Mostrar mensagens com a etiqueta Trigo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Trigo. Mostrar todas as mensagens

sábado, 30 de maio de 2026

Classificação: os países que alimentam o mundo


Um grupo relativamente pequeno de países fornece hoje uma enorme fatia dos alimentos comercializados no mundo. Os 10 maiores exportadores, por si só, representam quase metade das exportações agrícolas globais, conferindo a um punhado de economias uma enorme influência sobre os preços e as cadeias de abastecimento globais de alimentos.

As Américas constituem o núcleo do sistema global de comércio de alimentos. Os EUA, o Brasil, o Canadá e o México, em conjunto, representam quase 30% das exportações agrícolas globais, abrangendo desde cereais e carne a alimentos processados ​​e oleaginosas.

Enquanto isso, várias economias populosas apresentam classificações inferiores às esperadas. Apesar de ser o maior produtor agrícola do mundo, a China está muito atrás dos EUA e do Brasil em termos de valor de exportação, o que reflete a parcela da sua produção que é consumida internamente.

sábado, 7 de junho de 2025

Cientistas fazem descoberta genética que pode aumentar o rendimento do trigo em 10%



Um grupo de investigadores descobriu como melhorar geneticamente o trigo ao identificar um gene que influencia diretamente o peso e o enchimento dos grãos, tendo concluído que esta descoberta pode aumentar o rendimento do trigo em cerca de 10%.

O estudo, recentemente publicado na revista científica Plant Biotechnology Journal, recorreu à tecnologia de edição genética CRISPR para demonstrar que a modificação do gene TaWUS-like-5D pode contribuir para um maior rendimento desta cultura.

A investigação incidiu sobre a família de genes Wox, conhecida por regular aspetos cruciais do crescimento das plantas, embora o seu impacto direto em culturas alimentares como o trigo permanecesse, até agora, pouco estudado.

Utilizando a tecnologia CRISPR, os cientistas editaram geneticamente plantas de trigo, promovendo alterações no gene TaWUS-like-5D, com o objetivo de avaliar os efeitos no peso de mil grãos (TKW), um dos principais indicadores de produtividade.

Os resultados revelaram que as plantas com edições genéticas produziram grãos significativamente maiores, tendo estas registado um aumento no enchimento e no peso total do grão.

Assim, como o amido representa até 85% do peso seco do trigo, os investigadores concluíram que este gene desempenha “um papel determinante” na regulação do rendimento deste cereal.

De acordo com os autores do estudo, este avanço científico pode gerar impacto na segurança alimentar mundial, ao permitir o desenvolvimento de variedades de trigo mais produtivas e adaptadas aos desafios futuros.

O estudo refere que o trigo é uma “cultura globalmente importante” para garantir a segurança alimentar no mundo, especialmente num momento em que as previsões antecipam que a produção de trigo enfrente sérios desafios devido a uma combinação entre alterações climáticas e projeções de que a população mundial duplique até 2050.

terça-feira, 11 de junho de 2024

Os lameiros - uma grande invenção tecnológica agrícola


Começou a época dos fenos cá na terra. Começa em junho nas cotas mais baixas e termina, no início de agosto, na Serra de Montesinho, se ainda se fenassem os lameiros da Lama Grande. Em Montalegre, Vila Pouca de Aguiar, nas Serras Beira Durienses, e na Cova da Beira–Serra da Estrela as datas (vale-montanha) são similares.
Os lameiros são um tema particularmente interessante de ciência da vegetação e da história da agricultura. As questões em aberto são muitas. Quando foram inventados os lameiros? De onde vem a flora dos lameiros? Como compatibilizar a produção de erva e feno com elevados níveis diversidade biológica? 
Começo pela primeira pergunta.
1. Os relatórios de escavações realizadas na Beira interior pela arqueóloga Catarina Tente (IEM – NOVA FCSH) mostram que nos séc. X-XI as habitações rurais eram ainda construídas em materiais perecíveis (sem corte e palheiro no rés-do-chão) e que os gados eram  guardados ao ar livre. Generalizando a Trás-os-Montes as descobertas beirãs, as aldeias atuais “parecem ter sido formadas a partir da segunda metade do século XI e sobretudo no século XII”.
2. Para produzir feno é preciso proibir o acesso dos herbívoros aos lameiros durante cerca de 90 dias.
Não sou especialista no assunto mas a reserva dos lameiros implica a imposição de direitos privados de propriedade nas pastagens e, suponho, alterações ideológicas profundas apenas possíveis em períodos de grande estress social (veja-se o que escreve Ester Boserup).
Tendo em consideração estas premissas, não é um salto lógico improvável admitir que a propriedade privada perfeita (?) dos lameiros e, implicitamente, a produção de feno dos lameiros seja uma invenção tardimedieval.


Para compreender a origem da flora dos lameiros é primeiro preciso perceber que existem dois tipos funcionais fundamentais de gramíneas perenes pratenses – gramíneas altas e gramíneas baixas–, que por sua vez dão origem a outros tantos grandes tipos de pastagens – pastagens altas e pastagens baixas –, sejam elas húmidas, mésicas ou secas. É curioso que as “tall grasslands” e as “short grasslands” são praticamente universais nos territórios pastados por grandes herbívoros, desde África às Américas.
As gramíneas altas têm uma estratégia de tolerância à herbivoria sendo, por isso, mais palatáveis e produtivas, com respostas rápidas à desfoliação, em contrapartida muito sensíveis a eventos reiterados de pastoreio intenso, em particular durante o período reprodutivo. São exemplos Dactylis glomerata, Festuca arundinacea, Festuca rothmaleri, as várias Avenula (agora no género Helictochloa), Celtica  gigantea, Holcus lanatus, Poa trivialis e P. pratensis, os Anthoxanthum perenes, Melica ciliata e, muito importante, o Arrhenatherum bulbosum. As gramíneas baixas optam pela resistência aos herbívoros: são menos palatáveis e produtivas, muitas delas rizomatosas ou bulbosas (as altas são sobretudo cespitosas), como é o caso do Agrostis castellana e do A. capillaris, do Nardus stricta, da Poa bulbosa, da Festuca indigesta e da  F. nigrescens. Nesta altura do ano, as gramíneas altas protegidas nos arbustos são a melhor prova de que um monte está pastado.
Então de onde vêm as plantas dos lameiros?
As gramíneas perenes altas são a chave da estrutura e da produtividade dos lameiros. A persistência destas plantas depende de três fatores: 1) serem poupadas ao pastoreio a partir de Março-Abril, durante pelo menos 90 dias; 2) a fenação tem que as apanhar, se não todos anos, quase todos, maduras, de modo que as sementes caiam no solo durante a fenação e renovem o pasto; 3) as extrações de nutrientes pelo feno têm que ser adequadamente repostas. O resto da flora de lameiro tem várias proveniências, a maioria, obviamente, é característica das comunidades de gramíneas altas; outras plantas, por exemplo, vêm das orlas de bosque.
Portanto, quem inventou os lameiros, além de dispor de muito mais erva (e de feno para o inverno) criou, inadvertidamente, um habitat secundário – tão dependente do maneio humano como a seara de trigo –, perfeito para as plantas das comunidades de gramíneas altas, curiosamente, muito mais diverso e estável do que o original.

sexta-feira, 24 de maio de 2024

Poema: Sou um Gato

Sou um gato
"Relaxado, mas atento e disponível para os outros.
Sou um gato.
Não o gato Tom
Nem uma fantasia ou entro numa fábula
Gato genuíno
Não chamem a Siri
Chamem-me e eu vou, senão fico no meu canto
Lendo, ouvindo música, distraindo-me com afazeres
Sou um gato independente e arguto
É isso
Activista, caça-desonestos, caça-imbecis
Puro gato.
Semi-doméstico, semi-selvagem.
Quero Natureza por inteiro
Não apenas meio ambiente.
Audaz
Campo, montanha, rios e searas
Conheço o mundo pelos sentidos
O que encanta num gato não é apenas o exterior
É a riqueza dos gestos, dos movimentos
Dando o seu melhor
à Terra-Mãe
Sim, gato. Grato."
João Soares, 23.05.2024

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Montalegre quer revitalizar o cultivo de centeio e os fornos tradicionais


Montalegre quer revitalizar a produção de centeio, um cereal cada vez mais valorizado devido à escassez no mercado, no âmbito de um projeto que inclui a requalificação de fornos antigos, disse ontem a presidente da câmara.

Fátima Fernandes explicou que foi já feita uma sementeira com centeio tradicional na Quinta da Veiga, numa parceria com a Cooperativa Agrícola do Barroso (CoopBarroso), com vista à produção de semente biológica.

Segundo informações já divulgadas pela autarquia do norte do distrito de Vila Real, em dois hectares de terreno naquela quinta, a CoopBarroso iniciou em novembro a produção de centeio, adquirido aos agricultores do concelho, com vista à certificação biológica.

O município adiantou que os “700 quilos semeados devem render, em julho próximo, perto de quatro toneladas”.

E, dentro de dois anos, acrescentou, pretende-se ter semente suficiente para replicar a quem queira aderir a este projeto apoiado pela Câmara de Montalegre.

O objetivo, para além do fomento da economia local, passa pelo incentivo à produção de uma semente que não pede grande exigência e que tem procura no mercado.

O município quer “dar nota aos agricultores que tem aqui mais uma fonte de rendimento”, sabendo-se que, atualmente, “o centeio é um cereal muito procurado e valorizado, principalmente aquele que é de produção biológica”.

Os cereais, que têm uma grande importância na dieta alimentar em Portugal, têm registado uma acentuada diminuição de produção nas últimas décadas.

As estimativas do Instituto Nacional de Estatística (INE), reveladas em dezembro, apontam para uma diminuição em volume (-3,8%) na produção de cereais em 2023, em resultado de decréscimos em todos os cereais, à exceção do milho e arroz, devido às condições meteorológicas adversas.

Segundo o INE, a campanha cerealífera “foi bastante negativa, tendo os preços registado uma diminuição significativa (-23,7%), onde se destaca o trigo, a cevada e o milho, em consonância com a diminuição dos preços registada nos mercados internacionais, após o período de escassez de cereais (com preços elevados) na sequência da guerra na Ucrânia”.

“É uma produção fácil e, além do mais, interage muito bem com a produção de batata, porque habitualmente, e tradicionalmente, aquilo que acontecia é que nos terrenos onde havia onde era semeado o centeio, depois eram trabalhados para aí plantar as batatas”, explicou a autarca.

