quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Falta regularizar apenas três Zonas Especiais de Conservação para Portugal cumprir as obrigações europeias da Directiva Habitats. A multa é de 2250 euros por dia


Falta regularizar os processos relativos às áreas da Serra da Estrela, do Sado e de Alvito/Cuba, para que fiquem concluídas as 61 ZEC e respetivos planos de gestão. Governo prevê concluir todo o processo ainda este ano.

Portugal está a suportar uma penalização de cerca de 750 euros por dia por cada Zona Especial de Conservação (ZEC) ainda em atraso, estando ainda por concluir três das 61 ZEC abrangidas pelo processo de regularização das áreas protegidas exigido pela União Europeia.

Segundo avançou o Ministério do Ambiente e Energia (MAEn) ao Público, falta finalizar a regularização das ZEC da Serra da Estrela, do Sado e de Alvito/Cuba. Nomeadamente, o diploma relativo à ZEC do Sado já concluiu o circuito governamental e foi remetido ao Presidente da República para promulgação; o plano de gestão da ZEC de Alvito/Cuva deverá ser submetido a Conselho de Ministros no início de setembro; e o plano de gestão da ZEC da Serra da Estrela encontra-se atualmente em circuito legislativo, na sequência da consulta pública recentemente concluída.

Recorde-se que, em março passado, o Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) condenou Portugal a pagar 10 milhões de euros por não ter executado um acórdão sobre a violação da Diretiva ‘Habitats’, relativa à preservação de habitats naturais, e 750 euros diários por cada um dos sítios que ainda não estão protegidos. Na altura, o TJUE referiu que Portugal não adotou medidas de conservação adequadas, considerando que estavam em causa infrações particularmente graves ao direito do ambiente da União, “nas quais Portugal persistiu ao longo do tempo”.

Tendo em conta que o território português abriga uma biodiversidade significativa - incluindo 99 tipos de habitats e 335 espécies abrangidas pela Diretiva Habitats- , “os riscos para o património natural comum da União são especialmente relevantes”, destacava o Tribunal, que impôs sanções financeiras até que todas as 61 zonas especiais de conservação em causa dispusessem “de proteção adequada”.

Desde então, o Governo diz ter acelerado significativamente o processo, com o MAEn a salientar que “o trabalho desenvolvido pelo Ministério do Ambiente e Energia permitiu acelerar de forma muito significativa a aprovação das designações e dos respetivos instrumentos de gestão”, colocando Portugal “numa trajetória de cumprimento integral” das obrigações europeias.

Fonte oficial do MAEn acrescenta que o trabalho iniciado pelo XXIV Governo, em 2024, deverá terminar este ano, sublinhando que este “veio corrigir um atraso acumulado ao longo de sucessivos governos, que manteve Portugal em incumprimento em matéria de obrigações europeias durante vários anos e deu origem a um processo de infração por parte da Comissão Europeia”.

O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) já tinha, entretanto, confirmado ao Jornal PT Green que entregou à tutela todos os planos de gestão das ZEC, ressalvando que “eventuais alterações ao calendário previsto poderão decorrer das diligências subsequentes ao processo, que poderão incluir pedidos de esclarecimento ou consultas ao ICNF”.

As ZEC integram a Rede Natura 2000, uma rede europeia de áreas destinadas à conservação de habitats e espécies ameaçados ou representativos da biodiversidade europeia.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

O Sopro do Sagrado em Serrabona


O 'Preludio' da suite em mi para violino: é uma das obras mais conhecidas de J.S. Bach, tão popular e maravilhosa que foi transcrita para quase todos os instrumentos. A versão em fá funciona às mil maravilhas na flauta de bisel alto. 
Local: o Prioriado de Serrabona - uma obra-prima do século XI, perdida nas montanhas catalãs perto de Perpignan
A piece  of Bach a day keeps the doctor away

O Sopro do Sagrado em Serrabona

Nas pedras seculares de Serrabona,
onde o tempo esquece a pressa dos homens,
a flauta suspende um sopro primordial
e desperta o sagrado no mais fundo.

Não há fronteira entre o templo e a terra,
entre a madeira que vibra e o espaço que ressoa;
a aragem que cruza as serras catalãs
é a mesma que se molda em harmonia.

Pelas mãos do mestre, o génio de Bach
deixa de ser nota e torna-se prece.
Cada frase musical é um degrau de silêncio,
um fio invisível tecido na matéria da vida.

Na memória do granito e no eco que se esvazia,
revela-se uma ordem discreta, um rasgo de luz pura:
auscultar essa arquitetura no cume dos Pirenéus
é sentir o pulso do cosmos na própria rocha.

João Soares, 12.08.2026

Página oficial do flautista 

Programa Nacional de Vacinação: as assimetrias regionais e o refúgio das redes antivacinas em Portugal

O Relatório Anual da Direção Geral de Saúde mostra que a maioria das vacinas infantis tem uma taxa de cobertura superior a 95% em Portugal, mas há concelhos que ficam abaixo dos 60%.A região algarvia mantem baixas taxas de vacinação Desigualdades persistem nas vacinas do HPV, gripe e covid-19.

As autoridades de saúde portuguesas estão a combater as baixas taxas de vacinação no Algarve através de uma estratégia focada na busca ativa de utentes e na proximidade comunitária Os centros de saúde realizam auditorias frequentes aos sistemas informáticos para identificar crianças e jovens com doses em atraso, avançando de imediato com contactos diretos através de telefonemas, SMS ou cartas registadas. Para mitigar o isolamento geográfico de concelhos como Aljezur e Vila do Bispo, equipas móveis de enfermagem deslocam-se às zonas rurais para administrar as vacinas localmente.Nas escolas da região, as autoridades cruzam os dados de matrícula com o registo vacinal para sinalizar alunos em falta e alertar os encarregados de educação. Paralelamente, os serviços de saúde pública trabalham com as autarquias locais para traduzir materiais informativos e integrar as comunidades estrangeiras residentes no Serviço Nacional de Saúde (SNS). Por fim, os profissionais de saúde desenvolvem ações de esclarecimento direcionadas para combater mitos e a hesitação vacinal junto de grupos específicos da população. Parece-me insuficiente. 

O debate em torno do movimento antivacinas e da proliferação de comunidades dogmáticas em Portugal exige uma análise objetiva das causas e uma revisão urgente do enquadramento legal. A experiência demonstra que o confronto direto com correntes New Age e determinadas comunidades de permacultura é ineficaz: nestes meios, o ceticismo em relação às vacinas e ao conhecimento científico assenta na construção de identidades, no sentimento de pertença e na rejeição do que consideram a "frieza" do sistema dominante. Esta mentalidade, contudo, gera consequências graves e conduz a mortes perfeitamente evitáveis.

A fixação destas famílias estrangeiras em Portugal - com particular incidência no interior (Beira Alta, região Centro) e no Algarve - resulta diretamente de um fenómeno de "fuga às regras". Países como a França e a Alemanha identificaram o risco do isolamento comunitário e do desrespeito pela saúde pública, endurecendo substancialmente os seus regimes jurídicos. Entre 2018 e 2020, tornaram a vacinação infantil obrigatória para o acesso ao ensino e erradicaram ou restringiram severamente o ensino doméstico (homeschooling).

Enquanto a Europa Central fechou as brechas legais, Portugal manteve-se como um dos países mais permissivos do continente, tornando-se um refúgio para quem procura educar os filhos fora do sistema oficial em redes locais sem controlo rigoroso. Embora a adesão da população nacional ao Programa Nacional de Vacinação seja massiva, a vacinação de menores não é juridicamente obrigatória, o que deixa uma margem de manobra perigosa. 

