quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Crise da habitação: o imigrante tem as costas largas

A crise da habitação em Portugal transformou-se num dos debates mais acesos e fraturantes dos últimos anos, e a frase “o imigrante tem as costas largas” sintetiza com precisão a forma como a população estrangeira tem sido transformada num bode expiatório conveniente para um problema socioeconómico profundo. Em crónicas e intervenções públicas, analistas como o jornalista Daniel Oliveira têm vindo a desconstruir essa narrativa, demonstrando que atribuir a subida vertiginosa das rendas e a escassez de casas a quem chega de fora serve apenas para desviar as atenções de décadas de falhas graves no planeamento urbano, na intervenção pública e na regulação do mercado imobiliário.

Os dados do setor mostram claramente que a escassez de habitação não começou com os fluxos migratórios recentes de baixos rendimentos. O país arrasta um défice estrutural de oferta desde a crise financeira de 2008, altura em que a construção nova praticamente parou. A somar a este bloqueio, Portugal manteve ao longo de décadas um parque habitacional público irrisório - que representa apenas cerca de 2% do total nacional, muito abaixo da média europeia -, deixando o acesso à casa totalmente entregue ao mercado privado. Ao mesmo tempo, as políticas públicas focaram-se em atrair capital estrangeiro de elevado rendimento e investir no turismo de massas, promovendo instrumentos como os Vistos Gold, o regime para Residentes Não Habituais e a expansão desregulada do Alojamento Local. Foram estas escolhas, aliadas à lentidão crónica dos licenciamentos autárquicos e à existência de centenas de milhares de imóveis devolutos, que verdadeiramente inflacionaram o valor do metro quadrado nas áreas metropolitanas.

Naturalmente, um aumento populacional célere num mercado habitacional já sufocado gera uma pressão imediata sobre a procura, como têm assinalado relatórios de várias instituições financeiras. Contudo, o problema não reside no ato de imigrar em si, mas sim na ausência de um planeamento infraestrutural por parte do Estado, que falhou em prever e acompanhar o crescimento demográfico nos setores da habitação, da saúde e dos transportes. Além disso, existe uma clara segmentação do mercado: enquanto os estrangeiros de altos rendimentos e os investidores pressionam os preços da habitação média-alta, a grande maioria dos trabalhadores imigrantes não tem capacidade financeira para disputar casas no mercado formal, sendo empurrada para cenários graves de sobrelotação, precariedade e exploração no mercado informal.

A maior ironia deste debate reside no facto de a população imigrante ser, em simultâneo, a principal vítima da especulação e o pilar que sustenta a própria solução do problema. Com o setor da construção civil a enfrentar uma escassez histórica de mão de obra nacional, são hoje os trabalhadores imigrantes que edificam, reabilitam e colocam de pé as infraestruturas de que o país necessita desesperadamente. Culpar os imigrantes pela crise da habitação pode ser uma estratégia politicamente rentável e de assimilação fácil, mas é uma simplificação que ignora a realidade económica: não destrava licenciamentos, não combate a especulação e não constrói uma única habitação pública.

Para acompanhar esta perspetiva comentada em detalhe, vale a pena ver este debate com Daniel Oliveira sobre Habitação e Imigração, no qual o jornalista analisa as causas estruturais da crise imobiliária e desmonta os mitos em redor do impacto da imigração em Portugal.

Quebrar de vez com mito urbano que o PCP é o maior proprietário de Portugal

A velha questão do PCP, resolve-se num instante. O PCP não faz especulação imobiliária. Nunca o fez.  PCP já não detém o maior valor de ativos fixos tangíveis, tendo sido ultrapassado pelo PSD, que lidera essa lista com um valor contabilístico superior. O chamado mito do património imobiliário do PCP assenta numa mistura complexa entre factos reais e narrativas políticas inflacionadas. Historicamente, o Partido Comunista Português construiu um vasto património composto por dezenas de terrenos e centenas de prédios e frações urbanas espalhados pelo país, sendo o exemplo mais mediático a Quinta da Atalaia, no Seixal, onde se realiza anualmente a Festa do Avante!. A acumulação destes bens resultou, ao longo de décadas, de campanhas de fundos, quotas de militantes, doações e legados de apoiantes, servindo maioritariamente para fixar centros de trabalho locais e apoiar a atividade do partido, e não para fins de especulação comercial. Durante muito tempo, esta realidade colocou o PCP no topo das forças políticas nacionais com maior património declarado,, estávamos em 2014  o que alimentou o mito de que o partido seria o maior proprietário de Portugal ou que viveria numa contradição ideológica através do imobiliário.

No entanto, o cenário atual e o enquadramento legal desmentem os exageros frequentemente repetidos no debate público. 

Em primeiro lugar, os dados mais recentes submetidos ao Tribunal Constitucional demonstram que o PCP já não detém o maior valor de ativos fixos tangíveis, tendo sido ultrapassado pelo PSD, que lidera essa lista com um valor contabilístico superior.  Em valor contabilístico, o PSD ultrapassou o PCP após uma reavaliação em 2019. Nas contas de 2023, declarou cerca de 30 milhões de euros em ativos fixos tangíveis, contra 15 milhões do PCP. Esta rubrica inclui sobretudo imóveis, mas também viaturas e outros bens. Podes consultar mais detalhes sobre a verificação destes dados através do Polígrafo SIC/Sapo.

Em segundo lugar, a ideia de que o partido beneficia de uma isenção total e discricionária de impostos é incorreta. À semelhança do que a lei prevê para todas as forças políticas e para outras instituições de utilidade pública, o PCP goza de isenção de Imposto Municipal sobre Imóveis apenas nos bens estritamente afetos à sua atividade partidária regular, sendo obrigado por lei a pagar o respetivo imposto sobre todos os restantes imóveis e terrenos que não tenham essa finalidade direta.

Portugal tem 1,6 milhões de estrangeiros. Mais de um terço são brasileiros

Para quem grita apavorado que o Islão vai tomar conta da nossa Lusitânia...digamos que estão um pouco equivocados, não? Parece que em termos religiosos, o islão não é o problema, mas antes os evangélicos que em termos de retrocesso civilizacional, aparenta ser muito mais complicado. 


Dados do INE revelam também que há mais homens do que mulheres imigrantes

Dos 1,6 milhões de estrangeiros residentes em Portugal, 574 mil são brasileiros, uma contagem global que continua a indicar mais homens do que mulheres imigrantes, segundo dados divulgados pelo INE em 22 de junho deste ano.

De acordo com os dados das estimativas da população residente em 2025, hoje apresentadas pelo INE, a população residente de nacionalidade estrangeira em Portugal “foi estimada em 1.597.539 pessoas, das quais 913.249 (57,2%) homens e 684.290 (42,8%) mulheres, representando 14,0% do total da população residente”.

No que diz respeito às nacionalidades, o INE estima que residiam em 2025 um total de “574.195 cidadãos de nacionalidade brasileira, o que corresponde a 35,9% da população estrangeira residente”, mas do que duplicando o número em relação a 2021 (106,5%), com um acréscimo de 296.086 pessoas.

“A nacionalidade angolana era, em 2025, a segunda principal nacionalidade estrangeira, abrangendo 103.140 pessoas (6,5% do total de estrangeiros), o que representa igualmente um acentuado aumento em comparação com 2021 (33.099)”.

Seguem-se os indianos (93.683 pessoas, com 37.914 em 2021), cabo-verdianos (76.099), nepalês (56.866), cidadãos do Bangladesh (56.724) e guineenses (53.555).

A seguir a estas nacionalidades, seguem-se os ucranianos (53.555), são-tomenses (47.731), paquistaneses (39.638), cidadãos do Reino Unido (38.640), italianos (32.784), franceses (26.549), chineses (23.439) e alemães (21.635), na lista publicada pelo INE.

Numa comparação entre os dados de 2021 e 2025, segundo o INE, os são-tomenses constituem o grupo de imigrantes que mais aumentou em termos percentuais (mais 263%), seguindo-se os cidadãos do Bangladesh (230%), do Paquistão (215%) e angolanos (212%), as únicas nacionalidades que triplicaram o seu volume.

