sexta-feira, 5 de junho de 2026

Dia Mundial do Ambiente - Relatório global oferece uma alternativa ao colapso climático, ao extremismo político e às tensões económicas

A humanidade pode elevar os padrões de vida, reduzir a desigualdade e manter o aquecimento global abaixo dos 2 °C, de acordo com uma visão abrangente para a sobrevivência do planeta.

O relatório do World Inequality Lab (WIL) pretende ser a tentativa mais detalhada até à data de navegar pela policrise que está a empurrar o mundo para o colapso climático, o extremismo político e tensões económicas e sociais cada vez maiores.

O documento oferece um conjunto de propostas políticas ousadas, incluindo impostos pesados sobre a riqueza dos multimilionários, reduções acentuadas no horário de trabalho, uma alteração nas dietas e uma transferência de investimento de setores materialmente intensivos, como a indústria e a mineração, para a educação e a saúde.

Se estas e outras medidas forem tomadas, diz o relatório, os rendimentos de 89% da população mundial duplicariam até 2100 e o aquecimento global seria mantido abaixo dos 2 °C em relação à média pré-industrial.

Os autores afirmam que a sua visão fornece uma alternativa positiva às projeções sombrias dos tecnoextrativistas de extrema-direita, nacionalistas e multimilionários que afirmam que o futuro trará inevitavelmente mais combustíveis fósseis, perturbação climática e desigualdade.

«Está a decorrer uma enorme batalha cultural, intelectual e política. E todos nós temos um papel a desempenhar», afirmou Thomas Piketty, codiretor do WIL e professor na Escola de Economia de Paris.

«A ideologia que vemos com [Donald] Trump e com todos os "pequenos Trumps" que temos por toda a Europa e por todo o mundo simplesmente não vai dar resultados. No final de contas, teremos de chegar a este tipo de redistribuição cooperativa de recursos e de poder, porque a alternativa levará simplesmente a resultados desastrosos, tanto no ambiente e no clima, como a nível social.»

O Global Justice Report (Relatório sobre a Justiça Global), publicado na quinta-feira, tenta superar as lacunas das abordagens tradicionais à policrise, incluindo a ênfase excessivamente materialista dos partidos tradicionais de esquerda, a eficácia questionável do decrescimento económico proposto por muitos ecologistas e a falta de estudos de impacto social por parte do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) da ONU.

O relatório visa retificar essas limitações incorporando estudos sobre a desigualdade, a ciência climática e propostas para a criação de uma coligação política capaz de reformar a arquitetura financeira mundial.

Este «plano para a igualdade e a prosperidade dentro dos limites planetários» é o produto de 45 autores, com base em bases de dados compiladas por mais de 200 investigadores de todo o mundo.

Na sua génese está o conceito de suficiência — a ideia de que as pessoas podem desfrutar de uma vida próspera e saudável sem procurarem constantemente consumir ou acumular mais bens materiais que degradam o mundo natural do qual depende toda a vida.

Para alcançar este objetivo, os autores preveem três etapas: reduzir para mais de metade o tempo médio de trabalho, passando de 2100 horas por ano para 1000 horas (o equivalente aproximado a uma semana de trabalho de dois dias e meio); incentivar as pessoas a comerem menos carne vermelha, que é o principal motor da desflorestação e da destruição ecológica; e redirecionar a economia para atividades de baixo consumo, duplicando o investimento na educação para 8400 € por pessoa e na saúde para 14 400 €.

Piketty explicou: «Um euro extra de PIB na educação e na saúde tem uma pegada material e um consumo de energia três a quatro vezes menor do que um euro extra de PIB no setor transformador. É por isso que as mudanças setoriais são imensamente importantes.»

Combater a desigualdade é um objetivo central. Segundo o plano, o rendimento nacional bruto médio per capita em todo o mundo seria de 5000 € por mês até ao final do século — um aumento para quase toda a gente, com os maiores ganhos no Sul Global. A exceção seriam os megarricos, que seriam fortemente tributados por serem os maiores responsáveis pela crise climática. A quota da riqueza global detida pelos multimilionários, que representam apenas 0,001% da população mundial, cairia de 6% para 0,05%, enquanto os 50% mais pobres veriam a sua quota de riqueza aumentar de 2% para 30%.

A outra prioridade é reduzir os riscos climáticos, cortando as emissões para o valor mais próximo possível de zero. O relatório analisa três cenários de descarbonização até meio do século delineados pela Agência Internacional da Energia (AIE) e projeta-os até 2100. Sob o seu plano mais ambicioso, o capital seria redirecionado dos indivíduos mais ricos do mundo e investido em tecnologia eólica, solar e outras energias renováveis para acelerar a descarbonização total e a eletrificação do abastecimento energético até 2050. Reduções adicionais de emissões viriam da redução do horário de trabalho e da mudança nas dietas e na atividade económica.

Prevê-se que isto mantenha o aumento da temperatura global nos 1,8 °C até ao final do século — consideravelmente abaixo das estimativas catastróficas de 4 °C a 4,5 °C em cenários de descarbonização lenta e de procura cada vez maior de bens materiais. É também um resultado melhor do que os 1,9 °C projetados num cenário de decrescimento económico generalizado.

Entre os passos práticos fundamentais necessários para alcançar as metas do relatório estaria a criação de um fundo de justiça global para financiar a transição energética e supervisionar um aumento dos gastos em educação e saúde para 38% do PIB mundial (atualmente fixado nos 13%). Este trabalho seria apoiado por um fundo soberano mundial, que reequilibraria as detenções globais de riqueza pública e privada para proporções semelhantes às vistas pela última vez em 1970.

«Um século XXI habitável e igualitário é materialmente possível», conclui o relatório. «O que impede a sua concretização não é a impossibilidade técnica, mas sim a escolha política e o trabalho árduo, mas crucial, de construir uma coligação que a apoie.»

Cornelia Mohren, coautora e coordenadora ambiental do WIL, admitiu que o relatório era «visionário e talvez utópico», mas afirmou que isso era necessário para mostrar que outros caminhos são possíveis.

«É bom saber que podemos combinar um mundo igualitário com o cumprimento dos orçamentos de carbono», disse. «Esse é um resultado muito útil. Dá-me esperança. Vimos o que é possível e também vemos o quão difícil é com esta realidade política, o que pode ser deprimente.»

