Bioterra
Blogue de Educação Ambiental, iniciado em 01.04.2004
sábado, 18 de julho de 2026
O reflexo de uma geração cobaia: a vida sob o império do algoritmo
Anatomia de um arboricídio: o sacrifício de um Pinheiro-Manso em Lisboa
A recente condenação de um pinheiro-manso histórico em Lisboa reabriu o debate sobre a forma leviana como o património natural urbano é gerido em Portugal. No centro da polémica, José Ribeiro e Castro alega que a decisão de abate foi tomada com base num parecer técnico contratado a privados, uma manobra que serviu para ignorar e contornar as indicações expressas em sentido contrário dadas pelos técnicos oficiais da Câmara Municipal de Lisboa. Para justificar o corte, a narrativa oficial recorreu ao clássico exagero mediático, empolando o perigo com expressões alarmistas como "dezenas de toneladas" em risco de queda, e invocando os habituais argumentos dos passeios levantados ou de tubagens danificadas. No entanto, não faltaram alertas legítimos da sociedade civil, com o Fórum Cidadania Lx a encabeçar os avisos de que estávamos perante um atentado ambiental desnecessário.
Este abate coloca Lisboa em total contraciclo com as grandes cidades europeias, que hoje competem para expandir as suas copas urbanas. Ao contrário do que a ignorância política faz crer, a ciência atual oferece inúmeras tecnologias que previnem o arboricídio, sem que seja necessário invocar o exemplo máximo da engenharia tradicional japonesa, o Nemawashi. O progresso tecnológico permite-nos, de facto, resolver estes conflitos sem recurso à motosserra. Para o problema das raízes e dos passeios, existem tecnologias subterrâneas como as células de solo modulares e as barreiras físicas, que direcionam o crescimento radicular para baixo e protegem o pavimento. Para a avaliação da saúde da árvore, o diagnóstico pode ser feito com o rigor de uma ecografia através de tomógrafos sonoros e resistógrafos, que revelam se o tronco está oco sem desferir um único golpe. Numa escala macro, as metrópoles usam sensores de inclinação IoT, drones e laser LiDAR por satélite para vigiar o stress hídrico, complementados por plataformas de cadastro aberto e QR Codes que dão a cada árvore um bilhete de identidade digital, permitindo ao cidadão fiscalizar a legalidade de qualquer intervenção e combater a impunidade.
O argumento do custo financeiro destas tecnologias também não colhe. O mercado oferece hoje soluções em vários patamares: se a monitorização contínua por sensores IoT exige orçamentos de grandes capitais, o desenvolvimento de aplicações de denúncia urbana e a instalação de barreiras de raiz são investimentos perfeitamente acessíveis a qualquer pequeno município. Os especialistas são unânimes: investir na preservação é altamente rentável, pois o custo de manter uma árvore adulta saudável é uma ínfima fração do prejuízo económico e ambiental que resulta da sua remoção, da reparação de infraestruturas e do agravamento das ilhas de calor urbanas. No fundo, este caso expõe uma crise de mentalidade. Confundir a gestão de árvores urbanas com o trabalho de um homem de motosserra é o mesmo que confundir um cirurgião com um carniceiro. Ambos usam ferramentas de corte e ambos alteram o corpo, mas enquanto o primeiro estuda anos para curar e preservar a vida, o segundo apenas quer despachar o trabalho, amputando cegamente o que lhe aparece à frente. Lisboa perdeu mais do que um pinheiro; perdeu a oportunidade de demonstrar maturidade e respeito pela ciência.
Transportna : Testamento (Zapovit)
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sexta-feira, 17 de julho de 2026
Nina Gallow – Kein Gift In Mir
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O projeto Nina Gallow (da autoria da artista alemã homónima) e o tema Kein Gift In Mir (que se traduz como "Nenhum Veneno Em Mim") trazem de facto algo muito fresco e "invulgar" ao panorama do darkwave atual. Há algumas razões técnicas e artísticas que explicam por que soa tão diferente do darkwave tradicional.
