domingo, 16 de agosto de 2026

A carne vegetal entre a urgência planetária e a realidade do prato

A transição para um sistema alimentar de base vegetal vive atualmente um dos seus momentos mais paradoxais. Se, por um lado, a comunidade científica mundial reforça que mudar a forma como nos alimentamos é uma urgência ambiental e de saúde pública, por outro, a realidade dos supermercados e o comportamento dos consumidores mostram que a aceitação da carne vegetal continua a enfrentar barreiras profundas.

Do ponto de vista da urgência global, o diagnóstico da ciência é inequívoco. Como lembra a Plant Based Foods Association (PBFA) na sua tomada de posição sobre o Relatório da Comissão EAT-Lancet, a chamada "Dieta da Saúde Planetária" não é uma tendência passageira, mas sim um modelo desenhado por especialistas globais para garantir a nutrição humana sem ultrapassar os limites ecológicos da Terra. A redução drástica do consumo de carne animal e o aumento de alimentos de origem vegetal surgem aí como imperativos para mitigar as alterações climáticas, conter a desflorestação e prevenir doenças crónicas. Esta urgência é suportada pela evolução geral do mercado, onde o mais recente relatório State of the Marketplace 2024-2025 da PBFA revela que quase 60% dos lares norte-americanos já consomem produtos de base vegetal com regularidade, impulsionados pela procura de hábitos mais saudáveis.

Contudo, este crescimento no setor plant-based não se traduz de forma direta na adesão aos análogos da carne. Quando a teoria científica chega ao prato do dia a dia, esbarra na psicologia e no orçamento do consumidor habitual de carne. Um estudo da Universidade de Adelaide, publicado no Journal of Marketing Management, revela que os apelos publicitários e a consciência ambiental não chegam para vencer a perceção de risco dos consumidores. Segundo a investigação australiana, a maioria dos comedores de carne continua a rejeitar as alternativas vegetais devido ao seu elevado preço (price premium), a dúvidas quanto ao sabor e textura, e à preocupação de que estes análogos sejam produtos altamente processados. Na verdade, dados de mercado de entidades como o Good Food Institute em parceria com a Euromonitor confirmam que o chamado "Triângulo da Adoção" (Sabor, Preço e Conveniência) é o fator decisivo:mesmo em mercados maduros, a principal razão para o abandono das alternativas vegetais não é a falta de consciência ambiental, mas sim o preço elevado e expetativas frustradas quanto à textura e sabor.  A este cepticismo soma-se a percepção de risco nutricional revelada por investigações em revistas especializadas como a Appetite e a Food Quality and Preference. Muitos consumidores flexitarianos hesitam em trocar um corte de carne simples por análogos vegetais que associam a produtos ultraprocessados e com listas extensas de ingredientes. Cria-se, assim, um paradoxo: o desejo de fazer uma escolha sustentável colide com a receita da saúde e do orçamento diário. Para a grande maioria dos comedores de carne, a transição só ganhará escala real quando a indústria superar a barreira dos rótulos e entregar produtos genuinamente saborosos, acessíveis e transparentes.

Concluindo, o fosso entre o relatório EAT-Lancet e as conclusões do estudo de Adelaide demonstra que a transição alimentar não se concretizará apenas com discursos morais ou campanhas publicitárias emocionais. Enquanto as alternativas vegetais à carne não garantirem uma verdadeira paridade de preço, transparência nos ingredientes e uma experiência gastronómica equivalente à carne convencional, a sustentabilidade continuará a despertar o interesse dos consumidores na teoria, mas poucas mudanças no carrinho de compras.

Veja a íntegra da edição de 2025 do relatório e um resumo em português da Comissão EAT-Lancet aqui


Greepeace alerta: um quarto da costa continental portuguesa está em recuo e décadas de pressão e construção urbanística agravam o risco no litoral

Assina a petição aqui e divulga

Novo relatório “Destruição a Toda a Costa – Retrato de um litoral português em risco” mostra como os impactos das alterações climáticas se cruzam com décadas de ocupação e pressão urbanística e alerta para fragilidades na aplicação das regras que deveriam proteger o litoral.
• Cerca de 25% da costa continental portuguesa encontra-se em recuo e mais de 100 mil pessoas vivem em zonas costeiras de elevado risco.
• A vulnerabilidade do litoral não resulta apenas das alterações climáticas: décadas de ocupação, construção e pressão urbanística em zonas sensíveis aumentaram a exposição de pessoas, infraestruturas e ecossistemas e reduziram a capacidade natural de proteção do território.
• Portugal dispõe de legislação e instrumentos de ordenamento destinados a proteger a orla costeira, mas persistem fragilidades na aplicação, fiscalização, coordenação e atualização das regras face à evolução dos riscos.
• Um mapa interativo lançado com o relatório e que reúne fotografias e informação sobre cerca de 350 pontos mais vulneráveis do território costeiro português, no continente, Madeira e Açores.

Cerca de 25% da costa continental portuguesa está em recuo, mais de 100 mil pessoas vivem em zonas costeiras de elevado risco e a pressão sobre o litoral continua a aumentar.

A Greenpeace Portugal lançou no dia 23 de julho  um novo relatório nacional “Destruição a Toda a Costa – Retrato de um litoral português em risco”, que revela como os impactos crescentes das alterações climáticas se cruzam com décadas de ocupação, construção e pressão urbanística sobre algumas das zonas mais vulneráveis do país.

O retrato é claro: a costa portuguesa está presa entre o avanço do mar e o avanço da construção.

A subida do nível do mar, a erosão costeira e os fenómenos extremos estão a intensificar-se num território onde, ao mesmo tempo, se continua a exercer uma forte pressão urbanística e turística, a ocupar áreas vulneráveis e a degradar ecossistemas naturais que funcionam como primeira linha de proteção.

O problema, não é apenas a falta de adaptação à crise climática. É também o resultado de escolhas feitas ao longo de décadas sobre onde, como e quanto se constrói, e da distância que continua a existir entre as regras criadas para proteger o litoral e a sua aplicação efetiva no território.

“Portugal conhece há muito os riscos que ameaçam a sua costa. Temos conhecimento científico, legislação e instrumentos de ordenamento. Não podemos continuar a esperar que uma praia desapareça, uma arriba colapse ou uma infraestrutura fique em risco, para agir. O desafio agora é transformar aquilo que sabemos em decisões políticas coerentes e numa estratégia de longo prazo capaz de proteger as pessoas, a natureza e um território que pertence a todos”, afirma Toni Melajoki Roseiro, diretor da Greenpeace Portugal.

Entre o avanço do mar e o avanço da construção
Ao longo dos cerca de 2.500 quilómetros de costa portuguesa, entre o continente, Madeira e Açores, os riscos assumem diferentes formas.

Cerca de 25% da costa continental portuguesa encontra-se em recuo.

Mas olhar apenas para a erosão ou para o avanço do mar não permite compreender toda a dimensão do problema.

A vulnerabilidade atual resulta também da forma como o território foi ocupado ao longo de décadas. A expansão urbana e turística, a construção em áreas sensíveis e a artificialização da orla costeira aumentaram a exposição ao risco e, em muitos casos, reduziram a capacidade de adaptação dos sistemas naturais.

