segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Fernando Almeida - O ICNF devia ser o ponta de lança da proteção da natureza em Portugal, mas não é

«O ICNF é mais um órgão policial-sancionatório do que educativo, e eu acho que as coisas em termos de futuro se resolvem com educação.»

«Do ponto de vista da ecologia científica, não me revejo na forma de proceder do ICNF e isso passa para os regulamentos e, sobretudo, para a interpretação dos regulamentos. Nada de verdadeiramente sólido se pode fazer em prol do ambiente sem as pessoas que vivem nos nossos campos e serras…»

«Acho que a proteção da natureza e seus recursos tem que ser feita para eles e com eles, e nunca contra eles. E por vezes parece que o Instituto tem uma lógica de imposição de padrões urbanos aos habitantes do mundo rural, e muito pouco respeito pela sua cultura, e pelos seus interesses.»

«A reserva da Malcata, por exemplo, foi criada para proteger o lince em Portugal, e julgo que acabou por provocar a extinção do lince. Proibiram-se as queimadas tradicionais, as arroteias, porque supostamente iria assustar o lince, e isso, evidentemente, criou matos altos, matos altos acabaram com as perdizes e os coelhos, e o lince não tinha onde comer e foi embora – passou a ser atropelado na periferia da serra. A história do ambiente em Portugal está cheia deste tipo de situações. Como fundei a Quercus tenho conhecimento destas coisas. (..) O lince da Malcata é um clássico. Se havia lince da Malcata no final dos anos 70 e anos 80, era porque haviam queimadas e porque as práticas tradicionais eram suficientemente adaptadas para que houvesse lince. »

«Em Portugal, primeiro a nobreza e, mais tarde, a burguesia rural endinheirada, foram-se apropriando das terras públicas e das terras comuns, como dunas, serras e tudo o mais que alguém com poder de bons contactos conseguisse escriturar em seu nome. E resulta daí que realmente o nosso país quase não tem terras públicas, o que complica muito a gestão do território, em especial a floresta e a própria proteção da natureza.»

«Depois, muitas vezes, o que se faz para proteger uma região é fazer dela uma reserva, um parque natural, fazem-se uns riscos no mapa e criam-se áreas protegidas onde as atividades humanas são muito limitadas, mas fora delas usam-se todo o tipo de desmandos como agroquímicos e monoculturas, permite-se a erosão de solos sem controlo, e por aí adiante.»

«A relação que o ICNF tem na vertente da conservação da natureza com as comunidades locais é altamente autoritária e nada cooperante. Tem uma lógica quase colonial do urbano sobre o rural, ou do intelectual sobre o menos escolarizado. Não se pode fazer conservação da natureza contra as pessoas, tem de ser sempre com as pessoas. Ou seja, tem de existir uma atitude pedagógica.»

«Um exemplo, e um problema mais grave que passa despercebido, é que nós somos produtores de pasta de papel para a Europa, e isso tem custos elevadíssimos em termos ambientais, em termos de água. Temos mais de um milhão de hectares de eucalipto em Portugal. Em França, a utilização de eucalipto globulus só é autorizada para secar pântanos e é altamente controlada, porque tem impactos.»

«Por cá, não vejo quase ninguém protestar. Protestamos contra 400 hectares de painéis solares, mas não protestamos contra um milhão de hectares de eucalipto. E estraga mais um hectare de eucalipto do que um hectare de painéis solares. Andámos no passado a subsidiar, a dar rios de dinheiro às pessoas para plantar eucaliptos. Isto, para mim, deveria ter sido um escândalo, não foi, e continua a não ser.»

«O movimento ambientalista em Portugal parece estar relativamente adormecido, como se o facto de aquilo ser verde fosse uma coisa aceitável ou menos má do que outras ocupações de solo, como por exemplo os painéis solares. O eucalipto tem um impacto enorme sobre os recursos hídricos, sobre o solo, e sobre os incêndios. Quanto é que nós pagamos anualmente no combate a incêndios? São centenas de milhões, e sobretudo porque temos uma floresta mal gerida. São muitas centenas de milhões de euros que nós pagamos a mais por bombeiros, meios aéreos, por prejuízo, dióxido de carbono para a atmosfera que não contabilizamos.»

«É evidente que o mau ordenamento e a má gestão da floresta estão na base da gravidade dos incêndios que nós temos. Se conseguiram que fossemos o fornecedor de papel à Europa à custa dos nossos campos, conseguem montar cá os centros de dados…»

Entrevista completa aqui

Habitação? Políticos a mexer na lei são proprietários (vários, senhorios)



Mais de 200 políticos que compõem o Governo e os grupos parlamentares do PSD, Chega, Iniciativa Liberal e CDS-PP, possuem património imobiliário, sendo 41 deles senhorios e 31 investidores do setor imobiliário. Ao todo, terão um valor patrimonial conjunto superior a 55 milhões de euros. 

As contas são do jornal Público, que esta segunda-feira apresenta os resultados de uma análise às declarações de rendimentos e de património de cada um destes 220 governantes e deputados - que são públicas e podem ser consultadas na Plataforma Eletrónica da Entidade para a Transparência. Recorda também o mesmo jornal que são estes os mesmos governantes que estão aprovar uma série de medidas que beneficiam proprietários e que, nos últimos dias, têm levado milhares de pessoas à rua para se manifestarem contra a crise na habitação.

O Governo tem a maior percentagem de proprietários entre os grupos de políticos analisados, num total de 436 imóveis, distribuídos pelos 60 governantes. Só Miguel Pinto Luz, ministro das Infraestruturas e da Habitação, e Gonçalo Matias, ministro Adjunto e da Reforma do Estado, não têm qualquer imóvel em seu nome. 

Entre a lista de proprietários consta como já é sabido, o nome do primeiro-ministro Luís Montenegro. O chefe do Governo é o segundo maior proprietário com um total de 55 imóveis, dos quais 49 são rurais, com um valor patrimonial total de cerca de 796 mil euros.

À sua frente, só está Maria Garrido, secretária de Estado da Administração Pública, com 62 imóveis, a maioria dos quais herdados da avó materna.

Por sua vez, nomes como Paulo Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros; Carlos Abreu Amorim, ministro dos Assuntos Parlamentares; Rita Alarcão Júdice, ministra da Justiça; Maria do Rosário Palma Ramalho, ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social; Maria da Graça Carvalho, ministra do Ambiente e da Energia; José Manuel Fernandes, ministro da Agricultura e do Mar; José Maria Brandão de Brito, secretário de Estado adjunto e do Orçamento; João Silva Lopes, secretário de Estado do Tesouro e das Finanças; Marisa Garrido, secretária de Estado da Administração Pública; Hugo Espírito Santo, secretário de Estado das Infraestruturas; Patrícia Gonçalves Costa, secretária de Estado da Habitação; Ana Luísa Machado, secretária de Estado da Justiça; Paulo Simões Ribeiro, secretário de Estado adjunto e da Administração Interna; Cláudia Sarrico, secretária de Estado do Ensino Superior; Francisco Catalão, secretário de Estado da Gestão da Saúde; Jean Barroca, secretário de Estado adjunto e da Energia; e João Moura, secretário de Estado da Agricultura, declaram rendimentos prediais, num montante total superior a 353 mil euros

Os dados a que o Público teve acesso resultam das declarações de rendimentos e de património dos 220 governantes e deputados, cuja apresentação é obrigatória ao Tribunal Constitucional, no prazo de 60 dias a partir do início do exercício das funções. 

