriedades na Finlândia, quatro escolas antigas e uma estação de comboios que estamos a renovar e a implementar um misto de habitação e local de trabalho, com zonas partilhadas. Tudo gerido através de um jogo semelhante ao The Sims”, avança o antigo estudante da FEUP.

– Como surgiu a oportunidade de ir para a Finlândia?
Em 2001, através do projeto Erasmus e depois de ter vivido em muitos países, a fazer engenharia e arquitetura, como Oman, Alemanha, Índia, Austrália e China, resolvi seguir o meu caminho, parar de trabalhar por conta de outrem e criar as minhas empresas e investigação. A Finlândia parecia o sítio certo para tal, mais próximo da família e dos meus filhos e num país onde os apoios são fortes. Estatal e privado. Por exemplo, recebi a bolsa da Kone Foundation para a investigação. Mas o sistema não é perfeito, longe disso, se bem que os comboios quase o são. Estou agora a escrever isto de Kajaani para Lappeenranta, no restaurante do comboio.

– De que forma a Universidade do Porto teve impacto neste processo?
A Universidade do Porto deu-me oportunidade de ingressar no projeto Erasmus, com bolsa e um processo muito fácil de aplicação. A Faculdade de Engenharia fez-me crescer muito: de um rapaz confuso de 17 anos para alguém capaz de se organizar não só no trabalho, mas a ser independente na vida.

– Há quanto tempo estás fora de Portugal?
Desde 2002. 22 anos, exatamente metade da minha vida!

– O que te motivou a ir para fora?
Depois da experiência na Finlândia, ficar num só sítio pareceu muito redutor, havia um mundo por explorar e crescer. Não sou obcecado por viajar e por turismo, mas sou com certeza um irrequieto.

– Apesar de viveres na Finlândia, consideras-te um cidadão do mundo?
Não passo muito tempo na Finlândia, talvez metade do ano. Hoje em dia tenho passado muito tempo no Nepal e no Qatar em projetos de engenharia e arquitetura. Fui dando muitas aulas antes da pandemia que se viveu em 2020, ia anualmente à China, incluindo Wuhan, onde dei várias aulas e workshops. Passei também pelo México e Índia. Hoje em dia não tenho dado aulas porque acabo por ter pouco tempo para isso.

Cidadão do mundo? Essa definição é a de uma pessoa que pertence a todos os lados e a nenhum também. Há um sentimento de casa, quando estou em Oman e na Alemanha, tão intenso ou senão mais do que em Portugal, mas também um eterno sentimento de ser o estrangeiro em todos os lados. Mas voltar a Portugal é indesejável, porque seria frustrante fechar a minha história de vida com saudosismos constantes, do emigrante que de repente já não o é. Tornar-me naquele tio que muitos de nós certamente já experienciámos em várias ocasiões, a querer falar de que também antigamente viajava e era um cidadão do mundo com um olhar triste de não o ser mais! Se sou um cidadão do mundo, que morra então como tal, no caminho.

– Como foi a adaptação a viver fora de Portugal, noutros países, e à Finlândia em particular?
Na altura, em 2001, havia menos Internet e nada de câmaras digitais ou smartphones. Mas muita vida social que ajudou bem na transição. Tornou-se tudo rapidamente numa aventura. Hoje, continua a ser fácil e também difícil, por outro lado. As burocracias e línguas por vezes dificultam. Antigamente, era necessário aprendermos a língua do país onde estávamos, mas atualmente torna-se quase desnecessário com tanta ferramenta digital disponível.

Obviamente que sendo europeu, não estou iludido. Facilita a vida… e muito! Quando estive na Palestina a explorar Hebron e me vi rodeado de militares das Forças de Defesa de Israel, bastou-me levantar o passaporte português para que libertassem as armas apontadas a mim.

– Principais experiências que gostasses de destacar?
O nascimento dos meus dois filhos, na Alemanha e na Estônia, muitos romances e, claro, muitos projetos de trabalho!

Dos romances não se fala, fica para outra rubrica talvez, mas do trabalho, deixo uns destaques: a construção da GuTech em Oman, a graduação em Engenharia Civil e em Arquitetura, a compra da primeira escola em Hyrsylän Koulu, na Finlândia, para a “Gamified Cohousing” em 2019, expor na Bienal de Veneza, publicar um livro prefaciado pelo Nuno Markl, ter tocado música ao lado do Béla Fleck no Celtic Connections em Glasgow, ter feito uma peça de teatro nas Nações Unidas de Viena para um público recheado de astronautas, as tours de música pela Alemanha a tocar gaitas de foles em shows góticos, vender os meus desenhos de nus em galerias e pagar os meus estudos com esse valor, tocar música em casamentos na Índia, fundar uma escola de música no Benin, dar aulas de arquitetura na Austrália, representar a Finlândia numa palestra em Barranquilla, na Colômbia, e ser capa do maior jornal da Finlândia, Helsingin Sanomat, em protesto contra o Guggenheim em Helsínquia.

– O que gostas mais na Finlândia? E menos?
Gosto de um alto nível de honestidade e confiança, desgosto do constante uso da palavra “niin” nas conversas… Faz-me lembrar Monty Python e os cavaleiros que diziam “ni”.

–  Um conselho para quem visita a Finlândia?
Não esperem o país mais feliz do mundo, não é baseado em números de sorrisos por dia por pessoa, ou numa vida social intensa e muito menos, não esperem receber comida quando forem visitar alguém, é só café, quase sempre americano.

– Do que é que sentes mais falta em Portugal? Pensas em regressar?
Não tenho planos de regressar, só se fizermos algumas “Gamified Cohousings” por aí. Estamos já a expandir para a Ásia, mas Portugal ainda não. Quem sabe!

Não sinto realmente saudades, tento sempre fugir da clássica nostalgia, de viver no passado. Não sinto falta do Fado, mas sim de uma boa noite a tocar gaita de foles em Trás-os-Montes com os meus amigos, alguns dos quais com quem cresci a tocar música durante o curso de Engenharia Civil.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

Empresas de transporte marítimo valorizam 22 mil milhões à boleia do conflito no Mar Vermelho


Desgraça de uns, sorte de outros. As maiores transportadoras marítimas do mundo registaram um salto na capitalização bolsista desde que começaram os ataques das milícias houthis. Agora, os barcos têm de contornar África para chegar à Europa, o que torna tudo mais caro.

Na senda da guerra entre Israel e a organização terrorista islâmica Hamas, as milícias houthi do Iémen começaram a atacar, há semanas, barcos no Mar Vermelho com drones e outras armas. Em meados de novembro, o grupo sequestrou um cargueiro, o "Galaxy Leader", propriedade de uma empresa israelita. Os houthis ameaçam agora atacar qualquer navio a caminho de Israel, se não for autorizado o transporte de mais alimentos e medicamentos para a Faixa de Gaza.

Os ataques dos houthis à navegação internacional são tão ferozes que quatro companhias de navegação internacionais anunciaram que vão passar a contornar uma das mais importantes rotas marítimas do mundo: o estreito de Bab al-Mandab, que liga o Golfo de Aden ao Mar Vermelho.

Os ataques dos Houthi a navios mercantes enquanto navegam através do Mar Vermelho estão a aumentar as acções de empresas que transportam tudo, desde bens manufacturados a petróleo e mercadorias.

A capitalização de mercado combinada das maiores companhias marítimas de capital aberto do mundo aumentou cerca de 22 mil milhões de dólares desde 12 de Dezembro, quando os ataques realmente aumentaram.

O aumento deve-se ao facto de um grande número de navios optar por evitar a área de conflito, onde os custos de seguro estão a aumentar. Isso significa que não podem usar o Canal de Suez do Egipto para fazer a ligação entre a Ásia e a Europa e, em vez disso, têm de navegar milhares de quilómetros ao redor de África para fazerem as suas entregas.

