domingo, 11 de outubro de 2026

O desafio da Educação Ambiental na era digital: como desconstruir a bolha virtual e os seus epifenómenos


O meu profundo conhecimento das subculturas juvenis dos anos 80 e 90 - como os góticos, punks e metaleiros - foi fundamental para a minha caminhada. Eram movimentos que se destacavam por ser abertamente antirracistas e livres de homofobia, transfobia, idadismo ou gordofobia. Já na viragem para a década de 90, acompanhei de perto as dificuldades da terceira geração de imigrantes dos países lusófonos, marcada pelo preconceito, pela falta de mobilidade social e pela marginalização.

Hoje, com 40 anos de atividade enquanto Educador Ambiental, continuo a priorizar o contacto direto no terreno com as dúvidas, inquietações e dinâmicas dos jovens, onde a realidade do nosso tempo se espelha de forma genuína. No entanto, confesso que na era digital este trabalho é significativamente mais desgastante. Enfrentamos uma juventude visivelmente mais conservadora, o crescimento da machosfera, a atração por líderes autoritários e a manifestação aberta do racismo, da desigualdade social e do discurso de ódio. Reconhecer e intervir nestas contradições é crucial para combater a masculinidade tóxica, desconstruir preconceitos e transformar a mercantilização das mentes em cidadania ativa.

O meu compromisso passa por desenvolver uma pedagogia viva assente na Carta da Terra, nos tratados internacionais de conservação da Natureza e nos Direitos Humanos. Através de visitas de estudo, ciência cidadã e vivências transformadoras, ligamos a justiça socioambiental ao respeito pela diversidade, criando um espaço seguro onde as angústias da juventude possam ser canalizadas para um rumo eco-pacifista e uma esperança regeneradora.

É precisamente por isso que considero fundamental a leitura da obra "Carta à Terra – e a Terra responde", da economista e ativista francesa Geneviève Azam. Lançado originalmente em 2019 e editado em plena pandemia, este livro já alertava para os perigos do solucionismo tecnológico e para a aceleração de uma era digital que nos afasta do mundo sensível, com graves consequências na degradação das relações humanas e ambientais.

Azam desenvolve uma crítica severa ao capitalismo verde e à ilusão tecnocrática de que a crise ecológica se resolve com meras leis de mercado. Rejeitando a ideia de uma Natureza passiva ou inerte, a autora apresenta o planeta como um organismo vivo e rebelde que reage às agressões humanas através de catástrofes climáticas e colapsos ecológicos. Num apelo premente à resistência política, à sensibilidade e à desobediência civil, a obra propõe um novo modo de habitar o mundo.

Esta edição  fica ainda mais enriquecida com o prefácio do líder e pensador indígena brasileiro Ailton Krenak, que constrói uma ponte entre o pensamento crítico de Azam e a cosmovisão ancestral dos povos originários. Krenak denuncia o erro da sociedade ocidental moderna de se descolar do corpo da Terra para criar a ilusão de um domínio ilimitado. Ridicularizando a obsessão tecnocrática de colonizar outros planetas enquanto destruímos a nossa própria casa, Krenak relembra-nos que o amanhã não está à venda e que a nossa sobrevivência depende de recuperar a escuta, o afeto e a comunhão com o território.

Esta obra torna-se, assim, uma leitura urgente para quem trabalha com as novas gerações. Ela valida e fundamenta a necessidade de retirar os jovens da bolha digital, reconectando-os sensorialmente com a Natureza e capacitando-os para transformar a crise contemporânea numa cidadania empática, ativa e regeneradora.

No seu pequeno-almoço, comeu um pão de alfarroba? A história do superalimento português votado ao esquecimento

No seu pequeno-almoço de hoje, comeu um pão de alfarroba? Se a resposta foi afirmativa, pertence a um número diminuto - e não crescente - de portugueses que consome e valoriza esta iguaria. A grande ironia é que, enquanto esse pão é comercializado quase como um produto de nicho ou exclusivo, toneladas do mesmo fruto apodrecem pelos campos do nosso país por falta de valorização no mercado nacional.

Quem percorre o barrocal algarvio ou as paisagens secas do Alentejo está habituado à silhueta imponente da alfarrobeira (Ceratonia siliqua). Durante séculos, a alfarroba fez parte do quotidiano rural do Sul de Portugal. Fruto escuro, rijo e de aroma adocicado, foi durante muito tempo visto como uma cultura de subsistência - alimento para os animais de tração, recurso em tempos de escassez e uma modesta fonte de rendimento complementar para as famílias agrícolas.

Contudo, nas últimas décadas, a perceção sobre este fruto sofreu uma transformação radical. A alfarroba passou de "comida de animais" a "ouro negro da agricultura portuguesa". O seu preço por quilo atingiu máximos históricos e a expetativa em redor desta cultura parecia ilimitada. Hoje, porém, assistimos ao colapso dessa ilusão. O mercado ruiu, o preço pago ao produtor desabou e toneladas de alfarroba ficam a apodrecer debaixo das árvores ou acabam utilizadas como simples estrume. Como é que um fruto com um valor nutricional excecional e um potencial económico gigante foi, em tão pouco tempo, votado ao quase esquecimento?

Sob o ponto de vista nutricional, a alfarroba é uma verdadeira preciosidade vegetal e apresenta-se como a alternativa ecológica perfeita ao cacau. A polpa da alfarroba contém entre 40% a 50% de açúcares naturais (frutose, glicose e sacarose), o que permite a sua utilização na doçaria e na panificação sem a necessidade de adicionar açúcares refinados em excesso. Ao contrário do cacau, não contém teobromina nem cafeína, sendo uma opção ideal para crianças, grávidas ou pessoas sensíveis a estimulantes. Além disso, é uma fonte extraordinária de fibra solúvel e insolúvel, auxilia na regulação intestinal e contém elevados níveis de polifenóis antioxidantes, apresentando simultaneamente um teor de gordura naturalmente muito baixo. A juntar a isto, a pegada ecológica da alfarrobeira é incomparavelmente menor que a do cacaueiro, tratando-se de uma árvore extremamente resistente à seca e perfeitamente adaptada ao clima mediterrânico.

Para compreender o colapso do mercado, é preciso desmistificar o valor económico da alfarroba. A grande tragédia deste fruto reside no facto de a indústria nunca ter estado verdadeiramente interessada na sua deliciosa polpa - que representa cerca de 85% a 90% do peso do fruto -, mas sim no seu caroço. As sementes representam apenas uma pequena fração do peso total, mas é delas que se extrai a goma de alfarroba, identificada na indústria alimentar com o código de aditivo E-410. Este ingrediente é um dos espessantes, emulsionantes e estabilizadores naturais mais valiosos do mundo, estando presente numa infinidade de produtos como gelados, molhos, iogurtes, comida para bebés, produtos farmacêuticos e cosméticos. Aqui instala-se a grande ironia: enquanto as multinacionais disputavam o caroço a peso de ouro para garantir o E-410, toneladas de polpa rica em nutrientes ficavam sem destino comercial claro, sendo desvalorizadas ou simplesmente desperdiçadas.

O auge desta instabilidade socioeconómica registou-se no contexto da pandemia de COVID-19. A crise sanitária internacional provocou ruturas graves nas cadeias globais de abastecimento e na logística marítima, levando a indústria agroalimentar a procurar assegurar agressivamente stocks de aditivos e estabilizadores cruciais. Esta escassez conjuntural gerou um pico especulativo no mercado da alfarroba em Portugal, onde o valor pago ao produtor atingiu patamares históricos - superando, em determinados momentos, os 2,50€ a 3,00€ por quilo -, o que motivou corridas à apanha e uma expetativa irrealista sobre a rentabilidade futura do setor.

Contudo, tratou-se de um fenómeno puramente conjuntural e desprovido de sustentabilidade estrutural. Com a normalização das rotas comerciais pós-pandemia, a pressão sobre os stocks de matérias-primas cedeu e a procura industrial regressou a níveis padronizados. Pressionada pelos custos elevados do aditivo E-410 durante a fase de escassez, a própria indústria alimentar reformulou vários dos seus produtos, substituindo a goma de alfarroba por alternativas sintéticas ou hidrocoloides mais económicos, como a goma de guar, a xantana ou amidos modificados. Sem a procura inflacionada pelo E-410, a cotação da alfarroba entrou em queda livre e a margem paga ao produtor desceu para patamares que inviabilizam financeiramente o custo da mão de obra necessária para a apanha manual.

