terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

O fascínio das corujas

Fotografia do meu Amigo Luís Aguiar

O Fascínio das Corujas: As Guardiãs Silenciosas da Noite
As corujas sempre ocuparam um lugar ambíguo no imaginário humano. De símbolos da sabedoria na Grécia Antiga a presságios de mistério em outras culturas, essas aves de rapina noturnas dominam a escuridão com uma eficiência biológica que beira a perfeição. Mas o que, exatamente, alimenta esse fascínio das corujas? A resposta está na sua anatomia altamente especializada.

Engenharia Biológica: Feitas para a Invisibilidade
A biologia das corujas é um testemunho da evolução adaptativa. Enquanto outros predadores confiam na velocidade ou na força bruta, a coruja domina através da furtividade.

1. O Voo Fantasmagórico
Ao contrário de um pombo ou de uma águia, cujo bater de asas produz um som característico, o voo da coruja é praticamente inaudível. Isso se deve às fímbrias: serrilhas nas bordas das penas que quebram a turbulência do ar, permitindo que a ave se aproxime da presa sem ser detectada.

2. Visão de Túnel (literalmente)
Os olhos de uma coruja não são globos oculares, mas sim estruturas tubulares alongadas. Essa forma permite uma retina maior e, consequentemente, uma capacidade de absorção de luz extraordinária. No entanto, por serem tubulares, elas não conseguem mover os olhos. Para compensar, a natureza as dotou de 14 vértebras cervicais (o dobro dos humanos), permitindo uma rotação de cabeça de até 270°.

3. Audição em 3D
Muitas espécies possuem aberturas auditivas assimétricas. Essa diferença de altura entre os ouvidos permite que o cérebro processe o som com um "atraso" milimétrico, criando um mapa mental tridimensional da localização da presa, mesmo que ela esteja escondida sob folhas ou neve.

O Fascínio sob a Óptica Científica
O fascínio pelas corujas não é apenas estético; é ecológico. Como predadores de topo, elas são indicadores fundamentais da saúde de um ecossistema. 
As corujas são sentinelas do ecossistema. O estudo de suas egagropilas (pelotas de restos não digeridos) é uma das ferramentas mais ricas para entendermos a biodiversidade local.
Onde há corujas saudáveis, há um controle eficiente de populações de roedores e um ambiente equilibrado.

Referências para Estudo

1. Para quem deseja aprofundar-se na biologia dessas aves, recomendamos as seguintes fontes:
  1. BACKHOUSE, Frances. Owls: Our Most Charming Bird. Firefly Books, 2021.
  2. CATRY, Paulo; COSTA, Helder; ELIAS, Gonçalo; MATIAS, Rafael. Aves de Portugal: Ornitologia do Território Continental. Assírio & Alvim, 2010.
  3. ELIAS, Gonçalo; et al. Aves de Portugal
  4. KÖNIG, Claus; WEICK, Friedhelm. Owls of the World. Yale University Press, 2008.
  5. MULLARNEY, Killian; SVENSSON, Lars. Guia de Aves (Edição portuguesa da Assírio & Alvim).
2. Estudos Académicos e Conservação
  1. ROQUE, Inês. Ecologia e Conservação de Rapinas Noturnas em Portugal. (Pesquisadora da Universidade de Évora e do ICAAM, com vasto trabalho sobre a Coruja-do-mato e o Mocho-galego).
  2. TOMÉ, Ricardo. Estudos sobre a dieta e habitat da Asio otus (Bufo-pequeno) e Tyto alba (Coruja-das-torres) em zonas agrícolas portuguesas.


Carnaval - Sobre o Riso, o Ridículo e o Sagrado


Os Evangelhos referem mais de uma vez que Jesus chorou: nomeadamente, pela morte do seu amigo Lázaro e sobre Jerusalém e a sua ruína. Nunca se diz explicitamente que sorriu ou riu. Mas está escrito que se alegrou e exultou.

Comover-se, chorar, é próprio do ser humano. Como é próprio do ser humano sorrir e rir. Por isso, lá está Santo Tomás de Aquino a argumentar que, se era humano, é claro que também riu e sorriu. O animal não chora, nem ri. O rosto de um ser humano que ri às gargalhadas pode ser do mais bonito que há. Sorrir e rir é sinal da transcendência humana: o ser humano está para lá do dado e do facto e, por isso, sempre também para lá de si mesmo. Ai do homem incapaz de rir-se de si próprio.

Evidentemente, há muitas formas de sorriso e riso, e as suas causas são múltiplas. O riso exultante não se identifica com o riso do desdém. O sorriso saltitante do acolhimento e da ternura nada tem a ver com o sorriso da ironia sardónica, e, muito menos, com o sorriso sobranceiro do desprezo. Em situações-limite, o riso estoira em lágrimas e a dor explode em riso. Tive uma vez uma jovem estudante que me pediu para escrever um “trabalho” precisamente sobre o riso, pois aconteceu-lhe que a mãe ao entrar na igreja e ao ver o cadáver da sua própria mãe (avó da jovem) começou a rir. Cá está: foi tal a dor, a angústia pela morte da mãe, que começou a rir-se - é isso: rimos até às lágrimas, choramos até ao riso.

