quarta-feira, 6 de maio de 2026

A história do adufe na Beira Baixa é uma viagem fascinante que atravessa continentes e milénios, fundindo heranças religiosas, culturais e sociais


1. A Origem Árabe e a Expansão Islâmica
A palavra adufe deriva do árabe ad-duff. O instrumento chegou à Península Ibérica durante a ocupação muçulmana (a partir do século VIII). Naquela época, os panderos quadrados eram comuns em todo o Médio Oriente e Norte de África, sendo utilizados tanto em contextos festivos como religiosos.

2. A Reconquista e a Fixação no Interior
Com a Reconquista Cristã, muitos elementos da cultura árabe foram assimilados pela população local em vez de serem erradicados. A Beira Baixa, devido ao seu relativo isolamento geográfico e carácter fronteiriço, tornou-se um "baluarte" onde estas tradições se enraizaram profundamente. Enquanto noutras regiões o instrumento se perdeu ou evoluiu para o pandeiro redondo, na Beira Baixa ele manteve a sua forma quadrangular original.

3. O Papel das Mulheres e da Religião
O adufe sobreviveu e prosperou principalmente através das mãos das mulheres (as adufeiras). Houve uma transição curiosa do seu uso:
  1. Contexto Profano: Ritmos de trabalho no campo e festas populares.
  2. Contexto Sagrado: O instrumento foi adotado pelas irmandades e festividades católicas. Tornou-se indissociável do culto à Senhora do Almortão ou à Senhora da Póvoa, onde o toque do adufe acompanha os cânticos litúrgicos e as procissões.
4. Por que é que ficou "preso" na Beira Baixa?
Existem várias teorias para a exclusividade regional:
  1. Isolamento: As serras da Estrela e da Gardunha dificultaram a entrada de influências externas que pudessem substituir o adufe por instrumentos mais "modernos".
  2. Identidade Comunitária: O adufe tornou-se um símbolo de resistência cultural e identidade local, passado de mães para filhas como uma herança viva.

Curiosidade Técnica
O que torna o adufe da Beira Baixa especial é a sua construção: dois quadrados de madeira revestidos com pele de ovelha (ou cabra), contendo no seu interior sementes ou pequenas soalhas (pedrinhas), que conferem aquele som de "chuva" característico quando o instrumento é vibrado.

Sabia que? Apesar de ser o símbolo da Beira Baixa, existem registos históricos e iconográficos que mostram que o adufe foi usado em quase todo o Portugal até ao século XVII, incluindo na corte de Lisboa, antes de se tornar uma exclusividade do interior.


terça-feira, 5 de maio de 2026

Philip Pilkington - O colapso do liberalismo global e ideias um pouco polémicas


No livro The Collapse of Global Liberalism (O Colapso do Liberalismo Global), o economista Philip Pilkington apresenta uma análise contundente sobre o declínio terminal da ordem liberal internacional, o sistema de cooperação política e comércio global liderado pelo Ocidente desde o pós-Segunda Guerra Mundial. A sua tese central baseia-se na ideia de que o "globalismo" não foi meramente um fenómeno económico de eficiência de mercados, mas sim um projeto ideológico falhado que pressupunha uma convergência universal para os valores da democracia liberal e do livre mercado. Pilkington argumenta que potências como a China e a Rússia demonstraram a fragilidade desta premissa ao integrarem-se na economia mundial sem abdicarem dos seus próprios modelos políticos e sociais, desmentindo a inevitabilidade da hegemonia ocidental.

Um dos pontos mais críticos da obra foca-se na desindustrialização do Ocidente. O autor sustenta que a busca desenfreada por lucros de curto prazo e eficiência logística impulsionou o offshoring, transferindo a base manufatureira para o exterior e criando uma dependência estratégica perigosa de rivais geopolíticos. Este processo não só enfraqueceu a segurança nacional das nações ocidentais, como também devastou a classe trabalhadora doméstica, servindo de combustível para a instabilidade política interna e para a ascensão de movimentos populistas. Paralelamente, Pilkington destaca a crise energética e de recursos, sublinhando que a prosperidade liberal dependia de energia barata e fluxos estáveis. Com a atual fragmentação geopolítica e os desafios da transição energética, o controlo do poder real deslocou-se para os países que detêm a produção física e os recursos naturais, deixando o Ocidente vulnerável na sua segurança material.

Para o economista, estamos a assistir ao fim da era do "idealismo liberal" e ao nascimento de um mundo dominado pelo "realismo geoeconómico". Neste novo paradigma, o comércio internacional deixa de ser visto como um instrumento de paz universal para ser utilizado como uma arma política, o que levará inevitavelmente à formação de blocos regionais fechados em detrimento de um mercado global único. Pilkington dirige ainda duras críticas às elites tecnocráticas ocidentais, acusando-as de estarem desconectadas da realidade material e de insistirem em estruturas obsoletas que apenas aceleram o colapso. Em última análise, o autor não prevê necessariamente o fim da civilização ocidental, mas sim o fim da ilusão do seu domínio global indefinido, defendendo que a sobrevivência nesta nova era de fragmentação exige um retorno pragmático à soberania nacional, à reindustrialização e à garantia da segurança material de cada Estado.


Minha análise
A tensão atual no liberalismo revela-se profunda quando confrontamos os ideais humanistas com a crueza da nova realidade geoeconómica. Para um liberal que se revê no Manifesto de Oxford, o cenário descrito por Philip Pilkington assemelha-se a um verdadeiro pesadelo, pois a fragmentação do mundo em blocos fechados e protecionistas coloca em causa a promessa fundamental de que cada indivíduo possa decidir o seu próprio rumo. Se a análise de Pilkington estiver correta, a mobilidade humana será drasticamente reduzida por fronteiras mais rígidas e o custo de vida sofrerá um agravamento inevitável, uma vez que o fim da eficiência global retira poder de compra às famílias, limitando as suas opções de vida reais e tangíveis.

Neste contexto, assistimos também a um crescimento perigoso do papel do Estado. Para garantir a reindustrialização e a segurança material exigidas pela soberania, o poder público tende a tornar-se cada vez mais interventivo, o que frequentemente resulta no atropelo da iniciativa privada e da autonomia individual. Ao admitir que Pilkington tem razão no seu diagnóstico do colapso, mas mantendo a fidelidade aos princípios de Oxford, o liberal contemporâneo mergulha num dilema intelectual fascinante: é o reconhecimento de que, embora o ideal de liberdade seja o destino desejado, a realidade material está a destruir a estrada que a ele nos deveria conduzir.

A questão crucial que agora se coloca é como salvar o espírito do Manifesto de Oxford num mundo que parece ter deixado de acreditar na cooperação global. O grande desafio passa por encontrar formas de preservar a dignidade e a liberdade da pessoa humana num ambiente que privilegia a segurança física e o poder estatal em detrimento da liberdade individual. Resta saber se o liberalismo terá a agilidade necessária para se reinventar, garantindo que o indivíduo não se torne um mero peão nas disputas geoeconómicas de uma nova era de fragmentação.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Microplásticos podem ter grande contribuição nas alterações climáticas


Os microplásticos prejudicam o ambiente e a saúde dos seres vivos, mas também contribuem para as alterações climáticas, com emissões que podem representar 16,2% das partículas resultantes da queima de combustíveis fósseis, biomassa e resíduos orgânicos.

