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domingo, 19 de julho de 2026

A tecnocratização do erro: como o Marketing Político substituiu a resolução de problemas

Esta semana foi pródiga em sobressaltos sociopolíticos que nos impõem uma reflexão e ponderação, antes de irmos a banhos. A 'guerra da água' em Almada, o caos logístico nos exames motivado pelo outsourcing na Educação e o caso Luís Neves expuseram a erosão da legitimidade política pela perda de confiança, a tecnocratização do erro (transformar falhas políticas em meros 'problemas de comunicação') e a crise de credibilidade institucional.

No horizonte, desenha-se já o caminho para a destruição do Serviço Nacional de Saúde e, provavelmente, da Segurança Social.

Em todos os casos, o padrão repete-se: o erro estrutural é sistematicamente reduzido a um problema de comunicação, esvaziando o princípio da responsabilidade política e transformando a governação num permanente spin-off, onde a gestão da imagem pública substitui a resolução dos problemas reais.

A análise contemporânea da crise cívica
Este divórcio entre quem governa e quem é governado não constitui um exclusivo da nossa contemporaneidade, mas adquiriu uma sofisticação técnica sem precedentes históricos. Em 1973, quando Jürgen Habermas publicou Crise de Legitimidade, o pensamento político ocidental foi alertado para o facto de o Estado moderno ter assumido uma hipertrofia de responsabilidades administrativas que fatalmente ditaria a sua vulnerabilidade. Ao centralizar e tutelar a gestão direta de pilares como a instrução pública ou a segurança precípua, o poder político inevitavelmente politizou o quotidiano da sociedade civil. O reverso desta dinâmica apresenta-se de forma severa: sempre que as estruturas e as respostas falham na sua execução factual, a responsabilidade cai diretamente sobre a cúpula governativa, e não sobre a imprevisibilidade do sistema. Para mitigar esta fragilidade estrutural, as elites políticas contemporâneas ergueram uma barreira assente na tecnocratização e na gestão permanente da imagem mediática. Quando um modelo de avaliação escolar colapsa ou o percurso ético de um governante é fustigado por inconsistências, a máquina estatal reage através da redução do erro a um mero incidente técnico, a uma contingência organizacional ou a um problema de comunicação reativa. Esta degradação da substância democrática em favor do espetáculo - fenómeno que Bernard Manin teorizou como a Democracia de Público - esvazia o escrutínio factual e promove o isolamento cívico, induzindo o cidadão a uma retirada cínica para a esfera privada do consumo.

Esta alienação institucional acarreta profundas sequelas morais e psicológicas na comunidade. Axel Honneth, na sua obra fundacional Luta por Reconhecimento (1992), demonstrou que o motor da coesão social não reside unicamente em vetores económicos, mas sim na necessidade inalienável de validação da dignidade humana. Sempre que a governação mascara a incompetência estrutural através de artifícios de retórica ou de justificações burocráticas, desrespeita diretamente a inteligência do eleitorado e a sua condição de sujeito de direito. Ao permitir-se a degradação da escola pública ou do sistema de saúde, envia-se uma mensagem implícita de desvalorização aos profissionais essenciais e às famílias, destruindo a premissa da casa comum. É nesta exata rutura de expectativas que a cientista política Catherine de Vries ancora o seu diagnóstico contemporâneo em "Political Entrepreneurs: The Rise of Challenger Parties in Europe" (2020). Recorrendo a dados empíricos, De Vries comprova que o cidadão atual ultrapassou a mera apatia; manifesta, sim, uma postura desafiante e reativa contra a ineficácia governativa. Quando se constata que as infraestruturas básicas falham sistematicamente enquanto as lideranças investem em dispendiosas estratégias de marketing de crise, fratura-se irremediavelmente o contrato de fidelidade aos partidos tradicionais. O populismo radical não cria a indignação; limita-se a recolher e a instrumentalizar os estilhaços dessa humilhação social, oferecendo simulacros de pertença e identidades exclusórias a uma população deliberadamente desprovida de voz pela arrogância tecnocrática.