De salientar que há uma faixa social portuguesa em que a hesitação vacinal dos pais são na maioria da classe média-alta e alta. [artigo científico aqui]

Para proteger a saúde pública e a integração social das crianças, Portugal precisa de importar medidas coercivas inspiradas no modelo alemão, assegurando a devida conformidade constitucional:
  1. Condicionamento de acesso e sanções: nenhuma criança deve ser admitida em creches, escolas (públicas ou privadas), ATL ou colónias de férias sem o boletim de vacinação em dia. Caso seja detetada a ausência de vacinas, deve aplicar-se um prazo limite de três meses para regularização, sob pena de cancelamento da matrícula. Paralelamente, ao tornar o ensino presencial obrigatório e banir o ensino doméstico, os pais incumpridores devem ficar sujeitos a multas administrativas pesadas (a exemplo dos 2.500 euros aplicados na Alemanha).
  2. Abrangência a adultos e profissionais de risco: a obrigatoriedade vacinal deve estender-se a quem lida diretamente com populações vulneráveis - pessoal médico, trabalhadores de hospitais e lares, professores e funcionários de creches ou centros de acolhimento. A ausência de imunização deve proibir a contratação ou motivar a suspensão de funções.
Cabe ao Estado Português atuar legislativamente antes que a permissividade jurídica continue a expor a comunidade a riscos evitáveis.

Ler mais:

Metric - Eclipse [All Yours]

Melhor som aqui
Letra
All the lives always tempted to trade
Will they hate me for all the choices I made?
Will they stop when they see me again?
I can't stop, now I know who I am

[refrão]
Now I'm all yours, I'm not afraid
And you're all mine, say what they may
And all your love I'll take to a grave
And all my life starts now

Tear me down, they can't
Take you out of my thoughts
Under every scar there's a battle I've lost
Will they stop when they see us again?
I can't stop, now I know who I am

[refrão] 2X

Análise de "Eclipse (All Yours)" dos Metric: a música de Twilight
"Eclipse (All Yours)" é uma canção interpretada pela banda Metric, composta especialmente para a banda sonora oficial do filme A Saga Twilight: Eclipse (2010). O grupo é uma banda canadiana de rock independente, formada em Toronto, Ontário, em 1998, sob a liderança da vocalista e teclista Emily Haines e do guitarrista James Shaw.

No que respeita ao estilo musical, o Metric navega entre o Indie Rock, Synth-Pop, Post-Punk Revival e New Wave, unindo guitarras elétricas marcantes a sintetizadores pulsantes e linhas melódicas vocais bastante acessíveis. Embora não seja uma banda comercial na sua essência - tendo construído a sua carreira no circuito alternativo sob uma filosofia DIY ("do it yourself") e editando grande parte do seu catálogo através da sua própria editora independente, a Metric Music International -, o grupo alcançou uma grande projeção mainstream. Essa transição para o grande público foi impulsionada precisamente pela inclusão das suas faixas em bandas sonoras de sucessos globais, como a saga Twilight e o filme Scott Pilgrim vs. The World.

O significado da canção e do seu videoclipe está profundamente ligado à narrativa cinematográfica. A letra foi escrita sob a perspetiva direta da protagonista Bella Swan, abordando a devoção incondicional e a entrega definitiva refletidas no verso "I'm all yours" ("Sou toda tua"), ao mesmo tempo que expressa o conflito interno e o receio das consequências das suas decisões, visível na linha "Will they hate me for all the choices I've made?" - uma alusão clara ao triângulo amoroso e às tensões entre vampiros e lobisomens. Por sua vez, o vídeo combina a atmosfera melancólica e florestal do filme com a performance da banda. Nele, Emily Haines surge isolada numa cabana de madeira a compor ao piano enquanto observa trechos de romance e combate numa televisão retro, enquanto os restantes membros aparecem dispersos por cenários naturais sombrios, como florestas densas, penhascos e pedreiras, simbolizando a solidão e a tensão iminente da história.

Por fim, o som do Metric é moldado por um leque diversificado de influências musicais que equilibra o rock clássico, o pós-punk e o synth-pop. Entre as suas principais referências estão o New Wave e Post-Punk dos anos 80 (bandas como Joy Division, The Cure, New Order, Depeche Mode e Blondie) e o Indie e Alt-Rock dos anos 90 e 2000 (Sonic Youth, Pixies, The Velvet Underground, além da proximidade com a cena de Nova Iorque e Toronto ao lado de nomes como Yeah Yeah Yeahs, TV on the Radio e Broken Social Scene). Soma-se a isto a utilização de eletrónica vintage e uma base de estruturas clássicas, fruto da formação técnica de James Shaw na prestigiada escola Juilliard e das vivências vanguardistas da infância de Emily Haines.

Dia Mundial do Elefante 20026


Introdução e Contexto Histórico

Celebrado anualmente a 12 de agosto, o Dia Mundial do Elefante - instituído em 2012 por iniciativa da realizadora canadiana Patricia Sims e da Elephant Reintroduction Foundation da Tailândia - constitui um marco global para a consciencialização sobre a preservação e gestão sustentável da família Elephantidae. Em 2026, a efeméride assume um caráter de acrescida urgência analítica: o declínio demográfico persistente em África e na Ásia impõe a revisão contínua das estratégias de gestão de ecossistemas, o combate ao comércio ilícito de marfim e a reavaliação ética dos modelos do ecoturismo e dos safaris.

1. Divergência taxonómica: as três espécies reconhecidas
A biogeografia contemporânea e a genómica populacional reconhecem atualmente três espécies distintas de elefantes:
  1. Elefante-de-savana-africano (Loxodonta africana): é o maior mamífero terrestre do planeta. Distribui-se maioritariamente pelas savanas e habitats abertos da África Subsaariana. Encontra-se classificado como Em Perigo (EN) pela Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN.
  2. Elefante-da-floresta-africano (Loxodonta cyclotis): distinguido formalmente do L. africana devido a evidências genéticas inequívocas, habita as florestas tropicais densas da África Central e Ocidental. De menor porte e com presas mais retas, está classificado como Em Perigo Crítico (CR) pela IUCN, tendo sofrido perdas drásticas devido à caça furtiva.
  3. Elefante-asiático (Elephas maximus): presente de forma fragmentada em 13 países do Sul e Sudeste Asiático. Morfologicamente caraterizado por orelhas menores e por uma única projeção digital na tromba, encontra-se igualmente classificado como Em Perigo (EN) na IUCN Red List.
2. Ponto de Situação Populacional e Ameaças
De acordo com os dados compilados no African Elephant Database mantido pela IUCN, estima-se que restem cerca de 400.000 a 415.000 elefantes africanos na natureza. Relatórios da World Wildlife Fund (WWF) e do programa CITES MIKE (Monitoring the Illegal Killing of Elephants) indicam que a população do elefante-da-floresta declinou mais de 86% em três décadas. A população selvagem de elefantes asiáticos é estimada em apenas 40.000 a 50.000 indivíduos.

