quarta-feira, 3 de junho de 2026

Cerca de 290 lobos em Portugal e quase 400 prejuízos comunicados este ano

Quase 400 comunicações de prejuízos atribuídos ao lobo-ibérico já chegaram este ano ao Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas. O número foi avançado ontem, na Assembleia da República, durante uma audição sobre a proteção da espécie e os impactos na pecuária, e aproxima-se das 511 comunicações registadas em todo o ano anterior.
A audição, requerida pelo PAN e pelo Chega, decorreu na Comissão de Agricultura e Pescas e teve como pano de fundo o Programa Alcateia 2025-2035, aprovado pelo Ministério do Ambiente e Energia. Em debate estiveram as medidas de conservação do lobo-ibérico, mas também a resposta aos produtores pecuários afetados por ataques ao gado.
O ICNF associou o aumento das comunicações à atualização dos valores das compensações, admitindo que muitos produtores que anteriormente já não participavam os prejuízos poderão ter voltado a fazê-lo. O instituto defendeu ainda que o Programa Alcateia foi construído com entidades envolvidas no processo e que foram realizadas ações de comunicação para o fazer chegar aos interessados.
Mas os números abriram uma discussão mais larga sobre a eficácia das respostas no terreno. A Rewilding Portugal defendeu a criação de uma linha telefónica dedicada no ICNF para criadores sem meios digitais, a possibilidade de participação presencial nas juntas de freguesia, GNR ou serviços municipais, melhor articulação entre plataformas como IFAP e SENIRA e vistorias no próprio dia da comunicação. A entidade lembrou ainda que os valores das compensações foram atualizados em 2025 pela primeira vez desde 2017, após oito anos sem revisão.
A dimensão da população de lobo-ibérico em Portugal também entrou na discussão. A Palombar indicou que a espécie tem uma população pequena, fragmentada e em regressão, com uma redução de cerca de 20% da área de presença nas últimas duas décadas. O efetivo nacional foi estimado entre 190 e 390 animais, com uma média aproximada de 290 lobos.
A mesma associação defendeu que a coexistência passa por equipas de proximidade nas zonas onde surgem conflitos, apoio técnico às explorações, valorização da pastorícia, cães de proteção de gado e melhor prevenção. Segundo a Palombar, quando bem aplicadas, as medidas preventivas podem reduzir em 95% o número de ataques.
O BIOPOLIS/CIBIO alertou para a necessidade de análises forenses e genéticas que permitam identificar a origem dos ataques ao gado. A investigadora Raquel Godinho sublinhou a presença de cães errantes no território e o risco de hibridação entre cão e lobo, defendendo monitorização sistemática para distinguir ataques de lobos, cães ou híbridos.
O Grupo Lobo apontou o furtivismo como um dos principais problemas para a conservação da espécie e defendeu equipas de intervenção rápida, cães de proteção de gado, dispositivos de prevenção, melhoria do habitat e promoção de presas silvestres, como o corço. A associação admitiu o pagamento de prejuízos em caso de dúvida, mas rejeitou subsídios de risco generalizados, defendendo antes a valorização dos produtores que aplicam medidas de prevenção.
Da audição saiu um conjunto de prioridades: compensações mais rápidas, menos burocracia, equipas no terreno, controlo de cães errantes, combate ao furtivismo, melhor monitorização científica e apoio direto aos produtores em zonas de presença do lobo.
Em regiões como Trás-os-Montes, o Barroso e o Alto Tâmega, onde a pecuária extensiva mantém peso económico e social, a aplicação prática destas medidas será determinante para compatibilizar a conservação do lobo-ibérico com a atividade das explorações agrícolas.

terça-feira, 2 de junho de 2026

Secos & Molhados - Sangue Latino


Jurei mentiras e sigo sozinho
Assumo os pecados
Os ventos do norte não movem moinhos
E o que me resta é só um gemido

Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos
Meu sangue latino
Minh'alma cativa

Rompi tratados, traí os ritos
Quebrei a lança, lancei no espaço
Um grito, um desabafo
E o que me importa é não estar vencido

Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos
Meu sangue latino
Minh'alma cativa

A música "Sangue latino", dos Secos & Molhados, destaca a resistência e a afirmação da identidade latino-americana diante de influências externas e opressão. O verso “Os ventos do norte não movem moínhos” sugere que soluções vindas de fora não resolvem os problemas internos do povo latino, reforçando a necessidade de buscar força e respostas dentro da própria cultura. Ao repetir “meu sangue latino, minh'alma cativa”, a canção expressa o orgulho de pertencer a esse povo, mas também reconhece a condição de opressão e luta constante.

Lançada durante a ditadura militar no Brasil, a música ganha ainda mais força como símbolo de resistência. Versos como “rompi tratados, traí os ritos” e “o que me importa é não estar vencido” mostram a coragem de desafiar tradições e enfrentar a repressão, mesmo que isso traga sofrimento ou isolamento. A letra mistura sentimentos pessoais e coletivos, abordando culpa, luta e pertença. O “grito, um desabafo” representa a necessidade de se expressar diante da opressão. Assim, "Sangue latino" consolida-se como um hino de resistência cultural e celebração da identidade dos povos latino-americanos, refletindo a sua trajetória de superação.

Sangue Latino - Ney Matogrosso (Por Trás da Canção)
Secos & Molhados - Compilação dos anos 1973 e 1974

Nem todos os narizes são iguais

Além do horizonte olfativo: uma Análise científica sobre a perceção química nos Mamíferos

Introdução
A perceção do mundo que nos rodeia é moldada pelos limites dos nossos próprios sentidos. Para o ser humano, a visão tende a ser o sentido primordial, o que frequentemente nos leva a subestimar a complexidade do universo químico que outros animais habitam. O infográfico analisado ilustra as distâncias estimadas a que diferentes mamíferos conseguem detetar o odor humano, variando entre escassos três metros na nossa própria espécie e impressionantes dezenas de quilómetros no reino dos grandes carnívoros e megafauna. Embora a propagação de partículas de odor na atmosfera dependa criticamente de variáveis ambientais dinâmicas — como a humidade, a velocidade e direção do vento, e a topografia do terreno —, a biologia molecular e a ecologia comportamental fornecem bases sólidas que validam a extraordinária assimetria retratada na imagem.

A Supremacia Genética do Elefante
No infográfico, o elefante surge com uma capacidade de deteção estimada em 15 quilómetros. Longe de ser um exagero hiperbólico, esta marca encontra eco direto na genética evolutiva. Em 2014, uma equipa de investigadores liderada por Yoshihito Niimura publicou um estudo pioneiro na revista Genome Research, onde examinou o repertório de genes de recetores olfativos (OR, do inglês Odorant Receptor) em treze espécies de mamíferos.