Sintomaticamente, parte substancial das nossas piadas e anedotas não versam propriamente sobre o jocoso, em si mesmo, mas sobre realidades tremendamente sérias: o sexo, a morte, o Além. Talvez por isso mesmo: por serem terrivelmente sérias. Talvez também por isso, o poder, em princípio, não tem boas relações com o humor e o riso e as ditaduras não o toleram. É que o humor e o riso podem transportar consigo doses maciças de subversão corrosiva do poder no seu exercício, sobretudo no seu ridículo - não provém ridículo de ridere, precisamente rir?

Estas más relações são notórias concretamente quando consideramos o poder eclesiástico. Ainda não há muitos, muitos anos que os seminaristas nos seminários e as freiras nos conventos passavam os dias e as noites de Carnaval em adoração ao Santíssimo Sacramento, desagravando-o pelos pecados cometidos nesses dias e nessas noites. Não sei se alguém sabia ou saberá exactamente onde é que estava ou está a diferença entre os pecados do Carnaval e os pecados das outras épocas do ano.

Foi tardiamente que os cristãos aceitaram os festejos carnavalescos às portas dos rigores da Quaresma. Apesar das tentativas da Igreja oficial para travá-los, eles continuaram e impuseram-se. Seja como for, havia na Idade Média uma festa, que era a Festa dos Loucos. Nessa festa, chegava-se ao cúmulo de paramentar um burro, que entrava, portanto, na igreja com as vestes litúrgicas.

Realizava-se a Festa dos Loucos, uma crítica brutal ao poder eclesiástico. Arranjava-se um subdiácono, o grau mais baixo da hierarquia, era vestido de “bispo”, colocado em cima de um burro, entrava na igreja com a face voltada para a cauda, de costas para o altar. Em momentos fundamentais da liturgia, o celebrante e o povo zurravam. Na transmissão simbólica do báculo episcopal, rezava-se o Magnificat naquele passo: “E Deus derrubou os poderosos e exaltou os humildes.”

Há um texto da Faculdade de Teologia de Paris, que, em 1444, assim quer justificar a Festa dos Loucos: “Os nossos eminentes antepassados permitiram esta festa. Porque haveria ela de ser-nos interdita? Os tonéis do vinho rebentariam, se de vez em quando não se abrisse o batoque para arejá-los. Ora, nós somos velhos tonéis mal ajustados, que o vinho da sabedoria rebentaria se o deixássemos ferver numa devoção contínua ao serviço divino. É por isso que dedicamos alguns dias aos jogos e à palhaçada, a fim de voltarmos em seguida com mais alegria e fervor ao estudo e aos exercícios da religião.” Pelo menos, nessa altura, era permitido pôr a ridículo o poder clerical.

No meio de todo aquele aparato do Vaticano, não há uma contradição entre a pompa e a cruz? E há aquele texto do filósofo Sören Kierkegaard, que diz mais ou menos assim: vai Sua Excelência Reverendíssima o Bispo de Copenhaga, revestido de paramentos com filamentos de ouro e um báculo e uma mitra debruados de pedras preciosas, com todo o seu séquito em esplendor, senta-se num cadeirão de prata e dá início à sua homilia sobre a pobreza. E ninguém se ri!

A alguém que se sentisse irritado com estas perguntas lembro um texto de Joseph Ratzinger, mais tarde Bento XVI, no qual escreveu que, se hoje se critica menos a Igreja do que na Idade Média, não é porque se tem mais amor à Igreja, mas a si e à carreira.

É, para mim, evidente que não deve, não pode ser permitido ridicularizar de modo boçal o Sagrado, o Divino. Se isso fosse permitido, era a hecatombe. Mas a questão é outra: pôr a nu, pelo riso, a diferença entre o Sagrado e aquilo que nós, seres humanos finitos, fazemos dele é saudável. Porque o Divino e o Sagrado não se identificam com o que fazemos deles. Quem pode imaginar e admitir o ridículo de certas imagens de Deus na inteligência e no coração de alguns crentes? Assim, rir-se do modo como nós falamos do Mistério e do modo como o tratamos pode ser uma maneira sã de nos darmos conta da Transcendência do Mistério e do Divino. Que ao mesmo tempo se revelam e se ocultam.

