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sexta-feira, 17 de julho de 2026

O fenómeno do pára-brisas limpo: a dita "viagem confortável" que esconde uma catástrofe ecológica


Durante décadas, quem conduzia pelas estradas de Portugal conhecia um pequeno incómodo inevitável. Ao fim de algumas dezenas de quilómetros, sobretudo nas noites quentes de Primavera e Verão, o pára-brisas ficava coberto de insetos esmagados. Era preciso lavar o vidro, limpar os faróis, remover aquela película de pequenos corpos que se acumulava ao longo da viagem.

Hoje, muitos automobilistas já nem se lembram disso. As viagens fazem-se com os pára-brisas quase limpos.

O fenómeno tornou-se tão banal que poucos se interrogam sobre o seu significado. Afinal, quem haveria de lamentar a ausência de insetos esmagados? E, no entanto, o que a ciência designa formalmente por "fenómeno do pára-brisas" (windshield phenomenon) é, na verdade, um dos sinais mais inquietantes da transformação ecológica do nosso tempo.

O desaparecimento dos insetos não é uma curiosidade estatística nem uma preocupação romântica. Em Portugal, o alerta deixou de ser apenas uma suspeita visual para passar a ser um facto científico incontornável. A publicação do Livro Vermelho dos Invertebrados de Portugal Continental, que contou com forte liderança e coordenação científica nacional, revelou que mais de duas centenas de espécies de invertebrados terrestres e de água doce estão ativamente ameaçadas de extinção no nosso território.

Os insetos constituem uma parte fundamental da biomassa animal terrestre. São a base alimentar de inúmeras espécies de aves, morcegos, anfíbios, répteis, peixes e pequenos mamíferos. Quando os insetos desaparecem, toda a cadeia ecológica começa a vacilar. Uma andorinha não se alimenta de teorias económicas. Um morcego não vive de discursos políticos. Um papa-moscas não sobrevive de boas intenções. Todos dependem de insetos reais, capturados todos os dias, aos milhares. Quando esses insetos escasseiam, a fome instala-se, a reprodução diminui e as extinções locais sucedem-se em absoluto silêncio.

Ao mesmo tempo, tornam-se raros os insetos que desempenham funções vitais. Os polinizadores são o exemplo mais flagrante. Abelhas selvagens, abelhões, moscas-das-flores e borboletas garantem a reprodução de grande parte das plantas silvestres e cultivadas. Para tentar travar este colapso, Portugal aprovou o plano nacional [Polinizadores em Ação]. Desenvolvido em parceria com a comunidade científica da Universidade de Coimbra e o ICNF, este roteiro define mais de uma centena de medidas urgentes para recuperar os habitats destes animais, cientes de que, sem eles, não desaparecem apenas as flores - diminuem drasticamente as colheitas e a nossa própria segurança alimentar.

Mas talvez as histórias mais elucidativas sejam aquelas que envolvem criaturas aparentemente insignificantes. Tomemos as joaninhas.

Durante milhões de anos, as joaninhas foram aliadas silenciosas da agricultura, alimentando-se de afídios e cochonilhas de forma gratuita e altamente eficaz. Depois vieram os pesticidas químicos. Investigadores portugueses ligados ao cE3c (Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais) têm vindo a alertar para esta realidade, tendo inclusive participado em debates científicos de relevo nacional como o documentário O Apocalipse dos Insetos , focado precisamente no esforço urgente para travar esta extinção em massa provocada pelo ser humano. Ao inundarmos os campos com veneno, eliminámos os inimigos naturais das pragas. Sem as joaninhas, as cochonilhas encontraram caminho livre para se multiplicarem, restando ao ser humano a habitual e ingénua surpresa: “Como é possível haver tantas cochonilhas?

A história dos pirilampos é ainda mais poética e, por isso, mais dolorosa. Quem cresceu no campo recorda-se das noites de Verão iluminadas pelos seus lampejos verdes. Hoje, a poluição luminosa e a destruição de habitats afastaram-nos da nossa vista. Mas há um elo invisível e químico: as larvas dos pirilampos alimentam-se de caracóis e escaravelhos. Ao aplicarmos produtos químicos nos jardins e campos, quebramos estas cadeias tróficas.

Projetos nacionais de conservação ativa, como o inovador LIFE BEETLES nos Açores - que conta com a cooperação de investigadores do próprio cE3c -, provam que o caminho tem de ser inverso: focar no restauro dos habitats e na recuperação destas espécies outrora desvalorizadas.

Os ecossistemas não são coleções de espécies independentes. São redes complexas de interdependências construídas ao longo de milhões de anos de evolução. Quando retiramos um fio, outros começam a ceder.

Por tudo isto, o pára-brisas limpo de um automóvel é hoje uma imagem profundamente cinzenta. Não representa uma viagem mais confortável. Representa um silêncio biológico crescente. Um vazio que se instala lentamente nas noites de Verão, nos campos agrícolas e nas bermas das estradas.

Quando os últimos lampejos dos pirilampos se apagarem e as joaninhas sobreviverem apenas nas ilustrações dos livros infantis, talvez compreendamos finalmente que a verdadeira praga nunca foram os insetos. A verdadeira praga foi a nossa incapacidade de perceber que tudo está ligado.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Ambientalistas alertam que zonas de aceleração de renováveis ameaçam áreas de valor ecológico no Algarve


O Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis (PSZAER) compromete áreas de valor ecológico e a conservação de espécies ameaçadas no Algarve, alertou hoje a Plataforma Pela Sustentabilidade e Biodiversidade do Algarve e Alentejo (PPSBAA).

Em comunicado enviado à agência Lusa, a plataforma ambientalista afirma que o plano identifica, no Algarve e Alentejo, áreas que coincidem com territórios considerados essenciais para a conservação da natureza e de espécies classificadas como «em perigo» ou «criticamente em perigo» de extinção.

A discussão pública da proposta do PSZAER, disponível no Portal Participa, decorre até ao final do hoje.

O documento é um instrumento nacional de ordenamento do território criado para identificar, à escala nacional, as áreas consideradas mais adequadas para a instalação de projetos de energias renováveis (como centrais solares, parques eólicos e infraestruturas associadas), visando acelerar o seu licenciamento.

A proposta identifica cerca de 7% do território continental com potencial para acelerar projetos solares e eólicos, mas alerta que a concretização depende de rede, licenciamento, mercado e aceitação pública.

A conclusão consta da Avaliação Ambiental Estratégica e proposta de Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis, um trabalho técnico colocado em consulta pública sobre a delimitação final das áreas.

Segundo a plataforma, o PSZAER «não garante a salvaguarda do corredor migratório das serras algarvias», utilizado por milhares de aves durante a migração outonal para África.

