Bioterra
Blogue de Educação Ambiental, iniciado em 01.04.2004
quarta-feira, 28 de outubro de 2026
Companhia Aurifícia: novas participações ao MP e entidades da tutela
A cidade, esse grande negócio!
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terça-feira, 27 de outubro de 2026
De The Cure e Mareux a Godard: o que é que a cultura tem a ver com a Educação Ambiental?
Ao longo de 35 anos a trabalhar como educador ambiental, aprendi que a ecologia não pode ficar fechada em manuais nem limitar-se a prescrições repetitivas. Para transformar consciências de forma profunda, gosto muito de cruzar mundos aparentemente distantes - e colocar a arte, a música e o cinema em diálogo direto com a sustentabilidade.
À primeira vista, pode parecer um salto improvável ligar a lente crua do filme Masculin, Féminin de Jean-Luc Godard (1966) à melancolia de "The Perfect Girl" dos The Cure (1987) e à sua posterior releitura por Mareux - gravada em 2015 e transformada num fenómeno viral em 2021. Mas a ponte é perfeita: todas estas obras tocam no mesmo ponto cego da modernidade - a nossa desconexão com a realidade, a aceleração do tempo e a ditadura do consumo.
Em 1966, Godard retratava "os filhos de Marx e da Coca-Cola", jovens apanhados no início da engrenagem do consumo de massas. Em 1987, os The Cure traduziam a busca intangível por ideais inalcançáveis num mundo em transformação. Décadas mais tarde, ao explodir nas plataformas digitais a partir de 2021, a sonoridade darkwave de Mareux veio demonstrar como essa mesma ânsia se transportou para a era das redes sociais e do scroll infinito. Mudaram os suportes, mas caímos na mesma armadilha: a falácia de que a felicidade, as relações e até a própria identidade se compram e se consomem de forma rápida, efémera e descartável. E essa lógica já não se limita apenas ao estilo de vida urbano - ela está hoje por todo o lado. Das metrópoles ao meio rural, a cultura do imediatismo infiltrou-se em todos os cantos do planeta. A forma como tratamos os recursos naturais e os afetos de modo utilitário alimenta a mesma economia linear de "extrair, usar e deitar fora" que compromete o nosso futuro comum.
Nestes mais de 35 anos de percurso, a minha convicção mantém-se: a ecologia é muito mais do que separar o lixo no ecoponto. É repensar a cultura global e o modo como habitamos o mundo. Esta abordagem crítica conecta-se diretamente com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU. Ao desconstruirmos o consumismo e a cultura do descarte, respondemos ao ODS 12 (Produção e Consumo Responsáveis); ao usar a arte e a música contemporânea para provocar o pensamento crítico, concretizamos o ODS 4 (Educação de Qualidade) e a sua missão de promover estilos de vida em harmonia com a natureza; e ao questionarmos o impacto do ritmo hiperativo e da solidão digital no bem-estar humano, tocamos no ODS 3 (Saúde e Bem-Estar) e no ODS 13 (Ação Climática).
A cultura é, afinal, o pilar invisível da sustentabilidade. O olhar de Godard e as vibrações dos The Cure e de Mareux convidam-nos ao mesmo gesto revolucionário: abrandar. Precisamos exatamente disso na educação ambiental contemporânea - desacelerar, parar o piloto automático e questionar esta aceleração omnipresente que consome a terra, o pensamento e a nossa humanidade.
Como Vencer na Habitação: Lições do Movimento Sérvio que Derrubou um Regime
- A Bandeira Nacional / Símbolos Locais e Constitucionais: a habitação é um direito consagrado no Artigo 65.º da Constituição da República Portuguesa. Ao usar a bandeira de Portugal ou a Constituição, o movimento reivindica o patriotismo constitucional. Deixa de ser um grupo "marginal" a protestar contra o Estado, passando a ser o cidadão comum a defender a Lei Fundamental do país contra os abusos do poder.
- Símbolos Inclusivos e Transversais do Próprio Movimento: chaves de casa, maquetes de casas, faixas com o artigo 65.º (a famosa Porta 65) ou cartazes de "Direito ao Lugar" representam símbolos que qualquer pessoa - seja de esquerda, centro ou direita que não consiga pagar a renda - identifica instantaneamente sem barreiras ideológicas.