The Smashing Pumpkins - Try, Try, Try


Uma canção que é um hino à capacidade sobre-humana de resistência da vida face ao infortúnio

Letra
Pop Tart, what’s our mission?
Do we know but never listen?
For too long they held me under
But I hear it’s almost over
In Detroit on a Memphis train
Like you said, it’s down in the heat and the summer rain
The automatic gauze of your memories
Down in the sleep at the airplane races

[Chorus]
Try to hold on
To this heart a little bit longer
Try to hold on
To this love aloud
Try to hold on
For this heart’s a little bit colder
Try to hold on
To this love

[Post-Chorus 1]
Paperback scrawl your hidden poems
Written around the dried out flowers
Here we are, still trading places
To try to hold on

[Verse 2]
Pop Tart, can you envision
A free world of clear division?
For too long they held us under
But I know we’re getting over
In Detroit with the Nashville tears
Like you said, it’s down in the heat with the broken numbers
Down in the gaze of solemnity
Down in the way you’ve held together

[Chorus]
Try to hold on
To this heart a little bit closer
Try to hold on
To this love aloud
Try to hold on
For this heart’s a little bit older
Try to hold on
To this love aloud

[Bridge]
And we are still alive
Try to hold on
And we have survived
Try to hold on
And no one should deny
[Post-Chorus 2]
We tried to hold onto the pulse of the feedback current
Into the flow of encrypted movement
Slapback kills the ancient remnants
That try to hold on

[Chorus]
Try to hold on
To this heart alive
Try to hold on
To this love aloud
Try to hold on
And we are still alive
Try to hold on
And we have survived
Try to hold on

[Outro]
Pop Tart, you never listen
Skinned knees, try to hold on
Stop start, what’s our mission?
Skinned knees, try to hold on

Esta é uma das músicas mais emocionantes do álbum Machina/The Machines of God. É aquele tipo de canção que equilibra perfeitamente a melancolia com uma ponta de esperança, típica do Billy Corgan.

Se é a primeira vez que escutas esta faixa agora, vale a pena notar alguns pontos:

1. A atmosfera sonora
Diferente do som pesado de guitarras de álbuns anteriores, "Try, Try, Try" é mais atmosférica e eletrónica.

O Ritmo: Tem uma batida constante, quase hipnótica, que dá uma sensação de movimento (ou de cansaço repetitivo).

Os vocais: O Corgan canta de uma forma mais suave e vulnerável, o que combina com a letra sobre "tentar aguentar firme".

2. O Vídeo (Curta-Metragem)
O videoclipe é, na verdade, um curta~metragem de 15 minutos dirigido por Jonas Åkerlund. É uma experiência bem forte:

A História: mostra a vida crua de um casal sem-teto em Estocolmo, lidando com vício e pobreza extrema.

O impacto: O vídeo muda completamente a percepção da música. O que parece ser um conselho genérico de "tente mais uma vez" se torna um grito desesperado de sobrevivência. Na época, foi amplamente censurado pela MTV por ser pesado demais.

Por que ela é especial?
Em "Try, Try, Try", do The Smashing Pumpkins, a repetição do verso “Try to hold on” (“Tente aguentar firme”) destaca a luta constante para manter a esperança e o afeto em meio ao desgaste emocional e à dor. A música aborda a perseverança como um ato de resistência e sobrevivência, especialmente diante de situações difíceis. Imagens como “skinned knees” (“joelhos ralados”) e menções a cidades como Detroit e Memphis conectam a letra à realidade dura mostrada no videoclipe, onde jovens enfrentam marginalização, vício e perda. Essa ligação entre a letra e o vídeo reforça o retrato de um cotidiano marcado por desafios sociais e emocionais.

A melancolia da canção é intensificada por versos como “the automatic gauze of your memories” (“a gaze automática das suas memórias”) e “paperback scrawl your hidden poems / written around the dried out flowers” (“rabisco de bolso seus poemas escondidos / escritos ao redor das flores secas”). Esses trechos evocam lembranças de tempos melhores e a tentativa de preservar sentimentos em meio ao caos. O single também traz símbolos alquímicos e referências místicas, sugerindo que a busca por sentido e redenção é complexa e quase espiritual. Mesmo com o coração “a little bit colder” ou “older” (“um pouco mais frio” ou “mais velho”), a insistência em tentar seguir adiante transforma a música em um hino à resiliência, reconhecendo tanto a dor quanto a força de quem não desiste.

Em termos de banda e destino 
Try,Try,Try marcou o fim da "era clássica" do Smashing Pumpkins, já que a banda se separou pouco tempo depois, no final de 2000. Ela carrega aquele peso de despedida, de quem já deu tudo de si e está tentando encontrar um motivo para continuar.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Roberta Mameli, Verso già l'alma col sangue


Verso già l'alma col sangue faz parte de Aci, Galatea e Polifemo uma serenata dramática (uma espécie de ópera curta ou cantata encenada) composta por Handel em 1708, durante sua estadia em Itália.

Letra
Aci:
Verso già l’alma col sangue, 
lento palpita il mio cor.
Già la vita manca e langue 
per trofeo d’empio rigor.

