sábado, 30 de maio de 2026

O adeus a Edgar Morin. 104 a resistir, pensador global, herdeiro do iluminismo

Quando em 2001 lhe perguntaram, à beira da celebração dos 100 anos de vida, onde é que ele ia buscar a transbordante vitalidade, Edgar Morin respondeu: ”É porque consigo ser ao mesmo tempo infantil, juvenil e velho. Admito que mais ou menos adulto, mas não muito.” 

Edgar Morin, um dos últimos mestres do pensamento da cultura contemporânea, sociólogo, filósofo, antropólogo e epistemólogo, morreu a pouco mais de um mês de em 8 de julho chegar aos 105 anos de vida (n.1921, em Paris).

Morin, sempre luminoso e generoso (veio muitas vezes a Portugal, arranjava sempre tempo para quem queria conversar com ele), é um dos últimos herdeiros do Iluminismo. Com mais de 100 livros publicados, continuou até ao fim da longa vida a intervir e a a posicionar-se em muitos dos debates dos nosso tempo (sobre ecologia, sempre sobre a educação, também  questões sensíveis como as caricaturas de Maomé ou a política de colonização israelita, de que era muito crítico). Edgar Morin também ousou imaginar o futuro e interrogar as incertezas do tempo pela frente. Ele gostava de repetir que, do ponto de vista da evolução do pensamento, “ainda estamos na pré-história.”

Ao pensarmos em Edgar Morin pensamos sempre em humanismo. Admirado pelo espírito corajoso e livre, fez da dúvida e da autocrítica ferramentas indispensáveis ​​para a reflexão orientada para enfrentar e entender as metamorfoses e a complexidade do mundo contemporâneo.

Em toda a vida foi um e resistente aos esquematismos ideológicos e aos guetos disciplinares, combateu as arrogâncias, aliou o gosto pela reflexão à relevância da observação, com abordagem interdisciplinar orientada para a concretização da ecologia de ideias que, a par da centralidade da ética, considerava indispensável para chegarmos a uma sociedade mais justa. Para Morin, o trabalho intelectual só faz sentido se resultar em propostas políticas realistas e exequíveis. E, nesta perspetiva, embora consciente dos muitos riscos que o planeta enfrenta, acreditava que os períodos de crise como o tempo de agora são, ainda assim, ricos em potencial, desde que “a civilização ocidental renuncie à obstinada busca de uma ideia de progresso baseada exclusivamente na fé cega no poder da tecnologia e da economia".

Nascido em Paris numa família judaica sefardita, Edgar Nahoum participou ativamente na resistência anti-nazi no início da década de 1940, adotando então pela primeira vez o pseudónimo Morin, que manteria durante toda a sua vida. Após a guerra, frequentou regularmente os meios intelectuais, foi próximo de Marguerite Duras.

Logo a seguir ao final da II Grande Guerra, Morin, oficial da Resistência francesa, foi mobilizado para a Alemanha ocupada. Tinha 24 anos, publicou L’an zéro de l’Allemagne (1946), em que corajosamente propõs a superação do rancor, com aposta na reconciliação franco-alemã. Foi o primeiro título de uma notável bibliografia que, no final da sua vida, contaria com mais de 100 livros. La Méthode, monumental e fundamental obra sociológica e filosófica, foi publicada em seis tomos, ao longo de 17 anos, de 1977 a 2004.

Em Autocritique (1959),Morin relata como foi expulso do Partido Comunista Francês (PCF), de que fora figura de relevo, e reconhece a “cegueira inicial em relação ao estalinismo” que viria a criticar veementemente. Tornou-se também um dos fundadores do comité de intelectuais contra a Guerra da Argélia.

No tempo final de vida, Morin lastimou recorrentemente o estado sombrio do mundo. Quis intervir ativamente em censura à invasão russa da Ucrânia. Publicou um último ensaio,  De guerre en guerre: de 1940 à l’Ukraine (De guerra em guerra: de 1940 à Ucrania). Assentou então: “Estamos a assistir à escalada da desumanidade e ao colapso da humanidade, à escalada do pensamento simplista e ao colapso da complexidade. E, acima de tudo, à escalada para uma guerra mundial que representa o mergulho da humanidade no abismo.” 

No livro de memórias, Les souvenirs viennent à ma rencontre (As Lembranças vêm ao meu encontro), publicado em 2019, quando tinha 97 anos, prenunciou o fim que chegou neste final de 2026 “Eu também partirei para a terra onde cresce a flor de laranjeira.”

Morin resistiu sempre. Contra o populismo, contra o totalitarismo, contra o nacionalismo, contra a violência, contra as ofensas ao ambiente,  contra a desigualdade, contra o ódio, contra a estupidez, contra tudo o que divide e separa. Nunca desistiu, nunca se rendeu.

Morin argumentou ferozmente contra o «reducionismo» — o hábito de dividir os problemas em caixas isoladas e unidisciplinares. Em vez disso, acreditava que os maiores desafios do mundo estão fundamentalmente interligados.

Conceitos-chave que deixa como legado
O trabalho de Morin deu-nos lentes totalmente novas para olhar para as crises modernas:
  1. A Policrise: um termo que co-pioneou para descrever como as crises ambientais, económicas, sociais e políticas não acontecem de forma isolada. Pelo contrário, alimentam-se e amplificam-se mutuamente de forma dinâmica.
  2. O Princípio hologramático: a ideia de que, tal como num holograma, a parte está no todo, mas o todo também está embutido na parte (por exemplo, um indivíduo carrega em si toda a cultura da sua sociedade).
  3. Religação (Reliance): a capacidade humana de construir e sustentar laços significativos, que ele defendeu como a nossa ferramenta máxima de solidariedade num mundo profundamente fragmentado.
«Enquanto for possuído pelas forças da vida, o espetro da morte recua.» — Edgar Morin

Era, como em França gostam de classificar, um maître à penser. O presidente Macron foi certeiro no primeiro comentário ao fim da vida de Edgar Morin: “era o Humanismo feito pessoa.”

Saber mais:

Classificação: os países que alimentam o mundo


Um grupo relativamente pequeno de países fornece hoje uma enorme fatia dos alimentos comercializados no mundo. Os 10 maiores exportadores, por si só, representam quase metade das exportações agrícolas globais, conferindo a um punhado de economias uma enorme influência sobre os preços e as cadeias de abastecimento globais de alimentos.

As Américas constituem o núcleo do sistema global de comércio de alimentos. Os EUA, o Brasil, o Canadá e o México, em conjunto, representam quase 30% das exportações agrícolas globais, abrangendo desde cereais e carne a alimentos processados ​​e oleaginosas.