Fátima Fernandes recordou que o concelho de Montalegre já “foi um grande celeiro, principalmente de centeio”, e que ali ainda é produzido um “pão de excelência”

“E, portanto, porque não apostar desde a sementeira até depois ao pão e produto final, passando por todas as etapas, a semente a apanha, a debulha? (…) Temos que revitalizar as nossas eiras para se perceber como é que se fazia antigamente e depois os fornos”, salientou.

A sementeira está, especificou, inserida num projeto maior que quer dinamizar todo o território e cujo objetivo passa, também, pela requalificação de alguns fornos do Barroso, colocando-os a trabalhar, a produzir o pão e, desse modo, fazendo roteiros culturais e gastronómicos.

“É uma aposta que está perfeitamente enquadrada no Património Agrícola Mundial”, salientou.

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Portanto, por mais que se torçam, a Ucrânia não vai aderir à UE. As potências agrícolas europeias não vão deixar.


A adesão à UE na potência agrícola Ucrânia resultaria na “morte” da agricultura familiar, alertou o sindicato dos agricultores alemães, no meio de preocupações crescentes sobre a futura direcção do programa de subsídios agrícolas da UE.

Leia o artigo original em alemão aqui .

Na sequência da recomendação da semana passada da Comissão Europeia para iniciar conversações formais de adesão com a Ucrânia , Joachim Rukwied, presidente da Associação Alemã de Agricultores (DBV), alertou para as suas consequências no sector agrícola.

A adesão “levaria ao fim da agricultura familiar na Europa”, disse ele numa conferência de imprensa sobre o futuro da Política Agrícola Comum (PAC) da UE na quarta-feira (15 de Novembro).

Isto deve “permanecer no pano de fundo de todas as discussões políticas”, acrescentou.

Rukwied destacou o grande sector agrícola da Ucrânia e o facto de a exploração agrícola média no país ser muitas vezes maior do que na UE.

A admissão significaria, portanto, “integrar na UE um setor agrícola com estruturas completamente diferentes, até explorações agrícolas da ordem de vários 100 mil hectares”, frisou.

Neste contexto, argumentou que uma Política Agrícola Comum (PAC) que inclua a Ucrânia “não é viável”, a menos que seja à custa das explorações agrícolas nos actuais países da UE.

Um documento de posição para o próximo período de financiamento da PAC, de 2028 a 2034, apresentado pela associação na quarta-feira foi, portanto, baseado no estado atual da UE e não num estado alargado, de acordo com Rukwied – embora a UE tenha mencionado uma meta provisória de estar pronto para a adesão até 2030.

Num impulso ao difícil processo de alargamento do bloco, a Comissão Europeia recomendou na quarta-feira (8 de Novembro) a abertura de negociações de adesão com a Ucrânia e a Moldávia – bem como potencialmente com a Bósnia, numa fase muito posterior – assim que finalizarem a implementação das principais reformas pendentes.

Na verdade, existe um amplo consenso entre os representantes políticos e as organizações de que a PAC não poderia continuar na sua forma actual se a Ucrânia aderisse.

Em particular, os chamados pagamentos diretos, pagos às explorações agrícolas por hectare de terras agrícolas, provavelmente não seriam financeiramente viáveis ​​para as grandes áreas da Ucrânia.

Contudo, ao contrário da DBV, o Ministério da Agricultura alemão, por exemplo, pressionou no sentido de utilizar a próxima adesão como uma ocasião para reformar fundamentalmente a PAC e abandonar os pagamentos por superfície, em grande parte incondicionais.

Vários estados federais alemães , bem como organizações ambientais e representantes da agricultura biológica e de pequena escala, também se manifestaram a favor da preparação de fundos agrícolas da UE para a adesão da Ucrânia.

Entretanto, o governo de Kiev argumenta que a adesão da Ucrânia fortaleceria o sector agrícola da UE e tornaria a União num actor global na agricultura.

Além disso, um estudo recente realizado pelo Instituto de Estudos Económicos Internacionais de Viena concluiu que o sector agrícola ucraniano não se tornaria um “poço sem fundo” para a PAC porque é competitivo sem grandes subsídios – mas ao mesmo tempo, em alguns aspectos, “demasiado competitivo” em comparação com outros países da UE.

Avaliar o impacto da adesão da Ucrânia nos subsídios agrícolas da UE segundo os critérios actuais não é um exercício relevante, uma vez que a adesão de Kiev à UE conduzirá provavelmente ao fim da Política Agrícola Comum tal como a conhecemos hoje, de acordo com o vice-ministro da Economia da Ucrânia, Taras Kachka.

“De facto, graças ao solo negro fértil e à mão-de-obra barata, a agricultura ucraniana produz de forma tão eficiente que representa uma concorrência séria para muitos países da UE, como mostra a disputa sobre as exportações de cereais da Ucrânia para a Polónia e a Hungria”, afirma o estudo.

Rukwied também alertou que a Ucrânia aderiria à UE “como um país cuja agricultura produz muito abaixo dos nossos padrões, por exemplo, no uso de pesticidas” e que, portanto, competiria injustamente com explorações agrícolas de outros países da UE.

Na realidade, porém, a Ucrânia terá de transpor todas as normas da UE para o direito nacional antes de poder aderir à União.

Saber mais:

Leituras Relacionadas

domingo, 19 de novembro de 2023

Encontros Improváveis - Priotr Kropotkin e Philippe Janin

Philippe Janin  (1959- ). França- "Paisagem"

"Somos ricos, muitíssimos mais ricos do que cremos. Ricos pelo que possuímos agora; ainda mais ricos pelo que podemos conseguir com os instrumentos atuais; infinitamente mais ricos pelo que poderíamos obter de nosso solo, de nossa ciência e de nossa habilidade técnica, caso se aplicassem a procurar o bem estar de todos”.- Priotr Kropotkin, in "A Conquista do Pão" (1892)

Piotr Alexeyevich Kropotkin foi um geógrafo, economista, cientista político, sociólogo, zoólogo, historiador, filósofo e ativista político russo, um dos principais pensadores do anarquismo no fim do século XIX, considerado também o fundador da vertente anarco-comunista.

Philippe Janin concluiu os seus estudos em Grenoble para conseguir o Diploma de Arquiteto. Oscilou então entre estas duas paixões antes de se dedicar exclusivamente à pintura em 1989. Pintor figurativo de inspiração provençal, Philippe Janin construiu o seu estilo combinando exigências rigorosas no estabelecimento, no desenho da obra e na exigência técnica na aplicação de materiais e pastas coloridas.
O princípio é dominar a técnica para libertar a mente dos obstáculos materiais e ter essa espontaneidade e instinto neste mais sensual eles encontram seu lugar e expressão natural. Daí a primazia do trabalho.
Nada de intelectual nesta pesquisa e é simplesmente alcançar a emoção.

sábado, 4 de novembro de 2023

Alfredo Sendim: “O que está em causa não é o planeta nem a natureza, somos nós”

Food is the currency of Life
Como é que podemos explicar a alguém que vive a maior tempo na cidade e tem pouco contacto com o mundo rural o que é a agrofloresta?
A agrofloresta é essencialmente a ideia de coabitar com o sistema natural – ou ecossistemas – que nos criaram e estão à nossa volta e dos quais nós ainda hoje dependemos integralmente. Somos completamente dependentes dos recursos que eles produzem. E nós não sabemos de forma alguma, por muita capacidade e engenho que tenhamos, supri-los de outra forma sem ser através do sistema natural.

É muito fácil percebermos o modelo da agricultura, que passa essencialmente por termos uma relação com o que está à nossa volta, eliminando o sistema natural, um conjunto de elementos relacionados entre si e uma capacidade de auto-regeneração única. No fundo aprendemos a canalizar a energia deste sistema apenas para poucos elementos, que obviamente são interessantes para nós, sejam eles cereais, eucaliptos ou olivais. Quando o espaço é muito grande e o número de utilizadores é pequeno, esta fórmula até pode ser bastante razoável, por que se as pessoas destruírem um bocadinho de natureza e quando voltarem ao mesmo sítio já tudo tiver sido regenerado ecologicamente, não há qualquer problema. O problema é que esta modalidade acabou por arrombar o sistema, que deixou de ser capaz de produzir a energia que o faz funcionar.


E a Agrofloresta pode esta inverter essa realidade?
A agrofloresta é uma forma diferente de nos inserirmos na natureza, que já foi desenvolvida em Portugal na Idade Média, com aquele sistema que nos orgulhamos tanto, chamado montado. Este não é mais do que uma evidência, como que dizendo “vamos lá reagir, depois de termos destruído a natureza e os ecossistemas todos”. Aconteceu uma vez no Neolítico, outra, muito mais forte, a seguir ao Império Romano, e uma terceira depois de todo o período dos visigodos, seguido pelos árabes. Às tantas houve alguém que bateu com a mão na mesa e disse: e se nós tentássemos viver com o sistema?

O montado, por exemplo, é um sistema muito simplificado e muito domesticado, adaptado às nossas necessidades, mas é um sistema. A agrofloresta não é portanto mais do que a ideia de viver com um sistema natural, compreendendo-o e sendo nós também parte dele. Diria mesmo que a agrofloresta é hoje uma das expressões mais profundas da ética da agroecologia.

Em que sentido?
Por se opor a uma ética antropocentrada, muito maioritária no pensamento ocidental, que nos diz que não somos natureza, porque a natureza é violenta e selvagem e nós, por oposição, afastamo-nos dela, numa tentativa de nos divinizar. A natureza existe para a ordenarmos e para podermos usufruir dela. A ética da agroecologia é diferente, pois pressupõe umas determinadas capacidades para o homem, que os outros seres não têm, e isso dá-nos não só uma enorme responsabilidade, como nos coloca ao nível dos outros elementos da natureza, como parte dessa mesma natureza. Essa evidência é personalizada pela a árvore, o elemento vegetal que dura mais e é o motor deste sistema. São estes seres que, de forma bastante eficiente, conseguem fazer o milagre de transformar a luz do sol em matéria orgânica. Por isso, todos os outros reinos – o animal, os fungos, as bactérias, os protozoários – são complementares à árvore e ao reino vegetal. Um sistema que não tem este elemento central não é um sistema.