A ária "Verso già l'alma col sangue" é o momento clímax e trágico da obra. Ela é cantada por Aci (Ácis), um jovem pastor que está a morrer.

O triângulo amoroso: Aci e a ninfa marinha Galatea estão profundamente apaixonados. No entanto, o ciclope Polifemo também deseja Galatea e nutre um ciúme doentio pelo pastor.

A tragédia: em um acesso de fúria, Polifemo esmaga Aci com um enorme rochedo.

A despedida: enquanto a vida se esvai ("a alma se verte com o sangue"), Aci canta esta ária expressando o seu sofrimento e a injustiça da crueldade ("empio rigor") de Polifemo.

O desfecho: após a morte de Aci, Galatea usa os seus poderes divinos para transformar o sangue do seu amado numa fonte de água cristalina (o rio Ácis, na Sicília), para que ele possa correr eternamente até o mar e unir-se a ela.

Governo paga 20 mil euros para ter SportTV em São Bento - uma atitude sem noção e insensível, típico de narcisistas


Ser confrontado com a notícia de que o Governo de Luís Montenegro decidiu gastar cerca de 20 mil euros para instalar o canal Sport TV na residência oficial do Primeiro Ministro e no Parlamento nesta altura do país é, no mínimo, um sinal de desfasamento profundo entre o que este executivo escolhe como prioridade e aquilo que os cidadãos realmente vivem.
Este contrato de três anos, celebrado por ajuste direto com a NOS, garante acesso ‘premium’ a canais desportivos que transmitem futebol, incluindo a liga portuguesa e competições europeias, e será pago com dinheiro público até 2028 — um montante que se justifica facilmente, mas que politicamente soa a falta de empatia e sentido de realidade face ao sofrimento de quem perdeu casa, energia ou meios de subsistência na sequência das tempestades. 
Não é a questão do valor — 20 mil euros não vão desestabilizar um Orçamento do Estado — é a hierarquia de prioridades que está em causa 
Quando o Governo admite défices para cobrir os apoios às vítimas das calamidades, quando milhares aguardam apoios urgentes e quando a própria resposta estatal foi lenta e insuficiente em muitas regiões, optar por gastar dinheiro dos contribuintes em canais desportivos para o Primeiro Ministro e para o Parlamento é uma demonstração flagrante de falta de noção sobre as expectativas e necessidades do país Esta decisão transmite uma mensagem implícita de desconexão social: enquanto cidadãos lutam com as consequências de uma catástrofe natural, o executivo parece mais preocupado com entretenimento institucional do que com a eficácia da resposta à crise. 
 A incapacidade de priorizar o essencial reflete, sobretudo, uma falta de empatia que não combina com responsabilidade governativa séria. 

A graciosidade efémera nas nossas cidades


Foto do meu amigo Nuno Pimenta

Grace amidst the grind

"One gaze follows the path ahead,
Tracing the lines where the sunlight is shed.
The other lingers, a quiet surprise,
With the world’s hidden mischief caught in her eyes.

Between the stone walls and the crowd's muffled roar,
Is a secret shared, then a moment more.
Amidst the grind, two women remain in a soft, steady light
The heart of the city, looking back at you. " 
João Soares, 13.02.206

Sobre os efeitos negativos da gentrificação aqui e aqui

Pia Erlandsson - uma pintora singular

Under Trädet - Debaixo da Árvore (2013)

Pia Erlandsson (pintora Sueca, nascida em 1961)

Estilo e Temas
O trabalho de Erlandsson é frequentemente descrito como etéreo e focado na figura humana.

Temas:  as suas obras retratam principalmente pessoas, buscando transmitir emoções universais e diferentes estados da mente humana.

Estilo: ela explora a tensão e a harmonia entre cores, formas, luz e sombra. Os seus fundos são muitas vezes abstratos, permitindo que o espectador crie seu próprio espaço interpretativo. Para a artista, a pintura é uma narrativa onde cores e formas funcionam como "palavras". 

A indefinição dos rostos é a "assinatura" emocional de Pia Erlandsson. Essa técnica confere um aspecto onírico (parecido com um sonho) às obras. Em nossos sonhos e memórias, raramente lembramos de rostos com nitidez fotográfica; lembramos da "sensação" da presença da pessoa. A figura deixa de ser "uma pessoa específica" e passa a ser um "sentimento humano". Ou seja, com o rosto esfumado ou inacabado, o foco muda para a postura, a luz e a cor, que comunicam o estado emocional — como a introspecção, a alegria, conexão humana, conexão ecológica, a dúvida ou a solidão. 

Técnicas:
Pia Erlandsson é amplamente reconhecida pelo seu trabalho com aquarela, mas diversificou sua produção nos últimos anos:
Aquarela: é sua técnica principal, onde ela aproveita a imprevisibilidade do pigmento e da água no papel.
Acrílica e óleo: começou a trabalhar com estas técnicas mais recentemente, aplicando-as em telas (muitas vezes de grandes dimensões).


