quinta-feira, 18 de junho de 2026

Dia de Mísia - "Ausência"


Letra
Namorei a tua ausência
Por tantas noites vazias
Que agora pede à prudência
Que eu te ausente dos meus dias

É que a ausência de ti
É uma noite tão escura
Que eu não sei sair dali
Sem ir à tua procura

O corpo senta-se ausente
Na cama onde não se deita
E sabe o melhor presente
Que a noite não aceita

Meu amor, chegou a hora
De o tempo negar o espaço
Em que o corpo se namora
Por ausência ou por cansaço
Meu amor, choras?

No entanto és sempre tu
Sempre que canto o meu fado
É quase o teu corpo nu
Que quase que tenho ao lado

Tenho a noite por exílio
A tua ausência por lei
Vem em meu auxílio
Ou nunca mais cantarei

O corpo senta-se ausente
Na cama onde não se deita
E sabe o melhor presente
Que a noite não aceita

Meu amor, chegou a hora
De o tempo negar o espaço
Em que o corpo se namora
Por ausência ou por cansaço
Meu amor, chegou a hora

Significado da canção
A letra explora o vazio psicológico e físico deixado pela perda do ser amado. O eu lírico descreve uma relação quase obsessiva com a própria solidão, chegando a dizer que "namorou a ausência" durante tantas noites que agora precisa de fazer um esforço consciente para afastar essa sombra dos seus dias. A falta da outra pessoa é comparada a uma noite escura e intransitável, um labirinto de onde não se consegue sair sem ceder à tentação de ir à procura de quem partiu.

Há uma forte presença do corpo e do espaço físico: a cama vazia onde o corpo já não se deita e o exílio da noite. No final, a ausência funde-se com a própria arte da fadista. Ela confessa que o seu fado será sempre sobre essa pessoa e lança um apelo desesperado: se o amor não vier em seu auxílio para quebrar este silêncio, a dor será tão grande que a impedirá de voltar a cantar.

Pequena homenagem
Filha de pai português e mãe catalã (bailarina de cabaré), Mísia trouxe para o fado muita inovação, maior projecção universal, uma sensualidade provocadora, uma ginga malandra e uma alegria solar.

A genuína essência de Mísia reside na audácia de ter sido a grande anarquista e esteta do fado, uma artista singular que habitou a fronteira exacta entre a tradição mais visceral e a vanguarda mais culta.

Longe de se fechar no purismo das tascas ou no fado-destino resignado, Mísia limpou o género do bafio do passado e elevou-o ao estatuto de alta literatura, desafiando os maiores escritores contemporâneos — como José Saramago, Agustina Bessa-Luís, Lídia Jorge e António Lobo Antunes — a escreverem para a sua voz. Havia na sua presença uma solenidade aristocrática misturada com uma atitude punk e até gótica, mas reduzir a sua obra à dor é ignorar a sua vibrante veia artística.

Mísia apoiava muito o seu canto no registo de peito, o que conferia à sua música uma ressonância profunda, noturna e ligeiramente rouca - características muito valorizadas tanto no fado clássico como no ambiente de cabaré que ela tanto adorava.

Mísia avant-garde introduziu instrumentos "proibidos" no fado tradicional - como o violino, o violoncelo, o piano e o acordeão - criando uma atmosfera de fado de câmara.

A sua melancolia não era de resignação (o típico "fado-destino"); era uma melancolia de combate, sensual, visceral e assumidamente trágica.

No fundo, Mísia libertou o fado das suas próprias amarras, provando que a tradição também se faz com pele, desejo, fragilidade humana, muita sensualidade, uma pitada de humor, festa e uma enorme liberdade criativa.

Alerta Verão : “A falsa “química” que faz de ti a vítima da festa



Festivaleiro que és, já andas a preparar o teu roteiro de festas de verão?
Não percas a melhor música nem o maior cartaz de Prevenção!
As noites de verão são feitas para te divertires e viveres momentos únicos. Nunca para seres vítima de um crime circunstancial ou, até, premeditado.
A Polícia Judiciária alerta para uma realidade da qual Portugal não é exceção.
Existe um novo mercado de drogas sintéticas que circula de festa em festa, de mão em mão. Visível ou invisível, emerge.
 “Sabes mesmo o que estás a consumir?” ou “Se te colocaram algo na bebida?
As novas drogas psicoativas são manipuladas e adulteradas, através de processos químicos, nalguns casos realizados em “laboratórios caseiros”.
Crescem os “produtores” clandestinos e criminosos destes booms explosivos. A venda online, ao desbarato, alicia compradores e condena cada vez mais jovens. 
Com a aproximação do verão, investe num verdadeiro Kit de Prevenção:
- Compra e consome exclusivamente a tua bebida;
- Não percas o copo do teu raio de visão;
- Recusa bebidas oferecidas, as quais podem ter substâncias psicoativas inodoras, translúcidas, líquidas e facilmente misturadas;
- Não acredites nem compres drogas fake, aparentemente “milagrosas”, a preços de “saldo”. Podem provocar, numa única 1ª toma, um efeito letal;
- Lembra-te: se a droga tem um formato criativo, só serve para te enganar! Atrás de uma imagem apelativa, está uma droga com consequências para a tua vida.
- Podes ficar com efeitos colaterais severos, ser vítima de um crime de abuso sexual ou até mesmo morrer.

Patrick Watson - Dream For Dreaming

Melhor som aqui

Letra
This dream I'm dreaming
Won't you wake me up tonight
'Cause this life I'm living
Doesn't really feel like mine
This strange dream I'm dreaming
If it ain't wrong it don't feel right
Never thought you were leaving
I never thought I'd have to start again

Somebody wake me up
Don't you wish we were dreaming
Don't you wish that we were just dreaming

I never thought the stars would look new again
Thought we'd get old, get dressed, and walk the dogs
Never really thought I'd have to be alone
I never thought you'd ever really be gone
But I still sing along
To yesterday's song

I got lost in the tall green grass
Oh I'm so lost in the tall green grass
Got on the phone and called a friend
Asked him where the hell I am?

Somebody wake me up
Don't you wish we were dreaming
Don't you wish that we were just dreaming
Don't you wish that we were just dreaming

"Dream For Dreaming" foi escrita durante um período de intensas perdas pessoais na vida de Patrick Watson: a sua mãe havia falecido, o seu casamento de anos tinha chegado ao fim e o baterista original da banda havia saído.

O significado central da música é a sensação de estranhamento e desconexão com a própria realidade após um grande trauma ou mudança drástica. O próprio Patrick Watson descreveu o sentimento da canção da seguinte forma:

"É sobre quando voltas a casa e a tua casa já não se parece com aquela que deixaste. É a sensação estranha de estares tão longe do que tinhas planeado para a tua vida que a tua própria pele já não te serve. Ficas num estado de descrença, com um sorriso estranho, a perguntar-te: 'o que é que eu faço agora?'"

Na letra, o eu lírico pede para ser acordado ("Won't you wake me up tonight?"), porque a vida real que ele está a viver parece tão bizarra e dolorosa que mais se assemelha a um pesadelo ou a um "sonho estranho" ("this life I'm living doesn't really feel like mine"). É uma reflexão dolorosa, mas profundamente honesta, sobre perder o chão e ter de reaprender a viver numa nova realidade.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Ainda O Mundial de Futebol- Denúncia de Racimo

Aleksander Čeferin

As federações de futebol de Cabo Verde, Curaçau, Usbequistão, Congo, Haiti, Argélia, Tunísia, Marrocos, Egito, Gana, Senegal, Costa do Marfim e África do Sul expressam a sua profunda desilusão após as recentes declarações do presidente da UEFA, Aleksander Čeferin, sobre a expansão do Mundial da FIFA e a sua classificação de muitos jogos como 'desinteressantes'.

Para os nossos países, não existe nenhum jogo insignificante no Mundial da FIFA.

Para os nossos países, o apuramento para o Mundial da FIFA representa uma conquista histórica e a realização de um sonho partilhado por gerações.

Sugerir que alguns dos nossos jogos seriam de alguma forma menos importantes é profundamente dececionante e equivale a ignorar os esforços, sacrifícios e aspirações de jogadores, treinadores, clubes, dirigentes do futebol e adeptos em todo o mundo.

