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sábado, 23 de maio de 2026

Katerina Papadopoulou - Notio Toxo ft. Chariton Charitonidis


No álbum Notio Toxo (Νότιο Τόξο), lançado pela conceituada cantora de música tradicional grega Katerina Papadopoulou em colaboração com Chariton Charitonidis, a expressão que dá título à obra significa literalmente "Arco do Sul". Neste trabalho, o termo não é apenas uma referência geográfica, mas sim o conceito central e o fio condutor de toda a narrativa musical.

Em termos geográficos e culturais, o Arco do Sul refere-se à rota marítima que engloba as ilhas do sul da Grécia e do Mar Egeu, ligando regiões como Creta, o Dodecaneso e as Cíclades. Historicamente, esta zona funcionou como uma ponte crucial de partilha cultural entre o Ocidente e o Oriente, desenvolvendo uma identidade muito própria e rica.

No plano artístico, os músicos transformam este contorno geográfico numa metáfora para batizar o álbum. A obra funciona como uma verdadeira viagem de navegação, onde cada faixa explora as tradições musicais, os ritmos e as histórias destas ilhas do sul. Através de instrumentos tradicionais como a lira e o alaúde, o álbum resgata a memória dos marinheiros, os sentimentos de saudade e as celebrações destas comunidades piscatórias. Em suma, ao dar o nome de Notio Toxo ao álbum, Katerina Papadopoulou quis criar um mapa sonoro que celebra a alma, a luz e o património cultural do sul do Egeu, unindo o passado da música tradicional ao presente.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Entrevista a Gary Snyder - aos 92 anos


Snyder enfatiza que os seres humanos perderam a conexão com o local onde vivem. Ele defende que devemos conhecer intimamente a nossa "bacia hidrográfica" (watershed): quais plantas crescem ali, de onde vem a água, quais animais habitam à sua volta. Para ele, a ecologia não é um conceito abstrato, mas a prática de se tornar um "nativo" do lugar onde se pisa.

Ele discute sua longa permanência no Japão e como o Zen-Budismo moldou sua visão de mundo. Snyder explica que a prática espiritual não está separada do trabalho físico (como cortar lenha ou cuidar da terra). Ele vê a natureza como um "sangha" (comunidade espiritual) expandido, onde todos os seres vivos têm dignidade.

A conversa toca na importância de comunidades pequenas e autossustentáveis. Snyder acredita que a resistência contra a destruição ecológica começa na escala local, através do fortalecimento dos laços comunitários e da educação das novas gerações sobre o valor do seu ecossistema imediato.

Rússia, Ucrânia e a Europa

Putin tem de compreender que não é a reencarnação de Alexandre Nevsky, nem o guardião mítico de uma fortaleza sitiada por inimigos medievais. A história não se repete sob a forma de epopeia defensiva permanente, e o século XXI não é um campo de batalha contra mongóis, suecos ou hordas napoleónicas. O terror nazi pertence ao passado histórico europeu, por mais traumático que tenha sido, e a Pátria russa não está hoje sob ameaça existencial.
Os russos têm de reconhecer que existe algo chamado direito internacional, construído precisamente para impedir que os traumas históricos se transformem em guerras preventivas. As fronteiras reconhecidas dos Estados não são sugestões geográficas: são garantias jurídicas da estabilidade global. A sua violação não é acto defensivo; é ruptura da ordem internacional.
Mas também os europeus têm responsabilidades. Devem compreender que os povos da grande mãe Rússia carregam traumas históricos profundos — invasões, cercos, devastação — que moldaram uma cultura estratégica de suspeita e defesa. Ignorar essa memória colectiva é um erro político. A estabilidade exige não apenas firmeza jurídica, mas também inteligência estratégica e capacidade de reduzir percepções de ameaça.
Nesse sentido, a Europa deve agir com prudência, evitando transformar a segurança do continente numa escalada permanente de blocos militares. Segurança não se constrói apenas com expansão de alianças, mas com arquitectura de confiança e previsibilidade.
Por fim, importa sublinhar que eventuais problemas internos da Ucrânia — incluindo fenómenos políticos extremistas — pertencem à esfera soberana dos ucranianos. Nenhum país pode invocar fragilidades internas de outro como pretexto para intervenção armada. A autodeterminação não é selectiva.
Seria tão simples — se a história não fosse permanentemente instrumentalizada, e se o medo deixasse de ser argumento.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Juan José Millás - Que Ninguém Durma


