Bioterra
Blogue de Educação Ambiental, iniciado em 01.04.2004
quarta-feira, 16 de setembro de 2026
Softcult - I Held You Like Glass
Fascismo do Fim dos Tempos: Como Elites Tecnológicas e Religiosas se Preparam para o Apocalipse Global
Em setembro de 2026, a publicação do livro
Na perspetiva das autoras, o fascismo sempre funcionou como uma espécie de "capitalismo com dentes de fora" - uma reação violenta das elites para proteger as suas posições de poder quando o sistema económico entra em crise estrutural. Contudo, na sua nova roupagem, este fascismo do fim dos tempos funde três fações aparentemente distintas: fundamentalistas religiosos com visões messiânicas, etnonacionalistas obcecados pelo fecho de fronteiras e uma elite tecnológica de Silicon Valley que desistiu completamente da ideia de um futuro partilhado.
Um dos focos principais dessa análise é a ascensão da chamada "Máfia do PayPal" no poder político dos EUA. Nomes como
Ao mesmo tempo que promovem sistemas que aceleram a rutura social e ambiental, estas elites preparam o seu próprio escapismo através da construção de bunkers subterrâneos, estações espaciais e a ilusão do que Klein denomina de "arrebatamento pela riqueza" (wealth rapture). O livro exemplifica esta lógica com propostas de requalificação imobiliária apresentadas no
Os três pilares identificados por Naomi Klein e Astra Taylor constituem uma aliança frágil, mas extremamente perigosa, formada por grupos que divergem em crenças, mas convergem na aceitação da rutura do mundo para garantir o controlo ou a sobrevivência exclusiva durante o colapso.
O primeiro grupo é composto pelos Religiosos do Fim dos Tempos (Religious Endtimers), maioritariamente fundamentalistas associados a correntes do sionismo cristão e setores messiânicos. Para este pilar, os conflitos no Médio Oriente, a degradação ambiental e as crises sociais não são problemas a resolver, mas sim sinais proféticos incontornáveis do Armagedão ou da segunda vinda de Cristo. A sua função nesta aliança é conferir uma justificativa teológica e moral à destruição, encarando o caos e a violência apocalíptica como etapas necessárias de um plano divino.
Paralelamente surgem os Aceleracionistas Tecnológicos (Tech Endtimers), constituídos por bilionários, investidores e executivos de Silicon Valley ligados ao ecossistema da inteligência artificial. Embora reconheçam abertamente que a tecnologia desregulada pode causar desemprego em massa, rutura social ou até a extinção humana, adotam uma postura fatalista e aceleradora. Este grupo promove o que as autoras chamam de "arrebatamento pela riqueza" (wealth rapture), acreditando que o capital e a inovação lhes permitirão escapar às consequências da crise através de bunkers de luxo, colonização espacial ou fusão com a IA, lucrando com o colapso enquanto constroem saídas de emergência privadas.
Por fim, o pilar dos Etnonacionalistas (Ethonationalists) reúne movimentos e partidos da extrema-direita global focados na identidade nacional, racial ou cultural. A sua visão de mundo encara o futuro como um jogo de soma zero, onde recursos essenciais como água, terra e alimentos serão drasticamente escassos. O seu papel na aliança consiste em implementar o fecho absoluto de fronteiras, a militarização do Estado e a desumanização do "outro", canalizando o medo e a insegurança das populações contra alvos específicos, como imigrantes, minorias e refugiados climáticos.
Apesar das contradições evidentes entre o fervor religioso, o materialismo tecnológico e o nacionalismo estatal, estes três grupos encontram-se no mesmo ponto cego: todos desistiram da ideia de um futuro partilhado para toda a humanidade. Em vez de tentarem travar a crise global, unem forças para construir o que Klein e Taylor classificam como "arcas" exclusivas para as elites, abandonando o resto da população à mercê do colapso.
Para combater esta espiral autodestrutiva, Taylor e Klein propõem o conceito de "triplo desarmamento": desarmar arsenais nucleares e militares, estabelecer guardas-de-corpo rigorosas para tecnologias de alto risco como a IA e desmantelar a extrema concentração de riqueza, tratando a desigualdade desmedida como uma verdadeira arma de destruição maciça. A solução não passa por fugir do planeta, mas por um compromisso renovado com a sobrevivência e a solidariedade no mundo real.
A peça central desta contraofensiva reside no que as autoras definem como um "triplo desarmamento". Esta estratégia procura desmantelar as maiores ameaças existenciais do nosso tempo através de três frentes coordenadas: o desarmamento militar e nuclear, travando a corrida aos armamentos e a perigosa integração da Inteligência Artificial em sistemas de defesa; o desarmamento tecnológico, impondo regulamentação pública severa e guardas-de-corpo à IA antes que a sua expansão desenfreada cause danos irreversíveis; e o desarmamento da própria riqueza concentrada. Nesta última vertente, o acúmulo extremo de capital por parte dos bilionários é tratado como uma verdadeira arma de destruição maciça, exigindo políticas fiscais agressivas que redistribuam recursos e travem a privatização de infraestruturas essenciais.