Por trás de cada apuramento, existem anos de trabalho árduo e investimento. Por trás de cada seleção nacional, existem comunidades inteiras e milhões de pessoas que veem o futebol como uma fonte de orgulho, esperança e união.

O futebol não pertence a um pequeno grupo de líderes privilegiados. A sua força reside na sua universalidade.

O Mundial da FIFA é a maior competição de futebol do mundo justamente porque reúne diferentes culturas, diferentes histórias e diferentes trajetórias no futebol.

Para muitos países, a participação no Mundial da FIFA não é apenas uma conquista desportiva. É um momento que inspira uma geração, acelera o desenvolvimento do futebol e cria memórias para a vida toda.

Acreditamos que toda a nação que se apura merece respeito.

Cada equipa qualificou-se por mérito.

Cada jogo conta.
Assinado por:
Federação Cabo-Verdiana de Futebol
Federação Senegalesa de Futebol
Federação de Futebol de Curaçao
Federação de Futebol do Uzbequistão
Federação Congolesa de Futebol
Federação Haitiana de Futebol
Em solidariedade com:
Federação Argelina de Futebol
Federação Tunisiana de Futebol
Federação Real Marroquina de Futebol
Federação Egípcia de Futebol
Associação de Futebol do Gana
Federação Marfinense de Futebol
Associação Sul-Africana de Futebol

OVO - © 2012, Manel Cruz featuring Retimbrar, Sopa de Pedra, Renato Oliveira e Eduardo Silva


Da ideia antiga de fazer um concerto para pintainhos, em que estes eram o único público, e da ideia de assinalar o descontentamento social aquando da época do resgate financeiro a Portugal pela Troika, surgiu esta combinação. Eu tinha a música e a letra, como hino de contestação, e a hipótese de colocar 300 pintainhos a assistir à execução ao vivo da música. 
Os pintainhos ganharam este  significado metafórico do povo que apanha os grãos, e os músicos o de uma espécie de resistência secreta, que no vídeo oculta a identidade atrás de máscaras que fiz com materiais pobres e lixo. 
O áudio do videoclipe é do take original dessa atuação.

Letra
[verso 1]
Um é bom para fumar
Dois é bom para lamber
Três para dizer
Quatro é bom para falar
Cinco para ouvir
Seis para ir lá para trás
Sete eles sentem-se mais
Oito eles sabem que o são
Nove não cabem na cela
Dez rebentam com ela

[verso 2]
Vê se me deitas ouvidos
Enquanto o lume está brando
Não queremos a tua cabeça
Teus ouvidos e é tudo
O nosso povo aguenta
Mas eu não sei até quando

[verso 1]

[verso 3]
Ninguém tem a cara lavada
Todos brincamos na merda
Mas eu estou disposto a mudá-lo
Não estou disposto a comê-la

[verso 1]

Minha Análise
Este tema musical e a sua respetiva componente visual apresentam uma forte carga conceptual e etnográfica, típica dos projetos nos quais o músico português Manel Cruz, conhecido por projetos como Ornatos Violeta, Foge Foge Bandido e Pluto, se envolve. OVO é um tema originalmente concebido em 2012, reeditado nesta versão em parceria com vários nomes sonantes da música de matriz tradicional e experimental da cidade do Porto, como o Retimbrar, um coletivo portuense dedicado à exploração dos ritmos e da percussão tradicional portuguesa, como os bombos e as caixas, e o Sopa de Pedra, um grupo vocal dedicado ao canto polifónico a cappella que reinterpreta o cancioneiro popular com arranjos contemporâneos. A estes juntam-se os músicos Renato Oliveira e Eduardo Silva, que acrescentam densidade instrumental através de cordas e sopros.

A análise da letra e simbologia revela que esta assenta numa contagem progressiva e satírica do quotidiano social e das funções atribuídas a cada indivíduo numa célula ou sociedade. Cada número dita um comportamento pré-definido, visível em trechos como "Um é bom para fumar, dois é bom para lamber..." e "Nove não cabem na cela, dez rebentam com ela." A repetição do mantra final denota uma crítica à inércia e à resignação perante as dificuldades socioeconómicas, contrapondo a resiliência do povo com o limite das suas capacidades através da frase "O nosso povo aguenta, mas eu não sei até quando."

Em termos de videoclipe e estética visual, o vídeo decorre num pátio interior fechado, um típico ilhéu ou logradouro de um prédio antigo do Porto, filmado com perspetivas geométricas acentuadas que transmitem uma sensação de claustrofobia. Entre os elementos visuais chave destacam-se os intérpretes mascarados, com os músicos a surgirem vestidos com sacos de sarapilheira, máscaras de cartão, funis de plástico na cabeça e fatos pretos e cinzentos, uma escolha estética que remete tanto para rituais pagãos do solstício e do entrudo, como os caretos, como para uma desumanização e anonimato provocados pelo isolamento urbano. Outro elemento central são as galinhas e os pintainhos, mostrando o fundo do pátio repleto de aves que debicam o chão, cercadas por tijolos partidos e aparas de madeira, simbolizando um ambiente de capoeira onde todos os seres vivos estão enclausurados e à mercê de forças externas. Assiste-se ainda à chuva de notas, onde a meio da performance começam a cair notas falsas das janelas superiores que as aves pisam sem compreender o seu valor, funcionando esta imagem como uma alegoria explícita ao sistema monetário, à crise e à desvalorização da dignidade humana. Em resumo, a fusão da percussão estridente do Retimbrar com as harmonias vocais das Sopa de Pedra transforma OVO num manifesto cénico poderoso, misturando o folclore rural com a decadência e a contestação urbana.

Imbecil , mentiroso e preconceituoso. "Há portugueses que não gostam de trabalhar" - Como disse, Miguel Sousa Tavares?


Se a sua mãe ouvisse estas generalizações simplistas sobre os que menos têm, daria voltas na tumba. Sophia passou a vida a escrever sobre a justiça, a liberdade e a dignidade dos esquecidos, apenas para ver o próprio filho assinar por baixo discursos que estigmatizam quem, infelizmente, tem que recorrer a apoios sociais para sobreviver.

A declaração de Miguel Sousa Tavares não encontra sustentação nos dados estatísticos e estudos oficiais em Portugal. A premissa de que os beneficiários de apoios sociais "não gostam de trabalhar" ou preferem "encostar-se aos subsídios" é contrariada pelas regras do próprio sistema e pelo perfil real de quem recebe estas prestações.

Em primeiro lugar, o Rendimento Social de Inserção (RSI), que costuma ser o principal alvo destas críticas, exige por lei a assinatura de um Contrato de Inserção. Isto significa que qualquer beneficiário apto para trabalhar é obrigado a estar inscrito no Centro de Emprego, a aceitar formação e a responder a ofertas de trabalho adequadas, sob pena de perder o subsídio imediatamente. Além disso, o valor médio mensal desta prestação ronda os 150 a 160 euros por pessoa, um montante de extrema pobreza que fica substancialmente abaixo do salário mínimo nacional, eliminando qualquer incentivo financeiro para a inatividade voluntária.

O perfil demográfico dos beneficiários também desmistifica esta ideia de dependência por preguiça, uma vez que uma fatia muito expressiva destas prestações se destina a crianças, jovens, idosos sem outras reformas ou pessoas com graves incapacidades e problemas de saúde crónicos. No que toca ao argumento de que os subsídios quebram os hábitos de vida em sociedade e criam dependências geracionais, estudos de longo prazo realizados pelo PLANAPP (Centro de Competências de Planeamento do Estado) revelam o oposto: cerca de 80% das crianças que cresceram em agregados familiares dependentes do RSI conseguem, ao atingir a idade adulta, integrar-se com sucesso no mercado de trabalho, deixando de necessitar do apoio estatal.

