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terça-feira, 18 de agosto de 2026

Do Holoceno ao Antropoceno: por que razão a nossa civilização ficou desatualizada?

Se ontem refletíamos sobre por que ter esperança é urgente e revolucionário perante a rutura ecológica, hoje precisamos de olhar de frente para o diagnóstico material que exige essa mesma ação transformadora. A nossa esperança não pode ser passiva, porque a civilização que herdámos foi construída para um planeta que, literalmente, já não existe.
Todas as civilizações humanas surgiram sobre condições climáticas e ecológicas que não criaram. No entanto, na escala de tempo geológico da Terra, toda a história da civilização ocupa pouco mais do que um piscar de olhos.

A Terra tem aproximadamente 4,5 mil milhões de anos, a vida existe há pelo menos 3,7 mil milhões de anos, o Homo sapiens há cerca de 300.000 anos, enquanto o Holoceno - o intervalo climático dentro do qual a agricultura, as cidades e as sociedades complexas se desenvolveram - começou há apenas cerca de 11.700 anos.

Quase toda a história da Terra - e quase toda a história da vida - precede por ordens de grandeza o mundo humano construído na relativa estabilidade do Holoceno. Vistas a partir do tempo profundo, as nossas cidades e infraestruturas já ostentam a aparência de futuras ruínas: monumentais, pesadas e extraordinariamente recentes, erguidas num intervalo climático estreito cuja estabilidade foi tratada como permanente.

Esta estabilidade climática formava uma condição material tácita da civilização humana. A recorrência das estações, a relativa previsibilidade da precipitação e do caudal dos rios, e a persistência de regimes de temperatura familiares tornaram o mundo físico suficientemente previsível para que a agricultura, os povoamentos e as infraestruturas fossem organizados em torno da expectativa de que as suas condições básicas permaneceriam amplamente reconhecíveis ao longo das gerações.

O Holoceno foi uma infraestrutura que nunca tivemos de construir


Ilustração conceptual da janela climática do Holoceno. Informado por Kaufman et al., Scientific Data (2020), e Osman et al., Nature (2021).

E como nenhuma sociedade teve de a construir, o capitalismo pôde tratá-la como se fosse gratuita. O capital herdou talvez a infraestrutura mais valiosa da história humana: um clima relativamente estável.

Não o produziu nem pagou pela sua reprodução. A estabilidade climática não constava de nenhum balanço; o capital simplesmente assumiu que ela continuaria lá amanhã.

Construímos cidades para temperaturas retiradas do passado. Sistemas de drenagem para padrões familiares de precipitação. Agricultura em torno de ciclos de estações relativamente previsíveis. Casas para amplitudes históricas de calor e frio. Portos e povoamentos costeiros em redor de linhas de costa que se assumia moverem-se devagar. Infraestruturas inteiras foram concebidas com base na expectativa de que o dia de ontem permaneceria um guia razoável para o dia de amanhã.

Essa expectativa já não se verifica.

A rutura climática é, portanto, mais radical do que uma sucessão de eventos extremos. Significa que as regularidades ecológicas silenciosamente incorporadas na organização da vida social se estão, elas próprias, a tornar instáveis.

Aquilo que surge como a desestabilização da "natureza" regressa, assim, ao interior da sociedade como a desestabilização das suas fundações materiais.
Esta é a contradição no centro da crise climática: o capital acumulou-se tratando a estabilidade planetária como uma condição gratuita de produção e, no decurso da acumulação, começou a destruir essa própria condição.

O mundo construído sobre esses pressupostos permanece de pé enquanto as condições sob ele se alteram. Neste sentido, o capitalismo assemelha-se cada vez mais ao Wile E. Coyote (Bip Bip e Coiote) depois de correr para além da borda do penhasco: as pernas continuam a mover-se, a maquinaria continua a funcionar e a acumulação prossegue - enquanto o solo que tornava o movimento possível está a desaparecer debaixo dos pés.

Exceto que o capitalismo também tem vindo a dinamitar o penhasco atrás de si.

O Peso de uma Civilização Morta
O planeta muda mais depressa do que a civilização material construída sobre ele.

Cidades, autoestradas, fábricas, portos, centrais elétricas e edifícios não podem simplesmente migrar inalterados para um clima diferente. São imensos depósitos de matéria, energia e trabalho passado, construídos para permanecer no mesmo lugar durante décadas ou séculos. Quanto mais depressa as condições planetárias mudam, mais esta herança material começa a parecer uma civilização construída para o dia de ontem.

Existe agora, literalmente, mais deste mundo construído do que matéria viva na Terra.



Fonte: Elhacham et al., “Global human-made mass exceeds all living biomass,” Nature 588, 442–444 (2020), Fig. 1.

No início do século XX, a massa total de objetos produzidos pelo ser humano correspondia a apenas cerca de três por cento da biomassa do planeta. Por volta de 2020, de acordo com um estudo publicado na Nature, a massa antropogénica - betão, agregados, asfalto, tijolos, metais, plásticos e tudo o mais que os humanos construíram - atingiu cerca de 1,1 biliões de toneladas e ultrapassou a massa seca de todos os organismos vivos na Terra. Tinha vindo a duplicar aproximadamente a cada vinte anos. A humanidade estava a adicionar mais do que o seu próprio peso corporal em massa manufaturada por pessoa, todas as semanas.

A esta escala, o mundo construído já não é apenas um artefacto social; tornou-se um facto planetário. Este é o Antropoceno: a humanidade tornou-se uma força geológica, capaz de alterar o próprio sistema terrestre. Contudo, dizer que a humanidade se tornou uma força geológica não é dizer que a humanidade agiu como um sujeito coletivo único.

Um bilião de toneladas de betão não é a expressão de algum "instinto humano" universal para construir. São o resultado material de relações de classe, hierarquias sociais e distribuições desiguais de poder - a história endurecida em matéria, embutida nas infraestruturas do capital fóssil.

O capitalismo industrial sedimentou as suas relações sociais no mundo físico.
Entre 1900 e 2010, o stock de materiais acumulados em edifícios, infraestruturas e maquinaria aumentou cerca de vinte e três vezes. Uma vez construídos, criam dependências do passado (path dependencies): os investimentos de ontem determinam a procura de energia e materiais de amanhã.

Em termos marxianos, o trabalho passado confronta a sociedade viva sob a forma material - "trabalho morto que, como um vampiro, se alimenta do trabalho vivo, e vive tanto mais quanto mais dele suga" (O Capital, Vol. I, Cap. 15). Sob o capitalismo, máquinas, fábricas e infraestruturas adquirem um poder material de comando sobre o trabalho e a natureza.

Uma vez construída, a infraestrutura começa a exigir a sua continuação. Uma refinaria exige um fluxo contínuo de petróleo. Um sistema de autoestradas exige automóveis. Uma central elétrica a combustível fóssil construída para funcionar durante quarenta anos carrega dentro do seu betão e aço uma expectativa sobre o futuro.

O passado adquire um poder material sobre o futuro.
Esta é uma das razões pelas quais a transição ecológica é muito mais difícil do que "substituir uma fonte de energia por outra". O capitalismo acumulou um enorme mundo material cuja operação contínua reproduz o metabolismo social que, em primeiro lugar, desestabilizou o clima.

