segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Mergulhar na floresta urbana: um refúgio contra o ruído e o vazio cívico

Vivemos a era do citizen washing: auscultam-se os cidadãos por conveniência, criam-se campanhas de fachada social, mas na hora de decidir, a urgência dá lugar ao espetáculo e ao empurrar de barriga.

Passeando um pouco. Mergulhar na floresta, mesmo urbana, ajuda a equilibrar o balanço de uma semana que passou, bem dura, distópica e agora uma nova semana, imprevisível, como sempre. O balanço de 2026 está quase a chegar. Pessoalmente teve dias bons e meses de indignação e uma sensação de vazio cívico.

Da televisão às redes socias falta o discurso neutro, imparcial e de lucidez cívica. Premeia-se o "exótico" e não as questões estruturais, que adiamos incessantemente, empurrando a barriga para as próximas gerações?

O conceito de "citizen washing" (ou civic washing) encaixa no tom da minha reflexão: refere-se ao uso performativo da participação cidadã ou da responsabilidade social-cívica por parte de instituições, empresas ou agentes políticos. Cria-se uma ilusão de compromisso com a comunidade e com as gerações futuras, enquanto na prática as decisões estruturais continuam a ser adiadas ou ignoradas.

E o mais incrível e triste, é que é um fenómeno global [estudo]

Leituras de hoje

Outras leituras

A acampada passa a ser legal. Será agora que a bastonada passa a ilegal?

Fonte: [Público]
Tribunal dá razão a manifestante pela habitação e valida tendas como parte do protesto
Com o apoio de mais de 400 advogados, que defenderam o direito à manifestação, as acampadas de Lisboa e do Porto têm resistido à ordem, argumentando que as tendas são um elemento simbólico. A PSP já avançou, por quatros vezes, com cargas policiais, provocando mais de uma centena de feridos até agora. A PSP argumenta que também tem sido atacada e contabiliza 13 feridos na madrugada de domingo em Lisboa.

Depois temos o burgesso do ministro da economia, Manuel Castro Almeida, a falar nos altos custos dos solos, como motivo dos altos custos da habitação, tudo isso visando tornar urbano o que até aqui foi rústico, num pleno assalto à natureza. E tens parques supostamente naturais a saque, como o de Sintra-Cascais.

Já há um chorrilho de sátira política nas redes sociais. Li um assim "Quero reservar, no Rossio, tenda tamanho T4, para 5 pessoas, no período de 15 a 31 de dezembro. É necessário algum pré-pagamento? Grato!" Resposta:
"Eu posso-lhe arrendar, as condições são estas: Quechua para 4 pessoas, é fresh&black. 2 colchões insufláveis com bomba incluída, 2 sacos de cama, mesa dobrável, placa elétrica, frigorífico com rodas.
3 mil euros por mês.
2 cauções
Não podem levar animais ( leia-se fachos) nem podem fazer barulho para perturbar a manifestação.
Empresto uns cravos."

Em conclusão
Incomodam mais as tendas do que as razões que levam os jovens a montá-las. Indigna mais a pobreza à vista de todos do que a falta de futuro que a torna inevitável. É esta a sociedade que construímos: tão preocupada em afastar o que incomoda, tão pouco disposta a enfrentar o que o provoca.

Diz não ao pacote Omnibus X- pela saúde, abelhas e agricultores


O Conselho da UE votou favoravelmente a lei Food and Feed Safety Omnibus . E o resultado preocupa-nos.

Mas o Parlamento Europeu ainda não votou e é aí que ainda podes fazer a diferença.

Cinco especialistas em direitos humanos da ONU alertaram recentemente para os riscos da proposta Food and Feed Safety Omnibus, que poderá enfraquecer as regras de proteção contra pesticidas perigosos, prolongando a exposição a substâncias nocivas. Os agricultores, os trabalhadores agrícolas, as comunidades rurais e as crianças estão entre os grupos mais vulneráveis.

A 5 de novembro, os Eurodeputados das comissões de Ambiente e Agricultura decidem se pesticidas já reconhecidos como perigosos para a saúde e para o ambiente continuam a ser usados durante as próximas décadas.

Pesticidas que a ciência já provou serem perigosos para a saúde humana vão continuar a ser usados nas culturas, a infiltrar-se nos solos e a chegar às fontes de água, durante mais 15 a 25 anos. Não porque são seguros. Porque se decidiu que podem ficar.

Com menos controlo. Sem que novos dados científicos obriguem a agir.

Os Eurodeputados portugueses estão nessa sala. E quando os cidadãos falam, eles ouvem, especialmente antes de uma votação.

Em menos de 2 minutos, tu podes enviar uma mensagem diretamente aos Eurodeputados portugueses. É uma ação simples com um impacto real.

Saber mais
O que está em causa?

A austeridade real em Portugal: o que a "Maçã da Terra" de Van Gogh nos ensina sobre a crise da habitação

Vincent van Gogh, Os Comedores de Batatas (De Aardappeleters, 1885)