No mesmo sentido, adianta, não assegura a integridade dos corredores ecológicos que ligam a Serra de Monchique à Serra do Caldeirão e o nordeste algarvio ao vale do Guadiana e à Estremadura espanhola.

A plataforma sustenta que o plano abrange montados, mosaicos agroflorestais de azinheira e sobreiro, bem como habitats considerados «fundamentais para várias espécies com estatuto de conservação crítico».

De acordo com a organização ambientalista, a inclusão destas áreas sensíveis aumenta o risco de mortalidade por colisão, fragmentação e perda de ‘habitats’, bem como do chamado «efeito barreira».

Para a PPSBAA, fica comprometida a sobrevivência de espécies como o abutre-preto, britango, cegonha-preta, águia-imperial-ibérica, abetarda, sisão, rolieiro, francelho, tartaranhão-caçador, cortiçol-de-barriga-preta, morcego-de-ferradura-mourisco, morcego-rato-pequeno, gato-bravo, coelho-bravo e lince-ibérico.

No caso do lince-ibérico, a plataforma refere que o plano inclui, no nordeste algarvio, áreas de reprodução e expansão da espécie, alertando que a crescente artificialização do território «poderá também afetar habitats essenciais para a águia-de-bonelli e a águia-imperial-ibérica».

A plataforma considera que as opções previstas no PSZAER comprometem «décadas de investimento público e científico» na recuperação destas espécies, ao reduzirem as condições ecológicas necessárias para a consolidação das suas populações no sul de Portugal.

Como alternativa, a PPSBAA defende que a expansão das energias renováveis deve privilegiar áreas já artificializadas, como edifícios, zonas industriais e outras infraestruturas, bem como o sobre-equipamento e a repotenciação de parques eólicos existentes, reduzindo a necessidade de ocupar novas áreas naturais.

Por estes motivos, a plataforma manifesta a sua oposição ao PSZAER, apelando à revisão da proposta para compatibilizar o desenvolvimento das energias renováveis com a proteção da biodiversidade.

sábado, 24 de janeiro de 2026

JP Simões & Norberto Lobo - Canção da Paciência


O último disco em que José Afonso participou activa e integralmente. Passou despercebido a muita gente (que, provavelmente, achou terem sido suficientes as lágrimas vertidas por altura do espectáculo do Coliseu) e, no entanto, é um testemunho espantoso de vitalidade e lucidez criativa. Gravado entre Novembro de 82 e Abril de 83, com arranjos repartidos por Júlio Pereira, José Mário Branco e Fausto (concebidos, em boa parte dos casos, a partir de ideias de Zeca, como, de resto, aconteceu com a grande maioria das suas composições), constitui um verdadeiro olhar em volta, amadurecido e calmo, só possível por parte de quem viveu a vida com muita intensidade, com muita paixão. Uma autêntica viagem entre a utopia e o desencanto, é o que nos oferece Zeca Afonso neste álbum magnífico, onde é possível descobrir todas as memórias cruzadas dos tempos vividos, os desejos insatisfeitos, os sonhos. Onde pode descobrir-se, por exemplo, um dos mais belos poemas sobre o 25 de Abril («Papuça»), uma reflexão serena e quase existencial sobre o que se fez e o que ficou por fazer («Canção da Paciência»), uma certa angústia que não renega, antes reforça, tudo aquilo por que se passou («Eu Dizia»). E, também, a crítica acutilante («O País Vai de Carrinho»), o prazer dos sons e das novas experiências («O Canarinho»), a esperança que não morre («Utopia»). Um disco ao nível dos melhores, capaz de sobreviver aos tempos e às fronteiras.

Muitos sóis e luas irão nascer
Mais ondas na praia, rebentar
Já não tem sentido ter ou não ter
Vivo com o meu ódio, a mendigar

Tenho muitos anos para sofrer
Mais do que uma vida, para andar
Beba o fel amargo, até morrer
Já não tenho pena sei esperar

A cobiça é fraca, melhor dizer
A vida não presta, para sonhar
Minha luz dos olhos que eu vi nascer
Num dia tão breve a clarear
As águas do rio, são de correr
Cada vez mais perto, sem parar
Sou como o morcego, vejo sem ver
Sou como o sossego, sei esperar

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Tecnologia reduz morte de morcegos em turbinas eólicas


A geração de energia elétrica pelo vento é um dos métodos mais sustentáveis, mas as turbinas eólicas que fazem a conversão da energia são responsáveis por milhões de mortes de morcegos.

De acordo com um estudo de 2024, 500 mil mortes ocorrem em parques eólicos nos Estados Unidos. O caso dos morcegos é complicado porque eles usam o mesmo espaço aéreo para alimentação e migração, se tornando muito vulneráveis às turbinas.

Com isso, a agência de proteção à vida selvagem dos EUA aprovou uma tecnologia da empresa EchoSense. A solução é a “redução inteligente” de mortes de morcegos pelas turbinas, sem comprometer a geração de energia eólica.

Em inglês, o termo é “smart curtailment”, reduzindo de modo inteligente a velocidade das pás das turbinas eólicas em horários de maior atividade dos animais.

A redução inteligente da EchoSense funciona ao combinar Sistemas de Supervisão e Aquisição de Dados (SCADA) com dados meteorológicos e acústicos para travar as turbinas eólicas quando os morcegos estão próximos.

O método, que interrompe o funcionamento de turbinas eólicas com ventos em velocidades inferiores a 5 metros por segundo, reduz as mortes de morcegos em mais de 60%.
Veja como funciona:


Outras empresas também buscam na tecnologia formas para evitar as mortes de morcegos. A Biodiv-Wind, da França, usa câmeras infravermelhas, e a DTBird & DTBat, da Espanha, adopta inteligência artificial para identificar espécies pelo som.

Winifred Frick, cientista da ONG Bat Conservation International (BCI), ressalta que as mortes de morcegos aumentaram ainda mais com as turbinas eólicas. Frick, que participou do documentário recém-lançado “The Invisible Mammal” aponta para importância ecológica dos morcegos.

A cientista alerta que combinação de dados acústicos, para Frick, pode ser perigoso para morcegos.

“Há evidências de que dissuasores acústicos podem aumentar as mortes de certas espécies de morcegos devido à sua curiosidade natural. E o som de alta frequência não viaja tão longe”, afirma.

Por fim, Frick foi uma das autoras do estudo sobre as mortes dos morcegos por turbinas eólicas, que contou com a participação de cientistas brasileiros.

Saber mais: 

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Dia Mundial da Alimentação: Celebrar quem garante o nosso prato cheio!

