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domingo, 12 de abril de 2026

Afonso Cruz - O que a Chama Iluminou


Já tinha lido dois livros dele antes: "O Princípio de Karenina" e "Jesus Cristo bebia cerveja". Adorei os dois livros.
𝑶 𝑸𝒖𝒆 𝑨 𝑪𝒉𝒂𝒎𝒂 𝒊𝒍𝒖𝒎𝒊𝒏𝒐𝒖 é um livro que nasce de uma experiência-limite vivida por Afonso Cruz no Chile aquando dos protestos de 2019. Durante uma perseguição em Santiago, o autor escreve: “É desse lugar, em que a morte nos espreitava através do vidro escuro de um blindado, que quero escrever este livro. Dali, onde estava com R., suspenso entre a vida e a morte (…). Este livro nasce de um beco.” (p. 28). É a partir desse quase fim que o livro se abre para uma reflexão mais vasta sobre todos os fins que atravessam a existência.
A experiência pessoal funciona como detonador, mas Cruz não se encerra nela. Pelo contrário: amplia-a, desdobra-a, coloca-a em diálogo com outras formas de desaparecimento. O livro convoca o fim do amor, quando se perde o amado, o marido, o filho; o fim das palavras, quando a linguagem se gasta e já não nomeia; o fim dos povos indígenas, cuja cultura se esbate como poeira ao vento; o fim dos filhos e dos maridos desaparecidos, que as mulheres de Calama procuram com uma persistência que é, ao mesmo tempo, luto e resistência. Cada uma destas formas de fim é iluminada pela mesma chama: a consciência de que tudo é transitório, mas nada se perde totalmente. Até porque como o autor lembra “o fim pode também ser um princípio ou um recomeço (…). (p. 44)
Afonso Cruz cita vários autores que alimentam a ideia de que o fim de algo está na origem da beleza, da poesia, da arte em geral. Segundo Vicente Verdú “ O vazio é o principal luxo da arte (…) A negação, a dor, o mal, o vazio são eminentes criadores. Altamente ativos.” Estas referências surgem como parte de uma reflexão que se quer ampla e dialogante.
Em vários textos, Cruz recupera a ideia primordial de que somos feitos de pó e ao pó regressaremos, não como ruína, mas como continuidade. É aquilo que permanece quando a forma desaparece. O pó revela que o fim não é interrupção, mas transformação. Esta visão, profundamente serena, afasta o livro de qualquer sombra de medo. A morte não surge como ameaça, mas como claridade.
Outro elemento decisivo e que muito me agradou é a erudição do autor, que se manifesta nas citações, nos exemplos convocados, nas vozes que entram no texto como companheiras de pensamento. As referências funcionam como velas que iluminam diferentes ângulos da mesma questão seja ela filosófica, histórica, científica, poética e ampliam a experiência vivida.
O resultado é uma obra de não ficção que se lê avidamente. A escrita, depurada e aforística, agarra o leitor. Há silêncio entre as frases, entre os textos; há contenção; há uma serenidade que surpreende. Mesmo quando fala da morte, Cruz escreve com lucidez. A chama ilumina o fim, sim, mas ilumina também o que fica, o que continua: a memória, o gesto, o amor, a matéria que se transforma... “(…) todos morremos, mas de que lado da morte queremos estar?” (p. 130)
𝑶 𝑸𝒖𝒆 𝑨 𝑪𝒉𝒂𝒎𝒂 𝒊𝒍𝒖𝒎𝒊𝒏𝒐𝒖 é, por isso, um livro sobre o fim, mas também sobre a esperança. É um livro que nasce de um beco, mas abre-se para uma luz maior. Afonso Cruz oferece-nos uma reflexão íntima e universal, pessoal e ética, que transforma o susto em claridade e o desaparecimento em luz.

Saber mais:
Fernando Alvim conversa com Afonso Cruz sobre a eminência do fim, pessoal  e colectivo, daí resultando esta novela-ensaio, reflexão terna e desapiedada sobre o fim das coisas.

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Ghost Town - original The Specials e cover dos Lankum


A canção “Ghost Town” (1981), do grupo britânico The Specials, é um poderoso retrato social e político do Reino Unido no início dos anos 80. A música reflete o desemprego em massa, a violência urbana e o declínio das cidades industriais durante o governo de Margaret Thatcher. Com uma sonoridade sombria e lenta, “Ghost Town” evoca a imagem de ruas desertas, discotecas fechadas e juventude sem perspetivas — um grito de alerta sobre a desintegração social. Tornou-se um hino de protesto e símbolo do descontentamento social da época, combinando reggae e ska com crítica política.


“Ghost Town” é uma canção que denuncia o colapso social e ambiental das cidades britânicas dos anos 80, espelhando o impacto humano do desemprego e da desigualdade — um retrato musical da decadência urbana e da perda de comunidade.

domingo, 21 de setembro de 2025

Porto contra os eucaliptos e na defesa da floresta tradicional

O país não pode estar entregue à celulose, além disso, o eucalipto não é assim tão bom negócio quanto isso.

"Com mais um bocado de trabalho, o carvalhal dá mais rendimento", argumentou Carlos Evaristo, apontando a um estudo da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD). Embora demore mais anos a crescer, uma floresta de carvalhos "permite subprodutos como os cogumelos ou o mel, valoriza a paisagem e atrai turistas - ninguém gosta de fazer turismo no meio dos eucaliptos", acrescentou, lembrando o mote principal da manifestação: os fogos florestais.

"O eucalipto é uma árvore que beneficia do fogo para se reproduzir", diz Carlos Evaristo. A árvore, originária da Austrália, não só medra no fogo como "é terreno fértil para outras invasoras como mimosas e acácias", argumentou, defendendo a substituição do eucaliptal por floresta autóctone. "Os carvalhos e sobreiros desenvolveram estratégias melhores para lidar com o ciclo do fogo", argumentou.

"A monocultura do eucalipto é uma paisagem monótona que só degrada os solos", que não é só consequência, mas também causa. "Num interior abandonado, o eucalipto cresce por ele próprio, não precisa de manutenção, não produz emprego e contribuiu mais para a desertificação", defende Carlos Evaristo.


O que precisamos é de uma floresta para o futuro, uma floresta com várias espécies misturadas e com espécies nativas, espécies que já estão adaptadas às nossas condições climáticas há milhares e milhares de anos, portanto, não precisamos de espécies exóticas que nos trazem os  problemas atrás referidos.

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Marque na sua agenda - Participe amanhã na Manifestação "Deseucaliptar, Descarbonizar e Democratizar", em várias regiões do País


Toda a informação aqui

Este sábado, dia 20 de Setembro, haverá manifestações em 15 localidades do país, sob o mote de "que outra floresta é possível" e também "outra vida é possível para quem persiste em habitar em zonas rurais". Organizada por um grupo de cidadãos, a iniciativa terá lugar em Águeda, Arganil, Aveiro, Braga, Coimbra, Lisboa, Lousã, Odemira, Oliveira do Hospital, Pedrógão Grande e no Porto. 

Os mobilizadores defendem que "há várias propostas e reflexões a fazer", bem como "exigências e demandas imediatas e para os próximos anos". A iniciativa acontece a dois dias do começo do Outono, escolha que não terá sido aleatória. "O Verão finda e as televisões, os jornais, as rádios, as conversas nos cafés estão já concentradas noutros temas", reflectem os cidadãos, nas redes sociais, defendendo que a floresta e os incêndios rurais são temas para todo o ano.

Mobilização popular é "necessária"
Já em Setembro de 2024, a rede cidadã havia organizado o protesto "Pela Floresta do Futuro" e afirmou, em Agosto passado, que estava a iniciar um "processo de mobilização, contactando organizações nacionais e na Galiza". O objectivo primeiro é "lutar pela vida das pessoas que vivem nas áreas rurais, mas não só, é necessária uma crescente mobilização popular que travem os planos catastróficos que resultam da combinação dos interesses da indústria dos fósseis e das celuloses, apoiados pelos governos ibéricos durante as últimas décadas", acusam.