Para a Greenpeace Portugal, continuar a permitir novas ocupações em zonas que já são conhecidas como vulneráveis, significa criar hoje os problemas que o país terá de resolver amanhã, muitas vezes com custos públicos elevados e com consequências que poderão tornar-se irreversíveis.

Ana Farias Fonseca alerta que “Com mais de 25% do litoral continental em recuo e cerca de 100 mil pessoas a viver em zonas de elevado risco, não podemos continuar a permitir que a pressão urbanística e o desrespeito pelas regras de ordenamento e proteção ambiental ignorem os avisos da ciência. Para a Coordenadora de Campanhas e Mobilização da Greenpeace Portugal “A boa notícia é que estamos a tempo de salvar as praias portuguesas e, para isso, é imperativo travar novas ocupações em áreas vulneráveis e apostar na prevenção e no restauro de ecossistemas, garantindo que as decisões de hoje não se tornam em problemas irreversíveis e os custos públicos elevados de amanhã.”

Proteger a natureza é também proteger as pessoas
Dunas, sapais, zonas húmidas e outros ecossistemas costeiros desempenham um papel essencial na proteção do território.

Estes sistemas ajudam a absorver a energia das tempestades, reduzem os impactos da erosão e das inundações e aumentam a capacidade de adaptação da faixa costeira.

Quando são destruídos, degradados ou fragmentados, perde-se não apenas património natural, mas também uma parte das defesas que protegem pessoas e infraestruturas.

O relatório defende, por isso, que a resposta aos riscos costeiros não pode assentar apenas em intervenções realizadas depois dos danos. A recuperação dos ecossistemas e as soluções baseadas na natureza têm de fazer parte de uma estratégia preventiva de adaptação.

A lei existe. Falta fazê-la valer no território
O relatório conclui que Portugal não parte do zero. O país dispõe de legislação, planos de ordenamento da orla costeira, instrumentos de gestão territorial e conhecimento científico sobre grande parte dos riscos que afetam o litoral – um primeiro passo na direção certa. O problema está, em muitos casos, na implementação.

A Greenpeace Portugal identifica fragilidades na aplicação e fiscalização das regras, na articulação entre diferentes entidades e níveis de decisão e na capacidade de atualizar os instrumentos existentes à velocidade a que os riscos estão a evoluir.

O resultado é um território onde continuam a existir tensões entre a necessidade de proteger a costa e a pressão para ocupar e construir em áreas cada vez mais vulneráveis.

Para a Greenpeace Portugal, a proteção do litoral exige também maior transparência nos processos de decisão e licenciamento e a salvaguarda do caráter público e do acesso de todos à costa e às praias.

Não se trata, sublinhamos, de impedir qualquer desenvolvimento económico ou atividade turística no litoral. Trata-se de garantir que as decisões tomadas hoje não aumentam os riscos de amanhã e que o interesse público e a proteção do território prevalecem sobre opções de curto prazo.

Um mapa para mostrar o risco no terreno
O relatório é acompanhado por um mapa interativo que reúne fotografias e informação sobre cerca de 350 pontos mais vulneráveis da costa portuguesa. Da Costa da Caparica a Espinho, da Costa Nova à Figueira da Foz, de Tróia, Comporta, Carvalhal e Melides ao litoral alentejano, do Algarve à Madeira e aos Açores, o mapa permite visualizar diferentes faces de um mesmo problema: erosão e recuo da linha de costa, pressão urbanística, ocupação de zonas vulneráveis, degradação de ecossistemas e dificuldades de adaptação às alterações climáticas.

O objetivo não é criar um ranking das zonas mais graves, mas mostrar que o risco assume diferentes formas ao longo de todo o território e que nenhuma região pode ser analisada isoladamente da forma como Portugal decide ocupar, proteger e adaptar a sua costa.

Menos reação, mais prevenção
Para a Greenpeace Portugal, responder à erosão e à subida do nível do mar apenas com obras de emergência, alimentação artificial de praias ou estruturas rígidas de defesa não será suficiente para enfrentar a dimensão do problema.

A resposta exige uma política nacional que antecipe o risco e coloque a prevenção no centro das decisões.

A Greenpeace Portugal exige:
• O cumprimento efetivo da legislação e dos instrumentos de ordenamento e proteção do litoral, acompanhado de fiscalização adequada;
• A suspensão de novas ocupações e construções incompatíveis com zonas identificadas como vulneráveis ou de risco;
• A proteção, recuperação e renaturalização dos ecossistemas costeiros, incluindo dunas, sapais, zonas húmidas e outros sistemas naturais essenciais para a proteção do território;
• Maior transparência nos processos de decisão e licenciamento e a salvaguarda do caráter público e do acesso de todos ao litoral;
• Uma estratégia de adaptação que antecipe os riscos, proteja as populações mais vulneráveis e integre critérios de justiça climática e social;
• A redução rápida das emissões de gases com efeito de estufa e da dependência dos combustíveis fósseis, enfrentando a causa da crise climática que está a acelerar os riscos sobre a costa.

Com “Destruição a Toda a Costa – Retrato de um litoral português em risco”, a Greenpeace Portugal pretende colocar uma escolha no centro do debate público e político: continuar a reagir depois dos danos ou começar, finalmente, a evitar que o risco continue a aumentar.
Para uma melhor experiência de leitura, recomendamos a visualização em “Duas páginas”, com a opção “Mostrar a página de rosto em separado” ativada.

Material para os OCS: 
  1. Relatório completo Português: aqui
  2. Relatório completo Inglês: aqui 
  3. Resumo Executivo: aqui
  4. Mapa interativo: aqui
  5. Fotos e vídeos do relatório: aqui
  6. Petição: aqui

Vioflesh - Stormy Eyes

Letra
Please look at me honestly.
Say what you want, I can read your stormy eyes.
even  though you look like ice.
I feel the warmth of your inner fire.
Come look at me with your ocean eyes

Come to me just as you are
Come to me, show your intense vibe 
Caress my skin with your deep gaze
Come, Show me your hidden side
Oh
Let's swim in your deep ocean
Come closer with that intense vibe
Seduce me with your stormy eyes.

Please look at me honestly.
Say what you want, I can read your eyes stormy eyes.
even though you look like ice.
I feel the warmth of your inner fire.
Oooh, Come look at me with your ocean eyes

Come to me just as you are
Come to me, show your intense vibe 
Caress my skin with your deep gaze
Come, Show me your hidden side

Come to me just as you are
Come to me, show your intense vibe 
Come, Show me your hidden side

Just like me, you want to be free
I've seen lifeless stares.
Yours is like a jungle

lost, among inert glances
sweeten life with a kiss
look for some loving look

a desire that never finds satisfaction
That rebellious, intense vibe.