Os manifestantes do Movimento pela Habitação, escusam de referir os seis pontos, basta referir que acusam o incumprimento da  Lei de Bases da Habitação (aprovada pela Lei n.º 83/2019, de 3 de setembro) é o diploma estruturante em Portugal que define as bases do direito à habitação e as incumbências do Estado para o garantir efetivamente a todos os cidadãos, nos termos da Constituição.

Jovens "Nem-Nem": Portugal no Top 4 da UE, mas a precariedade persiste


O Contexto Geral na União Europeia (O Panorama dos NEET)
O acrónimo NEET refere-se aos jovens (habitualmente entre os 15 e os 29 anos) que se encontram totalmente arredados do mercado de trabalho e dos sistemas de ensino ou formação profissional.

Média Europeia - a taxa de NEET na União Europeia tem rondado os 9% a 11%, registando uma descida gradual na última década na maioria dos Estados-membros.

Os extremos geográficos - os países do norte e centro da Europa (como os Países Baixos, Suécia ou Irlanda) registam consistentemente as taxas mais baixas (frequentemente abaixo dos 5-6%). Em contrapartida, países do sul e leste da Europa (como Roménia, Itália ou Espanha) enfrentam maiores dificuldades, com taxas significativamente mais elevadas.

Fatores determinantes - os estudos do Eurostat mostram que o nível de escolaridade é o fator mais crítico. Jovens com baixas qualificações correm um risco consideravelmente maior de cair na inatividade prolongada. Além disso, a partir dos 22-24 anos, as mulheres tendem a registar taxas de NEET superiores aos homens, muitas vezes associadas a responsabilidades familiares e de prestação de cuidados.

Análise a fundo: A realidade de Portugal
Analisar a situação dos jovens em Portugal no contexto dos indicadores europeus exige olhar para duas faces da mesma moeda: os avanços significativos na educação e os persistentes desafios estruturais na empregabilidade e salários.

1. A forte retenção escolar e a qualificação
Portugal tem feito um caminho notável na redução do abandono escolar precoce nas últimas duas décadas. A esmagadora maioria dos jovens mantém-se nos ensinos secundário e superior por mais tempo. Contudo, o desafio desloca-se para a transição entre o fim dos estudos e a entrada num mercado de trabalho estável.

2. O fenómeno da precariedade e do subemprego
Muitos jovens portugueses que não entram estatisticamente na categoria estrita de desempregados acabam por enfrentar dinâmicas de precariedade severa:
  1. Contratos de estágio sucessivos ou falsos recibos verdes.
  2. Salários médios de entrada que não acompanham o custo de vida (especialmente o mercado imobiliário nos grandes centros urbanos como Lisboa e Porto).
3. O "Brain Drain" (Fuga de Cérebros)
Um aspeto particular da realidade portuguesa que afeta os dados de integração dos jovens é a emigração qualificada. Muitos recém-licenciados, confrontados com a falta de oportunidades bem remuneradas no país, optam por emigrar logo após concluírem os estudos. Isto mascara parcialmente as taxas brutas de desemprego jovem, mas representa uma perda estrutural de capital humano para a economia nacional.

4. O impacto territorial
As assimetrias regionais em Portugal são profundas. Enquanto nos grandes centros urbanos a oferta de emprego qualificado (nomeadamente nos setores tecnológico, de serviços partilhados e turismo) é mais dinâmico, as regiões do interior enfrentam um duplo problema: falta de oportunidades de emprego e desertificação demográfica jovem.

domingo, 18 de outubro de 2026

Rowland Dark - Dead Radio (starring Vox Sinistra)


"Dead Radio" é uma obra-prima da autoria do icónico músico australiano Rowland S. Howard - guitarrista de culto conhecido pelo seu papel fundamental nos The Birthday Party e Crime and the City Solution -, lançada no seu aclamado álbum a solo Teenage Snuff Film (1999) e cuja carreira foi interrompida com a sua morte precoce em 2009. A canção representa uma perfeita homenagem ao estilo musical do artista, ancorado num pós-punk visceral, gothic rock e num blues niilista e desconstruído, onde sobressai o seu timbre de guitarra inconfundível, repleto de feedback abrasivo, reverb cavernoso e um dedilhar melancólico e cortante.

Em termos de significado, a composição explora a anatomia de uma paixão tóxica e autodestrutiva, onde a obsessão se confunde com o vício através de metáforas viscerais ("bad for me like cigarettes", "good for me like Coca-Cola") e de uma sensação contínua de febre, paralisia e isolamento emocional. Esta estética reflete-se no videoclipe através de uma atmosfera cinemática soturna, minimalista e marcada pelo noir subterrâneo, focando o olhar hipnótico e debilitado do artista envolvido em sombras, fumo e luzes estroboscópicas que evocam uma claustrofobia quase hipnagógica.

Nas suas influências literárias e filosóficas, a obra bebe profundamente do romantismo sombrio e do decadentismo do século XIX, invocando a poesia mística e visionária de William Blake na dissolução dos limites morais ("nothing is sacred, nothing is true"), a lírica maldita e febril de Charles Baudelaire em As Flores do Mal, e o pessimismo estético de Arthur Rimbaud. No plano filosófico, a canção manifesta um existencialismo niilista de matriz nietzschiana - onde o indivíduo se encontra num vazio de valores e à margem do mundo real ("no one that's nowhere") -, entrelaçado com a angústia e a perda do poder de escolha conceptualizadas por Jean-Paul Sartre, evidentes na incapacidade do narrador em distinguir "o que acender do que extinguir".

Entre a Razão Vital e a Luta de Classes: Os Limites de Ortega y Gasset


José Ortega y Gasset, filósofo, ensaísta, jornalista e ativista político espanhol, faleceu em Madrid a 18 de outubro de 1955, consolidando-se como um dos pensadores mais importantes do século XX e exercendo uma influência duradoura sobre os seus contemporâneos. Tido frequentemente como o "pai do existencialismo espanhol", o seu pensamento ganha verdadeira vida quando percebemos que nunca quis ser um filósofo de torre de marfim. Ortega escrevia para os jornais, falava para a rua e nutria uma obsessão clara: entender a vida tal como ela é vivida no dia a dia, com toda a sua confusão, urgência e imperfeição. Para ele, vivemos sempre numa circunstância, e a vida - a vida autêntica de cada um - consiste precisamente em saber o que fazer com ela, descobrindo o que tem de ser feito para não permitir que o "rebanho" cresça na sua ignorância, orgulhosa da sua própria estupidez.

A grande viragem do seu pensamento começa no modo como olhamos para a nossa existência. Durante séculos, a filosofia dividiu-se entre os idealistas, que juravam que tudo começava na mente, e os realistas, que priorizavam o mundo exterior. Ortega considerava essa discussão estéril, defendendo que a única realidade primordial e indiscutível é a vida humana de cada indivíduo. Esta "vida" não é um mero conceito biológico nem uma abstração teórica; é o drama de nos encontrarmos subitamente atirados para o mundo, sem termos pedido, e sermos forçados a decidir constantemente o que vamos fazer a seguir. Daí nasce a sua célebre máxima: "Eu sou eu e a minha circunstância, e se não a salvo a ela, não me salvo a mim".