As maiores distâncias ocupam as frotas por mais tempo, reduzindo a oferta de navios. Os atrasos também causarão algumas perturbações, uma vez que os navios chegam aos seus destinos mais tarde do que o esperado e, em seguida, atrasam o regresso às suas próximas cargas, prejudicando ainda mais o abastecimento dos navios.

A Keuhne+Nagel, um gigante da logística global, disse quarta-feira que 103 navios porta-contentores foram desviados em torno de África, um número que espera aumentar. Alguns proprietários de petroleiros também insistiram em opções em seus fretamentos para evitar o sul do Mar Vermelho, enquanto a BP Plc e a Equinor ASA também se esquivaram da área.

A capitalização de mercado combinada das empresas do Solactive Global Shipping Index subiu para quase US$ 190 bilhões na quarta-feira. Em 12 de dezembro, era de US$ 166,2 biliões.

Existem também centenas de companhias marítimas privadas que poderão beneficiar se a perturbação no Mar Vermelho aumentar os custos de frete.

Saber mais:

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

A lavagem verde da COP28 por bots



Uma rede de pelo menos 1.900 bots no X (antigo Twitter) promove a COP28 em inglês e árabe, conclui uma análise de Marc Owen Jones, professor da Universidade Hamad bin Khalifa, no Catar. Os bots elogiam os Emirados Árabes Unidos e o presidente da polícia como heróis do clima.

“Identifiquei uma rede de cerca de 1.900 bots no Twitter/X fazendo lavagem verde da COP28. A rede está dividida em “asseclas” e “generais”. Os minions só aparecem para curtir e promover uma série de 'generais'. Os ‘generais’ publicam conteúdo original. Por exemplo, o ‘general’ Mazon é um bot com uma conta 'antiga/poucas', ou seja, foi criada em 2009 (conta antiga), mas só fez 1.352 postagens (poucas). O seu primeiro tweet é de 2022, o que significa que foi apagado e reaproveitado.

E quem são as ‘pessoas’ que gostam do tweet do Mazon? Os asseclas do ‘general’ são todos bots. As contas nesta rede têm uma caraterística distintiva: cada tweet de um general como Mazon recebe cerca de 100 gostos. Os seus rostos são gerados por inteligência articifial.

Esta rede é inteligente. Nem todos os bots retweetam 1.900 vezes. Eles estão divididos em unidades/células - e cada unidade irá gostar de um poste de um general específico, com algumas exceções. Provavelmente para evitar a deteção pelo Twitter/X. Portanto, nesta rede há cerca de 22 generais e 1.878 subordinados. Nem todos os generais são criados iguais e até alguns exibem o selo de verificação, como bint_jumeiraah e BkhetaElbasbosy, cujas contas são antigas, com número semelhante de tweets.

Muitos dos tweets elogiam o chefe do ADNOC e presidente da COP28, Sultan Al Jaber. Outros elogiam os Emirados Árabes Unidos e a COP28 em geral. A rede Atm tem a tarefa de promover a COP28, os Emirados Árabes Unidos e Al Jaber como bons para a catástrofe climática.

Em suma, pelo menos 1.900 bots/contas falsas estão envolvidas na promoção do greenwashing COP28, principalmente em inglês e árabe. Os bots estão ligados a uma rede muito maior de contas falsas, totalizando pelo menos 7.000, aparentemente alinhadas com a política externa dos Emirados Árabes Unidos.”

domingo, 29 de janeiro de 2023

Como uma investigação internacional descobriu milhões dos Emirados para Nicolas Sarkozy

Ex-político recebeu como conselheiro de um fundo do Luxemburgo, mas dinheiro terá vindo do Médio Oriente. Em 2018, o ex-Presidente francês defendeu autocratas como Putin, Xi, o príncipe Bin Salman e o presidente dos Emirados.


A 10 de agosto de 2018 Nicolas Sarkozy recebeu numa conta bancária pessoal, no banco Edmond de Rothschild, duas transferências, no total de €3,15 milhões. Vinham de empresas do Luxemburgo geridas pelo fundo de investimento Peninsula Capital. Segundo uma carta “estritamente confiden­cial” dos advogados do Peninsula ao banco, Sarkozy aconselhou o fundo sobre investimento na empresa ferroviá­ria italiana NTV, tendo recebido parte dos lucros auferidos.

Problema: testemunhos e documentos obtidos pelo jornal digital “Mediapart” e os seus parceiros da rede EIC (incluin­do o Expresso) põem este relato em dúvida. A investigação indica que os milhões terão sido pagos por uma empresa financiada sobretudo pelos Emirados Árabes Unidos (EAU), país do Golfo Pérsico que é tão rico quanto autoritário.

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Let me tell you something- O Estado Global da Democracia

Let me tell you something... The Almost Forgotten Selma March.
Aos países como EUA, Rússia, China, Marrocos, Índia, Qatar, Myanmar, Angola, Irão, regimes autocráticos/teocráticos, regimes que violam os Direitos Humanos e países europeus governados pela extrema-direita tenho um textinho para vós:

"True peace is not merely the absence of tension; it is the presence of justice.
To cure injustices, you must expose them before the light of human conscience." - Martin Luther King, Jr. (Montgomery, Alabama, March 25, 1965)


Martin Luther King, Jr.- Selma March, 1965

História

Relatórios

terça-feira, 29 de novembro de 2022

G20: agora, já é às claras



Há duas semanas realizou-se a reunião anual do G20, em Bali, com a participação dos inefáveis e não-eleitos Klaus Schwab e Bill Gates, todos vestidos ao melhor estilo de ditadores comunistas.

Os líderes das 20 maiores economias do Mundo, coadjuvados pelas duas luminárias, assinaram o seguinte compromisso, muito bem sintetizado por Kit Knightly no OffGuardian:

1 – Alterar a produção e distribuição de alimentos;
2 – Incrementar a dependência global de fontes de energia “renováveis”;
3 – Aumentar a vigilância e a censura da “desinformação” na Internet;
4 – Introduzir moedas digitais programáveis dos Bancos Centrais;
5 – Introduzir passaportes digitais de vacinas, com base “na experiência” da putativa pandemia covid-19.

Enquanto andávamos todos distraídos com os dislates do prócere máximo da República, com a reconquista de Kherson pelas tropas ucranianas e com o míssil “russo” na Polónia, os principais líderes mundiais, com base nas ordens dos não-eleitos Klaus Schwab e Bill Gates, discutiam, combinavam e publicavam os seus planos para o Governo Mundial.

Os participantes destes encontros globais já não escondem os seus planos. Desde a putativa pandemia que os seus planos maquiavélicos para o futuro da Humanidade são públicos e contêm todos os detalhes que nos esperam.

Antes de me debruçar sobre os detalhes do compromisso, importa mencionar novo lema: “Recuperar Juntos, Recuperar Mais Forte”, isto depois do infame “Reconstruir Melhor”. O colectivo acima do indivíduo, tal como uma utopia socialista, onde cada membro não é mais do que uma peça da engrenagem para rumar à “Terra Prometida”.

Daqui a uns meses estarão todos em uníssono a repetir “Recuperar Juntos, Recuperar Mais Forte”, incluindo o fugitivo do pântano nas Nações Unidas.

Vamos então ao compromisso do G-20; em sequência da “Cimeira do Clima”, a COP27, onde se falou de “agricultura alternativa” – carne cultivada em laboratório e produção em massa de insectos para alimentação humana-, o documento volta a debruçar-se sobre o tema:

“Vamos tomar mais acções coordenadas para enfrentar os desafios da segurança alimentar, incluindo aumentos de preços e escassez de produtos alimentares e fertilizantes a nível mundial… assegurar que os sistemas alimentares contribuam para a adaptação e mitigação das alterações climáticas, travem e invertam a perda de biodiversidade, diversificando as fontes alimentares… Estamos empenhados em apoiar a adopção de práticas e tecnologias inovadoras, incluindo a inovação digital na agricultura e nos sistemas alimentares para aumentar a produtividade e a sustentabilidade.”