A revista "Nature" publicou hoje um estudo no qual investigadores de vários centros chineses e americanos descrevem experiências e simulações em laboratório para medir a potencial contribuição dos microplásticos e nanoplásticos suspensos no ar para o aquecimento global, um impacto que não tinha sido avaliado anteriormente.

Estes micro e nanoplásticos têm origem na fragmentação de resíduos plásticos de maiores dimensões e o seu diâmetro varia de um nanómetro (um bilionésimo de metro) a 500 micrómetros (um milionésimo de metro).

Diversos processos atmosféricos transportam estes microplásticos pelo mundo, desde picos de altas montanhas até fossas oceânicas profundas.

Estudos anteriores sugeriram que a contribuição das micropartículas de plástico em suspensão para as alterações climáticas era mínima, mas as análises assumiam frequentemente que eram incolores, o que é irrealista, uma vez que a maioria dos plásticos de uso comum contém pigmentos.

Utilizando espetroscopia eletrónica de alta resolução e combinando estas medições com simulações de transporte atmosférico, os investigadores descobriram que as partículas pretas e coloridas absorvem a luz solar numa extensão muito maior do que as partículas brancas.

Após esta descoberta, calcularam o impacto potencial destas partículas coloridas no aquecimento global. E no passo seguinte os cientistas estimaram a massa total de plástico em suspensão que pode estar presente, em média, por metro quadrado de ar.

Para isso, tiveram em conta dados globais de inventário sobre as emissões de plástico e o tempo que estas partículas permanecem na atmosfera, que é geralmente de pelo menos algumas semanas, explicou um dos autores, Drew Shindell, investigador da Universidade norte-americana de Duke, em conferência de imprensa.

Os resultados indicaram que as partículas de plástico em suspensão, e em particular os nanoplásticos coloridos, que são os mais persistentes, contribuem para o aquecimento atmosférico.

As suas emissões seriam equivalentes a 16,2% da poluição provocada pelo carbono negro, um componente da fuligem com origem na combustão incompleta dos combustíveis, fosseis ou não, e da biomassa.

"Este estudo apoia a teoria de que as partículas de plástico presentes na atmosfera podem absorver luz e, por conseguinte, provocar um aumento do aquecimento global", afirma o investigador Sam Harrison, do Centro de Ecologia e Hidrologia do Reino Unido, numa reação publicada pelo "Science Media Centre" (SMC).

A estimativa pode estar sobredimensionada, porque "a massa total de plásticos não provém de uma amostragem real, mas de simulações baseadas em inventários anteriores", pelo que os resultados devem ser interpretados com cautela, esclarece Roberto Rosal, professor de Engenharia Química na Universidade de Alcalá, Espanha, numa reação para a mesma plataforma.

Questionado pelos jornalistas numa conferência de imprensa organizada pela "Nature", Drew Shindell reconheceu que, ao basearem os resultados em simulações laboratoriais, os autores podem ter sobrestimado a presença de plásticos, embora também a possam ter subestimado.

Os autores defenderam a realização de mais investigação sobre o impacto das partículas de plástico em suspensão nas alterações climáticas, uma vez que todos os indícios sugerem que este impacto é significativo.

Os sentimentos homeostáticos são os heróis silenciosos que deram “coragem” a António Damásio a publicar o seu novo livro



Os livros do neurocientista António Damásio nem sempre são feitos de páginas de fácil compreensão para o leitor, nada que não seja normal quando os temas de que tratam são do domínio de apenas uma ínfima minoria de especialistas em todo o mundo. No entanto, no seu mais recente ensaio, A Inteligência Natural & a Lógica da Consciência, há uma tentativa de seduzir o maior número de leitores para que estes caminhem junto dele e compreendam os desenvolvimentos que tem vindo a acrescentar à sua teoria sobre a consciência. Daí que desde o princípio do livro escreva: “É importante explicar aos leitores aquilo sobre o qual se pretende escrever”.

A justificação para Damásio ter este comportamento vem expresso logo de seguida: “O meu objetivo principal será explicar como se fabrica a consciência”. Adianta que para explicar a sua perspetiva sobre “como a natureza fez o seu trabalho”, precisa de “apresentar a ideia que tenho daquilo em que consiste a consciência”. Antes de continuar faz um alerta: “A maior parte das ideias que defendo neste livro assenta em dados científicos comprovados, alguns bens recentes, mas incluo também teorias e hipóteses que ainda não foram testadas”. Se o leitor ainda desconhecia o que poderia passar-se se aceitasse o convite do autor para a leitura deste ensaio, rapidamente entenderia o que estava em causa ao ler o que escreve um pouco mais à frente, sob o título O plano: “No início introduzimos o problema da consciência no contexto da Inteligência Natural. A reflexão filosófica é completada por descobertas nos campos da biologia geral, da neurologia clínica e da neurociência. O texto apresenta as minhas respostas a duas questões principais: como se fabrica a consciência e como é que a consciência afeta aqueles que a têm”.

Seis meses após lançar a edição portuguesa de A Inteligência Natural e a menos de cinco meses de ser editada a versão mundial em inglês (Natural Intelligence & the Logic of Consciousness), António Damásio não deixa de confessar que além do leitor tradicional este trabalho tem outros destinatários: “Quero fornecer a colegas por quem tenho apreço e que até podem ter entendimentos diferentes dos meus qual é a minha ideia sobre esta questão.” Considera que o livro poderá ser o melhor veículo pois “a comunicação de ideias é muitas vezes difícil quando é feita através de um artigo científico que tem um limite de páginas”.

Além de avisar o leitor sobre este duplo objetivo do livro, o estratagema que Damásio utiliza para encaminhar o leitor resume-se a uma frase de apenas nove palavras, em que é capaz de antecipar e aguçar a atenção para a revelação que vai dominar o ensaio: “Os sentimentos homeostáticos são os heróis silenciosos deste livro”. Acrescenta: “É esse o ponto que quero realçar neste livro e também dar ao leitor a ideia de que não só se pode ter a compreensão daquilo que é a consciência, como se está perante um primeiro vislumbrar da forma como a consciência pode ser construída através de sentimentos homeostáticos. Estes são verdadeiramente um avanço e é isso que quero deixar bem vincado”. Conclui: “Não é só um novo livro, não é só uma reflexão sobre aquilo que é o sistema nervoso, a vida e a consciência, mas antes uma reflexão e uma proposta muito concreta sobre a forma como tudo isto pode ser construído e realizado por seres vivos”.

Tal como no livro vai expondo gradualmente as descobertas, também nesta conversa as suas afirmações seguem os mesmos passos. É então que se ouve: “Hoje sou capaz de explicar como os sentimentos homeostáticos surgiram no nosso organismo”. Há logo uma necessidade de se esclarecer uma situação: é uma descoberta mais recente ou já a vinha cimentando? O cientista faz uma segunda confissão: “A coragem de explicar e descrever este novo estado de coisas é recente, no entanto alguns dos conhecimentos que levaram a essa coragem para o revelar já têm alguns anos. Por isso, podia descrever as conclusões deste livro da seguinte maneira: finalmente, tive a coragem de explicar e defender um mecanismo que há algum tempo tenho estado a investigar e a acumular os dados que permitam ter a noção de como tudo isto é construído e de como se chega ao sentimento homeostático e à consciência.”