Este romance de Juan José Millás, escrito em 2018, recebeu merecidamente  o Prémio Leyenda 2020.  Inicialmente fez-me sentir como um estranho naquilo que considerava a minha casa. Porque, sim, a escrita deste autor valenciano é para mim uma espécie de refúgio onde me sinto confortável e em casa há muitos anos. Cada vez que leio um dos seus romances, sinto-me reconfortado, como alguém que entra no quarto onde passou a infância depois de se mudar.

Então, abri a porta (a primeira página) e perguntei-me: quem mexeu nas minhas coisas? Por um instante, tudo pareceu diferente, mas, felizmente, essa sensação não durou muito. É verdade que a história se passa principalmente no táxi de Lucía e, para mim esse meio de transporte não utilizo com muita frequência; no entanto, logo me senti à vontade com a história novamente, pois comecei a vislumbrar, nas minúcias das frases, as peculiaridades da prosa de Millás.

O romance começa quando a protagonista, Lucía, perde o emprego de programadora. Naquele dia, ela volta para casa num horário incomum. O seu prédio parece diferente do habitual, talvez por ela ter voltado num horário tão atípico, no meio da manhã de um dia de semana. Quem trabalha reconhecerá essa sensação: as mesmas ruas familiares parecem diferentes nos horários em que as pessoas normalmente estão a trabalhar. Uma sensação muito curiosa. Enfim, Lucía está no seu apartamento, pensando no que fará da vida a partir daquele momento. Ela acaba de ser demitida, e não esperava por isso. Está sozinha e não parece ter nenhum relacionamento próximo com ninguém. Ela mora sozinha e enfrenta esse novo problema sozinha.

Em casa, ela ouve através de uma claraboia que um de seus vizinhos está a ouvindo ópera. Os acordes de "Nessun dorma  ", de Puccini, chegam até ela abafados pela distância, mas duas coisas acontecem: primeiro, despertam algo dentro dela e aguçam um novo interesse em conhecer esse vizinho amante de ópera; e segundo, como consequência do primeiro, dão a ela um novo propósito. Se esperávamos que a história fosse sobre Lucía conhecendo seu vizinho e seguindo um caminho convencional, estávamos muito enganados. Ela chega a conhecer o vizinho, brevemente e de forma muito superficial, mas logo depois ele se muda e ela o perde de vista. O seu interesse em conhecê-lo se transformará num interesse em encontrar esse vizinho, que está em algum lugar de Madrid.

Lucía, cuja vida até então fora guiada pela racionalidade e pelo mundo objectivo dos computadores, toma diversas decisões: torna-se taxista e percorre as ruas de Madrid (ou talvez Pequim?), na esperança de um dia encontrar aquele vizinho que ouvia Puccini. Como resultado, ela se envolve cada vez mais na fantasia de Nessun Dorma : toca a ópera no seu táxi, veste-se de Turandot, a princesa da ópera, e mistura fantasia e realidade enquanto persegue o  seu objectivo, encontrando diferentes pessoas e situações ao longo do caminho.

A realidade torna-se difusa e subjetiva à medida que a narrativa se desenrola. As memórias de infância de Lucía entrelaçam-se com o seu presente, e ela tenta embelezar o seu presente (que, refletindo bem, é bastante sombrio e solitário) com várias fantasias. O passado reforça essas fantasias, e nunca sabemos ao certo se as memórias que ela evoca — recordações quase oníricas da sua mãe, o incidente com o pássaro, a frase "Algo vai acontecer") têm algum fundamento na realidade. Mas isso não importa, porque a mistura de realidade e ficção, a dicotomia Madrid/Pequim, vida/ópera, funciona bem, e o livro é simultaneamente fácil e envolvente de ler.