Por fim, no caso do subsídio de desemprego, importa recordar que se trata de um direito contributivo - ou seja, o trabalhador descontou previamente para a Segurança Social para ter acesso a ele - e que o apoio tem prazos estritos de validade e valores decrescentes no tempo, desenhados precisamente para empurrar o cidadão de volta ao ativo. Assim sendo, embora possam existir casos pontuais e residuais de abuso, as estatísticas demonstram que a esmagadora maioria dos portugueses recorre aos subsídios por motivos de desemprego involuntário, doença ou exclusão social severa, e não por falta de vontade de trabalhar.
Fontes:
1. Saiba tudo sobre o RSI - um apoio essencial para famílias a viver em extrema pobreza 

Outra falácia e paradoxo do Miguel Sousa Tavares no seu podcast.
A expressão "postos de trabalho que os portugueses não pretendem ocupar" descreve um fenómeno económico real, mas que é frequentemente mal interpretado como preguiça ou desinteresse por parte da população local. Na verdade, este desencontro deve-se a um desajuste estrutural entre as condições oferecidas por certas indústrias e a realidade do custo de vida em Portugal.

O principal fator é a barreira dos salários baixos. Setores como a agricultura intensiva, a construção civil, as limpezas e o turismo operam maioritariamente com base no salário mínimo ou em valores muito próximos dele. Com a crise imobiliária e a escalada da inflação, torna-se financeiramente impossível para um trabalhador nacional aceitar um emprego na hotelaria ou na restauração em grandes centros urbanos ou zonas turísticas, uma vez que o ordenado não cobre sequer o custo de um quarto ou de uma casa. Muitos imigrantes acabam por ocupar estas vagas porque, devido à vulnerabilidade à chegada, aceitam condições de extrema sobrelotação habitacional para dividir despesas, algo que os residentes locais não conseguem ou não aceitam replicar.

A par da questão financeira, a penosidade e a rigidez das condições de trabalho desempenham um papel crucial. Funções na agricultura sob estufas exigem um esforço físico extremo sob temperaturas severas, enquanto a restauração e o alojamento impõem horários repartidos, folgas rotativas e uma forte pressão psicológica que inviabiliza a conciliação com a vida familiar.

Por fim, o país vive uma dinâmica de vasos comunicantes no mercado laboral. Ao mesmo tempo que Portugal atrai mão de obra estrangeira para preencher estas funções operacionais e de baixo valor acrescentado, perde continuamente os seus jovens qualificados para o resto da Europa. Um jovem português prefere emigrar para a Europa Central ou do Norte, onde o mesmo nível de escolaridade garante um poder de compra e uma qualidade de vida substancialmente superiores. Portanto, a dependência de trabalhadores estrangeiros não resulta de uma recusa cultural ao trabalho, mas sim de um modelo económico assente em setores que só conseguem sobreviver recorrendo a uma força de trabalho externa disposta a aceitar salários e ritmos que os nacionais já não validam.

The Theory of the Vulgar Class


On Sunday Donald Trump celebrated his 80th birthday with a cage match on the White House lawn. The match and the events that surrounded it — especially the press conference with UFC fighters, shown above, held on the steps of the Lincoln Memorial — were a desecration of America’s capital, whose monuments and buildings have always endeavored to represent small-r republican virtues. The whole affair was an affront to the values on which this nation was founded and also unspeakably vulgar.

That last criticism may strike some readers as elitist and trivial. Yet the vulgarity that is the hallmark of Trump and his surrounding circle of oligarchs is a symptom of something not at all trivial: The collapse of social norms. As I argued yesterday, these norms historically played a key role in mitigating abuses of power and privilege during the Gilded Age, the last time America suffered from extreme income and wealth inequality (though not nearly as extreme as what we have now).

Norms matter. In his classic book The Theory of the Leisure Class — published in 1899, at the apogee of the Gilded Age — Thorstein Veblen famously argued that much of the behavior of his era’s elite was driven not by the desire to enjoy life but by the desire to impress others. Partly they did this through conspicuous consumption. Thus they built lavish mansions staffed by legions of servants.

However, members of the Gilded Age elite didn’t solely aim to display their wealth. They also tried to appear respectable. There were surely many private affairs and betrayals we will never know about. But the important point is that the super-wealthy of that era presented to the American public an image of being responsible members of society:

John D. Rockefeller and family

The contrast with the public behavior of Trump’s band of uber-wealthy is startling:


In addition to modeling upstanding behavior, the extremely rich of the Gilded Age were expected to have, or pretend to have, some virtues that were part of the aristocratic ideal, including a sense of noblesse oblige displayed by good works. Veblen was quite cynical about philanthropy, yet even he didn’t dismiss it completely, stating that:
The fact itself that distinction or a decent good fame is sought by this method [such as the endowment of a university, public library or museum] is evidence of a prevalent sense of the legitimacy, and of the presumptive effectual presence, of a non-emulative, non-invidious interest, as a consistent factor in the habits of thought of modern communities.
(Veblen’s lasting intellectual influence did not come from his sparkling prose style.)

Today’s oligarchs, by contrast, have largely given up on the old norms of social and individual responsibility. They give very little money to good causes and their vulgar taste reflects their in-your-face attitude towards the public. In our current hyper-Gilded Age, extreme vulgarity and the decline of philanthropy are really different aspects of the same phenomenon: the rise of an elite so disconnected from ordinary Americans that it feels no need to even appear to be honorable.

So in a real sense we are living in the midst of a reenactment of the decline and fall of the Roman Republic, not a second American Gilded Age. No, I’m not one of those men who thinks about ancient Rome all the time. But there are some obvious parallels.

While the causes of the decline of republican government and Rome’s eventual transition to one-man rule were doubtless complex, there is broad consensus among historians that a key factor was the emergence of extreme inequality. A handful of men became incredibly wealthy from the spoils of Rome’s eastern conquests, and their wealth and power eventually became too great for the rules of constitutional, republican government to contain. Sound uncomfortably familiar?

The death throes of the Republic went on for many years. Politicians declared their rivals enemies of the state, deployed violent gangs to disrupt the rule of law, established temporary dictatorships, and more. The installation of Augustus as emperor in 27 BC was just the final act.

And during this long twilight of constitutional government, one of the ways the extremely wealthy and powerful sought both to demonstrate their wealth and to curry favor with the mob was by sponsoring gladiatorial games.

The vulgarity of the Trumpian elite isn’t in itself that important. But it’s a symptom of a collapse in values and norms that, unless confronted and reversed, may herald the end of the American experiment. We should heed the words of the Stoic philosopher Seneca about the rise and fall of the Roman Republic: “Increases are of sluggish growth, but the way to ruin is rapid.”

Valter Hugo Mãe - O Século dos Imbecis


No ano em que assinala três décadas de vida literária, Valter Hugo Mãe debruça-se sobre o paradoxo de "vivermos claramente no século da informação, mas isso não corresponder ao século do conhecimento". Povoado pelos sete pecados mortais, "O século dos imbecis" poderia, inclusive, ter-se chamado "o século dos pecadores". No entanto, e na ótica do escritor, "o pecado parece uma coisa que define menos a perplexidade perante a contemporaneidade".

Isto porque, ainda que "morrer de burro [seja] algo que se faz desde que há gente", o espanto reside "em atravessarmos uma época em que uma certa ignorância ou uma certa oposição ao conhecimento perdeu o pudor e se glorifica como algo válido". Aliás, conforme admitiu Valter Hugo Mãe ao Notícias ao Minuto, basta observar a forma como muitas lideranças políticas "se desinteressam por qualquer tipo de verdade e, em última análise, se desinteressam agressivamente ou se opõem agressivamente àquilo que é comprovado cientificamente".

Ao encetar um ciclo de obras chamado Crimes e Vindouros, "O século dos imbecis" joga com as virtudes, a moralidade, a fé e a justiça, evidenciando que, "enquanto totalidade, estamos, de facto, numa espécie de movimento em direção a um certo fim do mundo, a um certo fim de todas as coisas", no advento da Inteligência Artificial (IA) e da "substituição de quem somos", o que culminará com a descida "à condição de animal, ao invés de ascendermos mais e mais à condição humana".

