sábado, 29 de agosto de 2026

Florence + The Machine - Cosmic Love


Letra
A falling star fell
From your heart and landed in my eyes
I screamed aloud as it tore through them
And now it's left me blind

[refrão]
The stars, the Moon
They have all been blown out
You left me in the dark
No dawn, no day
I'm always in this twilight
In the shadow of your heart

And in the dark, I can hear your heartbeat
I tried to find the sound, but then it stopped
And I was in the darkness
So darkness I became

[refrão]

I took the stars from my eyes and then I made a map
And knew that, somehow, I could find my way back
Then I heard your heart beating, you were in the darkness too
So I stayed in the darkness with you

[refrão]

A Escuridão Encoberta pelas Estrelas: Uma Análise Crítica e Mitológica de «Cosmic Love»
A banda britânica Florence + The Machine, liderada pela icónica vocalista Florence Welch, consolidou-se no cenário musical internacional através do seu som distinto focado no indie pop, baroque pop e rock artísticos. 
«Cosmic Love», lançada em 2009 como parte do álbum de estreia Lungs, é um dos temas mais emblemáticos da banda, combinando arranjos de harpa celestiais com percussões tribais e intensas. 

Liricamente, a canção aborda o impacto avassalador de um amor obsessivo e devastador. Em vez de retratar o romance de forma cor-de-rosa, Florence descreve uma paixão tão avassaladora que consome a própria luz da protagonista, projetando uma escuridão onde as estrelas, a Lua e o Sol desaparecem. Como canta a própria artista no refrão.

O teledisco da canção foi realizado pela dupla Tabitha Denholm e Tom Beard (conhecidos no meio artístico simplesmente como Tabitha & Tom). A narrativa visual acompanha Florence a caminhar por uma floresta encantada e sombria, onde encontra uma estrutura espelhada repleta de luzes cintilantes. O vídeo simboliza a busca interior e a metamorfose da dor em iluminação: ao entrar na casa de luz, o peixe de luz no seu peito irradia, sugerindo que a verdadeira energia cósmica renasce do próprio sofrimento interior.

Em termos de referências literárias e filosóficas, «Cosmic Love» dialoga profundamente com o Romantismo e o Gótico do século XIX, ecoando obras como O Monte dos Vendavais de Emily Brontë, onde o amor transcende a razão e ganha contornos destrutivos. A ideia de "uma queda de 40 dias" evoca o simbolismo bíblico do dilúvio e a perda do Paraíso em O Paraíso Perdido de John Milton. Sob uma perspectiva filosófica, a obra tangencia o conceito do Sublime de Edmund Burke e Immanuel Kant - a sensação de algo imenso e majestoso que provoca simultaneamente fascínio, pavor e um aniquilamento do próprio "eu".

Página Oficial
Florence + The Machine

Por que razão a desigualdade social e a crise da habitação alimentam a ascensão do Chega em Portugal?


A perceção de que a desigualdade em Portugal possa ter abrandado resulta de uma confusão frequente entre a variação pontual dos rendimentos diários e o fosso abissal na acumulação de património. Embora o discurso político enfatize pequenos aumentos no salário mínimo, as análises do World Inequality Database revelam que a fratura social é profunda e estrutural. Em Portugal, a extrema concentração de recursos significa que o topo 10% mais rico controla entre 50% a 60% de toda a riqueza nacional, enquanto o 1% das elites económicas detém cerca de 20% do património total. No extremo oposto dessa balança, a metade mais pobre da população sobrevive com apenas 1% a 4% dos ativos do país, perpetuando um ciclo vicioso onde quem nasce sem património dificilmente consegue ascender socialmente.

Esta disparidade passa muitas vezes despercebida no debate público porque a cobertura mediática dá prioridade às métricas do Instituto Nacional de Estatística focadas na pobreza imediata e na folha de pagamentos mensal. Em contrapartida, os relatórios do Banco de Portugal e da OCDE expõem a realidade mais crua: a valorização imobiliária galopante pós-2015 enriqueceu desproporcionalmente os grandes proprietários e fundos de investimento, enquanto esmagava o poder de compra das famílias dependentes de um salário.

Durante o período em que este abismo social se cavou, o país foi governado pelo Partido Socialista (PS) sob a liderança de António Costa - através do XXI Governo Constitucional (2015–2019), do XXII Governo Constitucional (2019–2022) e do XXIII Governo Constitucional (2022–2024). Foi nesta fase que Portugal ultrapassou os Estados Unidos (em 2017/2018) e Espanha (em 2019/2020) na inacessibilidade à habitação. A estagnação salarial combinada com o custo de vida inflacionado deixou a classe média e os jovens sem qualquer perspetiva de mobilidade social, alimentando uma sensação sufocante de injustiça e abandono por parte do Estado.

Esta vulnerabilidade estrutural foi novamente posta em evidência nas previsões macroeconómicas e recomendações que a Comissão Europeia publicou no âmbito do Semestre Europeu. Nas suas diretrizes para o país, Bruxelas sublinhou a urgência de acelerar a execução dos fundos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) direcionados para a habitação acessível, o reforço da produtividade e a sustentabilidade das contas públicas perante o envelhecimento demográfico. A Comissão Europeia alertou ainda que, sem reformas profundas que melhorem a eficiência dos serviços públicos e incentivem investimentos de alto valor acrescentado, os ganhos de rendimento arriscam-se a ser absorvidos pela pressão inflacionista do mercado imobiliário e pelos custos de vida.

É precisamente no terreno fértil desta desigualdade social sufocante e da lenta resposta institucional que o Chega constrói a sua força eleitoral. A perceção de que o sistema protege as elites económicas enquanto a maioria da população luta para pagar a renda transformou a frustração num voto punitivo de rutura. Para travar a expansão do populismo, o PS e o PSD não podem limitar-se a gerir o status quo: têm de acolher estas recomendações europeias e combater diretamente as causas desta fratura, promovendo reformas profundas na habitação, na justiça e nos serviços públicos para devolver aos cidadãos a certeza de que o trabalho compensa mais do que o privilégio acumulado.

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Espécies marinhas invasoras em Portugal aumentaram 75% em 10 anos

O número de espécies marinhas invasoras nas águas portuguesas aumentou 75% em 10 anos, com mais 98 registos, de acordo com um estudo científico a que hoje a agência Lusa teve acesso.

Este estudo foi uma atualização de um levantamento com 10 anos das “espécies não indígenas ou espécies introduzidas nas águas costeiras portuguesas, portanto estuários nas costeiras, lagoas costeiras, e incluiu tanto o continente como as ilhas”, explicou à Lusa Paula Chainho, do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (Mare), uma das organizações que tutelou o projeto.

“Verificámos que há 10 anos tínhamos reportado 133 espécies não indígenas e atualmente reportámos 231”, que corresponde a “uma taxa muito elevada de novas introduções”, disse.

Isto “é ainda mais preocupante” porque os investigadores que realizaram o estudo há 10 anos admitiam que o elevado número então registado correspondia a espécies que não haviam sido estudadas, mas tudo indica que estes novos 100 registos correspondem a um “aumento bastante acentuado” porque, desde então, têm sido feitas várias análises.

“Das 231 espécies confirmadas, 159 ocorrem em Portugal continental, 81 nos Açores e 62 na Madeira”, pode ler-se na apresentação do trabalho de 31 investigadores de 11 universidades portuguesas entre várias organizações, e liderado pelo Mare e pela Rede de Investigação Aquática (Arnet), que foi publicado na revista Marine Pollution Bulletin e aponta vários problemas na costa portuguesa.

Segundo Paula Chainho, a “navegação é a principal causa de introdução de novos exemplares”, seja através da “incrustação nos cascos das embarcações” de espécies ou pela lavagem dos tanques de água de lastro.