Em primeiro lugar, destaca-se a fusão com o Neue Deutsche Härte e EBM. Enquanto o darkwave clássico - ao estilo de Clan of Xymox ou Lebanon Hanover - tende a ser mais melancólico, minimalista e atmosférico, a Nina Gallow injeta uma dose massiva de peso industrial e ritmos de EBM (Electronic Body Music). Há uma agressividade rítmica e uma produção eletrónica muito limpa, moderna e cortante que flerta diretamente com o metal industrial e o techno obscuro.
Outro fator crucial é o contraste vocal e o uso da língua alemã. A escolha do idioma não é por acaso: a fonética alemã, que é naturalmente mais dura e marcada, contrasta perfeitamente com a entrega vocal da artista. Ela não se limita a "sussurrar" de forma etérea como é comum no género; a voz de Nina flutua entre o desalento gótico, a frieza robótica e uma assertividade quase punk.
Por fim, a faixa carrega uma estética cyberpunk moderna. Ao contrário de muitas bandas de darkwave que olham essencialmente para o passado e para a nostalgia dos anos 80, Kein Gift In Mir olha para o futuro. A faixa soa a algo que ouvirias num clube underground de Berlim em 2085 - uma sonoridade cibernética, claustrofóbica mas incrivelmente dançável.
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O Elogio da Lentidão
Estava na minha lista de espera há alguns anos. Esta semana conclui a sua leitura. Foi como um longo suspiro de alívio que eu nem sabia que precisava de dar. A própria capa do livro Elogio da Lentidão, com aquele tom azul sereno e uma tipografia que se impõe sem gritar, já parecia antecipar o tom da leitura. Porque, no fundo, ler o Lamberto Maffei é exatamente isso: uma conversa pausada com um cientista que nos tenta resgatar da nossa própria exaustão diária. Por ser um ensaio, não há personagens ou uma narrativa de ficção; o protagonista aqui é o próprio funcionamento da nossa mente. Além disso, para quem já leu o Elogio da Rebeldia, a ligação é imediata: no mundo de hoje, recusar a pressa é a forma mais pura de insubmissão.
Curiosamente, este título partilha o nome exato com outro clássico contemporâneo: o Elogio da Lentidão do jornalista Carl Honoré (2004), o grande manifesto do movimento Slow. No entanto, a forma como os dois autores abordam o mesmo problema revela perspectivas muito diferentes, embora profundamente complementares. Enquanto Honoré adopta uma abordagem sociológica e cultural, mapeando como a pressa invadiu a nossa alimentação, o sexo, o trabalho e as cidades, Maffei vai à raiz biológica do problema. Honoré foca-se no estilo de vida e nas escolhas do quotidiano, propondo uma revolução comportamental; já Maffei foca-se na evolução da espécie, demonstrando que a pressa digital é uma violência contra a nossa própria anatomia cerebral. Para Honoré, abrandar é uma questão de qualidade de vida; para Maffei, é uma necessidade de preservação neurológica.
Vivemos numa época em que a rapidez é aplaudida como a virtude suprema e a pressa é constantemente confundida com produtividade. Como nos lembra o historiador Eric Hobsbawm, o século XX consagrou o triunfo da velocidade, transformando a aceitação da aceleração num mito que dita as regras do mundo contemporâneo. Desde o Manifesto Futurista de Marinetti, decretou-se que o tempo e o espaço tinham morrido em nome de uma pressa omnipresente. Hoje, quem escolhe ser lento é frequentemente visto como indolente ou pouco perspicaz. No entanto, o que Maffei faz, com a mestria e a bagagem de um neurobiologista, é desmontar essa armadilha em que todos caímos. Ele explica-nos, com uma clareza desarmante, que o cérebro humano é, essencialmente, uma máquina lenta. A tecnologia tornou as comunicações externas instantâneas, mas as conexões entre os nossos neurónios permanecem inalteradas desde a nossa filogénese. O cérebro rápido e reativo pertence aos nossos mecanismos ancestrais mais primitivos - aqueles focados apenas na sobrevivência imediata, que não calculam consequências. O pensamento profundo - aquele que nos permite criar significado, resolver problemas complexos e construir memórias que perduram - exige algo que a sociedade moderna detesta: tempo e silêncio.