As pressões antrópicas organizam-se em três eixos centrais:
  1. Caça furtiva e tráfico: a procura ilegal de marfim continua a perturbar as demografias locais.
  2. Fragmentação de habitat: a conversão agrícola e a urbanização destroem cenários de dispersão.
  3. Conflito Humano-Fauna (CHF): o aumento das sobreposições territoriais gera episódios letais de retaliação motivados pela destruição de culturas agrícolas.
3. Estratégias de Preservação e Conservação
As respostas institucionais assentam na transição para abordagens integradas de paisagem e tecnologia:
  1. Corredores ecológicos Transfronteiriços: iniciativas de grande escala, como a KAZA TFCA (Kavango-Zambezi Transfrontier Conservation Area), conectam parques nacionais em cinco países da África Austral, garantindo rotas de migração seguras.
  2. Tecnologia de rastreio e monitorização: implementação de coleiras com GPS via satélite geridas por organizações como a Save the Elephants e aplicação da plataforma de dados SMART (Spatial Monitoring and Reporting Tool) pelas brigadas de fiscalização.
  3. Mitigação biológica do CHF: desenvolvimento de cercas de colmeias (beehive fences) promovidas por projetos científicos como o Elephants and Bees, que aproveitam o repúdio natural dos elefantes relativamente às abelhas para afastar os animais de áreas agrícolas.
4. Restrições no turismo de safari e atividades recreativas
A indústria do ecoturismo atravessa uma reestruturação normativa impulsionada pelo bem-estar animal e por relatórios globais de entidades como a World Animal Protection.

Proibição de Safaris de Montaria (Elephant Rides)
A exploração turística assente na montaria e contacto direto tem sido desmantelada progressivamente:
Na África Austral (em particular no Botsuana), as diretivas da indústria de safari e das autoridades de conservação baniram as práticas comerciais de passeios a dorso de elefante.

No Sudeste Asiático (Tailândia), estudos de monitorização continuada promovidos pela World Animal Protection registam uma queda consistente na oferta de viagens a monte e a transição gradual para o modelo de "apenas observação" (observation-only sanctuaries).

Restrições de Capacidade e Impacto Ambiental em Safaris
Nos ecossistemas de safari em parque aberto (como no Parque Nacional do Chobe ou na Reserva do Masai Mara), os organismos governamentais aplicam diretrizes rigorosas:
  1. Lotação por avistamento: proibição de aglomeração de mais de 2 a 3 veículos em simultâneo junto a manadas.
  2. Manutenção de distâncias mínimas: para evitar stresse comportamental nas matriarcas e crias.
  3. Proibição do Off-Roading: Confinamento estrito aos trilhos oficiais para evitar a degradação da flora nativa.
Considerações Finais
A análise do estado de conservação dos elefantes em 2026 demonstra que a viabilidade a longo prazo da família Elephantidae depende da consolidação de corredores ecológicos contínuos, do combate intransigente ao crime ambiental e da transição definitiva do turismo recreativo para um modelo ético, sustentável e baseado exclusivamente na observação à distância.

Existe uma relação direta entre ecossistemas da machosfera e o movimento antivacina

Existe uma relação direta e documentada entre os ecossistemas da machosfera e o movimento antivacinas, uma convergência que é ilustrada na perfeição pelo conteúdo da imagem associado a Andrew Tate. Esta ligação assenta sobretudo na partilha de uma visão do mundo profundamente cética em relação às instituições estabelecidas e numa narrativa de resistência individual.

O principal ponto de contacto entre estas duas subculturas é a rejeição do que apelidam de "sistema" ou a Matrix. Tanto os grupos da machosfera como os ativistas antivacinas partilham a premissa de que os governos, os meios de comunicação social e a comunidade científica manipulam a população para manter o controlo. A metáfora da red pill - a ideia de tomar a pílula vermelha para "despertar" para a verdade oculta - é amplamente utilizada em ambos os universos, criando um terreno fértil para que teorias da conspiração sobre a saúde pública encontrem adesão junto de audiências que já desconfiam das narrativas oficiais.

Além disso, a cultura do fitness, da masculinidade dita "Alfa" e do biohacking, muito presente na machosfera, promove uma obsessão pela pureza biológica e pela autonomia física. Neste contexto, as vacinas são frequentemente retratadas como intervenções externas desnecessárias ou até prejudiciais à virilidade, à fertilidade e aos níveis naturais de testosterona. O cumprimento de orientações sanitárias ou a aceitação de vacinas é por vezes associado a traços de passividade, fraqueza ou submissão, enquanto a recusa é vendida como um ato de força, independência e rebeldia masculina.

Por fim, os próprios algoritmos das plataformas digitais facilitam esta sobreposição. Um utilizador que consome conteúdos sobre masculinidade tradicional ou conselhos de sedução é frequentemente direcionado para círculos de desinformação médica, teorias conspiratórias e políticas de extrema-direita.

Figuras influentes deste meio aproveitam estes tópicos fraturantes para gerar controvérsia, aumentar o envolvimento nas redes sociais e reforçar a sua imagem de líderes destemidos que desafiam o consenso geral.

Who is Andrew Tate?

Referências Bibliográficas
Ler mais:

terça-feira, 11 de agosto de 2026

London Grammar - Nightcall


A melancolia noturna de "Nightcall": entre o synthwave e o existencialismo dos London Grammar


A letra de "Nightcall" aborda um reencontro noturno e tenso após um afastamento ou um evento traumático, focando-se no contraste entre a atração e o perigo. No original de Kavinsky, a faixa faz parte de uma narrativa concetual sobre um jovem que morre num acidente de carro nos anos 80 e regressa como "zombie" para rever a namorada. Na versão dos London Grammar, essa vertente de ficção científica desaparece, dando lugar a uma metáfora sobre a vulnerabilidade, o isolamento e a complexidade das relações humanas.

Esta narrativa liga-se a várias referências culturais e filosóficas. A figura misteriosa do condutor evoca o Herói Byroniano da literatura romântica - um indivíduo solitário, sombrio e carregado de culpa -, refletindo também o existencialismo urbano através da alienação e da viagem sem rumo na noite. A ideia de que "há algo em ti difícil de explicar" remete para o conceito de Doppelgänger e para a Sombra de Carl Jung, representando o lado oculto da personalidade que emerge no escuro. Além disso, a estética da autoestrada noturna remete para o Cinema Noir e para o conceito de "não-lugar" do antropólogo Marc Augé, onde o espaço urbano serve de palco para a suspensão do tempo e da moral.

O videoclipe oficial dos London Grammar reflete essa mesma atmosfera através de um ritmo lento e parado. Gravado num campo aberto e enevoado durante a noite, o vídeo mostra a banda a tocar sob luzes focadas, rodeada por elementos dispersos e aparentemente sem ligação direta: um carro vermelho com os faróis acesos, uma caravana iluminada, jovens reunidos à volta de uma fogueira e cavalos a correr no meio da névoa.

O significado deste videoclipe não passa por contar uma história linear, mas sim por traduzir visualmente o estado de espírito da canção. A lentidão das imagens e a penumbra reforçam a sensação de isolamento e melancolia. Os vários elementos funcionam como memórias desconexas ou símbolos de transição - o carro representa a viagem, a fogueira o desejo de calor e pertença, e os cavalos em liberdade simbolizam a natureza indomável dos sentimentos. Em vez de recorrer à ação ou à velocidade, o vídeo opta por uma estética contemplativa que deixa a música e a voz de Hannah Reid guiarem toda a carga dramática.

Filme Drive e filme completo aqui

Página oficial

Grande Muralha Verde restaura 1,66 milhão de hectares na África



Cerca de 1,66 milhão de hectares estão em processo de restauração no Sahel, região africana entre o deserto do Saara e a savana do Sudão. O resultado representa a principal conquista da iniciativa Acelerador da Grande Muralha Verde, que completou cinco anos e teve o relatório apresentado esta semana pela Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD).