Fala-se muito do solo vivo e da sua importância para a humanidade, mas continuamos sem perceber que não há solo sem árvore. Quem alimenta o solo são as árvores e o sol funciona como uma bateria, pensada neste sistema para ser carregada através de um painel fotovoltaico que se chama biodiversidade e é formado por todos estes seres interrelacionados entre si.

E agricultura tradicional não permite o funcionamento desse regime?
Não porque inventámos uma outra forma de alimentar essa bateria, partindo o painel solar da biodiversidade, através de meios mecânicos e químicos, para a podermos usar de uma forma especulativa, muito contrária aos interesses das novas gerações.
É por isso que a agroecologia é uma ética e não um mero conjunto de técnicas. Mas é também uma abordagem prática, porque implica que aprendamos a viver com o sistema, e quem vive com o sistema é recolector, não é produtor.
Trata-se talvez da expressão mais atual dessa visão sistémica de não arrombar o sistema, mas sim perpetuá-lo, adaptando-o às nossas necessidades, mas sendo o homem, também um elemento ao seu serviço.

Há aqui duas ideias opostas, uma é que a ideia de domínio sobre a natureza, em oposto à agroecologia, é sinónimo de abundância. E depois há esta nova abordagem aos seres vivos e à importância que têm as plantas silvestres e os animais selvagens terão no sistema, de modo a garantir essa mesma abundância a longo prazo.

O mais possível. Na perspectiva antropocentrada o homem é o centro e só ele conta. Há uma ideia muito simples, que é a de imaginarmos que a dado momento chega um ser mais capacitado, com uma atitude perante a humanidade semelhante à que temos com a maioria dos nossos congéneres do reino animal. É um exercício simples e que pouca gente faz.

Acima de tudo é importante perceber a nossa iliteracia ecológica. Ao contrário do que muitas vezes se afirma, a ecologia não é uma mera ideologia de esquerda, mas sim uma ciência, criada precisamente para estudar o sistema que nos criou. E ao não reconhecermos isso ou ao não partilharmos esse conhecimento, assumimos uma posição apenas arrogante. E grande parte destas questões têm precisamente a ver com esse desconhecimento profundo da forma como o nosso sistema de vida e o planeta funcionam.

E como funciona afinal esse sistema?
Todos os ecossistemas são cíclicos, e todos eles vão acabar num estádio que designamos de deserto. O deserto é praticamente só minério, sem vida, porque não há matéria orgânica no solo. Os ecossistemas de deserto evoluem para um outro extremo que é o clímax, mas passando por uma fase intermédia que se chama acumulação. O clímax não significa maior quantidade, porque muitas vezes na fase de acumulação até há maior libertação de recursos, mas é seguramente a fase da eficiência. É importante percebermos que a atitude antropocentrada, ligada à agricultura industrial de monocultura, é a principal responsável pela delapidação destes recursos. E isto são dados científicos comprováveis, pois a parte terrestre do nosso planeta tem mais de 80% em condições de deserto, enquanto há doze mil anos, no Holoceno, tínhamos o quadro inverso, com 80% do planeta em estado de clímax.

Como é o caso do montado, que já referiu como exemplo desse conceito…
O montado é completamente uma agrofloresta, hoje muito querida por todas as pessoas que gostam deste tipo de conceitos, mas é também um símbolo. Foi criado na Idade Média e entretanto foi sendo aperfeiçoado até atingir esta última versão. é o que se chama um modelo de “sucessão dinâmica”, que serve não só para instalar o sistema e viver com o sistema, como também pretende e permite transformar rapidamente desertos em clímax. O sobreiro é um ser de clímax, que precisa de um sistema muito complexo, assim como o humano, para poder viver. E nós não percebemos estes conceitos básicos, assim como também não percebemos que, no Neolítico, entrámos pelo interior de Portugal e matámos tudo aquilo que se chama a megafauna, ou seja todos os animais maiores que nós, sem percebermos que estávamos a suprir uma ferramenta absolutamente essencial dos ecossistemas.

É curioso perceber que os miúdos conhecem os dinossauros todos mas não sabem os nomes dos animais que aqui viviam há quinhentos anos. Sem o sabermos, roubámos instrumentos fundamentais aos ecossistemas. Manipulámos os animais e os outros seres, vegetais, em função das nossas necessidades. Uma vaca, hoje, não é um instrumento num ecossistema, e cada vez que a domesticamos mais, mais lhe retiramos as capacidades de promoverem serviços no ecossistema.

Referiu que dois terços de Portugal são mato, mas que podem ser úteis. O que é possível fazer nessa parte do território?
Antes devemos perguntar-nos porque é que esses dois terços são mato, há quanto tempo o são e o que eram antes. A consequência desta abordagem não sistémica, de assaltar a natureza e de fazer agricultura é o mato, porque o mato é o deserto.

As plantas e os seres que nós vemos no mato são seres pioneiros, que estão a recuperar aquilo que nós estragámos. O drama disto é que em função das condições de clima e de sol cada uma destas etapas pode levar sete a setenta mil anos, e nas nossas condições de Mediterrâneo são mais para setenta do que para sete. Se apenas nos pusermos quietinhos a olhar para o mato à espera que regenere, vai demorar cinquenta mil anos. Não temos tempo para isso.

Aliás, a ideia que o homem só é capaz de destruir, não é capaz de regenerar activamente, não faz sentido. Não há nenhuma razão para que assim seja, por muito que haja algumas correntes de pensamento que gostem e utilizem essa ideia da origem maléfica da nossa espécie. Pelo contrário, somos tão capazes de destruir como de fazer coisas absolutamente maravilhosas. Esses dois terços já foram terras férteis, com florestas e bosques. Porque é que não comemos, por exemplo, plantas e frutos silvestres? A grande razão tem a ver com a agricultura. A agricultura do Neolítico levou à existência de mais humanos no Neolítico final. Mas esse entusiamo levou-nos à razia do ecossistema da Península Ibérica. O que se seguiu foram mais de dois mil anos de caos, de lei do mais forte, que apenas terminou com a chegada dos romanos, que convenceram os povos peninsulares que a comida do mato e do bosque, desse supermercado aberto que não podia ser taxado, não era boa. Fomos convencidos que a única comida boa era a domesticada e nunca mais se comeram bolotas nem produtos silvestres. Ou seja, virámos costas a uma diversidade enorme.

Tendo em conta o modelo económico que temos, como é que podemos encarar o consumo de bolota e de outros frutos silvestres no futuro?
Em primeiro lugar é preciso perceber que ninguém come trigo à dentada, na espiga. O trigo é um alimento extraordinário depois de transformado e processado em farinhas e noutro tipo de alimentos, portanto com a bolota há que se fazer o mesmo, aprender a processá-la e a transformá-la com utilidade prática. A questão da bolota é muito simples: no Mediterrâneo, uma área com carvalhos, por exemplo azinheiras e sobreiros, produz, mesmo com uma densidade baixa de árvores, mais quantidade de alimento do que qualquer cereal e sem gastar energia nas mobilizações de solo, sem provocar erosão, sem adubos, sem barragens e sem tubos. A bolota é tão interessante para a alimentação humana como qualquer cereal.

E a ideia de que se tem estar sempre a limpar, que sentido faz, tendo em conta que se devia aproveitar aquela biomassa?
Numa abordagem de monocultura, a limpeza não é mais do que retirar elementos do sistema para o poder controlar melhor. Normalmente aquilo a que chamamos limpezas são elementos do sistema que vão alimentar o solo. Quando comecei a fazer agricultura nos Açores, os meus colegas começaram a perguntar algo muito interessante, sobre a ração que eu tinha para o solo naquele ano, porque ali a noção que o solo, se não for alimentado – e não é com adubos – vai acabar.

Ou seja, para alimentar o mundo não é preciso recorrer aos transgénicos.
De forma alguma. Para alimentar o mundo é preciso, em primeiro lugar, percebermos o que é que comemos. Essa variável é fundamental. Outra questão é percebermos que somos a única espécie que não atende aos recursos quando pensa em multiplicar-se. Isto vem da tal divinação do ser humano. Se calhar temos de ter a consciência que com o planeta em 20% de clímax e 80% de deserto, se calhar não podemos ser tantos quantos gostaríamos de ser.

A não ser que se reverta...
E que nós caminhemos para a abundância. Mas mesmo assim temos de ter uma bitola para percebermos conscientemente e com métodos libertários, que nenhum ser neste planeta atua como nós. Não há nenhuma espécie que não atenda à forma como se reproduz em relação aos recursos que existem.

Se não houver recursos, vamos sofrer. Sendo que a questão fundamental passa pelo relacionamento entre nós próprios. Como diz o Papa Francisco é uma questão social. Nós nunca vamos reverter esta posição de domínio perante a natureza se não a invertermos entre nós próprios. Não somos iguais a um mosquito, porque temos funções diferentes no ecossistema, mas como São Francisco de Assis tão bem nos mostrou, também não somos nem mais nem menos que um mosquito, pelo que não podemos ter a arrogância de matar milhões de mosquitos apenas porque interessa fazer negócio.

Saber mais:

segunda-feira, 2 de outubro de 2023

Clima extremo: calor insistente na Europa, seca recorde na Austrália, monções mínimas e destruidoras na Índia


Tudo vai se encaminhando para fazer de 2023 o ano mais quente da história. Mas também é possível que, em 31 de dezembro, descubra-se que o ano foi o que registou os eventos climáticos mais extremos, com secas e chuvas intensas e fora de época em todos os cantos do planeta.

Na Europa, Áustria, França, Alemanha, Polónia e Suíça anunciaram na 6ª feira (29/9) o mês de setembro mais quente já registrado nesses países, informa o France24. E as temperaturas excepcionalmente elevadas deverão continuar em outubro, destaca o Guardian.

Na Espanha, o início deste mês foi o mais quente desde que o início dos registros de temperatura, há mais de um século, disse a AEMET, agência meteorológica do país, na 2ª feira (2/10). Segundo a Reuters, quase 40% das estações meteorológicas registaram temperaturas máximas acima de 32oC.

Já no continente asiático, as chuvas de monções na Índia neste ano foram as menores desde 2018, relata a Reuters, com o país registando o agosto o mais seco em mais de um século, disse o departamento meteorológico estatal. As monções são vitais para a economia indiana, respondendo por quase 70% da chuva de que o país precisa para irrigar suas culturas agrícolas e reabastecer reservatórios e aquíferos.

