sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Fontaines D.C. - Japan

A Máscara do Quotidiano: Realismo Urbano e Alienação Existencial em "Japan" dos Fontaines D.C.
Originários de Dublin, os irlandeses Fontaines D.C. afirmam-se como uma das vozes mais densas e poéticas do rock alternativo e do post-punk contemporâneo. Em "Japan", a banda preserva a sua matriz urbana e melancólica, mas renova o seu vocabulário musical ao abraçar uma sonoridade mais intimista, acústica e envolvente. O tema centra-se numa crónica amarga sobre o tédio das rotinas, a desconexão emocional e a falsidade inerente às relações modernas. A letra acompanha a figura de uma mulher descrita como "mímica" - uma metáfora para a representação performativa e desprovida de sentimento -, que sustenta financeiramente um parceiro ausente, supostamente situado "no Japão". Essa barreira geográfica não passa de um símbolo para o abismo emocional que os separa, expondo a vacuidade de uma relação mantida por conveniência e habituada ao disfarce.

No plano concetual e filosófico, a obra bebe intensamente do realismo sujo (dirty realism) e da rica tradição literária da observação urbana. Esta herança, profundamente enraizada em autores irlandeses como James Joyce (em Dubliners), revela-se no olhar minucioso e quase clínico sobre o quotidiano cinzento de personagens comuns e nas suas pequenas tragédias silenciosas. Ao mesmo tempo, a canção dialoga diretamente com o existencialismo e com a filosofia da inautenticidade. A alcunha da "mímica" e o verso em que se sugere que ela se afasta do próprio corpo durante a intimidade espelham o conceito de "má fé" e dissociação emocional: a tendência humana para desempenhar papéis sociais rígidos, anestesiando os sentidos para evitar a dor do confronto com a realidade.

Esta carga lírica ganha corpo na narrativa do videoclipe, que recusa qualquer romantização ou exotismo sobre o Japão e prefere situar a ação em cenários suburbanos banais, centros comerciais genéricos e rotinas sufocantes. As personagens movem-se de forma mecânica e automatizada, simbolizando a alienação da vida contemporânea. A tensão atinge o seu ponto de rutura com a constante pergunta do refrão - "Why'd you go and make it real?" -, uma súplica desesperada que expõe o custo de rasgar a ilusão: a transição dolorosa entre o conforto anestesiante de uma farsa mantida em piloto automático e a brutalidade de ter de encarar a verdade sobre quem realmente somos.

Sem teto no Parque da Cidade: o esquilo Bernardo e o drama habitacional do Porto

Foi durante um passeio pelo Parque da Cidade que avistei este esquilo-vermelho, imóvel sobre a madeira envelhecida, a fitar o horizonte com um olhar tão expressivo e alerta que parecia carregar o peso de uma verdadeira preocupação. Ao observar a sua postura minuciosa, como se estivesse a inspecionar o seu próprio pedaço de terra, foi impossível não traçar um paralelo imediato com a realidade que nos rodeia: a premente crise habitacional que afeta a cidade do Porto. Esta coincidência inspirou-me a escrever uma fábula urbana que une o destino deste pequeno roedor ao drama vivido por tantos portuenses.

"Nas alturas da copa das árvores, o esquilo Bernardo procura incansavelmente por um abrigo. A sua espécie depende de cavidades naturais em troncos velhos e robustos, mas estas "casas tradicionais" são cada vez mais raras e disputadas, obrigando os esquilos a competir ferozmente por um refúgio seguro - tal como os portuenses veem escassear as habitações acessíveis nos seus bairros históricos. Para contornar a falta de espaço, resta-lhe a exaustiva tarefa de construir o seu próprio drey, um ninho esférico feito de ramos e musgo que exige um investimento colossal de energia e tempo, espelhando os sacrifícios sufocantes e o esforço financeiro que as famílias hoje enfrentam para erguer ou adquirir um lar.

E quando nada disso está ao alcance, o esquilo é forçado a recorrer aos troncos caídos no solo: locais de passagem úteis para esconder pinhas ou sementes, mas vulneráveis a predadores e incapazes de oferecer a estabilidade de um verdadeiro abrigo. No Porto, essa precariedade traduz-se no recurso a soluções temporárias e incertas. Revela-se na proliferação de quartos inflacionados, onde a renda de um simples espaço absorve mais de metade do ordenado e força à sobrelotação em apartamentos partilhados. Reflete-se na vulnerabilidade constante dos contratos de curtíssima duração, que impedem a criação de raízes e deixam os inquilinos sob o espetro de aumentos drásticos ou não renovações no final de cada ano. Traduz-se no empurrar sistemático das pessoas para a periferia, trocando a história da cidade por horas de deslocação diária. E traduz-se, de forma dramática, no regresso de adultos e jovens trabalhadores à casa dos pais por incapacidade de arcar com um teto próprio, ou no sufoco acrescido trazido pelas ruturas conjugais - numa região e num país com taxas de divórcio assustadoramente elevadas, onde a separação de um casal significa a necessidade imediata de duas habitações num mercado que não consegue garantir sequer uma.

Quer se viva no cimo de um pinheiro no Parque da Cidade ou num edifício centenário na Baixa da Invicta, a lição que este olhar atento nos deixa é universal: a segurança de ter um teto não devia ser um privilégio de poucos, mas a garantia fundamental para que qualquer habitante possa guardar as suas provisões e prosperar com dignidade."

Nota: "A precariedade laboral, os baixos salários e a crise na habitação - que forçam os jovens a permanecer em casa dos pais até mais tarde - surgem como os principais obstáculos ao início da vida em casal e ao casamento." Saber mais sobre este estudo aqui

Ter emprego não chega, habitação pesa: estudos mostram que a pobreza persiste em Portugal, principalmente entre os jovens e idosos


Metade dos jovens portugueses vive na incerteza dos recibos verdes. Ocupamos o vergonhoso 4.º lugar no ranking da precariedade da União Europeia.
Ter casa, estabilidade e dignidade não devia ser uma utopia para quem está a começar a vida.

Vamos novamente a factos e não basearmo-nos nas questões triviais como o que os jovens vestem  ou se estão a ser manipulados pela esquerda ou pela direita. 
𝐐𝐮𝐚𝐧𝐭𝐨𝐬 𝐣𝐨𝐯𝐞𝐧𝐬 𝐞𝐬𝐭𝐚̃𝐨 𝐚 𝐫𝐞𝐜𝐢𝐛𝐨𝐬 𝐯𝐞𝐫𝐝𝐞𝐬 𝐞𝐦 𝐏𝐨𝐫𝐭𝐮𝐠𝐚𝐥?
Segundo os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE):   em termos absolutos estima-se que existam cerca de 60.000 a 80.000 jovens (até aos 29/30 anos) a trabalhar de forma independente ou a prestação de serviços (recibos verdes).

𝐅𝐚𝐥𝐬𝐨𝐬 𝐫𝐞𝐜𝐢𝐛𝐨𝐬 𝐯𝐞𝐫𝐝𝐞𝐬 𝐞 𝐝𝐞𝐩𝐞𝐧𝐝𝐞̂𝐧𝐜𝐢𝐚: entre a população jovem que trabalha a recibos verdes (faixa dos 16 aos 34 anos), regista-se a maior taxa de dependência económica e organizacional. Cerca de 20% destes jovens dependem de um único cliente (ou seja, cumprem funções de trabalhadores por conta de outrem, com horário estipulado e chefia, mas sem direito a contrato, subsídios ou proteção no desemprego).   