A literatura já nos tinha avisado disso. Como bem escreveu Milan Kundera, a lentidão está diretamente ligada à intensidade da memória, enquanto a velocidade nos empurra para o esquecimento. No final luminoso de As Vinhas da Ira, de Steinbeck, o adjetivo "lentamente" repete-se como um mantra no gesto de compaixão pura de Rosa de Sharon.
É essa a grande lição partilhada pela ciência de Maffei e pela arte da escrita: a lentidão não melhora apenas a qualidade do nosso pensamento; ela é a condição necessária para a empatia, para o cuidado e para a solidariedade.
No final, ler este livro deixa-nos com uma cumplicidade desarmante e com uma certeza irrefutável. Maffei comprova biologicamente aquilo que o nosso corpo já tentava dizer-nos em cada momento de exaustão: nós fomos feitos para abrandar.
O fenómeno do pára-brisas limpo: a dita "viagem confortável" que esconde uma catástrofe ecológica
Durante décadas, quem conduzia pelas estradas de Portugal conhecia um pequeno incómodo inevitável. Ao fim de algumas dezenas de quilómetros, sobretudo nas noites quentes de Primavera e Verão, o pára-brisas ficava coberto de insetos esmagados. Era preciso lavar o vidro, limpar os faróis, remover aquela película de pequenos corpos que se acumulava ao longo da viagem.
Hoje, muitos automobilistas já nem se lembram disso. As viagens fazem-se com os pára-brisas quase limpos.
O fenómeno tornou-se tão banal que poucos se interrogam sobre o seu significado. Afinal, quem haveria de lamentar a ausência de insetos esmagados? E, no entanto, o que a ciência designa formalmente por "fenómeno do pára-brisas" (windshield phenomenon) é, na verdade, um dos sinais mais inquietantes da transformação ecológica do nosso tempo.
O desaparecimento dos insetos não é uma curiosidade estatística nem uma preocupação romântica. Em Portugal, o alerta deixou de ser apenas uma suspeita visual para passar a ser um facto científico incontornável. A publicação do Livro Vermelho dos Invertebrados de Portugal Continental, que contou com forte liderança e coordenação científica nacional, revelou que mais de duas centenas de espécies de invertebrados terrestres e de água doce estão ativamente ameaçadas de extinção no nosso território.
Os insetos constituem uma parte fundamental da biomassa animal terrestre. São a base alimentar de inúmeras espécies de aves, morcegos, anfíbios, répteis, peixes e pequenos mamíferos. Quando os insetos desaparecem, toda a cadeia ecológica começa a vacilar. Uma andorinha não se alimenta de teorias económicas. Um morcego não vive de discursos políticos. Um papa-moscas não sobrevive de boas intenções. Todos dependem de insetos reais, capturados todos os dias, aos milhares. Quando esses insetos escasseiam, a fome instala-se, a reprodução diminui e as extinções locais sucedem-se em absoluto silêncio.
Ao mesmo tempo, tornam-se raros os insetos que desempenham funções vitais. Os polinizadores são o exemplo mais flagrante. Abelhas selvagens, abelhões, moscas-das-flores e borboletas garantem a reprodução de grande parte das plantas silvestres e cultivadas. Para tentar travar este colapso, Portugal aprovou o plano nacional [Polinizadores em Ação ]. Desenvolvido em parceria com a comunidade científica da Universidade de Coimbra e o ICNF, este roteiro define mais de uma centena de medidas urgentes para recuperar os habitats destes animais, cientes de que, sem eles, não desaparecem apenas as flores - diminuem drasticamente as colheitas e a nossa própria segurança alimentar.
Mas talvez as histórias mais elucidativas sejam aquelas que envolvem criaturas aparentemente insignificantes. Tomemos as joaninhas.
Durante milhões de anos, as joaninhas foram aliadas silenciosas da agricultura, alimentando-se de afídios e cochonilhas de forma gratuita e altamente eficaz. Depois vieram os pesticidas químicos. Investigadores portugueses ligados ao cE3c (Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais) têm vindo a alertar para esta realidade, tendo inclusive participado em debates científicos de relevo nacional como o documentário O Apocalipse dos Insetos , focado precisamente no esforço urgente para travar esta extinção em massa provocada pelo ser humano. Ao inundarmos os campos com veneno, eliminámos os inimigos naturais das pragas. Sem as joaninhas, as cochonilhas encontraram caminho livre para se multiplicarem, restando ao ser humano a habitual e ingénua surpresa: “Como é possível haver tantas cochonilhas?”