É essa a razão, pergunta-se a António Damásio, pela qual a questão dos sentimentos homeostáticos domina a maior parte deste novo livro. Responde afirmativamente: “Sim. Dominam o livro não só por aquilo que os sentimentos homeostáticos são capazes de introduzir na vida humana, mas pela maneira como são absolutamente necessários para essa vida e para que haja uma regulação dessa vida. Também pelas consequências que esses sentimentos homeostáticos têm para a vida de uma forma mais ampla, até do ponto de vista cultural.”

Mas Damásio tem mais para anunciar sobre o assunto em causa, que tem vindo a adiantar no último ano em artigos em revistas científicas e avançava em parte no anterior livro, Sentir & Saber (2020): “Não se pode ignorar uma 'novidade' que está neste livro e que é muito importante para a minha investigação: a de que não só digo que a consciência provém dos sentimentos homeostáticos como tenho uma solução para explicar a forma como esses sentimentos homeostáticos se desenvolveram. Afinal, embora venha a afirmar desde há muito tempo que os sentimentos homeostáticos são uma raiz da consciência, só neste livro e nos trabalhos mais recentes é que encontrei e descrevo uma solução para explicar como esses sentimentos homeostáticos são construídos. Ou seja, é uma situação extremamente importante, o que faz com que este novo livro não só deixe bem registada a importância dos sentimentos homeostáticos, como seja capaz de explicar a forma como esses sentimentos homeostáticos podem ser criados em seres como nós, seres vivos e humanos.”

Após esta explicação, Damásio remata assim: “Isto é novo cientificamente e é muito importante”. Faz questão de acrescentar uma nota: “Há quem após uma leitura superficial deste livro possa dizer que esta será apenas mais uma afirmação que António Damásio está a fazer, até que já o disse anteriormente - de que os sentimentos homeostáticos têm um papel na consciência -, contudo, a importância deste livro é estar a propor a existência de um mecanismo que permite aos seres vivos criar consciência através desses sentimentos homeostáticos.”

Um componente moderno
O que pode António Damásio explicar sobre esse mecanismo é a interrogação que se segue e a que o neurocientista responde, com todos os detalhes possíveis usando como exemplo a conversa transatlântica em curso sobre este seu novo livro: “Este mecanismo tem como base o facto de termos no nosso sistema nervoso dois componentes extraordinariamente importantes e muito distintos. Um é um componente moderno, do ponto de vista da evolução, e é aquele que permite que duas pessoas possam ter um diálogo via Internet devido às enormes capacidades cognitivas que possuímos e que nos conferem uma capacidade de ter perceção daquilo que se escuta enquanto convivemos com o que se está a passar à nossa volta; também de pensar sobre o que estamos a ver e a ouvir, a que acresce a nossa capacidade de transformar tudo isso em linguagem - pode-se dar o exemplo desta entrevista telefónica. Vamos ao segundo componente, aquele que permite toda esta maravilha: é um sistema nervoso em que as células nervosas são mielinizadas, ou seja, células nervosas modernas do ponto de vista evolucionário, que estão rodeadas de mielina e por isso funcionam como cabos elétricos em que não se perde corrente desde o princípio do corpo celular até à sinapse. Esses sentimentos permitem uma ligação (resonation) aos nossos afetos e são produzidos por neurónios completamente diferentes. Neurónios que, do ponto de vista evolutivo, são muito mais velhos, muito mais do princípio do desenvolvimento dos sistemas nervosos, e em que os axónios em vez de terem mielina e estarem isolados, pelo contrário, estão expostos àquilo que se passa no meio químico que os rodeia. É exatamente nessa ligação entre aquilo que se passa no meio químico que rodeia os neurónios e os neurónios propriamente ditos, aquilo que descreveria em inglês como co-mingling [mingle = misturar], ou seja, que se dá a possibilidade de fazer uma mistura. Portanto, aquilo que se está a passar no sistema nervoso que permite os sentimentos homeostáticos é, de facto, uma mistura entre aquilo que se está a passar no corpo e aquilo que se está a passar na nossa vida direta; nas células que constroem o nosso corpo e que têm os intercâmbios com a vida propriamente dita, e naquilo que se está a passar no sistema nervoso cognitivo. Dessa situação de co-mingling entre os componentes, a mistura do que está no corpo propriamente dito e aquilo que está no sistema nervoso, é que emergem os sentimentos homeostáticos. Daí que tenhamos sentimentos homeostáticos agradáveis e desagradáveis, pois quando a vida está a correr bem o sistema nervoso apanha no nosso corpo a ideia de que a vida está boa, que a vida é possível e que não há barreiras à continuação dessa vida; se temos qualquer coisa que não está a funcionar bem no corpo, nessa altura temos sentimentos de desagrado ou de dor, e esses sentimentos são aqueles que nos estão a dar a ideia de que qualquer coisa se passa de mal no nosso corpo.”

Aniquilar uma civilização
A dado momento do livro, Damásio regista que “talvez seja possível reorientar parte das notáveis conquistas das inteligências naturais, de modo a salvar a humanidade da beira do abismo ao qual chegou”. Até que ponto se pode fazer uma leitura de que as sociedades contemporâneas não estão a preservar o melhor da vida, ou seja, a consciência não está a conseguir ter o papel necessário de harmonização da sociedade? Para António Damásio é possível fazer esta leitura, mas coloca condições: “É preciso vincar o facto de que a consciência não é uma forma de regular a nossa vida social, mas, basicamente, ser uma forma de regular a vida individual. A ideia de consciência, tal como explico neste livro, é de que ela é um sistema de regulação da vida individual, um sistema que vem através do desenvolvimento dos sentimentos homeostáticos e que nos permite ter conhecimento direto e imediato de se a vida está a decorrer de uma forma normal ou se existem riscos para essa própria vida. Essa é a grande beleza e a enorme importância da consciência, por ter consequências extremamente importantes na regulação da vida.”

Aproveitando o cenário geopolítico de acontecimentos mundiais em curso nas últimas semanas, questiona-se o cientista sobre o papel da Inteligência Natural; que tão bem protegeu e promoveu a vida ao longo da história humana e que recentemente se encontrou perante a perplexidade de uma ameaça do presidente Trump em aniquilar uma civilização em poucas horas. Estaremos a viver num tempo de destruição da Inteligência Natural? Damásio considera que é uma pergunta interessante, mas passível de diversas respostas: “Não tenho grandes dúvidas que a nossa Inteligência Natural está, de certo modo, ameaçada por tudo aquilo que se passa com a Inteligência Artificial porque, de certo modo, a Inteligência Artificial tem-nos separado daquilo que é a realidade da vida e a realidade humana. Não é a primeira vez que tal situação se dá, pois existem diversos aspetos da cultura que, historicamente, têm contribuído para essa separação, no entanto é mais evidente agora. Porquê? Quando um grande número de pessoas - quase que a totalidade da humanidade - utiliza sistemas de Inteligência Artificial para comunicar e prefere esses sistemas à comunicação humana direta, não duvido que aquilo que constituiu a realidade da vida tornou-se mais longínqua da nossa perceção do dia-a-dia e estamos a interpor um outro sistema de comunicação que torna as coisas um pouco menos nítidas. Pode até dizer-se que há qualquer coisa que se está a passar na cultura humana em geral que remove a importância da Inteligência Natural do que seria o seu papel central e que nos torna mais distantes daquilo que é a vida ou o sofrimento e que, por essa razão, nos deixa mais capazes de tolerar o sofrimento. Portanto, a resposta à pergunta feita lá atrás é afirmativa.”