𝐂𝐨𝐧𝐭𝐫𝐚𝐭𝐨𝐬 𝐩𝐫𝐞𝐜𝐚́𝐫𝐢𝐨𝐬 𝐧𝐨 𝐠𝐞𝐫𝐚𝐥: se alargarmos a análise à precariedade laboral jovem (que inclui contratos a termo, temporários e recibos verdes), o panorama é ainda mais expressivo: 𝐜𝐞𝐫𝐜𝐚 𝐝𝐞 𝟓𝟎% 𝐝𝐨𝐬 𝐣𝐨𝐯𝐞𝐧𝐬 𝐞𝐦𝐩𝐫𝐞𝐠𝐚𝐝𝐨𝐬 𝐞𝐦 𝐏𝐨𝐫𝐭𝐮𝐠𝐚𝐥 𝐭𝐞̂𝐦 𝐥𝐚𝐜̧𝐨𝐬 𝐥𝐚𝐛𝐨𝐫𝐚𝐢𝐬 𝐩𝐫𝐞𝐜𝐚́𝐫𝐢𝐨𝐬, 𝐬𝐞𝐧𝐝𝐨 𝐚 𝐭𝐚𝐱𝐚 𝐝𝐞 𝐩𝐫𝐞𝐜𝐚𝐫𝐢𝐞𝐝𝐚𝐝𝐞 𝐞𝐧𝐭𝐫𝐞 𝐨𝐬 𝐣𝐨𝐯𝐞𝐧𝐬 𝐩𝐨𝐫𝐭𝐮𝐠𝐮𝐞𝐬𝐞𝐬 𝐮𝐦𝐚 𝐝𝐚𝐬 𝐦𝐚𝐢𝐬 𝐞𝐥𝐞𝐯𝐚𝐝𝐚𝐬 𝐝𝐞 𝐭𝐨𝐝𝐚 𝐚 𝐔𝐧𝐢𝐚̃𝐨 𝐄𝐮𝐫𝐨𝐩𝐞𝐢𝐚.

Falta de apoios: quase metade das pessoas em situação de pobreza (cerca de 45,4% em idade ativa) não recebe qualquer prestação social do Estado

Das grandes cidades até às aldeias, o cenário que nos rodeia é exatamente o mesmo: hotéis a multiplicar-se e uma lei de arrendamento cada vez mais penalizadora. Isto não é uma discussão de esquerda nem de direita. O que vivemos ultrapassou há muito a gentrificação ou a 'disneylandização' do país - é a ausência absoluta de políticas e decisões que protejam quem está a tentar construir o seu futuro.

A manifestação que eclodiu no Porto é profundamente justa e urgente. Há anos que programas como o Porta 65 se revelam insuficientes e desfasados da realidade, enquanto o "jovem trabalhador" foi diluído sob o eufemismo do "colaborador". Falamos de uma geração que cumpre horários das 7h às 19h ou enfrenta turnos da noite, mas cujo esforço é sistematicamente ignorado quando chega a hora da efetivação. Ao menor sinal de incerteza, as empresas descartam-nos, remetendo-os de novo para a precariedade, sem rede de proteção social nem perspetiva de estabilidade.

Tendas montadas na via pública, durante a noite e com o mesmo propósito: alertar para a crise da habitação. A "Acampada pela Habitação", que está a levar milhares de pessoas às ruas do Porto, desde sábado, não é o primeiro protesto do género em Portugal. Em 2020, a Juventude Social-democrata (JSD), do PSD, organizou uma manifestação com tendas em frente ao Ministério do Ensino Superior, em Lisboa, em plena pandemia. Nessa altura, não houve ordem da PSP para os jovens dispersarem, para a retirada de tendas ou carga policial.

Longe de ser um episódio isolado, a força e o grito de revolta que nasceu esta semana no Porto deviam alastrar-se de forma inexorável a todo o país. É errado pensar que este é apenas um problema da Invicta ou da capital; é um drama nacional. Hoje, o protesto legítimo de quem exige simplesmente o direito a viver onde trabalha acaba por ser duplamente neutralizado: pela partidocracia, que tenta colar rótulos e partidarizar a indignação para alimentar guerras de poder, e pela pós-democracia, que rebaixou a habitação de direito constitucional fundamental a mera mercadoria financeira. 

A frustração que sentimos vai muito além da questão dos rendimentos - é a perceção amarga e profunda de que as regras do jogo foram desenhadas sem ter em conta quem está, hoje, a tentar começar a sua vida. 

Resta-lhes o quê? O aeroporto? Emigrar outra vez? Sair da zona de conforto? Separar novamente as famílias? Repetir a receita de Passos Coelho? E pior, ouvirem o Primeiro-Ministro chamar-lhes "egoístas"?

Os nossos jovens não querem fugir. Querem erguer a sua vida na terra onde nasceram. Garanti-lo é a causa mais nobre de qualquer sociedade. E hoje, perante a falta de respostas, a juventude une-se numa só voz e diz-nos: "Não!

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

DARKWAYS - I Like The Night (And The Night Likes Me)


A banda DARKWAYS, sediada em Barcelona (Espanha) e formada pelos músicos Marc Pérez Marín e Lluís Sanz, traz na faixa "I Like The Night (And The Night Likes Me)" uma fusão envolvente de Darkwave, Synthwave e Goth Rock. A sua sonoridade combina sintetizadores pulsantes de inspiração retro, ritmos eletrónicos acelerados e guitarras com efeitos de chorus, complementados por vocais melancólicos que resgatam a essência do pós-punk oitentista.

A canção funciona como uma celebração e um hino de libertação, no qual a noite deixa de ser um lugar de perigo ou solidão para se tornar um refúgio e uma aliada. Versos como "I like the night, darkness is my only friend..." sintetizam a ideia de que a escuridão acolhe a verdadeira identidade do indivíduo, protegendo-o do julgamento e do ritmo desgastante da rotina diurna. Do ponto de vista literário e filosófico, a composição bebe no Romantismo Gótico de autores como Edgar Allan Poe e Lord Byron - que idealizavam o mistério e a melancolia noturna -, cruzando-se ainda com visões existencialistas e com o conceito de integração da "sombra" de Carl Jung, onde abraçar a própria introspeção é o caminho para a autenticidade.

Esta atmosfera estética e sonora cria uma ponte direta e afetiva com as boas vivências dos anos 80. O apelo visual de néons a rasgar a penumbra urbana e o nevoeiro noturno remete de imediato para a linguagem cinematográfica cult dessa década, ao estilo de Blade Runner ou dos thrillers de John Carpenter. Além disso, o ritmo hipnótico e envolvente ressuscita a energia mágica das pistas de dança e das discotecas goth e synthpop da época, assim como a sensação inesquecível de liberdade ao percorrer as ruas da cidade à noite com o rádio a tocar, transformando a nostalgia oitentista numa experiência viva e revigorante. É aqui que nos reencontramos como as "almas danadas" de ontem e de hoje, -como a minha amiga Gotika e seus amigos bem descrevem - herdeiras legítimas de um sentimento que procura na noite um refúgio onde a música é alta o suficiente para calar o ruído do mundo.

Num quotidiano saturado de obrigações e expetativas, a cena underground funciona como um escudo terapêutico e libertador. Quando os graves ressoam no peito, a música abafa a ansiedade e a dança na penumbra transforma-se num transe que nos devolve ao momento presente. Longe do julgamento da luz do dia, o escuro dos clubes acolhe a nossa estética e essência sem pedir justificações, unindo estranhos numa cumplicidade silenciosa.

Mais do que diversão, a noite é um espaço inabalável de resistência, autenticidade e fraternidade. Numa era dominada pelas aparências e pela positividade forçada, reunir esta tribo na escuridão é um ato de afirmação - o lugar onde a melancolia, a rebeldia e a beleza da sombra encontram finalmente teto e celebração.