Adorei como Millás gradualmente confunde a realidade, como usa motivos da ópera de Puccini, os humanos-pássaro e os mapas sobrepostos de Madrid e Pequim para nos atrair para o mundo instável onde a protagonista vagueia, de mãos dadas com as suas obsessões, seus desejos, sua ânsia de se reinventar e desafiar as convenções sociais e, não podemos esquecer, a sua profunda solidão. 

Comecei a lê-lo compulsivamente e gostei imenso. Permiti que a voz do protagonista entrasse na minha mente, brincasse comigo. Assim absorto, cheguei às páginas finais, onde a última cena me deixou sem palavras. Aquela história era Millás. Era o meu quarto de infância. Era a fumaça de um cigarro esquecido. Era um táxi em que raramente eu ando, mas que parecia meu.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Lua e Melodias

"Na quietude da noite,
a Lua respira antiga sabedoria.
Entre os seus véus de prata,
canta melodias que só o silêncio entende.
O vento, monge errante,
percorre florestas como quem recita sutras.
Cada folha que vibra
é um sino despertando o agora.
Somos poeira luminosa,
um breve brilho na imensidão.
Mas, ao tocarmos a Terra com gentileza,
ela nos devolve eternidade.
A ecologia profunda nos sussurra
que nada vive sozinho — nem sonhos,
nem rios, nem pássaros, nem pedras, livros da Terra
E ambos os astros
dançam no mesmo tecido que nos tece.
E assim seguimos,
pequenos e vastos,
escutando o universo pulsar dentro de nós:
um coração que se inclina,
em reverência,
à delicada música de existir."
Joao Soares 26.11.2025

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Robert Pereira Hind


Robert Pereira Hind é um artista visual e fotógrafo britânico, nascido em 1965 na cidade de Bolton, Inglaterra. Com uma sólida formação acadêmica, obteve seu bacharelado e mestrado em Fotografia pelo prestigiado London College of Communication nos anos 90. Após uma carreira de mais de duas décadas consolidada no setor comercial e editorial — onde trabalhou como fotógrafo de cena para grandes produções de cinema e televisão — ele redirecionou seu foco criativo para as belas-artes, estabelecendo seu estúdio em Edimburgo, na Escócia.

Sua obra é definida por uma fusão técnica e estética entre a fotografia contemporânea e métodos ancestrais de douração. O tema central de seu trabalho é a elevação de elementos da natureza, especialmente árvores e espécimes botânicos, ao status de ícones sagrados. Inspirado pela iconografia bizantina, pelo barroco italiano e por figuras religiosas douradas do Oriente, Hind isola silhuetas naturais de seu contexto original e as sobrepõe a fundos de folha de ouro de 24 quilates ou folhas de metal tratadas.

Este processo resulta em peças que transcendem a fotografia convencional, tornando-se objetos tridimensionais que interagem dinamicamente com a luz do ambiente. Um ponto fundamental de sua filosofia artística é a aceitação da imperfeição e da passagem do tempo; ao finalizar as suas obras com vernizes orgânicos como o shellac, ele permite que o metal oxide e mude de tonalidade ao longo das décadas. Assim, a obra de Robert Pereira Hind não é estática, mas um organismo visual que envelhece e ganha pátina, celebrando a beleza da natureza sob uma perspectiva atemporal e quase mística.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Há 40 anos, John Lennon morreu para viver para sempre. A minha escolha.


Tomorrow Never Knows

Turn off your mind, relax and float downstream
It is not dying
It is not dying

Lay down all thoughts, surrender to the void
It is shining
It is shining

That you may see the meaning of within
It is being
It is being

That love is all and love is everyone
It is knowing
It is knowing

That ignorance and hate may mourn the dead
It is believing
It is believing

But listen to the colour of your dreams
It is not living
It is not living

Or play the Game Existence to the end
Of the beginning

A letra de "Tomorrow Never Knows", dos Beatles, convida o ouvinte a uma experiência de desapego e expansão da consciência, inspirada pelo livro "The Psychedelic Experience" e pelo "Livro Tibetano dos Mortos". Logo no início, o verso “Turn off your mind, relax and float downstream” (Desligue sua mente, relaxe e deixe-se levar pela correnteza) propõe não uma fuga da realidade, mas um mergulho em um estado mental onde o ego se dissolve. A ideia de "morte" aqui não é literal, mas representa a transformação interna e o abandono das limitações do eu, conceito central nas práticas espirituais orientais e nas obras que influenciaram John Lennon. A repetição de “It is not dying” (Não é morrer) reforça essa noção de mudança interior, e não de fim físico.