Os resultados revelaram que o elefante-africano (Loxodonta africana) possui cerca de 2 000 genes funcionais dedicados ao olfato, estabelecendo o recorde absoluto do reino animal conhecido. Esta dotação genética é mais do que o dobro da registada nos cães e cerca de cinco vezes superior à dos humanos. No plano ecológico, a organização Tsavo Trust e o SeaWorld documentam que este apuradíssimo sentido permite aos elefantes detetar massas de água subterrâneas ou frentes de chuva a distâncias que ultrapassam os 19 quilómetros, o que valida cientificamente a estimativa apresentada para a deteção do odor humano.

O Urso e o limiar máximo da quimioperceção terrestre
O limite superior do infográfico pertence ao urso, com uma distância de 30 quilómetros. Na literatura biológica, a anatomia nasal dos ursídeos é descrita como uma obra-prima da engenharia natural. A área de superfície da sua mucosa olfativa e a complexidade dos seus cornetos nasais são proporcionalmente massivas quando comparadas com o volume do seu crânio.

De acordo com dados partilhados pelo North American Bear Center e validados pelo National Park Service (NPS) dos Estados Unidos, o olfato é o sentido mais importante para a sobrevivência de um urso. Em ecossistemas polares, onde a dispersão de odores é facilitada pelas correntes de ar sobre superfícies planas de gelo, os ursos-polares (Ursus maritimus) demonstram a capacidade de rastrear o odor de focas ou carcaças de baleia a distâncias de 30 a 40 quilómetros, conseguindo inclusive localizar presas escondidas sob camadas de neve com um metro de espessura.

Canídeos e o mito do olfato humano "inútil"
O infográfico atribui distâncias de 2 e 3 quilómetros para o cão e para o lobo, respetivamente. Esta proximidade de valores justifica-se pela partilha de uma herança evolutiva direta. Enquanto o nariz humano médio contém cerca de 5 a 6 milhões de células recetoras, o focinho de um cão de caça ou de um lobo selvagem alberga até 300 milhões. Estudos de ecologia comportamental de canídeos confirmam que, em condições meteorológicas favoráveis, uma alcateia de lobos em linha de vento consegue detetar a presença de ungulados (como veados ou alces) a mais de 2,5 quilómetros de distância.

Por oposição, o ser humano surge na base da tabela com apenas 3 metros. Historicamente, a ciência perpetuou o mito de que a nossa espécie era "anósmica" ou fundamentalmente incapaz de processar odores de forma eficaz. No entanto, um artigo de revisão crucial publicado na revista Science pelo neurocientista John McGann veio reescrever esta narrativa. McGann demonstrou que o bolbo olfativo humano possui uma excelente capacidade de diferenciação química, sendo o nosso limiar de deteção comparável ao dos ratos e cães para certos compostos específicos. A limitação humana representada na imagem não advém, portanto, de uma incapacidade absoluta do órgão, mas sim da nossa postura bípede, da redução da área nasal e da ausência de comportamentos de rastreio ativo ao nível do solo. Três metros representam, com precisão, a distância média a que a pluma térmica e volátil do odor corporal humano se dissipa no ar num ambiente estagnado.

Conclusão
O infográfico em análise atua como uma excelente ferramenta de divulgação científica ao traduzir dados complexos de biologia molecular e anatomia comparada em métricas de distância facilmente compreensíveis pelo público leigo. Embora na natureza a eficácia real do olfato nunca seja um valor matemático fixo, os dados apresentados encontram amparo na literatura científica. Compreender que um urso nos pode cheirar a trinta quilómetros ou que um elefante possui um mapa genético olfativo cinco vezes mais complexo que o nosso convida-nos a uma reflexão profunda sobre a nossa própria perceção, relembrando-nos de que a nossa experiência sensorial é apenas uma fração modesta do espectro percetivo da biosfera.

Infográfico adaptado ao sistema métrico norte-americano


Referências Bibliográficas
McGann, J. P. (2017). Poor human olfaction is a 19th-century myth. Science, 356(6338), eaam7263. 

Niimura, Y., Matsui, A., & Touhara, K. (2014). Extreme expansion of the olfactory receptor gene repertoire in African elephants. Genome Research, 24(9), 1485-1496. Disponível em:

North American Bear Center. (s.d.). Bear Sense of Smell. Informação técnica e comportamental sobre ursídeos. 

National Park Service (NPS). (s.d.). Bears and Scent Detection in Wilderness Areas. U.S. Department of the Interior. 

Tsavo Trust. (s.d.). The Senses of the African Elephant: Survival in the Savannah. Relatórios de conservação e ecologia de campo. 


Ouçam o discurso de Noah Eckstein: O fim da escuta - porque já não sabemos debater? Um manifesto anti-polarização


Noah Eckstein inicia o seu discurso de forma descontraída, recorrendo à estrutura de uma piada tradicional: um cristão, um muçulmano e um judeu entram num bar. Contudo, contextualiza que, na sua própria família, essa união resultou no casamento dos seus avós e, gerações mais tarde, no seu próprio nascimento como um judeu orgulhoso que também celebra as heranças cristã e muçulmana da sua família.

O ponto central da mensagem de Eckstein baseia-se na lição que aprendeu com os seus avós (um muçulmano paquistanês que cresceu durante a guerra de 1947 e um refugiado judeu do Holocausto): o oposto da divisão não é o acordo, mas sim a compreensão. Ele destaca que o mundo atual nos empurra constantemente para binários e visões polarizadas (esquerda vs. direita, progressista vs. conservador, nós vs. eles), exigindo sempre que escolhamos um lado.

Os seus avós discordavam em inúmeros temas morais e ideológicos, mas mantinham o hábito de se sentar à mesa a debater e a demonstrar preocupação mútua. Eckstein lamenta que a sociedade atual tenha perdido essa capacidade; os debates tornaram-se mais barulhentos, as pessoas discutem apenas para vencer ou humilhar o adversário, e o indivíduo do outro lado deixou de ser visto como uma pessoa para passar a ser visto como um obstáculo.

O orador salienta que tentar compreender quem pensa de forma diferente não significa desculpar atos monstruosos ou abdicar dos próprios ideais. Pelo contrário, compreender o percurso e as motivações do outro é uma ferramenta crucial, aplicável tanto aos grandes conflitos geopolíticos como às pequenas interações do dia a dia — seja com um familiar no jantar de Ação de Graças ou com um colega de turma na faculdade.

