quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Floresta da Liga: ação ecológica real ou greenwashing da Betclic e FPB?


O projeto "Floresta da Liga", lançado pela Federação Portuguesa de Basquetebol (FPB) em parceria com a Betclic, move-se num terreno profundamente ambíguo. Por um lado, há um esforço genuíno de intervenção num espaço degradado na Serra da Arrábida; por outro, é impossível não notar como a iniciativa se presta a dinâmicas evidentes de greenwashing, sportswashing e social washing. Ao transformar um antigo olival abandonado numa agrofloresta associada aos clubes das Ligas Betclic, e ao enquadrar a ação no programa Sports for Climate Action (associado à UNESCO e às Nações Unidas), junta-se a causa ambiental à promoção da modalidade. No entanto, quando se olha com mais atenção para os detalhes técnicos e operacionais, surgem várias questões que merecem um reparo sério.

Em primeiro lugar, no que toca ao ecossistema local, um restauro ecológico estrito com flora autóctone da Arrábida seria mais do que suficiente, incomparavelmente mais resiliente a longo prazo e com muito menor exigência de recursos externos, como água e infraestruturas. Contudo, uma reflorestação pura com espécies locais - como carvalhos, sobreiros e medronheiros - demora muitos anos a ganhar corpo e oferece pouca diversidade de cores vivas a curto prazo. A opção pelo modelo agroflorestal parece responder mais à necessidade de produzir um impacto visual imediato para conteúdos de comunicação e redes sociais do que propriamente à máxima eficiência ecológica de longo prazo.

Em segundo lugar, surge a questão da manutenção intensiva. Ao contrário da vegetação autóctone da Arrábida, que depois de bem estabelecida sobrevive apenas com a precipitação natural da região, os componentes hortícolas e agrícolas de uma agrofloresta exigem regas frequentes, poda contínua e uma gestão constante de recursos, justificando a instalação de sistemas de rega e vedações. O grande risco reside na sustentabilidade do compromisso: se o financiamento ou a manutenção do projeto falharem daqui a 3 ou 4 anos, a componente "agro" dificilmente resistirá, acabando por morrer ou ser sufocada pela vegetação selvagem.

Em terceiro lugar, é inevitável analisar o papel do patrocinador. A Betclic opera no setor das apostas desportivas online, uma indústria sob constante escrutínio ético e social pelos problemas associados ao vício do jogo e à saúde mental. Associar diretamente a marca a projetos ecológicos, à preservação do território e à chancela da UNESCO ajuda a humanizar a empresa, a construir goodwill junto do público e a "limpar" a sua imagem corporativa.

Embora à primeira vista possa passar a falsa impressão de ser uma empresa de baixo impacto ambiental por ser 100% digital, a pegada ecológica de uma multinacional de iGaming é considerável. Para manter uma plataforma de apostas ao vivo operacional, é necessário processar milhões de transações por segundo e transmitir streams de vídeo em alta definição, o que exige o funcionamento ininterrupto de data centers e servidores em cloud de elevado rendimento. Esta operação traduz-se num consumo elétrico massiço e na necessidade de sistemas de refrigeração exigentes em recursos, aos quais se soma a pegada de carbono digital gerada pelo tráfego de milhões de utilizadores em simultâneo. Além disso, existe um efeito multiplicador: ao investir milhões de euros na promoção de competições desportivas, a Betclic incentiva e sustenta todo um ecossistema que movimenta milhares de pessoas, viagens semanais e consumos energéticos em pavilhões e estádios.

Quando se analisa a matemática financeira e o retorno de investimento (ROI) de marketing desta iniciativa, a disparidade torna-se gritante. Custear a instalação e a manutenção de uma agrofloresta de apenas 2.500 m² — o equivalente a pouco mais de um terço de um campo de futebol - representa uma fração insignificante da verba global de publicidade e patrocínio da Betclic. Este investimento na Arrábida equivale a uma percentagem mínima do orçamento alocado habitualmente a uma única campanha de televisão ou ao próprio contrato de naming rights da liga. Em contrapartida, por um custo financeiro modesto, a marca obtém reportagens em órgãos de comunicação social, conteúdos valiosos para as redes sociais, menções em comunicados da FPB e uma associação direta a conceitos de elevado valor reputacional, como "biodiversidade", "futuro" e "ação climática".

É verdade que se pode reconhecer algum mérito técnico pontual na execução: o envolvimento da Biovilla traz conhecimento de terreno para a regeneração do solo, e a previsão de fases de monitorização a 2, 3 e 5 anos contrasta com ações pontuais de plantação que depois são abandonadas. Contudo, estes detalhes não alteram o diagnóstico global da iniciativa.

A intervenção abrange uns escassos 2.500 m², uma dimensão irrisória quando confrontada com a pegada ecológica real do basquetebol profissional - entre viagens de equipas, consumo energético em pavilhões, produção de merchandising e deslocação de adeptos - e com a pegada tecnológica e promocional da própria Betclic. Trata-se, no fundo, de uma manobra em que as fragilidades do modelo técnico e os riscos de abandono a médio prazo são ignorados em prol do impacto estético imediato. A "Floresta da Liga" funciona sobretudo como uma conveniente fachada ecológica e um exercício de propaganda corporativa, onde a urgência da crise climática e o ecossistema da Arrábida são instrumentalizados para produzir um retorno de imagem gigantesco a um custo irrisório para as marcas envolvidas.

O valor de olhar o mundo: como a fotografia de natureza cuida de nós, do património e de quem vive desta arte

A paciência de um segundo que se torna eterna. Fotografar a natureza é isto: congelar a perfeição de um instante para que a memória visual do nosso património biológico nunca se perca.

Vivemos mergulhados num fluxo diário de notícias avassaladoras e num estado de hiperestimulação que mantém o nosso sistema nervoso em constante stress. Reconhecer esta realidade não significa cruzar os braços ou virar as costas aos problemas reais do mundo. Significa, pelo contrário, perceber que, para termos capacidade de intervir, pensar e agir de forma consciente, precisamos de estar inteiros. É precisamente nesta procura de equilíbrio que a fotografia de natureza surge, não como uma fuga fútil da realidade, mas como uma prática profunda de ancoragem, regulação mental e cidadania ativa.

Ao pegar numa câmara ou num telemóvel e caminhar ao ar livre, a nossa atenção muda de frequência. O ruído incessante dos ecrãs dá lugar ao tempo orgânico da terra, da luz e das estações. Para fotografar a luz a moldar uma paisagem ao final do dia ou a biodiversidade que nos rodeia, é preciso desacelerar, treinar a paciência e cultivar uma atenção plena que raramente exercitamos no quotidiano. Esta imersão reduz os níveis de ansiedade e regenera a clareza mental, lembrando-nos de que a capacidade de observar com calma é o primeiro passo para compreender e empatizar com o território que habitamos.

Além disso, vivemos numa época em que é impossível ignorar os valores culturais e materiais que definem as nossas comunidades. O património biológico não existe isolado; ele está profundamente entrelaçado com a história humana, com as paisagens moldadas pelo trabalho ancestral, com a arquitetura tradicional e com a identidade material de cada lugar. Proteger a natureza é também proteger a memória viva e os recursos materiais de que a sociedade depende. Ao fotografar uma paisagem natural ou humanizada, estamos a documentar esse ecossistema complexo onde cultura, história e biologia se cruzam e se sustentam mutuamente.

Contudo, a grande beleza deste passatempo reside no facto de não se esgotar no bem-estar individual ou na contemplação. A fotografia de natureza e de paisagem é hoje uma das ferramentas mais poderosas da ciência cidadã e da conservação do património. Quando registamos uma espécie ou uma transformação no território e partilhamos essa imagem com a respetiva localização e data em plataformas abertas como o iNaturalist, BioDiversity4All ou o eBird, o nosso olhar transforma-se em dados reais. Sem o saberem, milhares de fotógrafos amadores em todo o mundo ajudam diariamente a mapear a biodiversidade, a monitorizar o impacto das alterações climáticas, a identificar espécies ameaçadas e a documentar a evolução material do nosso território.

Com a devida ética de não perturbar os ecossistemas nem o habitat dos animais, fotografar a natureza torna-se um ato duplo e profundamente generoso. É uma escolha consciente de cuidar de nós próprios para continuarmos capazes de cuidar do mundo, transformando o ato de contemplar a riqueza biológica e cultural que nos rodeia numa força concreta para a defender e preservar.

