quinta-feira, 30 de abril de 2026

Espanha: Elétricas e PP propagam notícias falsas culpando as renováveis pelo apagão

A Greenpeace denunciou quatro notícias falsas que estão sendo propagadas por empresas elétricas e pelo Partido Popular (PP), com o objetivo de culpar as energias renováveis pelo apagão e justificar a manutenção de centrais nucleares e de gás:

1: “Havia energia renovável em excesso”
Realidade: O apagão foi causado por falhas no controle de tensão atribuíveis a centrais de gás e nucleares (que não forneceram os serviços de segurança pelos quais foram pagas). Países com maior participação renovável (Alemanha, Grécia) não sofreram apagão.

2: “Não podemos prescindir da energia nuclear para evitar novos apagões”
Realidade: A nuclear foi um peso durante a crise. Mais de metade do parque nuclear estava operacional, mas não ajudou a estabilizar o sistema (inclusive há processos contra centrais como Almaraz, Ascó e Vandellós II). Além disso, centrais nucleares são lentas para religar (levam dias), ao contrário de outras tecnologias.

3: “Sem gás não podemos viver”
Realidade: Embora as centrais de gás tenham ajudado na recuperação pós-apagão, 16 centrais de gás também falharam em controlar a tensão para evitar o colapso (e estão sendo sancionadas).

4: “Só com renováveis não podemos funcionar”
Realidade: Um estudo da Greenpeace (Energia para viver melhor) conclui que Espanha e Portugal podem abandonar completamente os combustíveis fósseis e a energia nuclear até 2040, com redução de 39% da procura energética total e abastecimento 100% renovável (eólica, solar, hidráulica, armazenamento e gestão da procura).

A Greenpeace sugere a aplicação de um imposto específico sobre as grandes empresas elétricas (que aumentaram lucros pós-apagão) para financiar o combate à pobreza energética e uma transição energética justa.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

The Stargazer Lilies - Perfect World


Letra
Love would rule
Nothing be cruel
No one would hurt
Or feel like dirt
Every soul 
Honest and true
Each  moment 
Fresh and new

Oooooo
In a perfect world
Rainbows swirled
Blue and green twirled
Oooooo
In a perfect world
Space time curled
And rainbows swirled
Oooooo

 Poverty would be no more
As would disease and making war
All mistakes
Could be undone
Above all else
Life would be 

Esta canção é um hino ao idealismo utópico, pintando o retrato de uma realidade onde as falhas fundamentais da condição humana — o sofrimento, a malícia e a irreversibilidade do tempo - foram erradicadas. No seu âmago, a letra explora a pureza moral e emocional, sugerindo que num mundo perfeito a dor psicológica seria inexistente, pois a honestidade e a autovalorização seriam a norma, eliminando o sentimento de "ser lixo" ou a necessidade do engano.

A composição eleva-se acima das questões sociais ao tocar no campo da metafísica, especialmente quando menciona que o "espaço-tempo se curvaria". Esta ideia de que "todos os erros poderiam ser desfeitos" revela o maior desejo humano: a libertação do arrependimento e a capacidade de apagar as consequências permanentes das nossas falhas. Ao abordar a extinção da pobreza, da doença e da guerra, a letra confronta os três grandes pilares do sofrimento terreno, propondo um sistema de salvação absoluta.

Finalmente, ao terminar com a frase suspensa "a vida seria...", a canção sugere que, uma vez removido o ruído do conflito e da escassez, a verdadeira essência da existência é algo tão profundo e transcendente que ultrapassa a própria linguagem. É um contraste vibrante entre a dureza do nosso mundo e um sonho onde o amor não é apenas um sentimento, mas a própria lei que rege a física do universo.

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A advertência subtil, mas marcante, do rei Carlos III à América


Monarca britânico discursou perante o Congresso norte-americano, numa abordagem direta e contundente, suavizada pelo profundo respeito pelos anfitriões e pelas relações históricas entre os dois países

Numa nova era de revolta, foi preciso um rei para lembrar à América os seus valores republicanos: o Estado de direito, a democracia e o poder do seu exemplo internacional.

O rei Carlos III escolhe as suas palavras com precisão - tal como fazia a sua falecida mãe, a rainha Isabel II. O significado real tem frequentemente de ser inferido.

Mas, para os padrões reais, o seu discurso numa sessão conjunta do Congresso na terça-feira foi surpreendentemente direto.