Sobre a acampada no Porto pela Habitação Justa

PONTO PRÉVIO
1.´Em Portugal, existem cerca de 773 mil trabalhadores por conta própria (trabalhadores independentes/recibos verdes). 
2. Segundo o relatório da EAPN, Portugal ocupa a 3.ª pior posição da UE no que toca ao risco de pobreza especificamente entre os trabalhadores independentes e outras situações que excluem o trabalho por conta de outrem
3. O risco de pobreza geral dos empregados no país desceu de forma consolidada, fixando-se em 8,6% (dados do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento do INE). No entanto, a média nacional dos trabalhadores esconde a enorme disparidade enfrentada pelos "recibos verdes", cuja taxa de pobreza é historicamente duas a três vezes superior à dos trabalhadores com contrato.
4. Dependência Económica (Falsos Recibos Verdes): um dos fatores estruturais que explica a fragilidade contínua é que mais de 14% dos trabalhadores por conta própria dependem economicamente de um único cliente (que representa 75% ou mais dos seus rendimentos), inserindo-se naquilo que comummente se designa por "falsos recibos verdes".
Fonte [Sete Margens]
A acampada que desde sábado tem estado na Praça D. João I, no Porto, vai permanecer e volta a montar acampamento.

A organização apela ainda a que as pessoas continuem a doar tendas ao movimento, como têm feito, existindo neste momento uma reserva de tendas que poderá ser utilizada esta noite. 

A concentração de hoje, pelas 19:00, arrancou com "Grândola, Vila Morena", de José Afonso, um espelho da canção que os manifestantes cantavam pouco antes da carga policial da última madrugada.

As cerca de duas mil pessoas presentes empunhavam cartazes contra o presidente da Câmara do Porto, Pedro Duarte, e a reivindicar o direito à habitação, entoando palavras de ordem como "O povo unido jamais será vencido" e "Pedro Duarte, demissão".

O movimento pela habitação que tem protestado no Porto denunciou hoje uma carga policial, esta madrugada, que causou ferimentos em 39 dos participantes, dois dos quais ficaram em estado grave.
De acordo com o movimento, entre os feridos está uma pessoa com deficiência e vários participantes na concentração foram hospitalizados.

Os participantes voltaram a instalar tendas durante a noite, que foram retiradas pela polícia, depois de o presidente da Câmara do Porto ter dito na quarta-feira que seria “absolutamente implacável com qualquer tentativa de colocação de tendas” na Praça D. João I”.

O movimento apresenta seis reivindicações principais: “abaixo a lei das rendas; fim dos despejos; fim da compra de imóveis por fundos abutres; mais habitação pública; recuperação de imóveis devolutos para habitação; tetos às rendas”.

A discrepância entre a liderança política e a realidade social do país é evidente. Por um lado, o Primeiro-Ministro detém um património imobiliário substancial - incluindo uma residência de grandes dimensões envolvida em polémicas urbanísticas e dezenas de imóveis de rendimento , garantindo uma estabilidade financeira familiar partilhada pela sua rede de contactos. 

14 membros do governo têm interesses imobiliários, que passaram para testas de ferro quando foram para o governo.

Por outro lado, o panorama do país revela dados alarmantes: um décimo da população vive em pobreza persistente (com estimativas informais a apontarem para valores significativamente superiores), 10% da população encontra-se em risco sério de pobreza prolongada e cerca de 15 mil pessoas vivem em situação de sem-abrigo. Perante este cenário, as críticas do executivo, que qualifica os protestos da população de 'egoísmo', claro que geram mais indignação e hipocrisia.

Entretanto a alegada de Pedro Duarte falou, o artigo 18.º do Decreto-Lei n.º 310/2002, de 18 de dezembro, estabelece que os acampamentos ocasionais fora dos locais próprios para campismo dependem de licença municipal. Porém O direito de reunião e manifestação em locais públicos não carece de qualquer autorização ou licença prévia das câmaras municipais.

Força Porto, força país inteiro, Europa e todos os países que vivem dominados por gente indiferente e que desrespeita o seu povo!

Justiça ambiental e a infância: Por que milhões de crianças pagam o preço mais alto da crise climática

A emergência climática não afeta todos da mesma forma, e as suas consequências mais severas recaem com maior gravidade sobre os grupos que menos contribuíram para a sua origem. No centro desta injustiça estão as crianças e, em particular, as populações indígenas. Os contornos dramáticos desta realidade ficaram patentes quando os dados divulgados no Público Azul revelaram que cerca de 25,8 milhões de crianças na América Latina e no Caribe enfrentam os impactos diretos do fenómeno El Niño, entre secas severas que esvaziam rios essenciais, vagas de calor extremo e interrupções no acesso à água potável e à educação. A dimensão deste problema junta-se aos crescentes alertas internacionais da UNICEF sobre o impacto do clima na infância, que demonstram como a degradação ambiental ameaça os direitos básicos das gerações mais jovens em todo o mundo.

Ao mesmo tempo, a comunidade científica global deu um passo inédito para compreender a extensão deste fenómeno com a publicação de um estudo pioneiro no BMC Global Health Research. Trata-se da primeira revisão a sistematizar formalmente a evidência global sobre os impactos das alterações climáticas na saúde das crianças indígenas, oferecendo um enquadramento rigoroso e alinhado com as evidências disponibilizadas no PubMed Central sobre o impacto da injustiça ambiental na saúde infantil. Estas investigações confirmam que as populações infantis enfrentam uma vulnerabilidade desproporcional, combinando a fragilidade biológica de um organismo em desenvolvimento com a degradação acelerada dos seus territórios e modos de vida ancestrais. No contexto regional, iniciativas como o Programa Criança e Natureza têm vindo a destacar como os conceitos de justiça climática e racismo ambiental afetam diretamente os direitos e a segurança dos menores no Sul Global.

Apesar do pioneirismo e da amplitude da nova revisão, os próprios investigadores alertam que a ciência sobre este tema ainda não é totalmente conclusiva e apresenta limitações importantes na evidência disponível. Quase metade dos estudos analisados não apresentou resultados específicos para crianças indígenas e a investigação existente continua concentrada num número muito reduzido de países e comunidades. Por essa razão, os autores sublinham que é urgente desenvolver novos estudos em mais regiões do globo e assegurar uma participação mais significativa e genuína das comunidades e dos jovens indígenas. O objetivo passa por compreender em profundidade os diferentes impactos climáticos e garantir que as respostas políticas e ambientais tenham em conta as reais prioridades, experiências e conhecimentos destas populações. Como defende Jaime Turnbull, um dos autores do trabalho, reconhecer a soberania, os conhecimentos e as experiências vividas dos povos indígenas, garantindo que as comunidades lideram a definição das soluções, é o único caminho para alcançar resultados equitativos e eficazes no combate à crise climática para as crianças e as suas famílias.

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

LORN - Anvil


"Anvil" de LORN: O Eco Eletrónico da Extinção e o Mito Transumanista
Nascido em Normal, Illinois, e radicado em Milwaukee, o produtor norte-americano Marcos Ortega, conhecido no meio musical como LORN, consolidou-se como uma das figuras mais singulares e influentes da música eletrónica experimental contemporânea. Enquadrado em géneros como o IDM, o Dark Wave, o Industrial e o Leftfield Bass, o trabalho de LORN distingue-se por uma estética sonora sombria, visceral e melancólica, em que sintetizadores analógicos pesados e ritmos hipnóticos constroem atmosferas densas e inquietantes. A faixa "Anvil", pertencente ao seu álbum Vessel de 2015, exemplifica perfeitamente essa identidade: a canção evoca a ideia de um esmagamento inevitável - como sugere o próprio termo "bigorna"-, servindo de metáfora para o peso da mortalidade, o isolamento na era tecnológica e a transição para o desconhecido.

