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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Rutura climática pode reduzir capacidade de terras para pastagem em 50% até 2100


Entre um terço e 50% das terras que têm hoje condições favoráveis para pastagens vão perder essa capacidade até 2100, devido ao aumento da temperatura, concluiu um estudo do Instituto de investigação de Potsdam sobre as alterações climáticas (PIK).

Esta atividade consiste em criar animais, como vacas, cabras e ovelhas, em espaços naturais, pradarias, na sua maioria, que cobrem cerca de um terço da superfície terrestre.

Até agora, estes sistemas agrícolas têm prosperado dentro de intervalos de temperatura (entre 3ºC negativos e 29°C), de precipitação (entre 50 e 2627 milímetros por ano), de humidade (de 39% a 67%) e velocidade do vento (entre um metro e seis metros por segundo).

É o que o estudo, publicado hoje na revista PNAS, chama “um espaço climático seguro”.

Mas, com a rutura climática global, estes parâmetros podem mudar e inutilizar um espaço de pastagem.

“As alterações climáticas vão reduzir os espaços onde a pastagem pode prosperar, comprometendo práticas agrícolas que existem desde há séculos”, disse Maximilian Kotz, co-autor do estudo e investigador do PIK e do Barcelona Supercomputing Center.

Segundo o cenário analisado, o estudo estima que entre 100 milhões a 400 milhões de pastores e criadores de gado podem ser afetados, bem como até 1,6 milhões de animais. O estudo estima que entre 51% e 81% das populações residem em países com fraco rendimento.

“É importante sublinhar que numerosas mudanças vão ser sentidas em países que já sofrem fome, instabilidade económica e política e níveis muito elevados de desigualdade de género”, realçou o autor principal, Chaohui Li, investigador do PIK na altura da realização do estudo e hoje no Barcelona Supercomputing Center.

A África é particularmente vulnerável e pode perder de 16% a 65% das suas pradarias, segundo a gravidade do cenário considerado.

As temperaturas no continente africano já se situam no limite do “espaço climático seguro”.

Estas conclusões, que em certos casos preveem o desaparecimento puro e simples de algumas pastagens, colocam em questão “a eficácia das estratégias de adaptação (…), como as mudanças de espécies ou a migração de rebanhos”, disse Prajal Pradhan, investigador do PIK e professor na Universidade de Groningue.

“Reduzir as emissões, através do afastamento rápido os combustíveis fósseis é a melhor estratégia de que dispomos para minimizar estes estragos potencialmente existenciais para a criação de gado”, concluiu Chaohui Li.

Segundo a agência da ONU para a alimentação e a agricultura, 26% da superfície terrestre e 70% da superfície agrícola estão cobertos de pradarias, que contribuem para a subsistência de mais de 800 milhões de pessoas

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

The science is clear: We need an ambitious, undelayed pesticides regulation


More than 700 other scientists from across European member states and scientific disciplines have deep concern about the recent turn of the political tide against the Sustainable Use of Pesticides Regulation, writes Jeroen Candel.

Jeroen Candel is an associate professor teaching food politics and European Union governance at Wageningen University and Research.

The heavy use of chemical pesticides in agriculture is strongly linked to declines in insects, birds, biodiversity in terrestrial and aquatic systems, and detrimental impacts on global public health.

Given the urgent need for mitigating these impacts, it is worrying to observe that a number of member state governments and MEPs have recently called for the delay or watering down of the new pesticides regulation.

Citing questionable ‘food security’ and ‘resilience’ concerns that echo the discourse of vested interests, politicians have called for an additional impact assessment to the thorough assessment performed by the Commission before the outbreak of the Ukraine war.

Let me be very clear: there is not a single, serious scientist in the field who would argue that the pesticides regulation would pose a risk to European food security.

Quite the contrary, there is a high degree of consensus that the rapid loss of biodiversity, together with climate change, constitutes the biggest threat to the sustainability and resilience of our food system, as once more corroborated by the European Commission’s recent staff working document on the drivers of food security.

It is precisely for this reason that both European citizens and scientists have high expectations of European political leadership.

It is highly questionable, whether the required additions to the thorough Impact Assessment performed by the European Commission would result in a gain in knowledge, as the long-term challenges facing the EU food system and state of biodiversity have not changed since the outbreak of the war in Ukraine.

Perhaps the unstable geopolitical environment has made these challenges and the need to act even more urgent. The time to act is now.

And, of course, new legislation will have an impact on the industry and at farm level. It is precisely the point of green legislation to steer the market away from unsustainable business models and production methods, while fostering a scale-up and cost reductions of cleaner alternatives.

A lack of binding targets is exactly the reason why investments in Integrated Pest Management have lagged behind since the adoption of the 2009 Pesticides Directive.

The adoption of binding targets and a reallocation of public resources, including CAP funds, is expected to accelerate innovation of non-hazardous pesticide alternatives.

Steering our agri-food system towards more sustainable outcomes is no easy political task. Transition processes are non-linear, uncertain and disruptive by definition, which make that current modes of impact assessment have limited predictive value.

Tomorrow’s solutions are not yet known today.

At the same time, the history of the European economy, including the agricultural sector, teaches us that disruptive innovation is possible, and can benefit both the economy and society at large, when politicians dare to take the leap and show seamanship.

When drafting the first European agricultural policy, Commissioner Sicco Mansholt aimed for a radical overhaul of the European agricultural sector, but even he may not have foreseen the sheer force of innovation that clear and consistent, long-term regulation and supportive incentives may bring about.

At the end of his political career, however, he also saw the downsides of the agricultural system that he helped to create. Already 50 years ago, he called for a transition toward “a production system without pollution and the development of a circular process”.

It is now up to EU political leaders to finally pick up on Mansholt’s calls and use their political craftsmanship to realize a truly green revolution of the European food system.

The undelayed realisation of the Farm to Fork and Biodiversity Strategies’ pesticides reduction objectives would be a crucial first step in that direction.

As scientific community, we will follow the legislative process with great interest, and we stand ready to provide you with advice where and when necessary.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Um eucaliptal não é uma floresta: é um deserto verde



Vamos por partes: o eucalipto é nativo da Austrália. Está perfeitamente adaptado aquele clima. Resiste ao fogo, renascendo sempre a partir da raiz, seja pelo fogo, seja pelo corte.
É muito resistente à seca, aproveitando toda a água disponível. Este é o motivo porque quando se corta um eucalipto ele larga imensa água e também é o motivo pelo qual a madeira de eucalipto racha. A madeira de eucalipto tem tão pouca qualidade que não serve para tábuas ou mobiliário. Na verdade só serve para fazer pasta de papel.
Sendo uma árvore adaptada a um clima tão agreste evoluiu para ser um Hércules: um eucalipto cresce em apenas 10 anos! É um corredor dos 100 metros. Nenhuma outra árvore do Mediterrâneo consegue competir com um eucalipto. Azinheiras, carvalhos, oliveiras. Levam muitas décadas para atingir o mesmo tamanho.
Um eucaliptal não é uma floresta: é um deserto verde. Em termos de vida e biodiversidade é do mais pobre que há.
Os donos dos eucaliptos e a indústria da celulose sabem disto, mas na melhor política capitalista, estão pouco se lixando. Enquanto lhes der lucro imediato nada mais lhes interessa.
Monocultura intensiva de eucaliptos tem custos também nos recursos hídricos e minerais: ao fim de umas décadas o terreno fica exaurido e não produz mais nada. Claro, no melhor do espírito do capitalismo, haverá sempre mais terra para queimar. Acontece que a terra é finita! Nunca vi tanto desprezo pela vida e pelo futuro da humanidade. Mas o paradigma está a mudar. Eles não gostam, mas terão mesmo que mudar de vida. Eucaliptal é para acabar. Aliás, eles sabem disso. Nesta altura já andam a destruir a floresta nativa de Moçambique e do Brasil para plantar eucaliptos. Por cá já perceberam que a mama está para acabar.

Ler mais: 
Estudo internacional revela que eucaliptos provocam dramática redução da biodiversidade do território

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Ecoinside: “Agricultura sustentável” é muito mais do que “produtos biológicos”



Desde 2006 que a Ecoinside tem o propósito de promover o “desenvolvimento sustentável” e, para tal, a base da criação desta tecnológica passou por “inserir no léxico português” a palavra “ecoeficiência”, procurando “refletir na prática” a ideia de que era “possível e vantajoso” conciliar a “ecologia” com a “economia”. Atualmente, a empresa atua nas áreas das energias renováveis, eficiência energética e hídrica, gestão de energia, mobilidade elétrica e sustentabilidade.

