Bioterra
Blogue de Educação Ambiental, iniciado em 01.04.2004
quinta-feira, 20 de agosto de 2026
A bolha da inteligência artificial vai mesmo rebentar? O alerta do BCE e o dilema das gigantes de tecnologia
Nachtmahr - I believe in Blood
quarta-feira, 19 de agosto de 2026
The Durutti Column & Caoilfhionn Rose - Free From All The Chaos
Dia Mundial da Fotografia - o poder de uma imagem para proteger o planeta
O ecossocialismo do decrescimento na era da Inteligência Artificial: entre o colapso e a esperança emancipatória
- Aumento metabólico: a expansão da IA está a catapultar a procura por eletricidade em várias regiões, adiando o fecho de centrais a carvão e a gás para alimentar data centers.
- Neocolonialismo extrativista: a corrida aos chips e servidores intensifica o extrativismo de lítio, cobalto e terras raras, concentrando a degradação ambiental no Sul Global para servir o consumo digital do Norte
- Aceleração da extração fóssil: as maiores empresas de tecnologia (Big Tech) comercializam algoritmos de IA concebidos especificamente para otimizar e acelerar a exploração de novas jazidas petrolíferas.
- O planeamento democrático Ex-Ante: diferente do mercado capitalista, que atua ex-post (corrigindo danos apenas após a busca desenfreada do lucro), o planeamento ecossocialista atua ex-ante. Isto permite subordinar a produção - e o próprio uso da supercomputação e da IA - à "hierarquia das necessidades humanas reais", desmantelando indústrias destrutivas e expandindo a infraestrutura pública.
- A descomodificação da vida: transformação da habitação, transporte, saúde, nutrição e energia em bens comuns (commons), retirando-os da especulação financeira.
- Sobriedade digital e soberania tecnológica: submeter o desenvolvimento sociotécnico ao controlo coletivo. A capacidade computacional deve ser direcionada para a modelação climática, otimização de redes elétricas renováveis e medicina pública, e não para a criação de bolhas financeiras, vigilância ou publicidade direcionada.
- Redução da jornada de trabalho: diminuir a semana de trabalho para redistribuir o emprego e libertar tempo humano, substituindo o consumo hiperativo pela riqueza das relações sociais e da cultura.
- Une os trabalhadores do setor tecnológico e da economia em geral - esgotados pelo ritmo de trabalho e ameaçados pela automação - à exigência de semanas de trabalho mais curtas e soberania sobre o seu tempo.
- Une as comunidades do Sul Global resistentes ao extrativismo à exigência de reparações históricas e climáticas.
- Une os movimentos urbanos que lutam pelo direito à habitação e aos serviços públicos contra a especulação do capital corporativo.
- Altvater, E. (2010). O Capitalismo Fóssil e a sua Alternativa Ecossocialista. Em A Crise Socioambiental: Perspectivas Ecossocialistas. Expressão Popular.
- Crawford, K. (2023). Atlas da Inteligência Artificial: Poder, Política e os Custos Planetários da IA. Editora Unesp.
- Foster, J. B. (2025, 30 de janeiro). Ecossocialismo e decrescimento. A Terra é Redonda.
- Hickel, J. (2021). Menos é Mais: Como o Decrescimento Salvará o Mundo. Editorial Presença / Editora Autêntica.
- Jackson, T. (2013). Prosperidade Sem Crescimento: Economia para um Planeta Finito. Editora Planeta do Brasil / Edições 70.
- Kallis, G. (2020). Decrescimento. Editora Autonomia Literária.
- Löwy, M. (2014). O que é o Ecossocialismo? (2.ª ed.). Editora Cortez / Editora Boitempo.
- Parrique, T. (2022). A Economia do Decrescimento. Tese e síntese executiva.
- Raworth, K. (2019). Economia Donut: Sete formas de pensar como um economista do século XXI. Editora Zahar / Sextante.
- Saito, K. (2023). O Capital no Antropoceno (Brasil) / Desacelerar: Manifesto pelo Decrescimento Ecossocialista (Portugal). Editora Boitempo / Editorial Presença.
terça-feira, 18 de agosto de 2026
Do Holoceno ao Antropoceno: por que razão a nossa civilização ficou desatualizada?
