Monarca britânico discursou perante o Congresso norte-americano, numa abordagem direta e contundente, suavizada pelo profundo respeito pelos anfitriões e pelas relações históricas entre os dois países
Numa nova era de revolta, foi preciso um rei para lembrar à América os seus valores republicanos: o Estado de direito, a democracia e o poder do seu exemplo internacional.
O rei Carlos III escolhe as suas palavras com precisão - tal como fazia a sua falecida mãe, a rainha Isabel II. O significado real tem frequentemente de ser inferido.
Carlos não repreendeu nem criticou a administração Trump. Mas o monarca desaprovou implicitamente a atual direção política dos Estados Unidos e defendeu os pilares da democracia ocidental: freios e contrapesos internos, alianças e tolerância inter-religiosa.
Carlos apelou ainda à defesa firme da Ucrânia. E a “natureza”, disse ele, deve ser protegida, num apelo velado para combater as alterações climáticas, que
o presidente Donald Trump chamou de “burla”.
E o rei salientou que os amigos podem discordar sem romper laços eternos, uma referência velada à “
relação especial”, que
tem sido abalada pela recusa do Reino Unido em aderir à guerra contra o Irão.
“As palavras da América têm peso e significado, tal como têm desde a independência”, disse Carlos, no hemiciclo da Câmara dos Representantes. “As ações desta grande nação importam ainda mais”.
Mas Carlos amenizou a sua crítica demonstrando profundo respeito pelos anfitriões. Citou Trump, afirmando que o “laço de parentesco” entre os EUA e o Reino Unido é “inestimável e eterno”. E o seu discurso esteve repleto de elogios às conquistas históricas americanas.
E os pontos mais contundentes foram suavizados pela pompa coreografada de uma visita de Estado que retribui uma viagem de Trump no ano passado. Parafraseando o presidente Theodore Roosevelt, o rei falava suavemente enquanto empunhava um grande cetro.
O presidente não mostrou sinais de se sentir ofendido pelas observações de Carlos III. Donald Trump orgulha-se das suas relações pessoais com os líderes mais famosos do mundo. O rei também condenou por duas vezes a alegada tentativa frustrada de assassinato contra o presidente numa gala para a imprensa no sábado.
“The Firm”, como a família real é frequentemente conhecida, já passou por tudo isto antes. O rei Carlos III mencionou, num raro
jantar de Estado de gala na Casa Branca na terça-feira à noite, que a sua mãe tinha vindo a Washington em 1957 para reparar as divisões entre os EUA e o Reino Unido provocadas pela
crise de Suez.
“É difícil imaginar algo assim a acontecer hoje, mas não é difícil ver como a relação continua a ser importante, em assuntos visíveis e invisíveis”, disse o rei.
E Carlos III ofereceu ao presidente um presente único - o sino original da torre de comando do HMS Trump, um submarino da Marinha Real que esteve em serviço no Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial.
“Se alguma vez precisar de nos contactar, basta dar-nos um toque!”, afirmou Carlos.
Esta forma cerimonial de abordar as divisões ideológicas de uma forma não ideológica destacou um paradoxo: os monarcas britânicos estão vinculados por convenção constitucional a serem apolíticos, mas a sua contenção confere-lhes um enorme poder simbólico quando optam, com moderação, pelo contrário.