Mostrar mensagens com a etiqueta Povos Indígenas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Povos Indígenas. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Lorn - Acid Rain

Melhor som aqui
Marcos Ortega, conhecido pelo nome artístico Lorn, é um produtor e músico norte-americano nascido em Normal, Illinois, e criado em Milwaukee, Wisconsin. A sua obra enquadra-se nos géneros da música eletrónica experimental, IDM (Intelligent Dance Music), synthwave e wonky. A faixa "Acid Rain" destaca-se por incorporar elementos marcantes de witch house, patentes no ritmo lento e arrastado de matriz hip-hop/trap, nas linhas de baixo densas, nos sintetizadores distorcidos e nas texturas vocais fantasmagóricas que conferem à música uma atmosfera opressiva, soturna e ritualística.

O videoclipe, realizado por Julian Flores, Pavel Brenner e Sherif Alabede (do coletivo Room 113), apresenta uma estética visual sombria e hipnótica. O enredo acompanha um grupo de claques (cheerleaders) após um acidente de viação fatal num automóvel clássico durante a noite. O vídeo desenrola-se num espaço entre a vida e a morte - um limbo ou purgatório vivido na fração de segundo antes da perda total de consciência. As jovens emergem dos destroços e executam uma coreografia contorcida, mecânica e espasmódica. Esta dança não representa um espetáculo, mas sim uma reação visceral de agonia, choque e rebeldia contra o fim iminente, culminando com o regresso à imagem real do veículo e à confirmação do seu destino trágico.

A nível de inspirações, a premissa do videoclipe apoia-se diretamente na mitologia dos povos originários dos Estados Unidos (Nativos Americanos). O projeto baseia-se na crença tradicional de que, perante a chegada da Morte, a pessoa tem o direito de realizar a sua última dança, cabendo à própria Morte a obrigação de assistir. Esta dimensão espiritual cruza-se com influências do Existencialismo de Albert Camus e Jean-Paul Sartre, onde o ser humano confronta a solidão e o absurdo da condição mortal. A utilização de ícones do imaginário americano dos anos 50 - como o restaurante diner, o carro conversível e as fardas escolares - transfigurados num cenário surrealista evoca o Realismo Mágico e o Horror Cósmico, resgatando simultaneamente o conceito clássico da "Dança Macabra" e do Memento Mori como lembretes da fragilidade humana.


Páginas oficiais
Bandcamp
Wikipedia
Youtube

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Da "Salvação do Planeta" ao Petróleo na Foz do Amazonas: A Grande Contradição da Esquerda Extrativista



A confirmação técnica da descoberta de petróleo bruto no poço Morpho — localizado na sensível bacia da Foz do Amazonas, na Margem Equatorial — veio reacender um debate profundo sobre os rumos da política climática brasileira. Apenas dez meses após o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) ter concedido a licença operacional à Petrobras, em outubro de 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva comemorou o achado caracterizando a nova reserva como o seu mais recente "passaporte para o futuro".

Esta celebração escancara o esgotamento de um modelo ideológico: o de uma esquerda que tenta financiar a justiça social de hoje sacrificando o equilíbrio sustentável de amanhã. O discurso ecológico que entusiasmou a comunidade internacional deu lugar a um pragmatismo fóssil que abraça o ecocídio diferido em nome do crescimento imediato, esvaziando a liderança climática do país de qualquer substância ética.

A decisão do Ibama, contestada por pareceres técnicos históricos, abriu caminho para a exploração petrolífera no mar numa área de elevada vulnerabilidade ecológica. Um dos pontos mais graves de todo este processo envolve a violação de direitos humanos basilares e a subordinação das populações locais ao imperativo do desenvolvimento a qualquer custo. Organizações como a Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Amapá e Norte do Pará (Apoianp) denunciam abertamente que os povos indígenas e as comunidades tradicionais do Oiapoque não foram devidamente auscultados através da Consulta Prévia, Livre e Informada, violando a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Os territórios estão na linha da frente dos riscos de um eventual derramamento de crude, contudo as decisões estratégicas sobre o destino da região continuam a ser tomadas à porta fechada nos gabinetes de Brasília.

O timing do incentivo às novas sondagens marítimas expõe um desfasamento diplomático inaceitável. Pouco tempo depois de o Brasil ter acolhido em Belém a COP 30, onde se apresentou como o grande guardião da floresta tropical e líder da transição energética, o governo pressiona ativamente os órgãos reguladores para expandir a fronteira fóssil. Esta postura reflete a armadilha do neoextrativismo latino-americano, que insiste em ver os recursos naturais finitos como a única alavanca de financiamento público.

As reações das maiores redes ambientalistas mundiais foram devastadoras para a imagem do executivo:
  1. Greenpeace Brasil: através das declarações da coordenadora da campanha de Oceanos, Mariana Andrade, a organização denunciou que a celebração do achado de crude no poço Morpho representa o"risco a ser vendido como conquista". A Greenpeace alertou que insistir na exploração petrolífera no mar na Foz do Amazonas ignora os pareceres técnicos do órgão ambiental, afasta o país dos compromissos do Acordo de Paris e ameaça diretamente o frágil Grande Sistema de Recifes da Amazónia.
  2. Observatório do Clima: a coligação das principais ONGA brasileiras classificou os avanços da exploração na Margem Equatorial como uma verdadeira "sabotagem à COP 30" e uma "escolha desastrosa" que destrói a autoridade moral da diplomacia brasileira. A rede relembrou que a insistência do governo em contornar a prudência ambiental viola o princípio da prevenção científica e contradiz as decisões dos tribunais internacionais sobre a urgência de travar a expansão dos combustíveis fósseis.
A comunidade científica rejeita categoricamente a tese de que a extração de petróleo no mar serve para "financiar a transição energética". O prestigiado climatologista Carlos Nobre, copresidente do Painel Científico para a Amazónia, já reagiu à notícia e foi  incisivo ao declarar que a região já está perigosamente próxima do seu "ponto de não retorno" e que não existe qualquer justificativa técnica ou ecológica para abrir novas fronteiras petrolíferas. "Nós temos que zerar rapidamente o uso de combustíveis fósseis em todo o mundo. 75% das emissões dos gases de efeito estufa vêm da queima dos combustíveis fósseis. É uma emergência imensa" 

O climatologista Carlos Nobre expôs em detalhe, já em 13/02/2025 os riscos ambientais de perfurar poços na bacia marítima da Amazónia nesta entrevista sobre a exploração de petróleo na Foz do Amazonas. Nesta análise em vídeo aborda as dinâmicas de correntes marítimas, os perigos para a biodiversidade e os limites científicos do ponto de não retorno florestal.

Concluindo, para a ciência, não existe justiça social duradoura sobre um ecossistema em colapso. Ao atrelar o desenvolvimento brasileiro a uma matriz ultrapassada, o governo falha na proteção da biodiversidade e insiste num mapa do século XX para tentar navegar na maior crise do século XXI.

domingo, 24 de maio de 2026

Homem, corço, prado: a mesma pele

Corço, fotografado em Groningen, Holanda
Entro nas canas altas e húmidas do mundo,
E sinto-me contido numa pele maior.
A terra húmida respira sob os meus pés,
Um pulmão antigo que exala verde, selvagem e vasto.

Este é o trabalho que reconecta -
Permanecer imóvel até que a fronteira entre o solo e o ser
Se dissolva como o nevoeiro da manhã.

Ali, no meio da planície vibrante,
Ergue-se uma sentinela silenciosa, um corço esculpido de sol e sombra.
Ele é um nativo desta hora, perfeitamente em casa,
Sem nada pedir ao Estado, sem pagar impostos ao vento,
Vivendo deliberadamente na erva profunda,
Um pequeno e silencioso templo de solidão com quatro patas e uma coroa de osso.