Numa análise a partir das regiões-plano (NUT2), o Norte é a região “onde reside o maior número de pessoas (3.790.554), concentrando 33,2% do total da população, seguida pela Grande Lisboa (2.415.261) e pelo Centro (1.771.259), onde residem, respetivamente, 21,1% e 15,5% da população total”.

“Em 2025, a região Grande Lisboa, onde residiam 546.419 pessoas de nacionalidade estrangeira, concentrava 34,2% do total de estrangeiros em Portugal, seguindo-se a região Norte, com 311.095 residentes de nacionalidade estrangeira e representando 19,5% do total”, pode ler-se nas conclusões do INE

Numa análise proporcional, os Açores são a região com menor número de população estrangeira (apenas 0,6% do total) enquanto “o Algarve, com 161.556 estrangeiros, destacou-se como a região com maior peso de população estrangeira no total de residentes na região, com 27,9%”, seguindo-se Lisboa (22,6%) e Península de Setúbal (18,3%).

A presença de imigrantes também contribuiu para um aumento da população ativa, contrariando a redução da população jovem.

“Entre 2021 e 2025, a proporção de jovens (população dos 0 aos 14 anos de idade) diminuiu de 13% para 12,4% da população total” e a ”percentagem de pessoas em idade ativa (população dos 15 aos 64 anos de idade) aumentou, de 63,7% para 64,3%, contributo dos fluxos migratórios recentes que tendem a concentrar-se nesta idade”, refere o INE.

Consultar ainda a AIMA : 2022- último relatório disponível

Hocico: Tiempos de Furia

Melhor som: aqui

A origem do Hocico na Cidade do México desempenha um papel determinante na génese desta narrativa musical. Versos como "Sangre hirviendo en las calles" e "Puños cerrados al mirar" traduzem vividamente a vivência diária num ecossistema marcado pela violência urbana sistémica, corrupção e degradação social. Longe de adotar uma postura passiva de vitimização, o discurso lírico converte o medo e a vulnerabilidade num impulso agressivo de confronto, onde a fúria deixa de ser uma mera reação emocional secundária para se transformar no principal mecanismo de sobrevivência num mundo onde a compaixão foi erradicada.

Neste cenário de devastação, a raiva assume igualmente o papel de anestesia e vício psicológico, substituindo as emoções humanas convencionais. Expressões como "Furia inyectando el placer" e "Violencia para reírme" desenham um estado de catarse masoquista, no qual a dor e a fúria passam a figurar como os únicos estímulos capazes de contrariar a dormência do espírito e certificar ao indivíduo que este ainda se encontra vivo, atuando como um entorpecente que blinda a mente contra o desespero e a desesperança.

Essa desilusão estende-se ao plano metafísico através do questionamento direto das estruturas religiosas e do consolo espiritual. O verso "En el silencio de la fe, se alimenta el poder" denúncia a passividade e a cumplicidade das instituições religiosas perante a injustiça contínua, sugerindo que o silêncio da crença tradicional apenas serve para nutrir e fortificar os mecanismos opressores. Consuma-se, assim, uma ruptura definitiva com a esperança de salvação divina, determinando que no horizonte de "Tiempos de Furia" a moralidade tradicional ruiu sem deixar redenção, restando apenas o embate cru na esfera material.

Por último, o refrão "Muere un instante, muere sin sentir, ahora!" sintetiza a alienação e a morte emocional indispensáveis à preservação pessoal. Para conseguir suportar a agressividade do meio, a psique recorre ao bloqueio deliberado da sensibilidade e da vulnerabilidade, operando uma desumanização progressiva na qual o indivíduo se vê forçado a desativar temporariamente a sua própria humanidade para se converter num agente frio e puramente instintivo.

Do ponto de vista das influências literárias e filosóficas que moldam o imaginário estético e conceptual de projetos como o Hocico e a sua atmosfera industrial e dark electro, encontram-se referências ao niilismo de Friedrich Nietzsche, ao pessimismo e à filosofia existencialista de Arthur Schopenhauer, às visões distópicas e kafkianas da opressão burocrática e tecnológica de Franz Kafka, às atmosferas de terror psicológico e surrealismo gótico de Edgar Allan Poe e H.P. Lovecraft, ao decadentismo literário do século XIX (como Charles Baudelaire e o culto do mal), às teorias da desumanização tecnológica da Escola de Frankfurt (particularmente de Theodor Adorno e Walter Benjamin no que tange à mecanização da vida e à alienação industrial), ao ceticismo e ao desespero metafísico de Emil Cioran, bem como a elementos de transumanismo sombrio, cibercultura extrema e correntes de filosofia pós-moderna focadas no colapso do sujeito e na fragmentação da identidade face às megastruturas urbanas e tecnológicas.

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Fontaines D.C. - I Love You

Lançada em fevereiro de 2022 como o segundo single do aclamado álbum Skinty Fia, "I Love You" é uma das composições mais profundas, intensas e politicamente carregadas da banda irlandesa Fontaines D.C. Musicalmente, a faixa enquadra-se no Post-Punk moderno com marcantes nuances de Gothic Rock, Jangle Pop e influências estruturais de Krautrock. A sua sonoridade constrói-se sobre um contínuo e hipnótico crescendo impulsionado por um ritmo contínuo e obsessivo de inspiração Motorik - marca do rock experimental alemão -, no qual a linha de baixo melancólica, as guitarras atmosféricas e o pulso mecânico da bateria criam uma tensão progressiva. A partir desta base rítmica implacável, a instrumentação evolui para uma mancha sonora densa e caótica, acompanhando a transformação da voz do vocalista Grian Chatten de um tom suave e percetivo para uma entrega vocal febril, entre o spoken word e o grito desesperado.

Apesar de ostentar um título que sugere uma tradicional canção de amor, a letra é, na verdade, uma complexa, dolorosa e culpada carta de amor direcionada à Irlanda. Escrita num período em que os membros da banda se mudaram para o Reino Unido, a canção explora a culpa do artista que abandona o seu país de origem e lucra criativamente com a sua identidade, enquanto observa à distância a degradação social da sua terra natal. A lírica funciona como uma denúncia feroz contra a corrupção política, a crise imobiliária que assola a juventude e os traumas históricos do país, como o chocante escândalo das Mother and Baby Homes, onde os corpos de centenas de bebés foram descobertos em fossas sépticas na localidade de Tuam.

A dimensão visual da obra ganha força através do videoclipe oficial, realizado por Sam Taylor. Ambientado no interior de uma igreja gótica iluminada apenas pela luz de centenas de velas, o cenário evoca o peso sufocante da tradição, da religião e dos traumas históricos irlandeses. A presença ostensiva e esmagadora das velas carrega um simbolismo polifacetado: funciona simultaneamente como um memorial de vigília e luto pelas vítimas dos abusos históricos e pela juventude sem perspetivas, e como uma crítica à hipocrisia de uma santidade institucional que tentou encobrir crimes sob o manto do sagrado. Além disso, a vela surge como a metáfora de uma paixão que se consome a si própria - uma esperança e um amor pela pátria tão intensos que devoram quem os sente. Ao longo do vídeo, Chatten caminha inicialmente como um observador passivo por este cenário ritualístico, mas a meio da narrativa vira-se diretamente para a câmara, quebrando a quarta parede no mesmo instante em que a música explode em fúria e denúncia social. No clímax emocional da narrativa visual, o peito do vocalista aparece a sangrar, servindo como uma representação literal do custo de entregar a própria alma e o coração a uma pátria em desagregação.

Apesar de ter sido escrita no contexto de 2022, a canção permanece incrivelmente atual por traduzir sentimentos universais e contemporâneos. Ela dá voz à desilusão da geração jovem perante a crise socioeconómica global, a impossibilidade de acesso à habitação e o sentimento de falta de perspetivas de futuro. Além disso, retrata com precisão o fenómeno da emigração forçada e o desencanto com a classe política, questões que continuam a ressoar profundamente em vários países do mundo.