Carlos não repreendeu nem criticou a administração Trump. Mas o monarca desaprovou implicitamente a atual direção política dos Estados Unidos e defendeu os pilares da democracia ocidental: freios e contrapesos internos, alianças e tolerância inter-religiosa.

Carlos apelou ainda à defesa firme da Ucrânia. E a “natureza”, disse ele, deve ser protegida, num apelo velado para combater as alterações climáticas, que o presidente Donald Trump chamou de “burla”.

E o rei salientou que os amigos podem discordar sem romper laços eternos, uma referência velada à “relação especial”, que tem sido abalada pela recusa do Reino Unido em aderir à guerra contra o Irão.

“As palavras da América têm peso e significado, tal como têm desde a independência”, disse Carlos, no hemiciclo da Câmara dos Representantes. “As ações desta grande nação importam ainda mais”.

A versão do rei sobre os valores dos Estados Unidos provavelmente agradou mais aos democratas “No Kings” do que ao vice-presidente JD Vance, que tem opiniões sobre o declínio civilizacional do Reino Unido e da Europa e que se sentou atrás dele na Câmara dos Representantes.

Mas Carlos amenizou a sua crítica demonstrando profundo respeito pelos anfitriões. Citou Trump, afirmando que o “laço de parentesco” entre os EUA e o Reino Unido é “inestimável e eterno”. E o seu discurso esteve repleto de elogios às conquistas históricas americanas.

E os pontos mais contundentes foram suavizados pela pompa coreografada de uma visita de Estado que retribui uma viagem de Trump no ano passado. Parafraseando o presidente Theodore Roosevelt, o rei falava suavemente enquanto empunhava um grande cetro.

O presidente não mostrou sinais de se sentir ofendido pelas observações de Carlos III. Donald Trump orgulha-se das suas relações pessoais com os líderes mais famosos do mundo. O rei também condenou por duas vezes a alegada tentativa frustrada de assassinato contra o presidente numa gala para a imprensa no sábado.

“The Firm”, como a família real é frequentemente conhecida, já passou por tudo isto antes. O rei Carlos III mencionou, num raro jantar de Estado de gala na Casa Branca na terça-feira à noite, que a sua mãe tinha vindo a Washington em 1957 para reparar as divisões entre os EUA e o Reino Unido provocadas pela crise de Suez.

“É difícil imaginar algo assim a acontecer hoje, mas não é difícil ver como a relação continua a ser importante, em assuntos visíveis e invisíveis”, disse o rei.

E Carlos III ofereceu ao presidente um presente único - o sino original da torre de comando do HMS Trump, um submarino da Marinha Real que esteve em serviço no Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial.

“Se alguma vez precisar de nos contactar, basta dar-nos um toque!”, afirmou Carlos.

Esta forma cerimonial de abordar as divisões ideológicas de uma forma não ideológica destacou um paradoxo: os monarcas britânicos estão vinculados por convenção constitucional a serem apolíticos, mas a sua contenção confere-lhes um enorme poder simbólico quando optam, com moderação, pelo contrário.