Vale a pena olhar para a realidade estatística do nosso país antes de generalizar. Esses comportamentos de ostentação que vemos - os carros topo de gama, as marcas e as viagens exóticas - representam na verdade a realidade de apenas cerca de 10% da população mais abastada em Portugal. O problema é que esses 10% ganham uma visibilidade desproporcionada através das redes sociais, da televisão, dos reality shows e do futebol, criando a falsa ilusão de que "está tudo a gastar à grande". 
A imensa maioria das pessoas vive uma realidade completamente oposta e invisível.
Esta disparidade faz lembrar a essência do famoso quadro de Vincent van Gogh, Os Comedores de Batatas (De aardappeleters, em holandês). A própria etimologia da palavra revela a sua simplicidade: aarde (terra) e appel (maçã) - os "comedores da maçã da terra". Retrata o tempo em que os agricultores holandeses saciavam a sua fome com o alimento mais básico e acessível que a terra lhes dava, num esforço diário focado na pura subsistência.   
Hoje, a grande barreira para a nossa geração já não é a falta de vontade de poupar, mas sim uma limitação económica e bancária estrutural. Há vinte ou trinta anos, os bancos financiavam frequentemente 100% do valor da habitação. Hoje, devido às regras bancárias e à inflação dos preços do mercado imobiliário, os bancos exigem uma entrada inicial mais despesas (IMT e Imposto do Selo) que facilmente ultrapassam os 20.000 € a 30.000 € em capital próprio.
Com a média salarial em Portugal (uma das mais baixas da Europa) tão desfasada do custo de vida e a recibos verdes, onde a renda de uma casa absorve com frequência mais de metade do ordenado líquido, torna-se matematicamente impossível para a maioria dos jovens e trabalhadores juntar esse valor, mesmo vivendo em rigorosa austeridade sem ir a restaurantes ou férias.
Tal como os camponeses de Van Gogh, a prioridade da maioria das famílias continua a ser a subsistência diária e o essencial. Nesses casos, a ausência de casa própria não resulta de irresponsabilidade, frivolidade ou "cultura de dependência", mas sim de um bloqueio financeiro inultrapassável.
Em conclusão: a transição para um estilo de vida mais sustentável deve caminhar lado a lado com a justiça social e económica, pois não há sustentabilidade real quando a prioridade de uma população é a mera sobrevivência diária.

GHOST COP - All Souls Days

Melhor som aqui

A canção "All Souls Day", da dupla nova-iorquina Ghost Cop - constituída pela vocalista e compositora Lucy Swope e pelo produtor Sean Dack -, movimenta-se entre os universos do dark synthpop, do synthwave e do pós-punk eletrónico. O seu som é frequentemente associado à estética da Tragic Wave, uma vertente da darkwave que cruza ritmos dançáveis com um dramatismo profundo e lírico, traduzindo a postura daquilo a que a própria banda chama "feel-bad dance music". Paralelamente, a herança da cena de Nova Iorque faz sobressair influências do movimento No Wave, perceptíveis nas linhas de baixo frias e repetitivas, na produção minimalista e numa atitude crua e niilista que rejeita a polidez do synthpop comercial.

O título da faixa faz referência direta ao Dia de Finados, servindo de metáfora para o luto por versões passadas de si mesmo, o isolamento urbano e a convivência com memórias e traumas antigos. No plano visual, o videoclipe oficial - realizado e dirigido pelos próprios membros da banda, Sean Dack e Lucy Swope - adota uma estética cinematográfica inspirada no cinema giallo, no terror B dos anos 80 e na fotografia cyberpunk, recorrendo a cenários claustrofóbicos e luzes de néon para materializar um purgatório mental urbano.

Do ponto de vista concetual, a obra constrói um ecossistema filosófico e literário denso, sustentado em três eixos fundamentais:
  1. Existencialismo e Angústia (Sartre e Camus): ao confrontar o ouvinte com a finitude, o vazio e a repetição de padrões emocionais, a narrativa lírica aproxima-se das noções de náusea de Jean-Paul Sartre e do absurdo de Albert Camus. A canção explora o peso da responsabilidade e da liberdade individual num mundo desprovido de sentido transcendente, onde o indivíduo se encontra isolado, obrigado a encarar a angústia da sua própria existência e a dor de não conseguir escapar a si mesmo.
  2. Romantismo Sombrio e Gótico Urbano (Poe e Baudelaire): A atmosfera da faixa recupera a obsessão pela decadência, pelo luto e pela beleza trágica. Tal como nos contos de Edgar Allan Poe, há uma atração fatalista pelo mórbido e pelos fantasmas interiores da psique. Simultaneamente, a obra dialoga com o gótico urbano de Charles Baudelaire e o seu conceito de spleen - a melancolia profunda e o tédio existencial gerados pelo isolamento na metrópole moderna, onde a multidão intensifica a solidão do indivíduo.
  3. Fantologia e Textura Sonora (Hauntology / Mark Fisher): Toda esta estrutura culmina numa manifestação do conceito de hauntology (fantologia), teorizado por Jacques Derrida e aplicado à música por Mark Fisher. Esta dimensão não se revela apenas na letra, mas na própria escolha dos instrumentos: ao utilizar sintetizadores analógicos retro, baixos sintetizados ásperos e texturas sonoras vintage, os Ghost Cop invocam a estética de uma época passada que já não existe. O som funciona como uma "fantasmagoria tecnológica", onde os timbres analógicos carregam uma nostalgia assustadora — o presente surge bloqueado e continuamente assombrado pelos escombros de relações findadas, por versões mortas de si próprio e por promessas de futuros que nunca se chegaram a concretizar.

domingo, 1 de novembro de 2026

Da Islândia à Habitação: o poder da arte e da cultura na transformação social

António Gouveia - Terraço ao anoitecer (2026)

Claro que não fico indiferente ao que aconteceu esta madrugada.

A madrugada tem esta magia: é quando o ruído do dia cala e a arte ganha espaço para nos fazer pensar com mais clareza. A olhar para esta imagem e a refletir sobre como a cultura transforma o espaço onde vivemos, lembrei-me de como o poder da linguagem artística já mudou o rumo de um país inteiro.  Lembram-se da Revolução dos Tachos e Panelas na Islândia em 2008? A revolta começou através de um movimento artístico e pacífico, culminando na queda do governo, na reestruturação bancária e numa proposta constitucional feita pelos próprios cidadãos.