Enquanto isso, várias economias populosas apresentam classificações inferiores às esperadas. Apesar de ser o maior produtor agrícola do mundo, a China está muito atrás dos EUA e do Brasil em termos de valor de exportação, o que reflete a parcela da sua produção que é consumida internamente.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Ladytron - Secret Dreams of Thieves


Aah, aah
Aah, aah

Hearts of fire
Skate thin ice
Whispers light up the sky
Hearts of fire
Don't think twice
Soulmates in paradise

Hearts lost in the night
Hearts taking flight
Hearts beat in the night
Hearts taking flight

Hearts of fire
Melt thin ice
Crystals snap
Waters rise

And they seek
The Secret Life of Reeds
Translucent leaves that breathe in the light of their eyes

And they dream
The secret dreams of thieves
Who ran so fast they seized the chance of their lives

Hearts of fire
Melt thin ice
Falling through
Paradise
Hand in hand
Sinking fast
Halloween sugar dream

And they seek
The Secret Life of Reeds
Translucent leaves that breathe in the light of their eyes

And they dream
The secret dreams of thieves
Who ran so fast they seized the chance of their lives?

For their heist
So perfectly conceived
Transcendent love that feeds egos in the night

And they dream
The secret dreams of thieves
Who ran so fast they seized the chance of their lives?

Melhor som aqui

Minha análise
"Secret Dreams of Thieves" é uma faixa do Ladytron, uma banda britânica formada em Liverpool, Inglaterra, em 1999, conhecida por sua formação multicultural que inclui a escocesa Helen Marnie, a búlgara Mira Aroyo e o inglês Daniel Hunt. O estilo musical do grupo transita entre o Synth-pop, o Electro-clash e a Indie Electronica, e a minha comparação com o New Order faz todo o sentido, já que ambas as bandas dominam a arte de misturar a melancolia fria do pós-punk com batidas feitas para a pista de dança. No entanto, o Ladytron soa mais refrescante e moderno porque troca o tradicional baixo proeminente do New Order por camadas massivas de sintetizadores analógicos vintage, ritmos de electro mais cortantes e vocais femininos etéreos, criando uma atmosfera retro-futurista e misteriosa.

Em termos de significado, a canção funciona como uma metáfora cinematográfica sobre um romance proibido, intenso e arriscado. Expressões como "skate thin ice" (patinar em gelo fino) e "hearts of fire melt thin ice" sugerem que os amantes estão cientes do perigo, mostrando que a paixão deles é tão ardente que derrete a própria segurança onde se apoiam, levando-os a afundar rápido. Ao usar termos como ladrões ("thieves") e golpe ou assalto ("heist"), a letra retrata o amor como algo roubado do resto do mundo, onde os protagonistas correm contra as regras para agarrar a oportunidade das suas vidas. No final, há uma ponta de cinismo típica da banda ao descrever a relação como um amor transcendente que alimenta egos na noite, mostrando que, por mais belo e secreto que seja, há também uma vaidade e uma ilusão quase juvenil. Musicalmente, a faixa encapsula essa urgência, usando uma batida forte e sintetizadores gelados para simular perfeitamente a sensação de uma fuga na calada da noite.

Estudo da Greenpeace encontra microplásticos em comida para bebé, da Nestlé e da Danone, vendida em embalagens de plástico



Uma nova investigação encomendada pela Greenpeace Internacional encontrou microplásticos em comida para bebé, vendida em embalagens de plástico, por duas das maiores empresas alimentares do mundo, a Nestlé e a Danone, levantando preocupações urgentes sobre a segurança de produtos comercializados para bebés.

O relatório Tiny Plastics, Big Problem: The Hidden Risks of Plastic Pouches for Baby Food detalha os testes laboratoriais realizados a marcas populares de comida para bebé, a Gerber, da Nestlé, e a Happy Baby Organics, da Danone, nos quais foram encontradas partículas de microplásticos em todas as amostras analisadas. O teste realizado sugere também que uma série de químicos estava presente tanto nas embalagens como nos alimentos. [1] Isto sugere que a própria embalagem de plástico poderá ser a fonte da contaminação, potencialmente expondo os bebés a milhares de fragmentos microscópicos de plástico, em cada embalagem consumida.

Graham Forbes, responsável global da campanha de plásticos da Greenpeace EUA, afirmou:
“Este estudo é um choque para pais em todo o mundo, que confiam nestas marcas para fornecer alimentos seguros e nutritivos aos seus bebés. Em vez disso, empresas dependentes do plástico, como a Nestlé e a Danone, não conseguem garantir que os seus produtos estejam livres de microplásticos e químicos.”

“Hoje, falar da era do plástico vai muito além da poluição visível”, acrescenta Ana Farias Fonseca. Para a Coordenadora de Campanhas de Mobilização da Greenpeace Portugal, “estamos perante uma crise de saúde pública que começa, literalmente, no berço. Este cenário lembra-nos os exemplos das indústrias do tabaco, do amianto e do chumbo, que tentaram desacreditar a ciência para atrasar a ação política. Hoje sabemos melhor do que isso. É urgente aplicar o princípio da precaução: os fabricantes devem demonstrar que as suas embalagens são seguras, e não compete aos pais ou cientistas provar o contrário.

Este é o momento de exigir aos governos que acelerem o passo por um Tratado Global dos Plásticos forte, capaz de reduzir a produção global em pelo menos 75% até 2040 e de obrigar gigantes como a Nestlé e a Danone. a eliminar materiais nocivos em contacto com os alimentos. Mudar este sistema está nas nossas mãos.”

As principais conclusões são:
• Por cada grama de comida para bebé testada, os investigadores encontraram, em média, até 54 partículas de microplásticos nas embalagens da Gerber e até 99 partículas nas embalagens da Happy Baby Organics. Isto equivale a até 270 microplásticos por colher de chá no caso da Gerber e 495 no caso da Happy Baby Organics.
• O estudo estimou um total de mais de 5.000 partículas em cada embalagem da Gerber e mais de 11.000 partículas em cada embalagem da Happy Baby Organics.
• O estudo identificou também uma série de químicos associados ao plástico presentes tanto na embalagem como no alimento, incluindo a presença de um potencial disruptor endócrino nas amostras da Gerber testadas.
• O estudo sugere uma ligação entre o polietileno, o plástico com que as embalagens são revestidas, e alguns dos microplásticos encontrados na comida para bebé testada.

As embalagens flexíveis de plástico para espremer tornaram-se rapidamente o formato dominante de embalagem para comida de bebé em todo o mundo, impulsionadas pela conveniência e por estratégias agressivas de marketing. É o formato de embalagem com crescimento mais rápido, com um aumento anual de 8,1% até 2031, representando 37,15% do mercado global em volume em 2025, ultrapassando todas as outras formas de embalagem, incluindo os tradicionais frascos de vidro. Atualmente, milhões destas embalagens de utilização única são compradas diariamente, o que significa que milhões de bebés podem estar a ingerir microplásticos juntamente com a sua comida. Os bebés podem ser particularmente vulneráveis a este tipo de exposição devido ao rápido desenvolvimento dos seus órgãos e à maior ingestão de alimentos em relação ao seu peso corporal.