Outros números em destaque do balanço incluem 24 milhões de toneladas de CO₂ equivalente sequestradas ou mitigadas, 4,6 milhões de empregos criados e 46 milhões de pessoas diretamente impactadas.

Segundo a UNCCD, o esforço envolve um conjunto de paisagens restauradas, áreas agrícolas, sistemas de água e comunidades. O objetivo é combinar a recuperação de terras com a segurança alimentar, a geração de oportunidades económicas, o acesso a energia limpa e o aumento da resiliência perante as alterações climáticas e a seca.

Grande Muralha Verde foi criada em 2007 pela União Africana e pela UNCCD e reúne atualmente 11 países fundadores, numa área de 156 milhões de hectares, do oeste do Senegal ao Corno de África. Já o "Acelerador" foi criado em 2021 para melhorar a coordenação da iniciativa, acompanhar os recursos financeiros e ajudar os países a medir os resultados das ações de restauração.

Resultados parciais
Apesar dos avanços, o próprio relatório alerta que ainda há limitações importantes no acompanhamento dos resultados. O Observatório da Grande Muralha Verde monitoriza mais de 389 projetos, porém menos de 90 apresentam atualmente dados de acordo com os indicadores harmonizados adotados pela iniciativa.

A UNCCD considera os resultados, portanto, iniciais. Além dos 1,66 milhão de hectares em restauração, os dados disponíveis apontam para a criação de 4,6 milhões de empregos, contra uma meta de 10 milhões até 2030, e a produção de 2.315 megawatts-hora de energia limpa. A entidade ressalta que os processos de restauração de terras podem levar anos ou décadas para produzir resultados completos e que o levantamento da totalidade dos projetos ainda está em curso.

Para tentar superar a fragmentação das informações, foi criado em 2024, em Ouagadougou, Burquina Faso, o Observatório da Grande Muralha Verde. A plataforma reúne informações sobre projetos, financiamento, resultados e dados geoespaciais. Segundo a UNCCD, o sistema já foi endossado por dez dos 11 países fundadores.

Também foram criadas coligações nacionais em nove dos 11 países, reunindo ministérios, sociedade civil, universidades, setor privado e meios de comunicação. A intenção é melhorar a coordenação das ações e transformar os compromissos financeiros em resultados verificáveis nos territórios.

Desafio do financiamento
O Acelerador foi lançado após a Cimeira One Planet, em 2021, quando parceiros técnicos e financeiros anunciaram mais de US$ 19 mil milhões em compromissos para a Grande Muralha Verde. A iniciativa passou a funcionar como uma estrutura para coordenar os esforços, acompanhar os recursos e fortalecer a capacidade dos países de demonstrar os resultados obtidos.

O relatório, porém, aponta que a distância entre compromissos e resultados continua a ser um desafio. Além da falta de dados completos, a UNCCD cita dificuldades de coordenação entre diferentes atores e o tempo necessário para que os recursos financeiros se transformem em ações no território.

A próxima etapa deve dar maior peso à comunicação, a mecanismos financeiros inovadores e à gestão transfronteiriça de terras e águas. Entre as possibilidades mencionadas estão obrigações verdes, créditos de carbono e mecanismos de financiamento combinado.

A experiência também procura ampliar a dimensão social da restauração. O relatório destaca iniciativas de geração de rendimento para mulheres, capacitação de jovens e fortalecimento de empreendimentos locais. Num dos exemplos citados pela UNCCD, mulheres do Mali receberam equipamentos e formação e ampliaram uma cooperativa de transformação de produtos agrícolas. No Chade, mulheres foram capacitadas para instalar e reparar painéis solares, transformando o acesso à energia em fonte de rendimento.

COP17
Seca, degradação da terra e restauração dos solos serão temas centrais na 17.ª Conferência das Partes (COP17) sobre Desertificação, que decorre entre os dias 17 e 28 de agosto em Ulan Bator, capital da Mongólia. 

O fim do "mandato elétrico" de Trump, o domínio da China e o petróleo iraniano: o triângulo geopolítico da energia

Donald Trump voltou a criticar os carros elétricos, chamando recentemente os seus condutores de "doentes" e "loucos". O presidente dos Estados Unidos da América referiu-se à chamada "ansiedade de autonomia".

No ano passado, Donald Trump acabou com os incentivos fiscais à aquisição de carros elétricos nos Estados Unidos da América, começando a desviar a eletrificação do panorama automóvel do país.

Num recente discurso em Las Vegas, transmitido pela NBC News, o presidente norte-americano começou por falar do fim do chamado "mandato elétrico": "A esquerda radical quer banir uma coisa chamada gasolina. Temos 100 anos de gasolina e é o que as pessoas preferem. Eu terminei com o mandato elétrico. Não quero falar sobre isto porque o Elon [Musk] não ficou propriamente emocionado comigo, mas tive de o fazer. Terminei porque dizia que, num período de tempo muito curto - 2030 - todos teriam de ter um carro elétrico apesar de não haver forma de o carregar".

Importa salientar que o "mandato elétrico" a que Donald Trump se referiu trata-se do conjunto de medidas da administração de Joe Biden para fomentar a adoção de veículos eletrificados - sem, no entanto, impor qualquer obrigação de comprar este tipo de automóveis.

Seguiram-se, então, as críticas aos condutores de carros elétricos, em particular por causa da ansiedade de autonomia: "Já viram os sinais de estar a conduzir um carro elétrico? Eles são doentes, é uma doença. As pessoas estão a conduzir e percebem que a bateria está a ficar com pouca carga, e começam a pensar nisso. Tem três quartos da carga, perde um bocado. Perguntam para onde estão a ir, estão a conduzir na autoestrada e veem uma estação de carregamento com uma seta de 143 km à direita. Estas pessoas são loucas".

A ansiedade de autonomia é o fenómeno de ficar apreensivo com a possível insuficiência de carga para chegar a um determinado destino, não havendo como recarregar entretanto. Mas têm vindo a surgir mais postos de carregamento (ainda que a um ritmo não uniforme). Nos EUA, ainda não há uma disponibilidade tão generalizada fora dos centros urbanos. Ainda assim, a capacidade das próprias baterias tem aumentado, permitindo percorrer mais quilómetros.

Sobre o tema, Donald Trump referiu ainda: "Eu gosto de carros elétricos, vendemos sete por cento [de carros elétricos] apesar de todos os impostos e tudo o que cedemos. Sete por cento. Mas a questão é que temos mais petróleo e gasolina do que qualquer outro país do mundo".

1. Nunca existiu um "mandato elétrico e Trump volta a falar para o seu eleitorado mais conservador, republicano, nacionalista e MAGA
Este discurso de Donald Trump insere-se numa estratégia política, económica e ideológica contínua que reflete as prioridades centrais da sua administração para o setor energético e industrial. A narrativa em torno do alegado fim do "mandato elétrico" é, na sua essência, um exercício de comunicação política que contrapõe a retórica à realidade legislativa do país. Embora a administração afirme ter acabado com uma imposição federal que obrigaria todos os americanos a adquirir carros elétricos, a verdade é que nunca existiu uma lei com esse teor nos Estados Unidos. Durante o mandato de Joe Biden, o quadro regulatório assentava, antes, na definição de metas rigorosas de emissões por parte da U.S. Environmental Protection Agency (EPA) e na atribuição de incentivos fiscais - como o crédito de 7.500 dólares previsto na legislação do Internal Revenue Service (IRS) - desenhados para estimular a produção e a renovação da frota automóvel. Ao revogar estes incentivos, flexibilizar as exigências ambientais e contestar judicialmente as normas estaduais mais estritas, como as impostas pela California Air Resources Board (CARB), a administração procura redefinir os rumos do mercado automóvel nacional.