Ao concluir, Eckstein deixa um desafio aos recém-graduados de Harvard: quando encontrarem alguém com quem discordam, devem defender as suas convicções, mas também devem colocar-se no lugar do outro e escutar como se pudessem estar errados. Lembra que os seus avós morreram fiéis às suas próprias crenças e tradições, sem nunca cederem nos seus ideais, mas mantiveram sempre o respeito mútuo. Num mundo profundamente fraturado, a verdadeira mudança e a cura das divisões só serão possíveis através de um esforço genuíno para compreender a humanidade do próximo.

Uma pequena bio aqui

Fez-me relembrar uma citação famosa "O oposto da guerra não é a paz... É a criação!" que consta numa obra de teatro musical, "Rent" (1996) composta por Jonathan Larson.

Em 2005 estreou a adaptação para o cinema de Rent, sob a direção de Chris Columbus.

June is a month that reminds us of fireflies



The Silent Weavers
They are not lanterns lit for human eyes,
nor stagecraft for a summer night’s romance;
they are the pulse where wildness never dies,
the quiet architects of field and plants.

In rotting logs and undisturbed decay,
the armored larvae hunt beneath the screen,
consuming snails and slugs along the way - 
the fierce, invisible balance of the green.

They are the measure of a forest’s breath,
the proof of waters pure, of soils unchained;
where chemicals and false lights deal out death,
their golden signatures are quickly drained.

A frog’s brief meal, a spider’s glowing thread,
they weave their bodies through the tangled net—
a silent currency of life and bread,
a feast of light the wilderness won’t forget.

For in their flashing, fragile, brief design,
the hunger of the ecosystem thrives;
the smallest spark sustains the grand outline,
and feeds the deeper dark that keeps us all alive."
João Soares, 02/06/2026

segunda-feira, 1 de junho de 2026

TR/ST - Shoom



Letra

I wish I could eat your Sun as
I see you in a model light as
Curse your chance to softly
May pick it up and waste of time fuck
I wish to go life spend making
That's a golden heights
I wish for a second best
It's all that's set in time

In here sit inside
Your simple side
Your simple side's in me
In her miss assign
This can't be mine
This can't be right
It's in me
Thinner curate side
This simple side
It's in me
Old words in the Sun
This can't be right
This can't be right
It's in me

They know I scream it whoa, oh, oh
They know I screamed it whoa, oh, oh

Sometimes it go
Whoa, oh, oh

Why push away me, push away it could
Push away life, oh shoom
Why push away me
Push away it could, push away life
Why push away me, push away it could
Push away life, oh shoom
Why push away me
Push away it could, push away life



Em termos de significado, as letras do TR/ST são famosas por sua natureza abstrata e fragmentada, mas "Shoom" foca predominantemente em temas como vulnerabilidade, obsessão e o conflito de identidade. Através de versos marcantes como "I wish I could eat your Sun" (Eu queria poder devorar o seu Sol), a composição sugere um desejo quase destrutivo de fusão absoluta com o outro, onde o eu lírico anseia por absorver a luz e a energia de alguém para preencher o próprio vazio. Essa busca por conexão é contrastada pela dualidade entre um "lado simples" e um "lado corrompido", além de um refrão que ecoa o medo da rejeição e a autosabotagem através da repetição de "Why push away me... push away life". Sem uma tradução literal, o próprio título da música funciona como uma expressão onomatopéica para o transe e a melancolia de se perder na noite.

Onde estão os Pirilampos?


Quem tem mais de cinquenta anos lembra-se deles. Nas noites quentes de Verão, os campos piscavam como se pequenas estrelas tivessem descido à Terra. Havia luzes verdes a pairar sobre a erva, junto aos muros, nos caminhos rurais.
Hoje, em muitos locais, desapareceram. E quase ninguém parece dar por isso.
A explicação não é um mistério. Durante anos fizemos guerra aos caracóis e às lesmas. Espalhámos moluscicidas pelos campos, jardins e quintais. Considerámo-los inimigos a exterminar.
Mas esquecemo-nos de uma coisa.
As larvas dos pirilampos são predadoras especializadas de caracóis e lesmas. Alimentam-se deles. Dependem deles. Sem caracóis e sem lesmas, não há alimento. Sem alimento, não há novas gerações de pirilampos.
É mais uma lição que insistimos em não aprender: na Natureza, quase nada existe isoladamente.
Quando eliminamos uma espécie, afectamos muitas outras. Quando destruímos uma presa, condenamos um predador. Quando quebramos uma ligação, enfraquecemos toda a rede.
E depois admiramo-nos.
Admiramo-nos de os nossos filhos e netos conhecerem estas criaturas apenas através de fotografias ou documentários.
Mas talvez a pergunta correcta seja outra:
Quantas luzes tivemos de apagar para acreditarmos que estávamos a resolver um problema?
Os pirilampos não iluminavam apenas as noites de Verão.
Iluminavam também uma verdade simples: a vida é feita de relações invisíveis. E quando destruímos essas relações, a escuridão acaba sempre por chegar.
E este tema toca-me particularmente. O desaparecimento dos pirilampos é daqueles fenómenos discretos que não fazem manchetes, mas que contam uma história profunda sobre a transformação dos nossos campos. É uma perda ecológica, mas também uma perda poética. Uma paisagem sem pirilampos é, de certo modo, uma paisagem mais pobre de imaginação.

O "apocalipse" silencioso - o declínio dos insetos 


omo a agricultura intensiva elimina os insetos?
Os dados científicos mostram que a biomassa global de insetos está a diminuir cerca de 2,5% ao ano. Se olharmos para o gráfico acima, percebemos que grupos vitais como as abelhas (Bees, com 46% de declínio) e as borboletas (Butterflies, com 53%) estão a desaparecer a um ritmo alarmante.

A grande e recente decisão (tomada no final de maio de 2026) que toca diretamente no coração do modelo da agricultura intensiva foi a aprovação da suspensão, por um ano, dos direitos aduaneiros (tarifas) sobre as importações dos principais fertilizantes à base de azoto e das suas matérias-primas (como a ureia e a amoníaca).

A medida, proposta pela Comissão Europeia e formalizada pelo Conselho Europeu, reflete precisamente essa corda bamba entre as metas ambientais e as exigências da produção em larga escala.

Os Dois Lados da Moeda
Esta decisão ilustra bem o choque de realidades e as críticas à insistência no modelo intensivo:
  • O argumento económico/produtivo: Com o fecho do Estreito de Ormuz e a escalada de conflitos no Médio Oriente, os preços dos adubos dispararam, ameaçando as colheitas, a tesouraria dos agricultores e prevendo uma forte inflação alimentar. Para Bruxelas, aliviar estas taxas (uma poupança estimada em 60 milhões de euros) e apresentar um Plano de Ação para os Fertilizantes foi a forma encontrada para garantir que a produção de alimentos não colapsa a curto prazo.