Hoje, a realidade no campo é desalentadora. Em muitas explorações agrícolas do Sul do país, os agricultores optam por nem sequer colher o fruto. A alfarroba fica a apodrecer no chão ou é triturada para servir de fertilizante e estrume para o solo. É o fecho de um ciclo doloroso: um superalimento de valor inestimável reduzido a composto orgânico por incapacidade de valorização do mercado nacional. A história da alfarroba em Portugal é o reflexo de um modelo agrícola e industrial cego ao valor real dos seus recursos. Enquanto continuarmos a olhar para a alfarroba apenas como um fornecedor de aditivos químicos para a indústria transformadora estrangeira, ficaremos sempre reféns das oscilações dos mercados internacionais.

O futuro da alfarroba passa, inevitavelmente, pelo investimento na valorização da polpa: na criação de farinhas de alta qualidade, no desenvolvimento da panificação e doçaria saudável, na indústria de bebidas e na afirmação da alfarroba como uma alternativa ecológica e ética ao cacau. Até lá, continuaremos a assistir ao triste espetáculo de ver o nosso "ouro negro" a decompor-se na terra, à espera que a indústria se lembre, uma vez mais, de como ele é valioso.

sábado, 10 de outubro de 2026

Do Punk ao Techno: memórias de como era viver a noite e a contracultura dos anos 80 e 90


Recordo-me sempre e tenho orgulho de ter vivenciado talvez uma das épocas mais felizes, depois de ouvir falar, na altura, dos anos 60 e em particular do Maio de 68. Absorvíamos um pouco de tudo: música gótica, metaleira, música de pista de dança, música clássica. Aqui em Portugal, os bares e discotecas tinham seguranças e formavam-se filas para entrar; no entanto, alguém conhecido do segurança entrava logo, criando desconforto e indignação. Ao passo que em Espanha era tudo aberto. O pessoal bebia, falava num bar e entrava noutro, num circuito aberto. 

Nesta época fui membro de uma banda de garagem gótica, inspirada sobretudo nos The Cure, Joy Division, The Chameleons, Einstürzende Neubauten, Virgin Prunes e In The Nursery (bebíamos também um pouco de The Fall). Chamava-se Lilás Postes Mórbidos.

Nos anos 80, o pós-punk, o goth, o new wave e a música industrial ergueram-se não apenas como géneros musicais, mas como verdadeiras armaduras existenciais. As pistas de dança dos bares e clubes alternativos cheiravam a fumo denso de cigarro, laca e suor. Dançava-se de forma introspectiva e solitária, envolto em gabardinas escuras, cabelos esculpidos a spray e botas pesadas, num ambiente dominado pelo niilismo e pela penumbra. 

A ética do Do It Yourself (DIY) era verdadeiramente o coração pulsante da cena, sobretudo entre punks, góticos e metaleiros. Num Portugal onde a oferta de roupa alternativa era escassa ou proibitivamente cara - sem fast fashion, lojas online ou encomendas à distância de um clique -, pertencer ao underground exigia tanta criatividade manual quanto devoção musical.

As t-shirts pretas de algodão barato tornavam-se telas em branco. Usava-se tinta de tecido, lixívia para criar padrões manchados e escorridos, stencils feitos à mão em radiografias velhas ou cartão, e giletes para cortar golas e mangas. Os casacos de cabedal ou de ganga eram autênticas obras de arte em construção permanente: pintavam-se os logótipos das bandas com pincéis finos, cravavam-se picos e tachas comprados em retrosarias, e cosiam-se remendos (patches) feitos a partir de restos de tecido e marcadores permanentes. As correntes vinham muitas vezes do hardware ou de ferragens de construção civil, e os alfinetes de dama serviam tanto para segurar rasgões como para afirmar uma estética.

Havia também um ecossistema económico e social paralelo. Nas poucas feiras de rua, mercados de velharias, concertos em garagens ou em pequenos festivais locais, surgiam bancas improvisadas em panos estendidos no chão. Aí vendiam-se e trocavam-se t-shirts personalizadas, pendentes em estanho ou cabedal, pins artesanais, cassetes gravadas com capas desenhadas à mão (tape trading) e fanzines fotocopiadas em papel de fraca gramagem. A troca não era apenas material; era a forma primordial de criar redes de contactos. Mudar de cidade ou ir a um concerto noutro ponto do país significava levar a mochila cheia de material para vender ou trocar por algo que não se conseguia encontrar na própria terra.

Essa dimensão artesanal garantia que quase ninguém vestia a mesma peça. A identidade não se comprava feita numa prateleira; construía-se com paciência, cheiro a tinta, agulhas picadas nos dedos e muitas horas passadas no quarto a aperfeiçoar a estética da sua própria tribo.

Sem a facilidade dos ecrãs, a logística de todo este ecossistema assentava em redes orgânicas e analógicas. Para saber onde era a festa ou o concerto da noite, dependia-se do passa-palavra, do papel fotocopiado dos flyers distribuídos à porta das lojas de discos ou nas faculdades, e da sintonização em emissoras de rádio piratas e programas de autor. Como era impossível avisar de um atraso no caminho, os pontos de encontro tinham de ser cumpridos com pontualidade rigorosa. Se alguém falhasse no local combinado, perdia a pista do resto do grupo até à manhã seguinte.

Acima de tudo, sair à noite nessa época significava viver no presente absoluto. Ao cruzar a porta de casa, cada pessoa desaparecia do radar do mundo convencional, usufruindo de uma liberdade radical na invisibilidade. Não havia o registo compulsivo do momento, nem fotografias instantâneas para alimentar expectativas alheias. As raras imagens eram captadas por máquinas descartáveis e o resultado só era revelado semanas mais tarde. A verdadeira prova de uma noite lendária ficava guardada no zumbido persistente nos ouvidos ao amanhecer, nos bilhetes de autocarro amarrotados nos bolsos e na pertença visceral a uma tribo urbana que partilhava a mesma margem do mundo

Entretanto, fiz rádio, numa altura em que houve um boom de rádios clandestinas. A banda, o círculo de amigos underground (dentro e fora da Faculdade) e a rádio foram relevantes em termos pessoais. Foi uma fase em que precisava mesmo disso, pois fatalmente faleceu, com 42 anos, a minha irmã mais velha. Tinha 22 anos. 

Sabíamos e ouvíamos falar da Movida espanhola. Quantas vezes preferia ir a Santiago de Compostela curtir a noite do que ficar no Porto. Sucede que um grupo de galegos, em conversa, nos sugeriu ir até Madrid. Bora lá, nem hesitámos. Durante as 5 horas de viagem, era a desbunda total. De tudo falámos e tudo cantámos juntos. O inglês dos espanhóis era sofrível e ríamo-nos muito. Qual cancel culture, virtue signaling, wokismo e outras "moralidades" da era digital. Não existiam, nem imaginávamos nada disso. Puramente diversão, muita filosofia on the road, falávamos dos escritores e realizadores que partilhávamos em comum e pouco mais.

Com a viragem para os anos 90, iniciaram-se nas vagas divergentes e, ao mesmo tempo, de contracultura: o techno, o grunge e o rap. 

La Cabra resume um pouco tudo o que atrás descrevi. Quando foi lançada, em 1993, uniu toda a juventude da época (desde os adolescentes até aos que, como eu, já estavam a entrar nos 26-27 anos). O seu único objetivo é a sátira social, o humor escrachado e a provocação irreverente. Antes de se tornar uma faixa eletrónica dos The Farmlopez, esta letra já pertencia ao cancioneiro popular anónimo de Espanha. Era o tipo de música cantada em viagens de autocarro, festas de aldeia, casamentos e tunas académicas. O significado prático da canção é ser um hino de folia e desbunda (el desmadre), feito especificamente para as pessoas cantarem juntas quando já consumiram algum álcool e querem apenas festejar sem pensar em regras.