A contradição é cada vez mais gritante, uma vez que herdámos uma infraestrutura concebida para um conjunto de condições planetárias enquanto entramos noutro.

A infraestrutura pode permanecer de pé muito depois de o mundo para o qual foi construída ter começado a desaparecer.

Cidades de betão sem sombra, habitações expostas, redes de transporte fóssil e paisagens urbanas que retêm o calor assemelham-se cada vez mais aos vestígios de uma civilização industrial - ruínas futuras de um mundo cujas condições materiais já estão a desaparecer.

A Privatização da Sobrevivência
Se as condições materiais herdadas do Holoceno continuarem a deteriorar-se enquanto as relações de propriedade e riqueza existentes permanecerem intactas, a crise ecológica intensificará as desigualdades que acompanham o capitalismo industrial desde os seus primórdios. A classe social sempre moldou o acesso aos cuidados de saúde, à alimentação nutritiva, à habitação segura, a ambientes limpos e à possibilidade de viver uma vida mais longa e confortável. A rutura climática ameaça transformar estas diferenças de privilégio em diferenças na capacidade de sobreviver.

À medida que as condições básicas de vida se tornam menos fiáveis, a riqueza determinará cada vez mais quem pode comprar proteção contra o colapso ecológico. O que outrora era dado como garantido enquanto condição comum da vida tornar-se-á, cada vez mais, uma mercadoria. Os mais abastados poderão comprar distância em relação ao calor, à escassez e ao deslocamento forçado, enquanto as classes, comunidades e regiões mais pobres serão forçadas a absorver a crise em primeiro lugar e de forma mais violenta.

"Não há Planeta B" tornou-se, e bem, um dos slogans definidores do ambientalismo. No entanto, paradoxalmente, o Planeta B é precisamente o sonho dos tecno-oligarcas milionários: desde enclaves fortificados na Terra ao sonho de Elon Musk de colonizar Marte. A possibilidade de fuga torna-se mais fácil de imaginar do que a transformação das relações sociais que impulsionam o colapso ecológico no nosso planeta partilhado.

A obscenidade mais profunda desta trajetória é que a própria sobrevivência se pode tornar o privilégio supremo daqueles que mais beneficiaram do sistema que tornou o planeta cada vez mais difícil de habitar.

A adaptação climática sem transformação social é a privatização da sobrevivência.

Uma Civilização para o Planeta Que Existe
O problema, então, é como construir a vida social para condições planetárias que já não podem ser dadas como garantidas. Grande parte do mundo que herdámos foi concebida em torno de regularidades climáticas que já estão a escapar-nos.

A adaptação é inevitável, mas a sua direção é política. Prolongar a vida de uma civilização fóssil forçando corpos, cidades e ecossistemas a absorver um calor, instabilidade e perturbação cada vez maiores apenas preservaria a maquinaria do colapso.

Um planeta em mudança exige a transformação da organização material da vida social: a forma como construímos cidades e casas, produzimos e distribuímos energia, organizamos os transportes e a agricultura, gerimos a água, estruturamos o trabalho e reproduzimos a vida quotidiana. Um mundo mais quente força uma questão mais profunda: que tipo de sociedade pode permanecer compatível com as condições de vida?

Mas uma civilização fóssil não se pode tornar habitável simplesmente substituindo combustíveis fósseis por energias renováveis, plantando mais árvores ou adicionando espaços verdes enquanto se mantém intacta a sua organização material subjacente. Temos de repensar as divisões herdadas entre cidade e campo, sociedade e natureza, desenvolvimento humano e os limites biofísicos do planeta.

Nada disto é possível sem ir além do próprio capitalismo.

Este é o horizonte do ecossocialismo: não a gestão ecológica do mundo que herdámos, mas a reorganização democrática das suas fundações materiais em torno das necessidades coletivas, da prosperidade humana e da reprodução da vida na Terra.

O capitalismo passou séculos a adaptar a natureza aos requisitos da acumulação. Hoje, a crise ecológica confronta-nos com a tarefa inversa: reorganizar a vida social em torno dos requisitos materiais de um planeta habitável.

Construímos um mundo para um planeta que já não existe. Agora temos de construir um para o planeta que existe.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Entrevista. Clara E. Mattei: “A austeridade é muito eficaz a produzir individualismo, alienação, ódio aos mais pobres, vergonha de ser pobre”


No imaginário comum, o economista é uma figura formal, absorvida por cálculos, gráficos e fórmulas, entregue a um labor inevitavelmente chato. Contudo, uma nova geração de profissionais tem desafiado este estereótipo: são um sucesso nas redes sociais, participam em debates que mobilizam grandes audiências, publicam em várias línguas. Thomas Piketty, Mariana Mazzucato, Gabriel Zucman [recorda a entrevista] ou Kate Raworth são alguns exemplos desta constelação. Mas Clara E. Mattei talvez seja a estrela que melhor desmonta o cliché do economista enfadonho. Além da sua simpatia, é divertida. Parece movida a pilhas, tal é a energia e a vitalidade que irradia.

Esta entrevista devia ter acontecido horas antes da conferência organizada pelo FREE - Forum for Real Economic Emancipation [Fórum para a Emancipação Económica Real, em tradução livre] - organização que Clara fundou e à qual preside -, numa escola secundária em Bishop’s Stortford, no leste de Inglaterra, a 50 minutos de comboio do centro de Londres. Ia debater-se o impacto das guerras no custo de vida e as alternativas económicas e políticas à austeridade. Mas, à última hora, os planos mudaram. Mattei tinha uma reunião na London School of Economics and Political Science (universidade londrina especializada em ciências sociais), e só seria possível conversar durante a viagem entre a capital britânica e o local do evento.

Uma entrevista on the road, dentro de um táxi, no para-arranca do trânsito. Entre perguntas e respostas, apartes para a comitiva que seguia connosco, a economista ainda recebia ou fazia chamadas com a equipa de voluntários que a estava a ajudar: “Salvatore, temos de comprar comida para o lanche. Qualquer coisa: uns snacks, fruta, legumes crus, húmus, queijos… Sim, vão ao supermercado mais próximo. Deixem lá panfletos!”

Chegámos à escola quinze minutos antes do início do debate. Clara saiu do carro à pressa e desapareceu por momentos. Tinha ido acertar os últimos detalhes com a organização, mas pouco depois já estava de volta: “Ainda temos dez minutos para recrutar pessoas. Venham!” E lá foi ela, de passo apressado, distribuir mais uns folhetos promocionais a quem passava. Para usar um termo do país onde vive e dá aulas, é uma mulher cheia de stamina.

Clara Elisabetta Mattei é professora de Economia na Universidade de Tulsa, no Oklahoma, Estados Unidos da América, e tem licenciatura e mestrado em Filosofia, antes de se doutorar em Economia. O seu livro mais conhecido, A Ordem do Capital - Como os economistas inventaram a austeridade e abriram o caminho ao fascismo (ed. Temas e Debates, 2024), nasceu de uma investigação nos arquivos do Banco de Itália e do Banco de Inglaterra sobre o período que se seguiu à Primeira Guerra Mundial. Entre centenas de cartas, memorandos e textos técnicos, encontrou documentos, muitos deles traduzidos pela primeira vez e nunca antes divulgados, que sustentam a sua tese de que as políticas de austeridade do pós-guerra prepararam o terreno para a ascensão dos fascismos que conduziriam à Segunda Guerra Mundial.