O que é que o motivou a escrever esta obra, tendo em conta que a sociedade atual, de facto, tem tanto de informação como de desinformação?
O que me motiva neste trabalho é criar uma certa reflexão em torno deste paradoxo, que é vivermos claramente no século da informação, mas isso não corresponder ao século do conhecimento; não garantir que a informação produzida e que o acesso à informação se expresse através do conhecimento. Então, parece-me trágico que, num tempo de tanta preparação, de tanta oportunidade, estejamos a claudicar em tantos sentidos com uma certa folia pela facilidade e por aquilo que é mais destituído. É como se o mesmo gesto que abre a porta para um esplendor humano pudesse perigar por propor também um retrocesso. Eventualmente, seria de esperar que, podendo ser melhores, estejamos meio interessados em facilitar de tal maneira a nossa vida ao ponto de nos destituirmos de capacidades e nos tornarmos piores.

Até com o advento da Inteligência Artificial (IA)...
Sim, a tecnologia está a oferecer algo que é propenso a ser maravilhoso, mas que, perversamente, também sugere ou também seduz para uma abundante, uma larga desistência. E dá-me a sensação de que tudo quanto seja desistir de uma sofisticação do fazer e uma sofisticação do pensar é um passo dado no retrocesso da humanidade. É como se a tecnologia tivesse tudo para nos sofisticar enquanto gente, mas a tentação é usá-la para que nos simplifique e nos retire, em última análise, até a condição humana.

Sim, a IA devia ser usada para coisas como limpar a casa, curar doenças, mas está a ser usada para produzir arte, música… Como é que se explica isto?
Para criar uma espécie de substituição de quem somos. Que possa haver ali uma substituição de muito do que fazemos é uma coisa. Agora, que nos possa interessar uma substituição de quem somos é trágico, porque significa que não nos consideramos à altura e que não estamos predispostos a um esforço para estar à altura correspondendo àquilo que consideramos o que devíamos ser. É muito terrível, inclusive, porque mesmo para que as tecnologias substituam muito do que fazemos, isso acarreta perigos, porque fazer significa também melhorarmos quem somos. É a partir do fazer que as nossas capacidades se comprovam e se podem testar e, inclusive, podemos arriscar melhorar e potenciá-las. Se nos destituirmos do fazer, da condição de fazedores, eventualmente podemos destituir-nos das capacidades do fazer.

Linearmente encontrarmos um gadget qualquer que nos aspire a casa está muito bem, mas chegar ao limite de encontrar um gadget que substitua as nossas necessidades de cálculo, de avaliação… Eventualmente, até a nossa humanidade será reduzida, até a potência humana será reduzida, o que significa que descemos mais à condição de animal ao invés de ascendermos mais e mais à condição humana.

Agilulfo morre de burro, como consequência do divertimento dos outros. Estamos a condenar vários ao mesmo destino, devido às redes sociais e à propaganda de que somos alvo? Estamos em risco de morrer de burros?
De algum modo, sempre se morreu de burro, porque a sofisticação do pensamento, a educação, digamos assim, é esplendorosa ou pode ser esplendorosa porque nos protege em relação a todos os males e a todos os perigos. Por isso, em última análise, numa vida minimamente normal, convencional, o conhecimento já é uma cura para muitas doenças, porque a pessoa escapa de muitas doenças por aprender a comer. Até a simples aprendizagem da travessia de um lado da rua para o outro já é uma salvação da vida ou, eventualmente, da saúde. Tudo o quanto nos instrui propende para nos salvar a vida, propende para cuidar da nossa saúde, por isso, cuida do lado material da vida, cuida do corpo. E tudo o quanto não nos instrui, por deferência, obviamente, propende para perigar o nosso corpo e para perigar a nossa vida. Por isso, morrer de burro é algo que se faz desde que há gente. Agora, o espanto está nisto, está em atravessarmos uma época em que uma certa ignorância ou uma certa oposição ao conhecimento perdeu o pudor e se glorifica como algo válido. E é só ver muitas lideranças políticas… A maneira como se desinteressam por qualquer tipo de verdade e, em última análise, se desinteressam agressivamente ou se opõem agressivamente àquilo que é comprovado cientificamente. Para mim, isso traz um espanto grotesco, diria.

Depois, os seus apoiantes vão atrás e, mesmo confrontados com os factos, negam-nos completamente.
A única maneira destas ignorâncias imperarem é através do fanatismo, através de uma posição obstinada que não quer provas, que não precisa de provas e vive assente em emoções muitas das vezes justificadas por preconceitos. Significa que são posições na vida ou são visões na vida que não pretendem qualquer relação com noções de justiça, por exemplo. O que querem é uma imposição de uma vontade imperativa, despótica e, normalmente, excludente, o que é tudo ao avesso do projeto ou do ideal humano. É tudo ao avesso do que devia ser, do que, eticamente, devia ser. É mais do que uma bizarria, é um perigo. É um perigo porque, pela primeira vez, parece que se propõe uma mudança no paradigma humano que vai meio no sentido de acabar com o humano propriamente dito.

Lá está, quando Agilulfo sobe à torre e adquire todo o conhecimento, profere uma palavra que ninguém compreende, mas à qual é dado um significado aleatório e que todos fingem ter entendido logo. É este o estado da sociedade? Alguém diz alguma coisa e, para não sermos as ovelhas negras, concordamos sem questionar ou compreender o que está em causa?
Sim, é uma padronização de um conhecimento que não é conhecimento nenhum, que é algo que se propaga e que já não se consegue questionar por inteiro, que se instala com um sentido algo dogmático, e é a partir dos dogmas que o fanatismo pode ser levantado. Por isso, para um lado ou para o outro da barricada, as posições vão-se estremando a partir das suas convicções, que são quase convicções de fé.

Estamos num tempo em que, definitivamente, precisamos de ganhar uma consciência em relação às coisas, ao invés de assumirmos que as coisas não nos atingem ou não deverão ser preocupações nossas, porque simplesmente não incorremos nesses erros. O facto de não incorrer nesse erro não implica que não deva ativamente lutar contra esse erro

Devo confessar que achei esta parte deliciosa porque, durante o julgamento, a defesa de Omobon e Omobestia disse, e passo a citar, que "queria apresentar as condolências à família daquele que não evitou a trágica consequência de perder a vida". O primeiro-ministro, Luís Montenegro, disse isto em fevereiro, no rescaldo das intempéries.

Ai disse? Não sabia.
Não sabia?

Não.
Disse precisamente que queria apresentar as condolências "às famílias daqueles que não evitaram a trágica consequência de perder a vida". A minha pergunta era se foi de propósito, se não foi de propósito.

Oh, meu Deus! Foi uma coincidência, talvez no meu subconsciente tenha ficado a expressão… Não sei, não saberia dizer a expressão de cor, mas é eventualmente um lamento que acontece, que as pessoas fazem em relação a quem não evita perder a vida.

E é idêntica, portanto é muito engraçado ter sido uma coincidência.
Uma coincidência terrível.

Acha que vão interpretar mal?
Acho que vão entender que é algo que não se deve dizer. Que é algo muito estranho, atribuir a culpa à vítima. É elementarmente estranho.

Mas foi esse o seu objetivo, ou não?
Claro. É uma denúncia, é uma discordância. Discordo profundamente com culpar-se as vítimas. É uma boca, é uma provocação, é uma resposta. É uma resposta que a literatura cria em relação à contemporaneidade concreta, à mais concreta contemporaneidade. Sou licenciado em Direito. Não é possível que se estabeleça como justo um princípio que culpa a vítima. Não é possível. É mais do que um paradoxo, é uma imbecilidade.

Um bocadinho nessa linha, Omobon acaba com uma pena mais severa, mesmo mostrando-se arrependido, porque "à bondade exige-se responsabilidade". Considera que isso também acontece na nossa sociedade? Os bons e honestos são mais penalizados?
É, porque dos bons esperamos uma lisura, esperamos resultados condizentes. Dos maus, já de alguma forma os demitimos de servirem de exemplo para alguma coisa. E por isso há uma ironia, ou há um sarcasmo associado. Aliás, todo o livro é sarcástico, mas há um sarcasmo tremendo associado a essa condenação porque, de facto, tendemos a sofrer um desgosto muito maior quando vemos os bons falharem. E isso vai ao encontro do que Martin Luther King dizia, que mais do que temer o ruído dos maus, temia o silêncio dos bons. É um pouco isso. A passividade dos bons, perante uma hipótese de derrocada da humanidade, torna-se profundamente obscena, como se os bons fossem os culpados. Não bastará ser bom, é essencial agir no sentido de fazer com que a bondade seja um princípio ativo. Eu entendo muito assim. Até no foro dos ativismos, digamos assim, acho que estamos num tempo em que não podemos achar que somos só indiferentes a determinadas torpezas. Temos de ser ativamente contra essas torpezas. Por exemplo, não basta eu dizer que não sou racista; é preciso ser ativamente antirracista.