A sustentabilidade é uma área que assume cada vez maior relevância em todos os setores e na agricultura também não é exceção. Contudo, Cláudia Brites, diretora do departamento de sustentabilidade da Ecoinside, declara à Ambiente Magazine que “agricultura sustentável” não significa apenas falar de “produtos biológicos”, mas sim de “práticas de produção” amigas do ambiente, do produtor e do consumidor. Assim, aquela que parece ser a visão desta empresa sobre “agricultura sustentável” é a de “um sistema” que “assegure a produção de alimentos de uma maneira adequada”, isto é, “tem de nutrir ecossistemas saudáveis e promover uma gestão sustentável do solo, da água e dos recursos naturais”, assegurando a “produção de alimento”. Além disso, Cláudia Brites diz que, para a agricultura ser sustentável, tem igualmente de “satisfazer as necessidades das gerações presentes e futuras”, através dos “seus produtos e serviços”, enquanto “assegura o lucro, saúde ambiental e equidade social e económica”.

O valor que água tem na agricultura é inigualável: “É um recurso fundamental à adequada nutrição das plantas e dos demais seres vivos que habitam o solo, à formação e diferenciação do solo e manutenção de habitats”. Assim, sendo a água um “veículo de transporte de poluentes”, a responsável considera ser crucial “garantir a (sua) aplicação de forma eficiente” e a “ distribuição de forma uniforme na parcela agrícola” e apenas nas “quantidades estritamente necessárias” para que se possa “garantir o conforto hídrico das culturas e a qualidade dos produtos”. Assim, o “controlo do circuito da água” no “sistema de produção” deve ser elevado, de forma a “poupar energia” e “minimizar perdas de água e nutrientes”. Além disso, Cláudia Brites diz que devem ser valorizadas as “formas de armazenamento” ou de “retenção de água” proveniente da “precipitação natural” e os “sistemas de rega” que utilizam a águas como “veículo para a distribuição fracionada de fertilizantes”.

Aumentar a autossuficiência energética dos sistemas de produção

Questionada sobre como é que a energia pode ser distribuída e gasta sem prejudicar o planeta e reduzir os gastos de produção, a responsável afirma que os “sistemas agrícolas de produção intensiva consomem muita energia”, constituindo uma “percentagem significativa dos custos de produção”, pelo que a sua “redução” permite o “aumento da competitividade da atividade agrícola”. E sendo a agricultura um setor económico que “gera resíduos de materiais vegetais”, a valorização destes para a “produção de energia”, bem como a “utilização de outras fontes de energias renováveis”, podem “contribuir para a autossuficiência dos sistemas de produção”, tornando-os “mais sustentáveis através da redução dos custos energéticos”. 

E como aumentar a autossuficiência energética dos sistemas de produção? A responsável explica que esse aumento pode ser feito através da implementação de “sistemas integrados de cogeração” e das “fontes de energia renováveis” como a “solar, eólica, biomassa e carga hidráulica”.

Em Portugal, são vários os incentivos para potenciar uma agricultura sustentável. Cláudia Brites dá como exemplo os incentivos ligados às “políticas e financiamentos europeus”, através da forma de “subsídios diretos”, concedidos “diretamente aos agricultores” e que servem para apoiar o seu rendimento, sendo pagos no âmbito da Política Agrícola Comum (PAC), estando cada vez mais relacionados com as “boas práticas agrícolas” como a “Agricultura Biológica”, exemplifica. Além disso, o Pacto Ecológico Europeu (PEE) traça uma “nova estratégia de crescimento sustentável e inclusivo” para “impulsionar a economia, melhorar a saúde e a qualidade de vida das pessoas, cuidar da natureza e não deixar ninguém para trás”, refere. No centro do PEE está a “Estratégia do Prado ao Prato”, uma forma abrangente” de tratar “os desafios dos sistemas alimentares sustentáveis”, garantindo “meios de subsistência sustentáveis para os produtores primários que continuam em desvantagem em termos de rendimento”.

Dentro do atual contexto da pandemia da Covid-19 e de “recessão económica”, Cláudia Brites recorda também que esta nova Estratégia realça que “todos os cidadãos e operadores de cadeias de valor” da União Europeia (UE) e noutros países “devem beneficiar de uma transição justa para um sistema alimentar sustentável justo”. Para a responsável, a Covid-19 veio trazer relevo a um “sistema alimentar sólido e resiliente”, que “funcione em todas as circunstâncias” e que seja “capaz de garantir um abastecimento suficiente de alimentos a preços acessíveis para todos os cidadãos”. Embora esta pandemia não esteja relacionada com a “segurança dos alimentos” da UE, Cláudia Brites alerta que a crise “pode pôr em risco a segurança alimentar” e os “meios de subsistência”, destacando o quão importante é a “mão de obra essencial” como os “trabalhadores do setor agroalimentar”, remata.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

A história da CAP e o eucalipto



A Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) tem vindo a apresentar atitudes similares às da Federação Nacional dos Produtores de Trigo (FNPT) dos anos 30 do passado século. Hoje em dia os corporativismos são distintos, mas os seus efeitos aparentam algumas semelhanças. Será que a CAP está hoje para a CELPA, como a FNPT estava para o Estado Novo?


Vamos por partes.

Um primeiro aspeto. Como diria o outro, ainda somos do tempo em que a CAP negociava com a associação dos papeleiros um preço de referência para a rolaria de eucalipto à porta da fábrica. Aqui, a história centra-se até meados da década de 90 do século passado. O acordo até então vigente parecia satisfazer as três partes envolvidas: a própria CAP, em termos de financiamento das suas atividades; os papeleiros, no que respeita à regularidade dos fluxos de abastecimento; e, principalmente, os produtores de rolaria de eucalipto (lenhicultores), associados ou não nesta confederação, mas que viam o rendimento da sua atividade remunerada, no mínimo, de acordo com a evolução dos custos de produção.

A estratégia negocial parecia bastante simples: as partes teriam de cessar as negociações ambas de cara lavada. O gráfico da evolução do preço da rolaria de eucalipto é elucidativo quanto aos resultados, no terreno, desta parceria. A meados da década de 90 houve quem, do lado dos lenhicultores, pretendesse trazer maior “transparência” às negociações, defendendo a associação da evolução do preço da rolaria de eucalipto à evolução do preço da pasta celulósica nos mercados internacionais. Por azar (ou ignorância), essa estratégia, quando começou a surtir efeitos, coincidiu com a contração (cíclica) deste último. Desde então, embora o preço da pasta (e do papel) tenham registado subidas e descidas, o facto é que o preço da rolaria de eucalipto à porta da fábrica nunca foi o mesmo. O rendimento dos lenhicultores apenas conheceu contrações desde meados da década de 90.

Um segundo aspeto. Atualmente, não se entende a estratégia da CAP. Pela lógica comercial (princípio básico), quanto maior a oferta, menor a sua valorização, sendo que, no caso, a procura define agora unilateralmente o preço. Se o aumento dessa oferta for de risco, não só o preço tende a não subir, como os danos colaterais tende a crescer. Do lado da procura, a estratégia parece evidente: a opção pela quantidade em área adequa-se à garantia de perpetuidade de preços baixos na oferta (afinal, hoje, ninguém tem coragem para colocar em causa a estabilidade dos fluxos de abastecimento).

Ainda um outro. Pode ser erro de perceção, quiçá alguma influência do contato com aquitanos, mas o aumento da oferta, em especial a vinda de fracassos noutras atividades, não contribui para a melhoria dos interesses de quem já está estabelecido no mercado. Os preços tendem a decrescer. Curiosamente, os produtores florestais landeses virão com maus olhos os apoios à florestação de terras agrícolas. Para eles, quem fracassou no mercado agroalimentar tenderia a não aportar boas notícias para o negócio silvícola. Por cá, temos os reconvertidos da construção a aportar à lenhicultura.

Finalmente:

É intenção deste texto salvaguardar interesses da CAP? Esse não é de todo problema de quem o escreve!
Será que é intenção salvaguardar interesses dos lenhicultores? Não o somos, esse trabalho compete às suas organizações representativas. O desempenho destas últimas é, de facto, muito questionável. E, não é só no que respeita ao rendimento decorrente da exploração do eucalipto.
Será que o interesse se centra em conter os danos colaterais? Pois! De facto, esses pagamo-los todos. Assim, quer os lenhicultores, quer os papeleiros, têm de entender que o seu negócio não é só a dois. Pior, as governações tendem a ser parciais e incapazes de conter os danos colaterais. Quem paga o rasto deixado por um negócio com elevados danos colaterais tende a imiscuir-se no mesmo. Parece lógico! Paga, está dentro.