Propostas de resolução e caminhos
A reversão deste diagnóstico e a consequente preservação das instituições democráticas requerem reformas profundas que transcendem o voluntarismo eleitoral ou a mera cosmética da mensagem oficial. A prioridade fundamental reside no desenvolvimento de uma autodefesa intelectual coletiva, pautada pela recusa inequívoca do jargão tecnocrático como justificação para falhas éticas ou políticas. Na ótica habermasiana, urge resgatar o agir comunicativo através da revitalização do espaço público informal, o que se traduz na necessidade imperiosa de reconstruir a comunidade a partir das suas bases, ocupando e dinamizando microespaços de debate real e deliberação local, onde o descontentamento atomizado possa ser articulado como exigência cívica organizada.

No plano das estruturas do Estado, o pensamento de Honneth impõe a necessidade imperiosa de desmercantilizar os serviços sociais basilares. A blindagem da saúde, da habitação e da educação face à lógica mercantil do custo-benefício constitui a única via para devolver a estes setores o seu papel primordial de espaços de igualdade absoluta e de cidadania partilhada, o que exige, concomitantemente, uma justa dignificação material e estima pública pelas carreiras que asseguram a reprodução da vida social. Finalmente, o desenho prático desta transição beneficia das propostas de Catherine de Vries no que concerne à descentralização efetiva do poder e à urgência de novos paradigmas de prestação de contas. Torna-se indispensável a implementação de mecanismos diretos e independentes de monitorização e auditoria da ação governativa por parte da sociedade civil. A convergência entre o revigoramento da participação comunitária, a restauração da dignidade social e o desenho de uma transparência institucional implacável desenha a única rota viável para resgatar a legitimidade democrática e neutralizar o avanço das soluções populistas.

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sábado, 12 de julho de 2025

A relevância da Educação Ambiental

Margaret Raven (artista plástica nascida em 1962, na Polónia)

Sobre a relevância da educação ambiental para enfrentar estes tempos de decisões desastrosas e enfrentar os lóbis sem que pessoalmente vamos abaixo.

EIXO 3 – Educação e literacia ambientais: com este eixo pretende-se a definição de um modelo de educação ambiental liderado pela autarquia e articulado entre os vários setores da sociedade. (ODS, Agenda 2030)

Por que a educação ambiental ainda é tão desvalorizada?
Em tempos de crise climática, desastres ambientais cada vez mais frequentes e perda acelerada da biodiversidade, seria natural supor que a educação ambiental ocupasse um lugar central na formação de cidadãos conscientes e responsáveis. No entanto, a realidade é outra: ela continua à margem, tratada como algo secundário, quando deveria ser uma das bases do nosso futuro coletivo.

Por que é que isso acontece?
Em primeiro lugar, há um desinteresse estrutural por parte de muitos governos, autarquias, programas eleitorais e mesmo até nos sistemas de ensino. A educação ambiental costuma ser mencionada apenas como um “tema transversal”, o que, na prática, significa que não tem espaço nem tempo dedicados. Muitas escolas falam e fazem reciclagem ao longo do ano e acreditam ter cumprido o seu papel. Mas a educação ambiental vai muito além de plantar árvores ou recolher lixo. Trata-se de formar pensamento crítico, compreender relações ecológicas, refletir sobre consumo, justiça social e os limites do planeta.

Outro problema é a visão simplista e despolitizada com que o tema é tratado. Fala-se de meio ambiente como se fosse uma questão neutra, técnica, quando na verdade está profundamente ligada à política, à economia e às desigualdades sociais. Falar de educação ambiental é também falar de poder, de escolhas coletivas e do modelo de desenvolvimento que queremos.

Além disso, a sociedade de consumo — amplamente reforçada pela media — cria uma cultura de individualismo e imediatismo, que mina qualquer esforço educativo voltado para a coletividade e o longo prazo. É difícil competir com um mundo onde o valor está em “ter”, e não em “ser” ou “pertencer”. A educação ambiental exige tempo, reflexão e ação, tudo o que a lógica apressada do consumismo não incentiva.