Em janeiro, publicou Escape from Capitalism - Economics is Political, and Other Liberating Truths [ainda sem tradução em português], livro em que questiona a ideia de que a economia é uma ciência neutra e apolítica. Parte de conceitos como a austeridade, o desemprego ou a inflação para mostrar como são habitualmente mobilizados para preservar o status quo e apresentar o capitalismo como inevitável. É um manifesto contra a resignação: recusa tratar a pobreza e a desigualdade como acidentes, ou a ordem económica atual como algo natural ou eterno.

Clara acredita que essa ordem pode ser mudada. Uma convicção que lhe corre no sangue, como mostra a história dos seus tios-avós, Gianfranco e Teresa Mattei, duas figuras da resistência antifascista italiana a quem dedica os seus escritos. Gianfranco, químico e militante clandestino, suicidou-se em 1944, depois de ser preso e torturado, para não denunciar os companheiros. Teresa, conhecida como “Chicci”, foi eleita para a Assembleia Constituinte italiana, em 1946, e contribuiu para inscrever no artigo 3.º da Constituição uma ideia fundamental: não há igualdade efetiva enquanto obstáculos económicos e sociais continuarem a limitar a liberdade das pessoas.

Clara Mattei estará em Lisboa, a 15 de julho, na Lisbon Praxis Summer School 2026, organizada pelo Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, sob o tema “Teorias Críticas do Fascismo”.

sábado, 20 de junho de 2026

O relógio climático está a acelerar

Durante anos, limitar o aquecimento global a 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais foi o objetivo mais ambicioso do acordo de Paris e a principal referência da ação climática internacional. Hoje, esse objetivo está muito próximo de falhar. Um novo estudo internacional, publicado na revista Earth System Science Data, conclui que o aquecimento provocado pelas atividades humanas poderá atingir este limiar já no final da década, mais cedo do que se previa.
O estudo reuniu mais de setenta investigadores de vários países e analisou os principais indicadores do estado do sistema climático global. Em vez de se focar em projeções para o final do século, avaliou a evolução observada do aquecimento global, das emissões de gases com efeito de estufa, do desequilíbrio energético da Terra e da margem de emissões ainda disponível.
Os resultados são claros: o clima está a mudar a um ritmo alarmante. Em 2025, o aquecimento global causado pelas atividades humanas atingiu cerca de 1,37 °C acima dos níveis pré-industriais. Mantendo-se a trajetória atual de emissões, torna-se altamente provável ultrapassar o limite de 1,5 °C em poucos anos.
Um dos sinais mais preocupantes é a rápida redução do chamado “orçamento” de carbono, ou seja, a quantidade de dióxido de carbono que ainda pode ser emitida sem comprometer a meta dos 1,5 °C. Segundo os investigadores, restam apenas cerca de 130 mil milhões de toneladas de CO₂. Ao ritmo atual, essa margem poderá esgotar-se em apenas três anos.
As emissões globais de gases com efeito de estufa continuam próximas de máximos históricos. Em 2024 atingiram cerca de 56,8 mil milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente. Apesar dos avanços registados em alguns países e setores, a redução global continua demasiado lenta para inverter a trajetória do aquecimento.
Ao mesmo tempo, a Terra continua a acumular energia. Grande parte desse excesso de calor é absorvido pelos oceanos, acelerando o aquecimento das águas, intensificando as ondas de calor marinhas e agravando a subida do nível médio do mar. Entre 2006 e 2025, o nível médio dos oceanos aumentou cerca de 3,7 milímetros por ano, um ritmo superior ao observado durante grande parte do século XX.
Os impactos já são evidentes em todo o mundo. Ondas de calor mais intensas, secas prolongadas, incêndios florestais de grande dimensão e episódios extremos de precipitação tornaram-se mais frequentes e destrutivos. Fenómenos outrora considerados excecionais começam a integrar a nova realidade climática.
Apesar da gravidade das conclusões, os autores sublinham que o futuro climático não está totalmente determinado. Cada décima de grau de aquecimento evitada reduz riscos para as populações, as economias e os ecossistemas. A diferença entre limitar o aquecimento a 1,6 °C, 1,8 °C ou 2 °C traduz-se em impactos muito distintos na frequência de fenómenos extremos, na subida do nível do mar e na capacidade de adaptação das sociedades.
O mundo aproxima-se rapidamente de um limite que durante anos procurou evitar. A margem para reduzir os danos continua a existir, mas está a diminuir a uma velocidade sem precedentes. As decisões tomadas nesta década, sobre energia, transportes, indústria e uso do território, terão influência direta no clima das próximas gerações. A diferença entre agir agora e adiar decisões não se mede apenas em décimas de grau: mede-se em vidas, em segurança, em estabilidade económica e na capacidade de preservar um planeta habitável.
Helena Freitas - Diário de Coimbra, 16.06.2026

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Revolta na SIC. Trabalhadores contestam aumentos milionários na administração



A Comissão de Trabalhadores da SIC emitiu esta segunda-feira um comunicado interno na qual manifesta “o seu repúdio” pela proposta para atualizar a política de remuneração dos membros dos órgãos de administração e fiscalização do grupo, que será votada no dia 26 em Assembleia Geral.

“É particularmente incompreensível e inaceitável que, num contexto em que a empresa continua a recusar aumentos salariais para os trabalhadores – alegando constrangimentos financeiros, necessidade de contenção e sustentabilidade – surja agora uma proposta que prevê uma revisão transversal em alta das remunerações dos órgãos de administração, bem como o reforço dos mecanismos de remuneração variável e benefícios associados”, escreve a comissão de trabalhadores, no comunicado ao qual o ECO teve acesso.

Italiana MFE já é a segunda maior acionista da Impresa

“Esta opção transmite uma mensagem profundamente errada à organização: a de que existem recursos para valorizar a gestão de topo, mas não para reconhecer o esforço coletivo dos trabalhadores”, termina o comunicado, que apela também a que os trabalhadores participem na greve geral de dia 3 de junho.

Amanhã, em assembleia geral, será votada a política de remuneração dos membros dos órgãos de administração e fiscalização da Sociedade para o período de 2026/2028.

Esta prevê que o presidente do conselho de administração e presidente da comissão executiva passe a ter uma remuneração de 385.000 euros, à qual se pode juntar uma remuneração variável plurianual, com pagamento diferido a três anos, que com base no cumprimento de uma grelha de critérios pode ir até seis vezes a respetiva remuneração bruta mensal.

A remuneração variável é aplicável também aos restantes membros da comissão executiva, cuja remuneração fixa oscila entre os 254.800 e os 189 mil euros.

O CEO do grupo, recorde-se, acumula também as funções de chairman desde março, altura na qual o conselho de administração passou, com a entrada da MFE, a ter nove membros.

Francisco Pedro Balsemão, que sucedeu nas funções de presidente a Francisco Pinto Balsemão, o fundador do grupo, recebeu no último ano de remuneração fixa 280 mil euros, mais 60 mil de remuneração variável e cerca de 2.300 euros de subsídio de refeição. Francisco Pinto Balsemão, por seu turno, auferiu até 21 de outubro, data da sua morte, cerca de 101,2 mil euros.