A canção também aborda temas como amor universal e rejeição ao materialismo, evidentes em “That love is all and love is everyone” (Que o amor é tudo e o amor é todos), destacando a busca por significado interior e a valorização da espiritualidade. O verso “But listen to the colour of your dreams” (Mas ouça a cor dos seus sonhos) traz uma metáfora sensorial típica das experiências psicodélicas, sugerindo que a percepção pode ir além dos sentidos tradicionais. O título, criado espontaneamente por Ringo Starr, reforça a ideia de que o futuro é incerto e que o essencial é viver o presente com mente aberta. Por fim, a estrutura circular da música, marcada pela repetição de “Of the beginning” (Do começo), sugere que a existência é um ciclo contínuo, sem fim definitivo, apenas novos começos.

sábado, 26 de novembro de 2022

A Etiópia, onde o Ocidente mantem os olhos


Lindíssimo este tema. Zazou adaptou esta canção tradicional etíope, em memória de Arthur Rimbaud. Sublime e sedutora.
Aqui com a participação do cantor e nómada etíope Ketema Mekonnen . conhecido pelos seus temas no estilo tradicional e moderno, incluindo faixas populares como "Fano", "Bati", "Tizita" e "Shemonmuana". Com uma carreira que abrange vários sucessos, lançou recentemente o álbum Arada em 2025, com músicas como "Arada", "Ney Ney" e "Birtukane".
A Etiópia, onde o Ocidente mantem os olhos. Uma civilização muito antiga. Apaixonante.

domingo, 23 de outubro de 2022

Música do BioTerra: Azam Ali - O Vis Aeternitatis (12th century by Hildegard Von Bingen)


Latim

O Vis Aeternitatis
R. O vis eternitatis
que omnia ordinasti in corde tuo,
per Verbum tuum omnia creata sunt
sicut voluisti,
et ipsum Verbum tuum
induit carnem
in formatione illa
que educta est de Adam.

R. Et sic indumenta ipsius
a maximo dolore
abstersa sunt.

V. O quam magna est benignitas Salvatoris,
qui omnia liberavit
per incarnationem suam,
quam divinitas exspiravit
sine vinculo peccati.

R. Et sic indumenta ipsius
a maximo dolore
abstersa sunt.

Gloria Patri et Filio
et Spiritui sancto.

R. Et sic indumenta ipsius
a maximo dolore
abstersa sunt.

Tradução para Português

Ó força eterna
R. Ó força eterna,
que tudo ordenaste em teu coração,
por teu Verbo tudo foi criado,
como quiseste,
e o próprio Verbo
se revestiu de carne
naquela forma,
de que Adão foi gerado,

R. E assim sua veste
foi poupada
à máxima dor.

V. Ó grande é a benignidade do Salvador,
Que tudo libertou
por incarnação sua,
e a Divindade expirou
sem vínculo de pecado.

R. E assim sua veste
foi poupada
à máxima dor.

Glória ao Pai e ao Filho
e ao Espirito Santo.

R. E assim sua veste
foi poupada
à máxima dor.

Conheço profundamente o trabalho de Hildegard Von Bingen. Ela é fascinante. Somos todos humanos... O único erro de Hildegard Von Bingen é que ela condena o puro ensinamento de Cristo dos cátaros (recebido dos Bogomilos 1.000 anos depois de Cristo), o que leva à perda de seus discernimentos e revelações divinas, que ela recebeu inicialmente aos 42 anos, mas depois... por causa de críticas e condenação, ela morreu consumida pela dúvida e incredulidade.

sábado, 22 de maio de 2021

Xmal Deutschland - Orient


Als sie dich hängen steht die Sonne hoch
Steht die Sonne hoch

Orient...
Dein Körper ist kalt die Sonne ist heiss
Karawane holt deinen Körper

Orient...
Deine Haut ist weiss
Wie der Sand wie der Sand...