Na prática, isto significa que ninguém existe num vácuo. O ser humano não é apenas a sua vontade, o seu caráter ou os seus sonhos, mas também o país onde nasceu, a língua que fala, a sua classe social, o seu momento histórico e até as pequenas contrariedades do quotidiano. Essa é a "circunstância" - o cenário e as cartas atribuídas pela vida. Não é possível simplesmente ignorar o mundo e viver isolado na própria mente; para realizar o seu potencial, o indivíduo tem de agir sobre esse cenário, transformando-o e dando-lhe sentido, numa conversa dramática e ininterrupta entre o "eu" e o meio que o cerca.

Por esta razão, Ortega criticava duramente a "razão pura" - uma razão fria, puramente matemática ou lógica, distante da realidade. A razão humana não serve para construir teorias abstratas e perfeitas que em nada alteram a existência quotidiana; serve, sim, para nos ajudar a navegar no mundo. Trata-se da "razão vital": pensamos porque precisamos de resolver problemas concretos e de nos orientar na selva da vida real. Desta perspetiva surge também o seu perspectivismo. Como a vida de cada pessoa está ancorada numa circunstância única, cada indivíduo ocupa um ponto de vista singular sobre o mundo. Se imaginarmos uma montanha, quem a observa do Norte vê uma paisagem coberta de neve, enquanto quem a olha do Sul contempla vegetação e sol. Ambos têm a verdade, pois a realidade não é uma imagem estática observável de um único ângulo absoluto, mas sim a soma de todas as perspetivas possíveis. O erro surge quando alguém julga que a sua visão individual é a única correta e tenta impô-la aos demais, ou quando se desagua num relativismo em que nenhuma perspetiva parece ter valor.

No entanto, a faceta de Ortega que talvez mais ressoe na atualidade é a sua crítica social, sintetizada na obra A Rebelião das Massas. Ao observar a Europa do início do século XX, o autor identificou a emergência do "homem-massa" - um termo que não designava as classes trabalhadoras ou os mais pobres no sentido económico, mas sim um perfil psicológico e uma atitude mental transversal a operários, académicos ou multimilionários. O homem-massa é o indivíduo que não exige nada de si mesmo, que não busca a excelência nem possui curiosidade intelectual, sentindo-se perfeitamente confortável por ser "igual a todo o mundo". Usufrui dos benefícios imensos da civilização moderna - a tecnologia, a medicina, os direitos políticos e o conforto material -, mas toma-os como garantidos, como se fossem frutos espontâneos da natureza, ignorando o esforço monumental, a disciplina e a cultura necessários ao longo de séculos para construir esses privilégios.

O grande perigo antevisto por Ortega residia na tirania deste conformismo. Ao sentir-se em maioria, o homem-massa perde o respeito pelo pensamento crítico, pelas minorias, pelo debate de ideias e pelas instituições. Em vez de argumentar, recorre à "ação direta" - à força bruta, ao linchamento moral ou à coerção do Estado - para esmagar tudo o que seja diferente ou exigente. Ao abdicar-se da responsabilidade individual, a democracia corre o risco de degenerar e abrir caminho a regimes autoritários, nos quais a multidão entrega o controlo a demagogos que prometem facilidades sem exigir esforço a ninguém.

Para compreender a evolução das sociedades, Ortega introduz ainda o conceito de geração. A história não avança por heróis isolados nem por impulsos cegos da multidão, mas através da sucessão de gerações - grupos de contemporâneos que partilham a mesma época, enfrentam os mesmos problemas e possuem uma "sensibilidade vital" semelhante. O papel de cada nova geração passa por receber a herança da anterior, criticá-la, adaptá-la ao seu tempo e dar o passo seguinte; quando uma geração se recusa a fazer esse trabalho ou se acomoda, a sociedade estagna. No fundo, o pensamento de José Ortega y Gasset configura-se como um apelo urgente à responsabilidade pessoal, lembrando que a liberdade não é um estado passivo, mas um compromisso diário de pensar pela própria cabeça, recusar o comportamento de rebanho e assumir o comando da própria vida dentro das circunstâncias dadas.

Porém, a grande limitação de Ortega reside precisamente na ausência de uma crítica estrutural ao capitalismo. O filósofo espanhol concentrou quase toda a sua análise nos domínios da cultura, da psicologia e da política, ignorando em grande medida a economia política. Embora criticasse o "homem-massa" pelo seu consumismo voraz e pela ilusão de abundância, não chegou a analisar quem lucra com essa alienação, nem a forma como o próprio sistema capitalista produz ativamente essa passividade para perpetuar a exploração. Para os pensadores críticos do capitalismo, como Karl Marx, Antonio Gramsci ou os teóricos da Escola de Frankfurt, não é possível culpar o indivíduo comum por ser "conformista" quando existe todo um aparelho económico, produtivo e publicitário minuciosamente desenhado para o manter submisso e alienado.

Para quem procura uma resposta direta à urgência de romper com a servidão e destruir o capitalismo selvagem através da ação coletiva e popular, a tradição crítica oferece perspetivas diametralmente opostas às de Ortega. Pensadores como Karl Marx e Rosa Luxemburg defenderam rigorosamente que a verdadeira libertação nunca viria de "elites esclarecidas", mas sim da auto-organização e da consciência da própria classe trabalhadora, partindo do princípio de que a emancipação dos trabalhadores terá de ser obra dos próprios trabalhadores. Na mesma linha, Antonio Gramsci analisou de que modo a classe dominante constrói uma "hegemonia cultural" para fazer o povo aceitar a exploração como algo natural e inevitável, sublinhando a necessidade premente de criar uma consciência de classe revolucionária a partir da base. Já no campo pedagógico e social, Paulo Freire contrapôs a visão elitista com a sua pedagogia do oprimido, argumentando que a consciencialização e a libertação têm de ser feitas pelo próprio povo, rejeitando radicalmente a premissa de que a massa é ignorante ou incapaz por natureza.

Ainda assim, mesmo para quem defende a revolução popular, a leitura de pensadores como Ortega y Gasset pode revestir-se de um importante valor estratégico. Conhecer a crítica que o autor faz à dinamização das massas ajuda a antecipar os riscos e desvios que qualquer movimento revolucionário enfrenta no terreno: o perigo de uma revolta legítima ser capturada por demagogos, a facilidade com que o dogmatismo sufoca a crítica interna ou a tragédia de a força da mudança se degenerar numa nova forma de autoritarismo. Como sustentava o filósofo Baruch Spinoza, o objetivo supremo de estudar as ideias dos outros não é "chorar nem rir, mas compreender". Rejeitar a visão de mundo de Ortega é uma posição perfeitamente legítima, pois ela parte de premissas sobre a natureza humana e a organização social que são fundamentalmente incompatíveis com o ideal de uma transformação popular e anticapitalista. Falarei disso numa próxima postagem. 