Vioflesh – Stormy Eyes: entre a Literatura Gótica  e o Existencialismo
O duo de Darkwave chileno Vioflesh constrói em "Stormy Eyes" uma obra profundamente imersiva que une sonoridade soturna, estética gótica e uma rica carga conceptual. A música transita pelo Darkwave, Post-Punk e Synthwave, marcada por sintetizadores envolventes, batidas cadenciadas e guitarras atmosféricas que criam uma aura de introspeção e mistério. No centro da sua temática está a turbulência emocional e o conflito existencial: os "olhos tempestuosos" funcionam como uma metáfora para a alma que não consegue esconder a sua dor e vulnerabilidade por trás das máscaras do quotidiano.

O videoclipe reforça essa narrativa por meio de sombras, iluminação em claroscuro e o uso marcante do romance clássico Drácula, de Bram Stoker. A presença explícita do livro no vídeo opera como uma chave de leitura direta, conectando o tema às tradições da literatura gótica vitoriana e do Romantismo Sombrio. Tal como no mito vampírico, a canção explora a imortalidade do desejo, a obsessão, a dualidade entre luz e trevas e o fascínio pelo proibido ou pelo trágico. Esta inspiração literária entrelaça-se ainda com conceitos filosóficos existencialistas de autores como Friedrich Nietzsche e Søren Kierkegaard, abordando o abismo interior, a solidão e a busca por sentido no meio do caos da existência humana.

Página Oficial
Vioflesh

sábado, 15 de agosto de 2026

Minute Taker - Losing Self-Control

Letra
[Verse 1]
‎You fall in line
‎And you feel nothing much
‎Buried alive
‎For fear of what you’ll become
‎It makes you wanna die
‎When the highs turn to lows
‎But you learned to survive
‎The devils that you’ve known
‎By using self-control
‎[Chorus] 2X
‎But I feel it now
‎I’m not afraid to go there tonight
‎When we’re alone
‎All I know is
‎I’m losing self-control
‎[Verse 2]
‎I fall out of line
‎Tonight I’m a mess
‎Out of my mind
‎Into your bed
‎I’m coming back to life
‎All the highs and the lows
‎It's all worthwhile
‎With you
‎I’m exposеd
‎I’m losing self-control
‎[Chorus] 2X
‎[Bridge] 3X
‎Self-control
‎Self-control
‎Self-control
‎All I know is I’m losing self-control...
‎[Outro]
Self-control
‎Self-control
‎Self-control
‎All I know is I’m losing my grip

A noite, a tela e o vazio: o universo sombrio e filosófico de Minute Taker em Losing Self-Control
Minute Taker é o nome artístico do músico, compositor e produtor britânico Ben Higgins, originário de Manchester, Inglaterra. A sua sonoridade insere-se num universo marcado pelo synth-pop, electro-pop e dark wave, caracterizando-se pela fusão de sintetizadores nostálgicos inspirados na década de 1980, arranjos de piano melancólicos e vocais expressivos de grande densidade emocional.
Na sua versão de Losing Self-Control (tema originalmente popularizado por Laura Branigan sob o título Self Control), o artista reinterpreta a composição através de uma estética sombria e retro-futurista. O significado da canção e do seu videoclipe gravita em torno do isolamento moderno, da perda de identidade e do fascínio doentio pela cultura do espetáculo e pelas telas digitais, retratando um indivíduo consumido pelos seus próprios desejos, obsessões e pela alteração da perceção da realidade durante as horas noturnas.
Sob o ponto de vista das inspirações literárias e filosóficas, a obra dialoga diretamente com as correntes do distopismo do século XX e com o existencialismo. A estética visual de vigilância, o alheamento do mundo real e a alienação tecnológica ecoam as críticas sociais presentes em obras como 1984 de George Orwell e Fahrenheit 451 de Ray Bradbury. 

O paralelismo com George Orwell manifesta-se em três aspetos fundamentais, particularmente visíveis na dinâmica do relacionamento entre Winston e Julia em 1984. Em primeiro lugar, o beijo surge como um verdadeiro ato de rebeldia: num mundo frio, alienante e absoluto no seu controlo, a intimidade física e o desejo transformam-se na forma mais pura de insurreição. O beijo não nasce de uma harmonia perfeita, mas antes de um impulso desesperado de resgatar a humanidade contra um sistema - ou um estado mental - que tudo sufoca.

Paralelamente, desenha-se uma união fundada no desespero e não no entendimento. Winston e Julia procuravam-se e amavam-se, mas o mundo ao seu redor encontrava-se tão fraturado que a relação estava irremediavelmente marcada pela tragédia iminente. Não precisavam de uma compreensão intelectual perfeita um do outro, pois o simples toque físico figurava como o único refúgio possível contra o vazio e a vigilância constante.

Por fim, a perda de controlo afirma-se como uma libertação temporária, onde ceder à atração representa a única forma de quebrar a rigidez da rotina e da alienação. Tal como os protagonistas de Orwell, as figuras do vídeo encontram no contacto físico uma breve trégua - um instante em que a mente finalmente cede e o corpo assume o comando.

No plano filosófico, o conceito de simulacros e simulação de Jean Baudrillard torna-se evidente no vídeo, onde as imagens e as projeções virtuais substituem a própria experiência humana autêntica. Por outro lado, a perspetiva existencialista de Søren Kierkegaard reflete-se na própria ideia da perda de autocontrolo, que surge como o confronto do indivíduo com o vazio existencial - uma tentativa desesperada, contudo ilusória, de escapar à angústia e à monotonia da rotina diária através da entrega aos impulsos da noite.

Página Oficial

A Genealogia do Sagrado: como o Mito, o Misticismo, a Religião e a Espiritualidade moldaram a mente humana

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A relação do ser humano com o desconhecido não é estática; possui uma história evolutiva e uma geografia conceptual precisa. Para compreender plenamente as diferenças entre mito, misticismo, religião e espiritualidade, torna-se fundamental traçar primeiro o mapa temporal da sua emergência ao longo da história da humanidade, para depois decompor a arquitetura conceptual que distingue cada uma destas dimensões.

I. A Cronologia Histórica da Emergência
Na alvorada da espécie humana, muito antes de existirem cidades, escritas ou dogmas, o Mito foi a primeira manifestação da inteligência abstrata e simbólica. No Paleolítico Inferior e Médio, à medida que o Homo sapiens desenvolvia a linguagem complexa, surgia a necessidade premente de ordenar o caos do mundo natural. O mito nasceu como a narrativa primordial: histórias sobre a origem do fogo, do sol, da caça e da morte que davam sentido e forma ao cosmos através de metáforas e personificações.

Com o amadurecimento das capacidades cognitivas e rituais no Paleolítico Superior, a humanidade não se limitou a narrar o invisível; procurou vivenciá-lo. Surge assim o Misticismo, cuja expressão mais antiga é o xamanismo primordial. Através de ritos de transe, pinturas rupestres profundas e estados alterados de consciência, determinados membros da tribo buscavam o contacto direto e imediato com o sagrado descrito pelas narrativas míticas. O misticismo antecede a instituição porque dependia de uma vivência intuitiva e interior, sem a mediação de livros sagrados ou hierarquias formais.