Esta posição apoia-se diretamente na defesa intransigente das indústrias tradicionais de petróleo e gás através da bandeira popularizada como "Drill, Baby, Drill". O programa económico prioritário sustenta que a transição forçada para as energias renováveis encarece os custos energéticos e fragiliza a competitividade global da indústria americana. Ao destacar que os Estados Unidos possuem reservas substanciais e "combustível para mais de cem anos", conforme reportado por órgãos como a NBC News e documentado pela U.S. Energy Information Administration (EIA), procura-se mobilizar diretamente a classe trabalhadora ligada à extração energética e ao fabrico de motores de combustão interna no ecossistema industrial norte-americano.

Paralelamente, o discurso explora de forma calculada os receios pragmáticos do eleitorado, recorrendo à sátira em torno da chamada "ansiedade de autonomia". Ao ridicularizar as preocupações com o carregamento das baterias, a retórica liga-se ao ceticismo dos cidadãos que residem no interior do país, onde a infraestrutura de carregadores rápidos gerida pelo Federal Highway Administration (FHWA) ainda apresenta descontinuidade e desafios logísticos. Esta abordagem tira partido das limitações reais vivenciadas na fase inicial de adoção da tecnologia - como os tempos de espera e a disponibilidade de postos de carregamento - para colocar em causa a viabilidade geral da eletrificação de massas.

No plano empresarial e institucional, a postura da administração reflete uma relação complexa e cheia de ambiguidades com a indústria automóvel. Se, por um lado, existe uma proximidade e alinhamento público com líderes da inovação como Elon Musk e a Tesla no plano do empreendedorismo privado, por outro, mantém-se uma recusa perentória em conceder subsídios estatais que beneficiem o setor. Esta orientação responde de perto aos apelos dos construtores tradicionais de Detroit, como a Ford e a General Motors, que têm enfrentado pressões significativas sobre as suas margens de lucro e uma desaceleração no crescimento da procura por veículos 100% elétricos, optando por reorientar os seus investimentos estratégicos para soluções híbridas.

Por fim, o tema do tipo de automóvel transformou-se num vetor central da "guerra cultural" que divide a política americana contemporânea. Conforme analisam diversos estudos publicados por centros de investigação como o Pew Research Center, os veículos elétricos tornaram-se símbolos associados às elites urbanas e às agendas progressistas de transição ecológica, enquanto os motores a combustão continuam a ser defendidos como um baluarte da liberdade individual, da autossuficiência e da identidade cultural do interior dos Estados Unidos.

2. Geopolítica da mobilidade: o triângulo estratégico entre a transição energética da China, o petróleo iraniano e a segurança nacional
Para compreender como o discurso sobre o fim do "mandato elétrico" nos EUA se cruza com a geopolítica do Irão e o domínio industrial da China, é preciso analisar a convergência entre a indústria automóvel, a produção de energia e a segurança nacional.

A China consolidou a sua posição como a líder incontestável no mercado global de veículos elétricos. Empresas chinesas como a BYD e a gigante de baterias CATL não só dominam a produção de veículos, como controlam quase 80% do processamento mundial dos minerais críticos essenciais para esta tecnologia, como o lítio e o cobalto. De acordo com relatórios da Agência Internacional de Energia (AIE), a aposta massiva de Pequim na eletrificação automóvel visou dois objetivos principais: liderar a próxima revolução industrial e reduzir a dependência nacional do petróleo importado do Médio Oriente.

É neste ponto que entra a ligação ao Irão. Como maior importador de crude do mundo, a China compra volumes significativos de petróleo iraniano - frequentemente transacionados fora dos circuitos bancários ocidentais devido às sanções impostas pela U.S. Department of the Treasury. Para a estratégia de Pequim, transitar a sua frota interna para energia elétrica significa enfraquecer a sua vulnerabilidade a eventuais bloqueios no Estreito de Ormuz, a rota marítima vital do Médio Oriente por onde circula grande parte do petróleo mundial.

Por outro lado, a perspetiva expressa em intervenções públicas como as da NBC News reflete uma abordagem oposta da política norte-americana. Ao rejeitar os subsídios e as metas de emissões associadas aos veículos elétricos, a narrativa de "dominância energética" argumenta que acelerar a transição ecológica forçada exporia os EUA a uma dependência crítica das cadeias de fornecimento chinesas. Em alternativa, defende-se o aumento da produção de crude nacional através do  U.S. Energy Information Administration (EIA), utilizando as vastas reservas americanas de combustíveis fósseis para estabilizar os preços e contrariar o impacto económico de crises geopolíticas no Médio Oriente.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

O Telhado Chegava

Ricardo Meireles
No dia 28 de Abril de 2025, ao princípio da tarde, a Península Ibérica apagou-se em cinco segundos. Tenho familiares que nesse dia estavam debaixo de um telhado coberto de painéis, pagos à EDP, com o inversor de corrente instalado e a funcionar. O sol caía em cima da casa, os painéis absorviam a energia toda, e essa energia ia parar a lado nenhum. Nem uma luz se acendia lá dentro.

No mesmo dia, um casal amigo, a Alice e o André, que há muitos anos exploram com persistência os modos de vida mais resilientes, publicava numa rede social que o sol e umas baterias de chumbo compradas a preço acessível lhes estavam a dar a energia toda de que precisam para a vida frugal que com orgulho vão mostrando. O post recebeu uma série de comentários depreciativos. Entre eles, o argumento de que é muito fácil para quem tem terreno. Os painéis deles estão no telhado. Curioso.

Duas casas portuguesas, o mesmo sol, o mesmo dia. Numa, o investimento grande, o contrato com a empresa, a escuridão. Na outra, os painéis apoiados pelas baterias de chumbo e a luz acesa. A explicação técnica é simples: os sistemas ligados à rede desligam o inversor quando a rede cai, por segurança de quem repara as linhas, e os painéis ficam inúteis exactamente no momento em que fariam mais falta. O sistema foi desenhado para que os painéis sirvam a rede primeiro e a família depois. No dia em que a rede caiu, ficou claro quem serve quem.

A história por trás da explicação técnica é a de como um país desenhou, e depois desmontou, a hipótese de uma energia democrática.

Em 2007 a política energética portuguesa promovia a microprodução doméstica: instalava-se, ligava-se à rede, vendia-se tudo a uma tarifa bonificada, calculada de maneira a que o investimento se pagasse a si próprio. Milhares de famílias fizeram as contas, pediram crédito e ousaram subir ao telhado. E a área chegava. Chega ainda. João Joanaz de Melo, professor de Engenharia do Ambiente na Nova e ligado ao partido do Governo (PSD), resume o que os estudos dizem: “no edificado doméstico e de serviços português, temos área suficiente para produzir duas a três vezes o consumo das famílias e dessas empresas”. Três vezes. Sobre o caminho que se seguiu em vez desse: “Isto é uma iniquidade e um erro estratégico. Devíamos ter um metro descentralizado por cada metro centralizado.”