Sabia que mais de 75% das culturas alimentares do mundo dependem da polinização? Sem abelhas, borboletas, morcegos e outros polinizadores, não teríamos muitos dos alimentos que fazem parte da nossa dieta diária — como frutas, legumes, sementes e até o café e o chocolate!

Neste 16 de outubro, Dia Mundial da Alimentação, celebramos não só o direito a uma alimentação saudável e sustentável, mas também os pequenos heróis da biodiversidade que tornam isso possível: os polinizadores.

A polinização é um processo essencial para a reprodução das plantas, garantindo colheitas abundantes e diversificadas. Além disso, contribui para a saúde dos ecossistemas e para a segurança alimentar global.

Como podemos ajudar?
  • Plantar flores nativas
  • Evitar pesticidas nocivos
  • Apoiar práticas agrícolas sustentáveis
  • Participar em ações de sensibilização e educação ambiental
Hoje, mais do que nunca, é tempo de reconhecer que sem polinizadores, não há alimentação para todos. Vamos proteger quem nos alimenta!

quinta-feira, 26 de junho de 2025

Sabia que a língua dos morcegos pode revelar como eles caçam?


Um estudo recente analisou em detalhe uma estrutura muscular especial situada na parte superior da língua dos morcegos, chamada “lingual prominence”. Foram analisadas mais de 900 imagens de alta resolução de 24 espécies de morcegos europeus, a partir de indivíduos observados na Serra da Estrela e em Itália.

Descobriu-se que as espécies que caçam em voo, como o morcego-rabudo (Tadarida teniotis) e o morcego-arborícola-gigante (Nyctalus lasiopterus), têm línguas com saliências mais altas e papilas orientadas para a frente. Estas características ajudam a apanhar presas no ar com maior eficácia.

Estas adaptações fazem parte de um conjunto de traços conhecido como "síndrome ecomorfológico", que favorece a alimentação em espaços abertos. Por outro lado, espécies que capturam alimento do solo ou da água não apresentam estas estruturas tão desenvolvidas.

A análise evolutiva mostrou ainda que espécies distantes entre si desenvolveram estruturas semelhantes como resposta às exigências da caça em voo. Este fenómeno é conhecido como convergência evolutiva.

Os autores acreditam que a forma desta estrutura da língua pode ajudar a prever como outras espécies se alimentam e contribuir para uma nova forma de classificar os comportamentos alimentares dos morcegos.

segunda-feira, 23 de junho de 2025

Declínio de animais dispersores de sementes dificulta combate às alterações climáticas


Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – Grande parte das árvores da Amazónia (90%), da Mata Atlântica (90%) e do Cerrado (60%) depende dos animais para espalhar as suas sementes, garantir a sua reprodução e manter a floresta em pé. São aves, mamíferos, peixes e até uma espécie de anfíbio que desempenham um papel crucial para a diversidade das florestas em todo o mundo. No entanto, esse processo tem se desintegrado à medida que populações de animais dispersores de sementes vêm diminuindo drasticamente.

A perda de animais frugívoros (cuja dieta alimentar é composta principalmente de frutos) provoca outro efeito: altera a composição das florestas, enfraquecendo a sua capacidade de absorver dióxido de carbono e, assim, reduzindo o  seu papel em mitigar as alterações climáticas.

Mas grandes esforços globais para proteger e recuperar ecossistemas continuam subestimando os animais dispersores de sementes nas estratégias de conservação da biodiversidade e recuperação florestal.

“Muito se comenta hoje sobre créditos de carbono e restauração da floresta, mas quem ‘planta’ o carbono? É o tucano, a cutia, a anta, a jacutinga. Para se ter uma copaíba, por exemplo, a floresta precisa ter tucanos e macacos para dispersarem suas sementes. Portanto, precisamos incluir os animais frugívoros na equação da restauração, pois já há ciência suficiente para se quantificar quanto do carbono florestal é plantado pelos animais”, diz Mauro Galetti, um dos diretores do Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima (CBioClima) – um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da FAPESP sediado no Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (IB-Unesp), em Rio Claro.

Galetti e pesquisadores dos Estados Unidos, Suíça, Panamá, Alemanha, Espanha e Portugal publicaram um artigo na Nature Reviews Biodiversity alertando sobre as consequências da perda de dispersores de sementes nas mudanças no clima. O papel dos animais frugívoros é tão central na manutenção da biodiversidade das plantas que, segundo os pesquisadores, os esforços de restauração e proteção de ecossistemas correm o risco de não atingir as metas se o declínio dos dispersores de sementes não for mitigado.

Um estudo recente, publicado na revista Science por alguns dos pesquisadores que assinam o alerta, mostrou que a perda de aves e mamíferos em todo o mundo resulta na redução de 60% da propagação de sementes. “Avançamos muito para resolver esses problemas da perda de dispersores de sementes e, apesar de o Brasil ser o país com mais estudos científicos sobre dispersão de sementes, é preciso se aprofundar no problema e entender, por exemplo, que plantas e ecossistemas estão mais vulneráveis a essa perda. Além disso, é claro, precisamos identificar quais estratégias restauram melhor a dispersão de sementes", diz o pesquisador.

Heróis desconhecidos
Ao comer um fruto, o animal dispersor é “contaminado” pela semente que passa pelo tubo digestivo e recebe um tratamento químico (por ação do suco gástrico) ou mecânico – no caso das aves, por exemplo, a moela amassa a semente –, o que permite a entrada de água na semente e a deixa pronta para germinar onde quer que o animal a deposite posteriormente, ao defecar.

“Portanto as sementes consumidas por animais vão germinar mais, mais rápido e vão se estabelecer em lugares mais seguros para crescer. E se não tiver um animal para ‘machucar’ a semente e levá-la para longe da planta-mãe, ela não vai germinar e, mesmo que germine perto da planta-mãe, provavelmente vai morrer porque haverá competição entre elas", conta Galetti.

Mas é importante ressaltar que não há um padrão: em cada lugar do mundo, em cada espécie de árvore e de animal vertebrado essa interação é diferente. “A castanha-do-pará, por exemplo, só tem um dispersor: a cutia. Se a cutia for extinta localmente, o serviço de dispersão de sementes da castanha-do-pará sucumbe. Dependemos então de um serviço ecológico fundamental da cutia", afirma Galetti.

Enquanto na Mata Atlântica aves, morcegos, macacos e antas são os principais dispersores de sementes, na Amazónia e no Pantanal os peixes desempenham um papel crucial. “Os pacus e tambaquis, por exemplo, percorrem grandes distâncias e comem grandes quantidades de frutos, o que os torna superdispersores de diferentes espécies nas matas ciliares", conta o pesquisador.