As fracas chuvas aumentaram as preocupações de que a Índia – o segundo maior produtor de trigo, arroz e açúcar do planeta – continue a restringir as exportações de produtos essenciais para gerir a inflação alimentar antes das eleições nacionais em 2024. Tal medida apoiaria os preços globais, explica a Bloomberg. O arroz na Ásia está perto do máximo dos últimos 15 anos, enquanto o açúcar em Nova York saltou mais de 30% este ano.

Ainda que abaixo da média, as monções indianas foram arrasadoras em algumas partes do país, com magnitude e intensidade nunca vistas, segundo a AP. O estrago foi significativo. No estado de Himachal Pradesh, 428 pessoas morreram e houve mais de US$ 1,42 bilião em danos materiais desde junho.

A Austrália, na Oceania, registou o setembro mais seco desde que os registos começaram, em 1900, com uma média nacional de precipitação de apenas 4,83 mm. A precipitação total foi 70,8% inferior à média do mês de 1961-1990. Os dados do Bureau of Meteorology foram divulgados no momento em que incêndios florestais estavam fora de controle em Victoria e Nova Gales do Sul, no meio a alertas de possíveis inundações repentinas no final da semana, explica o Guardian.

New York Times, Bloomberg, VOA News, ABC, Sky News, Accuweather e Guardian também repercutiram os extremos climáticos no mundo.

sexta-feira, 26 de maio de 2023

Falta de água ou falta de uso sustentável da água?


Por Maria Carolina Varela, Expresso
“A agricultura (irrigação, pecuária e aquacultura) representa 69% das captações anuais de água a nível mundial, tornando-a no setor que mais consome água no planeta.” Fonte ONU, Centro Regional de Informação para a Europa Ocidental
Quem não poupa água e lenha, não poupa nada do que tenha. Este dizer é uma forma popular de avisar as pessoas para a necessidade de usar a água de forma sustentável, foi provavelmente criado por alguém que tinha a noção empírica de sustentabilidade sem conhecer a palavra “sustentável”.
O problema da escassez de água no Sul de Portugal e da Península Ibérica é uma calamidade penosa que deriva da descontrolada expansão das culturas em regadio intensivo e campos de golf. Em zonas onde o clima é caracterizado por baixa quantidade de chuva, a atividade Humana dependente da disponibilidade de água tem de ser planeada para os valores mínimos de precipitação e não para a média.
O uso sustentável da água tem de começar pelo licenciamento prudente dos usos da terra. Porém, o que assistimos é à aprovação incessante, de forma danosa para os interesses do país, de vastas áreas de regadio e outras atividades de que implicam enorme consumo de água. As corporações que buscam o sul de Portugal para instalar atividades depredadoras de água são movidas pela voracidade do lucro. De per se nenhuma empresa vai pautar os seus investimentos pelo uso sustentável da água, impor contenção é da responsabilidade das autoridades que têm a tutela do assunto.
As empresas privadas têm conseguido expandir as áreas de culturas regadas aos milhares de hectares. Ao invés da agricultura que se baseie em uso sustentável da água, esta agricultura intensiva gera lucros enormes, rápidos e fáceis e é feita em exploração do tipo mineira. Quando os recursos da água e do solo se esgotam abandonam essa zona e reiniciam o ciclo noutro sítio ou noutro país qualquer.
Entre as culturas intensivas de regadio destacam-se a produção de frutas e legumes em estufa. No Mediterrâneo o pináculo é atingido nas imensas áreas de estufas em Almeria, de tal maneira imensas que tomaram o epiteto de “mar de plástico”. Até à década de 1950 na zona dominava a vegetação rasteira, as pastagens e algumas pequenas parcelas para cultivo sazonal. Em Portugal está a desenrolar-se um cenário idêntico com as estufas em Odemira. Mas o processo está a expandir-se a outras zonas do país.
O consumo insustentável da água vai muito para além das estufas. A milenar oliveira, tão respeitada pela sua frugalidade, pela capacidade de crescer e dar azeitona em montes e serras de solos esqueléticos pedregosos com escassa chuva e estios abrasadores, está a ficar irreconhecível. Está trasvestida numa cultura agrícola intensiva em regadio, onde já não existem as majestosas e centenárias árvores, mas umas moitas grotescas amontoadas em linhas, ridiculamente atarracadas que têm vida económica curta. Mas não é apenas a oliveira. Ao cortejo juntam-se outras espécies cultivadas em sequeiro há séculos e louvadas pela sua resistência como a vinha e a amendoeira. E já se fazem experiências-piloto para sobreiro com rega gota-a-gota.
A indústria (incluindo a geração de energia) é responsável por 19% do consumo de água e as famílias por 12%, todo o restante é consumido pelo sector agrícola.
Por baixo desses milhares de “árvores” transformadas em sebes a poder de máquinas consumidoras de combustível, estão quilómetros de tubos de plástico com goteiras que drenam incontáveis metros cúbicos das albufeiras que só têm a água da chuva como fonte de alimentação. Para agravar a escassez estival de água, muitas albufeiras têm as margens plantadas com eucalipto, uma árvore que a evolução natural dotou com uma fisiologia e arquitetura de raízes capaz de ir buscar água a profundidades sem par nas espécies mediterrânicas autóctones. As barragens do Alentejo e do Algarve foram construídas para complemento das culturas de sequeiro. As que nos anos recentes exibem mais problemas situam-se nos cursos dos rios Sado, Mira, Odelouca, Arade e afluentes terminais do Guadiana. Todos estes cursos de água nascem nas serras do Algarve que estão cobertas em grandes extensões por eucalipto que substituíram o sobreiro, as pastagens de sequeiro e outros usos seculares dessas terras.
Este consumo insustentável de água é um tabu que ninguém aborda, sejam políticos ou técnicos do setor.
Todos os discursos políticos e técnicos, repetidos pelos meios de informação, culpam a SECA. Quando o problema toma dimensões dramáticas, surgem os remendos -medidas conjunturais a jusante como o aumento do preço da água e o apelo à diminuição do consumo doméstico. São paliativos para afastar responsabilidades e encobrir o cerne do problema. Os midia espalham que os cidadãos urbanos podem contribuir para o alívio do problema se abrirem menos as torneiras das suas casas. Quando o nível da água das albufeiras se torna critico é certo que isso se torna imperativo até à próxima época de chuvas. Mas difundir que o uso familiar é parte do problema e incutir essa ideia no cidadão ingénuo é profundamente desonesto, sobretudo quando se sabe que o consumo doméstico representa pouco mais de 10% do consumo total de água.
Transferir a responsabilidade para o nível pessoal e criar a culpa no cidadão é toldar-lhe a capacidade de questionar sobre as causas estruturais e porque é que estão a ser omitidas.
Os Povos Mediterrânicos, nomeadamente o Sul de Portugal, lidam com a prolongada seca estival há milénios. Já os Romanos construíram barragens no SW da Espanha, como a albufeira de Proserpina, perto de Mérida, que foi sofrendo as necessárias manutenções e ainda hoje funciona. Os sistemas de regadio que os Árabes trouxeram para a Península Ibérica são mais um dos engenhos Humanos para o aproveitamento judicioso da água. Os egípcios usavam os nilómetros para medir o nível das cheias do Nilo e prever as colheitas em consonância. Os ciclos de chuva / seca já são descritos na BIBLIA, Gênesis 41, « Então chegaram ao fim os sete anos de abundância que houve na terra do Egito. E, como José havia predito, começaram a vir os sete anos de fome. Havia carestia e fome em todas as terras vizinhas, mas em todo o Egito havia o que comer.… E concluiu José: “Agora, portanto, que o Faraó escolha um homem inteligente e sábio e o estabeleça sobre toda a terra do Egito. Que o Faraó aja e institua funcionários supervisores na terra para recolher um quinto da colheita do Egito durante os próximos sete anos de fartura. Eles deverão reunir todos os víveres que puderem desses bons anos que virão e acumular reservas de trigo que, sob o controle do Faraó, serão armazenados nas cidades. Essa poupança servirá de reserva especial para os sete anos de fome que se abaterão sobre o Egito, a fim de que a terra não seja aniquilada e o povo não morra de fome!”
Os ciclos de chuva excelente e seca sempre existiram. Acontecem de forma errática e fazem parte da normalidade do clima de cada região. Viver com a média é bastante acessível, o engenho está em saber viver com os mínimos. Mas não há nenhuma técnica, por mais sofisticada, que permita gastar mais água do que a que as albufeiras podem armazenar com a precipitação que os céus nos oferecem.

Saber mais:

quinta-feira, 11 de maio de 2023

Centeios mais antigos da Península Ibérica descobertos no Norte de Portugal e Galiza


Uma equipa internacional liderada por investigadores portugueses divulgou hoje um estudo que permite conhecer o centeio mais antigo da Península Ibérica e discute a cronologia e o contexto histórico em que esta espécie foi introduzida e cultivada nesta região.

De acordo com os investigadores, os grãos e restos de espigas de centeio mais antigas da Península Ibérica datam da Idade do Ferro, nomeadamente de um período entre o século III a.C. e a primeira metade do século I a.C., foram recolhidos nos sítios arqueológicos do Freixo/Tongobriga (Marco de Canaveses), Crastoeiro (Mondim de Basto) e Castro de São Domingos (Lousada) no Norte de Portugal, bem como no Castelo Pequeno de Santigoso (A Mezquita) na Galiza.

A cronologia foi confirmada através de uma série de datações de radiocarbono e da aplicação de análises estatísticas, numa investigação que decorreu no BIOPOLIS/CIBIO-InBIO (Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos, Universidade do Porto), no âmbito do doutoramento de Luís Seabra e no contexto de uma ampla colaboração entre investigadores de instituições como a School of Archaeology da University of Oxford, Universidad de Cantabria, Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto, Centro de Estudos Interdisciplinares da Universidade de Coimbra, Wessex Archaeology e o Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa.

A busca pelo centeio mais antigo do território peninsular, e um dos mais antigos da Europa ocidental, iniciou-se há oito anos quando Luís Seabra estudava, no âmbito do seu mestrado, um conjunto de frutos e sementes provenientes do sítio do Crastoeiro, localizado no sopé do mítico Monte Farinha, mais conhecido por Alto da Senhora da Graça.

Na altura, uma datação de radiocarbono permitiu compreender a antiguidade do centeio aí encontrado, mas, tratando-se de um caso isolado, era difícil entender a sua integração na agricultura da Idade do Ferro da região.