A história dos pirilampos é ainda mais poética e, por isso, mais dolorosa. Quem cresceu no campo recorda-se das noites de Verão iluminadas pelos seus lampejos verdes. Hoje, a poluição luminosa e a destruição de habitats afastaram-nos da nossa vista. Mas há um elo invisível e químico: as larvas dos pirilampos alimentam-se de caracóis e escaravelhos. Ao aplicarmos produtos químicos nos jardins e campos, quebramos estas cadeias tróficas.
Projetos nacionais de conservação ativa, como o inovador LIFE BEETLES nos Açores - que conta com a cooperação de investigadores do próprio cE3c -, provam que o caminho tem de ser inverso: focar no restauro dos habitats e na recuperação destas espécies outrora desvalorizadas.
Os ecossistemas não são coleções de espécies independentes. São redes complexas de interdependências construídas ao longo de milhões de anos de evolução. Quando retiramos um fio, outros começam a ceder.
Por tudo isto, o pára-brisas limpo de um automóvel é hoje uma imagem profundamente cinzenta. Não representa uma viagem mais confortável. Representa um silêncio biológico crescente. Um vazio que se instala lentamente nas noites de Verão, nos campos agrícolas e nas bermas das estradas.
Quando os últimos lampejos dos pirilampos se apagarem e as joaninhas sobreviverem apenas nas ilustrações dos livros infantis, talvez compreendamos finalmente que a verdadeira praga nunca foram os insetos. A verdadeira praga foi a nossa incapacidade de perceber que tudo está ligado.
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quinta-feira, 16 de julho de 2026
Pixies - Gouge Away: uma das obras-primas mais desconfortáveis, influentes e magnéticas da história do rock
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Ainda Girabolhos: A ironia da data e o impacto ambiental da nova barragem no Mondego
Por Alexandre Silva
Hoje, dia 15 de julho, vai ser anunciado pela Senhora Ministra do Ambiente e da Energia, a abertura do concurso para atribuição da concessão de captação de água, produção, Hidroelétrica e conceção, construção, exploração e conservação do Aproveitamento Hidráulico de Fins Múltiplos Girabolhos/Bogueira no rio Mondego.
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Sobreturismo nas montanhas: o impacto ambiental que ninguém quer ver
A pressão humana sobre as montanhas está a atingir um ponto de rutura irreversível. Um mega-estudo que analisou quase 50 anos de investigação científica global sobre o turismo de montanha ("Environmental and Economic Impacts of Mountain Tourism: A Critical Review") revela que, a partir de 2019, o alerta disparou: a urgência climática e o fenómeno do overtourism (sobreturismo) estão a sufocar os ecossistemas de altitude.
Para percebermos a gravidade real deste cenário, a ciência aponta para quatro grandes problemas silenciosos que estão a acontecer agora mesmo
1. Microplásticos no topo do mundo: o estudo do Everest
No que toca à poluição por plásticos, o estudo mais emblemático e surpreendente é o "Mount Everest's microplastics", publicado em 2020 na prestigiada revista One Earth pela investigadora Imogen Napper e a sua equipa. Os cientistas analisaram amostras de neve e de água de ribeiros recolhidas em vários pontos da montanha, incluindo no "Balcony" a 8.440 metros de altitude - praticamente no topo do monte Everest.
Os resultados foram alarmantes: encontraram microplásticos em absolutamente todas as amostras de neve analisadas. A análise laboratorial revelou que a esmagadora maioria destas partículas eram fibras de poliéster, acrílico, nylon e polipropileno. A conclusão dos investigadores é direta: a fonte desta poluição não é o lixo trazido pelo vento de cidades distantes, mas sim o próprio vestuário técnico de alta performance, as cordas e as tendas utilizadas pelos montanhistas de elite durante a sua subida.
2. O colapso da gestão de resíduos no Himalaia
Para compreender o impacto sistémico do lixo físico e da falta de infraestruturas em áreas remotas, o artigo de referência é o "Contemporary environmental issues in Sagarmatha (Everest) National Park", publicado pelo geógrafo Alton C. Byers na revista Mountain Research and Development.
