Mostrar mensagens com a etiqueta Andrés Rodríguez-Pose. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Andrés Rodríguez-Pose. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 22 de setembro de 2026

O despovoamento e a perda da vida colectiva

O desafio do despovoamento atravessa territórios e países segundo lógicas convergentes, embora assuma expressões distintas em função da sua matriz biofísica, económica e cultural. Em muitos territórios rurais repete-se um mesmo processo: envelhecimento, saída dos mais jovens, retração dos serviços, redução das oportunidades económicas e perda gradual da capacidade de atrair novo investimento. Em sentido contrário, cidades e regiões metropolitanas concentram talento, criatividade, emprego, cultura, mobilidade e investimento, alimentando a perceção de que é aí que acontece a modernidade. A cidade torna-se não apenas um lugar onde existem mais oportunidades, mas também o lugar onde parece possível imaginar o futuro. 

Mas o despovoamento não significa apenas menos pessoas. Significa também menos relações, menos redes de proximidade, menos capacidade coletiva e menos instituições capazes de sustentar a vida quotidiana. Quando desaparece uma escola, encerra um estabelecimento comercial ou se perde um serviço de saúde, não desaparece apenas uma função: desaparece também um lugar de encontro e uma parte da infraestrutura social que mantém uma comunidade viva. O território vai perdendo aquilo que poderíamos chamar a sua densidade relacional. E essa perda pode criar um círculo difícil de inverter: menos população reduz serviços e oportunidades; menos serviços e oportunidades tornam o território ainda menos atrativo.

É por isso que será insuficiente procurar revitalizar estes territórios apenas através de incentivos financeiros ou da instalação pontual de atividades económicas. A pergunta fundamental é outra: como criar condições para que nestes lugares seja novamente possível construir um projeto de vida? Isso implica emprego, habitação, mobilidade e conectividade digital, naturalmente, mas também educação, cultura, espaços de encontro, serviços de proximidade e capacidade de decisão local. Um território resiliente não é apenas aquele que conserva recursos naturais; é aquele que conserva e renova a sua capacidade de criar comunidade.

Existe, simultaneamente, uma oportunidade. Num contexto de alterações climáticas, transição energética, transformação dos sistemas alimentares e procura crescente de qualidade ambiental, os territórios rurais deixam de poder ser vistos simplesmente como periferias das cidades. São espaços onde se encontram muitos dos recursos estratégicos das próximas décadas: água, solo, biodiversidade, floresta, produção alimentar, energia renovável e capacidade de armazenamento de carbono. Mas seria um erro transformar esta riqueza numa nova relação extrativa, em que os territórios fornecem serviços essenciais às áreas metropolitanas sem que o valor criado permaneça localmente.

Reinventar estes territórios significa, portanto, transformar os seus ativos naturais em capacidade económica, social e institucional, criando valor acrescentado local e novas oportunidades para quem aí vive ou queira regressar. E exige reconhecer que soluções desenhadas a partir de modelos excessivamente centralizados dificilmente responderão à enorme diversidade destes lugares. A questão não é simplesmente deixar a natureza ocupar o espaço abandonado, nem tentar reproduzir em pequena escala o modelo urbano; é construir um modelo diferente de modernidade territorial, menos dependente da concentração, mas igualmente capaz de oferecer futuro. 

Um território pode conservar floresta, biodiversidade ou paisagens extraordinárias e, ainda assim, tornar-se progressivamente mais vulnerável se perder pessoas, confiança, redes locais e capacidade de ação coletiva. Nesse sentido, a infraestrutura social pode ser tão determinante para a resiliência de um território como a sua infraestrutura física ou ecológica.

Um território começa a desaparecer muito antes de ficar sem pessoas: desaparece quando deixa de ser possível imaginar nele um futuro.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Os lugares que não importam

Em 2018, foi publicado um artigo científico intitulado “The revenge of the places that don't matter” (“A vingança dos lugares que não importam”) por Andrés Rodríguez-Pose. O artigo, amplamente citado na academia e na política europeia, fala sobre os lugares com persistente falta de oportunidades, fraco desenvolvimento económico e social, sem perspectivas de futuro e esquecidos pela maior parte das políticas e políticos. O autor argumenta que é nestes lugares que melhor proliferam os movimentos políticos populistas, que cavalgam na insatisfação e descontentamento da população. Movimentos estes que levaram à eleição de Donald Trump, ao Brexit, ao crescimento dos extremismos na Europa, ou até a conflitos armados (na Colômbia e no Perú) como forma de revolta ou vingança dos lugares esquecidos pelo poder político e económico instalado.   

Portugal aproxima-se de umas eleições muito importantes para o seu futuro próximo. Mas também em Portugal há lugares que não importam, esquecidos, com falta de oportunidades e sem perspectivas de futuro. Portugal, o país mais centralizado da Europa, é o país em que os distritos do interior representam dois terços da área de Portugal continental, e em que os mesmos distritos elegem menos deputados do que o círculo de Lisboa.

Mas se isso era um dado adquirido, tem ficado também claro que os problemas de 2/3 do país e a coesão territorial estão praticamente de fora dos debates e da campanha eleitoral. Talvez seja um tema demasiado complexo e que não sirva para os típicos soundbites, ou talvez, de facto, para a maioria dos candidatos, há temas e lugares que não importam nestas eleições.   

Nos programas eleitorais pouco se diz sobre como resolver o ciclo vicioso de desenvolvimento económico e social que se agrava cada vez mais em 2/3 do nosso país. Há partidos que nem sequer falam no assunto. Há partidos (a maioria) que apenas apresenta medidas soltas (políticas fiscais atractivas, teletrabalho, promoção da produção nacional, transferência de serviços e infraestruturas da administração central, melhorar a rede ferroviária, etc.), que como se tem visto nas últimas décadas não passam de pensos rápidos que rapidamente são ultrapassados por uma sociedade em constante mudança. E há partidos, que apesar de colocarem a “Coesão Territorial” como secção importante no seu programa, poucas reformas de fundo apresentam para resolver de vez este problema.   

A descentralização, enche a boca e agrada a todos, mas pouco se percebe como a pretendem fazer. A regionalização, sim para alguns, não para outros, “logo se vê” para a maioria. E assim ficamos, mais uma vez, com uma agremiação de políticas soltas que bem demonstram a importância que se dá a alguns lugares “esquecidos”, ou neste caso, que não dão votos.

Sei que nos próximos tempos os holofotes continuarão em Lisboa e que por lá ficarão até que a crise política se resolva, mas espero que o próximo Parlamento e Governo consigam, de uma vez por todas, e aproveitando os milhões da bazuca e as oportunidades criadas pela pandemia, girar os holofotes para outros sítios e começar a “importar-se” com todos os lugares e com todos os portugueses.

Combater desigualdades territoriais é combater desigualdades económicas e sociais, é combater “a vingança dos lugares que não importam”, é combater populismos e extremismos de todo o tipo, e esse devia ser, sem dúvida, um desígnio destas eleições e de todos nós.