Por fim, a densidade de "I Love You" nutre-se de ricas influências literárias e filosóficas. A lírica dialoga diretamente com a tradição poética irlandesa de W.B. Yeats e o seu conceito de "terrible beauty" - a beleza trágica que nasce do conflito -, bem como com a paralisia social retratada por James Joyce. No plano filosófico, a faixa é atravessada por um profundo existencialismo sartreano e camusiano, focado no sentimento de alienação, na culpa da diáspora e na angústia do indivíduo perante o absurdo moral e a responsabilidade individual. Ressoa também com a crítica da Teoria Crítica à mercantificação da identidade e ao desespero de classe, além de se aproximar da filosofia da história de Walter Benjamin, ao encarar os traumas do passado não como eventos mortos, mas como feridas não cicatrizadas que assombram o presente. Por sua vez, a métrica acelerada do spoken word bebe na fonte da Beat Generation e de poetas como Allen Ginsberg, utilizando a palavra falada como uma poderosa ferramenta de contestação e apelo moral.. Por sua vez, a métrica acelerada do spoken word bebe na fonte da Beat Generation e de poetas como Allen Ginsberg, utilizando a palavra falada como uma poderosa ferramenta de contestação e apelo moral.

Toda a história da Mother and Baby Home

Associação Zero pede “esforço climático real” face a falha da meta para o aquecimento global

A associação ambientalista Zero pediu hoje um “esforço climático real” face a um relatório da ONU que concluiu que o mundo falhou a meta de manter o aquecimento global abaixo de 1,5ºC em relação aos níveis pré-industriais.

“Perdemos a oportunidade de evitar a ultrapassagem de 1,5°C. Não podemos perder a oportunidade de impedir um mundo de 2,8°C. Cada décima de grau conta”, salienta a Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável em comunicado.


O relatório anual do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) sobre as emissões de gases com efeito de estufa (GEE) divulgado hoje refere que o limite de 1,5 graus de aquecimento global já foi ultrapassado e que “com as políticas atuais, o mundo caminha para 2,8°C até 2100”.

A Zero adianta, no entanto, que tal “não significa desistir do Acordo de Paris”, assinado em 2015 na conferência da ONU sobre o clima, com o compromisso de os países do mundo de impedir que as temperaturas a nível global subissem além dos 2ºC em relação à época pré-industrial, e que de preferência esse aumento não ultrapassasse os 1,5ºC.

“Cada décima de grau evitada, e cada ano a menos acima desse limiar, reduzem riscos para a saúde, a água, a produção alimentar e os ecossistemas”, refere a Zero.

Considerando que “mitigação e adaptação são inseparáveis”, a associação defende que, no primeiro caso, “Portugal tem de acelerar a aplicação da Lei de Bases do Clima e do Plano Nacional de Energia e Clima, com metas, responsáveis, orçamentos e resultados verificáveis”.

Ao nível dos transportes, “responsáveis por cerca de 35% das emissões nacionais em 2024”, a associação exige “uma mudança estrutural: mais ferrovia e transportes públicos, menos dependência do automóvel e eletrificação prioritária das frotas de utilização intensiva e do transporte de mercadorias”.

Pede ainda que se combata a pobreza energética e se apoie uma indústria menos dependente dos combustíveis fósseis.

“Na energia, é essencial acelerar a implantação de renováveis bem localizadas e compatíveis com a biodiversidade, reforçar redes, interligações, armazenamento e gestão da procura, e avaliar o abandono do gás fóssil na produção elétrica até 2035”, acrescenta a Zero no comunicado.

Portugal precisa, ao mesmo tempo, “de se preparar para mais ondas de calor, secas, incêndios rurais, precipitação extrema e erosão costeira”, adianta a associação ambientalista, defendendo que “a Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas 2030 precisa de financiamento, prazos, metas e integração vinculativa no ordenamento do território”.

A “prioridade global e europeia deve ser a definição de um roteiro justo, calendarizado e financiado para o abandono do carvão, petróleo e gás fóssil, acompanhado pela rápida expansão da energia solar e eólica, da eficiência energética e da eletrificação”.

A Zero recomenda que a União Europeia reforce a execução das políticas climáticas e apoie os países mais vulneráveis, além de levar à 31.ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações sobre Alterações Climáticas (COP31), que decorre no próximo mês na Turquia, “resultados concretos, incluindo a concretização do compromisso de triplicar a capacidade renovável e duplicar o ritmo de melhoria da eficiência energética até 2030”.

Numa mensagem sobre o relatório do PNUMA, o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirma que “falhar a meta não significa desistir. Ainda podemos mantê-la o mais breve e curta possível - e trazer as temperaturas de volta para menos de 1,5 graus até ao final do século”.


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De Ortega y Gasset ao tecnofeudalismo: diagnósticos e alternativas


Quando José Ortega y Gasset publicou A Rebelião das Massas em 1930, o mundo assistia ao colapso das certezas liberais do século XIX e à ascensão fulminante de forças destrutivas que ameaçavam dissolver a civilização ocidental. O filósofo espanhol anteviu que o maior perigo da modernidade não residia apenas em divisões de classe ou em doutrinas económicas abstratas, mas na emergência de um tipo psíquico e social específico: o homem-massa. Incapaz de autoexigência, habituado a usufruir dos frutos da tecnologia e do progresso sem compreender a sua complexidade nem assumir deveres éticos, o homem-massa caracteriza-se pela recusa da razão, pela rejeição das minorias qualificadas e pela imposição do seu arbítrio através do que Ortega denominou "ação direta". Esta atitude desprovida de mediação institucional constituiu a matriz comportamental dos regimes totalitários do século XX.

Os acontecimentos trágicos que se seguiram às advertências do pensador espanhol confirmaram o vigor premonitório do seu diagnóstico. O Fascismo na Itália de Benito Mussolini e o Nazismo na Alemanha de Adolf Hitler instrumentalizaram a vertigem da massa atomizada, transformando o ressentimento coletivo em violência de Estado, na aniquilação de opositores, no Holocausto e numa guerra devastadora em solo europeu. Paralelamente, o totalitarismo soviético sob Joseph Estaline converteu a promessa de emancipação no horror dos gulags, na purga sistemática de intelectuais e na submissão absoluta do indivíduo ao aparelho estatal. Anos mais tarde, o primarismo ideológico e o desprezo pelo saber atingiram o paroxismo no Camboja sob o regime do Khmer Vermelho e Pol Pot. Entre 1975 e 1979, na tentativa de refundar a sociedade a partir do zero através de uma "ação direta" absoluta, a população urbana foi forçada a trabalhos agrícolas, as elites intelectuais foram sumariamente executadas e cerca de um quarto da população do país foi dizimada num dos genocídios mais brutais da história humana.

Embora Ortega y Gasset focalizasse a sua crítica na inflação do poder estatal e na brutalidade política, as dinâmicas sociopolíticas das últimas décadas reconfiguraram o homem-massa dentro de uma nova estrutura sistémica. A desregulação do capitalismo selvagem dos anos 1980 deu lugar, no século XXI, à emergência do tecnofeudalismo. O indivíduo satisfeito e descomprometido da época de Ortega metamorfoseou-se no "servo da nuvem" hiperconectado: um utilizador que gera valor e dados continuamente para grandes plataformas privadas sem dele ter consciência, enquanto o espaço público e os mercados abertos são substituídos por feudos digitais dominados por monopólios tecnológicos.

Perante esta mutação do capital, a financeirização acelerada, o controlo algorítmico e a degradação ecológica, diversos pensadores contemporâneos redefiniram a crítica social, rejeitando os modelos autoritários do passado e propondo alternativas baseadas na democracia, na soberania digital e nos bens comuns.

Na vertente da crítica à expansão territorial e financeira do capital, o geógrafo britânico David Harvey formula o conceito de "acumulação por espoliação". Harvey demonstra que a dinâmica contemporânea do mercado já não assenta unicamente na extração de mais-valia fabril, mas na privatização predatória de recursos essenciais como a habitação, a água, a saúde e os espaços urbanos. Como alternativa, o autor reivindica o "Direito à Cidade", defendendo a gestão comunitária dos bens comuns e a desmercantilização do solo e dos serviços básicos. No campo estritamente financeiro, o economista grego Costas Lapavitsas analisa como a financeirização penetrou a reprodução da vida quotidiana, convertendo salários, crédito e endividamento familiar num motor direto de extração de riqueza por parte do sistema bancário. Lapavitsas propõe a criação de controlos públicos estritos sobre o sistema financeiro, a socialização do crédito e a realização de auditorias cidadãs às dívidas.

