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terça-feira, 12 de maio de 2026

Novo relatório revela que escravidão moderna no Reino Unido atingiu níveis recorde

A escravatura no Reino Unido atingiu níveis recorde e a expectativa é que se agrave na próxima década, alertou a comissária independente do governo para o combate à escravatura.

Esse número aumentou mais de 50% nos últimos cinco anos e está a acontecer com pessoas cada vez mais jovens

De acordo com o número de denúncias encaminhadas para o mecanismo nacional de encaminhamento, que avalia as potenciais vítimas de escravatura e lhes oferece apoio, os números quase duplicaram nos últimos cinco anos, passando de 12.691 denúncias em 2021 para 23.411 em 2025, o número mais elevado alguma vez registado.

No seu relatório, publicado na terça-feira, Eleanor Lyons afirmou que este aumento não se deve apenas à melhor detecção da escravatura, mas também ao agravamento das condições no Reino Unido e em todo o mundo.

“A pobreza, a instabilidade global, os conflitos, a deslocação global de pessoas e a rutura das rotas migratórias seguras estão a criar um fluxo crescente de vulnerabilidades que os traficantes exploram rapidamente”, lê-se no relatório, Antecipando a Exploração: Uma Análise Baseada em Projeções Futuras. O relatório reuniu pesquisas compiladas por mais de 50 especialistas de diferentes áreas, incluindo segurança pública, governo, sociedade civil e organizações sem fins lucrativos, e é a primeira análise abrangente e prospetiva sobre como a escravatura moderna e o tráfico humano provavelmente evoluirão no Reino Unido na próxima década.

Lyons afirmou que, a menos que o Reino Unido tome medidas, a situação poderá agravar-se ainda mais com a utilização da inteligência artificial para ampliar e profissionalizar a exploração; o aumento do uso de trabalho digital em esquemas fraudulentos – como atrair pessoas para fraudes de investimento e romance; e a integração de criptomoedas em modelos de tráfico.

O relatório também expressou preocupação com o crescimento contínuo das plataformas da economia gig, o trabalho coercivo em áreas como a agricultura, a construção civil e a mineração, e o aumento da escravatura reprodutiva, como a recolha forçada de óvulos e a gestação de substituição.

Lyons instou os ministros a aumentar o financiamento das unidades policiais especializadas para que possam combater a exploração, processar mais empresas que exploram ou escravizam trabalhadores e lançar uma campanha nacional para ajudar o público a reconhecer e denunciar a exploração. Pediu ainda ao governo que melhore o atendimento às vítimas.

O relatório alertou que, sem medidas urgentes, as redes criminosas tornar-se-ão mais astutas, menos visíveis e mais difíceis de desmantelar. “A escravatura e as formas mais terríveis de exploração estão a tornar-se mais disseminadas neste país e a evoluir mais rapidamente do que conseguimos reagir”, disse Lyons.

“À medida que a exploração se torna mais complexa e oculta, impulsionada pela tecnologia e pela instabilidade global, irá espalhar-se ainda mais e tornar-se mais difícil de travar, a menos que ajamos agora”.

Um relatório de avaliação separado, também publicado na terça-feira pelo influente grupo de peritos em tráfico de seres humanos do Conselho da Europa, o GRETA, destacou um aumento acentuado do número de potenciais vítimas de tráfico.

Embora os especialistas tenham elogiado uma série de medidas tomadas pelas autoridades do Reino Unido nos últimos anos para combater o tráfico de seres humanos, como a de não responsabilizar as vítimas por actos criminosos que foram forçadas a cometer pelos seus traficantes, instaram o Reino Unido a adoptar uma série de outras medidas para alinhar plenamente as leis, políticas e práticas de combate ao tráfico de pessoas do país com a Convenção sobre a Acção contra o Tráfico de Seres Humanos.

O relatório destacou a necessidade de mais recursos, maior priorização e melhor coordenação entre as forças policiais e outras agências, bem como o reforço das investigações financeiras.

Acrescentou ainda que são necessárias mais salvaguardas para prevenir o tráfico de pessoas para exploração laboral, bem como o tráfico de pessoas de grupos vulneráveis ​​– incluindo crianças, migrantes, requerentes de asilo e pessoas sem-abrigo.

Um porta-voz do Ministério do Interior afirmou: “A escravatura moderna é um flagelo global que abusa e explora pessoas para obter lucro. Estamos empenhados em rever o sistema de combate à escravatura moderna para reduzir as oportunidades de abuso do sistema, garantindo, ao mesmo tempo, que temos as proteções adequadas para quem delas necessita.

Estamos a trabalhar com sobreviventes corajosos para fundamentar o desenvolvimento de políticas e melhorar o processo de identificação de vítimas. Também tomámos medidas imediatas para reduzir o atraso nos processos, garantindo que as vítimas obtêm decisões rápidas e o apoio necessário para reconstruir as suas vidas.”

Se você suspeita de algum caso de tráfico humano, é vital denunciar.
Portugal: Ligue 808 257 257 (Linha de Apoio à Vítima), contacte a PJ/PSP local ou ainda a AIMA 

sábado, 9 de maio de 2026

Anúncios de emprego falsos: qual é a probabilidade de ser enganado na Europa?


Quase um em cada três recrutadores é vítima de roubo de identidade, de acordo com uma nova investigação, com a Geração Z a ser vítima de anúncios falsos de oportunidades de emprego que "parecem demasiado escassas para deixar passar", apesar de serem claros sinais de alerta.

Os anúncios de emprego falsos tornaram-se um problema grave na Europa, com novos casos registados regularmente em todo o continente.

Nos últimos anos, a Europol e os governos nacionais têm vindo a exortar os candidatos a emprego a serem mais cautelosos, num contexto de aumento acentuado das tentativas de fraude, sobretudo em plataformas online.

À medida que a IA e os deepfakes tornam as ameaças ainda mais difíceis de detetar, o LinkedIn tem estado a investigar a questão e descobriu que quase um em cada três responsáveis por recrutamento no Reino Unido e na Alemanha foi vítima de roubo de identidade com o objetivo de enganar potenciais candidatos.

A investigação foi realizada com um total de 4.000 pessoas e partilhada com o Europe in Motion.

Como é que os falsos empregadores conduzem as suas burlas?
A principal tática utilizada pelos burlões consiste em pedir às vítimas que paguem despesas adiantadas, especialmente por empregos no estrangeiro que não existem.

As desculpas são variadas e vão desde verificações de antecedentes a taxas de pedido de visto e custos de formação e de integração, bem como de equipamento como telefones e computadores portáteis.

Cerca de 43% dos candidatos a emprego da Geração Z no Reino Unido afirmaram que quase foram vítimas de burlas de emprego em geral, enquanto 31% afirmaram que foram efetivamente burlados.

Os números são ligeiramente inferiores, mas ainda assim significativos, na Alemanha, com cerca de um em cada três candidatos da Geração Z a afirmar que esteve perto de ser vítima de uma burla.

Quem são as vítimas mais frágeis?
As preocupações com a falta de emprego aumentam ainda mais o risco.

Apesar de os jovens candidatos terem frequentemente fortes competências digitais, muitos ainda ignoram os sinais de alerta devido ao medo de perder oportunidades e ao elevado custo de vida, o que faz com que a Geração Z tenha 3,7 vezes mais probabilidades de ser burlada do que a Geração X, de acordo com a investigação do LinkedIn.

Este facto é também consistente com outros relatórios que indicam que os jovens são o grupo "favorito" para serem vítimas de burla.

"Em toda a Europa, estamos a assistir a um ambiente de contratação mais difícil, com uma diminuição das contratações em muitos mercados europeus. Este facto pode deixar os candidatos a emprego mais vulneráveis", disse ao Europe in Motion Oscar Rodriguez, vice-presidente de "Product Trust" no LinkedIn.

"A urgência pode levar os candidatos a emprego a não verem alguns dos sinais de alerta mais comuns, e é por isso que estamos a investir em ferramentas e proteções que ajudam os membros a tomar decisões mais informadas sobre a credibilidade, e a acrescentar passos para encorajar os membros a fazer uma pausa e a refletir durante a procura de emprego".

Atualmente, mais de 100 milhões de profissionais e mais de 700.000 responsáveis de recrutamento verificaram os seus perfis no LinkedIn.