Com efeito, o rasto deixado pelos lenhicultores e papeleiros é hoje muito significativo, com tendência a agravar-se. Não tem apenas consequências nas propriedades de quem produz rolaria de eucalipto ou nos parques fabris de quem cozinha a celulose, tem nos vizinhos que optaram por outras atividades, tem no Território, tem no Ambiente. Aqui um aparte: o desempenho ambiental da indústria papeleira está hoje no centro de um retrocesso civilizacional, seja em emissões poluentes para a atmosfera, seja para o meio aquático (tudo com certificação ambiental da praxe, evidentemente!). O valor líquido daquilo que nos remunera, com as exportações, tende a ser, cada vez mais, pífio.


Em suma, no plano dos negócios, a estratégia da CAP incide sobre a melhoria do rendimento dos lenhicultores, ou na prestação de serviços aos papeleiros? É que, pela evolução dos preços da rolaria de eucalipto à porta da fábrica, parece ser mais a segunda do que a primeira. Isto para quem vê de fora, claro!

No plano social, solidariza-se a quem, com os lenhicultores, assume os custos com os danos colaterais do crescimento de uma oferta de risco, ou antes pelo contrário? No segundo caso, talvez venha a ser defensável que os lenhicultores passem a assumir, em exclusividade, os encargos com tais danos, nas suas propriedades, mas também no Território e no Ambiente.

Uma nota final. Não se veja aqui qualquer defesa da “reforma da floresta” do Governo, muito pelo contrário! A par do Partido que governa ter um histórico de ofertar partes significativas de fábricas aos papeleiros (em nome de todos nós), acabou agora por incumprir o seu próprio Programa, aprovado na Assembleia da República (mas, o que vale isso?), associando-se à “lei que liberaliza a plantação de eucalipto” (entre aspas é como está escrito no Programa do Governo). É o chamado social-liberalismo, ou será liberal-socialismo? Talvez não seja nem um nem outro, o facto é que, para além de deixar os papeleiros a comandar as hostes (liberalismo), ainda lhes coloca o Orçamento à disposição. É assim uma espécie de parceria público-privada similar a outras que estamos acostumados cá pelo burgo.

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Como proceder em caso de abate de árvores na sua rua, praça ou jardim

Fonte: aqui

Segundo o Despacho 60/P/2012 "o abate de árvores SÓ pode resultar de necessidade fitossanitária ou risco grave para a segurança por falta de resistência mecânica, determinadas por técnico competente, ou excepcionalmente, mediante autorização do Presidente da Câmara".

1. As árvores não podem ser abatidas sem relatório fitossanitário e sem aviso prévio aos moradores da zona com, pelo menos, duas semanas de antecedência. Qualquer abate conduzido sem estes dois procedimentos, é ILEGAL. Por isso, primeiramente, verifique a existência efectiva de:

a) Aviso prévio na(s) árvore(s) em causa ou nas caixas do correio da vizinhança;

b) Relatórios fitossanitários, que são públicos e, portanto, de livre-acesso. Esses relatórios estão, normalmente, no site da Câmara Municipal (CM) e/ou nas instalações da Junta de Freguesia (JF) da zona, que deverá dar acesso, sem restrições, aos mesmos ou colocá-los em lugar visível (em placards nas instalações da JF e/ou no seu próprio site).

2. Quem contactar para saber mais informações, denunciar uma situação irregular ou ilegal ou mesmo questionar sobre a justeza e necessidade de um abate legal? Conforme o caso e as circunstâncias, poderá e deverá contactar:

a) A Junta de Freguesia da zona;

b) O Gabinete do Vereador dos Espaços Verdes

d) Pode ainda participar da situação através do número 808 20 32 32 .

3. Em caso de não resposta destas entidades e/ou atempadamente, resultando em prejuízo das árvores, sobretudo se não tiverem sido respeitados os procedimentos de aviso prévio e de relatórios fitossanitários, poderá apresentar a sua queixa junto do Provedor de Justiça (provedor@provedor-jus.pt), para que actue em conformidade. 

4. Mobilização no local dos abates é crucial. Os casos de sucesso de salvaguarda de árvores condenadas - inclusive daqueles casos que cumprem a lei mas que dela fazem mau uso, sendo claramente abusivos e desnecessários - devem-se sobretudo à mobilização dos moradores e cidadãos (às vezes basta a indignação de uma só pessoa!). Cidadãos que, chamando a atenção para a sua ligação afectiva com determinadas árvores, a sua história e a sua importância no quotidiano de certa rua, certo largo, certo jardim, conseguem fazer-se ouvir junto da CM. 

A Plataforma em Defesa das Árvores apoia, na medida das suas capacidades, a mobilização de qualquer cidadão ou conjunto de cidadãos na salvaguarda do património arbóreo de todos. Pode contactar-nos através do e-mail: emdefesadasarvores@gmail.com.

Consulte também o Regulamento Municipal do Arvoredo: https://dre.pt/home/-/dre/114290144/details/maximized

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Podas de árvores ornamentais: fala quem sabe



Se qualquer árvore pode muito bem viver sem a intervenção humana, por que razão se podam as árvores?
De acordo com o engenheiro florestal Rui Tujeira, num texto publicado na revista “Jardins”, nº 203, de novembro de 2020, as razões para as podas são várias, mas estão relacionadas com a necessidade de condicionar o desenvolvimento da planta, tendo em conta o espaço onde foi plantada, para a obtenção de uma frutificação mais abundante ou por motivos sanitários.
No mesmo texto, Rui Tujeira explica que “sempre que se efetua uma poda, está-se a desequilibrar os fluxos energéticos que a planta criou e com os quais está a contar para o seguinte período vegetativo. Cumulativamente, reduz-se ainda a capacidade fotossintética da árvore por supressão da área folear disponível”.
Podar uma árvore apenas para não ter de varrer as folhas ou porque é tradição anual é um erro que sai caro aos contribuintes e que prejudica grandemente as árvores. Num texto publicado no jornal “O Público” de 12 de janeiro de 2020, o paisagista Manuel de Carvalho e Sousa, depois de lamentar a incultura que continua a ser uma ameaça para as árvores afirma que uma árvore podada vive, em média, um terço do que viveria se não o fosse.
Francisco Coimbra, Consultor em Arboricultura Ornamental e antigo vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Arboricultura, num texto publicado no “Jornal da Mealhada” a 27 de março de 2002, desmistifica um conjunto de “preconceitos que continuam arreigados na população” e que são responsáveis pelos “autênticos «massacres de motosserra» que destituem de dignidade e valor estético as árvores – ditas ornamentais – que marginam os nossos arruamentos e estradas.” De entre os preconceitos referidos o autor rebate os seguintes: as «rolagens» rejuvenescem e fortalecem as árvores” e as rolagens “são a única forma económica de controlar a sua altura e perigosidade”.
Os tão homenageados e citados, mas não ouvidos nem seguidos, arquitetos paisagistas Francisco Caldeira Cabral e Gonçalo Ribeiro Telles, no seu livro “A árvore em Portugal” afirmam perentoriamente que “A poda não é uma operação cultural normal das árvores de ornamento ou florestais. A poda só é uma operação normal em fruticultura. A poda de árvores de sombra ou de alinhamento, destina-se apenas a fazer face a situações de emergência…”
Mas o grande mal é, de acordo com vários especialistas, entre os quais Francisco Coimbra a “ainda quase absoluta ausência de sensibilidade para o papel da Árvore em Meio Urbano” que anda intimamente associada à falta de planeamento e esta leva a podas aberrantes que acontecem um pouco por todo o lado e de que é exemplo uma ocorrida recentemente na Avenida da Paz, no Pico da Pedra, onde foram decapitadas várias Grevíleas (Grevillea robusta), árvores, oriundas da Austrália que podem atingir 35 metros de altura e que foram plantadas em local desadequado.
Sobre o assunto referido no parágrafo anterior, Cadeira Cabral e Ribeiro Telles escreveram no já citado livro “… mas não vale a pena frisar senão que é indispensável no projeto atender às necessidades de cada coisa e saber prescindir do que se considera menos importante. Se não há espaço para a árvore é preferível plantar só o arbusto, ou mesmo só a flor e não contar depois com a tesoura para manter com proporções de criança o gigante que se escolheu impensadamente”.
Para terminar esta questão e para evitar más interpretações, afirmo que não estou contra todas as podas e muito menos defendo as árvores contra as pessoas, como alguém falho de argumentos e ignorante já tentou insinuar.
No que a podas diz respeito, partilho a opinião de quem sabe, como a do Engenheiro Vieira Natividade que escreveu que «o podador domina porque enfraquece, vence porque suprime… em boa verdade a vitória não é brilhante»! E de facto, devia dizer-se de uma poda o mesmo que de um árbitro: tanto melhor quanto menos se der por ela!” ou a dos arquitetos Gonçalo Cabral e Ribeiro Telles que escreveram que “o maior elogio que se pode fazer a um podador de árvores ornamentais é que não se perceba que a árvore foi podada”.
(Correio dos Açores, 32315, 23 de dezembro de 2020, p. 19)

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Galp já tem acordo para vender lítio refinado em Matosinhos à sueca Northvolt

Financiada pelo BEI, a empresa sueca quer construir fábricas de baterias de lítio na Europa e precisa de fornecedores. Northvolt esteve em Portugal para falar com a Galp e com Governo.