Tordo-comum aumentou o seu efectivo com o aumento dos parques urbanos em Portugal


Um verdadeiro cantor. Adoro o canto do tordo-músico (Turdus philomelos). Após tanto tempo a ser idealizado e construído, valeu bem a pena a luta pelo Parque da Cidade do Porto.
Idealizado inicialmente por Ezequiel de Campos entre 1916 e 1932, o parque teve os seus terrenos protegidos nos anos 60 pelo urbanista Robert Auzelle.

Após décadas de avanços e recuos, o projeto do arquiteto paisagista Sidónio Pardal começou a ganhar forma no terreno em 1990, culminando na inauguração da primeira fase em 1993 - concretizando assim um sonho com quase um século de história. É o maior parque urbano do país (84 ha).

Toda a sua história aqui

Referências

O que as ervas daninhas nos ensinam sobre ecodemocracia, habitação e justiça ambiental


Quando cheguei da manife, parei e olhei para estas flores de mariposa-dos-prados (Erigeron), que crescem com espontaneidade entre o solo e as frestas - muitas vezes sem pedirem licença nem precisarem de grandes recursos - e registei o momento. Há uma analogia direta com a própria ecodemocracia e com a crise da habitação.

Notem como as várias flores partilham a mesma haste, apoiando-se mutuamente para sobressair no meio do verde. Tanto a transição ecológica como a conquista da justiça habitacional dependem dessa mesma lógica comunitária e de cooperação, e não do individualismo especulativo.

Como resume uma frase marcante do ecologista social Murray Bookchin:
"A noção de que o homem deve dominar a natureza decorre diretamente da dominação do homem pelo homem."

Se não resolvermos as desigualdades humanas na habitação e na vida social, a própria relação da humanidade com o Planeta continuará a ser extrativista e desequilibrada.

sábado, 17 de outubro de 2026

PSD, CDS-PP, IL e Chega - O triunfo dos porcos


O Chega por várias vezes tem ameaçado a democracia, banca confusão e destila discurso de ódio, xenófobo  e com  tiques neonazis. Nada a ver com PS. O PSD infelizmente tem membros mais extremistas e sempre que esteve no Governo, despreza os pobres.

A metáfora política formulada por George Orwell em O Triunfo dos Porcos (Animal Farm) serve de espelho para analisar a evolução da crise habitacional e as dinâmicas partidárias no Parlamento português. Na alegoria de Orwell, a tomada da Quinta dos Animais prometia libertação e igualdade, mas a estrutura de poder foi gradualmente moldada para beneficiar elites restritas, alterando as regras à medida que os interesses económicos e a manutenção da ordem assim o exigiam.

Neste cenário político, os partidos com responsabilidades de governo ou de aliança liberal-conservadora (PSD, CDS-PP e IL) assumem o papel dos gestores da quinta que justificam a desregulamentação do mercado em nome da eficiência e da liberdade económica. Sempre que exercem o poder executivo, a sua linha de atuação foca-se na liberalização do setor imobiliário e na facilitação de despejos, sob a premissa de que o mercado autorregulado resolverá a escassez de oferta, uma lógica que acaba por empurrar as populações de menores rendimentos para situações de extrema vulnerabilidade.

Por seu lado, a extrema-direita do Chega desempenha um papel análogo ao dos cães de guarda da narrativa orwelliana: utiliza um discurso inflamado de rutura, focado no espetáculo mediático, no ruído institucional e na criação de bodes expiatórios sociais, mas, quando chega o momento de votar propostas estruturantes para o mercado imobiliário, atua de forma a viabilizar a agenda económica da direita tradicional.

A cronologia recente da habitação e do xadrez parlamentar reflete esta dinâmica de forma clara:

2012 – A Lei Cristas e a Abertura ao Mercado: Sob o Governo de coligação PSD/CDS-PP, aprovou-se a alteração ao Novo Regime do Arrendamento Urbano através da Lei n.º 31/2012, habitualmente conhecida como "Lei Cristas", que liberalizou o mercado de arrendamento, reduziu os prazos de transição dos contratos antigos e acelerou os procedimentos de despejo. A medida visava dinamizar o mercado, mas acabou por desencadear uma vaga de subida de rendas e perda de habitação por parte de famílias vulneráveis.

2023 – As Tentativas de Controlo com o "Mais Habitação": O Governo do PS aprovou o pacote legislativo através da Lei n.º 56/2023, estabelecendo limites ao aumento de rendas em novos contratos e introduzindo regras para o Alojamento Local, numa tentativa de impor travões à especulação, embora tenha enfrentado oposição firme à direita e críticas de insuficiência à esquerda.

2026 – A Nova Lei do Arrendamento e Pacote Habitacional: O Governo submeteu à Assembleia da República propostas de autorização legislativa para rever o regime de arrendamento urbano e conceder desagravamentos fiscais ao setor, culminando na publicação de diplomas como a Lei n.º 9-A/2026 e regulamentação associada, alterando normas sobre limites às rendas e procedimentos de despejo.

O Alinhamento das Forças Políticas no Parlamento: A proposta do Executivo foi aprovada na generalidade com os votos a favor do PSD, CDS-PP e Iniciativa Liberal. O Chega optou pela abstenção, viabilizando o diploma após alcançar um acordo com o PSD para alterações na especialidade. Em sentido oposto, os partidos da oposição à esquerda - PS, Bloco de Esquerda, PCP, Livre, PAN e JPP - votaram em bloco contra a iniciativa, alertando para o risco de aumento da precariedade habitacional e pela ausência de garantias efetivas de proteção aos inquilinos.

A crise habitacional atual reflete o impacto direto destas opções legislativas. Enquanto o discurso político da extrema-direita recorre a tiradas agressivas e à polarização mediática, a sua prática parlamentar viabiliza as políticas de desregulamentação económica defendidas pelo bloco de direita. O resultado prático para a população traduz-se no agravamento da crise de acesso à casa e na prevalência da especulação sobre o direito fundamental à habitação.

"Encostem-nos à parede", disse o deputado Bruno Nunes (Chega)

Francisco de Goya - "El tres de mayo de 1808" 

Durante o debate parlamentar sobre habitação e segurança, o Ministro dos Assuntos Parlamentares, Carlos Abreu Amorim, defende a ação policial e avisa que o Executivo "não vai ceder aos gritos que vêm da rua" (...)

Paulo Núncio (líder parlamentar do CDS-PP): " que não falte ao Governo, coragem e determinação, à CMP para porem na ordem esta minoria de arruaceiros 

Logo a seguir, o deputado Bruno Nunes (Chega) saúda ironicamente o PSD por apresentar "finalmente um ministro de direita a debate". 

O regresso do "Encostem-nos à parede": Bruno Nunes aproveita o discurso do ministro para reintroduzir a polémica frase do seu partido, afirmando que ao Governo só faltou dizer: "Encostem-nos à parede duma vez por todas por aquilo que têm feito em Portugal e por esta vergonha de intervenção, de ataque às forças de segurança". [video]

A linguagem de violência é a antecâmara da repressão. É isto que preparam se chegarem ao poder.