Um país com área construída para o triplo do que consome em casa reservou 456 mil hectares de solo rústico para centrais de escala. Entre uma frase e a outra há uma distância. Este texto é sobre a maneira como ela se foi abrindo. Ler texto completo aqui

Minha Análise
Caro Ricardo,
O teu texto é de uma lucidez e sensibilidade raras, porque consegue desmontar a narrativa oficial da transição verde a partir da realidade concreta da terra, da fatura das famílias e da própria física dos sistemas. A imagem do apagão - o contraste entre as casas conectadas à rede que ficaram às escuras e a resiliência simples da casa off-grid - resume com precisão a grande contradição do nosso tempo. O sistema não foi desenhado para dar autonomia aos cidadãos, mas para canalizar fluxos de capital e garantir o abastecimento de grandes atores.
Subscrevo por inteiro a tua crítica à ocupação de 456 mil hectares de solo rústico quando temos telhados e zonas impermeabilizadas de sobra. Ainda assim, a leitura do teu artigo faz-me pensar em alguns pontos que tornam esta equação ainda mais perversa e que reforçam a gravidade do que está a acontecer com o PSZAER.
Em primeiro lugar, há a questão do próprio consumidor que investe no telhado. Não se trata apenas de o inversor desligar por razões de segurança da rede; trata-se de um enquadramento regulatório que desincentiva ativamente a instalação de sistemas híbridos com comutação automática. A regulamentação e as exigências técnicas da DGEG e da ERSE foram construídas de tal forma que amarram o cidadão à infraestrutura central. Quem tenta criar a sua própria resiliência com armazenamento encontra barreiras burocráticas e custos acrescidos. Pagas o equipamento, mas a regra do jogo impede-te de usar a tua própria energia quando a rede falha.
Depois, há um lado de usurpação do planeamento local que o PSZAER concretiza sem rodeios. Ao transformar vastas manchas de solo rústico em zonas de aceleração, o poder central passa por cima dos Planos Diretores Municipais e da vontade das comunidades locais. Isto gera uma pressão especulativa brutal no campo: o pequeno agricultor ou quem está no terreno a tentar regenerar a terra com técnicas agroecológicas simplesmente não consegue competir com as rendas anuais por hectare oferecidas pelas multinacionais da energia. O programa não está apenas a disputar espaço ao eucaliptal; está a bloquear ativamente a regeneração e a soberania alimentar.
Outra grande contradição que se esconde por trás desses 456 mil hectares é a própria incapacidade física da rede elétrica nacional para absorver tanta energia sem armazenamento em grande escala. Nos dias de pico solar, o excesso de oferta sem capacidade de rede vai inevitavelmente conduzir ao corte forçado de produção, o chamado curtailment. Ou seja, vamos ver ecossistemas destruídos e solos selados para instalar painéis que, em vários momentos do ano, terão de ser desligados porque não há onde meter a eletricidade. E a ineficiência deste modelo acabará, como sempre, refletida na tarifa de uso da rede paga por todos nós.
Ao mesmo tempo, ao extrativismo energético para alimentar os data centers de Sines e a inteligência artificial do outro lado do Atlântico junta-se uma pegada hídrica da qual quase não se fala. Estes grandes agregados de servidores exigem volumes gigantescos de água para os seus sistemas de arrefecimento. Numa região do país estruturalmente fustigada pela seca, estamos a entregar o solo para a produção fotovoltaica e os aquíferos para arrefecer máquinas, tudo para processar dados que não deixam valor real no território que os acolhe.
No fundo, aquilo que o teu ensaio expõe brilhantemente é que a transição energética em curso não é uma transição de paradigma, mas apenas uma transição de combustível. Mantém-se a mesma lógica centralizadora, extrativista e colonizadora do território, trocando o carvão e o gás por hectares de silicone, e sacrificando a esponja viva do húmus em nome do consumo ilimitado das metrópoles e das grandes tecnológicas. Obrigado por pores em palavras aquilo que a terra e quem trabalha nela já sentem há muito tempo.

A relação íntima com a Natureza: porque cuidar do mundo vivo é cuidar de nós


Existe uma ligação afetiva singular entre as pessoas e os ecossistemas que habitam. Uma ligação que se constrói na convivência de todos os dias, na familiaridade com uma paisagem, no reconhecimento dos seus sons, dos seus cheiros, das suas estações. Uma intimidade feita de tempo, de memória e de pertença. E não apenas porque desses lugares retiramos sustento, rendimento ou condições de sobrevivência.

Há algo mais profundo. Algo que não cabe na lógica da utilidade ou do benefício. Há lugares que se tornam parte de nós, tal como nós nos tornamos parte deles. Lugares onde reconhecemos quem somos e aos quais sentimos, quase instintivamente, que devemos cuidado. É dessa pertença que nasce o respeito; e desse respeito, a vontade de proteger. Não por obrigação, mas porque cuidar daquilo a que pertencemos é também uma forma de cuidarmos de nós próprios.

Neste diálogo, tornou-se particularmente evidente o quanto empobrecemos as nossas vidas quando perdemos essa proximidade. Ao afastarmo-nos dos territórios, dos ciclos naturais e das múltiplas formas de vida que nos acompanham, deixámos adormecer qualquer coisa de essencial em nós. Perdemos gestos, memórias, afetos e até palavras. Perdemos, talvez, a capacidade de escutar a poesia que existe na reciprocidade - na consciência simples e profunda de que não estamos perante a natureza, como quem observa algo exterior a si. Somos natureza. Pertencemos a esse mundo vivo e ele também nos habita.

Talvez seja precisamente essa ausência que hoje sentimos; essa erosão lenta e quase imperceptível do encantamento, da proximidade e da pertença. Porque a falta de poesia nas nossas vidas talvez comece aí: no momento em que esquecemos que existe uma relação íntima, ancestral e indivisível entre aquilo que somos e o mundo vivo que nos rodeia.

domingo, 9 de agosto de 2026

Beach House - Lazuli

Melhor som aqui
Letra
In the blue of this light
Where it ends in the night
When you couldn't sleep
You would come for me

Wander eyes, ocean high
And we don't dare slip on by
Make her suffer
Like no other

It's nothing like
Lapis Lazuli
Let it go
Back to me

Like no other
You can't be replaced

Like no other (It's nothing like)
You can't be replaced (Lapis Lazuli)

O universo musical e conceptual de "Lazuli", do duo norte-americano Beach House
Formados em 2004 na cidade de Baltimore, Maryland, pelos músicos Victoria Legrand (vocais e teclados, de ascendência franco-americana) e Alex Scally (guitarra e teclados), os Beach House afirmaram-se como um dos nomes fraturantes do Dream Pop, do Indie Pop e do Shoegaze. A canção "Lazuli", pertencente ao aclamado álbum Bloom (2012), é um dos exemplos mais expressivos do seu estilo: constrói-se sobre um arpejo contínuo de sintetizador de textura brilhante e vítrea, guitarras elétricas imersas em reverso e reverb, uma percussão marcante e a voz etérea, aveludada e melancólica de Victoria Legrand.

O próprio título remete ao lápis-lazúli (Lapis Lazuli), uma rocha metamórfica de tom azul-profundo historicamente utilizada para produzir o pigmento ultramarino, associado ao sagrado e à iluminação na história da arte. Em termos de significado, a canção aborda a esperança, a renovação e os sentimentos que se esvaem para eventualmente regressar, contrapondo a melancolia a um vislumbre de clareza interior. Através de versos como "Like no other, you can't be replaced" e "Let it go / Back to me", a letra explora a aceitação do ciclo natural da vida - reconhecendo o valor único de uma pessoa ou momento, enquanto aceita a necessidade de deixar ir para reencontrar a própria essência.