Ele olha para mim e, no seu olhar, os séculos sossegam.
Eu vejo-te, irmão! Celebro-te e canto-me a mim mesmo!
Não és uma coisa separada, nenhum estranho num campo distante,
Mas o próprio sangue do cosmos a saltar a vala.

Os mesmos átomos que moldam o teu olho firme e escuro
Vagueiam pela erva, pelos telhados de colmo, pelas nuvens cinzentas e pesadas,
E pelo coração que bate dentro do meu próprio peito.

Cada folha de erva é uma obra-prima das estrelas,
E tu és a sua obra de arte esta noite.

Permanecemos suspensos - o corço, o prado e eu -
Enraizados na grande teia em movimento de todas as nossas relações,
Vivos, despertos e infinitamente livres.

sábado, 23 de maio de 2026

Ailton Krenak e Satish Kumar: Shiva e o beija-flor


O diálogo entre Ailton Krenak e Satish Kumar gira em torno de uma crítica profunda ao modelo de civilização ocidental, propondo uma reconexão com a vida na sua totalidade.

As questões são abordadas através dos seguintes tópicos:

1.O Silêncio como Refúgio: A discussão começa com a necessidade de escapar do ruído e da violência das metrópoles modernas. Krenak cita a cultura Guarani e o conceito de se refugiar numa "Mata Escura" interna, uma forma de meditação livre para silenciar o ambiente e permitir a aprendizagem.

2.A Desconstrução do Conceito de "Natureza": Os pensadores criticam a forma como a sociedade de consumo mercantilizou e "cosmetizou" o meio ambiente para vender produtos. Krenak aponta que a palavra "natureza" é uma invenção da modernidade e não existe nas línguas indígenas; para os povos originários, não há separação, pois tudo faz parte de um mesmo corpo comunitário ("eu mesmo e os meus parentes").

3.A Crítica ao Utilitarismo Económico: Satish Kumar debate como o sistema industrial e a educação moderna reduziram o planeta a um mero "recurso económico" para gerar lucro. Esta lógica de exploração coisificou tudo, transformando inclusivamente as pessoas em "recursos humanos".

4.O Princípio da Vida Integrada: Baseando-se na filosofia de que tudo o que é natural está vivo, Krenak usa a metáfora da lagarta que se transforma em borboleta para ilustrar como a vida é uma força cósmica contínua que atravessa diferentes corpos e estruturas, sem divisões.

5.A Parábola do Beija-Flor: Diante do cenário de destruição global, utilizam a história do beija-flor que carrega gotas de água no bico para apagar um incêndio na floresta. A metáfora serve para justificar o ato de resistir e cultivar pequenos espaços de consciência, mesmo que pareça impossível reverter sozinhos o estrago feito pelas indústrias e pelo capitalismo.

6.A Manipulação da Linguagem e a Tecnologia: Krenak expressa preocupação com as novas ferramentas tecnológicas e a inteligência artificial corporativa. Para ele, as grandes corporações usam estes meios para disparar mensagens em massa, adulterando a comunicação humana autêntica e criando abismos sociais.

7.Guerras Globais e a Luta pela Terra: O debate aborda os conflitos bélicos contemporâneos motivados pela ambição territorial e pela ganância de tomar a terra alheia. Kumar defende que a humanidade precisa urgentemente de ouvir e respeitar os povos indígenas para aprender a viver em harmonia com o solo e os animais, em vez de tentar "civilizá-los".

8.A Autodestruição do Sapiens: O vídeo encerra com uma reflexão dura de Krenak, que define a mentalidade do homem moderno (Homo sapiens) como a de um "serial killer" planetário devido à sua sanha destrutiva e sistémica, enquanto Kumar conclui que este modelo industrial é insustentável e caminha para a própria ruína.

sábado, 25 de abril de 2026

De James Monroe a Donald Trump


Entre a escravatura silenciada e a “regeneração nacional” trumpista, o que une as mensagens presidenciais não é a grandeza imperial, mas a tentativa de conter, em cada época, as fissuras abertas pelos de baixo.

Mais ou menos eficazes, os discursos governamentais estão carregados de ideologias e as suas análises requerem, entre outros procedimentos, o exame das estruturas e práticas sociais no interior das quais foram produzidos. Isto pode evitar a disseminação de abordagens unilineares e teleológicas que considerem os processos históricos como resultantes, fundamentalmente, da inquestionável vontade dos dominantes. Esta temporalidade de uma nota só bloqueia a perceção de contradições complexas e facilita a perceção da história como um processo imune a múltiplas formas de resistência e mesmo a revoluções advindas, em grande parte, da iniciativa dos dominados e dominadas.

A 2 de dezembro de 1823, o presidente dos EUA, James Monroe, apresentou uma mensagem ao Legislativo dos EUA acerca da política do conjunto da sua gestão governamental. Um dos eixos do discurso era o complexo processo de territorialização do jovem país. Oito décadas mais tarde, em dezembro de 1904, Theodore Roosevelt explicitou que, em relação ao novo contexto internacional, a mensagem que enviava ao Congresso atualizava as formulações de James Monroe.

Em novembro de 2025, Donald Trump, agora em cumprimento da Lei Goldwater-Nichols, enviou uma mensagem às duas Câmaras legislativas, na qual também afirmou que, no que toca à política internacional, especialmente com vista ao Hemisfério Ocidental, produziu o que ele próprio intitulou Corolário Trump.

A América para os americanos
Mesmo ausente do texto escrito, a famosa frase expressa, em termos muito gerais, a mensagem de 1823. Mas, de James Monroe ao MAGA, fica o problema: qual América?

Já no início, James Monroe justificou a sua mensagem com a referência à soberania do povo, pilar de um “sistema político” (expressão do próprio) que, fruto de “nossa revolução” (a independência dos EUA), é condição para que os seus cidadãos sejam os mais prósperos e felizes do mundo. Neste sentido, o presidente afirmou que a escolha de tal sistema pelos movimentos de independência fazia com que qualquer interferência das metrópoles fosse considerada uma agressão aos próprios EUA.

Em todo o texto, James Monroe (de onde veio o nome Monróvia, da atual Libéria) não se referiu aos escravos, cuja exploração era a base da economia do sul, inclusive da Virgínia, onde nasceram ele e mais três dos quatro primeiros presidentes dos EUA. Nem à Lei dos Três Quintos, que contabilizava 60% dos escravos em cada estado para fins de aumento da bancada dos sulistas na Câmara dos Representantes. Na única menção aos indígenas, James Monroe elogiou a repressão aos Arikaees, devidamente punidos pelo ataque para que o “espírito hostil” não se estendesse a outras tribos. Medidas “para conter o mal”, sentenciou (p. 6).

Nos idos de 1823, os EUA eram uma formação social com a forte presença de relações pré-capitalistas, uma classe dominante nacionalista, inclusive a fração esclavagista, sequiosa por ampliar a fronteira agrícola; um expansionismo que era conduzido em sentido mais estratégico pelos dirigentes da política estatal. A produção e exportação algodoeira para a indústria inglesa acelerava-se, mas com tecnologia ainda anterior à explosão dos anos 1830. Várias condições favoreciam uma agressiva política estatal de produção de uma territorialidade que articulasse a escravatura, no sul, e a dominação burguesa, a norte.

Esta relação de unidade e contradição entre o escravagismo e o capitalismo embrionário manifestava-se, inclusive, nas complexas negociações em torno dos impactos da incorporação de cada novo território, pois, ao implicar o acolhimento ou a rejeição do escravagismo, gerava efeitos sobre a correlação política interna do país. A questão da territorialidade também produzia tensões relativas às Caraíbas como rota comercial e/ou em termos militares.