A dimensão conceptual da música atingiu o seu cume em 2016 com o lançamento do seu aclamado videoclipe, concebido e realizado pela dupla artística franco-belga GERIKO, composta por Hélène Jeudy e Antoine Caëcke. Situada num ano de 2100 assolado pela sobrepopulação extrema e pela rutura de recursos do planeta, a curta-metragem de animação apresenta uma solução estatal distópica: a criação da Anvil, uma rede social pós-morte onde a consciência dos cidadãos é digitalizada e armazenada num servidor público, exigindo contudo a eutanásia e desmaterialização do seu corpo físico. A narrativa acompanha os instantes finais de uma jovem mulher na Terra antes da sua transição para a rede digital, confrontando o espectador com a fronteira entre o alívio de uma imortalidade virtual e a tragédia do aniquilamento da condição humana tangível.

Do ponto de vista filosófico e literário, a obra mergulha profundamente nas correntes do transumanismo e do pós-humanismo, questionando os limites do mind uploading e a mercantilização da própria existência. A narrativa reflete as teorias socio-filosóficas sobre biopolítica e controlo estatal dos corpos, bem como as noções de hiperrealidade e simulação formuladas por pensadores como Jean Baudrillard. No plano literário e estético, "Anvil" bebe do universo cyberpunk de autores fundamentais como William Gibson e Philip K. Dick, combinando-o com uma linguagem visual marcante inspirada no traço arquitetónico de François Schuiten (As Cidades Obscuras) e na estética do manga e anime de culto japonês, nomeadamente as obras de Katsuhiro Otomo (Akira) e Masamune Shirow (Ghost in the Shell)

A teia sem centro


Falcão- peregrino (Falco peregrinus)
𝐀 𝐓𝐞𝐢𝐚 𝐒𝐞𝐦 𝐂𝐞𝐧𝐭𝐫𝐨
Descalço os sapatos e, com eles,
a ilusão de que estou fora.
A pele já não é uma fronteira,
é apenas um ponto de contacto.

Não há topo na pirâmide;
a cicuta, a cigarra e o granito
têm o mesmo peso ontológico que o meu olhar.
O valor de uma árvore não se mede em metros cúbicos de madeira,
mas no sobressalto vivo do seu próprio existir.

O antropocentrismo desmorona-se como gesso húmido.
O que chamo «meu corpo»
é apenas a Terra a respirar através deste nome provisório.
O rio não corre para nos servir;
o rio corre porque é a linguagem da montanha.

Desaprender o domínio.
Escutar a inteligência silenciosa das raízes,
o direito inerente de cada líquen, de cada lobo,
de ser exatamente o que é.

A verdadeira revolução não é técnica,
é um acordar do Self ecológico:
reconhecer que ferir a teia
é ferir a mão que a toca.

Dissolver a posse.
Tornar-me, finalmente,
paisagem

João Paulo Soares, 14.10.2026

P.S. O que é o Self ecológico? Saiba mais aqui

Dia Internacional dos Resíduos Elétricos: Quase 18% dos portugueses inquiridos já deitaram pequenos equipamentos elétricos no lixo comum


Um estudo sobre comportamentos relacionados com a tecnologia de baixo custo e consumo rápido, realizado em 12 países europeus, revela que, em Portugal, um em cada seis compradores inquiridos (17,8%) já colocou pequenos equipamentos elétricos deste tipo no lixo comum ou em contentores inadequados.

Este estudo europeu, divulgado pelo Electrão, põe em evidência o destino de carregadores, cabos, auriculares, luzes LED e outros pequenos aparelhos do quotidiano que são muitas vezes adquiridos a baixo custo para satisfazer uma necessidade pontual ou assegurar um equipamento de reserva.

O estudo foi promovido pelo WEEE Forum, a associação internacional de entidades gestoras de resíduos elétricos da qual o Electrão faz parte. Os resultados são divulgados no âmbito da XIV edição do Dia Internacional dos Resíduos Elétricos, iniciativa criada pelo WEEE Forum em 2018, assinalada anualmente a 14 de outubro e que tem este ano como tema a tecnologia “fast tech”.

Em Portugal, oito em cada dez inquiridos (82,5% dos 503 participantes) compraram, pelo menos, um destes produtos no espaço de um ano (entre agosto de 2025 e julho de 2026). Entre quem já comprou estes equipamentos, um terço (33,6%) referiu ter guardado aparelhos que deixou de utilizar.

As papeleiras de rua e o ecoponto amarelo são indicados por 29,8% dos compradores como destinos inadequados onde já colocaram estes pequenos equipamentos elétricos. 41,9% dos inquiridos referem ter entregado estas tipologias de equipamentos num local de recolha ou instalação municipal (ecocentros). Em alguns casos, os comportamentos coexistem: há quem guarde em casa alguns equipamentos fora de uso, entregue outros para reciclagem em locais oficiais e descarte incorretamente outros aparelhos.

Dados globais do estudo
No conjunto dos 12 países, mais de um terço dos compradores (38,6%) afirma ter descartado pelo menos um destes equipamentos sem nunca o utilizar, depois de uma única utilização ou antes de completar um mês de uso.

Perante uma avaria, 59,1% escolheriam novamente o mesmo modelo ou outro equipamento barato. Apesar disso, 80,3% afirmam que, em algumas compras, teriam optado por pagar mais por alternativas mais duradouras.

“Os aparelhos de baixo custo e curta duração continuam a ser equipamentos elétricos. Devemos prolongar o seu uso até ser possível, nomeadamente através da reutilização, e quando deixam de servir é necessário encaminhá-los para reciclagem”, realça o Diretor-Geral de Elétricos e Pilhas do Electrão, Ricardo Furtado.

Recuperar materiais e tratar componentes perigosos
Estes aparelhos, mesmo de pequena dimensão, precisam de ser encaminhados para reciclagem para que os seus materiais sejam recuperados e os componentes, que exigem cuidados específicos, tenham tratamento adequado.

O encaminhamento para reciclagem permite recuperar metais e plásticos que podem voltar a ser usados no fabrico de produtos, reduzindo a necessidade de extrair novas matérias-primas.

O tratamento adequado inclui também a remoção e gestão dos componentes com substâncias perigosas, para proteger o ambiente e a saúde humana. Colocar estes aparelhos no lixo comum compromete esse encaminhamento.

A escala do desafio é mundial. Segundo o Global E-waste Monitor 2024, da UNITAR e da União Internacional das Telecomunicações, foram geradas 62 milhões de toneladas de resíduos elétricos e eletrónicos em 2022. Apenas 22,3% tiveram recolha e reciclagem formalmente documentadas.

Acresce que, no caso dos equipamentos que contêm baterias de iões de lítio, há ainda um risco de segurança. O WEEE Forum alerta que, quando estes aparelhos são descartados indevidamente, as baterias podem ser esmagadas ou perfuradas nos veículos de recolha ou nas instalações de triagem e tratamento e provocar incêndios. A entrega em canais próprios permite encaminhá-los para unidades dedicadas, reduzindo os riscos para trabalhadores e instalações.

Mobilização mundial com arte e recolha no Parque Mayer
O Dia Internacional dos Resíduos Elétricos (Internacional E-Waste Day, na sigla original) pretende mobilizar consumidores, empresas e outras organizações a dar o destino correto a estes resíduos, através de campanhas de sensibilização e iniciativas de recolha. Em 2025 aderiram a esta iniciativa mais de 140 organizações de 50 países, nos seis continentes. Em 2026, a atenção centra-se nos pequenos equipamentos de tecnologia de consumo rápido.


Para assinalar esta efeméride Dia Internacional dos Resíduos Elétricos, o Electrão tem uma instalação no Parque Mayer, junto ao Teatro Variedades, em Lisboa. A associação apoiou também o espetáculo “Pigmalião”, uma ópera contemporânea portuguesa, adaptada a partir do clássico, que foi apresentada neste teatro de 17 a 20 de setembro. Com música de Gerson de Sousa Batista e encenação e conceção plástica de João Vieira Fino, o espetáculo reinterpreta o mito num futuro devastado. A cenografia integrou uma escultura construída com resíduos de equipamentos elétricos e eletrónicos fornecidos pelo Electrão.