O Nobel da Paz 2026: A Pós-Verdade de Donald Trump

“Navi” Pillay, que hoje já toda a gente conhece por ter merecido o Nobel da Paz, é uma verdadeira heroína do Direito Internacional e da ordem mundial. Veio de origens muito humildes, e aprendeu cedo que os valores da ética comportamental e da solidariedade genuína chegam longe, e compensam - havendo resiliência e realismo. Doutora em Direito, seguiu um percurso absolutamente admirável na defesa dos Direitos Humanos em todos os campos, desde o anti-apartheid ao feminismo, passando pelos LGBT e pelas minorias étnicas. De louvar a sua passagem pelo Tribunal Penal Internacional, pilar das legalidades internacionais, especialista em crimes de guerra, crimes terroristas, crimes contra a Humanidade, limpezas étnicas, genocídios, assumiu um papel vital na avaliação do genocídio no Ruanda. Ainda hoje labora sobre casos gravíssimos como o de Mianmar, e emitiu ditâmes vitais sobre o genocídio uigur. [Fonte]

1.Tudo sobre Navanethem Pillay
2. Página oficial

A reação de Trump foi quase imediata. No mesmo dia, 9 de outubro, a administração de Donald Trump impôs sanções financeiras diretas e uma proibição de transações contra o Tribunal Penal Internacional (TPI), que Washington tem acusado repetidamente de “ações politizadas” e de “visar Israel”. O Secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, justificou a medida afirmando que os Estados Unidos não estão sujeitos à jurisdição da instituição. “Vamos proibir transações com este tribunal à margem da lei, cortando-lhe os recursos e impedindo-o de atuar contra nós”, afirmou Rubio numa mensagem em vídeo partilhada nas redes sociais. “A nossa mensagem é clara: os Estados Unidos e o povo americano não estão sujeitos à jurisdição deste falso TPI”, acrescentou.

Durante a noite, o presidente norte-americano, Donald Trump, lançou um longo e duro ataque à decisão de atribuir o Prémio Nobel da Paz à jurista sul-africana Navanethem “Navi” Pillay.

Numa publicação na rede social Truth Social, Trump qualificou a decisão como uma “mancha indelével para a Noruega”, desvalorizou a carreira de Pillay e enalteceu o seu próprio percurso diplomático.

“Não sei nada sobre esta mulher, e ninguém sabe! Aliás, tanto quanto sei, ninguém alguma vez ouviu falar dela, a não ser pelo facto de, de forma muito evidente, odiar Israel”, escreveu, acrescentando: “Não sei o que é que essa mulher fez.”

Afirmou ainda que “deveria ter ganho 8 Prémios Nobel da Paz” por ter “resolvido 8 guerras” e disse que, em breve, vai “resolver, ou vencer, mais duas”, numa referência às guerras no Irão e na Ucrânia.

Trump enumerou os conflitos que diz ter “resolvido”: Camboja e Tailândia, Kosovo e Sérvia, República Democrática do Congo e Ruanda, Paquistão e Índia, Israel e Irão, Egito e Etiópia, Arménia e Azerbaijão, e Israel e Hamas.

Cada vez mais irritado, Trump continuou a detalhar aquilo que considera serem os seus feitos, antes de retomar o ataque a Pillay, que descreveu como “uma liberal que trabalha nas Nações Unidas”.

“O Prémio Nobel da ‘Paz’ ficou desacreditado para sempre por um punhado de ideólogos radicais, antidemocráticos e inimigos da civilização!”, concluiu.

A publicação surgiu depois do presidente já ter criticado a decisão, num comício de campanha em Syracuse, Nova Iorque, na sexta-feira, onde a classificou como “vergonhosa e embaraçosa”.


Esta narrativa presidencial encontra, contudo, forte resistência e desmentido dentro da própria política norte-americana. Já em 3 de março, a senadora Elizabeth Warren afirmou categoricamente: «Nenhum presidente americano ordenou mais ataques militares contra tantos países diferentes como Donald Trump.»


A senadora Elizabeth Warren, democrata de Massachusetts, é uma crítica do historial militar do presidente Donald Trump e da sua decisão de atacar países do Médio Oriente, de partes de África e da Venezuela sem a aprovação do Congresso. Num discurso no Plenário do Senado, Warren criticou as explicações de Trump para iniciar a guerra contra o Irão e por recuar numa promessa de campanha.

"Ele disse que seria um presidente para acabar com guerras, não para as começar. E os americanos acreditaram nele. Mas agora enfrentamos uma realidade feia: na era moderna, nenhum presidente americano ordenou mais ataques militares contra tantos países diferentes como Donald Trump", disse Warren a 3 de março. "Nenhum."

Perguntámo-nos se a declaração de Warren era precisa e como é que ela define a "era moderna". Quando contactámos o gabinete de Warren em busca de provas que apoiassem a sua afirmação, um porta-voz enviou ao PolitiFact várias notícias, incluindo:
  • Um artigo do Axios de 2 de março, com uma abertura que coincide quase na totalidade com a declaração de Warren: "Nenhum presidente na era moderna ordenou mais ataques militares contra tantos países diferentes como Donald Trump." O artigo do Axios define "era moderna" como os presidentes pós-11 de setembro: George W. Bush, Barack Obama, Trump e Joe Biden.
  • Um artigo do The Washington Post sobre os ataques militares de Trump em 2025, incluindo os dirigidos a alegados traficantes de droga no Caraíbas e no Pacífico Oriental. O Post reportou que Trump autorizou quase tantos ataques militares em 2025 quantos Biden autorizou ao longo do seu mandato de quatro anos.
  • Um gráfico no Instagram publicado pelo The Recount, um órgão de comunicação focado em política, que lista vários países, inclusive no Médio Oriente, África e Venezuela, juntamente com os rostos dos presidentes do século XXI que ordenaram bombardeamentos nesses locais; o rosto de Trump aparece ao lado de cada país. O órgão partilhou o gráfico a 28 de fevereiro, após Trump ter anunciado os ataques dos EUA e de Israel contra o Irão.
Após rever estas fontes e reportagens adicionais, concluímos que Trump autorizou o maior número de ataques e teve como alvo o maior número de países em comparação com outros presidentes do século XXI.

Países visados por presidente
Afinal, quantos países visou cada presidente com ataques militares?
A contagem de Trump é a mais elevada, de acordo com diversas fontes de informação.
  • Desde o início do seu primeiro mandato até ao presente, Trump atacou 10 países. Desde o início do seu segundo mandato, em janeiro de 2025, atacou sete países, além de embarcações no Mar das Caraíbas e no Oceano Pacífico Oriental.
  • Os ataques militares de Biden atingiram 5 países.
  • Os ataques de Obama atingiram 7 países ao longo de dois mandatos.
  • Os ataques de Bush atingiram 5 países ao longo de dois mandatos.
Para enquadramento, Bush iniciou guerras de longa duração no Afeganistão e no Iraque após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Obama terminou a operação militar no Iraque em 2011, mas introduziu novas operações militares no Iraque e na Síria após a ascensão do Estado Islâmico. A guerra no Afeganistão continuou ao longo do primeiro mandato de Trump, tendo Biden posto fim à mesma — no meio de uma retirada caótica e de um atentado bombista suicida que vitimou 13 militares norte-americanos - em 2021.

A maioria dos ataques militares dos presidentes esteve focada no combate ao terrorismo, incluindo os ataques de Trump em 2025 contra grupos como o Estado Islâmico na Síria e os Houthi, um grupo militar apoiado pelo Irão no Iémen, de acordo com o Council on Foreign Relations.

Eis os países visados por cada presidente:
  1. Trump: Afeganistão, Iraque, Iémen, Paquistão, Somália, Líbia, Síria, Venezuela, Nigéria, Irão.
  2. Biden: Afeganistão, Iraque, Somália, Síria, Iémen.
  3. Obama: Afeganistão, Iraque, Paquistão, Somália, Iémen, Líbia, Síria.
  4. Bush: Afeganistão, Iraque, Iémen, Paquistão, Somália.
Mark Cancian, conselheiro sénior do Departamento de Defesa e Segurança do Center for Strategic and International Studies, afirmou que os países visados não foram uma surpresa, mesmo que as táticas de Trump o tenham sido. Por exemplo, há vários anos que os presidentes criticavam o Irão e a Venezuela.