Esta tendência faz parte de um aumento mais amplo da produção e utilização de plástico, em grande parte impulsionado pelas grandes empresas de bens de consumo. Só as embalagens representam cerca de 40% da produção global de plástico. Um dos segmentos em crescimento mais rápido é o das embalagens plásticas flexíveis e multicamada, como as bolsas e saquetas de comida para bebé, que são notoriamente difíceis de reciclar e uma importante fonte de poluição em algumas regiões.

A Nestlé e a Danone têm aparecido repetidamente entre os maiores poluidores por plástico do mundo em auditorias globais de marcas conduzidas pelo movimento Break Free From Plastic.

A Greenpeace apela à Nestlé, à Danone e a todos os produtores de comida para bebé para que investiguem urgentemente os seus produtos, provem que não estão a colocar crianças pequenas em risco de exposição e se comprometam a eliminar progressivamente as embalagens de plástico, substituindo-as por alternativas reutilizáveis, livres de plástico e não tóxicas.

Enquanto os governos negoceiam o Tratado Global dos Plásticos das Nações Unidas, a Greenpeace exige que os negociadores atuem com urgência para proibir estes produtos, reduzir a produção de plástico e acabar com a contaminação descontrolada e não regulamentada por plásticos e químicos que ameaça a saúde humana.

“A poluição por plástico não está apenas a destruir o nosso ambiente, está a entrar nos nossos corpos, começando na infância. A forma como a nossa comida é embalada é pensada para o lucro, não para a saúde das pessoas. Reduzir a produção de plástico e eliminar os químicos nocivos é essencial para proteger a saúde humana, especialmente a saúde das nossas crianças”, afirmou Forbes.

Notas:
[1] O estudo foi realizado pela SINTEF Ocean, na Noruega, em 2025, e encomendado pela Greenpeace Internacional. Foram testadas três embalagens de cada um dos dois produtos de comida para bebé: puré de iogurte da marca Gerber, da Nestlé, e puré de fruta da marca Happy Baby Organics, da Danone. Os produtos foram analisados tal como vendidos, sem serem aquecidos.

As fotografias podem ser acedidas na Greenpeace Media Library.

Assina a petição aqui

DeepMind prevê chegada da AGI até 2029 e diz que a sociedade não está pronta para o avanço


O diretor-executivo da Google DeepMind, Demis Hassabis, afirmou que a Inteligência Artificial Geral (AGI, na sigla em inglês) pode tornar-se realidade até 2029 e alertou que governos, empresas e a sociedade ainda não estão preparados para lidar com a velocidade do avanço da tecnologia. Segundo o próprio, os sistemas atuais de inteligência artificial (IA) já demonstram sinais de capacidades mais amplas e autónomas, num movimento que pode acelerar antes do esperado.

As declarações foram feitas após a conferência anual de desenvolvedores da Google. Hassabis afirmou que os recentes avanços em agentes de IA e sistemas autónomos reforçaram a perceção, dentro da indústria, de que a AGI poderá surgir antes do fim desta década. O executivo ainda considera 2030 como uma estimativa provável, mas disse que 2029 já é um cenário “realista” e que o desenvolvimento pode acontecer a um ritmo ainda mais acelerado.

A AGI é descrita pelo setor como uma forma de IA capaz de igualar ou superar o desempenho humano em diferentes tarefas cognitivas. Para Hassabis, as melhorias observadas nas ferramentas de IA ao longo do último ano não são avanços isolados, mas sim evidências de que a indústria finalmente encontrou um caminho técnico viável para construir sistemas mais sofisticados.

O executivo afirmou que a chamada “era dos agentes” deve ser vista como um primeiro teste de stresse para a sociedade. Esses sistemas conseguem executar tarefas de maneira mais independente, realizando atividades ligadas à programação, produtividade e automação. Segundo Hassabis, os agentes atuais representam apenas uma antevisão do impacto que os futuros sistemas poderão causar quando tiverem capacidades mais avançadas de raciocínio, planeamento e investigação.

Hassabis também afirmou que o ritmo da evolução da IA já apanhou empresas e governos de surpresa. O responsável citou exemplos recentes que envolvem modelos avançados de empresas concorrentes, como a Anthropic, para argumentar que até os especialistas do setor têm sido surpreendidos pela velocidade dos avanços.

Segundo ele, ainda existe uma pequena janela de oportunidade para que a sociedade se prepare para sistemas cada vez mais poderosos, mas essa margem pode diminuir rapidamente nos próximos anos. Diante disso, o executivo reforçou a necessidade de uma ação célere por parte dos governos no que toca à segurança e regulamentação da IA.

Em termos práticos, o que Demis Hassabis quis dizer resume-se ao facto de que a IA superinteligente está quase a chegar. A Inteligência Artificial Geral, aquela que consegue fazer qualquer tarefa intelectual tão bem ou melhor do que um ser humano, pode estar pronta já em 2029, muito antes do que a maioria das pessoas imaginava há uns anos. Além disso, o caminho técnico já foi descoberto. Os avanços recentes, como os agentes que trabalham de forma autónoma, mostram que a indústria já não está a adivinhar e que os cientistas já encontraram a fórmula técnica certa para criar esta superinteligência. No entanto, o mundo não está preparado para esta realidade. O avanço está a ser tão rápido que os governos, as empresas e as leis não estão a conseguir acompanhar o ritmo. Hassabis deixa, por isso, um alerta claro de que temos uma janela de tempo muito curta para criar regras e garantir que a tecnologia é segura antes que ela nos ultrapasse. Em suma, a revolução da IA vai acelerar a um ritmo avassalador e a sociedade precisa de se preparar com urgência.

Olhar nos olhos de uma ave

Papa-amoras-comum (Curruca communis)

"Olhar nos olhos de uma ave não é encarar um reflexo primitivo do passado, mas sim vislumbrar uma forma alternativa de inteligência. Sob o crânio minúsculo de um pássaro esconde-se um novelo de engenho: uma mente que mapeia continentes sem bússola, que cria ferramentas com a astúcia de um artesão e que reinventa a música todas as manhãs. A verdadeira genialidade das aves não está na capacidade de voar, mas na audácia de compreender o mundo com um cérebro do tamanho de uma noz."-Jennifer Ackerman

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Holy Motors - Stay the Night


Let it ride, let it ride
Where the dark is in the night
Let it ride, let it ride
Don't you want to stay the night?

I can see it in your eyes
You don't want to say goodbye
Let it ride, let it ride
Don't you want to stay the night?

Let it ride, let it ride
Where the dark is in the night
Let it ride, let it ride
Don't you want to stay the night?

I can see it in your eyes
You don't want to say goodbye
Let it ride, let it ride
Don't you want to stay the night?