Esta obra de Pia Erlandsson é intitulada "Beslut"- 2014 (que em sueco significa "Decisão").

O que a obra transmite?
Pia Erlandsson é mestre em capturar o que ela chama de "estados da mente", e "Beslut" é um exemplo perfeito disso:

Dilema interno: a presença de múltiplas figuras (ou versões da mesma figura) sugere o processo mental de uma tomada de decisão. As diferentes direções dos olhares e as inclinações das cabeças representam a dúvida, a hesitação e a ponderação.
Melancolia e introspecção: o uso de contornos difusos e cores que "sangram" umas nas outras cria uma atmosfera onírica, quase fantasmagórica, sugerindo que estamos vendo um sentimento em vez de uma cena física real.
Conflito silencioso: Há um contraste entre a leveza da aquarela e o peso emocional nos rostos. A figura à direita, olhando para fora do grupo, parece representar o momento em que se escolhe um caminho diferente dos outros.
Fraturnidade ou solidão coletiva: As figuras estão próximas, mas não interagem entre si, transmitindo uma sensação de isolamento, mesmo quando acompanhadas.
É uma pintura que ressoa com quem já se sentiu "dividido" diante de uma escolha importante.

"Tre kvinnor" (Três Mulheres) 2016

Ao contrário das aquarelas anteriores, esta peça demonstra a transição da artista para o uso de acrílico sobre tela, o que resulta em texturas mais marcadas e cores mais saturadas.

O que a obra transmite?
Esta pintura explora a dinâmica das relações interpessoais e a individualidade dentro de um grupo:

Comunicação silenciosa: as três figuras femininas estão próximas, mas não há um contato visual direto óbvio entre todas. Isso evoca uma sensação de conversa interna ou de uma conexão que não precisa de palavras.
Contraste de personalidades: O uso das cores nas vestimentas (o vermelho vibrante, o branco puro e os tons mais escuros) pode ser interpretado como diferentes facetas de uma mesma psique ou temperamentos distintos que coexistem num mesmo espaço.
Presença e ausência: enquanto as figuras centrais e da esquerda parecem mais integradas, a figura à direita possui uma postura mais altiva e um olhar direcionado para cima, sugerindo aspiração, distanciamento ou uma busca por algo além do círculo imediato.
Luz e sombra: a iluminação dramática, vinda da esquerda, cria um jogo de sombras que dá profundidade e um ar de mistério à cena, característica marcante do trabalho de Erlandsson em óleo e acrílica.
É uma obra que transmite força feminina e uma certa solenidade, típica da forma como Pia retrata a figura humana como algo sagrado e introspectivo.

Black Swan Lane - Slip

I’ll never forget. 
What’s in your mind. 
It makes me blind. 
It makes me high. 
An infinite love. 

I cannot change. 
An infinite life. 
It makes me blind. 
It gets me high. 

Filmed in Turin, Manchester and Atlanta
Terry McGarry é a personagem principal do vídeo.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Vivaldi - "Apri le luci, e mira" por Roberta Mameli


"Apri le luci, e mira" é uma ária da ópera Catone in Utica (RV 705), composta por António Vivaldi com libreto de Pietro Metastasio. A ária aparece no Ato I, Cena 9 ou 10, dependendo da edição, e é frequentemente interpretada por sopranos, como Roberta Mameli, ou contra-tenores.

Mais informações aqui

Apri le luci

Apri le luci e mira
Il mio costante affetto
Per te il mio cor sospira
Per te il mio cor sospira, sospira
E non l'inten...
Intendi ancor

Apri le luci e mira
E mira il mio costante affetto
E mira il mio costante affetto
Per te il mio cor sospira
Per te il mio cor sospira
Costa...ante
Costa...ante

Apri le luci e mira
Il mio costante affetto
Per te il mio cor sospira
E non l'intendi ancor
E non l'intendi ancor

E in tacita favella
Co' soli miei sospiri
Ti scopro, oh Dio, la bella
Fia...amma che m'arde il cor

Ti scopro, oh Dio
La bella bella fia...amma
Oh Dio, co' miei sospiri
La bella bella fiamma
Che m'arde, m'arde il cor
Che m'arde, che m'arde il cor

Apri le luci
Apri le luci e mira
Il mio costante affetto
Per te il mio cor sospira
Per te il mio cor sospira, sospira
E non l'inten... intendi ancor

Apri le luci e mira
E mira il mio costante affetto
E mira il mio costante affetto
Per te il mio cor sospira
Per te il mio cor sospira
Costa...ante
Costa...ante

Apri le luci e mira
Il mio costante affetto
Per te il mio cor sospira
E non l'intendi ancor
E non l'intendi ancor

O Enredo e a Personagem
A ária é cantada por Arbace, o Príncipe da Numídia. Ele está profundamente apaixonado por Marzia, a filha de Catão (Cato), o Jovem. O conflito central da cena reside na lealdade dividida e no amor não correspondido:

A Situação: Arbace é um aliado fiel de Catão contra Júlio César. No entanto, Marzia, por quem ele é devoto, está secretamente apaixonada pelo inimigo de seu pai, César.