Que sinais de aviso deve procurar?
Para além de quaisquer pagamentos adiantados ou da falta de contexto suficiente ao longo da comunicação, os candidatos devem estar atentos a pessoas que solicitem informações sensíveis no início do processo de seleção e que o apressem excessivamente a tomar uma decisão.

Acima de tudo, é crucial navegar no site da empresa para verificar a sua legitimidade, bem como a existência da vaga e do responsável em questão, antes de passar à fase de candidatura.

Na sua investigação, o LinkedIn constatou que quase metade dos recrutadores no Reino Unido e na Alemanha foram contactados proativamente por candidatos a emprego para verificar se uma função era genuína.

A grande maioria dos responsáveis (67%) admite, no entanto, que a criação de confiança se tornou mais difícil.

É por isso que "muitos também estão a ser mais transparentes sobre o emprego, a empresa e o processo desde o início", diz Rodriguez, porque sabem que os candidatos estão a analisar o alcance com mais cuidado.

Onde é que as pessoas estão mais em risco e qual é o impacto financeiro?
Outro estudo, efetuado pela empresa de tecnologia financeira Revolut, analisou a escala das burlas de emprego relativamente a todos os casos de fraude comunicados à empresa em vários países europeus.

Embora a taxa não seja tão elevada como a de outros tipos de fraude, como as relacionadas com compras ou investimentos, as candidaturas falsas continuam a representar uma parte significativa.

A Roménia está em primeiro lugar, com quase um quinto de todas as fraudes, seguida da Espanha (12%) e do Reino Unido (8%), enquanto a maioria dos países ronda os 4% ou 5%.

No entanto, o impacto financeiro relativo a todas as fraudes é muito maior do que o simples número de casos poderia sugerir, 10% em média nos países inquiridos.

Nos casos mais graves, a fraude no emprego representa 20% de todas as perdas financeiras relacionadas com a burla em Portugal, 19% no Reino Unido, 18% em Itália e 16% na Alemanha e na Roménia.

sábado, 11 de abril de 2026

A Internacional Reacionária - de olho nas legislativas da Hungria



Como lhe chamou Macron, tem uma agenda clara: destruir o estado de direito, a democracia, a igualdade de direitos entre mulheres e homens, a sociedade baseada no conhecimento e a imprensa livre. A UE é o principal alvo porque é a entidade mais forte que coloca em causa o modelo de poder da Internacional Reacionária e a geopolítica assente no princípio de quem tem a moca maior manda mais. 
Os aspirantes a ditadores, Ventura, Orbán, Le Pen, Salvini, Fico, Abascal que têm servido de caixas de ressonância de Putin e de Trump, conhecem bem o seu papel: à primeira oportunidade é mandar a UE abaixo. Depois será muito mais simples abater nações isoladamente para os confins do autoritarismo, de sociedades em que as mulheres se resumirão a cozinheiro-parideiras, os homossexuais serão considerados doentes, em que a ciência será substituída pelo fanatismo religioso e onde a imprensa será um mero papagaio do querido líder.
Esta semana foram todos apoiar o maior corrupto da Europa, Orbán, que está em maus lençóis para se manter no poder. Mas segundo consta, Orbán já tem um plano para ser presidente depois do mandato de primeiro-ministro expirar. Só espero que a Europol tenha tempo suficiente para lhe meter as mãos em cima assim que acabar a imunidade política. 

A Conexão Budapeste-Lisboa: O Fim do "Manual Orbán" para o Chega?
A sobrevivência política de Viktor Orbán está, pela primeira vez em dezasseis anos, seriamente ameaçada pelo fenómeno ascendente de Péter Magyar e do seu partido Tisza. No entanto, o abalo sísmico desta possível queda não se limita às margens do Danúbio; as réplicas far-se-ão sentir com intensidade na sede do Chega, em Lisboa. Embora André Ventura tenha construído uma narrativa de autonomia nacionalista, o partido é um beneficiário direto do ecossistema iliberal que Orbán exportou para a Europa. A questão central que paira sobre esta aliança é o dinheiro: houve, afinal, fluxos financeiros diretos de Budapeste para Lisboa?

Até ao momento, as investigações do Tribunal de Contas e de consórcios de jornalismo de investigação, como o OCCRP, não encontraram o chamado "fumo da arma" — uma transferência bancária explícita de fundos estatais húngaros para as contas oficiais do Chega. Contudo, a influência financeira manifesta-se de forma muito mais subtil e eficaz através da chamada "Via dos Think Tanks". O Mathias Corvinus Collegium (MCC), uma instituição financiada com milhares de milhões de euros pelo Estado húngaro, tem servido como o braço logístico desta internacional de direita. Através do financiamento de conferências de luxo, viagens internacionais e programas de "formação política" para quadros da direita radical, o dinheiro de Orbán garante uma infraestrutura de apoio que partidos como o Chega dificilmente sustentariam sozinhos. É, na prática, um financiamento indireto de uma guerra cultural coordenada.

A esta rede de influência soma-se o "Mistério do Dubai" e a aquisição da Euronews. A revelação de que fundos ligados ao círculo íntimo de Orbán foram utilizados para comprar órgãos de comunicação internacionais através de estruturas offshore levantou suspeitas legítimas sobre a existência de canais semelhantes para apoiar campanhas digitais e propaganda a favor de aliados europeus. Se o dinheiro não entra diretamente no partido, ele parece circular no ar, financiando o ecossistema mediático que sustenta as suas mensagens.

Pairando sobre tudo isto está a "Sombra de Putin". Orbán tem sido frequentemente descrito como o cavalo de Troia do Kremlin na União Europeia, bloqueando sanções e mantendo uma ambiguidade estratégica que serve os interesses russos. Para André Ventura, esta ligação é um "abraço de urso": embora o Chega tente manter uma fachada pró-Ucrânia para não alienar o eleitorado português, a sua integração no grupo parlamentar Patriotas pela Europa coloca-o sob o mesmo teto financeiro e estratégico que os aliados mais próximos de Moscovo. Se Péter Magyar vencer na Hungria e decidir abrir os arquivos do Fidesz, o que poderá ser descoberto sobre o apoio logístico a partidos "irmãos" no sul da Europa poderá ser politicamente fatal.

O fim do modelo de Orbán significaria, para o Chega, a perda da sua principal validação institucional. Orbán era a prova viva de que era possível ser "anti-sistema", capturar o Estado e governar contra as diretrizes de Bruxelas. Sem o manual de instruções de Budapeste e sem a rede de segurança financeira e política que o grupo de Orbán providencia no Parlamento Europeu, Ventura ficaria isolado. O Chega pode não ser um satélite direto de Budapeste, mas se o regime húngaro cair amanhã, o partido português perderá não apenas um aliado, mas as "vias verdes" de influência e os recursos invisíveis que ligam Lisboa a Budapeste e, por via indireta, a Moscovo.

Conclusão: existe  uma convergência de interesses. Orbán quer aliados que fragilizem a coesão da UE, e partidos como o Chega beneficiam do apoio logístico e da validação internacional que Orbán (enquanto chefe de governo) lhes confere. É um jogo de "soft power" e alinhamento ideológico que, por vezes, é tão eficaz quanto o dinheiro direto.

Saber mais:
1. Hungria cada vez mais próxima da Rússia e dos EUA vai a votos depois de uma campanha marcada por acusações de manipulação
2. Porque é que esta eleição na Hungria interessa e é diferente das outras
3. A conexão evangélica e a Internacional Reacionária


4. A ascensão do autoritarismo reacionário global

sexta-feira, 6 de março de 2026

Europol alerta para aumento do risco de terrorismo na UE


A Europol avisou esta sexta-feira, 6 de março, que o nível de ameaça terrorista e de extremismo violento no território da UE é atualmente considerado elevado, devido à guerra no Médio Oriente, e advertiu que o risco de ciberataques também deverá aumentar.

Numa resposta por escrito enviada à Lusa, uma porta-voz da Europol indica que a guerra no Médio Oriente “tem repercussões imediatas no crime grave e organizado e no terrorismo na União Europeia (UE)”.

“O nível de ameaça terrorista e de extremismo violento no território da UE é considerado elevado. Tal pode manifestar-se através da radicalização interna por parte de indivíduos isolados ou de pequenas células auto-organizadas”, refere a porta-voz da Agência da UE para a Cooperação Policial.

