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sábado, 30 de maio de 2026

Classificação: os países que alimentam o mundo


Um grupo relativamente pequeno de países fornece hoje uma enorme fatia dos alimentos comercializados no mundo. Os 10 maiores exportadores, por si só, representam quase metade das exportações agrícolas globais, conferindo a um punhado de economias uma enorme influência sobre os preços e as cadeias de abastecimento globais de alimentos.

As Américas constituem o núcleo do sistema global de comércio de alimentos. Os EUA, o Brasil, o Canadá e o México, em conjunto, representam quase 30% das exportações agrícolas globais, abrangendo desde cereais e carne a alimentos processados ​​e oleaginosas.

Enquanto isso, várias economias populosas apresentam classificações inferiores às esperadas. Apesar de ser o maior produtor agrícola do mundo, a China está muito atrás dos EUA e do Brasil em termos de valor de exportação, o que reflete a parcela da sua produção que é consumida internamente.

segunda-feira, 2 de março de 2026

Novo estudo revela que as culturas de subsistência contribuem também para a desflorestação e para as emissões de gases de efeito de estufa

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Um novo estudo, publicado na revista Nature Food em 23 de fevereiro de 2026, apresenta uma análise sem precedentes sobre a relação entre a produção global de mercadorias, a desflorestação e as respetivas emissões de carbono. 

Através da criação do modelo DeDuCE, os investigadores Chandrakant Singh e Martin Persson conseguiram mapear o impacto de 184 produtos em 179 países, cobrindo o período entre 2001 e 2022. A grande revelação do estudo é que as políticas ambientais atuais podem estar a sofrer de uma "visão em túnel", ao focarem-se excessivamente em produtos de exportação mediáticos, como a carne bovina, a soja e o óleo de palma, enquanto negligenciam o peso das culturas de subsistência e de base alimentar.

Nomeadamente as commodities como óleo de palma e soja têm um impacto concentrado (Sudeste Asiático e América do Sul, respectivamente). Por outro lado, a desflorestação causada por culturas básicas (arroz e milho) está globalmente distribuída, o que torna o seu controlo mais complexo para as cadeias de abastecimento internacionais.

Os dados revelam que a expansão de pastagens para o gado continua a ser a principal culpada, sendo responsável por 42% da desflorestação global e mais de metade das emissões de carbono associadas. No entanto, o estudo destaca que o arroz, o milho e a mandioca — frequentemente ignorados em regulamentações internacionais como as da União Europeia — representam já 11% da perda de florestas no mundo. 

Este fenómeno é particularmente desafiante porque estas culturas básicas estão dispersas globalmente e são destinadas, em grande parte, ao consumo interno dos países produtores, o que as torna menos suscetíveis a pressões comerciais externas.

Ao longo das duas décadas analisadas, a desflorestação para fins comerciais resultou na perda de quase 122 milhões de hectares de floresta e na emissão de 41,2 gigatoneladas de CO2. Os autores sublinham que, se o objetivo internacional for atingir a neutralidade carbónica e travar a perda de biodiversidade, é urgente alargar o âmbito da monitorização. 

O artigo conclui que não basta focar as atenções nas cadeias de abastecimento de luxo ou de exportação; é imperativo integrar as culturas agrícolas de base nas estratégias de conservação, equilibrando a necessidade crítica de segurança alimentar com a proteção dos ecossistemas florestais.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

O que é que as formigas nos dizem sobre a biodiversidade nas culturas para biocombustíveis?


Um estudo das comunidades de formigas mostra que a utilização de diversas fontes vegetais para a bioenergia é crucial para proteger os ecossistemas e, ao mesmo tempo, produzir combustíveis mais ecológicos.

Apesar de ser uma fonte de energia renovável, a utilização de biocombustível é controversa, uma vez que o cultivo de poucas culturas altamente produtivas para combustível pode levar à perda de biodiversidade nos sistemas de cultivo onde a biomassa é produzida. Um sistema de cultivo refere-se às culturas, à sua sequência e às práticas de gestão num determinado campo.

Agora, investigadores dos EUA compararam as comunidades de formigas em diferentes tipos de sistemas de cultivo de bioenergia para compreender melhor como estes sistemas moldam as comunidades bióticas e as suas funções. Os resultados foram publicados na revista Frontiers in Conservation Science.

“Encontrámos diferentes comunidades de formigas quando comparámos culturas anuais, sistemas perenes e diversas policulturas perenes com muitas espécies de plantas”, afirmou o primeiro autor, Nathan Haan, que recolheu dados para este estudo na Estação Biológica Kellogg da Universidade Estatal do Michigan e que atualmente investiga a ecologia de insetos como professor assistente na Universidade do Kentucky.

“Os sistemas perenes de cultivo de bioenergia, particularmente aqueles que incorporam maior diversidade de plantas, dão origem a uma comunidade de formigas diferente e mais diversificada do que os sistemas mais simples”, acrescentou.

Formigas e culturas
As formigas são atores abundantes e influentes nos prados e nos agroecossistemas. Podem ser importantes predadores, dispersores de sementes e engenheiros do solo. “Se uma grande parte das nossas paisagens se dedicar ao cultivo de culturas para combustível, as formigas são um candidato de topo para investigar como as comunidades de insetos podem diferir de cultura para cultura”, explicou Haan.

Os investigadores examinaram 10 sistemas de cultivo de bioenergia numa matriz experimental no Michigan. Os sistemas incluíam culturas anuais (milho e dois tipos de milho de vassoura), sistemas perenes simples (plurianuais) e sistemas perenes diversos (pradaria reconstruída, vegetação voluntária em sucessão e um sistema de talhadia de curta rotação com choupos).

Os investigadores capturaram quase 10.000 formigas individuais pertencentes a 22 espécies. Nos ecossistemas complexos, as formigas desempenhavam mais papéis funcionais – por exemplo, predador ou dispersor de sementes – do que nos sistemas simples. A riqueza de espécies era mais elevada nos sistemas diversificados e mais baixa nos sistemas simples. A composição da comunidade também diferiu: algumas espécies comuns de formigas foram encontradas em todos os sistemas de cultivo; espécies mais raras, no entanto, só apareceram em sistemas perenes com diversidade de plantas.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Montalegre quer revitalizar o cultivo de centeio e os fornos tradicionais


Montalegre quer revitalizar a produção de centeio, um cereal cada vez mais valorizado devido à escassez no mercado, no âmbito de um projeto que inclui a requalificação de fornos antigos, disse ontem a presidente da câmara.

Fátima Fernandes explicou que foi já feita uma sementeira com centeio tradicional na Quinta da Veiga, numa parceria com a Cooperativa Agrícola do Barroso (CoopBarroso), com vista à produção de semente biológica.

Segundo informações já divulgadas pela autarquia do norte do distrito de Vila Real, em dois hectares de terreno naquela quinta, a CoopBarroso iniciou em novembro a produção de centeio, adquirido aos agricultores do concelho, com vista à certificação biológica.

O município adiantou que os “700 quilos semeados devem render, em julho próximo, perto de quatro toneladas”.

E, dentro de dois anos, acrescentou, pretende-se ter semente suficiente para replicar a quem queira aderir a este projeto apoiado pela Câmara de Montalegre.

O objetivo, para além do fomento da economia local, passa pelo incentivo à produção de uma semente que não pede grande exigência e que tem procura no mercado.

O município quer “dar nota aos agricultores que tem aqui mais uma fonte de rendimento”, sabendo-se que, atualmente, “o centeio é um cereal muito procurado e valorizado, principalmente aquele que é de produção biológica”.

Os cereais, que têm uma grande importância na dieta alimentar em Portugal, têm registado uma acentuada diminuição de produção nas últimas décadas.

As estimativas do Instituto Nacional de Estatística (INE), reveladas em dezembro, apontam para uma diminuição em volume (-3,8%) na produção de cereais em 2023, em resultado de decréscimos em todos os cereais, à exceção do milho e arroz, devido às condições meteorológicas adversas.

Segundo o INE, a campanha cerealífera “foi bastante negativa, tendo os preços registado uma diminuição significativa (-23,7%), onde se destaca o trigo, a cevada e o milho, em consonância com a diminuição dos preços registada nos mercados internacionais, após o período de escassez de cereais (com preços elevados) na sequência da guerra na Ucrânia”.

“É uma produção fácil e, além do mais, interage muito bem com a produção de batata, porque habitualmente, e tradicionalmente, aquilo que acontecia é que nos terrenos onde havia onde era semeado o centeio, depois eram trabalhados para aí plantar as batatas”, explicou a autarca.