A realidade:
1. Desemprego elevado:  realidade laboral dos jovens portugueses é fortemente marcada por dois desafios estruturais: a alta taxa de desemprego juvenil e os elevados índices de contratação a termo, também conhecida como precariedade. Enquanto a taxa média de desemprego geral no país ronda os 5,7%, o desemprego na faixa etária dos 16 aos 24 anos atinge os 19,8%, o que significa que praticamente 1 em cada 5 jovens que terminam os estudos e tentam entrar no mercado laboral não conseguem encontrar emprego. Este indicador coloca Portugal significativamente acima da média da União Europeia, que se fixa nos 15,4%.

2. Precariedade laboral: Para além disso, quando os jovens conseguem ingressar no mercado de trabalho, a maioria enfrenta uma grande instabilidade contratual, visto que quase 40% de todos os trabalhadores com menos de 30 anos têm vínculos temporários ou contratos a termo. Esta realidade posiciona Portugal como o 4.º país da União Europeia com os níveis mais graves de precariedade laboral jovem, triplicando o risco registado na população ativa em geral, cuja média nacional de contratos temporários é de 12,8%. Esta conjugação de instabilidade contratual e desemprego inicial explica em grande parte o envelhecimento da população ativa e a persistência da emigração jovem.

3. Jovens saem mais tarde de casa: Este estudo identifica três fatores principais por detrás destas mudanças: o envelhecimento demográfico, a redução da natalidade e o aumento das separações e divórcios.

4. A percentagem de famílias proprietárias da residência principal é menor entre os jovens: Riqueza das famílias "aumentou de forma acentuada" nos últimos anos "devido ao forte crescimento dos preços da habitação". Jovens cada vez mais excluídos deste progresso. BdP/INE

5. Os ciganos e exclusão dos subsidiodependentes : De acordo com os dados estatísticos partilhados pelo Instituto da Segurança Social e analisados em relatórios parlamentares e plataformas de verificação de factos como o Polígrafo, as pessoas de etnia cigana representam uma fração reduzida do universo total de beneficiários, situando-se historicamente entre os 3% e os 6% do total de famílias que auferem a prestação. Isto significa que a esmagadora maioria dos titulares do apoio - mais de 94% - pertence à população maioritária não cigana. Do ponto de vista do impacto orçamental global, o montante canalizado para este grupo representa uma percentagem residual das despesas totais da Segurança Social.

6. Radiografia do RSI em Portugal- o desfasamento entre os mitos sociais e a realidade dos números: Os dados estatísticos oficiais mais recentes de 2026, publicados pelo Gabinete de Estratégia e Planeamento do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, traçam o perfil real do Rendimento Social de Inserção (RSI) em Portugal. O indicador estrutural mais relevante é que o número de beneficiários do RSI atingiu em 2026 o valor mais baixo dos últimos 20 anos, fixando-se em torno de 153.000 a 160.000 indivíduos, distribuídos por cerca de 73.000 a 78.000 famílias, ou seja 1.8% das famílias residentes em Portugal. Para encontrar números tão reduzidos na série histórica, é necessário recuar até ao ano de 2005. Esta radiografia demográfica oficial e os montantes atribuídos revelam a realidade do apoio em Portugal, cuja distribuição contraria vários mitos do senso comum, evidenciando que a prestação protege sobretudo menores e mulheres em situação de vulnerabilidade monoparental. No que respeita à idade, as crianças são um terço, sendo o grupo etário mais representativo o de menores de 18 anos, que compõem 33% do total de beneficiários do RSI. Os jovens dos 18 aos 29 anos representam apenas 13,7%, dividindo-se os restantes beneficiários entre adultos em idade ativa e a população com mais de 50 anos, que tem vindo a registar uma tendência ligeira de subida devido ao envelhecimento demográfico. Quanto ao género, as mulheres continuam a ser a maioria dos cidadãos abrangidos, cifrando-se em cerca de 52,7% contra 47,3% de homens, estando muitas vezes associadas a agregados familiares monoparentais com menores a cargo. Geograficamente, o maior volume de beneficiários concentra-se nos distritos com maior densidade populacional e focos urbanos de pobreza, com Lisboa a liderar o volume total de pessoas apoiadas, seguida de perto pelo Porto e por Setúbal, enquanto os distritos de Bragança, Guarda e Portalegre registam os números mais baixos do país.
Ao analisar os valores médios reais das prestações, os montantes monetários transferidos reforçam o caráter assistencialista de "última linha" da medida, situando-se substancialmente abaixo de qualquer salário de referência. Por indivíduo, o valor médio mensal recebido por cada beneficiário individual fixa-se nos 160,32 €, ao passo que o valor médio transferido para o total do agregado familiar ronda os 336 € mensais. O próprio valor de referência, que serve de teto máximo legal para calcular as capitações de quem não tem qualquer outro tipo de rendimento, está fixado em 247,56 € por adulto em 2026. Esta modéstia orçamental é corroborada por um estudo recente do ISCTE, o qual revela que o RSI cobre hoje apenas cerca de 40% da população que se encontra efetivamente abaixo do limiar da pobreza em Portugal, demonstrando critérios de triagem patrimonial e financeira muito apertados, como o limite de depósitos bancários de até 60 vezes o Indexante de Apoios Sociais (IAS).

PSD lida mal com a revolução popular


Todos nas grandes manifes Porto, Lisboa, Braga e Coimbra. Basta! E só desejo que mais cidades adiram. 

Metade dos jovens portugueses vive na incerteza dos recibos verdes. Ocupamos o vergonhoso 4.º lugar no ranking da precariedade da União Europeia. Ter emprego não chega, habitação pesa: estudos mostram que a pobreza persiste em Portugal, principalmente entre os jovens e idosos

Ter casa, estabilidade e dignidade não devia ser uma utopia para quem está a começar a vida.

O Luís Montenegro vem dizer: “Não sejam egoístas” e que  "2.300 euros é um valor razoável por uma habitação"

Portugal está com preços o imobiliário totalmente desfasados da realidade salarial do país. No Reino Unido a segunda habitação e as casas vazias ou de férias já pagam impostos a dobrar e a triplicar, na Escócia é ainda mais duro. Os preços imediatamente caíram quando a medida entrou em vigor e entraram mais casas no mercado de arrendamento. Outros relatórios da OCDE e do Eurostat evidenciam que na Alemanha, a proporção de arrendatários ultrapassou os 50% em 2022, o que a torna única entre os países da UE. A Suíça, tendo em conta a Associação Europeia de Comércio Livre (EFTA, o Reino Unido e os países candidatos), apresenta a percentagem mais elevada de arrendatários, com 57,7%.

Sempre considerei que o PSD carrega no seu DNA uma vertente autoritária e de bloqueio, umas vezes mais disfarçada, outras vezes perfeitamente visível. A história não me deixa mentir: basta recordar o governo de Cavaco Silva e a forma desproporcionada com que respondeu ao bloqueio da Ponte 25 de Abril, enviando a GNR e a polícia de choque. Essa decisão culminou em confrontos violentos, vários feridos e um jovem de Almada que ficou paraplégico por causa da repressão policial. A juntar a isto, o desdém de Cavaco Silva, que na altura desvalorizou a revolta a partir de uma cimeira na Grécia, tentando colar os manifestantes ao PCP ou à extrema-esquerda - uma postura atroz que mereceu, e bem, duras críticas por parte do então Presidente Mário Soares.