A Europol adverte que “a rápida disseminação ‘online’ de conteúdos polarizadores pode acelerar os processos de radicalização a curto prazo” entre membros de diásporas que residem atualmente em solo europeu.

“Os grupos aliados (‘proxies’) do Irão também podem envolver-se em atividades desestabilizadoras na UE”, afirma a Europol, referindo-se designadamente ao chamado “Eixo da Resistência do Irão”, composto por grupos como o Hezbollah, Hamas ou os Huthis, ou a “redes criminosas que atuam sob a direção das instituições de segurança iranianas”.

“As suas operações podem incluir ataques terroristas, campanhas de intimidação e financiamento do terrorismo, bem como ciberataques, desinformação ou esquemas de fraude ‘online’”, afirma a agência.

Além da ameaça de terrorismo, a Europol refere também que “o risco de ciberataques direcionados a infraestruturas e empresas ocidentais também pode aumentar caso o conflito se mantenha”.

“Redes criminosas e terroristas vão aproveitar o contexto de informação mais intenso para desenvolver fraudes e desinformação com recurso à inteligência artificial. Os alvos mais prováveis na UE incluem localizações ligadas ao conflito, como instalações diplomáticas, alvos vulneráveis ou infraestruturas públicas ou críticas”, indica.

A agência refere, contudo, que até ao momento “não há impacto direto num aumento do tráfico de imigrantes”.

Esta terça-feira, em conferência de imprensa em Bruxelas, o comissário europeu para a Administração Interna, Magnus Brunner, foi questionado sobre como é que a UE tenciona responder a um eventual aumento das ameaças terroristas no continente, tendo respondido que a primeira prioridade da Comissão Europeia é garantir a segurança dos seus cidadãos.

“Estamos a fazer várias coisas, como garantir controlos fronteiriços robustos, que foram reforçados recentemente com o nosso sistema de informação Schengen, uma base de dados comum da UE na qual os Estados-membros podem criar alertar para casos relacionados com terrorismo”, referiu.

O comissário europeu indicou ainda que o novo sistema de entrada e saída da UE, que está a ser gradualmente implementado desde outubro, prevendo-se que esteja totalmente operacional em abril, também está a dar resultados.

“Já nos permitiu deter 500 pessoas consideradas como uma ameaça à União Europeia. Por isso, acho que estamos no caminho certo, mas, claro, manter-se vigilante é sempre importante”, referiu. [Fonte]

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Serão as agências de classificação do carbono a chave para evitar o greenwashing?


Com a União Europeia a retomar a utilização de créditos de carbono como um mecanismo para ajudar as indústrias e empresas europeias a compensar as suas emissões de gases com efeito de estufa, a Euronews falou com Sebastien Cross, cofundador e diretor de inovação da agência de classificação de carbono BeZero Carbon, sediada em Londres.

Fundada em 2020, a agência tem como principal função avaliar os créditos de carbono e analisar a probabilidade de estes compensarem uma tonelada de carbono, um método análogo à forma como as agências de notação financeira avaliam a probabilidade de incumprimento de obrigações e instrumentos financeiros.

"O que fazemos como agência de notação é avaliar os créditos", disse Cross. "Não fornecemos as metodologias, não acreditamos. Analisamos os créditos e dizemos qual é a probabilidade de estes créditos refletirem efetivamente uma tonelada de carbono emitida, o que todos eles são rotulados como fazendo".

O mercado de carbono da UE27, o Regime de Comércio de Licenças de Emissão (CELE) permite às empresas europeias comprar e vender licenças para cobrir as suas emissões. Até 2020, o bloco utilizou créditos de carbono, então conhecidos como créditos do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), que permitiam às nações mais ricas ganhar créditos investindo em projetos sustentáveis nos países em desenvolvimento.

A utilização dos MDL foi abandonada na sequência de acusações de "greenwashing", de crédito excessivo e de desvio dos esforços genuínos de redução das emissões a nível interno. No entanto, com o advento da lei da UE relativa ao objetivo climático para 2040, que visa reduzir as emissões de gases com efeito de estufa em 90%, o bloco está novamente a considerar a utilização de créditos de carbono internacionais para reduzir 5% das suas emissões.

Mercados de carbono em maturação
O cofundador da agência BeZero afirmou que os governos que utilizam classificações estão a procurar ajuda para avaliar a credibilidade dos créditos que estão a adquirir ao abrigo do artigo 6.

"Vimos o interesse dos governos em usar as classificações como uma ferramenta enquanto procuram projetar como desejam usar os créditos de carbono em seus sistemas de conformidade", disse ele. "Obviamente, as discussões na UE são muito interessantes nessa perspetiva".

Cross observou que muita coisa mudou nos últimos cinco anos, incluindo a mentalidade sobre o risco e o desempenho real dos créditos de carbono.

"A agência de notação está a fornecer aos compradores e investidores uma medida de risco que lhes permite compreender a dinâmica subjacente real", afirmou, referindo que há cinco anos os mercados de carbono não tinham qualquer métrica de risco associada.

Cross afirmou que os mercados de carbono estão a tornar-se mais maduros, o que considerou um desenvolvimento positivo, dada a crescente atenção política aos créditos de carbono e ao seu papel na descarbonização.

A UE, o Brasil, a China, a França, a Alemanha e o Reino Unido, entre outros, aprovaram recentemente um compromisso global para os mercados de carbono, à margem da cimeira sobre o clima COP30. Esta iniciativa assinala uma ampla intenção de desenvolver mecanismos de fixação de preços do carbono e um mercado mundial do carbono.

Os créditos de carbono são emitidos em dois sistemas distintos: o mercado de cumprimento e o mercado voluntário.

Os governos gerem o mercado de conformidade, no qual certas empresas têm de comprar licenças oficiais que lhes permitem libertar uma determinada quantidade de CO2 ao abrigo de leis e limites rigorosos.

O mercado voluntário, por sua vez, permite às empresas comprar créditos de projetos ambientais, como a proteção das florestas ou a energia limpa, para reduzir a sua pegada de carbono.

No entanto, como explicou Cross, com a UE aberta a incluir os créditos de carbono como instrumento de descarbonização e a integrar o artigo 6.º do Acordo de Paris nos seus objetivos, será a UE ou os Estados-membros a fixarem o preço dos créditos.

"Precisamos de preços de carbono mais elevados para manter o incentivo à descarbonização", afirmou Cross. "E a preocupação é que, se os créditos forem permitidos no estrangeiro, o preço do carbono é reduzido, o que não incentiva as empresas a investir nas coisas necessárias para descarbonizar a nível nacional".

Também partilhou preocupações sobre as implicações da integração de créditos de carbono no CELE, uma vez que a UE27 está atualmente a ponderar a inclusão de remoções permanentes de carbono no seu âmbito.

"Existe um risco percetível de que isso reduza o preço do CELE, uma vez que os créditos serão mais baratos", disse Cross.

O problema da validação
Num sistema de crédito de carbono, os países ou empresas que emitem mais gases com efeito de estufa têm de comprar mais licenças de crédito. Caso emitam menos emissões, podem vendê-las, criando assim um sistema de comércio de licenças.

"O crédito de carbono considera uma atividade, ou melhor, uma intervenção, que está a reduzir ou a remover carbono e tenta creditar o carbono que foi reduzido ou removido", explicou Cross.

Estas intervenções podem ser baseadas na natureza, como a florestação e a proteção de mangais e turfeiras, ou não baseadas na natureza, como a utilização de tecnologias de captura e armazenamento de carbono.

"No que respeita às intervenções não baseadas na natureza, temos tido historicamente muitos créditos de energias renováveis. Se os créditos se referem ao facto de a energia marginal que produzimos ser proveniente de energias renováveis e não da rede, estamos a reduzir a intensidade de carbono", afirmou Cross.

Sempre que os créditos de carbono são emitidos, as empresas que os utilizam são obrigadas a tornar pública uma determinada quantidade de informação.

"Quando analisamos projetos emitidos, podemos começar com a informação disponível ao público. Depois, contactamos o promotor ou o proprietário do projeto se algumas informações não forem claras, precisarem de ser clarificadas ou estiverem em falta", explicou Cross.

"O papel da agência de notação é fornecer o máximo de informação e dados que pudermos para questionar a exatidão desses números. E isso reflete-se depois na nossa classificação principal".