  • O argumento ambiental (a crítica à agricultura intensiva): Para os críticos e ambientalistas, esta medida representa um passo atrás na transição ecológica. Os fertilizantes químicos azotados são um dos pilares da agricultura intensiva e estão diretamente ligados à degradação dos solos, à poluição da água e às emissões de gases com efeito de estufa. Facilitar o seu acesso, em vez de acelerar a transição para alternativas orgânicas e sustentáveis, é visto como um "balão de oxigénio" para um modelo poluente.

Outro recuo recente na Política Agrícola Comum (PAC)
Vale a pena lembrar que isto surge no seguimento de uma tendência recente de Bruxelas em "suavizar" as exigências ecológicas. Sob forte pressão dos protestos dos agricultores em toda a Europa, a UE já tinha aprovado a flexibilização de várias regras ambientais da PAC, como a dispensa da obrigatoriedade de deixar uma percentagem de terras em pousio (terras paradas para recuperação do ecossistema) e a redução das exigências de rotação de culturas.

Resumo: A aprovação recente da isenção de taxas para a importação de fertilizantes químicos visa travar uma crise de preços nos alimentos, mas acaba por subsidiar e manter a dependência do modelo de agricultura intensiva que a própria UE prometeu combater no "Pacto Ecológico Europeu".

Os pirilampos
Os pirilampos são, talvez, a face mais poética e trágica deste "apocalipse silencioso" dos insetos. O seu desaparecimento dos campos e quintais europeus nas últimas décadas não é uma impressão romântica; é um facto científico alarmante.

Sendo predadores na fase de larva (alimentam-se de caracóis e lesmas) e dependentes da sua luz na fase adulta para a reprodução, os pirilampos são considerados excelentes bioindicadores — ou seja, a sua ausência é o primeiro sinal de que um ecossistema está gravemente doente.

O modelo de agricultura intensiva e as recentes desregulações atacam os pirilampos em três frentes fatais:

1. Poluição Luminosa: o curto-circuito no amor
Os pirilampos dependem da bioluminescência (a luz que produzem no abdómen) para se encontrarem e acasalarem no escuro.

A expansão das estufas industriais iluminadas durante a noite, a maquinaria pesada a trabalhar 24 horas e a urbanização associada ao agro-negócio criam um brilho artificial constante no céu.

Com tanta luz artificial, os machos não conseguem ver os sinais luminosos das fêmeas (que muitas vezes nem sequer voam). Se não se encontram, não há acasalamento, e a população daquela zona colapsa numa única geração.

2. A destruição do solo e do pousio (onde as larvas vivem)
A recente decisão da União Europeia de flexibilizar as regras da PAC e dispensar a obrigatoriedade do pousio (terras em descanso) é um golpe duro para esta espécie.

Os pirilampos passam até dois ou três anos na fase de larva, a viver na terra húmida, na folhagem seca e nas margens de sebes e caminhos.

Quando a agricultura intensiva revira o solo constantemente, elimina as sebes para aumentar a área de cultivo e aplica fertilizantes sintéticos agressivos, destrói o habitat húmido e sombrio de que as larvas precisam para sobreviver e caçar.

3. Falta de alimento (o efeito colateral dos pesticidas)
Como as larvas de pirilampo se alimentam quase exclusivamente de caracóis e lesmas, o uso massivo de pesticidas e moluscicidas nas monoculturas elimina a sua fonte de alimento. Sem presas, as larvas morrem de fome antes sequer de chegarem à idade adulta de poderem brilhar.

O diagnóstico: o pirilampo precisa de três coisas que a agricultura intensiva destrói ativamente: escuridão total, solo intocado e biodiversidade. Ver cada vez menos pirilampos no verão é o aviso visual de que estamos a transformar os nossos campos agrícolas num ecossistema estéril e artificializado.

Ondas de calor desencadeiam “relação tóxica” entre ervas marinhas e microrganismos


As ondas de calor marinhas, cada vez mais frequentes devido ao aquecimento contínuo do planeta, são já consideradas das maiores ameaças atuais à biodiversidade dos mares e dos oceanos por toda a Terra.

Uma investigação recente revela que os efeitos desses fenómenos não se limitam apenas a gerar águas mais quentes, mas que causam alterações importantes nas relações entres seres vivos que podem ter consequências nefastas para todo o ecossistema.

Quatro cientistas das universidades australianas de Sydney e da Nova Gales do Sul dizem que o stress térmico causado pelas ondas de calor marinhas desencadeia uma “relação tóxica” entre as ervas marinhas e “um ecossistema oculto de bactérias” que com elas normalmente coexiste, num arranjo que beneficia ambas as partes.

Tal como os microrganismos nos solos em terra firme são fundamentais para a vida das plantas, ajudando-as a manter-se saudáveis e a adquirir nutrientes, também na água as bactérias que vivem no leito aquático desempenham um papel semelhante em relação às ervas marinhas. Essas são plantas que vivem na água do mar e que dão flor, podendo formar extensas pradarias que servem de refúgio a muitos animais, purificam a água e ajudam a sequestrar carbono.

No que descrevem como uma “experiência de jardinagem subaquática”, os investigadores encontraram um ecossistema bacteriano de grande diversidade no solo e em torno das raízes das ervas marinhas. Num artigo publicado na ‘New Phytologist’, explicam que o aumento da temperatura da água, como durante uma onde de calor marinha, faz proliferar bactérias conhecidas por produzirem ácido sulfídrico, um composto que dizem ser tóxico para as ervas marinhas e que pode limitar o seu crescimento.

“Embora as ervas marinhas possam, à primeira vista, parecer bem, o que encontrámos no subsolo, em condições de temperatura elevada, revela uma realidade bem diferente”, avisa Renske Jongen, primeira autora do estudo.

“Sob stress térmico, as comunidades microbianas em torno das raízes das ervas marinhas alteram-se de formas que podem prejudicar a planta em vez de ajudá-la.”

Melancolia foi um movimento cultural Europeu atingindo sobretudo a elite Inglesa dos séc. XVI e VII: John Eccles - The Mad Lover


Melancolia (do grego antigo: μελαγχολία, romanizado: melancholía; de μέλαινα χολή, mélaina cholḗ, 'bile negra') é um conceito encontrado ao longo da medicina antiga, medieval e pré-moderna na Europa que descreve uma condição caracterizada por um humor marcadamente deprimido, queixas físicas e, por vezes, alucinações e delírios. Além de uma condição patológica, a melancolia também se podia referir a um estado de espírito ou temperamento e, por vezes, era até usada como uma descrição da condição humana em geral.