Serviços ecossistémicos
Assim como abelhas e outros polinizadores, o papel dos animais frugívoros é essencial para a reprodução de plantas. Mas, embora ambos os serviços estejam ameaçados por fatores como mudanças no uso da terra e exploração direta, cada grupo responde de maneira diferente aos impactos. Enquanto os polinizadores sofrem mais com pesticidas, os dispersores de sementes são mais afetados pela perda de hábitats e pela caça.

Outra diferença é que o declínio dos polinizadores tem recebido mais atenção pública e política, já que a sua ausência afeta diretamente a produção de alimentos. Já os impactos da perda de dispersores de sementes são mais difíceis de medir, influenciando a biodiversidade e o armazenamento de carbono ao longo do tempo.

“Ambos são importantes e devem ser levados em conta nos projetos de restauração e conservação. Porém, o declínio dos polinizadores é mais facilmente medido no curto prazo, ele gera impactos económicos imediatos como a perda de produtividade das lavouras, enquanto os efeitos da perda de dispersores de sementes ocorrem de forma lenta e ampla, comprometendo a funcionalidade e a resiliência dos ecossistemas", explica Galetti à Agência FAPESP.

O cientista afirma que os custos económicos do declínio dos dispersores de sementes – como perda de armazenamento de carbono, redução do fornecimento de produtos florestais e declínio da resiliência natural a eventos ambientais extremos – ainda não foram quantificados globalmente. “A restauração não consiste em apenas plantar árvores, é preciso considerar quem vai manter o futuro dessa floresta, que são os animais dispersores. Há alguns anos acreditava-se que ao plantar a floresta esses animais iriam até ela. Mas não é assim que acontece. É muito mais complexo ter uma floresta restaurada funcionando", conta.

No artigo, os pesquisadores destacam que novas sínteses e modelos de dados estão captando mudanças funcionais em grande escala e ajudando a revelar impactos de longo prazo, como a recuperação prejudicada de incêndios florestais e a degradação de hábitats para animais. “Enfrentar o declínio dos dispersores de sementes é fundamental para preservar a biodiversidade animal, garantir a conectividade das florestas e o equilíbrio das comunidades vegetais”, afirma Galetti.

terça-feira, 11 de junho de 2024

Uma equação universal pode prever frequência de batimento de asas de aves, insetos, morcegos e até baleias



Uma única equação universal pode aproximar a frequência dos batimentos das asas e das barbatanas das aves, insetos, morcegos e baleias, apesar dos diferentes tamanhos do corpo e formas das asas, segundo um novo estudo de Jens Højgaard Jensen e colegas da Universidade de Roskilde, na Dinamarca, publicado na revista PLOS ONE.

A capacidade de voar evoluiu de forma independente em muitos grupos de animais diferentes. Para minimizar a energia necessária para voar, os biólogos esperam que a frequência com que os animais batem as asas seja determinada pela frequência de ressonância natural da asa.

No entanto, tem sido difícil encontrar uma descrição matemática universal para o voo. Os investigadores utilizaram a análise dimensional para calcular uma equação que descreve a frequência dos batimentos das asas de aves voadoras, insetos e morcegos, e os batimentos das barbatanas de animais mergulhadores, incluindo pinguins e baleias.

Descobriram que os animais voadores e mergulhadores batem as suas asas ou barbatanas com uma frequência que é proporcional à raiz quadrada da sua massa corporal, dividida pela área da asa. Testaram a exatidão da equação comparando as suas previsões com dados publicados sobre as frequências de batimento das asas de abelhas, traças, libélulas, escaravelhos, mosquitos, morcegos e aves de vários tamanhos, desde beija-flores a cisnes.

Os investigadores também compararam as previsões da equação com dados publicados sobre as frequências de batimentos das barbatanas dos pinguins e de várias espécies de baleias, incluindo as jubartes e os roazes do norte.

A relação entre a massa corporal, a área da asa e a frequência dos batimentos das asas mostra pouca variação entre os animais voadores e mergulhadores, apesar das enormes diferenças no tamanho do corpo, na forma da asa e na história evolutiva, concluíram. Finalmente, estimaram que um pterossauro extinto (Quetzalcoatlus northropi) – o maior animal voador conhecido – batia as suas asas de 10 metros quadrados a uma frequência de 0,7 hertz.

O estudo mostra que, apesar das enormes diferenças físicas, animais tão distintos como as borboletas e os morcegos desenvolveram uma relação relativamente constante entre a massa corporal, a área da asa e a frequência dos batimentos das asas.

Os investigadores referem que, no caso dos animais nadadores, não encontraram publicações com toda a informação necessária; os dados de diferentes publicações foram reunidos para fazer comparações e, nalguns casos, a densidade dos animais foi estimada com base noutras informações.

Além disso, os animais extremamente pequenos – mais pequenos do que qualquer outro ainda descoberto – provavelmente não se encaixariam na equação, porque a física da dinâmica dos fluidos muda a uma escala tão pequena. Este facto poderá ter implicações no futuro para os voadores. Os autores afirmam que a equação é a explicação matemática mais simples que descreve com exatidão o bater das asas e das barbatanas em todo o reino animal.

Os autores concluem: “Com uma diferença de quase um fator de 10.000 na frequência dos batimentos das asas e das barbatanas, os dados relativos a 414 animais, desde a baleia azul até aos mosquitos, situam-se na mesma linha. Como físicos, ficámos surpreendidos ao ver como a nossa simples previsão da fórmula do batimento das asas funciona para uma coleção tão diversa de animais”.

sábado, 2 de dezembro de 2023

Os morcegos polinizam à noite?

Sim. Diversas espécies de morcegos frugívoros e nectarívoros, especialmente da família Phyllostomidae (nas Américas) e Pteropodidae (na Ásia, África e Oceânia), visitam flores durante a noite para se alimentarem de néctar, pólen e frutos.
Este fenómeno é conhecido como quiropterofilia.
 
Adaptações das plantas polinizadas por morcegos
As flores tipicamente quiropterófilas têm características específicas:
Emissão de compostos aromáticos fortes ao anoitecer
Grande produção de néctar
Flores pálidas ou esbranquiçadas (facilitam a deteção noturna)
Estruturas robustas capazes de suportar o peso de um morcego
Abertura das flores ao crepúsculo ou início da noite
 
Exemplos conhecidos
Agaves (incluindo Agave tequilana, associada à produção de tequila)
Baobás
Algumas espécies de cactos colunares (ex.: Saguaro, Organ Pipe)
Diversas epífitas tropicais

Referências bibliográficas
The Evolution of Bat Pollination: a Phylogenetic Perspective — Theodore H. Fleming, Cullen Geiselman & W. John Kress 2009, Annals of Botany 104(6):1017–1043  Revisão evolutiva da quiropterofilia: evolução independente da polinização por morcegos em várias linhagens de plantas, adaptações de plantas e morcegos, implicações ecológicas e evolutivas.