Da "Salvação do Planeta" ao Petróleo na Foz do Amazonas: A Grande Contradição da Esquerda Extrativista
- Greenpeace Brasil: através das declarações da coordenadora da campanha de Oceanos, Mariana Andrade, a organização denunciou que a celebração do achado de crude no poço Morpho representa o"risco a ser vendido como conquista". A Greenpeace alertou que insistir na exploração petrolífera no mar na Foz do Amazonas ignora os pareceres técnicos do órgão ambiental, afasta o país dos compromissos do Acordo de Paris e ameaça diretamente o frágil Grande Sistema de Recifes da Amazónia.
- Observatório do Clima: a coligação das principais ONGA brasileiras classificou os avanços da exploração na Margem Equatorial como uma verdadeira "sabotagem à COP 30" e uma "escolha desastrosa" que destrói a autoridade moral da diplomacia brasileira. A rede relembrou que a insistência do governo em contornar a prudência ambiental viola o princípio da prevenção científica e contradiz as decisões dos tribunais internacionais sobre a urgência de travar a expansão dos combustíveis fósseis.
segunda-feira, 17 de agosto de 2026
Felsmann + Tiley - Open Fields (feat. The Kite String Tangle)
Crise Climática: Por Que Ter Esperança É Racional
Há muitos motivos para desesperar: a nossa terra verdejante e aprazível está seca e acastanhada, as albufeiras estão depletadas e os incêndios florestais estão a fustigar o Reino Unido, a Europa, Canadá e os EUA. Mas há muitos mais motivos para não desesperar: o desespero alimenta-se a si próprio; o desespero desarmar-nos-á; o desespero é aquilo que os sacanas querem que sintas. Mas, acima de tudo, o desespero é irracional. Deixa-me explicar porquê.
Por mais sofisticadas que sejam as nossas ferramentas de previsão, simplesmente não temos forma de saber o que vem a seguir. Tal como o clima, tal como qualquer ecossistema, a sociedade é um sistema complexo. As suas propriedades e respostas adaptativas não podem ser previstas estudando os seus componentes de forma isolada, independentemente do brilhantismo dos cientistas sociais e dos futurólogos. Acontecem coisas — coisas inesperadas —, por vezes a uma velocidade espantosa. Dito de outro modo, a sociedade tem pontos de rutura: pode passar rapidamente de um estado de equilíbrio para outro.
Veja-se a Irlanda, para dar apenas um exemplo. Até há poucas décadas, a República da Irlanda era uma teocracia católica. Tinha sido assim desde os anos 1920. Aliás, durante a maior parte do século XX, a Igreja Católica parecia estreitar cada vez mais o seu controlo. Quebrar esse controlo era algo quase inimaginável. Mas depois uma série de acontecimentos combinou-se de formas inesperadas. Uma sucessão de escândalos terríveis veio à tona: violência sexual sistemática, o rapto de mulheres e crianças, trabalho escravo e mortalidade em massa em instituições da Igreja. As viagens e os meios de comunicação social permitiram ao povo irlandês ver como era a libertação social e sexual noutros países. A comunicação social e os fóruns internacionais permitiram que ativistas corajosos, cujas vozes tinham sido suprimidas durante muito tempo, fossem ouvidos de forma mais ampla. As muralhas caíram mais depressa do que alguém poderia ter adivinhado. Em pouco tempo, tanto o casamento igualitário como o direito ao aborto foram legalmente sancionados: uma mudança que tinha sido quase inimaginável.
O mesmo se pode dizer do colapso do comunismo de Estado e do fim de quase todos os impérios e monarquias que outrora pareciam inabaláveis. O império dos combustíveis fósseis não é exceção.
O sistema complexo a que chamamos sociedade tem dois estados de equilíbrio: o impossível e o inevitável. A mudança que queremos parece sempre impossível. Voto para as mulheres? Perdeu o juízo. Independência para a Índia? A Grã-Bretanha nunca a vai largar. Direitos civis? Ridículo! Mas com pressão sustentada, um pouco de sorte e uma mudança de circunstâncias, pumba!, o impossível acontece. Depois toda a gente diz: “Pois, era inevitável, não era?”