Este Verão, Portugal foi o país com a maior percentagem de área ardida da União Europeia. Foram destruídos mais de 3% do território nacional, com o incêndio de Arganil a assumir-se como o maior de sempre.

sábado, 4 de janeiro de 2025

Dezasseis mortes em protestos no Irão


Ontem fiquei bastante chocado com a tragédia no Irão e os protestos que duram há uma semana. Hoje, além de elementos técnicos da arte islâmica, inclui o trabalho humanitário do Crescente Vermelho, alguns elementos de poesia Persa e usei na IA a letra da música "Orient" dos Xmal Deutschland. O resultado foi este.
Os persas escreveram tanto em Persa como em Árabe, predominando o Persa mais tardiamente. Poetas persas como Ferdusi, Saadi, Hafez, Attar, Rumi e Omar Khayyām são mundialmente conhecidos e influenciaram a literatura em vários países.
Há literatura persa em língua persa originária do Irão, Afeganistão e outras partes da Ásia Central.

domingo, 30 de junho de 2024

Milhares protestam em Santiago de Compostela contra projeto da portuguesa Altri


Este domingo, milhares de pessoas juntaram-se para protestar frente à Junta de Galiza, em Santiago de Compostela, contra o projeto que a portuguesa Altri quer instalar em Palas de Rei. Desde maio, esta é a segunda manifestação que se realiza na Galiza contra a instalação do projeto, que prevê a construção de uma biofábrica de fibras sustentáveis.

"A Galiza está em luta [...]. Não ao roubo da nossa terra", foram algumas das palavras de ordem que se ouviram durante o protesto. Citada pela agência EFE, a porta-voz da plataforma Ulloa Viva, que organizou a iniciativa, Marta Gontá, indicou que o protesto juntou 30 mil pessoas, pedindo que o executivo oiça as reivindicações.
"A Junta deve ouvir as razões pelas quais somos contra um projeto altamente poluente, que nos obrigaria a viver pior [...] em toda a Galiza", vincou.

No mesmo sentido, o porta-voz da Plataforma de defesa da Ria de Arousa, Xaquín Rúbido, exigiu que o projeto seja travado, defendendo que este é poluente, podendo assim provocar danos graves à população. "São projetos que não deixam nada aqui. Só poluição e isso é contrário ao nosso modelo produtivo", referiu.

O projeto para a construção de uma biofábrica de fibras sustentáveis, liderado pela Atri, está avaliado em cerca de 900 milhões de euros.

O grupo Altri registou, no primeiro trimestre deste ano, lucros de 21,6 milhões de euros, um aumento de 10% em relação a igual período do ano passado.

Lembrando que Arousa produz 70% do mexilhão galego e que aquele ecossistema sustenta quatro mil famílias, a vice porta-voz do Bloque Nacionalista Galelgo, Olalla Rodil, prometeu continuar a defender que esse dinheiro público não vai parar ao bolso da empresa portuguesa que quer ali instalar uma “bomba ambiental”, mas sim investido em benefício da Galiza.

domingo, 2 de junho de 2024

É assim que o TikTok ou o Instagram destroem praias, montanhas e outros locais naturais

De lugares tranquilos e pouco conhecidos a destinos que se tornaram populares devido ao poderoso efeito das redes sociais. Estas são as consequências para a natureza quando ela se torna um "alvo" em massa de selfies e vídeos.


Há quem sonhe viver em primeira mão as experiências turísticas idílicas e fotogénicas promovidas pelos criadores de conteúdos no TikTok ou Instagram. São lugares, por vezes pouco conhecidos, que, em questão de dias, recebem atenção global devido ao efeito viral das plataformas de vídeos curtos às quais milhões de pessoas estão fisgadas.

Então, é claro, vêm as deceções. E o que se imaginava como destinos exclusivos, como as trilhas naturais, transformam-se, parecendo verdadeiras romarias, filas intermináveis para visitar uma praia e "cotovelaços" para tirar selfies.

A consequência de “criar tendência” nos destinos turísticos é um aumento repentino e inesperado de visitantes em espaços que muitas vezes não são projetados para serem usufruídos por uma massa descontrolada de pessoas.

Um fenómeno ligado ao congestionamento, às multidões e à muita poluição, que já está a ser estudado e que tem consequências negativas para o ambiente natural.

As consequências danosas do ‘efeito TikTok’ na natureza
Em Espanha as ações de alguns influenciadores encorajaram a destruição real de espaços naturais protegidos.

Nas Dunas de Maspalomas, espaço natural localizado no sul de Gran Canaria, a organização de uma “caça ao tesouro” (mil euros enterrados) levou muitas pessoas a escavar nesta área protegida.

Em Tenerife, dois YouTubers, com 111 mil inscritos, vangloriaram-se no seu canal ao fazerem “o percurso mais perigoso” da ilha. Para isso, eles percorreram um caminho protegido numa área que possui espécies ameaçadas de extinção, como o lagarto gigante, sem se preocupar em pisotear a flora nativa. E o pior? Eles “inspiraram” outros.

Parques Nacionais soam o alarme
O efeito indireto causado pelas imagens e vídeos publicados nas redes sociais tornou-se um verdadeiro problema para a maioria dos parques nacionais em Espanha.

Até 11 dos 16 espaços protegidos da rede reportam “problemas óbvios” gerados pela multiplicação de visitantes e que devem ser geridos. Risco de incêndios, destruição de habitats e elevado número de veículos que geram engarrafamentos, poluição e problemas de segurança são os principais problemas.

Fora de Espanha, embora existam inúmeros exemplos, é bem conhecida a situação vivida no segundo pico mais alto do mundo. As intermináveis filas nas encostas do K2, uma montanha na Ásia, prenunciam um mau prognóstico: a montanha passa por um profundo processo de transformação devido à presença excessiva de seres humanos.

Protestos em Espanha contra o turismo maciço
Nas últimas semanas, milhares de habitantes cujos locais ficaram transformados em destinos turísticos saíram às ruas para protestar contra os impactos negativos deste modelo, tanto a nível ambiental como social, cultural e económico.

O movimento, que é global, já chamou atenção em Espanha. Em Palma de Maiorca, Donostia-San Sebastián, Las Palmas de Gran Canaria e em alguns municípios da Cantábria, como Loredo e Langre, os moradores mobilizaram-se com os seguintes argumentos:
  1. Gentrificação: o aumento dos preços da habitação causado pela 'proliferação' de apartamentos turísticos, e também de bens e serviços, resulta no deslocamento dos residentes locais dos seus próprios bairros.
  2. Perda de autenticidade: na sociedade de consumo tudo é comercializável. Também a cultura local, da qual são selecionados apenas os elementos, considerados produtos ou meros espetáculos de entretenimento, que fazem maior sucesso junto dos turistas. A consequência é a perda de tradições e costumes genuínos.
  3. Superlotação: quando afeta locais históricos ou bens culturais, podem sofrer danos devido ao excesso de visitantes.
  4. Dependência económica: quando as economias locais se tornam muito dependentes do turismo, tornam-se muito vulneráveis às mudanças que podem ocorrer na procura turística.
  5. Má qualidade de emprego: que o turismo gera riqueza é um facto. Porém, outra coisa é como isto é redistribuído. E, muitas vezes, os empregos ligados a este setor económico são sazonais e mal remunerados.
Rumo ao turismo sustentável
O impacto do turismo de massa não deve ser medido apenas pelos seus benefícios económicos e pela criação de emprego, que nem sempre é de qualidade. Para o ONU Turismo, o turismo sustentável é o turismo que “leva plenamente em conta os impactos económicos, sociais e ambientais atuais e futuros para satisfazer as necessidades dos visitantes, da indústria, do ambiente e das comunidades anfitriãs”.

Avançar para este novo modelo envolve, antes de tudo, regulamentação. Ou seja, limitar o número de visitantes em áreas sensíveis para evitar a sobre-exploração.

Do ponto de vista do ordenamento do território, é também necessário planear o uso do solo para minimizar o impacto ambiental e preservar a biodiversidade, o que inclui a criação de áreas de proteção e conservação.

Desenvolver uma consciência pública mediante campanhas de sensibilização para as comunidades locais e visitantes, e a promoção do turismo responsável através dos meios de comunicação social e das próprias redes sociais, é outra estratégia essencial para avançar para um turismo mais sustentável.