Piketty afirmou que a história recente mostra que os objetivos do relatório são plausíveis. Países como a Suécia e a Noruega já foram extremamente divididos do ponto de vista económico, mas fizeram progressos rápidos na redução da desigualdade graças a políticas governamentais e ao redirecionamento do investimento para a educação e a saúde. Além disso, o horário de trabalho na Europa reduziu-se para metade desde o século XIX, o que vai ao encontro do objetivo traçado no relatório.

A chave, acrescentou Piketty, é abordar a desigualdade e a habitabilidade do planeta em conjunto. Sem essa abordagem dupla, afirmou, os governos correm o risco de repetir os erros que causaram os protestos dos gilets jaunes (coletes amarelos) na França, contra um imposto sobre o carbono que teria afetado as classes trabalhadora e média muito mais do que os ricos.

«Se não colocarmos isto no centro da análise e se falarmos de políticas verdes e de ambiente de forma abstrata, isto simplesmente não vai funcionar», sublinhou.

O relatório será apresentado e debatido na Conferência Mundial sobre a Desigualdade, que decorre de 4 a 6 de junho em Paris, contando com oradores como Ha-Joon Chang, Jean Drèze, Jayati Ghosh, Mariana Mazzucato, Branko Milanović, Lea Ypi e Gabriel Zucman.

Jason Hickel, professor na Universidade Autónoma de Barcelona e membro sénior visitante na LSE (London School of Economics), afirmou: «É uma intervenção importante e oportuna. Tudo isto é tecnicamente viável de alcançar — podemos ter vidas boas para todos dentro dos limites planetários — mas exigirá uma luta política organizada para que aconteça.»

Toda a informação, com gráficos ilustrativos aqui

Página Oficial do Dia Mundial do Ambiente 2026

Os principais CEO das empresas de IA pedem uma lei que proteja contra as armas biológicas

A urgência desta carta foi motivada pela revogação recente, por parte da administração Trump, de uma ordem executiva da era Biden que criava uma estrutura de triagem para a síntese de genes. Como o governo atual ainda não publicou uma política de substituição, este grupo de CEOs e cientistas uniu-se para pedir que o Congresso norte-americano crie uma lei federal definitiva.

A principal preocupação é que, embora criar um vírus funcional ainda exija perícia prática de laboratório, os novos modelos de IA conseguem apontar falhas em sistemas de segurança, sugerir mutações perigosas ou ensinar passo a passo como contornar os filtros das empresas que vendem DNA sintético.

Em Apoio ao Rastreio Obrigatório e Registo da Síntese de Ácidos Nucleicos
"Como investigadores em ciências da vida, criadores de IA e biotecnologia, e especialistas com uma vasta gama de visões sobre como abordar a política de IA, apelamos aos legisladores para que tornem obrigatória a triagem de encomendas de ácidos nucleicos sintéticos — e do equipamento necessário para os fabricar.

A capacidade de encomendar DNA sintético online acelerou o desenvolvimento de vacinas, impulsionou a investigação básica e permitiu que pequenas equipas acedessem a capacidades que antes estavam confinadas a grandes instituições. Desde a publicação de protocolos para reconstruir vírus a partir de filamentos de DNA, há mais de duas décadas, isto também tem sido reconhecido como um ponto crucial na cadeia de abastecimento biotecnológico onde um ator mal-intencionado pode causar danos desproporcionais. Reconhecendo esta vulnerabilidade, as empresas de síntese formaram o International Gene Synthesis Consortium em 2009 para desenvolver e implementar salvaguardas voluntárias contra a utilização indevida.

Embora o problema não seja novo, o ritmo de progresso na inteligência artificial é. Os sistemas de IA superam agora virologistas com nível de doutoramento em questões sobre procedimentos laboratoriais altamente técnicos nos seus próprios domínios de especialização. As evidências sobre o que isto significa para as ameaças atuais à biossegurança são genuinamente mistas, mas a tendência é difícil de contestar. Os sistemas de IA estão a melhorar rapidamente e, a par de benefícios incríveis para a ciência e a medicina, existe a possibilidade real de que as barreiras de conhecimento que historicamente impediram atores mal-intencionados de obter armas biológicas venham a erodir significativamente.

O apoio à triagem não depende de uma visão específica sobre a IA; o caso da biossegurança tem sido reconhecido por cientistas e governos há décadas. A triagem é também uma das medidas de biossegurança mais bem compreendidas e menos disruptivas disponíveis. Ela solicita aos fornecedores de DNA sintetizado e aos fabricantes de máquinas de síntese que verifiquem se os pedidos de síntese contêm sequências preocupantes e que validem a legitimidade do cliente antes de enviarem as encomendas. Os fornecedores devem também registar as encomendas de síntese e os dados de sequenciação para apoiar investigações legítimas de biossegurança, de modo a que qualquer ameaça que consiga escapar à triagem inicial possa ser rastreada até à sua origem - inclusive quando sequências individuais não levantariam preocupações de forma isolada. A própria consciência da rastreabilidade dissente o uso indevido.

(...) Dado o ritmo a que a tecnologia subjacente está a mudar, acreditamos que a necessidade é urgente. O Congresso deve agir nesta sessão, e aplaudimos os esforços legislativos atualmente em curso. Para garantir um padrão nacional consistente, em vez de uma manta de retalhos de leis estaduais conflituosas, os estados devem também considerar a implementação de requisitos baseados nas diretrizes federais e da indústria já existentes."

The Jesus and Mary Chain - Blues From a Gun

Melhor som aqui

Letra
I don't care about the state of my hair
I got something out of nothing
That just wasn't there
And your kiss kiss kiss
Is never gonna blow me away

Dreams of escape keep me awake
I'm never gonna get out and make it away
I'm a stone dead tripper
Dying in a fantasy

Like a cracked open sky it helps you to die
Don't split it scrape it
You're screaming automatic pain

Too young kid you're gonna get hit
Looks like your never gonna make it
Off the government list

I don't mind about the state of my mind
But you know it's good for nothing
And I left you behind
It's a sick sick city
But it's never gonna make me insane

If you're talking for real
Then go cut a deal
You're facing up to living out
The way that you feel
And you shake shake shake
'Cause you know you'll never make it away

