Estava na minha lista de espera há alguns anos. Esta semana conclui a sua leitura. Foi como um longo suspiro de alívio que eu nem sabia que precisava de dar. A própria capa do livro Elogio da Lentidão, com aquele tom azul sereno e uma tipografia que se impõe sem gritar, já parecia antecipar o tom da leitura. Porque, no fundo, ler o Lamberto Maffei é exatamente isso: uma conversa pausada com um cientista que nos tenta resgatar da nossa própria exaustão diária. Por ser um ensaio, não há personagens ou uma narrativa de ficção; o protagonista aqui é o próprio funcionamento da nossa mente. Além disso, para quem já leu o Elogio da Rebeldia, a ligação é imediata: no mundo de hoje, recusar a pressa é a forma mais pura de insubmissão.
Curiosamente, este título partilha o nome exato com outro clássico contemporâneo: o Elogio da Lentidão do jornalista Carl Honoré (2004), o grande manifesto do movimento Slow. No entanto, a forma como os dois autores abordam o mesmo problema revela perspectivas muito diferentes, embora profundamente complementares. Enquanto Honoré adopta uma abordagem sociológica e cultural, mapeando como a pressa invadiu a nossa alimentação, o sexo, o trabalho e as cidades, Maffei vai à raiz biológica do problema. Honoré foca-se no estilo de vida e nas escolhas do quotidiano, propondo uma revolução comportamental; já Maffei foca-se na evolução da espécie, demonstrando que a pressa digital é uma violência contra a nossa própria anatomia cerebral. Para Honoré, abrandar é uma questão de qualidade de vida; para Maffei, é uma necessidade de preservação neurológica.
Vivemos numa época em que a rapidez é aplaudida como a virtude suprema e a pressa é constantemente confundida com produtividade. Como nos lembra o historiador Eric Hobsbawm, o século XX consagrou o triunfo da velocidade, transformando a aceitação da aceleração num mito que dita as regras do mundo contemporâneo. Desde o Manifesto Futurista de Marinetti, decretou-se que o tempo e o espaço tinham morrido em nome de uma pressa omnipresente. Hoje, quem escolhe ser lento é frequentemente visto como indolente ou pouco perspicaz. No entanto, o que Maffei faz, com a mestria e a bagagem de um neurobiologista, é desmontar essa armadilha em que todos caímos. Ele explica-nos, com uma clareza desarmante, que o cérebro humano é, essencialmente, uma máquina lenta. A tecnologia tornou as comunicações externas instantâneas, mas as conexões entre os nossos neurónios permanecem inalteradas desde a nossa filogénese. O cérebro rápido e reativo pertence aos nossos mecanismos ancestrais mais primitivos - aqueles focados apenas na sobrevivência imediata, que não calculam consequências. O pensamento profundo - aquele que nos permite criar significado, resolver problemas complexos e construir memórias que perduram - exige algo que a sociedade moderna detesta: tempo e silêncio.
A literatura já nos tinha avisado disso. Como bem escreveu Milan Kundera, a lentidão está diretamente ligada à intensidade da memória, enquanto a velocidade nos empurra para o esquecimento. No final luminoso de As Vinhas da Ira, de Steinbeck, o adjetivo "lentamente" repete-se como um mantra no gesto de compaixão pura de Rosa de Sharon.
É essa a grande lição partilhada pela ciência de Maffei e pela arte da escrita: a lentidão não melhora apenas a qualidade do nosso pensamento; ela é a condição necessária para a empatia, para o cuidado e para a solidariedade.
No final, ler este livro deixa-nos com uma cumplicidade desarmante e com uma certeza irrefutável. Maffei comprova biologicamente aquilo que o nosso corpo já tentava dizer-nos em cada momento de exaustão: nós fomos feitos para abrandar.






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