Desempenho dos créditos de carbono
Cross disse à Euronews que existe uma variação considerável entre a eficácia dos diferentes créditos de carbono e que avaliar o seu verdadeiro desempenho é muitas vezes impossível.

"Não se pode observar exatamente o que estão a conseguir porque existem fatores como as linhas de base contrafactuais, em que não se pode observar, apenas se tenta estimar", disse. "Nunca há dados perfeitos por trás do número de créditos que são emitidos".

No caso da captura direta de dióxido de carbono da atmosfera, por exemplo, existe muita informação disponível para avaliação, porque os sistemas tecnológicos determinarão a quantidade de carbono que está a ser separada de outros componentes do ar e transportada. No entanto, ainda é necessário determinar um valor de referência para avaliar o impacto que estes esforços estão realmente a ter.

"É a parte mais controversa de um projeto de crédito de carbono - tentar perceber o que teria acontecido se o projeto não fosse para a frente - porque é isso que é preciso creditar entre essas duas linhas", disse Cross.

Esta é uma das razões pelas quais a UE teve dificuldades com a integração do MDL, explicou, porque vários projectos alegaram falsamente que estavam a fazer algo que levaria a evitar um certo número de emissões.

"A principal diferença agora é a disponibilidade de ferramentas como as nossas, que permitem compreender realmente o que está a ser alcançado ao nível do projeto", acrescentou, referindo-se a imagens de satélite e tecnologias mais avançadas do que qualquer outra disponível anteriormente.

domingo, 26 de outubro de 2025

Ecologia, Democracia Participativa e Cultura: antídotos contra o extremismo



Sim, existe extrema-esquerda violenta na Europa, com grupos anarquistas e de esquerda radical envolvidos em ataques (principalmente sabotagem, incêndio) em vários países.

Na história recente da Europa, a maioria dos grupos terroristas, da Irlanda à Espanha, da Alemanha à Itália foram todos de extrema-esquerda. E continua viva e activa. Pelo que também têm de ser combatida com a mesma força e veemência que a extrema-direita.

Muitos ataques atribuídos à extrema-esquerda não visam necessariamente vítimas humanas ou grandes danos, mas sim alvos simbólicos (infraestruturas, empresas) — o que dificulta comparações directas com terrorismo de outra natureza. Dizem-se anti-capitalistas, anti-globalização, anti- indústria fóssil.

Os dados mais robustos sobre “crimes de ideologia” (fora da classificação de terrorismo) são menos sistematicamente agregados a nível europeu para extrema-esquerda.

No entanto, em termos de terrorismo global ou ataques massivos, nem sempre esses grupos têm a mesma escala de operação que outras ameaças extremistas (como jihadistas).

As instituições europeias (como a RAN, Europol e o Conselho da Europa) já reconhecem esse risco e trabalham para monitorá-lo e combatê-lo.

Existiram muitos grupos de extrema-esquerda radical também na América do Sul. Contudo foram extintos e alguns formaram partido democrático, como o Movimento de Participação Popular ( MPP ), que é um partido político de esquerda uruguaio , fundado por ex-guerrilheiros do Movimento de Libertação Nacional-Tupamaros . O MPP faz parte da Frente Ampla , seu líder é Yamandú Orsi e, antes de sua morte, José Mujica . O MPP hoje em dia concorre às eleições com o nome Espacio 609.

Porém e centrando em Portugal, a extrema-esquerda terrorista não existe. A violência política mais grave (bombas, atentados) foi, na verdade, de origem de extrema-direita, como as FP-25 (Forças Populares 25 de Abril) nos anos 1980 — embora estas misturassem retórica de esquerda revolucionária com práticas paramilitares, e sejam frequentemente classificadas como um grupo terrorista de matriz “nacional-revolucionária”. 

Hoje, a extrema-esquerda portuguesa manifesta-se de forma pacífica e democrática, através de partidos como: Bloco de Esquerda (BE) Partido Comunista Português (PCP). Ambos participam no sistema parlamentar e rejeitam a luta armada.

Recuando aos anos quentes do PREC falemos do Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP) essa sim foi uma organização terrorista de extrema-direita portuguesa ativa, cujos membros ainda estão vivos: José Miguel Júdice e Diogo Velez Mouta Pacheco de Amorim (actual vice-presidente da Assembleia da República e guru do Chega). Em 1962 Diogo Amorim centra a sua actividade política na teorização e combate em prol do integracionismo, insurgindo-se contra a política de autonomia, então protagonizada pelo ministro do Ultramar, Adriano Moreira. Distancia-se também da perspectiva adoptada por Cunha Leal. Em 1971 é um dos ferozes críticos da política assumida por Marcelo Caetano no plano das autonomias ultramarinas. A obra nesse ano editada, “Na Hora da Verdade”, ia-lhe valendo nova passagem pela prisão: em Conselho de Ministros, o então Ministro do Ultramar Silva Cunha, propôs a sua prisão. Os restantes ministros apoiaram. Opôs-se o ministro César Moreira Baptista por considerar que isso teria efeitos contraproducentes. Marcelo Caetano decidiu a favor de Moreira Batista. Fernando Amorim não desistiu e fundou o PND, populista de direita, eurocéptico e extremamente conservador.

O livro de Miguel Carvalho já em sexta edição "Quando Portugal ardeu" aborda as relações de parte da direita tradicional com o MDLP, Plano Maria da Fonte e quejandos.

Portanto, o balanço geral é que a extrema-direita é tão preocupante neste momento como a extrema-esquerda. Há os dois populismos, claro.

O avanço da extrema-direita é um sintoma de crises profundas — sociais, ecológicas e culturais. Quando as pessoas se sentem inseguras, isoladas ou sem futuro, crescem o medo e a desconfiança. É nesse terreno que o extremismo floresce.

A ecologia e a democracia oferecem caminhos opostos: cultivam empatia, interdependência e responsabilidade partilhada. Educar para o pensamento crítico, reforçar a solidariedade local e comunicar com clareza são formas de resistência cívica. Contra narrativas de extrema-direita e extrema-esquerda.

Proteger a Terra e cuidar das pessoas são faces da mesma luta. Só uma sociedade justa, informada e ambientalmente consciente poderá travar o ódio e reconstruir a confiança.

O Contexto actual
A extrema-direita em ascensão na América do Norte, na Europa, Rússia, China, em Israel e mais além encontra muito do seu apelo em histórias sobre o que está para vir. Os desejos nativistas de proteger o Ocidente do declínio cultural e da "substituição" demográfica, embora ostensivamente retrógrados, encontram a sua urgência na ansiedade de que em breve será demasiado tarde para mudar de rumo, misturada com a esperança de um confronto político. Para os verdadeiros crentes, o futuro é uma fonte de colapso iminente, que aguçará identidades, hierarquias e limites, algo para o qual se deve acelerar. A nova direita identitária de hoje está menos preocupada com o brilho caloroso do passado imaginado do que com as novas possibilidades que se reservam "no rescaldo do caos", como descreveu o activista francês da nova direita Guillaume Faye.

A direita radical e terrorista já existe. O terrorismo de direita moderno apareceu pela primeira vez na Europa Ocidental na década de 1980 após a dissolução da União Soviética. Os terroristas de direita pretendem derrubar governos e substituí-los por governos nacionalistas ou de orientação fascista. O núcleo desse movimento inclui skinheads neofascistas, hooligans de extrema-direita, e jovens simpatizantes que acreditam que o Estado deve se livrar de elementos estrangeiros para proteger os cidadãos ditos "legítimos". Senão travarmos a tempo, a cegueira destes novos extremistas de direita vai ser um luta armada para impôr o seu propósito fascista. 

O terrorismo de direita é terrorismo motivado por uma variedade de ideologias e crenças de extrema-direita, pós-apocalíptica (só a tecnologia supra-nacionalista "salvará" a humanidade) como já referi anteriormente em conluio com a os extremistas de direitas mais tradicionais como o anticomunismo, neofascismo, neonazismo, racismo, xenofobia, homofobia, transfobia, contra a "islamização" em curso e uma oposição clara à imigração. Esse tipo de terrorismo tem sido esporádico, com pouca ou nenhuma cooperação internacional. 