No caso islandês de 2008–2009, durante a chamada Revolução dos Tachos e Panelas (Búsáhaldayfirlýsingin), a linguagem artística, o espetáculo público e a participação comunitária desempenharam um papel central. O poeta Hörður Torfason organizou vigílias e comícios semanais em frente ao parlamento, utilizando a música e a intervenção cultural para dar voz ao descontentamento social. No entanto, é fundamental situar a arte no seu verdadeiro contexto político. O motor imediato da revolta foi o colapso sistémico do sistema bancário islandês - que representava quase dez vezes o PIB do país -, a desvalorização drástica da coroa e o risco iminente de bancarrota das famílias. A arte funcionou como o fio condutor e o amplificador da indignação, ajudando a ocupar o espaço público de forma pacífica e inclusiva. 
Ainda assim, a demissão do governo, a reestruturação da banca e o processo constituinte participativo resultaram da combinação entre essa pressão de rua contínua e os mecanismos institucionais e jurídicos subsequentes. 
A verdadeira lição da Islândia para o Movimento pela Habitação não é que a arte substitua a ação direta ou a negociação política, mas sim que a linguagem artística tem o poder de retirar a luta dos círculos ativistas fechados e de a devolver à comunidade.

A linguagem artística revela-se profundamente eficaz na luta pela habitação porque humaniza o que normalmente é abstrato. Estatísticas sobre rendas, taxas de juro e despejos são frias, mas a intervenção cultural - seja através de teatro de rua, murais, fotografia documental ou instalações no espaço público - dá rosto e memória à crise habitacional. 

Além disso, a arte desmantela a narrativa hegemónica que insiste em tratar a habitação como um mero ativo financeiro, redefinindo-a no imaginário coletivo como um direito humano e um espaço de vida. 

Ao mesmo tempo, a presença da cultura em manifestações e acampadas fortalece os laços afetivos e comunitários, criando a resistência necessária para combater o desgaste e o esgotamento dos ativistas a longo prazo.

No Dia Mundial do Veganismo - História, Filosofia, Impactos Sociais e Análise Demográfica

O Dia Mundial do Veganismo, 1º de novembro, celebra esse estilo de vida que busca excluir todas as formas de exploração e crueldade contra os animais, seja na alimentação, no vestuário ou noutras esferas do consumo.

O Dia Mundial do Veganismo: Origem Histórica e Filosofia
O Dia Mundial do Veganismo é assinalado anualmente a um de novembro, tendo sido instituído em 1994 por Louise Wallis para celebrar o quinquagésimo aniversário da fundação da Vegan Society no Reino Unido e a criação formal do termo vegan por Donald Watson. No entanto, a matriz ética de abstenção do consumo de seres sencientes remonta à Antiguidade, encontrando raízes no princípio de Ahimsa presente nas tradições filosóficas e religiosas do Jainismo, Hinduismo e Budismo na Índia, bem como nos ensinamentos do filósofo grego Pitágoras. Esta celebração anual visa consciencializar a sociedade para o impacto das escolhas diárias sobre o bem-estar animal, a sustentabilidade do planeta e a saúde humana.

Uma filosofia de vida e não apenas uma dieta
Do ponto de vista concetual, o veganismo não é uma mera dieta ou moda passageira, mas sim uma filosofia e um modo de vida estruturado. A definição oficial estabelecida pela Vegan Society decreta que o veganismo procura excluir, na medida do possível e do praticável, todas as formas de exploração e crueldade contra os animais para alimentação, vestuário, cosmética ou qualquer outro fim. Isto implica escolhas conscientes que vão além do prato de refeição, levando à rejeição de materiais como couro, lã e seda, à recusa de produtos testados em animais e à oposição a formas de entretenimento que utilizem a fauna em cativeiro, tais como circos, touradas ou jardins zoológicos.

Evidência científica e impacto ambiental
Os impactos do movimento na sociedade moderna são visíveis e contam com uma base crescente de fundamentação científica. O estudo analítico de Poore e Nemecek publicado na revista Science em dois mil e dezoito demonstrou que a produção animal ocupa oitenta e três por cento das terras agrícolas mundiais, mas fornece apenas dezoito por cento das calorias. Os investigadores concluíram que a transição global para uma alimentação de base vegetal poderia reduzir a ocupação de solos agrícolas em mais de setenta e cinco por cento. Além disso, o Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas da Organização das Nações Unidas destaca a transição alimentar como uma das ferramentas mais eficazes para a mitigação das emissões de gases de efeito de estufa e para a preservação dos recursos hídricos.

Dados demográficos em Portugal e na Europa
No âmbito demográfico, a adesão ao veganismo apresenta números significativos, embora ainda minoritários no total da população. Em Portugal, estudos de mercado promovidos pela consultora Lantern apontam para a existência de dezenas de milhares de veganos assumidos, com uma comunidade mais alargada de vegetarianos e flexitarianos que ultrapassa dez por cento da população adulta. Na União Europeia, a percentagem de pessoas que se identificam como veganas varia habitualmente entre um e quatro por cento, registando-se a maior taxa de adesão em países como a Alemanha, a Áustria e o Reino Unido, enquanto milhões de outros consumidores reduzem ativamente o seu consumo de carne e laticínios.

Cultura Pop ocidental ou raízes globais?
Embora muitas vezes seja conotado como uma tendência urbana do Norte Global impulsionada pela comercialização de produtos análogos à carne, a alimentação estritamente vegetal tem raízes profundas em várias regiões do Sul Global. A Índia acolhe centenas de milhões de vegetarianos devido a tradições milenares, a Igreja Ortodoxa Tewahedo na Etiópia prescreve longos períodos de jejum estritamente vegetal ao longo do ano e a cultura Ital associada ao movimento Rastafari na Jamaica promove a alimentação natural e isenta de produtos animais desde o início do século vinte. A imagem ocidental do veganismo associada a produtos processados é apenas a face comercial recente de uma prática alimentar cuja base histórica assenta em leguminosas, cereais e vegetais comuns a diversas culturas do planeta.

Exequibilidade prática versus utopia global
A questão da exequibilidade global do veganismo divide especialistas entre a utopia e a viabilidade prática. Por um lado, persistem barreiras socioeconómicas e geográficas reais, tais como desertos alimentares, populações que habitam ecossistemas não-aráveis como o Ártico e o forte enraizamento cultural do consumo de carne em comunidades rurais. Por outro lado, defensores da viabilidade apontam a eficiência energética do consumo direto de plantas, o avanço da biofabricação e o imperativo de sustentabilidade como fatores determinantes para que a transição vegetal deixe de ser encarada como uma utopia e passe a ser adotada como uma necessidade estratégica de sobrevivência do planeta.