No âmbito da crise climática, a rutura com o produtivismo tradicional levou ao surgimento do ecossocialismo e das teorias do decrescimento. O filósofo japonês Kohei Saito sustenta que a acumulação infinita de capital é estruturalmente incompatível com os limites biofísicos do planeta. Resgatando as pesquisas ecológicas da maturidade de Karl Marx, Saito propõe o "decrescimento ecossocialista", fundado na redução da produção desnecessária, na redistribuição da riqueza e no redirecionamento da economia para a satisfação das necessidades humanas reais. De forma complementar, o historiador norte-americano Jason W. Moore conceptualiza o capitalismo como uma organização da natureza baseada na apropriação continuada de "natureza barata" - trabalho, energia, alimentos e matérias-primas. Moore argumenta que a superação da crise ecológica exige a transição para modelos agroecológicos e a abolição da fronteira artificial entre a sociedade humana e o mundo natural.

A crítica direta às estruturas do tecnofeudalismo e ao controlo digital é desenvolvida por teóricos como Yanis Varoufakis e Shoshana Zuboff. Enquanto Varoufakis denuncia como os "feudos na nuvem" substituíram os mercados tradicionais por mecanismos de rentismo digital e modificação de comportamento, Zuboff identifica o surgimento do "Capitalismo de Vigilância". Como resposta a este poder privatizado sobre a informação, estes autores e investigadores como Nick Srnicek e Alex Williams advogam a criação de infraestruturas públicas digitais, a afirmação da soberania democrática sobre os monopólios tecnológicos e a apropriação social da automação para reduzir a jornada semanal de trabalho, garantindo a dignidade através de um Rendimento Básico Incondicional.

A reflexão sobre os sujeitos políticos, as estruturas do cuidado e a organização social encontra eco em perspetivas que articulam a política institucional com a autonomia de base. A filósofa belga Chantal Mouffe diagnostica o esvaziamento das democracias e propõe a construção de uma nova hegemonia através do populismo de esquerda, capaz de radicalizar as instituições por meio da agregação de lutas plurais -feministas, ecológicas, antirracistas e laborais. Numa perspetiva focada na reprodução da vida, a filósofa feminista Silvia Federici evidencia que o sistema depende intrinsecamente do trabalho invisibilizado e não pago de cuidados e tarefas domésticas, maioritariamente desempenhado por mulheres. Federici propõe a revalorização e a reorganização comunitária do trabalho de reprodução social, subtraindo os cuidados à lógica da rentabilidade e do extrativismo de dados.

Por sua vez, as correntes antiautoritárias e autonómicas propõem alternativas de base sem mediação estatal. O antropólogo norte-americano David Graeber desferiu duras críticas à burocracia corporativa e à proliferação de empregos desprovidos de sentido útil (bullshit jobs), propondo a ação direta, o cancelamento de dívidas abusivas e formas de organização horizontal. Essa mesma busca por autonomia encontra expressão prática no Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), em Chiapas, no México. Rejeitando a tomada do poder estatal e o autoritarismo ideológico do século passado, o movimento zapatista constrói no quotidiano um modelo de autogoverno comunitário assente no princípio de "mandar obedecendo", onde o rigor da responsabilidade coletiva substitui a dispersão do homem-massa e a submissão aos novos feudos económicos.

O itinerário do pensamento social que vai do diagnóstico inicial de Ortega y Gasset às teorias do tecnofeudalismo revela a constante necessidade de defender a autonomia humana perante as forças de massificação e alienação. Quer perante a barbárie totalitária impulsionada pelo homem-massa no século XX, quer perante a extração invisível promovida pelos feudos digitais no século XXI, a resposta assenta na reconstrução do vínculo comunitário, na democratização da tecnologia e na defesa dos bens comuns.

Referências Bibliográficas
  1. Durand, C. (2020). Technofeudalism: Critique of Digital Economy
  2. Federici, S. (2019). Calibã e a Bruxa: Mulheres, Corpo e Acumulação 
  3. Graeber, D. (2018). Bullshit Jobs: A Theory
  4. Harvey, D. (2004). O Novo Imperialismo. .
  5. Lapavitsas, C. (2013). Profiting Without Producing: How Finance Exploits Us All. 
  6. Moore, J. W. (2015). Capitalism in the Web of Life: Ecology and the Accumulation of Capital. 
  7. Mouffe, C. (2018). Por um Populismo de Esquerda. 
  8. Ortega y Gasset, J. (2019). A Rebelião das Massas. 
  9. Saito, K. (2024). O Capital no Antropoceno.
  10. Srnicek, N., & Williams, A. (2015). Inventing the Future: Postcapitalism and a World Without Work. 
  11. Varoufakis, Y. (2023). Technofeudalism: What Killed Capitalism. London: Bodley Head.
  12. Zuboff, S. (2021). A Era do Capitalismo de Vigilância: A Luta por um Futuro Humano na Nova Fronteira do Poder. 
Saber mais:

Corujas-do-mato: a Maia e o património natural

A Maia está de facto de parabéns. Ontem ao fim da tarde tive oportunidade de fotografar esta jovem coruja-do-mato (𝑆𝑡𝑟𝑖𝑥 𝑎𝑙𝑢𝑐𝑜), banhada pela última luz dourada do dia.   
É um privilégio enorme testemunhar que a vida selvagem continua a prosperar em silêncio nos nossos espaços verdes. 
As corujas-do-mato desempenham um papel fundamental no equilíbrio do ecossistema urbano e, ver um juvenil com esta plumagem penugenta e olhar curioso tão de perto, é a prova viva de que a natureza encontra espaço para nascer e crescer entre nós.   
Um daqueles momentos mágicos que nos lembram a importância de proteger e valorizar os refúgios naturais da nossa cidade.

Meu poema
As the sun went down, I spotted this juvenile, and I remember a few interesting things about it…

Long ago, when the forest was young, the Sun and Moon shared a quiet affection for the ancient woods. 

As twilight spilled liquid gold through the canopy each evening, a small tree spirit was born—clothed in down soft as morning mist and warmed by the embers of the fading day. They called this creature the Child of the Woods (Coruja-do-mato).
“Where light surrenders to the dark,
A gentle heart ignites a spark.
With eyes like night and down like flame,
The forest whispers out its name.”

Legend holds that catching a glimpse of this young guardian grants a rare blessing - a quiet moment of wonder, reminding us that beauty wakes as the light fades.

Corujas e a mitologia
Ao longo dos tempos, as corujas têm despertado fascínio e admiração nos seres humanos. Presentes em mitos e lendas, elas acabam reunindo crenças bastante variadas e contraditórias. Enquanto em algumas culturas, são admiradas e veneradas, em outras são temidas e até mesmo desprezadas. 

Frequentemente associadas à sabedoria, proteção espiritual e morte, as corujas também podem estar conectadas à feitiçaria, medicina, ao clima e até mesmo ao nascimento. O fato de serem animais encontrados em praticamente todas as regiões do planeta, fez com que elas aparecessem em diferentes narrativas mitológicas ao longo dos séculos. 

Animais fascinantes com incríveis habilidades de caça e hábitos noturnos, as corujas aparecem em pinturas rupestres que datam de 20 mil anos atrás. Da cultura egípcia, passando pela grega e pelos povos originários, elas reúnem diferentes significados e histórias. Conheça a seguir um pouco mais da presença das corujas na mitologia.

Mitologia egípcia, grega e romana
Para os egípcios, as corujas eram conectadas ao mundo dos mortos, aparecendo em hieróglifos e representações artísticas. Encaradas como guias espirituais capazes de transitar entre o mundo dos vivos e dos mortos, elas eram recorrentemente associadas a divindades funerárias, como Neite e Néftis. 

Já para os gregos, as corujas eram o símbolo de Atena, deusa da sabedoria, artesanato e estratégia militar. De acordo com a mitologia, Atena teria ficado tão impressionada pelos grandes olhos e aparência solene do pássaro, além de sua sabedoria e seriedade, que o adotou como seu fiel companheiro, substituindo o corvo. Conhecida como Athene Noctua, essa espécie de coruja era encontrada em grande número na cidade de Atenas e na Acrópole, acreditando-se que uma “luz interior” mágica fornecia sua visão noturna. 