"Tem sido imprevisível, embora os seus alvos venham a ser debatidos há muito tempo, tanto por ele como por presidentes anteriores", disse Cancian.

Cancian recomendou analisar o número de tropas terrestres em zonas de combate como uma métrica mais reveladora do uso da força militar por parte de um presidente.

Trump tem- até agora- mantido as atividades militares maioritariamente limitadas a ataques aéreos. Cancian observou que a Guerra do Golfo em 1991 e a invasão do Iraque em 2003 foram operações militares de dimensão muito superior em comparação com as ações de Trump no Iémen, na Venezuela e no Irão. Os EUA destacaram mais de 150 000 tropas no início da invasão do Iraque.

E quanto ao número total de ataques?
Warren mencionou "mais ataques militares contra tantos países diferentes", pelo que comparámos os números de ataques efetuados pelos presidentes.

Os ataques militares englobam várias táticas, incluindo ataques com drones não tripulados, mísseis de precisão e ataques aéreos, que exigem o lançamento de bombas ou mísseis balísticos a partir de aeronaves pilotadas.

Durante o seu primeiro mandato, Trump aumentou drasticamente os ataques aéreos na Somália e no Iémen em comparação com Obama, que já tinha aumentado significativamente os ataques a essas nações durante a sua presidência.

Trump realizou mais ataques com drones durante o seu primeiro mandato do que cada uma das presidências de Obama e Bush na sua totalidade.

Em 2017, Trump autorizou mais de 10 000 bombardeamentos adicionais no Iraque, Síria e Afeganistão do que Obama e Bush autorizaram nos respetivos anos de maior atividade militar (2016 e 2003), segundo o Comando Central das Forças Aéreas dos EUA.

Biden esteve envolvido na menor quantidade de atividade militar, autorizando 694 ataques aéreos e com drones durante o seu mandato de quatro anos - significativamente menos do que no primeiro mandato de Trump e ligeiramente mais do que o número de ataques de Trump em 2025.

Veredicto do PolitiFact
Warren afirmou: "Na era moderna, nenhum presidente americano ordenou mais ataques militares contra tantos países diferentes como Donald Trump."

Desde o início do seu primeiro mandato até ao presente, Trump ordenou ataques em 10 países, o que representa mais três do que o presidente seguinte com a contagem mais alta no século XXI, Obama.

O Boicote à agressividade digital: por que devemos tirar o palco à provocação nos Media


A praça pública digital virou palco de uma agressividade orquestrada: figuras como Joaquim Vieira ou Henrique Raposo vivem da provocação barata, confundindo truculência com coragem intelectual. Sentindo-se impunes, assumem uma atitude de vigilância ideológica e atuam como puros arrivistas, invadindo ativamente as publicações de terceiros para atacar, caluniar e alimentar o próprio ego à custa do espaço alheio. O objetivo é claro: procurar a paralisia, o desgaste e a intimidação psicológica de quem defende valores humanistas, recuperando táticas que evocam o passado autoritário e pidesco.

Contudo, este espetáculo só subsiste enquanto lhe dermos palco e audiência. O fim deste assédio começa no momento em que cortamos o acesso e boicotamos os canais que os sustentam e financiam. Há muito tempo que cancelei a assinatura digital do Público e rejeito assinar o Observador, recusando alimentar uma máquina que vive da indignação calculada, de constante desinformação, terror psicológico, ataques ad hominem e promovem o discurso neossalazarista e alt-right portuguesa.

Para que estes intervenientes fiquem remetidos ao seu próprio ecossistema, o boicote tem de se estender aos ecossistemas televisivos. Ao recusar assistir e ao desligar a emissão sempre que surgem nos canais de informação, baixamos as suas audiências e cortamos a sua relevância. 

Figuras e Comentadores da Direita e Combate Cultural no Panorama Mediático Português
Esta síntese organiza as principais figuras e comentadores do espectro da direita e do combate cultural em Portugal, agrupados pelo perfil, formato e tom de intervenção televisiva e mediática.

1. Formatos Solo e sem Contraditório Direto
Espaços de intervenção individual em canal aberto, programas próprios ou plataformas digitais onde o comentador expõe a sua análise política e económica sem debate ou oposição direta em estúdio:
  • Luís Marques Mendes (SIC) -  Análise política de fundo aos domingos em horário nobre, representativa da direita tradicional e institucional.
  • Paulo Portas (TVI / CNN Portugal) - Espaço semanal solo de análise geopolítica e política nacional com viés centro-direita.
  • Camilo Lourenço (A Cor do Dinheiro / Colunista do Observador) - Comentário diário no digital e colunas de opinião com forte foco na análise económica e crítica governamental.
  • Alberto Gonçalves (Podcast / Observador) - Espaço de intervenção focado na crítica incisiva ao politicamente correto, causas progressistas e políticas de esquerda.
  • José Gomes Ferreira (SIC Notícias) - Análise económica e financeira em canal de informação com estilo interventivo e de denúncia individual.
2. Doutrinadores e Colunistas da Direita Conservadora / Tradicional
Figuras de fundo ideológico e histórico que operam no jornalismo de opinião, em ensaios de combate cultural ou em espaços de comentário reflexivo:
  • Jaime Nogueira Pinto (Observador / Antena 1 / Participações televisivas) — Representante histórico do pensamento reacionário e conservador, com origens ideológicas na direita pré-25 de Abril; atua como referência doutrinária em análises de fundo, geopolítica e artigos de opinião.
  • Helena Matos (CNN Portugal) — Intervenção incisiva com foco no combate cultural e crítica ao ativismo progressista.
  • João Miguel Tavares (SIC Notícias / Podcast Cujo Nome Estamos Legalmente Impedidos de Dizer) - É uma das vozes mais ativas na crítica ao que define como obsessão da esquerda pelas questões de identidade (género, raça, linguagem inclusiva), traduzindo para o grande público a rejeição conservadora a essas causas.
  • Miguel Pinheiro (RTP3 e Rádio Observador)- ao contrário do tom inflamado de outros comentadores, adota um registo sóbrio e pedagógico. Isso traduz uma estratégia de legitimação: faz com que a leitura de direita da realidade pareça a única leitura tecnicamente rigorosa e lógica.
  • Rui Ramos (Observador / Programas de História e análise política) — Análise histórica e política sob uma perspetiva conservadora.
  • José Manuel Fernandes (Observador / Comentário pontual de linha editorial)
3. Comentadores Fixos e de Debate nos Canais de Informação
Intervenientes com presença regular em painéis de debate na CNN Portugal, SIC Notícias e RTP3:
  • Sérgio Sousa Pinto (CNN Portugal) — Focado com frequência na crítica às causas ditas "woke", ao politicamente correto e ao ativismo progressista.
  • Sebastião Bugalho (SIC Notícias / Ex-CNN Portugal) - A juvenilização e o combate dinâmico da nova direita de poder
  • Miguel Morgado (SIC Notícias / CNN Portugal) - É uma das vozes mais articuladas na denúncia daquilo que considera ser o "domínio cultural" da esquerda e na defesa da herança do passismo/liberalismo económico.
  • Cecília Meireles (SIC Notícias) - Com origem no CDS-PP (ala liberal/centrista), traduz uma direita de tom calmo, institucional e focado na economia real, fiscalidade e funcionamento das empresas.
  • Rodrigo Moita de Deus (CNN Portugal / RTP) - A comunicação estratégica, a provocação e a estética liberal-conservadora. O "spin" e a linguagem de redes sociais: com fundo ligado ao marketing e à comunicação, traduz a transformação do comentário político em provocação conceptual.