Floral Specialization and Bat Pollination in Subtribe Cereinae (Cactaceae): A Morphological Approach 2023, Diversity 15(2):207 Estudo morfológico de cactos da subtribo Cereinae com atributos de polinização por morcegos — confirma especialização floral para quiropterofilia em algumas espécies de cactos colunares.

Bat pollination in Bromeliaceae — Pedro A. Aguilar-Rodríguez, Thorsten Krömer, Marco Tschapka etc. 2019, Plant Ecology & Diversity   Documenta casos de plantas Bromeliaceae polinizadas por morcegos — destaca as adaptações florais à polinização noturna por morcegos (cheiro, néctar, forma de flor, etc.).

The role of bats in pollination networks is influenced by landscape structure 2019, Global Ecology and Conservation 20: e00702  Estudo empírico de redes de polinização em pomares mistos — examina como estrutura da paisagem, estações florais e uso da terra afetam a importância da polinização por morcegos.

Agave flower visitation by pallid bats, Antrozous pallidus, in the Chihuahuan Desert 2023, Journal of Mammalogy 102(4):1101–1110  Evidência de consumo de néctar por morcego insectívoro (Antrozous pallidus) em agaves e presença de pólen de Agave no corpo dos morcegos — sugere que morcegos generalistas também podem funcionar como polinizadores eficazes.

The pollination biology of two paniculate agaves from northwestern Mexico: contrasting roles of bats as pollinators 2011, Journal of Arid Environments (via PubMed)  Estudo comparativo da biologia de polinização de duas espécies de agave — mostra que, em uma delas, morcegos nectarívoros são responsáveis pela maioria da frutificação; na outra, insetos ou aves também participam.

Bat pollination in the Caatinga: A review of studies and peculiarities of the system in the new world's largest and most diverse seasonally dry tropical forest 2023, Flora 305:152332  Revisão recente da polinização por morcegos na Caatinga (bioma seco tropical) — reúne registros de mais de 38 espécies de plantas polinizadas por morcegos, discute lacunas de conhecimento e importância ecológica.

domingo, 19 de novembro de 2023

Por que é que os chineses comem animais exóticos?


Um artigo publicado pela revista científica The Lancet, intitulado “Game consumption and the 2019 novel coronavirus”, assinado por Jie Li, da Universidade de Guangzhou e Jun Li, da Universidade de Ningxia, juntamente com mais cinco autores chineses, explica as razões que estão por detrás de uma prática muito comum na sociedade chinesa desde há vários séculos.​

“A prática do consumo de carne e produtos oriundos de animais selvagens na China data de períodos pré-históricos. Nos tempos modernos, apesar deste tipo de comércio não ser essencial à alimentação, a tradição de comer este tipo de animais persiste”, lê-se no artigo.​

De facto, no período entre 1959 e 1961, terão morrido cerca de 15 milhões de pessoas devido à Grande Fome. Preocupado com um novo período de escassez de alimentos, em 1979, o governo chinês temia não conseguir voltar a alimentar os seus milhões de habitantes. Nessa altura, abriu a atividade agrícola a grandes grupos de privados que começaram a produzir galinha, porco e vaca. Os pequenos agricultores, que ficaram sem soluções, decidiram começar a criar animais selvagens, como cobras e tartarugas. O governo chinês apoiou esta iniciativa. ​

Ao mesmo tempo, com base em crenças antigas, muitas famílias acreditam que comer órgãos de animais selvagens pode curar ou prevenir doenças. Por exemplo, acreditam ainda que a carne de pangolim ajuda a aliviar o reumatismo, que o seu sangue ajuda a promover a circulação sanguínea, e as escamas um bom aliado nos tratamentos estéticos. “A cultura alimentar chinesa sustenta que os animais recém-abatidos são mais nutritivos e essa crença pode aumentar a transmissão viral”, salientam os cientistas chineses. ​

Por definição, animal exótico é todo aquele que não ocorre naturalmente numa determinada região geográfica e que foi trazido acidental ou intencionalmente pelo homem. ​

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Para onde foram todos os pardais? Culpe os pesticidas de jardim


Costumo imaginar que a maioria das pessoas que ama seus jardins também ama a vida selvagem e deseja fazer o possível para ajudá-la a prosperar.

Claro, isso não é inteiramente verdade. Algumas pessoas adoram um jardim com um gramado falso. Alguns não se importam com o que é necessário para garantir que sua horta esteja livre de ervas daninhas e pragas.

Mas a maioria de nós realmente se importa - e se você é uma dessas pessoas e ainda usa herbicida e pesticida, um novo estudo de pesquisadores da Universidade de Sussex certamente fará você pensar novamente. O relatório foi intitulado “Qualidade do habitat, urbanização e pesticidas influenciam a abundância e riqueza de pássaros em jardins” e destacou os efeitos negativos dos pesticidas nas espécies de pássaros.

Descobriu-se, por exemplo, que a abundância média de pardal-doméstico era 12,1% menor em jardins que aplicavam qualquer pesticida, 24,9% menor com glifosato e 38,6% menor com metaldeído.


Como seu autor, Dave Goulson (que também escreveu um livro de alerta sobre o “apocalipse dos insetos”, Silent Earth) resumiu a importância do relatório: “Agora há evidências esmagadoras de que os pesticidas prejudicam a vida selvagem e o meio ambiente.

“Esses produtos químicos simplesmente não são necessários em nossos jardins. Por que pulverizaríamos veneno onde nossos filhos e animais de estimação brincam? Devemos simplesmente proibir o uso de pesticidas urbanos e domésticos, seguindo o exemplo da França”.

Antes comuns, os pardais caíram 70% no Reino Unido. Enquanto isso, o uso de pesticidas de jardim continua onipresente. O estudo constatou que 32% dos jardins participantes usavam pesticidas – embora as taxas de uso fora desse grupo de observação de pássaros autosselecionado provavelmente sejam mais altas. Uma pesquisa online de 2019 do Health and Safety Executive (HSE) do Reino Unido descobriu que, dos jardineiros pesquisados, 42,8% usavam pesticidas.

O pesticida mais amplamente utilizado no estudo de Goulson foi o glifosato. A chamada para proibir este organofosforado não é, obviamente, uma notícia recente. Outros países já o proibiram e a OMS em 2015 o descreveu como “provavelmente cancerígeno para humanos”.