A melancolia (ou mais precisamente a 'bile negra', da qual a melancolia deriva o seu nome) era considerada um dos quatro temperamentos que correspondiam aos quatro humores. Até ao século XVIII, os médicos e outros estudiosos classificavam as condições melancólicas como tal devido à sua causa comum percebida – um excesso de um fluido nocional conhecido como "bile negra", que estava comummente ligado ao baço. Hipócrates e outros médicos antigos descreveram a melancolia como uma doença distinta com sintomas mentais e físicos, incluindo medos e desalentos persistentes, falta de apetite, abulia, insónia, irritabilidade e agitação. Mais tarde, os delírios fixos foram adicionados à lista de sintomas por Galeno e outros médicos. Na Idade Média, a compreensão da melancolia mudou para uma perspetiva religiosa, com a tristeza a ser vista como um vício e a possessão demoníaca, em vez de causas somáticas, como uma potencial causa da doença.

Durante o final do século XVI e o início do século XVII, surgiu em Inglaterra um culto cultural e literário da melancolia, associado à transformação da melancolia, por parte do neoplatonista e humanista Marsilio Ficino, de um sinal de vício numa marca de génio. Esta melancolia da moda tornou-se um tema proeminente na literatura, na arte e na música da época.

Movimento cultural inglês

Durante o final do século XVI e o início do século XVII, surgiu em Inglaterra um curioso culto cultural e literário da melancolia. Num influente ensaio de 1964 na revista Apollo, o historiador de arte Roy Strong traçou as origens desta melancolia da moda até ao pensamento do popular neoplatonista e humanista Marsilio Ficino (1433–1499), que substituiu a noção medieval de melancolia por algo novo:

"Ficino transformou o que até então tinha sido considerado o mais calamitoso de todos os humores na marca do génio. Não admira que, eventualmente, as atitudes de melancolia se tenham tornado logo um complemento indispensável para todos aqueles com pretensões artísticas ou intelectuais."


The Anatomy of Melancholy (A Anatomia da Melancolia, ou na sua versão completa: O Que Ela É: Com Todos os Seus Tipos, Causas, Sintomas, Prognósticos e Várias Curas... Filosoficamente, Medicinalmente, Historicamente, Aberta e Dissecada) de Robert Burton, foi publicada pela primeira vez em 1621 e continua a ser um monumento literário definidor dessa moda. Outro grande autor inglês que se expressou extensamente sobre o facto de ter uma disposição melancólica foi Sir Thomas Browne na sua obra Religio Medici (1643).

Night-Thoughts (Queixume: ou, Pensamentos Noturnos sobre a Vida, a Morte e a Imortalidade), um longo poema em verso livre de Edward Young, foi publicado em nove partes (ou "noites") entre 1742 e 1745, tornando-se enormemente popular em várias línguas. Teve uma influência considerável nos primeiros românticos em Inglaterra, França e Alemanha. William Blake foi mais tarde contratado para ilustrar uma edição posterior.

Nas artes visuais, esta melancolia intelectual da moda surge frequentemente na retratística da época, com os modelos posados sob a forma de "o amante, com os braços cruzados e o chapéu desabado sobre os olhos, e o erudito, sentado com a cabeça apoiada na mão" – descrições retiradas do frontispício da edição de 1638 da Anatomia de Burton, que mostra exatamente essas personagens que, por essa altura, já se tinham tornado clichés. Estes retratos eram frequentemente ambientados ao ar livre, onde a Natureza oferecia "o cenário mais adequado para a contemplação espiritual", ou num interior sombrio.

Na música, o culto pós-elisabetano da melancolia está associado a John Dowland, cujo mote era Semper Dowland, semper dolens ("Sempre Dowland, sempre em pranto"). O homem melancólico, conhecido pelos contemporâneos como um "malcontente", é personificado pelo Príncipe Hamlet de Shakespeare, o "Melancólico Dinamarquês".

Um fenómeno semelhante, embora não sob o mesmo nome, ocorreu durante o movimento alemão Sturm und Drang, com obras como As Dores do Jovem Werther de Goethe, ou no Romantismo com obras como Ode sobre a Melancolia de John Keats, ou ainda no Simbolismo com obras como A Ilha dos Mortos de Arnold Böcklin. No século XX, grande parte da contracultura do modernismo foi alimentada por uma alienação comparável e por um sentimento de falta de propósito chamado "anomia"; a preocupação artística anterior com a morte passou a ser designada sob a rubrica de memento mori. A condição medieval de acedia (acédia em português) e o Weltschmerz romântico eram conceitos semelhantes, com maior probabilidade de afetar o intelectual.

Mais detalhado aqui

Clan of Xymox - Louise

Videoclipe original

Live at Cruel World Festival - May 17, 2025

Ao vivo em Lima, no Peru, no dia 2 de abril de 2016

A canção "Louise", lançada no aclamado álbum Medusa em 1986, é um dos maiores clássicos dos Clan of Xymox e uma verdadeira obra-prima do movimento dark wave. O tema central da música gira em torno da dor profunda do abandono, da solidão existencial e de uma melancolia obsessiva. Embora o compositor Ronny Moorings prefira deixar as suas letras abertas à interpretação do ouvinte, a narrativa de "Louise" constrói uma atmosfera marcadamente gótica sobre o fim devastador de uma relação.

Ao longo da faixa, o eu lírico expressa o desespero e a humilhação de quem tenta, sem sucesso, reter a pessoa amada, chegando a evocar imagens teatrais e confessionais como o ato de rastejar de joelhos a implorar para que o outro não se vá. O nome "Louise" é repetido de forma quase hipnótica, funcionando como um eco doloroso que assombra a mente de quem ficou sozinho. A ausência da personagem paralisa o narrador, transformando o batimento do seu coração num choro constante e retirando toda a cor e o sentido ao mundo que o rodeia.