Estamos num tempo em que, definitivamente, precisamos de ganhar uma consciência em relação às coisas, ao invés de assumirmos que as coisas não nos atingem ou não deverão ser preocupações nossas, porque simplesmente não incorremos nesses erros. O facto de não incorrer nesse erro não implica que não deva ativamente lutar contra esse erro. É um pouco o que está em causa entre os bons e os maus. Os bons, não basta que sejam bons, é preciso que sejam ativamente agentes do bem, que produzam o exercício do bem como uma obrigação coletiva.

É curioso, porque a união devia fazer a força, enquanto coletivo devíamos ser muito mais robustos e devíamos funcionar como um exército bastante defendido, mas vemos que não, que os coletivos avançam impavidamente em direção ao abismo, ainda que cada um de nós saiba perfeitamente que, se chegar ao limite, não interessa saltar. Porque é que, enquanto coletivo, caminhamos em direção ao abismo?
Até porque, depois da pandemia, ou durante a pandemia, dizia-se que as pessoas iam ficar mais próximas, mais solidárias, e estamos a ver um pouco o contrário, não é? Estamos cada vez mais individualistas.

Era uma coisa que a história também já explicava, que depois das pandemias voltam as guerras e voltam as atomizações e todos os oportunismos e avançam todos os sentidos de imperialismo e de domínio de uns perante os outros. A história explica que, com cada pandemia, há um ciclo que se inicia e que tem uma tramitação, digamos assim, que é repetida. Quem leu alguma coisa já sabia que era inevitável passarmos por esta fase. A candura que se criou no período da pandemia, que fez com que as pessoas achassem que, quando pudéssemos estar juntos, quando pudéssemos voltar às ruas e normalizar um pouco as nossas vidas, haveríamos de ser muito mais fraternos, estaríamos todos saudosos de nos vermos e de nos abraçarmos… Essa candura é exatamente um dos instrumentos mais valiosos para o oportunismo, porque as pessoas entorpecem, digamos assim, os sentidos, ficam iludidas com uma fantasia e acabam por estar meio predispostas para serem enganadas em todas as situações. Por isso é que a história também comprova que é nesse instante de candura universal que os malfeitores avançam.

Não deixa de ser estranho... Como é que a história já mostrou isso tantas vezes e, mesmo assim, continuamos repeti-lo?
É como se individualmente fôssemos todos muito capazes, mas coletivamente somos sempre um pouco mais falhos. É curioso, porque a união devia fazer a força, enquanto coletivo devíamos ser muito mais robustos e devíamos funcionar como um exército bastante defendido, mas vemos que não, que os coletivos avançam impavidamente em direção ao abismo, ainda que cada um de nós saiba perfeitamente que, se chegar ao limite, não interessa saltar. Porque é que, enquanto coletivo, caminhamos em direção ao abismo? É estranho, porque cada um de nós sozinho não tem interesse nenhum em seguir essa direção, mas no coletivo fazemo-lo. Enquanto totalidade, estamos, de facto, numa espécie de movimento em direção a um certo fim do mundo, a um certo fim de todas as coisas.

A Marquesa, mulher bicuda e propensa a diarreias que acha que "o povo é estúpido", tem um final aberto, associado ao cofre de Agilulfo. O cofre representa o quê exatamente? O desconhecido, o ideal da informação? A soberba?
O cofre, para mim, é um mistério que não é aceite, que algumas personagens não conseguem aceitar. É um mistério que acontece às vezes nos meus livros. É uma equação irresoluta, que não tem solução à vista. E, depois, as pessoas distinguem-se entre aquelas que tomam a rédea das suas vidas independentemente de tudo ou as outras que não conseguem avançar em sentido algum enquanto uma resposta não lhes for dada. Por isso, a Marquesa não consegue existir para lá daquela resposta e a Criada existe para lá daquela resposta.

Torna-se a patroa, não é?
É e, por isso, de alguma maneira, as pessoas ficam distintas, são distintas por esta atitude em relação a uma equação irresolúvel. Ou achamos que a vida é justa independentemente de nos responder ou não, ou, então, não aceitamos o facto de não nos responder e estabelecemos a vida como impossível.

Tendo em conta as referências à religião, às tantas dei por mim a tentar identificar os sete pecados mortais. Foi propositado ou eu é que levei a minha análise demasiado a fundo?
Não, tem, porque há um jogo com as virtudes no livro e, por isso, todos os pecados estão presentes, de alguma forma. Podia ser o século dos pecadores, mas o pecado parece uma coisa que define menos a perplexidade perante a contemporaneidade. Mas existe o uso das iniquidades todas.

Se estabelecermos como verdade alguma coisa que nos é dita sem ser comprovada, sem ser passível sequer de prova, estamos a aceitar uma certa realidade paralela. Estamos a aceitar que as evidências não esgotam aquilo que há para saber e, diante das evidências, podemos estar crentes de uma coisa completamente distinta. Podemos confiar mais no que sentimos do que aquilo que está diante dos nossos olhos de uma forma concreta

Falou há pouco sobre a justiça. No livro escreveu que, "quanto mais se propagava a justiça, mais se notavam as falhas de carácter e o quanto a informação, afinal, não podia nada contra o prejuízo dos gestos" e que "a população aumentava de emoção, […] decidia por sentir e não por pensar". É um pouco isto que estamos a viver, não é?
É seguir as perceções. O sentimento é um bocadinho criado por uma perceção que pode ser completamente fantasiosa e que não se fundamenta por completo. Por isso, é uma espécie de ciência do achismo, que faz com que as pessoas se movam e tomem decisões a partir de um ponto de vista pessoalíssimo e normalmente errado – muitas vezes errado. De facto, uma das tragédias da contemporaneidade é fazermos ascender o sentimento à ciência, é confundirmos sentimento com ciência.

Até que os personagens criam uma nova santa.
Há uma Nossa Senhora que vai exatamente ser criada ao arrepio daquilo que as pessoas sentem. Em última análise, a religião é um sentimento, não consegue ser uma ciência, não fornece respostas concretas. Estabelece apenas dogmas, que é um bocadinho o que os sentimentos também vão fazendo. Vão criando em nós uns certos dogmas, umas certas inclinações para achar que as coisas são assim ou assado. E a religião é feita de dogmas e está cheia de decisões que temos de tomar e que têm que ver com acreditar em alguma coisa que não é minimamente comprovável e, às vezes, nem plausível. Então, achei interessante que o sentimento destas pessoas desse origem à criação de uma nova santa.

Às vezes, a religião é necessária para sobreviver, para suportar a vida, mas também cria bastante resistência ao conhecimento.
Sim. Tudo o quanto pode, a partir do ponto de vista do estabelecimento de um dogma, que não deixa de ser um preconceito, porque é um pré-conceito, um conceito prévio, acaba por ser modo de eventualmente perigar o conhecimento ou perigar a ciência. Se estabelecermos como verdade alguma coisa que nos é dita sem ser comprovada, sem ser passível sequer de prova, estamos a aceitar uma certa realidade paralela. Estamos a aceitar que as evidências não esgotam aquilo que há para saber e, diante das evidências, podemos estar crentes de uma coisa completamente distinta. Podemos confiar mais no que sentimos do que aquilo que está diante dos nossos olhos de uma forma concreta.