Fonte: Meteored

quinta-feira, 30 de maio de 2024

A destruição do património natural da região de Coimbra avança de vento em popa!

Mesmo com os alertas de várias de instituições e organizações especializadas em conservação da natureza, ações de protesto e caminhadas promovidas por coletivos e cidadãos preocupados, a construção da central fotovoltaica na Serra de Brasfemes foi mesmo aprovada pela Câmara Municipal de Coimbra (CMC).

Apesar do estado crítico de grande parte das áreas florestais da região de Coimbra, e com centenas, se não milhares, de hectares de localizações alternativas na envolvente e que teriam um impacto ecológico muito menor, a central foi aprovada no coração de um dos mais importantes hotspots de biodiversidade da região, a Serra de Brasfemes. Isto acontece poucos meses após a própria CMC, em colaboração com a Milvoz, ter identificado a área como prioritária para conservação da natureza, destacando valores naturais únicos, incluindo endemismos ibéricos e espécies com estatuto de conservação. Esta área foi alvo de vários estudos de flora pela Universidade de Coimbra e está na quadrícula com mais espécies de flora identificadas em Portugal, conforme o portal Flora-on, sendo que não se poderá alegar desconhecimento da riqueza do local. Além disso, projetos financiados por fundos comunitários estão em curso para a criação de rotas interpretativas, como a Rota das Orquídeas, que serão afetados pela construção da central.

É incompreensível o que está a acontecer. Os valores naturais da região de Coimbra continuam a saque. Esta é a segunda central fotovoltaica aprovada em mais uma importantíssima área para a conservação da natureza do concelho, mais uma vez sem devido diálogo com a população e entidades. Onde está a ambição do executivo da CMC no que diz respeito à conservação e valorização do património natural de Coimbra?

Para além dos impactos resultantes da sua exploração, é também preocupante a facilidade com que a Cimpor consuma a devastação de um dos mais importantes ativos de lazer e turismo ecológico da área. A destruição da área, antes mesmo da aprovação do projeto, evidencia práticas duvidosas que não podem ser ignoradas e atestam a falta de formalidade deste processo.

Não questionamos a importância da produção de energia renovável e da redução de emissões, mas não em plenos hotspots de biodiversidade, especialmente quando existem várias alternativas viáveis.

A Serra de Brasfemes pode e deve ser protegida e valorizada! A Milvoz compromete-se a procurar melhores horizontes para esta serra e, em breve, publicará um manifesto aberto à assinatura de todos os que defendem a preservação e salvaguarda deste local.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Protesto convocado por membros de movimentos de extrema-direita, em Lisboa - segue-se uma reflexão sobre o Chega, incitamento ao ódio (que é crime) e quem foi Salazar e o seu regime

O presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior pede aos residentes que não saiam de casa durante a manifestação. 
Um grupo de extrema-direita, que convocou um protesto contra muçulmanos no Martim Moniz para o próximo fim de semana, garante que vai sair à rua, apesar de não ter autorização da Câmara de Lisboa. Os imigrantes no Martim Moniz estão preocupados e prometem fechar as portas do comércio no dia da marcha. Saiba mais aqui


1º Ponto - O Tribunal Constitucional deve ilegalizar o Chega
O Tribunal Constitucional está a tentar (e bem) tudo por tudo para ilegalizar o Chega. Demora o seu tempo e entretanto o monstro cresceu com 16% de eleitorado, 3ª força política fascista e racista em menos de 4 anos.

2º Ponto - Um pouco de História do Salazar, pai do partido ilegal Chega
Salazar criou organizações repressivas para anular ou silenciar as oposições, retirando direitos e liberdades aos indivíduos que deviam obedecer ao chefe. Criou o Secretariado de Propaganda Nacional para difundir os ideais do Estado Novo, como o autoritarismo e/ou o totalitarismo, e mecanismos de controlo da população, que enquadravam as crianças e jovens, as mulheres e os homens.

O Estado Novo assentava em organizações repressivas e mecanismos de controlo da população criadas por Salazar, à semelhança do fascismo italiano, para garantir o culto da personalidade ou culto do chefe e a negação dos direitos e liberdades individuais.

Logo em 1933 foi criada a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE- futura PIDE) para controlar os opositores políticos ao regime, contando com uma vasta rede de informadores civis.

O preso político era detido, sem culpa formada e sem mandato, e sujeito a tortura física e psicológica, podendo a PVDE decidir alargar o tempo de prisão, que devia cumprir nas prisões políticas do Aljube, Caxias e Peniche.

A guerra civil espanhola (1936-39) fez endurecer o regime na defesa da ordem e disciplina, aumentando a repressão contra quem se opusesse ao Estado Novo. Em 1936 Salazar, com o intuito de perseguir sobretudo os comunistas e anarquistas, criou a Legião Portuguesa (milícia civil armada) e abriu o campo de concentração do Tarrafal.

Estabeleceu ainda a Censura prévia, conhecida como «lápis azul», sobre toda a produção intelectual, a rádio, a imprensa e o cinema, impedindo a divulgação de ideias contrárias ao regime e subordinando a cultura aos interesses do Estado.

O Estado Novo desenvolveu mecanismos de controlo da população, com o objetivo de difundir os valores do regime e influenciar a opinião pública.

Em 1933, foi criado o Secretariado de Propaganda Nacional, dirigido por António Ferro, que promoveu a «Política de Espírito» procurando conciliar vanguarda e tradição. A face mais visível da ação do Secretariado de Propaganda eram os cartazes com mensagens de glorificação da infalibilidade do chefe e de exaltação das realizações do Estado Novo (denegrindo a 1ª República).

Para valorizar a cultura popular e a grandeza do império António Ferro promoveu concursos, festivais de folclore e exposições, destacando-se a Exposição do Mundo Português (1940). Organizou ainda desfiles e comícios, onde Salazar discursava, embora preferisse fazê-lo através da rádio, porque ao contrário de Mussolini, Salazar evitava banhos de multidão.

A reforma do ensino, de 1936, contribuiu para a redução da taxa de analfabetismo (ainda que lenta), mas orientava-se sobretudo para a transmissão dos valores do regime incutindo a crianças e jovens o espírito de obediência ao chefe e de defesa da Nação. Desde cedo aprendiam a valorizá-la acima das outras, numa lógica de nacionalismo exacerbado, que aliado ao patriotismo e ao imperialismo, fomentava a ideia de superioridade da Nação, da raça e da religião católica.

Privilegiavam-se certos períodos da História, como a Reconquista e os Descobrimentos e enalteciam-se os heróis, como o Infante D. Henrique ou Nuno Álvares Pereira. Para garantir que não havia desvios ao ensino pretendido pelo regime adotou-se um manual escolar único (o mesmo conteúdo para todos) e controlavam-se os professores, que assinavam uma declaração em como não professavam ideologias contra o Estado Novo.

Desde pequenos, meninos e meninas, mesmo que não frequentassem a escola, eram enquadrados na Mocidade Portuguesa, também criada em 1936, para a prática de exercício físico, numa lógica militarista de educação para a guerra, fomentando-se os valores de disciplina e respeito às hierarquias.

Salazar preocupou-se também em controlar os tempos livres dos trabalhadores e das suas famílias, sobretudo os dos meios urbanos, tendo criado, em 1935, a Federação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT) para a promoção de atividades culturais, desportivas e recreativas.

Foi também criada, em 1936, uma organização de enquadramento das mulheres – a Obra das Mães pela Educação Nacional (OMEN) – para difundir o papel da mulher como mãe, zelosa da família e das tarefas domésticas e esposa obediente ao marido (chefe na família).

3º Ponto - Incitamento ao ódio (que é crime) 
O crime de incitamento ao ódio e à violência encontra-se previsto no n.º 2 do artigo 240.º do Código Penal e é punido com pena de prisão de 6 meses a 5 anos. [Diário da República]

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

Ativistas da Climate Defiance lograram boicotar um evento de homenagem ao CEO da Exxon, Darren Woods


Ativistas da ClimateDefiance lograram boicotar um evento de homenagem ao CEO da Exxon, Darren Woods. A sala inteira levantou-se e saiu. Woods ganha US$ 20 milhões/ano enquanto aumenta a produção de petróleo e gás globalmente. A sua presença venenosa acabou de contaminar a COP28, onde ele declarou estupidamente que quer reduzir as emissões das operações da Exxon - como se não fosse o seu produto em si que nos estivesse a matar.