Justamente por sua associação com Atena, a coruja se tornou um animal protetor para os gregos, acompanhando os exércitos à guerra como um símbolo de inspiração. Caso sobrevoasse os soldados antes de uma batalha, sua aparição era tida como um bom presságio e sinal de vitória. Além disso, o animal foi estampado nas moedas atenienses, as quais traziam o rosto de Atena de um lado e sua coruja do outro.  

Para os romanos, a coruja também era um símbolo de sabedoria. No entanto, ela também era associada a maus presságios, especialmente a morte. Na Roma antiga, ouvir o pio de uma coruja era um presságio desastroso, indicando uma morte iminente. Segundo as lendas, as mortes de Júlio César, Augusto, Aurélio e Agripa foram todas anunciadas por uma coruja. 

Diferente dos gregos, os romanos acreditavam que o avistamento de uma coruja antes da batalha era um aviso de desastre e derrota. Segundo a mitologia romana, Proserpina (nome romano de Perséfone) foi levada contra sua vontade para o submundo por Plutão, deus dos mortos, podendo retornar para sua mãe, a deusa da agricultura Ceres, desde que não ingerisse nada enquanto estivesse lá. Ascálafo, filho de Aqueronte e da ninfa Orfne, viu Proserpina colhendo uma romã e contou para todos o que havia acontecido, obrigando a jovem a permanecer no local por um número determinado de meses. Ceres ficou tão furiosa que o transformou em uma coruja, de forma que se tornou protegido de Minerva, correspondente romana de Atena. 

As corujas para os povos originários dos Estados Unidos e Canadá
As corujas aparecem em diversas narrativas de povos originários dos Estados Unidos e Canadá, frequentemente associadas a profecias e adivinhações. Os Hopi, por exemplo, acreditam que elas são sagradas e associadas ao deus dos mortos, atuando como protetoras do submundo e das coisas que crescem da terra subterrânea, como sementes. Já para os Apaches, sonhar com uma coruja indicava uma morte próxima, enquanto para os Lenapes sonhar com ela significava que o animal se tornaria seu guardião.

Por outro lado, os Cherokee valorizam as corujas como consultoras de seus xamãs, inclusive podendo trazer doenças como punição. Segundo os Cree, seus pios eram, na verdade, chamados de espíritos. Caso uma pessoa respondesse com um som semelhante e não ouvisse uma resposta era porque ela estava destinada a morrer em breve. Por outro lado, para os Kwakiutl, povos originários do Canadá, as corujas eram as almas das pessoas, não devendo ser prejudicadas, pois quando uma coruja era morta a pessoa a quem pertencia a alma também morria. 

Segundo os Menominee, por exemplo, o dia e a noite foram criados após uma competição entre uma coruja e um coelho. O coelho acabou ganhando e escolheu a luz do dia, permitindo a noite como um benefício para a coruja derrotada. Para os Navajo, o deus Nayenezgani criou a coruja e lhe designou o dom da profecia, de forma que quando os homens ouvissem seu som eles saberiam qual seria o seu futuro. 

Mitologia celta e hindu 
Na mitologia celta, as corujas são frequentemente associadas a Cailleach, uma deusa anciã ligada a criação da paisagem e ao clima, especialmente as tempestades e o inverno, representando os ciclos de vida, morte e renascimento. Por Cailleach ser uma divindade funerária, o chamado da coruja era interpretado como um presságio de morte. 

Em muitas narrativas, devido a sua visão noturna e habilidade de caça, o pássaro aparece como um guia para o submundo, simbolizando a intuição e proteção na escuridão. Além disso, para os galeses, as corujas têm íntima relação com a figura mitológica de Blodeuwedd, a qual foi transformada no animal pelo herói Gwydion após tentar assassinar seu marido. Segundo o Mabinogi, coletânea de manuscritos da mitologia celta, escritos em galês medieval, Blodeuwedd é transformada em coruja como uma punição, relegada a viver a noite longe dos outros animais.  

Enquanto isso, na mitologia hindu, as corujas são associadas a Lakshmi, deusa da fortuna e da prosperidade. O pássaro é um dos “vahanas” ou veículos de Lakshmi, simbolizando proteção contra a ignorância e ganância, assim como sabedoria e perspicácia. Neste caso, a associação da coruja com a divindade faz com que seja vista como um lembrete simbólico para ir além das atividades materiais, cultivando qualidades como paciência, inteligência e sabedoria. Isso acontece devido ao comportamento noturno do pássaro, o qual é interpretado como um esforço para observar e descobrir conhecimento quando cercado pela escuridão.  

Mergulhe na magia da Ornitografia

Quer saber mais sobre essas criaturas fascinantes? Calma que a Caveira tem o livro certo para você! Animais mágicos e cheios de simbolismo, as corujas são apenas um dos pássaros abordados por Jessica Roux em Ornitografia: A Linguagem Secreta das Aves. Um livro ilustrado que combina arte, mitologia e história, este lançamento encantado da Magicae, revela os significados ocultos por trás de cem aves, convidando o leitor a mergulhar na linguagem esquecida desses animais que nos fascinam há tanto tempo. 

Do astuto corvo passando pelo majestoso pavão até a sábia coruja, Ornitografia: A Linguagem Secreta das Aves traz um conteúdo rico que mergulha o leitor em presságios, contos de fadas e narrativas folclóricas, nos convidando a enxergar estas criaturas como representantes dos poderes arcanos da natureza. Mostrando que por trás de cada voo, gorjeio ou plumagem há uma história esperando para ser contada, Ornitografia: A Linguagem Secreta das Aves nos leva a redescobrir a presença desses animais em nosso cotidiano e a observar o céu com outros olhos. 

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terça-feira, 20 de outubro de 2026

Korine - Fate

Melhor som aqui
Os Korine são uma dupla musical de nacionalidade norte-americana, oriunda da cidade de Filadélfia, na Pensilvânia, e formada pelos músicos Morgy Ramone e Trey Frye. Pertencentes à Geração Y (Millennials), os membros do grupo trazem na sua bagagem cultural a experiência de terem crescido na transição do mundo analógico para o digital e uma formação musical enraizada nas cenas locais de punk, emo e indie dos anos 2000. Contudo, o impacto estético e o público-alvo do projeto abraçam fortemente a Geração Z, que redescobriu e recontextualizou o apelo visual retro, a estética analógica em VHS e a cultura dos sintetizadores através do consumo digital contemporâneo.

No plano estilístico, a sonoridade dos Korine assenta principalmente no synthpop, na darkwave, na new wave e no post-punk, caracterizando-se por linhas de baixo marcantes, batidas eletrónicas pulsantes e timbres nostálgicos de sintetizadores vintage. Em temas mais primordiais, como "Elegance & You" (lançado em 2017 no EP Corsage), a banda apresenta uma abordagem mais denso-escura e introspectiva, aliando uma produção caseira e sombria a uma narrativa sobre o isolamento urbano, a ansiedade social e o conforto melancólico de quem recusa a socialização superficial. Acompanhada por um videoclipe de tom noturno e contemplativo, a canção explora visualmente o contraste entre a decadência interior e uma certa "elegância" estética encontrada na própria solidão.

Com a evolução da sua discografia, visível em álbuns como The Night We Raise (2020) e Tear (2023), os Korine começaram a afastar-se da simples emulação retro e adotaram uma vincada sensibilidade pop moderna. Este amadurecimento é perfeitamente exemplificado no tema "Fate", onde a banda combina as suas bases sintéticas habituais com uma produção polida, limpa e luminosa, repleta de ganchos vocais contagiantes e um ritmo abertamente dançável, sem nunca abdicar da carga emotiva e confessional das suas letras. O videoclipe de "Fate" traduz esta transição ao utilizar uma paleta de cores saturadas, estética psicadélica e imagens de cemitérios, estátuas e metamorfoses da natureza para abordar a transitoriedade da vida e a beleza do renascimento.