Orient...
Als sie dich hängen steht die Sonne hoch
Steht die Sonne hoch

Orient...
Dein Vater hört dein Schreien nicht
Deine Mutter sieht deine Augen nicht

Orient...

Tradução
Oriente
Conforme eles te penduram o Sol fica alto
O Sol fica alto

Oriente...
Caravanas seguram seu Corpo
O Sol é Quente, seu Corpo é frio

Oriente...
Sua Pele é branca
Como a Areia, como a Areia

Oriente...
Conforme eles te penduram/enforcam o Sol fica alto
O Sol fica alto

Oriente...
Seu pai não ouve seus gritos
Sua mãe não vê seus olhos

Oriente...

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Leonard Cohen - Happens to the Heart


Depois da deslumbrante “The Goal”, “Happens To The Heart” é a nova e lindíssima canção extraída de “Thanks For The Dance”. O álbum póstumo de Leonard Cohen, compilado e produzido pelo seu filho, chega dia 22 de Novembro.

Quando Leonard Cohen morreu em 2016, deixou-nos a imensa riqueza de uma vasta e luxuosa discografia. Essa riqueza irá ser aumentada. Dia 22 de Novembro é a data de chegada de um novo álbum póstumo, “Thanks For The Dance”. Depois da curta, mas deslumbrante canção “The Goal”, o primeiro single deste trabalho, estreou hoje a lindíssima “Happens To The Heart”.

A canção está acompanhada de vídeo realizado por Daniel Askill. Nele, seguimos uma figura, que pretende evocar o próprio Cohen, através de um bosque. No decorrer do vídeo descobrimos um jovem que se despe das roupas de Cohen e, ao encontrar um monge, assume roupas monásticas orientais, dirigindo-se então a um precipício onde se senta em meditação.

“Happens to the Heart é uma reflexão final de Leonard Cohen sobre a própria vida, unindo espiritualidade, memória, amor e mortalidade. A canção funciona como um testamento íntimo em que Cohen revisita diferentes versões de si mesmo — o monge zen, o poeta, o amante, o homem falho — e tenta compreender o que realmente acontece ao coração depois de tudo aquilo que nos forma e nos destrói. Ele fala da busca sincera pela iluminação e da constatação inevitável das próprias imperfeições, reconhecendo que, apesar de ter trilhado caminhos espirituais rigorosos, nunca conseguiu escapar totalmente do ego e da vaidade. O amor também surge como força central: ora ilumina, ora fere, deixando marcas que moldam o coração ao longo da vida. A pergunta repetida, “What happens to the heart?”, sintetiza a dúvida essencial do fim da vida: o que resta de nós quando as paixões, as ambições e as ilusões se esgotam? Escrito quando Cohen já estava muito doente, o poema-musical transmite um olhar terno e lúcido sobre as memórias, as falhas e o legado pessoal, revelando um homem que busca não respostas definitivas, mas aceitação.

“Thanks For The Dance” foi compilado e produzido por Adam Cohen, filho do cantor. O álbum conta com as participações de Feist, Beck, Damien Rice, Richard Reed Parry, Bryce Dessner (dos National) e Daniel Lanois, entre outros.

I was always working steady
But I never called it art
I was funding my depression
Meeting Jesus reading Marx
Sure it failed my little fire
But it's bright the dying spark
Go tell the young messiah
What happens to the heart

There’s a mist of summer kisses
Where I tried to double-park
The rivalry was vicious
And the women were in charge
It was nothing, it was business
But it left an ugly mark
So I’ve come here to revisit
What happens to the heart

I was selling holy trinkets
I was dressing kind of sharp
Had a pussy in the kitchen
And a panther in the yard
In the prison of the gifted
I was friendly with the guard
So I never had to witness
What happens to the heart