No que respeita à Inteligência Artificial, este novo livro de António Damásio é mais seletivo do que se poderia esperar e soma muito poucas dezenas de páginas em referências soltas e apenas lhe é dedicado um único capítulo de forma específica. Questiona-se Damásio sobre se considera que a Inteligência Artificial está a desviar o foco da ciência além das alterações no comportamento humano? O cientista responde: “Sim, dada a importância extraordinária e cada vez maior dessa tecnologia na nossa rotina diária. O nosso dia-a-dia está ligado a capacidades de comunicação que vêm desse mundo artificial e o que se está a passar é que as pessoas estão a utilizar a Inteligência Artificial quando poderiam muito bem usar o contacto direto humano. Eu vejo isso nas ruas dos Estados Unidos da América, e também no campus da universidade, em que a maior parte das pessoas, especialmente os jovens, estão a caminhar e a olhar para os seus aparelhos em simultâneo, por vezes a ler o que está no visor ou a ter uma conversa, até a falar com outras enquanto circulam de bicicleta ou trotinetas elétricas. Ou seja, é um entrar na nossa vida diária de uma forma estranhamente potente e que nos afasta daquilo que é a humanidade e era a sua vida corrente.”

Lembra-se António Damásio de que esteve há pouco mais de um ano em Lisboa e que participou num debate na Fundação Champalimaud com o professor Arlindo Oliveira, no qual estava muito reticente sobre os avanços da Inteligência Artificial. No entanto, aquando da apresentação deste livro, em novembro, parecia ter mudado de perceção. Questiona-se sobre qual é a sua opinião atual sobre a Inteligência Artificial? Refere a mudança: “Não é tanto mudar de opinião, antes de corrigir a opinião. Continuo a achar que a Inteligência Artificial tem diferenças fundamentais em comparação com a Inteligência Natural, mas não tem neste momento a capacidade de, por exemplo, ter uma consciência. Este é um dos pontos que sublinho neste novo livro e em novos artigos, o de que não é possível à Inteligência Artificial, tal como funciona neste momento, aceder a um estágio como o dos seres vivos, especialmente, o dos seres humanos. No entanto, não há qualquer dúvida que o poder do sistema ao nível técnico é tal que avançou muito além daquilo que eu pensava ser possível e que iria alcançar. Ou seja, repito, não é tanto mudar de opinião mas corrigir e continuar a afirmar que é difícil à Inteligência Artificial conseguir copiar inteiramente aquilo que é a Inteligência Natural e, sobretudo, sensibilizar sobre o facto de não existirem dúvidas sobre o quanto está a dominar a nossa vida diária de uma forma que tem impacto sobre aquilo que podemos ser como seres humanos e também no que respeita à nossa relação uns com os outros.”

Ao iniciar o título do novo livro com a expressão Inteligência Natural existiria uma intenção de António Damásio em rivalizar com o conceito de Inteligência Artificial? É a pergunta que se faz e a que o cientista responde desta forma: “Era o título que pretendia usar desde o início, de modo a forçar a distinção entre aquele que é um processo natural nos seres humanos e o que é um processo de inteligência que veio através do desenvolvimento desses seres humanos. A Inteligência Artificial é um dos diversos produtos da criação humana, que é extraordinariamente importante e há que reconhecer a sua extraordinária importância e potência na maneira como ajuda as nossas vidas em diversos aspetos e com resultados positivos. No entanto, também é preciso reconhecer que tem limitações, graves riscos e, entre as limitações, o que mais me interessa é o facto de lhe faltar a lógica da consciência que a Inteligência Natural tem à sua disposição.

domingo, 3 de maio de 2026

Floresta: Portugal vai buscar insetos ao outro lado do mundo para salvar 3.000 milhões de euros por ano de exportações


Um escaravelho minúsculo, mas voraz, está a preocupar o setor florestal português. A traquimela - uma praga que se alimenta das folhas de eucalipto — ameaça um dos pilares das exportações nacionais: a fileira da pasta e do papel vale mais de 3.000 milhões de euros por ano.

A resposta está a milhares de quilómetros. Na Austrália, origem do eucalipto e também das suas pragas, investigadores portugueses procuraram aliados naturais: insetos que se alimentam da traquimela. No final do ano passado, cerca de 200 exemplares foram trazidos para Portugal e estão agora em quarentena, sob vigilância apertada.

O objetivo é simples, mas o processo é tudo menos trivial: garantir que estes “insetos bons” atacam exclusivamente a praga e não colocam em risco outras espécies ou culturas. “Como estamos a introduzir uma espécie nova, temos que ter a certeza que esse bicho só vai atacar a praga que nós queremos destruir”, explica Catarina Gonçalves, investigadora do RAIZ – Instituto de Investigação da Floresta e Papel.

Em laboratório, a estratégia passa por simular o que acontece na natureza. Os investigadores criam a traquimela e expõem os potenciais predadores a diferentes espécies, incluindo insetos autóctones, para testar o seu comportamento alimentar.

A lógica segue um princípio conhecido como controlo biológico: combater uma praga com os seus inimigos naturais, evitando o recurso a químicos e tentando reequilibrar o ecossistema. “Vamos buscar à Austrália porque o eucalipto é de lá. As pragas são de lá e os insetos benéficos também”, resume a especialista em proteção de plantas e florestas.

O instituto RAIZ, criado pela Navigator, tem duas décadas de experiência neste tipo de intervenção — e já ajudou a resolver outras pragas em Portugal. Mas cada nova introdução exige testes demorados e rigorosos.

Só depois de meses - por vezes anos - de validação é que estes aliados improváveis podem ser libertados no terreno.

“Um inseto importado evitou que a cultura de eucalipto fosse completamente destruída”
Para compreender melhor a importação de armas biológicas da Austrália, a CNN Portugal entrevistou Catarina Gonçalves, investigadora do RAIZ - Instituto de Investigação da Floresta e Papel.

Há quanto tempo vamos buscar bichos à Austrália?
Os primeiros trabalhos na Austrália aconteceram em 2008. Os primeiros insetos foram importados em 2009. Desde então temos ido regularmente à Austrália, tendo a última vez sido em final de 2025, para procurar insetos contra uma praga que está a ser muito destrutiva, chamada traquimela, e para uma planta invasora, a acácia mimosa.

Esses imigrantes já foram espalhados pela floresta?
Sim. Já libertámos na natureza três espécies. Todas passaram por vários anos em quarentena, para testes. Só depois foram libertadas, com as autorizações das entidades competentes. Atualmente, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

Com que resultados?
Os resultados têm oscilado entre o sucesso total, em que a praga que queremos controlar deixou de ser um problema, e um caso em que o inseto benéfico não conseguiu competir com outro que já estava estabelecido. Ou seja, não causou danos, mas também não teve uma contribuição significativa. Há um caso extremo de sucesso de um inseto, o ‘Anaphes nitens’, contra o gorgulho-do-eucalipto, que é um verdadeiro caso de estudo a nível mundial. Em Portugal, há um estudo científico que coloca o benefício deste inseto em, pelo menos, 1,8 mil milhões de euros. Na prática, este inseto foi a diferença entre ser possível produzir eucalipto em Portugal ou ter a cultura completamente destruída pela praga. Importa ainda referir que os insetos podem ser eficazes sozinhos ou complementarmente com outras técnicas de controlo das pragas, como o uso de plantas resistentes (o chamado melhoramento genético) ou boas práticas de silvicultura.