No total, o conselho de administração recebeu no último anos 669.216 euros, 609 mil dos quais de remuneração fixa. Com a nova política de remuneração, o vencimento dos órgãos de administração e fiscalização passa para o dobro, ou seja, para 1,2 milhões de euros.

No entanto, o conselho de administração passou a ser composto por nove elementos e, como avançou o +M em abril, foi também criada uma comissão executiva, que não existia na estrutura anterior.

Ricardo Costa assume pelouro das receitas da Impresa

Nesta, Ricardo Costa é chief product officer, Teresa Gonçalves chief financial officer e Ana Costa chief operating officer, fazendo os três parte do conselho de administração.

Contactada pelo ECO/+M, a comissão executiva da SIC e da Impresa começam por “lamentar que a Comissão de Trabalhadores da SIC não tenha procurado obter esclarecimentos sobre este tema antes de enviar um comunicado interno” e lembra que a proposta é da responsabilidade da Comissão de Remunerações, “órgão independente que efetuou a proposta e submeteu-a à apreciação e votação dos acionistas da sociedade”.

“Sem prejuízo do exposto, a Impresa informa que as alterações salariais em causa resultam, no seu cômputo global, numa poupança para a sociedade“, garante fonte oficial do grupo.

Além disso, prossegue, “os reajustes realizados resultam de acréscimo de responsabilidades, seguindo a regra, transversal ao Grupo, de que a qualquer promoção na Impresa deve ser associada um acréscimo salarial, e que os vencimentos dos membros do Conselho de Administração estão alinhados com os valores praticados no mercado”.

No final de fevereiro, os trabalhadores da SIC mandataram a CT para frisar junto da administração a importância de um compromisso para um reajuste salarial, nos 3 meses que se seguiam, no mínimo de acordo com a inflação.

Em resposta, “o Diretor de Recursos Humanos (DRH) deixou claro que a prioridade da Administração, neste momento, passa por “garantir a manutenção dos postos de trabalho, assegurar a estabilidade da organização e criar condições para fazer crescer o negócio“, recorda esta segunda-feira a CT na nota interna.

“A SIC e a Impresa continuarão a proceder a atualizações salariais, e a uma gestão dinâmica dos seus trabalhadores, sempre que isso se justifique, utilizando critérios objetivos e transparentes para esse efeito”, conclui o grupo em declarações ao ECO/+M.

sábado, 23 de maio de 2026

Ailton Krenak e Satish Kumar: Shiva e o beija-flor


O diálogo entre Ailton Krenak e Satish Kumar gira em torno de uma crítica profunda ao modelo de civilização ocidental, propondo uma reconexão com a vida na sua totalidade.

As questões são abordadas através dos seguintes tópicos:

1.O Silêncio como Refúgio: A discussão começa com a necessidade de escapar do ruído e da violência das metrópoles modernas. Krenak cita a cultura Guarani e o conceito de se refugiar numa "Mata Escura" interna, uma forma de meditação livre para silenciar o ambiente e permitir a aprendizagem.

2.A Desconstrução do Conceito de "Natureza": Os pensadores criticam a forma como a sociedade de consumo mercantilizou e "cosmetizou" o meio ambiente para vender produtos. Krenak aponta que a palavra "natureza" é uma invenção da modernidade e não existe nas línguas indígenas; para os povos originários, não há separação, pois tudo faz parte de um mesmo corpo comunitário ("eu mesmo e os meus parentes").

3.A Crítica ao Utilitarismo Económico: Satish Kumar debate como o sistema industrial e a educação moderna reduziram o planeta a um mero "recurso económico" para gerar lucro. Esta lógica de exploração coisificou tudo, transformando inclusivamente as pessoas em "recursos humanos".

4.O Princípio da Vida Integrada: Baseando-se na filosofia de que tudo o que é natural está vivo, Krenak usa a metáfora da lagarta que se transforma em borboleta para ilustrar como a vida é uma força cósmica contínua que atravessa diferentes corpos e estruturas, sem divisões.

5.A Parábola do Beija-Flor: Diante do cenário de destruição global, utilizam a história do beija-flor que carrega gotas de água no bico para apagar um incêndio na floresta. A metáfora serve para justificar o ato de resistir e cultivar pequenos espaços de consciência, mesmo que pareça impossível reverter sozinhos o estrago feito pelas indústrias e pelo capitalismo.

6.A Manipulação da Linguagem e a Tecnologia: Krenak expressa preocupação com as novas ferramentas tecnológicas e a inteligência artificial corporativa. Para ele, as grandes corporações usam estes meios para disparar mensagens em massa, adulterando a comunicação humana autêntica e criando abismos sociais.

7.Guerras Globais e a Luta pela Terra: O debate aborda os conflitos bélicos contemporâneos motivados pela ambição territorial e pela ganância de tomar a terra alheia. Kumar defende que a humanidade precisa urgentemente de ouvir e respeitar os povos indígenas para aprender a viver em harmonia com o solo e os animais, em vez de tentar "civilizá-los".

8.A Autodestruição do Sapiens: O vídeo encerra com uma reflexão dura de Krenak, que define a mentalidade do homem moderno (Homo sapiens) como a de um "serial killer" planetário devido à sua sanha destrutiva e sistémica, enquanto Kumar conclui que este modelo industrial é insustentável e caminha para a própria ruína.

domingo, 17 de maio de 2026

Chegou a hora de uma revolução populista?


Um movimento populista económico pode unir o trabalhador, o agricultor e o pequeno empresário — de todas as etnias, religiões e filiações políticas — contra as elites ricas que manipularam o sistema contra eles.
Donald Trump quer que acredite que as pessoas menos poderosas deste país são as principais responsáveis ​​pelos seus problemas. Mas não se resolve uma economia manipulada deportando pessoas.

Antes de ser despedido por Trump por fazer o seu trabalho, o ex-comissário da FTC, Alvaro Bedoya, passou três anos a reunir-se com trabalhadores de toda a América.

Descobriu que todos tinham algo em comum: a elite corporativa estava a explorá-los até à exaustão. Bedoya explica como o populismo económico pode unir trabalhadores de todas as origens — e é o único antídoto real para o trumpismo.

E em Portugal? Marca na agenda: faz greve no dia 3 de Junho

sábado, 16 de maio de 2026

A mercantilização da vida: onde a poesia de Zeca Afonso enfrenta a frieza do "Trabalho XXI"


Rendido a esta interpretação de Gisela João.  E revoltado (ou não, já imaginava a posição do IL que defende flexibilização laboral e aponta rigidez como travão aos salários!!) e enfrentando a desumanização e a máquina trituradora, sem chão, do neoliberalismo, plutocracia, nepotismo,tecnofeudalismo e cleptocracia.

A desumanização das relações e a mercantilização do afeto vertidas em "Que Amor Não Me Engana" espelham de forma crua as dinâmicas socioeconómicas contemporâneas, encontrando um eco surpreendente nas discussões em torno da nova proposta de reforma laboral do Governo — o pacote "Trabalho XXI". 

Quando José Afonso canta sobre a urgência de um amor que não atraiçoe e a amargura de quem olha em redor e, "à porta do muro", não vê ninguém, ele traduz liricamente o isolamento do indivíduo perante estruturas que priorizam a métrica e a eficiência em detrimento da dignidade humana. 

Essa mesma tensão entre a necessidade de conexão genuína e a frieza dos sistemas reflete-se diretamente na flexibilização proposta pelo novo quadro legislativo, nomeadamente através do regresso do banco de horas por acordo individual e do alargamento dos contratos a termo para cinco anos no caso de termos incertos. 

Estas medidas, embora desenhadas sob a premissa de dotar o mercado de maior agilidade e produtividade, correm o risco de aprofundar a precariedade existencial do trabalhador, transformando o tempo de vida e de descanso numa mercadoria transacionável e adiável, onde a segurança psicológica é sacrificada em nome da sobrevivência económica. 

O "engano" de que Zeca falava materializa-se hoje na ilusão de autonomia individual perante plataformas digitais e algoritmos de inteligência artificial que passam a gerir recursos humanos e a ditar despedimentos e avaliações; uma realidade tão desprovida de empatia que a nova lei se vê obrigada a legislar para garantir um controlo humano mínimo sobre as decisões das máquinas. 

No fundo, ao cruzar a poesia de resistência com a nova legislação laboral, percebe-se que a busca por um "amor que não engana" continua a ser a busca por um ecossistema social e profissional que reconheça o trabalhador não como uma ferramenta de rendimento descartável, mas como um ser humano que necessita de amparo, tempo e verdade nas suas relações.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Nikolai Gogol - sobre a corrupção de uma classe decadente que domina o povo ignorante e escravo do Estado


Há momentos em que é impossível encaminhar a sociedade, ou mesmo uma geração inteira, para o belo sem revelar toda a profundidade da sua verdadeira abominação.

Esta frase de Nikolai Gogol carrega o peso do realismo fantástico e da sátira social que definiram a sua obra. Gogol não era apenas um contador de histórias; era um observador clínico das falhas humanas. Para compreender o que ele pretende dizer, precisamos de olhar para a ideia de choque de realidade.

Em primeiro lugar, surge a necessidade do espelho cruel. Gogol sugere que a sociedade vive frequentemente num estado de negação ou hipocrisia e, para ele, falar sobre beleza, virtude ou progresso moral é inútil se os alicerces da sociedade estiverem podres. O conceito é simples: não se pode curar uma doença se o paciente se recusa a admitir que está doente. Assim, a acção da arte ou da história deve ser a de actuar como um espelho que não embeleza, revelando a abominação — as injustiças, a corrupção e a mediocridade — para que o horror da própria imagem force a mudança.

Esta abordagem liga-se à catarse pelo grotesco, estilo pelo qual Gogol é famoso. Em obras como O Inspector Geral ou Almas Mortas, o autor retrata burocratas corruptos e proprietários de terras absurdos, não apenas para fazer rir, mas para causar um desconforto profundo. Ele acredita que a beleza não pode florescer em solo contaminado por mentiras não reveladas e que a sociedade só se sentirá motivada a procurar a beleza e a ordem moral quando o peso do seu próprio vazio se tornar insuportável. É a ideia de que é preciso chegar ao fundo do poço para, finalmente, olhar para cima.

Desta forma, o papel do artista é o de um revelador. Para Gogol, o escritor não deve apenas entreter, mas sim realizar uma espécie de exorcismo social. Ele afirma que é impossível conduzir uma geração pela lógica ou pelo incentivo gentil porque as pessoas estão anestesiadas. O choque provocado pela revelação da profundidade da verdadeira abominação é o que possui a energia cinética necessária para retirar uma sociedade da sua inércia moral.

Em resumo, Gogol defende que a regeneração moral exige honestidade brutal. Ele acredita que a luz só será valorizada e procurada quando todos compreenderem plenamente a extensão das trevas em que estão mergulhados. É uma visão pessimista no diagnóstico, mas esperançosa no objectivo final: a transformação através da verdade.

sábado, 25 de abril de 2026

The Worst Neo Robber Baron of Them All



I’m tempted to give Elon Musk that title. But when it comes to greedy and irresponsible corporate behavior, one CEO is outdoing even Musk.

When the history of this sordid second Gilded Age is written, the list of neo robber barons will obviously include Musk as well as Meta’s (Facebook’s) Mark Zuckerberg, Palantir’s Alex Karp, Palantir’s co-founder and board chair Peter Thiel, Oracle’s Larry Ellison (and his son, David), Google’s Sundar Pichai, Blackstone’s Stephen Schwarzman, and the Trump Organization’s monumentally corrupt Donald Trump, Donald Trump Jr., and Eric Trump.

But one greedy, public-be-damned CEO stands out even above Musk, Trump, and the rest. His name: Jeff Bezos. His corporation: Amazon.

It is difficult for the human mind to comprehend all the ways Bezos is shafting Americans.

Start with prices. According to a newly unsealed filing released Monday in an antitrust lawsuit brought by California Attorney General Rob Bonta, Amazon has pressured major brands like Levi’s and Hanes to demand that competing retailers raise prices on their products.

The New York Times’s David McCabe reports on unsealed evidence that Amazon punishes sellers on its marketplace for offering lower prices on other websites, like those of Walmart or Target. When it spots a competitor’s lower price, Amazon tells the brands to demand that rival sites raise their prices for the products.

The filing includes an email to Hanes from Amazon, with links to Target’s and Walmart’s lower prices, along with Hanes’s apologetic response that it “reached out to Target and Walmart to have the prices increased.” And an email to Levi’s from Amazon, with links to lower-priced khakis on Walmart’s website, along with Levi’s response that Walmart had agreed to raise its price.

According to the lawsuit, Amazon has been able to exert pressure on different brands to raise their prices because of Amazon’s power and reach.

At a time when most Americans are having trouble making ends meet, Amazon’s push to raise prices — to enlarge its profits (and put more money into Jeff Bezos’s pockets) — is beyond unconscionable.

This is hardly Bezos’s and Amazon’s first brush with antitrust law. In 2023, the Federal Trade Commission and 17 states accused Amazon of illegally maintaining a monopoly in online retail by squeezing merchants who sell on its site and prioritizing its own products, resulting in “artificially higher prices.”

In September, the FTC agreed to settle another lawsuit against Amazon that accused it of making it difficult for consumers to cancel its Prime subscription service. Amazon agreed to pay up to $2.5 billion — including $1 billion in penalties and additional payouts to consumers — but didn’t admit or deny wrongdoing.

Meanwhile, The American Prospect’s Harold Meyerson reports that Virginia is subsidizing Amazon’s “second headquarters” in Crystal City, Virginia — just across the Potomac from Washington, D.C. — with $750 million in taxpayer funds, yet the corporation is wildly behind its job-creation pledge. Having promised to create 25,000 new jobs by 2038, it created a mere 1,600 jobs last year and is up to just 29 percent of the number of jobs it promised by now.

Speaking of Amazon jobs: Until earlier this month, attorneys for the National Labor Relations Board were prosecuting Amazon for firing employees that make Amazon deliveries because they’d voted to join the Teamsters, a clear violation of labor laws.

But then, a few weeks ago, the NLRB attorneys — now firmly under control of Trump’s NLRB general counsel — announced they’d reached a “settlement” with Amazon in which Amazon agreed to pay the workers who’d been laid off for more than two years, two weeks’ worth of wages. Two weeks.

Amazon’s workers are among the worst-treated in America.

Ryan Haas of The Western Edge reports that on April 6, an Amazon warehouse worker collapsed and died on the floor of Amazon’s warehouse in Troutdale, Oregon. A co-worker trained in CPR tried to help but was told by a manager to turn around. For more than an hour, employees said, they were instructed to continue picking items and loading trucks as the man lay dead. One manager reportedly told workers to “just turn around and not look” and get back to work.

Jeff Bezos couldn’t care less. As of April 2026, his net worth is estimated to be between $259 billion and $269 billion, making him one of the three richest people in the world.

Like the robber barons of the first Gilded Age, Bezos’s consumption is of the conspicuous kind.

He celebrated his wedding last year to Lauren Sánchez with a multi-day star-studded event in Venice, Italy, estimated to cost more than $50 million, featuring guests like Oprah Winfrey and Kim Kardashian, and including a ceremony on the island of San Giorgio Maggiore and a pajama-themed afterparty at the Arsenal.

His “homes” include three adjacent properties on Indian Creek Island in Florida, costing over $230 million; the former Warner estate in Beverly Hills, California, which features a 13,600-square-foot mansion and a golf course, which he purchased for $165 million; a 14-acre compound on Maui with a 4,500-square-foot main house and 700-square-foot pool; a $23 million mansion in Washington, D.C.; and a massive multi-lot compound with waterfront frontage in Medina, Washington.

But what puts Bezos at the head of all the other robber barons in this second Gilded Age is his slavish sycophancy toward the worst president in American history.

Bezos bought the legendary Washington Post for $250 million in October 2013 and has turned it into a Trump cheerleader — prohibiting its editorial page from endorsing Kamala Harris in 2024 and barring it from writing anything critical about American capitalism or Trump.

(That’s not all Bezos has done to ruin the Post. In February, he fired more than 300 Post journalists, about a third of its staff.)

Then he shamelessly paid $40 million to license the documentary “Melania” plus $35 million to market it — and earned back a tiny percentage. It was a blatant bribe of Trump.

And he does whatever Trump asks. After Trump complained to Bezos about a report that Amazon planned to display for consumers the costs of Trump’s tariffs, Bezos immediately canceled the plan.

Bezos has sucked up to Trump presumably to secure Pentagon contracts for his Blue Origin rocket company, which landed a $2.3 billion NASA contract early in Trump's second term. And to avoid further antitrust lawsuits or labor law scrutiny.

That he has zero scruples does not necessarily distinguish Bezos from the other robber barons of this despicable era.

But his public-be-damned business practices, his especially conspicuous consumption, and his excessive sucking up to Trump make Jeff Bezos the worst CEO of them all.

What can you do? You might share this post and boycott Amazon.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

A indústria europeia pretende colocar os europeus a financiar a baixa de preços dos medicamentos nos EUA


O presidente da divisão farmacêutica da Bayer avisa que os europeus terão de pagar preços mais elevados pelos medicamentos, sob pena de o continente deixar de ser um mercado atrativo para novos remédios.

“O governo americano deixou claro que não vê porque é que os EUA devem financiar sozinhos a investigação global em investigação e desenvolvimento (R&D)”, afirmou Stefan Oelrich, que também é membro da administração da multinacional, ao jornal Financial Times.

O argumento é que os medicamentos mais caros vendidos aos utentes nos EUA permitem financiar a investigação necessária à descoberta de novos fármacos, com os europeus a serem os grandes beneficiados. Mas a empresa alemã não é a única a avisar que este modelo tem de mudar: as declarações de Oelrich juntam-se a um coro de alertas recentes no mesmo sentido, por parte de empresas como a Pfizer e a Novartis.

O problema não está só na União Europeia. Segundo o Financial Times, a farmacêutica Eli Lilly também já avisou que os seus investimentos no Reino Unido estão dependentes de o NHS — o serviço nacional de saúde britânico — aumentar o preço que paga pelos medicamentos. Um apelo que surge num momento de especial aperto financeiro dos principais sistemas de saúde europeus.

A divisão farmacêutica da Bayer, segundo o FT, equivale a 40% das receitas do grupo. Mas tem várias patentes em vias de expirar e tem planos para expandir o negócio no mercado norte-americano, que espera vir a ser o seu principal. Ao jornal financeiro, o responsável garantiu, contudo, que tem um pipeline robusto de novos produtos farmacêuticos que deverão suportar as receitas mais perto do final desta década.

Lavagem verde
"Em Portugal, a Responsabilidade Social Bayer rege-se por cinco grandes linhas orientadoras: ações com a Comunidade, promoção da Educação e Ciência, e Proteção do Ambiente, promoção de Estilo de Vida Saudável." [Fonte]

quinta-feira, 26 de março de 2026

Porque é que os ricos estão a investir tanta riqueza na política?

O 1% dos americanos mais rico controla atualmente 55,8 triliões de dólares em ativos. Isto é mais do que o Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos e da China juntos.

Na semana passada, testemunhei numa audição no Congresso organizada pelo senador de Rhode Island, Sheldon Whitehouse, e pelo senador do Novo México, Martin Heinrich, sobre o que as grandes empresas petrolíferas ganharam com a sua enorme contribuição para a campanha de Trump em 2024 — e quanto os americanos estão a pagar por esse suborno em custos mais elevados de combustível e alterações climáticas destrutivas.


Mas este não é o único esquema de corrupção em Washington. A corrupção política está a crescer drasticamente — em parte porque Trump é o presidente mais corrupto da história norte-americana. Mas também porque os ricos da América e as suas empresas têm investido cada vez mais dinheiro na política, uma vez que o retorno desse “investimento” se tornou enorme.

Tenho boas notícias para partilhar convosco sobre tudo isto. Mas antes quero esboçar o problema central, 1-2-3. Depois, sugerirei uma solução, 4.

1. Os 0,1% mais ricos tornaram-se fabulosamente ricos.
Observe o gráfico acima, que mostra os 0,1% dos americanos mais ricos — famílias com património líquido superior a 45 milhões de dólares em 2025 — a distanciarem-se rapidamente do resto da população.

Como se pode ver, de 1990 a aproximadamente 2003, a riqueza da maioria dos americanos cresceu a um ritmo semelhante. A disparidade começou a aumentar por volta de 2003, quando Wall Street entrou numa onda de especulação, criando uma bolha financeira. Quando a bolha rebentou em 2008, os 0,1% mais ricos sofreram um grande impacto.

Mas desde 2008, a riqueza dos 0,1% mais ricos arrancou verdadeiramente. E depois de 2018, explodiu — principalmente devido aos efeitos combinados do corte de impostos de Trump em 2017, da recessão da COVID-19 (quando os ultrarricos usaram as baixas taxas de juro para comprar imóveis e ações) e da subsequente subida do mercado bolsista.

De acordo com a Fed, quase 72% da riqueza dos 0,1% mais ricos é composta por ações de empresas, quotas de fundos mútuos e negócios privados. O índice S&P 500 mais do que triplicou na última década.

2.º Estão a investir cada vez mais dessa riqueza na política.
O jornal The New York Times analisou recentemente dados sobre o financiamento de campanhas para verificar como os doadores ricos têm influenciado a política.

A análise mostra que, nas eleições federais de 2024, apenas 300 multimilionários e os seus familiares diretos contribuíram com mais de 3 mil milhões de dólares para o financiamento de campanhas — direta ou indiretamente, através de comités de ação política. Mais de 2 mil milhões de dólares deste montante foram destinados a candidatos republicanos, incluindo Trump.