Referências bibliográficas e documentos analíticos
Efeméride relacionada:

Grendel - Wheels in Motion (AR-12 Remix)

Melhor som aqui
Neste teledisco apresenta o estilo musical electro-industrial e EBM, tendo como faixa de fundo o remix "Wheels in Motion (AR-12 Remix)" da banda Grendel. A obra não possui a recitação de nenhum poema, focando-se inteiramente na fusão rítmica entre a dança e batidas mecânicas e distópicas. 
A letra utiliza uma estrutura curta, repetitiva e hipnótica centrada nos movimentos de rotação ("spin") e mudança de direção ("turn around") , funcionando como uma metáfora direta para o ciclo incessante e mecânico da vida moderna, da tecnologia e da própria industrialização. Na faixa, as frases são moduladas com efeitos e distorção vocal, servindo de mantra sobre a rotina sem fim e acompanhando a cadência rítmica e as rotações típicas da dança industrial no vídeo
As artistas e criadoras que participam do projeto operam na cena de dança underground europeia, incluindo Laura Jay, Becca Coppermoth e Malice. 
Quanto às influências literárias e filosóficas, a estética da dança industrial e do projeto Grendel dialoga fortemente com o transumanismo, o cyberpunk, o niilismo tecnológico e visões distópicas futuristas sobre a mecanização humana, embora o foco central do vídeo seja essencialmente corporal, visual e rítmico.
Um artigo académico muito interessante aqui

sábado, 31 de outubro de 2026

Todos os santos, o Halloween, os mortos


Aproxima-se o Halloween, a festa de todos os santos e o dia de finados. O que aí fica é uma reflexão sobre essas celebrações, também num esforço por mostrar a sua conexão.

1. Como todas as instituições, que celebram os seus heróis, também a Igreja cristã começou, já no século II, a celebrar os mártires, aqueles que, como diz a palavra, morreram por Cristo, para d´Ele darem testemunho. No século VII, o Papa Bonifácio IV consagrou em 13 de Maio de 609 ou 610 o Panteão romano a Maria, mãe de Jesus, e todos os mártires. No século seguinte, uma vez que, dado o seu número, já não era possível dedicar um dia a cada santo, Gregório III dedicou uma igreja em Roma a todos os santos, e essa festa de todos os santos tornou-se universal em 835 por decisão do Gregório IV. E aqui surge uma pergunta: porquê no dia 1 de Novembro?

No dia 1 de Novembro, havia uma grande festa celta, o Samhain, celebrando as divindades pagãs, as colheitas e a entrada no inverno: precisamente nesse dia acendia-se o primeiro fogo. Para que a festa pagã não monopolizasse as atenções, introduziu-se a festa de todos os santos neste mesmo dia.

No século XIX, houve uma imensa imigração de irlandeses para os Estados Unidos. Como é natural, levaram com eles as suas tradições, também o Samhain, inaugurando o inverno, no qual se impõe a noite, noite que mete medo - na noite, esbatem-se as fronteiras entre o aquém e o além.

Na noite de 31 de Outubro para 1 de Novembro, festeja-se o Halloween, a noite das bruxas, dos fantasmas... Repare-se no termo Halloween em inglês e veja-se o que significa. Halloween é All Hallow’s Eve, que significa, textualmente, véspera de todos os santos.

Que se conclui então? Diz-se que o Halloween é uma importação da América. Sim. Mas, se se estiver atento, percebe-se que, afinal, se trata da importação de uma exportação anterior.

2.1. Perguntam-me se os festejos do Halloween me preocupam. Nada, desde que, como todos os festejos, se passem com juízo. Até compreendo. O ser humano precisa de divertir-se, de rir, de fazer humor, exorcizar medos. Ora, cá está, repetindo: na noite, no meio das trevas, há mais permeabilidade entre este mundo e “o outro mundo”. Não esqueço uma conversa, na Alemanha: “com a luz eléctrica, as almas do outro mundo deixaram de aparecer!”.
O que me preocupa é o predomínio desses festejos sobre a festa de todos os santos. Preocupa-me que já não se pense no sentido da vida, no sentido último.

Por vezes, tem-se uma ideia errada da santidade. O santos não são uns beatos, a “bater constantemente com a mão no peito”. São pessoas normais, que cumprem o seu dever, numa vida honrada e digna. Significativamente, santo tem a ver com saúde em várias línguas. Em português, dizemos que alguém está são, com saúde, e também dizemos São João, São José. O santo é uma pessoa sã em todos os domínios: que cuida da saúde física, moral, espiritual, capaz de sacrificar-se pelo bem, numa relação boa consigo, com os outros, com a natureza, com Deus. Pergunto: ao contrário do que dá a entender a Igreja oficial, que parece canonizar apenas homens e mulheres consagrados, dedicados à religião, não há tantos homens e mulheres e casais verdadeiramente santos, exemplares no seu amor fiel, na educação dos filhos, no trabalho, na relação boa e felicitante com os outros, na relação com Deus?

E a fé é um combate, até para os santos canonizados. O Papa Francisco acaba de escrever uma Exortação Apostólica, “C’est la confiance”, sobre Santa Teresinha do Menino Jesus e não ignorou este seu escrito: “Eu sofria então grandes provas interiores de todo o tipo (até chegar a perguntar-me por vezes se o Céu existia). Quando canto a felicidade do Céu e a eterna posse de Deus, não experiencio a menor alegria, pois canto apenas o que quero crer.”

Neste contexto, permita-se-me um parêntesis: não sou favorável à canonização no sentido oficial corrente do termo. Até porque custa imenso dinheiro – dizem-me que pode chegar a centenas de milhares de euros. E porque se exige um milagre. Ora, não há milagres, porque tudo é milagre: o milagre do ser e de ser. Deus criou o mundo com as suas leis. Deus é infinitamente transcendente e ao mesmo tempo infinitamente presente à sua criação; Ele não está fora, mas dentro; ora, o milagre pressuporia que Deus está fora e, por vezes, vem dentro, e vem a favor de uns e não de outros. E como se saberia que determinado milagre é por causa de um determinado “santo” e não de outro que também aguarda a canonização?