Também não podemos ignorar o desconhecimento ou cepticismo de muitos diante da gravidade da crise ambiental. Há quem acredite que tudo será resolvido pela tecnologia, ou pior, que tudo é exagero. Essa visão conforta, mas é perigosa. Sem consciência ambiental, as soluções que a ciência propõe não encontram solo fértil na sociedade.

O que falta, portanto, é valorizar a educação ambiental como prática transformadora, conectada à realidade local, ao território, ao quotidiano das pessoas. Quando ela é vivida na prática — em projetos escolares, ações comunitárias, hortas urbanas, defesa de rios e matas — ela deixa de ser abstrata e torna-se urgente, palpável, viva.

Reconhecer o papel da educação ambiental é mais do que uma escolha pedagógica: é um acto político, ético e existencial. Quem não a reconhece, talvez ainda não tenha entendido que não haverá futuro viável sem ela.

Bons exemplos
1. A resiliência de Idanha-a-Nova. Idanha-a-Nova integrou o primeiro geoparque português, da rede geoparques reconhecidos pela UNESCO. Foi a primeira Reserva da Biosfera em Portugal. Sendo uma vila, foi a primeira Cidade Criativa portuguesa, igualmente com a chancela da UNESCO, para a área da Música. Em 2018, tornou-se na primeira Bio-região portuguesa. E em 2013 a UE elegeu-a como a melhor Bio-região da Europa. Eis como a periferia se tornou centro.

2. 90% dos portugueses ‘desconfia’ da sustentabilidade das marcas. 90% dos consumidores portugueses acreditam que as marcas afirmam ser sustentáveis apenas para fins promocionais, concluiu o 3º Relatório Global de Consumo MARCO 2024, promovido pela MARCO em parceria com a Cint, empresa de investigação tecnológica.

Depois de Portugal, segue-se a África do Sul com 86% e o México com 85%, indica a análise.

De acordo com o estudo, este sentimento é particularmente significativo nos países ocidentais, onde existe uma tendência para exigir maior transparência e responsabilidade por parte das marcas. A análise revelou que a grande maioria dos consumidores a nível global (81%) suspeita que as empresas estão a utilizar as suas credenciais de sustentabilidade como instrumentos de marketing, em vez de demonstrarem um compromisso genuíno com a responsabilidade ambiental e social. 

O relatório revelou também que os consumidores estão cada vez mais motivados a fazer escolhas sustentáveis no dia a dia, com mais de metade dos inquiridos portugueses (58%, valor semelhante à média global) a revelarem comprar produtos em segunda mão para promover práticas de consumo mais sustentáveis; 95% assume a importância da reciclagem para poupar recursos naturais, contra 90% a nível global; e 66% consideram positiva a utilização de automóveis elétricos para proteger o ambiente, em linha com a média global de 67%. 

Além disso, 44% dos portugueses assumiu que consideraria deixar de andar de avião por questões de consciência ambiental, um valor que contrasta com a média global de 53%.

“Estas conclusões sublinham a importância da transparência e da responsabilidade nas iniciativas de sustentabilidade das empresas. À medida que os consumidores se tornam mais exigentes e esperam provas de um compromisso genuíno, as empresas devem navegar cuidadosamente neste novo cenário. Uma comunicação eficaz e ações tangíveis são mais cruciais do que nunca para criar e manter a confiança dos consumidores”, referiu Diana Castilho, Head of Portugal da MARCO.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Quando a IKEA lançou um outdoor fascista

O outdoor da IKEA não é inocente. Extravasou toda a ética de marketing. Dia negro e bizarro.
 

Tem razão: não é para o debate partidário. É mesmo para o achincalhamento. Ou seja, é exatamente aquilo que os populistas do Chega fazem. O outdoor sai precisamente no dia em que sabemos das suspeitas na Madeira: tudo aponta para “uma situação tanto ou mais grave do que a operação Influencer”.
Miguel Albuquerque já anunciou a demissão?
A PGR já foi a Belém?
O PR já ditou um parágrafo?