Fátima Fernandes recordou que o concelho de Montalegre já “foi um grande celeiro, principalmente de centeio”, e que ali ainda é produzido um “pão de excelência”

“E, portanto, porque não apostar desde a sementeira até depois ao pão e produto final, passando por todas as etapas, a semente a apanha, a debulha? (…) Temos que revitalizar as nossas eiras para se perceber como é que se fazia antigamente e depois os fornos”, salientou.

A sementeira está, especificou, inserida num projeto maior que quer dinamizar todo o território e cujo objetivo passa, também, pela requalificação de alguns fornos do Barroso, colocando-os a trabalhar, a produzir o pão e, desse modo, fazendo roteiros culturais e gastronómicos.

“É uma aposta que está perfeitamente enquadrada no Património Agrícola Mundial”, salientou.

terça-feira, 24 de outubro de 2023

Renúncia fiscal: soja recebe quase R$ 60 biliões ao ano, o dobro da cesta básica


A soja tem dificuldades em abrir mão do Estado-babá? Como todo produto do colonialismo, o grão depende fortemente de subsídios públicos. Um novo estudo mostra que a produção custa quase R$ 60 biliões ao ano apenas em renúncia fiscal. O valor é o dobro das desonerações garantidas à cesta básica, e seria suficiente para arcar com quatro meses de Bolsa Família.

O relatório O custo da soja para o Brasil: renúncias fiscais, subsídios e isenções da cadeia produtiva, lançado nesta terça-feira (17), reforça o papel concentrador desse grão na disputa por terras, financiamento e benesses. E, em meio à discussão sobre reforma tributária, propõe que sejam repensados os subsídios ao setor.

O autor, o economista Arnoldo de Campos, destrincha leis que garantem isenções para a produção agrícola em várias etapas, desde insumos (como fertilizantes e agrotóxicos) até a livre circulação pelos estados e a exportação, passando pelo processamento de óleos, biodiesel e farelo de soja.

O resultado é uma estimativa de renúncia de R$ 56,81 biliões apenas em impostos federais ao longo de 2022. Isso equivale a 15% do faturamento estimado para a produção de soja, de R$ 400 biliões.

"Estamos trazendo ao público a informação de quanto é o custo para o país como um todo de uma opção estratégica que foi tecida durante a ditadura, onde não houve esse processo de transparência, participação e democracia. Esse é o cerne do nosso estudo", diz Marcos Woortmann, coordenador de Políticas Socioambientais do Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), uma das organizações responsáveis pelo estudo. Ele faz alusão ao fato de que a estrutura tributária atual do país começou a ser instituída durante o regime autoritário, e depois foi apenas sendo sucessivamente remendada.

"O Brasil é o país que mais se desindustrializou no mundo nos últimos trinta anos. E existe uma razão do porquê isso aconteceu. Não houve priorização da indústria na economia. Um setor está pagando, o outro está recebendo. O setor industrial paga IPI, CSLL, Cofins. E o setor da soja não paga. E quem paga somos nós como contribuintes."

O relatório traça ainda uma projeção para a renúncia fiscal de ICMS em Mato Grosso, maior produtor de soja e estado-símbolo do agronegócio no Brasil. A estimativa é de uma perda de quase R$ 8 biliões, o que equivale a 6,1% do faturamento da cadeia de soja no estado. No total, a desoneração foi maior que a própria arrecadação, projetada em R$ 5,9 biliões.

"Não sou um otimista", diz Woortmann sobre a possibilidade de que a reforma em tramitação no Congresso acabe com os privilégios do agronegócio. "O Brasil está subsidiando a destruição ambiental, a concentração de renda e o autoritarismo. A democracia brasileira está subsidiando as forças que atentaram contra ela. E isso ficou profundamente nítido a partir das investigações de financiamento dos atos antidemocráticos de 8 de janeiro. Esses atos foram subsidiados por empresas subsidiadas pelo contribuinte. Existe uma complexidade do momento histórico que é gravíssima."


Papa-tudo

Não é de hoje que a capacidade da soja em ser predatória com outras culturas chama atenção. Ainda assim, o avanço do grão nos últimos anos tem se dado em bases astronômicas. A projeção da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para a safra atual é de 44 milhões de hectares, o equivalente à soma dos territórios de Mato Grosso do Sul e Pernambuco. Se fosse um país, a soja teria o tamanho aproximado de Marrocos.

Como assinala o relatório, é verdade que o cultivo teve um ganho de produtividade, mas a principal explicação reside na expansão geográfica: na comparação com o primeiro mandato de Lula, a soja mais do que dobrou de tamanho.

"O estudo é uma oportunidade de abrir um debate de que existem alternativas", assinala Paula Johns, diretora-executiva da ACT Promoção da Saúde, outra das organizações responsáveis pela análise. "Para desnaturalizar essa coisa que está dada na sociedade, de que o agronegócio é que salva a lavoura no Brasil. Esses números mostram que o que a gente tem de aparentemente bem-sucedido é o fruto de um investimento de décadas. Hoje a gente sabe que esse investimento tem uma série de consequências ambientais e de saúde humana. A gente pode rever essa rota."

Essa capacidade de concentração fica explícita também na pesquisa Produção Agrícola Municipal, cuja versão mais recente foi divulgada em setembro pelo IBGE. Tirando da conta o milho, nem mesmo a soma de todos os demais produtos faz frente à soja: são R$ 292,7 biliões entre cana-de-açúcar, café, algodão, trigo, arroz, laranja, feijão, mandioca e outros alimentos.

Como temos mostrado no Joio, o mote de que o agro é tudo cai por terra diante da desproporção entre a soja e todo o restante. Sem o grão, o agro perderia quase metade do valor de produção, o que expõe a fragilidade do setor que se apresenta como "indústria-riqueza do Brasil".

Segundo o estudo, a participação da cadeia da soja no PIB do agro passou de 9% para 27% entre 2010 e 2022 – uma expansão de 58%, contra apenas 8% do agro como um todo.

O relatório analisa como essa concentração se reflete na concessão de crédito. Os dados do Banco Central mostram que o grão sugou 52% dos recursos de financiamento em 2022. "Ou seja, de um total de R$ 133,2 biliões emprestados para custear as lavouras no país, R$ 69,5 biliões foram destinados para financiar exclusivamente o custo da soja."

Somando o milho, chega-se a 72%, ou seja, todos os restantes alimentos, num total de 140 culturas, ficam com apenas 28% do crédito rural. O feijão, por exemplo, ficou com menos de 1% dos recursos, num total de 8,4 mil contratos para um universo de quase um milhão de produtores.

A porta de saída

O estudo defende que a soja é o exemplo-mor da ênfase colocada pelo Estado na transformação do país em potência agrícola. O grão é o resultado de políticas agrícolas, comerciais, de infraestrutura e de tributação. Vale lembrar que a adaptação do cultivo ao Cerrado é vista como uma das maiores realizações da Embrapa, que celebra 50 anos em 2023.

"Se o objetivo de fomentar e desenvolver o agronegócio foi alcançado, como demonstra o caso da soja aqui destacado, será que faz sentido manter os atuais níveis de apoio que as cadeias produtivas privilegiadas receberam ao longo de décadas?", questiona o relatório, sugerindo que está na hora de o agronegócio brasileira começar a devolver parte dos investimentos feitos pelo país.

O texto aponta que parte da elite do país questiona o tempo do qual famílias pobres dependem de programas sociais, como o Bolsa Família, "e cobra do poder público as chamadas 'portas de saída', para que estas famílias deixem, depois de um determinado período, de receber o apoio do Estado. Dizem que as famílias não deveriam ficar ‘dependentes’ das políticas sociais".

Então, por que a soja deveria ficar eternamente dependente do Estado? A pergunta, ao fim, é: o agronegócio sobrevive sem fartos apoios públicos?

O relatório "O custo da soja para o Brasil: renúncias fiscais, subsídios e isenções da cadeia produtiva" foi produzido por ACT Promoção da Saúde, Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), Observatório das Economias da Sociobiodiversidade (ÓSocioBio), Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC) e Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN)

sexta-feira, 18 de agosto de 2023

Ano de seca. Colheita de cereais para outono e inverno é "a pior de sempre"


A campanha de colheita de cereais para grão de outono e inverno, já concluída, é “a pior de sempre para todas as espécies cerealíferas”, indicou esta quinta-feira o Instituto Nacional de Estatística. O ano agrícola volta a sofrer os efeitos da situação de seca, quadro que abrange 96,9 por cento do território continental do país.“

A colheita dos cereais para grão de outono/inverno está concluída, confirmando a atual campanha como a pior de sempre para todas as espécies cerealíferas, resultado dos decréscimos de área de produtividade”, adianta o INE nas previsões agrícolas agora divulgadas.