O Electrão apela a que os consumidores verifiquem quais os equipamentos que ainda podem utilizar, reparar ou doar e entreguem os que chegaram ao fim de vida nos pontos de recolha adequados. Cabos, carregadores e pequenos aparelhos elétricos também precisam de recolha separada. Os locais de entrega podem ser consultados em Onde Reciclar.

Portugal recicla menos de metade da meta comunitária, salienta a associação ambientalista Zero
"As razões para este descalabro são múltiplas, mas têm sempre por base ações ou omissões das três entidades públicas que ao longo destes 20 anos deveriam ter zelado por garantir a boa gestão dos Resíduos dos Equipamentos Elétricos e Eletrónicos (REEE): o Ministério do Ambiente, a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e a Direção-Geral das Atividades Económicas (DGAE)", aponta a associação.

Recordando que neste ano se cumprem 20 anos da entrada em funcionamento do Sistema de Gestão dos REEE (SIGREEE), a Zero diz que são 20 anos de boicotes e ilegalidades e que as comemorações não podiam ser mais tristes.

Segundo os últimos dados oficiais da APA, em 2024 Portugal recolheu e tratou 32% dos REEE, menos de metade da meta comunitária que é de 65%.

Além dos números, no seu comunicado, a Zero traça ainda um percurso muito negativo de todo o processo, começando por recordar que nos primeiros 12 anos de funcionamento do sistema (até 2018) a APA autorizou que os REEE triturados em unidades de fragmentação de sucata contassem para as metas das entidades gestoras dos REEE (Electrão e ERP), sem que existisse qualquer evidência de que esses resíduos tivessem sido devidamente descontaminados.

Após 2018, esses resíduos deixaram de contar e por isso as entidades gestoras nunca mais cumpriram as metas das suas licenças, o que implicava o pagamento de uma Taxa de Gestão de Resíduos (TGR) de 10 euros por tonelada, tão baixa "que continuou a ser economicamente compensatória a má gestão dos REEE".

Kill Shelter & Antipole - A Kiss in the Rain

Uma Dança entre a Memória e a Mortalidade: Análise a “A Kiss in the Rain”

"A Kiss in the Rain", colaboração entre o projeto britânico Kill Shelter (Pete Burns) e o músico norueguês Antipole (Karl Morten Dahl), é um dos temas mais marcantes do álbum A Haunted Place (2021). A canção ergue-se como um hino elegante e melancólico que navega pelas águas da darkwave, do post-punk contemporâneo, tragic wave e da coldwave. Sonoramente, a faixa é construída sobre uma base ritmada e fria de sintetizadores analógicos, linhas de baixo pulsantes e guitarras cristalinas banhadas em chorus e delay, evocando a nostalgia soturna do som alternativo dos anos 80 - com influências diretas de nomes incontornáveis como The Cure, The Chameleons ou Clan of Xymox -, mas com uma produção moderna, densa e envolvente.

No seu significado lírico e temático, "A Kiss in the Rain" explora a dualidade entre a vulnerabilidade afetuosa e a decadência emocional. O gesto do beijo sob a chuva funciona como uma metáfora perfeita para a procura de beleza, intimidade e redenção no meio da tempestade - seja esta uma crise pessoal, o isolamento existencial ou a brevidade do tempo. A letra aborda a inevitabilidade da perda e a natureza efémera da ligação humana, sugerindo que, por vezes, os momentos mais puros de paixão e entrega ocorrem precisamente quando tudo à nossa volta se desmorona. A chuva surge não apenas como um elemento atmosférico, mas como um agente purificador e lavador de dores antigas, onde a dor da memória e o conforto do afeto se fundem num único instante.

O videoclipe reforça esta narrativa através de uma estética visual sóbria e contemplativa, estruturada em torno de fotografias de cemitério que evocam uma profunda sensação de saudade, misticismo e introspeção. As imagens estáticas de campas, esculturas tumulares e paisagens fúnebres cruzam-se com a melancolia inerente à música, transformando o registo visual num tributo à memória, à perda e ao silêncio eterno. Este desfile de fotografias capta na perfeição o espírito haunted (assombrado) do álbum, criando uma atmosfera solene e poética que espelha o estado psicológico de isolamento e luto sem recorrer a artifícios complexos ou explícitos.

Em termos de influências literárias e filosóficas, a canção navega por águas densas e contemplativas, bebendo tanto do Existencialismo de Jean-Paul Sartre e Albert Camus como da obra de Hermann Hesse. Ao confrontar a finitude da existência e o absurdo do mundo com o desejo humano de encontrar sentido através do contacto com o outro, a faixa evoca essa constante dualidade entre o espiritual e o carnal, o isolamento e o desejo de fusão. Tal como o Lobo da Steppe (Steppenwolf) ou o percurso de transição interior em Demian, "A Kiss in the Rain" capta a dor de quem caminha à margem num mundo frio e material, mas procura desesperadamente um vislumbre de transcendência ou redenção. Há também um claro eco do Romantismo escuro e da poesia decadentista do século XIX - lembrando autores como Lord Byron, Edgar Allan Poe, Novalis e Charles Baudelaire -, onde a melancolia (spleen), o efémero e o amor entrelaçado com a mortalidade assumem o papel principal. A imagem do beijo sob a chuva e das estátuas tumulares espelha a ideia de que a verdadeira beleza e a descoberta do "eu" surgem no limiar entre a vida e a morte, no abraço ao efémero e na capacidade de transformar a dor e a solidão numa experiência estética sublime - provando que a escuridão na música pode ser um refúgio de profunda sensibilidade e beleza.

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Cast of Lions - Sticks and Stones


Cast of Lions: O Retrato de uma Infância Inocente no Coração do Indie Rock
Lançada em 2013 no único álbum de estúdio da banda, Eyes Wide to New Places, a canção “Sticks & Stones” do grupo britânico Cast of Lions assume-se como uma autêntica ode à infância e à redescoberta da inocência. Formada em Londres, a banda nasceu como um projeto paralelo de vida curta que reuniu músicos com percurso firmado no cenário alternativo do Reino Unido, nomeadamente Stefan Abingdon (dos The Midnight Beast) e elementos da prestigiada formação de synth-punk Hadouken!. Musicalmente, o projeto move-se entre o indie rock, o indie pop e o pop-punk alternativo, combinando guitarras enérgicas, arranjos rítmicos marcantes e melodias de grande impacto imediato.

A letra de “Sticks & Stones” contrasta de forma percetível a nostalgia dos jogos infantis com as marcas do envelhecimento e o peso da vida adulta. Ao evocar imagens de crianças a correr com paus, pedras e "armas" desenhadas com as mãos, a canção explora a forma como a infância encara o mundo: com fascínio, pureza e sem o cinismo inerente à maturidade. A composição subverte propositadamente o célebre provérbio da tradição oral anglófona - "Sticks and stones may break my bones, but words will never hurt me", despojando-o da sua carga moral para o devolver ao seu sentido físico e lúdico. Na narrativa da canção, os arranhões e ossos partidos da infância são feridas superficiais que saram rapidamente, em claro contraste com as dores invisíveis e a carga emocional simbolizadas pelas rugas da vida adulta.
Versão acústica
Sob o ponto de vista filosófico e literário, o conceito da canção e do próprio álbum ressoa profundamente com o olhar puro e desarmado sobre a realidade. Esta perspetiva evoca o pensamento do Iluminismo e do Romantismo - desde o "estado de natureza" e a pureza original defendidos por Jean-Jacques Rousseau até à celebração da imaginação infantil nas obras poéticas de William Blake e William Wordsworth. A infância surge aqui como um estado primordial de verdade e liberdade, no qual o olhar do indivíduo permanece amplo (eyes wide) e capaz de se deslumbrar com o quotidiano, antes que as convenções sociais e a ansiedade existencial imponham as suas barreiras.