Acho que podemos estar a aproximar-nos de um ponto de rutura no colapso climático. Durante anos disseram-nos: “Estão a pedir a Lua. Os combustíveis fósseis vieram para ficar.” Uma parte de mim acreditou nisso. Mas agora, como a
O problema de um ponto de rutura, seja ele positivo ou negativo, é que nunca se sabe de antemão onde ele possa estar. Só se consegue ver em retrospetiva. Se já causámos tanto aquecimento global ao ponto de o sistema de correntes do Atlântico
Este tipo de mudança rápida exige um público informado por fontes de comunicação independentes, jornalistas comprometidos com os factos e não com interesses corporativos. O
Por isso, no Guardian e não só, continuamos a pressionar, continuamos a expor, continuamos a demonstrar como a mudança pode acontecer. E, por razões inteiramente racionais, continuamos a ter esperança. Por favor, considera apoiar o nosso jornalismo hoje mesmo.
A maior questão com que nos confrontamos, possivelmente a maior questão que a humanidade já enfrentou, é saber se conseguimos atingir os pontos de rutura sociais antes de atingirmos os pontos de rutura ambientais.
Mais um estudo científico a alertar porque é que as crianças olham tanto para alimentos pouco saudáveis nas idas ao supermercado
A recente investigação australiana que revelou que as crianças passam cerca de 17% do tempo de compras fixadas em locais estratégicos e que 99% dessa atenção vai para produtos pouco saudáveis insere-se num corpo científico sólido e em constante crescimento. A forma como o design das lojas e as embalagens capturam a atenção infantil tem sido amplamente documentada por investigadores em todo o mundo. A ciência comportamental e a nutrição comunitária há muito que analisam o fenómeno do "pester power" (o poder de persuasão e insistência das crianças sobre os pais durante as compras), e as técnicas de monitorização visual moderna, como a tecnologia de rastreamento ocular (eye-tracking), apenas vieram confirmar numericamente o que a observação direta e a psicologia do consumo já haviam mapeado.
A atenção das crianças aos ultraprocessados não é acidental, pois responde a estímulos biológicos e visuais diretos. A este respeito, a fixação visual automática em alimentos calóricos demonstra como o cérebro está programado para o consumo; um estudo publicado no
A par desta vulnerabilidade biológica, o impacto das mascotes e personagens nas embalagens surge como uma das ferramentas mais poderosas no retalho. A investigação divulgada pelo
Por fim, a importância da posição nas prateleiras completa este ciclo de atração no retalho. A localização estratégica nas pontas de corredor e junto às caixas registadoras explora a vulnerabilidade do momento final da compra, e os relatórios analíticos sobre o ambiente de consumo publicados pela
Para ler mais sobre o impacto do ambiente alimentar e das estratégias de marketing na saúde infantil, pode consultar investigações focadas em estudos com eye-tracking, tais como a
domingo, 16 de agosto de 2026
Then Comes Silence - Judgement Day
A carne vegetal entre a urgência planetária e a realidade do prato
Do ponto de vista da urgência global, o diagnóstico da ciência é inequívoco. Como lembra a
Contudo, este crescimento no setor plant-based não se traduz de forma direta na adesão aos análogos da carne. Quando a teoria científica chega ao prato do dia a dia, esbarra na psicologia e no orçamento do consumidor habitual de carne. Um estudo da
Concluindo, o fosso entre o relatório EAT-Lancet e as conclusões do estudo de Adelaide demonstra que a transição alimentar não se concretizará apenas com discursos morais ou campanhas publicitárias emocionais. Enquanto as alternativas vegetais à carne não garantirem uma verdadeira paridade de preço, transparência nos ingredientes e uma experiência gastronómica equivalente à carne convencional, a sustentabilidade continuará a despertar o interesse dos consumidores na teoria, mas poucas mudanças no carrinho de compras.