As embarcações de transporte têm tanques de água no interior para ficarem equilibradas quando carregam mercadoria e descarregam conforme necessitem para garantir a estabilidade da estrutura.

“Quando uma embarcação descarrega uma determinada carga, tem que compensar essa saída de peso com um peso adicional e, portanto, neste caso, as águas que são introduzidas nos tanques de lastro”, que são descarregadas noutro ponto do globo quando carregam novas mercadorias.

“Nestas águas que são captadas num local e descarregadas noutro viajam muitos organismos vivos”, explicou a investigadora, que aponta também riscos na aquacultura.

Em causa, nestes casos, está a introdução de novas espécies de produção, mas também organismos que “chegam à boleia” destes exemplares.

Por isso, o “foco deve estar principalmente na prevenção porque quando uma espécie aquática entra num determinado local, nós só vamos detetá-la quando ela já está perfeitamente instalada”, defendeu a investigadora.

Nesse capítulo, existe uma “convenção internacional das águas de lastro que obriga ao tratamento lastro antes de serem descarregadas” mas “em Portugal não temos relatórios oficiais que possamos consultar sobre como é que isto tem vindo a ser implementado”.

Já em relação à aquacultura, “também há regulamentação e, portanto, para ser introduzida uma nova espécie não indígena para a aquacultura é preciso um requerimento específico”, mas também “não há nenhum tipo de verificação em Portugal em relação a como é que isto está a ser cumprido ou não”, disse.

Noutros casos, há espécies como a ameijoa japonesa, uma espécie invasora nas águas nacionais há muitos anos, e em que a única forma de controlar a sua população é através da gestão da pesca, reconheceu.

O trabalho propõe também uma lista de vigilância inédita com 22 espécies detetadas através de ADN ambiental, um sistema de deteção precoce capaz de identificar espécies invasoras antes de serem observadas a olho nu.

Nas águas de Portugal continental, 39% das espécies não indígenas são originárias do Pacífico Norte, seguidas de 24% com origem noutras zonas do Atlântico Norte, uma tendência que é invertida nos Açores e Madeira, com o Pacífico Norte a ter predominância.

De todos os portos, Sines “surge no estudo como um ponto estratégico de entrada, dada a sua localização no cruzamento de rotas marítimas que ligam a Ásia, o Mediterrâneo, os Estados Unidos e África”, refere, justificando a investigação específica desta zona.

“As invasões marinhas são um fenómeno dinâmico e transfronteiriço, e compreendê-las exige uma ciência capaz de trabalhar à mesma escala. Este estudo permitiu-nos ir muito além de uma simples atualização do número de espécies, revelando padrões de introdução, lacunas no conhecimento genético e prioridades para a monitorização futura”, refere Romeu Ribeiro, investigador do Mare e primeiro autor do estudo, num comunicado.

A equipa desenvolveu uma “lista de vigilância pioneira com 22 espécies detetadas exclusivamente por métodos moleculares, como o ADN ambiental”, mesmo “sem confirmação física da existência.

Este mecanismo constitui “um sistema de alerta precoce, capaz de sinalizar potenciais invasores antes de serem visualmente identificados no terreno”.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Rosetta Stone - Shadowban

Melhor som aqui
A banda Rosetta Stone é uma referência histórica do rock gótico britânico, tendo surgido em Liverpool no final da década de 1980 pela mão do vocalista e compositor Porl King. Ao longo dos seus anos de atividade, o grupo protagonizou uma metamorfose sonora marcante: começou enraizado no som sombrio e guitarrístico da segunda vaga do gothic rock britânico, muito próximo de nomes como The Sisters of Mercy, mas foi progressivamente incorporando caixas de ritmos pesadas, sequenciadores mecânicos e pulsos sintéticos rígidos. É precisamente essa viragem para a eletrónica negra e para estruturas rítmicas repetitivas que faz com que temas recentes como "Shadowban" soem tão próximos da EBM - a Electronic Body Music de pioneiros belgas como os Front 242 -, aliando uma urgência industrial a vocais frios e robóticos.

Em termos de narrativa visual e temática, o videoclipe oficial de "Shadowban" utiliza imagens da longa-metragem surrealista de terror gótico Magick Mtn. (2026), um projeto cinematográfico imerso no universo do ocultismo de Laurel Canyon, feitiçaria e estéticas do deathrock. Essa simbiose visual encaixa na perfeição com o significado da própria canção. O termo shadowban alude ao bloqueio subtil e invisível de conteúdos no espaço digital, e Porl King transforma essa metáfora numa reflexão sobre o silenciamento algorítmico, a perda de agência individual e a alienação na era moderna, onde a voz humana é absorvida pela hiper-realidade dos ecrãs.

Essa abordagem encontra eco em influências literárias e filosóficas profundas. O conceito do filme e da própria faixa dialogam diretamente com o misticismo e a magia cerimonial de Aleister Crowley, ao mesmo tempo que recuperam a atmosfera febril e a decadência psicológica evocar no clássico A Montanha Mágica de Thomas Mann. No plano filosófico, a ideia do silenciamento invisível aproxima-se da teoria do simulacro de Jean Baudrillard, onde os códigos e os algoritmos substituem o mundo real, deixando o indivíduo a gritar num vazio em que ninguém o consegue ouvir.

A abertura na copa das árvores

Céu Tecido
Um campo de ondulações de espuma cinzenta e suave
estende-se amplamente pela atmosfera,
onde o ar e a humidade tecem um lar temporário,
mantendo perto a luz e a sombra.

Correntes invisíveis curvam-se e erguem-se,
arrefecendo o vapor em formas silenciosas,
um presente subtil, flutuante e vivo
antes da chegada das tempestades.

Nenhuma parte está separada do chão,
nenhuma gota existe fora do todo;
em cada sopro flutuante encontra-se
o ritmo de uma única alma.

João Soares, 28.08.2026

O Contrato Social sob Sequestro: Como o Imobiliário de Luxo Explica a Captura da Democracia em Portugal

Portugal vive hoje uma profunda contradição socioeconómica, marcada pela estagnação dos salários médios perante um custo de vida em escalada vertiginosa. O ecossistema imobiliário tornou-se o palco principal desta assimetria, onde a habitação acessível escasseia enquanto o mercado de luxo atinge valores desproporcionados. O fenómeno é simbolizado por propriedades emblemáticas como a Quinta da Felicidade, em Sintra - famosa pelo seu anexo em forma de "castelo da Disney" construído nos anos 90 -, que voltou ao mercado por valores a rondar os 28 milhões de euros, desenhada à medida do new money e do capital estrangeiro. No entanto, o problema central não reside na mera existência da opulência privada, mas na impossibilidade prática de grande parte da população manter um teto digno. Dados oficiais da ENIPSSA confirmam esta fratura ao revelar que o fenómeno dos sem-abrigo disparou no país, ultrapassando os 14.400 indivíduos como resultado direto da subida galopante das rendas e da escassez de resposta pública.

Esta disparidade reflete a perda de eficácia da democracia liberal pós-anos 90, um período em que os estados viram a sua margem de manobra esmagada pela globalização financeira. A habitação deixou de ser tratada como um bem social prioritário para se converter num ativo especulativo para alocação de liquidez global, impulsionada por fundos de investimento, empresas de private equity e incentivos fiscais como os Vistos Gold, que desligaram o valor do metro quadrado do poder de compra local, empurrando as populações para a periferia económica. Esta dinâmica cruza-se com a análise da ciência política sobre a captura do poder político. O célebre estudo de Martin Gilens e Benjamin Page, Testing Theories of American Politics (2014), demonstrou empiricamente como as preferências das elites económicas e dos grupos de lóbi têm uma influência desproporcional na aprovação de leis, enquanto a vontade do cidadão comum tem um peso reduzido quando colide com o grande capital. A transição frequente de quadros entre a alta finança e os governos - observável em trajetórias como as de Emmanuel Macron ou Friedrich Merz - ilustra uma proximidade de elite que molda as políticas públicas a favor da desregulamentação.