A existência do Cast of Lions esteve intrinsecamente ligada à ética da cultura DIY (Do It Yourself ou "Faça Você Mesmo"). Como reflexo deste movimento que tem as suas raízes no punk dos anos 1970, o grupo optou por não depender das grandes editoras multinacionais, criando o seu próprio selo (Cast of Lions Records) para lançar a sua música com total autonomia artística. Após a edição do álbum em agosto de 2013 e a promoção de alguns videoclipes, o projeto cumpriu o seu propósito pontual. Os seus elementos regressaram aos seus caminhos originais e a novos desafios: Stefan Abingdon prosseguiu o seu trabalho no audiovisual e na comédia musical, enquanto os restantes membros migraram progressivamente para a produção em estúdio, engenharia de som e composição para outros artistas. A banda deixou, assim, um registo temporal único e apreciado pelos entusiastas do indie alternativo da década de 2010.

Transição energética em Portugal pode impedir 34.000 mortes prematuras e poupar 8,5 mil milhões de euros

O estudo, da coligação “Plan4Climate” (um projeto europeu de ambiente) e da Rede de Ação Climática Europa (CAN Europe, maior rede de organizações não governamentais de ambiente), quantifica “os benefícios da ação climática que costumam faltar nos debates centrados no custo da transição”.

A transição energética na Europa pode salvar 34.000 vidas e gerar 826 mil milhões de euros por ano até 2030, 8,5 mil milhões só em Portugal, indica um estudo divulgado hoje.

Segundo o documento, com medidas de poupança de energia, os 826 mil milhões de euros até 2030 podem subir para quase dois biliões de euros anuais até 2050.

O estudo, da coligação “Plan4Climate” (um projeto europeu de ambiente) e da Rede de Ação Climática Europa (CAN Europe, maior rede de organizações não governamentais de ambiente), quantifica “os benefícios da ação climática que costumam faltar nos debates centrados no custo da transição”.

Menor despesa com energia, novos empregos, melhor saúde, menos dias de trabalho perdidos por doença e danos climáticos globais evitados são os benefícios, referidos num comunicado sobre o estudo e hoje divulgado pela associação ambientalista Zero, que faz parte das entidades responsáveis pelo relatório.

Segundo o documento, as medidas de poupança de energia podem trazer à Europa, até 2030, mais de 8,5 milhões de empregos a tempo integral, incluindo cerca de 6,5 milhões na construção e na renovação de edifícios.

E além de se impedirem 34.000 mortes prematuras, também são evitados cerca de 8.000 internamentos hospitalares em cada ano e 3,3 milhões de dias de baixa por doença, graças à redução da poluição atmosférica.

A análise, de mais de 60 páginas, inclui resultados por país, apontando que os 8,5 mil milhões que Portugal pode gerar em cobenefícios (impactos positivos adicionais que resultam de uma intervenção, além do benefício principal) até 2030 é um valor que equivale a 2,45% do PIB de 2025.

“Até 2050, os cobenefícios podem chegar a 28,6 mil milhões de euros anuais, ou seja, 8,25% da riqueza produzida em todo o ano passado”, diz-se no comunicado da Zero.

Citando o relatório, a associação destaca que o principal argumento para Portugal acelerar a transição energética é a redução do preço da energia, podendo a diminuição dos custos com energia atingir os 280 euros por pessoa em 2030 e 1.069 euros por pessoa em 2050.

“Isto torna a ação climática diretamente relevante para as famílias e para o combate à pobreza energética. A estes ganhos somam-se os danos climáticos globais evitados, estimados em 279 euros por pessoa em 2030 e 1.282 euros por pessoa em 2050”, acrescenta.

Aplicado a Portugal, o estudo indica outros benefícios da transição, explicando que até 2030 as medidas de poupança de energia podem evitar 678 mortes prematuras por ano, e pode evitar-se ainda a perda de cerca de 66 mil dias de trabalho por doença.

A Zero diz que o Orçamento do Estado de 2027, apresentado na semana passada, deverá ser melhorado nas próximas semanas, incorporando medidas com financiamento e metas quantificadas que acelerem uma transição energética justa no transporte pesado de mercadorias e de passageiros, na indústria e nos edifícios.

O relatório lembra que a dependência continuada dos combustíveis fósseis também tem custos elevados. Em 2025, diz, a União Europeia gastou cerca de 340 mil milhões de euros em importações de combustíveis fósseis, enquanto o défice de investimento climático foi de 344 mil milhões de euros.

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

The Chameleons- Nathan's Phase

As Máscaras da Existência: A Alienação Urbana e o Lirismo Existencial em "Nathan's Phase" dos The Chameleons
Lançada originalmente na compilação The Fan and the Bellows (1986) e mais tarde desnudada numa versão íntima no álbum Strip (2000), "Nathan's Phase" ocupa um lugar singular no percurso dos The Chameleons. Longe das camadas etéreas e das guitarras mergulhadas em reverb que definiram o som atmosférico da banda de Manchester, esta faixa entrega uma energia crua, urgente e visceral. Movida por uma secção rítmica pulsante e guitarras cortantes, a música prescinde de videoclipes elaborados ou produções vistosas para se impor como uma das expressões mais genuínas do pós-punk e do gothic rock dos anos 80, sustentada pela força de uma narrativa de puro desgaste psicológico.

No centro da composição não está uma figura histórica, mas sim "Nathan", uma metáfora viva do indivíduo em colapso interior. A letra acompanha o peso sufocante de alternar entre diferentes papéis e aparências no dia a dia, registando o momento em que as dissimulações sociais ruem e deixam exposta uma vulnerabilidade inevitável. Esta viagem pela perda de identidade ressoa hoje com um impacto espantoso. Numa época em que a vida pública é moldada pelas aparências em rede e pelo esforço contínuo de sustentar personas perfeitas, a paralisia, a ansiedade e o esgotamento vividos por Nathan traduzem, com assustadora precisão, o isolamento e o burnout da vida contemporânea.

Versão acústica

Essa sensibilidade lírica ganha profundidade ao conectar-se com uma tradição poética e filosófica muito própria. Embora o vocalista Mark Burgess sempre tenha escrito a partir das suas vivências diretas na Inglaterra industrial, o seu texto respira o espírito do Romantismo britânico. Através daquilo a que John Ruskin chamou de "falácia patética", a paisagem cinzenta, fria e claustrofóbica de Manchester deixa de ser um mero pano de fundo para se transformar na própria extensão do estado de alma da personagem, numa ressonância direta com a poesia de William Wordsworth e Samuel Taylor Coleridge. Há também um desencanto puramente moderno nessa atmosfera, que lembra as cidades desoladas e fragmentadas de T.S. Eliot em "The Waste Land" e a melancolia quotidiana de poetas como Thomas Hardy ou Philip Larkin.

Música presente no EP-Tomorrow Remember Yesterday (2024)
Nas entrelinhas desse retrato urbano, sobressai ainda uma forte dimensão existencial. A tensão constante entre aquilo que guardamos no íntimo e as máscaras que vestimos para o mundo dialoga com a filosofia de Jean-Paul Sartre e a sua reflexão sobre a inautenticidade das convenções sociais. Ao mesmo tempo, a sensação de deslocamento e sufoco perante a realidade aproxima a figura de Nathan do universo absurdo e claustrofóbico de Franz Kafka. No final, "Nathan's Phase" ultrapassa as fronteiras da sua época: é um retrato cru da solidão humana, um espelho da fragilidade da identidade e um dos momentos mais honestos da música britânica da sua era.