Ao longo destes 30 anos enquanto escritor, que momentos colocaria no seu top três?
A edição do meu primeiro livro, que é um livro do qual eu hoje não gosto, mas que foi um livro que surge na minha vida um pouco de surpresa, sem que eu o tivesse procurado, mas que encontrei, digamos assim. Em 1996, foi absolutamente mudador, foi uma concretização tão gratificante que nunca esperaria que pudesse acontecer. Não tinha a convicção de que isso me pudesse acontecer. Depois, eventualmente, o instante de ganhar o Prémio Saramago, que me retira de uma lonjura e que me oferece a oportunidade de participar um pouco do teatro literário nacional. Diria, depois, a publicação no Brasil. A passagem por um grande festival no Brasil e a recetividade dos leitores brasileiros em relação à minha obra acabam por retificar ou legitimar, diria, uma relação forte que tinha com a cultura brasileira e que faz com que hoje me sinta balançando entre os dois países de um modo muito gratificante.

E faria tudo igual?
Talvez, se fazer tudo igual me trouxesse a este dia, a esta hora, desta maneira, sim, faria, sim. Não saberia fazer de outra maneira, porque o que decidi foi o que soube decidir. Estou muito feliz, sobretudo estou muito feliz com os livros que escrevi, com os livros que escrevo, com o novo livro, de maneira que este foi o percurso que me garantiu a possibilidade de escrever este livro, então foi o percurso certo.

Que outros projetos é que tem em mãos?
Este livro começa um ciclo chamado Crimes e Vindouros, por isso já estou com a cabeça no próximo romance. À partida será uma tetralogia também; gosto de funcionar por ciclos de quatro livros. Estou com a cabeça nestes assuntos, do que podem ser os grandes crimes de hoje, herdados pelas pessoas do futuro; que crimes estamos nós a deixar para que as pessoas do futuro herdem. É nisso que estou metido.

Gosto muito da imagem do Albuquerque Mendes, que é um mestre pintor português, um grande amigo, e que, ao longo da escrita do livro, me foi ouvindo falar sobre ele. Enquanto escrevia, falámos quase todos os dias, e fui contando ao Albuquerque o que estava a acontecer. Ainda antes de ler o livro, ele conseguiu criar essa imagem, que me parece perfeita para o clima do livro, para a desconfiança entre a Marquesa e a Criada, entre as mulheres, a presença da máquina de costura, e o fantasma do Agilulfo deitado como sombra delas mesmas. Então, foi muito especial ter uma imagem do Albuquerque Mendes neste livro, porque surge da nossa amizade e dessa partilha de uma coisa que ainda não acontece, ou que está a acontecer, mas que ainda não existe por inteiro. Ele ajudou-me a ver o livro antes que o livro estivesse completo. É muito especial ter esses bonecos, digamos, esses desenhos na capa do livro.

Sim, é muito bonita. É a cena em que estão a vender os vestidos.
Vendem os vestidos e estão, de alguma forma, transformadas em colegas de trabalho, e assim, meio que aldrabando a clientela, meio que impingindo à clientela a tralha que têm para vender.

Mais tarde ainda é pior, porque usam trapos e cortinados.
Exatamente, depois perdem a cabeça. É o desespero, é a fome.

Patrick Watson - Drive



Letra
Drive, drive, drive, drive
You want to drive all night
Follow the yellow lines
Don't stop and look behind
And you don’t want to know where you're going
Just want to get lost sometimes
Get lost together

Drive, drive, drive, drive
And get lost together

Ah, ah, ah, ah

Want to get lost
You don't want to know where you’re going
Stepping through a hallway of trees
Getting lost to nowhere's good to me
Wild eyes in the high high beams
Staring back at me

Into endless night
Wild eyes staring back at me
Wild eyes staring back at me
Wild eyes staring back at me

A letra de "Drive" é minimalista, direta e altamente metafórica, girando em torno da urgência de escapar e do desejo de desapego, como se pode notar nos versos "You want to drive all night / Follow the yellow lines / Don't stop and look behind / And you don't want to know where you're going / Just want to get lost sometimes / Get lost together".

O significado central da canção pode ser destrinchado em quatro frentes principais. Em primeiro lugar, o carro surge como um refúgio, onde o ato de conduzir sem destino funciona como uma metáfora para a busca por paz mental; em momentos de sobrecarga emocional ou ansiedade, o foco nas linhas amarelas da estrada e a ordem de não olhar para trás representam o desejo de desligar o cérebro e viver apenas o presente imediato. Em segundo lugar, há a catarse do "perder-se", existindo uma beleza melancólica em admitir que não se sabe para onde se vai, o que valida o sentimento de que, às vezes, perder o rumo é exatamente o que precisamos para nos reencontrarmos. Adicionalmente, verifica-se uma profunda conexão no isolamento quando o eu lírico propõe perderem-se juntos ("get lost together"), transformando a solidão da estrada numa experiência partilhada que sugere uma cumplicidade íntima e o desejo de fugir das pressões do mundo real na companhia de alguém que partilha da mesma vulnerabilidade. Por fim, a faixa aborda o confronto com o desconhecido através de versos como "Wild eyes in the high high beams / Staring back at me" (Olhos selvagens nos faróis altos / Olhando de volta para mim), que introduzem uma pitada de mistério e perigo, representando o confronto com os nossos próprios medos ou com o "selvagem" que habita na escuridão ao sairmos da nossa zona de conforto.

Em resumo, "Drive" constitui uma obra sobre evasão, entrega ao fluxo da vida e a busca por um espaço de silêncio no meio do ruído do mundo moderno.

terça-feira, 16 de junho de 2026

I am the Shadow - The Days


Como a letra oficial nunca foi publicada, a interpretação exata do Pedro Code permanece um mistério, mas o significado de "The Days" pode ser decifrado através da sua sonoridade e do conceito geral do álbum Pitchblack, lançado em 2020. O título aponta diretamente para a passagem do tempo e para o peso da rotina, refletindo sobre a monotonia de dias cinzentos que se misturam e nos consomem lentamente. Lançada em pleno período de isolamento global, a canção evoca uma profunda sensação de solidão e o confronto com os nossos próprios pensamentos dentro de quatro paredes. No entanto, em vez de ser apenas pessimista, a música funciona como uma catarse tipicamente darkwave, transformando a melancolia e a ansiedade do quotidiano numa beleza poética e reconfortante, servindo como uma espécie de refúgio espiritual para quem enfrenta a escuridão dos dias.

Crescimento da energia eólica trava em Portugal e coloca pressão sobre metas para 2030

 A energia eólica assegurou 25,4% do consumo de eletricidade em Portugal continental em 2025, mas as metas definidas para 2030 exigem maior ambição e aceleração de novos projetos, segundo um estudo hoje divulgado.

O relatório “Parques Eólicos em Portugal”, elaborado pelo INEGI - Instituto de Ciência e Inovação em Engenharia Mecânica e Engenharia Industrial - em parceria com a Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN), divulgado hoje no Dia Mundial do Vento aponta para uma produção eólica de 13,5 terawatts-hora (TWh), face a um consumo total de eletricidade de 53,1 TWh em Portugal continental.

Tendo em conta que o Plano Nacional Energia e Clima 2030 (PNEC 2030) prevê uma capacidade geradora de 10,4 gigawatts (GW) de eólica em terra (‘onshore’) e a concretização de 2 GW de eólica no mar (‘offshore’) até 2030, o estudo considera que este conjunto de metas é “muito ambicioso e exigente”.

Nesse sentido, defende que a sua concretização depende de uma “estreita colaboração entre os agentes públicos e privados", que permita acelerar o desenvolvimento de novos projetos.

Em declarações à Lusa, a coordenadora de Políticas e Inteligência de Mercado da APREN, Susana Serôdio, afirmou que “efetivamente nos últimos anos tem havido aqui uma estagnação da energia eólica” e que esta fonte “não tem acompanhado o que seria expectável face ao que está no PNEC2030”.

“O primeiro [fator], claramente, é a questão do licenciamento e a falta de visibilidade de prazos, dificuldades em algumas áreas de avaliação de impacto ambiental, mas também claramente questões das condições do mercado atual e também de rede”, disse.

De acordo com o mesmo estudo, após um período de crescimento, 2025 evidenciou uma “nova estagnação da capacidade adicional instalada em Portugal”.