Ao avançar para doutoramento, Luís Seabra estudou “inúmeros” conjuntos arqueológicos e arqueobotânicos em busca de mais centeio e encontrou o que procurava.

“Compreendemos que o centeio surge com mais recorrência do que antes pensávamos, em sítios da Idade do Ferro, mais precisamente, com cronologias estimadas entre os séculos III e I a.C., no Norte de Portugal e sul da Galiza”, refere Luís Seabra.

Contudo, sublinha, “os dados obtidos não permitem esclarecer por completo se estes primeiros vestígios decorrem do efetivo cultivo desta espécie ou se o centeio que aqui se encontrava era uma mera infestante de outros cereais, como o trigo espelta, amplamente cultivado na região durante este período”.

Para tentar esclarecer esta questão, a equipa avaliou os contextos arqueológicos em que foram recolhidos os vestígios de centeio e realizou um estudo biométrico de modo a compreender se houve modificações nos grãos deste cereal ao longo do tempo, medindo e comparando estes conjuntos arqueobotânicos mais antigos com cereais de diferentes sítios arqueológicos de cronologia Romana e Medieval da mesma região, explica João Tereso, investigador do BIOPOLIS/CIBIO-InBIO e coordenador do estudo.

“Os resultados não foram conclusivos a este respeito, mas demonstraram que os grãos de centeio só aumentam significativamente de dimensão a partir da Idade Média”, afirma o coordenador do estudo hoje publicado na revista PLoS ONE

Ainda assim, a investigação sugere que “o centeio terá sido introduzido inadvertidamente como infestante durante a Idade do Ferro, tendo o seu cultivo efetivo iniciado num momento avançado da Época Romana, provavelmente entre o final do século II e o século IV da nossa Era. Esta hipótese sustenta-se, principalmente, no facto do centeio ser esporádico e secundário face a outros cereais na cronologia mais antiga e estar posteriormente ausente durante cerca de dois séculos, até ressurgir no final do século II ou início de III”.

“No futuro será necessário, porém, reforçar a amostragem sobre contextos da Idade do Ferro e de Época Romana, de modo a testar as hipóteses que colocamos agora. Como qualquer investigação em Arqueologia, é sempre possível que o próximo achado, nosso, ou de outra equipa, nos contradiga, mas essa é uma das partes mais fascinantes da ciência”, considera João Tereso.

terça-feira, 8 de novembro de 2022

Já em 2020 - A maioria das colheitas europeias alimentam animais e carros, não pessoas


The vast majority of European crop production is used to feed animals and create biofuels, rather than feeding people, new analysis has found. At the same time, Europe is over-producing meat and dairy, with EU production of beef, pork and poultry 4%, 16% and 8% higher than consumption respectively, and production of dairy 14% higher than consumption.

The analysis found that in, 2018/2019, 62% of all cereal crops were used to feed animals and 12% used in industry and as biofuel, with only 23% going to feed people. A striking 88% of soy and 53% of protein-rich pulses were also used for animal feed.

This imbalance in production and consumption is driven by a focus on crops for profit, not food for people, said Greenpeace. Greenpeace is calling on the EU to refocus its food and farming policy to prioritise local production of the kind of food Europe needs, farmed in a way that guarantees a fair price for farmers, affordable and healthy food for people, and protects the environment.

Greenpeace EU agriculture and forest campaigner Sini Eräjää said: “EU leaders talk big about food security, but they back policies that overproduce meat, rely on massive soy imports and burn food as fuel. European farmers can produce enough healthy, affordable food for Europeans, but now they’re being squeezed to do bulk production to supply export markets. We need a food and farming policy that ensures farmers make a good living, people can afford healthy food, and that nature doesn’t suffer in the process – the current plans sacrifice all three in favour of corporate profits.”

The European Parliament will vote on the EU’s common agricultural policy in its plenary next week. The latest compromises struck by the major parties, EPP, S&D and Renew Europe, fail to address the disproportionate support given to industrial animal farming and feed production, and include no measures to limit public spending on factory farming. The EU is also currently debating new free trade agreements such as EU-Mercosur, that would only further encourage the industrialisation of animal farming and the focus on bulk production for exports.

sábado, 31 de julho de 2021

10 factos sobre vegetarianos que afinal são mitos


Os vegans e vegetarianos ainda são uma minoria no planeta, e o desconhecimento sobre este tipo de dieta alimentar cria muitas suposições, mitos e incertezas.

Numa sociedade maioritariamente omnívora, ser vegetariano é sinónimo, muitas vezes, de piadas, desconforto e desconhecimento. Para os vegetarianos não é incomum ouvir frases como “só comes salada” ou receber conselhos sobre a importância da carne na alimentação.

O portal Inhabitat em colaboração com Alison Ozgur, uma reconhecida nutricionista, elaborou uma pequena lista de factos e mitos sobre este tema.

Os veganos não recebem proteína suficiente
Não há um único vegetariano que não tenha ouvido esta frase inúmeras vezes.
“Este é um mito comum que precisa ser eliminado”, disse Ozgur. “Aqui nos Estados Unidos, nunca tivemos falta de proteínas, e a triste verdade é que as proteínas estão a ser desnecessariamente adicionadas a muitos alimentos. Legumes, frutas e grãos têm grandes quantidades de proteína para uma saúde ideal e um peso corporal saudável. ”

Os veganos não ingerem cálcio sem laticínios
Há muito tempo que a indústria de laticínios faz campanhas para convencer os cidadãos que sem leite os ossos ficam fracos e frágeis. Não é verdade, alerta Ozgur. “Sim, os laticínios contêm cálcio, mas também podem conter gorduras saturadas, colesterol e contaminantes que obstruem as artérias. Felizmente, os alimentos à base de plantas são uma opção mais saudável. ” A nutricionista recomenda verduras como couve, mostarda, couve e acelga, além de legumes, bróculos, alimentos orgânicos de soja – como tempeh e tofu – e leite de amêndoa.

Ser vegetariano é caríssimo
Os smoothies de açafrão, batatas fritas de couve orgânicas embaladas e refeições em restaurantes veganos sofisticados certamente podem custar caro. “Comer vegan pode ser caro”, explicou Ozgur. “No entanto, o custo do tratamento para doenças crónicas é muito mais caro. Uma dieta rica em alimentos integrais e densos em nutrientes é a nossa primeira linha de defesa para prevenção e reversão de doenças. ” Se comprar alimentos secos, como grãos, lentilhas e aveia, economizará dinheiro. Muitos vegetais, como cenoura e couve, também são baratos.

Todos os veganos são caucasianos
Se isso fosse verdade, não encontraríamos sites como o Black Vegans Rock ou celebrações como o Vegan SoulFest. O ativista Aph Ko, fundador do Black Vegans Rock, aumentou a conscientização sobre os muitos vegans negros publicando uma lista de 100 vegans negros em destaque. Os vegans negros também possuem restaurantes veganos e escrevem livros de receitas veganas, assim como os vegans brancos, mas com raízes diferentes.

As tradições veganas não-brancas incluem rastafarianos na Jamaica, jainismo na Índia e o veganismo na temporada de jejum da Etiópia.

Todos os veganos são hippies
Dependendo de a quem pergunta, ser chamado hippie pode ser um insulto ou um elogio. O dicionário Merriam-Webster oferece uma definição mais objetiva: “geralmente um jovem que rejeita os costumes da sociedade estabelecida (como vestir-se de maneira não convencional ou favorecer a vida comunitária) e defende uma ética não-violenta. Em termos gerais: um jovem de cabelos compridos e não convencional.

Então, se estamos a falar de veganos numa sociedade dominada por omnívoros, há alguma verdade nesse mito. Os vegans estão a rejeitar os costumes da sociedade estabelecida e a defender a não-violência, pelo menos contra animais. Quanto a ser jovem, vestir-se de maneira não convencional, viver em comunidade, ter cabelos compridos ou, como encontrado em outras definições on-line de hippies, tomar medicamentos alucinógenos, é preciso avaliar os veganos caso-a-caso (e os não-veganos).

Os veganos são fracos
É melhor não dizer isso a Bryant Jennings, profissional de boxe ou a Tammy Fry Kelly, especialista em artes marciais.

“Não faltam atletas e entusiastas do fitness que prosperam com uma dieta vegana”, indicou Ozgur. “Os alimentos à base de plantas podem acelerar o tempo de recuperação muscular e diminuir a inflamação devido à sua alta quantidade de antioxidantes e fitonutrientes.” A nutricionista recomenda o documentário “Game Changers” para ver como os vegans podem ser fortes.

Se eu fosse vegano, estaria sempre com fome / cansado / doente
Não é verdade, desde que esteja a comer o suficiente. “Se diminuir a sua ingestão diária de calorias para menos do que o necessário, estará com fome, cansado, doente e eventualmente morto”, explicou Ozgur.

“A escolha de uma variedade de alimentos vegetais inteiros nutre seu corpo e células, aumentando assim a sua imunidade e longevidade. A inflamação crónica está ligada a uma variedade de doenças, e vários estudos confirmaram que uma dieta rica em plantas e em fibras é benéfica para a prevenção de doenças.”

Se toda a gente fosse vegetariana, as vacas e os porcos seriam extintos
“Milhões de animais de criação não seriam mais destinados aos nossos pratos e, se não pudéssemos devolvê-los à natureza, eles poderiam ser abatidos, abandonados ou tratados em santuários”, escreveu o jornalista Paul Allen no site da BBC Good Food. “Ou, mais realisticamente, os agricultores podem desacelerar a criação à medida que a demanda por carne diminui.”

Allen teorizou que o número de populações animais retornadas flutuaria e, eventualmente, alcançaria um equilíbrio, dependendo dos predadores e dos recursos disponíveis. “Vale a pena notar que nem todos os animais podem simplesmente ser libertados na natureza”.

Algumas raças de criação, como frangos, estão tão distantes de seus ancestrais que não conseguiam sobreviver na natureza. Outros, como porcos e ovelhas, poderiam retornar a florestas e pastagens e encontrar os seus próprios níveis naturais de população. ”

As plantas também sentem dor
Segundo Jack C. Schultz, professor da Divisão de Ciências Vegetais da Universidade do Missouri, na Colômbia, as plantas “são apenas animais muito lentos”. Lutam por território, procuram comida, capturam presas e fogem de predadores, disse ele. É possível que sintam dor também, apesar da falta de um sistema nervoso central, nervos ou cérebro.