Colaboram com universidades?
Felizmente, temos uma rede de parcerias de luxo. Começámos por trabalhar com a Navigator Forest Portugal, a Altri Florestal e com o Instituto Superior de Agronomia. Com o tempo fomos alargando as parcerias, que incluem hoje também a Universidade de Coimbra, a Escola Superior Agrária de Coimbra, o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, a ENCE (Espanha), a University of the Sunshine Coast (Austrália), a CSIRO (Austrália), Servicio Agrícola y Ganadero (Chile), o Instituto Nacional de Investigación Agropecuaria (Uruguai), o Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais (Brasil), entre outros.

Como articulam a vossa atividade com o Estado?
Trabalhamos sempre com acompanhamento e supervisão do ICNF.

Oferecem ou vendem as espécies importadas a terceiros?
Não vendemos insetos, mas doamos a quem nos contacte através das equipas de apoio aos produtores. A estratégia é sempre libertar o máximo viável dentro das possibilidades de criação e ter como objetivo o benefício da floresta em geral. É normal que boa parte das áreas beneficiadas com o controlo biológico sejam de terceiros, frequentemente de pequenos produtores, que muitas vezes não têm acesso a outras formas de controlo, como as plantas resistentes.

sábado, 2 de maio de 2026

Novo ouro negro: há uma corrida para reciclar baterias de carros elétricos

A transição global para a mobilidade elétrica está a acontecer a um ritmo alucinante nas estradas de todo o mundo. Efetivamente, mais de um em cada quatro automóveis vendidos a nível global durante o ano de 2025 já foi totalmente elétrico, dependendo inteiramente de baterias de iões de lítio para funcionar. Por isso, surge agora um problema de proporções titânicas no horizonte. O que vamos fazer quando todos estes acumuladores de energia chegarem ao fim da sua vida útil? De facto, a pressão gigantesca sobre o acesso a minerais críticos obrigou a indústria mundial a focar-se agressivamente na tecnologia de reciclagem. É por isso que há uma corrida para reciclar baterias de carros elétricos.

Reciclar baterias de carros elétricos: o novo ouro negro
Em primeiro lugar precisas de ter a real noção dos números esmagadores que o mercado automóvel vai enfrentar muito em breve. As estimativas mais recentes apontam que cerca de 1,2 milhões de baterias de veículos elétricos vão atingir o limite das suas capacidades já em 2030, um número que vai explodir para uns assustadores 14 milhões até ao ano de 2040.

Neste sentido, um estudo revelador publicado em conjunto pela Organização Europeia de Patentes e pela Agência Internacional de Energia mostra que o mercado entrou em modo de sobrevivência. Como resultado, a inovação para a circularidade e reciclagem disparou de forma incrível. Os registos de novas tecnologias nesta área apresentaram um crescimento anual espantoso de 42% entre 2017 e 2023. Adicionalmente, este valor esmaga completamente a média de crescimento da inovação tecnológica geral, provando que descobrir formas de reaproveitar o lítio e o cobalto é a prioridade máxima das grandes indústrias.

O domínio absoluto da Ásia na tecnologia de ponta
Além disso, esta autêntica corrida ao ouro tecnológico não está a ser disputada de forma equilibrada no mapa global. A Ásia assumiu uma liderança verdadeiramente avassaladora neste setor crítico, representando atualmente 63% de todas as inovações internacionais registadas no último ano avaliado.

Por outro lado, o panorama asiático também sofreu reviravoltas internas impressionantes. Se até 2019 o mercado era totalmente dominado por gigantes japoneses e coreanos como a Toyota e a LG, o cenário mudou drasticamente. Desta forma, a empresa chinesa Brunp assumiu a liderança incontestável, impulsionando a quota global da China de uns meros 5% em 2013 para uns formidáveis 29% na atualidade.

A estratégia europeia de sobrevivência
Paralelamente, a Europa tenta encontrar o seu próprio espaço nesta guerra de patentes, representando cerca de 20% das inovações globais. Ao invés de se focar puramente no fabrico, o mercado europeu está a especializar-se fortemente na tecnologia de recolha complexa e na transformação química exata necessária para extrair as preciosas matérias-primas de baterias mortas e injetá-las em unidades novas.

Consequentemente, os especialistas máximos das agências europeias de patentes e de energia defendem acerrimamente que a competitividade futura do nosso continente depende da criação de um sistema circular robusto. A ideia central é que apenas com legislação favorável e inovação focada será possível aliviar a pressão brutal sobre as cadeias de abastecimento internacionais. Também reduzir o perigoso impacto ambiental da extração mineira tradicional.

Entretanto para apoiar este ecossistema vital, as plataformas digitais europeias já começaram a mapear ativamente o terreno. Ferramentas avançadas de rastreio tecnológico monitorizam agora de perto o trabalho brilhante de quase seis dezenas de startups. Também de universidades europeias que lutam diariamente nos laboratórios. Portanto, se a Europa quiser manter os seus carros a circular no futuro sem depender inteiramente de fornecedores externos, a única saída possível é dominar a arte de reciclar o passado. São sem dúvida tempos interessantes para quem está a apostar em reciclar baterias de carros elétricos.

Mais informações
  1. Acesso ao relatório completo: “Circularidade das baterias: tendências de inovação para uma futura fonte de materiais críticos
  2. O Estado da Inovação em Energia 2026 da AIE
  3. Plataforma de energia limpa da OEP inclui agora a circularidade das baterias
  4. Deep Tech Finder (DTF) da OEP
  5. Observatório de Patentes e Tecnologia da OEP
  6. Versão beta da cartografia de armazenamento de energia
  7. Pplware/SAPO - Baterias Usadas e Fábricas de Reciclagem: Detalhes sobre a nova megafábrica de reciclagem na Europa e o conceito de Schwarzmasse || Black Mass || Massa Negra
  8. AZoCleantech - Tecnologias de Reciclagem em 2026: Um guia técnico sobre os métodos de hidrometalurgia e reciclagem direta que estão a dominar o mercado este ano.
  9. GlobeNewswire - Mercado de Reciclagem 2026-2032: Relatório sobre o crescimento exponencial deste mercado, previsto para atingir biliões de dólares nos próximos anos.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Viva o 1º de Maio

Giuseppe Pellizza da Volpedo - "O Quarto Estado" (1901)

Giuseppe Pellizza dá este nome à sua obra porque os trabalhadores sentiam que não eram representados pelo sistema político da época, o chamado parlamentarismo burguês. Eles constituíam um "novo grupo" social que passava a exigir voz própria e participação ativa nas decisões da sociedade. Historicamente, essa nomenclatura marca uma evolução clara: se o Terceiro Estado, liderado pela burguesia, foi o responsável por derrubar o absolutismo do Clero e da Nobreza, o Quarto Estado surgia agora como o proletariado organizado para reivindicar direitos diante da exploração exercida por essa mesma burguesia.