A cada um, a sua revolução
James Monroe também silenciou sobre a única revolução de escravos vitoriosa da história, ocorrida no que é, desde então, o Haiti, com enorme repercussão nas três Américas e na Europa. A mensagem operou um corte entre relações de produção e sistema político, o que lhe permitiu legitimar, no plano discursivo, uma ordem escravagista. Não constituídos estruturalmente como sujeitos, os escravos não podem (?) fazer uma revolução.

Apropriações sociais de leitura: desde crianças, “sabemos” que James Monroe, uma espécie de Pai Natal, foi o primeiro governante a reconhecer a independência do Brasil, este país imperial escravagista. Pouco se ensina que, tal como os seus antecessores Jefferson e James Madison e todos os que o sucederam até à Guerra de Secessão, Monroe não reconheceu a independência do Haiti. Até propositadamente, a sua mensagem teve pequena repercussão imediata e só recebeu o nome de doutrina quando, cerca de duas décadas mais tarde, foi apropriada por patriotas preocupados em salvar a “América”, vista como nação branca ilhada pela decadência do escravagismo na Europa, em países independentes da América e mesmo em colónias francesas e britânicas.
Outras apropriações sociais vieram.

O populismo antissistema de Andrew Jackson
A ligação de Donald Trump a Andrew Jackson não é apenas uma preferência histórica passageira, mas sim uma escolha estratégica e pessoal que molda profundamente a sua identidade política. Para compreender esta admiração, é necessário olhar para Jackson como o grande divisor de águas da democracia americana no século XIX, uma vez que ele foi o primeiro presidente a não pertencer à elite aristocrática da Virgínia ou de Massachusetts. Sendo um militar de origem humilde, conhecido pelo seu temperamento explosivo e por uma lealdade feroz aos seus seguidores, Andrew Jackson serve de espelho para Trump, que se apresenta como uma figura externa ao sistema que chegou ao poder com a missão de o limpar e de devolver o governo aos cidadãos comuns.

O ponto central desta identificação reside no populismo antissistema, pois tal como Trump critica frequentemente a burocracia de Washington, também Jackson travou uma guerra aberta contra o Segundo Banco dos Estados Unidos, por o considerar uma ferramenta de corrupção das elites financeiras contra o trabalhador comum. Trump vê nesta postura de combatente o arquétipo do líder forte que não se verga às normas da etiqueta política sempre que estas interferem na sua agenda. Este simbolismo tornou-se evidente logo na tomada de posse de 2017, quando Trump escolheu o retrato de Jackson para decorar a parede da Sala Oval, enviando a mensagem clara de que não governaria como um republicano tradicional, mas como um herdeiro do Jacksonianismo, focado no nacionalismo económico e numa relação direta com a sua base eleitoral.

Além disso, Trump admira a resiliência física e política de Andrew Jackson, um homem que sobreviveu a duelos e enfrentou processos no Congresso sem nunca recuar. Para Trump, a política é vista como uma arena de força onde a vontade do povo, representada pelo líder, deve prevalecer sobre as instituições que tentam contê-la. Em suma, Jackson é o modelo ideal para Trump porque forneceu um precedente histórico para o seu estilo de liderança, sendo simultaneamente um herói para os seus apoiantes e uma figura profundamente disruptiva para os seus opositores.

Theodore Roosevelt e a aurora do imperialismo estado-unidense
Trinta anos após a Guerra de Secessão, os EUA não só se tornaram a primeira economia mundial como ingressaram no estágio imperialista do capitalismo. Ao lado de um extraordinário processo de acumulação e centralização de capital, deu-se uma intensa imigração – e, com ela, mais racismo – e o colonialismo de novo tipo. Houve um empobrecimento do campesinato e ampliação do número de trabalhadores urbanos, grande parte em situação de miséria nas grandes cidades industriais. Cresceram as mobilizações de massas e politizaram-se lutas, inclusive processos eleitorais.

Por intermédio da guerra com a Espanha, iniciou-se uma grande ofensiva sobre as Caraíbas, com o domínio de Cuba e Porto Rico, e, na bacia do Pacífico, a conquista do Havai, Ilhas de Guam e das Filipinas, onde haveria forte e heróica resistência popular. Enfim, a grande América em expansão marítima.

Tal como a mensagem de James Monroe, a de Th. Roosevelt era otimista. Ele afirmou que, numa sequência de bons governos, a prosperidade era notável e havia aprovação popular. Tudo isto dinamizado pelo industrialismo, a “nota dominante da sociedade moderna” e, com isso, a importância das relações capital-trabalho, “especialmente capital organizado e trabalho organizado” (p. 1). Ao contrário do silêncio de Monroe sobre os produtores diretos, Th. Roosevelt dedicou cerca de 11 das 33 páginas da sua mensagem a esta relação, referindo-se a políticas intervencionistas em múltiplas esferas da vida social: do direito dos trabalhadores se organizarem para se defenderem contra “abusos das grandes corporações” ao trabalho infantil e da mulher grávida, acrescentando que o maior dever da mulher é “ser mãe, dona de casa” (p. 10).

Mas, acima de tudo, defendia a responsabilidade e a tolerância entre capitalistas e assalariados. Ele próprio racista, declarou-se contra o preconceito em relação a migrantes e negou que houvesse riscos de chegarem em excesso, desde que fossem “do tipo certo”. No plano externo, expandiu a área de influência nas Caraíbas e na Bacia do Pacífico, onde forçou a política de portas abertas na China e arbitrou o conflito entre os impérios Japonês e Russo, o que lhe assegurou, em 1906, o Nobel da Paz.

James Monroe declarou opor-se à intervenção de potências europeias nos processos em curso pela independência na América porque estes adotavam um “sistema político” semelhante ao dos EUA e, portanto, superior ao delas. E, ao dirigir-se a elas, a sua posição era altiva, mas defensiva.

Já a mensagem de Th. Roosevelt era explicitamente agressiva. Alertava para os males que ocorreriam se, na ausência de “algum grau de controlo internacional sobre as nações infratoras”, as “potências mais civilizadas… de maior senso de obrigação internacional e com a mais aguda e generosa apreciação do certo e do errado, se desarmassem” (p. 29). Daí a importância de, sempre que necessário, elas, armadas, exercerem um poder de polícia internacional (id.).

A aparente mitigação do hobbesianismo primário ficava por conta da comunhão de interesses entre atacante e atacado. “Os nossos interesses e os dos nossos vizinhos do sul são… idênticos” (p. 30); ou as Filipinas não precisavam de “independência alguma…” (p. 36). E, num esforço de síntese transoceânica, afirmou que, “em relação a Cuba, Venezuela e Panamá, ao esforçarmo-nos para circunscrever o teatro de guerra no Extremo Oriente e para assegurar a abertura das portas na China, agimos no nosso próprio interesse, bem como no interesse da humanidade em geral” (p. 31).