- Simbolismo de "Unidade Popular": o uso de cores neutras ou de bandeiras das próprias cidades e freguesias afetadas (como as bandeiras do Porto, de Lisboa ou de Miragaia) reforça o vínculo comunitário e territorial.
- Estrutura Descentralizada e Sem "Líderes Contratáveis": o regime tentava constantemente prender ou diabolizar os líderes da oposição. O Otpor! respondeu criando uma estrutura horizontal sem um líder único. Se um ativista fosse preso, dezenas de outros assumiam o comando local.
- Símbolo Único, Neutro e Inconfundível: em vez de usarem bandeiras partidárias, adoptaram um único símbolo gráfico: um punho fechado desenhado a preto e branco, que espalharam por stencils e cartazes em toda a Sérvia. Não representava um partido, mas o conceito puro de "Resistência" da população contra o roubo do país.
- O Uso do Humor e da Desarmação (Marketing Político): Milošević rotulava os manifestantes de "terroristas" e "narcotraficantes". O Otpor! respondeu com humor e ironia (como colocar a imagem de Milošević num barril de lixo e dar paus aos transeuntes para baterem no barril, ridicularizando o regime). Quando a polícia prendia estudantes por baterem num barril, a própria polícia parecia ridícula perante a população.
- A Estratégia do "Abraço às Forças de Segurança": em vez de confrontarem a polícia com violência, os jovens instruíam os manifestantes a falar com os agentes: "Nós estamos a lutar pelo futuro dos vossos filhos também; vocês ganham salários miseráveis para nos baterem". No dia da grande marcha sobre Belgrado em outubro de 2000, as forças policiais recusaram-se a disparar e juntaram-se à multidão.
- Da Rua para as Urnas (A Transição para Alternativa Política): o Otpor! percebeu que protesto de rua sem alternativa eleitoral não muda governos. Forçaram a oposição tradicional (dividida e ineficaz) a fundir-se numa coligação única: a Oposição Democrática da Sérvia (DOS). Lançaram a campanha nacional "Ele é o Culpado" e "Está na Hora", mobilizando o eleitorado jovem a votar massivamente. Quando Milošević tentou fraudar as eleições, a legitimidade das urnas deu a base legal e moral para a greve geral e ocupação pacífica do Parlamento.
- Foco na Mensagem: usar a Bandeira Nacional e a Constituição para desarmar a narrativa da "esquerda radical" ou de "projetos bizarros".
- Transversalidade: falar para o trabalhador de classe média, para o jovem e para os idosos despejados, e não apenas para nichos ideológicos.
- Ponte com a Política: o protesto de rua deve exigir/construir pontes com alternativas políticas no parlamento e nas autarquias, garantindo que a indignação se traduz em propostas de lei e votos nas urnas.
- Acampamentos de "Tendas Constitucionais" / "Cidades de Cartão": montar acampamentos simbólicos em frente a edifícios públicos estratégicos (Câmaras Municipais, Ministério das Infraestruturas e Habitação, ou edifícios de fundos imobiliários), identificando cada tenda com o Artigo 65.º da Constituição.
- Ação "Entrega das Chaves": realizar uma ação coordenada onde centenas de cidadãos (jovens e famílias) entregam simbolicamente molhos de chaves gigantes ou caixas de mudanças às portas das câmaras municipais, representando a expulsão da classe média e dos trabalhadores das suas cidades.
- Teatro de Rua e Guerrilha Cultural: utilizar o humor e a sátira, como transformar rondas de visitas a imóveis com preços de renda absurdos (ex.: anexos de 15m² a 1000€) em "visitas guiadas a museus do imobiliário", convidando a comunicação social a cobrir o ridículo da situação imobiliária.
- Auditorias Cidadãs aos Imóveis Devolutos do Estado: mapear e sinalizar publicamente, com placas explicativas e faixas comemorativas, edifícios públicos ou camarários abandonados, evidenciando o abandono do património público enquanto a população não tem teto.
- Greve de Zelo Fiscal / Consumo Comunitário: criar fundos de apoio comunitário e redes de entreajuda local (cozinhas comunitárias, apoio legal contra despejos), demonstrando a capacidade de autogestão e solidariedade da população, forçando o poder público a reconhecer a legitimidade do movimento.