Na representação visual da tela, nota-se que a multidão não está armada; pelo contrário, os trabalhadores avançam de forma pacífica, mas com uma determinação inabalável. Trata-se de uma marcha em direção à "luz" do progresso e da justiça social, um recurso artístico que indica que o futuro pertenceria a esse novo estrato social. Em resumo, o Quarto Estado retratado por Pellizza era a classe operária consciente de si mesma e do seu papel histórico, marchando para ocupar o seu lugar de direito ao lado — ou mesmo à frente - dos três grupos que tradicionalmente detinham o poder.

Saber mais:
  1. Primeiro de Maio de 2026: a remuneração dos CEO mais elevados aumentou 20 vezes mais rapidamente do que a remuneração dos trabalhadores em 2025, acusa a Confederação Sindical Internacional, num relatório devastador.
  2. Em 2024, a Oxfam apresentou uma queixa formal contra a Amazon e a Walmart às Nações Unidas. Leia mais sobre a vigilância e o sofrimento nos armazéns da Amazon e da Walmart.
  3. A 7ª edição do Inquérito Mundial de Valores revelou que metade das pessoas acredita que “os ricos compram frequentemente eleições” nos seus países.
  4. A Oxfam estima que os multimilionários têm 4.000 vezes mais probabilidades de ocupar cargos políticos do que as pessoas comuns.
  5. Descarregue o relatório da CSI “Corporações que Minam a Democracia 2025”.
  6. Mais de 840 mil mortes por ano ligadas a riscos psicossociais no trabalho, diz novo relatório da OIT 

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Espanha: Elétricas e PP propagam notícias falsas culpando as renováveis pelo apagão

A Greenpeace denunciou quatro notícias falsas que estão sendo propagadas por empresas elétricas e pelo Partido Popular (PP), com o objetivo de culpar as energias renováveis pelo apagão e justificar a manutenção de centrais nucleares e de gás:

1: “Havia energia renovável em excesso”
Realidade: O apagão foi causado por falhas no controle de tensão atribuíveis a centrais de gás e nucleares (que não forneceram os serviços de segurança pelos quais foram pagas). Países com maior participação renovável (Alemanha, Grécia) não sofreram apagão.

2: “Não podemos prescindir da energia nuclear para evitar novos apagões”
Realidade: A nuclear foi um peso durante a crise. Mais de metade do parque nuclear estava operacional, mas não ajudou a estabilizar o sistema (inclusive há processos contra centrais como Almaraz, Ascó e Vandellós II). Além disso, centrais nucleares são lentas para religar (levam dias), ao contrário de outras tecnologias.

3: “Sem gás não podemos viver”
Realidade: Embora as centrais de gás tenham ajudado na recuperação pós-apagão, 16 centrais de gás também falharam em controlar a tensão para evitar o colapso (e estão sendo sancionadas).

4: “Só com renováveis não podemos funcionar”
Realidade: Um estudo da Greenpeace (Energia para viver melhor) conclui que Espanha e Portugal podem abandonar completamente os combustíveis fósseis e a energia nuclear até 2040, com redução de 39% da procura energética total e abastecimento 100% renovável (eólica, solar, hidráulica, armazenamento e gestão da procura).

A Greenpeace sugere a aplicação de um imposto específico sobre as grandes empresas elétricas (que aumentaram lucros pós-apagão) para financiar o combate à pobreza energética e uma transição energética justa.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

The Stargazer Lilies - Perfect World


Letra
Love would rule
Nothing be cruel
No one would hurt
Or feel like dirt
Every soul 
Honest and true
Each  moment 
Fresh and new

Oooooo
In a perfect world
Rainbows swirled
Blue and green twirled
Oooooo
In a perfect world
Space time curled
And rainbows swirled
Oooooo

 Poverty would be no more
As would disease and making war
All mistakes
Could be undone
Above all else
Life would be 

Esta canção é um hino ao idealismo utópico, pintando o retrato de uma realidade onde as falhas fundamentais da condição humana — o sofrimento, a malícia e a irreversibilidade do tempo - foram erradicadas. No seu âmago, a letra explora a pureza moral e emocional, sugerindo que num mundo perfeito a dor psicológica seria inexistente, pois a honestidade e a autovalorização seriam a norma, eliminando o sentimento de "ser lixo" ou a necessidade do engano.

A composição eleva-se acima das questões sociais ao tocar no campo da metafísica, especialmente quando menciona que o "espaço-tempo se curvaria". Esta ideia de que "todos os erros poderiam ser desfeitos" revela o maior desejo humano: a libertação do arrependimento e a capacidade de apagar as consequências permanentes das nossas falhas. Ao abordar a extinção da pobreza, da doença e da guerra, a letra confronta os três grandes pilares do sofrimento terreno, propondo um sistema de salvação absoluta.

Finalmente, ao terminar com a frase suspensa "a vida seria...", a canção sugere que, uma vez removido o ruído do conflito e da escassez, a verdadeira essência da existência é algo tão profundo e transcendente que ultrapassa a própria linguagem. É um contraste vibrante entre a dureza do nosso mundo e um sonho onde o amor não é apenas um sentimento, mas a própria lei que rege a física do universo.

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A advertência subtil, mas marcante, do rei Carlos III à América


Monarca britânico discursou perante o Congresso norte-americano, numa abordagem direta e contundente, suavizada pelo profundo respeito pelos anfitriões e pelas relações históricas entre os dois países

Numa nova era de revolta, foi preciso um rei para lembrar à América os seus valores republicanos: o Estado de direito, a democracia e o poder do seu exemplo internacional.

O rei Carlos III escolhe as suas palavras com precisão - tal como fazia a sua falecida mãe, a rainha Isabel II. O significado real tem frequentemente de ser inferido.

Mas, para os padrões reais, o seu discurso numa sessão conjunta do Congresso na terça-feira foi surpreendentemente direto.

Carlos não repreendeu nem criticou a administração Trump. Mas o monarca desaprovou implicitamente a atual direção política dos Estados Unidos e defendeu os pilares da democracia ocidental: freios e contrapesos internos, alianças e tolerância inter-religiosa.

Carlos apelou ainda à defesa firme da Ucrânia. E a “natureza”, disse ele, deve ser protegida, num apelo velado para combater as alterações climáticas, que o presidente Donald Trump chamou de “burla”.

E o rei salientou que os amigos podem discordar sem romper laços eternos, uma referência velada à “relação especial”, que tem sido abalada pela recusa do Reino Unido em aderir à guerra contra o Irão.

“As palavras da América têm peso e significado, tal como têm desde a independência”, disse Carlos, no hemiciclo da Câmara dos Representantes. “As ações desta grande nação importam ainda mais”.

A versão do rei sobre os valores dos Estados Unidos provavelmente agradou mais aos democratas “No Kings” do que ao vice-presidente JD Vance, que tem opiniões sobre o declínio civilizacional do Reino Unido e da Europa e que se sentou atrás dele na Câmara dos Representantes.

Mas Carlos amenizou a sua crítica demonstrando profundo respeito pelos anfitriões. Citou Trump, afirmando que o “laço de parentesco” entre os EUA e o Reino Unido é “inestimável e eterno”. E o seu discurso esteve repleto de elogios às conquistas históricas americanas.

E os pontos mais contundentes foram suavizados pela pompa coreografada de uma visita de Estado que retribui uma viagem de Trump no ano passado. Parafraseando o presidente Theodore Roosevelt, o rei falava suavemente enquanto empunhava um grande cetro.