Os cereais semeados tardiamente, por causa das chuvas de dezembro do ano passado e janeiro deste ano, foram “muito penalizados”. Por outro lado, a falta de precipitação na primavera e as altas temperaturas penalizaram igualmente o desenvolvimento de cereais praganosos, o que deu azo a um espigamento precoce.A seca abrange 96,9 por cento do território do continente, dos quais 34,4 por cento, a sul do Tejo, estão sob seca severa ou extrema.

Já a instalação de culturas de primavera e verão “decorreu com normalidade”, dado que o regadio está assegurado em 60 albufeiras. Cinco albufeiras hidrográficas mantêm-se, desde 2022, debaixo de restrições de rega.

O volume de água armazenada nas principais albufeiras com aproveitamento hidroagrícola, em Portugal continental, encontrava-se em julho a 66 por cento da capacidade total, aquém dos 71 por cento do mês anterior, mas acima do período homólogo, quando estava a 61 por cento.

Ainda segundo o Instituto Nacional de Estatística, a “escassa produção de matéria verde para o pastoreio” obrigou à antecipação da suplementação da pecuária em regime extensivo, com base em alimentos conservados.

No Alentejo, as quebras de produtividade da matéria verde foram de 20 a 80 por cento, com a maior redução a ter lugar nos concelhos de Castro Verde, Ourique, Mértola e Almodôvar. A norte do Tejo, todavia, a situação “não assume a mesma gravidade, estando a suplementação com alimentos grosseiros armazenados e/ou alimentos concentrados mais próxima dos parâmetros normais”.

Outras culturas
“De um modo geral”, escreve o INE”, as culturas de primavera e verão “apresentam um regular desenvolvimento, embora no caso do tomate para indústria se antevejam produtividades inferiores ao normal”.

Os pomares de pereiras e macieiras devem sofrer reduções de produtividade de, dez e 15 por cento, respetivamente, ao passo que a produção de cereja registou uma queda de 55 por cento, relativamente à anterior campanha.

Já a área de milho de regadio deverá igualar o valor do ano anterior – esta cultura, em fase de enchimento do grão, mostra “um bom desenvolvimento vegetativo e sem problemas fitossanitários relevantes”.Nas vinhas, o INE não anota acidentes sanitários relevantes e as vindimas devem ser antecipadas. Estima-se que a produtividade aumente em todas as regiões, com a exceção do Dão. O rendimento unitário global deve atingir os 42 hectolitros por hectare, mais oito por cento em comparação com 2022.

A maioria dos arrozais estava, no final de julho, na denominada fase de encanamento. Esta cultura mostra um “bom desenvolvimento vegetativo, embora com a presença de infestantes”, desde logo nas zonas litorais do Baixo Mondego e Vouga.

No norte e no centro, o desenvolvimento da batata de regadio beneficiou das condições meteorológicas. “Na Península de Setúbal, a produtividade da batata de consumo foi idêntica à da campanha anterior, sendo que na batata para indústria foi superior, estimando-se um acréscimo global na ordem de cinco por cento”, lê-se no documento do INE.

Mesmo com um quadro meteorológico desfavorável, os pomares de pessegueiros estão com produtividades de cerca de dez toneladas por hectare, volume próximo do habitual. No que diz respeito à amêndoa, a produtividade global deve crescer 15 por cento.

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

Monções beneficiam as culturas de Kharif na Índia


A Índia e outras áreas do sul da Ásia estão vivenciando chuvas generalizadas de monções que beneficiam a maioria das culturas de kharif, conforme análise divulgada pelo USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) em seu boletim semanal. No entanto, em partes mais secas do leste do país, ainda é necessário um maior volume de precipitação.

As chuvas de monções prevaleceram em grande parte da região, incluindo seções anteriormente secas do leste da Índia e Bangladesh. Apesar de algumas áreas de cultivo de arroz no leste terem recebido mais de 100 mm de chuva, ainda há bolsões de clima mais seco, e mais precipitação é necessária para aliviar os déficits de humidade sendo experienciados - com a chuva chegando a ser 60% abaixo do normal.

Em contraste, a maioria das outras áreas de cultivo da Índia beneficiou-se de chuvas consistentes, com a maioria das regiões registando de 25 a 100 mm ou mais no período atual. No entanto, em Telangana, áreas de cultivo de algodão provavelmente enfrentaram inundações com mais de 200 mm de chuva.

Essa chuva, embora necessária para o crescimento das culturas, pode se tornar prejudicial se ocorrer em excesso, como em Telangana, onde há um risco de inundações nas áreas de cultivo de algodão.

A monção é vital para a agricultura na Índia e em outras partes da Ásia do Sul, pois a maior parte das chuvas anuais na região ocorre durante a estação das monções. A agricultura da Índia depende muito das chuvas da monção para o cultivo de kharif, que inclui culturas como milho, algodão, soja e arroz

quinta-feira, 29 de junho de 2023

A Comissão Europeia autorizou três novas variedades de milho geneticamente modificado


A Comissão Europeia autorizou três novas variedades de milho geneticamente modificado, bem como a renovação das autorizações de três variedades de soja transgénica e de uma variedade de algodão. Estes transgénicos são todos propriedade da Bayer e destinam-se a ser importados como alimentos para consumo humano e animal. Até à data, a Comissão Europeia autorizou a importação de cerca de uma centena de plantas geneticamente modificadas, incluindo milho, soja, colza, algodão e beterraba. Estas autorizações, válidas por dez anos, não permitem o cultivo destas plantas, mas apenas a sua utilização na alimentação humana e animal (milho, soja, colza) ou como agrocombustível (colza, soja). Apenas o milho Mon810 continua a ser autorizado para cultivo, após a renovação da sua autorização em 2017.

A Comissão recorda que “qualquer produto feito a partir destes OGM estará sujeito a regras estritas da UE em matéria de rotulagem e rastreabilidade”, duas obrigações que permitem nomeadamente aos agricultores e consumidores fazer uma escolha informada. Ainda assim, essas autorizações levantam questões. A Comissão Europeia está em processo de desregulamentação de novos OGMs (sem definir seu contorno científico e legal). E, num documento recentemente vazado , a DG Saúde considerou que eles "são tão seguros quanto seus equivalentes convencionais". A DG Saúde também propõe simplesmente não detectar e rastrear esses novos OGMs.

A Comissão Europeia e as empresas vendem-nos o sonho de novos OGM, mais precisos, mais rápidos de desenvolver, mais interessantes para o consumidor nos Estados Unidos, onde as primeiras decisões de desregulamentação de novos OGM datam de mais de dez anos. Os novos OGMs ainda não são cultivados em larga escala, e as questões de precisão e economia de tempo ainda precisam ser demonstradas, além dos discursos publicitários.

sábado, 15 de abril de 2023

Agricultores espanhóis alertam para seca severa e falam em cenário “catastrófico”


O setor agropecuário de vários pontos de Espanha manifestou esta sexta-feira o receio pelos efeitos da seca no abastecimento de água em geral, alertando para uma situação “dramática” e propondo 50 medidas urgentes para lidar com o cenário “catastrófico”.

Depois de um mês de março sem chuva e de um início de abril seco e sem perspetivas de chuva para os próximos dias, a seca continua a avançar, principalmente em grandes áreas do norte, nordeste e na Andaluzia, noticiou a agência Efe.

Esta seca persistente colocou o setor agrícola da Catalunha em perigo, o que exige que o mecanismo de ajuda seja colocado em funcionamento perante uma situação que qualificam de “dramática”.

Nesse sentido, a União dos Sindicatos de Agricultores e Pecuaristas (UdU) apresentou esta sexta-feira, em Madrid, ao Governo central, um conjunto de 50 medidas urgentes para enfrentar a situação “catastrófica”.

Até 70% das colheitas de inverno podem ser perdidas em certas áreas se continuar sem chuva, estimou a organização agrícola, que solicitou um regulamento que contemple as suas propostas e seja ativado automaticamente com base em certos indicadores.

A UdU também quer, entre outras medidas fiscais devido à situação, que sejam ativados os mecanismos de reserva de crise e declaradas zonas de emergência de proteção civil para todos os afetados pela seca, ao mesmo tempo em que exorta o Governo e as comunidades a apresentarem “medidas concretas e imediatas” na reunião do Comité Nacional da Seca na próxima quarta-feira.