Com a Revolução Neolítica e o aparecimento das primeiras civilizações urbanas na Mesopotâmia, no Egito e no Vale do Indo, a escala das sociedades humanas alterou-se radicalmente. Milhares de indivíduos estranhos entre si precisavam agora de viver sob as mesmas regras e crenças. Nasce a Religião institucionalizada. O antigo mito transforma-se em texto sagrado oficial; a experiência mística individual é canalizada e regulada por castas sacerdotais; e os ritos tribais convertem-se em dogmas, leis morais e liturgias estatais. A religião surge, assim, como o grande instrumento de coesão social e ordenamento comunitário do mundo antigo.

Finalmente, a Espiritualidade, embora possua raízes na viragem filosófica da chamada Era Axial (surgimento do Budismo, do Taoísmo e da filosofia grega no século VI a.C.), consolida-se na sua acepção moderna com o advento do Iluminismo, da secularização e da modernidade ocidental. À medida que a ciência assumiu a explicação do mundo físico e as instituições religiosas perderam o monopólio da política e da moral, a busca pelo sentido da existência regressou ao indivíduo. A espiritualidade surge como uma categoria autónoma e pós-institucional - a reivindicação de uma orientação interior, ética e existencial, liberta da obrigação de adesão a dogmas ou a autoridades eclesiais.

II. As Distinções Conceptuais e Funcionais
Tendo compreendido a sua gestação no tempo, torna-se claro que estas quatro dimensões não concorrem entre si, mas operam em níveis distintos da experiência humana:
  1. O Mito é o domínio da narrativa e da linguagem: etimologicamente derivado do grego mythos ("palavra" ou "discurso"), o mito é a estrutura cognitiva que organiza o significado. Não se trata de uma "falsidade" ou de uma ilusão, mas de uma verdade ontológica expressa através do símbolo e da alegoria. O mito fornece os arquétipos e as histórias de origem que fundam o imaginário de uma cultura.
  2. O Misticismo é o domínio da experiência e da epistemologia: vindo de myein ("fechar os olhos" para ver o invisível), o misticismo é a busca da união direta com o Absoluto ou o Divino. Desafia a lógica racional e ultrapassa a linguagem, tratando de uma experiência essencialmente inefável onde a fronteira entre o sujeito que observa e o objeto observado se dissolve.
  3. A Religião é o domínio da instituição e da sociologia: assente na raiz latina religare ("re-ligar"), a religião é a codificação social do sagrado. Envolve uma comunidade moral (a Igreja, a Umma, o Sangha), um corpo de dogmas, um código de conduta prescritivo, uma hierarquia e um conjunto de rituais públicos. A religião garante a continuidade da tradição e a ordem social.
  4. A Espiritualidade é o domínio da subjetividade e da existência: derivada de spiritus ("hálito de vida"), a espiritualidade diz respeito à atitude e ao estado interior do indivíduo perante a vida, o sofrimento, a finitude e a totalidade. Pode viver dentro de uma religião formal, mas subsiste de forma perfeitamente autónoma no indivíduo secular, expressando-se na procura pessoal de propósito, compaixão e transcendência.
Concluindo, a evolução histórica do sagrado traçou um arco fascinante: começou na narrativa coletiva do mito, aprofundou-se na vivência direta do misticismo, ergueu-se na estrutura comunitária da religião e culminou na autonomia subjetiva da espiritualidade contemporânea.

Referências bibliográficas
  1. Cassirer, E. (1955). The Philosophy of Symbolic Forms, Volume 2: Mythical Thought (R. Manheim, Trans.). Yale University Press.
  2. Durkheim, É. (1995). The Elementary Forms of Religious Life (K. E. Fields, Trans.). The Free Press.
  3. Eliade, M. (1959). The Sacred and the Profane: The Nature of Religion (W. R. Trask, Trans.). Harcourt, Brace & World.
  4. Jaspers, K. (1953). The Origin and Goal of History (M. Bullock, Trans.). Yale University Press.
  5. Kołakowski, L. (1989). The Presence of Myth (A. Czerniawski, Trans.). University of Chicago Press.
  6. Otto, R. (1923). The Idea of the Holy: An Inquiry into the Non-rational Factor in the Idea of the Divine and its Relation to the Rational (J. W. Harvey, Trans.). Oxford University Press.
  7. Weber, M. (1978). Economy and Society: An Outline of Interpretive Sociology (G. Roth & C. Wittich, Eds.). University of California Press.

As Mulheres da Nova Direita em Portugal - Bases Teóricas e Ameaça Democrática

A emergência de uma nova militância de mulheres conservadoras no espaço público português, vai mais além do   revisionismo do Movimento Nacional Feminista, do Estado Novo e tem como teorização o  manifesto, que passou para o livro Identidade e Família. Este movimento já arquitetado em meados de 2021, junto como o Manifesto Identidade e Família são duas faces da mesma moeda. Trata-se da reorganização de um Novo Conservadorismo que está a moldar a direita em Portugal e na Europa, combinando a mobilização jovem nas redes sociais com o resgate de velhos dogmas morais. Esta aliança une a linha da frente de novas bancadas e ativistas a uma elite intelectual, médica e católica tradicional. Por trás de uma estética moderna e de discursos que apelam a uma suposta "verdadeira emancipação", esconde-se uma estratégia para desmantelar conquistas sociais e, sobretudo, para branquear e apagar a herança de figuras históricas incontornáveis como Maria de Lourdes Pintasilgo.

A ascensão de quadros femininos no campo da nova direita - com destaque para deputadas do Chega como Rita Matias, e em linha com fenómenos europeus protagonizados por figuras como Giorgia Meloni em Itália - veio reconfigurar a paisagem política. Ao contrário do conservadorismo tradicional, estas protagonistas não recusam a presença pública da mulher. Pelo contrário, ocupam o palco político e usam redes digitais como o TikTok e o Instagram para defender que a "verdadeira liberdade" passa pelo regresso ao essencialismo biológico, pelo culto da maternidade e pela defesa intransigente da "família natural". O objetivo passa por disputar a narrativa dos direitos das mulheres, catalogando o feminismo moderno como um "dogma ideológico" e posicionando-se como guardiãs dos valores cristãos perante a secularização e a mudança demográfica.

Movimento de mulheres conservadoras aproxima Chega da agenda evangélica brasileira e do Novo Conservadorismo
Em Julho, o grupo juntou-se em Sintra para um evento que reuniu “mulheres conservadoras”. O lançamento oficial do movimento está anunciado para Novembro.
O pré-lançamento realizou-se a 11 de Julho, no Palácio Valenças, em Sintra, num espaço pertencente à Câmara Municipal. O encontro contou com a presença de deputadas do Chega, entre as quais Rita Matias, Cláudia Estevão e Madalena Cordeiro, e da deputada federal brasileira Priscila Costa, avançou o Diário de Notícias Brasil.
Entre as oradoras estiveram Teresa Nogueira Pinto, que integra o governo-sombra do Chega com a pasta da Cultura; Catarina Nicolau Campos, jurista e chefe de gabinete do grupo parlamentar do CDS-PP; e Rute Sousa, uma das oito influenciadoras que esteve em Israel a convite da Embaixada israelita em Portugal e que soma mais de 108 mil seguidores apenas no Instagram. Destaca-se também no centro com a credencial "REBECA" a jovem Rebeca Batista, uma das fundadoras/embaixadoras do movimento e dirigente de uma fundação evangélica internacional (The Foursquare Church).
Na apresentação das participantes, a organização fez também referência à maternidade e ao número de filhos.
O Movimento Mulheres Conservadoras Portugal ainda tem pouca informação pública disponível, mas, desde Junho, tem vindo a publicar conteúdos nas redes sociais. Entre eles está um vídeo de uma reunião com deputadas do Chega, realizada no gabinete do partido, na Assembleia da República.