Para mim, a estratégia desta direita é clara: querem manter a maioria da população na pobreza e na vulnerabilidade. Porquê? Porque um povo empobrecido é um povo manietado, à mercê do que o Estado, as grandes empresas ou os fundos abutres decidam pagar-lhe. Quem vive só para sobreviver, vive no medo - perde a voz, perde a exigência e perde o poder de lutar pelos seus direitos.

É este o pensamento político que move esta gente. Na sua maioria, são figuras sem uma carreira profissional com significado, habituadas a saltitar entre cargos superiores, decorativos e altamente remunerados. Recuso a ideia de que o PSD tem sensibilidade social ou humanista. E nem vale a pena virem com a conversa de Sá Carneiro, porque, no fundo, a matriz ideológica e insensível deste partido sempre foi exatamente a mesma.

Os meus apelos, além da justa contestação nas ruas:
1. Apelo aos jovens que se sindicalizem. Portugal é o 4º país com menor taxa de sindicalização (ver gráfico)


2. Depois disto e perante o que daqui resultar, desejo mesmo que os nossos jovens voltem a confiar na política, vigilantes de populistas e continuem a lutar. 

3. Apelo finalmente que não se abstenham de votar.

Qual é a percentagem de habitação social nos vários países da União Europeia?



A Suíça e a Alemanha registam taxas de arrendamento elevadas, com mais de metade da população a alugar casa. Em contrapartida, os países dos Balcãs apresentam taxas de aquisição de habitação própria mais elevadas, embora muitas casas estejam sobrelotadas.

A crise da habitação é uma preocupação crescente em toda a Europa, marcada pela escassez e pelo aumento das rendas. Cerca de 70% dos residentes na UE são proprietários das suas casas, enquanto os restantes 30% são arrendatários. Cerca de 17% da população da UE vive em condições de sobrelotação.

Na Europa, o panorama da habitação é variado, com uma divisão significativa entre proprietários e arrendatários. Em oito dos 36 países europeus, mais de 90% da população vivia em casa própria em 2022, de acordo com o Eurostat.

Mais de metade da população arrenda na Alemanha e na Suíça
Na Alemanha, a proporção de arrendatários ultrapassou os 50% em 2022, o que a torna única entre os países da UE. A Suíça, tendo em conta a Associação Europeia de Comércio Livre (EFTA, o Reino Unido e os países candidatos), apresenta a percentagem mais elevada de arrendatários, com 57,7%.
Taxa de proprietários mais elevada nos países dos Balcãs
A Macedónia do Norte, a Albânia e a Roménia apresentam taxas de habitação própria superiores a 95%. Com exceção da Turquia, a taxa de propriedade de habitação era mais elevada nos países dos Balcãs, uma tendência que se estende à Hungria, Sérvia, Croácia e Montenegro.

Em contrapartida, países como a Áustria, a Turquia, a Dinamarca, a França, a Suécia e o Reino Unido situam-se abaixo da taxa média de habitação própria da UE, que é de 69,1%.

Entre os "quatro grandes" da UE, a Espanha e a Itália registam as taxas mais elevadas, com três em cada quatro residentes a viver em casa própria.
Políticas públicas e habitação social de arrendamento
Os países europeus adoptaram várias medidas políticas para garantir habitação a preços acessíveis, nomeadamente subsídios de habitação, habitação social de arrendamento e regulamentação das rendas.

Em média, a habitação social representa 8% do parque habitacional total da UE, de acordo com o relatório da OCDE sobre habitação a preços acessíveis. Trata-se de alojamentos residenciais para arrendamento a preços inferiores aos do mercado e atribuídos de acordo com regras específicas e não com mecanismos de mercado.

Os Países Baixos, a Áustria e a Dinamarca têm as maiores percentagens de habitação social, constituindo mais de 20% do seu parque habitacional total.
O Reino Unido, a França, a Irlanda, a Islândia e a Finlândia têm sectores moderados de habitação social, variando entre 10% e 19%.
O sector é relativamente pequeno na Suíça (8%) e na Alemanha (2,7%), onde mais de metade da população é arrendatária.
Tem divisões suficientes na sua casa?
A qualidade da habitação é fundamental. A OCDE sublinha que as casas sobrelotadas e com pouco espaço afetam negativamente a saúde, especialmente das crianças. O número médio de divisões por pessoa e as taxas de sobrelotação são indicadores-chave da qualidade da habitação.

Em 2022, o número médio de divisões por pessoa na UE era de 1,6, variando entre 2,3 divisões em Malta e 1,1 divisões na Polónia, Roménia e Eslováquia.

O número médio de quartos por pessoa era inferior nos países candidatos dos Balcãs, o que se correlaciona com taxas mais elevadas de sobrelotação. Apesar das elevadas taxas de propriedade nos países dos Balcãs, a sobrelotação continua a ser um problema nestas regiões.

Pelo menos metade da população do Montenegro, da Albânia e da Sérvia vivia em casas sobrelotadas. Na UE, a taxa de sobrelotação era de 16,8%.

Entre os países da UE, as taxas mais elevadas de sobrelotação foram observadas na Letónia (41,7%), na Roménia (40,5%) e na Bulgária (36,2%), enquanto as mais baixas foram observadas em Chipre (2,2%), Malta (2,8%) e Países Baixos (2,9%).

Apelo à habitação a preços acessíveis
Em janeiro de 2024, um coletivo de 100 fornecedores de habitação pública, cooperativa e social, juntamente com decisores políticos e investigadores, reuniu-se no Parlamento Europeu. Liderado pela Housing Europe, o grupo divulgou um manifesto que delineia três passos para garantir uma habitação acessível e digna para todos na UE:

  • Adotar um novo paradigma de habitação
  • Apoiar o movimento para uma transição energética justa
  • Abordar as causas profundas para acabar com a exclusão habitacional
Em particular, o manifesto apelou ao apoio à habitação pública, cooperativa, social e de iniciativa comunitária como espinha dorsal dos sistemas nacionais de habitação.

Holygram - She's Like The Sun

Os Holygram são uma banda alemã de post-punk formada na cidade de Colónia em 2015. A sonoridade da banda, em especial na faixa “She's Like The Sun”, integrante do álbum de estreia Modern Cults lançado em 2018, caracteriza-se por uma fusão densa e envolvente de várias vertentes da música alternativa. O post-punk e o darkwave formam a espinha dorsal do tema, que assenta em linhas de baixo pulsantes, repetitivas e hipnóticas, acompanhadas por ritmos de bateria mecânicos e precisos. A estas influências junta-se o shoegaze, criando uma parede sonora rica em guitarras repletas de efeitos de reverb, delay e distorção, que geram uma atmosfera etérea e imersiva. Adicionalmente, a herança do krautrock reflete-se na estrutura motórica e contínua do ritmo, enquanto os sintetizadores sombrios conferem uma textura industrial e urbana de inspiração oitentista. 

No que toca ao significado da canção, “She's Like The Sun” aborda a fascinação, a obsessão e a alienação nas relações interpessoais e na vida urbana contemporânea. A figura feminina que «é como o sol» surge como uma metáfora dupla: por um lado, representa um farol de luz, calor e atração magnética no meio da escuridão da metrópole; por outro, evoca uma força avassaladora e perigosa que, tal como o sol, encandeia ou queima quem dela se aproxima demasiado. A letra reflete assim a procura de ligação num mundo marcado pela desconexão emocional, pela nostalgia e pela melancolia existencial, onde o desejo e o isolamento se entrelaçam profundamente. 

