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terça-feira, 11 de agosto de 2026

O fim do "mandato elétrico" de Trump, o domínio da China e o petróleo iraniano: o triângulo geopolítico da energia

Donald Trump voltou a criticar os carros elétricos, chamando recentemente os seus condutores de "doentes" e "loucos". O presidente dos Estados Unidos da América referiu-se à chamada "ansiedade de autonomia".

No ano passado, Donald Trump acabou com os incentivos fiscais à aquisição de carros elétricos nos Estados Unidos da América, começando a desviar a eletrificação do panorama automóvel do país.

Num recente discurso em Las Vegas, transmitido pela NBC News, o presidente norte-americano começou por falar do fim do chamado "mandato elétrico": "A esquerda radical quer banir uma coisa chamada gasolina. Temos 100 anos de gasolina e é o que as pessoas preferem. Eu terminei com o mandato elétrico. Não quero falar sobre isto porque o Elon [Musk] não ficou propriamente emocionado comigo, mas tive de o fazer. Terminei porque dizia que, num período de tempo muito curto - 2030 - todos teriam de ter um carro elétrico apesar de não haver forma de o carregar".

Importa salientar que o "mandato elétrico" a que Donald Trump se referiu trata-se do conjunto de medidas da administração de Joe Biden para fomentar a adoção de veículos eletrificados - sem, no entanto, impor qualquer obrigação de comprar este tipo de automóveis.

Seguiram-se, então, as críticas aos condutores de carros elétricos, em particular por causa da ansiedade de autonomia: "Já viram os sinais de estar a conduzir um carro elétrico? Eles são doentes, é uma doença. As pessoas estão a conduzir e percebem que a bateria está a ficar com pouca carga, e começam a pensar nisso. Tem três quartos da carga, perde um bocado. Perguntam para onde estão a ir, estão a conduzir na autoestrada e veem uma estação de carregamento com uma seta de 143 km à direita. Estas pessoas são loucas".

A ansiedade de autonomia é o fenómeno de ficar apreensivo com a possível insuficiência de carga para chegar a um determinado destino, não havendo como recarregar entretanto. Mas têm vindo a surgir mais postos de carregamento (ainda que a um ritmo não uniforme). Nos EUA, ainda não há uma disponibilidade tão generalizada fora dos centros urbanos. Ainda assim, a capacidade das próprias baterias tem aumentado, permitindo percorrer mais quilómetros.

Sobre o tema, Donald Trump referiu ainda: "Eu gosto de carros elétricos, vendemos sete por cento [de carros elétricos] apesar de todos os impostos e tudo o que cedemos. Sete por cento. Mas a questão é que temos mais petróleo e gasolina do que qualquer outro país do mundo".

1. Nunca existiu um "mandato elétrico e Trump volta a falar para o seu eleitorado mais conservador, republicano, nacionalista e MAGA
Este discurso de Donald Trump insere-se numa estratégia política, económica e ideológica contínua que reflete as prioridades centrais da sua administração para o setor energético e industrial. A narrativa em torno do alegado fim do "mandato elétrico" é, na sua essência, um exercício de comunicação política que contrapõe a retórica à realidade legislativa do país. Embora a administração afirme ter acabado com uma imposição federal que obrigaria todos os americanos a adquirir carros elétricos, a verdade é que nunca existiu uma lei com esse teor nos Estados Unidos. Durante o mandato de Joe Biden, o quadro regulatório assentava, antes, na definição de metas rigorosas de emissões por parte da U.S. Environmental Protection Agency (EPA) e na atribuição de incentivos fiscais - como o crédito de 7.500 dólares previsto na legislação do Internal Revenue Service (IRS) - desenhados para estimular a produção e a renovação da frota automóvel. Ao revogar estes incentivos, flexibilizar as exigências ambientais e contestar judicialmente as normas estaduais mais estritas, como as impostas pela California Air Resources Board (CARB), a administração procura redefinir os rumos do mercado automóvel nacional.

Esta posição apoia-se diretamente na defesa intransigente das indústrias tradicionais de petróleo e gás através da bandeira popularizada como "Drill, Baby, Drill". O programa económico prioritário sustenta que a transição forçada para as energias renováveis encarece os custos energéticos e fragiliza a competitividade global da indústria americana. Ao destacar que os Estados Unidos possuem reservas substanciais e "combustível para mais de cem anos", conforme reportado por órgãos como a NBC News e documentado pela U.S. Energy Information Administration (EIA), procura-se mobilizar diretamente a classe trabalhadora ligada à extração energética e ao fabrico de motores de combustão interna no ecossistema industrial norte-americano.

Paralelamente, o discurso explora de forma calculada os receios pragmáticos do eleitorado, recorrendo à sátira em torno da chamada "ansiedade de autonomia". Ao ridicularizar as preocupações com o carregamento das baterias, a retórica liga-se ao ceticismo dos cidadãos que residem no interior do país, onde a infraestrutura de carregadores rápidos gerida pelo Federal Highway Administration (FHWA) ainda apresenta descontinuidade e desafios logísticos. Esta abordagem tira partido das limitações reais vivenciadas na fase inicial de adoção da tecnologia - como os tempos de espera e a disponibilidade de postos de carregamento - para colocar em causa a viabilidade geral da eletrificação de massas.

No plano empresarial e institucional, a postura da administração reflete uma relação complexa e cheia de ambiguidades com a indústria automóvel. Se, por um lado, existe uma proximidade e alinhamento público com líderes da inovação como Elon Musk e a Tesla no plano do empreendedorismo privado, por outro, mantém-se uma recusa perentória em conceder subsídios estatais que beneficiem o setor. Esta orientação responde de perto aos apelos dos construtores tradicionais de Detroit, como a Ford e a General Motors, que têm enfrentado pressões significativas sobre as suas margens de lucro e uma desaceleração no crescimento da procura por veículos 100% elétricos, optando por reorientar os seus investimentos estratégicos para soluções híbridas.

Por fim, o tema do tipo de automóvel transformou-se num vetor central da "guerra cultural" que divide a política americana contemporânea. Conforme analisam diversos estudos publicados por centros de investigação como o Pew Research Center, os veículos elétricos tornaram-se símbolos associados às elites urbanas e às agendas progressistas de transição ecológica, enquanto os motores a combustão continuam a ser defendidos como um baluarte da liberdade individual, da autossuficiência e da identidade cultural do interior dos Estados Unidos.

2. Geopolítica da mobilidade: o triângulo estratégico entre a transição energética da China, o petróleo iraniano e a segurança nacional
Para compreender como o discurso sobre o fim do "mandato elétrico" nos EUA se cruza com a geopolítica do Irão e o domínio industrial da China, é preciso analisar a convergência entre a indústria automóvel, a produção de energia e a segurança nacional.

A China consolidou a sua posição como a líder incontestável no mercado global de veículos elétricos. Empresas chinesas como a BYD e a gigante de baterias CATL não só dominam a produção de veículos, como controlam quase 80% do processamento mundial dos minerais críticos essenciais para esta tecnologia, como o lítio e o cobalto. De acordo com relatórios da Agência Internacional de Energia (AIE), a aposta massiva de Pequim na eletrificação automóvel visou dois objetivos principais: liderar a próxima revolução industrial e reduzir a dependência nacional do petróleo importado do Médio Oriente.

É neste ponto que entra a ligação ao Irão. Como maior importador de crude do mundo, a China compra volumes significativos de petróleo iraniano - frequentemente transacionados fora dos circuitos bancários ocidentais devido às sanções impostas pela U.S. Department of the Treasury. Para a estratégia de Pequim, transitar a sua frota interna para energia elétrica significa enfraquecer a sua vulnerabilidade a eventuais bloqueios no Estreito de Ormuz, a rota marítima vital do Médio Oriente por onde circula grande parte do petróleo mundial.

Por outro lado, a perspetiva expressa em intervenções públicas como as da NBC News reflete uma abordagem oposta da política norte-americana. Ao rejeitar os subsídios e as metas de emissões associadas aos veículos elétricos, a narrativa de "dominância energética" argumenta que acelerar a transição ecológica forçada exporia os EUA a uma dependência crítica das cadeias de fornecimento chinesas. Em alternativa, defende-se o aumento da produção de crude nacional através do  U.S. Energy Information Administration (EIA), utilizando as vastas reservas americanas de combustíveis fósseis para estabilizar os preços e contrariar o impacto económico de crises geopolíticas no Médio Oriente.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

O Atolamento das Vaidades


Ontem, Donald Trump declarou que a guerra com o Irão está a correr “melhor do que qualquer um esperava”. Está a delirar, é claro. E os seus delírios são a razão pela qual o preço do petróleo voltou a cerca de 100 dólares por barril e - como explicarei em breve  - o preço real é muito superior a isso.

A guerra gratuita de Trump contra o Irão transformou-se num atoleiro notável - notável porque a única coisa que mantém a guerra em curso é a vaidade de Trump. Perdeu efectivamente a guerra nos primeiros tempos, quando se tornou evidente que o regime de linha dura do Irão tinha sobrevivido ao ataque inicial e que os militares norte-americanos não conseguiam manter o Estreito de Ormuz aberto. Mas Trump é psicologicamente incapaz de admitir o fracasso. Assim, a guerra continua, enfraquecendo os Estados Unidos a cada dia, enquanto ele procura alguma forma de transformar a sua derrota abjeta numa vitória.

E as declarações de que as consequências económicas da guerra foram contidas parecem agora perigosamente prematuras.

É verdade que, durante o primeiro fecho do Estreito, os preços do petróleo não subiram tanto como muitos analistas - incluindo eu próprio, em certa medida - esperavam. Parte do petróleo do Golfo Pérsico chegou aos mercados contornando o Estreito de Ormuz, principalmente através do oleoduto saudita para o Mar Vermelho. A China reduziu drasticamente as suas importações de petróleo. E o mundo compensou uma parte substancial da escassez de oferta reduzindo os seus stocks.

O segundo encerramento de Ormuz pode ser pior, por vários motivos. Os aliados houthis do Irão estão agora a atacar navios no Mar Vermelho, ameaçando esta válvula de segurança. Além disso, os stocks estão agora muito mais baixos do que quando o conflito começou e não podem servir de reserva daqui para a frente.

Talvez o mais importante a perceber sobre a situação actual, no entanto, é que o petróleo é mais caro do que parece.

Ninguém queima petróleo bruto. O petróleo precisa de ser refinado para se transformar em combustíveis utilizáveis, principalmente gasolina e gasóleo. E há uma escassez global de capacidade de refinação. Isto reflecte em parte a guerra no Irão, mas também a campanha surpreendentemente eficaz da Ucrânia contra a infra-estrutura energética de Vladimir Putin.

Esta escassez de capacidade de refinação ajudou a manter os preços do crude baixos - porquê comprar crude se não se pode refiná-lo? Mais importante, porém, significa que os preços dos produtos petrolíferos para os consumidores finais são muito mais elevados do que seria de esperar, tendo em conta o preço do petróleo bruto. O gráfico no início deste post mostra o preço do gasóleo no mercado grossista, que mesmo durante o cessar-fogo falhado estava muito acima do seu nível pré-guerra e está agora próximo do seu pico anterior.

O spread geral - a diferença de preço entre um barril de crude e o preço dos produtos refinados a partir desse barril - explodiu, de cerca de 25 dólares por barril antes da guerra para mais de 65 dólares agora:

Do ponto de vista dos consumidores finais, isto equivale a um aumento de 40 dólares por barril no preço do crude. Na prática, o mundo está a lidar com o equivalente a 140 dólares pelo petróleo, embora o preço anunciado ronde "apenas" os 100 dólares.

Prenuncia uma catástrofe económica? Não, ainda não. Mas não é um bom sinal.

A desaceleração da inflação no mês passado parece agora temporária. Com os preços da energia a subirem novamente - para não falar do impacto inflacionista da nova ronda tarifária de Trump, imposta sob a desculpa absurda de que as nações não estão a fazer o suficiente para acabar com o trabalho forçado - as taxas de juro vão quase certamente subir, intensificando a pressão sobre as famílias e as empresas. As taxas de longo prazo, refletindo os futuros aumentos esperados da Fed, são já demasiado elevadas:

Ainda assim, as coisas podiam ser piores. E podem estar prestes a piorar. O Wall Street Journal refere que Trump está em "modo de vingança" e que as forças armadas dos EUA estão a enviar tropas para o Médio Oriente.

E se Trump insistir no fracasso, intensificando drasticamente a sua guerra desastrosa, os impactos económicos, para não falar dos humanos, serão muito mais graves.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Europa: bombas de calor substituem a dobrar gás do Médio Oriente; que país lidera?

As vendas de bombas de calor dispararam em toda a Europa, ajudando as famílias a suportar os custos elevadíssimos do gás numa altura de guerra contra o Irão.

Segundo uma nova análise da Associação Europeia de Bombas de Calor (EHPA), as bombas de calor do continente fornecem tanta energia térmica como o gás natural liquefeito (GNL) transportado por mais de 200 navios-tanque.

Isto é o dobro do volume que chegou à UE em 2025 vindo do Médio Oriente e representa cerca de 7% do total anual de GNL importado pela UE. Segundo a EHPA, só em 2025 isso permitiu evitar custos de importação no valor impressionante de 9,7 mil milhões de euros.

Bombas de calor transformam o aquecimento na Europa
Quase três milhões de bombas de calor, que captam energia do ar, da água ou do solo e a convertem em calor ou ar frio, foram vendidas em 21 países europeus no ano passado, elevando o parque instalado para 29,3 milhões de unidades.

A análise indica que só as 2,9 milhões de novas bombas de calor substituem 2,5 mil milhões de metros cúbicos de GNL, o equivalente a cerca de 24% das importações da UE provenientes do Médio Oriente.

“Cada bomba de calor instalada representa mais um reforço da segurança energética europeia”, afirma Paul Kenny, da EHPA.

“O GNL é a fonte de energia mais cara e vem de fornecedores pouco fiáveis, mas as bombas de calor podem reduzir drasticamente a nossa dependência desse combustível. Na verdade, os europeus já estão a afastar-se dos sistemas de aquecimento a combustíveis fósseis, como mostram os nossos novos dados.”

Kenny acrescenta que o bloco tem agora de tornar o aquecimento limpo tão “simples e acessível” quanto possível.

O bloco prepara atualmente um pacote não legislativo sobre eletrificação, que deverá ser apresentado este mês. Para incentivar a adoção de bombas de calor, os Estados-membros são instados a reduzir impostos e IVA sobre o aquecimento verde e a eletricidade, medida que a Comissão já está a ponderar.

Muitos países europeus já oferecem incentivos para tornar as bombas de calor mais acessíveis. Mesmo Inglaterra, que historicamente registou a menor adesão a bombas de calor, concede um apoio de 7.500 libras (cerca de 8.638,76 euros) para ajudar a cobrir o custo de instalação, se forem cumpridos determinados critérios.

Que país europeu tem mais bombas de calor?
A França liderou no ano passado, com a venda de impressionantes 528 mil bombas de calor. O país tem agora o maior número de bombas de calor instaladas na Europa, com cerca de sete milhões de unidades.

A Itália surge logo a seguir, com 423 mil unidades vendidas em 2025, enquanto Malta (2 mil), Luxemburgo (3 mil) e Chipre (5 mil) ficaram no fim da tabela. Importa, porém, notar que a população destes três países em conjunto é de apenas cerca de 2,5 milhões de pessoas (face aos cerca de 69 milhões que vivem em França).

A Alemanha registou o maior aumento homólogo, com as instalações a dispararem 50%. A subida das vendas surge depois de o país ter abandonado, de forma controversa, um projeto de lei que obrigava as famílias a substituir caldeiras a combustíveis fósseis por alternativas compatíveis com o clima.

A líder parlamentar dos Verdes, Katherina Droege, cujo partido apresentou a lei original em 2023, descreveu a decisão como “um abandono completo das metas climáticas da Alemanha”.

Em termos relativos à dimensão da população, a Noruega lidera a corrida às bombas de calor, com 650 instalações por cada mil agregados familiares. A Finlândia segue de perto, com pouco mais de 540 instalações por cada mil agregados familiares.

Estes países mais frios derrubaram o mito de que as bombas de calor não funcionam com temperaturas baixas. Mesmo quando os termómetros descem aos 30 graus negativos, as bombas de calor podem continuar a ser mais eficientes do que o aquecimento elétrico.

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segunda-feira, 15 de junho de 2026

Todos gostamos do ambiente, mas o ambiente sai muito caro


Com os preços atuais do biometano ainda não é possível descarbonizar a indústria. Esta foi uma conclusão transversal aos dois debates que decorreram hoje na Feira Nacional de Agricultura, promovidos pela Floene e a que o Expresso se juntou como media partner.

Portugal depende quase exclusivamente de gás importado e, a este nível, tem sido um dos países da Europa mais afetado pela subida generalizada de preços, resultante da guerra na Ucrânia. Contudo, uma das soluções pode estar no biometano, capaz de somar vantagens como a descarbonização, a competitividade industrial e a valorização territorial. No debate desta manhã na Feira Nacional de Agricultura (FNA), em que o tema foi ‘o biometano enquanto solução ambiental’, os vários participantes foram unânimes no diagnóstico de que o país tem potencial na produção desta energia renovável, mas continua longe de conseguir transformá-lo em escala.

Quando questionado sobre se o país está a aproveitar o seu potencial agropecuário, António Farracho não hesitou em garantir que “a resposta óbvia é que não”. O fundador e CEO da Prado Energia recorda que o biometano permite transformar “um passivo ambiental que não está a ser aproveitado, em ativo energético”, sobretudo em territórios rurais onde os odores e riscos sanitários associados aos efluentes são uma preocupação constante.

Contudo, e como referiu Nuno Pinto, o biometano é antes de tudo um caminho de qualificação territorial, o que significa que “os projetos têm de ser transparentes, sem segredos, e envolver todos os envolvidos, até as populações”. Ou seja, o responsável pela área do biometano na REGA Energy alertou para a importância da aceitação, que dependerá sempre da forma como se comunica e como se escolhem os locais, e lembrou que, no contexto europeu, o gás renovável é já um pilar estratégico. “O biometano é um dos fatores essenciais da soberania energética europeia”.

Do lado da comercialização, Óscar Delfim, diretor comercial B2B da Goldenergy, destacou a vantagem imediata para as empresas. “As empresas conseguem descarbonizar rapidamente e sem necessidade de investir nos equipamentos”. Mas alerta para aquele que considera o principal desafio: “Há uma grande dificuldade na parte dos licenciamentos”.

Já na perspetiva da indústria cerâmica, altamente exposta ao custo do gás, o biometano “é uma solução técnica já madura”. Paulo Pires, vice‑presidente da APICER (Associação Portuguesa Indústria Cerâmica), não tem dúvidas de que seria possível “substituir a 100% o gás natural por biometano”. Mas, à data de hoje, identifica o preço “incomportável para a indústria” e a falta de oferta como os grandes travões à descarbonização. “Todos gostamos do ambiente, mas o ambiente sai muito caro”, acrescentou Nuno Pinto.

Miguel Faria reforçou que o país está atrasado na política de resíduos e que isso limita a matéria‑prima disponível, lembrando que o biofertilizante resultante do processo “já permite substituir metade do fertilizante que vem da Rússia ou do que passa pelo Estreito de Ormuz”. Para o COO (Chief Operating Officer) da Floene, o desafio é “dar velocidade à implementação dos projetos”.

Mix perfeito não existe
Quando falamos de mix energético, Portugal não pode substituir uma dependência por outra, nem avançar para soluções simplistas num sistema que continua estruturalmente ancorado em combustíveis fósseis. A opinião é de Nuno Ribeiro da Silva, que abriu o debate da tarde no espaço Floene, na Feira Nacional de Agricultura, e que defendeu também que a transição energética não é um exercício tecnológico, mas um teste económico e geopolítico à resiliência dos países. Como lembrou o ex-presidente da Endesa, “quando dizemos que produzimos 80% da energia com fontes renováveis, falamos apenas da eletricidade, que representa menos de um quarto do total da energia consumida no país. O resto continua a ser petróleo e gás”.

Neste contexto, defendeu ainda Nuno Ribeiro da Silva, o gás, e sobretudo o biometano, permanece “a geração menos agressiva do ponto de vista ambiental”, sendo por isso inevitável no equilíbrio do sistema.

Do lado regulatório, Mário Paulo rejeitou a ideia de que a ERSE (Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos) trava a transição. “A ERSE não faz leis”, sublinhou, lembrando que o regulador atua dentro das políticas definidas e que “acabar com o gás em dois ou três dias é uma fantasia tecnicamente impossível”. A Europa, acrescentou o presidente da ERSE, já reviu a sua posição e admite que o gás continuará a representar “cerca de 20% do mix energético em 2040”.

Gabriel Sousa, CEO da Floene, destacou que Portugal pode acelerar a adoção de biometano aprendendo com quem começou mais cedo. “Não é sempre mau sermos os últimos”, afirmou. França, Itália e Dinamarca mostram que o crescimento depende de mecanismos estáveis e de uma articulação entre energia, agricultura e resíduos. “Portugal vai precisar dos dois sectores”, defendeu, sublinhando que o país pode fazer “em três anos o que outros demoraram quinze a fazer”.

Nuno Ribeiro da Silva reforçou ainda que as tecnologias emergentes precisam de apoio, tal como aconteceu com a eólica e o solar. “Se fosse puramente o mercado, só as tecnologias incumbentes existiam”, disse, defendendo que o biometano representa uma oportunidade industrial acessível e integrável na economia nacional.

Outras conclusões:
  1. O potencial agropecuário português continua largamente por explorar, apesar de estar mapeado e quantificado. “O Concelho de Torres Vedras figura no Top 10 dos concelhos com maior produção de efluentes agropecuários”, exemplificou António Farracho.
  2. A aceitação social dos projetos depende da forma como são apresentados às comunidades. “Quando se chega a um território e se apresenta um projeto há sempre um fator de rejeição natural”, afirmou Nuno Pinto.
  3. Para Óscar Delfim, a produção nacional de biometano pode reduzir a exposição do país às flutuações internacionais do preço do gás. “Não estaremos sujeitos às acelerações de preços que têm sido fruto dos conflitos”.
  4. A indústria cerâmica enfrenta um risco real de perda de competitividade se não houver acesso a gás renovável a preços viáveis. “O problema que temos é um fator de competitividade”, alertou Paulo Pires.
  5. “A classificação dos resíduos como subprodutos é um passo essensial para desbloquear matéria‑prima para o biometano”, sublinhou Miguel Faria.
  6. A evolução do sistema energético não pode assentar em ilusões de substituição instantânea: exige convivência prolongada entre múltiplas fontes e uma gestão realista das limitações técnicas. “Neste processo de transição energética, temos de dar tudo para conseguir libertar‑nos deste uso que ainda fazemos do petróleo e do gás natural”, disse Nuno Ribeiro da Silva.
  7. “A regulação acompanha, mas não inventa políticas”, garantiu Mário Paulo. O regulador sublinha que o país precisa de soluções compatíveis com a sua estrutura industrial e que a transição não pode ignorar a história e o ritmo dos sistemas energéticos.
  8. Gabriel Sousa alertou que o biometano só avança se unir sectores que nunca trabalharam juntos. “Juntar energia, agricultura, resíduos, economia e indústria não é fácil, mas parece‑me absolutamente indispensável”.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Trocar uma crise por outra? Preço do petróleo pode aumentar em 70% a procura global por biocombustíveis até 2030


A atual procura por matérias-primas para produção de biocombustíveis para escapar aos impactos da subida dos preços do petróleo pode vir a fazer disparar o consumo desses combustíveis de baixo carbono.

Um estudo da organização Transport & Environment (T&E) prevê um aumento de até 30% do consumo de biocombustíveis a nível global ainda este ano, e que poderá chegar aos 70% em 2030. Os especialistas temem que esse aumento acentuado da procura por biocombustíveis faça subir ainda mais os preços dos alimentos, levando-os para novos máximos.

Apelando aos governos para não trocarem “uma crise dos combustíveis por uma crise alimentar”, a T&E diz que, um pouco por todo o mundo, os preços de vários produtos alimentares, especialmente dos óleos vegetais, uma das principais matérias-primas do biodiesel, estão a subir há três meses consecutivos. Os analistas desta organização não-governamental referem que esse é um padrão já visto em 2022, altura da invasão da Ucrânia pela Rússia.

Com os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irão, e com a crise no Médio Oriente daí resultante, os preços dos combustíveis fósseis atingiram máximos históricos, o que levou vários governos, como o norte-americano, o tailandês e o indonésio, a definirem novas metas de incorporação de biocombustíveis nos combustíveis fósseis para tentarem amortecer os impactos da subida de preços do petróleo.

Ao mesmo tempo, grandes potências exportadoras, como o Brasil e a Indonésia, têm limitado a quantidade de matérias-primas para biocombustíveis que vendem para outros mercados.

“Os governos estão a correr riscos ao promoverem a conversão de alimentos em combustível”, avisa Kädi Ristkok, diretor das áreas de energia e clima na T&E. “Compreensivelmente, os líderes estão a tentar encontrar soluções para a atual crise do petróleo, mas os biocombustíveis jamais poderão desempenhar um papel mais do que marginal nos nossos sistemas energéticos sem consequências devastadoras”, salienta.

Para o responsável, “os impactos indesejados nos preços dos alimentos e no ambiente são enormes” e argumenta que “em vez de alimentarem os carros, os governos devem apostar em opções mais sustentáveis, como a eletrificação”.

A guerra no Médio Oriente levou também a uma escassez de fertilizantes de escala mundial, pressionado os sistemas de produção agroalimentar e refletindo-se nos preços dos produtos. Por isso, a T&E considera que a corrida aos biocombustíveis poderá esgotar rapidamente as reservas globais de produtos alimentares.

Os biocombustíveis já consomem 5 % dos fertilizantes mundiais para produzir apenas 4 % dos combustíveis para transportes a nível global, diz a organização, que alerta que qualquer aumento na produção dos biocombustíveis exerceria “ainda mais pressão sobre um mercado que tem sido fortemente afetado pelo bloqueio no Estreito de Ormuz”.

Os analistas da T&E acreditam que não é possível aumentar a produção de biocombustíveis sem entrar em concorrência direta com a produção alimentar, e estimam que se os esses combustíveis passassem a representar 20% da composição dos combustíveis usados nas estradas por todo o mundo, como países como a Indonésia e o Brasil propõem, seriam precisos mais 130 milhões de hectares de terras para consegui-lo.

Isso, apontam, resultaria no agravamento da perda de ecossistemas e de florestas, e em mais emissões de gases com efeito de estufa do que as libertadas pelos combustíveis fósseis que se pretende substituir por biocombustíveis.

“A escassez mundial de fertilizantes ameaça pôr em risco a segurança alimentar global. Enquanto os governos procuram formas de armazenar fertilizantes, ninguém fala dos biocombustíveis. Quanto mais cultura queimarmos, de mais fertilizantes precisaremos. Os governos têm de dar prioridade aos alimentos em vez de aos combustíveis”, defende Kädi Ristkok.

terça-feira, 19 de maio de 2026

The American epoch of oil is collapsing. What comes next could be ugly

China is dominating the energy transition with astonishing result, while fossil fuel fascists in the US try to turn back the clock [Fonte]

“Farewell,” the flag-waving Chinese children chanted to Donald Trump as he strolled along the red carpet back to Air Force One at the end of his summit with Xi Jinping in Beijing.

The US leader claimed he was leaving with a cluster of “fantastic” trade deals to sell US oil, jets and soya beans to China. That has not been confirmed by his smiling host, but one thing was crystal clear from the two days of meetings: the global balance of power is shifting, from the declining petrostate in the west to the rising electrostate in the east.

Trump flew home to chaos – war with Iran, surging gas prices, spectacular unpopularity, friction with former allies and a 20th-century policy of “energy dominance” that seeks to turn back the clock, use tariffs and military threats to open markets, and enrich his supporters in the fossil fuel industry. The long dominant superpower increasingly appears a malignant force as it pushes the world towards ever greater turbulence.

Xi, meanwhile, presides over a country that has invested more than any other in renewable energy, which has helped to buffer its economy from the gas price shocks caused by the conflict in the Middle East, while opening up huge new export markets for solar panels, wind turbines, smart grids and electric vehicles. While the Chinese president’s Communist party still faces criticism for its suppression of dissent, its soft power deficit no longer seems so great when its main global rival is killing protesters at home and bombing schoolchildren overseas.

Why is this happening now? Tempting as it is to blame these global shifts on a single malignant narcissist in the White House, a more useful – and maybe even hopeful – analysis needs to take into account the tectonic changes that are shaking not just the foundations of politics, but the very nature of human power, as the world shifts from molecules to electrons.

History has proven that when the dominant form of energy changes, there is often a shift in the global pecking order. We are now in the midst of one such transition as the epoch of petrol, predominantly produced in the United States, Russia and Gulf states, starts to give way to an era of renewables, overwhelmingly manufactured in China. But the outcome remains contested, and the process could be ugly. The new energy order is winning the economic and technological battle – wind turbines and solar panels were already producing record-cheap electricity even before the Iran war pushed up the costs of gas and oil-fired power plants. But the old petro-interests still have political, military and financial might on their side, and they are using that to try to turn back the energy clock.

As a result, democracies across the planet are now threatened by what might be called fossil fuel fascism – an extremist political movement that breaks laws, spreads lies and threatens violence in an increasingly desperate attempt to maintain markets for oil, gas and coal that would otherwise be replaced by cheaper renewables.

Of course, there are multiple other, overlapping reasons for the war against Iran: its nuclear program, Trump’s need for a distraction from the Epstein files, and his willingness to adopt positions favourable to Israel’s Benjamin Netanyahu, Russia’s Vladimir Putin and Saudi Arabia’s crown prince, Mohammed bin Salman, to name a few.

But the wider context is that the Earth is becoming a more hostile environment for humanity. This is driving up tensions, exposing economic limits that have been ignored for centuries and redefining geopolitical realities.

Who is actually winning? In the short term, the biggest windfall from the Iran conflict has gone to companies, executives and shareholders in the US petroleum industry – a major source of campaign funding for Trump – that was struggling with low prices and a production glut at the start of the year, but is now enjoying a spectacular revenue surge while rival suppliers in the Gulf are choked by threats in the strait of Hormuz. Along with Russian and Saudi Arabian petro-companies, US energy suppliers look set to cash in for months to come, even as consumers pay more at the pumps.

At the same time, the war is forcing countries across the world to explore ways to increase their energy independence. In the next few years, that will happen by increasing domestic production of oil, gas and coal. By one reckoning, this has increased the likely 2030 output of fossil fuels by a fifth – an alarming setback for global efforts to reduce greenhouse gas emissions, and a victory for the petroleum industry and the far-right political groups it funds.

But that will not be the final reckoning of this war, which has reinforced the argument for both renewable energy and a concurrent shift in geopolitical alignments. With major oil and gas producers now led by ever more erratic and menacing authoritarian leaders, other countries are looking for alternative ways to generate power. Electric cars, for example, have never been more in demand.

The prime beneficiary is China, which suddenly appears a relative oasis of pragmatic, internationally minded diplomacy and energy independence. Beijing’s bet on renewable power and EVs over the past two decades is paying enormous dividends. Not only has this made it less reliant on fuel imports, it now has a wind, solar and battery export industry that looks set to dominate global markets for many decades to come.

Future historians may well see the Iran war as the moment the US unwittingly ceded leadership to China. If so, it would not be the first time that a change in the world’s energy matrix led to a reordering of the political hierarchy of nations. When humankind taps new power supplies, new empires rise and old ones fall. Realignments tend to be violent.

How empires fall
One of the cornerstones of geostrategic thinking since the start of the Industrial Revolution, 250 years ago, is that the country that controls energy supply controls the world. For most of the past century, that has centered on oil.

“Oil has meant mastery through the years,” wrote Daniel Yergin in his Pulitzer prize-winning book about the decisive role of energy in world politics, The Prize: The Epic Quest for Oil, Money, and Power. Yergin argues oil was a primary reason why Germany invaded the Soviet Union during the second world war, and motivated Japan to attack the US at Pearl Harbor. It was why the US launched Desert Storm to thwart Iraq’s seizure of Kuwait, which would have given Saddam Hussein control over the planet’s most abundant oil supplies. It explained former US president Barack Obama’s comment that energy was “priority number one” for his administration. Earlier this year, it was a primary justification by Trump and other US officials for invading Venezuela, which has the world’s biggest untapped reserves, and it is now a key factor in the war on Iran, which has the fourth highest supply.

Not for nothing has the old joke been revived that the “US is a very fortunate country because everywhere it goes to bring freedom it finds oil.”

But what is different today is the realisation that oil – once considered “black gold” – and other fossil fuels are now a toxic threat to the stability of the climate and the political world order. Now that cheaper, cleaner alternatives are available, the demand for these industrial fuels has to be artificially inflated, propped up by political lobbying, hefty subsidies, disinformation campaigns and military force.

The most spectacular example of an energy transition completely upturning the world order was in the mid-19th century, when the coal-powered gunships of the Royal Navy shredded the fragile coastal defences of southern China to impose a market for the British empire’s most lucrative and unethical commodity: opium. Up to that point, Beijing had been the capital of the world’s biggest economy for most of the previous 2,000 years but its historic advantage in manpower and culture was being lost to fossil-fuelled engines and the spirit-sapping drug trade. The Daoguang Emperor was so deeply in denial about the changes reshaping the world that his actions stirred rebellion among his own people. His forces were crushed by the superior firepower of an industrialised adversary, ushering in an era of western dominance that became known in China as the “century of humiliation”.

Britain’s empire also came to end – albeit it more limply – when its primary source of fuel – coal – was superseded by oil in the early-to-mid-20th century. Back then, the UK had no petroleum supplies of its own which meant it was at a disadvantage to the US. The power shift was confirmed in 1956 when Britain, France and Israel invaded Egypt to try to secure the Suez canal – a vital route for fossil fuels from the Middle East. The US refused to help this imperial adventure by the old world, thereby confirming Washington as the dominant superpower outside the Soviet bloc. Since then, it has steadily expanded its primacy in the age of oil.

That era – and that supremacy – are both now winding down, as the pendulum swings again, this time towards renewables and back to Asia. In the past decade, clean energy investment worldwide has risen tenfold to more than $2tn a year. Last year, it was more than double that of fossil fuels, and for the first time renewables overtook coal as the world’s top electricity source. “We have entered the age of clean energy,” the United Nations secretary-general, António Guterres, observed in February. “Those who lead this transition will lead the global economy of the future.”

There is only one contender for that title: China. It is impossible to understand what is happening in the US, Iran and Venezuela without looking there.

China looks to the future …
The government in Beijing has turned the greatest crisis facing humanity – climate breakdown – into an opportunity to finally lay to rest the “humiliation” of the opium war. For most of the past 30 years, it has been catching up with the west by copying its dirty, coal-driven model of industrialisation, which notoriously made it the world’s biggest carbon emitter. Now, though, it is leapfrogging its rivals on clean energy with astonishing results. For the past two years, China’s carbon emissions have been flat or falling, raising hopes of a historical turning point in the curve of global emissions.

Last year, the amount of wind and solar it had under construction was double the rest of the world combined, helping China to reach an installed capacity of 1,200GW six years ahead of the government’s schedule. Trump absurdly claimed he had not been able to find any wind turbines in China, though in reality the country now has more than the next 18 countries combined.

But the biggest success story is solar, which is now so cheap, abundant and efficient that its generation capacity in China has just overtaken coal for the first time. Meanwhile, petrol and diesel use is also falling because EVs account for more than half of car sales in China.

The country is also utterly dominant in supplying overseas markets with renewable technology. The top four wind turbine makers in the world are all Chinese. It is a similar story of majority market share for the manufacture and export of photovoltaic cells and EVs. China also controls supply of critical minerals, essential for batteries, AI datacentres and hi-tech military equipment.

Last year, more than 90% of the investment growth in China came in the renewables sector. Thanks to these trends, cleantech from China is affordable in many global south nations. The same is happening with battery technologies, which are spreading the market for electric cars to countries in Africa and South America.

China’s clean energy sector is now worth 15.4tn yuan ($2.2tn/£1.6tn), bigger than all but seven of the world’s economies. With every year that passes, this business becomes more important to the state, accounting for 11.4% of China’s gross domestic product last year, up from 7.3% in 2022.

To be sure China is simultaneously the world’s biggest investor in coal and far from a democracy in its domestic politics, but the scale of its renewable industry means Beijing has a growing stake in the success of global climate negotiations. Not just because it is good for the planet, but because it makes solid business sense.

The turbulence caused by the US-Israeli assault on Iran only strengthens its sales pitch.

… while the US goes backwards
While the rest of the world looks for an exit ramp off the exhaust-fumed highway on to a cleaner, electrified, 21st-century freeway, Trump has pulled a U-turn and is accelerating back towards 20th-century smoke stacks without so much as a glance in the rearview mirror.

On the same day he was sworn in for his second term in the White House, Trump signed an executive order withdrawing the US from the 2015 Paris Agreement, as he did in his first term.

But this time he has also announced that he will quit the entire UN Framework Convention on Climate Change, the Cop process that was put in place at the 1992 Earth Summit. In February his administration repealed the 2009 “endangerment finding”, the core US government determination that greenhouse gases threaten public health that has been the legal basis for almost all federal climate regulation over the past 17 years. Without it, power plants, factories and carmakers will have a freer pass to pollute the air and heat the atmosphere.
The US state has essentially been captured by a business group that puts its own interests above those of the nation

Trump has filled the Department of Energy and the Environmental Protection Agency with dozens of former oil industry employees. He has declared a “national energy emergency”, which was a cue for businesses to mine, drill and frack like never before. He has signed at least 20 more executive orders meant to incentivize fossil fuel extraction. And he has granted $18bn in new and expanded tax incentives for fracking, drilling and pumping.

His administration halted the closure of 17GW worth of power plants that use coal, the dirtiest and most polluting fuel, and ordered the US defense department to procure billions of dollars of coal power. Industry executives have shown gratitude with donations and a trophy for the “undisputed champion of beautiful clean coal” given to Trump by the CEO of the largest coal company in the US.

He also used the military – and the federal budget – to assist the petroleum industry by seizing control of Venezuela. (It is not a coincidence that Venezuela and Iran are both key partners to China.) Domination of this country will give the US more influence in setting global oil prices. But for whose benefit? Donald Trump said US companies would tap these fossil fuels and “start making money for the country”. In fact, most of the first billion dollars in revenue was initially stashed offshore in a bank account in Qatar.

After Trump ordered the bombing of Iran, he initially celebrated the spike in crude values: “When oil prices go up, we make a lot of money,” he said, though the “we” evidently did not include the majority of Americans suffering from higher gas costs.

Meanwhile, his government has accelerated the phaseout of tax credits for renewable projects, which has had a chilling effect on the sector with $22bn in clean energy projects cancelled and wind power investment down to its lowest level in a decade. “My goal is to not let any windmill be built. They’re losers,” Trump told oil executives in January.

By the end of last year, downsizing and more than 60 project cancellations began to shake investor confidence in US renewables.

Three dollars of clean energy investment were abandoned for every one dollar announced in 2025, according to an analysis by the E2 thinktank. The record number of factory closures and project reversals eliminated 38,031 clean energy manufacturing jobs – more than in the previous three years combined. Worst hit was the EV and battery sectors, which each accounted for more than $21bn in lost investment. This eroded the global competitiveness of US carmakers at the worst possible moment when EV sales had just started to overtake those of petrol vehicles.

Oil in command
The US state has essentially been captured by a business group that puts its own interests above those of the nation.

During the last presidential election, Trump invited 20 oil executives, including the heads of Chevron, Exxon and Occidental, to his club in Mar-a-Lago, Florida, saying he would scrap barriers to drilling, resume gas exports and reverse car pollution controls if they helped to bankroll his race for office. Mike Sommers, president and CEO of the American Petroleum Institute, said Trump’s legislative agenda “includes almost all of our priorities”.

Big oil poured a record $450m into the campaigns of Trump and Republicans in 2024, according to the watchdog group Climate Power. Then after Trump won, the industry gave another $19m to his inauguration fund. And even though Trump is forbidden by the constitution from running for a third term, fossil fuel money continues to pour into his Pac, including $25m from oil pipeline company Energy Transfer Partners and its CEO, Kelcy Warren.

And these are only the publicly disclosed funds. Nobody knows how much secretive “dark money” is flowing through other channels, though it has been revealed that Trump accepted a gift of a Boeing 747-8 luxury jetliner from the oil-rich Qatari royal family. The similarly wealthy Abu Dhabi royals bought a $500m stake in the Trump family’s cryptocurrency business.

The White House argues the focus on fossil fuels is necessary for national security and “energy dominance”. Increasing supply, it insists, will bring down costs, trim inflation and stimulate the economy.

Ten or more years ago, this might have been true. But today solar and wind prices have fallen below coal and ushered in what the International Energy Agency calls “the cheapest electricity in history”. The Trump administration is denying US consumers these benefits. Electricity prices in the US rose more quickly than inflation even before the Iran war. Meanwhile, the hidden costs of fossil fuels, such as pollution and respiratory diseases hurt national productivity and add to the burden on taxpayers.

In the long term, it is hard to imagine a more self-harming policy. Between 2021 and 2024, the renewable sector was generating jobs 50% faster than the rest of the labour market. This is high-value employment with long-term prospects compared with jobs in the oil and gas extraction industry, which are projected to decline by 6% over the coming decade.

Most disturbingly, all of this creates a perverse incentive for the US to use its economic, diplomatic and military power to stimulate the market for fossil fuels.
The championing of fossil fuels depends on a big lie – that the US and the planet can return to an era powered by climate-destabilising fuels

Last September, Chris Wright, the US energy secretary and a former fracking magnate, went on an arm-twisting tour to Brussels and Milan to press the EU to increase its purchases of US liquified natural gas (LNG). In February, Wright stepped up the pressure, claiming there was “a climate cult” in Europe, after EU leaders agreed to reduce their energy dependency on the US in response to Trump’s talk of seizing Greenland.

The threats did not stop there. Wright said the US would leave the International Energy Agency unless it abandoned its goal of net zero carbon emissions and stopped referring to “climate stuff” in its analyses of renewables, fossil fuels and carbon emissions.

This explains why huge sums of money are now being channelled from the US to support far-right groups in Europe, who are campaigning on anti-net zero platforms.

The championing of fossil fuels depends on a big lie – that the US and the planet can return to an era powered by climate-destabilising fuels. It’s a lie that relies on threatening or downsizing scientific academies, truth-seeking news media and unfiltered online debate.

The US president has repeatedly called the climate crisis a “hoax”, “scam” or “bullshit”, ushering in what has been called a period of “climate hushing” (or “green hushing”). Essentially, this is a campaign to stifle public debate so that people are less aware of the dangers posed by fossil fuels and the benefits of cheaper renewable alternatives. His administration has announced plans to close down or slash budgets for the world’s leading science institutions. Meanwhile the president’s billionaire backers are helping to choke the climate debate in the media. After Elon Musk bought Twitter, now X, scientists report the social media algorithm is suppressing their voices and encouraging misinformation about the climate. Earlier this year, the Washington Post, owned by Jeff Bezos, slashed the size of the paper’s award-winning climate reporting team.

The Trump administration’s obsession with fossil fuels will dwarf the economic and human toll of the Iran war. The world’s hottest 10 years ever recorded have all occurred in the past decade. Extreme weather is increasingly out of control, pushing up food prices, prompting migration and sparking conflict. Many scientists fear the planet is heating faster than expected, pushing oceans, the Amazon, coral reefs, the Arctic and Antarctic ever closer to the point of no return. And worse is to come, with an El Niño expected to supercharge global temperatures in the coming year.

Throughout the world, a huge majority of people want their governments to take stronger action on the climate crisis. So fossil ambitions run up against popular opinion, which means its proponents have to rely on force to maintain control – with more oppression at home and more war overseas, an ever more extreme and violent response to ever more extreme and destructive weather.

All of this makes China suddenly seem a more appealing and serious alternative. This was not previously the case. Beijing used to project the opposite of soft power. Its political system is repressive. It continues to lock up journalists, artists and dissidents. But today there is a narrowing gap in its human rights record compared with the US, while its energy policy is increasingly aimed at halting climate breakdown rather than making it worse.

China, of course, is also building up its military and investing in energy-sucking artificial intelligence – though at much lower levels than the US. This is not to say its intentions are any more benign. But think of it, from the perspective of Europe, Africa or Latin America: do you choose China, which is becoming a modern electrostate that engages in multilateral decision making, and can supply you with more energy autonomy? Or do you pick the US, which appears to be trying to turn the clock back to the 20th century when it comes to fossil fuel domination, and the 19th century when it comes to imperial gunship diplomacy?

Former allies of the US are lining up to visit Beijing and seek balancing relationships with China. Canada’s prime minister, Mark Carney; Britain’s Keir Starmer; Germany’s Friedrich Merz have made the journey in the past few months. Narendra Modi, the prime minister of longtime rival India, visited last year, as did the EU president Ursula von der Leyen. As he did with Trump, Xi has accommodated them from a position of more global authority than any Chinese leader has had since the opium war.

The fightback
You have to grasp at straws until your fingers bleed to find positives in the US government these days, but at least the Trump administration has clearly delineated the battle lines on the future of the planet.

On one side are the vast majority of the world’s people, all of nature, 99.9% of climate scientists and the fastest-growing, greatest-job-creating chunk of the global economy: the clean energy sector.

On the other is Trump and the primary producers and users of fossil fuels, who need enormous taxpayer subsidies to stay profitable and ever greater violence to quell public unease and global opposition. The latter controls the US state – including the military and ICE – and is allied with much of the money of Silicon Valley’s power-thirsty datacentre companies. (The US and its tech oligarchs may be hoping that AI can replace energy as the country’s source of global power – but China is keeping apace on that front, too.)

Will this fossil fuel fascism, that billionaire-backed campaign to crush a green transition by any means necessary, hold back the tide of clean energy autonomy? It cannot be ruled out. The closest thing the world has to a planetary spokesperson recently warned of the dark forces threatening the future of all life on Earth: “Some fossil fuel interests remain hellbent on slowing progress, spreading disinformation, pretending the transition is unrealistic or unaffordable,” Guterres, the UN secretary-general, said last month. “Let’s tell it like it is; the world’s addiction to fossil fuels is one of the greatest threats to global stability and prosperity.”

But the climate will not be bending to the will of even the best funded, most heavily militarised and artificially idealised US administration nor the King Canute at its centre.

Most people realise this. Much of Europe is resisting. China is defiant. India is moving fast on solar. Brazil is pushing a roadmap away from fossil fuels. Colombia just hosted the First International Conference on Transitioning Away from Fossil Fuels. Even in the US, people want their government to do more to prevent global heating.

The fightback is under way in the courts, at elections and on the streets. The most populous and fast-growing state economy of California already gets two-thirds of its electricity from renewables and has pledged to continue expanding wind and solar. Even Texas, the historic home of the US oil industry but also the centre of wind power, is bristling at Maga-led attempts to curtail renewables. Michigan is suing oil companies for delaying funds. Judges in Virginia, New York and New England, including a Trump appointee, have issued injunctions against government efforts to halt windfarm projects. The US president’s popularity has plummeted and polls suggest his party will lose heavily in the autumn midterms – if they are allowed to go ahead without Maga interference.

Despite the deep pockets of the backers of fossil fuel fascism, their resistance will be futile. The movement could become more deranged and violent in its efforts to turn back the clock, suppress dissent and thwart China’s rise. But ultimately, the planet will have the final say.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Trump cometeu um erro estratégico no Estreito de Ormuz. Agora o Irão tem um ás de trunfo na mão - e está a jogá-lo nestas negociações


O Irão parte para as negociações de um acordo de paz com os Estados Unidos levando consigo a sua maior cartada. O controlo do Estreito de Ormuz é, na ótica do especialista em Direito Internacional Francisco Pereira Coutinho, um verdadeiro "ás de trunfo" que pode ajudar o regime a ter uma alavanca nas negociações que aí vêm, enquanto um frágil cessar-fogo se tenta aguentar.

Até lá, as últimas informações apontam que o Irão vai permitir a passagem de um máximo de 15 embarcações por dia através do Estreito de Ormuz, informou a agência de notícias estatal russa TASS, citando uma fonte iraniana não identificada. Esta informação, que ainda não foi confirmada por nenhum outro órgão de comunicação, surgiu depois de Hamid Hosseini, porta-voz da União dos Exportadores de Petróleo, Gás e Produtos Petroquímicos do Irão, ter declarado ao Financial Times que o Irão ia cobrar taxas de portagem - pagas em criptomoedas - a todos os petroleiros que passem pelo estreito e avaliar cada embarcação, podendo estar em cima da mesa um preço de dois milhões de dólares por embarcação.

"O estreito não está aberto, os navios não estão a passar. O Irão mantém o controlo do Estreito de Ormuz. E essa é uma mensagem importante que está a ser passada", afirma Francisco Pereira Coutinho à CNN Portugal. "Há muita informação contraditória, por isso não sabemos bem o que é verdade sobre o acordo. Mas até agora o que nós sabemos é que estão a passar menos navios do que antes do cessar-fogo ter sido anunciado. É uma arma de pressão que o Irão tem sobre a economia mundial e isso significa também sobre os EUA." 

Esta escalada da situação no Estreito de Ormuz "mostra a derrota estratégica de Trump", afirma Francisco Pereira Coutinho. Antes da intervenção americana, "o estreito estava aberto, o Irão nunca tinha feito isto. E agora o Irão tem esta arma nas negociações". Talvez por saber isso, o presidente dos Estados Unidos vai continuando com as ameaças - a última das quais prometeu a abertura da via, seja com a participação de Teerão ou não, o que soa a uma ameaça clara, até porque o regime dos aiatolas está a fazer um "pobre trabalho" nesta parte.

Embora o cessar-fogo tenha sido anunciado no final de terça-feira, o dia seguinte registou o menor tráfego de navios através do Estreito de Ormuz desde o final de março, segundo dados da Kpler, empresa global de rastreamento de navios. Apenas cinco navios graneleiros transitaram pelo estreito, sem que nenhum petroleiro ou gasoduto fizesse a travessia, informou a empresa. Isto mesmo significa que um dos grandes objetivos da reabertura continua por cumprir, já que o petróleo continua sem sair do Golfo Pérsico, zona que antes de 28 de fevereiro produzia um quinto dos barris diários.

Os armadores ocidentais não arriscam passar por ali enquanto não são conhecidos mais pormenores sobre se e como o estreito poderá ser reaberto, sem que nenhuma embarcação estivesse atualmente a aventurar-se pela travessia, com exceção das ligadas ao Irão. “O cessar-fogo pode criar oportunidades de trânsito, mas ainda não oferece total segurança marítima”, disse a Maersk, a segunda maior empresa de transporte marítimo do mundo, acrescentando que continuaria a adotar uma “abordagem cautelosa”.

Esta quinta-feira de manhã, o ministro da Indústria dos Emirados Árabes Unidos, Sultan al Jaber, afirmou que havia 230 navios "carregados de petróleo e prontos para zarpar", mas impedidos de o fazer devido ao bloqueio do estreito - uma faixa de água com apenas 34km de largura entre o Irão e Omã, proporciona a passagem do Golfo Pérsico para o Oceano Índico e é a principal rota para cerca de um quinto do fornecimento mundial de petróleo e outros bens vitais, incluindo fertilizantes.

O Irão praticamente fechou o porto desde o início do conflito, no final de fevereiro, o que levou a uma redução da oferta e a um aumento dos preços globais do petróleo. Al Jaber exigiu que todas as embarcações tenham liberdade de navegar pelo corredor sem restrições, porque "nenhum país tem direito legítimo a determinar quem pode passar e sob que condições". Exigiu ainda que os produtores de energia "possam restabelecer a produção em larga escala de forma rápida e segura".

O trânsito no Estreito de Ormuz é uma das questões mais difíceis que os negociadores dos EUA e do Irão enfrentam na sua tentativa de transformar um cessar-fogo temporário numa paz duradoura. O presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou na noite de terça-feira que o cessar-fogo estava condicionado à “abertura completa, imediata e segura do Estreito de Ormuz pela República Islâmica do Irão”. Por outro lado, um comunicado do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irão enumerou 10 pontos que constituem a base para as negociações com os EUA, incluindo um novo “protocolo para a passagem segura” pelo estreito, em coordenação com as forças armadas iranianas.

Quinze navios por dia é "uma gota no oceano"
Quinze navios por dia é “uma gota no oceano”, afirma António Costa Silva, um dos melhores especialistas de petróleo em Portugal. Antes da guerra passavam 91 navios, o que representa 20 milhões de barris de petróleo. Os “5 ou 6 milhões de barris” que vão ser transportados nestes 15 navios “não resolvem a situação, o efeito no mercado será muito limitado”, antevê o também antigo ministro da Economia à CNN Portugal. “Continuamos a ter um grande défice e, se isto se confirmar, vamos viver durante muito tempo debaixo desta asfixia.”