Este estudo clássico mapeou no terreno como o crescimento descontrolado do turismo de aventura nas últimas décadas colapsou por completo a capacidade de carga da região. Byers documentou a proliferação de lixeiras informais a céu aberto ao longo dos trilhos de aproximação, onde toneladas de plástico, metal e dejetos humanos são depositados sem qualquer tratamento, contaminando diretamente os lençóis freáticos e os ribeiros que abastecem as populações locais que vivem no sopé das montanhas.
3. O impacto silencioso sobre a fauna selvagem
No que diz respeito à perturbação da vida selvagem, destaca-se uma enorme meta-análise publicada na revista PLOS ONE por Courtney L. Larson e os seus colaboradores, intitulada "Effects of recreation on animals in protected areas". Os investigadores analisaram sistematicamente 274 estudos científicos independentes para perceber como as atividades de lazer afetam os animais.
A grande conclusão é que mesmo atividades consideradas de "baixo impacto", como uma simples caminhada (hiking) ou corrida em trilhos de montanha, desencadeiam respostas fisiológicas de stress muito fortes na fauna local. A presença humana constante força os animais a abandonar áreas ricas em alimento, altera os seus padrões de sono e de caça e reduz significativamente as suas taxas de sucesso reprodutivo, empurrando espécies já ameaçadas para altitudes ainda mais extremas e inóspitas.
4. A destruição invisível do solo e da flora alpina
Por fim, para entender a degradação física dos trilhos, os investigadores Jeff Marion e Yu-Fai Leung publicaram o artigo "Trail environments and visitor impacts" no Journal of Environmental Management. Os autores explicam a mecânica por trás do pisoteio turístico.
As plantas que crescem em ambientes alpinos enfrentam condições meteorológicas extremas e, por isso, têm um crescimento incrivelmente lento - algumas demoram décadas a crescer escassos centímetros. O estudo demonstra que bastam algumas dezenas de passagens de caminhantes fora dos trilhos oficiais para compactar o solo de forma irreversível. Esta compactação impede que as sementes germinem, bloqueia a infiltração da água da chuva e destrói a microflora do solo. Sem vegetação para segurar a terra, a chuva e o vento iniciam um processo rápido de erosão que rasga a montanha e pode provocar derrocadas de terra severas.
Conclusão
Anda-se a querer matar aquilo que pode ser realmente a galinha dos ovos de ouro do futuro, apenas porque pensam unicamente no imediato, do que acham que agrada o povo, sobretudo o povo eleitor, que acreditando que este tipo de turismo vai dar dinheiro aos montes e toda a vida, apoiam iniciativas e ideias que lhes são vendidas como garantia de futuro.
Também é possível trazer mais valias para o território sem estragar e comprometer o futuro, tem é que se fazer como deve ser feito, com sustentabilidade, com visão e não da maneira mais fácil porque, assim, acabarão por matar a galinha. Muitos países já estão a pagar muito caro e nós continuamos a não aprender com os erros dos outros.
Na Tailândia fecharam das praias mais conhecidas, na Islândia reduziram o número de turistas e proibiram o acesso a uma série de locais, em alguns países, como aqui ao lado em Espanha, em algumas zonas naturais e protegidas, as visitas são condicionadas apenas em determinados dias da semana e quando entrara o número de pessoas autorizado fecham o acesso nesse dia
Na Costa Rica visitas em áreas protegidas só com guias autorizados e com limite diário, nos Estados Unidos, Nova Zelândia e Austrália, nos principais Parques Naturais é necessária reserva antecipada para visitas e têm que ser acompanhadas por guias. E há muitos mais exemplos, mas muitos mais.
E em todas estas áreas protegidas vive gente. Gente que precisa dos turistas e vivem do turismo, o que demonstra que não é preciso estragar e destruir para se ganhar com o turismo de natureza.
Por cá, neste país, quer-se viver um ano inteiro do que se trabalha em 4 ou 5 meses. No turismo de natureza sustentável tem que se trabalhar todo ano.
Mas esses estrangeiros devem ser burros, não percebem nada disto. Nós é que somos as sumidades, nós é que somos o exemplo.