                               

Galp estará a preparar a transformação da refinaria de produtos petrolíferos de Matosinhos numa refinaria de lítio há algum tempo e terá já estabelecido um acordo com a empresa sueca Northvolt para o fornecimento de lítio refinado em Portugal e expedido por navio a partir do porto de Leixões, sabe o ECO/Capital Verde.

Na calha pode estar também uma candidatura conjunta das duas empresas, com a possibilidade de se juntar ainda uma terceira (de exploração mineira), ao concurso de lítio que o Governo português já anunciou que vai realizar até setembro de 2021, com 11 áreas de exploração, e que “privilegiará a instalação no país de toda a cadeia de valor”.

Fonte próxima do processo revelou que no primeiro semestre de 2020 o presidente do AICEP se deslocou a Estocolmo para se reunir com os responsáveis da Northvolt, que por sua vez estiveram em Portugal mais recentemente para falar com a Galp e com o Governo português, que está a par de todo este processo. Contactadas, nem a Galp nem a Northvolt prestaram declarações.

Esta segunda-feira, o ministro do Ambiente e da Ação Climática, Matos Fernandes, revelou o seu desejo de que a refinaria da Galp faça parte da transição energética. O ECO/Capital Verde sabe que uma das opções pode passar pela refinação de lítio que vai arrancar nos próximos anos no norte do país. “Está aberta a porta para que seja rentabilizado aquele grande ativo industrial que ali existe […] com outros projetos industriais diferentes da refinação do petróleo”, disse o ministro, sublinhando: “Portugal vai ter uma refinaria de lítio”. Questionada sobre as declarações do ministro, a Galp não se quis pronunciar.

O ministro disse também estar “muito preocupado e muito atento” ao futuro dos 400 a 500 trabalhadores da refinaria de Sines, oferecendo-se de imediato para reunir com a Galp e e com os sindicatos para encontrar uma solução. Sobre este tema, e em resposta às questões do ECO/Capital Verde, a Galp acrescentou apenas que “a empresa avaliará as soluções mais adequadas para os cerca de 400 colaboradores afetos às operações em Matosinhos”, sem avançar mais detalhes.

“A descontinuidade das unidades afetas a toda a atividade de refinação da Galp em Matosinhos começará em 2021, sendo que o calendário de implementação encontra-se a ser concluído, tendo em conta a complexidade das atividades envolvidas assim como as adaptações que serão necessárias para a sua reconversão em Parque Logístico. A capacidade de produção da Refinaria de Sines assegura a satisfação integral da procura no mercado nacional, mais ainda num contexto de diminuição estrutural do consumo de combustíveis resultante do processo de transição energética em curso, acelerado pelas restrições à mobilidade decorrentes do contexto pandémico que vivemos”, frisou a Galp.
Quem é a parceira sueca da Galp na transição para o lítio?

Fundada em 2015, a sueca Northvolt foi já financiada pelo Banco Europeu de Investimento (BEI) em 350 milhões de euros e tem planos para construir as maiores fábricas de baterias de lítio da Europa, para automóveis elétricos e armazenamento de energia, que deverão atingir plena capacidade em 2023.

A Northvolt quer rivalizar com a norte-americana Tesla e está ativamente à procura de fornecedores de níquel, cobalto e lítio. Em Portugal tinha já chegado à fala também com a Lusorecursos, para comprar o lítio que esta empresa vai extrair e refinar na mina de Montalegre, no norte do país, cujo projeto está neste momento em fase de aprovação na Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e à espera de financiamento internacional na ordem dos 500 milhões de euros para a construção de uma refinaria de lítio mesmo ao pé da mina (que será em galeria, e não a céu a aberto, como em Boticas, ou na Mina do Barroso).

Também a Galp chegou a sondar a Lusorecursos para obter na mina de Montalegre a matéria-prima necessária para refinar na unidade industrial de Matosinhos, mas a empresa portuguesa de prospeção e exploração mineira no norte e centro de Portugal acabou por recusar o negócio por considerar que não se trata de um negócio rentável extrair o lítio da mina para depois o transportar para ser refinado a mais de 150 quilómetros de distância.

Nesta fase, a Galp estará precisamente à procura de um parceiro internacional que lhe forneça a matéria-prima para refinar, para depois poder entregar o tão desejado lítio à Northvolth. A questão é que importar lítio do estrangeiro para ser refinado em Portugal acaba por agravar a pegada ambiental deste minério que deve fazer parte da transição ambiental para um futuro mais eletrificado e com menos emissões.

Para a Galp, a opção de converter a refinaria de Leça da Palmeira para o lítio permite à empresa candidatar-se aos fundos de Bruxelas para a Transição Justa e assim evitar pagar a descontaminação dos terrenos.

“O Fundo para a Transição Justa da UE tem como objetivo de acautelar o futuro. Em boa hora o Governo português, quando confrontado com um valor de 200 milhões de euros que se destinava apenas às centrais e às regiões do carvão, como Sines que encerra agora em janeiro, achou que devia alagar geograficamente o apoio, incluindo também as atividades de refinação”, sublinhou.

Será no final do primeiro semestre de 2021 que Portugal saberá então ao certo como será feita a afetação das respetivas verbas de 200 milhões do Fundo de Transição Justa a cada um dos locais e a cada um dos projetos: a requalificação da central a carvão de Sines da EDP e da refinaria da Galp, em Matosinhos.

sábado, 19 de dezembro de 2020

Reportagem da semana: Iberian Lynx - Lince-Ibérico


Southern Spain: home to distinctive landscapes, extreme climates, and the Iberian Lynx. The unique species of wildcat is smaller than its European cousin and has evolved to survive almost exclusively by hunting wild rabbits

Educação ambiental é um processo permanente


O educador ambiental segue os princípios elaborados na Primeira Conferência Intergovernamental de Tbilisi, na Geórgia (ex-URSS), em 1977.

Recomendações, princípios, características e conteúdos, discutidos e aprovados no encontro orientam estratégias de desenvolvimento da educação ambiental no mundo. Na educação ambiental esse processo é contínuo e permanente. Os objetivos fundamentais do educador são:

Sensibilização - Num primeiro momento, o educador ambiental actua para que os indivíduos e grupos sociais adquiram consciência e sensibilidade em relação ao ambiente e aprendam a identificar problemas. Realização de trilhas e estudos do meio (urbano ou campestre) são actividades educativas que auxiliam o educador.

Conhecimento - Aspecto importante é a transmissão de conhecimento. O educador propicia ao indivíduo uma compreensão básica do ambiente e os seus problemas. A participação em palestras com especialistas ajuda a entender o contexto ambiental.

Formação de atitudes - Outro fundamento importante se refere a formação de atitudes favoráveis à relação com o meio ambiente e a motivação para participar na sua proteção e melhoria. Os fumantes, por exemplo, são conscientes dos males que o cigarro causa à saúde, porém, não têm a predisposição ou motivação necessária para deixar o vício. Em relação ao meio ambiente, o papel do educador ambiental é exatamente a de estimular e de motivar uma intervenção positiva. Essa predisposição, porém, é subjetiva, influenciada pelos valores pessoais, crenças, conhecimentos e experiências anteriores.