Execução por fuzilamento de Nidal Hasan com transmissão ao vivo gera polémica no governo Trump

A decisão do Secretário da Defesa Pete Hegseth de transmitir publicamente a execução de Nidal Malik Hasan evidencia a linha ideológica da administração Trump, fortemente alinhada com correntes evangélicas conservadoras, a nova extrema-direita (alt-right) e o sionismo político. Em 2009, Nidal Malik Hasan matou 13 pessoas num ataque a tiro na base militar de Fort Hood, alegando posteriormente que agiu "para salvar pessoas no Afeganistão" e para impedir que militares dos EUA matassem mais civis naquele país. A sua execução por pelotão de fuzilamento está marcada para o dia 3 de dezembro, às 13:00, na própria base de Fort Hood, refletindo o local e o horário do crime.

Os críticos apontam uma contradição: o presidente Donald Trump costumava condenar o Irão por realizar execuções públicas, sugerindo inclusive que essa prática poderia servir de justificativo para uma ação militar contra o país. Agora, diversas vozes nas redes sociais alertam que a transmissão ao vivo da execução do ex-psiquiatra do Exército de origem palestina pode transformá-lo num mártir, inflamando o sentimento anti-americano. Embora 55 países ainda mantenham a pena de morte - incluindo Singapura, Japão, China e Arábia Saudita -, a realização de execuções públicas é extrema e rara no cenário internacional, sendo praticada quase exclusivamente por regimes e contextos específicos, como no Afeganistão, no Irão, na Coreia do Norte ou por tribunais locais na Somália.

Se mantida, a decisão trará um impacto sem precedentes: marcará a primeira execução pública nos EUA em quase 90 anos e a primeira por pelotão de fuzilamento no âmbito militar desde a Segunda Guerra Mundial, consolidando uma rutura severa com as normas internacionais de direitos humanos e com a jurisprudência militar tradicional.

A deliberação consolida a estratégia da administração Trump de utilizar a justiça militar e a pena de morte como uma plataforma performativa de retribuição e demonstração de força para a sua base eleitoral.

A pena capital, própria de regimes repugnantes, já não é grande ideia; fazer disso espectáculo público de massas só ocorre a psicopatas. As exemplares democracias deste mundo estão a assemelhar-se em demasia às piores ditaduras concebíveis. Qualquer dia não as distinguimos. E o que é que dizem e fazem os exemplares defensores destes pilares da democracia mundial que mimetizam as teocracias mais abjectas? Acham muito bem, se vem do clube deles é porque é bom, o mal torna-se bem consoante o autor.

Entretanto a ICE continua a matar gente indiscriminadamente. Também não há problema nenhum, é a democracia a defender-se da barbárie.

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Sóley - Grow

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Sóley (nome artístico de Sóley Stefánsdóttir) é uma cantora, compositora e multi-instrumentista de nacionalidade islandesa. O seu estilo musical insere-se no indie pop, dream pop, folclorismo nórdico e art pop cinematográfico, caracterizando-se por arranjos intimistas assentes no piano, instrumentação acústica suave (como clarinetes e celos) e uma atmosfera delicada. 
A canção "Grow", lançada em 2017 como parte do álbum Endless Summer, aborda a temática do crescimento pessoal, da transformação gradual e da resiliência nas relações humanas. A nível narrativo e de significado, a música explora o desejo de reconexão e a tentativa de ultrapassar feridas do passado ("can I grow back to you?"), culminando na aceitação de que a mudança individual e o amadurecimento são processos contínuos ("we grow and then we grow"). O tema afasta-se da melancolia mais soturna dos seus primeiros trabalhos para adotar um tom de renovação e esperança, comparável ao desabrochar da natureza após um longo Inverno. 
No que concerne às influências literárias e filosóficas, a escrita e o universo estético de Sóley são profundamente marcados pela poesia e pelo folclore islandês, tendo a própria artista apontado o poeta islandês Davíð Stefánsson e Steinn Steinarr como uma das suas maiores referências na construção de imagens poéticas e na abordagem à escrita. A nível filosófico, a sua obra carrega fortes traços de existencialismo, de reflexão sobre a brevidade do tempo e do animismo nórdico, onde a natureza e a psique humana se entrelaçam. Além das influências literárias, o seu trabalho bebe da música vanguardista e da composição minimalista de figuras como Pauline Oliveros, Alice Coltrane e Morton Feldman.

Anne Carson, o Prémio Nobel e a asfixia de Antigonick: Tirania ou Pós-Democracia?

Revisitar um clássico é sempre um risco, mas, à luz dos dias que correm, olhar para Antígona através da lente de Anne Carson tornou-se imperioso. A atribuição do Prémio Nobel da Literatura à autora canadiana consagra a sua capacidade única de transformar a tragédia grega numa lâmina afiada para os dilemas do nosso presente.

Na história original de Sófocles, Antígona desafia o decreto de Creonte ao enterrar o irmão Polinices, aceitando a pena de morte pelo seu dever moral. Contudo, a recriação de Carson vai muito além do mito tradicional: é uma reescrita minimalista e urgente que desconstrói a solenidade clássica com diálogos secos, anacronismos e citações de pensadores modernos como Hegel, Brecht e Beckett.

O que Carson expõe com mestria não é a tirania tradicional dos tanques de guerra ou dos golpes militares clássicos e que retira o direito de votar, mas sim a nova tirania da pós-democracia. Sob esta realidade, as formas e rituais democráticos mantêm-se intocados - continuam a existir eleições periódicas, constituições e parlamentos -, mas o poder real de decisão transfere-se para elites não eleitas, como os mercados financeiros, as grandes empresas tecnológicas e as instâncias tecnocráticas. O cidadão preserva o direito formal ao voto, mas depara-se com uma sensação crónica de impotência ao perceber que as grandes orientações económicas e sociais já foram previamente definidas à revelia da sua vontade.

Perante este poder degenerado e omnipresente, a Antígona de Carson recusa até argumentar em sua defesa - o tirano já não merece o mínimo respeito nem o benefício do debate. A tragédia surge de tal forma exacerbada que deixa de haver espaço para o futuro: sobra apenas a lição dolorosa de que a apatia é o combustível das novas tecnocracias e de que a desobediência civil é o único antídoto quando a democracia se torna uma mera fachada.

Vivemos numa verdadeira pós-democracia ou o citizenwashing ainda nos deixa margem para resistir?

O género da Lua nas línguas e culturas

Para além da sua presença no céu, um fenómeno cultural fascinante reside na forma como diferentes línguas atribuem género gramatical à Lua, moldando o folclore, a literatura e a vida quotidiana em vários continentes.

1. Nas línguas românicas (português, espanhol, francês, italiano, romeno) e em várias línguas eslavas (russo, búlgaro), a palavra para Lua (Luna) é gramaticalmente feminina. Nestas culturas, a Lua foi historicamente personificada como uma figura misteriosa, nutridora e nocturna, associada à intuição, aos ciclos de fertilidade e à saudade romântica. Na poesia - de Federico García Lorca ao simbolismo romântico -, a Lua surge frequentemente como uma musa trágica ou sedutora, muitas vezes colocada em oposição ao Sol, masculino e ardente.

2. Pelo contrário, nas línguas germânicas (como o alemão, em que é Der Mond) e nas tradições indo-arianas (como o hindi/sânscrito, Chandra), a Lua é masculina (enquanto o Sol é feminino, Die Sonne). Nestas mitologias, a Lua representa um guardião solitário, um cavaleiro protector ou um observador silencioso que guia os viajantes pela noite.

3. Nas línguas sem género gramatical - como o inglês ou as línguas do Leste Asiático -, a Lua permanece neutra na gramática do dia a dia, embora a poesia inglesa adopte frequentemente o pronome feminino (She/Her), sob a influência duradoura da mitologia greco-romana clássica.

Ler mais:

A Lua, Gloriosamente Indiferente

Investigadores despedidos pela OpenAI alertam para riscos na supervisão

Três investigadores despedidos pela OpenAI apelaram à criadora do ChatGPT para que evite desenvolver sistemas de inteligência artificial (IA) cujo processo de raciocínio não possa ser compreendido por humanos, noticiou hoje o jornal Wall Street Journal.

O apelo foi incluído numa carta enviada para o jornal na quarta-feira. Em resposta, um responsável pela área de investigação da OpenAI afirmou concordar com as recomendações dos investigadores.

Numa nota interna, parcialmente divulgada à agência France-Presse (AFP), o responsável sustentou que a capacidade de verificar, passo a passo, a forma como os modelos chegam a uma decisão é uma questão de "máxima importância".