Well I guess that's why I've always
Got the blues


Outra exibição ao vivo brilhante

Significado da canção
Na canção "Blues From a Gun", lançada em 1989 no álbum Automatic, a sonoridade da banda ganha contornos ainda mais mecânicos e industriais devido ao uso de baterias eletrónicas e sintetizadores. O significado da letra mergulha numa profunda angústia existencial, na paranoia e na autodestruição. O título liga a melancolia do blues ao perigo iminente de uma arma, servindo como uma metáfora para uma crise psicológica volátil. Através de uma interpretação vocal apática que contrasta com o caos das guitarras, a faixa transmite uma sensação de isolamento, alienação urbana e o sentimento de estar sob o escrutínio destrutivo do mundo, funcionando como uma catarse barulhenta para o desespero interior.
Há uma forma indireta de ler uma crítica social na canção, se olharmos para o contexto da época. No final dos anos 80, o Reino Unido vivia o auge do Thatcherismo, um período marcado pelo individualismo extremo, desemprego em massa e desmantelamento das comunidades industriais (especialmente na Escócia, terra natal da banda). O niilismo e a sensação de "não haver futuro" que a canção transmite não nascem no vácuo; são o produto de uma juventude sufocada por esse ambiente cinzento e sem perspetivas.
Ainda assim, a banda nunca teve a intenção de assinar uma panfletagem anticapitalista. Se há uma revolta em "Blues From a Gun", ela é puramente existencial. É o indivíduo encurralado pelos seus próprios demónios e pela hostilidade do mundo exterior, preferindo o barulho e a apatia como refúgio à dor de tentar encaixar na sociedade. É niilismo puro, mas com a marca e a frustração da sua própria era.
Em resumo, é uma faixa que capta a urgência, o desalento e o lado mais sombrio da juventude e da alienação urbana no final dos anos 80.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Encontros Improváveis: John Melhuish Strudwick e Fortunato Chelleri (1690-1757)


La navicella
Che scorge il lido,
La rondinella
Che trova il nido
Non han più l’odio
Di quel destino
Che le turbò.

Ma questo core
Costante e fido
Al dio d’amore,
Tiranno infido,
Al suo dolore
Chiedendo pace,
Non la trovò.

TRANSLATION (by John Thornley):
The little ship
Sighting the shore,
The swallow
Finding its nest,
Both forget their hatred
Of the malign fate
That threatened them.

But my heart
Constant and faithful
To the god of love,
That faithless tyrant,
Pleads for its pain
To give way to peace,
Yet none do I find.


É profundamente entusiasmante testemunhar a nova vaga de talentos que está a surgir no panorama musical contemporâneo. Ao ouvirmos interpretações desta qualidade, torna-se evidente que o futuro da música antiga está em mãos absolutamente excecionais. Esta nova geração de artistas alia uma técnica irrepreensível, que desarma qualquer complexidade das partituras barrocas, a uma sensibilidade e expressividade vibrantes. Longe de uma abordagem puramente académica ou rígida, estes jovens músicos tecnicamente estelares conseguem injetar uma frescura e uma energia contagiantes em obras com séculos de história, elevando a música barroca a níveis verdadeiramente estratosféricos. É um privilégio ver o passado ser redefinido com tanta vitalidade, transcendência e mestria.

Significado da ária
A ária "La navicella" (que se traduz como "A pequena embarcação") funciona como uma clássica ária de metáfora, ou aria di paragone, um dos recursos poéticos e dramáticos mais apreciados na ópera barroca. Através deste dispositivo, o libreto utiliza a imagem de um pequeno barco à deriva num mar revolto, fustigado por ventos violentos e ondas ameaçadoras, para espelhar visual e emocionalmente o estado de espírito da personagem. A tempestade e as águas tumultuosas representam as grandes adversidades da vida, os dilemas morais ou os conflitos amorosos e políticos que a sufocam, enquanto o barquinho frágil simboliza a própria personagem, indefesa e à mercê de forças que a transcendem na sua busca desesperada por um porto seguro. Na partitura de Fortunato Chelleri, esta agonia ganha vida através de ritmos agitados e cordas velozes que imitam o turbulento balanço do mar, exigindo da interpretação vocal um virtuosismo técnico brilhante para traduzir o pânico e a paixão humana, transformando uma simples imagem marítima num momento de pura transcendência dramática.

A Natureza não é um mero recurso - é onde o humano se reconecta

Toutinegra-de-bigodes-ocidental (Curruca iberiae)

Um passarinho pediu a meu irmão para ser uma árvore.
Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.
No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de sol,
de céu e de lua mais do que na escola.

No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo
mais do que os padres lhes ensinavam no internato.
Aprendeu com a natureza o perfume de Deus.
Seu olho no estágio de ser árvore, aprendeu melhor o azul.
E descobriu que uma casa vazia de cigarra, esquecida no tronco das árvores só serve para poesia.

No estágio de ser árvore meu irmão descobriu que as árvores
são vaidosas. Que justamente aquela árvore na qual meu irmão
se transformara, envaidecia-se quando era nomeada para o
entardecer dos pássaros e tinha ciúmes da brancura que os
lírios deixavam nos brejos.
Meu irmão agradecia a Deus aquela permanência em árvore
porque fez amizade com as borboletas.

Manoel de Barros, in "O Livro das Ignorãças" (1993)

O poema de Manoel de Barros, extraído de O Livro das Ignorãças, constitui um hino à sensibilidade, à infância e à capacidade de o ser humano se libertar da lógica puramente racional para se fundir com o mundo natural. Ao longo dos versos, o autor convida-nos a compreender o mundo através daquilo que apelida de "desimportâncias", valorizando o olhar sensível em detrimento da rigidez utilitária do quotidiano.

No centro da narrativa encontramos o "estágio de ser árvore". Esta expressão não evoca uma metamorfose literal, mas sim um profundo exercício de empatia, silêncio e contemplação, onde o irmão do poeta adota o tempo e o ritmo da própria terra. É através desta simbiose que surge uma crítica subtil ao ensino tradicional e dogmático. Ao afirmar que o irmão aprendeu mais sobre o sol, a lua e a santidade no tronco de uma árvore do que na escola ou no internato com os padres, o poeta exalta o saber sensorial e a vivência direta. A comunhão com o meio ambiente revela-se a verdadeira escola da vida, capaz de aproximar o indivíduo daquilo que designa como o "perfume de Deus".