A aproximação à direita brasileira ganha particular relevância pelo papel que as igrejas evangélicas desempenham no Brasil como importante base de apoio da direita e do bolsonarismo. Em Portugal, o Chega tem mantido contactos com comunidades evangélicas, mas não tem assumido, até agora, uma estratégia política especificamente dirigida a este eleitorado.

De acordo com os Censos de 2021, entre a população com mais de 15 anos residente em Portugal, cerca de 186 mil pessoas identificaram-se como “protestantes evangélicos”.

Também este movimento está associado internacionalmente aos movimentos pentecostais ou Pentecostalismo, ressurgido com mais intensidade na era MAGA, de Donald Trump (consultar embaixo os textos) 

É no centro desta disputa cultural que o novo ativismo conservador promove o apagamento do legado de Maria de Lourdes Pintasilgo. Primeira e única mulher a chefiar um Governo em Portugal e figura cimeira do movimento O Graal, Pintasilgo provou que a fé católica e o compromisso ético não exigem a submissão ao patriarcado nem o confinamento ao lar. Enquanto Pintasilgo defendeu que a emancipação das mulheres e a igualdade eram exigências do próprio Evangelho, recusando a maternidade como um destino único ou uma gaiola social, o movimento atual tenta colar a defesa da igualdade de género a um "marxismo cultural". Ao fazê-lo, estas novas frentes conservadoras omitem que a maior pioneira do feminismo e da igualdade política em Portugal foi uma mulher de fé católica, cuja ação assentava na libertação e na justiça social - e não na preservação da autoridade masculina ou do papel da dona de casa.

Se este novo ativismo feminino garante o impacto nas redes e  na rua, o livro Identidade e Família - coordenado por António Bagão Félix, Paulo Otero, Pedro Afonso e Victor Gil - serve de pilar doutrinário. A obra compila ensaios que contestam a dita "ideologia de género", o aborto, a eutanásia e o construtivismo social nas escolas. A apresentação da obra na livraria Buchholz por Pedro Passos Coelho, a par da comparência de dirigentes do CDS-PP e do Chega, evidenciou a capacidade deste movimento para cruzar pontes entre o centro-direita católico e a nova extrema-direita parlamentar.

Este processo insere-se numa vaga documentada em toda a Europa, visível na afirmação de lideranças femininas sob o lema "Sou mulher, sou mãe, sou cristã", na reação articulada contra a agenda woke em países como Espanha através do Vox, em França e na Europa Central, e na ligação a movimentos pró-vida das Américas, como a influência do CPAC ou do PL Mulher no Brasil.

Conclusão
A articulação entre a militância de novas mulheres conservadoras e a sustentação teórica do livro Identidade e Família demonstra que o Novo Conservadorismo em Portugal está estruturado. Ao usarem as ferramentas da modernidade para defender o regresso a valores tradicionais, estas frentes procuram reescrever a história recente do país. Contudo, ao fazê-lo, esbarram na memória que tentam branquear: a praxis de Maria de Lourdes Pintasilgo, a prova histórica de que ter fé e combater pela emancipação das mulheres continua a ser uma das maiores forças de libertação da democracia portuguesa.

Ler mais:

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Primal Scream - Kowalski

Melhor som aqui
Letra
[Intro]
This radio station was named Kowalski
In honor of the last American hero
To whom speed means freedom of the soul
The question is not when he's gonna stop
But who is gonna stop him

[Verse 1]
Like Kowalski in Vanishing Point
Kowalski in Vanishing Point
Kowalski in Vanishing Point
Vanishing Point, Vanishing Point, Vanishing Point

[Verse 2]
Like a butterfly on a pin
Like a butterfly on a pin
Soul on ice, soul on ice
Soul on ice, soul on ice

[Interlude]
What happening?
What happening?
What you need? Speed
Lighten up before

[Instrumental Break]

[Interlude]
There goes the challenger being chased by the blue, blue meanies on wheels
The vicious traffic squad cars are after our lone driver
The last American hero
The, the electric centaur, the demigod
The super driver of the golden west
Two nasty Nazi cars are close behind the beautiful, lone driver
The police know that they're getting closer, closer
Closer to our soul hero in his soul mobile
Yeah, baby, they're about to strike
They're gonna get him, smash him
Rape the last beautiful, free soul on this planet

[Refrain]
Vanishing Point, Vanishing Point
Vanishing Point, Vanishing Point

[Interlude]

[Refrain]
Soul on ice, soul on ice
Soul on ice, soul on ice
Soul on ice, soul on ice, soul on ice

[Outro]
Hello, Kowalski?
Hello, Kowalski?
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Cut it off

Primal Scream e Vanishing Point: A História da Música Kowalski e do Filme de 1971
A faixa abre precisamente com essa amostra de áudio (sample) icónica do filme original de 1971. A voz pertence à personagem Super Soul, o DJ de rádio cego interpretado pelo ator Cleavon Little, que atua como guia espiritual e aliado de Kowalski ao longo de toda a perseguição policial no deserto. No monólogo inicial da canção, ouve-se a sua transmissão de rádio na qual ele diz: "Kowalski, order of the day is to go. And we gonna do it in style...", servindo de ponto de partida perfeito para o tom hipnótico e acelerado da música dos Primal Scream.

Sob o ponto de vista musical, o tema funde o rock psicodélico com ritmos pesados de dub, trip-hop e big beat, servindo de peça central a um álbum conceptual desenhado pelo vocalista Bobby Gillespie como uma espécie de banda sonora alternativa para o filme. No plano filosófico e literário, tanto a canção como a fita de 1971 partilham raízes no existencialismo e no niilismo da contracultura dos anos 70, bem como na literatura de estrada da Beat Generation, invocando o espírito de obras como Pela Estrada Fora de Jack Kerouac ao transformar a fuga em alta velocidade de Kowalski - um veterano da Guerra do Vietname desiludido com o sistema - num ato de rejeição e busca por liberdade absoluta.
Kowalski (song)

Filmes:
1. Vanishing Point (1971)
É um grande clássico do cinema action-existencialist da década de 1970 e um marco dos filmes de perseguição de carros
Vanishing Point e 1971, realizado por Richard C. Sarafian e protagonizado por Barry Newman no papel do icónico Kowalski, é considerado um marco do cinema de ação e da cultura de culto dos anos 70. A história segue um ex-piloto de corridas e veterano de guerra que faz uma aposta para transportar um Dodge Challenger R/T de 1970 branco de Denver até São Francisco num tempo quase impossível. Ao longo do trajeto, a sua viagem em alta velocidade transforma-se numa perseguição policial de grande escala e numa reflexão sobre a liberdade e a contracultura da época, contando ainda com a ajuda de um locutor de rádio cego chamado Super Soul.