A canonização só faria sentido como declaração de que alguém teve uma vida exemplar como cristão ou cristã.

2.2. No dia 2 de Novembro, celebra-se o dia dos defuntos. E, para muitas pessoas, ainda é importante fazer memória dos mortos. De qualquer modo, já não é como era. De facto, característica essencial desta nossa sociedade é fazer da morte tabu. Disso não se fala.

Não sou de modo nenhum favorável ao pensamento mórbido da morte, de que a própria Igreja se serviu por vezes para atemorizar e exercer poder, mas, quando a morte se torna tabu, há o perigo de cair na banalidade rasante e não colocar as perguntas essenciais. Já não se pensa e cai-se numa sociedade doente. Poderia dar muitos exemplos, mas deixo apenas uma pergunta: Que se passa neste país onde cerca de 9% dos juízes recorrem a drogas: haxixe e cocaína?

Texto DN, 2023 e Juízes confessam usar cocaína e haxixe

Teto de 16 mil euros para carros elétricos e a crise da habitação: apoio real ou desconexão da poupança familiar?

No âmbito do Dia Mundial da Poupança, que hoje se assinala, a discussão sobre a capacidade de gestão orçamental das famílias portuguesas ganha um novo capítulo com os mais recentes anúncios do Governo para a transição energética e a habitação. Com a promessa de apoios à aquisição de veículos elétricos para agregados vulneráveis que podem chegar aos 16.000 euros - cobrindo até 80% do valor do automóvel sem IVA -, surge o debate inescapável sobre a eficácia e a prioridade do destino dos fundos públicos.

Para a grande maioria dos agregados que enfrentam a atual crise habitacional e o aumento do custo de vida, a poupança não é uma escolha estratégica, mas um exercício diário de sobrevivência financeira. Embora os incentivos estatais visem acelerar a descarbonização, a exigência de capital próprio para cobrir os restantes 20% do veículo (acrescidos de IVA e despesas associadas), a incerteza sobre se o reembolso será diferido ou pago no ato da compra e a eventual limitação aos modelos elegíveis ou pré-selecionados colocam estes veículos fora do alcance de quem mais necessita, tal como tem sido analisado em detalhe pelo projeto Contas-poupança.

Paralelamente, subsiste a dicotomia ironizada na opinião pública entre as prioridades dos apoios sociais e as necessidades primárias da população: sem a estabilidade de um teto e de um orçamento familiar equilibrado, a capacidade de aceder a tecnologias de mobilidade sustentável permanece profundamente limitada. Para acompanhar a evolução destes regulamentos, as condições formais de candidatura e o calendário oficial de execução, a informação detalhada sobre os programas de incentivo pode ser consultada diretamente no portal do Fundo Ambiental.

Afinal, saíram de Portugal mais de 780 mil pessoas em apenas cinco anos


No meio da discussão sobre a entrada de estrangeiros em Portugal nos últimos anos, nem sequer se soube quantificar bem a saída de residentes para outras paragens em busca de melhores condições de vida.

As novas estimativas do Instituto Nacional de Estatística (INE), analisadas pelo PÁGINA UM e confrontadas com os dados anteriores, elevam afinal para 602.300 as saídas permanentes entre 2021 e 2024, contra as 123.615 estimadas até às alterações metodológicas em Junho passado, que causaram uma rectificação na quantificação da população portuguesa. São afinal quase cinco vezes o valor anterior, numa revisão que acrescenta cerca de 479 mil movimentos ao retrato de quem deixou o país.

Aos valores deste quadriénio (2021-2024) acrescentam mais 179.948 saídas no ano passado. Assim, independentemente do saldo migratório estar francamente positivo, há uma realidade chocante: nos últimos cinco anos, saíram de Portugal para viver em países estrangeiros um total de 782.248 pessoas. São quase 430 saídas em média em cada um dos dias dos últimos cinco anos. Esta ‘sangria’ foi, porém, compensada por um fluxo de entradas muito superior, mas sobretudo por pessoas que se confrontam com uma nova realidade socio-cultural. 

A diferença neste período torna-se clara quando se confronta o quadro revisto do INE para 2021-2024 com os antigos valores do próprio instituto que ainda continuam disponíveis no Eurostat. Para 2021, a estimativa passou de 25.079 para 120.806 saídas e, para 2022, de 30.954 para 128.536. Em 2023, o número subiu de 33.666 para 164.087. A maior correcção ocorreu em 2024: onde antes se apontavam 33.916 emigrantes permanentes, a nova série apresenta 188.871, mais de cinco vezes e meia o valor anterior.

Trata-se de uma revisão das estimativas para anos já decorridos, pelo que a diferença não corresponde a saídas ocorridas agora. Aquilo que mudou foi a dimensão atribuída à emigração. Num país que passou a receber muitos mais imigrantes, as entradas e o saldo positivo podiam deixar em segundo plano um fluxo de saída que os próprios dados oficiais subestimavam face aos resultados da nova metodologia.


Com efeito, o saldo migratório resulta apenas da diferença entre entradas e saídas. Pode, por isso, permanecer muito positivo mesmo quando a emigração é elevada, desde que a imigração a supere. O contributo de quem chega para o crescimento da população, para a actividade económica e para compensar o saldo natural negativo não permite concluir que Portugal esteja a conseguir reter quem já cá vive, sobretudo no caso dos jovens. Os dois movimentos coexistem, e o resultado agregado pouco esclarece sobre os percursos de quem parte.