Habilidades - Propicia condições para que as pessoas adquiram habilidades para a solução dos problemas ambientais. De acordo com as circunstâncias, o educador ensina como aproveitar partes dos alimentos que são jogados no lixo (casca, folhas, etc.) ou mostra como fazer compostagem e separação do lixo inorgânico para a reciclagem e coleta seletiva. É importante frisar que a educação ambiental deverá, além disso, abordar o problema do consumismo (de supérfluos, é claro), o desperdício, o papel da publicidade que incentiva o consumo, os interesses económicos etc.

Participação - Nesta fase, as pessoas são incentivadas a assumirem responsabilidades em escolas, no bairro, no edifício onde mora, na cidade, no país e no planeta em prol da melhoria da qualidade de vida das gerações futuras e atuais.

Capacidade de avaliação - O educador estimula a avaliação constante durante o processo, o que vai permitir a eficiente condução do projetos educativos.


Fonte: Andréa Pelicioni, educadora ambiental e doutoranda na Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo); Ana Flávia Borges Badue, consultora da área ambiental e diretora-executiva da ONG (organização não-governamental) Comam (Comunicação para o Meio Ambiente).

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

"Movimento zero" - artigo de Carmo Afonso. É longa leitura mas vale a pena


Escrevo outra vez sobre polícias. Foi assim que isto começou. Reli há pouco o primeiro artigo que escrevi para o Expresso: “A balada da Amadora, a de Alfragide, a de Sines, a de Carcavelos”. Existe uma dificuldade em ler uma coisa que se escreveu há muito tempo. Neste caso não foi nada há muito tempo mas foi há vinte artigos e, não sei exactamente porquê, isso conta como muito tempo. O artigo é uma reflexão sobre o que se passa nas polícias, a violência policial, o racismo e a evidente infiltração da extrema-direita. Para o bem e para o mal não vai além disso.

Dúvidas houvesse.

Logo a seguir à publicação do artigo fui confrontada com um post na página de Facebook do Movimento Zero, que tem mais de setenta e seis mil seguidores, e cujo link deixo aqui:

Nesse post fui caracterizada como uma inimiga das forças de segurança, o artigo que escrevi como tentativa de as abolir e vi a minha imagem usada sem autorização, o que é crime, e nela inscritos conteúdos com os quais não concordo. A linguagem naquela página é simples e típica da extrema-direita: os portugueses de bem e os outros, a identificação de um inimigo, a referência aos “queridos criminosos”, a exaltação e o chamamento para um conflito.

Há uma nota importante: o post em causa anunciava expressamente que pretendia “desenganar” os polícias que pudessem ter ficado com a impressão que teria algum apreço pelas forças de segurança, o que manifestei, bem como manifestei o meu entendimento de que são necessárias. O que aquele post fez foi uma interpretação correctiva do que estava efectivamente escrito no artigo, propondo-se descodificá-lo e às suas más intenções. O Movimento Zero referiu expressamente que representava as polícias e foi também evidente que se dirigia a elas e aos que chamou de “portugueses de bem”.

Os comentários ao post (alguns foram recentemente apagados) mereciam um tratado. Tudo o que não deveria acontecer no espaço público está ali: um derramamento de ódio, insultos e ofensas rudes. Nada que tenha levado quem administra a página a intervir. Sejamos claros: o post era um chamamento para o que se lhe seguiu.

“As regras dos administradores para o grupo”, ou seja as políticas publicadas pelos administradores da página do Movimento Zero, são claras relativamente a este tipo de comportamentos, tão claras quanto a intenção dos seus administradores e dos membros do grupo de não as cumprir. Deixo também algumas delas e recomendo que leiam todas. É exigida benevolência e cordialidade, são proibidas incitações ao ódio, bullying e comentários menos próprios. Aqui não resisto a contar que os comentários menos próprios ou ataques pessoais dão direito à expulsão do grupo. Muito bom: teriam que ser quase todos expulsos. Estão também limitadas as publicações de conteúdo político mas, naquela página, o Chega e a sua ideologia estão sempre no meio de nós. Aliás o partido embuste é expressamente aclamado. Um movimento ligado às forças policiais que não é capaz de cumprir as suas próprias regras, o seu estatuto profissional, o Código Penal, a Constituição da República Portuguesa ou, já agora, de demonstrar bom senso e urbanidade.

Era um assunto que tinha na gaveta.

Na sexta-feira passada veio a público uma informação que desconhecia: era possível verificar, no próprio post, que havia sido patrocinado pela Guarda Nacional Republicana. Essa menção foi retirada pouco tempo depois de ser pública a sua existência e, segundo o Expresso, pelo gabinete de relações públicas da GNR foi dito que "Não descartamos um cenário de pirataria. Houve um abuso sobre a nossa página do Facebook.". Tendo sido esclarecido, pela mesma fonte, que a GNR não se associa a este tipo de ponto de vista expressado pelo Movimento Zero e que "Não há patrocínio nenhum. Admitimos todos os cenários. Se for o caso, agiremos criminalmente."

Vamos lá ver. Admitem todos os cenários menos aquele que parece o mais provável. E porque nunca fizeram um comunicado distanciando-se das afirmações do Movimento Zero quando este expressamente refere representar os polícias? Adiante.

As regras da página do Movimento Zero são boas regras, a conduta dos seus administradores e membros é desconforme às referidas regras e, deve ser dito, ilícita. A actuação do Movimento Zero é a prova da total falta de habilidade dos seus membros para a intervenção no espaço público e essa falta de habilidade é tão notória que me leva ao dia 10 de outubro de 2016. Este foi o dia em que os taxistas saíram à rua em protesto contra a entrada da Uber no mercado. Um momento que não deverá ser esquecido.

Nesse dia os taxistas partiram carros, agrediram outros taxistas e fizeram afirmações desastrosas que se tornaram virais como uma que recordarão: “As leis são como as meninas virgens, são para ser violadas”. Foi um dia desastroso para os taxistas e para a esquerda. Aqueles homens tinham razões para o protesto que estavam a fazer. O governo estava a desprotegê-los numa questão fundamental ao deixar a Uber entrar no mercado sem regulamentação. Acontece que foram julgados publicamente, não por aquilo que estava em causa e que deveria merecer a atenção de todos, mas porque parte deles se comportou fora dos padrões que (e aqui muito bem) a sociedade considera serem os correctos. Claro que não são admissíveis declarações misóginas, homofóbicas ou afins.

Só que ali o tema era outro.

A este propósito lembro-me de “O Estrangeiro”, livro de Albert Camus que relata a condenação por homicídio da personagem principal, “Meursault”, num julgamento em que nada foi provado relativamente ao próprio homicídio e no qual foi avaliada a frieza e a insensibilidade que “Meursault” tinha demonstrado no velório da mãe. Era verdade o que as testemunhas relataram desse velório mas não deveria ter sido essa verdade o objecto da prova e sobretudo essa verdade não deveria ter sido usada para o condenar.

Vamos a um exemplo limite, os exemplos limite põem tudo muito mais claro: um homem homofóbico, racista e que agride recorrentemente a sua família, tem ou não direito a ser defendido caso seja despedido sem justa causa?

Tem. Esta é a base de tudo.

O que aconteceu aos taxistas naquela altura foi um julgamento, por parte da comunidade, sobre questões completamente diferentes das que deveriam estar a ser avaliadas por todos e esse julgamento - de que eram misóginos, racistas, agressivos e por aí fora - apagou junto de muitos a razão que tinham no resto. E, no que os opunha à Uber, essa razão era total. Foi lamentável.

Mais lamentável porque parte da esquerda deixou isto acontecer e não soube hierarquizar o que ali estava em causa.

Agora peço-vos que imaginem o que teria acontecido se aquela manifestação tivesse lugar em 2020. Quem lá chegaria como um abutre a capitalizar a raiva justa daqueles taxistas? Já lá vamos.

Alguma lição deve ser retirada daquilo a que vamos assistindo. Os polícias são efectivamente uma classe que tem vindo a ser desprotegida: não há progressão nas carreiras, são muito mal pagos, não têm condições ou equipamentos condignos e, soube e é um bom exemplo, são pessoalmente responsabilizados por infracções que cometem, quando prestam serviço como motoristas de gabinetes ministeriais, seguindo as instruções de quem transportam. Aconteceu aquando da inauguração do IKEA de Matosinhos em que sete viaturas que transportavam ministros e secretários de estado foram “apanhadas” em excesso de velocidade. Foram os motoristas, não obstante estarem claramente a cumprir ordens ou indicações superiores, que pagaram as respectivas coimas. É um detalhe? Eventualmente. Mas é inadmissível e concretiza bem a desproteção, até desconsideração, de que falo.