Contudo, em ambos movimentos o conceito de seita existe. Uma espécie de clã, de um primitivismo atroz, quase teológico. Que abala todos os nossos valores de humanismo, de ajuda mútua, valores democráticos e extinção da mesma. Realmente esta corja, com intentos irracionais e antidemocráticos, vai chegar o apelo à força, ao armamentismo. Esta mensagem está ganhar terreno desde inícios de Janeiro deste ano por fulanos como Elon Musk (o homem mais rico do mundo), que já chegou a dizer que empatia ameaça a civilização. Ele está errado. Ele é essa ameaça.

A confluência dos extremistas de direita tecno-futurista com o extremismo de direita mais tradicional são uma ameaça contemporânea mas evitável. Porém é urgente o seu combate e desejamos que voltem para as cavernas e ao seu silenciamento/cancelamento antes que seja demasiado tarde.

terça-feira, 7 de maio de 2024

Documentário: A Dark Web - O mercado negro, cibercrime, AlphaBay e pornografia infantil

Data de estreia: 10 de julho de 2019 (Singapura)

Este documentário explora o submundo da Dark Web, o comércio no mercado negro, o cibercrime e os meandros de redes criminosas reais, focando-se em dois grandes casos: a ascensão e queda do mercado ilegal AlphaBay e a desmontagem de uma rede internacional de pornografia infantil na Indonésia, o grupo Lolly Candy.

Abaixo encontras o resumo detalhado de toda a narrativa e das explicações técnicas do documentário, traduzido para português de Portugal.

Parte 1: O Mercado Negro Digital e o Caso AlphaBay

O Conceito e o Tamanho do Mercado

O documentário abre com o anúncio, por parte do Departamento de Justiça dos EUA, do desmantelamento do AlphaBay, um mercado que faturava entre 300 a 500 milhões de dólares por ano. Especialistas em segurança informática explicam que a Dark Web preencheu uma lacuna de mercado: se alguém tem um produto ilegal para vender, não o pode listar numa plataforma de comércio eletrónico comum. A Dark Web tornou-se o local ideal devido ao anonimato.

O que se vendia no AlphaBay

A plataforma funcionava de forma idêntica ao eBay ou à Amazon, mas para produtos ilícitos. Através de categorias simples e avaliações de clientes, os utilizadores compravam:

  • Diplomas universitários falsificados;

  • Passaportes (como do Reino Unido ou Países Baixos) e cartas de condução europeias;

  • Estupefacientes (como cocaína colombiana pura);

  • Armas de fogo de alto calibre, incluindo espingardas AK-47.

Os vendedores partilhavam frequentemente avaliações sobre técnicas de envio camuflado (como esconder os produtos dentro de caixas de CDs). A grande inovação destes mercados foi elevar o pequeno traficante local a uma escala global, permitindo-lhe interagir com centenas de milhares de potenciais clientes em todo o mundo, sem a necessidade de encontros presenciais perigosos.

A Mente por trás do Império: Alexandre Cazes

A investigação policial determinou que o administrador principal utilizava o pseudónimo Alpha02. O homem por trás da conta era o canadiano Alexandre Cazes. Ele começou a sua carreira digital a vender credenciais roubadas na internet superficial (Clear Web). Com uma forte mentalidade de programador e empresário, Cazes construiu a plataforma e acabou por ignorar a gravidade dos crimes à medida que o dinheiro entrava em massa. O documentário refere que muitos destes administradores começam por motivos ideológicos (contra a regulação do Estado), mas acabam viciados no poder e na adrenalina de gerir um império ilegal.

O Erro Fatal e a Captura na Tailândia

Muitos cibercriminosos consideravam a Tailândia um "paraíso", porque o país não tinha leis robustas de interceção de dados para segurança nacional, ao contrário de países europeus ou de Singapura. Cazes estabeleceu-se em Banguecoque, ostentando uma vida de luxo com carros desportivos como Lamborghinis.

No entanto, o seu erro fatal ocorreu anos antes de fundar o AlphaBay: Cazes utilizou uma conta de e-mail antiga do Hotmail que continha o seu nome real nos cabeçalhos de mensagens de boas-vindas do fórum. Essa pegada digital permitiu ao FBI e às autoridades internacionais ligarem a sua identidade real ao pseudónimo Alpha02.

A polícia realizou uma operação tática e prendeu Cazes enquanto ele estava ativamente ligado à plataforma como administrador no seu portátil. Se ele tivesse fechado o computador, o disco encriptado tornar-se-ia inacessível; ao apanhá-lo em flagrante, a polícia obteve a prova definitiva. A polícia manteve o site online durante algum tempo, simulando uma fraude de saída (exit scam), para forçar os criminosos a migrarem para outras plataformas controladas pelas autoridades. O AlphaBay era cerca de dez vezes maior do que o histórico Silk Road.

Parte 2: A Tecnologia da Dark Web e das Criptomoedas

Como Funciona o Anonimato

Para que um mercado como o AlphaBay existisse, foi necessária a junção de duas tecnologias que criaram a "tempestade perfeita":

  1. A Rede Tor: Em vez de uma ligação direta entre o utilizador e o site, a rede Tor faz a ligação passar por múltiplos intermediários (nós), mascarando a identidade e a localização. Os sites não usam domínios comuns (como .com ou .net), mas sim sequências aleatórias de caracteres que terminam em .onion. Originalmente, o Tor foi desenvolvido pelo Gabinete de Investigação Naval dos EUA para permitir comunicações anónimas de espiões, sendo hoje também usado por jornalistas em países com forte censura política.

  2. As Criptomoedas: O Bitcoin e outras moedas focadas na privacidade (como o Monero) fornecem o anonimato financeiro. Tradicionalmente, os criminosos eram apanhados seguindo o rasto do dinheiro bancário. Com as criptomoedas, transações multimilionárias cruzam o globo sem intermediários financeiros tradicionais, tornando quase impossível associar uma carteira digital a uma pessoa real sem investigações cruzadas complexas.

Parte 3: O Caso Lolly Candy e o Combate à Exploração Infantil

A Descoberta da Rede Humana

A segunda metade do documentário foca-se num crime de natureza diferente e altamente sensível na Indonésia. Através de patrulhas cibernéticas e denúncias de grupos de mães civis, a polícia descobriu um grupo na rede social Facebook chamado Lolly Candy, dedicado à partilha de pornografia infantil.

O grupo começou camuflado como uma comunidade de entusiastas de anime e videojogos, mas rapidamente escalou para a partilha massiva de imagens e vídeos de abusos sexuais contra menores, desde bebés de 9 meses até crianças de 10 anos. Quando o Facebook aumentava a censura, os administradores migravam os membros para grupos fechados e encriptados no WhatsApp e Telegram, envolvendo redes que ligavam mais de 46 países.

O Perfil do Administrador Principal (Wawan)

O criador e administrador principal era um jovem indonésio chamado Wawan. Com uma infância marcada por dificuldades económicas e isolamento social (introversão), ele passava os dias em cibercafés, onde aprendeu informática e descobriu o submundo da internet.

Wawan confessou que o seu envolvimento inicial foi por curiosidade e que a gestão do grupo lhe dava um sentimento de orgulho, liderança e poder internacional que nunca teve na vida real. Ele tentava monetizar os cliques do grupo através de links com publicidade (AdsFly) para pagar os seus dados de internet, enquanto outros membros trocavam conteúdos por recompensas simples, como cartões de carregamento de telemóvel. Apesar de negar inicialmente os abusos em tribunal alegando falta de exames médicos, a investigação provou que Wawan não só distribuía os ficheiros, como também abusava diretamente de crianças na sua própria vizinhança.

O Perfil Psicológico dos Agressores e o Processo de Aliciamento

Especialistas e psicólogos detalham o perfil destes criminosos:

  • Grooming (Aliciamento): Apresentam-se geralmente de forma simpática, calorosa e eloquente. Não parecem ameaçadores, o que faz com que ganhem rapidamente a confiança das crianças e dos pais.

  • Fatores de Origem: A pedofilia pode derivar de desvios no desenvolvimento psicossexual ou de fatores ambientais, como o agressor ter sido ele próprio vítima de abusos na infância (um trauma psicológico não tratado que gera um ciclo de repetição). O próprio Wawan revelou ter sofrido abusos de um vizinho aos 7 anos.

  • O Perigo Oculto: O documentário alerta que este crime não escolhe género; embora a maioria dos agressores sejam homens, também existem mulheres envolvidas que procuram satisfação e controlo.