Contudo, atribuir esta responsabilidade exclusivamente às elites políticas seria ignorar o funcionamento das próprias democracias representativas, nas quais os governos são legitimados pelo voto. A crise resulta de um triângulo complexo onde o eleitorado também desempenha um papel ativo através de um desequilíbrio geracional e patrimonial no próprio voto: cidadãos que já possuem habitação própria tendem a favorecer políticas que valorizem o imobiliário, enquanto inquilinos e jovens acabam penalizados. Por outro lado, os governos eleitos enfrentam a ameaça constante do capital não-eleito que vota "com os pés", recorrendo à fuga de investimento ou à pressão sobre os mercados de dívida soberana sempre que são propostas medidas regulatórias mais agressivas. Adicionalmente, o ecossistema mediático e o financiamento de campanhas condicionam a visibilidade dos candidatos e filtram a ementa eleitoral disponível para o cidadão. Em resposta a este impasse, o poder político recorre frequentemente ao citizenwashing: a criação de fóruns de participação cidadã, consultas públicas ou orçamentos participativos que funcionam como fachada cosmética. Estes mecanismos simulam auscultação democrática, mas raramente têm caráter vinculativo quando enfrentam interesses imobiliários consolidados.

O resultado inevitável desta encenação estende-se muito além da apatia social e do alheamento político tradicionais. Diante da perceção continuada de que o voto não altera as condições materiais nem trava a especulação, a população desenvolve uma sensação de impotência adquirida (learned helplessness). No entanto, esta resignação passiva não é o ponto final, mas sim o terreno fértil onde o populismo de matriz radical deita raízes. A frustração transforma-se em polarização ativa e o voto passa a ser utilizado como uma arma punitiva contra o sistema, simplificando dinâmicas globais complexas através da criação de bodes expiatórios imediatos e fundindo a revolta económica com debates identitários. As consequências desta degradação institucional fraturam os alicerces económicos, institucionais e sociais de um País. No plano económico, a captura regulatória distorce o mercado ao transformar os regulamentos públicos em verdadeiras barreiras à entrada, blindando as empresas dominantes contra novos concorrentes. Sem a pressão da competição real, estas corporações protegidas deixam de inovar, perpetuando serviços de baixa qualidade e impondo preços inflacionados que sufocam o poder de compra das famílias.

Esta subserviência do regulador perante o regulado culmina frequentemente em crises graves de segurança e saúde pública, uma vez que a fiscalização rigorosa é substituída pela negligência corporativa. Normas de segurança e critérios ambientais são enfraquecidos para maximizar as margens de lucro privado, abrindo caminho para desastres ecológicos, falhas catastróficas de infraestruturas ou a distribuição de produtos farmacêuticos e alimentares nocivos, cobrando um preço altíssimo em vidas humanas. Institucionalmente, o fenómeno degrada o próprio Estado de Direito e drena os recursos fiscais do país. O erário público passa a ser utilizado para subsidiar indústrias ineficientes e perdoar coimas pesadas, enquanto o lóbi agressivo e o fenómeno da "porta giratória" - a transição contínua de decisores entre cargos públicos e administrações privadas - normalizam uma forma de corrupção sistémica e legalizada. No fim da linha, esta dinâmica acentua severamente a desigualdade social, operando uma transferência maciça de riqueza dos consumidores comuns para os acionistas das grandes empresas e invertendo o papel fundamental do Estado, que deixa de proteger o cidadão vulnerável para se converter no braço forte do opressor económico.

No setor ambiental, a captura regulatória manifesta-se de forma devastadora, pois os danos causados são muitas vezes irreversíveis e afetam diretamente a sobrevivência das populações. Quando as agências responsáveis por licenciar, monitorizar e penalizar atividades poluentes passam a defender os interesses das indústrias extrativas, energéticas ou agroquímicas, o resultado é a legalização da destruição ecológica. Um dos exemplos globais mais emblemáticos deste fenómeno ocorreu no desastre da plataforma petrolífera Deepwater Horizon, em 2010, no Golfo do México, onde se provou que o Minerals Management Service (MMS) - a agência reguladora norte-americana - mantinha uma relação de excessiva promiscuidade com a BP, aprovando relatórios de segurança deficientes e recebendo incentivos da própria indústria que devia fiscalizar.

Em Portugal, o debate sobre a fragilidade e a captura da regulação ambiental tem ganho contornos visíveis em setores como a mineração a céu aberto, nomeadamente o lítio, o avanço de megaprojetos turísticos em zonas protegidas e a proliferação da agricultura intensiva no Sudoeste Alentejano. A aprovação acelerada de Avaliações de Impacto Ambiental (AIA) e a emissão de Declarações de Impacte Ambiental (DIA) favoráveis - ou condicionadas a medidas de mitigação raramente fiscalizadas - geram frequentemente forte contestação social e judicial por parte de associações de defesa do ambiente e populações locais. A dependência técnica que o Estado tem dos estudos pagos pelas próprias empresas promotoras cria uma assimetria de informação que esvazia a neutralidade de organismos como a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) ou o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). O resultado prático desta subordinação do regulador ao poder económico é a degradação acelerada da biodiversidade, a contaminação de linhas de água por pesticidas ou efluentes industriais e a destruição de ecossistemas únicos. Sob o pretexto do desenvolvimento económico e da criação de postos de trabalho, as salvaguardas sociais e ecológicas capitulam, provando que a crise de habitação e a erosão democrática convergem para o mesmo sistema de incentivos onde o contrato social foi inteiramente subordinado às regras do capital.

Por fim observamos a aceleração da Inteligência Artificial, que, senão for devidamente regulamentada, entraremos num modelo tecnofascista. A ausência de regras éticas e de limites jurídicos claros permite que algoritmos preditivos e sistemas automatizados de tomada de decisão passem a gerir direitos fundamentais, desde o acesso ao emprego e ao crédito até à justiça e à segurança pública. Sem supervisão independente, estes sistemas perpetuam e amplificam preconceitos históricos ocultos sob uma falsa capa de neutralidade matemática, transferindo o poder soberano do Estado para as mãos de um punhado de corporações tecnológicas globais que operam na total opacidade.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Birds Are Indie - Black (or the art of letting go)

Melhor som aqui
A canção "Black (or the art of letting go)", integrada no álbum On a Tempo (2020), aborda a vulnerabilidade emocional, o luto e a libertação do passado. O significado da composição gira em torno da aceitação da dor como parte inevitável da condição humana - o "preto" (black) surge não apenas como ausência de luz ou luto, mas como a metáfora do espaço em branco necessário para a transformação interior. O tema reflete sobre a arte de desapegar e "deixar ir" (letting go) memórias, expetativas e pesos emocionais para abrir caminho ao recomeço.

Esta narrativa visual ganha corpo no videoclipe da canção, onde a linguagem estética minimalista serve de espelho para o estado de espírito do tema. O significado do videoclipe reside na representação simbólica do isolamento e da catarse: através do jogo de luzes e sombras, movimentos contidos e ambientes despojados, encena-se o processo interno de libertação, onde as personagens enfrentam a escuridão interior para finalmente alcançarem a serenidade do desapego.

No plano conceptual, a canção carrega fortes influências literárias e filosóficas ligadas ao existencialismo e ao estoicismo. O subtítulo "the art of letting go" dialoga diretamente com correntes filosóficas estoicas - que defendem a aceitação da impermanência e daquilo que não podemos controlar -, assim como com a tradição literária do romantismo e do simbolismo, em que o luto e a melancolia não são encarados como fins destrutivos, mas como catalisadores para a contemplação e o amadurecimento do eu.