Manoel de Barros foca-se também na utilidade do que parece inútil. A imagem da casa vazia da cigarra, esquecida no tronco e que "só serve para poesia", ilustra perfeitamente a sua filosofia: numa sociedade focada no lucro e na funcionalidade, a arte e a poesia residem precisamente naquilo que foi abandonado e que perdeu a sua função prática. Ao mesmo tempo, o autor humaniza a natureza ao atribuir vaidade e ciúmes à árvore, esbatendo as fronteiras entre o Homem e o meio que o rodeia, celebrando uma amizade pura com as borboletas e os pássaros.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

MGT & Ville Valo - Knowing Me Knowing You


Knowing Me, Knowing You [melhor som]

No more carefree laughter
Silence ever after
Walking through an empty house
Tears in my eyes
Here is where the story ends
This is goodbye

Knowing me, knowing you
There is nothing we can do
Knowing me, knowing you
We just have to face it
This time we're through

Breaking up is never easy
I know, but I have to go
Knowing me, knowing you
It's the best I can do

Memories, good days, bad days
They'll be with me always
In these old familiar rooms
Children would play
Now there's only emptiness
Nothing to say

Knowing me, knowing you
There is nothing we can do
Knowing me, knowing you
We just have to face it
This time we're through

Breaking up is never easy
I know, but I have to go
Knowing me, knowing you
It's the best I can do

Knowing me, knowing you
There is nothing we can do
Knowing me, knowing you
We just have to face it
This time we're through

Breaking up is never easy
I know, but I have to go
Knowing me, knowing you
It's the best I can do

Separação madura e resignação em “Knowing Me, Knowing You”
“Knowing Me, Knowing You”, dos ABBA, chama a atenção por abordar o fim de um relacionamento de forma direta e madura, antecipando temas de separação e divórcio que mais tarde fariam parte da vida dos próprios integrantes do grupo. Mesmo tendo sido composta antes desses acontecimentos, a música já traz imagens marcantes como “walking through an empty house” (“caminhar por uma casa vazia”) e “no more carefree laughter” (“já não há risos despreocupados”), que ilustram o vazio e a solidão após o término, mostrando que a separação afeta tanto o lado emocional como o quotidiano dos envolvidos.

O refrão, com o verso “knowing me, knowing you, there is nothing we can do” (“conhecendo-me a mim, conhecendo-te a ti, não há nada que possamos fazer”), expressa uma aceitação resignada do fim, sem dramatismos exagerados. Esta honestidade confere à canção um tom sóbrio e realista, refletindo a intenção dos compositores de tratar o divórcio como um processo doloroso, mas inevitável. Segundo Björn Ulvaeus, a inspiração surgiu de imagens mentais de um homem a caminhar por uma casa vazia, o que reforça o simbolismo da letra e amplia a sua identificação para além das experiências pessoais do grupo. Assim, a música destaca-se no repertório dos ABBA por tratar a separação com empatia e maturidade.

Esta releitura de 2016 é uma colaboração internacional que une o guitarrista e produtor britânico MGT (Mark Gemini Thwaite, conhecido pelo seu trabalho com bandas como The Mission) ao renomado cantor finlandês Ville Valo (eterno vocalista e líder da banda de metal gótico HIM).

Em termos de estilo musical, a faixa passa por uma transformação radical. Enquanto a obra original dos ABBA é um europop dançante e melódico, a versão de MGT e Ville Valo abraça o rock gótico e o rock alternativo. Eles mantiveram a melodia cativante da composição, mas substituíram a atmosfera setentista por guitarras densas, sintetizadores sombrios e o vocal profundo, dramático e melancólico que é a marca registada de Valo.

Eles mantiveram a melodia marcante, mas trocaram o ritmo dançante dos anos 70 por guitarras pesadas, sintetizadores sombrios e o vocal profundo, melancólico e característico de Ville Valo (estilo que os fãs costumam chamar de Love Metal).

Allen Ginsberg faria hoje 100 anos


"We're beautiful golden sunflowers inside, blessed by our own seed and golden hairy, naked accomplishment-bodies, growing into mad black formal sunflowers in the sunset, spied on by our own eyes, under the shadow of the mad locomotive riverbank sunset Frisco hilly tin can evening sit down vision. " - Allen Ginsberg

Allen Ginsberg (1926–1997) foi a voz mais estridente, célebre e provocadora da Geração Beat — o movimento literário dos anos 50 que funcionou como o rastilho para a contracultura hippie dos anos 60. Poeta, ativista budista e provocador profissional, ele passou a vida a implodir os valores conservadores da América do pós-guerra.

Allen Ginsberg, a força motriz da poesia contracultural. Fonte: Wikipedia
Uma Vida na Vanguarda
Nascido em Nova Jérsia numa família judia, Ginsberg cresceu marcado pela doença mental da mãe (uma comunista convicta) e pela poesia do pai. Na Universidade de Columbia, nos anos 40, conheceu Jack Kerouac e William S. Burroughs. Juntos, formaram o núcleo do que seria a Geração Beat: um grupo focado na espontaneidade, na rejeição do materialismo e na exploração da consciência.

Ginsberg tornou-se o "ministro das relações públicas" do grupo, unindo a literatura ao ativismo político e social até à sua morte em 1997.

Os Factos Mais Polémicos e Contraculturais
O que tornou Ginsberg uma figura magnética (e profundamente odiada pelo establishment) foi a sua recusa absoluta em esconder quem era ou o que pensava.

1. O Julgamento por Obscenidade de "Uivo" (Howl)
Em 1955, Ginsberg leu em público o seu poema mais famoso, "Uivo" (Howl), em São Francisco. O poema abre com o lendário verso: "Eu vi os melhores cérebros da minha geração destruídos pela loucura...".

A polémica: quando o poema foi publicado pelo editor (e também poeta) Lawrence Ferlinghetti, as autoridades apreenderam o livro. O teor explicitamente homossexual e as referências a drogas levaram a um julgamento histórico por obscenidade em 1957.

O desfecho: o juiz declarou que a obra tinha "valor social redentor", transformando o livro num manifesto contracultural e dando a Ginsberg uma plataforma nacional.

2. Homossexualidade Aberta e a NAMBLA
Numa época em que a homossexualidade era considerada crime e doença mental nos EUA, Ginsberg vivia abertamente com o seu parceiro de uma vida, Peter Orlovsky. Ele usava a sua poesia para celebrar o sexo gay e desafiar a hipocrisia puritana.

A maior mancha no seu legado: anos mais tarde, o seu compromisso radical com a liberdade de expressão levou-o a defender e a afiliar-se à NAMBLA (North American Man/Boy Love Association), uma organização que defendia a legalização de relações sexuais entre homens e menores. Embora Ginsberg argumentasse que defendia apenas o direito à livre expressão e ao debate, esta posição continua a ser o ponto mais sombrio e indefensável da sua biografia.