Aqui cada vez se abre mais, cada vez se quer mais confusão, mais lixo, cada vez se levantam mais restrições. Vende-se ao povo a ideia que viver numa área protegida é uma desgraça que só é minimizada se massificarmos. Mesmo sabendo que estão a mentir ao povo. O imediato, o agora, é que conta para quem convence o povo desta forma.
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Barragem de Girabolhos: entre o negócio concessionado e a ausência de uma visão estratégica
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O anúncio da construção da Barragem de Girabolhos, no sistema do Baixo Mondego, surge mais uma vez envolto na retórica da ação governativa. No entanto, por trás da propaganda da "obra", esconde-se uma fragilidade desconcertante: a ausência de uma estratégia integrada para o território e um modelo de financiamento que coloca o interesse público em segundo plano.
Estamos perante a clássica política da obra como substituto da visão de futuro. Para compreender o real impacto desta decisão, é preciso analisar o projeto sob três prismas fundamentais: a viabilidade financeira, a inversão do processo de avaliação e a falta de propósito regional.
1. O dilema financeiro e o conflito de interesses na exploração
A realidade financeira do projeto é simples: a União Europeia não financia a sua construção e o Governo não tem orçamento para ela. Resta, por isso, a via da Parceria Público-Privada (PPP), entregando a construção e exploração a uma empresa privada que procurará, legítima e prioritariamente, o lucro através da produção hidroelétrica.
Esta opção privatizada gera um conflito de interesses técnico que anula um dos principais argumentos públicos a favor da barragem: a segurança das populações a jusante (rio abaixo).
| Objetivo público (minimização de cheias) | Objetivo privado (produção de energia) |
| Exige que a albufeira esteja com a cota de água muito baixa durante o inverno para ter capacidade de reter as pontas de cheia. | Exige que a albufeira esteja o mais cheia possível para maximizar a pressão da água e gerar mais eletricidade (e receita). |
2. Um processo invertido: o estudo pago por quem quer construir
O modelo de concurso atual prevê que o futuro concessionário tenha até 18 meses para entregar o Estudo Prévio e o Estudo de Impacte Ambiental (EIA), e mais 12 meses para o projeto de execução após a Declaração de Impacte Ambiental (DIA).
Este procedimento inverte a lógica do planeamento rigoroso e da defesa do interesse público:
- Falta de independência científica: um Estudo de Impacte Ambiental pago pelo próprio concessionário à empresa que o elabora fica inevitavelmente condicionado pelos interesses económicos de quem passa o cheque.
- Decisão sem dados: o Governo deveria ter solicitado e pago um EIA independente, adequado ao contexto atual de alterações climáticas, ou um estudo de suporte à decisão política elaborado por especialistas multidisciplinares antes de decidir abrir o concurso público.
- Decidir avançar para o concurso sem estes estudos é avançar às cegas, protegendo o promotor privado em detrimento da qualidade ambiental e da segurança regional.
3. Obra sem visão: para quê esta barragem?
A nível estratégico, a pergunta essencial continua sem resposta: qual é o verdadeiro propósito desta infraestrutura?
Será para abastecer um território marcado pelo despovoamento, quando o verdadeiro desafio é criar condições socioeconómicas para fixar pessoas e investimento?
Será para expandir um modelo de agricultura de regadio intensivo numa região cuja vocação natural não se adequa a esse caminho?
Será para regular caudais, sem que se tenha demonstrado, com rigor e transparência, que esta é a solução mais custo-benefício e ecologicamente sustentável?
Portugal continua preso ao velho dogma de que "construir é resolver". Mas uma barreira de betão no rio não substitui uma política de ordenamento do território, não resolve a gestão integrada da água e não é, por si só, uma estratégia de adaptação às alterações climáticas.
Conclusão: o interior precisa de futuro, não apenas de betão
O interior do país e a região do Mondego precisam de conhecimento, inovação, emprego qualificado e valorização dos seus recursos naturais. Precisam de soluções que ataquem as causas do despovoamento, e não apenas os seus sintomas através de megaprojetos de engenharia.