Always remember: "Nature is the foundation of the world’s economy. Over half of global GDP is dependent on materials and services that are delivered by ecosystems. " [fonte: Nature restoration]

domingo, 3 de dezembro de 2023

Moda de Inverno


Credo! Nunca me vestiria desta forma. A moda realmente às vezes supera o ridículo!!!

Contra a devastação social e ambiental do pronto a vestir, associações ambientalistas agiram na véspera da Black Friday: espalharam camisetas manchadas de sangue falso no coração de Paris.

sábado, 2 de dezembro de 2023

Caravana andou pelas aldeias de Boticas e Montalegre a protestar contra a mina



Grupo juntou mais de 200 carros para pedir que parem a exploração de lítio em Covas do Barroso

Com o intuito de travar o avanço da Mina do Barroso, em Boticas, as populações das aldeias da zona afetadas pela exploração de lítio juntaram-se, na tarde desta sexta-feira, numa caravana que passou por várias localidades, também em algumas de Montalegre, como forma de protesto contra o projeto. “Temos mais de 200 carros na caravana e nem sabemos o número de pessoas, mas são muitas. A população está toda unida contra a mina “, explicou Nelson Gomes, da Associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso, garantindo que vão continuar a lutar contra a mineração. “Estamos a tentar que este processo seja suspenso de uma vez por todas”, afirmou Nelson Gomes destacando que “o governo já foi abaixo por causa do lítio”, mas no terreno “continua-se a ver que as minas estão a avançar”.

Esta mina está na mira da operação Influencer, que investiga negócios de lítio e de hidrogénio, e que levou à demissão do primeiro-ministro, António Costa.

Há 10 dias que vários populares mantêm uma espécie de guarda nos terrenos onde a Savannah Resources, que detém a concessão mineira, quer iniciar os trabalhos de desmatação, para arrancar com a exploração de lítio. “Temos conseguido evitar que as máquinas trabalhem porque vamos todos dos dias para lá, para que não avancem nos terrenos baldios. O nosso objetivo é que pare definitivamente a mineração e os contratos duvidosos em Covas do Barroso e em Montalegre”, deu conta este elemento daquela associação. O caso está em tribunal, uma vez que avançaram com uma ação contra a Savannah Resources. “Põe em causa a nossa terra. A luta continua porque são projetos contra tudo e contra todos. Querem impingir-nos a narrativa da transição energética, justa e verde. Só que nós achamos que nem é justa, nem é verde, nem é sustentável”, indicou Nelson Gomes.

A instalação das Minas do Barroso implica um investimento de 110 milhões de euros e promete criar mais de 200 postos de trabalho. Tem a capacidade para construir baterias para, por exemplo, 655 mil BMW i3 ou para 307 mil Jaguar I-Pace, por ano.

Este projeto foi o primeiro de exploração de lítio em Portugal a conseguir uma Declaração de Impacto Ambiental (DIA) favorável, ainda que condicionada à implementação de medidas de compensação e mitigação.

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Marty, o norte-americano que faz a diferença


O racismo, a xenofobia e o ódio não são divisíveis por dois
Os EUA, que possuem as leis sobre armas mais flexíveis do mundo, têm o maior número de tiroteios em massa do mundo. Os cidadãos dos EUA lideram o mundo em termos de posse de armas, com estimativas sugerindo que havia 390 milhões de armas em circulação em 2018, com uma taxa de 120,5 armas por 100 residentes.
Há um solitário activista, Marty, agora com 81 anos, desde há 5 anos mantém o seu posto diariamente em frente à Casa Branca, com este cartaz. Filho de imigrantes, pretende com o seu protesto que os americanos exerçam a sua tradicional amizade em vez de fomentar o ódio e a divisão.

sábado, 21 de outubro de 2023

Ansiedade climática: o síndrome das novas gerações

As alterações climáticas são cada vez mais uma questão de saúde mental, e a população mais afectada atualmente é a de faixa etária mais jovem.


É comum dizer-se que os jovens estão a ficar preocupados com o futuro do planeta e que isso lhes está a prejudicar o equilíbrio emocional e mental, mas na verdade este sintoma é comum a várias idades, com a diferença que os jovens se sentem mais inseguros e com menos poder de decisão.

Um estudo da revista Lancet, publicado em Dezembro 2021, revelou a primeira investigação com mais amplitude neste âmbito: foram entrevistadas 10 mil jovens (com idades entre 16 e 25 anos) em dez países (Austrália, Brasil, Finlândia, França, Índia, Nigéria, Filipinas, Portugal, Reino Unido e EUA). Mil participantes por país. Os jovens portugueses estavam entre aqueles que demonstravam mais ansiedade.

Nas conclusões do estudo face às alterações climáticas, 59% dos inquiridos “estavam muito ou extremamente preocupados e 84% estavam pelo menos moderadamente preocupados. Mais de 50% relataram cada uma das seguintes emoções: tristeza, ansiedade, raiva, impotência e culpa.

Mais de 45% dos entrevistados disseram que os seus sentimentos sobre as alterações climáticas afetaram negativamente a sua vida quotidiana e funcionamento, e muitos relataram um elevado número de pensamentos negativos sobre as alterações climáticas (por exemplo, 75% disseram que pensam que o futuro é assustador e 83% disseram que eles acham que as pessoas falharam em cuidar do planeta)”.

Perante uma amostra bastante representativa do que pensam os jovens sobre o impacto das alterações climáticas, uma das conclusões do estudo é que “essa angústia estava associada a crenças sobre resposta governamental inadequada e sentimentos de traição”, e que para eles “o futuro é assustador, a humanidade está condenada”, pois “não terão acesso às mesmas oportunidades que os seus pais tiveram”. Além disso, “consideram que tudo o que valorizam será destruído, a segurança está ameaçada e estão hesitantes em ter filhos”.

A pesquisa mostrou como a ansiedade climática pode ser uma experiência coletiva, mesmo que vivida com maior ou menor intensidade. Estamos quase em Dezembro de 2023 – dois anos depois do estudo referido – e as notícias sobre a crescente ansiedade e sentimento de impotência dos jovens continuam a dar sinais de alerta, como é referido nesta notícia da CBS do Canadá, publicada em agosto, na altura em que os fogos devastaram parte do país.

No dia 10 de Outubro – o Dia Mundial da Saúde Mental – a publicação Euro News sugeriu algumas ideias para evitar estados de eco-ansiedade. Uma delas referia-se à inércia causada pela quantidade de informação científica: “Não demore a fazer mudanças na sua vida ou a tornar-se um ativista enquanto lê o relatório do IPCC. Afinal, tem 1.800 páginas. Pode demorar um pouco.”

As alterações climáticas são assim e cada vez mais, também uma questão de saúde mental, e a população mais afectada atualmente é a de faixa etária mais jovem – porque se por um lado sentem que as decisões governamentais não são suficientes, por outro sentem uma grande pressão com a sua responsabilidade para com o futuro.

quinta-feira, 27 de julho de 2023

Luta contra o verdadeiro Inimigo! Quando Sinead O'Connor rasgou a foto do Papa no 'SNL'

Em 3 de outubro de 1992, Sinéad O'Connor rasgou uma foto do Papa João Paulo II no Saturday Night Live, numa denúncia muito pública da pedofilia na Igreja Católica.
Ela estava à frente da época.


A cantora Sinead O'Connor provocou indignação em 3 de outubro de 1992, quando rasgou uma foto do Papa durante a sua apresentação musical no Saturday Night Live.