- O movimento pode articular uma estratégia focada na sátira aos arquétipos da especulação, como o investidor predatório e o arquiteto da gentrificação. Esta intervenção pode desdobrar-se em três momentos: começa com uma exposição de rua com cartazes do tipo "Procura-se" espalhados em zonas críticas (como a Baixa do Porto ou Alfama e Arroios em Lisboa) com a figura do "Arquiteto do Espaço Mínimo - Especialista em transformar casas em seis estúdios sem cozinha"; avança para uma cerimónia fictícia de entrega dos "Prémios Cimento de Ouro" ou "Troféu Despejo Limpo", onde ativistas com máscaras gigantes de papel machê encenam discursos absurdos de agradecimento por terem "limpado a cidade dos seus habitantes"; e consolida-se com a fixação de autocolantes e placas informativas falsas junto aos estaleiros de obras de luxo, substituindo os dados técnicos por descrições Reais do impacto social, como o "Projeto de Expulsão Comunitária Nº 65 - Substituição de 4 famílias por 8 Alojamentos Locais com piscina na cobertura".
O paradoxo do Alqueva: mais riqueza não travou o despovoamento no Alentejo
O enterro desta política está no adro
- PM29 Real (detida pela Crystal Holding, no Luxemburgo): Pagará 749 mil euros em vez de ceder 1788 metros quadrados para um complexo de serviços e hotel de cinco estrelas entre as ruas de Passos Manuel e do Ateneu Comercial do Porto.
- Ateneu 33 Real (do mesmo grupo luxemburguês): Pagará 288 mil euros em substituição de 660 metros quadrados para a criação de um hotel de três estrelas.
- Historical Porto Offices (ligada a Mário Ferreira): Pagará 189 mil euros em vez de entregar 489 metros quadrados para comércio e serviços na Rua de Miragaia, no espaço do antigo centro cultural Armazém. A administração desta sociedade inclui Paula Dias Ferreira e Paulo Pinto — este último também administrador não executivo da Savannah Resources, concessionária da exploração de lítio no Barroso.
A reação da Câmara Municipal do Porto, que demorou uma semana inteira a ser verbalizada por Pedro Duarte após a oposição ter tornado pública a polémica das compensações irrisórias, constitui uma manobra de contenção de danos manifestamente insuficiente e evasiva. O silêncio prolongado da autarquia, seguido de uma declaração que apenas admite "ponderar" a revogação do mecanismo enquanto ataca os críticos, demonstra como o poder político reage com nervosismo quando apanhado sob a luz dos holofotes.
Em primeiro lugar, ao classificar a indignação pública como um exercício "alarmista" e ao desvalorizar a gravidade "das suspeições elencadas" - num caso que já envolve participação ao Ministério Público por prevaricação e abuso de poder -, o executivo camarário tenta inverter a narrativa. Em vez de prestar contas transparentes sobre a ausência de cálculos no edital de 20 de outubro, opta por deslegitimar a oposição, os movimentos sociais e os cidadãos que exigem o cumprimento do Plano Diretor Municipal. Esta retórica serve apenas para apaziguar a opinião pública e tentar desmobilizar a pressão de rua, deixando intactas as decisões controversas que favoreceram os grandes promotores privados.
Em segundo lugar, esta "ponderação" tardia revela-se um anúncio praticamente irrealizável no que toca a travar a construção dos hotéis de luxo já viabilizados. Do ponto de vista do direito urbanístico, projetos como os da Crystal Holding ou de Mário Ferreira na Rua de Miragaia e Passos Manuel já têm os seus direitos consolidados ao abrigo dos atos administrativos praticados pela própria Câmara. Qualquer tentativa posterior de revogar unilateralmente as licenças concedidas ou impor a entrega física de fogos habitacionais arrisca-se a ser travada nos tribunais, sob a ameaça de indemnizações milionárias pagas pelos contribuintes portuenses aos promotores.
Por fim, o compasso de espera de uma semana e o discurso defensivo de Pedro Duarte apenas confirmam o inevitável: as promessas de revisão futura chegam tarde demais para devolver a habitação acessível ao coração da cidade. Os empreendimentos turísticos vão mesmo avançar, provando que o alegado recuo do município não passa de uma cosmética política para tentar abafar a degradação e o desapossamento do território urbano.
segunda-feira, 26 de outubro de 2026
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domingo, 25 de outubro de 2026
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