domingo, 12 de abril de 2026

Afonso Cruz - O que a Chama Iluminou


Já tinha lido dois livros dele antes: "O Princípio de Karenina" e "Jesus Cristo bebia cerveja". Adorei os dois livros.
𝑶 𝑸𝒖𝒆 𝑨 𝑪𝒉𝒂𝒎𝒂 𝒊𝒍𝒖𝒎𝒊𝒏𝒐𝒖 é um livro que nasce de uma experiência-limite vivida por Afonso Cruz no Chile aquando dos protestos de 2019. Durante uma perseguição em Santiago, o autor escreve: “É desse lugar, em que a morte nos espreitava através do vidro escuro de um blindado, que quero escrever este livro. Dali, onde estava com R., suspenso entre a vida e a morte (…). Este livro nasce de um beco.” (p. 28). É a partir desse quase fim que o livro se abre para uma reflexão mais vasta sobre todos os fins que atravessam a existência.
A experiência pessoal funciona como detonador, mas Cruz não se encerra nela. Pelo contrário: amplia-a, desdobra-a, coloca-a em diálogo com outras formas de desaparecimento. O livro convoca o fim do amor, quando se perde o amado, o marido, o filho; o fim das palavras, quando a linguagem se gasta e já não nomeia; o fim dos povos indígenas, cuja cultura se esbate como poeira ao vento; o fim dos filhos e dos maridos desaparecidos, que as mulheres de Calama procuram com uma persistência que é, ao mesmo tempo, luto e resistência. Cada uma destas formas de fim é iluminada pela mesma chama: a consciência de que tudo é transitório, mas nada se perde totalmente. Até porque como o autor lembra “o fim pode também ser um princípio ou um recomeço (…). (p. 44)
Afonso Cruz cita vários autores que alimentam a ideia de que o fim de algo está na origem da beleza, da poesia, da arte em geral. Segundo Vicente Verdú “ O vazio é o principal luxo da arte (…) A negação, a dor, o mal, o vazio são eminentes criadores. Altamente ativos.” Estas referências surgem como parte de uma reflexão que se quer ampla e dialogante.
Em vários textos, Cruz recupera a ideia primordial de que somos feitos de pó e ao pó regressaremos, não como ruína, mas como continuidade. É aquilo que permanece quando a forma desaparece. O pó revela que o fim não é interrupção, mas transformação. Esta visão, profundamente serena, afasta o livro de qualquer sombra de medo. A morte não surge como ameaça, mas como claridade.
Outro elemento decisivo e que muito me agradou é a erudição do autor, que se manifesta nas citações, nos exemplos convocados, nas vozes que entram no texto como companheiras de pensamento. As referências funcionam como velas que iluminam diferentes ângulos da mesma questão seja ela filosófica, histórica, científica, poética e ampliam a experiência vivida.
O resultado é uma obra de não ficção que se lê avidamente. A escrita, depurada e aforística, agarra o leitor. Há silêncio entre as frases, entre os textos; há contenção; há uma serenidade que surpreende. Mesmo quando fala da morte, Cruz escreve com lucidez. A chama ilumina o fim, sim, mas ilumina também o que fica, o que continua: a memória, o gesto, o amor, a matéria que se transforma... “(…) todos morremos, mas de que lado da morte queremos estar?” (p. 130)
𝑶 𝑸𝒖𝒆 𝑨 𝑪𝒉𝒂𝒎𝒂 𝒊𝒍𝒖𝒎𝒊𝒏𝒐𝒖 é, por isso, um livro sobre o fim, mas também sobre a esperança. É um livro que nasce de um beco, mas abre-se para uma luz maior. Afonso Cruz oferece-nos uma reflexão íntima e universal, pessoal e ética, que transforma o susto em claridade e o desaparecimento em luz.

Saber mais:
Fernando Alvim conversa com Afonso Cruz sobre a eminência do fim, pessoal  e colectivo, daí resultando esta novela-ensaio, reflexão terna e desapiedada sobre o fim das coisas.

quarta-feira, 25 de março de 2026

Melinda Janki: Como enfrentamos uma gigante petrolífera - e vencemos


As empresas petrolíferas podem parecer invencíveis, mas são mais vulneráveis ​​do que se imagina, afirma a advogada Melinda Janki, especialista em justiça climática e ambiental. Ela conta a história de como enfrentou a ExxonMobil no seu país natal, a Guiana, conquistando vitórias históricas contra a gigante petrolífera — e provando que podemos transformar as leis existentes em ferramentas poderosas para a mudança.

"Se intentar uma ação judicial por motivos ambientais e perder, não deverá suportar as custas da outra parte." - Melinda Janki

sábado, 21 de março de 2026

O bom exemplo do bilionário Tim Sweeney, que trocou os iates pela Floresta


Tim Sweeney - O exemplo raro de Capitalismo de Conservação  

Enquanto a maioria dos bilionários gasta fortunas em iates de luxo, ilhas privadas ou na corrida ao espaço, Tim Sweeney, o CEO da Epic Games (criador do Fortnite e do Unreal Engine), está a trilhar um caminho solitário e admirável: a proteção permanente da biodiversidade.

Sweeney tem investido silenciosamente centenas de milhões de dólares na compra de vastas áreas de floresta na Carolina do Norte. O seu objetivo? Impedir o betão. Ao contrário de outros investidores, Sweeney utiliza mecanismos legais conhecidos como conservation easements (servidões de conservação) para garantir que estas terras nunca sejam alvo de construção ou exploração madeireira, protegendo-as para as gerações vindouras.

O que torna esta estratégia única?
Proteção contra infraestruturas: em 2016, Sweeney comprou a área de Box Creek Wilderness (cerca de 2.800 hectares) apenas para impedir que uma empresa de energia passasse uma linha de alta tensão através de um ecossistema sensível.

Doação histórica: em 2021, realizou uma das maiores doações de terra privada na história dos EUA, transferindo cerca de 3.000 hectares em Roan Highlands para uma organização de conservação, garantindo que o público possa usufruir da natureza intocada.

Filantropia de legado: com mais de 20.000 hectares já protegidos sob a sua influência direta, Sweeney é hoje um dos maiores conservacionistas privados do mundo.

Numa era em que o impacto ambiental é tantas vezes ignorado pelo lucro imediato, Sweeney demonstra que o verdadeiro poder da tecnologia pode — e deve — ser usado para salvar o mundo biológico. Como ele próprio afirmou, a terra protegida durará muito mais do que qualquer código de programação.

Fontes e leitura adicional (em inglês):

sexta-feira, 20 de março de 2026

Cat Power - Cherokee


"Cherokee" é uma das músicas mais conhecidas de Cat Power, lançada como single do álbum Sun (2012). Embora seja norte-americana, ela possui ascendência Cherokee (por parte do seu avô materno), o que explica o título da canção e sua forte conexão com a cultura e a história dos povos nativos dos EUA.

Cherokee
Cat Power

It's my way
It's my way down...

I never knew love like this
The wind, the moon, the earth, the sky (sky so high)
I never knew pain like this
When everything dies (...thing dies)
I never knew love like this
The sun, sea you and I (you and I)
I never knew pain, I never knew shame
And now I know why

Bury me, marry me to the sky (x4)

If I die before my time
Bury me upside down
Cherokee kissing me
When I’m on my way down (x2)

I never knew love like this
The wind, the moon, the earth, the sky (sky so high)
I never knew pain like this
When everything dies
I never knew love like this
The sun, sea you and I (you and I)
I never knew pain, I never knew shame
And now I know why

Bury me, marry me to the sky (x4)

If I die before my time
Bury me upside down
Cherokee kissing me
When I’m on my way down(x3)

It's my way down...

Em "Cherokee", Cat Power explora temas de transcendência e libertação face à mortalidade. O verso repetido “Bury me, marry me to the sky” (“Enterre-me, case-me com o céu”) expressa o desejo de ir além da morte física, procurando uma ligação espiritual com o universo. Elementos naturais como “the wind, the moon, the earth, the sky” (“o vento, a lua, a terra, o céu”) reforçam esta procura por algo maior, sugerindo que as emoções vividas são tão intensas como as forças da natureza.

O videoclipe, que mostra Cat Power como uma caçadora de zombies num cenário pós-apocalíptico, intensifica o sentimento de luta pela sobrevivência e o confronto com a morte. Isto transforma a música numa reflexão sobre a resiliência e a possibilidade de renascimento mesmo no meio da destruição. A frase “Cherokee kissing me when I’m on my way down” (“Cherokee beijando-me quando estou a cair”) pode ser vista como uma referência à cultura indígena norte-americana, evocando rituais de passagem e respeito pela terra, ou como um gesto de conforto em momentos de queda emocional. O pedido para ser enterrada de cabeça para baixo sugere uma inversão das tradições sobre a morte, talvez como protesto ou procura de uma nova perspectiva. A sonoridade eletrónica e atmosférica da faixa, marcada por uma mudança de estilo da artista, reforça o tom introspetivo e amplia o impacto emocional da canção.