Na preparação para o episódio, o criador do programa, Lorne Michaels, concentrou toda a sua atenção no apresentador Tim Robbins. O ator politicamente ativo lançou um ataque violento contra a controladora da NBC e os infames poluidores General Electric, que Michaels rejeitou para o programa, alegando que a peça era mais direta do que engraçada. (Robbins, talvez antecipando esse resultado, incluiu uma cena na sua astuta sátira política de 1992, Bob Roberts, na qual o anfitrião convidado - interpretado pelo amigo de Robbins, John Cusack - é igualmente fechado por uma automitificação "nervosa" ao vivo no show de skectchs chamado Cutting Edge Live.) Robbins, com a então esposa e colega provocadora Susan Sarandon na plateia, eventualmente apareceu nas boas noites para o show ostentando uma T-Shirt anti-GE. Ainda assim, ninguém estava pensando nele, na General Electric ou em qualquer outra coisa além do convidado musical daquela noite.

Depois de apresentar o seu primeiro número, uma interpretação tipicamente impressionante da canção da Loretta Lynn "Success Has Made a Failure of Our Home", O'Connor voltou ao palco do Studio 8H tendo feito alguns pedidos de última hora. Em vez de cantar o planejado uma música a cappella "Scarlet Ribbons", o empresário de O'Connor informou ao coordenador musical do SNL, John Zonars, que O'Connor, em vez disso, apresentaria uma versão a cappella de "War", de Bob Marley.

E, como a cantora irlandesa pretendia que a música chamasse a atenção para a questão do abuso infantil, ela pediu que a performance fosse filmada com uma única câmera, em close-up, para que o seu gesto final (de ela segurando um imagem de uma criança faminta), seria o foco duradouro. Zonars, na história oral do SNL, Live From New York, afirma que todos ficaram comovidos com a música e o gesto de O'Connor no ensaio geral quando ela ergueu a foto planeada e fez um apelo sincero para proteger as crianças vulneráveis do mundo.

Então a cantora de 26 anos entrou no palco do SNL para seu segundo número da noite no show ao vivo. Ela cantou “War”, a voz inimitável de O'Connor aumentando o poder da paixão até que, depois de transmitir a mensagem final da música, “E sabemos que venceremos/Pois estamos confiantes na vitória/Do bem sobre o mal”, levantou uma fotografia de O Papa João Paulo II para a câmera e, olhando diretamente para o cano da câmera ao vivo, rasgou-o. “Lute contra o verdadeiro inimigo”, exortou O'Connor, depois soprou as velas que haviam sido seu único acompanhamento e saiu do palco.

Foi quando todo o inferno desabou.

A NBC foi imediatamente, e por dias depois, inundada de ligações, condenando de forma esmagadora o convidado musical do SNL por insultar o chefe da Igreja Católica. Como a própria O'Connor relembrou no seu livro de memórias de 2021, Rememberings, ela foi recebida com um silêncio sinistro não apenas no palco (o diretor Davey Wilson ordenou que o tradicional sinal de "aplausos" não fosse aceso), mas também nos bastidores, onde os atordoados e chocados elenco e equipa quase desapareceram.

“Quando andei nos bastidores, literalmente não havia um ser humano à vista”, lembrou O’Connor no livro. “Todas as portas se fecharam. Todo mundo desapareceu. Incluindo o meu próprio empresário, que se trancou no seu quarto por três dias e desligava-me o telefone.”

A própria O'Connor apareceria mais uma vez naquela noite, ao lado de Robbins e a sua agora esquecida camiseta nas boas-noites, enquanto as centrais telefónicas da NBC se iluminavam com católicos indignados e outros condenando o que consideravam um ataque não provocado a um líder religioso mundial. Várias semanas depois, quando a cantora subiu ao palco de Nova York no concerto de homenagem no Madison Square Garden para comemorar o 30º aniversário de Bob Dylan na música, O'Connor mais uma vez abandonou seu planeado número de Dylan ("I Believe in You", do álbum de Dylan de 1979). Slow Train Coming, uma vez que ela foi recebida com uma enxurrada confusa e contínua de vaias e aplausos da enorme multidão. Com o colega concertista Kris Kristofferson (que havia apresentado O'Connor brilhantemente ao elogiar a sua coragem) emergindo dos bastidores para dizer à cantora: "Não deixe os bastardos te derrubarem", ela lançou uma a cappella "Guerra" mais uma vez, enquanto o público incessante tentava abafá-la.

De volta ao Saturday Night Live, a reação foi decididamente mista. O membro do elenco Phil Hartman foi ao The Late Show With David Letterman naquela semana para expressar descontentamento por O'Connor ter surpreendido todos no programa, o que ela certamente fez. (É impossível não sentir pena dos artistas Tim Robbins, Ellen Cleghorne, Melanie Hutsell e Rob Schneider, que tiveram que seguir a façanha de matar multidões de O'Connor num esboço chamado "Sweet Jimmy: The World's Nicest Pimp".) No entanto, Michaels ele mesmo não apenas permitiu que ela voltasse ao palco para acenar boa noite para a multidão ainda atordoada, mas também depois chamou a ação de O'Connor de "a coisa mais corajosa possível que ela poderia fazer", citando sua conturbada história pessoal com abuso infantil e o encobrimento sistémico pela igreja de abuso sexual por seu clero, algo que o católico criado O'Connor sabia sobre tudo muito intimamente.

Ainda assim, o Saturday Night Live também permitiu uma refutação particularmente feia às ações de O'Connor no programa seguinte, quando o apresentador e colega católico Joe Pesci não apenas remontou as peças reunidas da foto ofensiva (justo), mas prometeu que, se ele tivesse sido na assistência na semana anterior, ele teria dado à jovem “uma tal bofetada”. Então, vários meses depois, a convidada musical Madonna (que condenou publicamente O'Connor, até zombando da aparência da cantora de cabeça raspada), repetiu a façanha citando o apelo de O'Connor para "lutar contra o verdadeiro inimigo", enquanto rasgava um foto do notório adúltero de Long Island e futuro cameo-maker de Saturday Night Joey Buttafuoco.

Nos anos seguintes, a estrela do SNL, Jan Hooks, usava intermitentemente um boné careca e sotaque irlandês para representar O'Connor no programa, embora esses esboços se concentrassem mais na reputação da cantora como uma mulher franca - embora ocasionalmente sem humor e estridente - do que no SNL. 

Enquanto isso, protestos, ameaças de morte e shows cancelados seguiram o rasto da cantora, com um golpe publicitário anti-O'Connor no Times Square vendo uma escavadeira achatando uma pilha dos seus discos. A outrora cantora no topo das paradas nunca recuperou verdadeiramente uma posição nas músicas de  sucesso norte-americanas.

Ainda gravando hoje aos 55 anos, O'Connor encontrou sucesso contínuo noutros países, mesmo com sua longa e histórica história de problemas pessoais e mentais atormentando a estrela problemática, incluindo a chocante morte por suicídio de seu filho Shane em janeiro de 2022. Quanto a  alegação de O'Connor de que a Igreja Católica e o Papa João Paulo II foram responsáveis por permitir incontáveis ofensas contra crianças na Irlanda e em todo o mundo, bem, a história justificou pelo menos as acusações então tabus que a jovem cantora fez ao vivo na TV norte-americana, mesmo se o dano à sua carreira ainda persiste.

quarta-feira, 28 de junho de 2023

Suécia autoriza queima do Corão no exterior de uma mesquita

Salwan Momika afirmou que pretendia criticar o Islão, antes de incendiar o exemplar do livro religioso

O protesto contou com a participação de cerca de duas centenas de pessoas e uma forte presença policial.

Não se registaram incidentes, embora a polícia tenha detido uma pessoa por ter uma pedra na mão, segundo a agência espanhola EFE.

Salwan Momika afirmou que pretendia criticar o Islão, antes de incendiar o exemplar do livro religioso, informou o tablóide Aftonbladet na sua edição 'online'.

O protesto teve lugar num dia em que os crentes muçulmanos de todo o mundo celebram o Aïd al-Adha, ou festa do sacrifício.

A queima de um exemplar do Corão em frente à embaixada turca, em janeiro, pelo direitista sueco-dinamarquês Rasmus Paludan, provocou uma onda de protestos em vários países, incluindo na Turquia.

As autoridades de Ancara continuam a bloquear a ratificação da adesão da Suécia à NATO, aprovada há um ano na cimeira de Madrid.