E quando pensamos no valor desta memória visual que todos tentamos guardar, torna-se impossível não olhar para quem faz do olhar o seu ganha-pão. Num momento em que o setor criativo enfrenta tanta precariedade, valorizar e remunerar justamente o trabalho dos fotógrafos profissionais é uma questão de respeito pelo conhecimento e pela cultura. São eles que dedicam a vida a documentar o nosso património com rigor, técnica e uma sensibilidade insubstituível. Celebrar a fotografia amadora e a ciência cidadã ganha ainda mais força quando aprendemos também a reconhecer, apoiar e dar o devido valor ao trabalho de quem vive desta arte.

terça-feira, 6 de outubro de 2026

She Past Away - Ruh (Alma)


Anatomia da Melancolia: A Estética Existencial de "Ruh" dos She Past Away
A canção "Ruh" (termo turco para "Alma"), lançada no seminal álbum de estreia Belirdi Gece (2012), permanece como uma das obras mais representativas e influentes da banda She Past Away. Através de um cruzamento rigoroso entre som, imagem e conceitos filosóficos, o duo turco construiu uma identidade artística que ressoa profundamente na cena alternativa mundial.

1. Estilo e Sonoridade Musical
Musicalmente, "Ruh" situa-se na intersecção entre o Darkwave, o Post-Punk e o Coldwave. A arquitetura da faixa assenta numa linha de baixo pulsante e cavernosa, acompanhada por uma caixa de ritmos minimalista e hipnótica ao estilo drum machine dos anos 80 - evocando referências como Sisters of Mercy, Clan of Xymox ou Bauhaus. Sobre esta base mecânica, sobrepõem-se sintetizadores gélidos e atmosféricos que conferem amplitude e densidade ao tema. O vocal de Volkan Caner, entregue num registo de barítono grave, soturno e monocórdico, é cantado integralmente em turco, transformando a própria fonética da língua num instrumento tímbrico e ritualístico.

2. O Significado da Canção
Liricamente, "Ruh" aborda o isolamento existencial, a alienação da alma e o peso sufocante da finitude humana. A "alma" retratada na composição dista de qualquer idealização espiritual ou glorificada; surge, pelo contrário, como uma presença exausta, aprisionada e desconectada do invólucro corporal e do mundo exterior. Versos como "Ruhum esir bu bedende / Zaman durdu, dünya bitti" ("A minha alma está escrava neste corpo / O tempo parou, o mundo acabou") traduzem a paralisia psíquica e a angústia de estar encerrado na própria mente perante a inevitabilidade do tempo.

3. Narrativa e Estética do Videoclipe
O videoclipe de "Ruh" adota um rigor minimalista e expressionista em preto e branco, profundamente influenciado pelo cinema de terror clássico e pela estética pós-punk oitocentista. O uso dramático do jogo de luz e sombra (chiaroscuro) atua como uma metáfora visual para a dualidade entre o corpo físico e a alma enclausurada. A presença de projeções, figuras enigmáticas e imagens sobrepostas materializa a fragmentação da identidade e o desapego do mundo palpável, espelhando em imagens a atmosfera de transe e clausura evocado pela música.

4. A Singularidade no Panorama Darkwave
Embora as raízes históricas do Darkwave remontem ao ecrã europeu ocidental e britânico dos anos 1980, os She Past Away estabeleceram uma sonoridade altamente original por três vias essenciais:
Uso do Idioma Turco: a escolha de cantar em turco introduz uma cadência única de consoantes marcadas e vogais profundas que casam perfeitamente com a rigidez do pós-punk, rompendo com a hegemonia do inglês no género.
Fusão Cultural Subtil: sem recorrer a instrumentação folclórica direta, as linhas melódicas incorporam micro-tonalidades e escalas melancólicas reminiscentes da tradição da Anatólia, fundindo a herança oriental com o minimalismo sintético ocidental.
Equilíbrio de Produção: a banda consegue conjugar a textura nostálgica do equipamento analógico lo-fi com uma produção cristalina, polida e ritmicamente incisiva, pensada para as pistas de dança da cultura goth contemporânea.

5. Fundamentos Literários e Filosóficos
A escrita e o conceito por trás do projeto estabelecem um diálogo direto com várias correntes do pensamento e da literatura:
Existencialismo e Niilismo: as premissas de Jean-Paul Sartre ou Friedrich Nietzsche transparecem no confronto com o absurdo, na perceção do vazio existencial e no fardo da consciência perante um universo desprovido de sentido intrínseco.
Poesia e Melancolia Turca (Hüzün): O grupo bebe na tradição poética turca - como as obras de Ahmet Hamdi Tanpınar e Nilgün Marmara -, onde os temas da noite, do tempo estancado e do isolamento psíquico convergem no conceito de Hüzün (a melancolia coletiva e poética), adaptando-a à estética gótica ocidental.
Gótico Literário: A atmosfera de claustrofobia mental, a fascinação pela finitude e o desdobramento da psique alinham-se com a tradição gótica de autores como Edgar Allan Poe.

In The Nursery - Artisans of Civilisation

Melhor Som aqui
A banda britânica In The Nursery, fundada em Sheffield em 1981 pelos irmãos gémeos Klive e Nigel Humberstone, é uma das maiores referências mundiais do género Neoclassical Darkwave e Martial Industrial. Conhecidos pelo som grandioso que combina percussão militarista, arranjos orquestrais cinemáticos e paisagens sonoras eletrónicas sobrepostas por vocais recitados em estilo spoken word, os In The Nursery sempre mantiveram uma forte ligação com a literatura, o cinema e a filosofia.

A faixa "Artisans of Civilisation", lançada em 2011 no álbum Blind Sound, aborda a relação ambígua entre o ser humano e as suas próprias criações intelectuais e tecnológicas. Ao proclamar versos como "Too much faith in systems / Look too little to men" e "Receive no help from without / Need help from within", a canção reflete sobre a vulnerabilidade da humanidade quando deposita uma confiança cega na engenharia social, na indústria e na mecânica das instituições. O significado central gira em torno da perda da autonomia individual, do discernimento e da intuição moral quando o homem se torna refém das próprias estruturas que concebeu para se organizar.

O videoclipe oficial do tema foi realizado e produzido de forma autónoma pelos próprios irmãos Humberstone através da sua editora independente, a ITN Corporation. Com uma estética minimalista, monocromática e de contornos documentais, o vídeo contrapõe imagens de arquitetura industrial, braille, engrenagens e mãos em trabalho artesanal, ilustrando visualmente a tensão entre a criação técnica, a repetição autómata e a perceção cega do progresso.

A relação com o pensamento do escritor Aldous Huxley - e em particular com a sua análise do perigo da sugestionabilidade das massas - é direta e central no conceito do tema e do álbum Blind Sound. Em obras como Admirável Mundo Novo (1932) e no ensaio Regresso ao Admirável Mundo Novo (1958), Huxley alertava para a facilidade com que o ser humano é condicionado e manipulado quando a tecnologia e o conforto anulam a necessidade de pensamento crítico. "Artisans of Civilisation" traduz exatamente esse aviso huxleyano: a sugestionabilidade contemporânea leva-nos a aceitar pacificamente o controlo do "sistema", alienando o indivíduo da sua consciência interior. Além de Huxley, o trabalho da banda bebe frequentemente do existencialismo, de visões distópicas como as de George Orwell e de explorações poético-filosóficas (tendo a banda colaborado anteriormente com o escritor Colin Wilson no álbum Anatomy of a Poet). A força e atualidade do tema residem no facto de antecipar a atual dependência dos algoritmos e da inteligência artificial, que funcionam hoje como os novos "sistemas" aos quais a sociedade se entrega de forma acrítica.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Ana Moura - Andorinhas


A canção "Andorinhas" (2021), single de avanço do álbum Casa Guilhermina (2022), afirma-se como o manifesto estético e concetual onde Ana Moura refunda a sua identidade artística. Ao cruzar a matriz do fado tradicional com a ancestralidade do adufe ibérico, ritmos afro-lusófonos e texturas eletrónicas urbanas, o tema transforma a figura da andorinha num símbolo de liberdade, nomadismo e regresso às origens.

Musicalmente, "Andorinhas" estabelece uma clara rotura com o fado purista, inaugurando uma sonoridade que pode definir-se como folclore afro-fadista e urbano. A letra reflete sobre a necessidade de voar, quebrar amarras e recusar as gaiolas das expectativas alheias, utilizando o comportamento migratório das andorinhas como metáfora para a capacidade de expandir horizontes sem nunca perder a raiz territorial. A estrutura sonora assenta no diálogo entre o melisma dramático da voz de Ana Moura, a cadência orgânica da percussão tradicional e os ritmos contemporâneos de afrobeats. A própria guitarra portuguesa surge aqui desconstruída, abandonando o mero papel de acompanhamento melancólico para integrar um balanço dançável e vibrante.