O Momento: A ária ocorre após um confronto onde Arbace tenta expressar os seus sentimentos ou a sua fidelidade, enfrentando a frieza ou a agitação de Marzia.

O Significado do Texto
O título traduz-se como "Abre os olhos e olha".

Apelo Emocional: Arbace pede a Marzia que olhe para ele e reconheça o sofrimento e a sinceridade do seu amor.

Contraste Dramático: A letra evoca a imagem de alguém que está a "morrer" de amor ou lealdade, implorando por um único gesto de compaixão ou reconhecimento antes do destino trágico que a guerra civil romana impõe a todos.

Características Musicais
Como é típico de Vivaldi, a música reflete o estado psicológico da personagem:

Estilo: é uma ária que mistura o virtuosismo técnico do barroco com uma linha melódica expressiva, destinada a mostrar a nobreza e a agonia de Arbace.

Instrumentação: o acompanhamento de cordas é vibrante, sublinhando a urgência do pedido "Apri le luci" (abre os olhos).

Encontros Improváveis: Véronique du Boisrouvray e Albert Camus

Véronique du Boisrouvray - La Médaille (2018)

Quando vi este quadro à minha frente, pensei logo em Albert Camus: "Todo o acto de rebeldia expressa uma nostalgia pela inocência e um apelo à essência do ser." 

A Condessa Véronique du Boisrouvray nasceu em Paris, em 1951.

É uma artista autodidata de pastel e retrato
Contexto: Oriunda de uma linhagem aristocrática, a sua vida é marcada pela discrição e pela dedicação total ao aperfeiçoamento da sua arte, sendo membro de honra de prestigiadas sociedades de pastellistas.

Estilo e Técnica
A obra de Boisrouvray é frequentemente descrita como Realismo Poético ou Hiper-realismo Suave.

A Técnica do Pastel: ela utiliza o pastel seco com uma precisão cirúrgica. Ao contrário de muitos artistas que procuram um efeito "esfumado" ou impressionista, Véronique trabalha as camadas para obter uma densidade de cor e uma textura que, à primeira vista, muitos confundem com pintura a óleo.

Luz e Sombra: A sua técnica foca-se no chiaroscuro (claro-escuro), onde a luz parece emanar de dentro dos objetos, conferindo-lhes uma qualidade quase sagrada ou eterna.

Precisão: Existe um rigor técnico extremo na representação das texturas — seja a transparência de um vidro, a suavidade de uma pétala ou a rugosidade de uma fruta.

Tema Principal
A artista foca-se no retrato.
Como explora o retrato?
A artista não se limita a reproduzir uma face; ela utiliza o pastel seco para construir uma presença física e psicológica:

A Técnica da Camada: ela sobrepõe inúmeras camadas de pigmento puro para criar a "carne" do rosto. Isso permite-lhe obter tonalidades de pele extremamente realistas, onde a luz parece estar sob a epiderme, e não apenas refletida nela.

O foco no detalhe tátil: Véronique dá a mesma importância à textura de um tecido (como a blusa em "La Médaille") ou ao brilho de um fio de cabelo do que aos traços fisionómicos. Isso cria uma sensação de proximidade quase íntima com o modelo.

Iluminação de Estúdio Clássica: ela utiliza frequentemente fundos neutros e escuros (estilo tenebrismo), o que isola o sujeito e força o observador a concentrar-se na expressão e na interioridade da pessoa retratada.

Qual é a mensagem?
A mensagem central da sua obra foca-se na dignidade do silêncio e na beleza da introspeção:

A pausa no Tempo: num mundo saturado de imagens rápidas e digitais, os seus retratos convidam à lentidão. A mensagem é que existe uma beleza profunda nos momentos comuns e silenciosos.

A humanidade singular: ao pintar modelos contemporâneos com uma técnica que remete aos grandes mestres do passado, ela transmite a ideia de que a dignidade humana é intemporal.

A Espiritualidade no quotidiano: Através do uso magistral da luz, a artista eleva o modelo a algo quase sagrado. A "mensagem" não é política ou social, mas sim estética e contemplativa: um apelo para reconhecer a poesia na luz que incide sobre um rosto ou um objeto.


Prémios e Exposições
Apesar de não ter um currículo académico padrão, a sua qualidade técnica é tão elevada que é reconhecida por instituições de elite. É membro da Sociedade Francesa de Pastel, da Sociedade Francesa de Arte em Pastel e membro efetivo da Sociedade de Pastel da América. Expõe em mostras internacionais, nomeadamente no Festival Internacional de Pastel de Feytiat, e alcançou o estatuto de "Master Circle" na IAPS em 2023.