Testemunho impactante de Richard Zimmler em defesa do SNS

Há duas semanas, passei por um grande susto de saúde. Agora que a situação se acalmou e me sinto bem, quero escrever sobre isso para agradecer a todas as pessoas que me ajudaram. Eis o que aconteceu: 
Tive uma consulta com um novo médico porque tenho um problema com o meu intestino há alguns meses.  Ele receitou-me alguns suplementos. Tomei o primeiro, o Movicol, nessa tarde, e tive uma reação alérgica grave – choque anafilático. Um minuto depois de tomar o medicamento, comecei a sentir comichão na boca, nas costas, na barriga e nos pés. Sabia que a situação poderia piorar, por isso liguei imediatamente para o consultório do médico. A sua esposa (também médica) disse-me para tomar um anti-histamínico. Não tínhamos nenhum em casa, por isso o Alex e eu fomos à farmácia local. Foi uma sorte imensa…Enquanto estávamos lá, a minha pressão arterial baixou drasticamente e fiquei muito fraco e tonto. As farmacêuticas tentaram medir a minha pressão arterial, mas estava demasiado baixa para conseguir uma leitura!  As farmacêuticas foram maravilhosas e ajudaram-me a tomar o anti-histamínico. Sentaram-me numa cadeira, levanvaram-me as pernas e deram-me sal para colocar debaixo da língua.  A tontura fez com que a minha visão ficasse turva e eu estava tão fraco que não conseguia levantar-me. As farmacêuticas ligaram para o 112 e a ambulância chegou cerca de quinze minutos depois. 
Os paramédicos foram extremamente gentis comigo, tal como as farmacêuticas. Nessa altura, a minha pressão arterial tinha voltado a subir para cerca de 9/5. Já me sentia menos fraco. Os paramédicos colocaram-me numa cadeira de rodas e levaram-me para as urgências do Hospital de S. António, onde tenho todos os meus médicos. Foi a minha estreia mundial numa ambulância! O Alexandre veio comigo. Na sala onde acabei por ficar (não sei bem onde era), os médicos administraram-me soro intravenoso, cortisona e um anti-histamínico. A minha pressão arterial subiu lentamente depois disso. Três horas depois, às 20h, a pressão estava em cerca de 11/7 e mandaram-me para casa (depois de comer uma maçã assada e uma sopa diluida!). A médica disse para tomar o anti-histamínico durante três dias e, depois, começar a tomar os outros suplementos recomendados. Mas falei com a minha terapeuta francesa e ela disse para esperar uma semana porque o meu corpo precisava de descansar. 
É óbvio que nunca mais vou tomar Movicol.
Agora estou bem. Felizmente, não estou a sentir quaisquer consequências do choque anafilático. Tenho uma consulta marcada para 6 de maio com um alergologista para identificar qual o ingrediente do Movicol que causou o choque.
Escrevo agora para expressar os meus agradecimentos aos enfermeiros, médicos e as minhas queridas farmacêuticas pelo sua ajuda maravilhosa e eficiente. Estou extremamente grato, tal como o Alexandre. No dia seguinte ao meu incidente, levei 7 exemplares dos meus livros à farmácia (do Mercado da Foz) e dediquei um a cada um das farmacêuticas que me ajudaram.
Um grande obrigado ao Laurentino e ao Rui, os paramédicos. E à Inês e ao Pedro, os médicos do serviço de urgências. E a todos no SNS.  
Um pequeno pedido: por favor, lutem para manter o elevado nível de cuidados do SNS. Como sou dos EUA, sei o que é viver sem um sistema nacional de saúde. Isso significa que as pessoas vivem com um nível constante de stress, preocupadas com o que lhes acontecerá se adoecerem e se perderão todas as suas poupanças caso precisem de hospitalização. Um exemplo: após o grave AVC da minha mãe, ela ficou em estado vegetativo e passou duas semanas num hospital em Nova Iorque. Praticamente não recebeu cuidados. A conta de duas semanas foi de 120 000 euros. Sim, leu bem: 120 000 euros por duas semanas numa cama. Isso é completamente normal nos EUA. Quer isso em Portugal? Espero que não! Felizmente, o seguro privado da minha mãe pagou 119 000 euros da conta, mas os seguros privados são extremamente caros nos EUA.  É uma situação terrível que espero que nunca venhamos a viver em Portugal. E podem ter a certeza de que lutarei para manter a elevada qualidade dos cuidados de saúde no Serviço Nacional de Saúde.

Da censura editorial à algorítmica: o legado de "A Manipulação do Público"


A obra "A Manipulação do Público" estabeleceu que a comunicação de massa não serve apenas para informar, mas para moldar o pensamento de acordo com os interesses das elites. Na era das redes sociais, os cinco filtros de Chomsky e Herman não desapareceram; tornaram-se mais rápidos, granulares e, acima de tudo, personalizados.

1. O Algoritmo como gestor de atenção
No modelo original de "A Manipulação do Público", a curadoria do que era "noticiável" residia nas mãos de editores humanos, cujas decisões eram balizadas por linhas editoriais e interesses corporativos claros. Hoje, esse papel de porteiro da realidade foi delegado ao código. O filtro algorítmico não opera com base em critérios de verdade ou interesse público, mas sim na metrificação da atenção.

Como o modelo de negócio das grandes plataformas depende do tempo de permanência do utilizador, o algoritmo privilegia conteúdos que geram conflito e indignação. Estas emoções, por serem neuroquimicamente mais viciantes, garantem que o utilizador se mantenha ligado à plataforma por mais tempo. O efeito secundário desta lógica é a criação de "bolhas" informativas: o sistema entrega a cada indivíduo uma versão da realidade que confirma os seus preconceitos, eliminando o contraditório e tornando o diálogo impossível.