Aqui deve apontar-se o dedo aos sucessivos governos e a alguma esquerda que é muito aguerrida a acusá-los nas suas faltas mas que não o tem sido a fazer a defesa das suas condições de trabalho e de vida. As injustiças sociais são bombas com temporizador incorporado e agora existe uma variável nova: um embuste que tenta infiltrar-se em qualquer buraco onde estejam o sofrimento e a revolta.

A esquerda quer mudar o mundo mas fraqueja na parte de o conhecer e de o interpretar. Marx, na décima-primeira lei de Feuerbach, assim o recomendava: “Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo.”. Assim, e a seco, digo que não tinha razão. É preciso fazer uma análise profunda daquilo que move as pessoas e das suas razões antes de se pensar na transformação do que quer que seja.

O problema que existe nas polícias é evidente e é perigoso. As polícias deveriam investigar movimentos como o Movimento Zero em vez de o integrar e de consentirem ser representadas por ele. O corporativismo, as inclinações políticas, a visualização de um potencial inimigo em cada cidadão mas sobretudo nos negros, nos estrangeiros e nas minorias em geral, são um facto.

Os sindicatos da polícia comunicam de uma forma inaceitável: chamo a vossa atenção para um cartaz que está no Marquês de Pombal com a fotografia de uma encenação em que há um agente aparentemente abatido e outro em aflição a pedir ajuda. Esse cartaz traduz uma situação de guerra que não existe mas, lá está, reforça a tal lógica do inimigo.

Os problemas que existem nas polícias não se resolverão sozinhos e o problema da apatia em que vivemos mergulhados também não. É perturbador o homicídio de Ihor, cidadão ucraniano, pelo SEF e é também perturbadora a indiferença colectiva perante ele durante este tempo. Uma vez mais foi o jornalismo de investigação a despertar consciências e a apertar o poder político.

A nossa apatia permite o “deixa andar” do poder político e, da mesma maneira que permitiu que durante tantos meses nada fosse feito relativamente a um homicídio cometido por quem representava o estado português, também nos impediu de ver que os polícias vivem há demasiado tempo numa situação quase miserável e sim permitiu que o embuste lá fosse depositar os seus ovos.

A situação é grave e mais grave ainda é banalizá-la. “Estas coisas acontecem” não serve. As polícias precisam de ser profundamente repensadas e reestruturadas e deverão ter condições condignas de trabalho e o direito à progressão nas carreiras. A omissão do colectivo relativamente a estas questões dá azo à lamentável omissão dos sucessivos governos e este sangramento deve ser estancado.

As polícias têm de facto sido destratadas nos seus direitos enquanto “classe trabalhadora” e a frustração que as atinge foi terreno fértil para a demagogia populista e fascista da extrema-direita. O mal está feito mas deve ser remediado e de forma eficaz. A violência policial continua mas a tolerância perante ela acabou. O Movimento Zero deve ser investigado – a Polícia Judiciária parece imune à entrada da extrema-direita, sorte a nossa - e o governo não pode continuar a tolerar os grandes e os pequenos crimes cometidos por polícias. Aliás, o governo tem ficado muito mal nesta fotografia e a reunião do Presidente da República com o Director da PSP, Magina da Silva, e o tema que trataram, e que anunciaram, na ausência do ministro da tutela ou de qualquer representante do governo – nas circunstâncias actuais – demonstra o desnorte de cada um dos intervenientes e uma espécie de descartar dos ausentes.

Os posts do Movimento Zero, os cartazes dos sindicatos, a violência policial, o racismo, a raiva mal contida, não auguram nada de bom. Como alguém no Twitter dizia: existe um nome para o Estado em que os cidadãos temem a polícia. Só que também deveria existir um nome para um colectivo e para um Estado que ignoram as justas reivindicações de uma classe profissional ao longo de décadas. “Movimento zero” seria um nome bastante adequado.

Lamento: temos todos que recuar e fazer melhor. O poder político deve fazer política e não gerir situações ou tratar de assuntos, as polícias devem cumprir a sua missão e nós devemos pôr termo às intermitências da nossa atenção.

(Enquanto escrevia este artigo soube da morte de um agente da PSP, António José Pinto Doce, em Évora, por atropelamento, quando interveio numa situação de violência doméstica. O autor desse crime, um guarda prisional, terá sido também o homem que o atropelou brutalmente e quando estava em fuga. Soube também que o agente não estava de serviço. É possível, por isso, que a sua morte não tenha impacto nas estatísticas mas deverá ter ainda mais na avaliação do que mais importa: morreu a fazer o bem.)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

O Lobo Pode Existir Sem Provocar Danos? Sim!!!

Por Lemuel Silva

"Cada alcateia tem o seu território e colhe dos benefícios que encontra disponíveis na sua terra.
Se no território de uma alcateia os pastores não permitirem que os seus animais se contem entre os "benefícios disponiveis" o lobo não terá outro remédio a não ser concentrar-se naquilo que lhe resta.
É perfeitamente possível vedar o acesso dos lobos aos nossos animais reduzindo os danos para zero. Basta guardarmos em local isolado/bem fechado os nossos animais à noite e vigia-los com a nossa presença/mastins durante o dia.
Ainda não inventaram um tipo de lobo capaz de atravessar tijolos ou que se atreva a atacar uma poderosa coligação de mastins/homens vigilantes.
As coisas apenas continuam a correr mal entre pastores e lobos porque os pastores não querem adoptar as medidas de maneio efetivas em questão, seja por desconhecimento, seja porque implicam maiores gastos económicos, seja apenas por má vontade.
Existe uma cultura anti-lobo muito enraizada...a maioria destas pessoas não possui qualquer consideração pelo lobo nem percebe o seu valor ecológico.
Assim, muito naturalmente, não estão para se chatear. Afinal de contas, qual a lógica em gastar mais dinheiro/alterar costumes apenas para ajudar a preservar um animal sem valor/interesse nenhum para a atividade e que não entendem? Que só prejudica? Enfia-se-lhe um balázio e pronto, fica o problema resolvido.
O grande problema da maioria dos Homens, nomeadamente dos pastores, não é ignorarem a importância ecológica do lobo (a ignorância à nascença é algo perfeitamente natural e ninguém tem culpa de não saber).
É acharem que, como Homens que são, são o centro do mundo e que as terras e outros recursos não pertencem também aos animais.
Todos os animais, nomeadamente o lobo ibérico, têm o direito de ter a sua presença/sustento acautelado".
Caros membros, somos chamados a sermos bons mordomos da natureza enquanto espécie dominante deste planeta extraordinário.
Usemos o nosso poder/capacidade para gerar abundância/riqueza em equidade para todos os seres vivos e não apenas para nós mesmos.
Como Homens somos chamados a respeitar/cuidar de todos.
Lemuel Silva, 2020


segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Em Busca da Nossa Floresta Autóctone...