Porém, existem sinais que mostram que é a população jovem que mais sai. Entre os residentes dos 20 aos 39 anos, a revisão de 2024 é expressiva: a estimativa passou de 22.606 para 92.605 saídas, um pouco mais de quatro vezes o valor anterior. A diferença aproxima-se de 70 mil movimentos num único ano, em idades que abrangem a conclusão de estudos, a entrada no mercado de trabalho, a consolidação de carreiras e a formação de famílias. Mas a idade, por si só, não permite concluir que se trata de jovens portugueses ou de pessoas com formação superior.

A alteração também muda a escala dos números que sustentaram notícias e intervenções políticas há poucos meses. Em 24 de Junho, a SIC Verifica considerou verdadeira a afirmação de Mariana Leitão de que desde 2017 não emigravam tantos jovens, com base em 19.249 saídas dos 20 aos 34 anos em 2024. Na nova série, esse mesmo ano e essas mesmas idades somam 73.494. A verificação assentava nos dados oficiais então disponíveis, que a revisão veio quase quadruplicar.

A revisão está longe de se limitar aos jovens. Entre os 40 e os 64 anos, a estimativa para 2024 passou de 7.849 para 56.521 saídas, mais de sete vezes o valor anterior. A correcção foi tão ampla nos restantes escalões que o peso dos 20 aos 39 anos no total desse ano desceu de 66,7% para 49%, apesar do forte aumento em números absolutos. O novo retrato mostra, assim, uma emigração mais numerosa e menos concentrada nos adultos jovens do que sugeriam as estimativas anteriores.

Incluindo 2025, a nova série soma 782.248 saídas em cinco anos, das quais 366.018 entre os 20 e os 39 anos e 255.044 entre os 40 e os 64. O último ano apresenta, contudo, uma descida do total para 179.948, menos 4,7% do que em 2024. Na meia-idade, o movimento foi o contrário: as saídas aumentaram 7,5%, para 60.752. A revisão em alta dos valores históricos não deve, por isso, confundir-se com um aumento contínuo da emigração em todas as idades.

Saliente-se que estes números abrangem residentes de nacionalidade portuguesa e estrangeira. Podem reunir situações distintas, desde portugueses que procuram oportunidades no exterior a imigrantes que regressam ao país de origem ou seguem para outro destino depois de viverem em Portugal. Por agora, este quadro por idades não separa essas trajectórias, nem permite calcular quantos dos que saíram tinham nacionalidade portuguesa.

Para ser contado como emigrante permanente é necessário ter vivido em Portugal durante pelo menos um ano e sair com intenção de residir no estrangeiro durante pelo menos outro ano. A definição exclui, portanto, o simples trânsito pelo território.

Num período de forte imigração, importa conhecer a dimensão destas novas partidas, mas também a da emigração portuguesa, incluindo a de jovens que terminam os estudos. Sem dados sobre qualificações e motivos, fica por apurar o peso dos salários, das oportunidades de carreira ou de outras condições de vida nas decisões de saída.

Como o PÁGINA UM noticiou em 30 de Junho, o INE retirou os quadros detalhados de 2021 a 2024 para os rever em linha com as novas estimativas da população residente. O ficheiro actualizado em 30 de Setembro confirma que as estimativas relativas a 2021 e aos anos seguintes assentam agora em informação administrativa. Até 2020, a metodologia apoiava-se em recenseamentos e inquéritos, pelo que o instituto adverte para os cuidados na comparação entre as duas séries.

Os acumulados apresentados medem movimentos de saída, podendo incluir uma pessoa que regressou e voltou a emigrar. Não correspondem a uma perda líquida de igual número de habitantes, pois esta depende também das entradas e do saldo entre nascimentos e mortes.

A imigração pode compensar as saídas em número de residentes, mas essa conta não diz se quem chega e quem parte tem as mesmas qualificações, ocupa as mesmas profissões ou vive nas mesmas regiões. A revisão torna mais evidente a necessidade de olhar para os dois fluxos, para perceber tanto a capacidade de atrair população como a de a fixar.

Fonte: Página UM

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Xenofobia e monopólio
As "habitações" miseráveis em que os imigrantes vivem dão lucro de milhares, tudo pago em dinheiro e sem direito a recibo. PSP já fez duas vistorias. Todos trabalham e estão legalizados em Portugal, mas não têm contratos de arrendamento. 

No Dia Mundial da Poupança: o preço alto das tartarugas baratas nos rios de portugal


Quando falamos de poupança, pensamos em literacia financeira e gestão de recursos. Contudo, a compra por impulso de animais de estimação a baixo custo - como as pequenas tartarugas exóticas das décadas de 80 e 90 — gerou um dividendo ecológico devastador. Hoje, investigadores da Universidade de Évora identificam já 7 espécies exóticas a multiplicar-se nos nossos rios, exigindo investimentos avultados na conservação dos cágados autóctones e demonstrando que a falta de planeamento ambiental sai cara a todo o ecossistema.

A descoberta, detalhada num artigo da revista científica Herpetozoa, decorre do trabalho de doutoramento de João Rato e do projeto TARTARUGA - uma iniciativa liderada por Filipe Banha com o patrocínio do Fundo Ambiental. Até agora, a comunidade científica já tinha conhecimento da fixação em Portugal da tartaruga-da-Flórida (Trachemys scripta) e da tartaruga-de-pescoço-listado (Mauremys sinensis). No entanto, as amostragens de campo realizadas entre 2024 e 2025 em 39 pontos do país confirmaram que a variedade de répteis exóticos a habitar os rios e lagos portugueses é substancialmente maior do que se julgava, tendo sido validadas sete espécies exóticas em sete localizações distintas.

Embora o exemplar oriundo da Flórida continue a ser o mais comum, as missões de monitorização identificaram também a tartaruga-mapa-falsa e vários espécimes pertencentes ao género Pseudemys. Dois achados específicos causaram particular inquietação nos especialistas: a captura de doze crias jovens de tartaruga-de-pescoço-listado, o que sugere que a espécie já se estará a reproduzir de forma autónoma em ambiente selvagem, e os primeiros sinais de tentativas de desova da tartaruga-mapa-falsa na região de Sintra, um indicador forte de que este animal poderá vir a fixar colónias permanentes na natureza. A instituição de ensino superior sublinha que o comércio de animais de companhia, operado tanto por circuitos legais como ilegais, funciona como a principal origem destas introduções indevidas quando os proprietários decidem libertá-los nos riachos e albufeiras.