Em 2025, encontravam-se mapeados 446,8 megawatts (MW) de potência em fase de construção, dos quais cerca de 80% correspondem a novos projetos, incluindo os parques de Tâmega Norte, com 194,4 MW, e Tâmega Sul, com 79,2 MW.

A maioria destes novos projetos está, contudo, associada a hibridizações, isto é, à combinação de um projeto eólico com outro projeto renovável já existente, como hídrico ou solar, aproveitando pontos de rede já disponíveis.

Os projetos de reequipamento (‘repowering’), que consistem na substituição ou modernização de equipamentos existentes por outros mais eficientes, representam 14% da potência em construção, enquanto os restantes 6% dizem respeito a sobreequipamento, ou seja, à instalação de uma potência de geração superior à capacidade de injeção.

Com 6 GW de capacidade instalada acumulada, Portugal mantém-se no ‘top 10’ europeu da capacidade eólica, num ranking liderado pela Alemanha, com 77,7 GW, e por Espanha, com 33,2 GW.

Em termos geográficos, Viseu mantém-se como o distrito com maior potência eólica instalada em território nacional, com 1.231,1 MW ligados à rede, seguido de Coimbra, com 745,7 MW, Vila Real, com 696,3 MW, e Guarda, com 653,2 MW.

Évora continua a ser o único distrito de Portugal continental sem qualquer aerogerador instalado.

As regiões autónomas concentram um total de 106,4 MW operacionais, repartidos entre 63,8 MW na Madeira e 42,6 MW nos Açores.

Questionada sobre o crescimento futuro em terra, Susana Serôdio defendeu que “o futuro passa pelo reequipamento”, mas ressalvou que “existe, efetivamente, ainda margem para crescer em terra”.

A responsável acrescentou que a hibridização com solar está a ganhar relevância, devido à queda dos preços nas horas de maior produção fotovoltaica.

“À hora de produção solar, efetivamente, os preços são muito baixos e a rentabilidade dos projetos começa a ser muito pequena. E, se hibridizarem com o eólico, geram aqui outro potencial ao projeto”, afirmou.

Dia Mundial do Vento: uma data para celebrar um recurso único

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Marianne Faithfull - Song for Nico

Melhor som aqui

[Verse 1]
Born in 1938
A good year for the Reich
She could not participate
She didn't have the right
For she was fatherless in the Fatherland

[Verse 2]
Now it's 1966
Andrew's up to all his tricks
And when Brian Jones is near
Nico doesn't feel so queer
She's in the shit, though she's innocent

[Chorus]
Yesterday is gone
There's just today
No tomorrow
Yesterday is gone
There's just today
No more

[Verse 3]
Now it's Andy Warhol's time
Mystic 60's on a dime
Though she kinda likes Lou Reed
She doesn't really have the need
Already in the shit, though she's innocent

[Verse 4]
And now she doesn't know
What it is she wants
And where she wants to go
And will Delon be still a cunt
Yes, she's in the shit, though she is innocent

[Chorus] 2X
Yesterday is gone
There's just today
No tomorrow
Yesterday is gone
There's just today
No more

[Outro]
Da da da da da

"Song for Nico" é uma homenagem profundamente pessoal e melancólica à cantora, modelo e atriz alemã Nico, famosa pela sua colaboração com os Velvet Underground e pela sua icónica carreira a solo. Marianne Faithfull e Nico conheceram-se nos anos 60 e partilhavam uma ligação única, pois ambas foram musas dessa década, enfrentaram o escrutínio público brutal, lutaram contra um vício severo em heroína e, mais tarde, reinventaram-se como artistas com vozes profundas, sombrias e maduras.

O significado da canção assenta, em grande parte, no retrato poético e triste dos últimos anos de Nico em Manchester e Ibiza. Marianne canta sobre uma mulher que já tinha sido considerada uma das mais bonitas do mundo, mas que terminou a vida de forma solitária, andando de bicicleta e longe do glamour do passado. Mais do que uma simples biografia, a música funciona como um desabafo da própria Marianne. Ao cantar sobre a decadência, a perda da beleza jovem e a incompreensão do público, Faithfull processa os seus próprios traumas, transformando a faixa numa carta de amor de uma sobrevivente dos anos 60 para outra que, infelizmente, não resistiu.

Na canção, a morte de Nico é quase vista como uma libertação de um mundo que já não a compreendia e que a tinha reduzido a um fantasma do passado. Marianne canta com uma enorme ternura e celebra a integridade de uma artista que nunca se vendeu ao comercialismo. O contraste mais poderoso da letra surge quando Faithfull repete a frase "Hey, where are you going, beautiful girl?", confrontando diretamente a imagem da Nico jovem e radiante com o seu fim trágico e solitário.

A natureza cura-se quando deixamos de a envenenar



Notícias fantásticas! Desde 2018, após a proibição na França dos pesticidas neonicotinoides — aqueles infames produtos químicos que matam abelhas —, as populações de aves insetívoras, como chapins, pisco-de-peito-ruivo e melros, aumentaram de 2% a 3% em todo o país. Isso é o que mostra um novo estudo publicado em 15 de novembro de 2025 na revista Environmental Pollution.


Mas essa notícia merece uma pequena explicação. Primeiro, deixe-me lembrar que 19% - quase um quinto - das aves da Europa desapareceram em 40 anos. E isso acompanha logicamente o declínio dos insetos visados pelos pesticidas.

Mas, novamente, precisamos evitar a supersimplificação do problema. Nem todas as populações de aves são afetadas da mesma forma. Enquanto o número total de aves caiu 19%, as aves de áreas agrícolas diminuíram impressionantes 60%. A principal causa desse declínio é a agricultura intensiva. E você não precisa de mim para te dizer isso. É a agricultura que usa cada vez mais herbicidas, fungicidas e pesticidas, levando à destruição massiva de insetos, plantas e fungos.

Além disso, a expansão das lavouras e a destruição de áreas húmidas também tornam mais difícil para as aves fazerem ninhos e encontrarem alimento suficiente. As alterações climáticas também são um fator importante. A BirdLife afirma que uma em cada oito espécies de aves no mundo está atualmente ameaçada de extinção. Uma em cada oito!

Tudo isso para dizer que a melhora de 2% a 3% observada neste novo estudo que mencionei no início pode parecer minúscula, mas ainda assim demonstra o impacto imediato e mensurável de mesmo um pequeno esforço para causar um pouco menos de dano ao mundo vivo ao nosso redor.

Dia Mundial da Consciencialização da Violência contra a Pessoa Idosa


A Década do Envelhecimento Saudável (2021-2030) é uma oportunidade para reunir governos e a sociedade civil para ação orquestrada em prol da melhoria de vida das pessoas idosas.

A violência contra idosos é um problema subnotificado mundialmente que existe tanto em países em desenvolvimento quanto em países desenvolvidos. Embora a extensão dos maus-tratos contra idosos seja desconhecida, sua importância social e moral é incontestável.

Por isso, a ONU instituiu o dia 15 de junho de 2006 como o Dia Mundial da da Consciencialização sobre a Violência contra a Pessoa Idosa para definir abordagens culturalmente contextualizadas para detectar e lidar com a violência contra esse grupo populacional.

A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) apoiou nos últimos cinco anos 8.540 pessoas idosas vítimas de crime e violência, o que representa uma média de cinco por dia, divulgou hoje a instituição.
Os dados estatísticos da APAV indicam um aumento de 26,5% no número de idosos apoiados entre 2021 e 2025, sendo que a ajuda foi dada em resposta a 15.804 crimes e outras formas de violência
A violência doméstica continua a ser o crime mais frequentemente registado, representando 78,9% das situações acompanhadas pela APAV, o que corresponde a 12.465 crimes.