I should have seen it coming
You could say I wrote the chart
Just to look at her was trouble
It was trouble from the start
Sure we played a stunning couple
But I never liked the part
It ain’t pretty, it ain’t subtle
What happens to the heart

Now the angel’s got a fiddle
And the devil’s got a harp
Every soul is like a minnow
Every mind is like a shark
I've opened every window
But the house, the house is dark
Just say Uncle, then it's simple
What happens to the heart

I was always working steady
But I never called it art
The slaves were there already
The singers chained and charred
Now the arc of justice bending
And the injured soon to march
I lost my job defending
What happens to the heart

I studied with this beggar
He was filthy he was scarred
By the claws of many women
He had failed to disregard
No fable here no lesson
No singing meadow lark
Just a filthy beggar blessing
What happens to the heart

I was always working steady
But I never called it art
I could lift, but nothing heavy
Almost lost my union card
I was handy with a rifle
My father's 303
We fought for something final
Not the right to disagree

June 24, 2016

"Happens to the Heart" é uma meditação profunda e desiludida sobre o balanço final de uma vida dedicada à arte, ao espírito e ao desejo. Nesta canção, Leonard Cohen apresenta-se não como um mestre iluminado, mas como um sobrevivente exausto que, após percorrer todos os caminhos possíveis — a religião, a política, o sexo e a fama —, conclui que nada disto o poupou ao desgaste inevitável da existência.

A letra funciona como um inventário de máscaras que ele usou. Quando ele diz que "vendia quinquilharias sagradas" ou que "andava bem vestido", está a admitir, com uma ironia fina, que a sua imagem de poeta espiritual era também uma espécie de encenação. Ele descreve a sua busca por respostas (citando o encontro entre o sagrado de Jesus e o materialismo de Marx) como uma tentativa fútil de "financiar a depressão", sugerindo que as ideologias foram apenas distrações para uma dor interna que nunca desapareceu.

Um dos pontos centrais da música é a ideia da perda de inocência e a aceitação do fracasso. Cohen fala de um "mendigo imundo" com quem estudou, que foi incapaz de resistir às tentações das mulheres, servindo como um espelho do próprio Cohen: um homem que, apesar de procurar a transcendência, nunca deixou de ser escravo da sua natureza humana e dos seus apetites. Não há aqui uma lição moralista ou um final feliz; há apenas a constatação de que o coração, ao longo do tempo, é inevitavelmente marcado, endurecido e "ferido" pelas experiências.

O uso de termos como o "cartão do sindicato" ou o "rifle do pai" reforça a ideia de que ele encarou a vida e a escrita como um trabalho braçal, uma luta constante ("working steady"). No fim, a casa está escura e todas as janelas estão abertas, simbolizando um homem que já não tem segredos nem defesas. A canção é, em última análise, um gesto de rendição elegante. Cohen diz-nos que, independentemente do sucesso que alcancemos ou da sabedoria que acumulemos, o destino final é sempre o mesmo: a aceitação estóica do dano que a vida inflige ao coração.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Essential Teachings of Helena Blavatsky and Rudolf Steiner


Allen Pittman e Bryan Lynch fazem uma revisão dos ensinamentos essenciais de duas figuras históricas: Helena Blavatsky, fundadora da Sociedade Teosófica, especializada nos ensinamentos do Oriente (particularmente o budismo esotérico), e Rudolf Steiner, fundador da Antroposofia, especializado nos ensinamentos do Ocidente (particularmente o cristianismo esotérico). Ambos trabalharam em conjunto e separadamente para incorporar os ensinamentos da Nova Era.

Esta palestra foi apresentada à Rede de Fóruns GBH pela Sociedade Teosófica de Atlanta, uma loja local filiada na Sociedade Teosófica da América e na Sociedade Teosófica Internacional (Adyar). A Sociedade Teosófica é uma organização mundial fundada em Nova Iorque, a 17 de novembro de 1875. A Sociedade procura unir as pessoas; conciliar as religiões, as filosofias e as ciências do Oriente e do Ocidente; e aumentar a consciência da Realidade Interior presente em cada ser humano