Bioterra
Blogue de Educação Ambiental, iniciado em 01.04.2004
sábado, 22 de agosto de 2026
Death Cab for Cutie - You Are A Tourist
Hoje assinala-se o Dia Internacional de Homenagem às Vítimas de Atos de Violência Baseados em Religião ou Crença.
Embora estas efemérides procurem proteger a liberdade de consciência, torna-se impossível ignorar o papel que a própria religião - ou a sua manipulação ideológica - desempenhou e continua a desempenhar na eclosão de conflitos e na perda de vidas humanas. Ao longo da história, dogmas religiosos têm sido instrumentalizados para alimentar um nacionalismo sectário, onde a fé deixa de ser uma busca espiritual individual e passa a funcionar como uma fronteira de exclusão política. Quando a identidade nacional se confunde com a ortodoxia religiosa, a divergência deixa de ser apenas uma diferença de opinião e passa a ser vista como uma ameaça à soberania, pavimentando o caminho para a perseguição, a guerra e a violência estatal.
Acompanho, com muita apreensão, a aceleração e crescimento galopante dos evangélicos e da manipulação em massa de gente nova a aderir a discursos evangélicos e pentecostais, os chamados "soldados/soldadas de Cristo". O movimento "Mulheres Conservadoras em Portugal" é o clímax de uma orquestração, que já vem detrás. A aproximação à direita brasileira ganha particular relevância pelo papel que as igrejas evangélicas desempenham no Brasil como importante base de apoio da direita e estão no Parlamento Brasileiro. Imitam o Novo Conservadorismo norte-americano, constituindo, portanto, uma real ameaça à democracia.
Contudo, os números são impressionantes. A liberdade de religião e de crença permanece um dos direitos fundamentais mais transgredidos no mundo contemporâneo, afetando cerca de 4,9 mil milhões de pessoas - o equivalente a mais de 60% da população global - que vivem sob regimes com limitações severas ou perseguição ostensiva à prática espiritual, segundo o relatório da
Entre as populações mais afetadas, estima-se que mais de 365 milhões de cristãos enfrentem níveis elevados de discriminação ou opressão, registando-se perto de 5.000 assassinatos anuais por razões diretamente ligadas à sua fé, concentrados maioritariamente na África subsariana, com a Nigéria a responder por mais de 80% destas vítimas mortais, de acordo com os dados monitorizados pelo
A gravidade do panorama estende-se ao enquadramento jurídico de vários Estados. Em cerca de 13 nações - localizadas maioritariamente no Médio Oriente, Norte de África e Sul da Ásia —, crimes como a apostasia e a blasfémia preveem formalmente a pena de morte, enquanto em mais de 80 países a renúncia à religião maioritária ou a crítica a dogmas resulta em penas de prisão efetiva, acusações criminais ou privação de direitos civis, como documenta a
A esta realidade soma-se a expansão de novos movimentos de traço sectário que instrumentalizam o estatuto de liberdade religiosa para exercer coerção psicológica, exploração financeira ou violação de direitos individuais. O grande desafio da comunidade internacional e dos Estados de direito reside em equilibrar a salvaguarda da liberdade de consciência com a aplicação rigorosa da lei, garantindo que o pretexto da fé não sirva para legitimar abusos, nem que o poder estatal seja utilizado para silenciar a diversidade de crenças.
O Afeganistão sob o domínio do Taliban representa um dos exemplos mais radicais de como a instrumentalização da religião pode anular o Estado de direito e refundar a identidade de um país sob uma lógica de exclusão absoluta. Desde o regresso do grupo ao poder em agosto de 2021, a interpretação ultrafundamentalista da lei islâmica de matriz Deobandi foi erguida como a única fonte de soberania e legitimidade, transformando a fé num instrumento de controlo social totalitário.
Esta fusão entre dogma e governação resultou no apagamento prático da diversidade cultural e religiosa do país. Minorias históricas, como a comunidade Hazara (maioritariamente xiita, representando entre 10% a 15% da população afegã), enfrentam episódios recorrentes de violência, marginalização e deslocamento forçado sem qualquer garantia de proteção estatal, conforme documentado nos
Paralelamente, a narrativa religiosa serve de justificação para uma segregação de género sem paralelo no mundo contemporâneo, frequentemente descrita por organismos internacionais como um sistema de apartheid. Mais de 1,4 milhões de raparigas afegãs foram deliberadamente privadas do acesso ao ensino secundário e universitário por decretos do regime, segundo o
O cenário afegão ilustra como o extremismo religioso transcende a dimensão espiritual para dar lugar a um pseudo-nacionalismo dogmático. A pertença à nação deixa de assentar na cidadania ou no direito de nascimento e passa a depender da submissão a um código ideológico estrito, no qual a divergência não é apenas encarada como uma heresia, mas como uma ameaça à própria sobrevivência do Estado.
Alterações climáticas nas montanhas europeias: porque é que o aquecimento não explica tudo
sexta-feira, 21 de agosto de 2026
Karina Rykman - Shoegaze Summer
Veneno das víboras da Europa não evoluiu para causar dor, mas sim para subjugar presas
Manifesto Contra o Colonialismo Espacial e a Soberba Antropocêntrica
- Abram, D. (1996). The Spell of the Sensuous: Perception and Language in a More-Than-Human World. New York: Vintage Books.