Por Rafael Carvalho
Mata de Albergaria, Gerês

Albergaria, Margaraça e Solitário, os últimos redutos.
Há uns tempos atrás, neste grupo, perguntava alguém por uma mata onde pudesse passear, sentindo a verdadeira essência/magia da floresta portuguesa.
Algumas vozes generosas logo se prontificaram a ajudar: Mata de Albergaria, no Gerês; Mata da Margaraça, na Serra do Açor; Mata do Solitário, na Serra da Arrábida. Acrescento eu, Floresta Laurissilva da Madeira e dos Açores.
Desgraçadamente não haverá muito mais a acrescentar, para além de mais uns quantos pequenos retalhos distribuídos pelo país.
Uma floresta é muito mais do que um amontoado monocultural de árvores. Infelizmente, as nossas florestas prístinas há muito desapareceram...
Numa verdadeira floresta, onde os duendes pululam, as árvores são a entidade que mais se destaca, mas não a única. As árvores das mais diversas idades são acompanhadas no sub-bosque por uma miríade de arbustos e subarbustos, lianas, cogumelos e herbáceas das mais variadas espécies. Neste ecossistema, bactérias, anelídeos, artrópodes, anfíbios, peixes, répteis, mamíferos e aves, presas e predadores, verdadeiros duendes, encontram não só abrigo como também alimento. E as árvores mortas também são fonte de vida ao alimentarem as espécies saproxílicas. A co-evolução, ao longo de milhões de anos, afinou relações de interdependência entre plantas e animais. As plantas oferecem os frutos e os animais retribuem, disseminando as sementes... As florestas de produção, que dominam o território, são tudo menos isto!
Muito recentemente, um relatório da Agência Europeia do Ambiente pôs a nu o estado de conservação das florestas portuguesas. As nossas florestas são os habitats em pior estado de conservação: apenas 4% estão num estado considerado bom.
É imprescindível a discriminação positiva da floresta de conservação, para que possam continuar a existir em Portugal ecossistemas florestais dignos desse nome, apesar da lógica economicista que pressiona para a sua extinção.
A discriminação positiva pode ser feita dando incentivos aos proprietários e compensando-os pelo serviço que prestam à sociedade. Pode ser feita legislando no sentido de, a partir de uma certa área de povoamento, existir uma quota obrigatória para as espécies autóctones, plantando-as ou pura e simplesmente deixando que elas se estabeleçam de forma natural, o que até seria desejável.
Ainda não há muitos séculos os ursos vagueavam pelas nossas florestas. Atualmente o lince por terras do sul vai recuperando com o apoio dos homens. Já no norte, o lobo vai subsistindo, não passando porém de um mero fantasma.
Na atual e infelizmente omnipresente floresta de produção, existem autarquias a venderem monoculturas aos turistas como se de verdadeiras relíquias naturais se tratassem e, por incrível que pareça, os turistas compram. Tragédia maior não poderia ser esta. De facto esses autarcas, na minha opinião, não têm sequer consciência da publicidade enganosa que promovem. Muitos dos turistas, também não percebem o logro! Quebrada a relação quotidiana com a floresta ancestral, autarcas e muitos dos turistas são ambos vitimas da sua ignorância.
Sem a intervenção humana, as quercíneas dominariam a paisagem continental portuguesa - carvalhos, no norte e centro, sobreiros a sul, com as azinheiras a imporem-se na zona raiana, de influência mediterrânica.
As populações, durante séculos a fio, serviram-se de forma sustentável da floresta, recolhendo cogumelos e frutos, aproveitando as árvores decrépitas para lenha, usando as árvores como fonte de madeira sem contudo fazerem cortes rasos...
Desde o evento da agricultura e da pastorícia, a nossa floresta autóctone tem vindo a ser delapidada mas nunca como nas últimas décadas.
A plantação do Pinhal de Leiria, iniciada por D. Afonso III, já lá vão uns séculos, deu início à expansão das monoculturas.
Aquando do episódio das descobertas, milhões de carvalhos foram abatidos para a construção de naus e caravelas.
Já no séc. XIX , a imposição da "floresta científica", monocultural, centrada na maximização dos lucros, enxovalhou a exploração tradicional da floresta, até aí conservadora da sua biodiversidade. O sec. XX com o estado novo prossegue a mesma política. As monoculturas de pinheiro não só mudaram a ocupação do solo como serviram para extinguir as formas "arcaicas" de vida do aldeão, agora reeducado.
À conta da indústria papeleira, os anos setenta do século XX deram início à expansão do australiano eucalipto, em eucaliptais "limpos" de qualquer vegetação concorrente. Prometia-se dinheiro fácil e em pouco tempo . E cá estamos nós agora acompanhados da pirossilva, na maior extensão contínua de eucaliptos da Europa...
Ao eucalipto junta-se o fantasma das espécies invasoras...
Os incêndios de 2017 foram um despertar de consciências. Nunca como agora se falou tanto de espécies autóctones. Saiba-se aproveitar a oportunidade, enquanto há disponibilidade genética...
Nos entretantos, aproveitem-se os últimos retalhos da nossa floresta primitiva, pouco alterada, permitindo-nos ter um vislumbre das antigas florestas que acompanharam as diferentes civilizações que passaram pelo nosso território. Isto se o fogo não as levar...
MATA DE ALBERGARIA, GERÊS
Atravessada pela geira romana, dominam nesta mata os carvalhos roble e negral. No sub-bosque da mais bem conservada floresta representativa da paisagem do noroeste português, entre fetos e musgos subsistem algumas espécies já raras no território nacional como o mirtilo, o azereiro, o teixo ou o azevinho. O corço por aqui ainda vai dando o ar da sua graça. Na região ainda é possível ouvir o uivo do lobo.
MATA DA MARGARAÇA, SERRA DO AÇOR
Nesta relíquia representativa das antigas florestas da região centro, o carvalho-alvarinho e o castanheiro são os reis da floresta, acompanhados de aveleiras, nogueiras, cerejeiras, freixos e do raro ulmeiro-de-montanha. Arbustos mediterrânicos como o medronheiro, o folhado e o loureiro partilham o espaço com o azereiro, naquela que é a maior mancha da sua distribuição nacional.
MATA DO SOLITÁRIO, ARRÁBIDA
Trata-se de um bosque mediterrânico, dominado por arbustos que aqui possuem porte arbóreo, como os carrascos, os lentiscos, zambujeiros, folhados, adernos e medronheiros.
FLORESTA LAURISSILVA DA MADEIRA E DOS AÇORES.
A laurissilva da madeira, património da humanidade, é a mais bem conservada.
Caracteriza-se pela presença de espécies arbóreas, de folha grandes e persistentes, como o loureiro, o barbusano, o til e o vinhático, espécies-relíquia da laurissilva subtropical terciária, extinta no continente aquando da última glaciação.


sábado, 5 de dezembro de 2020

Faltam Adultos na Sala



«O que define a maturidade é a capacidade de assumir responsabilidades. Em especial, a responsabilidade de garantir um futuro individual e coletivo o mais seguro que seja possível. Isso significa saber identificar, diagnosticar e combater, atempadamente, as ameaças à viabilidade desse futuro. À luz desta definição de maturidade a nossa época não tem nota positiva. Vivemos mergulhados numa cultura de imaturidade perante os imensos desafios existenciais globais. Paralisados por uma espécie de sonambulismo moral, parecemos incapazes de alinhar consequentemente palavras e atos, conhecimento e ação.
A maior prova da imaturidade dominante reside na persistente letargia, política e económica, perante a catástrofe ambiental e climática que, antecipada desde o século XIX, é hoje uma realidade esmagadora e indesmentível. O nosso conhecimento - munidos que estamos de poderosos algoritmos capazes de processar quantidades astronómicas de informação - permite-nos antever o que poderá ser a penosa vida na Terra nas próximas décadas, se não substituirmos as energias fósseis e não travarmos a delapidação dos ecossistemas naturais. O facto de estarmos mergulhados na pandemia de covid-19 (que tem, precisamente, origem no colapso da biodiversidade!) não desculpa o silenciamento dos planos de recuperação económica face à crise ambiental e climática. Pelo contrário, mostra que erramos de modo imaturo ao querer vencer a pandemia, desguarnecendo ainda mais a resposta à crise muito maior do ambiente e do clima.
Num mundo sem elites decisoras adultas, são as crianças e os jovens que se mobilizam para a linha da frente na luta pelo futuro. Seguindo o exemplo de civismo precoce de Greta Thunberg, seis crianças e jovens portugueses ousaram (com o apoio jurídico de uma ONG ligada ao uso dos instrumentos legais para servir causas de interesse público) submeter, junto do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (TEDH), uma ação contra 33 dos Estados signatários da Convenção Europeia dos Direitos Humanos (CEDH), motivada pelo facto da inação desses países perante a emergência climática, colocar em causa, agora e mais ainda no futuro, o seu direito à vida (Artigo 2,º da Convenção). O ponto de partida foram os nossos incêndios florestais de 2017, que são reconhecidos como os primeiros megaincêndios com ligação direta à crise climática, e que hoje se espalharam pelo mundo, da Suécia à Austrália. A decisão do TEDH de aceitar o caso é, desde já, um enorme fator de esperança. Este é o primeiro caso climático de sempre a ser julgado num tribunal cujos acórdãos são vinculativos junto dos 47 países que subscreveram a CEDH. Acresce que o tribunal conferiu prioridade ao caso e alargou o pleito ao Artigo 3.º da Convenção, considerando que a ameaça climática pode submeter as crianças a uma espécie de tortura. Até final de fevereiro próximo há 33 países, incluindo Portugal, que vão ter de prestar contas. Os seis jovens portugueses são hoje o rosto desse futuro, que é o nosso único destino. Mesmo daqueles que se comportam como se não houvesse amanhã.»

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

“Não haverá mais regeneração natural” no Pinhal de Leiria

Especialista defende que já se fechou a janela de oportunidade para o contributo da regeneração natural na recuperação do Pinhal de Leiria.