Significado da canção
A canção "Stay the Night" dos Holy Motors não se foca numa narrativa complexa, mas sim na criação de uma atmosfera hipnótica e melancólica através de uma letra curta e minimalista. A repetição dos versos funciona como um mantra que explora a tensão e a intimidade entre duas pessoas no final de uma noite, onde o eu lírico percebe no olhar do outro a relutância em se despedir. O apelo para ficar até ao amanhecer é feito de forma suave e vulnerável, quase num sussurro, misturando desejo com uma profunda sensação de solidão. Ao mesmo tempo, a expressão "let it ride" serve como um convite para deixar as coisas correrem e aceitar o destino, incentivando uma entrega total ao momento e à escuridão da noite, sem preocupações com o amanhã. Toda esta simplicidade lírica ganha uma nova dimensão graças à sonoridade cinemática e misteriosa da banda, transformando o que poderia ser um simples romance num cenário de escapismo e doce tristeza, ideal para a banda sonora de uma estrada deserta na madrugada.

"Ilegal por Conceção" e Tóxica para o Planeta: A Amnistia Internacional Desmascara a IA

Global: Enormes pipelines de dados que alimentam os principais sistemas de IA generativa estão enraizados em invasões em massa da privacidade por conceção

As empresas estão a extrair vastas quantidades de dados online através de web scraping (extração de dados da web) ilegal para construir os seus produtos de inteligência artificial (IA) generativa, de uma forma que está a permitir uma invasão massiva da privacidade, tornando estes sistemas ilegais por conceção, afirmou hoje a Amnistia Internacional num novo relatório.

O relatório Unlawful by Design: Exposing the Human Rights Costs of Generative AI ("Ilegal por Conceção: Expondo os Custos dos Sistemas de IA Generativa para os Direitos Humanos") documenta riscos graves na extração e processamento de dados em grande escala utilizados para construir e treinar estes sistemas, incluindo violações do direito à privacidade por conceção e consequências adversas para o ambiente e para comunidades historicamente marginalizadas.

"Empresas em todo o mundo estão a fornecer produtos de IA generativa sob uma capa de eficiência e sofisticação, mas, na realidade, estes sistemas perpetuam invasões em massa da privacidade através de web scraping ilegal: um processo automatizado para extrair dados de websites, incluindo dados pessoais, como imagens e atividade em redes sociais, para treinar modelos de IA", afirmou Likhita Banerji, Diretora do Laboratório de Responsabilidade Algorítmica da Amnistia Internacional.

"O pipeline de dados extrativo, as escolhas inerentes de conceção feitas pelas empresas tecnológicas e as cadeias de abastecimento exploratórias para construir sistemas de IA generativa permitiram um paradigma de desenvolvimento tecnológico que abre caminho ao risco de abusos em massa dos direitos humanos."

A Amnistia Internacional investigou os modelos que alimentam algumas das ferramentas independentes de IA generativa mais populares e publicamente disponíveis, incluindo o GPT-3 da OpenAI, o Gemini da Google, o Llama da Meta, o DeepSeek e ferramentas da Midjourney.

Estes sistemas dependem da extração de informações de milhares de milhões de publicações e imagens públicas online, frequentemente sem o consentimento explícito dos indivíduos que nelas aparecem ou que as criaram. Isto não só infringe a privacidade por conceção, mas, à medida que as bases de dados que alimentam os modelos de IA aumentam, a presença de conteúdos de ódio e discriminatórios nos seus resultados também é amplificada, juntamente com estereótipos negativos e preconceitos, especialmente de cariz racial e de género.

"Estas escolhas não são inevitáveis. Devemos contestar as opções de conceção adotadas pelas empresas que constroem sistemas de IA generativa baseando-se em dados de treino, incluindo dados pessoais, que são extraídos sem consentimento e a uma escala monumental", disse Likhita Banerji.

Os preconceitos raciais, de género e culturais são características persistentes nos sistemas de IA generativa, um produto dos dados de treino que são maioritariamente retirados da web e, portanto, poluídos com os preconceitos do mundo real que prejudicam as comunidades historicamente marginalizadas. Adicionalmente, os sistemas de IA generativa representam riscos para o direito à liberdade de pensamento, uma vez que são capazes de influenciar os pensamentos dos utilizadores e moldar as suas crenças pessoais através de sugestões preditivas. Isto aplica-se especialmente a modelos maiores que dependem de dados de treino expansivos.

Elevados custos ambientais
À medida que a escala e a velocidade de desenvolvimento aumentaram nas empresas de IA generativa, aumentaram também os requisitos de infraestruturas e os custos ambientais associados.

As maiores necessidades de processamento dos modelos de maior dimensão exigem chips com maior consumo energético, centros de dados maiores e, consequentemente, mais energia e água para a sua operacionalização. A produção de IA generativa resulta frequentemente num impacto negativo nas comunidades historicamente marginalizadas, uma vez que as terras e os recursos pertencentes a estas comunidades são explorados para construir centros de dados e satisfazer os requisitos de processamento.

O próprio relatório de sustentabilidade da Google de 2024 observou um aumento impressionante de 48% nas emissões de gases com efeito de estufa da empresa desde 2019, atribuível às emissões dos centros de dados e da cadeia de abastecimento. Da mesma forma, as emissões da Microsoft aumentaram 29% entre 2020 e 2024, atribuíveis aos centros de dados que realizam processos de suporte à IA.

A produção de IA generativa resulta frequentemente num impacto negativo para as comunidades historicamente marginalizadas, visto que as terras e os recursos que pertencem a estas comunidades são explorados para construir centros de dados (data centres) e cumprir os requisitos de processamento.

O uso intensivo de recursos na produção de IA generativa levou a que comunidades desde Cerrillos, no Chile, e Querétaro, no México, até ao Arizona, nos Estados Unidos da América, resistissem à instalação de centros de dados em áreas que já são fortemente afetadas por secas e escassez de eletricidade.

Como parte do seu processo de investigação, a Amnistia Internacional contactou por escrito a Google, OpenAI, Meta, Stability AI, Midjourney e DeepSeek, dando-lhes a oportunidade de responder às conclusões do relatório, que afirma que os seus modelos dependem de web scraping ilegal, entre muitas outras preocupações relacionadas com direitos humanos.

A Amnistia Internacional apela aos Estados para que proíbam os sistemas independentes de IA generativa que foram construídos com recurso a web scraping ilegal, definido como a recolha massiva e em larga escala de dados de treino através da web. As empresas devem cessar imediatamente a prática de extração ilegal e não consensual de dados pessoais na web para fins de treino de IA, e os Estados devem responsabilizar as empresas pelo seu envolvimento em quaisquer abusos de direitos humanos ligados às suas escolhas comerciais e de conceção.

Contexto
O relatório fornece uma análise de direitos humanos sobre o 'pipeline de dados' que alimenta os produtos de IA generativa, incluindo as fases de captura, análise e processamento de dados que são críticas para o funcionamento geral destes sistemas. Especificamente, isto envolve focar a atenção nos parâmetros e nas implicações das escolhas de conceção feitas em relação aos dados de treino dos modelos de IA generativa, com especial incidência nos métodos e fontes de recolha de dados, processamento de dados, escala dos modelos e resultados de dados (outputs).