3. O "Evangelista" do LSD e das Drogas Psadélicas
Ginsberg não consumia drogas apenas por recreação; ele via-as como ferramentas de expansão espiritual e política.
Participou nas primeiras experiências científicas com psilocibina em Harvard com Timothy Leary.
Defendeu publicamente o uso do LSD para "libertar a mente humana do controlo do Estado".

Foi deportado de Cuba em 1965 por chamar "atraente" a Che Guevara e criticar a perseguição do regime castrista aos homossexuais. No mesmo ano, foi expulso da Checoslováquia comunista após ser eleito "Rei de Maio" (Královna Máje) pelos estudantes de Praga, por ser considerado uma ameaça corruptora para a juventude.

4. Ativismo Político e o Conceito de Flower Power
Ginsberg esteve na linha da frente dos protestos contra a Guerra do Vietname. Durante os violentos protestos na Convenção Nacional Democrata de 1968, em Chicago, ele passou horas a entoar o mantra budista "Om" para tentar acalmar a tensão entre os manifestantes e a polícia militarizada.

Ele foi o criador do termo Flower Power (Poder das Flores), uma estratégia que desenhou em 1965 sugerindo que os manifestantes anti-guerra distribuíssem flores aos polícias e jornalistas para transformar os protestos políticos em espetáculos de paz e teatro visual.

O Vigilante do FBI: J. Edgar Hoover, o eterno diretor do FBI, considerava Ginsberg uma das maiores ameaças à segurança nacional dos EUA. O FBI manteve um ficheiro detalhado sobre o poeta com centenas de páginas, vigiando de perto os seus passos e as suas ligações à esquerda radical.

Ginsberg conseguiu a proeza rara de começar a carreira no submundo literário, ser perseguido pela polícia e terminar a vida como um membro consagrado da Academia Americana de Artes e Letras, sem nunca ter pedido desculpa por chocar o mundo.

‘Indefensible’: Meta unleashes on Anthony Albanese’s journalism levy


Tech behemoth Meta has lashed the Albanese government’s plans to impose a new tax on its Australian revenue to fund journalism, describing it as an “indefensible” regime that will make media companies dependent on government handouts.

In a blog post published overnight, Meta, which owns Facebook, Instagram, WhatsApp and Quest virtual reality products, unleashed its response to the News Bargaining Incentive, a new law attempting to strongarm three of the world’s biggest tech companies – Meta, Google and TikTok – into striking deals funding media outlets.

‘Foreign extortion’
The plan has triggered an angry response from US business lobby groups, which have warned that it falls foul of Australia’s free-trade obligations with the US. The White House described it as “foreign extortion” but, so far, has not stepped in to impose any retaliatory trade measures.

The major Australian media companies, meanwhile, took the rare step of sharing a joint statement in April, warning that without compensation, “journalism becomes unsustainable”. On Wednesday, News Corp Australia chief Michael Miller rejected the notion that the incentive was a tax.

“The government only built this path because Meta refused to sit down at the negotiating table, and again they are flipping the script rather than adhering to Australia’s proposed laws,” he said.

Nine Entertainment chief executive Matt Stanton said it was disingenuous to suggest that following Australian law was blocking investment.

“This initiative would be completely unnecessary if these companies simply adhered to existing Australian law, came to the bargaining table and reached deals for the fair use of our commercial property,” he said.

On Tuesday evening, Albanese backed the importance of the news incentive during a speech at a Parliament House function celebrating 195 years of The Sydney Morning Herald, according to several people who attended the event.

Meta has been a fierce critic of the policy since the beginning, but its rhetoric has escalated as the law comes closer to being introduced. The government wants to legislate the incentive this winter. Meta wrote in its Australian blog that the incentive is a “discriminatory tax built on a false premise”, and said it could remove news from its platforms entirely – as it did in Canada in response to a similar law – and people would use its platforms more.

Its harshest criticism is reserved for the levy being imposed on “consolidated revenue attributed to Australia” – a broad definition that captures its sales of Quest devices and, potentially, Google’s smartphones and other tech products.

“It is broader than digital services taxes, as it is applied on the widest possible revenue base and with no credible connection to news,” Meta wrote.

“The case for extracting revenue from social media services – where publishers voluntarily share news – is not supported by the evidence. Extending that logic to VR headsets and smart glasses is indefensible.”

Meta said it rewarded legacy business models instead of innovation and insulated news publishers from competition. “This is not a plan to save journalism. It is a tax on innovation dressed up as media policy,” it concluded.

“We are vehemently opposed to this legislation. It is discriminatory, economically incoherent, and will not deliver the sustainable news sector that Australian journalists and audiences deserve.”

Google has continued to honour and re-sign its pre-existing commercial deals with Australian media companies, but there are grave fears it would decimate journalist roles if it followed Meta in pulling out.

The policy is playing an active role in the minds of investors. On Tuesday, Macquarie reduced its valuation for Nine from $1.15 to $1.05 a share, ahead of its current price of 92¢, noting the incentive policy could add “an incremental $20 million in annual revenues on high margin”.

Nine owns the Nine Network, streaming platform Stan, out-of-home firm QMS Media and publications including The Australian Financial Review, The Sydney Morning Herald and The Age.

Free TV, the group representing Nine, Southern Cross Media (which owns Network Seven) and Network Ten, has argued in its own submission to Treasury that the scheme is too narrow and should be expanded to include Microsoft and Apple.

It has also called for “robust powers” to be granted to the Tax Commissioner to demand that each tech platform report its Australian revenue. Google and Facebook do not report the full revenue they derive from Australians due to complex resale agreements or because they act as “agents” for low-tax jurisdictions like Singapore or Ireland. The two companies transferred more than $11 billion abroad in 2025.

“Free TV is concerned that there is insufficient power granted to the Taxation Commissioner to investigate whether a platform may exclude Australian-generated gross revenues from its calculations of this amount,” the group wrote.