“Nesta altura há uma grande apreensão sobre a solidez do acordo de paz, que essencialmente sofre de dois escolhos”, diz António Costa Silva. “Por um lado o Líbano, perceber se faz ou não parte do acordo, Israel não quer que faça, a única coisa que Israel quer é que não haja acordo, e isso dá uma grande imprevisibilidade aos mercados; o outro é o estreito de Ormuz, a proibição de circulação é uma violação total do Direito Internacional, concretamente da convenção da ONU sobre o Direito do Mar, segundo o qual as passagens naturais devem estar livremente abertas à navegação. Isto é a subversão total das regras.” Sendo assim, perante todas as incertezas que existem sobre o futuro na região, prevê-se que os preços do crude e dos produtos refinados continuem a “aumentar bastante”, como aconteceu já na quinta-feira. 

Cerca das 13:00 de quinta-feira em Lisboa, o preço do barril de Brent do Mar do Norte, para entrega em junho, subiu 3,09 dólares. Apesar disso, a previsão para a próxima segunda-feira aponta para uma descida no preço dos combustíveis, ainda que os valores se mantenham bem acima dos registados antes da guerra.

Vários operadores do setor disseram ao Financial Times acreditar que a situação nos próximos dias se assemelhará ao que se passou nas últimas semanas, com um pequeno número de navios autorizados pelo Irão a ter permissão para passar por uma rota específica, até porque a Guarda Revolucionária Islâmica já admitiu que existe o risco de alguns locais terem minas marítimas. Esta autorização tem estado grandemente restrita às embarcações que têm relações com o Irão e que não têm qualquer ligação com os EUA, Israel ou os países do Golfo que serviram de base aos ataques.

Quem vai aceitar pagar para passar no Estreito de Ormuz?
Na quarta-feira surgiu a informação de que o Irão estava a cobrar cerca de dois milhões de dólares em criptomoedas aos navios que quisessem passar o Estreito. “O Irão precisa de monitorizar o que entra e sai do estreito para garantir que estas duas semanas não são utilizadas para a transferência de armas”, justificou Hamid Hosseini, porta-voz da União dos Exportadores de Petróleo, Gás e Produtos Petroquímicos do Irão, associação que trabalha em estreita colaboração com o governo, citado pelo Financial Times. “Tudo pode passar, mas o procedimento levará tempo para cada navio, e o Irão não tem pressa”, acrescentou.

Hosseini afirmou que qualquer petroleiro que passasse pelo estreito deveria enviar um e-mail às autoridades a informar sobre a sua carga. Após o envio, o Irão informaria o valor da taxa a pagar em criptomoedas, explicando que a tarifa é de um dólar por barril de petróleo, acrescentando que os petroleiros vazios podem passar livremente. Os petroleiros no Golfo Pérsico receberam, na quarta-feira, uma emissão de rádio a alertar que seriam alvos de ataques militares, a não ser que obtivessem aprovação prévia das autoridades iranianas. “Se alguma embarcação tentar transitar sem permissão, será destruída”, dizia a transmissão, em inglês, segundo uma gravação partilhada com o Financial Times.

As decisões sobre as condições de passagem pelo estreito são tomadas pelo Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irão. As declarações de Hosseini sugerem que o Irão exigirá que todos os petroleiros utilizem a rota norte, junto à sua costa, o que levanta dúvidas sobre se as embarcações ligadas a países ocidentais ou do Golfo estarão dispostas a arriscar a travessia.

Permitir que o Irão continue a controlar esta importante via navegável será provavelmente algo inaceitável para os países do Golfo, incluindo a Arábia Saudita, o Catar e os Emirados Árabes Unidos. Isto também levanta questões para a OPEP+, o grupo de produtores de petróleo, com os analistas a avisarem que a entrega do controlo do Estreito de Ormuz ao Irão pode alterar fundamentalmente o equilíbrio de poder dentro da organização, dando a Teerão um potencial poder de veto sobre as exportações de membros concorrentes ou rivais.

Entretanto, e para complicar ainda mais a situação, "Donald Trump sugeriu, meio a brincar, a possibilidade de criar uma espécie de joint venture entre vários países para explorar o Estreito de Ormuz, transformando-o numa oportunidade de negócios", lembra Francisco Pereira Coutinho. Embora não se possa confiar completamente nas palavras de Trump, há que sublinhar que esta proposta é uma violação do Direito Internacional. "Historicamente, os EUA sempre se interessaram em manter os estreitos abertos. Foi isso que aconteceu durante a guerra entre o Irão e o Iraque. Por isso, este tipo de declarações causa alguma preocupação. Os países do Golfo obviamente não podem aceitar uma coisa destas, é uma forma de extrair dinheiro a estes países, eles precisam do estreito para continuar as suas atividades económicas", afirma o especialista em relações internacionais. "Mesmo que os EUA se desinteressem do estreito, os países da região vão recorrer à força para garantir a sua reabertura."

Impor uma taxa aos navios que navegam pelo crucial Estreito de Ormuz "criaria um precedente perigoso" e os países não devem impedir a liberdade de navegação, disse a agência marítima da ONU na quinta-feira. "Não existe nenhum acordo internacional que permita a introdução de taxas para a travessia de estreitos internacionais. Qualquer taxa deste tipo criará um precedente perigoso", disse um porta-voz da Organização Marítima Internacional (OMI) da ONU, citado pela Reuters. 

"Como é que isto se resolve? O Irão vai trocar este controlo sobre estreito pelo quê? Pelo levantamento de sanções?", pergunta Francisco Pereira Coutinho. A resposta a estas questões ainda não é clara, diz, recordando que o estreito não são só águas territoriais do Irão, são também de Omã.

Abrir o estreito pela força é "uma operação praticamente impossível"
A outra solução possível, na qual Trump continua a insistir, é realizar uma operação militar com o único objetivo de abrir o Estreito de Ormuz. “Sob o ponto de vista militar, essa é uma operação muito complicada”, considera o tenente-general Marco Serronha. “Além disso tenho sérias dúvidas que uma operação militar que tenha algum grau de eficácia no que toca ao objetivo de abrir o estreito à navegação. Não é possível controlar totalmente o estreito, não basta controlar as margens para dizer que a passagem é segura. Podem deixar passar os navios e escoltar os petroleiros, mas a qualquer momento o Irão pode lançar um míssil ou pode haver minas”, sublinha o especialista militar à CNN Portugal. 

Não sendo possível garantir a segurança do estreito, "as companhias de navegação internacionais não arriscam passar. Aliás, nem são as companhias, são as seguradoras", diz Marco Serronha. “Portanto, tenho muitas dúvidas sobre a eficácia de uma intervenção desse género e os EUA sabem isso, Trump pode dizer o que quiser, mas os seus chefes militares sabem isso. É uma operação praticamente impossível.”

“Uma solução possível e mais imediata seria os EUA conquistarem a ilha de Kharg e usarem isso como moeda de troca”, sugere Marco Serronha. “Sem a ilha, o Irão não consegue escoar o petróleo e o gás e seria obrigado a negociar com os EUA.”

Na quinta-feira, o secretário-geral da NATO, Mark Rute, afirmou que a NATO estará disposta a desempenhar um papel numa possível missão no Estreito de Ormuz, caso tenha condições para tal. "Se a NATO puder ajudar, obviamente não há razão para não ajudar", disse Rutte numa conferência em Washington. "No que diz respeito ao Estreito de Ormuz, o que estamos a ver sob a liderança de Keir Starmer e destes 34 países a trabalhar em estreita colaboração com os EUA é, naturalmente, um compromisso partilhado, um acordo de que não podemos aceitar que este comércio seja fechado. Precisa de ser aberto. E quando for aberto, precisamos de o manter aberto", acrescentou.

Nota pessoal
Os EUA nunca assinaram a Convenção  das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. O Irão assinou, mas ainda não ratificou. Mesmo não sendo parte do tratado, os EUA utilizam as definições da Convenção para navegar em águas internacionais, o que cria uma situação diplomática irónica onde defendem as regras de um "clube" ao qual decidiram não pertencer oficialmente.