O videoclipe, realizado por Marta de Rocha e filmado no Bairro da Bairrosa, no Barreiro, traduz visualmente este conceito através de uma cuidada simbiose estética. Ana Moura apresenta-se com trajes que reinterpretam elementos da indumentária tradicional do Sul de Portugal - como o bioco açoriano ou os lenços e xailes das mulheres do meio rural - através de um corte de moda urbana e contemporânea. O vídeo contrapõe a arquitetura caiada de branco com a vivacidade comunitária da Margem Sul, celebrando a convivência de rua e a diversidade étnica. A coreografia coletiva assume um papel central, convertendo o bater de asas das andorinhas numa dança de libertação que transforma a tristeza histórica associada ao fado numa afirmação de pertença e celebração coletiva.

O motor rítmico e espiritual de toda a composição é o adufe, um pandeiro quadrado de membrana dupla com sementes ou soalhas no interior, introduzido na Península Ibérica durante o período de Al-Andalus. Historicamente preservado pelas adufeiras da Beira Baixa (em localidades como Monsanto e Idanha-a-Nova), o instrumento carrega uma forte dimensão matriarcal, ligado a rituais agrícolas, celebrações pagãs e cantos religiosos. Em "Andorinhas", a sonoridade seca e telúrica do adufe substitui as baterias ocidentais convencionais, conferindo à faixa um pulso de terra e memória ancestral.

Esta escolha percussiva e estética fundamenta também a aproximação de Ana Moura ao Iberismo e ao multiculturalismo. Por um lado, o uso do adufe evoca diretamente o pandeiro quadrado utilizado nas tradições folclóricas da Galiza, Astúrias e Leão, enquanto o cenário de casas brancas e luz mediterrânica resgata a paisagem cultural partilhada entre o Alentejo, o Algarve e a Andaluzia, invocando a matriz histórica comum de Al-Andalus. Por outro lado, a canção afirma um multiculturalismo urbano e atlântico ao fundir o fado com o semba e a kizomba - homenageando a herança angolana da avó da artista, Guilhermina. A Área Metropolitana de Lisboa retratada no vídeo surge, assim, como uma verdadeira encruzilhada de culturas europeia, africana e cigana, onde o fado deixa de ser uma peça de museu para se tornar uma linguagem viva, inclusiva e em constante renovação.

Por favor Revejam o Documentário - Propaganda: The Art of Selling Lies (2019)


Introdução: Por que vale a pena rever este documentário hoje?

Num ecossistema global marcado pela policrise - onde a instabilidade económica, as alterações climáticas e os conflitos geopolíticos se entrelaçam -, a polarização entre os extremos do espectro político intensificou-se drasticamente. O debate público transmutou-se num campo de batalha ideológico entre visões radicais de extrema-esquerda e de extrema-direita, deixando os cidadãos imersos numa névoa de incerteza: afinal, quem manda verdadeiramente no mundo? Serão os governos eleitos, as multinacionais tecnológicas, os algoritmos das redes sociais ou os detentores do capital financeiro?

Rever Propaganda: The Art of Selling Lies (2019) no contexto atual não é um mero exercício de nostalgia cinefílica ou académica; é uma ferramenta de sobrevivência democrática. Ao desmantelar os mecanismos psicológicos e estéticos da persuasão, a obra de Larry Weinstein oferece uma chave de leitura essencial para compreender como as narrativas populistas contemporâneas alimentam a divisão social, exploram o medo e fabricam verdades à medida. Numa era de pós-verdade e desinformação sistemática, o documentário recorda-nos que a primeira linha de defesa contra a manipulação começa na nossa própria capacidade de questionar o que vemos e ouvimos.

O documentário Propaganda: The Art of Selling Lies (2019), realizado pelo cineasta canadiano Larry Weinstein, parte de uma interrogação fundamental sobre a condição humana: por que razão a humanidade é tão facilmente seduzida pela propaganda? Em vez de restringir a análise a um fenómeno político moderno ou a guerras geopolíticas pontuais, o realizador adota um prisma eminentemente artístico e histórico. A tese central da obra defende que a propaganda representa a arte da persuasão levada ao limite — uma ferramenta sofisticada que instrumentaliza a estética, a emoção e a narrativa para construir verdades fabricadas, manipular multidões e moldar o comportamento coletivo.

Para fundamentar esta premissa, o filme desenvolve uma jornada cronológica e conceitual que estabelece pontes entre as origens da civilização e o presente digital. A narrativa recua às civilizações da Antiguidade, demonstrando como os relevos mesopotâmicos, as moedas romanas e os monumentos egípcios funcionavam já como instrumentos primitivos de propaganda estatal destinados a legitimar o poder de reis e imperadores. Avançando na história, o documentário aborda a era da imprensa e o papel da arte sacra durante a Contrarreforma Católica, destacando a invenção de Gutenberg como o grande catalisador da disseminação de ideias em escala industrial.

A análise atinge particular densidade ao debruçar-se sobre o século XX, período marcado pelos regimes totalitários e pelas grandes guerras globais. Explora-se a estética fascista e nazi - com especial atenção ao trabalho cinematográfico de Leni Riefenstahl -, o realismo socialista da propaganda soviética e a emergência das campanhas de mobilização ocidentais, imortalizadas em ícones como o cartaz do Uncle Sam. Finalmente, o arco histórico culmina no século XXI, conectando a propaganda tradicional ao ecossistema dos algoritmos, das fake news, da mineração de dados no caso Cambridge Analytica e da proliferação da desinformação na era da pós-verdade.

O valor analítico da obra é enriquecido por um conjunto diversificado de testemunhos de artistas, ativistas e historiadores. O artista dissidente chinês Ai Weiwei reflete sobre a propaganda de Estado em regimes autoritários, contrapondo-a à "propaganda do indivíduo" através da arte enquanto ato de resistência. Por sua vez, Shepard Fairey, o designer responsável pelo icónico cartaz HOPE de Barack Obama, analisa a linha ténue que separa a arte urbana, a propaganda política e a comercialização da imagem. Paralelamente, diversos académicos explicam a forma como a neurociência e a psicologia das massas esclarecem a vulnerabilidade do cérebro humano ao medo, ao apelo tribal e às mensagens simplificadas.

Do ponto de vista cinematográfico, o filme funciona como uma experiência estética alinhada com o próprio tema. Fiel ao estilo do realizador, aborda cartazes, esculturas, quadros e excertos de filmes não apenas como documentos históricos, mas como peças de design persuasivo. A montagem dinâmica e o ritmo fluído utilizam uma linguagem visual próxima da colagem, combinando imagens de arquivo com grafismos modernos numa estrutura que espelha a saturação informativa contemporânea.

Apesar de a sua abordagem transversal conectar a história da arte antiga às redes sociais de forma excecional, o documentário apresenta algumas limitações. O esforço de cobrir milénios de história resulta inevitavelmente na abordagem superficial de determinados períodos, enquanto o foco acentuado no cenário político norte-americano no último terço do filme pode retirar-lhe alguma abrangência perante a evolução de novos cenários globais. Não obstante estas condicionantes, a obra sobressai pelo seu forte poder de provocação crítica, estimulando o espectador a questionar o viés de confirmação e as suas próprias certezas. Em última análise, Propaganda: The Art of Selling Lies constitui um alerta urgente sobre a fragilidade da perceção pública, demonstrando que a propaganda atinge a sua máxima eficácia quando aqueles que são manipulados nem sequer disso se apercebem.

5 de Outubro - A Pátria da Terra: Do Iberismo Histórico ao Iberismo Biológico

Lince-ibérico: o símbolo do Iberismo Biológico

Na celebração do 5 de Outubro, o olhar político em Portugal volta-se inevitavelmente para os pilares da soberania, o legado da República e a complexa relação de vizinhança com Espanha. Durante mais de dois séculos, o debate sobre o Iberismo oscilou entre a utopia intelectual da Geração de 70 - que via na união republicana a salvação contra o atraso absolutista e monárquico (Catroga, 2010; Sérgio, 1984) - e o receio pragmático da perda de independência nacional.

Enquanto a história política da Península Ibérica evoluía a ritmos desfasados - entre a consolidação da Primeira República em Portugal, a relação do regime de Franco com a restauração da Monarquia dos Bourbons em Espanha, as ditaduras autoritárias paralelas e o espelhamento das respetivas transições democráticas na década de 1970 (Jiménez Redondo, 2014; Torre Gómez, 1998) -, os dois países mantiveram-se frequentemente de costas voltadas. Espanha olhava para o Atlântico e para a América Latina através da sua herança hispânica; Portugal focava-se na sua projeção marítima e na salvaguarda rigorosa da sua autonomia territorial.

Contudo, a grande mutação do século XXI não ocorreu nos gabinetes diplomáticos nem nos parlamentos de Lisboa ou Madrid. Deteve-se na própria terra.