Investigador quer reescrever a árvore evolutiva dos antepassados humanos

Hominídeo do género Paranthropus

As recentes descobertas sobre a evolução humana podem obrigar a repensar a forma como classificamos e designamos os nossos antepassados, segundo uma investigação da Universidade de Monash, na Austrália. O estudo, publicado na American Journal of Biological Anthropology, propõe que todas as espécies humanas e os seus parentes fósseis mais próximos que viveram nos últimos quatro a cinco milhões de anos sejam incluídos no género Homo.

A evolução humana é frequentemente apresentada como uma sucessão relativamente linear de espécies, desde antepassados com características semelhantes às dos símios até aos primeiros representantes do género Homo e, finalmente, ao Homo sapiens. No entanto, o registo fóssil revela uma história bastante mais complexa, com novas descobertas a pôr em causa características que durante décadas foram utilizadas para distinguir diferentes grupos.

Ian Towle, investigador do Monash Biomedicine Discovery Institute e autor principal do estudo, considera que os avanços recentes tornam este um momento adequado para rever a taxonomia tradicional. “As recentes descobertas de fósseis e os avanços na análise evolutiva e genética fazem deste um momento ideal para reconsiderar se a nossa taxonomia tradicional ainda representa de forma rigorosa a evolução humana”, afirma.

Segundo o investigador, as classificações atuais dos géneros Homo, Australopithecus e Paranthropus podem já não refletir adequadamente as relações evolutivas entre estes grupos, todos presentes no registo fóssil dos últimos cinco milhões de anos.

“Estes grupos não representam necessariamente ramos evolutivos distintos, ou ‘clados’, e as diferenças de comportamento e ecologia que eram anteriormente utilizadas para os distinguir são também cada vez mais difíceis de sustentar”, explica Towle.

Uma árvore evolutiva mais complexa
Nos últimos 50 anos, o conhecimento sobre a evolução transformou a forma como os cientistas classificam os organismos. A taxonomia moderna procura cada vez mais refletir as relações evolutivas reais, agrupando espécies com base na sua ascendência comum. Contudo, segundo o investigador, essa abordagem tem avançado mais lentamente quando se trata da nossa própria história evolutiva.

O género Homo foi tradicionalmente associado a características como cérebros maiores, utilização sofisticada de ferramentas e determinados traços anatómicos e comportamentais. Contudo, o registo fóssil revelou entretanto representantes do género com cérebros muito pequenos, enquanto existem indícios de comportamentos complexos em espécies classificadas nos géneros Paranthropus e Australopithecus.

É neste contexto que Towle propõe alargar o género Homo de forma a incluir também estes grupos. A alteração, defende, permitiria representar de forma mais coerente as relações evolutivas entre os diferentes antepassados humanos e reduzir a necessidade de alterar repetidamente a classificação à medida que surgem novos fósseis e novas informações.

“Quanto mais aprendemos sobre os nossos antepassados e parentes fósseis próximos, mais percebemos como a nossa árvore genealógica é complexa e não linear”, afirma o investigador.

“Expandir o género Homo de modo a incluir também espécies de Australopithecus e Paranthropus permitir-nos-á ter em conta as diferenças sem reclassificar regularmente determinados grupos”, conclui.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Drab Majesty - Noise of the Void


Ver vídeo aqui

[Verse 1]
Surrounded by reactive eyes
Mass reaction sadness
Satan hides no more
Love is on a leash today
Branded by the things you
Say-tan hides no more
Satan hides no more

[Chorus]
You walked right into the web
(It's the emptiness, the emptiness)
You could never talk with silence like this
(It's the emptiness, the emptiness)
You could never stop the violence like this
(When sentience is sensing it)
It's the emptiness, the emptiness

[Verse 2]
Love is a panopticon
Opted out of options
Satan hides no more
Satan hides no more
Death to your autonomy
Searching for that person
Satan hides no more
Satan hides no more

[Chorus]
You walked right into the web
You could never talk with silence like this
(It's the emptiness, the emptiness)
You could never stop the violence like this
(When sentience is sensing it)
You could never walk with mileage like this
(It's your willingness to ignorance)
Listen to the noise of the void
There's a message in it for you

[Bridge]
Is there any reason now
To surrender sound as you enter the ground?
Is there any reason now
To surrender sound as you enter the ground?
Is there any reason now
To surrender sound as you enter the ground?
Is there any reason now
To surrender the horrendous sound of the hour is everywhere now?

[Refrain]
(It's the emptiness, the emptiness)
(It's the emptiness, the emptiness)
(It's the emptiness, the emptiness)

[Chorus]
You could never talk with silence like this
(It's the emptiness, the emptiness)
You could never stop the violence like this
(When sentience is sensing it)
You could never walk with mileage like this
(It's your willingness to ignorance)
Listen to the noise of the void
There's a message in it for you

[Outro]
Listen to the noise of the void
There's a message in it for you
Listen to the noise of the void
There's a message in it for you

Narciso no Panóptico: A Desconexão Humana em "Noise of the Void"
Os Drab Majesty são uma banda originária dos Estados Unidos, mais concretamente de Los Angeles, Califórnia. O projeto define o seu som através do termo criativo "Tragic Wave", uma fusão estética que combina elementos de Darkwave, Coldwave, Post-Punk, Dream Pop e Goth Rock de inspiração oitentista.

Integrada no álbum Modern Mirror, a faixa aborda o estado de despersonalização e alienação provocado pelo ecossistema digital contemporâneo. O "ruído do vazio" refere-se à sobrecarga constante de informação, distrações e estímulos virtuais que mascaram a ausência de sentido e desvanecem a identidade individual. A letra sugere que a recuperação da consciência e do eu autêntico exige o silêncio e o afastamento desse ruído contínuo.

O videoclipe foi realizado pelo cineasta australiano Jai Love e filmado em película de 16mm em Sydney. As escolhas visuais contam com uma estética retro e hipnótica que reflete o isolamento urbano e a desconexão existencial descritos na faixa, recorrendo a cenários surreais e composições ritualísticas para ilustrar a busca por transcendência num mundo frio e automatizado.

Neste cenário visual, a presença das duas figuras femininas nuas funciona como um poderoso dispositivo simbólico que aprofunda a temática da obra. A nudez representa a vulnerabilidade do ser humano desprovido das suas máscaras sociais, artifícios urbanos e distrações digitais, criando um contraste direto entre a fragilidade e a pureza do corpo e a frieza dos cenários onde as cenas decorrem.

A narrativa conceptual do tema assenta principalmente no mito de Narciso e Eco, presente nas Metamorfoses de Ovídio, recontextualizado para a dependência moderna dos ecrãs e da autoimagem. No teledisco, a escolha das duas figuras femininas introduz precisamente este conceito da duplicidade e do espelho, em que ambas atuam como o reflexo uma da outra, simbolizando a procura constante da própria identidade através do "outro" ou da projeção do próprio reflexo. Esta dinâmica traduz o transe existencial e o ritual de regresso ao estado original do ser, numa tentativa de despir a mente do "ruído do vazio" e retornar a uma essência pura.

A nível filosófico, a canção cruza o existencialismo e o niilismo de autores como Friedrich Nietzsche ou Jean-Paul Sartre, ao confrontar a busca de sentido no meio do vazio, com a teoria do panóptico e da vigilância social de Michel Foucault e Jeremy Bentham, onde a constante exposição pública resulta na perda da individualidade. A exposição total dos corpos no vídeo dialoga diretamente com esta ideia de vigilância moderna, onde o indivíduo se encontra permanentemente observado, vulnerável e desnudado perante o olhar alheio na sociedade contemporânea.