Seguem-se a ameaça ou coação (3,7%), a ofensa à integridade física (3,7%), a difamação ou injúria (3%) e a burla (2%).
A maioria das vítimas apoiadas era do sexo feminino (76,3%), tinha entre 65 e 74 anos (49,4%) e nacionalidade portuguesa (92,7%), sendo mais de metade (55,9%) dos agressores do sexo masculino.
A APAV assinala que "a violência contra pessoas idosas ocorre maioritariamente em contexto familiar, sendo a pessoa agressora, na maioria das situações, filha ou filho da vítima (32,3%), seguida do cônjuge (21,5%)", acrescentando que 29,8% dos agressores tem entre 25 e 64 anos.
A associação salienta também que "mais de metade das vítimas apoiadas (53,6%) encontravam-se em situação de vitimação continuada", entre as quais 23,4% que viveram situações de violência durante um período compreendido entre dois e seis anos antes de procurar apoio.
Quase metade das vítimas (46,6%) não apresentou queixa nem viu a sua situação denunciada às autoridades.
Para a instituição, "estas estatísticas reforçam a necessidade de continuar a investir na prevenção, deteção precoce e apoio especializado às pessoas idosas vítimas de crime e violência, bem como na sensibilização da sociedade para uma realidade frequentemente invisível".
A APAV, criada em 1990, presta apoio jurídico, psicológico e social, gratuito e confidencial, por telefone, através da Linha de Apoio à Vítima 116 006, 'online', no Chatbot APAV, e presencialmente nos seus gabinetes espalhados pelo país.




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Todos gostamos do ambiente, mas o ambiente sai muito caro


Com os preços atuais do biometano ainda não é possível descarbonizar a indústria. Esta foi uma conclusão transversal aos dois debates que decorreram hoje na Feira Nacional de Agricultura, promovidos pela Floene e a que o Expresso se juntou como media partner.

Portugal depende quase exclusivamente de gás importado e, a este nível, tem sido um dos países da Europa mais afetado pela subida generalizada de preços, resultante da guerra na Ucrânia. Contudo, uma das soluções pode estar no biometano, capaz de somar vantagens como a descarbonização, a competitividade industrial e a valorização territorial. No debate desta manhã na Feira Nacional de Agricultura (FNA), em que o tema foi ‘o biometano enquanto solução ambiental’, os vários participantes foram unânimes no diagnóstico de que o país tem potencial na produção desta energia renovável, mas continua longe de conseguir transformá-lo em escala.

Quando questionado sobre se o país está a aproveitar o seu potencial agropecuário, António Farracho não hesitou em garantir que “a resposta óbvia é que não”. O fundador e CEO da Prado Energia recorda que o biometano permite transformar “um passivo ambiental que não está a ser aproveitado, em ativo energético”, sobretudo em territórios rurais onde os odores e riscos sanitários associados aos efluentes são uma preocupação constante.

Contudo, e como referiu Nuno Pinto, o biometano é antes de tudo um caminho de qualificação territorial, o que significa que “os projetos têm de ser transparentes, sem segredos, e envolver todos os envolvidos, até as populações”. Ou seja, o responsável pela área do biometano na REGA Energy alertou para a importância da aceitação, que dependerá sempre da forma como se comunica e como se escolhem os locais, e lembrou que, no contexto europeu, o gás renovável é já um pilar estratégico. “O biometano é um dos fatores essenciais da soberania energética europeia”.

Do lado da comercialização, Óscar Delfim, diretor comercial B2B da Goldenergy, destacou a vantagem imediata para as empresas. “As empresas conseguem descarbonizar rapidamente e sem necessidade de investir nos equipamentos”. Mas alerta para aquele que considera o principal desafio: “Há uma grande dificuldade na parte dos licenciamentos”.

Já na perspetiva da indústria cerâmica, altamente exposta ao custo do gás, o biometano “é uma solução técnica já madura”. Paulo Pires, vice‑presidente da APICER (Associação Portuguesa Indústria Cerâmica), não tem dúvidas de que seria possível “substituir a 100% o gás natural por biometano”. Mas, à data de hoje, identifica o preço “incomportável para a indústria” e a falta de oferta como os grandes travões à descarbonização. “Todos gostamos do ambiente, mas o ambiente sai muito caro”, acrescentou Nuno Pinto.

Miguel Faria reforçou que o país está atrasado na política de resíduos e que isso limita a matéria‑prima disponível, lembrando que o biofertilizante resultante do processo “já permite substituir metade do fertilizante que vem da Rússia ou do que passa pelo Estreito de Ormuz”. Para o COO (Chief Operating Officer) da Floene, o desafio é “dar velocidade à implementação dos projetos”.

Mix perfeito não existe
Quando falamos de mix energético, Portugal não pode substituir uma dependência por outra, nem avançar para soluções simplistas num sistema que continua estruturalmente ancorado em combustíveis fósseis. A opinião é de Nuno Ribeiro da Silva, que abriu o debate da tarde no espaço Floene, na Feira Nacional de Agricultura, e que defendeu também que a transição energética não é um exercício tecnológico, mas um teste económico e geopolítico à resiliência dos países. Como lembrou o ex-presidente da Endesa, “quando dizemos que produzimos 80% da energia com fontes renováveis, falamos apenas da eletricidade, que representa menos de um quarto do total da energia consumida no país. O resto continua a ser petróleo e gás”.

Neste contexto, defendeu ainda Nuno Ribeiro da Silva, o gás, e sobretudo o biometano, permanece “a geração menos agressiva do ponto de vista ambiental”, sendo por isso inevitável no equilíbrio do sistema.

Do lado regulatório, Mário Paulo rejeitou a ideia de que a ERSE (Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos) trava a transição. “A ERSE não faz leis”, sublinhou, lembrando que o regulador atua dentro das políticas definidas e que “acabar com o gás em dois ou três dias é uma fantasia tecnicamente impossível”. A Europa, acrescentou o presidente da ERSE, já reviu a sua posição e admite que o gás continuará a representar “cerca de 20% do mix energético em 2040”.

Gabriel Sousa, CEO da Floene, destacou que Portugal pode acelerar a adoção de biometano aprendendo com quem começou mais cedo. “Não é sempre mau sermos os últimos”, afirmou. França, Itália e Dinamarca mostram que o crescimento depende de mecanismos estáveis e de uma articulação entre energia, agricultura e resíduos. “Portugal vai precisar dos dois sectores”, defendeu, sublinhando que o país pode fazer “em três anos o que outros demoraram quinze a fazer”.

Nuno Ribeiro da Silva reforçou ainda que as tecnologias emergentes precisam de apoio, tal como aconteceu com a eólica e o solar. “Se fosse puramente o mercado, só as tecnologias incumbentes existiam”, disse, defendendo que o biometano representa uma oportunidade industrial acessível e integrável na economia nacional.

Outras conclusões:
  1. O potencial agropecuário português continua largamente por explorar, apesar de estar mapeado e quantificado. “O Concelho de Torres Vedras figura no Top 10 dos concelhos com maior produção de efluentes agropecuários”, exemplificou António Farracho.
  2. A aceitação social dos projetos depende da forma como são apresentados às comunidades. “Quando se chega a um território e se apresenta um projeto há sempre um fator de rejeição natural”, afirmou Nuno Pinto.
  3. Para Óscar Delfim, a produção nacional de biometano pode reduzir a exposição do país às flutuações internacionais do preço do gás. “Não estaremos sujeitos às acelerações de preços que têm sido fruto dos conflitos”.
  4. A indústria cerâmica enfrenta um risco real de perda de competitividade se não houver acesso a gás renovável a preços viáveis. “O problema que temos é um fator de competitividade”, alertou Paulo Pires.
  5. “A classificação dos resíduos como subprodutos é um passo essensial para desbloquear matéria‑prima para o biometano”, sublinhou Miguel Faria.
  6. A evolução do sistema energético não pode assentar em ilusões de substituição instantânea: exige convivência prolongada entre múltiplas fontes e uma gestão realista das limitações técnicas. “Neste processo de transição energética, temos de dar tudo para conseguir libertar‑nos deste uso que ainda fazemos do petróleo e do gás natural”, disse Nuno Ribeiro da Silva.
  7. “A regulação acompanha, mas não inventa políticas”, garantiu Mário Paulo. O regulador sublinha que o país precisa de soluções compatíveis com a sua estrutura industrial e que a transição não pode ignorar a história e o ritmo dos sistemas energéticos.
  8. Gabriel Sousa alertou que o biometano só avança se unir sectores que nunca trabalharam juntos. “Juntar energia, agricultura, resíduos, economia e indústria não é fácil, mas parece‑me absolutamente indispensável”.