O resultado é uma fragmentação social sem precedentes. A visão sistémica do poder -  necessária para compreender como as instituições funcionam e como podem ser questionadas - é substituída por narrativas polarizadas e personalizadas. Ao vivermos em realidades paralelas, perdemos a capacidade de alcançar um consenso social alargado sobre factos básicos, o que imobiliza qualquer tentativa de resistência coletiva. A "manipulação" moderna não consiste em dizer ao público o que pensar, mas em garantir que os diferentes segmentos do público nunca consigam pensar juntos.

2. A Publicidade de Precisão (Microtargeting): a engenharia das vulnerabilidades
A dependência da publicidade, que Chomsky e Herman identificaram como um filtro vital para a sobrevivência dos meios de comunicação tradicionais, atingiu um novo e inquietante patamar com o advento do Big Data. No modelo do século XX, a publicidade era uma "bomba de fragmentação": uma mensagem única lançada para uma massa uniforme, na esperança de capturar a atenção de uma percentagem do público. Hoje, a manipulação é cirúrgica e individualizada.

Através da recolha massiva de dados — que inclui desde o histórico de compras até padrões de sono e localização — o sistema já não comunica com um "público", mas com perfis psicológicos granulares. O consentimento é agora fabricado através de campanhas invisíveis de microtargeting. Isto significa que duas pessoas sentadas no mesmo sofá podem receber narrativas políticas ou corporativas opostas sobre o mesmo tema, cada uma desenhada para explorar as suas vulnerabilidades, medos ou desejos específicos.

Esta evolução altera a natureza da propaganda. Se antes a manipulação era visível e passível de ser debatida no espaço público, agora ela ocorre na esfera privada do ecrã individual. O perigo reside no facto de estas perceções serem moldadas de forma subliminar; o alvo raramente percebe que a informação que está a consumir foi otimizada para contornar as suas defesas racionais. Ao transformar o cidadão num conjunto de pontos de dados, o filtro da publicidade moderna consegue fabricar um consentimento que não nasce da argumentação, mas da estimulação psicológica pré-consciente, tornando a resistência intelectual muito mais difícil de exercer.

3. O Novo "Flak": o disciplinamento digital e o silenciamento invisível
No modelo original de "A Manipulação do Público", o Flak manifestava-se como uma resposta barulhenta e institucional: processos judiciais, cartas de protesto ou editoriais de ataque agressivo. Na era digital, este filtro tornou-se descentralizado e muito mais sofisticado. Hoje, o Flak opera em duas frentes complementares: o ataque público coordenado e o silenciamento algorítmico invisível.

A primeira frente é a da retaliação instantânea. O filtro da pressão deixou de ser exclusivo das elites para se tornar uma ferramenta de massa através do "cancelamento", de campanhas de difamação e do uso de exércitos de bots. Jornalistas ou figuras públicas que ousem desafiar as narrativas hegemónicas enfrentam uma avalanche de ataques que funciona como uma ferramenta de disciplina social, gerando um clima de autocensura digital permanente.

Contudo, é no mundo dos algoritmos que o Flak assume a sua forma mais insidiosa através do Shadowbanning. Esta ferramenta permite que o sistema discipline vozes dissidentes sem necessidade de as banir formalmente. O utilizador continua a publicar, mas o seu alcance é artificialmente reduzido ou limitado apenas aos seus seguidores mais próximos. É a forma definitiva de censura na era da abundância: não se apaga a mensagem, mas garante-se que ela se perde na imensidão do ruído.

A grande eficácia desta mutação reside na sua invisibilidade. Enquanto o banimento direto gera revolta e cria "mártires" da liberdade de expressão, o shadowbanning neutraliza a influência do indivíduo de forma silenciosa. Ao não receber o retorno habitual, o produtor de conteúdos é levado a acreditar que o seu discurso perdeu interesse ou relevância, minando a sua vontade de persistir. Assim, o sistema não só pune a dissidência, como a torna irrelevante sem nunca ter de assumir o papel de censor.