Bill Gates faz um alerta mundial: a IA deve ser "prioridade número um do mundo"


Bill Gates, o fundador da Microsoft que se aposentou da respetiva direção em 2020, admitiu estar apreensivo em relação ao desenvolvimento da inteligência artificial (IA), cujos riscos as big techs recusam admitir, enquanto acumulam fortunas “trilionárias”. A reflexão sobre os riscos da inteligência artificial deve ser “a prioridade número um do mundo”, afirma Gates, que se diz “em estado de choque” pelo que considera ser a pouca atenção que os responsáveis políticos estão, na sua leitura, a dar a este tema.

Depois das notícias sobre a controversa relação com Jeffrey Epstein - que originou uma auditoria no Comité da Casa Branca em junho - o nome de Gates voltou a figurar num título do The New York Times, que entrevistou o empresário para falar sobre a tecnologia em evolução rápida, para a qual contribuiu indiretamente. “Não gosto de dar más notícias às pessoas nem de dizer que a inovação pode ser negativa. Mas é aí que estamos.”

A conversa com o jornal norte-americano foi publicada na sequência de um ensaio que Gates publicou no respetivo website, intitulado “The turbulent AI era is here. The choices we make now are critical” [A era turbulenta da IA está aqui. As escolhas que fazemos agora serão decisivas], no qual admitiu estar apreensivo face a uma tecnologia capaz de “substituir e até exceder a cognição humana” e sugeriu soluções que incluem a aplicação de taxas e proibições.

“Em privado, as pessoas que compreendem o quão bom isto já é e as potencialidades que tem estão muito preocupadas”, disse, acrescentando que são poucos os executivos das tecnológicas capazes de admitir os perigos inerentes ao desenvolvimento descontrolado da IA. “Eles estão cheios de pressa e cultivam a esperança de que os aspetos positivos se sobreponham aos negativos”, acrescentou.

Sem mencionar o nome de empresas particulares, nomeadamente da Microsoft - que desenvolve a ferramenta de inteligência artificial Copilot — acusou os programadores de IA de produzirem uma tecnologia que pode ser responsável por despedimentos em massa. Se, no passado, os avanços tecnológicos aumentaram o número de empregos disponíveis, a era da IA é “absolutamente, completamente e totalmente diferente”, porque incide sobre todas as áreas, impedindo que os trabalhadores afetados transitem para indústrias alternativas.

Entre as propostas do empresário e filantropo - desde 2000 que gere uma ONG destinada a “reduzir a doença e a pobreza e a construir um mundo mais igualitário” - estão a introdução de uma taxa sobre o uso de IA, o impedimento de que alguns trabalhos sejam desempenhados por máquinas e o estabelecimento de acordos internacionais, com vista a monitorizar o desenvolvimento destas tecnologias.

Gates admitiu estar em “estado de choque” perante a falta de urgência que os líderes mundiais destinam a este assunto. “Por favor, pensem mais sobre isto, por favor deem-lhe mais atenção”, concluiu.

Quercus exige avaliação ambiental conjunta dos centros de dados de Abrantes

A Quercus considerou hoje que os dois centros de dados previstos para o município de Abrantes poderão consumir anualmente quase 19 vezes mais eletricidade do que o concelho e exigiu estudos de impacte ambiental para os projetos.

Em comunicado, a associação ambientalista manifesta preocupação com a construção de um segundo centro de dados no concelho, junto à rotunda de Alvega, alertando que a coexistência com o empreendimento já previsto para os terrenos da antiga central termoelétrica do Pego levanta questões sobre os impactes ambientais cumulativos.

“Trata-se de um empreendimento, por si só, excessivo para o território que pretende ocupar, com potenciais impactos ambientais, hídricos e territoriais”, afirma a Quercus, referindo-se a um projeto promovido pelo grupo Hyperion e defendendo a realização de um Estudo de Impacte Ambiental (EIA) antes de qualquer eventual licenciamento.

O projeto da Hyperion prevê cerca de 151 mil metros quadrados de área de implantação, 287 mil metros quadrados de área de construção e uma ligação elétrica de 200 megavolt-amperes (MVA).

Este centro de dados, o segundo previsto para o concelho de Abrantes, no distrito de Santarém, foi objeto em maio deste ano de uma pronúncia favorável do município, no âmbito de um Pedido de Informação Prévia, não estando então ainda em causa a aprovação definitiva do projeto.

Por sua vez, a Hyperion indicou à Lusa que o empreendimento estava em fase de licenciamento e previu uma entrada em funcionamento em 2029.

Está previsto também outro centro de dados de grande dimensão, promovido pela empresa EDC ONE, nos terrenos da antiga central termoelétrica do Pego, com uma potência anunciada de 300 megawatts (MW), enquanto o projeto da Hyperion prevê 20 MW.

No caso do projeto do Pego, a Câmara de Abrantes declarou o investimento de interesse municipal em setembro de 2025 e aprovou isenções de impostos (IMI, IMT e Derrama) no valor global de 16,2 milhões de euros.

O empreendimento prevê um investimento de sete mil milhões de euros e a criação de 450 postos de trabalho diretos e 700 indiretos até 2030.

“A coexistência de dois projetos desta magnitude no mesmo concelho, ambos dependentes do ponto de ligação à rede na Central do Pego, levanta questões de impactes cumulativos, ao nível do consumo e contaminação de recursos naturais, da pressão sobre solos agrícolas e florestais, e da alteração da paisagem e do ordenamento territorial”, alerta a Quercus.

A nível energético, a associação ambientalista estima que, “num cenário conservador de utilização” média de 30% da potência instalada, o consumo conjunto dos dois centros será de cerca de 841 gigawatts-hora (GWh) por ano, “aproximadamente 5,7 vezes o consumo anual de eletricidade do concelho de Abrantes em 2024”.

“À plena capacidade, o consumo poderá atingir cerca de 2,8 TWh/ano [terawatts-hora], correspondente a quase 19 vezes o consumo anual atual do concelho”, apontam.

Por outro lado, a Quercus alerta igualmente para o consumo intensivo de água dos centros de dados, considerando particularmente preocupante a instalação destas infraestruturas num território sujeito a pressão sobre os recursos hídricos.

“É precisamente neste contexto de recursos hídricos já sob pressão que se pretende instalar mais uma infraestrutura industrial de consumo intensivo de água”, critica, citando o diagnóstico da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) para o período 2028-2033, que aponta para um índice de escassez hídrica de 40% no rio Tejo.

Nesse sentido, os ambientalistas exigem a realização de um EIA que avalie conjuntamente os impactos dos dois projetos nos recursos hídricos e na rede elétrica regional, o aumento da temperatura local, áreas agrícolas e florestais e poluição hídrica e sonora, antes que seja emitido um parecer favorável.

“As metas de transição digital e energética não podem atropelar a salvaguarda ambiental e o ordenamento do território”, sustentam.

A Quercus pretende também que seja reavaliada a dimensão territorial da Zona Livre Tecnológica de energias renováveis de Abrantes, alegando que esta abrange mais de metade do concelho.

A regulamentação da Zona Livre Tecnológica de Abrantes foi aprovada em março e destina-se a projetos de investigação, desenvolvimento e inovação relacionados com a produção, o armazenamento e o autoconsumo de eletricidade proveniente de fontes renováveis.