O presidente não mostrou sinais de se sentir ofendido pelas observações de Carlos III. Donald Trump orgulha-se das suas relações pessoais com os líderes mais famosos do mundo. O rei também condenou por duas vezes a alegada tentativa frustrada de assassinato contra o presidente numa gala para a imprensa no sábado.

“The Firm”, como a família real é frequentemente conhecida, já passou por tudo isto antes. O rei Carlos III mencionou, num raro jantar de Estado de gala na Casa Branca na terça-feira à noite, que a sua mãe tinha vindo a Washington em 1957 para reparar as divisões entre os EUA e o Reino Unido provocadas pela crise de Suez.

“É difícil imaginar algo assim a acontecer hoje, mas não é difícil ver como a relação continua a ser importante, em assuntos visíveis e invisíveis”, disse o rei.

E Carlos III ofereceu ao presidente um presente único - o sino original da torre de comando do HMS Trump, um submarino da Marinha Real que esteve em serviço no Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial.

“Se alguma vez precisar de nos contactar, basta dar-nos um toque!”, afirmou Carlos.

Esta forma cerimonial de abordar as divisões ideológicas de uma forma não ideológica destacou um paradoxo: os monarcas britânicos estão vinculados por convenção constitucional a serem apolíticos, mas a sua contenção confere-lhes um enorme poder simbólico quando optam, com moderação, pelo contrário.

Testemunho impactante de Richard Zimmler em defesa do SNS

Há duas semanas, passei por um grande susto de saúde. Agora que a situação se acalmou e me sinto bem, quero escrever sobre isso para agradecer a todas as pessoas que me ajudaram. Eis o que aconteceu: 
Tive uma consulta com um novo médico porque tenho um problema com o meu intestino há alguns meses.  Ele receitou-me alguns suplementos. Tomei o primeiro, o Movicol, nessa tarde, e tive uma reação alérgica grave – choque anafilático. Um minuto depois de tomar o medicamento, comecei a sentir comichão na boca, nas costas, na barriga e nos pés. Sabia que a situação poderia piorar, por isso liguei imediatamente para o consultório do médico. A sua esposa (também médica) disse-me para tomar um anti-histamínico. Não tínhamos nenhum em casa, por isso o Alex e eu fomos à farmácia local. Foi uma sorte imensa…Enquanto estávamos lá, a minha pressão arterial baixou drasticamente e fiquei muito fraco e tonto. As farmacêuticas tentaram medir a minha pressão arterial, mas estava demasiado baixa para conseguir uma leitura!  As farmacêuticas foram maravilhosas e ajudaram-me a tomar o anti-histamínico. Sentaram-me numa cadeira, levanvaram-me as pernas e deram-me sal para colocar debaixo da língua.  A tontura fez com que a minha visão ficasse turva e eu estava tão fraco que não conseguia levantar-me. As farmacêuticas ligaram para o 112 e a ambulância chegou cerca de quinze minutos depois. 
Os paramédicos foram extremamente gentis comigo, tal como as farmacêuticas. Nessa altura, a minha pressão arterial tinha voltado a subir para cerca de 9/5. Já me sentia menos fraco. Os paramédicos colocaram-me numa cadeira de rodas e levaram-me para as urgências do Hospital de S. António, onde tenho todos os meus médicos. Foi a minha estreia mundial numa ambulância! O Alexandre veio comigo. Na sala onde acabei por ficar (não sei bem onde era), os médicos administraram-me soro intravenoso, cortisona e um anti-histamínico. A minha pressão arterial subiu lentamente depois disso. Três horas depois, às 20h, a pressão estava em cerca de 11/7 e mandaram-me para casa (depois de comer uma maçã assada e uma sopa diluida!). A médica disse para tomar o anti-histamínico durante três dias e, depois, começar a tomar os outros suplementos recomendados. Mas falei com a minha terapeuta francesa e ela disse para esperar uma semana porque o meu corpo precisava de descansar. 
É óbvio que nunca mais vou tomar Movicol.
Agora estou bem. Felizmente, não estou a sentir quaisquer consequências do choque anafilático. Tenho uma consulta marcada para 6 de maio com um alergologista para identificar qual o ingrediente do Movicol que causou o choque.
Escrevo agora para expressar os meus agradecimentos aos enfermeiros, médicos e as minhas queridas farmacêuticas pelo sua ajuda maravilhosa e eficiente. Estou extremamente grato, tal como o Alexandre. No dia seguinte ao meu incidente, levei 7 exemplares dos meus livros à farmácia (do Mercado da Foz) e dediquei um a cada um das farmacêuticas que me ajudaram.
Um grande obrigado ao Laurentino e ao Rui, os paramédicos. E à Inês e ao Pedro, os médicos do serviço de urgências. E a todos no SNS.  
Um pequeno pedido: por favor, lutem para manter o elevado nível de cuidados do SNS. Como sou dos EUA, sei o que é viver sem um sistema nacional de saúde. Isso significa que as pessoas vivem com um nível constante de stress, preocupadas com o que lhes acontecerá se adoecerem e se perderão todas as suas poupanças caso precisem de hospitalização. Um exemplo: após o grave AVC da minha mãe, ela ficou em estado vegetativo e passou duas semanas num hospital em Nova Iorque. Praticamente não recebeu cuidados. A conta de duas semanas foi de 120 000 euros. Sim, leu bem: 120 000 euros por duas semanas numa cama. Isso é completamente normal nos EUA. Quer isso em Portugal? Espero que não! Felizmente, o seguro privado da minha mãe pagou 119 000 euros da conta, mas os seguros privados são extremamente caros nos EUA.  É uma situação terrível que espero que nunca venhamos a viver em Portugal. E podem ter a certeza de que lutarei para manter a elevada qualidade dos cuidados de saúde no Serviço Nacional de Saúde.

Da censura editorial à algorítmica: o legado de "A Manipulação do Público"


A obra "A Manipulação do Público" estabeleceu que a comunicação de massa não serve apenas para informar, mas para moldar o pensamento de acordo com os interesses das elites. Na era das redes sociais, os cinco filtros de Chomsky e Herman não desapareceram; tornaram-se mais rápidos, granulares e, acima de tudo, personalizados.

1. O Algoritmo como gestor de atenção
No modelo original de "A Manipulação do Público", a curadoria do que era "noticiável" residia nas mãos de editores humanos, cujas decisões eram balizadas por linhas editoriais e interesses corporativos claros. Hoje, esse papel de porteiro da realidade foi delegado ao código. O filtro algorítmico não opera com base em critérios de verdade ou interesse público, mas sim na metrificação da atenção.

Como o modelo de negócio das grandes plataformas depende do tempo de permanência do utilizador, o algoritmo privilegia conteúdos que geram conflito e indignação. Estas emoções, por serem neuroquimicamente mais viciantes, garantem que o utilizador se mantenha ligado à plataforma por mais tempo. O efeito secundário desta lógica é a criação de "bolhas" informativas: o sistema entrega a cada indivíduo uma versão da realidade que confirma os seus preconceitos, eliminando o contraditório e tornando o diálogo impossível.