O Ecologismo como Cerne da Questão Ibérica

O ecologismo não é apenas um apêndice ou uma nota de rodapé no debate peninsular; é a dimensão onde o Iberismo se torna real, tangível e inevitável. Enquanto as crises políticas conjunturais, as alternâncias partidárias ou as dificuldades legislativas dos governos são dinâmicas passageiras, a ecologia peninsular obedece a leis geográficas e biológicas imutáveis:
  • A Continuidade dos Habitats: a vida selvagem ignora a cartografia política. O lince-ibérico, o lobo ou a águia-imperial não reconhecem a fronteira traçada no Caia ou em Vilar Formoso. A recuperação e sobrevivência de espécies ameaçadas no território português demonstraram depender diretamente de projetos de conservação de escala, centros de reprodução, programas de rewilding e corredores ecológicos partilhados com os grandes Parques Nacionais do país vizinho (López-Bao et al., 2015; Navarro & Pereira, 2012; Palomares et al., 2011).

  • A Vulnerabilidade Climática e os Incêndios: a ameaça dos incêndios florestais de grande dimensão, alimentada por vagas de calor extremas, pela expansão de monoculturas e pelo abandono do mundo rural (Pausas & Fernández-Muñoz, 2012), evidencia que a biomassa e o risco de fogo são transfronteiriços. A vulnerabilidade do ecossistema ibérico exige respostas integradas de prevenção, gestão florestal e combate que ultrapassam a capacidade de resposta de qualquer Estado a atuar de forma isolada (Moreira et al., 2011).

  • A Geopolítica da Água e dos Rios: sendo Portugal o país de jusante das grandes bacias hidrográficas peninsulares - Tejo, Douro, Guadiana e Minho -, a segurança hídrica, a qualidade da água e a biodiversidade dos ecossistemas fluviais nacionais estão intimamente ligadas às políticas de gestão de caudais e de albufeiras estabelecidas em Espanha no âmbito de quadros regulatórios como a Convenção de Albufeira (Serra, 2003; Thibault et al., 2018).

Da Independência Histórica à Interdependência Ecológica
O olhar condescendente com que a sociedade espanhola observava Portugal no século XX deu lugar, nas últimas décadas, a uma admiração mútua, a uma forte cooperação económica e a uma parceria estratégica sólida no seio da União Europeia. Hoje, a perceção de vizinhança assenta no respeito pela autonomia e no reconhecimento de modelos de sociedade que se complementam.

O grande desafio da soberania moderna não passa por erguer barreiras físicas ou políticas, mas sim por liderar um Iberismo Ambiental com capacidade para proteger um património natural que não pertence em exclusivo a Lisboa nem a Madrid. O futuro da Península Ibérica joga-se na capacidade de compreender que os governos mudam e as fronteiras traçam-se no papel, mas o solo, os rios e a biodiversidade partilham, desde sempre, a mesma terra.

Referências Bibliográficas

Catroga, F. (2010). O luso-iberismo e a ideia de Europa. Imprensa da Universidade de Coimbra. 

Jiménez Redondo, J. C. (2014). De Franco a Juan Carlos: Las relaciones hispano-portuguesas y el proceso de transición democrática. Centro de Estudios Políticos y Constitucionales.

López-Bao, J. V., Blanco, J. C., Rodríguez, A., Godinho, R., Seryodkin, I. V., & Chapron, G. (2015). Conserving large carnivores in human-dominated landscapes: The Iberian experience. Biological Conservation, 192, 401–412. 

Moreira, F., Viedma, O., Arianoutsou, M., Curt, T., Koutsias, N., Rigolot, E., Barbati, A., Corona, P., Vaz, P., Xanthopoulos, G., Mouillot, F., & Bilgili, E. (2011). Wildfire management in Mediterranean-type regions: Paradigm shift needed. Environmental Research Letters, 6(1), Artigo 014019. 

Navarro, L. M., & Pereira, H. M. (2012). Rewilding abandoned landscapes in Europe. Science, 336(6084), 1089–1090. 

Palomares, F., Rodríguez, A., Revilla, E., Vicente, L., & Delibes, M. (2011). Assessment of the conservation status of the endangered Iberian lynx (Lynx pardinus). Biological Conservation, 144(1), 34–45. 

Pausas, J. G., & Fernández-Muñoz, S. (2012). Fire regime shifts in the Western Mediterranean Basin: Drivers and uses. PLoS ONE, 7(5), Artigo e36952. 

Sérgio, A. (1984). Ensaios (Vol. 2). Livraria Sá da Costa.

Serra, P. (2003). A Convenção de Albufeira e a gestão das bacias hidrográficas partilhadas entre Portugal e Espanha. Instituto da Água.

Thibault, M., Varandas, S., Fernandes, M. R., & Cortes, R. M. V. (2018). Water management and ecological flows in the Iberian rivers under climate change scenarios. Journal of Hydrology, 563, 712–725.

Torre Gómez, H. de la. (1998). El portuguesismo y el iberismo en la España contemporánea. Universidad Nacional de Educación a Distancia.

As maiores empresas do mundo causaram 28 biliões de dólares em danos climáticos, estima um novo estudo

The Chevron Richmond Refinery in this view from Point Richmond, Calif.

A empresa de investigação Zero Carbon Analytics contabiliza 68 ações judiciais intentadas a nível mundial sobre danos causados pelas alterações climáticas, com mais de metade a decorrer nos Estados Unidos.

WASHINGTON (AP) — As maiores corporações do mundo causaram 28 biliões de dólares (28 trillion USD) em danos climáticos, estima um novo estudo integrado num esforço para facilitar que cidadãos e governos responsabilizem financeiramente estas empresas, tal como aconteceu com as gigantes do tabaco.

Uma equipa de investigação do Dartmouth College estimou a poluição causada por 111 empresas, sendo que mais de metade do valor total provém de 10 fornecedores de combustíveis fósseis: Saudi Aramco, Gazprom, Chevron, ExxonMobil, BP, Shell, National Iranian Oil Co., Pemex, Coal India e a British Coal Corporation.

Para efeitos de comparação, 28 biliões de dólares é um valor ligeiramente inferior à soma de todos os bens e serviços produzidos nos Estados Unidos no ano passado.

No topo da lista, a Saudi Aramco e a Gazprom causaram, cada uma, um pouco mais de 2 biliões de dólares em danos associados ao calor ao longo das décadas, calculou a equipa num estudo publicado esta quarta-feira na revista Nature. Os investigadores concluíram que cada 1% de gases com efeito de estufa lançado para a atmosfera desde 1990 causou 502 mil milhões de dólares em danos resultantes apenas do calor - o que não inclui os custos decorrentes de outros eventos meteorológicos extremos, como furacões, secas e inundações.

Fala-se frequentemente em fazer com que os poluidores paguem, existindo ocasiões em que são levados a tribunal ou em que são aprovadas leis para tentar conter a sua atividade.

O estudo é uma tentativa de determinar «as ligações causais que servem de base a muitas destas teorias de responsabilização», afirmou o autor principal, Christopher Callahan, que realizou o trabalho em Dartmouth e é agora cientista de sistemas terrestres na Universidade de Stanford. A empresa de investigação Zero Carbon Analytics contabiliza 68 ações judiciais intentadas a nível mundial sobre danos causados pelas alterações climáticas, com mais de metade a decorrer nos Estados Unidos.

«Todos estão a fazer a mesma pergunta: O que podemos nós realmente alegar relativamente a quem causou isto?», disse o cientista climático de Dartmouth e coautor do estudo, Justin Mankin. «E isso resume-se verdadeiramente a uma questão termodinâmica: conseguimos rastrear os perigos climáticos e/ou os seus danos até emissores específicos?»

A resposta é sim, afirmaram Callahan e Mankin.

Os investigadores começaram pelas emissões finais conhecidas dos produtos — como a gasolina ou a eletricidade proveniente de centrais a carvão - produzidos pelas 111 maiores empresas do setor do carbono, recuando até 137 anos, uma vez que esse é o limite histórico dos dados de emissões disponíveis para qualquer uma destas empresas e o dióxido de carbono permanece no ar durante muito mais tempo. Utilizaram 1000 simulações computacionais diferentes para traduzir essas emissões em alterações na temperatura média global da superfície da Terra, comparando-a com um mundo sem as emissões de cada empresa.

Utilizando esta abordagem, determinaram que a poluição provocada pela Chevron, por exemplo, aumentou a temperatura da Terra em 0,045 graus Fahrenheit (0,025 graus Celsius).

Os investigadores também calcularam quanto é que a poluição de cada empresa contribuiu para os cinco dias mais quentes do ano, utilizando mais 80 simulações computacionais e aplicando depois uma fórmula que relaciona a intensidade do calor extremo com alterações na produção económica.