A Maioria Frágil e o Regresso ao Quotidiano: Uma Análise da Direita e a Reinvenção da Esquerda


A Direita vive, em grande medida, do espetáculo, da arena e da lógica de reality show - e isso não é bom nem sério numa democracia.
Embora Pedro Passos Coelho e André Ventura convirjam em temas como a segurança, o controlo da imigração e a revisão constitucional, a concretização de um Governo conjunto revelar-se-ia inviável. As propostas populistas de Ventura — como o aumento generalizado de pensões e salários sem sustentabilidade financeira — colidem frontalmente com a inflexibilidade e o rigor orçamental que definem a matriz de Passos Coelho. Uma eventual coligação resultaria no esvaziamento do Chega ou numa instabilidade governativa permanente. A grande diferença entre ambos reside na motivação: enquanto Passos atua por convicção reformista e aceita pagar o preço político de decisões impopulares, Ventura adota uma postura oportunista em que as convicções são moldadas em função da conquista do poder.

A esta fratura somam-se as visões contrastantes do restante espectro à direita. Luís Montenegro insiste na autonomia do PSD e no cumprimento do "não é não" ao Chega, preferindo acordos pontuais para governar. Por outro lado, Nuno Melo, à frente do CDS-PP, atua como o garante institucional e moderador da Aliança Democrática, enquanto a Iniciativa Liberal, sob a liderança de Mariana Leitão, recusa converter-se num apêndice do PSD ou num aliado do populismo estatista do Chega, focando-se em reformas liberais profundas na economia e na fiscalidade.

O resultado é um paradoxo estrutural: o conjunto da Direita (PSD, Chega, IL e CDS) detém uma maioria sociológica e eleitoral indiscutível na sociedade portuguesa, dominando a agenda temática, mas encontra-se profundamente fragmentada e incapaz de traduzir esse peso numa solução de governação estável. Ambos os caminhos radicais se revelam nefastos: alimentam discursos fraturantes, desvalorizam as alterações climáticas e promovem uma visão regressiva da sociedade. O verdadeiro risco para a democracia provém, precisamente, do crescimento destas narrativas extremistas que minam a confiança nas instituições.

Do ruído político à reinvenção da Esquerda
A crise da Esquerda contemporânea prende-se, em grande parte, com o facto de se ter focado em debates identitários e de superioridade moral, descurando o núcleo tradicional da sua ação política: a economia, os salários, a habitação e a defesa dos serviços públicos. Para se reconstruir e sair deste impasse, o caminho passa por adotar uma estratégia assente no materialismo e no quotidiano, abandonando o discurso puramente académico para responder diretamente às dores reais da classe trabalhadora, como o custo de vida, a precariedade laboral e o acesso à saúde.

Em vez de se limitar a reagir ou a indignar-se com as narrativas da Direita e da Extrema-Direita, a Esquerda precisa de ditar a agenda com soluções estruturais, utilizando uma linguagem universal e acessível. Ao substituir o jargão sociológico por uma comunicação clara e inclusiva, torna-se possível reconstruir pontes com o eleitorado popular, reaproximando a ação política das periferias e dos centros urbanos empobrecidos onde historicamente tinha força.

Esta mudança de postura é fundamental para enfrentar as grandes transformações do século XXI, começando pela transição ecológica. Em vez de ser apresentada como um conjunto de restrições ou impostos penalizadores para os mais pobres, a agenda verde deve ser uma alavanca de justiça social, focada no investimento público em transportes coletivos de qualidade, no isolamento térmico das habitações e na criação de emprego verde com direitos laborais.

Da mesma forma, a resposta à aceleração da Inteligência Artificial (IA) não pode passar pela tecnofobia ou pela resignação mercantilista, mas sim pela garantia de que os ganhos de produtividade gerados pela automação servem para financiar o Estado Social, reduzir o horário de trabalho sem perda de rendimento e requalificar os trabalhadores afetados.

Finalmente, para lidar com o sobreturismo que devasta as cidades, a Esquerda deve resgatar o direito à habitação e ao espaço público, regulando de forma estrita o alojamento local, impondo tetos às rendas e protegendo o comércio tradicional. Só ao integrar estes desafios modernos numa matriz económica focada na melhoria real da vida quotidiana das pessoas é que a Esquerda conseguirá apresentar uma alternativa sólida e mobilizadora.

Tecnofascismo e carbofascismo: as novas formas de dominação do poder contemporâneo e o fim da política tradicional


Resumo
A reconfiguração geopolítica e sociotécnica do século XXI impõe a necessidade de ultrapassar as molduras teóricas herdadas da modernidade. Este ensaio desenvolve uma análise crítica sobre como a intersecção entre o tecnofascismo e o carbofascismo constitui a arquitetura de poder dominante do nosso tempo. Argumenta-se que, enquanto o tecnofascismo rege a subjetividade humana através de ecossistemas algorítmicos e do capitalismo de vigilância, o carbofascismo assegura a reprodução material do capital fóssil e a inércia sistémica perante a catástrofe ecológica. Perante esta aliança estrutural, o espetro político convencional (Esquerda e Direita institucionais) revela-se incapaz de resposta, resultando numa anestesia política generalizada.

1. Introdução: O Diagnóstico do Poder Contemporâneo
A teoria política clássica acostumou-se a definir o poder através da coerção estatal exercida dentro de fronteiras soberanas, medida pelo monopólio da violência legítima (Weber) ou pelas instituições disciplinares (Foucault). Contudo, o cenário contemporâneo apresenta um deslocamento fundamental: o exercício do controlo transicionou para mecanismos de modulação comportamental invisível e para a preservação forçada da infraestrutura energética de combustíveis fósseis.
A tese central deste ensaio assenta na premissa de que o poder atual é estruturado por dois eixos complementares:
1. O eixo imaterial/algorítmico (Tecnofascismo), que captura a atenção, atomiza a sociedade e modula o comportamento do cidadão;
2. O eixo material/extrativista (Carbofascismo), que impõe a continuidade do modelo fóssil, sacrificando a estabilidade ecomaterial do planeta em prol da acumulação de capital.

A convergência destas forças gera um nó cego institucional, no qual as vias tradicionais de representação política e reivindicação social se tornam obsoletas e inoperantes.

2. O Tecnofascismo e a Modulação Digital do Comportamento
O conceito de tecnofascismo descreve a consolidação do poder de corporações multinacionais de tecnologia (Big Tech) que operam além da soberania dos Estados e redefinem a esfera pública. Esta forma de dominação não necessita do terror físico tradicional dos regimes autoritários do século XX; em vez disso, atua por via da submissão voluntária e do condicionamento psíquico.

2.1. O Capitalismo de Vigilância e a Ilusão de Autonomia
Como analisa Shoshana Zuboff em The Age of Surveillance Capitalism (2019), o capitalismo digital opera através da apropriação unilateral da experiência humana privada, convertida em "excedente comportamental" (behavioral surplus). Este excedente é alimentado a sistemas de inteligência artificial desenhados para prever e modificar ações futuras.
Nesta arquitetura:
  • A coerção estatal é substituída pela psicopolítica digital (Han, 2014), em que o utilizador é constantemente induzido à auto-exposição e ao consumo atencional;
  • A arquitetura das redes sociais e das bolhas de ressonância (echo chambers) incentiva a polarização dirigida, transformando conflitos sociais estruturais em "guerras culturais" online estéreis;
  • A energia coletiva e a capacidade de organização no mundo físico degradam-se à medida que a atenção é atomizada e desprovida de eficácia política real.
2.2. A Substituição da Esfera Pública pelo Algoritmo
O filósofo e sociólogo Evgeny Morozov alerta para o perigo do "solucionismo tecnológico" — a ideia de que todos os problemas complexos da sociedade podem ser resolvidos por algoritmos e otimização de dados. O tecnofascismo manifesta-se precisamente quando a mediação algorítmica substitui o debate deliberativo democrático. O cidadão deixa de ser um sujeito político ativo para se tornar um ponto de extração de dados e um recetador passivo de estímulos otimizados para maximizar o engagement.