4. A barreira do custo e as fontes
A observação de que a média depende de fontes oficiais por serem "baratas" ganhou um contorno irónico na Internet. Atualmente, a informação de qualidade está frequentemente protegida por paywalls (muros de pagamento), enquanto a desinformação e a propaganda estatal ou corporativa são gratuitas e de fácil acesso. Isto cria uma desigualdade informacional profunda: quem não pode pagar pelo jornalismo independente acaba por ser o alvo mais fácil para a manipulação através de conteúdos gratuitos de baixa qualidade.

Filtro de "A Manipulação do Público"Adaptação para a Era Digital
PropriedadeConcentração de poder nas Big Techs (Google, Meta, etc.).
PublicidadeEconomia da atenção e exploração de dados individuais.
FontesInfluenciadores, grupos de fachada e Astroturfing.
FlakLinchamento virtual, censura algorítmica e ataques de bots.
IdeologiaPolarização extrema e o "Nós contra Eles" das guerras culturais.
A grande ironia contemporânea reside no facto de termos a ilusão de uma escolha infinita quando, na verdade, os filtros digitais tornaram o comportamento humano mais previsível e manejável do que nunca. O "consentimento" de hoje não é imposto; é extraído através do nosso próprio envolvimento digital.

Esta evolução do modelo de "A Manipulação do Público" revela que a arquitetura do controlo social sofreu uma mutação: passámos de um sistema de exclusão para um de saturação. No paradigma de 1988, o poder exercia-se pela escassez; como o espaço nas colunas dos jornais e o tempo de antena televisivo eram recursos finitos, os filtros operavam decidindo o que era silenciado. No entanto, na era digital, o controlo é exercido pela abundância. O algoritmo raramente se dá ao trabalho de esconder a informação dissidente; em vez disso, soterra-a sob uma avalanche de entretenimento efémero, notícias irrelevantes e ruído constante. O consentimento já não nasce do silêncio imposto, mas de uma distração perpétua que impede a reflexão profunda.

Paralelamente, a dependência de fontes oficiais, que Chomsky identificou como um filtro vital, deu lugar ao fenómeno do Astroturfing. Esta é a versão digital da manipulação de base: criam-se movimentos que aparentam ser espontâneos e populares (grassroots), mas que são, na realidade, orquestrados e financiados por grandes corporações ou interesses políticos. Através de exércitos de perfis falsos e influenciadores contratados, gera-se a ilusão de um consenso esmagador. O efeito psicológico no indivíduo é devastador: ao sentir-se isolado na sua opinião, o cidadão tende a ceder à pressão da "maioria" artificial, um fenómeno conhecido como a espiral do silêncio, agora potenciado por algoritmos.

A mudança mais radical, contudo, reside na transição de um sistema reativo para um sistema preditivo baseado na psicometria. Se a propaganda tradicional tentava convencer o público após o facto, o modelo atual antecipa-se. Através da análise minuciosa de cada like, do tempo de visualização e até da velocidade com que percorremos o ecrã (scroll), as plataformas constroem perfis psicológicos que nos conhecem melhor do que nós próprios. Este filtro invisível consegue prever quais as narrativas que nos farão mudar de opinião ou que gatilhos emocionais despertarão a nossa indignação. Assim, o consentimento é "fabricado" de forma preventiva, moldando a nossa perceção antes mesmo de termos consciência de que estamos a formar uma ideia sobre o assunto. No fim, a liberdade de escolha torna-se uma miragem dentro de um sistema que já calculou todas as nossas reações possíveis.

terça-feira, 28 de abril de 2026

GENER8ION - STORM starring Yung Lean


[Verse 1]
I got, got, got
I-I-I
You got a death wish
Got a death wish
Someone said:
"Hey, you got a death wish"
It’s on my hit list
I’m on the blacklist
On the Forbes list
Put it on my lip
I take another one

[Pre-Chorus]
And you won’t die for some if you don’t stand for none

[Chorus]
So just go ahead and run
Run, run, run, run, run
Just go ahead and run
Run, run, run, just go a-
If you won’t die for some (If you won’t die for some)
If you don’t stand for none (If you don’t stand for none)

[Verse 2]
Got a death wish
It’s on my hit list
I’m on the blacklist
On the Forbes list

[Chorus]
So just go ahead and run
Run, run, run, run, run
Just go ahead and run
Run, run, run, run, run
If you won’t die for some (If you won’t die for some)
If you don’t stand for none (If you don’t stand for none)

[Outro]
Hey, hey (Hey, hey) 5X
You got a death wish

O significado da canção "STORM" reside na exploração do caos interior, da alienação e da busca por libertação num mundo que parece estar permanentemente à beira de um colapso. O título funciona como uma metáfora dupla, referindo-se tanto à turbulência emocional da juventude como a uma mudança social inevitável e, por vezes, violenta. Através da entrega vocal melancólica de Yung Lean, a letra evoca um sentimento de niilismo e sobrevivência, sugerindo a necessidade de resiliência individual dentro de um sistema opressor, onde o indivíduo se torna tão frio e implacável quanto o ambiente hostil que o rodeia para conseguir navegar a incerteza.