Por sua vez, o videoclipe adota uma abordagem intimista e descontraída que contrasta com a densidade da música. Apresentado num formato estilo karaoke e produzido em tom de diário de bordo pelo realizador Janosch Pugnaghi, o teledisco utiliza imagens captadas durante a digressão da banda pela América do Norte em 2018. Em vez de uma narrativa obscura tradicional do género, o vídeo mostra os membros da banda em bastidores, viagens e momentos de estrada. Este contraste entre a melancolia melódica e as imagens reais humaniza o projeto e desmistifica a figura do mito do rock, transformando o trajeto numa viagem nostálgica de companheirismo. 

A nível de influências literárias e filosóficas, a lírica e o conceito estético da banda bebem de várias referências intelectuais marcantes. A metáfora do sol liga-se diretamente ao mito clássico de Ícaro e à tentação de voar demasiado perto do objeto de desejo ou fascínio, sabendo que a proximidade excessiva pode resultar em destruição emocional. Paralelamente, a temática do absurdo, do isolamento individual na cidade moderna e da busca incessante de sentido reflete o existencialismo de autores como Albert Camus e Jean-Paul Sartre, onde o indivíduo navega pela noite urbana à procura de uma luz que valide a sua existência. Por fim, o ambiente industrial e néon evoca a literatura de ficção científica distópica, explorando a alienação nas hipermetrópoles onde o indivíduo é engolido pela arquitetura fria e pela tecnologia, restando-lhe cultos modernos de afetos e obsessões para preencher o vazio existencial.

Mais análises de temas dos Holygram:
HOLYGRAM - Signals
HOLYGRAM - Still There
HOLYGRAM - Modern Cults

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Fontaines D.C. - Japan

A Máscara do Quotidiano: Realismo Urbano e Alienação Existencial em "Japan" dos Fontaines D.C.
Originários de Dublin, os irlandeses Fontaines D.C. afirmam-se como uma das vozes mais densas e poéticas do rock alternativo e do post-punk contemporâneo. Em "Japan", a banda preserva a sua matriz urbana e melancólica, mas renova o seu vocabulário musical ao abraçar uma sonoridade mais intimista, acústica e envolvente. O tema centra-se numa crónica amarga sobre o tédio das rotinas, a desconexão emocional e a falsidade inerente às relações modernas. A letra acompanha a figura de uma mulher descrita como "mímica" - uma metáfora para a representação performativa e desprovida de sentimento -, que sustenta financeiramente um parceiro ausente, supostamente situado "no Japão". Essa barreira geográfica não passa de um símbolo para o abismo emocional que os separa, expondo a vacuidade de uma relação mantida por conveniência e habituada ao disfarce.

No plano concetual e filosófico, a obra bebe intensamente do realismo sujo (dirty realism) e da rica tradição literária da observação urbana. Esta herança, profundamente enraizada em autores irlandeses como James Joyce (em Dubliners), revela-se no olhar minucioso e quase clínico sobre o quotidiano cinzento de personagens comuns e nas suas pequenas tragédias silenciosas. Ao mesmo tempo, a canção dialoga diretamente com o existencialismo e com a filosofia da inautenticidade. A alcunha da "mímica" e o verso em que se sugere que ela se afasta do próprio corpo durante a intimidade espelham o conceito de "má fé" e dissociação emocional: a tendência humana para desempenhar papéis sociais rígidos, anestesiando os sentidos para evitar a dor do confronto com a realidade.

Esta carga lírica ganha corpo na narrativa do videoclipe, que recusa qualquer romantização ou exotismo sobre o Japão e prefere situar a ação em cenários suburbanos banais, centros comerciais genéricos e rotinas sufocantes. As personagens movem-se de forma mecânica e automatizada, simbolizando a alienação da vida contemporânea. A tensão atinge o seu ponto de rutura com a constante pergunta do refrão - "Why'd you go and make it real?" -, uma súplica desesperada que expõe o custo de rasgar a ilusão: a transição dolorosa entre o conforto anestesiante de uma farsa mantida em piloto automático e a brutalidade de ter de encarar a verdade sobre quem realmente somos.

Sem teto no Parque da Cidade: o esquilo Bernardo e o drama habitacional do Porto

Foi durante um passeio pelo Parque da Cidade que avistei este esquilo-vermelho, imóvel sobre a madeira envelhecida, a fitar o horizonte com um olhar tão expressivo e alerta que parecia carregar o peso de uma verdadeira preocupação. Ao observar a sua postura minuciosa, como se estivesse a inspecionar o seu próprio pedaço de terra, foi impossível não traçar um paralelo imediato com a realidade que nos rodeia: a premente crise habitacional que afeta a cidade do Porto. Esta coincidência inspirou-me a escrever uma fábula urbana que une o destino deste pequeno roedor ao drama vivido por tantos portuenses.

"Nas alturas da copa das árvores, o esquilo Bernardo procura incansavelmente por um abrigo. A sua espécie depende de cavidades naturais em troncos velhos e robustos, mas estas "casas tradicionais" são cada vez mais raras e disputadas, obrigando os esquilos a competir ferozmente por um refúgio seguro - tal como os portuenses veem escassear as habitações acessíveis nos seus bairros históricos. Para contornar a falta de espaço, resta-lhe a exaustiva tarefa de construir o seu próprio drey, um ninho esférico feito de ramos e musgo que exige um investimento colossal de energia e tempo, espelhando os sacrifícios sufocantes e o esforço financeiro que as famílias hoje enfrentam para erguer ou adquirir um lar.

E quando nada disso está ao alcance, o esquilo é forçado a recorrer aos troncos caídos no solo: locais de passagem úteis para esconder pinhas ou sementes, mas vulneráveis a predadores e incapazes de oferecer a estabilidade de um verdadeiro abrigo. No Porto, essa precariedade traduz-se no recurso a soluções temporárias e incertas. Revela-se na proliferação de quartos inflacionados, onde a renda de um simples espaço absorve mais de metade do ordenado e força à sobrelotação em apartamentos partilhados. Reflete-se na vulnerabilidade constante dos contratos de curtíssima duração, que impedem a criação de raízes e deixam os inquilinos sob o espetro de aumentos drásticos ou não renovações no final de cada ano. Traduz-se no empurrar sistemático das pessoas para a periferia, trocando a história da cidade por horas de deslocação diária. E traduz-se, de forma dramática, no regresso de adultos e jovens trabalhadores à casa dos pais por incapacidade de arcar com um teto próprio, ou no sufoco acrescido trazido pelas ruturas conjugais - numa região e num país com taxas de divórcio assustadoramente elevadas, onde a separação de um casal significa a necessidade imediata de duas habitações num mercado que não consegue garantir sequer uma.

Quer se viva no cimo de um pinheiro no Parque da Cidade ou num edifício centenário na Baixa da Invicta, a lição que este olhar atento nos deixa é universal: a segurança de ter um teto não devia ser um privilégio de poucos, mas a garantia fundamental para que qualquer habitante possa guardar as suas provisões e prosperar com dignidade."