Este sistema é modelado com base nas técnicas consolidadas que os cientistas utilizam há mais de uma década para atribuir eventos meteorológicos extremos - como a vaga de calor de 2021 no Noroeste do Pacífico - às alterações climáticas.

Mankin afirmou que, no passado, existia o argumento de: «Quem garante que foi a minha molécula de CO₂ que contribuiu para estes danos, em vez de outra qualquer?». O investigador acrescentou que o seu estudo «deixou muito claro como o véu da plausível negação já não existe do ponto de vista científico. Conseguimos efetivamente rastrear os danos até aos grandes emissores».

A Shell recusou-se a fazer comentários. Aramco, Gazprom, Chevron, Exxon Mobil e BP não responderam aos pedidos de comentário.

«Todos os métodos utilizados são bastante robustos», afirmou a cientista climática Friederike Otto, do Imperial College London, que lidera o World Weather Attribution — um coletivo de cientistas que realiza estudos rápidos de atribuição para verificar se determinados eventos meteorológicos extremos são agravados pelas alterações climáticas e, em caso afirmativo, em que medida. A investigadora não participou no estudo.

«Na minha opinião, seria positivo se esta abordagem fosse adotada por mais grupos. Tal como acontece na atribuição de eventos, quanto mais grupos a utilizarem, melhor se torna a ciência e melhor compreendemos o que faz ou não a diferença», declarou Otto. Até ao momento, nenhuma ação judicial de responsabilidade climática contra um grande emissor de carbono teve sucesso, mas demonstrar «quão esmagadoramente forte é a evidência científica» poderá mudar essa realidade, acrescentou.

No passado, os danos causados por empresas individuais perdiam-se no meio da dispersão dos dados, impossibilitando o seu cálculo, explicou Callahan.

«Atingimos agora um ponto na crise climática em que os danos totais são tão imensos que as contribuições dos produtos de uma única empresa podem ascender a dezenas de milhar de milhões de dólares por ano», afirmou Chris Field, cientista climático da Universidade de Stanford que não esteve envolvido na investigação.

Trata-se de um bom exercício e de uma prova de conceito, mas existem tantas outras variáveis climáticas que os números apurados por Callahan e Mankin representam, muito provavelmente, uma grande subestimativa dos danos reais que estas empresas causaram, concluiu Michael Mann, cientista climático da Universidade da Pensilvânia que também não participou no estudo.

Madeline Goldstein - Eye For An Eye

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Madeline Goldstein é uma artista e cantora norte-americana sediada em Los Angeles, Califórnia. O seu universo sonoro cruza o synthpop, a darkwave, o dream pop e o new wave, recorrendo a sintetizadores hipnóticos e envolventes que criam uma textura densa e nostálgica. A sua sonoridade absorve também elementos do shoegaze e ethereal wave, evidentes no uso de vozes sobrepostas em camadas imersas em reverb e delay, criando uma névoa melancólica e imersiva que remete para referências como Cocteau Twins ou Slowdive.

Na canção "Eye For An Eye", pertencente ao seu álbum Speaking To The Body, Madeline explora a tensão interpessoal, o desgaste emocional e o impasse da comunicação. O tema aborda o modo como as relações humanas por vezes estagnam em dinâmicas de estrita retaliação e de reciprocidade fria, onde a busca por consolo e evasão se traduz na necessidade de recorrer a breves doses de fantasia para suportar a realidade.

O teledisco do tema adota um conceito documental e intimista, funcionando como um registo em formato vintage Digi8 da sua primeira digressão europeia. O vídeo abdica de uma narrativa ficcional para dar lugar à captura autêntica dos bastidores, da vida na estrada, da energia dos concertos e das ligações interpessoais entre a artista, a sua equipa e o público ao longo do percurso pelo Reino Unido e Europa.

Do ponto de vista concetual, a obra dialoga com influências filosóficas e literárias ligadas à antiga Lei do Talião - o princípio do "olho por olho" presente no Código de Hamurábi e nas tradições abraâmicas -, aplicando este conceito ancestral à fragilidade e ao cálculo das relações contemporâneas. Adicionalmente, a lírica reflete correntes do existencialismo e do desassossego moderno, contrapondo o isolamento e a perda de empatia individual com a tentativa de manter a sensibilidade num ambiente social mecânico e transacional.

domingo, 4 de outubro de 2026

Rina Pavar – A New Time

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Rina Pavar é uma artista, cantora e compositora de nacionalidade alemã que se tem destacado no panorama da música alternativa e independente europeia. O seu estilo musical insere-se nos universos do dark wave, synthpop, gothic wave e electropop, caraterizando-se por uma sonoridade melancólica, densa e atmosférica, onde sintetizadores marcantes e arranjos eletrónicos contemplativos se fundem com vocais expressivos e profundos. O tema "A New Time" carrega um significado existencialista centrado na transformação interior, na rutura com ciclos passados e na aceitação da mudança perante a incerteza do futuro. A canção aborda a transição de um estado de escuridão ou estagnação para uma nova era de consciência individual, onde o "novo tempo" representa tanto a libertação de velhos traumas e expetativas como a inevitabilidade de enfrentar o desconhecido.

O videoclipe oficial de "A New Time" foi realizado por Karo Kratochwil (colaboradora visual habitual da artista, responsável por capturar a estética sombria e minimalista do projeto). O significado do videoclipe complementa a narrativa da canção através de um forte jogo visual de luz e sombra, ambientes monocromáticos e enquadramentos intimistas. As imagens simbolizam o isolamento, a introspeção e o processo gradual de emergir da obscuridade, utilizando a dança e o movimento corporal contido como metáforas para a libertação emocional e a reconstrução do eu.

Do ponto de vista das influências literárias e filosóficas, a obra de Rina Pavar e em particular "A New Time" encontra raízes no Existencialismo (com nomes como Jean-Paul Sartre e Friedrich Nietzsche), abordando a responsabilidade do indivíduo na criação do seu próprio destino e o conceito de renovação após a ruína. Há também um forte diálogo com a poesia romântica e gótica europeia, refletido no uso de metalinguagem sobre a natureza, a noite, a solidão e a impermanência, transformando a melancolia não num fim, mas num veículo de transfiguração pessoal.


A presença de Darcy Hard na faixa "a new time" traz elementos determinantes para compreender o tema e a sua identidade no álbum vivid night (2021).

No plano da dimensão vocal e textura sombria, Darcy Hard adiciona uma presença vocal complementar -seja através de spoken word, linhas de voz contrastantes ou coprodução e harmonização -, intensificando a sensação de diálogo interno. Esta dinâmica bipartida acentua a dualidade da canção entre a vulnerabilidade e a resolução de seguir em frente.

Em termos de reforço de identidade dark electronic, a participação de Darcy Hard reforça o peso do arranjo de sintetizadores vintage e basslines pulsantes, conferindo à faixa um carácter simultaneamente mais denso e orientado para as pistas de dança alternativas e goth clubs.

Por fim, ao nível da colaboração artística na cena indie, a parceria exemplifica o espírito colaborativo da cena darkwave e coldwave independente - frequentemente associada a marcas e editoras do circuito europeu como a Cold Transmission Music -, onde os artistas partilham estéticas e visões poéticas sobre a transição e a experiência da consciência individual.

Faz mal deixar o gato ir à rua sozinho?


Gatos domésticos e a biodiversidade: o impacto silencioso na vida selvagem
Durante décadas, existiu o mito de que os felinos precisam de "liberdade" e de acesso à rua para terem uma vida plena e feliz. No entanto, a realidade atual desmente esta ideia. Deixar o seu felino passear sozinho e sem supervisão é, hoje em dia, um dos maiores riscos para a sua sobrevivência e, simultaneamente, uma ameaça silenciosa para o equilíbrio ambiental.
Embora o gato doméstico (Felis catus) seja um companheiro dócil dentro de quatro paredes, as suas garras e dentes escondem um predador altamente eficaz. Quando sai de casa, o seu instinto de caça permanece totalmente intacto. Ele não caça por fome, mas sim por puro reflexo natural. O resultado deste comportamento assume proporções alarmantes à escala global, com milhares de milhões de aves e pequenos mamíferos a perderem a vida todos os anos devido à predação felina.

O impacto global em números
Os números associados à predação felina são alarmantes. Um grande estudo internacional publicado na Nature Communications revelou que os gatos em liberdade consomem mais de 2.000 espécies de animais diferentes em todo o mundo, incluindo centenas que se encontram sob ameaça de conservação.
Apenas nos Estados Unidos, as estimativas apontam para a perda anual de aves - entre 1,3 e 4 mil milhões de indivíduos.  Mamíferos: entre 6,3 e 22,3 mil milhões de pequenos animais.