Talvez, no entanto, o que devemos prestar mais atenção seja o seu impacto sobre os insetos. O glifosato, embora seja um herbicida, inibe a capacidade das abelhas de manter suas colónias na temperatura certa.

Foi demonstrado que afeta o sistema imunológico dos insetos e prejudica o microbioma intestinal das abelhas. Os insetos alimentam a maioria dos pássaros e morcegos. Eles são polinizadores e recicladores. O que prejudica a biodiversidade de insetos prejudica a todos nós.

O estudo de Goulson se soma a um corpo de pesquisa que sugere que devemos observar o impacto indireto de um produto químico – sua redução, por exemplo, na disponibilidade de alimentos para pássaros – bem como seus efeitos diretos.

Ainda assim, nós no Reino Unido estamos muito longe de bani-lo até mesmo dos jardins. O Roundup contendo glifosato ainda é vendido em Wickes e Homebase. The Range vende um herbicida glifosato concentrado. Eu poderia continuar com a lista, mas agora corro o risco de soar como um fornecedor querendo ligá-lo a revendedores exatamente das substâncias que não quero que você compre.

Não só isso, mas este produto químico parece estar disponível no Reino Unido por alguns anos, apesar de ser proibido em outros países. A razão para isso é que, após o Brexit, como parte do processo de aprovação, todos os pesticidas com vencimento antes de dezembro de 2023 foram prorrogados por três anos, até 2026.

Um relatório da Ferret no ano passado descobriu que todos os conselhos escoceses ainda usavam glifosato. Nos 31 (de 32) conselhos que responderam ao seu pedido de liberdade de informação, eles descobriram que 40.250 litros do herbicida foram usados. Mais de 18.000 litros foram aplicados pelos maiores usuários, Glasgow, Edimburgo, Fife, Aberdeenshire e Aberdeen City.

Enquanto isso, outros pesticidas também foram associados, por meio do estudo de Goulson, à queda no número de pássaros. Estes incluíram o inseticida acetamiprid, o inseticida deltametrina e o produto químico encontrado em pellets de lesma, metaldeído.

A boa notícia é que os grânulos de balas de metaldeído foram proibidos de vender ou usar no ano passado.

Mas e a deltametrina? Sim, você ainda pode obtê-lo em produtos como Provanto Ultimate Fruit and Vegetable Bug Killer, disponível na Wilko e online.

Precisamos colocar a natureza no centro da jardinagem. Como disse Dave Goulson, “a vida selvagem do Reino Unido está em rápido declínio, mas nossos jardins podem ser um refúgio para muitas espécies. Nosso novo estudo mostra que a maneira como cultivamos tem uma enorme influência no número e na variedade de pássaros que vivem em nossos jardins”.

Alguns podem ficar tristes com a ideia de que o jardim perfeito e de fácil manutenção acabou. Mas é melhor um jardim selvagem e maravilhoso rico em biodiversidade do que um que parece perfeito, mas está morrendo.

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Morcegos grunhem como cantores de “death metal” para comunicar com companheiros


O que é que o frontman de Cannibal Corpse e um Morcego-de-água têm em comum? Ambos utilizam as suas laringes, ou caixas vocais, para produzir vocalizações demoníacas em expansão, revela um estudo levado a cabo na Universidade do Sul da Dinamarca.

Sabe-se que estes morcegos têm um alcance vocal incrivelmente amplo: podem fazer sons que se estendem por cerca de sete oitavas, o que é impressionante considerando que até mesmo Mariah Carey só consegue gerir cinco.

Para investigar como conseguem tal proeza de ginástica vocal, a equipa dinamarquesa removeu as laringes de cinco morcegos-de-água, aplicou um fluxo de ar concebido para imitar as vocalizações naturais dos animais e filmou os movimentos com uma câmara de alta resolução de 250.000 frames por segundo. Em seguida, utilizaram modelos de aprendizagem mecânica para reconstruir o movimento das membranas vocais dos morcegos.

Descobriram que os morcegos utilizam uma estrutura específica nas suas caixas de vozes conhecidas como cordas vocais falsas que não são utilizadas em vocalizações normais para baixar a frequência das suas comunicações. Os morcegos baixam as pregas vocais falsas de modo a oscilarem juntamente com as suas cordas vocais regulares. O peso adicional que isto proporciona diminui significativamente o tom da voz. É a mesma técnica utilizada pelos cantores de death metal para produzir os seus rugidos guturais de marca registada.

O tom dos rosnados situa-se entre 1 e 5kHz – o mesmo tom que as duas oitavas mais altas de um piano padrão. O uso de morcegos sonoros para ecolocalização pode atingir frequências de até 120kHz.

Os morcegos fazem frequentemente os sons de rosnado quando entram e saem de um poleiro densamente lotado, embora não seja claro qual o seu propósito.

“Alguns parecem agressivos, outros podem ser uma expressão de aborrecimento, e alguns podem ter uma função muito diferente. Ainda não sabemos”, disse o co-autor do estudo, Lasse Jakobsen.

quarta-feira, 18 de maio de 2022

Este morcego imita zumbidos de vespas para assustar os predadores

Morcego-rato-grande (Myotis myotis)


Um grupo de cientistas descobriu o primeiro exemplo de um mamífero que simula ser uma espécie mais perigosa para se proteger: o morcego-rato-grande, também presente em Portugal.

O morcego-rato-grande (Myotis myotis) é o maior morcego cavernícola que habita em Portugal. Segundo o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, “é frequente em Portugal Continental, embora seja mais raro no Algarve”, e “caça essencialmente em meio agrícola” – sobretudo escaravelhos, grilos e aranhas, que detecta através do ruído que estes fazem quando se mexem no solo.

Na Europa, o morcego-rato-grande pode encontrar-se desde a Península Ibérica até às regiões ocidentais da Polónia, Ucrânia e Turquia.

Agora, um grupo de cientistas em Itália anunciou, ligada a esta espécie de morcego, a descoberta do primeiro caso de mimetismo batesiano num mamífero. Os resultados deste estudo foram publicados na revista Current Biology.

O mimetismo batesiano acontece quando uma espécie imita um outro animal mais perigoso, conseguindo assim evitar eventuais predadores.

Danilo Russo, da Universidade degli Studi di Napoli Federico II, em Portici, na Itália, apercebeu-se deste som enganador quando fazia trabalho de campo a apanhar morcegos em redes, para serem estudados. “Quando pegávamos nos morcegos para os retirarmos das redes ou para os analisar, eles invariavelmente zumbiam como vespas”, explicou este investigador, citado numa nota de imprensa da Cell Press, editora da Current Biology.