2. Vanishing Point (1997) - o remake
Em 1997, surgiu a versão para televisão, realizada por Charles Robert Carner e protagonizada por Viggo Mortensen. Embora conserve a premissa de velocidade e o mesmo modelo de Dodge Challenger branco, esta refilmagem alterou substancialmente as motivações do protagonista. Nesta versão, Jimmy Kowalski não corre por causa de uma aposta libertária, mas sim para chegar a tempo de acompanhar a sua mulher grávida, que sofreu complicações graves de saúde. A história ganha assim um tom mais dramático e pessoal, embora mantenha a essência do combate do indivíduo contra as autoridades ao longo das autoestradas americanas.

Mulheres conservadoras em Portugal: o contraponto ao legado de Maria de Lourdes Pintasilgo

Sobre o "movimento de mulheres conservadoras" é usar as conquistas  por exemplo - o voto, a candidatura e a voz pública - contra elas mesmas.

Esquece quem faz que não sabe (ou não se lembra) que, no Estado Novo, o máximo que faziam em público era benzer-se na missa e pedir autorização por escrito para ir às compras. E não, não estou a exagerar.

Antes do 25 de Abril, uma mulher casada precisava do consentimento do marido para trabalhar, viajar ou abrir uma conta bancária. Hoje, estas militantes "cheganas" aproveitam a autonomia conquistada para apoiar quem marcha ao lado de quem quer retirar-lhes direitos - de quem lhes quer enfiar o avental à força. Agora um pouquinho "mais a sério", dá-me repulsa, nojo, assistir a mulheres a lutar pela própria submissão - e ainda verem-se aplaudidas por quem devia defender o progresso social -;é tão absurdo como ver perus a manifestarem-se alegremente a favor do Natal todos os dias.

Não é novidade, e é triste e revoltante ver a "cheganice" aliar-se aos evangélicos e seus propósitos de ter mais votantes.

É isto que temos que nos indignar e criar repulsa e falar a verdade. Vejamos em contraponto o legado de Maria de Lourdes Pintasilgo, uma católica convicta e ativista e progressista.

O pensamento pioneiro de Maria de Lourdes Pintasilgo e o confronto com a Ditadura
Maria de Lourdes Pintasilgo (1930–2004) foi uma das figuras mais marcantes e singulares do século XX português, tendo-se tornado na primeira e até hoje única mulher a assumir o cargo de Primeira-Ministra de Portugal, em 1979, além de ser uma das mais destacadas pensadoras da igualdade de género no espaço lusófono e internacional. O seu pensamento estruturou-se em torno da ideia de que a emancipação das mulheres não devia significar uma mera assimilação do modelo masculino de poder, mas sim uma transformação profunda na própria forma de fazer política, introduzindo valores de cuidado, mediação, ecologia e justiça social. Como dirigente do Graal, um movimento internacional de mulheres católicas, e sendo ela própria uma católica convicta, Pintasilgo demonstrou que a fé e o progresso social não eram incompatíveis. Pelo contrário, defendia que o verdadeiro compromisso ético e humanista exigia a libertação das estruturas patriarcais e autoritárias que historicamente remetiam as mulheres ao silêncio.

Durante os últimos anos do Estado Novo, em pleno período da chamada "Primavera Marcelista", gerou-se uma ténue fresta de debate sobre a modernização e o desenvolvimento económico do país. Em 1970, o regime criou a Comissão para a Política Social Relativa à Mulher - a antecessora histórica da atual Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG) -, convidando Maria de Lourdes Pintasilgo para a presidir. Foi nesse contexto que Pintasilgo conduziu um diálogo estratégico com o Presidente do Conselho, Marcello Caetano, usando a sua formação em Engenharia Química, o seu rigor técnico e a sua projeção internacional junto da Organização das Nações Unidas para confrontar o regime com a contradição da condição feminina em Portugal.

Pintasilgo conseguiu convencer Marcello Caetano da necessidade de mudar a política em relação às mulheres ao demonstrar, com diagnósticos sociológicos e económicos rigorosos, que a profunda discriminação jurídica, profissional e civil existente - como a obrigação de obter autorização do marido para trabalhar, viajar ou abrir uma conta bancária - representava um atraso civilizacional e um travão ao desenvolvimento do próprio país. Além disso, invocou a dimensão internacional para sublinhar o isolamento de Portugal face aos organismos mundiais. A sua atuação permitiu que o país integrasse a Comissão do Estatuto da Mulher da ONU e viabilizou os primeiros diplomas legais de proteção ao trabalho feminino e à maternidade ainda antes da Revolução. Ao utilizar as fissuras da ditadura para erguer as bases institucionais dos direitos das mulheres, Maria de Lourdes Pintasilgo abriu caminho para as transformações democráticas que se consolidariam após o 25 de Abril de 1974, reafirmando a voz e a autonomia feminina como conquistas irreversíveis da história portuguesa.

Ler mais:
Nota: No artigo o texto intitulado Para uma óptica revolucionária da condição feminina na Constituição, o link fornecido está errado. Podem lê-lo aqui 

Pequena Garça - Anima Mundi

Garça-caranguejeira (Ardeola ralloides)
𝑨𝒏𝒊𝒎𝒂 𝑴𝒖𝒏𝒅𝒊
Há uma inteligência sem nome
na curvatura destas asas ocres e luminosas,
uma física precisa onde o ar não é vazio,
mas corpo, suporte e abraço.

Irmão Vento, que sopras sem pedir licença,
carregas a poética do espaço em cada pena.

A matéria acorda do seu longo sono:
a pedra que um dia sonhou ser planta,
a planta que ansiou pela vertigem do movimento,
até que a luz, semente da Noosfera,
revelou a consciência suspensa no azul.

Pequena Garça, não voas sobre a Terra -
és a própria Terra que ganha céus e olhares.
Não há rutura entre a tua garra amarela
e a humidade dos juncos lá em baixo:
o ecossistema é uma só teia,
uma teia profunda onde tudo o que existe,
respira o mesmo sopro.

O teu peito avança, alento puro e luz,
na metamorfose contínua da forma.
Sem artifício, sem esforço,
apenas o ser na sua mais pura,
simples e indivisível presença.
𝐽𝑜𝑎̃𝑜 𝑆𝑜𝑎𝑟𝑒𝑠, 13.08.2026

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

O despertar da Consciência Cósmica na música e na natureza


J.S.Bach : Gigue, BWV 1006, alto recorder 




Video original aqui

O despertar da Consciência Cósmica na música e na natureza
Sob o abóbada de pedra onde as eras repousam em cinza silencioso,
Uma palheta de madeira ganha fôlego e põe a luz a brincar.
O ar transforma-se em melodia, um fio de prata a dançar,
Tecido através da quietude onde o passo sagrado é dado.

A luz do sol jorra pelo arco antigo e encontra o campo aberto,
Onde a terra e o céu cedem num padrão contínuo.
O vento lá fora, o tubo de madeira, o pulsar do coração na sala,
São fios de uma teia profunda que rompe a sombra na penumbra.