Segundo os seus dados, Andaluzia, Estremadura, Catalunha e Comunidade Valenciana são as regiões mais afetadas pela seca hídrica e meteorológica.

A expectativa é que mais de 40.000 dos 50.000 hectares de cultivo de algodão não tenham possibilidade de irrigação, o que compromete 70% da receita dessas quintas.

Na Estremadura, quase toda a colheita de cereais de inverno foi danificada e mais de 16.000 hectares de milho e 6.000 hectares de arroz ficarão sem plantar devido à falta de abastecimento de água.

A colheita de frutas de caroço na província de Lleida (Catalunha) pode ser comprometida, enquanto 70% da produção de inverno em Castilla y León pode ser perdida se não chover.

As vinhas, os olivais e os cereais de Castilla-La Mancha também sofrem com a seca, assim como os cereais de inverno da Comunidade Valenciana, com perdas possíveis de 35%, segundo a UDU.

Além disso, os agricultores de sequeiro olham para 2024 com medo depois de uma colheita que no sul da Comunidade Valenciana é “desastrosa” devido à seca, com perdas que ultrapassam 90 e 95% dos hectares, e se a chuva não chegar , algumas culturas como a amendoeira terão de ser replantadas.

Os diferentes tipos de cereais que se cultivam no norte da província de Alicante e as amendoeiras e alfarrobeiras de Vega Baja são as principais culturas que se deterioraram.

Na Catalunha, o presidente da organização Jovens Agricultores e Pecuaristas da Catalunha (AJEC), Joan Carles Massot, garantiu à Efe que “foi pedido há um mês à Generalitat [governo regional] que prepare as medidas compensatórias”.

“Porque se não chover estamos perdidos”, alertou.

A Comunidade Geral de Irrigantes do Canal de Urgell (CGRCU) já decidiu solicitar à Generalitat e ao Governo a declaração de área catastrófica devido à “situação dramática, excecional e persistente” de falta de água, a fim de permitir a cobrar indemnização dos irrigantes.

O coordenador das regiões serranas da Unió de Pagesos, Joan Guitart, também já alertou, em declarações à Efe, para a situação em que se encontram as regiões serranas.

“Se não chover em 15 dias, o gado que vai para esses pastos não vai”, indicou.

Muitos produtores de leite podem ser obrigados a abater os animais por não poderem alimentá-los, alertou este sindicato.

terça-feira, 4 de abril de 2023

O Apocalipse dos Insetos no Antropoceno

Em sete décadas, o modelo de monocultura do capitalismo reduziu a multiplicidade de habitats a zonas de guerras contra os invertebrados. Sem eles, entrarão em colapso a biosfera e o que Marx chamou de “metabolismo universal da Natureza” Por Ian Angus (NOTA: texto dividido em 3 partes; 2 e-books gratuitos e bibliografia no fim)


O Apocalipse dos insetos no Antropoceno, Parte 1 -  A vitória durou pouco
“A questão é se alguma civilização pode travar uma guerra implacável contra a vida sem se auto-destruir e sem perder o direito de ser chamada de civilizada.”[1]

Já se passaram seis décadas desde que Rachel Carson escreveu o seu brilhante livro Primavera Silenciosa, frequentemente descrito como o trabalho fundador do movimento ambientalista moderno. O objetivo de Carson era impedir a matança de insetos e muitas pessoas pensaram que a sua causa tinha terminado com sucesso no momento em que se interrompeu o uso generalizado do DDT.

Quando Primavera Silenciosa foi publicado, a minha família tinha mudado há pouco para uma área rural no leste do estado de Ontário (Canadá). Como era um adolescente, não fiquei feliz por perder a vida social urbana, mas acabei encantando-me com experiências que nunca teria na cidade. Em particular, no verão, um campo perto de nossa casa ficava cheio de borboletas monarcas durante o dia e de vaga-lumes à noite. Passava muitas horas apenas a observar o espetáculo dos insetos.

Lis e eu ainda moramos na mesma casa, e aquele campo ainda está lá, a crescer de forma selvagem, mas não vemos uma borboleta monarca ou um vaga-lume há décadas. O extermínio contínuo de animais de seis patas é hoje maior e mais prejudicial do que qualquer cenário que Rachel Carson possa ter imaginado.

A 3 de fevereiro, um relatório abrangente mostrou que 80% das espécies de borboletas no Reino Unido diminuíram em abundância ou distribuição desde a década de 1970, e metade delas agora está listada como ameaçada ou quase ameaçada.[2] Como as borboletas são, de longe, os insetos selvagens monitorados de forma mais consistente, o seu declínio é como o proverbial canário cujo colapso alertava os mineiros de carvão de que o gás mortal se estava a acumular. Se há menos borboletas, é provável que haja menos insetos de todos os tipos.

No mesmo dia, cientistas da Academia de Ciências Agrícolas da China relataram que, desde 2005, houve um declínio constante nas 98 espécies de insetos voadores que migram todos os anos sobre a baía de Bohai, entre a China e a Coreia. O número de insetos herbívoros diminuiu 8%, e os insetos predadores que os comem caíram quase 20%. Os autores dizem que os dados mostram “um declínio crítico na diversidade funcional (de insetos) e uma perda constante na resiliência ecológica em todo o Leste da Ásia”.[3]

Estes estudos, conduzidos em lados opostos do globo, aumentam a evidência crescente de um rápido declínio mundial da vida dos insetos. Embora a maioria dos grupos de conservação ilustre as suas campanhas de arrecadação de fundos com fotos de pandas, tigres e pássaros raros, o declínio generalizado de insetos representa a maior ameaça a toda a vida no Antropoceno. Scott Black, Diretor Executivo da Xerces Society, uma organização sem fins lucrativos que enfatiza a proteção de insetos e outros invertebrados, resume o perigo nestes termos:
“Independente do quão rudemente tratemos o planeta, nós vamos desaparecer antes dos insetos. Mas o que será visível para nós é menos aves ou mesmo nenhuma ave no céu. Se queres pássaros, precisas de insetos. Se queres frutas e legumes, precisas de insetos. Se queres solos saudáveis, precisas de insetos. Se queres comunidades de plantas diversificadas, precisas de insetos.”[4]
Os insetos são fundamentais para o que Karl Marx chamou de metabolismo universal da natureza, a constante reciclagem de energia e matéria que torna a vida possível. Artrópodes – principalmente insetos, mas incluindo aranhas, ácaros, centopeias e milípedes – polinizam 80% de todas as plantas, reciclam os nutrientes essenciais da vida, criam solos saudáveis ​​e férteis, purificam a água e são o principal alimento de muitos pássaros e animais. Se eles desaparecessem completamente, a biosfera entraria em colapso e os humanos não durariam muito.
“A maioria dos peixes, anfíbios, pássaros e mamíferos entrariam em extinção quase simultaneamente. Em seguida iria a maior parte das plantas com flores e com elas a estrutura física da maioria das florestas e outros habitats terrestres do mundo. A terra apodreceria. À medida que a vegetação morta se acumulasse e secasse, estreitando e fechando os canais dos ciclos de nutrientes, outras formas complexas de vegetação morreriam e, com elas, os últimos remanescentes dos vertebrados. Os fungos remanescentes, depois de desfrutarem de uma explosão populacional de proporções estupendas, também pereceriam. Dentro de algumas décadas, o mundo voltaria ao estado de 1 bilhão de anos atrás, composto principalmente de bactérias, algas e algumas outras plantas multicelulares muito simples”.[5]
Para ser claro, o desaparecimento de todos insetos não é provável num futuro previsível: de facto, alguns insetos provavelmente sobreviverão à humanidade. O que as provas mostram é uma combinação de extinções definitivas e declínios populacionais radicais que alguns cientistas chamam de defaunação
. “Se não for controlada, a defaunação tornar-se-á não apenas uma característica da sexta extinção em massa do planeta, mas também um impulsionador de transformações globais fundamentais no funcionamento do ecossistema.”[6]
A maioria dos relatos sobre a vida na Terra concentra-se em mamíferos, pássaros, peixes e répteis, mas, na verdade, a grande maioria dos animais é de insetos. Ninguém sabe exatamente quantos são, mas uma boa estimativa é de dez quintilhões — 10 seguidos de dezoito zeros, bem mais de um bilhão de insetos para cada ser humano. Juntos, eles pesam substancialmente mais do que todos os outros tipos de animais (incluindo humanos) combinados. Eles são imensamente variados: só nos EUA, existem cerca de 23.700 espécies de besouros, 19.600 espécies de moscas, 17.500 espécies de formigas, abelhas e vespas e 11.500 espécies de mariposas e borboletas. Em todo o mundo, um milhão de espécies de insetos foram catalogadas e acredita-se que outras quatro milhões ainda não tenham sido identificadas ou nomeadas. Nas taxas atuais, muitos desaparecerão antes mesmo que os humanos saibam que eles existem.