"A minha busca é a da harmonia e da luz. O pastel permite-me tocar a matéria de uma forma que nenhum outro meio consegue."

Por que a sua obra é relevante?
Num mundo artístico muitas vezes focado no abstrato ou no digital, Véronique du Boisrouvray mantém viva a tradição da observação meticulosa. Ela prova que o pastel, muitas vezes visto como um meio secundário ou de esboço, é capaz de uma profundidade e durabilidade monumentais.

Firecrest ou Estrelinha-real

Firecrest (Regulus ignicapilla)

The smallest passerine of Europe
"In the emerald cathedrals of the forest, there dwells a tiny sovereign—the Firecrest. Though he is but a thumb’s weight of breath and bone, the smallest spark in Europe’s vast woods, he refuses to be overlooked. He wears a sliver of the sun upon his head as a crown, a fierce golden stripe that belies his fragile frame.

He does not sing to explain the wind or to justify his place among the towering pines. He sings because he is a miniature masterpiece, casting a melody as bright and sharp as a needle’s point into the quiet air. To see him is to realize that beauty is never measured by scale, but by the fire one carries within." 
- João Soares 09.02.26

Chelsea Wolfe - Feral Love


[Verse]
Run from the light
Your eyes, black like an animal
Deep in the wander
And care for no one but the offspring of your might

Run from the one who comes to find you
Wait for the night that comes to hide

Your eyes, black like an animal
Black like an animal
Crossing the water
Lead them to die

[Chorus]
We press for the water
Press for the river, press for the rain

"Feral Love" é a primeira faixa do álbum Pain is Beauty (2013) de Chelsea Wolfe. A música foi utilizada no trailer da quarta temporada de Game of Thrones.

Conflito primal e desejo de liberdade em “Feral Love”
Ao abrir o álbum "Pain Is Beauty" com "Feral Love", Chelsea Wolfe destaca o conflito entre instinto selvagem e as regras da civilização, tema inspirado no romance "Sons and Lovers" de D.H. Lawrence. A repetição do verso “Your eyes, black like an animal” (Seus olhos, negros como os de um animal) enfatiza a animalidade e a recusa em se submeter à luz, que simboliza exposição, controle social e racionalidade. O trecho “Run from the light” (Fuja da luz) reforça essa fuga consciente do que é civilizado em direção ao que é primal e instintivo.

O refrão “We press for the water, press for the river, press for the rain / We press for the water, press for the river, press for the pain” (Buscamos a água, buscamos o rio, buscamos a chuva / Buscamos a água, buscamos o rio, buscamos a dor) mostra uma busca intensa por algo essencial, mas também perigoso e doloroso. A água pode simbolizar vida e renovação, mas também travessia e risco, sugerindo a vontade de ultrapassar limites em busca de liberdade, mesmo que isso traga sofrimento. O videoclipe e o filme “Lone” ampliam essa interpretação, ligando a música a temas de natureza, sexualidade e mortalidade, onde o desejo de fuga e autopreservação se mistura à dor inevitável. A presença da faixa em “Game of Thrones” reforça o clima sombrio e a luta pela sobrevivência em ambientes hostis, intensificando o tom da composição.
Versão [espectacular]
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sábado, 14 de fevereiro de 2026

Dia do Amor - Handel: Dove sei, amato bene (Rodelinda)



Sobre a Ópera Rodelinda

Dove sei, amato bene!
Vieni, l’alma a consolar

Sono oppresso da’ tormenti
ed i crudeli miei lamenti
sol con te posso bear.

Dove sei... 

Tradução
Onde estás, amado!
Vem, consola a minha alma.

Estou oprimido por tormentos,
e os meus cruéis lamentos
só contigo posso suportar.

Onde estás...

Esta é uma das árias mais belas e emocionantes de George Frideric Handel. Ela faz parte da ópera Rodelinda, estreada em 1725, em Londres.

Aqui está o contexto dramático e a tradução para ajudar você a sentir a profundidade da obra:

O Contexto na Ópera Rodelinda
A ária é cantada por Bertarido, o rei deposto de Milão. Todos acreditam que ele morreu no exílio, inclusive a sua esposa, a rainha Rodelinda.

Neste momento (Ato I, Cena VI), Bertarido retorna disfarçado e vê seu próprio monumento fúnebre erguido pela rainha. Ele está escondido, observando de longe o sofrimento da sua amada, sentindo a dor da separação e a solidão de ser um "fantasma" em seu próprio reino. É um momento de extrema vulnerabilidade e melancolia.

1. Mais sobre Georg Friedrich Händel
2. Cantada por Jakub Józef Orliński
3. Dia de S.Valentim. Dias dos Namorados. Dia do Amor

Feliz Dia do Amor - Jakub Józef Orliński sings "L'amante consolato"


Son tanto ito cercando
che pur alfin trovai
colei che desiai
duramente penando,
Oh questa volta sì ch'io non m'inganno,
s'io non godo mio danno!