Freneticamente oposta às fantasias corporativas de fuga para Marte, bunkers subterrâneos de luxo ou simulações virtuais na nuvem, surge a proposta de uma ética do "aqui" (here-ness). Esta postura filosófica e política recusa categoricamente o fatalismo de que o apocalipse é inevitável. Em vez disso, apela ao investimento direto na proteção das comunidades, dos territórios e dos ecossistemas reais, promovendo uma solidariedade horizontal entre as pessoas - em direto contraste com a solidariedade vertical oferecida pelos autoritários, que une o cidadão comum às elites através do medo e do ódio ao "outro".
Na prática, esta resistência já ganha forma em várias frentes de ação direta pelo mundo. Destaca-se a crescente vaga de protestos comunitários contra a construção descontrolada de data centers destinados à IA, devido ao seu consumo devastador de água e energia; a organização sindical de trabalhadores que lutam para impedir que a automação sirva unicamente para desmantelar direitos laborais; e a defesa ativa de migrantes e refugiados contra a militarização das fronteiras. Para guiar esta ação, as autoras sugerem o "Teste Steven Miller": uma métrica simples que estabelece que, se uma tecnologia ou concentração de poder for perigosa ao ponto de se tornar devastadora nas mãos do pior governante autoritário imaginável, essa ferramenta simplesmente não deve ter permissão para existir.
PISA. Alunos portugueses pioram desempenho académico e recuam ao início do século
Encontros Improváveis - Hannah Arendt e Arthur Rimbuad
terça-feira, 15 de setembro de 2026
BLVCK CEILING - Park Eyes
Democracia portuguesa vive o pior momento desde o 25 de Abril, alerta Sampaio da Nóvoa
Jerry Seinfeld, Extrema-Direita e o Limite do Humor: A Democracia sob Ameaça
Aumento da temperatura global vai atingir pelo menos 1,8°C, avisa ONU, e 'não há bons resultados'
- Relatório aponta pico de aumento de temperatura no melhor cenário para os 1,8°C; outros sugerem mais de 2°C
- Acima dos 1,5°C, os impactos climáticos e os riscos de pontos de rutura intensificam-se a cada fração de grau
- Trajetória de 'ultrapassagem, pico e declínio' é a melhor opção restante para ajudar nações e comunidades vulneráveis a responder e a regressar a valores abaixo dos 1,5°C
No Dia Internacional da Democracia - Do Clique à Fratura Social: Como o Slacktivism, a Perda de Empatia e a Polarização Estão a Redefinir a Democracia Digital
| Dimensão Sociológica | Mecanismo Digital | Consequência Democrática |
|---|---|---|
| Identidade de Tribo | Algoritmos de recomendação baseados em afinidade (filter bubbles) | Homogeneização ideológica e isolamento em bolhas informacionais |
| Reatividade Emocional | Recompensa imediata por métricas de reação (likes, partilhas) | Substituição do argumento racional pelo ataque ad hominem |
| Perseguidismo Digital | Dinâmicas de recompensa por vigilância moral mútua | Cultura do cancelamento e recusa do diálogo transversal |
segunda-feira, 14 de setembro de 2026
Fontaines D.C. - Marianne
O Abraço do Sol e da Vida: Uma Ode ao Encontro e à Resistência
A vulnerabilidade das abelhas aos agrotóxicos e a sua incapacidade de os evitar não é uma mera suposição, mas um facto demonstrado pela comunidade científica internacional:
- Atração Neuroquímica e Falta de Deteção: A investigação realizada por Kessler et al. (2015) na Nature provou que as abelhas não conseguem detetar a presença de neonicotinóides e chegam a preferir néctar contaminado, uma vez que estes químicos estimulam os seus recetores cerebrais de forma análoga aos mecanismos de adição.
- Perda de Orientação e Navegação: Experiências conduzidas por Henry et al. (2012) na Science através de microchips RFID demonstraram que doses subletais afetam criticamente a memória espacial, impedindo os polinizadores de regressar à colmeia.
- Danos na Aprendizagem Olfativa: O estudo de Williamson & Wright (2013) no Journal of Experimental Biology evidenciou que a exposição a defensivos agrícolas compromete a retenção de memória e a capacidade de associar odores a fontes de alimento seguras.
- Procura Compulsiva de Alimento por Escassez: Trabalhos como o de Muth et al. (2019) na Frontiers in Ecology and Evolution mostram como a degradação dos habitats força as abelhas a consumir recursos contaminados, anulando qualquer barreira de repulsão natural.