No entanto, é tão cruel comer um tomate quanto uma vaca? Há uma linha intransponível para cada pessoa. Para algumas pessoas, todos os animais não humanos são alimento. Muitos outros acham que é bom comer uma vaca, mas não um cão ou um gato.

Como o site da PETA aponta: “Temos que comer – é uma questão de sobrevivência. E comer plantas diretamente – em vez de as dar como alimento aos animais e depois matá-los pela carne – exige muito menos das plantas e não magoa os animais, que, já sabemos com certeza, sentem dor “.

Se os homens comerem soja vão ficar com seios grandes
Ozgur garantiu que isso não vai acontecer. “Não há evidências médicas válidas que apoiem os homens a aumentar o tamanho dos seios ao ingerir alimentos de soja”, disse ela. “Esse mito surgiu há mais de dez anos, quando um homem foi diagnosticado com ginecomastia por beber três quartos de leite de soja por dia. Ao interromper a ingestão de leite de soja, a sua sensibilidade nos seios desapareceu. Homens asiáticos consomem soja diariamente, mas não experimentam ginecomastia. ” Ozgur recomenda escolher alimentos orgânicos de soja integral e evitar isolados de proteína de soja ou ingredientes de soja fracionados.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Quando Idiot Savants fazem economia climática


WILLIAM NORDHAUS, QUE completou 82 anos este ano, foi o primeiro economista do nosso tempo a tentar quantificar o custo das alterações climáticas. A sua magia na modelação climática, que lhe valeu o Prémio Nobel Memorial em Ciências Económicas em 2018, fez dele um dos pensadores mais importantes do mundo. As suas ideias foram adoptadas pelo Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas, pela Agência de Protecção Ambiental dos EUA, por gestores de risco globais, pela indústria de serviços financeiros e por universidades de todo o mundo que ensinam economia climática. O trabalho de Nordhaus poderá literalmente afectar a vida de milhares de milhões de pessoas. Isto acontece porque a sua quantificação dos custos imediatos da acção climática - em comparação com os danos económicos a longo prazo da não acção - é a base de propostas-chave para mitigar as emissões de carbono. Não é exagero sugerir que o destino das nações e de uma parcela considerável da humanidade depende de as suas projeções estarem corretas.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas assumiu que Nordhaus é confiável. Os modelos de avaliação integrada utilizados no IPCC baseiam-se nas visões Nordhausianas de adaptação ao aquecimento que reduz apenas marginalmente o produto interno bruto global. Se o PIB futuro for pouco afetado pelo aumento das temperaturas, haverá menos incentivos para os governos mundiais agirem agora para reduzir as emissões.

Os modelos de Nordhaus dizem-nos que com um aumento de temperatura entre 2,7 e 3,5 graus Celsius, a economia global atinge uma adaptação “óptima”. O que é óptimo neste cenário é que os combustíveis fósseis possam continuar a ser queimados até finais do século XXI, impulsionando o crescimento económico, o emprego e a inovação. A humanidade, afirma Nordhaus, pode adaptar-se a esse aquecimento com investimentos modestos em infra-estruturas, mudanças sociais graduais e, nos países desenvolvidos ricos, com pouco sacrifício. Ao mesmo tempo, a economia mundial expande-se com a expulsão de mais carbono.

Acontece que os seus modelos têm falhas fatais e um número crescente de colegas de Nordhaus repudia o seu trabalho. Joseph Stiglitz, antigo economista-chefe do Banco Mundial e professor de economia na Universidade de Columbia, disse-me recentemente que as projecções de Nordhaus estão “extremamente erradas”. Stiglitz destacou como especialmente bizarra a ideia de que a optimização da economia mundial ocorreria com um aquecimento de 3,5 C, o que os cientistas físicos dizem que produziria o caos global e uma espécie de genocídio climático nas nações mais pobres e mais vulneráveis.

Num artigo de jornal publicado no ano passado, Stiglitz e os co-autores Nicholas Stern e Charlotte Taylor, do Instituto Grantham de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas e Meio Ambiente da Escola de Economia e Ciência Política de Londres, declararam que os modelos de avaliação integrados Nordhausianos são “inadequados para capturar incertezas profundas e risco extremo.” Eles não conseguem incorporar “a perda potencial de vidas e meios de subsistência em imensa escala e a transformação e destruição fundamentais do nosso ambiente natural”.

A mudança climática é um dos casos, disseram-me Stiglitz e Stern por e-mail, em que “é geralmente aceito que há um risco extremo – sabemos que há alguns eventos realmente extremos que podem ocorrer – e sabemos que não podemos fingir (ou seja, aja como se) soubéssemos as probabilidades. O trabalho de Nordhaus não leva em conta adequadamente nem o risco extremo nem a incerteza profunda.”

Por outras palavras, o economista que foi abraçado como um guia pela instituição global encarregada de guiar a humanidade através da crise climática, que foi galardoado com um Nobel pelos custos climáticos, que é amplamente festejado como o decano da sua área, não não sei do que ele está falando.

ENTRE A MAIORIA DOS CIENTISTAS, é uma loucura discutir a otimização de qualquer coisa em qualquer lugar quando o globo atinge um aquecimento de até 2°C. Os pesquisadores climáticos Yangyang Xu e Veerabhadran Ramanathan, num artigo amplamente citado de 2017, definiu um aquecimento de 1,5 C como “perigoso” e 3 C ou mais como “catastrófico”, enquanto acima de 5 C foi “além de catastrófico”, com consequências que incluem “ameaças existenciais”. O falecido Will Steffen, um pensador pioneiro de sistemas terrestres, alertou juntamente com muitos dos seus colegas que 2°C era um marcador crítico. Com um aquecimento de 2°C, poderíamos “ativar outros elementos de ruptura numa cascata em forma de dominó que poderia levar o sistema terrestre a temperaturas ainda mais elevadas”. Essas “cascatas de desmoronamento” poderiam levar rapidamente a “condições que seriam inóspitas para as sociedades humanas atuais”, um cenário conhecido como Terra-estufa.

Mas o caminho para a estufa da Terra será longo e torturante. Quando o entrevistei em 2021, Steffen, que morreu em Janeiro passado aos 75 anos, estava preocupado com o “colapso a curto prazo” do sistema alimentar global. A seca e o calor já reduziram a produção global de cereais em até 10% nos últimos anos, segundo Steffen. “Os choques alimentares provavelmente ficarão muito piores”, escreveu ele em um artigo de 2019Abre em uma nova abaem coautoria com Aled Jones, diretor do Global Sustainability Institute da Anglia Ruskin University. “O risco de falha de vários celeiros está a aumentar e aumenta muito mais rapidamente para além dos 1,5 C de aquecimento global. … Tais choques representam ameaças graves – aumento vertiginoso dos preços dos alimentos, agitação civil, grandes perdas financeiras, fome e morte.”

Num relatório de 2022 “Fim do Jogo Climático: Explorando Cenários Catastróficos de Mudanças Climáticas”, 11 importantes cientistas de sistemas terrestres e climáticos, entre eles Steffen, concluíram que há “amplas evidências de que as mudanças climáticas podem se tornar catastróficas… mesmo em níveis modestos de aquecimento”. De acordo com o relatório:

As alterações climáticas podem exacerbar as vulnerabilidades e causar múltiplas tensões indirectas (tais como danos económicos, perda de terras e insegurança hídrica e alimentar) que se fundem em falhas síncronas em todo o sistema. …É plausível que uma mudança repentina no clima possa desencadear falhas nos sistemas que desestruturam sociedades em todo o mundo.

O que estes cientistas descrevem é um colapso civilizacional global, possivelmente durante a vida de um leitor jovem ou mesmo de meia-idade deste artigo.

De acordo com o relatório “Climate Endgame”, a actual trajectória das emissões de carbono coloca o mundo no caminho para um aumento da temperatura entre 2,1 C e 3,9 C até 2100. Esta é uma perspectiva horrível. Os analistas de sistemas terrestres dizem-nos que as terras habitáveis ​​e cultiváveis ​​num regime de aquecimento de 3 C a 4 C seriam tão reduzidas e os serviços ecossistémicos tão prejudicados que a morte de milhares de milhões de pessoas poderia ocorrer nas próximas oito décadas ou menos .

Números terríveis são divulgados. Mas os cientistas querem dizer o que dizem. Kevin Anderson, professor de energia e alterações climáticas na Universidade de Manchester, no Reino Unido, e na Universidade de Uppsala, na Suécia, afirma que “algo como 10% da população do planeta – cerca de meio bilhão de pessoas – sobreviverá se as temperaturas globais subirem 4ºC”. .” Ele observa, com um pouco de esperança, que “não extinguiremos todos os seres humanos, pois algumas pessoas com o tipo certo de recursos podem colocar-se nas partes certas do mundo e sobreviver. Mas acho que é extremamente improvável que não teríamos mortes em massa a 4°C.”

Johan Rockström, diretor do Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático, na Alemanha, e pesquisador líder em pontos de inflexão climáticos e “fronteiras seguras” para a humanidade, projeta que, num mundo 4°C mais quente, “é difícil ver como poderíamos acomodar um bilhão de pessoas. pessoas ou até metade disso.” A população global é hoje de 7,6 mil milhões, com 80 milhões de pessoas acrescentadas todos os anos.

Em contrapartida, quando Nordhaus analisou os efeitos do aquecimento de 6°C, não previu horror. Em vez disso, deveríamos esperar “danos” entre 8,5 por cento a 12,5 por cento do PIB mundial ao longo do século XXI. Escrevendo no Jornal Económico, Stern esclareceu Nordhaus nos termos mais duros: “Poderíamos ver mortes em grande escala, migração de milhares de milhões de pessoas e conflitos graves em todo o mundo”, escreveu ele. “É profundamente implausível que números em torno de 10% do PIB ofereçam uma descrição sensata do tipo de perturbação e catástrofe que um aquecimento de 6°C poderia causar.”

Num e-mail para o The Intercept, Nordhaus caracterizou as críticas dos seus colegas como “uma descrição distorcida e imprecisa do trabalho e dos meus pontos de vista. Há muito que apoio a precificação do carbono e a [investigação e desenvolvimento] centradas no clima, que são fundamentais para abrandar as alterações climáticas. As propostas nos meus escritos apontaram para metas que são MUITO mais ambiciosas do que as políticas actuais.” Ele se recusou a entrar em detalhes sobre quaisquer distorções ou imprecisões.