Musicalmente, a produção de GENER8ION utiliza sonoridades industriais e batidas metálicas que simulam uma maquinaria rígida, criando uma tensão constante entre a ordem institucional e o caos emocional. A canção sugere que este caos não deve ser evitado, mas sim abraçado como um catalisador para a transformação. O significado culmina numa ideia de catarse e transmutação, especialmente visível na transição para a segunda parte da composição, onde a música se torna mais melódica e coral. Este momento simboliza que, após a libertação da energia agressiva, pode surgir uma nova forma de união transcendente.

Em última análise, "STORM" aborda o vazio existencial de uma geração que, apesar da hiperconectividade, luta contra o ruído constante da pressão social e da informação. A obra representa, portanto, um momento de rutura: o som do colapso de velhas estruturas e o nascimento de algo novo e desgovernado através da força da juventude. É um comentário sobre a necessidade de encontrar uma voz própria e de transformar a dor em movimento coletivo antes que o sistema consuma a individualidade.

A colaboração entre o projeto francês GENER8ION, liderado pelo produtor Surkin, e o artista sueco Yung Lean, resultou numa obra audiovisual de impacto imediato que utiliza a música para explorar as tensões da juventude contemporânea. O tema "STORM" apresenta-se como um híbrido entre o eletrónico industrial e o Cloud Rap melancólico, mas é na sua representação visual, dirigida por Romain Gavras, que reside a maior carga interpretativa. As filmagens tiveram lugar na Bélgica, no Collège Cardinal Mercier, em Braine-l'Alleud, cuja arquitetura neo-gótica e imponente confere ao vídeo uma atmosfera de autoridade e tradição, evocando o imaginário dos colégios internos britânicos para criar um cenário de isolamento e claustrofobia.

A escolha do Collège Cardinal Mercier, na Bélgica, como cenário para as filmagens foi uma decisão estratégica que fundamenta toda a narrativa visual da obra. A arquitetura neo-gótica e o ambiente académico do colégio transmitem uma sensação imediata de tradição, autoridade e claustrofobia, servindo como o palco perfeito para representar uma instituição que molda, e muitas vezes limita, o comportamento dos jovens. Este cenário oferece um contraste estético poderoso, onde a beleza clássica e organizada do espaço serve de contraponto à energia caótica, brutal e moderna da música de GENER8ION e à performance de Yung Lean. Este choque propositado entre o "velho mundo", representado pelas paredes de tijolo e corredores históricos, e o "novo mundo", marcado pelo rap e pela agressividade juvenil, é uma das marcas registadas da direção de Romain Gavras. Além disso, ao filmar na Bélgica enquanto evoca um estilo visual internacional, o vídeo adquire uma qualidade universal, deixando de ser apenas um retrato de um problema britânico ou francês para se tornar uma observação abrangente sobre a condição da juventude europeia contemporânea.

Relativamente ao debate sobre a masculinidade, o projeto não parece ter como objetivo glorificar comportamentos tóxicos, mas sim expô-los como uma performance social inevitável em ambientes de repressão institucional. Ao retratar rituais de iniciação agressivos no interior deste colégio histórico, o realizador utiliza uma estética cinematográfica de luxo para evidenciar o vazio e a brutalidade dessas interações. A presença de Yung Lean, que encarna o papel de líder, reforça este sentimento; a sua postura não é a de um herói triunfante, mas a de alguém preso a um papel que exige uma dureza constante perante os seus pares.