Sob o ponto de vista das influências literárias e filosóficas, a escrita e o universo concetual dos Korine distanciam-se de tratados académicos frios para se ancorarem no romantismo obscuro do século XIX (evocando figuras como Edgar Allan Poe e Lord Byron) e na tradição do post-punk e emo dos anos 80 e 90 (como The Cure e Joy Division). A canção "Fate" explora a inevitabilidade emocional e o amor fatal, conceitos que encontram um paralelo direto no universo literário de Hermann Hesse - como em obras como Demian ou O Lobo da Estupefacção. A obra da banda reflete o dualismo entre a luz e as sombras, o alienamento do indivíduo perante o mundo moderno e a aceitação do próprio destino (Amor Fati), transformando o tédio existencial, a dor e a vulnerabilidade numa experiência artística e catártica.

Página oficial
Korine

Os 10% mais ricos de Portugal enriqueceram 73% em 15 anos

Neste Dia Europeu da Estatística, Banco de Portugal revela base de dados sobre distribuição da riqueza. Reforço patrimonial dos mais ricos acontece porque detêm cada vez mais imóveis.

Os 10% de famílias mais ricas em Portugal controlam quase 60% da riqueza líquida total do país (o valor do património depois de deduzidas as dívidas), tendo conseguido reforçar esta posição em termos relativos e absolutos, mostram as novas estatísticas sobre a evolução, composição e distribuição da riqueza das famílias portuguesas divulgadas pelo Banco de Portugal (BdP), esta terça-feira, 20 de outubro, Dia Europeu da Estatística.

Entre o final de 2010 e o primeiro trimestre deste ano, os 10% mais ricos reforçaram a respetiva riqueza líquida (valor do património depois de deduzidas as dívidas, segundo o BdP) em 73%, de 413 milhões de euros para 714 milhões de euros.

Em proporção da riqueza total das famílias (1,2 mil milhões de euros no início de 2026), os mais ricos conseguiram subir o respetivo peso, controlando agora 59% do património familiar declarado em Portugal.

Neste período de 15 anos, o maior impulso ao enriquecimento dos mais ricos vem do valor crescente em imóveis.

Segundo o BdP, atualmente, cerca de 40% do valor total em imobiliário na posse das famílias em Portugal pertence às 10% mais ricas.

Os menos abonados (50% das famílias) controlam apenas 15% do referido valor total em património imobiliário.

Este fosso de desigualdades tem vindo a ficar cada vez mais cavado desde a pandemia.

Há quinze anos, aquele grupo dos mais ricos controlava 34% do valor em imóveis (compara com 40% agora); os 50% mais pobres detinham quase 20% do património imobiliário (compara com 15% atualmente).

As grandes componentes do património são, em termos médios e gerais: imóveis (média de 52% do total da riqueza), depósitos bancários (cerca de 19%) e participações em capital (como fundos de investimento), cujo valor agregado rondará 16%, segundo o novo estudo do banco central.

Esta expansão da riqueza entre os mais ricos contrasta com a progressão mais lenta no grupo de famílias que cai "abaixo da mediana", ou seja, os 50% menos ricos, onde está o grosso da população, que detém uma fração muito reduzida da riqueza total.

Neste caso, nestes 15 anos, segundo cálculos do DN a partir dos dados preliminares do BdP, a riqueza do grupo de famílias menos abonadas aumentou 51% (comparando com a progressão superior a 70% dos mais ricos), perdendo peso no total, ao deslizar de 6,7% no final de 2010 para 5,9% no primeiro trimestre deste ano.

O Banco de Portugal explica que "nos últimos 15 anos, a riqueza líquida das famílias portuguesas, ou seja, o valor do seu património depois de deduzidas as dívidas, aumentou, sobretudo devido aos imóveis e aos ativos financeiros".

"Os imóveis residenciais continuaram a representar a maior parte do património das famílias, seguidos dos depósitos e das participações em capital, que ganharam peso ao longo deste período. Contudo, a composição do património varia consoante o nível de riqueza, sendo as participações em capital mais relevantes entre as famílias com maior património."

Desigualdade persiste
Nos 15 anos em análise (até final de 2026), "a riqueza líquida manteve-se distribuída de forma desigual entre as famílias portuguesas".

Segundo o BdP, "a riqueza mediana, isto é, o valor que divide as famílias em duas metades, uma com mais riqueza e outra com menos, aumentou, mas permaneceu abaixo da observada na área do euro".

Os indicadores relativos à forma como a riqueza total se distribuía entre as famílias "apontam para níveis de desigualdade próximos em Portugal e na área do euro".

Como referido, o Banco confirma que "entre 2010 e 2025, os 10% de famílias com maior riqueza concentravam 59% da riqueza líquida total, enquanto os 50% com menor riqueza líquida detinham 6%".

Estes resultados "evidenciam uma distribuição da riqueza que se manteve desigual e relativamente estável ao longo do período em análise".

A situação só não é pior porque, diz o BdP, o património imobiliário dos menos ricos (as casas compradas com empréstimos bancários ao longo de décadas) valorizou bastante, o suficiente para que hoje essa parcela seja mais importante em Portugal do que no conjunto da zona euro.

"A parcela da riqueza detida pelas famílias com menor riqueza líquida era maior em Portugal. Entre 2010 e 2025, as famílias abaixo da mediana detinham, em média, 6,1% da riqueza total em Portugal, comparado com 4,5% na área do euro. Esta diferença está associada ao peso elevado dos imóveis no património das famílias portuguesas com menor riqueza", indica a equipa de economistas do banco central.

Mais ricos, mais diversificados
Os dados permitem ver também que "as famílias com maior nível de riqueza líquida têm um património mais diversificado".

"A composição do património das famílias varia consoante o seu nível de riqueza. Do lado dos ativos, os imóveis predominam em todos os grupos, mas o seu peso é menor nos grupos com maior riqueza".

Pelas contas do BdP, "em 2025, representavam cerca de 74% dos ativos das famílias com riqueza líquida abaixo da mediana e menos de 40% dos ativos dos 10% de famílias com maior riqueza líquida", sendo que, "neste grupo, as participações em capital representavam 28% do total" dos ativos.

Já os depósitos mantêm "uma importância relevante em todos os grupos, representando entre 17% e 21% dos ativos das famílias em 2025".

"Ainda assim, entre os 10% de famílias com maior riqueza líquida, as participações em capital tinham um peso superior ao dos depósitos, refletindo uma maior diversificação do seu património financeiro. Este grupo concentrava também a maior parte dos outros ativos detidos pelas famílias", indica o Banco.

Do lado dos passivos, sem surpresa, "os empréstimos à habitação constituíam a principal componente da dívida em todos os grupos".

Página Oficial do Dia Europeu da Estatística

A ilusão do todo: a metamorfose do território Português e a abissal macrocefalia litoral


A representação tridimensional da densidade populacional elaborada pela Kontur - uma prestigiada empresa norte-americana de análise e processamento de dados geoespaciais sediada em Reston, Virgínia, reconhecida globalmente pelo seu trabalho na criação de mapas de densidade populacional de alta resolução e análise de risco para gestão de catástrofes - revela com clareza visual uma fratura que define a geografia humana e económica de Portugal. Através do trabalho visual desenvolvido por Alikhan Beisenbayev para a empresa, o mapa evidencia a hiperconcentração demográfica ao longo do litoral ocidental - com foco vertiginoso na Área Metropolitana de Lisboa e no eixo contínuo Porto-Braga - em contraste com um interior desértico, pontuado apenas por picos isolados como Coimbra ou Évora. O fenómeno retratado no mapa não é acidental nem recente; é o resultado de um processo histórico, social e económico de litoralização, bipolarização e macrocefalia territorial consolidado ao longo da segunda metade do século XX e aprofundado no século XXI.

A génese da assimetria territorial portuguesa assenta na transição de uma economia maioritariamente agrária para uma economia industrial e de serviços. A partir de meados do século XX, o setor primário do interior revelou-se incapaz de absorver a força de trabalho local devido à reduzida produtividade e à falta de modernização. Este cenário impulsionou dois movimentos migratórios paralelos: por um lado, a emigração internacional destinada à Europa Central (França, Alemanha, Suíça), que esvaziou concelhos inteiros de Trás-os-Montes, Beira Interior e Alentejo; por outro, o êxodo rural interno, caracterizado pela migração das populações jovens das zonas rurais agrícolas para as áreas onde a industrialização florescia, designadamente a faixa litoral ocidental. Além disso, o modelo de desenvolvimento adotado ao longo das últimas décadas priorizou a infraestruturação das regiões com maior densidade de procura. A construção de eixos de transporte, como autoestradas, redes ferroviárias, infraestruturas portuárias e aeroportuárias, concentrou-se no eixo Litoral. Este investimento gerou um efeito de retroalimentação, onde o investimento em infraestruturas atraiu mais empresas, criando mais emprego e resultando numa maior concentração populacional.