PARA COMPREENDER A lacuna entre os cientistas climáticos e os economistas climáticos, é preciso primeiro compreender que a maioria dos economistas — as pessoas que chamamos de economistas convencionais ou neoclássicos — têm pouco conhecimento ou interesse em como as coisas realmente funcionam no planeta Terra. O problema da sua ignorância ecológica começa como uma questão de formação na universidade, onde um típico curso de licenciatura em economia prepara os estudantes para uma vida inteira de ignorância abjecta sobre os fundamentos complexos da coisa chamada “mercado”.

Comece com o seu livro típico para a ciência sombria – digamos, o livro definitivo de Paul Samuelson, co-escrito com Nordhaus, intitulado “Economia”. O livro é considerado “o porta-estandarte” dos “princípios da economia moderna”. Você encontrará em suas páginas um diagrama de fluxo circular que mostra “famílias” e “empresas” trocando dinheiro e bens. Isso é chamado de mercado. As famílias são proprietárias da terra, do trabalho e do capital, que vendem às empresas para a fabricação de bens. As famílias compram então os bens, enriquecendo as empresas, o que permite às empresas comprar mais terra, mão-de-obra e capital, enriquecendo as famílias. A quantidade no diagrama de fluxo, em circunstâncias ideais, está sempre em expansão: os lucros das empresas crescem e também o rendimento das famílias.

Um sistema fechado, simples e imperturbável, mas também ridículo, fantástico, um conto de fadas. No diagrama de fluxo circular da economia padrão, nada entra de fora para mantê-lo fluindo e nada sai como resultado do fluxo. Não há entradas de recursos do meio ambiente: não há petróleo, carvão ou gás natural, não há minerais e metais, não há água, solo ou alimentos. Não há saídas para a ecosfera: nem lixo, nem poluição, nem gases com efeito de estufa. Isso porque no diagrama de fluxo circular não há ecosfera, nem meio ambiente . A economia é vista como um carrossel auto-renovável e em movimento perpétuo, situado no vácuo.

“Eu ensinei aquele pequeno diagrama tolo para alunos de graduação na Universidade Estadual de Louisiana durante 30 anos”, disse-me o falecido Herman Daly, um dos grandes dissidentes da economia padrão do século 20, numa entrevista antes de sua morte aos 84 anos no ano passado. “Achei ótimo. Eu estava muito além do doutorado. antes que me ocorresse que este é um paradigma muito ruim.”

Na década de 1970, trabalhando na Universidade de Maryland, Daly foi pioneiro no campo da economia ecológica, que modela a realidade biofísica que delimita todas as economias. “A economia humana”, escreveu Daly, “é um subsistema crescente, totalmente contido e totalmente dependente da ecosfera não crescente” – uma observação de bom senso que equivaleu a uma heresia na economia dominante. Daly enfatizou que a economia depende de recursos não renováveis ​​que estão sempre sujeitos ao esgotamento e de uma biosfera funcional cujos limites precisam ser respeitados. A sua contribuição mais importante para a literatura desta economia renegada foi o seu famoso (em alguns círculos, infame) modelo de “estado estacionário” que explica os limites biofísicos ao crescimento. Daly pagou o preço da heterodoxia. Os seus colegas economistas declararam-no um apóstata.

EF Schumacher chegou a conclusões semelhantes sobre a economia dominante no seu livro de 1973 “Small Is Beautiful”, que se tornou um best-seller. “É inerente à metodologia da economia ignorar a dependência do homem do mundo natural ”, escreveu Schumacher, com ênfase sua. A economia, disse Schumacher, apenas toca a “superfície da sociedade”. Não tem capacidade de sondar a profundidade das interacções sistémicas entre a civilização e o planeta. Confrontada com os “problemas prementes da época” – os efeitos ambientais negativos do crescimento – a economia actua “como uma barreira muito eficaz contra a compreensão destes problemas, devido ao seu vício em análises puramente quantitativas e à sua tímida recusa em olhar para a realidade real”. natureza das coisas.”

A análise puramente quantitativa é a anfetamina do economista convencional. A dosagem constante mantém o lápis afiado e os olhos cegos. Não passou despercebido que as escolas de pós-graduação produzem uma espécie de vazio engenhoso nos economistas que correm até ao fim na linha de montagem das escolas. Já em 1991, um relatório de uma comissão sobre “educação de pós-graduação em economia” alertava que o sistema universitário nos Estados Unidos estava a produzir “demasiados sábios idiotas”, economistas “habilidosos em técnica mas inocentes em relação a questões económicas reais” – incapazes de , isto é, olhar para a natureza real das coisas.

ATRAVÉS DE QUE FEITIÇARIA MATEMÁTICA Nordhaus, célebre membro da elite da Ivy League, chegou a projeções que estão tão em desacordo com as dos cientistas do clima?

A resposta está em algo chamado DICE, a mãe dos modelos integrados de avaliação de custos climáticos. Significa economia climática dinâmica e integrada. Nordhaus formulou DICE pela primeira vez em 1992 e atualizou-o mais recentemente no ano passado.

No DICE, o efeito de um clima aquecido é medido apenas como uma perda (ou ganho) percentual no PIB. Presume-se que o crescimento do PIB seja “determinado exogenamente”, na linguagem da teoria económica, o que significa que persistirá a uma taxa definida ao longo do tempo, independentemente dos choques climáticos. Os cientistas dos sistemas terrestres dirão que assumir um crescimento determinado exogenamente é o cúmulo da arrogância arrogante. Em contraste, Nordhaus assegura-nos no seu modelo DICE que o crescimento continua como um Cadillac de cruzeiro na costa da Califórnia com buracos ocasionais. Mas a realidade são tempestades, deslizamentos de terra, terremotos e outros fatores nas estradas.

Esta alegre presunção de crescimento constante num futuro afectado pelo clima é o primeiro dos erros de Nordhaus, como salientam Stern e Stiglitz. “O modelo de Nordhaus não tem totalmente em conta o facto de que se não fizermos mais para evitar as alterações climáticas, as alterações climáticas afectarão as taxas de crescimento”, disseram-me por e-mail. “Teremos de gastar cada vez mais na reparação de danos, o que nos deixará cada vez menos para gastar em investimentos que promovam o crescimento.” E, acrescentam, alguns resultados decorrentes de uma acção climática fraca poderão alterar profundamente o que é possível em termos de actividade económica. Calor extremo, submersão, desertificação, furacões, etc.: Tais fenómenos meteorológicos e grandes mudanças climáticas poderão tornar grandes áreas do mundo de baixa produtividade, improdutivas ou inabitáveis.

O segundo erro de Nordhaus é o uso de fórmulas matemáticas reducionistas. Ele emprega algo chamado quadrático para calcular a relação entre o aumento das temperaturas e os resultados económicos. Entre as propriedades de uma quadrática é que ela não permite descontinuidades; não há pontos em que o relacionamento implícito na função seja interrompido. Mas funções suaves traçam progressões suaves e as alterações climáticas serão tudo menos suaves. Esses cálculos não têm em conta condições meteorológicas extremas, doenças transmitidas por vectores, deslocações e migrações, conflitos internacionais e locais, morbilidade e mortalidade em massa, queda da biodiversidade, fragilidade do Estado ou escassez de alimentos, combustível e água. Não há medição de feedbacks amplificadores e pontos de inflexão, como a perda de gelo marinho no Ártico, o desligamento de correntes oceânicas vitais, o colapso da Amazônia e assim por diante.

O terceiro erro de Nordhaus está relacionado com fórmulas igualmente simplistas. Nordhaus calcula o PIB de um determinado local como fundamentalmente relacionado à temperatura desse local. Portanto, se em 2023 houver uma certa temperatura em Londres, e o PIB em Londres for tal e tal, é razoável supor que quando a temperatura nas latitudes ao norte de Londres aumentar no futuro, o PIB aumentará para ser o mesmo que o de Londres. hoje. Faça disso o que quiser: é uma tolice em grande escala e, ainda assim, é fundamental para o modelo Nordhaus.

O quarto erro fatal que Nordhaus comete é o mais ridículo. Num artigo de 1991 que se tornou a pedra de toque para todos os seus trabalhos posteriores, ele assumiu que, como 87 por cento do PIB ocorre no que chamou de “ambientes cuidadosamente controlados” – também conhecidos como “interiores” – não será afectado pelo clima. A lista de Nordhaus de atividades internas livres de quaisquer efeitos de perturbações climáticas inclui manufatura, mineração, transporte, comunicação, finanças, seguros, imobiliário, comércio, serviços do setor privado e serviços governamentais. Nordhaus parece estar confundindo tempo com clima. Isso pode causar problemas para os planos de refeições ao ar livre em seu iate. O outro afunda o iate.

A ignorância dos sistemas tem o seu jeito de avançar, como um rolo compressor. Nordhaus opinou que a agricultura é “a parte da economia que é sensível às alterações climáticas”, mas porque representa apenas 3 por cento da produção nacional, a perturbação climática da produção alimentar não pode produzir um “efeito muito grande na economia dos EUA”. É lamentável para os seus cálculos que a agricultura seja a base da qual dependem os outros 97 por cento do PIB. Sem comida – é estranho que seja necessário reiterar isto – não há economia, nem sociedade, nem civilização. No entanto, Nordhaus trata a agricultura como indiferentemente fungível.

Esta bagunça grosseira de modelo foi o que lhe valeu o Nobel. “Isso mostra quão pouco controle de qualidade é necessário para selecionar um vencedor em economia, o fato de ele ter sido nomeado para o prémio”, disse-me Steve Keen, pesquisador da University College London e autodenominado economista renegado. Keen é autor de vários livros que questionam a ortodoxia da economia dominante. Ele foi um dos primeiros críticos dos modelos de avaliação integrada do IPCC, que devem o seu brilho optimista à metodologia de Nordhaus. No seu ensaio cáustico de 2021 “A Economia Neoclássica Terrivelmente Ruim das Mudanças Climáticas”, investigou os problemas dos modelos Nordhausianos.

“Qualquer jornalista investigativo que superasse o medo de equações e simplesmente lesse os textos de Nordhaus saberia que seu trabalho era um absurdo”, disse-me Keen. “Assumindo que 87 por cento da economia seria 'insignificantemente afectada pelas alterações climáticas' porque estas ocorrem em 'ambientes cuidadosamente controlados'?”