De acordo com dados analisados pela BBC News Brasil, esta pressão predatória contínua já associou os gatos à extinção moderna de pelo menos 63 espécies de aves, mamíferos e répteis.

A vulnerabilidade das ilhas e habitats isolados
O problema atinge proporções críticas em ecossistemas insulares. Como muitas espécies nativas evoluíram em ambientes sem a presença de mamíferos carnívoros rápidos, elas não possuem estratégias de defesa ou fuga eficazes. Em Portugal, este risco é visível em territórios como os Açores e a Madeira, onde projetos de conservação como o Natura@Night da SPEA monitorizam o impacto de gatos assilvestrados em aves marinhas vulneráveis, como as cagarras.

A realidade em Portugal Continental
A discussão ganha ainda mais relevância com os dados recentes do Primeiro Censo Nacional de Animais Errantes, coordenado pela Universidade de Aveiro em parceria com o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). O estudo confirmou a existência de cerca de 830 mil gatos errantes nas áreas urbanizadas do país.
Além da predação direta da fauna urbana, o ICNF alerta no seu canal oficial para outro perigo ecológico: a hibridização. O cruzamento de gatos domésticos abandonados com o raro gato-bravo (Felis silvestris) - uma espécie classificada "Em Perigo" de extinção em Portugal - ameaça a integridade genética da fauna selvagem nativa.

Os perigos invisíveis da rua para a saúde do gato e saúde pública
Os gatos domésticos não devem andar na rua sozinhos e sem supervisão devido a uma combinação de riscos graves para a sua própria segurança, para a saúde pública e para o equilíbrio do meio ambiente. [1, 2]
Os veterinários e as principais associações de bem-estar animal recomendam que vivam exclusivamente no interior (ou com acesso vedado) pelos seguintes motivos estruturais: [1, 2]

1. Riscos letais imediatos para o gato
A rua é um ambiente hostil para um animal domesticado. Os gatos com acesso livre à rua enfrentam perigos constantes que reduzem drasticamente a sua esperança média de vida: [1, 2, 3]
  1. Atropelamentos: é uma das causas mais comuns de morte súbita. Os gatos não têm perceção do perigo do trânsito automóvel. [1, 2, 3, 4]
  2. Envenenamentos: seja por ingestão acidental de químicos (como anticongelante de carros), raticidas ou plantas tóxicas, o risco de intoxicação é altíssimo. [1, 2]
  3. Maus-tratos e violência: infelizmente, os animais na rua estão expostos à crueldade humana, armadilhas ou ataques de cães. [1, 2]
  4. Lutas territoriais: os gatos são extremamente territoriais. As brigas com outros gatos de rua causam ferimentos graves, abcessos e infeções que necessitam de intervenção cirúrgica. [1, 2, 3]
2. Transmissão de doenças incuráveis
Mesmo que um gato seja vacinado, as saídas à rua expõem-no a vírus altamente contagiosos e fatais entre felinos. Estudos recentes mostram que gatos com acesso à rua têm taxas de doenças infeciosas semelhantes às de gatos totalmente errantes. Os principais riscos são: [1, 2, 3]
  1. FIV e FeLV: o Vírus da Imunodeficiência Felina (FIV) e a Leucemia Felina (FeLV) não têm cura e são transmitidos facilmente através de mordeduras, arranhões ou partilha de fluidos na rua. [1, 2]
  2. Zoonoses (risco para os humanos): os gatos que andam na rua podem trazer para dentro de casa parasitas (pulgas, carraças, desinterias por vermes) e doenças transmissíveis ao ser humano, como a toxoplasmose e a raiva. [1, 2]
3. Destruição da biodiversidade local
Como vimos anteriormente, o instinto de caça do gato não desaparece por ele ter comida em casa. Um gato doméstico na rua torna-se um predador invasor que caça aves, lagartos e pequenos mamíferos nativos apenas por reflexo. Esta pressão ecológica contribui para o declínio de espécies protegidas e desequilibra a fauna urbana. [1, 2, 3, 4]

Medidas de prevenção e guarda responsável
A mitigação deste impacto silencioso não passa por diabolizar os felinos, mas sim por promover uma mudança de comportamento nos seus tutores. Algumas das recomendações estruturais apoiadas por especialistas incluem:
  1. Acesso controlado ao exterior: manter os gatos domésticos dentro de casa ou construir espaços exteriores vedados e seguros. Quem procura inspiração prática pode consultar várias Ideias para fazer um cercado externo (catios), que permitem adaptar janelas, pátios ou varandas para dar liberdade vigiada ao animal sem riscos.
  2. Estilo de vida enriquecido: para evitar o tédio e a ansiedade de estar apenas no interior, o tutor deve aplicar estratégias descritas num Guia de enriquecimento ambiental para gatos. Isto inclui a instalação de arranhadores altos, jogos de procura e o fornecimento de dietas ricas em proteína animal para satisfazer o reflexo natural de caça de forma segura.
  3. Controlo de populações de rua: apoiar os programas municipais de esterilização para travar o crescimento exponencial de colónias errantes. De acordo com o enquadramento legal de Detenção de Animais de Companhia do ICNF, a promoção da guarda responsável e o controlo destes animais em ambiente urbano (através de programas como o CED - Capturar, Esterilizar, Devolver) são passos cruciais para proteger tanto o bem-estar animal como a fauna selvagem nativa.

Helena Freitas: a ciência por uma agenda de paz


A doutora em Ecologia e titular da Cátedra UNESCO em Biodiversidade e Conservação para o Desenvolvimento Sustentável ensina-nos como a transição energética, a produção de alimentos e a regeneração dos ecossistemas se relacionam com a igualdade.

As videiras subiam vertiginosamente e, ao passarem de uma à outra pelos ramos das árvores, estendiam as suas folhagens ao longo dos muros daquele sítio. Nos campos, entre montes e vales, crescia o milho na lavoura. Nos limites orientais de Vila Nova de Famalicão, corria o Pele e, nas suas margens, avançava uma indústria têxtil que então já completava um século de existência. Na década de 60, o Minho começava a repartir-se entre o campo e a urbe, enquanto novas fábricas abriam um futuro diferente à terra. Foi ali, onde uma natureza ainda selvagem se confundia com o quotidiano suado dos agricultores e operários, que nasceu a doutora Helena Maria de Oliveira Freitas (Mogege, 1962).

Esse ambiente haveria de permanecer, não apenas na sua memória, mas também como fonte do ímpeto que mais tarde levaria a cientista a investigar os mecanismos de funcionamento dos sistemas vivos. Ao relembrar a infância em busca das razões que a levaram a ser a mulher que se tornou, não escolhe, porém, a natureza como primeira inspiração. No seio da família, recebeu o carinho e o incentivo para viajar e explorar o mundo, crescer e indagar, uma liberdade que identifica como a razão mais profunda da sua trajectória. “Tive sempre um universo de muito amor à minha volta”, conta.

Ainda criança, passou dois anos em Angola, de onde recorda poucas coisas. A educação católica, vivida sem rigidez, e a prática do basquetebol deixaram-lhe marcas distintas. Da primeira, ficou-lhe a busca de um sentido de humanidade. Da segunda, o gosto pelo fazer colectivo. “Eu sempre gostei de construir e de trabalhar em equipa”, recorda. Mais adiante, a Biologia, que acreditava ser a ciência do século seguinte, apresentou-se como resposta à curiosidade que a movia: desvendar a lógica da vida.

Cresceu ao lado do Mondego, onde concluiu a licenciatura em Biologia na Universidade de Coimbra, em 1985. Antes de terminar o curso, já era monitora nas aulas práticas de Ecologia Vegetal. Passou a assistente estagiária, depois a assistente, e começou a ensinar Fisiologia Vegetal enquanto avançava na investigação. O doutoramento em Ecologia, concluído em 1993, em colaboração com a Universidade de Bielefeld, na Alemanha, levou-a a estudar os tricomas vesiculares de plantas do género Atriplex, estruturas foliares de espécies tolerantes à salinidade. Esse objecto microscópico continha uma pergunta. Como consegue a vida responder quando o ambiente a põe à prova? Vieram os sais, os metais, a contaminação do solo, a adaptação ao stress e a possibilidade de aprender com organismos resistentes para recuperar sistemas degradados.

“Eu sou uma fisiologista”, diz, quando perguntada sobre as mudanças no seu percurso científico. Não reconhece, porém, verdadeiras rupturas. A ecologia ajudava-a a formular os problemas; a fisiologia permitia-lhe procurar explicações. A ciência experimental, afirma, foi “vital”. Mais tarde, o campo de observação cresceria até às comunidades humanas, porque conservar a natureza sem as considerar se lhe tornara impossível.