Recepção e críticas do álbum Sun (2012)

sábado, 7 de março de 2026

Buffy Sainte-Marie: Universal Soldier


Canção e letra Buffy Sainte-Marie, no início dos anos 60. Buffy é uma excelente activista, com um passado atribulado. Porém foi declarada "Falsa Indígena"  

He's five feet two and he's six feet four
He fights with missiles and with spears
He's all of 31 and he's only 17
He's been a soldier for a thousand years

He's a Catholic, a Hindu, an atheist, a Jain,
a Buddhist and a Baptist and a Jew
and he knows he shouldn't kill 
and he knows he always will
kill you for me my friend and me for you

And he's fighting for Canada, 
he's fighting for France,
he's fighting for the USA,
and he's fighting for the Russians 
and he's fighting for Japan, 
and he thinks we'll put an end to war this way

And he's fighting for Democracy
and fighting for the Reds
He says it's for the peace of all
He's the one who must decide 
who's to live and who's to die
and he never sees the writing on the walls

But without him how would Hitler have 
condemned him at Dachau
Without him Caesar would have stood alone
He's the one who gives his body 
as a weapon to a war
and without him all this killing can't go on

He's the universal soldier and he 
really is to blame
His orders come from far away no more
They come from him, and you, and me
and brothers can't you see
this is not the way we put an end to war

"Universal Soldier" é uma canção escrita e gravada pela cantora e compositora canadiana Buffy Sainte-Marie. A canção foi originalmente lançada no álbum de estreia de Sainte-Marie, It's My Way!, em 1964. "Universal Soldier" não foi um sucesso popular imediato na altura do seu lançamento, mas chamou a atenção da comunidade da música folk contemporânea. Tornou-se um sucesso um ano depois, quando Donovan a regravou, assim como Glen Campbell. Sainte-Marie disse sobre a canção: "Escrevi 'Universal Soldier' ​​na cave do café The Purple Onion em Toronto, no início dos anos sessenta. É sobre a responsabilidade individual pela guerra e como o velho pensamento feudal nos mata a todos."
Em 1965, a canção chamou a atenção do aspirante a cantor folk Donovan, que a gravou usando um arranjo semelhante ao da gravação original de Buffy Sainte-Marie. Na versão de Donovan, Dachau tornou-se Liebau (Lubawka, Polónia), um centro de treino para a Juventude Hitleriana. A gravação de Donovan foi lançada num EP intitulado The Universal Soldier no Reino Unido (15 de agosto de 1965). O EP deu continuidade à sequência de lançamentos de Donovan com posições elevadas nas tabelas do Reino Unido, alcançando o 5º lugar. As faixas do EP são "Universal Soldier"; "The Ballad of a Crystal Man" com "Do You Hear Me Now?" (Bert Jansch); "The War Drags On" (Mick Softley).
A falta de interesse pelo formato EP nos Estados Unidos levou a Hickory Records a lançar a canção como single em setembro de 1965. A versão de Donovan de "Universal Soldier" teve como lado B outra faixa do EP britânico: "Do You Hear Me Now?" de Bert Jansch. O lançamento de "Universal Soldier" por Donovan nos EUA também se tornou um sucesso, alcançando uma posição superior nas tabelas do que o seu single anterior, "Colours", e chegando finalmente ao 53º lugar da tabela da Billboard. Este sucesso levou a Hickory Records a incluir a canção no lançamento nos Estados Unidos do segundo álbum de Donovan, Fairytale, substituindo uma versão de "Oh Deed I Do", de Bert Jansch. A Cash Box descreveu-a como "uma canção plangente, com um toque country, de ritmo moderado e que assume uma forte posição contra a guerra".
Saint-Marie ficou feliz por o sucesso de Donovan com esta música ter feito com que mais pessoas a ouvissem.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Indigenous Communities Report Dramatic Loss Of Large Bird Species Over 80 Years


A recently published international study reports there are fewer and fewer large bodied bird species in Africa, Latin America and Asia. Led by a large team of researchers based at Institute of Environmental Science and Technology at the Universitat Autònoma de Barcelona (ICTA-UAB), the study finds that birds living in these regions are considerably smaller than those that predominated in 1940. The study documents the collective ecological memories of 10 Indigenous Peoples and local communities and reports a reduction of up to 72% in the mean body mass of the bird species present in these areas between 1940 and 2020.

“The project began in 2013, during my PhD fieldwork in the Bolivian Amazon,” ethnobiologist Álvaro Fernández-Llamazares told me in email. Dr Fernández-Llamazares works as a senior researcher at the ICTA-UAB. “Knowledge holders of the Tsimané people repeatedly told me that the large birds they had grown up with were rapidly disappearing.”

The Tsimané are indigenous people living in lowland Bolivia. They are primarily a subsistence agriculture culture, although hunting and fishing also contribute to many of the settlements’ food supplies.

“The Tsimané interact with birds on a daily basis through hunting, farming, rituals, and storytelling, which gives them long-term ecological memories that extend far beyond the timeframe of scientific monitoring,” Dr Fernández-Llamazares explained to me in email.

“As I later worked with Indigenous communities in other parts of the world, I realized that remarkably similar observations were being made elsewhere. That convergence made me realize that these place-based memories could reveal large-scale patterns of biodiversity change. This is what motivated me to carry out a global analysis to understand what Indigenous and local knowledge systems can tell us about long-term changes in bird populations.”
F I G U R E 1 : Locations of the ten study sites.doi:10.1017/s0030605325102615


The research is based on a global survey of 1,434 adult participants from 10 place-based communities across three continents (Figure 1). In total, Dr Fernández-Llamazares and collaborators surveyed 1,434 adults in ten communities in Bolivia, Chile, Mexico, Brazil, China, Ghana, Kenya, Madagascar, Mongolia, and Senegal. They compiled 6,914 unique bird reports (Figure 2) corresponding to 283 bird species, and compared the bird species most commonly reported during participants’ childhoods with those currently reported in their territories.
Distribution of bird reports over time in the 10 study sites (Fig. 1) and across all sites combined.

The reported differences in bird species were statistically significant in territories such as Tsimane (Bolivia), Timucuy (Mexico), Vavatenina (Madagascar) and Ordos Desert (China). At the same time, no significant differences were reported for Lonquimay (Chile) and Bulgan soum (Mongolia).

The Indigenous Peoples’ cultural memory strongly contrasts with most people’s memories of environmental conditions, which are continually deteriorating over time, a phenomenon known as the Shifting Baseline Syndrome (ref). Basically, in the absence of past information or experience with historical conditions, members of each new generation accept the situation in which they were raised as being “normal”. This psychological and sociological phenomenon is increasingly recognized as one of the fundamental obstacles to addressing a wide range of today’s global environmental issues.

Dr Fernández-Llamazares and collaborators’ analysis reveals the deeply worrying pattern where large bodied bird species are rapidly disappearing from local environments, only to be replaced by smaller bodied species. For example, this study found that the average mass of reported bird species exceeded 1,500 grams (3.3 pounds) in the 1940s, whereas the average mass in 2020 is reported to be closer to 535 grams (1.17 pounds). This coincides with a significant decline in body mass of 72% over eight decades.