Uma criança senta-se perto com olhos tranquilos, atenta em pensamento suave,
O seu espírito unido a cada fio que a graça da música teceu.
Ela não ri, mas escuta profundamente, descansando sem sobressaltos —
Um eu tão vasto como todo o cosmos, fundindo-se com o sonho.

Pois a matéria não é poeira pesada, nem estrutura fria ou sem vida,
Arde em fogo interior, ascendendo em chama.
A Natureza é o espírito visto, uma visão trazida à luz,
E o espírito é a terra silenciosa transformada em luz viva.

Cada nota desdobra uma arquitetura, folha por flor a crescer,
Um fluxo mórfico de harmonia que flui para sempre em liberdade.
A sala expande-se com ar dinâmico, um santuário amplo,
Onde a consciência cósmica desperta e não deixa nenhum coração de fora.

A canção dissolve-se no silêncio, sagrada e completa,
Deixando o universo em louvor onde a terra e o altar se encontram.

João Soares, 

Fernando Alexandre defendeu o fim do pagamento do 14.º mês aos reformados?


Através da partilha de uma notícia do “Jornal Económico” a dar conta de que o Governo já tem o relatório final que vai servir para implementar uma nova reforma da Segurança Social, há quem aponte o dedo à estratégia do Executivo de Luís Montenegro nestas matérias.

“Há muito que venho alertando para o que a direita e a extrema-direita racista anda a ‘preparar’ para lixarem os portugueses no que diz respeito à Segurança Social e, portanto, às suas reformas e pensões”, começa por escrever um utilizador do X.

A publicação continua: “Pretendem privatizar a Segurança Social (SS) pública e, depois, colocá-la em bolsa, isto é, deixar todos os portugueses na mão e à sorte desta seita de capitalistas.”

Segue-se, depois, uma crítica concreta: “Estas ideias cripto-fascistas têm duas madrinhas e um padrinho, Marilu [uma provável referência à ex-ministra Maria Luís Albuquerque], Palma Ramalho e o impagável ministro da Educação Fernando Alexandre que há muito defende o fim definitivo do pagamento do 14.º mês aos reformados/pensionistas.”

Será que esta alegação em relação ao atual ministro da Educação tem fundamento?
De facto, numa entrevista de 21 de novembro de 2011 ao jornal “Público“, o professor de Economia da Universidade do Minho defendia uma “forte redução nas reformas futuras”. A justificação era a seguinte: “A decisão da poupança é tomada em grande medida pela expectativa de rendimento que se quer ter no futuro. Mas eu vou mais longe, e desde o início da crise defendo o corte definitivo do 14.º mês para as reformas acima dos 1500 euros mensais. Esse corte teria um efeito positivo na redução da despesa da Segurança Social, e representaria uma questão de justiça. É que as reformas actuais foram fixadas num período de expectativas demasiado optimistas e estão a ser financiadas por quem está agora a trabalhar e que vai ter um corte brutal no seu rendimento quando se reformar. Este sistema é injusto. É preciso criar um sistema de transição.”

Questionado sobre se o corte do 13.º e 14.º mês para os funcionários públicos devia ser temporário, Fernando Alexandre contestou: “Um dos salários deveria ser cortado de forma definitiva. Quando houver condições, os aumentos na função pública deveriam ser feitos com base no mérito. No entanto, o corte de dois meses, para muitas famílias, vai ser brutal.”

Assim, o corte do 14.º mês faria “as pessoas aterrar”. E “ajudava-as a perceberem que, de facto, muita coisa mudou”. O recado deixava-o aos políticos: “Ninguém gosta de dar más notícias. A democracia é assim. É curioso verificar que dois terços do aumento da despesa pública foram decididos pouco antes de eleições. O último exemplo foi o aumento dos funcionários públicos em 2009. Nas últimas décadas, a política orçamental portuguesa tem sido uma aberração, e por isso chegamos à situação actual. Agora é preciso dizer às pessoas que o Estado social está a diminuir. Em relação à educação e à saúde tenho muito receio do impacto que esse corte pode ter na vida das pessoas e no bem-estar da sociedade em geral. Um modelo de saúde como o americano é assustador.”

Além disso, em 2012, no estudo “A Poupança em Portugal”, que publicou em colaboração com Luís Aguiar-Conraria, Pedro Bação e Miguel Portela, Fernando Alexandre também defendeu um primeiro passo na privatização da Segurança Social, com a criação de um novo modelo contributivo.

A Conta Poupança Desemprego, como lhe chamou, funcionaria em concreto para situações de desemprego, mas substitui, de certa forma, o papel da SS, como explicou na entrevista ao “Público”: “Se o trabalhador ficar desempregado, o subsídio é pago a partir dessa conta, e se ficar negativa, o Estado assume esse pagamento. Quando o trabalhador voltar ao ativo, o Estado recupera o saldo negativo. O que não for gasto em situações de desemprego será recebido na reforma. Este sistema responsabiliza mais o trabalhador“.

Em suma, é verdade que o atual ministro da Educação defende “há muito” o fim do pagamento do 14.º mês aos reformados e pensionistas. Mais concretamente, há 15 anos.

Falta regularizar apenas três Zonas Especiais de Conservação para Portugal cumprir as obrigações europeias da Directiva Habitats. A multa é de 2250 euros por dia


Falta regularizar os processos relativos às áreas da Serra da Estrela, do Sado e de Alvito/Cuba, para que fiquem concluídas as 61 ZEC e respetivos planos de gestão. Governo prevê concluir todo o processo ainda este ano.

Portugal está a suportar uma penalização de cerca de 750 euros por dia por cada Zona Especial de Conservação (ZEC) ainda em atraso, estando ainda por concluir três das 61 ZEC abrangidas pelo processo de regularização das áreas protegidas exigido pela União Europeia.

Segundo avançou o Ministério do Ambiente e Energia (MAEn) ao Público, falta finalizar a regularização das ZEC da Serra da Estrela, do Sado e de Alvito/Cuba. Nomeadamente, o diploma relativo à ZEC do Sado já concluiu o circuito governamental e foi remetido ao Presidente da República para promulgação; o plano de gestão da ZEC de Alvito/Cuva deverá ser submetido a Conselho de Ministros no início de setembro; e o plano de gestão da ZEC da Serra da Estrela encontra-se atualmente em circuito legislativo, na sequência da consulta pública recentemente concluída.

Recorde-se que, em março passado, o Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) condenou Portugal a pagar 10 milhões de euros por não ter executado um acórdão sobre a violação da Diretiva ‘Habitats’, relativa à preservação de habitats naturais, e 750 euros diários por cada um dos sítios que ainda não estão protegidos. Na altura, o TJUE referiu que Portugal não adotou medidas de conservação adequadas, considerando que estavam em causa infrações particularmente graves ao direito do ambiente da União, “nas quais Portugal persistiu ao longo do tempo”.