- Devall, B., & Sessions, G. (1985). Deep Ecology: Living as if Nature Mattered. Salt Lake City: Gibbs M. Smith.
- Krenak, A. (2019). Ideias para Adiar o Fim do Mundo. Lisboa: Objectiva.
- Lovelock, J. (1979). Gaia: A New Look at Life on Earth. Oxford: Oxford University Press.
- Næss, A. (1973). "The Shallow and the Deep, Long-Range Ecology Movement: A Summary". Inquiry, 16(1-4), 95–100.
- Næss, A. (1989). Ecology, Community and Lifestyle: Outline of an Ecosophy. Cambridge: Cambridge University Press.
- Rolston III, H. (1986). "Preserving Wild Value on the Moon and Planets". The Earth First! Journal, 7(2), 23–25.
- Schwartz, J. S., & Milligan, T. (Eds.). (2016). The Ethics of Space Exploration. Cham: Springer.
quinta-feira, 20 de agosto de 2026
Combichrist - Only Here For A Good Time
Alterações climáticas estão a deslocar borboletas em todo o mundo
A bolha da inteligência artificial vai mesmo rebentar? O alerta do BCE e o dilema das gigantes de tecnologia
Nachtmahr - I believe in Blood
quarta-feira, 19 de agosto de 2026
The Durutti Column & Caoilfhionn Rose - Free From All The Chaos
Dia Mundial da Fotografia - o poder de uma imagem para proteger o planeta
O ecossocialismo do decrescimento na era da Inteligência Artificial: entre o colapso e a esperança emancipatória
- Aumento metabólico: a expansão da IA está a catapultar a procura por eletricidade em várias regiões, adiando o fecho de centrais a carvão e a gás para alimentar data centers.
- Neocolonialismo extrativista: a corrida aos chips e servidores intensifica o extrativismo de lítio, cobalto e terras raras, concentrando a degradação ambiental no Sul Global para servir o consumo digital do Norte
- Aceleração da extração fóssil: as maiores empresas de tecnologia (Big Tech) comercializam algoritmos de IA concebidos especificamente para otimizar e acelerar a exploração de novas jazidas petrolíferas.
- O planeamento democrático Ex-Ante: diferente do mercado capitalista, que atua ex-post (corrigindo danos apenas após a busca desenfreada do lucro), o planeamento ecossocialista atua ex-ante. Isto permite subordinar a produção - e o próprio uso da supercomputação e da IA - à "hierarquia das necessidades humanas reais", desmantelando indústrias destrutivas e expandindo a infraestrutura pública.
- A descomodificação da vida: transformação da habitação, transporte, saúde, nutrição e energia em bens comuns (commons), retirando-os da especulação financeira.
- Sobriedade digital e soberania tecnológica: submeter o desenvolvimento sociotécnico ao controlo coletivo. A capacidade computacional deve ser direcionada para a modelação climática, otimização de redes elétricas renováveis e medicina pública, e não para a criação de bolhas financeiras, vigilância ou publicidade direcionada.
- Redução da jornada de trabalho: diminuir a semana de trabalho para redistribuir o emprego e libertar tempo humano, substituindo o consumo hiperativo pela riqueza das relações sociais e da cultura.
- Une os trabalhadores do setor tecnológico e da economia em geral - esgotados pelo ritmo de trabalho e ameaçados pela automação - à exigência de semanas de trabalho mais curtas e soberania sobre o seu tempo.
- Une as comunidades do Sul Global resistentes ao extrativismo à exigência de reparações históricas e climáticas.
- Une os movimentos urbanos que lutam pelo direito à habitação e aos serviços públicos contra a especulação do capital corporativo.
- Altvater, E. (2010). O Capitalismo Fóssil e a sua Alternativa Ecossocialista. Em A Crise Socioambiental: Perspectivas Ecossocialistas. Expressão Popular.
- Crawford, K. (2023). Atlas da Inteligência Artificial: Poder, Política e os Custos Planetários da IA. Editora Unesp.
- Foster, J. B. (2025, 30 de janeiro). Ecossocialismo e decrescimento. A Terra é Redonda.
- Hickel, J. (2021). Menos é Mais: Como o Decrescimento Salvará o Mundo. Editorial Presença / Editora Autêntica.
- Jackson, T. (2013). Prosperidade Sem Crescimento: Economia para um Planeta Finito. Editora Planeta do Brasil / Edições 70.
- Kallis, G. (2020). Decrescimento. Editora Autonomia Literária.
- Löwy, M. (2014). O que é o Ecossocialismo? (2.ª ed.). Editora Cortez / Editora Boitempo.
- Parrique, T. (2022). A Economia do Decrescimento. Tese e síntese executiva.
- Raworth, K. (2019). Economia Donut: Sete formas de pensar como um economista do século XXI. Editora Zahar / Sextante.
- Saito, K. (2023). O Capital no Antropoceno (Brasil) / Desacelerar: Manifesto pelo Decrescimento Ecossocialista (Portugal). Editora Boitempo / Editorial Presença.



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