O videoclipe oficial, realizado por Allen Cordell (que também assina "Walk in the Park"), traduz esta mensagem contrapondo a banalidade do quotidiano à transcendência cósmica e surrealista. A narrativa começa por apresentar três personagens isoladas em ambientes urbanos e domésticos banais, até que portais geométricos de estética psicadélica e retrofuturista invadem essa realidade. Os intervenientes acabam levitados e transportados para uma dimensão astral frente a uma fenda luminosa, culminando no plano de um olho humano que sugere que toda a travessia extradimensional ocorreu como uma expansão de consciência ou revelação interior.

No plano conceptual, a estética de "Lazuli" dialoga com várias referências filosóficas e literárias. Na psicologia analítica de Carl Jung, as pedras azuis simbolizam o Self e a integração da psique, espelhando o mergulho na sombra para alcançar o autoconhecimento ("In the blue of this light / Where it ends in the night"). Na literatura e na arte, a simbologia do azul conecta-se ao Romantismo - como a "Flor Azul" de Novalis, símbolo do anseio pelo infinito e do inalcançável - e a obras meditativas como Bluets, de Maggie Nelson. Há ainda uma ressonância existencialista próxima de Albert Camus, em que personagens imersas na rotina descobrem sentido através de instantes transcendentais de percepção.

Página Oficial
Beach House

Outras redes sociais
Beach House

Filantrocapitalismo e Greenwashing: o que revela a parceria de Leonardo DiCaprio e Jeff Bezos

A imagem retrata o anúncio da iniciativa Protect Our Planet Challenge, lançada em parceria pela Re:wild de Leonardo DiCaprio, pelo Bezos Earth Fund de Jeff Bezos e outras organizações, visando criar um fundo de 200 milhões de dólares para a conservação da biodiversidade na Amazónia e noutros ecossistemas críticos. Poucochinho. De Bezzos, já sabia.

Estou pouco desiludido com DiCaprio e digo porquê. Enquanto professor, que promovi os seus excelentes documentários pensando que promovia educação ambiental de excelência, mudei de estratégia há cerca de 10 anos para cá. Esta notícia, oferece mais um caso prático perfeito para desenvolver o pensamento crítico, permitindo debater com os Alunos temas como greenwashing, filantrocapitalismo, a diferença entre responsabilidade individual e mudanças sistémicas e a forma como os grandes fundos operam na conservação global.

Por outro lado continuo a estimular a literacia mediática e a análise de financiamento, levando os Alunos a questionar quem financia a conservação global e quais as motivações por trás desses investimentos, o que ajuda a construir uma visão mais madura, pragmática e menos idealizada do ativismo ambiental contemporâneo.

Não invalidando o valor científico e o alerta ecológico presentes em documentários como Before the Flood ou Virunga, que continuam a ser factualmente válidos e urgentes, continuarei a denunciar a enorme pegada de carbono associada ao modelo de negócio da Amazon, da produtora de DiCaprio, aos voos em jatos privados e ao estilo de vida das elites globais.

Ao estruturar essa denúncia e debate com os alunos, sobressaem vários eixos críticos fundamentais.

O primeiro foca-se na tensão entre democracia e poder oligárquico, promovendo uma discussão sobre como super-ricos, como Jeff Bezos, Bill Gates, DiCaprio ou Elon Musk, usam fundações privadas para definir a agenda pública global na saúde, educação e ambiente sem prestação de contas, legitimidade democrática ou voto dos cidadãos.

O segundo eixo aborda as isenções fiscais e acumulação, expondo a contradição entre a evasão ou otimização fiscal praticada por grandes corporações - que retira receitas fiscais aos Estados para serviços públicos - e a subsequente "doação" de uma fração dessa riqueza sob a forma de caridade dedutível nos impostos.

O terceiro ponto centra-se nas operações de relações públicas e washing, analisando o uso da filantropia de alto perfil como escudo mediático para limpar a reputação de modelos de negócio baseados na exploração laboral, extração intensiva de recursos ou emissões massivas de carbono.

Por fim, debate-se a imposição de soluções de mercado para problemas do mercado, criticando a tendência de tentar resolver crises ecológicas e sociais usando as mesmas ferramentas e lógicas económicas que geraram essas crises, em vez de promover reformas estruturais ou regulatórias profundas.

Para fundamentar esta análise crítica em termos teóricos e jornalísticos, destaco as obras de referência como:
1. "Winners Take All: The Elite Charade of Changing the World", de Anand Giridharadas, que oferece uma das críticas mais diretas ao filantrocapitalismo contemporâneo
3 . "The Charitable-Industrial Complex", ensaio escrito por Peter Buffett (filho de Warren Buffett), no qual denuncia o "lavatório de consciência" promovido pelas elites globais.

Ler mais:
A ilusão verde de Hollywood: o paradoxal império de Leonardo DiCaprio

Suede - Saturday Night

Melhor som aqui

Letra
[verse 1]
Today she's been walking
She's been talking
She's been smoking
It's gonna be alright
'Cause tonight we'll go dancing
We'll go laughing
We'll get car sick

[verse 2]
And it'll be okay like everyone says
It'll be alright and ever so nice
We're going out tonight
Out and about tonight

[refrão]
Oh, whatever makes her happy
On a Saturday night
Oh, whatever makes her happy
Whatever makes it alright

[verse 3]
Today she's been sat there
Sat there in a black chair
Office furniture
It'll be alright
'Cause tonight we'll go drinking
We'll do silly things
And never let the winter in

[verse 2]

[refrão]

[verse 4]
We'll go to freak shows and peepshows
We'll go to discos, casinos
We'll go where people go and let go

[refrão] 2X

Oh oh
La la la la la la (5X)

A cidade subterrânea e a poética do escapismo em "Saturday Night"
O videoclipe de "Saturday Night", dirigido por Pedro Romhanyi e rodado nos túneis e plataformas do metro de Londres - com destaque para a icónica e desativada estação de Aldwych e alusões a Holborn-, funciona como uma alegoria perfeita sobre a alienação e a solidão nas metrópoles contemporâneas. Toda a narrativa visual constrói um contraste marcante entre o anseio coletivo de festa e celebração associado ao sábado à noite e a crua realidade do isolamento urbano. No centro deste cenário subterrâneo, o vocalista Brett Anderson assume o papel de um flâneur baudelaireano modernizado: um observador poético e solitário que deambula pelas carruagens e corredores de betão, testemunhando a existência de diversas figuras à deriva. Ao longo do percurso, a câmara cruza-se com casais em momentos de intimidade, trabalhadores exaustos, um idoso a carregar um peixe num saco de plástico e jovens imersos numa festa improvisada. Cada uma destas imagens traduz a busca desesperada por pequenos fragmentos de felicidade, afeição ou evasão, refletindo a premissa central da canção de anestesiar a rotina e o peso da vida quotidiana através do hedonismo noturno.