Apesar de ficar intrigado, só passados alguns anos é que Danilo Russo e o resto da equipa se decidiram a avançar com o estudo destes estranhos sons.

Primeiro, compararam os “zumbidos” dos morcegos com espécies de insectos sociais com ferrão: abelhas-do-mel (Apis mellifera) e vespa-crabro (Vespa crabro). Concluíram que os sons do morcego-rato-grande se podem confundir com os da maior vespa nativa da Europa, em especial quando se restringem àquilo que mochos e corujas conseguem ouvir.

De seguida, a equipa emitiu sons de diferentes espécies junto de corujas-das-torres (Tyto alba) e corujas-do-mato (Strix aluco), para ver como reagiam. Embora as corujas com mais experiência de viver na natureza respondessem mais fortemente, os animais testados “reagiram consistentemente aos zumbidos de insectos e dos morcegos afastando-se da coluna de som”, explica a nota de imprensa. “Em contraste, o som de presas potenciais – sons normais de morcegos – fazia com que as corujas se aproximassem da coluna.”

“É de alguma forma surpreendente que os mochos representem uma pressão evolutiva sobre os morcegos, como resposta às más experiências que tiveram com insectos que picam”, afirmou Russo. “Este é só mais um exemplo da beleza dos processos evolutivos!”

De acordo com o investigador, muitas outras espécies de vertebrados também zumbem quando se sentem em perigo e existem centenas de espécies de morcegos, pelo que é possível que algumas outras adoptem esta mesma estratégia.

Fonte: Wilder

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

É da U.Porto a melhor tese de doutoramento do ano em Ecologia



A investigadora Vanessa Mata, do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto (CIBIO-InBIO), e antiga estudante da Faculdade de Ciências da U.Porto (FCUP), é a vencedora da edição 2021 do Prémio de Doutoramento em Ecologia – Fundação Amadeu Dias, atribuído anualmente pela Sociedade Portuguesa de Ecologia (SPECO) ao autor da melhor tese de doutoramento naquela área, apresentada em Portugal durante o ano anterior.

Desenvolvido no âmbito do doutoramento em Biodiversidade, Genética e Evolução da FCUP, o trabalho agora premiado – com 3 mil euros – consistiu no desenvolvimento de uma ferramenta de metabarcoding aplicável no estudo das interações entre espécies.

“O metabarcoding funciona como um código de barras de DNA (ou RNA) que permite a identificação simultânea de muitas espécies dentro da mesma amostra. A vantagem de usar uma ferramenta do tipo metabarcoding é usar DNA (ou RNA) de vários organismos diferentes provenientes de uma amostra global”, destaca a SPECO em comunicado.

Com a utilização desta ferramenta molecular, a aluna e investigadora da U.Porto conseguiu detetar variações subtis, intra- e inter-específicas, na dieta de morcegos, o que lhe “permitiu a descrição da primeira rede de interações predador-presa entre morcegos e pragas agroflorestais”.

A utilização desta ferramenta científica tem elevada relevância do ponto de vista aplicado ao permitir “identificar espécies de morcegos cuja presença pode ser favorecida para intensificar o controlo de pragas”. Já do ponto de vista da biodiversidade, “chama a atenção para a importância de conservar comunidades diversas de vertebrados em paisagens multifuncionais”, nota a SPECO.

Para além de Vanessa Mata, a edição deste ano do Prémio de Doutoramento em Ecologia – Fundação Amadeu Dias distinguiu ainda os trabalhos dos investigadores Miguel Baptista do Centro de Ciências Marinhas e Ambientais (MARE) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e Tiago Morais, do Centro de Investigação Marinha, Ambiente e Tecnologia (MARETEC) do Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa, segundo e terceiros classificados, respetivamente.

Os três investigadores vão receber os respetivos prémios durante o 20.º Encontro Nacional de Ecologia (2 a 4 de dezembro, na Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Viana do Castelo), ocasião em que terão a oportunidade de apresentar os respetivos trabalhos.

Ao todo, a edição deste ano Prémio de Doutoramento em Ecologia – Fundação Amadeu Dias recebeu 20 candidaturas elegíveis, de doutorados com teses defendidas nas Universidades de Aveiro, Coimbra, Évora, Lisboa, Nova de Lisboa, Porto e Trás-os Montes e Alto Douro.

Fonte: UP

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

DNA ambiental: uma técnica revolucionária para rastrear espécies ameaçadas de extinção


Como saber se os botos cor de rosa ainda habitam a Amazônia peruana sem vê-los? Ao analisar a água do rio para encontrar os vestígios de DNA que os mamíferos marinhos deixaram lá ...

As amostras de água vieram das profundezas da Amazônia peruana, coletadas por cientistas que rastrearam a presença de botos-rosa . Duas semanas depois, o DNA ambiental, ou eDNA, deu seu veredicto: os rastros dos golfinhos estavam lá. Como os de mais de 650 outras espécies, incluindo dezenas de mamíferos: onças , gamos, tamanduás, macacos e 25 espécies diferentes de morcegos .

“É de tirar o fôlego”, entusiasma-se Kat Bruce, ecologista especializada em estudos tropicais e fundadora da startup NatureMetrics, que havia feito o sequenciamento das amostras em nome do WWF.

Essa nova aplicação da pesquisa de DNA pode, segundo seus promotores, revolucionar o estudo da biodiversidade.

A União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), que realiza o seu congresso mundial até sábado em Marselha, lançou também um projecto de 15 milhões de dólares (12,6 milhões de euros) para a análise de 30.000 amostras que serão retiradas de algumas das maiores bacias hidrográficas do mundo, deltas do Amazonas, do Ganges , do Mekong ou do Níger ...

As espécies vivas perdem células constantemente, deixando traços genéticos para trás

Enquanto todos os especialistas dão o alarme sobre o colapso em curso da biodiversidade , os promotores deste "eBioAtlas" acreditam que, em particular, será possível lançar luz sobre quais programas devem ser priorizados em uma área com financiamento ainda muito limitado.

A IUCN, portanto, planeja usar esses dados em particular para sua emblemática " Lista Vermelha" de animais ameaçados .

“Esperamos que o eBioAtlas evolua para preencher as lacunas no conhecimento dessa extinção em massa ”, disse Mike Morris, que está liderando o projeto da NatureMetrics.

“Essa tecnologia permite saber onde as diferentes espécies se encontram de forma simples e bastante precisa”, resume Paola Geremicca, da IUCN.