Cerca de 290 lobos em Portugal e quase 400 prejuízos comunicados este ano

Quase 400 comunicações de prejuízos atribuídos ao lobo-ibérico já chegaram este ano ao Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas. O número foi avançado ontem, na Assembleia da República, durante uma audição sobre a proteção da espécie e os impactos na pecuária, e aproxima-se das 511 comunicações registadas em todo o ano anterior.
A audição, requerida pelo PAN e pelo Chega, decorreu na Comissão de Agricultura e Pescas e teve como pano de fundo o Programa Alcateia 2025-2035, aprovado pelo Ministério do Ambiente e Energia. Em debate estiveram as medidas de conservação do lobo-ibérico, mas também a resposta aos produtores pecuários afetados por ataques ao gado.
O ICNF associou o aumento das comunicações à atualização dos valores das compensações, admitindo que muitos produtores que anteriormente já não participavam os prejuízos poderão ter voltado a fazê-lo. O instituto defendeu ainda que o Programa Alcateia foi construído com entidades envolvidas no processo e que foram realizadas ações de comunicação para o fazer chegar aos interessados.
Mas os números abriram uma discussão mais larga sobre a eficácia das respostas no terreno. A Rewilding Portugal defendeu a criação de uma linha telefónica dedicada no ICNF para criadores sem meios digitais, a possibilidade de participação presencial nas juntas de freguesia, GNR ou serviços municipais, melhor articulação entre plataformas como IFAP e SENIRA e vistorias no próprio dia da comunicação. A entidade lembrou ainda que os valores das compensações foram atualizados em 2025 pela primeira vez desde 2017, após oito anos sem revisão.
A dimensão da população de lobo-ibérico em Portugal também entrou na discussão. A Palombar indicou que a espécie tem uma população pequena, fragmentada e em regressão, com uma redução de cerca de 20% da área de presença nas últimas duas décadas. O efetivo nacional foi estimado entre 190 e 390 animais, com uma média aproximada de 290 lobos.
A mesma associação defendeu que a coexistência passa por equipas de proximidade nas zonas onde surgem conflitos, apoio técnico às explorações, valorização da pastorícia, cães de proteção de gado e melhor prevenção. Segundo a Palombar, quando bem aplicadas, as medidas preventivas podem reduzir em 95% o número de ataques.
O BIOPOLIS/CIBIO alertou para a necessidade de análises forenses e genéticas que permitam identificar a origem dos ataques ao gado. A investigadora Raquel Godinho sublinhou a presença de cães errantes no território e o risco de hibridação entre cão e lobo, defendendo monitorização sistemática para distinguir ataques de lobos, cães ou híbridos.
O Grupo Lobo apontou o furtivismo como um dos principais problemas para a conservação da espécie e defendeu equipas de intervenção rápida, cães de proteção de gado, dispositivos de prevenção, melhoria do habitat e promoção de presas silvestres, como o corço. A associação admitiu o pagamento de prejuízos em caso de dúvida, mas rejeitou subsídios de risco generalizados, defendendo antes a valorização dos produtores que aplicam medidas de prevenção.
Da audição saiu um conjunto de prioridades: compensações mais rápidas, menos burocracia, equipas no terreno, controlo de cães errantes, combate ao furtivismo, melhor monitorização científica e apoio direto aos produtores em zonas de presença do lobo.
Em regiões como Trás-os-Montes, o Barroso e o Alto Tâmega, onde a pecuária extensiva mantém peso económico e social, a aplicação prática destas medidas será determinante para compatibilizar a conservação do lobo-ibérico com a atividade das explorações agrícolas.

CEO da OpenAI não tem resposta para a grande crítica que é feita a IA


O cofundador e CEO da OpenAI, Sam Altman, admitiu em entrevista à CNBC na última segunda-feira, dia 1 de junho, que o retorno do investimento feito pelas empresas em Inteligência Artificial continua a ser o maior problema em relação à tecnologia.

Numa altura em que muitas empresas estão a investir milhares de milhões de dólares no desenvolvimento de Inteligência Artificial - seja na construção de infraestrutura, chips ou talento especializado - a grande dúvida está se alguma vez será possível recuperar esse dinheiro.

O estado norte-americano da Florida processou hoje judicialmente a OpenAI e o seu presidente executivo, Sam Altman, por alegadamente ocultarem riscos graves na comercialização do ChatGPT, como dar instruções a crianças com tendências suicidas ou ajudar a planear crimes.

“Penso que, neste momento, é a crítica mais justa em relação à Inteligência Artificial”, afirmou Altman de acordo com o site Business Insider. “Ouves empresas a dizer que gastam imenso dinheiro em Inteligência Artificial. E sei que estão a acontecer grandes coisas, mas sei que há um grande desperdício”.

Altman explicou que frequentemente lhe perguntam quando é que podem esperar ver algum retorno do dinheiro investido e, ainda que não tenha uma resposta, afirmou que acredita que “a indústria descobrirá isso muito rapidamente”.

É importante lembrar que a própria OpenAI parece estar a lidar com este problema. Em abril, o The Wall Street Journal revelou que a empresa responsável pelo ChatGPT não foi ao encontro das metas de receita e de crescimento de utilizadores, algo que também estará (alegadamente) a colocar em causa a perspetiva da empresa completar uma entrada na bolsa ainda este ano.


A OpenAI estará a ter conversas com a Goldman Sachs e a Morgan Stanley de forma a fazer uma oferta pública inicial no mês de setembro. Por outro lado, há quem não concorde que esta seja a melhor abordagem.Miguel Patinha Dias | 11:12 - 21/05/2026

No mesmo mês de abril, o The Wall Street Journal partilhou um perfil sobre a CFO da OpenAI, Sarah Friar, onde não foi colocada de parte a possibilidade de a entrada na bolsa da empresa ser adiada para o próximo ano.

“[A CFO Sarah Friar] avaliou cuidadosamente os compromissos de gastos da OpenAI e sugeriu em privado aguardar até 2027 para uma oferta pública inicial, avisando que a empresa ainda não está pronta para cumprir os rigorosos padrões de relatórios exigidos a empresas públicas”, pode ler-se na publicação norte-americana.

Nota o site Gizmodo que, com base em documentos internos revelados no final do ano passado, a OpenAI planeia gastar 1,4 biliões de dólares ao longo dos próximos oito anos apenas em data centers, sendo que poderá perder 74 mil milhões de dólares só em 2028.

Alegadamente, Friar quer abrandar estes gastos da OpenAI de forma a equilibrar as contas da empresa de Inteligência Artificial, com o objetivo da diretora financeira a não encontrarem correspondência no que é pretendido pelo cofundador e CEO Sam Altman.

terça-feira, 2 de junho de 2026

Secos & Molhados - Sangue Latino


Jurei mentiras e sigo sozinho
Assumo os pecados
Os ventos do norte não movem moinhos
E o que me resta é só um gemido

Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos
Meu sangue latino
Minh'alma cativa

Rompi tratados, traí os ritos
Quebrei a lança, lancei no espaço
Um grito, um desabafo
E o que me importa é não estar vencido

Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos
Meu sangue latino
Minh'alma cativa

A música "Sangue latino", dos Secos & Molhados, destaca a resistência e a afirmação da identidade latino-americana diante de influências externas e opressão. O verso “Os ventos do norte não movem moínhos” sugere que soluções vindas de fora não resolvem os problemas internos do povo latino, reforçando a necessidade de buscar força e respostas dentro da própria cultura. Ao repetir “meu sangue latino, minh'alma cativa”, a canção expressa o orgulho de pertencer a esse povo, mas também reconhece a condição de opressão e luta constante.

