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terça-feira, 16 de novembro de 2021

Petição: Cidades seguras para todas as pessoas

O que nos define como sociedade evoluída é o modo como tratamos os mais vulneráveis: as crianças, as pessoas mais velhas e as que têm mobilidade reduzida. O espaço público é o espelho das nossas escolhas: se os mais vulneráveis entre nós podem mover-se com liberdade, independência e segurança, todos teremos os mesmos direitos. Mas as nossas cidades têm sido desenhadas para dar prioridade ao automóvel, com vias que convidam ao excesso de velocidade, que não é fiscalizado, criando graves situações de insegurança para todos. Portugal tem dos piores indicadores de segurança rodoviária dentro das localidades da União Europeia [1]. Temos que mudar esta situação.

Em 2019, morreram em Portugal, por atropelamento, 134 pessoas a pé e 26 em bicicleta, a maioria dentro de localidades [2]. Um peão atropelado a 50 km/h só tem cerca de 20% de probabilidade de sobreviver, enquanto a 30 km/h tem cerca de 90% de probabilidade de sobreviver [3].

Em 2017, os Ministros de Transportes da União Europeia assinaram a Declaração de Valeta, que inclui o objetivo de reduzir a zero o número de mortes nas estradas europeias. Como consequência a Comissão Europeia e o próprio Estado Português adotaram a "Visão Zero": todas as mortes na estrada são eticamente inaceitáveis. A promoção da segurança rodoviária só é eficaz quando assenta num pressuposto básico da ”Visão Zero": errar é humano. Temos, por isso, de garantir que os erros que inevitavelmente serão cometidos, não sejam erros mortais. O primeiro passo é reduzir a velocidade.

Em 2020, Portugal assinou a Declaração de Estocolmo. Nela se estabeleceu claramente que os Estados signatários deverão priorizar a gestão da velocidade como uma intervenção chave de segurança rodoviária, em particular para “fortalecer a aplicação da lei, para prevenir o excesso de velocidade e determinar uma velocidade máxima de 30 km/h conforme apropriado nas áreas onde utilizadores vulneráveis e veículos se misturam … ”. A Declaração de Estocolmo ressalta ainda que os esforços para reduzir a velocidade têm um impacto benéfico na qualidade do ar e nas alterações climáticas - não haverá mobilidade sustentável sem segurança, nem segurança sem mobilidade sustentável.

Em maio de 2021, a Organização Mundial da Saúde (OMS) patrocinou a 6ª Semana Global de Segurança no Trânsito da ONU, a destacar os benefícios de ruas de baixa velocidade em áreas urbanas e apelando aos países a limitar as velocidades a 30 km/h nas ruas partilhadas entre peões, utilizadores/as de bicicleta e o tráfego motorizado. A OMS, baseada em inúmeros estudos epidemiológicos, é muito clara: o risco de morte e ferimentos reduz consideravelmente quando as velocidades praticadas são abaixo dos 30 km/h.

O Parlamento Europeu, em outubro de 2021, aprovou - com 90% de votos a favor - a recomendação da adoção de uma velocidade máxima de 30 km/h "em zonas residenciais e com um elevado número de peões e utilizadores de bicicleta", argumentando que o excesso de velocidade é um fator determinante em cerca de 30% dos sinistros rodoviários mortais.

Também queremos zero mortes nas ruas e estradas de Portugal. Vimos, assim, apelar à Assembleia da República e ao Governo que Portugal cumpra a Declaração de Estocolmo, as recomendações da OMS e do Parlamento Europeu e altere o limite máximo de velocidade de 50 km/h para 30 km/h em áreas urbanas, onde o tráfego motorizado interage com peões e utilizadores/as de bicicleta (definido no Código da Estrada como “dentro das localidades” com a excepção de “vias reservadas a automóveis e motociclos”).

[1] Organização Mundial de Saúde
[2] Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária
[3] European Conference of Ministers of Transport

quinta-feira, 15 de julho de 2021

Pontevedra, uma cidade sem carros


En Espagne, la ville de Pontevedra, 83 000 habitants, a tenté un pari fou : bannir la circulation automobile. Résultat : moins de bruit, moins de stress et plus d'air. Mais ce modèle est-il applicable partout ?

Pontevedra, 83 000 habitants, est une charmante ville au nord-ouest de l'Espagne. Une ville qui a tenté un pari fou : bannir quasiment toute circulation automobile. En quelques années, habitants, commerçants, livreurs... tout le monde a accepté de changer ses habitudes. La ville aurait réussi à supprimer 90% du trafic automobile et il n'y a pas eu de mort sur la route depuis neuf ans.

Des règles strictes pour les automobilistes
En centre-ville, les piétons sont devenus les rois de l'espace public et les automobilistes, eux, doivent respecter des règles très strictes. Résultat : moins de bruit, moins de stress et plus d'air. Et un maire, Miguel Anxo Lores, à l'initiative de cette transformation, réélu depuis 1999. Comment un tel chamboulement a-t-il été possible ? Et ce modèle est-il applicable partout ?