O tempo despendido no consumo de conteúdos digitais e as suas implicações sociológicas: atomização social, alienação e o declínio da intervenção cívica
O ecossistema digital consolidou-se como o eixo central da vida quotidiana, com os utilizadores de internet em Portugal a demonstrarem uma ligação cada vez mais profunda às plataformas online. Os dados do relatório Digital 2026, elaborado pela We Are Social em parceria com a Meltwater, revelam que mais de 7,5 milhões de portugueses utilizam redes sociais, representando cerca de 8 em cada 10 internautas no país. Em média, o tempo despendido nas redes sociais situa-se nas 2 horas e 10 minutos por dia, com o TikTok a liderar no tempo médio de utilização (1 hora e 23 minutos diários por utilizador ativo) e o YouTube a destacar-se pelo alcance massivo. No entanto, o consumo apresenta uma forte assimetria geracional: os jovens dos 15 aos 24 anos lideram o tempo de ecrã com 2 horas e 25 minutos diários, ao passo que a faixa dos 25 aos 44 anos regista 1 hora e 45 minutos e os utilizadores com mais de 45 anos fixam-se em 1 hora e 15 minutos. Este comportamento mobile-first - impulsionado por 95,9% dos utilizadores que acedem à rede via smartphone - estende-se ao processo de compra, onde 65% dos jovens dos 16 aos 24 anos usam as redes para pesquisar marcas, e à integração massiva da Inteligência Artificial generativa, utilizada diariamente por mais de 40% dos internautas portugueses.
À escala global, o estudo aponta para 6 mil milhões de utilizadores de internet e 5,66 mil milhões nas redes sociais (68,7% da população mundial), num cenário onde a publicidade social já ultrapassa a televisão e os motores de busca como principal meio de descoberta de marcas entre os 16 e os 34 anos.
A transição massiva para este ecossistema digital contínuo traz consigo profundas implicações sociológicas. A submersão em formatos de vídeo vertical e a personalização extrema por algoritmos favorecem a atomização social, um fenómeno em que os indivíduos se isolam em bolhas informacionais e de entretenimento hiperpersonalizado, fragilizando o tecido comunitário e as interações no espaço público físico.
Este consumo compulsivo acarreta igualmente riscos de alienação social, na medida em que a mediação do mundo real por ecrãs substitui a experiência interpessoal direta por laços parassociais e validação digital. Por sua vez, a saturação de estímulos rápidos e efémeros correlaciona-se com uma diminuição do escrutínio crítico e com uma baixa intervenção cívica, transformando o debate democrático num espetáculo de consumo individual e imediato, onde o ativismo muitas vezes se reduz ao slacktivism de redes sociais, distanciando os cidadãos do envolvimento comunitário tradicional e da ação política participativa.
Fontes e Hiperligações dos Estudos
DataReportal – Digital 2026: Global Overview Report (We Are Social & Meltwater) We Are Social – Reports & Insights (ponto de situação no Reino-Unido)
Dia Europeu da Ecologia
Sidewalks and Skeletons - † BORN TO DIE †
domingo, 13 de setembro de 2026
Como fazer a ruptura pós-capitalista
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| Löwy: crise climática pede a ruptura do capitalismo |
- Shoshana Zuboff (A Era do Capitalismo de Vigilância): Dá-lhe o argumento central sobre como as plataformas digitais não são meros meios de comunicação, mas indústrias de modificação comportamental que destroem a autonomia e a capacidade de organização coletiva.
- Andreas Malm (Como Salvar um Planeta em Chamas / How to Blow Up a Pipeline): Fundamenta a crítica ao pacifismo estratégico tradicional. Malm defende que, perante a urgência, o movimento ecológico tem de ultrapassar os protestos simbólicos e adotar a sabotagem tática de infraestruturas fósseis (sem violência contra pessoas) para encarecer o capital poluidor.
- Mark Fisher (Realismo Capitalista): Sustenta a tese da alienação e da paralisia: a ideia de que o sistema criou uma anestesia cultural onde é "mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo", transformando o sofrimento e a ansiedade em consumo passivo.
- Ivan Illich (Tools for Conviviality): Alimenta a ideia da construção de "cidadelas analógicas" — a necessidade de criar tecnologias e redes de escala humana, locais e desvinculadas dos megassistemas industriais e digitais para devolver a autonomia às comunidades.
- Cédric Durand ou Nick Srnicek (Capitalismo de Plataforma / Feudalismo Digital): Em vez de olhar para a psicologia do ecrã (como Han faz), estes autores explicam a arquitetura económica real de como as grandes plataformas extraem renda e capturam o comportamento humano.
- Bernard Stiegler: Para uma crítica da tecnologia incomparavelmente mais rigorosa e profunda. Stiegler concilia a filosofia da técnica com a neurobiologia e a economia política, explicando como a tecnologia digital nos priva do "saber-fazer" e do "saber-viver", gerando uma proletarização da mente.
- Bernard Stiegler (24/7: O Capitalismo Tardio e os Fins do Sono): Examina como o capitalismo do século XXI tenta eliminar as pausas humanas naturais (como o sono e a reflexão), transformando o tempo contínuo num mercado de consumo e vigilância.

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