Isto representou 19% — quase um quinto — de todas as contribuições políticas.

As famílias bilionárias doaram, em média, um total de 10 milhões de dólares cada, o que equivale aproximadamente ao valor doado por 100 mil doadores políticos típicos, em conjunto.

E isto não inclui as chamadas contribuições de "dinheiro obscuro" canalizadas através de organizações sem fins lucrativos que não são obrigadas a divulgar a sua origem.

3.º Por que razão estão a investir tanto em política?
Parte da razão para a explosão das contribuições políticas dos super-ricos é a decisão do Supremo Tribunal de 2010 no caso Citizens United contra a Comissão Eleitoral Federal, que pôs fim a muitas das restantes restrições ao financiamento de campanhas.

Antes desta decisão, a fatia das despesas dos multimilionários era quase nula — 0,3%.

Mas uma razão ainda maior é a explosão de riqueza no topo da pirâmide social. Isto não só deu aos super-ricos os meios para fazerem contribuições políticas, como também lhes deu um grande incentivo para as fazerem.

Querem impostos mais baixos, menos regulamentos para os seus negócios e leis e regras mais "favoráveis ​​aos negócios".

Por outras palavras, querem ficar com uma maior fatia da sua gigantesca riqueza.

Se for extremamente rico, a democracia pode parecer uma ameaça à sua riqueza. Quanto mais riqueza se acumula, mais assustadora pode parecer a democracia. Isto porque representa uma minoria ínfima. A maioria da população poderia votar a favor de medidas que reduziriam parte da sua riqueza — impostos sobre o rendimento mais elevados, imposto sobre as grandes fortunas, regulamentos que reduzem os poluentes que pode lançar para o ar ou para a água, iniciativas para desmantelar os seus monopólios ou permitir que os seus trabalhadores se sindicalizem e exijam salários mais elevados.

O bilionário Peter Thiel escreveu um dia que "já não acredita que a liberdade e a democracia sejam compatíveis".

Presumivelmente, Thiel define "liberdade" como a capacidade de acumular enormes quantidades de riqueza sem ser impedido por quaisquer responsabilidades para com o resto da sociedade.

Mas existe uma ideia muito diferente de liberdade e democracia, melhor articulada pelo famoso jurista Louis Brandeis, que terá dito: “A América tem uma escolha. Podemos ter uma grande riqueza nas mãos de poucos, ou podemos ter uma democracia. Mas não podemos ter ambas”.

Para Brandeis, a democracia era a fonte da liberdade, e não uma restrição a esta.

À medida que a visão de Thiel ganha mais adeptos entre aqueles que possuem uma grande riqueza — que estão rapidamente a acumular ainda mais e a corromper cada vez mais a política americana — Thiel está, inadvertidamente, a provar o argumento de Brandeis.

4.º Como podemos reverter isto?
Parte da solução é tirar o dinheiro das grandes corporações da política. Já sugeri como isso pode ser feito sem tentar as tarefas quase impossíveis de fazer com que o Supremo Tribunal reverta a sua decisão no caso Citizens United ou aprove uma emenda constitucional. Veja aqui .

A outra parte da resposta é aumentar os impostos sobre os super-ricos — o sonho de Louis Brandeis e o pesadelo de Peter Thiel.

A boa notícia é que — apesar do crescente poder político dos ricos — isso começa a acontecer. Ainda não é um incêndio descontrolado, mas pode vir a ser em breve.

O estado de Washington acaba de aprovar um imposto sobre o rendimento de 9,9% para os residentes que ganhem mais de um milhão de dólares por ano. O estado estima que isto afectará cerca de 20.000 famílias (menos de meio por cento da população do estado). O estado de Washington planeia utilizar as receitas fiscais, estimadas entre 3 mil milhões e 4 mil milhões de dólares por ano, para pagar as refeições escolares às crianças, expandir um crédito fiscal familiar para incluir outras 460 mil famílias de baixos rendimentos e financiar outros serviços essenciais que o orçamento estadual não consegue suportar de outra forma.

A Assembleia Legislativa do estado de Nova Iorque acaba de apresentar uma proposta de aumento de 0,5% no imposto sobre o rendimento dos nova-iorquinos que ganhem mais de 5 milhões de dólares por ano.

Em 2022, os eleitores do Massachusetts aprovaram uma sobretaxa de 4% sobre o rendimento tributável anual que exceda 1 milhão de dólares. Desde que o imposto entrou em vigor em 2023, o estado arrecadou quase 6 mil milhões de dólares em receitas fiscais adicionais — e o número de milionários no estado aumentou, em vez de diminuir.

Nova Jersey detém um imposto sobre o património desde 2020. O Minnesota implementou um imposto sobre os rendimentos de investimentos acima de 1 milhão de dólares em 2024.

A Califórnia está prestes a incluir no boletim de voto estadual de novembro um imposto único de 5% sobre a riqueza dos multimilionários do estado.

São Francisco e Los Angeles estão a planear iniciativas de votação municipal para aumentar os impostos sobre as empresas cujos CEO ganham 100 vezes (na versão de São Francisco) ou 50 vezes (na versão de Los Angeles) o salário médio dos seus funcionários.

No Congresso, o deputado californiano Ro Khanna e o senador do Vermont Bernie Sanders apresentaram um projecto de lei para tributar a riqueza dos multimilionários americanos.

Retirar a influência do dinheiro na política e aumentar os impostos sobre os super-ricos são medidas possíveis — não fáceis, mas possíveis. São também necessárias para inverter a crescente corrupção que está a minar o nosso sistema de capitalismo democrático.

Análise: como o capitalismo digital e o tecnofascismo estão a reproduzir antigas estruturas de dominação


Em parceria com a revista FCW Cultura Científica, da Fundação Conrado Wessel, o The Conversation Brasil publica uma série sobre os efeitos políticos, sociais e institucionais das redes digitais. Nesta edição, o investigador Vinício Carrilho Martinez, professor da UFSCar, analisa de que modo algoritmos, plataformas e a concentração de poder tecnológico reorganizam o espaço público, intensificam a polarização e abrem caminho para novas formas de autoritarismo. Para ele, o tecnofascismo é uma forma contemporânea de dominação em que a vigilância, o controlo e a indução de condutas passam a operar por meio de plataformas e algoritmos, sob a aparência de liberdade.

O momento global e, em especial, o brasileiro — num ano de eleições gerais no país —, não pode ser entendido apenas como um período de grande aceleração tecnológica, crise política conjuntural e geopolítica ou ainda como uma mutação do capitalismo. Há algo mais além do que a vista alcança: está em curso uma convergência entre o capitalismo digital, a reorganização das formas de controlo e a manutenção de estruturas históricas de dominação.

À escala mundial, as plataformas transformaram dados, atenção e comportamento em mercadoria e em instrumento de poder. No Brasil, este processo agrava-se porque encontra um terreno já marcado pelo racismo institucional, pelo patriarcalismo e pelo pensamento esclavagista. É desta articulação entre a hipermodernidade tecnológica e o passado que emerge a gramática do tecnofascismo.