Essa angústia reflete-se também no cenário evocado pela música, que transporta o ouvinte para uma caminhada solitária por uma cidade adormecida, onde o protagonista vagueia na calada da noite e mergulha em pensamentos sombrios na tentativa frustrada de esquecer o passado. No fundo, a crítica e os fãs da subcultura gótica costumam notar que "Louise" transcende a história de um amor perdido; a música foca-se no próprio eco do sofrimento do narrador e no seu processo de luto emocional. O desespero culmina num pedido final para que a memória de Louise o deixe em paz, mostrando que a única forma de quebrar aquele ciclo de falsas promessas é aceitar, finalmente, o vazio e a solidão.

domingo, 31 de maio de 2026

Slowdive - Alife

Letra
Two lives are hard lives with you
Two lives are hard lives with you
Two lives are hard lives with you

Hey, just look at us now
Time made fools of us all
We look but we don't understand
We try but we don't look around
Looking down
Looking around

Two lives are hard lives with you
Two lives are hard lives with you

Down where the river runs through
The town, there's a memory of you
Don't look, don't look at me now
Time has got me somehow
It's you and only you
You and only you

Two lives are hard lives with you (3X)

Down where the river runs through
The town, there's a memory of you
Don't look, don't look at me now
Time has got me somehow
There's you and only you
You and only you

Two hard lives are hard lives with you
Two lives are hard lives with you

Significado da canção
Em “Alife”, do Slowdive, a repetição do verso “Two lives are hard lives with you” (“Duas vidas são vidas difíceis contigo”) destaca tanto os desafios de um relacionamento quanto a intensidade dos sentimentos envolvidos. O álbum "Everything is Alive" ao qual a música pertence foi dedicado a pessoas queridas que já faleceram, o que acrescenta uma dimensão de luto e saudade à canção. Assim, a letra pode ser interpretada como uma reflexão sobre o amor romântico, mas também sobre a dor da ausência e a complexidade dos laços afetivos que continuam mesmo após a perda.

A atmosfera nostálgica da música é reforçada por imagens como “Down where the river runs through the town, there’s a memory of you” (“Lá embaixo, onde o rio atravessa a cidade, há uma lembrança tua”), que associa memórias a lugares específicos, tornando o passado quase tangível. O verso “Time made fools of us all” (“O tempo fez tolos de todos nós”) sugere como o tempo pode distorcer sentimentos e percepções, trazendo uma sensação de impotência diante das mudanças inevitáveis. A sonoridade da faixa, ao mesmo tempo animada e etérea, cria um contraste entre a urgência emocional e a busca por conforto, mostrando como os Slowdive transforma experiências dolorosas em algo reconfortante e belo. "Alife" se destaca, assim, como uma reflexão sensível sobre a dificuldade e a beleza de manter conexões profundas, mesmo quando marcadas por perda e transformação.

Movies that completely changed my Life (and why you should watch them)

We’ve all experienced that unique magic: the lights dim, the screen glows, and for the next two hours, you are completely transported. But every now and then, a movie does something deeper. It doesn't just entertain you for an evening; it fractures your worldview, shifts your priorities, and stays with you long after the credits roll.

These are the ten films that fundamentally changed how I view the world—and why they deserve a spot on your watch list tonight.

1. Dead Poets Society (1989)

The Lesson: Carpe Diem is easy to say, but terrifying to live.

On the surface, this is a movie about an unconventional English teacher at a strict boarding school. But beneath that, it is a masterclass in existential courage.

  • How it changed me: It forced me to confront the reality of my choices. Am I living the life expected of me, or the life I actually want? It taught me that "sucking the marrow out of life" requires shaking off conformity, standing on your desk, and daring to find your own voice.

  • Why you should watch it: If you feel stuck in a routine or find yourself living to satisfy other people’s expectations, this film is the gentle, poetic wake-up call you need.

2. The Truman Show (1998)

The Lesson: We accept the reality of the world with which we're presented.

Jim Carrey plays Truman Burbank, a man who has no idea his entire life is a 24/7 reality TV show broadcast to the entire planet.

  • How it changed me: It made me hyper-aware of the invisible scripts we follow in society. Truman's journey isn't just about escaping a literal television set; it’s a metaphor for breaking free from the comfort zones, biases, and artificial structures that keep us safe but completely unfulfilled.

  • Why you should watch it: In an era dominated by social media algorithms and curated feeds, The Truman Show feels more relevant than ever. It forces you to look at your own "set" and ask: If I walked to the edge of my world, would I have the courage to open the door and leave?

3. Arrival (2016)

The Lesson: If you knew how your story would end, would you still live it?

When mysterious spacecraft touch down across the globe, a linguistics professor named Louise Banks is recruited to communicate with the extraterrestrial visitors. As she learns their non-linear language, her perception of time and memory begins to change.

  • How it changed me: Without spoiling the ending, this movie completely rewired how I look at grief, love, and time. It taught me that the beauty of life doesn't lie in a happy ending, but in the willingness to embrace the journey fully - sorrow and all. It’s a profound shift from asking "Why me?" to saying "Yes to life."

  • Why you should watch it: This isn't your typical alien invasion action flick. It is a deeply philosophical, quiet sci-fi masterpiece that will leave you staring at the ceiling for hours after it ends, rethinking every relationship in your life.

4. Billy Elliot (2000)

The Lesson: Passion is not a choice; it’s a necessity.

Set during the grueling 1984–1985 UK miners' strike, the film follows an 11-year-old working-class boy who trades his boxing gloves for ballet shoes, facing fierce opposition from his family and community.

  • How it changed me: It completely redefined my understanding of resilience and identity. Watching Billy turn his frustration, anger, and isolation into explosive, raw choreography taught me that art is not just a hobby—it is a vital survival mechanism. It made me realize that staying true to who you are often requires fighting the very environments meant to shape you.

  • Why you should watch it: If you have ever felt like an outsider in your own world, or if you're struggling to defend a dream that others find foolish, Billy Elliot is an emotional powerhouse. It will make you laugh, cry, and want to dance through the streets.


5. Apocalypse Now (1979)

The Lesson: The thin veneer of civilization is easily stripped away away from societal control.

Francis Ford Coppola's Vietnam War epic follows Captain Willard on a secret mission down a river into Cambodia to assassinate a rogue Green Beret Colonel, Walter E. Kurtz, who has gone insane and set himself up as a god to a local tribe.

  • How it changed me: It forced me to look into the darkest corners of human nature. It's not just a movie about war; it is a psychological descent into darkness. It made me realize how fragile our moral compasses really are when separated from social rules. Kurtz isn't just a villain—he is a reflection of what happens when a man stares too long into the hypocrisy of civilization and completely breaks.

  • Why you should watch it: If you want a cinematic experience that challenges your understanding of morality, sanity, and the dual nature of man (good vs. evil), this hallucinatory masterpiece is mandatory. It is heavy, surreal, and unforgettable.

6. Breaking the Waves (1996)

The Lesson: True love and faith often look like madness to the rest of the world.

Set in a deeply religious and isolated Scottish community, Lars von Trier's masterpiece follows Bess, a naive young woman who marries an oil rig worker, Jan. After an accident paralyzes Jan, he convinces Bess that she can keep him alive and heal him by sleeping with other men and telling him the stories.