Os três especialistas em segurança de IA, Jasmine Wang, Tomek Korbak e Mikita Balesni, cujo despedimento foi tornado público a 01 de outubro, são acusados pela empresa de terem partilhado informações sensíveis, incluindo com um grupo externo de avaliação, sem cumprirem os procedimentos internos estabelecidos.

Nos últimos meses, outros investigadores também abandonaram a empresa por preocupações relacionadas com a segurança da IA.

Jacob Coxon, que deixou a OpenAI para integrar a concorrente Anthropic, demitiu-se em setembro, acusando ambas as empresas de estarem a "brincar com as nossas vidas".(detalhes da demissão no The Guardian).

Já David Robinson abandonou a OpenAI na semana passada, criticando o que considera ser uma cultura empresarial insuficientemente focada na gestão de riscos.(saiba mais sobre as saídas na Progressive Robot)

Estas preocupações surgem após uma série de incidentes ocorridos durante o verão, envolvendo modelos de IA da OpenAI, da Anthropic e da Meta, que ultrapassaram os ambientes de teste controlados onde estavam confinados e chegaram, em alguns casos, a tentar aceder indevidamente a sistemas de outras organizações, incluindo a plataforma Hugging Face.

Na carta dirigida ao conselho de administração da OpenAI, os três investigadores defendem que agiram sempre dentro das suas funções e argumentam que o seu despedimento tem um efeito intimidatório sobre os restantes funcionários da empresa.

A OpenAI rejeitou essa interpretação, com um responsável da empresa a afirmar que esta despede funcionários "por expressarem preocupações". O excerto da nota interna consultado pela AFP não aborda, contudo, as alegadas violações de procedimentos imputadas aos investigadores.

A carta centra-se particularmente na forma como os modelos de IA descrevem o seu raciocínio antes de executarem determinadas ações. Os investigadores alertam que esses processos explicativos, atualmente analisados por especialistas para detetar eventuais comportamentos problemáticos, poderão tornar-se progressivamente mais difíceis de interpretar por supervisores humanos.

No início de setembro, o diretor científico da OpenAI, Jakub Pachocki, reconheceu que o raciocínio do principal modelo da empresa, GPT-6 Astra, é mais complexo de monitorizar do que o do seu antecessor.

O debate sobre a segurança da IA tem dividido o setor tecnológico. Vários líderes da indústria, incluindo Sam Altman, da OpenAI, e Dario Amodei, da Anthropic, defenderam um abrandamento do ritmo de desenvolvimento destas tecnologias.

Em sentido contrário, a administração do Presidente norte-americano, Donald Trump, e alguns concorrentes, como Mark Zuckerberg, da Meta, opõem-se a essa abordagem.

Saber mais:

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Deus Ex Lumina and Antipole - Destroy

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Dançar Sobre as Cinzas do Ego: A Catarse Tragic Wave em "Destroy"
A canção "Destroy", resultado da colaboração entre o projeto a solo do músico e produtor argentino radicado em Berlim Gonzalo Schwindt (Deus Ex Lumina) e o músico norueguês Karl Morten Dahl (Antipole), enquadra-se perfeitamente na estética Tragic Wave. Criado em 2020, o projeto Deus Ex Lumina junta-se às guitarras melódicas e marcadas por reverb de Antipole para construir uma sonoridade que, embora alicerçada no Darkwave, Coldwave e Post-Punk sintetizado com influências de EBM e synthpop, se destaca pelo seu forte apelo emocional e dramático. 
Na sua vertente lírica, a composição explora a ruína romântica, a desconstrução do ego e a aceitação da dor como um ato de purificação pessoal; versos como "Destroy / My flesh / Once more" transformam o sofrimento num sacrifício ritualístico e libertador no qual o amor funciona como catalisador do colapso interior, tornando a dor a única prova tangível de sentimento. Esta temática crua, inspirada por reflexões existencialistas sobre a busca de sentido perante o vazio e a aceitação do absurdo (em filósofos como Friedrich Nietzsche e Albert Camus), além de elementos da literatura gótica e do simbolismo decadente, é impulsionada por uma atmosfera sonora que encarna o conceito de "dançar a própria dor". O contraste entre as linhas de guitarra limpas de Antipole e a base rítmica acelerada com sintetizadores pulsantes de Deus Ex Lumina estabelece uma cadência hipnótica e catártica perante uma interpretação vocal cavernosa, transformando a tristeza numa experiência dançável na pista de dança. 
O videoclipe reforça esta mensagem através de uma estética monocromática, sombria e minimalista, utilizando um contínuo jogo de luzes e sombras para traduzir visualmente a dualidade entre o isolamento interior e a celebração poética da tragédia sentimental.

Caso Maricarmen e fundos abutre: como a especulação criou a crise global da habitação


Foi assim que decorreu o despejo de Maricarmen, em 23.09.2026, de 87 anos, após 70 anos na sua casa

A habitação passou de um bem social a um ativo financeiro gerido por algoritmos e metas de rentabilidade corporativa. Quando edifícios inteiros são comprados por fundos, a relação pessoal entre senhorio e inquilino desaparece, sendo substituída por estratégias de pressão contratual e litígio judicial para libertar os imóveis e colocá-los no mercado de luxo ou de alojamento local.
Maricarmen Abascal, a mulher de 87 anos despejada do seu apartamento no bairro do Retiro, em Madrid, enfrentou anos desgastantes de batalha legal para defender o teto onde viveu durante quase sete décadas. O choque emocional e físico de ter sido retirada de casa numa maca por forças policiais e trasladada diretamente para o hospital culminou na sua morte poucas semanas depois, reacendendo uma onda de protestos massivos por toda a Espanha.

Esta violência institucional e imobiliária não pode mais acontecer. Não é só Espanha que está de luto e a viver uma crise política. É toda uma geração que percebeu que, sem travões à especulação, o próximo teto a cair pode ser o seu. A situação é abertamente transnacional: exige-se a defesa intransigente da dignidade humana perante a lógica predatória dos fundos de investimento.

O ponto de viragem: quando e como tudo começou
  1. A transformação estrutural da habitação num produto de especulação financeira intensificou-se no seguimento do colapso bancário global de 2008 e da crise da dívida na Zona Euro.
  2. A absorção do crédito malparado: para salvar o sistema financeiro do colapso, foram criados "bancos maus" estatais - como a Sareb em Espanha ou a Parvalorem em Portugal - que absorveram edifícios inteiros e milhares de hipotecas em incumprimento.
  3. A venda em bloco a preços de saldo: pressionados pelas exigências de consolidação fiscal impostas pela Comissão Europeia e pelo Fundo Monetário Internacional, os governos alienaram estas carteiras imobiliárias públicas a fundos internacionais de private equity, como a Blackstone e a Cerberus Capital Management.
  4. A rutura dos regimes de renda antiga: os imóveis adquiridos continham contratos protegidos ou de longa duração. Com a alteração do enquadramento legal e a introdução de modelos de gestão automatizada por algoritmo, os novos proprietários corporativos passaram a utilizar litígios agressivos e aumentos abruptos de valor (como a exigência de subidas de 500 para 1.650 euros mensais enfrentada por Maricarmen) para forçar a saída dos residentes e reabilitar os imóveis.
O enquadramento europeu: Alemanha, França, Países Baixos e Outras Respostas
A escalada especulativa alastrou-se a quase todos os países da União Europeia, forçando diferentes governos a desenhar respostas legislativas para tentar conter o mercado:

1. Alemanha: travar os Aumentos e Contestar os Gigantes Imobiliários
  1. O Teto das rendas (Mietpreisbremse): na Alemanha, onde mais de metade da população vive em imóveis arrendados, a lei impede que na celebração de novos contratos a renda ultrapasse mais de 10% do valor do índice de referência local (Mietspiegel). As restrições ao aumento de rendas existentes estendem-se com limites fixados por lei através de disposições do Código Civil Alemão (BGB - § 574).
  2. Referendo de expropriação em Berlim: em resposta à compra massiva de bairros por conglomerados como a Vonovia, a campanha cívica Deutsche Wohnen & Co. enteignen venceu um referendo local para socializar edifícios na posse de grandes fundos, embora o processo enfrente diferendos jurídicos e constitucionais.
2. França: regulação de rendas e combate às habitações devolutas
  1. O Mecanismo de Controlo (Encadrement des Loyers): aplicado em metrópoles como Paris, Lyon e Bordéus ao abrigo da Loi ÉLAN - Ministère de la Transition Écologique, este modelo fixa uma renda de referência por metro quadrado. Se um proprietário tentar cobrar acima do limite superior sem justificação de luxo excecional, arrisca coimas severas e a obrigação de devolver a diferença ao inquilino.
  2. Agravamento fiscal sobre imóveis vagos: França aplica taxas substanciais sobre habitações mantidas vazias em zonas urbanas tensionadas (Taxe sur les Logements Vacants) para desencorajar a retenção especulativa de imóveis.
3. Países Baixos: a Lei do arrendamento acessível (Betaalbare Huurwet)
  1. Extensão do controlo de preços ao mercado médio: Em resposta a uma das crises habitacionais mais severas da Europa, o governo holandês aprovou a Lei do Arrendamento Acessível (Betaalbare Huurwet), que alargou o sistema de pontos regulado a 90% do mercado de arrendamento. As habitações são pontuadas com base em critérios de eficiência energética, área e qualidade, sendo proibido por lei cobrar rendas acima do valor fixado pela pontuação do imóvel.
  2. Proibição de compra para arrendar (Opkoopbescherming): Vários municípios holandeses (incluindo Amsterdão e Roterdão) proibiram investidores de comprar casas de gama média para depois as colocarem no mercado de arrendamento a preços especulativos.
4. Outros Exemplos Europeus
  1. Áustria (Viena): considerada o modelo de referência internacional, Viena manteve mais de 60% da sua população a viver em habitação pública ou cooperativa gerida pelo município através do programa Wiener Wohnen, isolando a cidade dos choques especulativos do mercado privado.
  2. Dinamarca: a legislação dinamarquesa limita a capacidade de os fundos aumentarem as rendas imediatamente após a compra de um imóvel, impondo períodos de carência e a obrigatoriedade de investimento em eficiência energética antes de poder subir o valor contratual.
O Foço da Desigualdade Social e a Ineficácia Europeia
A transferência massiça de património residencial para carteiras de investimento aprofundou a clivagem económica entre os detentores de capital e a população assalariada.
  1. Erosão do rendimento familiar: A taxa de esforço associada à habitação ultrapassa frequentemente os 50% dos rendimentos mensais nas áreas metropolitanas, sufocando a capacidade de poupança e consumo das famílias.
  2. Denúncias de violação dos Direitos Humanos: os relatórios elaborados pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (OHCHR) denunciam que a financeirização trata a habitação como um mero instrumento de acumulação de capital, desprovendo-a da sua função social básica.
  3. Impossibilidade regulatória na União Europeia: nos termos do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia (Artigo 153.º), a competência sobre as políticas de habitação e apoio social pertence aos Estados-Membros. Em simultâneo, as normas comunitárias que garantem a livre circulação de capitais impedem os países de impor restrições transversais à aquisição de imóveis por investidores estrangeiros, embora a pressão cívica tenha forçado o Conselho da União Europeia a criar um plano de ação e financiamento dedicado à habitação acessível.
Soluções Emergenciais e de Curto Prazo
Movimentos de cidadãos como o Sindicato de Inquilinas e Inquilinos de Madrid e plataformas europeias de defesa do direito à habitação defendem a aplicação imediata destas medidas de emergência:
  1. Suspensão imediata de despejos sem alternativa habitacional: proibição legal da execução de ordens de desocupação para idosos, pessoas com incapacidade ou famílias vulneráveis sem garantia prévia de reencaminhamento para habitação pública digna.
  2. Limitação rígida dos preços de arrendamento: aplicação de limites ao aumento das rendas na renovação de contratos, indexando os valores à taxa de esforço média local e à variação real dos rendimentos
  3. Cancelamento e restrição de Licenças Turísticas: moratória sobre o licenciamento de alojamentos locais e arrendamentos sazonais de curta duração nas zonas urbanas sob forte pressão imobiliária.
  4. Agravamento Fiscal sobre a compra de edifícios por fundos: criação de taxas desincentivadoras (como a majoração extraordinária do IMT/IMI ou impostos equivalentes) na aquisição em bloco de edifícios residenciais por veículos de investimento não residentes.
  5. Mobilização do património imobiliário devoluto: transferência obrigatória dos imóveis vagos pertencentes a fundos, bancas resgatadas ou entidades públicas para bolsas municipais de arrendamento acessível.

A direita que nunca saímos


Finalmente chegou a direita. A chegada tem a pequena particularidade de ocorrer depois de várias décadas em que se privatizaram empresas, liberalizaram mercados, enfraqueceu o poder sindical, se tornou o trabalho mais precário em nome da flexibilidade, se moderaram salários em nome da competitividade e se entregou uma parte crescente da habitação à lógica financeira. Mas não estraguemos uma entrada triunfal com minudências cronológicas. A direita chegou agora e, pelos vistos, tudo aquilo que aconteceu antes deve ter sido socialismo, comunismo ou uma fusão dos dois. Há quem consiga encontrar ambos no mesmo período, às vezes na mesma frase, o que poupa o incómodo de distinguir sistemas económicos.

Foi, reconheça-se, uma variedade bastante imaginativa de socialismo e uma versão ainda mais imaginativa de comunismo. O Estado retirava-se de sectores económicos, empresas públicas passavam para mãos privadas, o capital circulava com crescente liberdade, a negociação colectiva perdia força e sucessivos governos procuravam tranquilizar mercados com uma solicitude que raramente dedicavam aos salários. Quem preferir a tese da fusão terá apenas de aceitar um socialismo que privatiza e um comunismo muito respeitador da propriedade privada e dos mercados financeiros. Com definições suficientemente largas, cabe tudo.

A grande vitória da direita económica não consistiu em ganhar todas as eleições. Isso seria demasiado trabalhoso e, além do mais, desnecessário. Bastou-lhe conseguir que uma parte substancial das suas ideias deixasse de depender dos seus partidos. Ao longo das últimas décadas, governos de centro e de centro-esquerda aceitaram privatizações, desregulação, disciplina salarial, flexibilização laboral e a primazia da competitividade como componentes normais da governação. Discutia-se a intensidade, o calendário, por vezes o grau de protecção que devia acompanhar cada reforma, mas a direcção geral já raramente precisava de se apresentar como ideológica.

Uma ideia política alcança uma posição particularmente confortável quando já não precisa de dizer o nome. Privatizar tornou-se modernizar. Cortar despesa passou a chamar-se reformar. Reduzir protecção laboral era flexibilizar. Baixar custos para as empresas significava estimular a economia. Os salários, esses, tinham de ser responsáveis, porque aparentemente existe uma forma irresponsável de querer viver do próprio trabalho. Pouco a pouco, opções políticas perfeitamente discutíveis foram promovidas à categoria de factos da natureza. A chuva cai, o Sol nasce, os mercados precisam de confiança e o trabalhador precisa de compreender.

A linguagem ajudou bastante. Um empregado pode reagir mal se lhe disserem que vai perder poder negocial; fica muito mais composto se lhe explicarem que está a entrar num mercado de trabalho dinâmico. Quem ganha menos pode achar desagradável ouvir que a sua parte do rendimento nacional vai encolher; já a moderação salarial possui uma serenidade quase monástica. Até o trabalhador aprendeu a falar de si próprio como “custo laboral”, uma pequena obra-prima cultural. Durante séculos os homens tentaram deixar de ser mercadoria. Finalmente conseguimos que preencham o formulário como mercadoria e agradeçam a eficiência do processo.