Tendo em conta que o território português abriga uma biodiversidade significativa - incluindo 99 tipos de habitats e 335 espécies abrangidas pela Diretiva Habitats- , “os riscos para o património natural comum da União são especialmente relevantes”, destacava o Tribunal, que impôs sanções financeiras até que todas as 61 zonas especiais de conservação em causa dispusessem “de proteção adequada”.

Desde então, o Governo diz ter acelerado significativamente o processo, com o MAEn a salientar que “o trabalho desenvolvido pelo Ministério do Ambiente e Energia permitiu acelerar de forma muito significativa a aprovação das designações e dos respetivos instrumentos de gestão”, colocando Portugal “numa trajetória de cumprimento integral” das obrigações europeias.

Fonte oficial do MAEn acrescenta que o trabalho iniciado pelo XXIV Governo, em 2024, deverá terminar este ano, sublinhando que este “veio corrigir um atraso acumulado ao longo de sucessivos governos, que manteve Portugal em incumprimento em matéria de obrigações europeias durante vários anos e deu origem a um processo de infração por parte da Comissão Europeia”.

O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) já tinha, entretanto, confirmado ao Jornal PT Green que entregou à tutela todos os planos de gestão das ZEC, ressalvando que “eventuais alterações ao calendário previsto poderão decorrer das diligências subsequentes ao processo, que poderão incluir pedidos de esclarecimento ou consultas ao ICNF”.

As ZEC integram a Rede Natura 2000, uma rede europeia de áreas destinadas à conservação de habitats e espécies ameaçados ou representativos da biodiversidade europeia.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

O Sopro do Sagrado em Serrabona


O 'Preludio' da suite em mi para violino: é uma das obras mais conhecidas de J.S. Bach, tão popular e maravilhosa que foi transcrita para quase todos os instrumentos. A versão em fá funciona às mil maravilhas na flauta de bisel alto. 
Local: o Prioriado de Serrabona - uma obra-prima do século XI, perdida nas montanhas catalãs perto de Perpignan
A piece  of Bach a day keeps the doctor away

O Sopro do Sagrado em Serrabona

Nas pedras seculares de Serrabona,
onde o tempo esquece a pressa dos homens,
a flauta suspende um sopro primordial
e desperta o sagrado no mais fundo.

Não há fronteira entre o templo e a terra,
entre a madeira que vibra e o espaço que ressoa;
a aragem que cruza as serras catalãs
é a mesma que se molda em harmonia.

Pelas mãos do mestre, o génio de Bach
deixa de ser nota e torna-se prece.
Cada frase musical é um degrau de silêncio,
um fio invisível tecido na matéria da vida.

Na memória do granito e no eco que se esvazia,
revela-se uma ordem discreta, um rasgo de luz pura:
auscultar essa arquitetura no cume dos Pirenéus
é sentir o pulso do cosmos na própria rocha.

João Soares, 12.08.2026

Página oficial do flautista 

Programa Nacional de Vacinação: as assimetrias regionais e o refúgio das redes antivacinas em Portugal

O Relatório Anual da Direção Geral de Saúde mostra que a maioria das vacinas infantis tem uma taxa de cobertura superior a 95% em Portugal, mas há concelhos que ficam abaixo dos 60%.A região algarvia mantem baixas taxas de vacinação Desigualdades persistem nas vacinas do HPV, gripe e covid-19.

As autoridades de saúde portuguesas estão a combater as baixas taxas de vacinação no Algarve através de uma estratégia focada na busca ativa de utentes e na proximidade comunitária Os centros de saúde realizam auditorias frequentes aos sistemas informáticos para identificar crianças e jovens com doses em atraso, avançando de imediato com contactos diretos através de telefonemas, SMS ou cartas registadas. Para mitigar o isolamento geográfico de concelhos como Aljezur e Vila do Bispo, equipas móveis de enfermagem deslocam-se às zonas rurais para administrar as vacinas localmente.Nas escolas da região, as autoridades cruzam os dados de matrícula com o registo vacinal para sinalizar alunos em falta e alertar os encarregados de educação. Paralelamente, os serviços de saúde pública trabalham com as autarquias locais para traduzir materiais informativos e integrar as comunidades estrangeiras residentes no Serviço Nacional de Saúde (SNS). Por fim, os profissionais de saúde desenvolvem ações de esclarecimento direcionadas para combater mitos e a hesitação vacinal junto de grupos específicos da população. Parece-me insuficiente. 

O debate em torno do movimento antivacinas e da proliferação de comunidades dogmáticas em Portugal exige uma análise objetiva das causas e uma revisão urgente do enquadramento legal. A experiência demonstra que o confronto direto com correntes New Age e determinadas comunidades de permacultura é ineficaz: nestes meios, o ceticismo em relação às vacinas e ao conhecimento científico assenta na construção de identidades, no sentimento de pertença e na rejeição do que consideram a "frieza" do sistema dominante. Esta mentalidade, contudo, gera consequências graves e conduz a mortes perfeitamente evitáveis.

A fixação destas famílias estrangeiras em Portugal - com particular incidência no interior (Beira Alta, região Centro) e no Algarve - resulta diretamente de um fenómeno de "fuga às regras". Países como a França e a Alemanha identificaram o risco do isolamento comunitário e do desrespeito pela saúde pública, endurecendo substancialmente os seus regimes jurídicos. Entre 2018 e 2020, tornaram a vacinação infantil obrigatória para o acesso ao ensino e erradicaram ou restringiram severamente o ensino doméstico (homeschooling).

Enquanto a Europa Central fechou as brechas legais, Portugal manteve-se como um dos países mais permissivos do continente, tornando-se um refúgio para quem procura educar os filhos fora do sistema oficial em redes locais sem controlo rigoroso. Embora a adesão da população nacional ao Programa Nacional de Vacinação seja massiva, a vacinação de menores não é juridicamente obrigatória, o que deixa uma margem de manobra perigosa. 

De salientar que há uma faixa social portuguesa em que a hesitação vacinal dos pais são na maioria da classe média-alta e alta. [artigo científico aqui]

Para proteger a saúde pública e a integração social das crianças, Portugal precisa de importar medidas coercivas inspiradas no modelo alemão, assegurando a devida conformidade constitucional:
  1. Condicionamento de acesso e sanções: nenhuma criança deve ser admitida em creches, escolas (públicas ou privadas), ATL ou colónias de férias sem o boletim de vacinação em dia. Caso seja detetada a ausência de vacinas, deve aplicar-se um prazo limite de três meses para regularização, sob pena de cancelamento da matrícula. Paralelamente, ao tornar o ensino presencial obrigatório e banir o ensino doméstico, os pais incumpridores devem ficar sujeitos a multas administrativas pesadas (a exemplo dos 2.500 euros aplicados na Alemanha).
  2. Abrangência a adultos e profissionais de risco: a obrigatoriedade vacinal deve estender-se a quem lida diretamente com populações vulneráveis - pessoal médico, trabalhadores de hospitais e lares, professores e funcionários de creches ou centros de acolhimento. A ausência de imunização deve proibir a contratação ou motivar a suspensão de funções.
Cabe ao Estado Português atuar legislativamente antes que a permissividade jurídica continue a expor a comunidade a riscos evitáveis.

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