Com populações tão grandes, é difícil imaginar que todas ou mesmo uma proporção significativa delas possam estar em risco. Além das borboletas, que são bonitas, e das abelhas, que são lucrativas, até recentemente as ameaças à vida dos insetos raramente eram mencionadas nos relatos de perda de biodiversidade.[7] O premiado livro premiado de Elizabeth Kolbert A Sexta Extinção (2014), por exemplo, refere-se apenas brevemente ao declínio de insetos, como uma consequência, difícil de mensurar, do desmatamento na Amazónia. O livro Esquivando-se da Extinção, de Anthony Barnosky (também de 2014), menciona os insetos de passagem apenas duas vezes. Da mesma forma, o best-seller de David Wallace-Wells A Terra Inabitável (2019) contém apenas três parágrafos sobre insetos.

Estes autores não estavam a ignorar arbitrariamente os nossos parentes de seis patas: as suas omissões refletiam uma longa lacuna na literatura científica. Embora os entomologistas tenham publicado muitos relatórios sobre a biologia e o comportamento de algumas espécies, poucos estudaram ou mediram as tendências das populações de insetos ao longo do tempo. Mesmo entre as abelhas, um dos grupos de insetos mais estudados, a Academia Nacional de Ciências dos EUA lamentou em 2007 que “faltam dados populacionais de longo prazo e o conhecimento de sua ecologia básica é incompleto”.[9]

Uma grande viragem ocorreu em outubro de 2017, quando 12 cientistas europeus publicaram um relatório inovador sobre o declínio de insetos voadores em áreas de proteção ambiental na Alemanha. Durante quase três décadas, membros da Sociedade Entomológica Krefeld, administrada por voluntários, capturaram e contaram insetos em 63 reservas naturais, usando armadilhas semelhantes a tendas. Uma análise dos seus registos, publicada na revista PLOS One, revelou uma tendência chocante que afeta abelhas, vespas, borboletas, moscas, besouros e muito mais.
“Os nossos resultados documentam um declínio dramático na biomassa média de insetos aéreos de 76% (até 82% no meio do verão) em apenas 27 anos para áreas naturais protegidas na Alemanha. […] O declínio generalizado da biomassa de insetos é alarmante, ainda mais porque todas as armadilhas foram colocadas em áreas protegidas destinadas a preservar as funções do ecossistema e a biodiversidade. Embora o declínio gradual de espécies raras de insetos seja conhecido há algum tempo (por exemplo, borboletas especializadas), os nossos resultados ilustram um declínio contínuo e rápido na quantidade total de insetos aéreos ativos no espaço e no tempo”.[10]
Em 2018, outro grupo de cientistas mostrou que entre 2008 e 2017 houve declínios substanciais na diversidade, biomassa e abundância de insetos nas pastagens e áreas florestais alemãs, e um estudo publicado nos Anais da Academia Nacional de Ciências apontou que as populações de insetos nas florestas tropicais porto-riquenhas caíram até 98% desde a década de 1970.[11] Embora houvesse debates sobre números precisos e metodologia, agora havia, como escreveu o ecologista britânico William Kunin na prestigiada revista Nature, “provas robustas do declínio dos insetos”.[12]

Estas descobertas levaram ecologistas e entomologistas de todo o mundo a examinar estudos e registos anteriores, em busca de dados que pudessem ser usados ​​para medir as mudanças nas populações de insetos. Em 2019, a revista Biological Conservation apresentou uma revisão detalhada de 73 estudos publicados sobre declínio de insetos.
“A partir da nossa compilação de relatórios científicos publicados, estimamos que a proporção atual de espécies de insetos em declínio (41%) seja duas vezes maior que a de vertebrados, e o ritmo de extinção de espécies locais (10%) oito vezes maior, confirmando anteriores descobertas. Atualmente, cerca de um terço de todas as espécies de insetos está ameaçada de extinção nos países estudados. Além disso, a cada ano cerca de 1% de todas as espécies de insetos é adicionada à lista. Esses declínios de biodiversidade resultam numa perda anual de 2,5% de biomassa em todo o mundo.”[13]
Desde então, como ilustram os estudos citados no início deste artigo, as investigações sobre populações de insetos explodiram. Em fevereiro de 2023, o Google encontrou mais de 30.600 entradas para “insetos ameaçados de extinção” e o Google Scholar encontrou mais de 1.000 trabalhos académicos. Para relatos acessíveis das investigações mais recentes, recomendo fortemente dois livros recentes, Silent Earth [Terra Silenciosa] de Dave Goulson e The Insect Crisis [A crise dos insetos] de Oliver Milman. Ambos foram escritos por autores sérios, que evitam o sensacionalismo; no entanto, um se refere a um “apocalipse de insetos” e o outro descreve o declínio das populações de insetos como “uma situação terrível [que] mal pode ser compreendida”.[14]

Em The Cosmic Oasis [O oásis cósmico], uma história da biosfera publicada em 2022, os principais cientistas do Antropoceno, Mark Williams e Jan Zalasiewicz, alertam que é impossível exagerar a ameaça representada pelo declínio da vida dos insetos que pesquisas recentes confirmaram.
“Cerca de dois quintos das espécies de insetos do mundo podem estar ameaçadas de extinção dentro de algumas décadas; elas estão a ser amplamente exterminadas em paisagens urbanas e agrícolas e são dizimadas pela poluição em ambientes aquáticos. […] Como os insetos estão profundamente enraizados no funcionamento dos ecossistemas da Terra, uma grande perda no seu número e diversidade teria efeitos incalculáveis; na verdade, provavelmente causaria um colapso total dos ecossistemas, incluindo aqueles que nos sustentam”.[15]
Apocalipse dos Insetos no Antropoceno, Parte 2
Nos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, o capitalismo global multiplicou o seu avanço, com efeitos devastadores para a biosfera. Alimentado pelos combustíveis fósseis e petroquímicos, a Grande Aceleração encerrou 12 mil anos de relativa estabilidade ambiental e climática durante o período do Holoceno e iniciou a era do Antropoceno. Como apresentou na sua conclusão, em 2004, um relatório de síntese do Programa Internacional Geosfera-Biosfera (IGBP, na sigla em inglês):

“A segunda metade do século XX é única em toda a história da existência humana na Terra. Muitas atividades humanas atingiram pontos de decolagem em algum momento do século XX e aceleraram radicalmente no final do século. Os últimos 50 anos testemunharam, sem dúvida, a mais rápida transformação da relação humana com o mundo natural na história da humanidade”.[16]

O relatório do IGBP incluía gráficos que ilustravam aumentos sem precedentes na atividade humana e na destruição ambiental global, começando por volta de 1950.[17] Um deles, intitulado “Biodiversidade global”, rastreava a taxa de extinção de animais, que os autores estimam ser 100 a 1.000 vezes maior do que as taxas de extinção natural anteriores.[18] Uma medida da debilidade dos estudos sobre insetos é que a discussão sobre o declínio da biodiversidade mencione mamíferos, peixes, aves, anfíbios e répteis, mas não insetos ou quaisquer outros invertebrados.[19]

Como vimos, investigações recentes mudaram decisivamente este quadro. Não apenas as populações de insetos estão em declínio, mas também estão a diminuir muito mais rapidamente do que outros animais. Os insetos compreendem metade de um milhão de espécies animais que os cientistas acreditam estar em extinção neste século.[20] Os insetos do mundo estão entre as principais vítimas da Grande Aceleração. Se continuar assim, o rápido declínio dos insetos estará entre as características mais mortais do Antropoceno.

Concentração e simplificação
O fator mais importante para o declínio dos insetos é a destruição do habitat – em particular, o papel da agricultura industrial na expulsão de inúmeras espécies das suas casas. Outros habitats de insetos foram desestabilizados e destruídos, mas as terras agrícolas são críticas pela sua inigualável escala – a agricultura ocupa 36% da terra total do mundo e 50% da terra habitável. Dentro desta enorme área, imensas parcelas estão envolvidas no que pode ser descrito razoavelmente como uma guerra aos insetos.