“Quando se trata de clima”, disse Keen, “o cara é um idiota: um sábio idiota, mas ainda assim fundamentalmente um idiota”.

E não é apenas Nordhaus. Os economistas climáticos seguiram obedientemente os seus passos e criaram modelos de custos que parecem não ter qualquer relação com as leis conhecidas da física, a dinâmica do clima ou as complexidades dos sistemas terrestres.

Um estudo de 2016 pelos economistas David Anthoff, da Universidade da Califórnia, Berkeley; Francisco Estrada, do Instituto de Estudos Ambientais de Amsterdão; e Richard Tol, da Universidade de Sussex, oferece um dos exemplos mais flagrantes do absurdo Nordhausiano. (Tol é um dos protegidos de Nordhaus, e Nordhaus está listado como revisor do artigo.) Os três acadêmicos afirmam corajosamente que o encerramento da circulação meridional de reviravolta do Atlântico, ou AMOC - um sistema terrestre de importância crucial que transporta a água equatorial quente em direção ao Ártico e água fria no sul — poderão ter efeitos benéficos na economia europeia.

Ao longo dos últimos milhares de anos, a AMOC, também conhecida como circulação termohalina, tem funcionado para manter a Europa relativamente quente no inverno devido à água quente que atrai para norte a partir do equador. A desaceleração e eventual encerramento deste sistema poderá mergulhar a Europa e vastas partes do Hemisfério Norte num frio extremo. Tal paralisação é uma probabilidade crescente à medida que o derretimento glacial se derrama no Atlântico Norte e altera o delicado equilíbrio entre água salgada e água doce que impulsiona a corrente circular.

Para Tol, Anthoff e Estrada, no entanto, o colapso de um dos sistemas terrestres que sustentam a estabilidade climática do Holoceno pode ser uma coisa boa. “Se a [AMOC] desacelerar um pouco, o impacto global será positivo de 0,2-0,3 por cento da renda”, concluíram. “Isso sobe para 1,3% para uma desaceleração mais pronunciada.” Argumentaram que, embora o aquecimento climático cozinhe o resto do mundo, os países europeus beneficiarão do efeito de arrefecimento do colapso da corrente.

Esta avaliação ensolarada é uma surpresa para James Hansen, pai da ciência climática, que calculou que um enorme diferencial de temperatura entre os pólos e o equador ocorreria com um encerramento da AMOC, produzindo supertempestades de imensa fúria em todo o Oceano Atlântico. De acordo com Hansen, a última vez que a Terra experimentou esse tipo de diferenças de temperatura, durante a era interglacial Eemiana, há cerca de 120 mil anos, tempestades violentas depositaram pedras do tamanho de casas nas costas da Europa e das Caraíbas. Estima-se que as ondas das tempestades tenham subido para o interior até 40 metros acima do nível do mar.

Sob estas condições extremas, o que aconteceria às rotas marítimas, às cidades e portos costeiros e ao tráfego transatlântico de todos os tipos? Para os simplórios climáticos Tol, Anthoff e Estrada, a questão não surge. “Será muito mais tempestuoso no Atlântico Norte, especialmente para os europeus”, disse-me Hansen por e-mail. A sua equipa de estudo concluiu que o encerramento da AMOC “está previsto neste século, possivelmente em meados do século, com emissões elevadas contínuas”.

Fica pior. Simon Dietz, da Escola de Economia e Ciência Política de Londres, e os seus colegas economistas James Rising, Thomas Stoerk e Gernot Wagner ofereceram algumas das visões mais ignorantes do nosso futuro climático, utilizando modelos matemáticos Nordhausianos. Eles examinaram as consequências para o PIB de atingir oito pontos críticos do sistema Terra que os cientistas climáticos identificaram como ameaças existenciais à civilização industrial. Os pontos de inflexão são tão familiares como uma litania fúnebre para qualquer pessoa com formação em literatura climática: perda de gelo no Verão do Árctico; perda da floresta amazônica; perda dos mantos de gelo da Groenlândia e da Antártida Ocidental; liberação de hidratos de metano oceânicos; liberação de carbono no permafrost; colapso da AMOC; e colapso das monções indianas.

Dietz e amigos chegaram à conclusão surpreendente que se todos os oito fossem aprovados, o custo económico até 2100 representaria um adicional de 1,4 por cento do PIB perdido, além dos cerca de 8 a 12 por cento que Nordhaus projectou.

Pense nesta projecção em termos de bom senso: um efeito negligenciável nos assuntos mundiais quando o Árctico durante o Verão é azul profundo em vez de branco; quando a selva amazônica não for mais verde, mas uma savana ou deserto marrom; quando na Groenlândia e na Antártica Ocidental, o gelo branco é uma rocha estéril. Uma transformação de imensas proporções na superfície da Terra, na atmosfera e nas comunidades bióticas terrestres. Os hidratos de metano oceânicos têm um conteúdo energético que excede o de todos os outros depósitos de combustíveis fósseis. O permafrost contém uma quantidade de carbono aproximadamente duas vezes maior que o conteúdo atual de carbono da atmosfera. Com o enfraquecimento ou colapso da AMOC, a Europa poderá mergulhar em condições semelhantes às da Pequena Idade do Gelo, com redução drástica da área de terra adequada para o cultivo de trigo e milho. O aumento da variabilidade das monções indianas colocaria em risco a vida de mais de mil milhões de pessoas.

“A afirmação de que estas mudanças teriam efetivamente impacto zero sobre a economia humana é extraordinária”, escreveu Keen. A realidade é que se todos os oito pontos críticos do sistema Terra fossem alcançados, a humanidade estaria em apuros terríveis.

SVALBARD E JAN MAYEN - 15 DE JULHO: Uma vista aérea das geleiras parcialmente derretidas enquanto um urso polar, uma das espécies mais afetadas pelas mudanças climáticas, caminha sobre a geleira em Svalbard e Jan Mayen, em 15 de julho de 2023. Sob a responsabilidade de a Presidência Turca e o Ministério da Indústria e Tecnologia da Turquia, com a coordenação do TUBITAK MAM Polar Research Institute (KARE), 11 cientistas realizaram a 3ª Expedição Nacional de Pesquisa Científica do Ártico, no âmbito do Comando das Forças Navais Turcas, da Direção Geral Turca de Meteorologia, Agência Anadolu, institutos de investigação, universidades e cooperação bilateral. Embora a região do Ártico continue a ser uma das mais profundamente afetadas pelas alterações climáticas globais devido à sua localização geográfica, às atividades marítimas, às rotas comerciais, à pesca excessiva, à mineração, à exploração de petróleo e gás, aos poluentes provocados pelo homem e à proliferação de plástico nas águas oceânicas, ele persiste em experimentar rápido aquecimento e derretimento. As projeções indicam que os ursos polares, classificados como “vulneráveis” na lista de espécies ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e reconhecidos como os maiores carnívoros terrestres do mundo, enfrentarão a perda de habitat e a ameaça de extinção caso o atual degelo do Ártico persistir. (Foto de Sebnem Coskun/Agência Anadolu via Getty Images)Uma vista aérea de um urso polar, uma das espécies mais afetadas pelas mudanças climáticas, caminhando sobre geleiras parcialmente derretidas em Svalbard e Jan Mayen, em 15 de julho de 2023. Foto: Sebnem Coskun/Agência Anadolu via Getty Images
UMA VISÃO POUCO CARIDOSA do trabalho dos economistas climáticos da escola Nordhaus é que eles oferecem uma espécie de sociopatia como prescrição política. Nordhaus estima que, à medida que a actividade económica se dirige para os pólos com o aquecimento, a redução maciça do PIB nos trópicos será compensada por uma adaptação óptima no Norte Global. A “redução maciça do PIB”, é claro, não é explicitamente entendida por Nordhaus como o colapso do sistema alimentar ao longo do equador, seguido de colapso social, mortes em massa, guerras e êxodos bíblicos que produzem efeitos não lineares em cascata, atraindo o mundo para um nexo de incógnitas. .

Nada com que se preocupar, assegura Nordhaus: A extinção violenta de nações com baixo PIB dificilmente afectará as perspectivas de crescimento económico porque as coisas irão melhorar no frio Norte Global. Isto é uma aceitação de aspectos positivos imaginários num genocídio climático.

Isto é uma aceitação de aspectos positivos imaginários num genocídio climático.
Será que os governos, os decisores políticos e o público têm alguma ideia de que a mensagem das elites dos economistas climáticos é desequilibrada? Até agora, seguimos acreditando que tudo está bem. Um dos melhores indicadores desta fidelidade semelhante a um lemingue a uma narrativa de optimismo ilusório está no sector financeiro.

Keen escreveu um relatórioAbre em uma nova abapara os investidores este ano, no qual observou que os fundos de pensões engoliram inteiras as projecções Nordhausianas do nosso futuro ensolarado à medida que o sistema climático entra em colapso. “Seguindo o conselho de consultores de investimento, os fundos de pensões informaram os seus membros que o aquecimento global de 2-4,3ºC terá apenas um impacto mínimo nas suas carteiras”, escreveu Keen. “Isto resulta numa enorme desconexão entre o que os cientistas esperam do aquecimento global e aquilo para que os reformados/investidores/sistemas financeiros estão preparados.” Keen não espera que as coisas terminem bem para os investidores.

Quando lhe perguntei o que precisava de ser feito para alterar a política do IPCC, Keen respondeu: “Precisamos que todos estejam tão zangados como eu”. A negligência de economistas como Nordhaus, disse ele, “acabará por matar milhares de milhões de pessoas”.

Andrew Glikson, que leciona na Universidade Nacional Australiana em Canberra e aconselha o IPCC, escreveu sobre a próxima era de morte humana em massa, a que chama de Plutoceno, o sucessor natural do Antropoceno. Os governos globais, acusa ele, são “criminosos” por inaugurarem o Plutoceno na busca de ganhos políticos e económicos de curto prazo. Falei com ele pela primeira vez durante o verão negro de incêndios florestais que assolaram a Austrália em 2020. O humor de Glikson estava péssimo na época e não melhorou desde então.

“As classes governantes desistiram da sobrevivência de numerosas espécies e das gerações futuras”, disse-me ele, “e a sua inacção constitui o crime final contra a vida na Terra”. Parte da razão para a inacção é a falsa alegria que Nordhaus espalhou com os seus modelos de génio matemático e idiotas climáticos.