Son tali quei contenti
che pur alfin io provo
che tutto mi rinovo
doppo lunghi tormenti.
Ma tutti com'io fo far non sapranno
chi non gode suo danno.


English
I searched for so long
that I finally found
the one that I desired,
after rigorous suffering.
Oh, this time let me not fool myself,
let me not be rejoicing in my own downfall.

The delights that I feel
at last are such
that everything renews me,
after prolonged agony.
But not everyone would be able to do as I do,
not being able to rejoice in their own downfall.

A epidemia invisível dos ultraprocessados


Nas prateleiras dos supermercados, embalagens coloridas prometem conveniência, sabor imediato e preços acessíveis. Mas por detrás dessa sedução industrial esconde-se uma ameaça que a ciência tem vindo a estudar e não permite ignorar. Um estudo internacional publicado na The Lancet, assinado por 43 especialistas de vários países, revela que os alimentos ultraprocessados não são apenas "menos saudáveis” são agentes ativos de doença, com impacto mensurável em praticamente todos os órgãos humanos.

Os números impressionam. Em países como EUA, Reino Unido e Austrália, metade das calorias ingeridas diariamente provém de ultraprocessados. Snacks embalados, refrigerantes, refeições prontas e cereais artificiais tornaram-se rotina, substituindo alimentos frescos e minimamente processados. O estudo identificou mais de 30 associações distintas entre o consumo destes produtos e doenças crónicas: obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão, problemas cardiovasculares, depressão e mortalidade precoce.

Mas o alerta vai mais longe. Não se trata apenas de calorias vazias ou excesso de açúcar. Os investigadores descrevem um efeito sistémico: fígado, rins, coração e cérebro mostram sinais de impacto direto. A combinação de aditivos, emulsionantes e processos industriais altera a forma como o corpo metaboliza os alimentos, criando uma espécie de “nova biologia alimentar” que fragiliza o organismo.

Esperar por "provas perfeitas" é repetir erro histórico
A comparação com o tabaco é inevitável. Tal como aconteceu no século XX, as empresas recorrem a marketing agressivo, lobbying político e estratégias de influência para atrasar regulamentações. A The Lancet avisa: esperar por “provas perfeitas” seria repetir o erro histórico de deixar que um produto nocivo se enraizasse ainda mais nas dietas globais.

O estudo não se limita à ciência. Aponta também para a política e para a desigualdade social. Os ultraprocessados são mais consumidos em comunidades vulneráveis, onde o preço e a conveniência pesam mais do que a qualidade nutricional. A crise é, portanto, dupla: sanitária e social.

​​De acordo com os inquéritos nacionais analisados pelos investigadores da série publicada na The Lancet, a presença destes produtos na dieta das famílias aumentou de forma expressiva nas últimas décadas. Em Espanha, por exemplo, a proporção de energia proveniente de ultraprocessados nas compras alimentares quase triplicou, passando de cerca de 11% para 32%. Na China, o salto foi igualmente significativo, de 4% para 10% em apenas 30 anos. A tendência repete-se na América Latina: no México e no Brasil, a contribuição energética dos ultraprocessados duplicou em 40 anos, evoluindo de 10% para 23%.

A análise mostra ainda que a proporção destes produtos na ingestão energética total varia de acordo com fatores económicos e culturais. Nos países do Sul da Europa com maior rendimento, como Portugal, Itália, Chipre e Grécia, e em algumas economias asiáticas, como Taiwan e Coreia do Sul, os ultraprocessados representam menos de um quarto da dieta. Já em nações como Austrália e Canadá, essa percentagem ultrapassa os 40%, enquanto no Reino Unido e nos EUA chega a superar metade da energia diária consumida.

Desafio não é só individual
Os especialistas pedem medidas urgentes: legislação forte, rotulagem clara com alertas visíveis, promoção ativa de dietas frescas e acessíveis e políticas públicas que enfrentam desigualdades. Para além da transparência informativa, defendem também regras mais apertadas no campo do marketing, sobretudo no que toca à publicidade dirigida a crianças e à difusão em plataformas digitais. Entre as medidas propostas está ainda a exclusão de alimentos ultraprocessados de instituições públicas, como escolas e hospitais, e a definição de limites tanto para a sua comercialização como para o espaço que ocupam nas prateleiras dos supermercados.

O desafio é global e não pode ser resolvido apenas com escolhas individuais. No fundo, o que este estudo revela é uma verdade desconfortável: os ultraprocessados são um motor silencioso da crise de saúde contemporânea. A sua omnipresença nas mesas e prateleiras representa uma ameaça comparável às epidemias de tabaco e álcool do século passado. A diferença é que, desta vez, a ciência chega cedo e clara. Falta saber se a política terá coragem de colocar a saúde antes do lucro.