Lembrete:
Fundador da IKEA foi recrutador do partido nazi sueco. Ingvar Kamprad, fundador da IKEA e um dos homens mais ricos do mundo, foi um membro activo do partido nazi sueco, como recrutador de novos membros, revela este livro da jornalista Elisabeth Åsbrink.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

A nossa Comunicação Social é de direita


Para os que dizem que a nossa Comunicação Social é de esquerda é uma mentira que tantas vezes dita, se torna verdade. O conjunto de comentadores políticos nas nossas televisões são todos de direita e até extrema-direita. Todos militantes com comentário semanal na TV portuguesa são do PS, PSD, CDS e + Liberdade (Adolfo Mesquita Nunes e João Miguel Tavares) 19- David Dinis

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

Um ano depois de comprar o Twitter, a marca desapareceu e o X não convenceu. "Musk destruiu tudo"


Analistas consideram que Elon Musk "destruiu tudo" ao mudar o nome da plataforma, despedir funcionários e eliminar equipas de monitorização da desinformação

Ellon Musk comprou o Twitter a 27 de outubro de 2022 e desde então a rede social mudou completamente. Do nome - agora é apenas X - até ao número de funcionários, tudo mudou na empresa que, na opinião dos analistas, está a falhar um ano após a compra.

Segundo o The Guardian, que cita as declarações da nova diretora executiva do X, Linda Yaccarino, numa conferência em setembro, atualmente o número de utilizadores diários é de 225 milhões, contra os 238 milhões da época do Twitter.

Também o número de visitas diminuíram e, segundo a empresa de dados SimilarWeb, em setembro houve apenas 5,8 mil milhões, ou seja, menos 10% do que em agosto.

Para além de ter perdido utilizadores e visitas, a marca perdeu também em publicidade. Bruce Daisley, antigo diretor das operações europeias do Twitter, considera que a mudança de nome prejudicou a empresa que estava no "paraíso das marcas".

"Havia muitos problemas com o produto, mas a marca estava no topo das empresas do mundo. Nomes tão diversos como Barack Obama, Kim Kardashian, The Rock e Greta Thunberg usavam o nome e ajudavam a promover a plataforma. Musk destruiu tudo isso", afirmou.

Perante a "destruição", a queda da publicidade, o principal fluxo de rendas, aconteceu e foi o próprio Musk a admiti-lo. Em setembro, Musk revelou que as receitas publicitárias dos EUA tinham caído 60%, uma situação que atribuiu à pressão da Liga Anti-Difamação, que faz campanha contra o antissemitismo e o fanatismo.

De acordo com o The Guardian, o X tem pagamentos trimestrais de dívidas de 300 milhões de dólares e sofreu uma grave queda de receita, o que faz com que tenha de arranjar dinheiro para conseguir colmatar as despesas.

Musk tentou reduzir as despesas ao despedir cerca de 50% dos 7.500 funcionários da plataforma por, segundo um ex-trabalhador, "acreditar que a equipa era tendenciosa". Evan Hansen, diretor de curadoria da plataforma que foi despedido por Musk, diz mesmo que todo o trabalho feito pela equipa que trabalhava para o então Twitter "desapareceu".

"Ele acreditava que a nossa equipa era tendenciosa...que toda a equipa de moderação estava a promover ativamente conversas liberais e a ser parcial com as conservadoras", afirma, acrescentando: "O nosso trabalho desapareceu completamente."

Outra prova de que o trabalho desapareceu por completo é que, desde que assumiu o Twitter, Elon Musk tem procurado incentivar os utilizadores a pagar por um serviço verificado, que agora se chama X Premium. Os assinantes têm acesso a mais recursos, como publicações mais longas, mensagens e maior visibilidade na plataforma. No entanto, os utilizadores que queiram ainda podem usar o X gratuitamente, mas até isso parece ter os dias contados uma vez que em conversa com o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, o milionário explicou que criar um sistema de pagamento era a única forma de combater os bots (contas automatizadas que imitam os perfis humanos). A sua proposta é "ter um pequeno pagamento mensal pela utilização do sistema”.

Certo é que o empresário tem procurado formas de aumentar as receitas da plataforma - fruto da consequente fuga de muitos dos seus anunciantes - e, para além dos despedimentos em massa, eliminou equipas de monitorização da desinformação, o que levou a um aumento das notícias falsas e das mensagens de ódio na rede.