Podemos considerar o capitalismo digital como uma atualização do próprio capitalismo. O centro da acumulação, porém, desloca-se da produção material para a produção de dados, da mercadoria física para a mercadoria informacional. O dado humano — ações, desejos, medos, rotinas, cliques, palavras digitadas — passa a ser o núcleo da valorização. O humano torna-se objeto de exploração total, já não apenas como força de trabalho, mas como fonte permanente de informação e vigilância.

A fórmula segundo a qual "o produto és tu" ajuda a descrever uma parte do problema, mas não o esgota. Mais do que mercadoria, o sujeito torna-se um trabalhador invisível deste sistema: produz circulação, gera envolvimento (engagement), alimenta plataformas, treina mecanismos, deixa rastos, sustenta cadeias inteiras de rentabilidade sem que essa produção apareça como trabalho. E sem qualquer remuneração.

Convém retomar o problema desde as suas bases. A neutralidade técnica, neste contexto, é uma ficção conveniente. A própria internet, de acordo com as suas origens, não nasceu isenta: surgiu como um projeto militar. A ARPANET (rede de computadores criada pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos no final dos anos 1960) é considerada a precursora da internet. A Guerra Fria (1947–1991), a ideia de vantagem estratégica no campo das comunicações e da guerra futura mostram que a técnica emergiu articulada com as necessidades do poder.

Houve processos de democratização, sem dúvida, mas ainda insuficientes para apagar a base originária de controlo. Esta associação entre técnica e política é antiga. O nazismo já o tinha demonstrado com a rádio, convertida em instrumento de difusão ideológica e de concentração do discurso autorizado. Hoje, o dispositivo mudou; a lógica autoritária de exclusão da crítica e de centralização da palavra não desapareceu. Apenas mudou de roupa.

Controlo por adesão
A compreensão dos algoritmos contém essa visão. Eles não são, obviamente, uma abstração neutra. Os algoritmos não se organizam sozinhos, não se responsabilizam, não se corrigem sozinhos e tendem a reproduzir e a aprofundar o imaginário social sedimentado. É o caso da IA (inteligência artificial) que reproduz uma reunião empresarial composta por homens brancos, regista a participação de mulheres apenas de forma subordinada e não consegue inserir a presença de uma mulher negra.

Pois bem: isto não é um erro lateral do sistema, é estrutura, uma codificação da exclusão. O mesmo vale para o regime de visibilidade: um vídeo vindo de uma comunidade indígena, ainda marcada pela sua ancestralidade, não circula; ao passo que a misoginia convertida em espetáculo e a brutalização transformada em recurso mediático encontram ampla difusão. O algoritmo organiza o visível e o invisível. Define o que aparece e o que desaparece.

É justamente aí que o tecnofascismo se diferencia do fascismo histórico e, ao mesmo tempo, o prolonga. O fascismo clássico dependia da coerção visível, da violência direta, da censura, da polícia, do aparato estatal ostensivo. No tecnofascismo, a dominação é internalizada. Torna-se difusa, invisível e quotidiana. O sujeito acredita estar a agir livremente, mas está dentro de uma arquitetura de controlo projetada por algoritmos e sistemas automatizados.

O tecnofascismo não precisa de calar, porque a própria lógica digital já define o que é visível e o que desaparece. O controlo não é imposto de fora; dá-se de dentro, pela adesão ao sistema. É por isso que pode ser definido como o fascismo do algoritmo, o fascismo do like, o fascismo do controlo sedutor. Disfarça-se de liberdade, mas opera como vigilância permanente e como colonização da subjetividade.

O eterno retorno
No plano global, as grandes plataformas (big techs) constituem o núcleo duro deste processo. Não são apenas empresas; configuram-se como novos impérios. Controlam a infraestrutura da comunicação global, privatizam a esfera pública, transformam a comunicação humana em negócio. O capital digital extrai valor do tempo, da atenção e da emoção. Trata-se, em sentido rigoroso, de um capitalismo da vigilância e da extração psíquica. O que se compra e se vende não é apenas consumo, mas comportamento.

Estas corporações não apenas registam o que fazemos; orientam o que devemos desejar, amar, temer ou odiar. O que antes aparecia como um poder mais difuso, hoje apresenta-se de forma ostensiva, mediática, visível. O Estado-plataforma deixou de ser uma hipótese e tornou-se uma realidade dominante.

No Brasil, porém, este processo encontra uma formação histórica específica. Quando se fala em modernidade tardia, não se trata apenas de um atraso cronológico em relação às economias centrais. Trata-se de um passado que está sempre presente, que não se descola. Patriarcalismo, patrimonialismo, nepotismo, racismo institucional, pensamento esclavagista: tudo isto se recompõe e reaparece. Muda de roupa, mas retorna.

O caso da professora negra aprovada em primeiro lugar para uma vaga em linguística africana e atingida pela anulação do concurso mostra exatamente isso: o passado a reaparecer por via do próprio Estado. O racismo institucional não é um acidente. É permanência histórica. É uma das formas pelas quais o passado continua a bater à porta.

A mesma lógica vale para a exploração do trabalho análogo à escravatura. A formação social brasileira entra na hipermodernidade sem ter rompido com formas económicas e mentais pré-capitalistas. A "uberização" talvez seja o exemplo mais evidente da atualização tecnológica da escravização.

O trabalhador sem garantias, sem proteção, sem estabilidade, sem direitos, submete-se ao ritmo de trabalho que conseguir suportar, ao bel-prazer da empresa a cada chamada, a cada serviço, a cada fatia retirada do seu trabalho, sem a contrapartida correspondente. Vale para o motorista, para o estafeta (motoboy), para o trabalhador da cultura, para o professor submetido à plataformização do ensino. Passado e presente, no caso brasileiro, estão absolutamente juntos.

Um passado que permanece presente
É baseado nesta junção entre capitalismo digital, pensamento esclavagista, regime algorítmico de visibilidade e mobilização política reacionária que o tecnofascismo ganha uma forma histórica concreta. A misoginia, o racismo, a adultização, a proliferação neonazi, os discursos anticientíficos e antivax (vacinas) não circulam apenas porque existem produtores desses conteúdos, mas porque há uma economia política da atenção que os favorece.

O envolvimento (engagement) do algoritmo premeia o extremismo. A lógica das plataformas amplia os conteúdos que melhor mobilizam o medo, o ódio e a adesão. O tecnofascismo encontra aí a sua base social real. Se antes ainda se podia insistir na categoria da manipulação, hoje isso já não basta. O que se vê é identificação. O sujeito não apenas consome o discurso; ele reconhece-se, adere à sua gramática, incorpora e reproduz os seus valores.

Os efeitos destes fenómenos são mais intensos no Brasil não apenas porque a regulação é insuficiente, mas porque as condições estruturais são terrivelmente frágeis. A democracia está em processo de fortalecimento, com marcos históricos recentes e fundamentais, como a responsabilização de militares de alta patente por crimes contra a democracia.

Mas isso também evidencia que a disputa segue aberta. O terreno continua fértil para o tecnofascismo porque aquilo que ainda coloniza o Brasil não foi superado. A hipermodernidade não o dissolveu; apenas lhe forneceu novos meios, novas linguagens e novos dispositivos. Talvez por isso a melhor definição do nosso tempo seja mesmo a de realismo trágico. Não se trata de uma distopia futura. Trata-se da forma contemporânea de uma tragédia já instalada no presente.