As Regras de Segurança dos Criminosos e a Operação Policial

Para evitar serem banidos pelos algoritmos das redes sociais, os membros do grupo usavam códigos (como a sigla "CP") e instruíam a colocação de símbolos (emojis) para tapar partes explícitas nas fotos públicas. Para os conteúdos sem censura, utilizavam servidores externos e técnicas para que os links não ficassem azuis (hiperligações ativas), contornando os filtros de segurança. Exigiam também que os membros provassem a autenticidade dos ficheiros escrevendo datas ou nomes específicos nos papéis antes de fotografar, garantindo que o material era real e recente.

A polícia de cibersegurança indonésia infiltrou-se no grupo fingindo ser um membro ativo. Para evitar que os criminosos apagassem as provas permanentemente através da encriptação ponto a ponto dos telemóveis, as autoridades planearam uma operação cirúrgica e simultânea.

O erro que tramou Wawan foi ter tirado uma fotografia a uma criança na rua onde, inadvertidamente, aparecia a matrícula de um veículo e um ângulo específico da fachada da sua casa. Com o apoio da equipa de analistas do Facebook e do FBI, a polícia localizou e prendeu simultaneamente os quatro administradores principais em localizações diferentes, apreendendo telemóveis e dispositivos de armazenamento com milhares de ficheiros criminosos.

Conclusão e Alerta Social

O documentário encerra com um apelo à vigilância digital por parte dos pais e das comunidades. Com a internet superficial a representar apenas cerca de 5% de toda a rede global, as plataformas anónimas e encriptadas continuam a ser um desafio constante para as forças policiais internacionais, exigindo uma evolução tecnológica contínua para combater o cibercrime organizada e proteger os mais vulneráveis.

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Alisher Usmanov, um dos homens mais ricos do mundo, é suspeito de movimentações financeiras ilícitas


A Polícia da Alemanha esteve nesta terça-feira, 8, nos escritórios do banco suíço UBS Group, em Frankfurt e Munique, numa investigação de lavagem de dinheiro que tem como alvo o bilionário Alisher Usmanov, nascido no Uzbequistão.

“O objeto da investigação é a suspeita inicial de lavagem de dinheiro contra um empresário da Federação Russa. As investigações não visam o banco em questão ou seus funcionários”, informou a promotoria de Frankfurt.

As buscas fazem parte de uma investigação sobre o uso de empresas com sede no exterior para disfarçar fluxos financeiros ilícitos. Há meses, Usmanov está na mira de uma força-tarefa especial criada pelo governo alemão para investigar a legalidade dos ativos de oligarcas russos no país.

O banco suíço UBS não comentou as buscas realizadas nos escritórios da instituição.

Alisher Usmanov

Usmanov, 69 anos, é um dos homens mais ricos do mundo, com uma fortuna estimada em mais de US$ 19,5 biliões, obtida por meio de um império empresarial com participações em algumas das maiores empresas de mineração, indústria e telecomunicações da Rússia.

Além de ser o proprietário do maior superiate já construído, o Dilbar de US$ 600 milhões, seus ativos incluem participações nos clubes de futebol Arsenal e Everton, da liga inglesa. Ele foi um dos principais acionistas da Apple, do Facebook e do Twitter.

Depois que a Rússia invadiu a Ucrânia, em fevereiro, o bilionário foi um dos primeiros empresários russos a ser atingido por sanções ocidentais, devido aos laços estreitos com o Kremlin. A União Europeia o descreve como “um dos oligarcas favoritos de Vladimir Putin”.

Introducing a project to track down and catalogue the vast wealth held outside Russia by oligarchs and key figures close to Russian President Vladimir Putin.

quarta-feira, 13 de julho de 2022

O estado do ódio em Portugal em 2021


Passaram-se cinco meses desde que o relatório Estado do Ódio: Extremismo de direita na Europa 2021 foi publicado e vários factos vieram confirmar o que foi escrito na sua seção portuguesa: a entrada do Chega no parlamento está a contribuir para a normalização do discurso de ódio no espaço público e a minar os princípios da democracia portuguesa.

Em fevereiro foi publicado o relatório Estado do Ódio: Extremismo de direita na Europa, documento encomendado pela Hope Not Hate, do Reino Unido, pela Expo, da Suécia, e pela Fundação António Amadeu, da Alemanha. A edição contou com uma seção sobre o crescimento da extrema-direita em Portugal.

A seção relacionou a entrada do Chega no parlamento, em outubro de 2019, com a normalização do discurso de ódio, do racismo, da xenofobia, da misoginia, da homofobia e transfobia. Mas também do populismo penal, do autoritarismo, da desinformação como arma política e do securitarismo.

A resposta do partido de extrema-direita e de André Ventura foi a que se esperava: acusar os autores do relatório de terem sido pagos pelo governo, de serem peças num plano conspiratório para ilegalizar o Chega. Lançou acusações infundadas e difamatórias para não responder ao conteúdo de um relatório que o responsabiliza pela normalização do discurso de ódio. É uma já conhecida estratégia sua, e da extrema-direita em geral: lançar suspeitas e fazer-se de vítima.

Nos últimos cinco meses, a prática política de André Ventura e do Chega veio confirmar ainda mais o que foi escrito no relatório: a entrada da extrema-direita no parlamento representa um perigo para a democracia, contamina-a, deteriora o debate público e põe em causa direitos, liberdades e garantias fundamentais.

Vamos a factos decorridos nos últimos cinco meses. Ventura atacou por diversas vezes jornalistas nas redes sociais, lançou uma espécie de fatwa a um professor que o criticou numa aula e foi condenado em tribunal por ofender a honra e imagem de uma família de moradores racializados do Bairro da Jamaica, no Seixal, num debate presidencial.

A Comissão de Carteira Profissional de Jornalista acusou num relatório a campanha presidencial de Ventura de ter sido "notório e foi notícia o clima de ameaças à liberdade de expressão, de informação e de manifestação vivido na campanha do candidato". "As ameaças não foram apenas presenciais. Nas redes sociais, o tom usado por alguns apoiantes e por, pelo menos, um dirigente do Chega é passível de ser enquadrado como crime. Nas redes sociais, o discurso de ódio é uma constante e algumas jornalistas chegaram a receber ameaças diretas", lê-se no relatório.

Um dos visados pelo próprio presidente do Chega foi o jornalista da Visão Miguel Carvalho. O grande repórter tem vindo a publicar uma série de investigações sobre o partido de extrema-direita e André Ventura acusou-o nas redes sociais de ser comunista e de perseguir o Chega. Foi uma clara tentativa de intimidação, foi mais um sinal do que aí viria: meses depois, dirigentes e militantes do Chega ameaçaram de morte os jornalistas Pedro Coelho, José Silva e Andres Gutierrez depois de terem publicado uma investigação sobre o partido.

O crescimento do discurso de ódio também ficou bem espelhado nestes últimos cinco meses. Mais de 32 mil pessoas assinaram uma petição a exigir a deportação do ativista antirracista Mamadou Ba, do SOS Racismo. A deputada Joacine Katar-Moreira queixou-se de ser atacada por polícias nas redes sociais. A jornalista afrodescendente Conceição Queiroz, da TVI, foi vítima de racismo em direto.

Os alertas vindos de fora sucederam-se. A comissária para os Direitos Humanos do Conselho da Europa, Dunja Mijatović, alertou em março deste ano para o “nível crescente de racismo e da discriminação persistente” em Portugal e instou as autoridades e a sociedade civil a se "intensificar a resposta ao racismo e aos crimes e discurso de ódio, através da adoção e implementação de um plano efetivo, baseado num conhecimento profundo da situação".

Os partidos da direita democrática continuaram a normalizar a extrema-direita. Depois de o PSD se coligar com o Chega nos Açores, foi a vez do partido de Francisco Sá Carneiro, do CDS-PP, do Partido Democrático Republicano (PDR), do Aliança e do Partido da Terra (MPT) apoiarem a candidatura da comentadora Suzana Garcia à Câmara Municipal da Amadora nas autárquicas de 26 de setembro deste ano.

O próprio Chega admitiu no passado que Garcia poderia estar no partido, desempenhando provavelmente protagonismo mediático por as suas ideias e da força política de extrema-direita coincidirem em vários pontos, principalmente no que ao populismo penal diz respeito.