Toda a agricultura desestabiliza os ecossistemas locais e perturba a vida dos insetos, mas, como explica o ecologista Tony Weis, até recentemente uma agricultura bem-sucedida exigia trabalhar o máximo possível com ambientes naturais, não contra eles:

“Ao longo da história, a viabilidade de longo prazo das paisagens agrícolas dependeu da manutenção da diversidade funcional nos solos, variedades de cultivo (e germoplasma de sementes dentro das variedades), árvores, animais e insetos para manter o equilíbrio ecológico e os ciclos de nutrientes. Para esse fim, os agroecossistemas foram manejados com uma variedade de técnicas, como multiculturas, padrões de rotação, adubos verdes (transformando tecidos vegetais não decompostos em solos, geralmente a partir de leguminosas ricas em nitrogénio), pousio, cuidadosa seleção agroflorestal de sementes e a integração de pequenas populações de animais”.[21]

As décadas após a Segunda Guerra Mundial testemunharam o equivalente agrícola do que foi a revolução industrial do século XIX – uma mudança da pequena produção de commodities para a massiva produção em larga escala, dependente de combustíveis fósseis. Embora a maioria das quintas ainda pertencesse a famílias, as decisões sobre o que cultivar e como cultivar eram cada vez mais tomadas em salas de reuniões de grandes empresas. Os ecologistas agrícolas Ivette Perfecto, John Vandermeer e Angus Wright descrevem a revolução metabólica na produção de alimentos:
“A capitalização da agricultura pós-Segunda Guerra Mundial foi realizada principalmente através da substituição de insumos gerados na própria quinta por insumos fabricados fora da quinta e que precisavam ser adquiridos. Desde a mecanização precoce da agricultura que substituiu a força animal por tração motorizada, até à entrada de fertilizantes sintéticos no lugar do composto e esterco, e à substituição do controle cultural e biológico por pesticidas, a história do desenvolvimento tecnológico agrícola tem sido um processo de capitalização que resultou na redução do valor que é agregado dentro da própria quinta. Nas quintas de hoje, o trabalho vem da Caterpillar ou John Deere, a energia da Exxon/Mobil, o fertilizante da DuPont e o controle de pragas da Dow ou Monsanto. As sementes, literalmente o germe que torna possível a agricultura, foram patenteadas e precisam ser compradas.”[22]
O boom do pós-guerra na produção agrícola baseou-se numa ampla variedade de novas tecnologias, incluindo equipamentos mecanizados, ração animal produzida em massa, fertilizantes sintéticos e sementes proprietárias. Os novos insumos funcionaram muito bem, mas como aponta a historiadora agrícola Michelle Mart, “a revolução tecnológica na agricultura foi mais acessível para alguns do que para outros”.
“Muitos pequenos agricultores familiares não tinham condições de arcar com os altos investimentos necessários para as novas tecnologias, nem tinham as vastas extensões de terra que as viabilizariam economicamente. Em 1955, os custos operacionais totais para uma quinta média tinham triplicado em relação a apenas 15 anos antes, precipitando um declínio no número de quintas e no número de pessoas que trabalhavam na terra. De 1939 a 1950, o número de quintas nos Estados Unidos caiu 40%, e o número caiu quase outros 50% de 1960 a 1970, enquanto o tamanho médio de uma quinta aumentou 0,8 hectares a cada ano.”[23]
De acordo com o Departamento de Agricultura dos EUA, em 2012, “36% de todas as terras cultivadas estavam em quintas com pelo menos 800 hectares de terras agrícolas, acima dos 15% em 1987”.[24] Embora apenas cerca de 12% das quintas dos EUA possam ser descritas como unidades com operações comerciais muito grandes, elas obtêm 88% da receita agrícola líquida anual.[25]

Na América do Norte e na Europa, grandes quintas normalmente são criadas pela fusão de quintas menores. No Sul global, o desmatamento desempenha o papel principal: cerca de cinco milhões de hectares de floresta por ano são desmatados e substituídos por quintas e ranchos gigantes administrados por grandes empresas.[26] Entre 1980 e 2000, mais da metade das novas terras agrícolas nos trópicos foi criada pelo desmatamento de florestas. Entre 2000 e 2010, o número foi de 80%.[27]

A gestão rentável de grandes quintas com máquinas caras requer especialização. Cada cultura tem os seus próprios requisitos específicos, portanto, em vez de comprar várias máquinas, os agricultores concentraram-se numa única variedade de cultivo: apenas milho, ou apenas trigo, ou apenas soja e assim por diante. A matriz de campos cultivados com diferentes culturas que caracterizava a agricultura tradicional foi substituída por imensas áreas de plantas geneticamente idênticas. A maioria das cercas, cercas vivas, bosques e pântanos – lar para pequenos mamíferos, pássaros e insetos – foi removida para maximizar a produção e permitir que as máquinas cobrissem facilmente toda a área.

Ainda existem milhões de pequenas quintas que cultivam várias culturas, mas a produção e as vendas em todos os lugares são dominadas por um pequeno número de quintas muito grandes, cada uma cultivando apenas uma ou duas espécies de plantas ou animais. Em todo o mundo, cerca de 75% das variedades de culturas vegetais desapareceram efetivamente dos mercados agrícolas, deixando apenas nove espécies de plantas que agora compreendem quase dois terços de todas as culturas. Como Michael Pollen comenta, isto tem implicações importantes para as dietas humanas:
“o grande edifício de variedade e escolha que é um supermercado norte-americano acaba por se basear numa base biológica notavelmente estreita, composta por um pequeno grupo de plantas, dominado por uma única espécie: Zea mays, a erva tropical gigante que a maioria dos americanos conhece como milho.”[28]
O historiador ecológico Donald Worster descreve a transformação da agricultura no século XX como uma “simplificação radical da ordem ecológica natural”.
“O que antes era uma comunidade biológica de plantas e animais tão complexa que os cientistas mal conseguiam compreender, que foi transformada por agricultores tradicionais num sistema ainda altamente diversificado para o cultivo de alimentos locais e outros materiais, tornou-se agora cada vez mais um aparato rigidamente planeado que compete em mercados generalizados para o sucesso económico. Na linguagem de hoje, chamamos este novo tipo de agroecossistema de monocultura, que significa que uma parte da natureza foi reconstituída para produzir uma única espécie, que cresce na terra apenas porque em algum lugar há uma forte procura de mercado por ela.”[29]
Esta “desconexão dos processos naturais uns dos outros e a sua extrema simplificação” é, como escreve John Bellamy Foster, “uma tendência inerente ao desenvolvimento capitalista”.[30] Para um sistema económico que caminha constantemente para a simplificação e mercantilização de todas as coisas, os milhões de espécies de insetos são uma complicação desnecessária e indesejada.

Por si só, a mudança para a monocultura reduziu substancialmente a diversidade de insetos. Alguns insetos evoluíram para viver em qualquer lugar, mas muitos não podem sobreviver sem acesso a plantas específicas. As borboletas-monarca, por exemplo, só podem comer folhas de serralha e os seus ovos não eclodirão se colocados em qualquer outra planta. A simplificação de milhões de hectares reduziu radicalmente o número de monarcas, junto com muitos outros insetos de habitat especializado. Para eles, milhares de hectares dedicados ao milho, soja ou trigo podem muito bem ser descritos como desertos, pela nutrição e o suporte à vida que fornecem.

A agricultura industrial, no entanto, não apenas retira passivamente a sustentação aos insetos: ela os ataca agressivamente.

terça-feira, 28 de março de 2023

Açores - A quem realmente interessa promover e defender os OGM?


Graça Silveira, professora da Universidade dos Açores, considera que os transgénicos trazem vantagens que os Açores não podem ignorar. Correio dos Açores 24ma2023.

Recorde-se que o Governo dos Açores decidiu declarar o arquipélago como zona livre de organismos geneticamente modificados, o que mereceu pronta contestação do embaixador norte-americano em Ponta Delgada. Numa carta enviada no final de dezembro de 2012 ao presidente da Assembleia Legislativa dos Açores, ao presidente do Governo Regional dos Açores, Carlos César, e à ministra da Agricultura, Assunção Crista. Allan Katz, armado em profundo conhecedor dos OGM e ventriloquando os argumentos dos seus defensores, considerava que os transgénicos não constituíam qualquer risco para a vida humana ou animal, ou até mesmo para o ambiente e recordava que a UE gastara 300 milhões de euros na última década em investigação nesta área, sem ter encontrado motivos de preocupação em matéria de segurança. Katz apelava, por isso, a que as autoridades revissem a sua posição e permitissem que os agricultores açorianos tivessem acesso à mesma tecnologia que já é usada no resto do país e do mundo. Allan Katz salientava ainda que os produtos geneticamente modificados permitiam reduzir substancialmente a utilização de pesticidas, poupar energias fósseis, diminuir as emissões de dióxido de carbono e melhorar a utilização dos solos.