O comunicado da Quercus não inclui reações da Câmara Municipal de Abrantes, das empresas promotoras, da Agência Portuguesa do Ambiente ou da CCDR de Lisboa e Vale do Tejo às preocupações agora apresentadas.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Yalisco - Long Summer

Letra
It's been a long long summer
Thinking about you
And though I said I'd get through it
It still sounds a bit untrue
Girl, sometimes I wonder
If you feel as I do
Cause when the sun is going down
I just want to be around you

It's been a long long time
Alone with my thoughts
Trying to find anybody
To help me pass the time
Girl, sometimes I wonder
If you still dream about me
And when the tide is going out
You just want me by your side

It's been a long long summer
Think I've made up my mind
Now I must fill the emptiness
And try to start again
Girl, I do still wonder
If you feel as I do
Cause when the sun is going down
I still want to be around you

Anatomia da Melancolia Solar: A Poética Suíça de "Long Summer" dos Yalisco
Originais de Genebra, na Suíça, os Yalisco — projeto cofundado pelo vocalista e guitarrista Valentin Girardet — destacam-se no panorama do indie rock e surf pop alternativo europeu. A sonoridade de "Long Summer" enquadra-se num dream pop e surf rock atmosférico marcado por guitarras carregadas de reverb, ritmos cadenciados e timbres quentes. A produção da faixa, editada pela chancela independente Table Basse Records, constrói uma paisagem sonora envolvente e contemplativa que evoca a sensação estival e a languidez típica do final de tarde.

No que concerne ao significado da canção, a letra escrita por Valentin Girardet e pelos seus companheiros de banda aborda a transição emocional do isolamento após o fim de uma relação. O "longo verão" funciona como uma metáfora para um estado de suspensão temporal - um período dilatado em que a luz vibrante da estação contrasta fortemente com a solidão e a ruminação interior ("It's been a long long summer / Thinking about you"). A composição retrata o esforço para preencher o vazio e recomeçar, enquanto a maré e o pôr do sol sublinham a inevitabilidade da passagem do tempo.

Do ponto de vista literário e filosófico, a faixa estabelece um diálogo com o conceito de spleen baudelairiano e com a melancolia existencial, na qual a beleza da natureza coexiste com o tédio e a nostalgia interior. Releva também uma profunda ressonância com a reflexão de Albert Camus sobre encontrar um "verão invencível" no meio das adversidades do indivíduo, bem como com a noção de tempo psicológico ou durée de Henri Bergson: a perceção emocional da estação estende-se indefinidamente na psique de quem recorda. Em termos poéticos, a faixa revisita o efémero da juventude e do afeto, transformando o cenário solar num espaço metafísico de cura, saudade e aceitação.

Página oficial

A reação do continente: enquanto a Europa trava o turismo especulativo, Portugal fica para trás e entra em autodestruição?

Manifestação "Barcelona no esta en venda" (29/01/2017)
Várias cidades europeias estão a responder à crise da habitação e ao turismo de massa através de intervenções diretas na propriedade, restrições ao alojamento local e estratégias de gestão de fluxos de visitantes, variando entre proibições drásticas, limites de utilização e forte investimento público em habitação. Barcelona anunciou a caducidade de todas as licenças de alojamento turístico em edifícios residenciais até novembro de 2028, com o objetivo de devolver cerca de 10.000 frações habitacionais ao mercado de arrendamento de longa duração. No mesmo sentido, Madrid aprovou o Plan RESIDE, que proíbe apartamentos turísticos individuais em prédios habitacionais no centro histórico, permitindo a atividade apenas a edifícios inteiros dedicados exclusivamente ao turismo.

Outras capitais optaram por impor limites temporais severos para travar a conversão de casas em hotéis informais. Amesterdão restringiu o arrendamento de habitações por particulares a um máximo de 30 dias por ano, reduzindo para 15 dias nas zonas de maior pressão urbana, além de ter congelado a abertura de novos hotéis e limitado o número total de pernoitas anuais na cidade. Paris estabeleceu um teto máximo de 90 dias por ano para o arrendamento da residência principal, associado a exigências estritas de eficiência energética, enquanto Viena aplica um limite idêntico de 90 dias e exige a autorização explícita de todos os condóminos do prédio para qualquer exploração turística.

Paralelamente, cidades históricas recorrem a ferramentas financeiras e regulatórias para combater a sobrelotação do espaço público. Veneza implementou uma taxa de entrada para visitantes de um dia durante as épocas de pico para conter o turismo de passagem sem consumo local, e Florença proibiu a instalação de cofres de chaves nas fachadas do centro histórico por razões de decoro urbano, travando em simultâneo a emissão de novas licenças.

Como alternativa à especulação pura do mercado livre, Viena e Berlim aplicam leis rigorosas contra o uso indevido de habitação para fins não residenciais, sendo que Viena destaca-se por manter mais de 60% da sua população a residir em habitação pública ou cooperativa subsidiada, um modelo que protege o parque habitacional da pressão turística. Em termos comunitários, o novo quadro regulatório europeu obriga as plataformas digitais a partilharem dados mensais com os municípios, simplificando a fiscalização direta do alojamento ilegal.

Na Grécia, na Croácia, na Irlanda e na Chéquia, a resposta ao turismo intensivo assenta igualmente na limitação do alojamento local e na introdução de restrições territoriais severas. A Grécia aplicou um travão total à emissão de novas licenças nos três distritos mais centrais de Atenas e impôs restrições rigorosas à densidade de alojamentos e à construção em ilhas saturadas como Santorini e Mykonos. Para redirecionar o edificado para a população local, o governo grego criou uma isenção total do imposto sobre rendimentos de arrendamento durante três anos para os proprietários que convertam imóveis turísticos em habitação de longa duração.

Na Croácia, a cidade de Dubrovnik proibiu novas licenças de alojamento local no centro histórico e limitou a operação de navios de cruzeiro a um máximo simultâneo de dois barcos e 4.000 passageiros em doca. Além disso, a Lei do Turismo croata exige que a conversão de qualquer apartamento em alojamento turístico seja aprovada por pelo menos 80% dos condóminos do prédio.

A Irlanda focou a sua intervenção em Dublin e nas restantes áreas de elevada pressão habitacional (Rent Pressure Zones), onde passou a ser apenas permitido o arrendamento da residência própria principal. O arrendamento da habitação inteira está sujeito a um teto máximo de 90 dias por ano, sendo que ultrapassar este limite exige uma autorização de alteração de uso do solo (planning permission) que é sistematicamente recusada em áreas urbanas com escassez de casas.

Por fim, a Chéquia aprovou legislação que confere autonomia aos municípios, permitindo que cidades como Praga fixem limites máximos ao número de alojamentos locais por zona e imponham tetos anuais aos dias de exploração, sob a obrigação de registo prévio e identificação transparente dos imóveis em todas as plataformas digitais.

Em França, a resposta ao turismo de massa e à crise habitacional combina legislação nacional estrita, poderes reforçados para os municípios e medidas de justiça fiscal orientadas para travar a rentabilidade da especulação imobiliária. O enquadramento legal francês impõe um teto máximo de 120 dias por ano para o arrendamento da residência principal como alojamento turístico em cidades com mais de 200.000 habitantes ou em zonas de forte pressão habitacional (zones tendues). Para as residências secundárias, a lei exige uma licença especial de alteração de uso emitida pelas câmaras municipais. Em grandes centros como Paris, Bordéus e Nice, esta autorização está sujeita a um rigoroso sistema de compensação: o proprietário que pretenda transformar um imóvel habitacional em alojamento turístico é obrigado a adquirir um espaço comercial no mesmo bairro e convertê-lo em habitação de longa duração, frequentemente com o dobro da área original, o que inviabiliza financeiramente o negócio na maioria dos casos.

Para combater a desigualdade no tratamento do mercado, o parlamento francês aprovou a chamada "Lei Le Meur", que pôs fim às vantagens fiscais historicamente concedidas ao setor. Com esta reforma, o abatimento fiscal aplicado aos rendimentos de alojamentos turísticos não classificados caiu de 71% para 30%, igualando as regras do arrendamento tradicional de longa duração. Adicionalmente, esta legislação conferiu nova autonomia aos municípios, permitindo-lhes reduzir o limite máximo de arrendamento de residências principais de 120 para 90 dias por ano.