As escalas da vida
Entre 1994 e 1996, o pós-doutoramento na Universidade de Stanford levou-a ao estudo dos efeitos ecofisiológicos do aumento do dióxido de carbono nos ecossistemas mediterrânicos. Trouxe daí uma convicção que transmitiria aos alunos. Quem investiga deve sair do próprio laboratório, conhecer outras culturas científicas, confrontar métodos e aprender a construir respostas com pessoas diferentes.

Em 1999, integrou a equipa internacional que publicou na Science um trabalho de referência sobre diversidade e produtividade em comunidades herbáceas europeias. Experiências em oito locais mostraram que a redução da riqueza de espécies fazia cair a biomassa produzida e, para o mesmo número de espécies, menos grupos funcionais estavam associados a menor produtividade. A biodiversidade deixava de aparecer apenas como património a conservar e mostrava consequências mensuráveis no funcionamento dos ecossistemas.

Das plantas passou às relações entre raízes, fungos e bactérias, à fitorremediação de solos contaminados, aos montados, às dunas, às espécies invasoras, à biodiversidade do solo, às alterações climáticas, à conservação e, mais recentemente, à agroecologia, aos sistemas alimentares e às relações entre conhecimento, natureza e sociedade. Foi aumentando a escala: da folha à planta, desta ao ecossistema, daí à paisagem e à humanidade. Em 2026, soma mais de 300 publicações científicas internacionais e mantém intensa actividade de investigação.

Quando lhe pedem os nomes mais importantes da sua caminhada, não começa pelos grandes mestres nem pelas instituições. “Os mais decisivos foram sempre os meus alunos”, responde. Junta-lhes investigadores, colaboradores e equipas que, diz, a ajudaram “a viver o caminho”. Reconhece neles uma fonte de aprendizagem e inspiração.

Em 2003, tornou-se professora catedrática. No ano seguinte, assumiu a direcção do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra e a presidência da Sociedade Portuguesa de Ecologia. Seria ainda vice-presidente da Federação Europeia de Ecologia. É ao Jardim que regressa com particular afeição: a renovação daquele espaço, diz, foi “uma das experiências mais importantes” da sua vida académica.

Criou uma unidade dedicada à matriz ecológica, o actual Centro de Ecologia Funcional, reunindo investigadores de diferentes áreas em torno de problemas multidisciplinares. Entre 2011 e 2015, foi vice-reitora da Universidade de Coimbra e, em 2014, tornou-se titular da Cátedra UNESCO em Biodiversidade e Conservação para o Desenvolvimento Sustentável. “Entendi que também tinha a obrigação de participar e dar algum tempo para essa missão”, conta.

O dever de participar
Em 2015, foi eleita pelo círculo de Coimbra como independente nas listas do Partido Socialista e tornou-se deputada à Assembleia da República. Explica a decisão pelo que observara durante os anos da intervenção da troika, considerando que “a ciência, a academia e as universidades tinham sido duramente penalizadas”, num momento que julgava crítico para o país.

Em 2016, suspendeu o mandato parlamentar para coordenar a Unidade de Missão para a Valorização do Interior. A desigualdade territorial e social interpelava-a de outro modo. Populações afastadas de serviços, dificuldades no acesso à saúde e à educação, territórios que perdiam gente e oportunidades. Coordenou o Programa Nacional para a Coesão Territorial, mas depressa encontrou os limites da função. Diz ter percebido que “não tinha as condições materiais e políticas” para realizar a missão como desejava. “Achei que era mais útil fora do projecto”.

Distinguida com a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique, o Prémio Ernst Haeckel da Federação Europeia de Ecologia e o Grande Prémio Ciência Viva, ela completou anos na última quinta-feira. No dia seguinte, descreveu como uma “prenda inesperada e feliz” a oportunidade de estar com o Papa Leão XIV na UNESCO, em Paris. Reconhece no pontífice uma preocupação que também a move: transformar a relação das sociedades com o mundo natural. Para ela, a transição energética, a produção de alimentos e a regeneração dos ecossistemas são inseparáveis da igualdade.

Da natureza do Minho à ciência de Coimbra, a sua trajectória alargou-se, mas, quando explica o que a move, regressa à família e ao muito que dela recebeu. O amor e a liberdade da infância trouxeram, no seu entendimento, a responsabilidade de fazer frutificar o que lhe foi confiado. A ciência, a docência e a participação pública são formas de retribuir. Como as árvores do Norte em que as videiras se apoiam, a doutora Helena Freitas tem ajudado a fazer do conhecimento um amparo para que outras vidas floresçam. “A agenda ambiental é uma agenda de paz”, ensina.

sábado, 3 de outubro de 2026

Melhor destino de reforma no estrangeiro já não é na Europa, mas seis dos dez primeiros são europeus


Uruguai lidera um novo ranking global de destinos de reforma, destronando o líder do ano passado, Portugal. Ainda assim, a Europa continua a ser a região mais representada, com seis países no top 10. As Américas ocupam três lugares, enquanto Maurícia fica em segundo lugar.

O índice de reforma de 2026 da Global Citizen Solutions compara 46 programas de residência para reformados e titulares de rendimentos passivos, avaliando qualidade de vida, liberdade de viagem e vias de acesso à cidadania, fiscalidade, processos de candidatura e custos.

Na Europa, os pontos fortes são os elevados padrões de vida, a força dos passaportes e as vias para obter cidadania, embora a carga fiscal mais elevada penalize as pontuações. Espanha, Portugal, Letónia, Andorra, Itália e Grécia entram todas no top 10, com Portugal a descer este ano para o quinto lugar.

Uruguai lidera graças a resultados sólidos nas cinco categorias, em vez de ficar em primeiro lugar numa só. Maurícia surge logo depois, ao combinar um quadro fiscal favorável com bons resultados nos restantes critérios.

O relatório sublinha que o destino ideal depende das prioridades de cada reformado. Menos de quatro pontos separam o primeiro do décimo lugar, o que torna os líderes muito próximos entre si.

Quais são as principais prioridades de quem se reforma no estrangeiro?
A qualidade de vida é o fator com maior peso no índice, seguida da mobilidade e da cidadania, depois da fiscalidade, dos processos de candidatura e dos custos. Esta ponderação reflete, segundo o relatório, as prioridades de uma pessoa típica que se reforma fora do seu país.

A Europa destaca-se na qualidade de vida e na mobilidade, mas obtém classificações mais baixas em matéria de impostos, com grandes diferenças entre programas. As Américas distinguem-se pela acessibilidade e pela fiscalidade favorável, enquanto Maurícia lidera o desempenho africano. No Médio Oriente, os principais atrativos são os baixos impostos e a rapidez de processamento. Os Emirados Árabes Unidos, 19.º no conjunto, ocupam o primeiro lugar nos regimes fiscais preferenciais. Espanha, terceira a nível global, regista também pontuações elevadas em mobilidade e na possibilidade de se mudar com familiares.

Passaportes fortes e vias claras para a cidadania ajudam muitos programas europeus e latino-americanos a obter pontuações elevadas. Os destinos do Golfo oferecem fiscalidade favorável e processos rápidos, mas os respetivos programas de reforma não incluem uma via padrão para a cidadania.

Programas europeus com melhor desempenho no índice de 2026
Os dez programas internacionais de reforma melhor classificados na Europa são os de Espanha, Portugal, Letónia, Andorra, Itália, Grécia, Áustria, Albânia, Chipre e Malta. Todos figuram na metade superior do índice.

Os programas europeus destacam-se sobretudo na qualidade de vida e na mobilidade. A contrapartida está nos impostos. Espanha, considerada o melhor país europeu para viver a reforma no estrangeiro, ocupa o quinto lugar mundial em qualidade de vida e oferece um processo de candidatura relativamente simples, que pode demorar até oito meses. Porém, o país surge em último lugar entre os 46 em matéria fiscal, com tributação mundial, impostos regionais sobre o património e sem regime especial para titulares de vistos.

Portugal surge em segundo lugar na Europa. O país, que liderou a lista global em 2025, caiu este ano para a quinta posição. A descida acompanha o aumento dos anos exigidos para aceder à cidadania. Em maio, o requisito passou de cinco para dez anos para a maioria dos candidatos de fora da UE.
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Ainda assim, o país mantém uma classificação global muito elevada, beneficiando de ser uma das principais vias europeias mais acessíveis, com o requisito de rendimento fixado em 920 euros mensais. Portugal regista também boas pontuações em mobilidade, mas o processamento pode demorar até dois anos e a sua posição 41.ª em fiscalidade pode tornar o destino menos atrativo para reformados que privilegiam impostos mais baixos.