O resultado é uma fragmentação social sem precedentes. A visão sistémica do poder -  necessária para compreender como as instituições funcionam e como podem ser questionadas - é substituída por narrativas polarizadas e personalizadas. Ao vivermos em realidades paralelas, perdemos a capacidade de alcançar um consenso social alargado sobre factos básicos, o que imobiliza qualquer tentativa de resistência coletiva. A "manipulação" moderna não consiste em dizer ao público o que pensar, mas em garantir que os diferentes segmentos do público nunca consigam pensar juntos.

2. A Publicidade de Precisão (Microtargeting): a engenharia das vulnerabilidades
A dependência da publicidade, que Chomsky e Herman identificaram como um filtro vital para a sobrevivência dos meios de comunicação tradicionais, atingiu um novo e inquietante patamar com o advento do Big Data. No modelo do século XX, a publicidade era uma "bomba de fragmentação": uma mensagem única lançada para uma massa uniforme, na esperança de capturar a atenção de uma percentagem do público. Hoje, a manipulação é cirúrgica e individualizada.

Através da recolha massiva de dados — que inclui desde o histórico de compras até padrões de sono e localização — o sistema já não comunica com um "público", mas com perfis psicológicos granulares. O consentimento é agora fabricado através de campanhas invisíveis de microtargeting. Isto significa que duas pessoas sentadas no mesmo sofá podem receber narrativas políticas ou corporativas opostas sobre o mesmo tema, cada uma desenhada para explorar as suas vulnerabilidades, medos ou desejos específicos.

Esta evolução altera a natureza da propaganda. Se antes a manipulação era visível e passível de ser debatida no espaço público, agora ela ocorre na esfera privada do ecrã individual. O perigo reside no facto de estas perceções serem moldadas de forma subliminar; o alvo raramente percebe que a informação que está a consumir foi otimizada para contornar as suas defesas racionais. Ao transformar o cidadão num conjunto de pontos de dados, o filtro da publicidade moderna consegue fabricar um consentimento que não nasce da argumentação, mas da estimulação psicológica pré-consciente, tornando a resistência intelectual muito mais difícil de exercer.

3. O Novo "Flak": o disciplinamento digital e o silenciamento invisível
No modelo original de "A Manipulação do Público", o Flak manifestava-se como uma resposta barulhenta e institucional: processos judiciais, cartas de protesto ou editoriais de ataque agressivo. Na era digital, este filtro tornou-se descentralizado e muito mais sofisticado. Hoje, o Flak opera em duas frentes complementares: o ataque público coordenado e o silenciamento algorítmico invisível.

A primeira frente é a da retaliação instantânea. O filtro da pressão deixou de ser exclusivo das elites para se tornar uma ferramenta de massa através do "cancelamento", de campanhas de difamação e do uso de exércitos de bots. Jornalistas ou figuras públicas que ousem desafiar as narrativas hegemónicas enfrentam uma avalanche de ataques que funciona como uma ferramenta de disciplina social, gerando um clima de autocensura digital permanente.

Contudo, é no mundo dos algoritmos que o Flak assume a sua forma mais insidiosa através do Shadowbanning. Esta ferramenta permite que o sistema discipline vozes dissidentes sem necessidade de as banir formalmente. O utilizador continua a publicar, mas o seu alcance é artificialmente reduzido ou limitado apenas aos seus seguidores mais próximos. É a forma definitiva de censura na era da abundância: não se apaga a mensagem, mas garante-se que ela se perde na imensidão do ruído.

A grande eficácia desta mutação reside na sua invisibilidade. Enquanto o banimento direto gera revolta e cria "mártires" da liberdade de expressão, o shadowbanning neutraliza a influência do indivíduo de forma silenciosa. Ao não receber o retorno habitual, o produtor de conteúdos é levado a acreditar que o seu discurso perdeu interesse ou relevância, minando a sua vontade de persistir. Assim, o sistema não só pune a dissidência, como a torna irrelevante sem nunca ter de assumir o papel de censor.

4. A barreira do custo e as fontes
A observação de que a média depende de fontes oficiais por serem "baratas" ganhou um contorno irónico na Internet. Atualmente, a informação de qualidade está frequentemente protegida por paywalls (muros de pagamento), enquanto a desinformação e a propaganda estatal ou corporativa são gratuitas e de fácil acesso. Isto cria uma desigualdade informacional profunda: quem não pode pagar pelo jornalismo independente acaba por ser o alvo mais fácil para a manipulação através de conteúdos gratuitos de baixa qualidade.

Filtro de "A Manipulação do Público"Adaptação para a Era Digital
PropriedadeConcentração de poder nas Big Techs (Google, Meta, etc.).
PublicidadeEconomia da atenção e exploração de dados individuais.
FontesInfluenciadores, grupos de fachada e Astroturfing.
FlakLinchamento virtual, censura algorítmica e ataques de bots.
IdeologiaPolarização extrema e o "Nós contra Eles" das guerras culturais.
A grande ironia contemporânea reside no facto de termos a ilusão de uma escolha infinita quando, na verdade, os filtros digitais tornaram o comportamento humano mais previsível e manejável do que nunca. O "consentimento" de hoje não é imposto; é extraído através do nosso próprio envolvimento digital.

Esta evolução do modelo de "A Manipulação do Público" revela que a arquitetura do controlo social sofreu uma mutação: passámos de um sistema de exclusão para um de saturação. No paradigma de 1988, o poder exercia-se pela escassez; como o espaço nas colunas dos jornais e o tempo de antena televisivo eram recursos finitos, os filtros operavam decidindo o que era silenciado. No entanto, na era digital, o controlo é exercido pela abundância. O algoritmo raramente se dá ao trabalho de esconder a informação dissidente; em vez disso, soterra-a sob uma avalanche de entretenimento efémero, notícias irrelevantes e ruído constante. O consentimento já não nasce do silêncio imposto, mas de uma distração perpétua que impede a reflexão profunda.

Paralelamente, a dependência de fontes oficiais, que Chomsky identificou como um filtro vital, deu lugar ao fenómeno do Astroturfing. Esta é a versão digital da manipulação de base: criam-se movimentos que aparentam ser espontâneos e populares (grassroots), mas que são, na realidade, orquestrados e financiados por grandes corporações ou interesses políticos. Através de exércitos de perfis falsos e influenciadores contratados, gera-se a ilusão de um consenso esmagador. O efeito psicológico no indivíduo é devastador: ao sentir-se isolado na sua opinião, o cidadão tende a ceder à pressão da "maioria" artificial, um fenómeno conhecido como a espiral do silêncio, agora potenciado por algoritmos.

A mudança mais radical, contudo, reside na transição de um sistema reativo para um sistema preditivo baseado na psicometria. Se a propaganda tradicional tentava convencer o público após o facto, o modelo atual antecipa-se. Através da análise minuciosa de cada like, do tempo de visualização e até da velocidade com que percorremos o ecrã (scroll), as plataformas constroem perfis psicológicos que nos conhecem melhor do que nós próprios. Este filtro invisível consegue prever quais as narrativas que nos farão mudar de opinião ou que gatilhos emocionais despertarão a nossa indignação. Assim, o consentimento é "fabricado" de forma preventiva, moldando a nossa perceção antes mesmo de termos consciência de que estamos a formar uma ideia sobre o assunto. No fim, a liberdade de escolha torna-se uma miragem dentro de um sistema que já calculou todas as nossas reações possíveis.