The secretary bird (Sagittarius serpentarius) is a large endangered bird of prey that is endemic to open grasslands and savannah of the sub-Saharan region of Africa. Its body mass ranges from 2.3kg to 5kg (5–11 pounds) 

What happened to these large birds? They were likely driven locally extinct because large bird species are more vulnerable than small ones to hunting, habitat destruction and fragmentation, and to infrastructure development, according to Dr Fernández-Llamazares. Further, the loss of these birds threatens biodiversity and environmental health and is accompanied by the loss of key functional roles held by these birds in their ecosystems, particularly seed dispersal, pest control, and forest regeneration.

Dr Fernández-Llamazares and collaborators’ study serves to highlight critically important alterations to the intimate, lived experiences with nature of generations of people within their territories. It also points to the collective impoverishment of Indigenous Peoples’ cultural identity, memory and traditional practices around the world.

“Bird declines are not abstract statistics: they are visible, remembered, and felt by people who live closest to nature,” Dr Fernández-Llamazares stated in email. “When ten Indigenous Peoples and local communities across three continents independently report that birds are getting smaller, it tells us the avian extinction crisis is deeper and more pervasive than we tend to acknowledge with scientific data.”

Source:
Álvaro Fernández-Llamazares et. al. (2026). Indigenous Peoples and local communities report a consistent decline in the body mass of birds across three continents, Oryx | doi:10.1017/s0030605325102615

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Dia Internacional da Língua Materna


Celebrado anualmente em 21 de fevereiro, o Dia Mundial da Língua Materna é muito mais do que uma data no calendário; é um lembrete de que o idioma que aprendemos no colo dos nossos pais é a base da nossa identidade, cultura e forma de ver o mundo.

A data foi proclamada pela UNESCO em 1999 e oficializada pela ONU em 2002.

Sabia que? O idioma Ubykh (Turquia), extinto em 1992, tinha um dos sistemas sonoros mais complexos do mundo. Com a sua morte, sons que o ser humano era capaz de produzir perderam-se para sempre na prática quotidiana.

O desaparecimento acelerado de idiomas no século XXI representa uma das maiores crises de património imaterial da humanidade. Segundo o relatório Ethnologue (2025/2026), aproximadamente 40% das 7.168 línguas catalogadas no mundo estão em risco de extinção, um fenómeno impulsionado pela globalização económica e pela hegemonia de idiomas transnacionais. O World Atlas of Languages da UNESCO (2025) reforça que esta perda não é meramente vocabular, mas sim a erosão de sistemas de conhecimento ecológico, histórico e espiritual únicos. No contexto da Década Internacional das Línguas Indígenas (2022-2032), o foco global deslocou-se da simples documentação passiva para a revitalização ativa, onde o uso da língua materna na educação básica é apontado como o fator determinante para a sobrevivência de uma cultura.
A tecnologia tem desempenhado um papel ambivalente neste cenário. Se, por um lado, o mundo digital exclui línguas sem representação escrita ou técnica, por outro, surgem ferramentas inovadoras de salvaguarda. Projetos como o Woolaroo, do Google Arts & Culture, utilizam inteligência artificial para identificar objetos através da câmara e traduzi-los instantaneamente para idiomas ameaçados, como o Ibibio ou o Maia, criando uma ponte visual para as novas gerações. Outras plataformas, como o Indigenous Languages Digital Archive (ILDA) e a aplicação FirstVoices, permitem que comunidades isoladas criem os seus próprios dicionários de áudio e jogos educativos, garantindo que a fonética correta seja preservada mesmo quando o número de falantes nativos é reduzido.
A nível bibliográfico, os estudos de Crystal (2000) em Language Death continuam a ser a base teórica para compreender porque é que as línguas morrem, mas são os relatórios anuais da UNESCO (2024, 2025) que traçam o mapa atualizado da urgência. Estes documentos sublinham que a "morte" de uma língua ocorre habitualmente em três gerações: quando os avós a falam, os pais a entendem mas não a praticam, e os filhos a desconhecem por completo. Portanto, as ferramentas de gamificação e os arquivos digitais de livre acesso tornam-se, em 2026, as principais armas contra o silenciamento cultural, transformando dispositivos móveis em veículos de resistência linguística.

Referências e Relatórios Consultados:
Crystal, D. (2000). Language Death. Cambridge University Press.
Eberhard, D. M., Simons, G. F., & Robinson, A. J. (Eds.). (2026). Ethnologue: Languages of the World (29th ed.). 
UNESCO (2025). World Atlas of Languages: Global Status Report on Linguistic Diversity. 
United Nations (2022). Global Action Plan of the International Decade of Indigenous Languages (2022–2032).

Como estamos em Portugal, a análise do nosso território revela um contraste fascinante e preocupante entre a homogeneidade do português padrão e a resistência de pequenos enclaves linguísticos que lutam pela sobrevivência em 2026.

O Caso do Noroeste e Nordeste de Portugal
No interior de Portugal, a erosão linguística está diretamente ligada à desertificação humana. O Mirandês, a única língua regional oficialmente reconhecida (Lei n.º 7/99), entrou num período crítico. Segundo os relatórios mais recentes de monitorização da Associação de Língua e Cultura Mirandesa (ALCM) e estudos da Universidade de Coimbra (2025), o número de falantes nativos fluentes desceu para menos de 5.000 pessoas. Embora o Mirandês seja ensinado nas escolas de Miranda do Douro, o desafio em 2026 é a "interrupção da transmissão geracional": os avós falam, mas os jovens, embora o entendam, optam pelo português no ambiente digital e social.

Mais a sul, na zona de Castelo Branco e Alentejo, temos casos de micro-línguas ou dialetos em estado terminal:

Minderico (Minde): Originalmente uma gíria de comerciantes (piação), evoluiu para uma língua complexa. Hoje, é classificada pela UNESCO como "criticamente em perigo", restando apenas algumas dezenas de falantes que dominam o léxico completo.

Barranquenho (Barrancos): Situado na fronteira, este idioma funde elementos do português e do espanhol (extremenho e andaluz). Em 2021, foi reconhecido como património cultural, mas a pressão dos meios de comunicação de massa em português padrão continua a diluir a sua pureza fonética.

O Contraste com a Amazónia (Brasil)
Se em Portugal o risco é a assimilação cultural, na Amazónia o risco é a extinção física e territorial. O Brasil abriga cerca de 180 línguas indígenas, mas o relatório "Línguas em Trânsito" (2025) indica que a maioria delas possui menos de 1.000 falantes.

Línguas Isoladas: Grupos como os Pirahã mantêm uma língua única, sem números ou cores abstratas, que desafia as teorias linguísticas de Noam Chomsky. Contudo, a pressão do garimpo ilegal e a desflorestação forçam o contacto, o que historicamente leva à rápida substituição da língua nativa pelo português por necessidade de sobrevivência.

Resistência Digital: Em 2026, assistimos a um fenómeno inverso: o uso de redes sociais (TikTok e Instagram) por jovens indígenas (como os das etnias Guajajara ou Puyanawa) para criar conteúdos nos seus idiomas originais. Esta "re-gramatização" digital está a despertar o interesse dos adolescentes pela língua dos avós, transformando o telemóvel numa ferramenta de orgulho identitário.