Os programas com melhor desempenho fiscal, nomeadamente Malta, Andorra e Chipre, tendem a impor outros requisitos exigentes, como limiares de rendimento elevados, grandes investimentos ou processos lentos. Vários países oferecem ainda regimes opcionais, como a taxa fixa de 7% sobre pensões estrangeiras na Grécia e no sul de Itália.

Os prazos de processamento e os custos variam bastante: a Letónia, terceiro melhor programa europeu, oferece tempos de decisão entre dois e quatro meses e é um dos regimes de menor custo. Em contraste, o processo em Chipre pode ultrapassar dois anos, embora o país aplique uma taxa de 5%, sujeita a condições específicas.

A Irlanda ocupa o primeiro lugar em qualidade de vida no índice. Combina um ambiente de língua inglesa com algumas das classificações mais fortes em segurança e ambiente.

Andorra apresenta as melhores pontuações do índice em segurança e ambiente; ocupa o terceiro lugar mundial em qualidade de vida e oferece impostos baixos, com o imposto sobre o rendimento limitado a 10% e sem tributação sobre o património ou heranças. É também o programa mais caro de todo o índice, ao exigir um investimento local de 1 milhão de euros, além de um rendimento substancial.

Itália e Grécia ocupam, respetivamente, o primeiro e o segundo lugares a nível mundial em mobilidade e cidadania. São também o quinto e o sexto destinos europeus de reforma mais bem classificados. Ambos oferecem opções para reduzir a carga fiscal, mas o requisito de rendimento mensal da Grécia, fixado em 3 500 euros, é um dos mais elevados.

Quanto rendimento mensal é necessário para se qualificar?
Os requisitos de rendimento mensal diferem muito, desde menos de 600 euros na Nicarágua até mais de 9.000 euros no Bahrein. Na Europa, um rendimento inferior a 800 euros mensais pode ser suficiente em Chipre, se outros critérios forem cumpridos, enquanto em Andorra o rendimento mensal tem de ultrapassar 4.500 euros. Para efeitos de comparação, os valores apresentados no gráfico foram convertidos em euros, pelo que podem variar com as taxas de câmbio.

Também é relevante a origem do rendimento. Em alguns casos, os candidatos têm de provar rendimentos passivos obtidos no estrangeiro ou uma pensão; noutros, aceitam-se poupanças ou dividendos. E, mesmo quando o limiar de rendimento é relativamente baixo, alguns regimes exigem igualmente poupanças, depósitos, investimentos ou outros pagamentos iniciais significativos.

Cabo Verde, Namíbia, Chile, Zâmbia e Marrocos ficam fora do gráfico porque o relatório não esclarece se os requisitos de rendimento são mensais. El Salvador também é excluído, já que apresenta limiares distintos para pensionistas e para pessoas que vivem de rendimentos passivos. Nestes países, os requisitos de rendimento situam-se entre 825 e 1 800 dólares.
Em quanto tempo se pode obter um passaporte?

Uma via para a cidadania é comum, mas não está garantida. Segundo o relatório, 24 programas oferecem naturalização em até cinco anos e 17 entre seis e dez anos. Andorra exige 20 anos. Quatro — Malta, Emirados Árabes Unidos, Irlanda e Bahrein — não preveem via padrão através de vistos de reforma ou de rendimentos passivos.

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Os prazos mais curtos registam-se na América do Sul: cerca de dois anos na Argentina e aproximadamente três no Uruguai, Paraguai e alguns outros países.

No entanto, 11 países, entre os quais Áustria, Andorra, Emirados Árabes Unidos e Malásia, não permitem dupla nacionalidade, segundo o relatório. Os candidatos podem ter de renunciar à cidadania de origem e, para quem não estiver disposto a fazê-lo, a residência permanente pode ser o limite.
O que oferecem outras regiões

As Américas distinguem-se pela acessibilidade e pela fiscalidade favorável. Brasil, Argentina e Chile oferecem também passaportes fortes e vias relativamente curtas para a cidadania, o que aumenta o apelo da região.

Maurícia é o país africano com melhor desempenho. No Médio Oriente, os principais atrativos são os baixos impostos e o processamento rápido, embora os regimes de reforma não incluam uma via padrão para a cidadania.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Calor e poluição causam milhares de mortes em Portugal, indica relatório

Avaliação global do Relatório Saúde Ambiente 2025 alerta para milhares de mortes associadas a riscos ambientais e pede proteção dos mais vulneráveis, cuidados de saúde mais sustentáveis e preparação para catástrofes climáticas.

Portugal está a reduzir as emissões de gases com efeito de estufa e a melhorar alguns indicadores ambientais, mas continua a enfrentar perdas de saúde associadas ao calor, à poluição e à degradação dos ecossistemas. A avaliação global «Saúde e Ambiente 2025: Urgência para Ação», que integra o Relatório Saúde Ambiente 2025 do Observatório Português da Saúde e Ambiente (OPSA), defende uma mudança de prioridade: tratar a crise ambiental também como uma emergência de saúde.

Os números reunidos no documento tornam visível a dimensão do problema: estimam-se 2.009 mortes em excesso durante os episódios de calor considerados em 2025 e cerca de 4 710 mortes atribuíveis à poluição do ar em 2023, incluindo as componentes exterior e interior. O relatório cita ainda uma estimativa de 750 mortes prematuras anuais associadas à poluição sonora. Estes valores respeitam a metodologias e períodos distintos e não devem ser somados.

Os riscos agravam as desigualdades
As ondas de calor já não são apenas uma ameaça de verão. A avaliação regista seis episódios em 2025, distribuídos pela primavera, verão e outono, e destaca a pressão dos incêndios, da escassez de água e da perda de biodiversidade. A deteção do mosquito Aedes albopictus, que pode transmitir doenças como dengue e chikungunya, passou de 18 concelhos do continente em 2024 para 28 em 2025. A presença do mosquito não significa, por si só, transmissão local destas doenças.

A capacidade de proteção é desigual: 15,7% da população declarou não conseguir aquecer adequadamente a sua casa em 2024. Pessoas idosas, crianças, doentes crónicos e famílias com menos recursos estão entre os grupos mais vulneráveis. O relatório defende que a resposta comece onde as pessoas vivem, com melhores habitações, espaços verdes, redução da poluição e apoio às populações mais expostas.

Há progressos. Falta uma resposta nacional integrada
O balanço reconhece avanços: em 2024, as emissões nacionais de gases com efeito de estufa estavam 40,1% abaixo das de 2005. A proporção de dias com qualidade do ar classificada como «Fraco» ou «Mau» diminuiu de 16,8%, em 2005, para 1,1%, em 2023. Mas melhorar médias nacionais não elimina os riscos locais nem garante proteção a todos.

O setor da saúde enfrenta uma dupla responsabilidade: responder aos impactos ambientais e reduzir os danos associados à sua própria atividade. Segundo a estimativa citada no documento, é responsável por 4,8% das emissões nacionais de gases com efeito de estufa. A avaliação considera que a sustentabilidade ambiental ainda não assumiu a necessária prioridade política no Serviço Nacional de Saúde e que a implementação de medidas de adaptação permanece insuficiente.

Há exemplos que mostram capacidade de mudança. Na Unidade Local de Saúde de Santa Maria, o consumo de energia primária caiu cerca de 40% em 2023 face a 2019. Na ULS de Santo António, o Projeto ROSE reduziu os resíduos abrangidos pela intervenção de cerca de 106 para 57 toneladas entre 2022 e 2025. O desafio é passar destas experiências a uma política integrada, continuada e mensurável.

Prevenir, transformar os cuidados e preparar a resposta
Entre as prioridades recomendadas pelo Conselho Português para a Saúde e Ambiente (CPSA) estão uma estrutura de governação que articule diferentes ministérios, uma estratégia nacional de sustentabilidade ambiental na saúde e um Plano Nacional de Adaptação da Saúde, abrangendo os setores público e privado. Estas respostas devem ter metas explícitas, financiamento, responsáveis identificados e avaliação dos resultados.

No terreno, isso significa identificar e acompanhar pessoas vulneráveis, reforçar a vigilância e os alertas, proteger escolas e lares, criar espaços de arrefecimento acessíveis e garantir a continuidade dos cuidados durante ondas de calor, incêndios, cheias ou tempestades. Significa também investir na prevenção da doença, reduzir cuidados desnecessários e desperdícios, promover compras sustentáveis, melhorar a literacia do público, formar os profissionais e reforçar a investigação.

«A proteção da saúde não pode esperar que a degradação ambiental se traduza em mais episódios de doença, nem a proteção do ambiente pode permanecer exterior às decisões de saúde», conclui a avaliação.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta para 13 milhões de mortes anuais associadas a fatores ambientais.