Numa entrevista ao apresentador Manuel Luís Goucha, que é presidente da comissão de honra da candidatura autárquica, Suzana Garcia não teve pudor em dizer: "espero mesmo que o Bloco de Esquerda seja exterminado", tentando depois emendar a mão comparando o incomparável, o partido de esquerda com o Chega.

A extrema-direita portuguesa em 2020
Desde o fim do Estado Novo, em 1974, que Portugal não tinha um partido de extrema-direita no Parlamento. A eleição de André Ventura, líder do Chega, nas legislativas de 2019 rompeu com essa tendência e desde aí que o discurso de ódio (ciganofóbico, anti-LGBTQI+, xenófobo) se tem normalizado na política portuguesa para níveis nunca vistos, criando um clima propenso à violência racista e de extrema-direita.

Essa normalização atingiu um novo patamar em 2020. Houve em agosto uma concentração de extrema-direita, com tochas e máscaras brancas, em frente à sede da associação SOS Racismo, a principal organização antirracista em Portugal. Também se registaram pichagens racistas e xenófobas em escolas secundárias e faculdades, na sede do SOS Racismo e em centros de acolhimento de refugiados. E um centro comunitário em Lisboa foi, também em agosto, alvo de ataque por três elementos identificados pelos ativistas como sendo neonazis, algo sem precedentes nas últimas décadas.

Situações que levaram a Rede Europeia Contra o Racismo (ENAR) a alertar para o “aumento muito preocupante de ataques racistas da extrema-direita em Portugal”, frisando que os ativistas antirracistas “não estão seguros” e pedindo uma “resposta urgente das autoridades portuguesas”.

A infiltração de extrema-direita nas forças de segurança e militares voltou a ser um tema de destaque nacional em 2020, depois de em 2018 o Conselho da Europa ter alertado para este fenómeno.

O racismo em Portugal ficou bem espelhado numa série de casos de violência em 2020, com destaque para três. Em março, uma mulher negra foi violentamente agredida por um polícia por não ter o passe de transporte e, em julho, o ator negro Bruno Candé foi assassinado numa rua na periferia de Lisboa por um idoso enquanto lhe gritava “volta para a senzala”.

O terceiro caso que marcou o ano foi o do assassínio por espancamento e tortura do cidadão ucraniano Ilhor Homeniuk por inspetores do Serviço Estrangeiros e Fronteiras (SEF) no aeroporto de Lisboa, também em março. Os inspetores tentaram encobrir o caso. A prática de violação de direitos humanos nas instalações do aeroporto já tinha sido sinalizada, sem que nada tenha sido feito.

E, por fim, um tribunal de Lisboa confirmou a condenação de oito polícias de uma esquadra por sequestro agravado, ofensas à integridade física qualificada, injúria, denúncia caluniosa e falso testemunho contra seis jovens negros de um bairro periférico de Lisboa. Foi a primeira vez em Portugal que um processo criminal contra polícias teve como pilar motivações racistas e o crime de tortura. De acordo com um estudo de 2020 da Universidade de Coimbra, 75% das queixas de racismo praticado por polícias nos últimos dez anos foram arquivadas e apenas 30% seguiram para o Ministério Público, sem que nenhuma destas tenha resultado em condenações.

A infiltração de extrema-direita nas forças de segurança e militares voltou a ser um tema de destaque nacional em 2020, depois de em 2018 o Conselho da Europa ter alertado para este fenómeno. O Movimento Zero, que agrega agentes da Polícia de Segurança Pública (PSP), militares da Guarda Nacional Republicana e Guardas Prisionais, continuou a mostrar dinamismo nas redes sociais, assediando e ameaçando ativistas progressistas, e a aliar-se a sindicatos da PSP conotados com a extrema-direita.

No seguimento de uma megaoperação da Polícia Judiciária em 2016, o Ministério Público acusou, em 2020, 27 elementos dos Portugal Hammerskins de tentativa de homicídio qualificada, ofensas à integridade física qualificada e discriminação racial contra 18 pessoas, entre as quais um sindicalista e um negro. O processo judicial não impediu a organização neonazi de continuar as suas atividades, apesar de ter uma menor capacidade de mobilização, revelou a Europol.

Em termos políticos, assistiu-se a uma muito célere normalização do Chega pelo principal partido de direita, o Partido Social-Democrata (PSD), especialmente depois das eleições regionais nos Açores, em outubro de 2020. O Partido Socialista venceu as eleições sem maioria absoluta e o PSD, para ter maioria e formar governo, estabeleceu um acordo parlamentar para os quatro anos da legislatura com o partido de extrema-direita, que elegeu dois deputados regionais. Este acordo está a ser encarado como primeiro passo para um eventual acordo de apoio parlamentar ou coligação governamental a nível nacional na próxima legislatura, caso o PSD precise do Chega para ser executivo.

Nas presidenciais de janeiro de 2021, Ventura alcançou o terceiro lugar com quase 12% e meio milhão de votos – ficando a 1% do segundo lugar. O líder do Chega ficou perto do seu autoestabelecido objetivo: ter um resultado melhor que Ana Gomes, que se afirmou como a candidata antifascista, e que os outros candidatos da esquerda – Marisa Matias e João Ferreira.Numa sondagem de novembro de 2020, o Chega obteve 7,5% das intenções de voto, quando em 2019 conquistou apenas 1,29% dos votos. Incentivados pelo sucesso do partido, tem-se assistido ao longo de 2020 a uma significativa mobilização virtual e nas ruas de Lisboa e Évora da militância de extrema-direita, por ter a esperança de que seja a grande oportunidade de furar na política portuguesa. Novas organizações, como a Resistência Nacional, responsável pela concentração em frente à sede do SOS Racismo, e o movimento Defender Portugal, foram criadas.

O resultado de Ventura nas presidenciais foi também fruto da cobertura recebida pelos médias nacionais, ao centrarem-se na sua candidatura e nos seus pontos chave, naturalizando o programa político do Chega. Isto aconteceu mesmo quando esses pontos não estavam na esfera do exercício de poder da Presidência, que tem fundamentalmente uma natureza de contrapeso ao poder legislativo.

Apesar de muitas pessoas pensarem que Ventura iria moderar as suas posições durante a campanha presidencial, o oposto aconteceu. Pela primeira vez na história eleitoral portuguesa, o candidato da extrema-direita afirmou que não seria o presidente de todos os portugueses, apenas dos “portugueses de bem”; acentuou o seu discurso racista contra a comunidade cigana a níveis nunca antes visto (exceto quando, em abril, propôs um confinamento “especial” para esta comunidade).

Também imitou a atitude de Donald Trump nos debates, ligou o diretor de campanha de Ana Gomes, Paulo Pedroso, à pedofilia e apostou numa postura nacionalista e religiosa apresentando-se como “homem providencial” que veio salvar Portugal dos últimos 47 anos de corrupção e clarificou a sua posição contra a Constituição portuguesa.

Principais narrativas da extrema-direita portuguesa
O Chega em 2020 voltou a dar um novo palco às narrativas chave da extrema-direita portuguesa, elevando-as para patamares nunca antes vistos no discurso político desde a queda do Estado Novo.

Na II Convenção do Chega, 15% dos delegados votaram a favor de uma moção que defendia a remoção dos ovários às mulheres que terminassem voluntariamente a gravidez. A comunidade LGBTQI+ tem sido um dos alvos preferenciais do partido, composto por importantes alas evangélicas e ultracatólicas. O partido recusa o casamento por casais do mesmo sexo, defendendo a família tradicional, por exemplo.

O alvo preferencial de André Ventura é a comunidade cigana, apesar desta constituir menos de 0,5% da população portuguesa. Na primeira fase da pandemia, o líder do Chega pediu medidas de confinamento especiais para esta comunidade e tem ativamente recusado a existência de racismo em Portugal. O Chega chegou inclusive a organizar uma manifestação em Lisboa com o mote “Portugal não é racista” e apresentou um projeto-lei para impedir filmagens de atuações policiais sobre “grupos étnicos ou raciais minoritários”.