A Amnistia Internacional define ferramentas independentes de IA generativa como produtos que são desenvolvidos, implementados e comercializados única e especificamente pelas suas capacidades de IA generativa, tais como chatbots de IA, geradores de imagem/vídeo/áudio/texto, entre outros.

Mais do que beleza: o papel vital das borboletas nos ecossistemas


Para o observador casual, uma borboleta é um símbolo fugaz da graciosidade do verão. No entanto, para entomologistas e zoólogos, estes insetos frágeis são os "pesos-pesados" do mundo natural, funcionando como engrenagens vitais que mantêm ecossistemas inteiros em movimento. No século XVII, a pioneira entomologista Maria Sibylla Merian foi uma das primeiras cientistas a documentar a metamorfose das borboletas, provando, através das suas ilustrações detalhadas, que a vida destes insetos está intimamente ligada à existência de plantas hospedeiras específicas. Séculos mais tarde, o lendário zoólogo E.O. Wilson lembrou-nos, de forma célebre, que os invertebrados são "as pequenas coisas que governam o mundo". As borboletas são o testemunho perfeito desta verdade.


Embora pareçam delicadas, são polinizadoras de longo curso que mantêm a diversidade genética das plantas silvestres, as quais, por sua vez, estabilizam os nossos solos e purificam o nosso ar. Além disso, servem como uma âncora fundamental para a cadeia alimentar; enquanto lagartas, convertem a matéria vegetal em energia rica, fornecendo uma fonte de alimento indispensável para aves nidificantes, morcegos e pequenos mamíferos. Como são incrivelmente sensíveis à temperatura e à perda de habitat, os zoólogos também dependem delas como indicadores ecológicos — sensores climáticos vivos que funcionam como um sistema de alerta precoce quando um ambiente está em sofrimento. Como a grande bióloga Rachel Carson escreveu outrora: "Na natureza, nada existe sozinho." Em última análise, proteger as borboletas não é um mero ato de preservação da beleza estética; é a preservação necessária dos fios invisíveis e interligados que mantêm o nosso planeta vivo.

Morcheeba - Sounds Of Blue


Letra
[Verse 1]
A sort of stoned silence
Sat on that boat floating out
The waters left me open
All my emotions fog my lenses
Trusting in a stranger
There's nowhere to run, enjoy it
It's all about the here and now
Illuminate the darkness

[Chorus]
The waves awoke emotive emotions
Whilst resisting this urge to
Breathe as I'm swimming down
Free when I'm sinking down

[Verse 2]
Last breath in, closed eyes
Nose hold, equalize
Pulling down under, bound
Descending, deep ending
Earth, under, found
Free-dive, amplified
Sounds of blue
Floating particles as it falls clear
Don't look up, don't look down
I might drown into you

[Chorus]

[Bridge]
Take it all in to begin with
Don't let it out 'til the surface
Now with a purpose, I'm ascending
So romantic, this is tantric, oceanic
Up, rising, looking into his framed eyes
No surprise why we fall in love with these guys
It went deeper than I dared
I went deeper than I cared
I'm out of air

[Chorus]

A canção "Sounds of Blue", dos Morcheeba, utiliza a prática do mergulho livre (free-diving) — o mergulhar em apneia, sem botijas de oxigénio — como uma metáfora perfeita para a entrega emocional, a vulnerabilidade e a vertigem de se apaixonar. O próprio título do tema introduz uma forte componente sinestésica, fundindo a audição e a visão para traduzir a experiência subaquática: debaixo de água, os ruídos do mundo exterior desaparecem e dão lugar ao bater do coração e ao silêncio ecoante do oceano, criando aquilo que a banda define como os "sons de azul", um estado de espírito que evoca simultaneamente a melancolia do blues e uma paz interior absoluta.

No início da letra, a atmosfera de silêncio e flutuação introduz o desarmamento das defesas da personagem. Ao expressar que as emoções lhe toldam a visão e que decidiu confiar num estranho, a música transporta-nos para aquele momento em que deixamos de resistir e decidimos simplesmente viver o presente. A descida para as profundezas do oceano funde-se com a própria descida ao desconhecido de uma nova relação. Curiosamente, o ato de afundar surge despido de pânico; pelo contrário, transforma-se numa experiência de libertação profunda, onde o desapego e o deixar-se ir trazem uma inesperada sensação de paz e liberdade, mostrando que é preciso silenciar a mente e aceitar a pressão exterior para se conseguir flutuar emocionalmente.

A descrição técnica do segundo verso detalha o ritual que antecede a imersão, remetendo para o foco absoluto e para o estado de transe que tanto o desporto como a paixão exigem. Quando o mundo exterior desaparece e os sentidos se amplificam no azul do mar, a fronteira entre a água e o sentimento esbate-se, culminando na admissão de que a personagem se pode afogar no outro. Na reta final, durante o regresso à superfície, a experiência assume contornos quase transcendentais e sensuais, onde a subida e o reencontro com o olhar do parceiro consolidam a paixão. O desfecho da viagem deixa um aviso subtil: a personagem foi mais fundo do que ousava e acabou sem ar, ilustrando na perfeição o impacto avassalador de um amor que nos tira o fôlego.

Morcheeba é um grupo musical britânico de Londres. A banda estreou-se em 1995, com aquela que é considerada a formação histórica do grupo: Skye Edwards (voz), Paul Godfrey (DJ) e Ross Godfrey (guitarrista e teclista). Tendo-se estabelecido na cena trip hop britânica no final da década de 1990, a sua fama continuou a crescer ao longo do tempo. Ao longo dos seus 20 anos de carreira, abraçaram mais do que um género musical com a utilização de elementos eletrónicos, incorporando elementos de pop rock, rock alternativo e indie rock. O termo "Morcheeba" significa "A Rua da Cannabis" e é composto por "MOR", uma expressão inglesa que indica um género musical semelhante ao smooth jazz, bem como, literalmente, o meio da estrada ("Middle of the Road"), e "cheeba", a gíria para canábis.
Esta canção é do álbum Blackest Blue lançado 2021.



:Wumpscut: - Schrekk & Grauss

O :Wumpscut: é um projeto musical de nacionalidade alemã, criado em maio de 1991 na Baviera pelo DJ Rudy Ratzinger, consolidando-se como um dos nomes mais influentes da música eletrónica industrial, do dark electro e do aggrotech. A faixa "Schrekk & Grauss", lançada em 2011 como música-tema do álbum homónimo, traz no seu título uma grafia estilizada das palavras alemãs Schreck e Graus, que significam literalmente "Susto e Horror" ou "Terror e Pavor". Musicalmente, a obra mergulha numa estética de terror caricato, misturando sintetizadores sombrios, batidas eletrónicas pesadas e vocais distorcidos com melodias que remetem a circos macabros ou bandas sonoras de filmes de terror antigos. Fiel ao estilo do projeto, a canção utiliza o grotesco e o choque para explorar a psicologia humana e a sua estranha obsessão pelo medo e pela violência. Ao criar esta atmosfera de pavor dançável, Rudy Ratzinger coloca o ouvinte diante do desconforto, usando o horror como uma metáfora para a decadência moral, o sofrimento e as facetas mais sombrias da própria humanidade.

Enquanto muitas bandas do género se focam apenas num som puramente agressivo, acelerado e linear, feito exclusivamente para as pistas de dança góticas, o :Wumpscut: sempre teve uma forte componente conceptual e cinematográfica. Rudy Ratzinger constrói camadas melódicas muito melancólicas, quase teatrais, e mantém uma crueza "lo-fi" e analógica que se perdeu no aggrotech moderno, mais limpo e digital. É essa capacidade de unir a violência sonora a uma atmosfera genuinamente doentia e artística que torna o projeto tão único e cativante.

Melhor som aqui

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Adaptação Profunda - os 6R de James Bendell

1. Resiliência
O que mais VALORIZAMOS que queremos manter, e como?
2. Renúncia
Do que precisamos nos DESFAZER, para não piorar as coisas?
3. Restauração
O que poderíamos TRAZER DE VOLTA para nos ajudar à medida que situações difíceis se desenrolam?
4. Reconciliação
Com quem e com o que eu poderia FAZER AS PAZES para reduzir o sofrimento?
5. Reapropriação
O que em nossas vidas, comunidades, economias e na natureza podemos TOMAR DE VOLTA dos sistemas e crenças dominantes?
6. Regeneração
O que ou quem podemos NUTRIR devido ao nosso amor pela Vida?

A adição de uma 5ª e 6ª perguntas incorpora de forma mais eficaz todos os tipos de reflexões pessoais e conversas comunitárias que as pessoas estão tendo ao se tornarem conscientes do colapso. Elas envolvem mais atenção à ação social em escala comunitária para aumentar as possibilidades dentro de sistemas em colapso. Elas nem exigem nem convidam a negação de nossa situação, mas ampliam como encontramos caminhos para nossa própria ação positiva dentro de uma metacrise e colapso.

Vários Rs foram propostos como adições ao framework original, e muitos mais poderiam ser propostos no futuro. Os que propus desde os três no artigo Deep Adaptation de 2018 foram todos pelo mesmo motivo pelo qual propus aqueles: como incentivar o tipo de reflexões e conversas que não são tão normais nem de uma cultura ou mentalidade progressista nem derrotista. Para esse propósito, agora os considero um conjunto completo, então não vou propor mais.

Escrevi sobre o 5º R de Reapropriação no livro Breaking Together, fiz uma súmula dos 5R´s neste artigo e abordo o 6º R num ensaio sobre Regeneratividade. Como a origem deste framework dentro da consciência ambiental, escolhi representar os 6Rs do Deep Adaptation com um símbolo amplamente reconhecível de vida. 

The Logic of Taxing Great Wealth

Dados de 2023 [clicar aqui para melhor visualização e mais info]


The 2026 Billionaire Tax Act initiative recently submitted enough signatures to be put on the California ballot for the November 2026 elections. Its goal is to raise revenue by imposing a one-time 5 percent wealth tax on California billionaires to offset large cuts to California’s Medicaid caused by the Trump regime and Congress when, in July 2025, they cut federal taxes mainly on the wealthiest.

The reason for targeting California billionaires for new revenue is their wealth has grown faster than anyone else’s in recent years and they currently pay low taxes relative to their large wealth gains. Many borrow against their wealth for living expenses (banks are delighted to lend to them), enabling them to claim little or no taxable income.

As a result, taxing billionaires can both raise substantial revenue and restore tax progressivity at the very top. California is in the vanguard of what the nation must do. I believe they will do it when Democrats are back in control, and when they enact campaign finance reforms so no member of Congress is necessarily dependent on the super-wealthy for the bulk of their campaign contributions.

The following oped appeared in today’s New York Times. It was written by two of my colleagues at Berkeley, Professors Emmanuel Saez and Gabriel Zucman (who is also at the Paris School of Economics). I have reproduced it in its entirety, with permission, and have highlighted paragraphs I believe to be particularly important.

They make the case for the billionaire wealth tax in California, and indirectly for a billionaire wealth tax nationwide. They also answer the arguments against the tax, such as that California billionaires may leave the state in expectation that such wealth taxes would be renewed, possibly reducing future income tax revenue to the state and reducing its economic dynamism as the engine of tech innovation.

With wealth inequality now surging beyond anything ever witnessed in America, the dictum attributed to Justice Louis D. Brandeis has become dramatically relevant: “America faces a choice: We can have great wealth in the hands of a few, or we can have a democracy, but we cannot have both.” A wealth tax is a necessary precondition for everything else.

The billionaire class in California includes roughly 250 households, a mere 0.001 percent of the state’s families. Yet its wealth now amounts to more than half of California’s entire annual economic output.

This means that if these billionaires spent all of their wealth, they could buy more than half of the goods and services produced in a year in the entire state.

This extraordinary wealth does not translate into extraordinary tax contributions.

From 2019 to 2025, California billionaires’ wealth grew an average of over 15 percent per year, while they paid, on average, just 0.26 percent of their wealth annually in state income taxes. Their income tax payments accounted for only 2.4 percent of California’s income tax revenue.

For the very richest individuals, the effective burden was even lower. The four wealthiest Californians — former Google co-founder Sergey Brin, Nvidia’s Jensen Huang, former Google CEO Larry Page, and Facebook’s (Meta’s) Mark Zuckerberg — paid an average of just 0.07 percent of their wealth annually in California income tax over that period, according to our analysis of Securities and Exchange Commission records on stock sales and executive compensation from their companies.

California’s tax system fails to effectively tax ultrahigh-net-worth individuals. The same is true of the United States’ tax system and those of other countries.

The problem is that billionaires’ fortunes are largely held in assets (mainly stocks) that rise in value over time. This rise in value is not taxed unless the assets are sold. Under current law, when billionaires don’t sell their stock, wealth accumulates while taxes on their gains are deferred indefinitely and sometimes avoided entirely.

To understand how California’s billionaires have become so unfathomably rich, it’s helpful to think of their fortunes as icebergs. Some earnings are easy to see — and tax. From 2019 to 2025, Mr. Zuckerberg reported more than $7.1 billion in income from Meta: $181 million in compensation, $1.4 billion in dividends and $5.6 billion in gains from selling stock.

Despite making so much money, Mr. Zuckerberg was taxed a combined state and federal rate of just 27 percent on that income. That’s not much higher than the average California household’s effective tax rate of about 20 percent.Mr. Zuckerberg’s tax rate was relatively low in large part because most of his income was in the form of capital gains — what he made from selling stock that had risen in value. Capital gains are taxed federally at a lower rate than ordinary income.

Most of Zuckerberg’s wealth is hidden from income taxes. Since 2019, Meta has made hundreds of billions of dollars in profit. As Meta’s chief executive, Mr. Zuckerberg has invested much of that money back into the company, of which he owns about 13 percent. These profits have been taxed at a relatively low 17 percent, Meta’s effective corporate income tax rate. Their reinvestment has boosted the company’s value and, therefore, the value of its shares. This caused Mr. Zuckerberg’s wealth to rise by tens of billions of dollars.

The same is true of the wealth Mr. Zuckerberg accumulated as Meta grew and investors became more bullish about the company. This dynamic increased the value of his shares by an additional $142 billion. Unless Mr. Zuckerberg sells his shares, all of this growth remains untaxed.

But he can put his gains to use without selling them, borrowing tax-free against his holdings at low interest rates, as he did in 2023, when he pledged $3.1 billion worth of his Meta shares as collateral for a loan.

California’s other top billionaires have similarly structured fortunes. Without a wealth tax, these tech barons will continue to hoard the rewards of the state’s economic growth while its cities cut services and its workers lose health care.

Google’s founders, Mr. Brin and Mr. Page, are the state’s richest individuals, with more than $600 billion in wealth between the two of them — up from $345 billion last September. They have come out against the wealth tax initiative while making moves to leave the state. They benefit from the status quo.

Mr. Brin has funded the political campaign against the measure and has funded signature collection for two competing ballot initiatives that could undercut the wealth tax, spending at least $57 million to fight it.

They stepped down from day-to-day management at the end of 2019. That year and in 2020 and 2023, each got from Alphabet, Google’s parent company, only $1 per year in executive compensation.

They didn’t sell stock, and they didn’t receive dividends or any other compensation relating to Alphabet, so they paid no income tax on their wealth related to the company. But their stock wealth rose by $133 billion, driven in part by the reinvestment of their share of company profits, which amounted to $20 billion in those three years. Scenarios like this show why some of the very wealthiest people in America are among the least taxed.

This arrangement violates basic principles of fairness, deprives the government of revenue it needs for public services and fuels wealth concentration.

Overwhelming wealth becomes power — power to influence the direction of corporate behemoths, power to sway society through donations and media ownership, power to steer politics through unlimited campaign contributions to super PACs.

Elon Musk’s recent adventures in the executive branch, after spending hundreds of millions of dollars to help elect Donald Trump, demonstrate how quickly concentrated wealth can transmute into political control.

We don’t imagine that a one-time 5 percent tax on the wealth of California billionaires, as proposed in the 2026 Billionaire Tax Act, would fix all these problems. But it could raise nearly $100 billion in revenue for California. This amount would make up for the funding the federal government is taking away from the state over the next five years. It would also be tiny relative to billionaires’ recent wealth gains.

In the past three years alone, the total wealth of California’s billionaires grew by a staggering 144 percent, to over $2 trillion.

Taking such a small bite out of billionaires’ exponentially growing tech wealth wouldn’t doom Silicon Valley because the value of California’s concentrated tech talent dwarfs the proposed wealth tax. Nvidia’s chief executive, Mr. Huang, who would be one of the biggest payers of the tax, said he would be “perfectly fine” with it.

Other myths about the proposal need to be dispelled. It would tax only billionaires. It has been carefully written to respect the California and U.S. Constitutions. It contains provisions designed to prevent taxation beyond 5 percent of the fair market value of anyone’s shares and to avoid hitting start-ups hard. Billionaire entrepreneurs, with sizable illiquid stakes in newly founded private companies, would be able to defer payments until they began to cash out.

It is too late for superrich Californians to flee the state to avoid the tax. If approved in November, the tax would apply to billionaires who were residents of California as of Jan. 1, 2026. Some affected taxpayers might have left between the ballot initiative’s introduction, in late October 2025, and the end of the year. But it is improbable that any significant number of billionaires fully cut ties with California in that short period.

Critics of the ballot measure have voiced concerns that even a small number of billionaires leaving the state would lead to lower state tax revenues overall. Their math doesn’t add up. California’s billionaires currently pay such a low tax rate that even if all of them left the state, it would take 25 years for the loss of their tax payments under the current set of rules to surpass the amount the state would raise if the one-time tax succeeds this fall.

In 2025, California collected $4.1 billion in income tax from its billionaires. We estimate that California would collect about 25 times that much revenue — about $103 billion — from the proposed wealth tax.

While billionaires who no longer run their businesses day to day may choose to eventually leave California, uprooting an established business that relies on the pool of California’s tech talent and tech ecosystem would be much harder: While Mr. Page and Mr. Brin may leave for Florida or Nevada, there are no discussions of Google leaving Mountain View.

California’s tech sector produces billionaires faster than any other state’s. Its superrich — who have benefited from the state’s infrastructure, universities and networks of people and businesses — have accumulated enormous fortunes almost tax-free. The proposed billionaire tax would finally make them contribute in modest proportion to their gains.

In November, California’s voters should show the nation the way forward.

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Viver de créditos de biodiversidade ou aprender a viver com o capital natural?


Fala-se cada vez mais de créditos de biodiversidade.

E ainda bem que se fala de biodiversidade, de financiamento da natureza e de novos instrumentos para valorizar aquilo que durante décadas foi tratado como gratuito, invisível ou inesgotável.

Mas há uma palavra que me inquieta: 𝗰𝗿𝗲́𝗱𝗶𝘁𝗼

Na economia, viver a crédito significa muitas vezes usar hoje valor que ainda não temos, empurrando para amanhã uma responsabilidade que não desaparece.

Na biodiversidade, o risco é parecido: convencermo-nos de que podemos degradar aqui, compensar ali, comprar mais tarde, certificar depois. Mas a natureza não é uma folha de cálculo tão obediente.

Um carvalhal maduro, uma linha de água funcional, um solo vivo, uma comunidade de polinizadores, um sapal, uma sebe antiga ou uma árvore urbana adulta não se recriam por transferência bancária. Não são apenas “unidades” substituíveis. 𝗦𝗮̃𝗼 𝘁𝗲𝗺𝗽𝗼 𝗮𝗰𝘂𝗺𝘂𝗹𝗮𝗱𝗼, 𝗿𝗲𝗹𝗮𝗰̧𝗼̃𝗲𝘀 𝗲𝗰𝗼𝗹𝗼́𝗴𝗶𝗰𝗮𝘀, 𝗺𝗲𝗺𝗼́𝗿𝗶𝗮 𝗱𝗼 𝘁𝗲𝗿𝗿𝗶𝘁𝗼́𝗿𝗶𝗼, 𝗰𝗮𝗽𝗶𝘁𝗮𝗹 𝘃𝗶𝘃𝗼.

Talvez por isso eu goste mais de outra metáfora financeira: não o crédito, mas a conta-poupança.

Gerir biodiversidade devia começar por aquilo que já temos. Conhecer o nosso património natural, medir o seu estado, evitar perdas, restaurar funções ecológicas, aumentar resiliência, reinvestir nos sistemas vivos que sustentam água, solo, alimento, conforto térmico, paisagem e bem-estar.

Ou seja: antes de perguntar “quantos créditos posso comprar?”, talvez devêssemos perguntar, que capital natural tenho, como o estou a gerir, que juros ecológicos me está a devolver e que dívida estou a deixar ao território?

Os créditos de biodiversidade podem vir a ter um papel, se forem rigorosos, transparentes, adicionais, auditáveis e não servirem para legitimar destruição. A própria Comissão Europeia tem vindo a enquadrá-los como instrumentos para mobilizar investimento privado em acções positivas para a natureza, e não como licença para degradar. 

Mas talvez a grande mudança cultural não esteja em criar mais um mercado.
Talvez esteja em perceber que a biodiversidade não é uma despesa ambiental: é património produtivo, infraestrutura natural e capital territorial.

E que, antes de viver a crédito, é melhor aprender a viver com o que temos.
Porque na natureza, ao contrário da banca, quando o capital se perde… nem sempre há refinanciamento possível.

Referências bibliográficas:
  1. Não é só biomassa: preservar a biodiversidade das florestas é urgente e essencial para sua manutenção e também para a resiliência climática
  2. O potencial dos créditos de biodiversidade
  3. Contributos para o estudo do Direito da protecção da biodiversidade
  4. Designing a biodiversity credit accounting framework for environmental investment and financing
  5. Relatório OCDE (2025) - Scaling Up Biodiversity‑ Positive Incentives
  6. Biodiversity credits: Concepts, principles, transactions and challenges
Livros
  1. Cristina Chaves et al (2023)- Economia do Ambiente - conceitos e desenvolvimentos
  2. Field, Barry C.; Field, Martha K (2002)- Environmental Economics – An Introduction , McGraw-Hill(3rd ed.)
  3. Georgescu-Roegen, N. (1971) - The Entropy Law e the Economic Process, Harvard Universidade Press.
  4. Georgescu-Roegen, N. (1977) - Matter matters too‘, in: Wilson, K. D. (ed.), Prospect for Growth: changing expectações for the future, Praeger, New York.
  5. Joan Martínez Alier (1999) - Introduccio A L'Economia Ecologica
  6. Karl Polanyi (1944) A Grande Transformação 
  7. Pearce, David W.; Turner, R. Kerry (1990)- Economics of Natural Resources and the Environment, Harvester Wheatsheaf

Revolta na SIC. Trabalhadores contestam aumentos milionários na administração



A Comissão de Trabalhadores da SIC emitiu esta segunda-feira um comunicado interno na qual manifesta “o seu repúdio” pela proposta para atualizar a política de remuneração dos membros dos órgãos de administração e fiscalização do grupo, que será votada no dia 26 em Assembleia Geral.

“É particularmente incompreensível e inaceitável que, num contexto em que a empresa continua a recusar aumentos salariais para os trabalhadores – alegando constrangimentos financeiros, necessidade de contenção e sustentabilidade – surja agora uma proposta que prevê uma revisão transversal em alta das remunerações dos órgãos de administração, bem como o reforço dos mecanismos de remuneração variável e benefícios associados”, escreve a comissão de trabalhadores, no comunicado ao qual o ECO teve acesso.

Italiana MFE já é a segunda maior acionista da Impresa

“Esta opção transmite uma mensagem profundamente errada à organização: a de que existem recursos para valorizar a gestão de topo, mas não para reconhecer o esforço coletivo dos trabalhadores”, termina o comunicado, que apela também a que os trabalhadores participem na greve geral de dia 3 de junho.

Amanhã, em assembleia geral, será votada a política de remuneração dos membros dos órgãos de administração e fiscalização da Sociedade para o período de 2026/2028.

Esta prevê que o presidente do conselho de administração e presidente da comissão executiva passe a ter uma remuneração de 385.000 euros, à qual se pode juntar uma remuneração variável plurianual, com pagamento diferido a três anos, que com base no cumprimento de uma grelha de critérios pode ir até seis vezes a respetiva remuneração bruta mensal.

A remuneração variável é aplicável também aos restantes membros da comissão executiva, cuja remuneração fixa oscila entre os 254.800 e os 189 mil euros.

O CEO do grupo, recorde-se, acumula também as funções de chairman desde março, altura na qual o conselho de administração passou, com a entrada da MFE, a ter nove membros.

Francisco Pedro Balsemão, que sucedeu nas funções de presidente a Francisco Pinto Balsemão, o fundador do grupo, recebeu no último ano de remuneração fixa 280 mil euros, mais 60 mil de remuneração variável e cerca de 2.300 euros de subsídio de refeição. Francisco Pinto Balsemão, por seu turno, auferiu até 21 de outubro, data da sua morte, cerca de 101,2 mil euros.

No total, o conselho de administração recebeu no último anos 669.216 euros, 609 mil dos quais de remuneração fixa. Com a nova política de remuneração, o vencimento dos órgãos de administração e fiscalização passa para o dobro, ou seja, para 1,2 milhões de euros.

No entanto, o conselho de administração passou a ser composto por nove elementos e, como avançou o +M em abril, foi também criada uma comissão executiva, que não existia na estrutura anterior.

Ricardo Costa assume pelouro das receitas da Impresa

Nesta, Ricardo Costa é chief product officer, Teresa Gonçalves chief financial officer e Ana Costa chief operating officer, fazendo os três parte do conselho de administração.

Contactada pelo ECO/+M, a comissão executiva da SIC e da Impresa começam por “lamentar que a Comissão de Trabalhadores da SIC não tenha procurado obter esclarecimentos sobre este tema antes de enviar um comunicado interno” e lembra que a proposta é da responsabilidade da Comissão de Remunerações, “órgão independente que efetuou a proposta e submeteu-a à apreciação e votação dos acionistas da sociedade”.

“Sem prejuízo do exposto, a Impresa informa que as alterações salariais em causa resultam, no seu cômputo global, numa poupança para a sociedade“, garante fonte oficial do grupo.

Além disso, prossegue, “os reajustes realizados resultam de acréscimo de responsabilidades, seguindo a regra, transversal ao Grupo, de que a qualquer promoção na Impresa deve ser associada um acréscimo salarial, e que os vencimentos dos membros do Conselho de Administração estão alinhados com os valores praticados no mercado”.

No final de fevereiro, os trabalhadores da SIC mandataram a CT para frisar junto da administração a importância de um compromisso para um reajuste salarial, nos 3 meses que se seguiam, no mínimo de acordo com a inflação.

Em resposta, “o Diretor de Recursos Humanos (DRH) deixou claro que a prioridade da Administração, neste momento, passa por “garantir a manutenção dos postos de trabalho, assegurar a estabilidade da organização e criar condições para fazer crescer o negócio“, recorda esta segunda-feira a CT na nota interna.

“A SIC e a Impresa continuarão a proceder a atualizações salariais, e a uma gestão dinâmica dos seus trabalhadores, sempre que isso se justifique, utilizando critérios objetivos e transparentes para esse efeito”, conclui o grupo em declarações ao ECO/+M.