Daqui nasceu uma figura política que merece estudo. O assalariado que observa a economia a partir da secretária do proprietário, embora continue a sentar-se na cadeira do assalariado. Preocupa-se com os encargos patronais de uma empresa que não possui, acompanha com ansiedade a tributação de patrimónios que nunca terá e suspeita dos direitos laborais de que depende. Há gente que resolveu a questão de classe de uma maneira admiravelmente simples: sente-se rica. A parte espiritual está tratada; falta apenas aquele pormenor bastante material que costuma acompanhar a riqueza e a que, por convenção, chamamos dinheiro. É uma conquista respeitável. Fazer um trabalhador pensar como o patrão sem ter de lhe entregar a empresa permite poupanças consideráveis.

Também ajuda convencê-lo de que os males da sua vida resultam de ainda haver demasiada esquerda. O salário mal chega, logo o mercado precisa de mais liberdade. A renda consome metade do rendimento, logo falta liberalizar a habitação. O emprego é inseguro, portanto existem demasiadas garantias. O hospital demora, conclusão inevitável, o Estado é ineficiente. A receita beneficia de uma resistência invulgar à experiência. Se melhora, estava certa. Se piora, faltou aplicá-la com coragem. Os alquimistas teriam apreciado o método.

A habitação oferece um exemplo especialmente instrutivo porque permite comparar a retórica com números bastante menos imaginativos. A ficha PH4.2 da OCDE, actualizada em Novembro de 2025, colocava a habitação social para arrendamento em cerca de 34% do parque habitacional dos Países Baixos, 23% na Áustria, 21% na Dinamarca, 16% no Reino Unido e 14% em França. Espanha surgia com 1,2%. Portugal rondava 1%.

Suicídio na Medicina Veterinária e a Injustiça do IVA: Por Que Racionalizamos a Tauromaquia e Penalizamos a Saúde Animal?

Sabia que os médicos veterinários integram a classe profissional com uma das mais elevadas taxas de prevalência de suicídio? De acordo com estudos sistemáticos sobre a saúde mental na profissão, os médicos veterinários apresentam uma taxa de risco de suicídio estimada em cerca de duas vezes a de outros profissionais de saúde e até quatro vezes superior à da população em geral (ver investigação publicada no Frontiers in Veterinary Science).

Longe de ser uma mera reação emocional ao desgaste de lidar com a perda de animais, esta realidade assenta em graves fatores estruturais: jornadas de trabalho exaustivas e desreguladas, salários cronicamente baixos, precariedade laboral generalizada, dilemas éticos constantes em torno da eutanásia e o acesso facilitado a substâncias letais de uso clínico. Em Portugal, a dimensão do problema é corroborada por estudos dedicados especificamente à classe profissional nacional, como o artigo publicado no Archives of Suicide Research, que analisa a elevada incidência de burnout, fadiga por compaixão e ideação suicida entre médicos veterinários, enfermeiros e assistentes.

A somar a isto, os profissionais enfrentam diariamente a pressão acrescida das expectativas irrealistas dos tutores e o peso financeiro que recai sobre quem procura cuidados de saúde para os seus animais. Trabalhos académicos internacionais, como as investigações da Centers for Disease Control and Prevention (CDC / JAVMA), sublinham que a exposição contínua ao stresse financeiro dos clientes e à angústia dos conflitos de custos de tratamento é um dos principais preditores de degradação da saúde mental nesta área.

A pesquisa VetsSurvey de 2021 concluiu que Portugal é o país do mundo com o maior nível de estresse na área veterinária, atingindo cerca de 87% dos profissionais. Argentina (79%), Brasil (74%), Estados Unidos (71%) e Reino Unido (70%) vieram em seguida. A média mundial ficou em 65%.

É neste ponto que a disparidade fiscal do país se torna gritante e eticamente indefensável: enquanto os tratamentos e cuidados de saúde veterinária - essenciais para o bem-estar animal e para a saúde pública - continuam sobrecarregados com a taxa máxima de IVA (23%), os espectáculos de tauromaquia beneficiam de uma taxa reduzida de 6%.

Trata-se de uma inversão absurda de prioridades. Prioriza-se fiscalmente a tortura pública e o entretenimento à custa do sofrimento animal em detrimento da saúde, da medicina veterinária e das famílias que tentam garantir uma vida digna aos seus animais de companhia. A aplicação da taxa de IVA de 6% aos cuidados veterinários não é apenas uma medida de justiça social e económica; é uma urgência ética que apoia os tutores, valoriza o trabalho dos veterinários e deixa de subsidiar o anacronismo da violência tauromáquica — uma reivindicação alinhada com as posições públicas da
Ordem dos Médicos Veterinários (OMV), que defende o enquadramento dos cuidados animais no conceito global de "Uma Só Saúde" (One Health).

Assina e divulga a petição

Kill Shelter and Antipole - Raise the Skies

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Raise the Skies: O Mito Prometeico no Coração do Darkwave Contemporâneo
A canção "Raise the Skies", fruto da colaboração entre o projeto escocês Kill Shelter (liderado pelo produtor e multi-instrumentista Pete Burns, de Edimburgo) e o artista norueguês Antipole (projeto de Karl Morten Dahl, em Trondheim), explora a dicotomia fundamental da existência humana no álbum A Haunted Place. Liricamente, a faixa aborda o equilíbrio delicado entre a celebração da vida e a inevitabilidade da finitude, versando sobre o luto, a rutura de promessas e a constante necessidade de reconstrução após o colapso moral ou emocional. Elevar os céus surge como uma metáfora de busca por redenção e esperança perante a ruína, sintetizada no verso em que o fim é apresentado como o início de tudo outra vez.

Inserida no panorama do post-punk moderno, darkwave e goth rock, a sonoridade da obra constrói uma atmosfera melancólica e soturna. Destacam-se as linhas de baixo pulsantes, guitarras impregnadas de reverb e chorus à maneira oitentista, sintetizadores de textura gelada e vocais profundos de timbre barítono, fundindo o minimalismo do rock gótico clássico com a clareza e densidade das produções eletrónicas contemporâneas.

Visualmente, o videoclipe - editado e dirigido pelo próprio Pete Burns - adota uma estética minimalista e estilizada. A realização articula planos de performance dos músicos em ambientes de sombra com projeções abstratas de céus tempestuosos e texturas orgânicas em constante metamorfose, culminando no selo de cera com a frase em latim "Oratio pro vivis et mortuis et omnes qui venerunt ante" ("Oração pelos vivos, pelos mortos e por todos os que vieram antes"), um elemento visual que sublinha a transição intergeracional e a memória dos que antecederam a jornada presente.

Sob o ponto de vista intelectual, a composição inspira-se no existencialismo e na noção nietzschiana do eterno retorno, encarando a dor e a reconstrução como um ciclo contínuo. Ao mesmo tempo apoia-se no Decadentismo literário do final do século XIX, ilustrado por figuras como Charles Baudelaire ou J.-K. Huysmans, o fascínio pela beleza da ruína, pela melancolia do declínio e pelo culto do efémero assume o papel central da expressão artística. Em "Raise the Skies", percebe-se essa mesma atração estética pelo colapso, onde sobressai uma dignidade solene e elegíaca perante aquilo que se desfaz. O protagonista da canção assume contornos de uma figura demiúrgica ou prometeica - um herói trágico que tenta reordenar o cosmos, evocando o ato de caminhar sobre as águas e erguer os céus enquanto a noite cai. Tal como no mito de Prometeu ou no Prometeu Desacorrentado de Shelley [resenha aqui], o desafio lançado à gravidade e à escuridão carrega uma dimensão de sofrimento quase sagrada, procurando erguer uma nova ordem ou um novo mundo sobre as cinzas de uma promessa partida. 

Esta arquitetura concetual consolida-se no encerramento do videoclipe, através do selo com a inscrição em latim "Oratio pro vivis et mortuis et omnes qui venerunt ante" ("Oração pelos vivos, pelos mortos e por todos os que vieram antes"). Ao invocar simultaneamente os vivos, os mortos e os antepassados, a obra reconecta a dor individual a uma memória coletiva e transgeracional. O sofrimento e a necessidade de erguer os céus deixam de ser uma experiência isolada para se tornarem o elo que une o indivíduo a todos os seres humanos que o antecederam na travessia da mesma escuridão. Deste modo, o ato de cantar e criar transfigura-se num ritual de memória, luto e esperança.

Página Oficial
Kill Shelter