Lançada durante a ditadura militar no Brasil, a música ganha ainda mais força como símbolo de resistência. Versos como “rompi tratados, traí os ritos” e “o que me importa é não estar vencido” mostram a coragem de desafiar tradições e enfrentar a repressão, mesmo que isso traga sofrimento ou isolamento. A letra mistura sentimentos pessoais e coletivos, abordando culpa, luta e pertença. O “grito, um desabafo” representa a necessidade de se expressar diante da opressão. Assim, "Sangue latino" consolida-se como um hino de resistência cultural e celebração da identidade dos povos latino-americanos, refletindo a sua trajetória de superação.

Sangue Latino - Ney Matogrosso (Por Trás da Canção)
Secos & Molhados - Compilação dos anos 1973 e 1974

Nem todos os narizes são iguais

Além do horizonte olfativo: uma Análise científica sobre a perceção química nos Mamíferos

Introdução
A perceção do mundo que nos rodeia é moldada pelos limites dos nossos próprios sentidos. Para o ser humano, a visão tende a ser o sentido primordial, o que frequentemente nos leva a subestimar a complexidade do universo químico que outros animais habitam. O infográfico analisado ilustra as distâncias estimadas a que diferentes mamíferos conseguem detetar o odor humano, variando entre escassos três metros na nossa própria espécie e impressionantes dezenas de quilómetros no reino dos grandes carnívoros e megafauna. Embora a propagação de partículas de odor na atmosfera dependa criticamente de variáveis ambientais dinâmicas — como a humidade, a velocidade e direção do vento, e a topografia do terreno —, a biologia molecular e a ecologia comportamental fornecem bases sólidas que validam a extraordinária assimetria retratada na imagem.

A Supremacia Genética do Elefante
No infográfico, o elefante surge com uma capacidade de deteção estimada em 15 quilómetros. Longe de ser um exagero hiperbólico, esta marca encontra eco direto na genética evolutiva. Em 2014, uma equipa de investigadores liderada por Yoshihito Niimura publicou um estudo pioneiro na revista Genome Research, onde examinou o repertório de genes de recetores olfativos (OR, do inglês Odorant Receptor) em treze espécies de mamíferos.

Os resultados revelaram que o elefante-africano (Loxodonta africana) possui cerca de 2 000 genes funcionais dedicados ao olfato, estabelecendo o recorde absoluto do reino animal conhecido. Esta dotação genética é mais do que o dobro da registada nos cães e cerca de cinco vezes superior à dos humanos. No plano ecológico, a organização Tsavo Trust e o SeaWorld documentam que este apuradíssimo sentido permite aos elefantes detetar massas de água subterrâneas ou frentes de chuva a distâncias que ultrapassam os 19 quilómetros, o que valida cientificamente a estimativa apresentada para a deteção do odor humano.

O Urso e o limiar máximo da quimioperceção terrestre
O limite superior do infográfico pertence ao urso, com uma distância de 30 quilómetros. Na literatura biológica, a anatomia nasal dos ursídeos é descrita como uma obra-prima da engenharia natural. A área de superfície da sua mucosa olfativa e a complexidade dos seus cornetos nasais são proporcionalmente massivas quando comparadas com o volume do seu crânio.

De acordo com dados partilhados pelo North American Bear Center e validados pelo National Park Service (NPS) dos Estados Unidos, o olfato é o sentido mais importante para a sobrevivência de um urso. Em ecossistemas polares, onde a dispersão de odores é facilitada pelas correntes de ar sobre superfícies planas de gelo, os ursos-polares (Ursus maritimus) demonstram a capacidade de rastrear o odor de focas ou carcaças de baleia a distâncias de 30 a 40 quilómetros, conseguindo inclusive localizar presas escondidas sob camadas de neve com um metro de espessura.

Canídeos e o mito do olfato humano "inútil"
O infográfico atribui distâncias de 2 e 3 quilómetros para o cão e para o lobo, respetivamente. Esta proximidade de valores justifica-se pela partilha de uma herança evolutiva direta. Enquanto o nariz humano médio contém cerca de 5 a 6 milhões de células recetoras, o focinho de um cão de caça ou de um lobo selvagem alberga até 300 milhões. Estudos de ecologia comportamental de canídeos confirmam que, em condições meteorológicas favoráveis, uma alcateia de lobos em linha de vento consegue detetar a presença de ungulados (como veados ou alces) a mais de 2,5 quilómetros de distância.

Por oposição, o ser humano surge na base da tabela com apenas 3 metros. Historicamente, a ciência perpetuou o mito de que a nossa espécie era "anósmica" ou fundamentalmente incapaz de processar odores de forma eficaz. No entanto, um artigo de revisão crucial publicado na revista Science pelo neurocientista John McGann veio reescrever esta narrativa. McGann demonstrou que o bolbo olfativo humano possui uma excelente capacidade de diferenciação química, sendo o nosso limiar de deteção comparável ao dos ratos e cães para certos compostos específicos. A limitação humana representada na imagem não advém, portanto, de uma incapacidade absoluta do órgão, mas sim da nossa postura bípede, da redução da área nasal e da ausência de comportamentos de rastreio ativo ao nível do solo. Três metros representam, com precisão, a distância média a que a pluma térmica e volátil do odor corporal humano se dissipa no ar num ambiente estagnado.

Conclusão
O infográfico em análise atua como uma excelente ferramenta de divulgação científica ao traduzir dados complexos de biologia molecular e anatomia comparada em métricas de distância facilmente compreensíveis pelo público leigo. Embora na natureza a eficácia real do olfato nunca seja um valor matemático fixo, os dados apresentados encontram amparo na literatura científica. Compreender que um urso nos pode cheirar a trinta quilómetros ou que um elefante possui um mapa genético olfativo cinco vezes mais complexo que o nosso convida-nos a uma reflexão profunda sobre a nossa própria perceção, relembrando-nos de que a nossa experiência sensorial é apenas uma fração modesta do espectro percetivo da biosfera.