Em fevereiro, a polícia sueca recusou autorizar duas petições de queima do Corão, alegando riscos de segurança para a Suécia, mas os tribunais rejeitaram esse argumento em várias ocasiões nos meses seguintes.

"Os problemas de segurança e ordem a que a polícia se refere não estão suficientemente ligados às reuniões planeadas para recusar a autorização", afirmou um tribunal administrativo de recurso numa decisão do início deste mês.

O primeiro-ministro sueco, Ulf Kristersson, qualificou o ato de hoje como uma provocação e admitiu que era "legal, mas não adequado".

"Não tenciono dar aos provocadores a atenção que pretendem. Eles querem provocar e ofender os outros", afirmou Kristersson.

"O meu objetivo é que a Suécia adira à NATO o mais rapidamente possível, porque é importante para a segurança sueca e para a segurança da nossa região", acrescentou.

Na sequência da invasão russa da Ucrânia, em 24 de fevereiro de 2022, a Suécia e a Finlândia puseram termo a uma política histórica de não-alinhamento militar e pediram a adesão à NATO.

As candidaturas dos dois países nórdicos foram aceites na cimeira de Madrid, há um ano, após um acordo de última hora com Ancara para levantar o veto turco.

A Finlândia tornou-se o 31.º membro da Aliança Atlântica no início de abril, mas a Suécia ainda está à espera de ultrapassar a relutância turca e húngara.

A Hungria acusa a Suécia de lhe ser hostil no seio da União Europeia (UE) e a Turquia critica Estocolmo por não extraditar pessoas que considera terroristas, especialmente do Partido dos Trabalhadores do Curdistão.

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domingo, 4 de junho de 2023

Dunja Mijatović denuncia aumento da “repressão, criminalização e estigmatização” de protestos ambientalistas na Europa


Numa altura em que a agudeza das crises planetárias – alterações climáticas, poluição e perda de biodiversidade – está a levar muitos na Europa às ruas em protestos que exigem mudança e responsabilização, aumentam os casos de “repressão, criminalização e estigmatização” dessas demonstrações em defesa do planeta.

Quem o diz é Dunja Mijatović, comissária do Conselho da Europa para os Direitos Humanos. Num texto publicado esta sexta-feira no portal online dessa organização multilateral com 46 Estados-membros, incluindo países da União Europeia (mas não só), como Portugal.

Lembrando que “a Europa tem um rico historial de ativismo ambiental e de ação climática” sob várias formas, como greves estudantis, marchas, petições públicas e litigação, Mijatović afirma que, ao longo dos últimos anos, sentimentos de impotência e a perceção de que os governos não estão a fazer o que deviam para responder à “iminente catástrofe climática” têm mobilizado as populações, ou parte delas, para ações de protesto, sobretudo os mais jovens, que reivindicam os espaços públicos para dar voz à Terra.

Do reportório de protesto constam, entre muitas outras táticas, o bloqueio de rodovias, a interrupção de eventos públicos, destruição de obras de Arte e a ocupação de locais culturais, como museus e galerias. Descrevendo essas práticas como sendo, na sua maioria, formas de “ação direta ambientalista não-violenta”, a comissária diz que “o número, a escala e a variedade de formas de protesto público por defensores e ativistas ambientais” tem crescido. E com isso, as reações violentas por parte das autoridades.

“Em muitos locais na Europa, [os protestos] enfrentam ação repressiva”, alerta Mijatović, como violência física, detenções “por vezes, preventivas”, e “a criminalização dos manifestantes”. E lembra que, recentemente, “manifestantes ambientais pacíficos” foram atingidos com gás-pimenta na Áustria, agredidos pela polícia de intervenção em França e dispersados pelas autoridades policiais na Geórgia. Além disso, acrescenta, ativistas e manifestantes foram detidos na Finlândia, nos Países Baixos e na Sérvia, entre vários outros casos.

E deixou críticas ao Reino Unido por querer restringir os direitos aos protestos públicos, conferindo maiores poderes às autoridades policiais para dispersarem os manifestantes.

No artigo, Dunja Mijatović confessa “preocupação” com “a diminuição do espaço para a liberdade de associação pacífica” e com “as ameaças enfrentadas pelo ativismo ambiental na Europa”, alertando que “esta tendência de repressão parece continuar a intensificar-se”.

A comissária argumenta que “a violência contra participantes pacíficos de protestos ambientais (…) não pode ser tolerada” e que “as autoridades públicas têm a obrigação legal de proteger os manifestantes ambientais pacíficos”.

“Criminalizar, silenciar ou afastar os manifestantes ambientais não apenas viola o seu direito humano à associação pacífica”, explica, como também é “contraprodutivo”, uma vez que “a repressão apenas alimentará a sua frustração e fortalecerá a sua determinação”, e poderá pôr em causa a credibilidade das próprias instituições democráticas.

Por isso, ao invés de abordagens de confronto e repressão, Mijatović apela “urgentemente” a um “diálogo social mais genuíno e de qualidade sobre questões ambientais, incluindo formas de responder às alterações climáticas”, defendendo uma maior abertura e participação nos processos de tomada de decisão e em projetos relacionados com o ambiente.

E deixou uma mensagem contundente: os protestos pacíficos em prol do planeta “nunca devem ser classificados como atividades ilegais”, ou como terrorismo, sentenciando que essas pessoas fazem parte de uma “longa e inspiradora tradição” de defensores dos direitos humanos e liberdades que hoje gozamos.

Aqueles que dão voz às preocupações ambientais “merecem a nossa simpatia e apoio – não repressão ou ressentimento”, frisou.

sexta-feira, 2 de junho de 2023

O movimento que esvazia pneus de veículos SUV já chegou a Portugal, mas PSP diz que ação “não é crime”


O movimento internacional Tyre Extinguishers, que se dedica a esvaziar pneus de veículos SUV e 4x4, chegou a Portugal, mas, até ao momento, ainda nenhuma queixa foi apresentada às autoridades. PSP admite existência destas situações, mas afasta cenário de crime

Os donos de veículos SUV e 4×4 em Portugal andam alarmados, depois de confirmada a informação de que o movimento internacional Tyre Extinguishers (os “exterminadores de pneus”, numa tradução livre) tinha chegado ao país e feito as primeiras “vítimas”.

O movimento reclamou, na manhã desta quinta-feira, no Twitter, a autoria desta “primeira ação” em Portugal, que terá ocorrido na madrugada da passada quarta-feira, sendo depois largamente divulgada e partilhada nas redes sociais, ao longo das últimas horas.

Os Tyre Extinguishers apresentam-se no seu site como ativistas que querem acabar com estes veículos “poluentes”, “massivos” e “desnecessários” – assim os descrevem – nas áreas urbanas do mundo inteiro. E até têm uma “lista negra” de marcas e modelos.

Criado no Reino Unido, em março de 2022 – com presença confirmada, até aqui, em países como Alemanha, Áustria, Canadá, Estados Unidos da América, França, Nova Zelândia, Suécia e Suíça –, este movimento foi o autor daquilo que designou como “a maior ação de sempre contra os SUV”, quando, na madrugada de 29 de novembro do ano passado, 900 donos destes veículos de oito países acordaram com os pneus esvaziados. “Esvaziamos os pneus destes veículos massivos e desnecessários, causando inconvenientes aos seus donos”, apresentaram-se, na altura, justificando esta tomada de posição porque “os governos e políticos falharam em proteger-nos destes veículos”.

Na ocasião, não houve registo de qualquer incidente do género em Portugal.

“[Ações] não são crime”, explica a PSP

Em cada “ataque”, os ativistas deixam uma mensagem presa ao pára-brisas do veículo, intitulada “Atenção – o teu sugador de gasolina mata”. “Esvaziámos um ou mais dos teus pneus. Vais sentir raiva, mas não leves isto pessoalmente. Não és tu. É o teu carro”, lê-se na nota. A explicação surge logo de seguida: “Fizemos isto porque conduzir este veículo gigante em áreas urbanas tem consequências imensas para as outras pessoas”.

“Não terás dificuldade em mover-te sem o teu [SIC] sugador de gasolina, seja a pé, de bicicleta ou de transportes públicos”, sugerem, não poupando sequer os veículos elétricos e híbridos. “Estes [os SUV elétricos e híbridos] não deixam de ser poluentes, perigosos e causadores de congestionamento”, garantem.