Passemos a fazer um exercício de tradução: (i) onde está a expressão “mitigar a mudança climática”, deveria ser “produzir menos carne”; (ii) onde está a frase “diversificando as fontes alimentares”, deveria estar “diversificando as fontes alimentares com a produção massiva de insectos”; (iii) onde consta “práticas e tecnologias inovadoras”, deveria ter sido escrito “de tecnologias de produção em laboratório”.

Em relação à produção de energia, mais do mesmo, os gases com efeito de estufa continuam a ser o alvo a abater:

“Reiteramos o nosso compromisso de alcançar uma redução global das emissões líquidas de gases com efeito de estufa/ neutralidade de carbono…aumentando a implantação da produção de energia limpa, incluindo as energias renováveis, bem como medidas de eficiência energética, incluindo a aceleração dos esforços para a redução gradual da energia que usa carvão.”

O Santo Ofício era uma brincadeira de crianças ao lado destes “Senhores do Mundo”. Propõem controlar a Internet com maior rigor; tudo, obviamente, em nome da nossa segurança!

“Reconhecemos que uma conectividade digital acessível e de alta qualidade é essencial para a inclusão e a transformação digital, enquanto um ambiente online resistente, seguro e protegido é necessário para aumentar a confiança na economia digital… Reconhecemos a importância de combater campanhas de desinformação, ameaças cibernéticas, abusos online e garantir a segurança nas infraestruturas de conectividade”.

O combate ao dinheiro físico continua a ser uma obsessão. O lançamento de Moedas Digitais dos Bancos Centrais constitui agora a prioridade máxima!

“Saudamos o relatório do Banco SIS (o Banco Central dos Bancos Centrais) sobre a interligação dos sistemas de pagamento… sobre opções de acesso e interoperabilidade das Moedas Digitais dos Banco Central para pagamentos transfronteiriços.”

A melhor parte estava reservada para o fim: os certificados digitais, instrumentos de segregação, justificados com a mais despudorada mentira, beneficiaram de um tremendo panegírico:

“Reconhecemos a importância de normas técnicas e métodos de verificação comuns…para facilitar as viagens internacionais sem descontinuidades, a interoperabilidade, e o reconhecimento de soluções digitais e não digitais, incluindo a prova de vacinação. Apoiamos a continuação do diálogo e colaboração internacionais no estabelecimento de redes de saúde digitais globais de confiança.”

Que bons que são eles! Querem atribuir-nos direitos que já estão inscritos na Carta dos Direitos Humanos. Se nos inocularmos com as substâncias experimentais, passamos a ter liberdade de locomoção. A nossa privacidade é enviada definitivamente para o caixote de lixo. Passaremos a apresentar “os papéis”, tal como na Alemanha Nazi, em cada “check-point” que estes tiranetes decidam impor.

Anteriormente, uma pandemia era algo que existia uma vez na vida de uma pessoa. Agora está aí ao virar da esquina, temos de nos preparar para próxima – dizem eles –, aproveitando o legado dos certificados-nazi covid-19.

De uma coisa estaremos certos, por aqui esta agenda será fácil de implementar.

Há pouco tempo, o prócere máximo da República até nos anunciava que a bola era mais importante que os direitos humanos; estes podiam ficar para mais tarde. Quando reparou que tinha enfiado o “pé-na-poça”, proclamou que ia ao Qatar falar de direitos humanos!, isto vindo de alguém que solicita uma revisão constitucional para legalizar precisamente atropelos aos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos que ele jurou proteger.

No Qatar, até o tivemos a dar lições de moralidade, quando no país que preside, os direitos humanos são sistematicamente violados, em alguns casos até por si validados: confinamentos ilegais, prisões domiciliárias ilegais, imigrantes estrangeiros em escravatura, um sem fim de misérias!

Até o tivemos numa aula de “religião e moral” nas Arábias, onde segundo a obnóxia imprensa, seríamos um país-modelo, com os dirigentes do país dos “atentados aos direitos humanos” a assistir satisfeitos. Isto tudo num inglês que ninguém compreende. Talvez por isso dormiam e aplaudiam enquanto ele falava.

No final, dirigiu-se para o estádio, informando-nos que estaria “concentrado no jogo” a partir daquele momento! Com tais líderes, a agenda de Klaus Schwab e Bill Gates será uma realidade em breve!

Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário

Mario Ferri invade o campo no Portugal-Uruguai em apoio à causa LGBTQI+, à Ucrânia e às mulheres do Irão


Depois de todas as polémicas em torno dos ataques aos direitos humanos no Catar, eis que surge a primeira manifestação durante um jogo.
Momento aconteceu durante a segunda parte do Portugal-Uruguai. Mario Ferri invadiu o campo com uma bandeira de apoio à causa LGBTQI+ e com as mensagens «Salvem a Ucrânia» e «Respeito pelas mulheres iranianas» na camisola.


Apesar da política da FIFA de evitar ao máximo a captação de imagens de invasões de campo, foi possível ver na transmissão esta acção directa antes de Mario Ferri ser intercetado pelos seguranças e levada para fora do relvado. Curiosamente e por coincidência o árbitro desta partida era iraniano.

Viu-se, depois, o árbitro da partida, o iraniano Alireza Faghani, a recolher a bandeira do chão.


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terça-feira, 22 de novembro de 2022

Fact Check: Afinal, quantos trabalhadores migrantes morreram nas obras do Mundial no Qatar?

O The Guardian falou em 6500, a Amnistia Internacional em 15 mil, mas estariam a referir-se a mortes relacionadas com a construção dos estádios e de outras infraestruturas? António Lobo Xavier garante que essa narrativa é falsa. Vamos verificar.



António Lobo Xavier criticou esta semana, no programa de comentário político “O princípio da Incerteza”, da TSF e da CNN Portugal, “as tiradas populistas” que alegam que os estádios do Mundial de futebol no Qatar foram construídos “sobre as ossadas de 6500 cadáveres”. “Não estou a dizer que as condições de trabalho são ideais no Qatar. Estou a dizer que esse número é falso”, atirou o advogado e antigo deputado pelo CDS, para depois fundamentar: “Esse é o número de mortos não locais num período de dez anos, e as embaixadas desses países já vieram confirmar que não há qualquer ligação entre esse número e o de mortos em acidentes de trabalho nos estádios.”

Antes, Alexandra Leitão, ex-ministra e atual deputada pelo PS, tinha referido esse dado, avançado pelo jornal britânico The Guardian em fevereiro de 2021, e também um outro, da Amnistia Internacional, que num relatório de agosto do mesmo ano falou em cerca de 15 mil mortes de trabalhadores migrantes no Qatar, no período entre 2010 e 2019.

Desde então, estes dois números têm sido amplamente citados na imprensa internacional e enraizou-se na opinião pública a ideia de que, embora díspares, correspondem a estimativas de vítimas mortais relacionadas com as obras de construção dos estádios ou de todas as infraestruturas associadas ou impulsionadas pela organização do Mundial 2022, como estradas, hotéis, estações de metro, arranha-céus e o novo aeroporto. Mas será mesmo assim? Ou tem razão António Lobo Xavier, quando põe em causa esta correlação a que chama “mistificação”?

As fontes

O The Guardian baseou a sua investigação em fontes oficiais (como embaixadas) dos cinco países fornecedores de mão de obra que analisou: Índia, Paquistão, Nepal, Bangladesh e Sri Lanka. São estas as principais origens dos trabalhadores migrantes no Qatar, mas ficaram de fora outras comunidades importantes, como a egípcia, a filipina ou a queniana.

Além disso, e mais importante, as 6751 mortes que o jornal contabilizou, no período entre 2010 e 2020, correspondem à mortalidade total de naturais daqueles cinco países, independentemente das causas e das circunstâncias em que elas ocorreram. Não é sequer conhecida a profissão e o local de trabalho das vítimas, embora se saiba que a maioria dos trabalhadores migrantes passe pelo setor da construção. Em rigor, o número traduz o total de expatriados daquelas nacionalidades que morreram no Qatar ao longo da década; não reflete a quantidade de pessoas que morreram enquanto trabalhavam nas obras dos estádios ou das restantes infraestruturas (nem a publicação britânica o advoga).

Face à dificuldade em obter dados precisos e detalhados no Qatar – que, na maior parte dos casos a envolver migrantes, atribui a morte a causas naturais, apesar das idades abaixo dos 50 anos -, o The Guardian relaciona muitas destas mortes, ainda assim, com as obras do Mundial, perante os testemunhos de quase escravidão que foram sendo conhecidos na primeira pessoa e não só. O calor intenso e os ataques cardíacos, a desidratação e as falhas renais, os abusos dos empregadores e as condições de vida precárias dos migrantes ou a ausência de autópsias para apurar as causas da morte sugerem, evidentemente, uma correlação – mas nunca total.

A organização qatari, por seu lado, só reconhece a morte de 37 trabalhadores envolvidos na construção dos estádios (não engloba as outras infraestruturas), ao longo de todos estes anos, e acrescenta que apenas três sucumbiram durante o expediente. Ou seja, oficialmente, só há registo de três acidentes de trabalho.

Quanto ao número citado no relatório da Amnistia Internacional, o pressuposto é o mesmo em que se baseou o The Guardian. Os cerca de 15 mil estrangeiros que morreram no Qatar, entre 2010 e 2019, referem-se à mortalidade total, sem qualquer discriminação, por exemplo, no que respeita à atividade profissional e muito menos ao setor da construção, como a própria ONG ressalva. É despropositado, por isso, ligá-lo ao Mundial de futebol. De resto, esta informação é de uma fonte governamental do Qatar.

Conclusão- Verdadeiro

Não se pode afirmar, com o mínimo de rigor, que morreram 6500 trabalhadores migrantes na construção dos estádios ou das restantes obras para o Mundial 2022. O próprio The Guardian nunca o fez, estabelecendo apenas pontos de contacto, através de testemunhos reveladores e não só, entre o futebol e a mortalidade verificada na última década. São estimativas muito complexas de se fazer, face à informação disponível. António Lobo Xavier tem razão ao desacreditar esse número e mais ainda o das 15 mil vítimas mortais, citado no relatório da Amnistia Internacional – que nunca teve a pretensão de o colar à organização do Campeonato do Mundo.

sábado, 19 de novembro de 2022

Qatar - Playing Smart


Is it NASA’s Mission Control In Houston Texas, wondered a UK daily about the Aspire Command and Control Center in Doha. Indeed, comparisons are un­avoidable considering the high, extra-large LED screens and resplendent PCs on display here. Except, the purpose is not to launch manned or unmanned satellites into space but to ensure a great football viewing experience.

If the temperature in any of the stadiums in Qatar that will host the FIFA World Cup this month rises or falls below 22 degrees Celsius, the Aspire Command and Control Center— which monitors all eight stadiums and manages the IT infrastruc­ture at these venues from a huge hall that resembles a NASA cen­tre from a Hollywood movie—will immediately and remotely fix the state-of-the-art air-conditioning system in place for the football extravaganza.

Those working at this centre located near the multi-purpose Khalifa International Stadium, one of the World Cup venues in capital Doha, can also gauge using artificial intelligence (AI)— and thanks to 20,000 cameras inside these stadiums—that a certain entry gate or an area inside a stadium may experience crowding 30 minutes or so in advance. This helps them mobilise volunteers much in advance to avoid any crowd surge—some of which have the potential to kill people in large numbers, as we saw recently in Seoul, South Korea.

A large screen inside the hall in this centre can zoom in on more than 120,000 fans seated across eight football venues on one large screen to identify and report any act of hooliganism or abnormal human behaviour. This highly advanced surveillance using powerful AI technologies covers even the basement park­ing, besides monitoring water supply, queues, food and beverages outlets, and so on.

“We don’t call our cameras the CCTV network. We call them our eyes on the ground,” says Niyas Abdulrahiman, executive director (ICT), Supreme Committee for Delivery and Legacy, the government-run entity responsible for delivering all infrastruc­ture required for the FIFA World Cup in Qatar. He goes on to talk about the idea of connected stadiums and “compact tournament” that is clearly unique in the history of the soccer World Cup that started way back in 1930.

Close proximity of the venues means that Qatar got the opportunity to experiment with managing this tournament in a completely different way compared to previous World Cups, says a Qatari official. Without doubt, it will be the first FIFA World Cup in a long time where there will be no inter-city travel involved. As Qatar expects, this “compact FIFA World Cup” will inspire other sporting nations to replicate this model elsewhere, says Abdul­rahiman, who stresses the “futuristic” nature of holding sporting events, and in this case, the biggest of its kind on planet Earth.

Meanwhile, FIFA officials that Open spoke to say that the Qatari model may spawn a revolution of sorts, especially if the visiting dignitaries from various countries as well as sport ar­chitects return impressed by the remote handling of this World Cup that starts on November 20 and ends on December 18, as opposed to the usual June-July season because of the scorching heat in the Gulf nation.

Niyas Abdulrahiman, executive director (ICT), Supreme Committee for Delivery and Legacy
By hosting this World Cup, especially, Qatar’s aim is not only to build sport facilities and academies alone but also to leave a sport­ing legacy that attracts and trains sportsmen and women from all over the world. Qatar has earned praise from FIFA for making the most of its existing international stadiums and sport centres. In an earlier interview, a Qatari official had told Open, “Our sporting legacy is rich because we don’t let any sport centre go underused or disused…. We follow the strategy of making champions out of our trainees. We help them gain endurance and stamina and acquire great skills that together help them become champions,” he had said referring to empty stadiums built for World Cups in other nations.

For his part, Abdulrahiman takes enormous pride in disclos­ing that he has a multinational team in place to assist him, includ­ing several locals at the Aspire Center. Those working here can recognise faces as well as zoom in on each seat in the stadiums, but this key official of the Supreme Committee for Delivery and Legacy says that what is more important to his team is not the identity of the fan but the smooth running of the event. “We look at a person only as a fan. We are not interested in knowing who the guy is. For us, all the fans are the same but what we are keen on is maintaining safety and a smooth football viewing experience. What you see in our centre is the future,” he declares, indicating that all the surveillance involved is less about Big Brother-like control of individuals and more about safety and security of the event as a whole.

Football stadiums, like similar sport­ing venues, are entirely different kinds of spaces to ensure security and safety. Com­pared to the rest of the highly secured of­fices, for instance, like the ministry of defence, where there are always entry restrictions for many people, stadiums must accommodate all kinds of people, including the fans, the media, VVIPs, and others. It is thus a multi-threat landscape, making the task of surveillance crucial. If there is any unpleasant development in the stadium, it is first handled by volunteers. Only if things go out of con­trol will law enforcement agencies enter the scene.

What the Aspire Command and Control Center does is complement the decisions of law enforcement and other agencies with data, states Abdulrahiman, who has now become a highly televised figure with media organisations running endless stories about the unique command-and-control centre he oversees. He adds that each fan in the stadiums will have access to high-density 5G internet, helping fans record and send videos and messages real-time. “The WiFi connection in these stadiums will be faster than your home broadband and it will be available to all,” says the man who spearheads INTALEQ, the sport and entertainment technology commercial venture of Aspire Zone. INTALEQ is Ara­bic for headway, says Abdulrahiman who hopes that countries like India, rich in IT talent, will go the Qatari way in organising world-class sport events too.

But for the time being, his focus will be on delivering the most secure football experience for more than 1.2 million fans who are expected to be in Qatar shortly, as well as for those millions of spectators from across the globe.

Fonte: Open

Marcelo disse que "três quartos do mundo são ditaduras" - baseou-se nos dados do "Our World in Data"

O Presidente da República invocou o “interesse nacional” para anunciar que vai ao Catar e ao Mundial de Futebol, mas nas declarações que fez aos jornalistas Marcelo Rebelo de Sousa foi mais longe: disse que se seguisse uma lógica de não visitar países não democráticos, seria impossível "visitar, receber ou ter relações" com "três quartos do mundo, que são ditaduras". Mas é mesmo assim? Três quartos do mundo são ditaduras? Não é isso que os dados disponíveis mostram.

Um dos mais respeitados indicadores para avaliar o nível democrático dos países é o Índice de Democracia, publicado anualmente pela revista The Economist desde 2006. Trata-se de uma tabela que analisa os dados de vários países tendo em conta cinco critérios: o processo eleitoral e o pluralismo, o funcionamento dos governos, a participação política dos cidadãos, a cultura política e as liberdades civis.

O Índice de Democracia publicado em 2022, com os dados do ano passado, analisa 167 dos 193 países reconhecidos pelas Nações Unidas e as conclusões do relatório indicam que, atualmente, existem 59 regimes autoritários, ou seja, 59 países que são considerados governos ditatoriais. Os regimes são classificados como autoritários quando não têm eleições livres e justas, quando existem abusos e violação de liberdades civis, controlo da imprensa, censura ou repressão e quando o sistema judicial não é independente. Assim sendo, as ditaduras representam 35% dos países avaliados.

Há ainda 34 regimes híbridos, países cuja transição de governo autoritário para uma democracia está ainda muito incompleta: as eleições têm irregularidades, existe pressão do governo sobre os partidos e candidatos da oposição, falhas na cultura política, no funcionamento do governo e na participação política e onde a corrupção tende a ser generalizada. Ora, mesmo que estes 34 países “híbridos”, onde se incluem por exemplo a Turquia e o México, fossem considerados ditaduras estaríamos a falar de uma percentagem de 56%, ainda longe dos 75% que o Presidente da República refere.

Para se ter uma ideia, nesta lista há 21 países que são democracias plenas e 53 países democracias com falhas. As democracias plenas são os países nos quais as liberdades políticas e civis são respeitadas e sustentadas por uma cultura política propícia ao florescimento da democracia. O funcionamento do governo é satisfatório, a imprensa é independente e diversa, o sistema judicial é independente. Já nas democracias com falhas existem fragilidades como problemas de governação, uma cultura política subdesenvolvida e baixos níveis de participação política. Portugal, por exemplo, está no 28.º lugar do ranking e é considerado uma democracia com falhas.

Já o Catar é classificado como um regime autoritário. De resto, a realização deste Mundial de Futebol tem estado envolta em grande polémica e um dos motivos é o facto de se tratar de um país onde os direitos das mulheres e das minorias como os homossexuais são reprimidos. As mulheres, por exemplo, dependem da autorização de um homem para (quase) tudo num sistema de “tutela masculina” - atribuída geralmente ao marido, pai, irmão, avô ou tio.

Por outro lado, milhares de imigrantes terão morrido na construção dos estádios e das infraestruturas para o Campeonato do Mundo. O jornal britânico The Guardian revelou que pelo menos 6.500 migrantes da Índia, do Paquistão, do Nepal, do Bangladesh e do Sri Lanka terão morrido, mas que se trata apenas de uma estimativa e o número real de vidas perdidas pode ser superior. As próprias condições de trabalho foram criticadas, já que incluem horários semelhantes a trabalho forçado, falta de folgas, salários reduzidos arbitrariamente e passaportes confiscados.

Direitos humanos que estão no cerne da polémica causada pelas declarações de Marcelo Rebelo de Sousa após o jogo Portugal-Nigéria, em Alvalade. "O Catar não respeita os direitos humanos. Toda a construção dos estádios e tal..., mas, enfim, esqueçamos isto", afirmou o Presidente da República, na zona das entrevistas rápidas. Palavras que têm merecido duras críticas por parte de partidos políticos e da própria Amnistia Internacional em Portugal. Pedro Neto, diretor-executivo da Amnistia em Portugal admitiu ainda ter ficado "muito preocupado" com as declarações do chefe de Estado português, "uma pessoa que está sempre na linha da frente pela defesa dos direitos humanos" mas que "desvalorizou a situação dos direitos humanos no Catar".

Confrontado com as críticas, o chefe de Estado salientou esta sexta-feira que foi ele quem tomou a iniciativa de abordar a questão dos direitos humanos e garantiu que se o Parlamento aprovar a sua deslocação ao Catar falará sobre o tema no país do Médio Oriente.

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quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Got to love this Scottish brand of beer!


Rebel beer brand BrewDog found itself facing a fresh barrage of hypocrisy claims as its campaign against soccer World Cup host Qatar continued to backfire.

A widely circulated image on social media revealed that the brewery is still selling its beers in Qatar, despite its grandstand against the Arab nation.

A spokesperson for the firm confirmed to Fortune on Wednesday that BrewDog beers were being sold in Qatar, but said the company did not sell directly into the Qatari market.

“We do have a relationship with a distributor that sells into multiple Middle Eastern markets, primarily into Dubai but including Qatar,” they said.

Beer brand kicks off against Qatar

On Monday, the self-styled “punk” brewery from Scotland launched its “anti–World Cup” campaign with a slew of posters highlighting Qatar’s problematic human rights record, stance on homosexuality, and corruption allegations.

BrewDog also promised to donate the profits from one of its beers, Lost Lager, to human rights organizations for the duration of the tournament.

However, company CEO James Watt was quickly accused of hypocrisy as he was previously the subject of an open letter from present and former staff in June 2021 detailing a “culture of fear” within BrewDog, with workers demanding an apology for “harassing, assaulting, belittling, insulting, and gaslighting.”

BrewDog has since apologized and claims, “We’re a different business today and totally focused on becoming the best employer in our sector.”

The decision to screen World Cup matches at its chain of bars around the world was also criticized, although BrewDog argued the move would lead to increased sales of Lost Lager, thereby providing more money for charity.

However, total sales of its more popular offerings would also likely increase, meaning a higher profit for the brewery across the board, and BrewDog confirmed to Fortune that Lost Lager was only its third-highest seller.

Saber mais:
A top Qatar ambassador just said homosexuality is ‘damage in the mind’ less than 2 weeks before a controversial World Cup

terça-feira, 8 de novembro de 2022

Qatar- Campeonato do Mundo amigo do ambiente? É mentira, diz o Carbon Market Watch



"Seria ótimo vermos o impacto climático dos Mundiais da FIFA reduzirem-se drasticamente. Mas as proclamações que ouvimos sobre a neutralidade carbónica simplesmente não são credíveis", afirmou o autor do relatório para o Carbon Market Watch que estudou a pegada ambiental da competição e concluiu que "apesar da falta de transparência, as provas indicam que as emissões deste Mundial serão consideravelmente maiores do que os organizadores preveem, e é pouco provável que os créditos de carbono que têm comprado para compensar essas emissões tenham um impacto suficientemente positivo no clima".

Em relação aos números avançados pela organização do Mundial, o Carbon Market Watch diz que subestimam as emissões associadas à construção dos estádios. E quanto aos créditos de carbono adquiridos, a ONG questiona a independência do esquema de certificação dos parâmetros que foram criados especialmente para a competição. "Tais créditos de baixa qualidade não farão o Campeonato do Mundo "neutro em carbono", avisam.

Nas contas oficiais, construir um estádio temporário implica o dobro de emissões de construir seis estádios permanentes

Diz a organização do evento que ele irá emitir 3.6 megatoneladas de CO2-equivalente (MtCO2e), a medida internacional que expressa a quantidade de gases de efeito estufa em termos equivalentes da quantidade de dióxido de carbono. O problema começa logo pela contabilização das emissões ligadas à construção dos sete novos estádios, que apenas são tidas em conta dividindo os dias em que são utilizados na competição pelo total do tempo de vida previsto para essas infraestruturas.

Ora, alega o Carbon Market Watch, isso é enganador tendo em conta que foram costruídos de propósito para o Mundial e não se prevê que tenham muito uso no futuro tantos estádios num território tão pequeno e cuja capital e única grande cidade, Doha, tinha apenas um grande estádio antes de ser atribuído ao Qatar o estatuto de anfitrião do Mundial 2022. Da mesma forma, são excluídas das contas dos organizadores as emissões ligadas à manutenção e uso futuro dos estádios. Contas feitas, em vez das 0.2 MtCO2e estimadas, que representariam apenas 5,5% do total de emissões do Mundial de Futebol, o valor real das emissões seria multiplicado por oito: 1.6 MtCO2e.

A forma da contabilização das emissões para cada estádio também é contestada. Um deles, o estádio 974, é suposto ser temporário. Mas nas contas da organização, as emissões alocadas à sua construção são mais do dobro dos restantes seis novos estádios, dado que apenas contam na totalidade a construção das cadeiras que serão removidas no final da competição. As emissões da construção do estádio propriamente dito são divididas de forma a apenas ter em conta uma parcela de 70 dias de utilização deste ano num total de 60 anos de tempo previsto de utilização total.

E sobra ainda a questão de saber qual o futuro destes estádios, com apenas três a serem destinados a equipas que jogam em recintos com capacidade bem menor e outro dedicado à seleção nacional feminina. A experiência anterior mostra que a viabilidade financeira destes recintos é duvidosa quando não servem para os grandes clubes, como aconteceu na Rússia. Ou no Mundial anterior, no Brasil, onde há estádios que são raramente usados e um deles está a ser usado em parte para o estacionamento para autocarros. Na África do Sul, que recebeu o Mundial de 2010, a subutilização destas infraestruturas também continua a pesar nas contas públicas.

Compensação de emissões sem independência nem integridade

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Mundial de Futebol no Qatar- A situação dos trabalhadores migrantes


A sede da próxima Copa do Mundo de 2022 pelo Qatar atraiu milhares de trabalhadores migrantes para construir estádios e outras infraestruturas. Esses estrangeiros deixaram tudo para trás em busca de uma vida melhor. Mas, uma vez no Qatar, eles muitas vezes sofreram exploração: salários não pagos, passaportes confiscados e condições extremas de trabalho que levaram a vários milhares de mortes, segundo várias ONGs. Alguns trabalhadores migrantes concordaram em falar com nossos repórteres Chloé Domat e Rammohan Pateriya para esta reportagem especial completa. Eles explicam como o sonho do Qatar se transformou em pesadelo, mesmo que Doha também ofereça algumas oportunidades de mobilidade social ascendente.

Amnistia Internacional
Qatar: Promessas e compensações por cumprir com o Mundial à porta

Assinar e divulgar a Petição: É tempo da FIFA e do Qatar compensarem os trabalhadores migrantes!

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

Qatar, o Mundial da Vergonha

No próximo dia 21 de Novembro, às quatro da tarde em ponto, hora local, um esférico denominado Al Rihla ("A Jornada"), fabricado pela marca Adidas, com uma cobertura de poliuretano texturizado e 20 gomos, será colocado no centro de um grande rectângulo de relva. Em seu redor, um estádio com 60 mil lugares sentados, projectado pela firma alemã AS+P, querendo "AS" dizer Albert Speer, o filho do arquitecto de Hitler. A empresa holandesa que forneceu os relvados dos últimos três Mundiais de Futebol recusou-se a colaborar neste torneio após ter sabido que só na construção dos estádios já pereceram mais de 6750 trabalhadores, todos oriundos da Índia, do Bangladesh, do Nepal e do Sri Lanka. Nenhum cidadão do Qatar, país anfitrião, morreu na edificação das infraestruturas que irão receber o Mundial da Vergonha.

Para os jornalistas e turistas que lá forem, para os que ficarem colados aos écrans a ver as fintas e os passes dos craques, talvez fosse útil saber um pouco mais sobre o que é o Qatar, pelo que se recomenda a leitura de um livro-reportagem acabado de sair, assinado por John McManus, um antropólogo social e escritor, que tem passado a última década no Médio Oriente e na Turquia (vive em Ancara), tendo já publicado, aliás, um outro livro sobre a paixão futeboleira turca e suas fúrias. Este de que agora falo tem o título pouco inspirado de Inside Qatar - Hidden Stories From One of the Richest Nations on Earth (Icon Books, 2022) e, ao contrário do que se possa julgar, não é um relato preconceituoso e impiedoso dos muitos males que afligem o emirado, antes uma digressão pelas fundas incoerências de um país recente, que só viu a independência em 1971 e, desde então, anda em busca de um caminho entre os biliões do petróleo, grandiosas ambições de modernidade e pesados arcaísmos islâmicos.

Um relatório da ONU, já de 2020, descreve o Qatar como "quase uma sociedade de castas baseada na nacionalidade", o que em parte, mas só em parte, se compreende, pois os cataris representam uma ínfima minoria no seu próprio país, sendo cerca de 313 mil cidadãos, numa população total de cerca de três milhões, essencialmente composta por imigrantes vindos da Índia (24% da população), do Nepal (16%), das Filipinas (11%), do Bangladesh (5%), do Paquistão (4%) e do Sri Lanka (2%). Com tantos trabalhadores migrantes, a esmagadora maioria dos quais na construção civil (44% da força laboral do país trabalha nas obras), não admira que 72% da população seja masculina. Mulheres estrangeiras, no Qatar, só as empregadas domésticas vindas das Filipinas e de África, especialmente do Quénia.

Sendo óbvio que os opulentos privilégios de que gozam os cataris não poderiam estender-se à restante população (por ex., os nativos não pagam impostos e dois terços da população não trabalha, nem tem sequer ocupação), o que espanta e confrange é a brutal disparidade entre nacionais e não-nacionais, mesmo os vindos do Ocidente para empregos sofisticados e bem pagos. Atroz ironia: na Europa e na América, onde hoje tanto se combatem as injustiças do racismo, não houve ainda um movimento em larga escala para boicotar um Mundial de Futebol realizado num dos países mais racistas do mundo, onde, segundo as estatísticas oficiais, 43% dos cataris casam com membros da sua própria família, geralmente primos em primeiro grau, o que tem provocado sérios problemas de consanguinidade, que o director do Centro de Genética Médica de Doha reconhece, mas desvaloriza em nome da preservação da "pureza de sangue do país". Goebbels não diria melhor.

À semelhança da independência, também a riqueza é recente - mas imensa. Sem aptidão agrícola ou vocação industrial, a economia do Qatar baseava-se historicamente na apanha de pérolas em alto-mar, mas acabou por se afundar com o crash bolsista de 1929 e com a descoberta, pelos japoneses, de métodos de cultivo artificial de pérolas (facto que bem poderia servir de lição para a actualidade e para os riscos da monocultura do petróleo e do gás). Em meados dos anos 1940, a população reduzira-se a umas 16 mil almas e o xeque Abdullah Al Thani foi ao ponto de ter de fazer um empréstimo hipotecário sobre o seu palácio. Entretanto, em 1939, geólogos da Anglo-Persian Oil Company descobriram frondosas jazidas de petróleo e, dez anos depois, começaram as exportações do ouro negro. É ele a causa de o Qatar ser um dos países mais ricos do mundo: de 2002 a 2014, foi o mais rico; desde então, está em terceiro lugar, atrás do Luxemburgo e de Singapura. Dinheiro a jorros, mas que beneficia quase em exclusivo 11% da população residente, os cataris de raça. Dinheiro que tem permitido compras multimilionárias pelo mundo fora: além do Harrod"s, estima-se que o Estado do Qatar tenha mais propriedades em Londres do que a rainha Isabel II, para não falar dos investimentos em marcas de luxo como a Valentino ou a Tiffany, entre tantas outras.

© Vìtor Higgs / DN

Dominado desde o século XIX pela Dinastia Al Thani, e governado desde 2013 pelo emir Tamim bin Hamad Al Thani, um autocrata que, segundo se diz, é ainda mais conservador do que o seu pai, o Qatar é mais liberal do que outras nações de Golfo, com destaque para a Arábia Saudita (por exemplo, as cataris podem conduzir automóveis, ainda que tenham várias limitações para obter a carta; a pena de morte não é aplicada desde 2003; as mulheres são encorajadas a estudar e 2/3 dos licenciados são do sexo feminino). O país gosta, aliás, de transmitir uma imagem de modernidade e abertura ao mundo, com a Qatar Airways e a Al-Jazeera (bem menos independente do que parece), e, importa dizê-lo, muitas das práticas que mantém são elementares medidas de autodefesa de uma população ultraminoritária na sua própria terra, a qual tem, ademais, uma relação nada fácil com os seus poderosos vizinhos. Em 2017, o Qatar foi alvo de um grave bloqueio por parte de diversos países muçulmanos (Arábia Saudita, Iémen, Bahrain, Egipto, Emirados Árabes Unidos, Maldivas, Líbia) e ficou sem acesso a alimentos e a matérias-primas, alegadamente por causa das suas relações incestuosas com a Irmandade Islâmica e com o Daesh.

Até às reformas constitucionais dos anos 90, que deram ao emir o poder de designar o seu filho como sucessor, a chefia do Estado não obedecia ao princípio da primogenitura, o que dava azo a um sem-fim de conflitos e de intrigas palacianas e o país é bem menos estável do que parece, tendo assistido, nos últimos 70 anos, a duas abdicações, em 1949 e 1960, e a dois golpes de Estado, em 1972 e 1995, o último dos quais levou um filho a depor o próprio pai. A ambiguidade estratégica tem sido chave de sobrevivência: o Qatar tanto alberga a maior base dos EUA no Golfo Pérsico, Al-Udeid, com mais de 11 mil soldados estacionados, como mantém relações cordiais com o Irão e namora e favorece o extremismo islâmico (a principal mesquita de Doha é, de resto, dedicada ao fundador do ultraconservador Movimento Wahhabista).

Além da opressão sobre o povo e da ausência de democracia e de respeito pelos Direitos Humanos, traços comuns às monarquias do Golfo, o principal e mais vil pecado do Qatar, a sua singularidade repulsiva, é o modo como trata os trabalhadores estrangeiros. É certo que, também nesse plano, não se destaca muito das barbáries praticadas naquelas paragens, bastando lembrar que, no Líbano, em 2018, a etíope Lensa Lelisa se atirou da janela da casa dos patrões (por sinal, donos de uma das marcas mais fashion do país, a Eleanore Couture) por não suportar mais os espancamentos diários com cabos eléctricos, entre outras torturas; ou que, no Kuwait, o cadáver desmembrado da filipina Jonna Demafelis, de 29 anos, foi encontrado na arca congeladora do casal que servia; ou o caso de Tuti Tursilawatti, uma empregada doméstica indonésia de 34 anos, executada na Arábia Saudita por ter morto o patrão quando este a tentou violar, ao fim de um ano de sevícias sexuais.

E não, não são casos isolados, mas sim a ponta de um icebergue miserável. Das cerca de 176 mil empregadas domésticas que trabalham no Qatar, 83% tiveram os seus passaportes confiscados mal chegaram ao país, segundo um relatório de 2020 da Amnistia Internacional. E só conseguem entrar se tiverem o patrocínio de um empregador, segundo o sistema da kafala, ficando inteiramente nas mãos dos seus senhores e amos, sem dinheiro para obter o visto e comprar passagem de regresso a casa, sem possibilidade de mudar de emprego ou de patrão, um inferno na terra. Na esmagadora maioria dos casos, os migrantes, logo à chegada, são confrontados com um contrato novo, com salários mais baixos e piores condições do que aquele que haviam assinado antes de partirem. Sindicatos não existem e os contratos laborais têm todos prazos curtos de um, dois anos, mesmo para quem trabalhe para a mesma empresa ou patrão há dez, 20 anos, ou mais.

A kafala é o cancro maior do Qatar: a existência de um patrono, que, segundo a lei islâmica, constituía uma forma de os mais fortes protegerem os mais fracos (por ex., quando estes assinavam contratos ou iam a tribunal), converteu-se, muito por culpa do colonizador britânico, num sistema de paternalismo esclavagista, com os empregadores a apoderarem-se dos vistos de entrada, dos passaportes e das autorizações de trabalho e residência dos pobres migrantes. Não admira, assim, que, para milhares deles, a jornada de trabalho comece às 4.30 da manhã, com interrupção à hora do calor (por vezes, nem isso), e só termine pelas sete ou oito da noite.

Um inquérito de 2018 concluiu que os operários das obras do Mundial trabalhavam dez horas por dia, seis dias por semana, em condições deploráveis, sendo frequentes jornadas de trabalho de 12 a 14 horas e até casos de escravos que trabalharam 148 dias consecutivos sem uma única folga. Com a aproximação do torneio e a aceleração da obra, a situação agravou-se. Contudo, e dadas as atenções internacionais e as inspecções mais regulares, os trabalhadores do Mundial são até dos mais protegidos - simplesmente, correspondem a 4% da força laboral do país; os restantes 96% continuam à mercê de um sistema iníquo em que até os relatórios oficiais do país reconhecem que milhares de desgraçados são obrigados a trabalhar em condições de "stress de calor", a temperaturas acima dos 40ºC, com humidade horrível, com um em cada três trabalhadores a sofrer de hipertermia.

Um artigo publicado em 2019 na revista Cardiology estabeleceu uma correlação inequívoca entre o calor extremo e a morte de 500 operários nepaleses. O problema agrava-se pelo facto de o Qatar não realizar autópsias, sendo todas as mortes atribuídas a "causas naturais" ou "doenças cardiovasculares", o que, tendo em conta a idade jovem da maioria dos migrantes, é coisa mirabolante. Para efeitos estatísticos, aliás, o Registo Nacional de Traumas só contabiliza as mortes que têm lugar após a chegada ao hospital, ou seja, deixa de fora o imenso universo dos acidentes letais ocorridos nos locais de trabalho. Apesar de tudo isto, é consensual entre as ONG e os observadores externos que os abusos mais graves e os piores maus-tratos não são perpetrados pelos cataris, mas pelos migrantes sobre outros migrantes, até seus compatriotas, sendo frequente a descoberta de horríveis redes de exploração e de tráfico humano nos países de origem da Ásia e de África.

Mesmo ao fim de décadas a viver e a trabalhar no país, é praticamente impossível obter a cidadania; é necessário falar árabe, residir no Qatar há 25 anos e a lei determina que, por ano, só podem ser concedidas 50 naturalizações. De igual modo, e ao contrário do que se passa no Dubai, por exemplo, é quase impossível a um estrangeiro comprar propriedades ou enviar os filhos para escolas de qualidade, excepto ocidentais privilegiados, sendo também estranho que num país com tantos asiáticos não exista um só templo budista ou hindu (há uma minúscula zona cristã que os cataris não podem frequentar).

Até por isso, o que se passa com o futebol é particularmente abjecto. O Qatar não tem tradições na modalidade e o seu primeiro clube só foi criado em 1950; desde então, foram fundados outros - o Al-Rayyam, o Al-Arabi, o Al-Saad - que servem para arredondar as contas de jogadores ou técnicos em fim de carreira, como Pep Guardiola, Gabriel Batistuta ou Xavi Hernández, mas que, apesar dos investimentos milionários, não levam os cataris aos estádios. Mesmo com bilhetes a preços caricatos - cerca de 3 euros nas bancadas, 14 euros num lugar VIP - nunca mais de mil pessoas assistem a um jogo ao vivo, preferindo fazê-lo no conforto de casa, algo que, obviamente, será uma tormenta no pós-Mundial: que destino irão ter tantos estádios, tão sumptuosos e volumosos?

De resto, por causa do clima e não só, são poucos os cataris que praticam futebol e diz-se que este é, isso sim, um brinquedo caro do xeque Jassim bin Hamad Al Thani, filho do antigo emir, que governou o país de 1995 a 2013. O xeque Jassim, ao que parece, tem até um gigantesco estádio de futebol em sua casa e foi um dos principais promotores do actual Mundial, no qual o Qatar investiu a única coisa que tem: dinheiro. Através da Qatar Airways, foram patrocinados grandes clubes europeus, como o AC Roma ou o Bayern de Munique, ao mesmo tempo que se construía um hospital de ponta de Medicina Desportiva, a que já acorreram diversas estrelas, e se lançava um canal internacional de desporto, o beIN Sports, e a multimilionária Academia Aspire, que recruta talentos da bola ao abrigo de um programa designado Football Dreams, orçado em muitos milhões de dólares, que já escrutinou mais de 3,5 milhões de jovens pelo mundo fora, dos quais anualmente são selecionados uns 20, no máximo, a quem são oferecidas condições estratosféricas e o maior prémio de todos - a cidadania do Qatar.

Se o país é xenófobo e racista, avesso a naturalizar estrangeiros, mesmo os que nele trabalham há décadas, no domínio desportivo passa-se o inverso, com concessões escandalosas e rapidíssimas de nacionalidade: em 1999, a equipa de lançamento de peso do Qatar foi desqualificada dos Jogos Árabes por se ter descoberto que nela participavam quatro atletas búlgaros; em 2003, o queniano Stephen Cherono, supostamente a troco de avultada maquia e de uma pensão vitalícia, tornou-se nacional catari com o nome Saif Saaeed Shaheen; em 2004, para fúria da FIFA, o Qatar tentou naturalizar, numa semana, três futebolistas brasileiros, Ailton, Dédé e Leandro.

Graças aos biliões injectados na Academia Aspire, o Qatar conseguiu conquistar a Taça Asiática de 2019, um feito extraordinário num país que, dois anos antes, estava na 102ª posição no ranking mundial, atrás da Serra Leoa e das Ilhas Faroé. Resta acrescentar que se tratou de um triunfo forjado na base da fraude, mesmo que autorizada pelos complacentes critérios da FIFA: dos 23 jogadores da selecção, 17 eram naturalizados, muitas vezes às pressas e, pior ainda, segundo regras e procedimentos jamais aplicáveis aos que vivem e trabalham no país há décadas. Argumentar que em todas as selecções desportivas do mundo há casos como este só obscurece o essencial: o abominável racismo selectivo do país anfitrião do próximo Mundial. Racismo que se estende ao desporto: cerca de metade da população do país tem origem no sul da Ásia, pelo que o críquete é, de longe, a modalidade mais popular e praticada. Ora, enquanto o fundo soberano do Qatar já gastou, desde que comprou o Paris St. Germain, em 2011, muitos biliões com o futebol, incluindo a compra-recorde do brasileiro Neymar por 262 milhões de dólares, a Associação de Críquete do Qatar recebe anualmente um subsídio que não chega aos 200 mil dólares.

Ou seja, o futebol é usado como instrumento de dominação da minoria catari sobre a legião de migrantes que sofrem e mourejam no deserto, sob calores escaldantes. Os que se erguem, e bem, contra o racismo da Europa e da América deveriam também, no mínimo, olhar para outras paragens do mundo, mil vezes piores e mais bárbaras. E saber, por exemplo, que 15% das hospitalizações de migrantes no Qatar derivam de tentativas de suicídio; e que, num país com serviços médicos gratuitos e de alto nível, 90% dos migrantes nunca chegam a receber o seu cartão de saúde das mãos dos patrões.

Depois, houve a tremenda corrupção que deu a vitória ao Qatar na corrida à organização do torneio, não deixando de ser irónico que, num ano em que o mundo sofreu uma vaga de calor sem precedentes (e a Europa a maior seca de 500 anos), causada pelo aquecimento global e pelos combustíveis fósseis, nos preparemos para assistir alegremente ao Mundial do Petróleo - e do Gás. O Qatar, convém lembrá-lo, tem a maior reserva de gás natural do mundo, situada no mar setentrional do país, estimada em 900 triliões de metros cúbicos (e é também um dos maiores emissores de gases com efeito de estufa do planeta, com um cadastro ambiental miserável). Quando agora se fala da dependência europeia do gás e do petróleo russos (a propósito, quando conheceremos o plano de contingência e de poupança energética do governo português? E porque não existe uma campanha nacional de poupança da água?), deve recordar-se que, em 2021, um quarto de todo o gás importado pela Grã-Bretanha veio do Qatar. Se a isso juntarmos as vultuosíssimas compras de armamento à América e ao Reino Unido, os biliões ganhos pelos gabinetes que projectaram e pelas empresas que construíram os novos e faraónicos estádios, orçados em 10 mil milhões de dólares (!), não custa concluir que era óbvio que o Qatar iria ser o anfitrião deste Mundial vergonhoso, que faz lembrar o da Argentina de 1978, que branqueou e legitimou a cruel ditadura de Videla. Pequeno grande detalhe: desde há décadas, e para polir a imagem, o Qatar gasta biliões nas maiores empresas de lóbi de Londres e Nova Iorque - Hill+Knowlton Strategies, Portland Communications, Blue Rubicon, Grey, Brown Lloyd James - e contratou a peso de ouro diversos "embaixadores" da sua candidatura - Samuel Eto"o, Xavi Hernándes, David Beckham.

Tudo isto é bem o espelho daquilo em que o futebol se tornou nas últimas décadas: uma actividade viciada, viciosa e viciante que de desportiva pouco tem. Todos os anos, com a cumplicidade dos paizinhos, sedentos de terem um Ronaldo em casa que os converta em milionários, milhares de jovens são atraídos por uma carreira na bola, seduzidos por promessas de clubes que os usam como escravos descartáveis. São ínfimas, quase nulas, as probabilidades de um jovem praticante nas "academias" vir a jogar nos escalões seniores dos clubes grandes: menos de 0,012%. Repete-se: menos de 0,012%. À conta dessa miragem, milhares de moços, talvez milhões, perdem dez anos de vida, largam os estudos, comprometem o futuro, o deles e o dos seus países, que na quimera da esfera desbaratam gerações de miúdos, com efeitos não despiciendos na produtividade e nas qualificações da mão-de-obra de uma nação inteira. Se a isso juntarmos outros males - corrupção generalizada de dirigentes, árbitros e jogadores; promiscuidade com políticos, autarcas, interesses imobiliários, negócios escuros; promoção de uma cultura boçal e alarve, machista, sexista e racista, assente na violência física e verbal, com sucessão de "casos" e "escândalos", muitos dos quais do foro criminal, sobretudo os desencadeados pelas horripilantes "claques"; transferências com valores pornográficos; ocupação tirânica do espaço público, com vários canais e jornais e horas infindas de "comentários", em detrimento de outras actividades intelectual e espiritualmente mais enriquecedoras - percebemos que aquilo que hoje se passa no mundo do futebol poderá ser muita coisa, mas desporto não é certamente. No próximo mês de Novembro, enganar-se-á quem julgar estar a assistir a um jogo de futebol na TV: no rectângulo, disputa-se a bola, mas o que aí verdadeiramente se joga são negócios fabulosos de petróleo e armamento, conjuras geopolíticas, fundamentalismos religiosos, a opressão de mulheres e de migrantes, o absoluto desprezo pelos direitos fundamentais e pela dignidade humana. É este o belo espectáculo que estamos prestes a aplaudir.

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