O ponto de viragem para a denúncia surge através da coreografia de Damien Jalet, onde a violência física bruta se transfigura em expressão artística coletiva nos pátios e corredores do Collège Cardinal Mercier. Esta transição sugere que a energia canalizada para a masculinidade tóxica é, na verdade, uma forma distorcida de necessidade de pertença e movimento. Ao transformar o confronto em dança, "STORM" retira a máscara da agressividade e revela a vulnerabilidade escondida sob os códigos de conduta masculinos. Assim, a obra funciona como um espelho crítico, utilizando a beleza monumental do cenário belga para prender o espetador a uma reflexão desconfortável sobre como as instituições e os grupos moldam a identidade dos jovens.

Ecologia Real: Por que a autonomia da natureza é a nossa própria essência


A imagem da pega-rabuda, empoleirada com altivez sobre o tronco rugoso e coberto de líquenes, funciona como um manifesto visual da ecologia profunda, desafiando a visão antropocêntrica que teima em colocar o ser humano no topo de uma hierarquia imaginária. Nesta perspectiva, a ave não existe para o nosso deleite ou utilidade; ela possui um valor intrínseco e o direito inalienável de florescer por si mesma. O contraste entre a sua plumagem alvinegra e o brilho iridescente das suas asas revela a sofisticação da vida selvagem, que opera sob as leis de uma liberdade universal muito mais antiga e vasta do que as convenções sociais humanas.

Ao integrarmos o conceito de liberdade universal na ecologia, compreendemos que a autonomia deste ser está indissociavelmente ligada à integridade do ecossistema que o acolhe. Não existe liberdade real num mundo fragmentado; a verdadeira emancipação ocorre quando reconhecemos que fazemos parte de uma teia interdependente, onde o destino da ave, da árvore e do homem é rigorosamente o mesmo. É, por isso, nosso dever ético transmitir às gerações seguintes o princípio de do no harm e o respeito absoluto pelos nichos ecológicos, garantindo que o legado da biodiversidade seja preservado. Este texto convida à reflexão de que proteger o espaço de existência desta criatura é um ato de preservação da nossa própria essência, celebrando uma existência onde cada ser vivo é um cidadão soberano da biosfera, livre para cumprir o seu papel evolutivo na complexa rede de interações e equilíbrios que sustenta a biosfera.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Microplásticos detetados em quase todos os cérebros analisados em estudo internacional



Um estudo internacional revelou a presença de microplásticos e nanoplásticos em quase todas as amostras de tecido cerebral analisadas, levantando novas questões sobre como estas partículas entram no organismo humano e quais poderão ser os seus efeitos na saúde.

A investigação analisou amostras de cérebro de 113 pacientes com tumores cerebrais e 35 doações post-mortem de indivíduos sem doença oncológica. Os resultados indicam que foram detetados microplásticos ou nanoplásticos em 99,4% das amostras com doença e em 100% das amostras de cérebros saudáveis.

Os investigadores observaram ainda concentrações mais elevadas de nanoplásticos nas áreas próximas de tumores, o que poderá sugerir uma maior permeabilidade da chamada barreira hematoencefálica em contextos de doença, facilitando a entrada destas partículas no tecido cerebral.

A barreira hematoencefálica é um mecanismo natural de proteção que regula a passagem de substâncias entre o sangue e o cérebro, sendo essencial para manter o sistema nervoso central isolado de toxinas e agentes externos.

Apesar dos resultados, os autores sublinham que ainda há grande incerteza científica sobre a forma como os microplásticos chegam ao cérebro e sobre os seus impactos reais na saúde humana. Os métodos atuais de deteção apresentam resultados inconsistentes, o que limita a interpretação dos dados.

Os investigadores defendem a necessidade de desenvolver tecnologias mais precisas para rastrear microplásticos no organismo e compreender melhor a sua distribuição nos tecidos humanos.

Embora a presença destas partículas seja agora amplamente confirmada, permanece por esclarecer se estão diretamente associadas ao desenvolvimento de doenças ou se a sua acumulação tem efeitos clínicos significativos.

Saber mais:

sábado, 25 de abril de 2026

25 Abril: Rui Tavares acusa André Ventura de citar Adolf Hitler e mito nazi na sessão solene


O porta-voz do Livre Rui Tavares acusou hoje o presidente do Chega de ter citado Adolf Hitler e um mito nazi no discurso da sessão solene do 25 de Abril quando repetiu diversas vezes a expressão “apunhalado pelas costas”.

Em declarações aos jornalistas durante a tradicional descida da Avenida da Liberdade, em Lisboa, para celebrar a Revolução dos Cravos, Rui Tavares afirmou que Ventura, na sessão solene comemorativa do 25 de Abril, no parlamento, repetiu “quatro ou cinco vezes uma frase de Hitler, como se não fosse nada”.

“A famosa frase ‘apunhalada nas costas’, que é uma frase que vem dos nazis, e que se referia à Primeira Guerra Mundial e que ele hoje usou para a Guerra Colonial, como se não fosse nada”, sustentou.

Em causa está a crítica feita por André Ventura na intervenção desta manhã no parlamento, em que criticou aqueles que “exaltam guerrilheiros que estavam a matar militares portugueses por todo o mundo” e afirmou, repetindo a expressão três vezes, que estes portugueses foram “apunhalados pelas costas”.

A “lenda da punhalada nas costas” foi um mito político difundido na Alemanha após a Primeira Guerra Mundial, segundo o qual o exército alemão não teria sido vencido no campo de batalha, mas sim traído internamente por, entre outros, socialistas, bolcheviques e judeus alemães, tendo contribuído para a ascensão de Hitler do Partido Nazi.

Rui Tavares considerou que há uma escalada no discurso político que está a ser ignorada: “Hoje cita Hitler e os nazis, toda a gente faz de conta que não ouviu, e amanhã diz ou faz qualquer coisa ainda mais terrível, e toda a gente faz de conta que não é consigo”.

Também a deputada do PS Eva Cruzeiro criticou a expressão utilizada por André Ventura, considerando, numa publicação feita na rede social ‘X’, que não se trata de uma “frase qualquer”.

“Remete diretamente para a Dolchstoßlegende [Lenda da Punhalada pelas Costas], um dos pilares da propaganda que abriu caminho ao nazismo. Foi usada sistematicamente para alimentar ressentimento, fabricar inimigos internos e justificar a erosão da democracia da República de Weimar. Foi central na narrativa que Adolf Hitler explorou para chegar ao poder”, criticou.

Para a socialista, o líder do Chega não estava a fazer “um desabafo inocente”, mas sim a “convocar um imaginário político perigoso, assente na divisão, na desconfiança e na distorção da história”.

E conclui: “Quem conhece a história reconhece estes sinais e sabe que a democracia não se perde de um dia para o outro, desgasta-se quando se normalizam discursos que já provaram, no passado, aonde conduzem. André Ventura mostra abertamente o seu plano. É inaceitável”.

A tentativa de André Ventura em adaptar a "Lenda da Punhalada pelas Costas" (Dolchstoßlegende) ao contexto da Descolonização (1974-1975)

Essa narrativa de que Portugal foi "apunhalado pelas costas" durante o processo de descolonização é um exemplo flagrante de pós-verdade, pois ignora os factos históricos em favor de um revisionismo emocional que serve interesses políticos atuais. Ao transpor o mito alemão da Dolchstoßlegende para a realidade portuguesa de 1974, André Ventura e a direita radical operam uma inversão da causalidade: tentam convencer o público de que o 25 de Abril "causou" a derrota em África, quando, na verdade, foi a exaustão de uma guerra impossível de vencer que causou o 25 de Abril. Esta construção ignora que o exército português enfrentava um impasse militar absoluto, um isolamento diplomático total perante a ONU e uma economia asfixiada que consumia cerca de 40% do orçamento do Estado na defesa do Ultramar.

Ao utilizar esta retórica, Ventura não está a fazer uma análise histórica, mas sim a praticar uma "pesca de arrasto" no ressentimento de antigos combatentes e retornados, oferecendo-lhes um culpado conveniente — a "elite de Abril" — para um trauma coletivo que é muito mais profundo e complexo. A pós-verdade reside precisamente nesta simplificação: transforma-se uma transição histórica inevitável e tardia numa traição planeada, substituindo a complexidade do fim dos impérios coloniais europeus por uma fábula de "bons patriotas" contra "traidores entreguistas". No fundo, é a utilização de uma mentira histórica confortável para atacar a legitimidade da democracia portuguesa e reabilitar um passado autoritário sob a capa de um orgulho nacional ferido.

Historiografia
Museu Histórico Alemão - Dolchstoßlegende

O mito da punhalada pelas costas (em alemão: Dolchstoßlegende, pronuncia-se Lenda da Punhalada pelas Costas) é uma teoria da conspiração anti-semita e anticomunista, promovida por Adolf Hitler.