Porque as espécies vivas perdem células constantemente, deixando vestígios genéticos em seu rastro. Cabelo, pele, muco, saliva, tudo acaba nos rios. Mas, acima de tudo, "há muito cocô", diz o Dr. Bruce.

O excrementos de peixes ou outros animais, trazidos pela chuva, ou esquerda quando nadar ou beber. Seu DNA é então detectável por vários dias.
Mesmo que os habitantes locais não vejam tubarões quando nadam, eles ainda estão lá

Esta pesquisa de eDNA começou há cerca de dez anos. Kat Bruce mergulhou nisso durante seu doutorado, antes de tudo tentando identificar as diferentes espécies presentes nas "sopas" de insetos mistos.

Então, ao longo dos experimentos, parecia que a técnica também funcionava para localizar impressões digitais na análise da água. O sequenciamento de amostras de um ou dois litros leva dois dias e normalmente produz cerca de 30 milhões de traços de DNA. São tantos que faltam as bases de dados de referência para identificar todas as espécies.

Em amostras da Amazônia peruana, por exemplo, apenas 20% dos vestígios de peixes puderam ser formalmente identificados até o nível de espécie.

Quando os resultados dos testes são passados ​​para especialistas locais, eles geralmente ficam "surpresos" ao descobrir a quantidade de espécies desconhecidas, diz Morris.

Devemos então recorrer a zoológicos ou instituições locais em busca de um espécime que possa fazer uma referência. Ou procure encontrar um na natureza, com kits de coleta simplificados.

Em estudo publicado em 2018, pesquisadores encontraram em amostras colhidas nas águas costeiras da Nova Caledónia , território francês no Pacífico Sul, o DNA de um número muito maior de espécies de tubarões do que as identificadas em 20 anos de observações visuais.

“Mesmo que os habitantes não vejam tubarões quando se banham, eles estão sempre lá”, observa David Mouillot, da Universidade de Montpellier, coautor deste estudo. Este pesquisador participa de outro projeto baseado em eDNA, o Vigilife, um grupo público-privado que visa desenvolver um “observatório dos vivos”.

Um dos limites da técnica hoje é o mundo das plantas, sendo as plantas mais difíceis de identificar com precisão. O eBioAtlas também terá como foco inicial os vertebrados, com a ambição de criar um banco de dados de código aberto, gratuito para pesquisadores e ONGs e pago para empresas. Em qualquer caso, a técnica parece ter um futuro brilhante.

Pesquisadores na Grã-Bretanha e na Dinamarca conduziram experimentos este ano filtrando amostras de ar em recintos de zoológicos. Eles encontraram vestígios de e-DNA de animais residentes ... mas também de outras espécies da fauna local.

quinta-feira, 24 de junho de 2021

Morcegos reduziram pragas nas culturas do Vale do Tua

O programa de combate a pragas agrícolas com morcegos no Parque do Tua demonstrou que estes predadores naturais contribuíram para a redução dos prejuízos nas principais culturas, sem recurso a pesticidas, disse hoje o diretor, Artur Cascarejo.

Os resultados do programa iniciado há quatro anos no Parque Natural Regional do Vale do Tua, em Trás-os-Montes, serão divulgados durante o mês de julho, mas o diretor adiantou já à Lusa que "foi um sucesso" no combate às pragas em culturas como a vinha, olival e sobreiral.

"Porque elimina as pragas agrícolas nestes três produtos essenciais do nosso território, sem agroquímicos, sem pesticidas e, portanto, de uma forma biológica, natural, no fundo num serviço de ecossistema", afirmou.

De acordo com o diretor do parque, "provou-se que 75% da dieta alimentar dos morcegos tinha a ver com as maiores pragas destas três culturas e, por isso mesmo, os agricultores ficaram extraordinariamente satisfeitos com o resultado final".

O programa resultou de uma candidatura ao Fundo Ambiental e foi executado com o apoio especializado do Centro de Investigação em Biodiversidade da Universidade do Porto.

Dos resultados irá surgir também, como disse à Lusa, "um guia de boas práticas para quem quiser aproveitar este exemplo e aplicá-lo noutros territórios".

"O resultado foi de tal forma espetacular que o biólogo que esteve a trabalhar connosco, em função desse trabalho, ganhou uma bolsa e está, neste momento, a trabalhar na Áustria a desenvolver um doutoramento nesta área", contou.

O Parque Natural Regional do Vale do Tua começou, em fevereiro de 2017, a colocar caixas-abrigo em terrenos agrícolas para criar condições para a presença dos morcegos, tendo em conta que estes pequenos predadores ajudam no combate a pragas, como insetos, o que torna desnecessário o uso de pesticidas e outros químicos para defender as culturas agrícolas.

Ao todo, foram espalhadas pelo parque uma centena de caixas com o intuito de aumentar o número de colónias de morcegos nos sistemas agrícolas e florestais, de maior relevância na área do parque, concretamente, as vinhas, os olivais e as florestas de sobreiro.

Os responsáveis acreditam que "este projeto poderá constituir um excelente exemplo onde a investigação científica está ao serviço do desenvolvimento sustentável, esperando deste modo que o modelo de gestão do parque se possa disseminar ao nível regional e nacional".

O parque abrange os concelhos de Alijó e Murça, no distrito de Vila Real, e Mirandela, Carrazeda de Ansiães e Vila Flor, no distrito de Bragança.




sábado, 17 de abril de 2021

Dia Internacional da Apreciação dos Morcegos



Celebra-se hoje, dia 17 de abril, o Dia Internacional da Apreciação dos Morcegos. Tradicionalmente vistos como animais asquerosos e transmissores de doenças, esta má fama agravou-se com a pandemia da COVID-19, em que foi disseminado pela comunidade científica que uma espécie de morcego terá servido de intermediária entre outra espécie hospedeira e os humanos.

Mas os morcegos prestam um serviço muito importante no nosso dia-a-dia e que merece ser celebrado. Em Portugal temos 28 espécies de morcegos, sendo uma endémica da Ilha da Madeira, estando mais de metade destas espécies potencialmente ameaçada de extinção em território nacional.

Para que os morcegos nacionais continuem a desempenhar o seu papel no ecossistema, é preciso um maior investimento na proteção dos seus habitats, nomeadamente os habitats cavernícolas e mediterrânicos onde tantas colónias residem. Também é necessário maior investimento na monitorização regular destas espécies para colmatar as falhas de conhecimento atualmente existentes em quase um terço das espécies de morcegos presentes em Portugal. Por último, é preciso reforçar a educação das pessoas acerca destes magníficos animais, e apostar num ecoturismo sustentável a habitats onde estas espécies podem ser observadas com o mínimo de perturbação.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Dossiê Zoologia, Etologia e Neurobiologia

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