A questão central não é uma postura cega contra ou a favor de barragens. É exigir que as grandes decisões públicas sejam fundamentadas, transparentes e sustentadas em evidência científica independente. Defender as populações e o ambiente do Mondego exige que paremos de medir a ambição nacional pelo volume de betão e passemos a medi-la, de uma vez por todas, pela qualidade e clareza da nossa visão.
Nota: o texto é um cruzamento das críticas de Helena Freitas e de Pedro Proença Cunha
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Zeroy Cruciatum - Watch the World Burn
Letra
[Verse 1]The clock is ticking, the time is running out
Another shadow in the corner of my eye, no doubt
The air is heavy, the sky is turning grey
I feel the fire coming, washed away
Another shadow in the corner of my eye, no doubt
The air is heavy, the sky is turning grey
I feel the fire coming, washed away
[Chorus]
And I will stand right here and watch the world burn
To the ground, to the ground, to the ground
And I will stand right here and watch the world burn
To the ground, to the ground, to the ground
To the ground, to the ground, to the ground
And I will stand right here and watch the world burn
To the ground, to the ground, to the ground
[Verse 2]
The ashes falling, like snow upon my skin
A silent witness to the chaos deep within
The walls are crumbling, the empires turn to dust
In this destruction, there’s a peace we have to trust
A silent witness to the chaos deep within
The walls are crumbling, the empires turn to dust
In this destruction, there’s a peace we have to trust
[Chorus]
[Bridge]
Let it burn...
Let the flames take it all away
Let the fire pave a brand new way
Through the ashes, we will rise again
But first, we let it end...
Let the flames take it all away
Let the fire pave a brand new way
Through the ashes, we will rise again
But first, we let it end...
[Chorus]
A música como refúgio e catarse ganha contornos de pura dramaticidade no projeto Zeroy Cruciatum, idealizado pelo músico e produtor holandês Joris Terlingen. Atualmente radicado em Essen, na Alemanha - região historicamente marcada pela imponência cinzenta e pelas ruínas industriais do Vale do Ruhr -, o artista canaliza as suas vivências numa sonoridade densa que ele próprio define como Industrial-Wave. Este estilo funde de forma primorosa o peso rítmico e as texturas sintéticas da Electronic Body Music (EBM) com a sensibilidade melancólica do Darkwave, a entrega visceral do Post-Punk e o misticismo do Rock Gótico.
Foi sob esta atmosfera carregada que nasceu " Watch the World Burn" uma obra profundamente pessoal concebida como uma válvula de escape para processar a dor e o luto devastador após a perda trágica do seu melhor amigo de infância, Zeroy, cujo nome Joris decidiu homenagear e imortalizar ao adotá-lo como parte do seu próprio pseudónimo artístico.
Longe de ser apenas um clamor de destruição gratuita, a canção carrega um significado existencial profundo: a metáfora de "assistir ao mundo queimar" ilustra a total impotência do indivíduo diante do colapso da sua própria realidade, ao mesmo tempo que enxerga no fogo um elemento de purificação e renascimento necessário para reconstruir a própria identidade a partir das cinzas.
Esta narrativa é poeticamente enriquecida por correntes intelectuais marcantes. Na filosofia, há um diálogo claro com o existencialismo e com o niilismo ativo de Friedrich Nietzsche, onde o vazio da perda é transformado em força criativa. Na literatura e na estética visual, a obra bebe do Romantismo Sombrio e do Expressionismo Alemão, projetando a dor interna em cenários desolados e apocalípticos.
Para dar vida a este universo visual no videoclipe oficial, o realizador PILATUS comandou uma produção minuciosa. Esta uniu as filmagens de estúdio capturadas por Adrian on the Brink às imagens adicionais de Ira Belsky, Finn Moeller e da produtora Anthem Films. O resultado é um manifesto audiovisual onde o luto deixa de ser apenas silêncio e se transforma em poesia industrial impetuosa.