A narrativa anti-imigração é um dos grandes temas da extrema-direita portuguesa e o Chega faz eco dela. Tem criticado o acolhimento de refugiados pelas autoridades portuguesas e denunciado alegadas redes de tráfico na sequência de seis desembarques na costa algarvia de Dezembro de 2019 a Setembro de 2020, ao mesmo tempo que tece ligações entre terrorismo, o Islão e os refugiados. Além disso, quer retirar o acesso de imigrantes não documentados e refugiados ao Serviço Nacional de Saúde.

A extrema-direita portuguesa também se tem focado, à semelhança de anos passados, na narrativa de combate à “ideologia de género” e ao “marxismo cultural”, criticando pelo meio um alegado enviesamento à esquerda dos órgãos de comunicação social. O combate cultural tem sido um dos principais eixos de atuação deste quadrante político em Portugal.
Reação à pandemia de covid-19

A extrema-direita portuguesa tem tentado capitalizar o descontentamento e frustração advindos das restrições impostas para combater a pandemia de covid-19. Num primeiro momento, o Chega defendeu o encerramento de fronteiras e medidas mais duras por parte do Estado, acabando depois por recusar as declarações de Estado de emergência, o distanciamento social e o uso de máscaras.

Recusando o confinamento, o partido de extrema-direita organizou durante o Verão duas manifestações em Lisboa: uma com o mote “Portugal não é racista” e outra contra a pedofilia, tema muito caro para as fileiras do Chega. A partir daí, as mobilizações de extrema-direita nas ruas tornaram-se relativamente constantes, organizadas por movimentos negacionistas (Pela Verdade, Verdade Inconveniente, Médicos pela Verdade) da pandemia com dirigentes ligados ao Chega e com ligações estabelecidas a movimentos congéneres em Espanha. Os protestos começaram por ter umas poucas dezenas de participantes e têm hoje algumas centenas.

À medida que os meses foram passando e cada vez mais sectores económicos sofriam grandes dificuldades, como o da restauração, assistiu-se a protestos a exigir apoios do Estado e o levantamento das restrições sociais. A extrema-direita infiltrou-se e tem-se tentado colar a estes protestos. Houve tentativas de agressão a um jornalista. André Ventura, líder do Chega, juntou-se a um protesto da restauração, em Lisboa, na esperança de capitalizar o descontentamento.

Tem-se ainda assistido a uma significativa mobilização da extrema-direita nas redes sociais, difundindo teorias da conspiração, propaganda e fake news sobre a crise pandémica. O universo de conspiração QAnon foi adaptado para a realidade portuguesa. O governo do Partido Socialista é acusado de estar a impor uma ditadura comunista no país, Bill Gates é apontado como responsável pela pandemia, a rede 5G está relacionada com o coronavírus e as vacinas são falsas e produto de uma conspiração globalista.

Há pelo menos 250 portugueses militantes de extrema-direita bem inseridos nas redes sociais negacionistas com epicentro em Alemanha e França, coordenando depois protestos em Lisboa nos mesmos dias dos de Berlim e Paris, normalmente ao fim-de-semana.

A ameaça da extrema-direita em 2021
A extrema-direita vai tentar capitalizar o descontentamento e frustração advindos da crise económico-social causada pelas restrições impostas para travar a pandemia de covid-19. A infiltração da extrema-direita nos protestos por melhores condições de vida de sectores mais afetados pela pandemia, como o dos pequenos e médios empresários, tenderá a prosseguir. Não se pode afastar a possibilidade de eventuais ameaças ou a repetição de agressões a jornalistas nas ruas portuguesas.

A normalização do discurso de ódio por atores políticos, a intensa difusão de propaganda e desinformação nas redes sociais deverão continuar a contribuir para um clima de violência racista e de extrema-direita em Portugal, já visto em 2020. Este contexto tenderá a beneficiar a criação de novos movimentos e o alargamento da base social dos já existentes, não esquecendo a realização de ações de rua.

O isolamento social, fruto das restrições contra a pandemia, e a normalização de discursos de ódio poderão dar origem a processos de autorradicalização, principalmente entre os jovens da população de zonas urbanas, mais expostos à exclusão social. O recrutamento de jovens pelo sector identitário tem sido uma das novas tendências da extrema-direita apontadas pelas autoridades nos últimos anos.

A infiltração da extrema-direita na polícia, que já dura há alguns anos e se tem aprofundado, deverá continuar a ser uma preocupação nacional. Há sectores deste quadrante nas forças de segurança que continuam a mobilizar-se e a mostrar relativo dinamismo.

Saber mais:

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Novo relatório do IPCC: Temperaturas vão subir na Europa a uma taxa mais alta do que a média mundial


As temperaturas aumentarão em toda a Europa a uma taxa maior do que as mudanças na temperatura média global, independentemente dos níveis futuros de aquecimento global.

Esta é uma das conclusões do relatório apresentado hoje pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) das Nações Unidas, que prevê que os limites críticos relevantes para os ecossistemas e seres humanos serão ultrapassados ​​num aquecimento global de 2 graus ou superior.

A frequência de ondas frias e dias de geada diminuirá em todos os cenários de emissão de gases com efeito de estufa, indica o relatório.

Apesar da “forte” variabilidade interna, as tendências observadas nas temperaturas médias e extremas europeias não podem ser explicadas “sem ter em conta os fatores antropogénicos”, explica o relatório da ONU.

Antes da década de 1980, o aquecimento causado pelos gases com efeito de estufa era parcialmente compensado pelas emissões antropogénicas de aerossóis.

Assim, a redução da influência dos aerossóis nas últimas décadas levou a uma tendência positiva observável na radiação de ondas curtas.

Além disso, as observações mostram um padrão sazonal e regional “consistente” com o aumento previsto das chuvas de inverno no norte da Europa.

Menos chuva no verão no Mediterrâneo

Prevê-se uma diminuição das chuvas de verão no Mediterrâneo, que se espalhará para as regiões do norte, bem como um aumento das chuvas extremas e inundações com níveis de aquecimento global acima de 1,5 graus em todas as regiões, exceto no Mediterrâneo.

Independentemente do nível de aquecimento global, o nível relativo do mar aumentará em todas as áreas europeias, exceto no mar Báltico, a uma taxa próxima ou superior à média global do nível do mar.

As mudanças são projetadas para continuar após 2100, enquanto os eventos extremos ao nível do mar se tornarão mais frequentes e mais intensos, levando a mais inundações costeiras e recuo das costas arenosas ao longo do século XXI.

O relatório também prevê um declínio acentuado nas geleiras, permafrost, extensão da cobertura de neve e comprimento sazonal da neve em altas latitudes / altitudes, que “continuará num mundo em aquecimento.”

domingo, 2 de maio de 2010

Europa: continuam as fraudes na compra de créditos de carbono



Autoridades alemãs investigam empresas do mercado de carbono
30/04/2010 por Fernanda B. Muller

Autoridades alemãs estão investigando 230 escritórios e residências sob suspeita de ligação com a fraude carrossel sobre a taxa de valor agregado (VAT, em inglês) ao redor da Europa.

A promotoria de Frankfurt disse que as perdas em impostos podem ter chegado a € 180 milhões. São 150 os suspeitos em 50 empresas, sendo que as batidas policiais já resultaram até em congelamento de bens em várias.

Até mesmo grandes instituições, como o Deutsche Bank, estão sendo investigadas, apesar do banco ter alegado não ser o alvo das investigações, segundo a Bloomberg.

Em entrevista ao Business Green o chefe executivo da Associação Internacional para o Comércio de Emissões (IETA, em inglês) Henry Derwent disse que a menos que a União Europeia consiga acabar com este tipo de fraude será cada vez mais difícil convencer outros países a adoptar esquemas de comércio de emissões.

“É difícil explicar que esta fraude tem a ver com a falta de regras harmonizadas sobre a VAT e não algo que é intrinsecamente ligado ao comércio de carbono”, disse Derwent.

Acções similares para a investigação da fraude já aconteceram noutros países da Europa, como na Espanha, Noruega, França e Reino Unido. A própria Comissão Europeia aprovou regras modificadas revertendo para os clientes a responsabilidade de pagar a VAT.

A fraude carrossel ocorre quando os créditos de carbono são comprados num determinado país europeu e importados para outro sem o pagamento da taxa de valor agregado (VAT, sigla em inglês). Ao vender os créditos para terceiros, os fraudulentos cobram a taxa e desaparecem sem repassar para os governos.

Segundo a Europol, as fraudes podem ter resultado em prejuízos da ordem de € 5 mil milhões.