Questionada pela VISÃO, a PSP refere, em comunicado, que ainda “não foi registada [nenhuma] denúncia formal decorrente desta situação”, embora admita a existência de casos destes em Portugal. Por outro lado, a polícia explica que esta ação dos Tyre Extinguishers não é um crime. “Os casos conhecidos deste tipo de ativismo em Portugal tem revestido o ato de esvaziar os pneumáticos de viaturas, sem os inutilizar ou danificar, pelo que não constitui necessariamente um crime, nomeadamente de dano”, esclarece o comunicado.

Ainda assim, a PSP alerta que o esvaziamento de pneus “poderá dar origem ou contribuir para a ocorrência de sinistros rodoviários, caso o utilizador do veículo não note o estado e inicie a marcha”. “Qualquer cidadão que detete outros a realizar estes atos deve alertar de imediato a esquadra da PSP mais próxima”, alerta.

A nota termina com o apelo a todos os cidadãos “para que qualquer forma de protesto siga as normas legais em vigor e seja concretizada sem originar (ainda que potencialmente) situações de risco, para os próprios ou para outros cidadãos”.

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sábado, 11 de março de 2023

"A necropolítica é deixar morrer para manter viva uma economia predatória”. Entrevista com Eduardo Gudynas


Aos 63 anos, Eduardo Gudynas (Montevidéu, Uruguai, 1960) é o mais jovem da lista dos 75 principais pensadores dos últimos 150 anos sobre questões ligadas ao desenvolvimento elaborada pelo geógrafo David Simon, da Universidade de Londres. Há apenas oito latino-americanos na lista. Como pesquisador do Centro Latino-Americano de Ecologia Social (CLAES), disciplina na qual é mestre, acompanha há mais de três décadas os problemas do desenvolvimento, do meio ambiente e dos movimentos sociais na América Latina, tendo escrito vários livros sobre esses temas.

Suas publicações mais recentes são uma avaliação das violações dos direitos humanos e da natureza no extrativismo na Bolívia e uma análise dos impactos da guerra na Ucrânia na ecologia política da América Latina. Além disso, colabora com organizações cidadãs sul-americanas e com instituições universitárias.

Apesar de centrar seus estudos em seu continente natal, Gudynas foi o primeiro latino-americano a receber a Cátedra Arne Naess em Meio Ambiente e Justiça Global da Universidade de Oslo (Noruega); também é pesquisador do Centro de Estudos Avançados da Universidade de Munique (Alemanha) e recentemente passou a integrar a Comissão para a Transformação da Economia Global do Clube de Roma.

Aqui conversamos com ele sobre conflitos socioambientais, direitos da natureza e política.
Eis a entrevista.

Vamos falar sobre os conflitos socioambientais. Como eles ocorrem?
São disputas com componentes sociais onde as demandas ecológicas ou territoriais têm grande relevância. Incluem, por exemplo, protestos de comunidades locais contra projetos de mineração ou petróleo. As manifestações cidadãs que incorporam questões ambientais e territoriais têm uma longa história.

Lembro-me, por exemplo, da primeira grande marcha indígena na Bolívia, cujo slogan era território e dignidade, e isso ocorreu em 1990. Nessa mobilização, estavam presentes ingredientes sociais, ambientais e territoriais. Embora em relatos históricos de conflitos contra a mineração dos inícios do século XX esses componentes já estivessem presentes.

O que diferencia o conceito de território para os povos originários de como é entendido pelo senso comum tradicional? Como tudo isso se expressa na prática?
O território é uma construção social, é definido pelas vivências, histórias ou religiosidades, por exemplo, de comunidades camponesas ou indígenas. O que encontramos ouvindo, acompanhando ou participando de alguns conflitos é a defesa de um espaço geográfico considerado como próprio. Essa condição é chamada de território. Portanto, espaço ou geografia não são sinônimos de território, e em uma mesma região podem coexistir múltiplos territórios, inclusive sobrepostos entre si.

Há uma semelhança nos conflitos socioambientais?
A importância de acompanhar e ouvir as comunidades locais é que fica claro que existem muitos tipos de conflitos. Entre os mais visíveis estão aqueles que são uma reação às ameaças à saúde, à integridade do meio ambiente ou à usurpação de territórios considerados como próprios. Ali estão enraizados os protestos tão comuns que existem contra as mineradoras ou as petroleiras.

Mas também há conflitos onde o que está em disputa é uma indenização em dinheiro ou obras de infraestrutura, como um posto de saúde local ou um equipamento escolar. Não existe uma oposição frontal à chegada, digamos de uma mineradora, mas a luta é para conseguir parte do benefício económico.

Ao mesmo tempo, existem conflitos que operam na direção contrária. São as mobilizações que reivindicam a chegada desse tipo de empreendimento, argumentando que trarão investimentos e empregos. Chega-se, assim, a situações muito complicadas, onde há disputas entre diferentes grupos de uma comunidade, sendo uns a favor e outros contra esses empreendimentos.

Que relação existe, em geral, entre os conflitos socioambientais e a ação política nacional?
Muitos conflitos têm estreita associação com os problemas e, especialmente, com as misérias da política convencional. Boa parte deles explode em consequência de decisões, ações ou omissões em políticas públicas tomadas pelos Estados, como concessões feitas a mineradoras ou petroleiras. Em outros casos, há um Estado ausente e cúmplice, que falha em controlar e monitorar os efeitos da agricultura intensiva.

Muitas dessas disputas estão associadas à corrupção e aos crescentes níveis de violência, onde a política participa de múltiplas formas dessas mazelas. Os casos extremos estão no assassinato de defensores de direitos humanos ou ambientais em diferentes países, com as situações mais graves, por exemplo, no Brasil e na Colômbia.

O que exatamente está acontecendo?
O que acontece em muitos países é que as concessões de mineração ou de petróleo, ou as licenças para expansão agrícola são expedidas nas capitais para áreas que os técnicos acreditam estar vazias, que não são de ninguém, ou que, embora saibam que estão ocupadas, não consideram relevantes para os grupos locais. Dessa forma, o território de uma comunidade indígena de repente se encontra dentro de um polígono de petróleo e, logo depois, chegam militares, trabalhadores e técnicos para invadir suas terras. Isso torna inevitável o surgimento de um conflito.

Como reconhecemos nessas situações a herança colonial?
A herança colonial está presente de várias formas. A política convencional, especialmente com aquele repetido viés latino-americano em direção ao caudilhismo, tem uma clara herança colonial. Mas, ao mesmo tempo, as condições econômicas também estão imersas em uma subordinação que tem muito de colonial. Isso é muito evidente nos extrativismos, pois são extrações em grande quantidade de recursos naturais que são exportados para mercados globais, repetindo uma inserção internacional secular baseada em matérias-primas. Atualmente, explica boa parte dos conflitos ambientais mais graves do continente que estão associados à apropriação de recursos naturais para exportação. É como se o vínculo colonial se mantivesse, mas vestido com outra roupagem, que, em vez de ser dirigido por reis e vice-reis, passa a ser decidido nas Bolsas.

E qual é, assim vista, a relação entre globalização e conflitos socioambientais?
A globalização determina uma relação na qual a região latino-americana tem um papel subordinado. Os preços dos bens naturais são determinados nos centros financeiros, como é o caso da cotação dos minerais em Londres ou dos agroalimentos em Chicago. Se o valor do cobre ou da soja aumenta, todos os países começam a procurar cobre ou a plantar soja. As condições globais são tão poderosas que determinam as estratégias nacionais de desenvolvimento.

E qual é o nível ou a intensidade desses fluxos de exportação de recursos naturais?
O volume de extração de recursos naturais é brutal. Penso que o nível que essa depredação da natureza atingiu está passando despercebido. Na década de 1960, foram exportados pouco mais de 200 milhões de toneladas de recursos naturais, como minerais, hidrocarbonetos e produtos agrícolas e florestais, etc. Em meados da década de 2010, eram exportados cerca de 700 milhões de toneladas. Ou seja, mais que triplicou, o que significa que cada recanto do continente está enfrentando problemas com esses extrativismos.