Esta reflexão sobre a melancolia e o escapismo urbano ganhou forma com o lançamento original do tema no aclamado álbum Coming Up, editado a 2 de setembro de 1996, tendo sido posteriormente lançado como o terceiro single do disco a 13 de janeiro de 1997 pela Nude Records. Mais do que uma simples balada de pop-rock, a escrita de Brett Anderson em "Saturday Night" assenta num denso substrato literário e filosófico. A canção dialoga diretamente com o Existencialismo e o Absurdismo de Jean-Paul Sartre e Albert Camus, retratando a tentativa de conferir sentido à existência através do prazer e da evasão temporária diante do vazio da vida moderna. Da mesma forma, a influência do escritor J.G. Ballard é evidente na psicogeografia do videoclipe, onde os transportes subterrâneos e a arquitetura pós-industrial se tornam símbolos da alienação humana. Por fim, a estética decadente da banda inspira-se no romantismo trágico e na ironia de Oscar Wilde, consolidando "Saturday Night" como uma celebração trágica e melancólica do quotidiano nas margens da grande cidade.

A assinatura singular dos Suede: quando a herança transforma-se em identidade
As grandes bandas da história da música raramente surgem num vácuo cultural. A verdadeira originalidade não reside na invenção de uma linguagem inteiramente sem antecedentes, mas sim na capacidade de reunir referências díspares, filtrá-las através de uma vivência própria e devolvê-las ao mundo sob a forma de uma assinatura artística inconfundível. No caso dos Suede, embora a sombra lírica de David Bowie, o romantismo dramático dos The Smiths e a densidade atmosférica do post-punk dos anos 80 estejam presentes no seu ADN, a banda britânica construiu um universo estético e sonoro genuinamente único, que redefiniu o panorama do rock alternativo nos anos 90.

No início dessa década, numa altura em que a cena musical do Reino Unido se encontrava refém do grunge americano e desprovida de uma identidade própria, os Suede irromperam como o catalisador de uma revolução. Eles foram os verdadeiros arquitetos do movimento que mais tarde viria a ser batizado de Britpop, resgatando a essência e a urgência da cultura urbana britânica antes de qualquer outra banda da sua geração. Contudo, enquanto os seus pares versavam sobre o quotidiano da classe trabalhadora com tom satírico ou festivo, a escrita de Brett Anderson fundou um léxico poético singular, frequentemente apelidado de gutter glamour. Anderson transformou a sordidez dos subúrbios cinzentos, a ambiguidade sexual, a decadência das noites de aluguer, o consumo de drogas e o romance trágico dos marginalizados em autênticas odes orquestradas e melodramáticas.

Essa poeticidade decadente encontrou a sua tradução musical perfeita na simbiose entre a vocalidade visceral de Anderson e a arquitetura de guitarra de Bernard Butler nos primeiros discos, e mais tarde na energia vibrante de Richard Oakes. Os Suede refundiram a agressividade áspera das guitarras do post-punk com a grandiosidade e o brilho do glam rock, criando paredes de som dramáticas e melodias de uma sensibilidade pop angustiada que não tinham paralelo na época. O resultado foi uma discografia coesa e marcante - desde a densidade concetual de Dog Man Star ao imediatismo efervescente de Coming Up -, que provou que os Suede não eram uma mera soma das suas influências, mas sim uma das vozes mais originais, audazes e influentes da história do rock britânico.

sábado, 8 de agosto de 2026

No mundo dos pássaros, as fêmeas têm vidas mais curtas do que os machos. Mas não se sabe bem porquê



A conclusão é de uma investigação que analisou dados sobre a longevidade de 92 espécies de aves das ordens dos Passeriformes e dos Piciformes (que inclui os pica-paus), recolhidos entre 1992 e 2018 nos Estados Unidos da América e no Canadá.
Ao contrário do que, regra geral, acontece nos mamíferos, em que as fêmeas tendem a viver mais do que os machos, no mundo dos pássaros elas têm vidas mais curtas do que eles.

A conclusão é de uma investigação que analisou dados sobre a longevidade de 92 espécies de aves das ordens dos Passeriformes e dos Piciformes (que inclui os pica-paus), recolhidos entre 1992 e 2018 nos Estados Unidos da América e no Canadá.

Num artigo publicado na revista ‘Proceedings of the Royal Society B’, os cientistas dizem ter percebido que, em média, as fêmeas de 35 espécies apresentam, depois de atingirem a idade adulta, uma taxa de sobrevivência 12,4% inferior à dos machos da mesma espécie.

“O que me pareceu interessante foi o facto de este padrão ser consistente em muitos tipos diferentes de aves, de papa-moscas e toutinegras a cardeais e tanagrídeos”, diz Joanna Wu, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e primeira autora do estudo.

A sobrevivência na vida adulta é fortemente influenciada por fatores como gastos de energia e outros custos biológicos associados à reprodução, ao movimento e à competição por recursos. As migrações exigem muito em termos energéticos e expõem as aves a predadores e ao risco de ferimentos. Quando não estão em viagem, as aves têm de defender o seu território e os seus recursos.

Para as fêmeas, os custos acrescidos associados à produção e postura de ovos são mais um fator de pressão, ainda que o cuidado das crias possa, dependendo das espécies, ser partilhado pelos dois progenitores.

Ao olharem para as várias décadas de dados em mãos, os investigadores perceberam que os machos têm taxas de sobrevivência mais elevadas tanto em espécies migradoras como não migradoras, embora sejam maiores em migradores de longas distâncias. Além disso, percebeu-se que nas espécies com asas mais pontiagudas os machos também tendem a viver mais que as fêmeas, algo que também se constatou em machos com níveis mais altos de gordura corporal.

A equipa reconhece que, além desses aspetos, não conseguiram, para já, encontrar uma explicação clara para as diferenças entre machos e fêmeas no que toca à longevidade. Ainda assim, há algumas hipóteses em cima da mesa, e uma delas tem a ver com a genética.

A hipótese cromossómica
Nos mamíferos, as fêmeas têm duas cópias do mesmo cromossoma sexual - XX - e os machos têm dois cromossomas sexuais diferentes - XY. Como explicam os investigadores, isso significa que se um dos cromossomas tiver algum gene defeituoso, as fêmeas têm um “substituto”, mas os machos não.

Nos machos humanos (ou seja, nos homens), problemas nos cromossomas sexuais e falta de um “plano B” estão associados a uma maior suscetibilidade, por exemplo, a doenças cardíacas e cancro à medida que o avanço da idade faz degenerar o cromossoma Y.

Por isso, há cientistas que consideram haver uma relação entre a longevidade e o par de cromossomas sexuais. Contudo, nas aves esses cromossomas estão invertidos: as fêmeas têm XY e os machos XX.

“Nas aves, ao contrário dos mamíferos, são as fêmeas que transportam dois cromossomas diferentes, enquanto os machos carregam dois do mesmo”, diz Wu. “Isto pode ser mais uma prova que associa o cromossoma sexual a uma menor longevidade nas aves fêmeas, mas essa é uma questão que ainda não investigámos diretamente”, acrescenta.

A investigadora diz que investigações futuras devem também tentar perceber se existe alguma relação entre a reduzida longevidade das aves fêmeas e o declínio acentuado de várias populações de aves que está a ocorrer pelo mundo fora.

“Se as fêmeas se tiverem já reproduzido com sucesso antes de morrerem, o facto de as suas vidas serem mais curtas não faz grande diferença. Mas não sabemos ainda se é esse o caso ou não”, explica.

“Sabemos que a perda de habitat e as alterações climáticas são os principais culpados, mas queremos perceber se esses fatores podem estar a tornar a sobrevivência ainda mais difícil para as fêmeas do que para os machos, num mundo que os humanos estão a transformar rapidamente.”

Foto: Tartaranhão-caçador (Circus pygargus)