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quarta-feira, 15 de julho de 2026
mary in the junkyard - Crash Landing
[Verse 1]
Crash landing
You came in like you were done pretending
Comet face
With all of these holes I couldn't help but fall into
[Chorus]
You opened up like a coconut
You opened up like a coconut
[Verse 2]
Crash landing
You came in like you were done, done, done, done, done
Comet face
With all of these holes I can't help but fall down, down, down, down, down, down
[Chorus]
You opened up
You opened up like a coconut
You opened up
You openеd up like a coconut
[Bridge]
And I can take your mask off
But only in the dark
And you won't takе your shoes off
In case you have to run, run, run
Yeah, I can take your mask off
But only in the dark
And you won't take your shoes off
In case you have to run, run
[Verse 3]
Today, today, today, today
Or any other day
Tomorrow, tomorrow, tomorrow, tomorrow
In case, in case, in case, in case, in case
Nothing's gonna happen
[Verse 4]
And I want to go outside
But I'm scared you'll melt away if we leave this place
If it was any other day
If it was any other day
I'd get the fuck away
[Outro]
Crash landing
You came in like it was all my fault
Crash landing
I never want to see you again
A Anatomia Poética e Visual de um Fim de Relação
A canção "Crash Landing", o aclamado single de avanço do álbum de estreia Role Model Hermit da banda mary in the junkyard, é uma obra densa e de forte carga dramática, que se destaca tanto pela sua sofisticação musical como pela riqueza das suas referências estéticas.
Nascido em Londres, este trio de nacionalidade britânica - composto por Clari Freeman-Taylor, Saya Barbaglia e David Addison - consolidou-se como uma das maiores promessas da cena artística do sul de Inglaterra. O seu estilo musical desafia categorizações fáceis, posicionando-se num território de partilha entre o art-rock, o indie rock experimental e o post-punk melancólico. A canção arranca com o som hipnótico e flutuante de um harmónio (um instrumento de fole antigo) que dita uma atmosfera quase litúrgica, para depois explodir numa vaga de guitarras distorcidas com traços de shoegaze e arranjos dramáticos de viola d'arco, acompanhando a interpretação vocal de Clari, que oscila entre a palavra sussurrada e o grito catártico.
O significado da canção debruça-se sobre a autópsia emocional de uma relação amorosa desgastante e assimétrica, marcada pela dificuldade em aceder à intimidade do outro. Através de metáforas cortantes, como a imagem de alguém que se teve de abrir "como um coco" para revelar alguma vulnerabilidade, ou a descrição de um parceiro que não descalça os sapatos por estar sempre pronto a fugir, a letra expõe o peso asfixiante de carregar os segredos e as limitações emocionais de outrem. Esse "pouso forçado" (tradução literal de crash landing) deságua num desejo definitivo de libertação e rutura.
Esta queda metafórica ganha corpo no significado do videoclipe, filmado em película analógica de 16mm no cenário imponente e desolador das Falésias Brancas de Dover. Vestida com um casaco estruturado que evoca asas pesadas e óculos de aviadora, a vocalista encarna uma pilota sobrevivente a um desastre. O teledisco joga constantemente com o contraste entre o confinamento dos músicos, encolhidos contra as enormes paredes de giz, e a imensidão do céu cinzento marcado por uma deslumbrante "murmuração" (a revoada acrobática e caótica de milhares de estorninhos), simbolizando visualmente o estado de desorientação e perda de controlo que acompanha o fim de uma ligação amorosa.
Por fim, a identidade da banda é profundamente moldada por influências romancistas, filosóficas e de poetas. Longe do registo quotidiano e literal de grande parte do indie rock moderno, mary in the junkyard procura abrigo no romantismo literário do século XIX, onde a natureza indomável serve de espelho às angústias da alma, e no realismo mágico, transformando vivências pessoais em fábulas modernas. No campo poético, a métrica fragmentada de Clari bebe da poesia rítmica e da spoken word, utilizando as palavras tanto pelo seu significado como pela sua textura percussiva e dadaísta. Do ponto de vista filosófico e da performance artística, o trio partilha uma forte afinidade com a lendária artista performática Marina Abramović. Esta influência traduz-se numa filosofia de palco assente na "presença absoluta" e na corporalidade, em que os três músicos funcionam quase como um quarteto de cordas clássico, reagindo fisicamente à respiração e ao movimento uns dos outros, transformando a dor de "Crash Landing" num ato existencial e de catarse coletiva.
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Acabei de submeter o meu parecer de discordância relativamente ao Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis (PSZAER)
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