O fosso entre o Litoral e o Interior é evidente em múltiplos setores socioeconómicos e académicos. No âmbito demográfico, de acordo com os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE), mais de 80% da população residente em Portugal habita numa faixa costeira que representa menos de um terço do território nacional. Setores urbanos como as Áreas Metropolitanas de Lisboa e do Porto albergam quase metade da população total do país. Em paralelo, observa-se um envelhecimento populacional acentuado: enquanto em regiões rurais e do interior (como Trás-os-Montes ou o interior do Alentejo) o índice de envelhecimento ultrapassa frequentemente os 200 a 300 idosos por cada 100 jovens, a capacidade de renovação da população nestes territórios é practically nula, tendo concelhos do interior profundo perdido entre 20% e 45% da sua população nas últimas quatro décadas.

Esta espiral de despovoamento do interior inicia-se com a saída de jovens para o ensino superior ou emprego, levando à queda da taxa de natalidade e ao envelhecimento acentuado, o que motiva o encerramento de serviços básicos como escolas, centros de saúde e correios. Este encerramento resulta na perda de atratividade económica e investimento privado, desencadeando novas vagas de emigração ou êxodo rural. Do ponto de vista económico e de serviços, a Área Metropolitana de Lisboa e a Região Norte geram a grande maioria do Produto Interno Bruto (PIB) português, visto que o tecido empresarial de alto valor acrescentado, focado nos serviços avançados e na tecnologia, se instala predominantemente nos grandes centros urbanos. Por sua vez, o fecho progressivo de serviços públicos e privados de proximidade acelerou a desertificação humana, transformando a ausência de infraestruturas num fator de repulsão.

As consequências deste desequilíbrio para a coesão territorial e para o ambiente são profundas. Em primeiro lugar, verifica-se uma acrescida vulnerabilidade aos riscos naturais, pois a perda de população e o abandono das atividades agrícolas e pastoris tradicionais resultaram no desordenamento florestal, aumentando a escala e a gravidade dos grandes incêndios rurais. Em segundo lugar, gera-se uma enorme pressão urbanística e imobiliária no litoral, onde a hiperconcentração populacional nas grandes áreas metropolitanas inflaciona o mercado imobiliário, cria estrangulamentos na mobilidade e sobrecarrega os serviços públicos e de habitação. Por fim, consolida-se uma assimetria de oportunidades, em que o local de nascimento ou residência condiciona diretamente o acesso à saúde especializada, ao ensino de topo e ao mercado de trabalho qualificado.

Estudo de caso: Lisboa
A evolução demográfica de Lisboa reflete uma profunda transformação urbana, marcada por décadas de perda populacional seguidas por uma recuperação assinalável impulsionada pelas migrações. Entre o censo de 1981 e o de 2021, o concelho registou um decréscimo drástico de cerca de 250 mil habitantes, motivado essencialmente pelo fenómeno de suburbanização que levou milhares de famílias a fixarem-se nos concelhos da Área Metropolitana de Lisboa em busca de habitação mais acessível. No entanto, quando alargamos a análise até 2025, a perda líquida fixa-se na fasquia dos 150 mil habitantes, revelando uma forte inversão da tendência nos últimos quatro anos. Entre 2021 e 2025, a capital portuguesa ganhou mais de 52 mil residentes, atingindo uma população estimada de 658.236 pessoas. Esta dinâmica de crescimento recente deveu-se exclusivamente a um saldo migratório altamente positivo de +57.129 pessoas, o qual foi robusto o suficiente para anular o saldo natural negativo de -4.340 pessoas registado no mesmo período. [análise completa aqui]

Referências Bibliográficas
  • Ferrão, J. (2014). O Ordenamento do Território como Política Pública. Fundação Calouste Gulbenkian.
  • Instituto Nacional de Estatística (INE). (2021). Censos 2021: Resultados Definitivos sobre a População e Habitação. Lisboa: INE.
  • Instituto Nacional de Estatística (INE). (2023). Estatísticas Demográficas e Retrato Territorial de Portugal. Lisboa: INE.
  • Kontur Inc. (2023). Portugal's Population Distribution (Visualização por Alikhan Beisenbayev). Reston, Virginia, EUA. 
  • Medeiros, E. (2017). Coesão Territorial e Desenvolvimento Regional em Portugal. Centro de Estudos Geográficos, Universidade de Lisboa.
  • Rodrigues, M. L., & Silva, A. U. (2019). Despovoamento e Envelhecimento no Interior de Portugal: Dinâmicas e Políticas de Coesão. Revista Portuguesa de Estudos Regionais.
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Onde te mandam viver quando dizes que não consegues pagar 1.200€ de renda nos arredores de Lisboa

Anúncio de Imóvel para reabilitação, em Amareleja, Moura. Baixo Alentejo.

Uma ruína assim pode ir para 300 mil no Algarve. mais de 40% das casas no Algarve são segunda habitação, toda a região é um «resort». O «modelo» está em expansão para o Alentejo, Grande Lisboa e Grande Porto. Portugal é dos poucos países da Europa Ocidental que não taxa a segunda habitação, logo a procura é enorme, o que inflaciona de modo brutal os preços. No Reino-Unido , uma moradia de segunda habitação, fora do mercado de arrendamento, paga facilmente 5 a 6 mil libras de imposto anual, ou mais. O FMI e outras entidades têm alertado que Portugal taxa mal a propriedade e em excesso os trabalhadores.
felizmente nem todo o interior está assim. No distrito da Guarda conseguem-se casas prontas a habitar a menos de 60 000€, mas a questão é, quem é que quer viver no interior, longe de tudo? Com falta de oportunidades e serviços? Sujeitar-se aos extremos das temperaturas de cada estação... não é para todos infelizmente.
Possivelmente já foi casa de gente! Talvez em herança indivisa, à espera que um estrangeiro «rico» compre por uma pequena fortuna. Por alguns casos práticos reconheço que nem sempre é fácil: propriedades de alguns hectares que, ao serem partidas/divididas, geram "partes " sem qualquer interesse
De facto o braço-de-ferro fiscal entre a Autoridade Tributária (AT) e os tribunais superiores sobre as mais-valias em heranças indivisas introduz uma enorme instabilidade no mercado e penaliza severamente os contribuintes. De um lado, o Supremo Tribunal Administrativo (STA) estabeleceu que a alienação de um quinhão hereditário ou a venda de imóveis no âmbito de uma herança indivisa não deve ser sujeita a IRS. O entendimento assenta no princípio de que o que está a ser transmitido é um direito abstrato à herança e não a propriedade plena de um bem concreto. Do outro lado, o Fisco recusa-se a aplicar de forma automática esta jurisprudência geral. A AT argumenta que, se a escritura configurar a venda direta de um imóvel específico e não apenas a cessão de uma quota-parte ideal, há lugar ao pagamento de imposto. Esta divergência força os contribuintes a recorrer à justiça e a suportar custos de litigância para fazer valer os seus direitos, servindo também como um forte entrave à habitação ao travar a venda de imóveis parados em heranças. Perante este cenário, a Ordem dos Contabilistas Certificados (OCC) tem manifestado o seu forte desacordo com a AT e aconselha os cidadãos a contestarem legalmente todas as liquidações deste tipo.

Como o tordo-músico ajuda no controlo de caracóis sem pesticidas

Maravilha! Consegui fotografar mais um tordo-músico e desta vez em plena ação!

Acordo habitualmente muito cedo, como as aves . Ouvi o seu canto e avistei-o. Esperei um pouco a observá-lo, mesmo aqui, no Ecocaminho da Maia, e fiz o click no momento exato em que ele fazia o seu repasto matinal!

Sendo uma ave omnívora, esta espécie é uma verdadeira mestra no controlo de caracóis, usando pedras como autênticas bigornas para partir as conchas com uma eficácia incrível.