Bibliografia e Documentação Específica:
Ferreira, M. B. (2024). O Mirandês no Século XXI: Entre a Escola e a Rua. Coimbra: Almedina.
Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional - IPHAN (2025). Inventário Nacional da Diversidade Linguística: Foco Amazónia.
Relatório ALCM (2026). Estado da Língua Mirandesa: Censo e Vitalidade. 
UNESCO (2025). Interactive Atlas of the World's Languages in Danger (Edição Digital 2026).
Relatório ALCM (2026). Estado da Língua Mirandesa: Censo e Vitalidade.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

William Elliott Whitmore - Civilizations


Letra
Don’t mind me I’m just livin here
Don’t mind me I’m just livin’ here
Tear down the mountains, cut the forest clear
Don’t mind me I’m just livin here

Pay no attention I’m just trying to exist
Pay no attention I’m just trying to exist
I’ve said too much now my name’s on a list
pay no attention to me

I know, I know, I know
Civilizations they come and they go
Sooner or later they crumble and fall
We’re just here in the middle of it all

Don’t mind me I’m bleeding now
Don’t mind me I’m just bleeding now
A hand from above cut out my heart somehow
Don’t mind me I’m just bleeding now

Under the radar hopefully
Under the radar hopefully
I’ll live live live ‘til they bury me
Under the radar hopefully


"Civilizations" é uma das faixas mais poderosas do álbum Radium Death (2015), de William Elliott Whitmore. É uma música que resume bem a filosofia do artista: uma mistura de folk visceral, activismo rural e uma pitada de estoicismo.

A canção é acompanhada por um evocativo videoclipe animado em tons sépia, co-realizado por Joel Anderson e Matt Scharenbroich. Utiliza imagens de paisagens em transformação e decadência histórica para reflectir o tema de "ascensão e queda" da música.

O Significado e a Inspiração
A canção é uma reflexão sobre a natureza cíclica da história humana e a resiliência do "homem comum".
O Ciclo da História: o tema central é que impérios e governos — as "civilizações" do título — eventualmente desmoronam sob o próprio peso, enquanto as pessoas comuns e a terra permanecem.

Comentário político: Whitmore escreveu a música como uma crítica à arrogância das potências modernas. Ele frequentemente traça paralelos com a queda de Roma, sugerindo que sociedades que priorizam o progresso industrial desenfreado em detrimento da terra estão destinadas ao fracasso.

Raízes Pessoais: a inspiração veio de uma luta real na defesa da sua quinta familiar no Iowa. Na época, havia um projeto de instalação de um oleoduto que passaria pelas terras de sua avó, o que deu origem aos versos sobre montanhas sendo derrubadas e florestas devastadas.[Fonte]. Ler mais detalhadamente abaixo

Estilo Musical
Diferente de outras faixas de Radium Death, que trazem guitarras elétricas e uma sonoridade mais rock, "Civilizations" é minimalista e acústica.
O Banjo: a música é guiada por um dedilhado de banjo lento e deliberado.
A Voz: a voz grave e "rasgada" de Whitmore (que soa muito mais velha do que ele realmente é) dá à canção um peso ancestral, como se estivesse sendo cantada por alguém que já viu séculos passarem.


O Contexto Político (Obama e o Iowa)
Obama estava no seu segundo mandato e, curiosamente, o contexto político da época cria um contraste interessante com a mensagem da canção:

A Contradição da energia: embora a administração Obama tenha promovido energias renováveis, também presenciou um boom na produção de petróleo e gás natural nos EUA. Foi precisamente durante este período que o projeto da Dakota Access Pipeline (que Whitmore contestava ativamente no Iowa) avançou a nível federal.

O "Home State" Político: o Iowa foi o estado que catapultou a carreira de Obama em 2008. Ver um artista do Iowa como Whitmore a cantar sobre a queda de "civilizações" e a ganância das corporações em 2015 mostrava um certo desencanto de parte da população rural que sentia que as promessas de proteção ambiental e económica não estavam a chegar ao terreno.

A Canção como Protesto
Quando Whitmore canta "Civilizations, they come and they go" (As civilizações vêm e vão), ele está a adoptar uma perspetiva histórica longa, sugerindo que nenhum governo ou império — mesmo o de um presidente popular como Obama — é permanente face à força da natureza e da terra.

Whitmore chegou a participar em protestos físicos no Iowa contra a construção da conduta de petróleo durante esse governo

sábado, 17 de janeiro de 2026

Kumi Naidoo : For over 30 years, the world has been addressing climate change without confronting its root cause: fossil fuels


Why is a global fossil fuel treaty needed and what should it look like?
For over 30 years, the world has been addressing climate change without confronting its root cause: fossil fuels. We have been standing in a flooding room, mopping the floor instead of turning off the tap. Eighty-six per cent of climate change is caused by coal, oil and gas, yet the global system still allows – even subsidises – their expansion. A treaty will give us a clear, fair and binding plan to end fossil fuel expansion, phase out existing production and support a just transition for workers and communities.

An ambitious treaty would have three pillars: no new investments in coal, gas or oil projects, a phase-out of existing production, based on science and equity, and a fast, funded transition that supports communities, workers and global south countries. This is a roadmap to turn off the tap at the source, something the current global system has failed to do.

The First International Conference for the Just Transition Away from Fossil Fuels, co-hosted by Colombia and the Netherlands, will take place in Santa Marta, Colombia, on 28 and 29 April, bringing together governments, experts and communities to develop policies for a transition in line with the Paris Agreement.

How can a treaty succeed where the COP series of climate summits has failed?
The COP process requires consensus from almost 200 governments, including many captured by fossil fuel interests. This leads to deals that are full of loopholes and not very binding. In contrast, a treaty can be negotiated by a coalition of the ambitious, set binding rules to stop expansion and deliver a governed, financed just transition.

This approach works. Think of the Landmine Convention or the Ozone Treaties. They didn’t need every country to start, just enough courageous ones to lead. Almost every major treaty began with a small group of pioneers. Once they move, they can set new global norms, shift finance away from fossil fuels and create economic and moral pressure on those lagging behind. A treaty supported by even 20 or 30 determined states can reshape diplomacy and global markets.

And the courage is already emerging. It’s coming from those on the frontlines of climate impacts: Caribbean and Pacific Island states and even some fossil-fuel exporters such as Colombia, Pakistan and Timor-Leste.

Of course there are obstacles. Powerful fossil fuel corporations drive corruption and political capture. Governments fear losing revenue from fossil fuel extraction and old patterns of global inequality continue to shape the global response. But as has been said before, first they ignore you, then they laugh at you, then they fight you – and then you win.

What’s civil society bringing to the process?
Civil society is not just at the table – it’s the one that built the table. This treaty initiative grew directly out of the work of climate justice networks, communities, frontline organisers, Indigenous peoples and youth activists. Over 2,000 civil society organisations now support the Fossil Fuel Non-Proliferation Treaty Initiative, alongside 101 Nobel laureates, 3,000 scientists and academics, the European Parliament and the World Health Organization. In 2023, Pacific civil society groups launched the Naiuli Declaration, the first endorsement of the treaty by an entire region’s civil society groups, demonstrating the power of grassroots leadership in this movement.

Civil society brings moral courage where governments hesitate, people power where institutions stagnate and art, culture and storytelling that reach the heart in ways data cannot. From the anti-apartheid movement in my youth to Greenpeace to Amnesty, I’ve seen that movements are the midwives of progress. There is vast space and an urgent need for civil society leadership.

Why should organisations and states join this initiative?
Because our children will one day ask us a simple question: when the moment of truth came, did you turn off the tap, or did you keep mopping until the flood swept us away?

Joining the treaty means choosing justice over delay, courage over convenience and solidarity over short-term profit. The treaty must directly improve people’s lives, reduce inequality and safeguard democratic space. It’s not about saving the planet, because the planet will survive us. It’s about saving ourselves, our human dignity and our shared future.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Uma curiosa investigação histórica dos povos originários dos EUA


Durante 150 anos, ela permaneceu nesta fotografia — sem nome, invisível, apagada. Até que um historiador se recusou a deixar morrer a sua história.

Em 1868, o fotógrafo da Guerra Civil, Alexander Gardner, viajou para Fort Laramie para documentar as negociações de paz entre o governo dos EUA e o povo Lakota. Captou uma imagem impressionante: seis oficiais brancos do Exército em formação formal e, ao lado deles, uma jovem nativa enrolada numa manta, com o olhar calmo e firme.