Ao nível local e regional, autarquias como a de Nice implementaram o registo obrigatório com código QR nos anúncios digitais, aplicaram quotas máximas de licenças por bairro no centro histórico e exigiram a aprovação expressa das assembleias de condóminos para o uso turístico de frações residenciais. Nas regiões de montanha, como a zona dos Alpes e Chamonix, foram criadas quotas territoriais que proíbem a conversão de novas construções em alojamento local, reservando o edificado para trabalhadores e residentes permanentes. Em paralelo, a regulamentação nacional proíbe progressivamente o arrendamento turístico de imóveis com fraco desempenho energético, forçando os proprietários a realizarem obras de reabilitação sob pena de exclusão do mercado.

O caso Solara4: Como a maior central solar sem subsídios acabou em insolvência e a pedir fundos públicos

Há empresas que entram em dificuldades porque lhes falta matéria-prima, outras porque perdem clientes e outras ainda porque os custos disparam. A Welink conseguiu uma variante mais sofisticada: entrou em apuros porque a electricidade que produz passou a valer pouco no mercado grossista, embora o consumidor português continue a pagar pela electricidade um preço suficientemente elevado para não suspeitar que, algures entre a central e a factura, ela chegou a ser quase oferecida. É uma das pequenas maravilhas do mercado eléctrico: o produtor lamenta que a energia esteja barata, o consumidor lamenta que esteja cara e, entre ambos, o sistema consegue preservar a infelicidade geral com uma eficiência que a produção de electricidade raramente alcança. 
A história começa em Alcoutim, onde a Solara4 entrou em funcionamento em 2021 com cerca de 221 MW de potência e mais de 650 mil painéis solares. A central foi apresentada como um exemplo particularmente feliz da maturidade das renováveis porque tinha sido construída sem subsídios públicos à produção. A própria Welink continuou a destacar essa característica durante anos e ainda em 2025 recordava que o projecto demonstrava a viabilidade da produção solar industrial em grande escala sem apoio governamental. Era uma história excelente: o investimento era privado, o mercado remunerava-o, o sol fazia a sua parte gratuitamente e o Estado podia finalmente afastar-se sem que ninguém desse pela falta dele. 
Cinco anos depois, a Welink Energy Portugal 2 (UK) Limited, sociedade que controla a central, entrou em administração judicial no Reino Unido. A explicação não passa por uma inesperada escassez de sol no Algarve, mas por uma combinação bastante mais terrena de produção abaixo do previsto, problemas técnicos, avarias, incêndios e preços grossistas inferiores aos que sustentavam as contas do projecto. 
A expansão da energia solar na Península Ibérica contribuiu para empurrar os preços para valores muito baixos em determinadas horas, chegando por vezes a zero ou mesmo a território negativo, fenómeno que tem uma curiosa particularidade: é apresentado como uma vitória para o sistema eléctrico até ao momento em que quem produz a electricidade começa a perder dinheiro com ela. O consumidor, entretanto, não foi incomodado por essa abundância de electricidade quase gratuita. A descida no mercado grossista não se transporta mecanicamente para a factura, onde continuam a viver redes, tarifas, impostos, contratos, margens e todas as restantes parcelas que fazem com que uma mercadoria possa valer zero durante algumas horas num mercado e continuar a custar dinheiro sério a quem acende o forno. 
Conseguimos, portanto, chegar a uma situação económica de rara elegância: a electricidade é simultaneamente demasiado barata para quem a vende e suficientemente cara para quem a compra. Não é fácil desagradar a duas pontas da mesma transacção, mas também não foi para coisas fáceis que se inventaram mercados energéticos europeus. No caso da Solara4, a dificuldade não ficou pelo preço. Os bancos Investec e Kommunalkredit terão cerca de 64 milhões de euros por recuperar, enquanto a China Triumph International Engineering Company, pertencente ao grupo estatal chinês CNBM e responsável pela construção da central, reclama aproximadamente 143 milhões num processo de arbitragem. Pelo meio houve incêndios, equipamentos avariados e períodos de indisponibilidade, tendo cerca de 10% da central estado fora de serviço em Maio, incluindo áreas afectadas por vegetação seca por limpar. 
Uma instalação de centenas de milhões de euros, financiada por bancos internacionais, construída por um gigante industrial chinês e equipada com tecnologia capaz de converter radiação solar em electricidade acabou por descobrir que há problemas que não exigem inteligência artificial, semicondutores ou engenharia avançada. Às vezes basta mato. 
A gestão da central foi entretanto retirada à Welink Investments e entregue à Exus, que, juntamente com a Enertis, deverá agora avaliar quanto é necessário investir para melhorar o desempenho do activo. Ao mesmo tempo, admite-se uma eventual venda. O próprio director da Welink para a Península Ibérica reconheceu que uma central exclusivamente solar já não seria, nas actuais condições, economicamente sustentável por si só, o que é uma conclusão particularmente interessante quando aplicada a uma central que foi apresentada durante anos como demonstração precisamente da sustentabilidade económica de uma grande instalação solar sem apoio público. 
A solução passa agora por transformar Alcoutim numa instalação híbrida, acrescentando mais produção solar, energia eólica e armazenamento. E é neste ponto que a história deixa de ser apenas mais uma insolvência empresarial e começa a adquirir algum interesse filosófico, porque o projecto que ajudou a demonstrar que as grandes centrais solares já não precisavam de subsídios descobriu entretanto que precisava de baterias, e as baterias descobriram que precisavam de 16.445.234,15 euros de financiamento público. O beneficiário chama-se Solara4 Phase4, S.A., tem sede em Alcoutim e obteve através do PRR apoio para um “Sistema de Armazenamento em Baterias na Central Fotovoltaica de Alcoutim com potência nominal 100MW”. Foram-lhe atribuídos cerca de 16,45 milhões de euros, dos quais 3,78 milhões já tinham sido pagos, correspondendo a aproximadamente 23% do montante aprovado. Não estamos sequer perante uma verba lateral de algumas centenas de milhares de euros encontrada num programa obscuro: a Solara4 Phase4 recebeu o maior apoio individual atribuído naquele concurso do Fundo Ambiental para armazenamento de energia. 
Convém distinguir as sociedades, não porque a distinção torne a história menos interessante, mas porque permite contá-la sem oferecer uma escapatória factual a quem prefira discutir o detalhe em vez do essencial. A Solara4 Phase4 não é juridicamente a mesma empresa britânica que entrou em administração judicial e os 16,45 milhões são fundos públicos europeus do PRR, geridos através das estruturas portuguesas, não uma transferência directa do Orçamento do Estado. Mas também não estamos perante duas empresas que, por uma dessas coincidências que animam a vida empresarial, resolveram chamar-se Solara4, instalar-se em Alcoutim e trabalhar na mesma central sem terem nada uma com a outra. A própria Welink apresenta a bateria de 100 MW como parte da expansão do projecto Solara4. A diferença societária existe. A separação económica é que exige mais imaginação. E é aqui que a história se torna particularmente reveladora. Durante anos, a ausência de subsídios foi utilizada como prova de que o investimento privado e o mercado já conseguiam sustentar grandes projectos solares sem recorrer ao contribuinte. 
Não era uma nota técnica escondida numa apresentação para investidores; fazia parte da narrativa pública do projecto. A Solara4 mostrava que as renováveis tinham chegado à idade adulta e deixado para trás a fase desagradável em que precisavam de tarifas garantidas, apoios e dinheiro público. Depois a produção solar aumentou, os preços grossistas caíram, a central produziu abaixo do esperado e aquilo que era economicamente sustentável deixou de o ser nos mesmos termos. A resposta passou por adicionar armazenamento e adaptar o projecto, operação para a qual surgiu, providencialmente, financiamento público. 
Não há necessidade de imaginar qualquer ilegalidade. O programa de apoio ao armazenamento existe, a empresa candidatou-se e recebeu o financiamento que lhe foi aprovado. O problema não é criminal, é muito mais banal e, por isso, bastante mais interessante: quando o projecto funcionava sem apoio público, esse facto servia para demonstrar a superioridade e autonomia do mercado; quando as condições de mercado deixaram de assegurar a rentabilidade desejada, o dinheiro público regressou, desta vez não sob o nome pouco elegante de subsídio, mas vestido de armazenamento, flexibilidade de rede, transição energética e resiliência. As palavras melhoraram consideravelmente. O dinheiro continua a ter de sair de algum lado. 
Há ainda uma ironia adicional. Um dos problemas da Solara4 resulta precisamente do sucesso da energia solar. Quanto mais capacidade fotovoltaica entra no sistema, maior é a produção nas mesmas horas e mais pressão existe sobre os preços grossistas, chegando ao ponto em que algumas centrais começam a destruir a rentabilidade umas das outras. 
Durante anos, o aumento da produção renovável foi apresentado como sinal de sucesso do mercado e da política energética. Quando esse sucesso começa a reduzir as receitas dos produtores, transforma-se subitamente num problema que exige armazenamento subsidiado. O mercado produziu o excesso, o excesso reduziu o preço e o financiamento público ajuda agora a pagar a tecnologia necessária para devolver valor económico à energia cujo preço o próprio mercado fez cair. 
A situação torna-se ainda mais curiosa porque nada disto significa que a afirmação original fosse falsa. A central de 2021 foi efectivamente construída sem subsídio à produção. O problema está em continuar a apresentar essa condição como prova suficiente da viabilidade estrutural do modelo quando, poucos anos depois, a sociedade que controla o activo está em insolvência, os bancos têm cerca de 64 milhões de euros por recuperar, o empreiteiro estatal chinês reclama 143 milhões, a gestão teve de ser entregue a terceiros, a venda está em cima da mesa e uma sociedade ligada à expansão do projecto recebeu autorização para beneficiar de mais de 16 milhões de euros de financiamento público. Talvez seja esta a contribuição mais interessante da Solara4 para o debate económico. 
Durante décadas discutiu-se se determinados sectores deviam ser públicos ou privados, se o Estado devia intervir ou afastar-se e se o mercado conseguia resolver sozinho os problemas de investimento e eficiência. 
A prática moderna conseguiu ultrapassar essa discussão com uma solução bastante mais confortável: quando o investimento corre bem, serve de demonstração de que o sector privado não precisa do Estado; quando corre mal, torna-se estratégico demais para prescindir dele.
O contribuinte europeu não fica com a central, não participa nos lucros que ela eventualmente volte a gerar e não entra para o conselho de administração. Fica apenas com uma parte da conta das baterias, o que talvez seja a forma contemporânea mais aperfeiçoada de parceria público-privada: o privado conserva a propriedade e o público participa na necessidade. A Solara4 começou, portanto, como uma demonstração de que o mercado já conseguia fazer energia solar sem subsídios e chegou a 2026 com a sociedade proprietária em insolvência e uma expansão apoiada por 16,45 milhões de euros de dinheiro público. Não prova que a energia solar não funciona, nem que o investimento privado seja inútil. 
Prova apenas uma coisa bastante mais antiga e menos tecnológica: há uma extraordinária quantidade de empresas que conseguem viver sem o Estado até ao exacto momento em que precisam dele. O sol, esse, continua gratuito. Foi a única parte do projecto que ainda não apresentou a factura.