Nota: "A precariedade laboral, os baixos salários e a crise na habitação - que forçam os jovens a permanecer em casa dos pais até mais tarde - surgem como os principais obstáculos ao início da vida em casal e ao casamento." Saber mais sobre este estudo aqui

Ter emprego não chega, habitação pesa: estudos mostram que a pobreza persiste em Portugal, principalmente entre os jovens e idosos


Metade dos jovens portugueses vive na incerteza dos recibos verdes. Ocupamos o vergonhoso 4.º lugar no ranking da precariedade da União Europeia.
Ter casa, estabilidade e dignidade não devia ser uma utopia para quem está a começar a vida.

Vamos novamente a factos e não basearmo-nos nas questões triviais como o que os jovens vestem  ou se estão a ser manipulados pela esquerda ou pela direita. 
𝐐𝐮𝐚𝐧𝐭𝐨𝐬 𝐣𝐨𝐯𝐞𝐧𝐬 𝐞𝐬𝐭𝐚̃𝐨 𝐚 𝐫𝐞𝐜𝐢𝐛𝐨𝐬 𝐯𝐞𝐫𝐝𝐞𝐬 𝐞𝐦 𝐏𝐨𝐫𝐭𝐮𝐠𝐚𝐥?
Segundo os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE):   em termos absolutos estima-se que existam cerca de 60.000 a 80.000 jovens (até aos 29/30 anos) a trabalhar de forma independente ou a prestação de serviços (recibos verdes).

𝐅𝐚𝐥𝐬𝐨𝐬 𝐫𝐞𝐜𝐢𝐛𝐨𝐬 𝐯𝐞𝐫𝐝𝐞𝐬 𝐞 𝐝𝐞𝐩𝐞𝐧𝐝𝐞̂𝐧𝐜𝐢𝐚: entre a população jovem que trabalha a recibos verdes (faixa dos 16 aos 34 anos), regista-se a maior taxa de dependência económica e organizacional. Cerca de 20% destes jovens dependem de um único cliente (ou seja, cumprem funções de trabalhadores por conta de outrem, com horário estipulado e chefia, mas sem direito a contrato, subsídios ou proteção no desemprego).   

𝐂𝐨𝐧𝐭𝐫𝐚𝐭𝐨𝐬 𝐩𝐫𝐞𝐜𝐚́𝐫𝐢𝐨𝐬 𝐧𝐨 𝐠𝐞𝐫𝐚𝐥: se alargarmos a análise à precariedade laboral jovem (que inclui contratos a termo, temporários e recibos verdes), o panorama é ainda mais expressivo: 𝐜𝐞𝐫𝐜𝐚 𝐝𝐞 𝟓𝟎% 𝐝𝐨𝐬 𝐣𝐨𝐯𝐞𝐧𝐬 𝐞𝐦𝐩𝐫𝐞𝐠𝐚𝐝𝐨𝐬 𝐞𝐦 𝐏𝐨𝐫𝐭𝐮𝐠𝐚𝐥 𝐭𝐞̂𝐦 𝐥𝐚𝐜̧𝐨𝐬 𝐥𝐚𝐛𝐨𝐫𝐚𝐢𝐬 𝐩𝐫𝐞𝐜𝐚́𝐫𝐢𝐨𝐬, 𝐬𝐞𝐧𝐝𝐨 𝐚 𝐭𝐚𝐱𝐚 𝐝𝐞 𝐩𝐫𝐞𝐜𝐚𝐫𝐢𝐞𝐝𝐚𝐝𝐞 𝐞𝐧𝐭𝐫𝐞 𝐨𝐬 𝐣𝐨𝐯𝐞𝐧𝐬 𝐩𝐨𝐫𝐭𝐮𝐠𝐮𝐞𝐬𝐞𝐬 𝐮𝐦𝐚 𝐝𝐚𝐬 𝐦𝐚𝐢𝐬 𝐞𝐥𝐞𝐯𝐚𝐝𝐚𝐬 𝐝𝐞 𝐭𝐨𝐝𝐚 𝐚 𝐔𝐧𝐢𝐚̃𝐨 𝐄𝐮𝐫𝐨𝐩𝐞𝐢𝐚.

Falta de apoios: quase metade das pessoas em situação de pobreza (cerca de 45,4% em idade ativa) não recebe qualquer prestação social do Estado

Das grandes cidades até às aldeias, o cenário que nos rodeia é exatamente o mesmo: hotéis a multiplicar-se e uma lei de arrendamento cada vez mais penalizadora. Isto não é uma discussão de esquerda nem de direita. O que vivemos ultrapassou há muito a gentrificação ou a 'disneylandização' do país - é a ausência absoluta de políticas e decisões que protejam quem está a tentar construir o seu futuro.

A manifestação que eclodiu no Porto é profundamente justa e urgente. Há anos que programas como o Porta 65 se revelam insuficientes e desfasados da realidade, enquanto o "jovem trabalhador" foi diluído sob o eufemismo do "colaborador". Falamos de uma geração que cumpre horários das 7h às 19h ou enfrenta turnos da noite, mas cujo esforço é sistematicamente ignorado quando chega a hora da efetivação. Ao menor sinal de incerteza, as empresas descartam-nos, remetendo-os de novo para a precariedade, sem rede de proteção social nem perspetiva de estabilidade.

Tendas montadas na via pública, durante a noite e com o mesmo propósito: alertar para a crise da habitação. A "Acampada pela Habitação", que está a levar milhares de pessoas às ruas do Porto, desde sábado, não é o primeiro protesto do género em Portugal. Em 2020, a Juventude Social-democrata (JSD), do PSD, organizou uma manifestação com tendas em frente ao Ministério do Ensino Superior, em Lisboa, em plena pandemia. Nessa altura, não houve ordem da PSP para os jovens dispersarem, para a retirada de tendas ou carga policial.

Longe de ser um episódio isolado, a força e o grito de revolta que nasceu esta semana no Porto deviam alastrar-se de forma inexorável a todo o país. É errado pensar que este é apenas um problema da Invicta ou da capital; é um drama nacional. Hoje, o protesto legítimo de quem exige simplesmente o direito a viver onde trabalha acaba por ser duplamente neutralizado: pela partidocracia, que tenta colar rótulos e partidarizar a indignação para alimentar guerras de poder, e pela pós-democracia, que rebaixou a habitação de direito constitucional fundamental a mera mercadoria financeira. 

A frustração que sentimos vai muito além da questão dos rendimentos - é a perceção amarga e profunda de que as regras do jogo foram desenhadas sem ter em conta quem está, hoje, a tentar começar a sua vida. 

Resta-lhes o quê? O aeroporto? Emigrar outra vez? Sair da zona de conforto? Separar novamente as famílias? Repetir a receita de Passos Coelho? E pior, ouvirem o Primeiro-Ministro chamar-lhes "egoístas"?

Os nossos jovens não querem fugir. Querem erguer a sua vida na terra onde nasceram. Garanti-lo é a causa mais nobre de qualquer sociedade. E hoje, perante a falta de respostas, a juventude une-se numa só voz e diz-nos: "Não!