“Convirá esclarecer que não haverá mais regeneração natural, pois passaram três primaveras e já não há semente no solo capaz de germinar”.

O alerta é deixado por Octávio Ferreira, engenheiro silvicultor que durante vários anos trabalhou no Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), num artigo em que faz a análise das medidas previstas para reflorestar aquela mancha florestal.

Já se fechou a janela de oportunidade para o contributo da regeneração natural na recuperação do Pinhal de Leiria.

O especialista reporta-se ao ponto de situação feito por Nuno Banza, presidente do ICNF, numa reunião com o Observatório do Pinhal do Rei, a 13 de outubro, na Marinha Grande.

Nessa reunião, o ICNF adiantou que estão executados 1.178 hectares de rearborização (cerca de 12% da área ardida em 2017) e até 2022 serão concretizados mais 1.344 hectares. A rearborização do Pinhal de Leiria, no total, contempla 3.970 hectares até 2024.

O restante será assegurado por regeneração natural, explicaram os responsáveis do instituto. A regeneração natural, “a melhor e mais económica solução de rearborização em qualquer estação, parece ser inferior à inicialmente prevista”, aponta o especialista. Octávio Ferreira admite que tal se fique a dever “à intensidade do incêndio que queimou e tornou estéril boa parte da semente do arvoredo com mais de 30 anos de idade, do qual era expectável provir regeneração natural”.
Preocupações que persistem

No artigo – que o leitor poderá ler, na íntegra no final da página – Octávio Ferreira analisa os dados revelados no terceiro aniversário do incêndio que consumiu 86% do Mata Nacional de Leiria, em outubro de 2017.

O antigo dirigente do instituto, durante largos anos ligado à gestão do Pinhal de Leiria, manifesta algumas preocupações. Entre elas, consta a falta de referência às retanchas, isto é, à replantação das falhas.

“Havendo talhões com bastantes plantas secas, nem é indicada qualquer verba para esta operação”, aponta. “Existem centenas de hectares de plantações onde somente se vê mato, encontrando-se as plantas dominadas, mesmo sufocadas, pois não se fez a monda de matos que é essencial para o sucesso das plantações”, afirma.

O antigo dirigente manifesta ainda a surpresa pela falta de atenção pelas áreas de lazer que fazem parte do Pinhal: “nada é dito sobre a recuperação das áreas de lazer e de convívio, o que nos parece uma falha e dever ser corrigido tão breve quanto possível”.

Com cinco milhões de euros previstos no Orçamento do Estado para investir, no próximo ano, no Pinhal de Leiria, o especialista aplaude a decisão, embora admita não ser possível investir a totalidade da verba em 12 meses. É que, explica, será necessário “elaborar projetos, levá-los a concurso, aprová-los e executá-los, isto para além da continuidade das ações já a decorrer e das anteriormente anunciadas para o mesmo ano”.

Confira o artigo de Octávio Ferreira:

Pinhal do Rei, os números

Em 15 de outubro, 3 anos depois do grande incêndio que dizimou quase por completo a Mata Nacional de Leiria (MNL), reuniu o “Observatório Pinhal do Rei”, na Marinha Grande, tendo o Presidente do Conselho Diretivo do ICNF, Eng.º Nuno Banza, apresentado as intervenções já realizadas para a recuperação da MN, bem como as ações a promover até ao ano de 2024.

O vídeo da reunião está disponível na plataforma you tube, de onde se retirou e é possível visualizar a informação que se segue.

1. No caso da arborização e de acordo com o anunciado, em 3 anos (2018-2020) foram plantados 1178 ha, estando aqui incluídos os talhões arborizados por entidades públicas e privadas, pois o respetivo mapa apresentado assim o indica e que serão seguramente metade da área plantada.

De 2021 a 2024 a área anual prevista para intervenção duplicará relativamente aos anos de 2018 a 2022, pois naquele período desenvolver-se-ão ações em 992,5 ha/ano, conforme indicado no quadro.

Clique em cima do quadro para ampliar

No total, a área intervencionada de 2018 a 2024 (7 anos) será de 6492 ha, ou seja 68,5% da área percorrida pelo fogo, sendo 4715 ha de plantações e 1777 ha de aproveitamento de regeneração natural, caso tudo decorra conforme anunciado e seja efetivamente confirmado, o que é um rácio interessante (927 ha/ano), mas ficam desde já alguns reparos e muitas preocupações, no que diz respeito às plantações já efetuadas:

  1. Nada é referido sobre retanchas (replantação das falhas), havendo talhões com bastantes plantas secas, nem é indicada qualquer verba para esta operação;
    1. Existem centenas de hectares de plantações onde somente se vê mato, encontrando-se as plantas dominadas, mesmo sufocadas, pois não se fez a monda de matos que é essencial para o sucesso das plantações, mas também nada é dito sobre o corte desses matos, nem são atribuídas verbas;
    1. As plantações que não foram adubadas podê-lo-ão ser agora com uma adubação de cobertura, para rapidamente as plantas se desenvolverem e se libertarem dos matos, mas de igual modo nada é referido a esse respeito;

Em qualquer dos casos anteriores é urgente que as situações sejam corrigidas em benefício das plantações já realizadas.

      2. Tendo sido criadas algumas dúvidas sobre a regeneração natural do pinheiro bravo na MNL no pós-fogo, convirá esclarecer que não haverá mais regeneração natural, pois passaram 3 primaveras e já não há semente no solo capaz de germinar.

A área com regeneração natural, que é a melhor e mais económica solução de rearborização em qualquer estação, parece ser inferior à inicialmente prevista, provavelmente devido à intensidade do incêndio que queimou e tornou estéril boa parte da semente do arvoredo com mais de 30 anos de idade, do qual era expectável provir regeneração natural e que é uma situação inédita.

3. Relativamente aos povoamentos florestais que não arderam, são referidas limpezas de matos em 763 ha até 2024 conforme quadro, ou seja sensivelmente metade da área total de povoamentos, o que é manifestamente pouco, de resto todo o pinhal que sobreviveu ao fogo devia estar já limpo de matos, de modo a prevenir males maiores.

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Trata-se de pinhal adulto que tem de ser cuidadosa e inteiramente preservado como se de uma relíquia se tratasse, de modo a servir de mostruário da elevada qualidade da MNL para os próximos vindouros, pois somente daqui a 50 anos haverá outros povoamentos adultos similares.

4. No que diz respeito a investimentos o ICNF prevê investir 5 vezes mais no período de 2021 a 2024 (6295500 €) do que se investiu de 2018 a 2020 (1215140 €), neste caso na arborização (de parte) dos 1178 ha plantados e na limpeza de matos em 526 ha de povoamentos adultos.

A beneficiação das redes viária (28 km) e divisional (10 km) desenvolver-se-á de 2021 a 2024, conforme dito pelo Sr.º Presidente do ICNF, embora no quadro apresentado na reunião seja indicado como investimento feito de 2018 a 2021, o que é um lapso, pois não ainda há obra feita.

Assim, se se considerarem os períodos 2018-2022 e 2021-2024, neste quadriénio o investimento/ano será quase 3 vezes superior ao investimento/ano naquele quinquénio, conforme quadro, o que exigirá uma forte disponibilidade financeira e empenho por parte do ICNF e dos seus recursos humanos, designadamente dos colegas e demais funcionários que prestam serviço na Marinha Grande.

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O investimento total previsto para 7 anos (2018 – 2024), no valor de 9 084 205 €, inclui ainda o controlo de invasoras lenhosas (333 000 €), a reabilitação de áreas afetadas pelo furacão Leslie (500 320 €) e a prevenção contra pragas e doenças (368 000 €).

Surpreendentemente, nada é dito sobre a recuperação das áreas de lazer e de convívio, o que nos parece uma falha e dever ser corrigido tão breve quanto possível, dadas as excelentes condições que a MNL apresenta para o recreio, a tradição e a componente social da MN tão do agrado das populações locais.

O anúncio recente da aprovação de uma verba adicional de 5 milhões de euros, no orçamento de Estado, para investimento em 2021 na MNL, parecendo-nos excelente pode não vir a concretizar-se na sua totalidade, dado o elevado montante a investir em somente 12 meses, pois sabemos que será preciso elaborar projetos, levá-los a concurso, aprová-los e executá-los, isto para além da continuidade das ações a decorrer e das já anunciadas para o mesmo ano.

Octávio Ferreira
MG, 25/11/2020