Os oficiais foram meticulosamente identificados — os generais Terry, Harney, Sherman, Sanborn, Tappan e Augur. Os seus nomes, patentes e legados foram cuidadosamente preservados. Mas e a menina? Ela foi simplesmente rotulada como "Arapaho" numa impressão, "Dakota" noutra. Nunca um nome. Nunca uma pessoa. Apenas um símbolo de uma cultura que a América branca queria acreditar que estava a desaparecer.

Durante mais de um século, ela permaneceu uma figura sem nome numa fotografia sobre poder e deslocamento. Fotografada, mas não vista. Presente, mas não contabilizada.

Então, a historiadora Martha A. Sandweiss deparou-se com a imagem — e algo na força silenciosa daquela criança não a deixava em paz.

Sandweiss, uma estudiosa da fotografia americana do século XIX na Universidade de Princeton, iniciou o que viriam a ser anos de meticuloso trabalho de investigação. Ela vasculhou registos de comissões de paz, documentos pessoais, documentos governamentais — nada. Todas as vias pareciam não levar a lado nenhum.

Até que, finalmente, nos arquivos do Fort Laramie National Historic Site, ela encontrou um pequeno cartão deixado por um visitante chamado Eddie Ryan em 1978. Ele tinha visto uma cópia da fotografia exposta. A menina, escreveu, era sua avó.


O seu nome era Sophie Mousseau.

Com apenas este nome, Sandweiss pôde finalmente traçar a sua história. Sophie nasceu por volta de 1860, filha de dois mundos: a sua mãe era Yellow Woman, uma Oglala Lakota; seu pai era M.A. Mousseau, um comerciante de peles franco-canadiano. Na primavera de 1868, quando Sophie tinha apenas oito ou nove anos, a sua família fugiu para o Forte Laramie em busca de segurança depois de os invasores Lakota terem atacado o seu rancho.

Aí, Sophie viu-se sob a lente de Gardner — uma criança presa entre culturas, línguas e histórias em colisão.

Sophie não era uma estranha neste mundo. Ela estava entrelaçada no seu tecido. Serviu como tradutora durante as negociações do tratado — uma criança que fazia a ponte entre as línguas e os mundos. Mais tarde, entrou numa união estável com o colono John Ryan e teve cinco filhos antes de este a abandonar. Sofreu violência doméstica, testemunhou violência militar e sobreviveu à violência legal que negava direitos a pessoas como ela ao longo da sua vida. Morreu em 1936 na Reserva Indígena de Pine Ridge, o seu nome há muito esquecido pela história.

A descoberta de Sandweiss faz mais do que recuperar um nome. Ela recorda-nos que as mulheres indígenas não foram espectadoras passivas ou símbolos convenientes na história do Oeste americano. Eram tradutoras, negociadoras, pontes culturais — vivendo na perigosa intersecção de mundos. Eram mães, filhas, sobreviventes.

A história de Sophie complica tudo o que pensamos saber sobre aquele tempo e lugar. A sua presença naquela fotografia transforma-a de um simples documento de negociações de tratados em algo muito mais complexo: uma janela para um mundo fronteiriço «estranhamente íntimo», onde todos — soldados, comerciantes, indígenas, mestiços ou brancos — estavam ligados entre si pela violência, sobrevivência e resiliência.

Após 150 anos de silêncio, Sophie Mousseau tem finalmente o seu lugar na história. Não como um símbolo. Não como "Arapaho" ou "Dakota". Mas como Sophie — uma pessoa real cuja vida importava naquela época e cuja história importa agora.

Os nomes são o que liga as pessoas ao registo histórico. E cada nome recuperado é um ato de justiça.

sábado, 13 de dezembro de 2025

Estudo genético diz que os humanos terão chegado à Austrália há cerca de 60.000 anos, vindos de África

Como chegaram até ali? Simples, quase sempre a pé. Naquela altura, estávamos em plena Era Glaciar (Hürm) e o nível do mar era muito inferior ao de agora (100 a 120 m a menos), deixando extensas áreas, hoje submersas, fora de água. Duas massas terrestres, a primeira chamada Sundaland, na actual Indonésia e outra a Norte da Austrália que a unia a Timor Leste, bem como extensões de terra de outras ilhas, como Bornéu e Sumatra, deixaram pouca área marinha para atravessar, o que podia ser feito por simples pirogas ou com as jangadas tão típicas daquela zona.
Muito mais tarde, há cerca de 30 a 35.000 anos atrás, os humanos chegariam à América pela mesma razão, ao atravessar a pé o actual Estreito de Bering, que então era uma grande massa terrestre chamada Beríngia.
Estudo aqui

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

O Dia Internacional das Montanhas de 2025 destaca as comunidades e os ecossistemas das montanhas do mundo



O Dia Internacional das Montanhas é celebrado em todo o mundo anualmente em 11 de dezembro, e é um dia dedicado ao papel que as montanhas desempenham na manutenção da vida, da cultura e da biodiversidade. As montanhas ocupam aproximadamente 22% da área terrestre da Terra. e são o habitat natural de mais de 1.1 bilião de pessoas em todo o mundo. Elas oferecem rios, alimentos, energia e uma fonte de patrimônio cultural para as populações que vivem tanto em suas encostas quanto em áreas mais afastadas. Este Dia Internacional das Montanhas de 2025 é um momento para lembrar as comunidades de montanha e a natureza que delas dependem; portanto, o foco se volta para a necessidade de sua gestão sustentável para salvar essas áreas delicadas.

Ameaças aos ecossistemas de montanha
Ainda assim, os ecossistemas de montanha estão declinando de forma muito grave em várias partes do mundo. As mudanças climáticas aceleraram o derretimento das geleiras, elas estão recebendo chuvas em épocas nunca antes vistas e estão sofrendo deslizamentos de terra com mais frequência devido ao aquecimento global.

Corte de madeira, extração de minerais e atividades turísticas descontroladas. São exemplos de intervenções humanas que tornam o local ainda mais perigoso para os moradores dessas áreas. fauna e flora da montanha Essas regiões são particularmente vulneráveis, visto que um grande número de espécies está aclimatado a pouquíssimas condições climáticas. É de suma importância que protejamos esses ecossistemas para garantir o abastecimento contínuo de água e o equilíbrio ecológico para milhões de pessoas que vivem rio abaixo.

Comunidades de montanha: a vida em lugares altos
As montanhas não são meramente formações naturais; elas também abrigam civilizações e meios de subsistência distintos. Normalmente, comunidades indígenas e rurais Eles se dedicam à agricultura, à pecuária e ao turismo como fontes de renda. No entanto, estão na linha de frente para sofrer os impactos negativos das mudanças ambientais.[Fonte]

Neste dia, os eventos e projetos giram principalmente em torno do tema de equipar os habitantes com os meios de sobrevivência através da implementação de práticas ecologicamente corretas e do uso de energia renovávele a oferta de educação.

Aumentar a Conscientização e a Ação
O Dia Internacional das Montanhas de 2025 é uma oportunidade para aumentar a conscientização e agir em prol da conservação e do desenvolvimento sustentável de áreas de alta altitude. Muitas organizações promovem a data realizando workshops, organizando mutirões de limpeza comunitários, fornecendo informações educativas e patrocinando atividades de aventura para conectar as pessoas a essas paisagens majestosas. Este dia promove a colaboração global e o apoio mútuo para ajudar a garantir a prosperidade das montanhas. comunidades montanhosas e ecossistemas saudáveis.

Ao celebrarmos este dia, lembramos da importância das montanhas para a vida, a cultura e a regulação do clima da Terra, e que, ao protegê-las, podemos ajudar a garantir que as pessoas e os ecossistemas prosperem nas montanhas do mundo para as gerações futuras.