É verdade que os caracóis costumam ser os grandes tramados das nossas hortas e das couves, mas nada contra eles, atenção! Tudo faz parte de um equilíbrio ecossistémico fascinante, livre de pesticidas. A verdade é que os caracóis também desempenham um papel essencial na natureza. Ao alimentarem-se de matéria em decomposição, enriquecem o solo e ajudam a dispersar sementes. Além disso, a sua concha é uma fonte vital de cálcio para as próprias aves produzirem as cascas dos seus ovos, sem esquecer que servem de alimento a ouriços, anfíbios e até larvas de pirilampo.

Quando os predadores naturais têm espaço para agir, aquilo que parecia uma praga transforma-se simplesmente na vida a fluir em harmonia. Dá mesmo que pensar... Mais uma vez, fica provada a enorme importância de termos e preservarmos mais espaços verdes para todos, como hortas urbanas, parques urbanos e corredores ecológicos! 

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Zanias - Through This Collapse


Zanias é o projeto a solo da artista, produtora e DJ australiana Alison Lewis. Nascida em Melbourne e com uma infância passada entre a Indonésia, a Malásia e a Austrália, estabeleceu-se mais tarde no coração da cena eletrónica e underground de Berlim, após ter deixado a sua marca em Londres à frente de projetos como os Linea Aspera.

A sua sonoridade transita harmoniosamente entre o Darkwave, o Ethereal Wave, a Minimal Wave e a música eletrónica industrial ou EBM. A comparação com os Dead Can Dance é extremamente precisa e recorrente. Tal como Lisa Gerrard, Zanias aborda a voz como um instrumento sacro e vocalização de foro ritualístico sobre fundos eletrónicos densos e pulsantes. Faz um uso abundante e expressivo de melismas - a técnica de cantar várias notas musicais encadeadas sobre uma única sílaba -, o que confere às suas canções uma tonalidade ancestral, xamânica e quase mística, criando um contraste fascinante com a austeridade dos sintetizadores.

Na faixa Through This Collapse, a artista explora a transformação interior através da adversidade, da dor e do desapego. O colapso aqui evocado não representa um fim trágico ou uma destruição passiva, mas antes uma rutura necessária: a dissolução do ego, das ilusões e de velhas estruturas da vida para dar lugar ao renascimento. É uma viagem de catarse onde a dor é atravessada consciente e corajosamente para alcançar a libertação e uma nova forma de perceção.

A escolha da dupla artística OUROBOROS (constituída por Jeremy Carne e Nikolas Kasinos) para a realização, produção e edição do videoclipe de «Through This Collapse» revela uma cumplicidade concetual perfeita com a faixa. O próprio nome da dupla remete para o símbolo mitológico da serpente que devora a sua própria cauda - uma alegoria clássica dos ciclos de destruição, renovação e renascimento. Esta simbiose visual reflete de forma magistral o tema do colapso e da metamorfose espiritual abordado por Zanias. Através de paisagens austeras, jogos marcantes de luz e sombra e uma corporalidade expressiva, o vídeo desenrola-se como um ritual de passagem: a figura central atravessa ambientes de densidade e isolamento até emergir num estado de aceitação e transcendência, espelhando com precisão a travessia do caos interior rumo à clareza.

Do ponto de vista percetivo, a criação de Zanias é profundamente influenciada pela sua formação académica em Arqueologia e Antropologia, assim como por correntes filosóficas e literárias marcantes. Nota-se uma forte ressonância com o Existencialismo e o Niilismo de perspetiva afirmativa, remetendo para Nietzsche e Camus na ideia do Amor Fati - a aceitação plena da dor e da mudança para a construção do próprio sentido vital a partir do caos. Paralelamente, a obra dialoga com a Psicologia Junguiana na exploração da "Sombra" e no processo de individuação, bem como com o estudo dos ritos de passagem, do transe e do fascínio antropológico pela ligação entre o ser humano, o ritual e o cosmos.

Fernando Almeida - O ICNF devia ser o ponta de lança da proteção da natureza em Portugal, mas não é

«O ICNF é mais um órgão policial-sancionatório do que educativo, e eu acho que as coisas em termos de futuro se resolvem com educação.»

«Do ponto de vista da ecologia científica, não me revejo na forma de proceder do ICNF e isso passa para os regulamentos e, sobretudo, para a interpretação dos regulamentos. Nada de verdadeiramente sólido se pode fazer em prol do ambiente sem as pessoas que vivem nos nossos campos e serras…»

«Acho que a proteção da natureza e seus recursos tem que ser feita para eles e com eles, e nunca contra eles. E por vezes parece que o Instituto tem uma lógica de imposição de padrões urbanos aos habitantes do mundo rural, e muito pouco respeito pela sua cultura, e pelos seus interesses.»

«A reserva da Malcata, por exemplo, foi criada para proteger o lince em Portugal, e julgo que acabou por provocar a extinção do lince. Proibiram-se as queimadas tradicionais, as arroteias, porque supostamente iria assustar o lince, e isso, evidentemente, criou matos altos, matos altos acabaram com as perdizes e os coelhos, e o lince não tinha onde comer e foi embora – passou a ser atropelado na periferia da serra. A história do ambiente em Portugal está cheia deste tipo de situações. Como fundei a Quercus tenho conhecimento destas coisas. (..) O lince da Malcata é um clássico. Se havia lince da Malcata no final dos anos 70 e anos 80, era porque haviam queimadas e porque as práticas tradicionais eram suficientemente adaptadas para que houvesse lince. »

«Em Portugal, primeiro a nobreza e, mais tarde, a burguesia rural endinheirada, foram-se apropriando das terras públicas e das terras comuns, como dunas, serras e tudo o mais que alguém com poder de bons contactos conseguisse escriturar em seu nome. E resulta daí que realmente o nosso país quase não tem terras públicas, o que complica muito a gestão do território, em especial a floresta e a própria proteção da natureza.»

«Depois, muitas vezes, o que se faz para proteger uma região é fazer dela uma reserva, um parque natural, fazem-se uns riscos no mapa e criam-se áreas protegidas onde as atividades humanas são muito limitadas, mas fora delas usam-se todo o tipo de desmandos como agroquímicos e monoculturas, permite-se a erosão de solos sem controlo, e por aí adiante.»

«A relação que o ICNF tem na vertente da conservação da natureza com as comunidades locais é altamente autoritária e nada cooperante. Tem uma lógica quase colonial do urbano sobre o rural, ou do intelectual sobre o menos escolarizado. Não se pode fazer conservação da natureza contra as pessoas, tem de ser sempre com as pessoas. Ou seja, tem de existir uma atitude pedagógica.»

«Um exemplo, e um problema mais grave que passa despercebido, é que nós somos produtores de pasta de papel para a Europa, e isso tem custos elevadíssimos em termos ambientais, em termos de água. Temos mais de um milhão de hectares de eucalipto em Portugal. Em França, a utilização de eucalipto globulus só é autorizada para secar pântanos e é altamente controlada, porque tem impactos.»

«Por cá, não vejo quase ninguém protestar. Protestamos contra 400 hectares de painéis solares, mas não protestamos contra um milhão de hectares de eucalipto. E estraga mais um hectare de eucalipto do que um hectare de painéis solares. Andámos no passado a subsidiar, a dar rios de dinheiro às pessoas para plantar eucaliptos. Isto, para mim, deveria ter sido um escândalo, não foi, e continua a não ser.»

«O movimento ambientalista em Portugal parece estar relativamente adormecido, como se o facto de aquilo ser verde fosse uma coisa aceitável ou menos má do que outras ocupações de solo, como por exemplo os painéis solares. O eucalipto tem um impacto enorme sobre os recursos hídricos, sobre o solo, e sobre os incêndios. Quanto é que nós pagamos anualmente no combate a incêndios? São centenas de milhões, e sobretudo porque temos uma floresta mal gerida. São muitas centenas de milhões de euros que nós pagamos a mais por bombeiros, meios aéreos, por prejuízo, dióxido de carbono para a atmosfera que não contabilizamos.»

«É evidente que o mau ordenamento e a má gestão da floresta estão na base da gravidade dos incêndios que nós temos. Se conseguiram que fossemos o fornecedor de papel à Europa à custa dos nossos campos, conseguem montar cá os centros de dados…»

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