A carta teve resposta curta e grossa por parte da Plataforma Transgénicos Fora: “Esta iniciativa americana não surpreende, uma vez que os telegramas diplomáticos americanos revelados pelo WikiLeaks mostram um padrão de interferência generalizada nas políticas europeias sobre os OGM, desde a França à Itália, à Hungria e até ao Vaticano, entre outros. Num desses telegramas, datado de 2007, o embaixador norte-americano em Paris, Craig Stapleton, sugeria a Washington que se iniciasse uma campanha de retaliação contra os países que se mostravam contra os OGM na União Europeia.

De toda a área plantada com alimentos transgénicos no mundo em 2010, 45% estavam nos EUA Unidos (67 milhões de hectares). Em Portugal, só o milho geneticamente modificado é cultivado, numa área de cerca de cinco mil hectarees. Várias áreas do país foram declaradas como “zonas livres de cultivo de variedades geneticamente modificadas”, ao abrigo de uma legislação de 2006.

PS - Em 2017, Graça Silveira foi candidata do CDS-PP à câmara de Angra do Heroísmo.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Milho de gema de vidro


Glass Gem Corn é uma variedade de milho que é conhecido pelas suas cores únicas e vibrantes, que vão desde vermelhos profundos a roxos brilhantes e azuis. É um milho de gema de vidro, o que significa que tem uma camada exterior dura e é usado principalmente para fins decorativos ou ornamentais.
Foi criado por um agricultor de Oklahoma chamado Carl Barnes que fazia parte da comunidade nativa americana. Barnes era conhecido por preservar e cultivar sementes da sua herança, e criou a Glass Gem polinizando várias estirpes de milho.

Em termos de benefícios, o milho de gema de vidro é muitas vezes cultivado pelas suas qualidades estéticas, mas como qualquer variedade de milho, é também uma fonte de nutrição e pode ser usado para diversos fins, como farinha ou fonte de alimento para o gado. Além disso, a conservação e o cultivo de variedades de milho ajuda a manter a diversidade genética, o que pode ser importante para a segurança alimentar face a desafios como as doenças e as alterações climáticas.

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Why Are We Being Fed By a Poison Expert?


Is the ‘old’ Monsanto, the one responsible for producing Agent Orange, PCB’s and DDT and a terrible record at covering up and denying the tragedies that have resulted from their use, the same as the ‘new’ Monsanto, the one at the forefront of research in plant gene technology? We argue their scientific and ethical track record is entirely relevant to what they do today.

Em português

terça-feira, 8 de novembro de 2022

Já em 2020 - A maioria das colheitas europeias alimentam animais e carros, não pessoas


The vast majority of European crop production is used to feed animals and create biofuels, rather than feeding people, new analysis has found. At the same time, Europe is over-producing meat and dairy, with EU production of beef, pork and poultry 4%, 16% and 8% higher than consumption respectively, and production of dairy 14% higher than consumption.

The analysis found that in, 2018/2019, 62% of all cereal crops were used to feed animals and 12% used in industry and as biofuel, with only 23% going to feed people. A striking 88% of soy and 53% of protein-rich pulses were also used for animal feed.

This imbalance in production and consumption is driven by a focus on crops for profit, not food for people, said Greenpeace. Greenpeace is calling on the EU to refocus its food and farming policy to prioritise local production of the kind of food Europe needs, farmed in a way that guarantees a fair price for farmers, affordable and healthy food for people, and protects the environment.

Greenpeace EU agriculture and forest campaigner Sini Eräjää said: “EU leaders talk big about food security, but they back policies that overproduce meat, rely on massive soy imports and burn food as fuel. European farmers can produce enough healthy, affordable food for Europeans, but now they’re being squeezed to do bulk production to supply export markets. We need a food and farming policy that ensures farmers make a good living, people can afford healthy food, and that nature doesn’t suffer in the process – the current plans sacrifice all three in favour of corporate profits.”

The European Parliament will vote on the EU’s common agricultural policy in its plenary next week. The latest compromises struck by the major parties, EPP, S&D and Renew Europe, fail to address the disproportionate support given to industrial animal farming and feed production, and include no measures to limit public spending on factory farming. The EU is also currently debating new free trade agreements such as EU-Mercosur, that would only further encourage the industrialisation of animal farming and the focus on bulk production for exports.

quinta-feira, 26 de maio de 2022

Faça Compras Conscientes, Livres de Desflorestação


AGRICULTURA E DESFLORESTAÇÃO – QUE RELAÇÃO?

Tanto a desflorestação como a degradação florestal estão a ocorrer a um ritmo alarmante, agravando as alterações climáticas e a perda de biodiversidade. A expansão das áreas de produção agrícola de matérias-primas, mercadorias ou também chamadas commodities – como o gado bovino, a madeira, o óleo de palma, a soja, o cacau e o café – é o principal motor da desflorestação e a degradação florestal.

Em 2017, a União Europeia (UE) foi um dos maiores blocos consumidores de commodities associadas à desflorestação e à degradação das florestas, responsável por 16% da desflorestação associada ao comércio internacional, num total de 203.000 hectares.

PORTUGAL TAMBÉM É RESPONSÁVEL PELA DESFLORESTAÇÃO NA AMAZÓNIA?

Em Portugal, a pecuária intensiva é o principal motor da desflorestação causada pelas importações, sobretudo ligada à produção de matérias-primas para a alimentação animal como a soja e o milho. A maior parte da soja importada vem do Brasil, onde os grandes campos de soja estão ligados à destruição da Amazónia e de biomassa importantes como o Cerrado e o Pantanal. O agronegócio da soja está também ligado a violações de Direitos Humanos através da apropriação de terras e recursos naturais a comunidades locais.

A importação de mercadorias de países com fraca regulamentação ou controlo dos agroquímicos utilizados na sua produção também aumentam o risco para a saúde pública, sempre que entrem na cadeia alimentar, algo que já se está a verificar.

Portugal emitiu uma exceção à entrada de milho para alimentação animal com limites máximos de resíduos de pesticidas acima do permitido na UE (Despacho nº 28/2022 da DGAV), derivado das necessidades sobretudo da pecuária industrial que vêem o fornecimento a partir da Ucrânia em risco, devido ao atual contexto. A importação desta mercadoria deverá ser reforçada junto de países Sul Americanos, como a Argentina e o Brasil, onde a sua produção poderá estar ligada à desflorestação, degradação de biomas de alto valor e violações dos Direitos Humanos.

Estas matérias-primas estão nos produtos que consumimos diariamente, no entanto desconhecemos os impactes dos produtos disponíveis nos nossos locais de compra. O que compramos contribuir de forma direta ou indireta para a desflorestação? Quanto custa realmente aquilo que consumimos? (ou quais os custos escondidos daquilo que consumimos).

REGULAMENTO DA UE PARA PRODUTOS SEM DESFLORESTAÇÃO

A Comissão Europeia (CE) apresentou uma proposta de regulamento, a 17 de novembro de 2021, com o objetivo de garantir que as cadeias de abastecimento Europeias não causam desflorestação e degradação das florestas.

O regulamento para produtos livres de desflorestação proposto pela CE assume um caminho de transparência e de responsabilização de toda a cadeia de abastecimento, para que se torne cada vez mais difícil a circulação de mercadorias ligadas à desflorestação ou à degradação de ecossistemas florestais. No entanto, algumas definições vagas e aspetos pouco claros podem enfraquecer o regulamento e deixá-lo vulnerável a emendas que comprometam a sua eficácia, tais como:
  • As isenções para empresas, resultantes de uma definição excessivamente abrangente de pequenas e médias empresas (PME), podem deixar de fora cadeias importadoras.
  • A falta de responsabilização do setor financeiro permitirá que se continue a financiar a destruição de florestas tropicais.
  • Mercadorias como a borracha e o milho, a par de outros ecossistemas para além das florestas, já deveriam estar incluídos na primeira versão do regulamento, caso contrário resultarão danos evitáveis e um atraso considerável na concretização dos objetivos do diploma.
  • Não estão devidamente acautelados mecanismos de recurso à justiça em caso de violação dos Direitos Humanos e outros direitos.
O sucesso deste regulamento vai, pois, depender do empenho e ambição dos Estados-Membros, crucial durante a discussão ao longo dos próximos meses. Assegure-se que a sua opinião é representada!

quarta-feira, 25 de maio de 2022

Nanotechnology-enabled genetically engineered RNA interference pesticides: socioeconomic context, modes of action and risks




Watch a recording of a presentation delivered by IATP's Dr. Steve Suppan above titled "Nano-enabled RNAi based pesticides: Modes of Action, risks and regulation."