Infográfico adaptado ao sistema métrico norte-americano


Referências Bibliográficas
McGann, J. P. (2017). Poor human olfaction is a 19th-century myth. Science, 356(6338), eaam7263. 

Niimura, Y., Matsui, A., & Touhara, K. (2014). Extreme expansion of the olfactory receptor gene repertoire in African elephants. Genome Research, 24(9), 1485-1496. Disponível em:

North American Bear Center. (s.d.). Bear Sense of Smell. Informação técnica e comportamental sobre ursídeos. 

National Park Service (NPS). (s.d.). Bears and Scent Detection in Wilderness Areas. U.S. Department of the Interior. 

Tsavo Trust. (s.d.). The Senses of the African Elephant: Survival in the Savannah. Relatórios de conservação e ecologia de campo. 


Ouçam o discurso de Noah Eckstein: O fim da escuta - porque já não sabemos debater? Um manifesto anti-polarização


Noah Eckstein inicia o seu discurso de forma descontraída, recorrendo à estrutura de uma piada tradicional: um cristão, um muçulmano e um judeu entram num bar. Contudo, contextualiza que, na sua própria família, essa união resultou no casamento dos seus avós e, gerações mais tarde, no seu próprio nascimento como um judeu orgulhoso que também celebra as heranças cristã e muçulmana da sua família.

O ponto central da mensagem de Eckstein baseia-se na lição que aprendeu com os seus avós (um muçulmano paquistanês que cresceu durante a guerra de 1947 e um refugiado judeu do Holocausto): o oposto da divisão não é o acordo, mas sim a compreensão. Ele destaca que o mundo atual nos empurra constantemente para binários e visões polarizadas (esquerda vs. direita, progressista vs. conservador, nós vs. eles), exigindo sempre que escolhamos um lado.

Os seus avós discordavam em inúmeros temas morais e ideológicos, mas mantinham o hábito de se sentar à mesa a debater e a demonstrar preocupação mútua. Eckstein lamenta que a sociedade atual tenha perdido essa capacidade; os debates tornaram-se mais barulhentos, as pessoas discutem apenas para vencer ou humilhar o adversário, e o indivíduo do outro lado deixou de ser visto como uma pessoa para passar a ser visto como um obstáculo.

O orador salienta que tentar compreender quem pensa de forma diferente não significa desculpar atos monstruosos ou abdicar dos próprios ideais. Pelo contrário, compreender o percurso e as motivações do outro é uma ferramenta crucial, aplicável tanto aos grandes conflitos geopolíticos como às pequenas interações do dia a dia — seja com um familiar no jantar de Ação de Graças ou com um colega de turma na faculdade.

Ao concluir, Eckstein deixa um desafio aos recém-graduados de Harvard: quando encontrarem alguém com quem discordam, devem defender as suas convicções, mas também devem colocar-se no lugar do outro e escutar como se pudessem estar errados. Lembra que os seus avós morreram fiéis às suas próprias crenças e tradições, sem nunca cederem nos seus ideais, mas mantiveram sempre o respeito mútuo. Num mundo profundamente fraturado, a verdadeira mudança e a cura das divisões só serão possíveis através de um esforço genuíno para compreender a humanidade do próximo.

Uma pequena bio aqui

Fez-me relembrar uma citação famosa "O oposto da guerra não é a paz... É a criação!" que consta numa obra de teatro musical, "Rent" (1996) composta por Jonathan Larson.

Em 2005 estreou a adaptação para o cinema de Rent, sob a direção de Chris Columbus.

June is a month that reminds us of fireflies



The Silent Weavers
They are not lanterns lit for human eyes,
nor stagecraft for a summer night’s romance;
they are the pulse where wildness never dies,
the quiet architects of field and plants.

In rotting logs and undisturbed decay,
the armored larvae hunt beneath the screen,
consuming snails and slugs along the way - 
the fierce, invisible balance of the green.

They are the measure of a forest’s breath,
the proof of waters pure, of soils unchained;
where chemicals and false lights deal out death,
their golden signatures are quickly drained.

A frog’s brief meal, a spider’s glowing thread,
they weave their bodies through the tangled net—
a silent currency of life and bread,
a feast of light the wilderness won’t forget.

For in their flashing, fragile, brief design,
the hunger of the ecosystem thrives;
the smallest spark sustains the grand outline,
and feeds the deeper dark that keeps us all alive."
João Soares, 02/06/2026

Microsoft unveils seven homegrown AI models in new bid for ‘long term self-sufficiency’


Microsoft has based much of its AI business on models from OpenAI, before expanding more recently to Anthropic. On Tuesday, the company showed how it plans to rely less on both.

At the Build developer conference, the Microsoft AI Superintelligence Team unveiled a family of seven models built from scratch. It’s part of an ongoing effort by the company to build credible in-house alternatives to models from partners and rivals with competing allegiances.

“This is all about long term self-sufficiency for Microsoft and our partners. It’s about models you can trust,” wrote Mustafa Suleyman, CEO of Microsoft AI, in a post announcing the models.

Microsoft is OpenAI’s largest backer, having invested a cumulative total of $13 billion in the ChatGPT maker over multiple funding rounds. The company last year announced an investment of up to $5 billion in Anthropic, and later integrated its technology into a Copilot Cowork AI assistant.

However, Anthropic is also backed by Microsoft rivals Google and Amazon, and OpenAI is increasingly cozy with Amazon — showing the need for Microsoft to control its own AI destiny.

The flagship of the seven newly announced MAI models is MAI-Thinking-1, a reasoning model that Microsoft says draws even with Anthropic’s Claude Sonnet 4.6 in blind human testing, and matches the more capable Claude Opus 4.6 on a widely used coding benchmark.

Suleyman stressed that MAI-Thinking-1 was trained from the ground up with no distillation from other companies’ models, looking to appeal to enterprises that care about clean data lineage.

It’s available in private preview on Microsoft Foundry, where the company also hosts the latest models from OpenAI and Anthropic, including the recently released Claude Opus 4.8.

Microsoft AI also released MAI-Code-1-Flash, a 5-billion-parameter coding model now rolling out in Visual Studio Code and GitHub Copilot, and MAI-Image-2.5, which Microsoft says ranks second on a leading image-editing leaderboard, ahead of Google’s Nano Banana Pro.

The full set of models spans image, voice, transcription, coding and reasoning.

Saber mais:

Inside Microsoft’s Project Solara: A new platform for devices that run AI agents instead of apps