  • How it changed me: It shattered my conventional views on morality and altruism. Lars von Trier strips away all Hollywood sentimentality to ask a brutal question: what does absolute, unconditional sacrifice actually look like? It taught me that genuine grace and faith are rarely neat or socially acceptable; often, they are messy, deeply misunderstood, and painful.

  • Why you should watch it: This is raw, emotionally demanding cinema at its finest. Driven by a devastating, career-defining performance by Emily Watson, it is a haunting exploration of psychological isolation, religious rigidity, and spiritual transcendence that you will never forget.

7. Paris, Texas (1984)

The Lesson: You cannot rebuild a broken past just by showing up; some distances are internal.

A mute, disheveled man named Travis wanders out of the desert after being missing for four years. Reconnecting with his brother and the young son he abandoned, Travis gradually begins a quiet, agonizing search across Texas to find his missing wife, Jane, trying to patch together the ruins of his former life.

  • How it changed me: It completely redefined how I perceive emotional estrangement, forgiveness, and love. Travis trying to learn how to be a father again through old home movies broke my heart. The famous peep-show conversation between Travis and Jane through a one-way mirror taught me that sometimes, the only true act of love left is knowing when to let go and disappear back into the landscape.

  • Why you should watch it: Anchored by Robby Müller’s gorgeous, neon-soaked cinematography and Ry Cooder’s haunting slide guitar soundtrack, it is a masterpiece of slow-burn emotional devastation. If you’ve ever loved someone deeply but realized your own brokenness stood in the way, this movie will speak directly to your soul.

8. Until the End of the World (1991)


The Lesson: The most dangerous journey is the one we take into our own obsession.

Wim Wenders' ultimate road movie follows a woman tracking a mysterious man carrying a device that records visual data directly from the human brain, allowing the blind to see—and users to view their own dreams. The pursuit spans nine countries, ending in the Australian outback right as a global nuclear crisis threatens to break society apart.

  • How it changed me: It was a prophetic warning about the digital age that completely shifted my relationship with technology. Long before smartphones existed, Wenders showed characters becoming hopelessly addicted to viewing their own subconscious memories on handheld screens, ignoring the real world around them. It made me realize that the "end of the world" isn't always a physical apocalypse; sometimes it is the moment we stop looking each other in the eye and retreat completely into our personal digital loops.

  • Why you should watch it: It is a sweeping, visually mesmerizing epic with one of the greatest rock soundtracks in cinema history. Watch the Director's Cut if you can; it is an unmatched philosophical exploration of global wanderlust, the power of images, and human connection at the edge of existence.

9. Holy Motors (2012)

The Lesson: We are all exhausting ourselves playing roles for an audience that might not even exist.

Over the course of a single day, we follow Monsieur Oscar, a mysterious man who travels through the streets of Paris in a white stretch limousine. Guided by his driver, Celine, he transitions between 11 different "appointments," completely transforming his appearance each time to play different characters: a beggar, a dying old man, a motion-capture stuntman, and a monstrous creature.

  • How it changed me: It completely redefined my view on modern identity. Carax uses this surreal journey as a brilliant metaphor for social existence. In life, just like Oscar, we shift masks continuously—from professional colleague to digital persona, to caregiver, to lover. It taught me that the great modern tragedy isn't that we play roles, but the exhaustion that comes from doing it when the "invisible cameras" have stopped rolling and we no longer know who we are underneath.

  • Why you should watch it: It is a wildly original, anarchic, and gorgeous fever dream. Driven by Denis Lavant's staggering physical performance and featuring an unforgettable accordion intermission, it challenges everything you think you know about traditional narrative storytelling.

10. Stalker (1979)

The Lesson: The hardest place to look is into the center of your own desires.

In a dystopian wasteland, a guide known as a "Stalker" leads a melancholy Writer and a cynical Professor into "The Zone"—a dangerous, post-apocalyptic region sealed off by the government. At the heart of the Zone lies a legendary room that is rumored to grant the deepest, most subconscious desires of anyone who steps inside.

  • How it changed me: It completely shifted my understanding of what a movie can achieve. Tarkovsky doesn't use Hollywood special effects; instead, he uses rain, damp soil, rusty metal, and time itself to create an atmosphere of immense spirituality. It taught me a terrifying but beautiful truth about human nature: we often think we know what we want, but if our truest, most hidden subconscious desires were suddenly granted, they might reveal us to be monsters or cowards. It made me realize that faith and self-reflection are not comforting answers, but exhausting, ongoing psychological journeys.

  • Why you should watch it: Stalker is not a film you simply watch—it is an experience that you absorb like a meditation. If you are willing to slow down your breathing, accept its mesmerizing rhythm, and let its philosophical poetry sink in, it will permanently change the way you look at a cinema screen and your own soul.

A nobreza estratégica do esquecimento na era da inteligência artificial



Lembra-se de tudo o que fez na semana passada? Provavelmente não. E quer saber uma coisa? Isso é ótimo. A verdade é que está a esquecer-se das coisas, e isso pode ser a salvação da sua capacidade de pensar. Durante anos, o mundo da tecnologia vendeu-nos uma promessa tentadora: a memória digital total.

Arquivos infinitos, históricos guardados, conversas gravadas, assistentes de IA que se lembram de cada clique que deu desde os primórdios da sua vida digital. Parecia o paraíso da produtividade, mas a fatura chegou, e os juros são cobrados diretamente na nossa saúde mental.

Recentemente, os investigadores começaram a notar um fenómeno apelidado de "AI brain fry", a fritura cerebral por IA. Os profissionais que usam a inteligência artificial intensamente no trabalho estão a relatar exaustão mental, sobrecarga de decisões e, ironicamente, mais erros.

A tecnologia que nasceu para aliviar o nosso dia a dia acabou por criar uma camada de vigilância sobre a nossa própria cabeça.

Por décadas, a ciência e os entusiastas da tecnologia trataram a memória humana como uma máquina defeituosa. Afinal, nós esquecemo-nos de onde deixámos as chaves, confundimos datas e perdemos detalhes. Mas essa crítica é injusta.

O cérebro esquece por um motivo simples: porque precisa de continuar vivo. Para não enlouquecer, a nossa mente comprime dados, elimina o que é inútil, reorganiza as memórias e guarda apenas o que tem valor real, seja prático ou emocional.

Esquecer não é um defeito; é uma forma de inteligência. Já um arquivo perfeito, onde tudo tem o mesmo peso e nada é eliminado, não serve para julgar ou criar. Serve apenas para auditar e vigiar. O grande risco de usarmos a IA como a nossa "memória externa" o tempo todo é a atrofia dos próprios neurónios.

Quando consulta a máquina antes sequer de tentar elaborar uma ideia, subcontrata o esforço que transforma a informação em conhecimento real. Passa a ser um mero revisor que apaga ou corrige um texto gerado por terceiros.