Un reportage de Raphaële Schapira, Katia Pinzon, Marielle Krouk diffusé dans "Envoyé spécial" le 17 juin 2021.

terça-feira, 22 de junho de 2021

Carta Aberta Pelo Direito Ao Lugar



A Carta Aberta foi co-construída por 42 Organizações da Sociedade Civil do Centro do País e da Grande Lisboa. Neste documento de posicionamento coletivo, identificam-se razões que forçam as pessoas a prescindir de viver em lugares com que se identificam, a que se sentem ligadas e a que sentem que pertencem. Contém também um vasto conjunto de medidas que procuram proteger o direito ao lugar e responder ao problema da perda de população residente nas zonas rurais e nos centros das grandes cidades. São medidas que se propõem a diferentes instâncias de poder político (ao nível local e central e europeu) e aos media.
 
Acompanhe a Carta Aberta pelo Direito ao Lugar no Instagram e no Facebook
 

sábado, 13 de março de 2021

Uma utopia para pedestres: as "cidades de 15 minutos"

Pense na cidade onde você mora. Quanto tempo você leva para chegar ao supermercado a pé? A sua escola ou trabalho é perto o suficiente para ir caminhando? Que tal um parque público, um consultório médico, uma creche ou qualquer outro lugar que você visita diariamente? Enquanto algumas cidades já entenderam a importância de se viver perto de todas essas necessidades, outras estão reformulando suas estratégias de planejamento urbano e projetando seus bairros para serem mais amigáveis aos pedestres, com o conceito de “cidades de 15 minutos”.

via Paris En Common
via Paris En Common
Parcialmente inspirado no trabalho de Jane Jacobs, que via os bairros como conectores sociais, a ideia por trás das cidades de 15 minutos foi desenvolvida por Carlos Moreno, um professor da Sorbonne que visava melhorar a qualidade de vida urbana. Com a “hiper proximidade” de equipamentos, empregos, serviços governamentais, parques públicos, comércio e uma variedade de opções de entretenimento, acessados apenas de bicicleta ou a pé, o conceito repensa como as cidades podem ser melhor projetadas de forma a atender às necessidades básicas dos habitantes. Dentro deste pequeno raio, a partir de suas casas, comunidades mais fortes serão criadas, permitindo que os moradores se sintam mais incluídos nos comércios e serviços de sua região.

via Bike Republic.pl
via Bike Republic.pl
Embora a cidade de 15 minutos possa parecer uma utopia distante, muitos gestores públicos ao redor do mundo já estão começando a dar uma nova identidade aos seus núcleos urbanos, a partir de um melhor planejamento da cidade, com a descentralização de serviços, bens, e novas leis de zoneamento, que retiram os carros das ruas e abrem espaço para os pedestres e ciclistas. Uma cidade que está liderando essa estratégia urbana é Paris, sob a liderança de sua prefeita, Anne Hidalgo. Tal objetivo foi um dos pilares de sua campanha política à bem-sucedida reeleição. Seu intuito é incentivar o desenvolvimento de comunidades autossuficientes em cada distrito de Paris. Batizada de "cidade de 15 minutos" (“ville de quart d'heure”), o objetivo é transformar a capital, em bairros mais eficientes, para reduzir a poluição e criar áreas social e economicamente diversas. Ao revelar esse plano, Hidalgo insistiu que esse esforço de revitalização também incorporaria outras estratégias - incluindo uma força policial desarmada de 5.000 pessoas, um compromisso maciço de plantar mais árvores e multas pesadas por comportamento não civis, como jogar lixo em locais inadequados. Mais notavelmente, ela afirmou que deseja continuar a promover a circulação de pedestres na capital, estabelecendo uma ciclovia em todas as ruas, nos próximos três anos - ao mesmo tempo, em que retirará 60.000 vagas de estacionamento para veículos.

© Kaley Overstreet
© Kaley Overstreet
Ao lado de Paris, Melbourne também criou sua própria versão, com bairros de 20 minutos, isto é, locais onde tudo está dentro de um trajeto de 20 minutos. Copenhague, talvez um exemplo mais conhecido, centralizou seu senso de urbanismo em torno da dependência de bicicletas com uma camada de proximidade de lugares desejáveis. Atualmente, até as cidades americanas estão explorando mais de perto esse método, especialmente com as lições aprendidas e a autorreflexão da pandemia de COVID-19. Em um momento em que as pessoas costumam passar de 1 a 2 horas por dia apenas se deslocando para o trabalho através de meios de transporte privativos, há um foco maior em devolver as ruas às pessoas, encontrando maneiras de reduzir a forte dependência de carros e recriar um senso de vizinhança, que diminuiu com o aumento da expansão urbana. A empresa Here Technologies criou um mapa interativo que mostra quais cidades já estão inclinando a atender esta escala, e ficarem mais alinhadas com os objetivos da cidade de 15 minutos. Embora alguns bairros já possam ser percorridos a pé, provavelmente muitos mais se moverão nessa direção conforme os urbanistas e gestores começarem a aplicar essa estratégia para desenvolver seus próprios conceitos de cidade do futuro.

Na próxima vez que você viajar 30 minutos de carro para o shopping, considere o tempo que você economizaria e a qualidade de vida aprimorada que você teria, se o local estivesse a apenas 15 minutos de bicicleta de distância. A cidade de 15 minutos não é apenas uma tendência urbana, mas uma estratégia de projeto altamente viável, que em breve poderá chegar a uma cidade perto de você.