Os cientistas advertem que a proliferação destas espécies invasoras ameaça o equilíbrio ecológico e a sobrevivência dos cágados autóctones, muito embora os efeitos exatos a longo prazo destas novas linhagens ainda careçam de estudos mais aprofundados. Atualmente, o projeto TARTARUGA foca-se em mitigar este cenário através do controlo populacional de répteis exóticos em quatro áreas protegidas do sul do país. Para Filipe Banha, este diagnóstico demonstra que a crise ambiental associada às tartarugas exóticas é mais complexa e dinâmica do que o previsto, exigindo um reforço urgente nas políticas de prevenção, na consciencialização dos cidadãos para a posse responsável e numa vigilância contínua das bacias hidrográficas nacionais para travar perigos biológicos imprevisíveis.

Histórico
O fenómeno de invasão teve início no final do século XX, quando exemplares juvenis adquiridos em lojas de animais eram posteriormente abandonados em parques, tanques e rios por particulares assim que atingiam a idade adulta. Notícias e relatórios de conservação publicados pelo Jornal Wilder detalham como a taxa de crescimento acelerada, o maior porte e a agressividade destas tartarugas exóticas levaram à perda de habitats e à monopolização dos locais de insolação (essenciais para a regulação térmica dos cágados autóctones). Além da competição direta por alimento e desova, estas exóticas atuam como vetores de infeções como a STEF e de parasitas aos quais a fauna nativa não apresenta imunidade.

Atualmente, a problemática estende-se por todo o território nacional. No Norte e Centro, rios como o Douro, Mondego e Ave registam a presença constante de espécimes exóticos maduros em zonas periurbanas. Na Área Metropolitana de Lisboa e Vale do Tejo, focos populacionais elevados em parques urbanos e ribeiras motivam campanhas autárquicas de captura e erradicação. Já nas regiões do Alentejo e Algarve, as elevadas temperaturas propiciam a desova e reprodução contínua destas exóticas nas albufeiras e charcos temporários, secando recursos fundamentais durante a estiagem.

Para travar o avanço do problema, a legislação enquadrada pelo Decreto-Lei n.º 92/2019 proíbe a detenção, comércio e libertação na natureza de tartarugas exóticas invasoras. Segundo as orientações oficiais disponibilizadas no portal do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e divulgadas por entidades de proteção ambiental, qualquer espécime exótico encontrado na natureza ou que já não possa ser mantido em cativeiro não deve ser libertado, devendo a situação ser comunicada ao ICNF ou ao SEPNA da GNR para o devido encaminhamento.

Dia Mundial das Cidades - A visão revolucionária do arquiteto Jan Gehl

O documentário The Human Scale (Projetando cidades para pessoas, não para carros – A visão revolucionária do arquiteto Jan Gehl) aborda de forma crítica o modelo de urbanismo modernista centrado nos automóveis, consolidado ao longo do século XX, e propõe uma mudança paradigmática focada nas necessidades humanas. A narrativa explora como o planeamento urbano afeta diretamente o bem-estar, a segurança, a saúde mental e a coesão social dos cidadãos. Através do estudo de padrões comportamentais, o filme demonstra que a escala humana . baseada nos sentidos, no ritmo da caminhada a 5 km/h e na interação social . deve ser a prioridade na conceção das cidades contemporâneas, em detrimento da velocidade e do espaço concedido aos veículos motorizados.

Ao longo do filme, a reflexão é construída através de casos práticos e desafios enfrentados em diversos países de diferentes continentes. Na Dinamarca, em Copenhaga, é apresentado o modelo pioneiro de pedestrização e recolha de dados sobre a utilização do espaço público. Nos Estados Unidos, o documentário destaca a transformação de Nova Iorque, nomeadamente a fecho da Times Square ao trânsito automóvel e a implementação de ciclovias sob a consultoria da equipa de Gehl. Na China, em cidades como Chongqing, é analisado o impacto da rápida urbanização e da migração em massa, que muitas vezes replica arranha-céus e autoestradas à custa da vida comunitária. Na Austrália, é evidenciada a revitalização dos becos (laneways) de Melbourne para criar uma cidade mais vibrante. No Bangladesh, em Daca, é exposta a crise socioespacial gerada pela priorização de infraestruturas para carros numa das metrópoles mais densas do mundo, prejudicando os peões e o transporte tradicional. Por fim, na Nova Zelândia, é documentado o processo de reconstrução de Christchurch após o sismo de 2011, onde a participação cidadã orientou o futuro planeamento da cidade.

O arquiteto e urbanista central na obra é o dinamarquês Jan Gehl, cujas décadas de investigação sobre o comportamento humano em espaços públicos fundamentam as propostas apresentadas. O documentário conta também com a participação e perspetivas de colaboradores de renome, como o arquiteto David Sim e o urbanista Rob Adams, responsável pela transformação urbana de Melbourne.

ghostbells - Phantoms


Os Ghostbells são um duo de música eletrónica/darkwave/EBM sediado nos Estados Unidos (formado pelos músicos Jessica Perry e Jim Finley). A banda edita a sua música através da editora alemã Out Of Line Music.

No que respeita ao estilo musical, sobressai uma grande diversidade de nuances dentro do espectro dark e alternativo. A sonoridade constrói-se sobre as fundações do rock gótico e do post-punk, onde pontuam riffs de guitarra atmosféricos, linhas de baixo proeminentes e ritmos marcantes. A esta base junta-se uma dimensão de darkwave, synthwave e ambient através do uso de sintetizadores texturizados que criam uma atmosfera densa e imersiva. Adicionalmente, escutam-se influências de doom metal e metal atmosférico em passagens mais lentas, pesadas e dramáticas, alternando com momentos contemplativos de ethereal wave e neoclássico que apostam em arranjos dramáticos e vocais assombrados.