O ritmo, a intensidade e o volume de apropriação da natureza são vertiginosos. Portanto, não é de se estranhar que os conflitos e as resistências diante desse avanço se multipliquem. Dessa forma, as condições globais que determinam o comércio e os preços acabam impactando nesses conflitos.

E como podemos identificar/reconhecer a pressão desses interesses estrangeiros no desenvolvimento dos conflitos socioambientais?
Em alguns setores, os interesses estrangeiros são decisivos, como sabemos, por exemplo, pela atuação das grandes corporações mineradoras, ou pelos fundos de investimento do capitalismo global que investem seu dinheiro em todo tipo de projeto em nosso continente.

Mas deve ficar claro que a situação mudou muito. Na década de 1960, os principais destinos das exportações de matérias-primas latino-americanas eram os Estados Unidos, o Canadá e os países da Europa Ocidental. Nos últimos anos, o destino é principalmente a China e outros países asiáticos. Além disso, esses fluxos para a América do Norte foram drasticamente reduzidos e a China absorve mais de três vezes os recursos que são exportados para a União Europeia. Em muitos casos, a pressão sobre os nossos territórios e recursos depende cada vez mais das decisões do Partido Comunista Chinês em Pequim.

Que papel desempenham ali os atores económicos nacionais?
O que a experiência latino-americana mostra, e que está ficando bastante claro no continente, mas não tanto em outras regiões, é que a propriedade dos recursos naturais ou das empresas que os extraem e comercializam não condicionam ou garantem que sejam cumpridos os mandatos de justiça social e ecológica.

Os atores nacionais operam da mesma forma que os interesses estrangeiros. Temos os casos de conhecidas mineradoras de capital nacional, das cooperativas de mineradoras bolivianas que se apresentam inclusive como revolucionárias, e dezenas de milhares de agricultores lançados na agricultura intensiva baseada nos agroquímicos. Todos eles estão por trás de muitos conflitos socioambientais. E não podemos esconder o caso das petrolíferas estatais, que também provocam impactos sociais e ambientais de toda ordem.

Podemos relacionar os recentes conflitos sociais e as mobilizações populares no Chile, Colômbia, Peru e outros países latino-americanos com os conflitos socioambientais?
Estamos enfrentando disputas que têm alguns aspectos comuns, mas são muito diferentes entre si. Cada caso permite observar que as situações nacionais são diferentes e, embora existam fatores recorrentes, também existem particularidades próprias de cada país.

No caso do Chile, observou-se uma explosão popular generalizada, que se multiplicou em várias cidades, expressando cansaço com a política e o regime institucional nesse país.

Por outro lado, no Equador ocorreram levantes liderados por organizações indígenas, alimentados por mobilizações de comunidades rurais e o apoio de alguns setores populares urbanos. As reivindicações contra a mineração, por exemplo, estiveram presentes, mas esse tema não liderou essas mobilizações.

Os conflitos socioambientais não eram perceptíveis?
Sim, claro, eles estão presentes. Continuam a multiplicar-se as reações em defesa dos territórios e na exigência de garantir a qualidade de vida e a conservação da natureza em todos os lugares. O número de conflitos continua a aumentar, e em vários casos conseguem travar alguns empreendimentos muito prejudiciais, e que, por sua vez, se tornam um exemplo para outra comunidade, em outra região ou outro país, que também decide se mobilizar.

Você se refere à forma como os Estados assumem esses conflitos com o termo necropolítica.
A meu ver, estamos entrando em tempos de necropolítica. Tomo emprestado esse termo do filósofo camaronês Achille Mbembe, para estruturar uma reflexão que mostra que há uma aceitação da morte. Tolera-se que pessoas morram, ou definhem numa condição eterna de mortos-vivos mergulhados na pobreza e na exclusão, toleram-se as quadrilhas e os pistoleiros, e tolera-se que as florestas sejam derrubadas e as águas poluídas.

Essa aceitação explica por que personagens repulsivos como Jair Bolsonaro puderam conquistar um governo. A mesma coisa está acontecendo agora no Peru, onde a presidência e o congresso se mantêm graças a uma sucessão de mortes e repressões. Esse deixar morrer consolidou-se durante a longa crise provocada pela pandemia. A necropolítica é deixar morrer, mas para manter vivo um tipo de economia predatória.

Os conflitos que eclodem na resistência aos extrativismos são uma das frentes de oposição a essa indiferença à morte e, ao mesmo tempo, são elas que alimentam as chamas de alternativas voltadas para a vida.

Num sentido mais político, como devemos propor alternativas locais, regionais e, finalmente, globais, às ameaças contra a natureza?
Surgiram inovações incríveis, especialmente na América do Sul. O reconhecimento dos direitos da natureza é um avanço substancial, especialmente sob a formulação alcançada no Equador. Essa estrutura permite acolher as tradições dos povos indígenas, bem como as posições críticas do conhecimento ocidental, e articulá-las para reconhecer os não humanos com seus valores intrínsecos.

O mesmo aconteceu com a plataforma do Bem Viver em suas acepções originais, pois é uma construção crítica ao desenvolvimento convencional, mas que lança alternativas ao mesmo tempo pós-capitalistas e pós-socialistas.

Essas e outras posições alcançaram um vigor extraordinário, e por isso foram inclusive formalizadas na Constituição equatoriana. Essa demanda é muito forte na América Latina.

Como isso se traduziu em políticas públicas?
Muitas dessas ideias foram utilizadas para propor novas políticas públicas. Quando se entende que os direitos da natureza impossibilitam a aprovação de novas explorações de petróleo na Amazónia por seus impactos sobre a biodiversidade, os solos e a água, imediatamente surgem desafios para as políticas públicas. A pergunta imediata é como projetar uma transição pós-petróleo que nos permita abandonar os hidrocarbonetos.

Com base nesse tipo de preocupação, foram desenhadas as chamadas transições pós-extrativistas. Elas podem ser descritas como planos de ação, com medidas que vão desde novas regulamentações até mudanças nos impostos, que seriam aplicadas se estivéssemos no comando de um governo que pretende caminhar para o Bem Viver. A experiência sul-americana, com todas as suas conquistas, mas também com suas derrotas, possibilita a construção de verdadeiros planos de governo e de ação muito sofisticados em várias frentes.

Que balanço faz? Qual é o horizonte dessas alternativas?
O atual ritmo e intensidade na apropriação dos recursos naturais só pode ser mantido com o aumento dos níveis de violência e sob condições de pobreza. Se houvessem avaliações socioambientais adequadas, se as comunidades locais fossem informadas e consultadas, a maioria dos projetos extrativistas atuais não seria aprovada.

Mas os conflitos locais se multiplicam e, enquanto isso, as maiorias, que estão nas cidades, parecem ter naturalizado a destruição da natureza, permitem que os povos indígenas sejam encurralados e os camponeses marginalizados. O que quero dizer é que há muitas reações e protestos, mas ainda são insuficientes, porque os governos e a política persistem nas mesmas estratégias, e o fazem porque têm importantes bases de apoio dos cidadãos.

Nesse contexto, o que entendemos por direitos da natureza?
Os seres humanos assumem-se como sujeitos, e nessa condição seus direitos são reconhecidos. Nisso consiste a condição determinante dos direitos das pessoas em seus usos contemporâneos.

Devido a determinadas sensibilidades e posturas entende-se que na vida não humana também há sujeitos. Uma vez que essa condição é compreendida, os direitos devem ser automaticamente reconhecidos.

Foi o que se discutiu no processo constituinte do Equador, que culminou com o reconhecimento dos direitos da natureza. A nova Constituição assim os reconhece, e coloca como sujeito os grupos onde a vida se baseia, como uma espécie. Isso também é importante porque serve para nos lembrar que os direitos da natureza não são iguais aos chamados direitos dos animais, nem que impõem um ambiente intocado onde nada pode ser cultivado ou extraído. Esses direitos permitem o uso da natureza desde que seja assegurada a sua sobrevivência.

Paralelamente aos direitos da natureza, mantêm-se os direitos humanos, inclusive os que envolvem a garantia da saúde e da qualidade do ambiente.

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