The development of and investment in nanotechnology-enabled pesticides is a new phase in the effort to fight against weed and pest resistance. Some of these pesticides are in an advanced state of product development and a few are near commercialization. Therefore, an introduction to how these products work (Modes of Action) and their risks is timely. (The benefits claimed for these pesticides are widely publicized by their developers and so are mentioned only in passing here.)

Socioeconomic context

This scientific battle against resistance particularly concerns plants that are genetically engineered (GE) to resist proprietary pesticides and to enable continuation of current extensive monocropping practices that incubate resistance.1 In our November 22, 2021 presentation for a webinar co-organized by the Brazilian Research Network on Nanotechnology Society and Environment (Renanosoma), we showed a photo of a weed scientist standing in a soybean field overgrown with weeds nearly as tall as him. The weed scientist referred to the dramatic increase in the number of herbicide-resistant weed types, forecast to begin as early as 2024, as a Pandora’s Box, a reference to an ancient mythical source of all the evils plaguing the world. A creative headline writer characterized the new nano-enabled GE pesticides developed to prevent further U.S. weed resistance plaguing soy, maize and other crops2 as “Breaking Pandora’s Box.”

Of course, the increased scope and efficacy of weed resistance is not limited to the United States. Weed scientists have documented a sharp increase in weed resistance in Brazil correlated with the introduction of a very high percentage of GE maize, cotton and soybean crops. The same researchers have charted a boom in the number of unique cases of herbicide resistant weeds. Seventeen of 51 weed types are resistant to multiple herbicides. The chart characterizes a “pre-glyphosate era” ending in 2005 with a “post-glyphosate era” of herbicide resistant weeds.3 Because of the economic losses associated with crop yield losses and the costs of more numerous applications of herbicides to more hectares of herbicide resistant GE crops, governments, universities, start-up companies in GE research and pesticide manufacturers have invested public funds and private capital to “Break Pandora’s Box.”

Another important incentive for new pesticide products is government granted patents that confer monopoly rights to commercialize the patented products. Start-ups usually sell active ingredient (AI) and/or related technology patents to a pesticide manufacturer for subsequent incorporation into a patented herbicide, insecticide or fungicide. An agribusiness reporter’s analysis of the value of AI patents scheduled to expire in 2020 estimated the worth of the patents at $4 billion4 of an estimated $68 billion global agrichemical market value in 2020.5 A lot of money is at stake, beyond the value of crops losses, in developing a technology that will “Break Pandora’s Box.”

Three technology types to break a Pandora’s Box of increasing resistance

Pesticide product developers have offered three ways to defeat weed resistance to the GE crop and proprietary pesticide technology package: 
1) apply herbicides more toxic than glyphosate to crops engineered to resist those herbicides; 
2) coat existing AIs with patented nanoscale material coatings to better control the pace of the AI release and in theory reduce the rate of weed resistance; 
3) develop new AIs, also nano-enabled, to “silence” the genomic sequences of the weeds or other pests that are vital for their survival. We’ll discuss the first two technologies proposed to “Break Pandora’s Box” very briefly before focusing on the third nano-enabled GE RNA interference pesticides.

One response to the increasing failure of glyphosate to control weeds in GE crops designed for glyphosate use is a revival in the use of more toxic pesticides, such as dicamba, and the development of new GE crops, above all soy and maize, designed to withstand dicamba applications. However, dicamba is a highly volatile herbicide whose drift has damaged hundreds of thousands of U.S. hectares of horticulture plants and trees not genetically engineered for dicamba. Lawsuits to obtain compensation for dicamba damages continue to grow in scale and number.6 The U.S. Environmental Protection Agency has been sued for allowing dicamba to be commercialized despite what was known about the herbicide’s drift damage when used according to manufacturer instructions.7

Weed scientists at the Brazilian Agribusiness Research Corporation (EMBRAPA) have run test plot studies to estimate how much damage would be caused by dicamba to Brazil’s huge soybean crop, including GE soy designed to resist pesticides other than dicamba.8 These scientists conclude, “A 1% dicamba drift in tropical conditions reduces soybean yield by 12%.” This yield reduction, from dicamba sprayed by farm workers on the ground, would increase over time as weeds in soybean fields became resistant to dicamba. (Pesticide toxicity to farmworkers is discussed briefly at the end of this article.)

A second response to the “Pandora’s Box” of weed resistance to herbicides has been to coat the AIs of current herbicides with nano-scale materials, usually chemically inert nano-clays or nano-composite materials, to control the release rate of AIs and to enable them to penetrate more efficiently weed plant cells, which macro-scale herbicide droplets cannot do. The result is a higher kill rate while using less volume of AI. Embrapa is also engaged in this research, with scientists claiming that nanotechnology-enabled pesticide products will reduce the volume of pesticides applied and in so doing, cause less damage to the environment adjacent to the nano-pesticide sprayed cropland.9

Lessons learned in nano-coating current AIs have been applied to the development of nano-enabled GE RNA interference (i) pesticides. Oddly, the properties of nanomaterials in this new generation of pesticides have received relatively little risk analysis, compared to that received by the CRISPR Cas9 and other GE techniques used to modify RNAi to target specific weed and insect pests.

First, we’ll briefly discuss risks associated with the application of CRISPR Cas9 applied to plants. We’ll summarize the Mode of Action (MoA) of GE RNAi to turn off or “silence” genes in genomic sequences of weeds and insects that are vital for expressing proteins necessary for the targeted pests’ survival. Among the off-target mutations of the CRISPR Cas9 techniques are those in plants and animals surrounding the crops not engineered to resist the new AI, GE RNAi. We review risks associated with those mutations and other risks, including to farmworkers, enabled by the nano-coatings necessary to stabilize and protect the GE RNAi, making it an applicable pesticide.

The role of CRISPR Cas9 GE technique in nano-enabled RNAi pesticide

The idealized image of CRISPR Cas9 is of the Cas9 “scissors,” an enzyme, cutting a genome sequence, with the cut neatly repaired by an RNA messenger (mRNA) “thread,” guided by the data of a genomic library.10 Messenger RNA is defined as “a single-stranded RNA molecule that is complementary to one of the DNA strands of a gene.”11 (mRNA is used in the manufacture of vaccines, including some anti-SARS CoV-2 vaccines.) RNAi is a double stranded RNA molecule designed to suppress in the targeted genomic sequence genes critical for a pest’s survival. The ideal result of GE techniques is a neatly modified sequence that produces only the genetic mutations and corresponding traits informed by the data library.

In practice, however, the use of CRISPR Cas9 can result in hundreds of unintended mutations when the selection of genomic data to guide the mRNA repair is erroneous.12 As a result, the Cas9 “scissors” cuts in the wrong places in the DNA sequence, and the mRNA makes its repair at an erroneous site. Some of these unintended mutations can express harmful traits, while other traits are beneficial or benign. The genetic engineering of naturally occurring RNAi to silence genes in targeted weeds and other pests can likewise result in unintended mutations in the targeted weeds.

A Friends of the Earth (U.S.) report explains, “Developers of RNAi pesticides aim to exploit naturally existing RNAi pathways in plants, animals, and fungi by manufacturing synthetic interfering RNAs of a particular sequence in order to silence a specific gene or genes.”13 The report’s authors continue: “The interfering RNA and a target messenger RNA bind as they share a sequence that is matching or like each other. The messenger RNA is then cleaved and destroyed. No protein is produced, resulting in ‘interference’ of gene expression, also known as ‘gene silencing.”14 If the sequence deleted is large enough to change the structure of the plant, the RNA interference may be heritable from one generation of the target plant to the next. The RNA interference can also affect non-targeted plants if their gene deleted sequences are similar enough to bind with the sequences of non-target plants.15

Some of the risks associated with the GE risks of RNAi pesticides are as follows: erroneous and on-target gene silencing express unwanted traits; long deletions may result in undesirable heritable traits; altered plant genetic composition may result in allergenicity, increased toxicity, changes in nutritional composition; unwanted immunostimulatory effects can reduce white blood cell count in humans and non-target organisms throughout the food chains.16 These risks do not include those associated with the fate and transport of nano-scale materials that coat RNAi, stabilizing it and preventing its destruction by ultra-violate light rays. RNAi would not be an AI without the protective nanomaterials that enable both the RNAi’s survival and its efficacy in killing pests. Risks specific to these nanomaterials are described in the next section.


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