A Lição de Alcoutim para o PSZAER
A relação entre o caso da central Solara4 e o Plano Setorial para as Zonas de Aceleração de Energias Renováveis é marcada por sérios alertas sobre a sustentabilidade do modelo de licenciamento rápido. Por um lado, se o plano for utilizado apenas para multiplicar a capacidade fotovoltaica sem acautelar a infraestrutura envolvente, o risco de fracasso financeiro aumenta substancialmente. Ao simplificar os processos burocráticos para instalar mais megawatts de energia solar pura nas mesmas horas de ponta, o sistema agrava a sobreoferta no mercado grossista. Esta abundância empurra os preços para zero ou para valores negativos durante os períodos de maior radiação solar, destruindo a rentabilidade económica dos próprios projetos que se pretendem incentivar e aumentando o risco para os bancos e fundos que os financiam. Além disso, o colapso financeiro da gestora de Alcoutim e a subsequente atribuição de milhões de euros em fundos públicos do PRR para a instalação de baterias minam a confiança política e social. Fica exposta a fragilidade da premissa de que as renováveis de grande escala conseguem operar com total autonomia em relação ao Estado, o que pode originar uma maior contestação pública e um escrutínio acrescido sobre as facilidades e isenções concedidas às zonas de aceleração.

Por outro lado, o episódio da Solara4 oferece uma oportunidade clara de redesenho para a execução deste enquadramento legal. O plano só evitará a proliferação de ativos insolventes se deixar de funcionar como um mero acelerador de licenças para painéis e passar a exigir requisitos de maturidade técnica e económica mais elevados. Para que as zonas de aceleração cumpram o seu propósito sem sobrecarregar o sistema financeiro ou os contribuintes, o licenciamento célere deve ser condicionado à integração obrigatória de hibridização, combinando a fonte solar com a eólica, e à incorporação de sistemas de armazenamento em baterias (BESS). Desta forma, garante-se que a energia produzida pode ser guardada e injetada na rede nos momentos em que o mercado a consegue remunerar. A experiência de Alcoutim demonstra que acelerar a produção de eletricidade que a rede não consegue absorver nem o mercado remunerar não constitui um avanço na transição energética, resultando apenas na criação acelerada de futuras falências empresariais.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Silke Bischoff - Under Your Skin

Melhor som aqui

O Erotismo Obscuro e a Finitude em "Under Your Skin"
A canção "Under Your Skin" pertence ao projeto musical alemão Silke Bischoff (criado em 1990 por Axel Kretschmann e Felix Flaucher). A faixa é um dos maiores clássicos da cena Darkwave, Wave Gótica e Electro-Goth dos anos 90, combinando batidas eletrónicas atmosféricas, sintetizadores soturnos, guitarras acústicas melancólicas e vocais sussurrados quase hipnóticos.

Em termos de significado da canção, a letra explora uma paixão obsessiva e avassaladora que consome a própria identidade do indivíduo. A metáfora de ter alguém "debaixo da pele" expressa uma devoção que ultrapassa os limites do corpo e da mente, onde o amor se funde com a dor e com uma necessidade visceral de conexão eterna. O videoclipe e a estética do grupo refletem essa mesma atmosfera melancólica e voyeurista, marcada por uma iluminação dramática e minimalista típica do movimento gótico da época. A própria origem do nome da banda remete a um acontecimento real e trágico - o sequestro de Gladbeck em 1988, na Alemanha, no qual a jovem Silke Bischoff perdeu a vida -, o que encharca toda a obra visual e concetual do projeto com temas sobre o trauma, a vulnerabilidade da vida e a perda da inocência.

As influências literárias e filosóficas do grupo ancoram-se fortemente no Romantismo Obscuro e Decadentismo do século XIX, evocando autores como Edgar Allan Poe, Lord Byron e Charles Baudelaire, nos quais o amor é retratado de forma trágica e indissociável da morte (Eros e Thanatos). Há também ressonâncias da filosofia existencialista, onde a obsessão romântica surge como uma tentativa desesperada de conferir sentido à existência perante a solidão e o absurdo do mundo. Além disso, a obra insere-se no contexto cultural da Neue Deutsche Todeskunst corrente que explorava a morbidez, a finitude e a fragilidade humana através da poesia e da música eletrónica soturna.