Quanto ao significado da canção, a temática de Phantoms / Ghostbells gira em torno dos "fantasmas" da memória, em que o conceito de phantoms representa memórias não resolvidas, traumas, remorsos e ausências que continuam a ecoar na mente como um sino distante (ghostbells). A obra aborda também a mortalidade e a impermanência, refletindo sobre o fim das coisas, o luto e a inevitabilidade da passagem do tempo, culminando num isolamento existencial marcado pela sensação de desconexão do mundo físico e pelo refúgio na introspeção do mundo interior.

Estas ideias ramificam-se por marcantes influências literárias e filosóficas. Na literatura, destaca-se o romantismo sombrio e gótico de autores como Edgar Allan Poe, Lord Byron e Mary Shelley, focando a perda, o sublime, a beleza na melancolia e o sobrenatural, bem como a poesia simbolista e decadentista de Charles Baudelaire em Les Fleurs du Mal e a melancolia da vertente mais introspetiva de Fernando Pessoa e dos seus heterónimos. No plano filosófico, a composição cruza o existencialismo de Søren Kierkegaard e Jean-Paul Sartre sobre o sentido da vida, o vazio e a finitude humana, o pessimismo filosófico de Arthur Schopenhauer e Emil Cioran focado na dor da existência e no fascínio pelo sofrimento estético, e o conceito de hauntologia de Jacques Derrida, segundo o qual o presente se encontra perpetuamente assombrado pelos "fantasmas" do passado e pelas expectativas de um futuro que nunca se concretizou.

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Febre da inteligência artificial esgota placas de circuito impresso e inflaciona o mercado de hardware até 2028


O crescimento explosivo da indústria da inteligência artificial continua a deixar marcas profundas em toda a cadeia de abastecimento tecnológica global. Depois de o mercado ter assistido a um aumento acentuado nos preços das memórias, das unidades de armazenamento e das placas gráficas, a nova vítima desta corrida desenfreada aos componentes electrónicos são as placas de circuito impresso. Estes elementos fundamentais, conhecidos pela sigla inglesa PCB, preparam-se para sofrer um aumento drástico de preços num futuro muito próximo. A informação foi avançada num artigo publicado no Nikkei Asia sobre o estado actual da indústria de semicondutores e infraestruturas tecnológicas.


Prazos de entrega estendem encomendas até ao final da década
Actualmente, os fabricantes de hardware enfrentam um cenário de enorme complexidade logística. As empresas que produzem placas de circuito impresso não conseguem garantir a capacidade necessária para satisfazer simultaneamente a procura voraz dos servidores de inteligência artificial e as necessidades do mercado da electrónica tradicional. Este estrangulamento na linha de montagem provocou um prolongamento sem precedentes nos tempos de espera. Os prazos de entrega das encomendas estendem-se agora por períodos que chegam a atingir 30 meses de espera. Na prática, isto significa que um pedido de componentes submetido hoje aos fornecedores asiáticos poderá apenas ser entregue no final do ano de 2028.

A situação gera um ambiente de incerteza para as marcas de consumo, que dependem de um fluxo constante de material para manter as linhas de produção activas. Um executivo de uma fabricante norte-americana de computadores revelou mesmo que garantir o fornecimento adequado destas placas se tornou uma tarefa extremamente difícil. Este obstáculo logístico surge numa altura curiosa, uma vez que as previsões da própria indústria apontam para um declínio nas vendas de computadores pessoais no próximo ano. Ainda assim, a escassez de componentes básicos sobrepõe-se a qualquer abrandamento na procura por parte dos consumidores finais.

Prioridade absoluta às infraestruturas de inteligência artificial
O principal motor deste desequilíbrio reside na enorme atracção de capital gerada pelas novas tecnologias de processamento de dados. As infraestruturas dedicadas à inteligência artificial estão a absorver quase toda a oferta disponível no mercado de placas de circuito impresso. Este segmento específico encontra-se em rápida expansão e consegue atrair um volume de investimento substancialmente superior ao da electrónica de consumo tradicional, um fenómeno que ganha contornos visíveis quando a com o anúncio de um acordo entre a Apple e a Broadcom para assegurar componentes vitais.

Perante este cenário, os fabricantes de placas de circuito impresso dão prioridade absoluta aos clientes ligados à inteligência artificial, uma vez que estes demonstram total disponibilidade para pagar valores muito mais elevados pelos materiais. Esta dinâmica de mercado deixa os fornecedores de computadores convencionais numa posição de desvantagem, obrigando-os a competir ferozmente pela pouca capacidade de produção que resta nas fábricas. A pressão sobre a cadeia de abastecimento não é um fenómeno isolado, afectando diversas áreas do sector tecnológico, tal como se tem observado noutros segmentos da indústria mobile onde a procura pelo Galaxy Z Fold 8 traz desafios de produção à Samsung.

Custos das matérias primas agravam crise de produção
O problema que a indústria enfrenta actualmente vai muito além da simples limitação da capacidade de fabrico das instalações industriais. Os materiais básicos necessários para a construção física destas placas estão também a sofrer uma inflação severa. O artigo destaca especificamente o caso dos laminados revestidos a cobre, um elemento essencial na estrutura de qualquer placa de circuito impresso. Desde Julho de 2026, estes laminados registaram aumentos de preços 12 vezes consecutivas.

Esta escalada nos custos das matérias-primas significa que uma eventual expansão das fábricas não seria suficiente para resolver a crise de fornecimento a curto prazo. Para o segmento de consumo, este conjunto de factores transforma-se numa enorme dor de cabeça. Manter um fornecimento estável de componentes a preços acessíveis já era um desafio complexo para as marcas. Agora, com o custo das placas de circuito impresso a subir e a disponibilidade a diminuir drasticamente, os custos globais de produção de hardware preparam-se para um aumento inevitável, o que deverá reflectir-se no preço final pago pelos utilizadores que pretendam adquirir novos equipamentos nos próximos anos.

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