2.3. A Monetização da Intolerância (Bigotry) como Mecanismo de Dispersão 
A eficácia do tecnofascismo reside na capacidade de rentabilizar e amplificar a intolerância e o preconceito (bigotry). Dado que as arquiteturas algorítmicas priorizam métricas de reação emocional imediata, o discurso de ódio e a menorização do "outro" tornam-se mercadorias de alta rentabilidade. Esta dinâmica converte fraturas sociais profundas em mero espetáculo reativo, garantindo que o ressentimento popular seja drenado contra minorias vulneráveis em vez de se dirigir à infraestrutura material do capital fóssil e corporativo.

3. O Carbofascismo e o Imperativo do Capital Fóssil
Se o tecnofascismo domina a dimensão psíquica e informativa, o carbofascismo comanda a infraestrutura material da sobrevivência humana. O termo descreve a aliança coerciva e institucional entre o setor dos combustíveis fósseis, o capital financeiro e as elites políticas governamentais para manter a hegemonia do carbono a todo o custo.

3.1. A Dinâmica do Capital Fóssil
Na obra Fossil Capital (2016), o ecologista político Andreas Malm demonstra que o capitalismo histórico não se aliou às energias fósseis simplesmente por escassez de alternativas, mas pela capacidade que o carvão e o petróleo proporcionavam para disciplinar a força de trabalho e centralizar o poder de produção.

Atualmente, o carbofascismo manifesta-se no bloqueio sistemático da transição energética necessária:
  • Inércia sistémica: apesar de relatórios científicos conclusivos - como os do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) , a infraestrutura fóssil continua a receber subsídios massivos e investimentos estatais.
  • Violência extrativista: a degradação ambiental e as desigualdades do Sul Global são tratadas pelas elites financeiras como externalidades negativas e custos colaterais inevitáveis em nome da estabilidade dos mercados.
  • Autoritarismo fóssil: o recrudescimento da repressão policial e jurídica contra movimentos de justiça climática e ativistas ambientais sinaliza o endurecimento dos Estados para proteger os ativos energéticos corporativos.
4. A Obsolecência da Geometria Política Tradicional: Esquerda e Direita Institucionais
Um dos pontos centrais da análise reside na constatação de que as categorias políticas tradicionais perdem utilidade concetual e prática no contexto atual.

4.1. Limitações da Esquerda e Direita Institucionais
Tanto o centro-esquerda como a direita liberal ou conservadora continuam a operar dentro do paradigma do crescimento económico infinito e da gestão do Estado-Nação do século XIX:
  • A Direita Tradicional atua como facilitadora das exigências do capital financeiro e tecnológico, promovendo a desregulamentação do mercado de dados e da indústria extrativa.
  • A Esquerda Institucional, ao focar a sua ação na redistribuição marginal do rendimento sem questionar as matrizes tecno-energéticas do poder, limita-se a gerir os sintomas do sistema sem confrontar as suas causas estruturais.
4.2. A Incompetência perante o Poder Transnacional
Tanto o complexo Big Tech como o Big Oil funcionam através de redes transnacionais imunes à legislação dos Estados singulares. A representação partidária tradicional promete soberania popular através do voto, mas defronta-se com corporações que determinam os preços da energia, controlam os fluxos de informação e contornam a fiscalidade nacional. O ato eleitoral torna-se, assim, um ritual de legitimação impotente perante lógicas que não respondem ao sufrágio universal.

5. Anestesia Política, Paralisia Social e a Ineficácia das Formas de Luta Clássicas
A convergência do bloqueio ambientalista e da alienação digital resulta num estado de exaustão psíquica e paralisia coletiva.

5.1. A Carga Cognitiva e a Ecoansiedade
O fluxo contínuo de informação catastrófica sobre as crises globais - desde o colapso climático ao avanço desregulado da inteligência artificial - sobrecarrega o sistema nervoso dos indivíduos. Estudos na área da psicologia social e relatórios ambientais indicam que o excesso de alarmismo sem canais eficazes de transformação gera:
  • Ceticismo e cinismo: a perceção de que os problemas são gigantescos conduz à resignação;
  • Burnout político: a energia ativista é gasta em campanhas e petições digitais que pouca incidência têm na estrutura de poder;
  • Ecoansiedade e desespero: a sensação de colapso eminente desmobiliza a ação e incentiva o rali de sobrevivência individual.
5.2. A Perda de Eficácia das Formas de Reivindicação Tradicionais
Historicamente, as grandes conquistas sociais foram obtidas por via da greve, da manifestação de rua, da organização sindical e do debate partidário. Hoje, contudo, observa-se uma desarticulação destas ferramentas:
  • Manifestações de rua: são neutralizadas ou assimiladas enquanto "espetáculo digital", convertidas em conteúdo para redes sociais que gera métricas para as próprias plataformas que se pretende criticar.
  • Sindicatos: foram enfraquecidos pela precarização do trabalho e pela dispersão geográfica impostas pela economia de plataformas (gig economy).
  • Partidos políticos: encontram-se reduzidos a máquinas de marketing eleitoral dependentes dos algoritmos das plataformas digitais para comunicar com o seu eleitorado.
6. Conclusão: Horizontes para Além da Anestesia
O diagnóstico formulado demonstra que o tecnofascismo e o carbofascismo não são desvios temporários, mas a forma consolidada do capitalismo tardio. Eles sustentam-se mutuamente: os ecossistemas digitais dispersam e anestesiam a resistência social necessária para interromper a trajetória de devastação ecológica imposta pelo capital fóssil.

Superar este estado de paralisação exige um reconhecimento claro da falência dos métodos de reforma gradualista. A construção de alternativas políticas eficazes para o século XXI exigirá:
  1. Soberania digital crítica: A criação de redes, infraestruturas de informação e ferramentas algorítmicas de código aberto e propriedade comunitária, desvinculadas das dinâmicas do capitalismo de vigilância;
  2. Ação direta e desobediência civil energética: A transição de um ativismo focado na consciencialização para estratégias de interrupção direta da infraestrutura de reprodução do capital fóssil, tal como preconizado por correntes da ecologia política radical;
  3. Reconfiguração das formas de organização: O abandono da dependência exclusiva das instituições representativas tradicionais em favor de novas formas de poder popular local, regional e transnacional.
Apenas ao confrontar simultaneamente a infraestrutura do carbono e a mediação algorítmica da atenção será possível resgatar a política da sua anestesia atual e devolver ao corpo social a capacidade de autodeterminação.

Shoshana Zuboff explica o Conceito de Capitalismo de Vigilância
Este vídeo é relevante para o ensaio pois conta com a reflexão direta da Professora Shoshana Zuboff sobre como as grandes empresas tecnológicas capturam a experiência humana e alteram comportamentos sociais e políticos.

Referências Bibliográficas
  1. Arora, Arush (2025). Social Media-Driven Polarisation in the United States:Mechanisms, Policy Gaps, and Recommendations
  2. Han, Byung-Chul (2014). Psychopolitics: Neoliberalism and New Technologies of Power. London: Verso.
  3. IPCC (2022). Climate Change 2022: Impacts, Adaptation and Vulnerability. Contribution of Working Group II to the Sixth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change. Cambridge: Cambridge University Press.
  4. IPCC (2023). Climate Change 2023: Synthesis Report. Contribution of Working Groups I, II and III to the Seventh Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change [Core Writing Team, H. Lee and J. Romero (eds.)]. Geneva: IPCC.
  5. Malm, Andreas (2016). Fossil Capital: The Rise of Steam Power and the Roots of Global Warming. London: Verso.
  6. Malm, Andreas (2021). How to Blow Up a Pipeline: Learning to Fight in a World on Fire. London: Verso.
  7. Morozov, Evgeny (2013). To Save Everything, Click Here: The Folly of Technological Solutionism. New York: PublicAffairs.
  8. Zuboff, Shoshana (2019). The Age of Surveillance Capitalism: The Fight for a Human Future at the New Frontier of Power. New York: PublicAffairs.