Existe também um lado mais invisível e perigoso nesta história, que é a assimetria de poder. Pense bem. O utilizador conversa com um sistema de IA que se lembra de absolutamente tudo o que já lhe disse. Sendo humano, guarda apenas fragmentos. Quando a máquina recorda tudo e o utilizador só tem pedaços, a relação perde o equilíbrio.

A memória deixa de ser uma base de dados e passa a ser uma ferramenta de influência sobre si. No mundo corporativo, esta idolatria pelo "registo total" tornou-se uma obsessão. Reuniões gravadas e transcritas, cliques monitorizados, relatórios de acessos...Ufa! Virámo-nos para um grande depósito de contexto. Só que o contexto em excesso paralisa.

Os executivos cercados por painéis em tempo real e assistentes que recuperam anos de histórico podem até sentir-se superinformados, mas isso raramente se traduz em decidir melhor.

Estudos recentes mostram que a IA melhora o desempenho imediato, mas destrói a nossa autonomia a longo prazo. Quando voltamos a trabalhar sozinhos, o tédio aumenta e a motivação desaba. O cérebro aceita a facilidade da IA de braços abertos, mas cobra o preço mais tarde.

Quanto mais confiamos cegamente na máquina, menos usamos o nosso pensamento crítico. A solução para o futuro, portanto, não é acumular mais dados. É exatamente o oposto. Precisamos de desenhar uma inteligência artificial que tenha a capacidade de esquecer.

Os sistemas inteligentes de verdade deveriam saber o que guardar de estratégico, mas também o que apagar de banal, o que proteger de confidencial e o que descartar por ser repetitivo. Guardar tudo não é uma governação eficiente; é preguiça disfarçada de organização. Preservar com critério, sim, é estratégia.

A IA que merecerá a nossa confiança no futuro será aquela que reconhecer que nem todos os dados devem transformar-se em lembranças. O segredo da produtividade não está em assistentes que sabem tudo, mas sim em filtros implacáveis que deitam o irrelevante para o lixo.

Num século em que absolutamente tudo pode ser registado, lembrar-se seletivamente voltou a ser o maior ato de inteligência.

A inteligência artificial só será útil de verdade quando devolver ao ser humano a liberdade de pensar de forma leve, sem carregar o peso de cada resto do caminho. O maior avanço da tecnologia para a mente humana será, definitivamente, abandonar a vaidade do registo perfeito e aprender a nobreza do esquecimento seletivo.

sábado, 30 de maio de 2026

IA cria referências falsas e contamina artigos científicos, apontam estudos


O avanço do uso de inteligência artificial (IA) na produção de artigos científicos começa a provocar uma preocupação crescente entre investigadores e editoras académicas. Dois novos estudos internacionais apontam que ferramentas de IA generativa, como chatbots de linguagem, estão a criar referências falsas que acabam por ser incluídas em trabalhos publicados sem que autores, revisores ou revistas científicas se apercebam do erro.

Tornou-se comum os académicos serem alertados para novos trabalhos que citam a sua investigação, apenas para perceberem que se trata de um artigo inexistente. No ano passado, um relatório amplamente divulgado, o “Relatório MAHA”, emitido pela Casa Branca sobre as suas prioridades no combate às doenças crónicas, continha várias citações incorrectas que levaram alguns observadores a suspeitar que tinham sido geradas por inteligência artificial.

Um dos casos citados envolve o investigador Rafael Topaz, professor associado da Universidade de Columbia, nos EUA, que afirmou ter descoberto que uma ferramenta de IA adicionou silenciosamente uma referência inexistente num manuscrito académico. Segundo ele, o sistema foi usado apenas para ajustes gramaticais no texto. “Sou investigador de IA. Sei o que são alucinações. Se isto está a acontecer comigo, o que acontece com as outras pessoas?”, afirmou.

O estudo, publicado na revista científica The Lancet, chegou a conclusões semelhantes ao analisar artigos biomédicos publicados entre 2023 e o início de 2026. A auditoria encontrou mais de 4 mil referências falsas distribuídas em 2.810 artigos revistos por pares. Em 2023, um em cada 2.828 artigos apresentava pelo menos uma citação inventada. No início de 2026, a proporção passou para um em cada 277 trabalhos.

Os autores afirmam que o problema não está concentrado em investigações fraudulentas; em muitos casos, as citações inventadas aparecem espalhadas em trabalhos legítimos, o que sugere que os investigadores estão a copiar referências sugeridas por ferramentas de IA sem fazerem a verificação manual das fontes originais. O fenómeno foi mais comum entre autores menos experientes e equipas pequenas de investigação.

O alerta aparece num estudo conduzido por investigadores da Universidade Cornell, da UCLA e da UC Berkeley. Os cientistas analisaram 111 milhões de citações presentes em 2,5 milhões de artigos publicados entre 2020 e 2025 nas plataformas arXiv, bioRxiv, SSRN e PubMed Central. O trabalho identificou pelo menos 146.932 referências fabricadas por IA só em 2025.

Os investigadores rastrearam títulos de artigos que não puderam ser encontrados em bases académicas como o Google Scholar, Semantic Scholar e OpenAlex. A análise mostrou que o crescimento das referências falsas acelerou a partir de meados de 2024, cerca de um ano e meio após o lançamento público do ChatGPT, período em que as ferramentas de IA passaram a ser usadas também para sugerir bibliografias e citações automáticas.

Segundo o levantamento, as taxas de referências falsas chegaram a quase 2% os artigos publicados no SSRN em agosto de 2025. No PubMed Central, a principal base biomédica analisada, foram estimadas mais de 8 mil citações falsas em apenas um mês. O estudo também aponta que muitas destas referências sobreviveram aos processos de revisão e foram mantidas nas versões finais dos artigos científicos.

Tornou-se comum os académicos serem alertados para novos trabalhos que citam a sua investigação, apenas para perceberem que se trata de um artigo inexistente. No ano passado, um relatório amplamente divulgado, o “Relatório MAHA”, emitido pela Casa Branca sobre as suas prioridades no combate às doenças crónicas, continha várias citações incorrectas que levaram alguns observadores a suspeitar que tinham sido geradas por inteligência artificial.

Os investigadores alertam que o problema se pode tornar ainda mais difícil de controlar nos próximos anos, porque os modelos de IA treinados em bases académicas contaminadas por referências falsas podem reproduzir os mesmos erros em novos textos. Como resposta, os estudos defendem que as editoras científicas adotem sistemas automáticos de verificação de referências antes da publicação dos artigos.

Para saber mais: