Da estética à gentrificação: como a arquitetura de autor acelerou a Crise da Habitação em Portugal
Fiz uma análise quais são os arquitetos portugueses mais requisitados em Portugal e em que cidades têm obra, o custo elevado das casas nas nossas cidades e a conexão com a crise habitacional. Eis os resultados (por ordem decrescente de impacto)
1. Álvaro Siza Vieira
O trabalho de Álvaro Siza Vieira encontra-se presente em Leça da Palmeira (Matosinhos) com a Piscina das Marés e a Casa de Chá da Boa Nova, no Porto com o Museu de Arte Contemporânea de Serralves e a Faculdade de Arquitectura da U.Porto (FAUP), em Lisboa com a Reconstrução do Chiado e o Pavilhão de Portugal, em Évora com o Bairro da Malagueira, no Marco de Canaveses com a Igreja de Santa Maria, em Viana do Castelo com a Biblioteca Municipal e em Arouca com o Edifício da Câmara Municipal.
2. Eduardo Souto de Moura
As intervenções de Eduardo Souto de Moura situam-se em Braga com o Estádio Municipal de Braga (Estádio da Pedreira) e o Mercado Cultural de Carandá, em Cascais com a Casa das Histórias Paula Rego, no Porto com as estações e linhas do Metro do Porto e a Casa das Artes, em Viana do Castelo com o Centro Cultural de Viana do Castelo, em Cantanhede com o Centro de Inovação e Tecnologias de Informação (ABIPLUG) e em Viseu com a Reconversão do Convento de São Francisco em Pousada.
3. Francisco e Manuel Aires Mateus (Atelier Aires Mateus)
A produção do atelier dos irmãos Aires Mateus distribui-se por Lisboa com a Sede da EDP na Av. 24 de Julho e a Reabilitação do Colégio da Trindade, por Alcácer do Sal com o Lar de Idosos de Alcácer do Sal, por Monsaraz (Reguengos de Monsaraz) com a Casa na Terra, por Leiria com a Casa em Leiria, por Sines com o Centro de Artes de Sines e por Ílhavo com a Reabilitação e ampliação do Museu Marítimo.
4. João Luís Carrilho da Graça
A obra de João Luís Carrilho da Graça destaca-se em Lisboa com o Terminal de Cruzeiros de Lisboa, o Pavilhão do Conhecimento dos Mares e a Musealização da Praça Nova do Castelo de São Jorge, em Évora com a Entrada do Templo Romano e recuperação do centro histórico, no Crato com a adaptação do Mosteiro da Flor da Rosa a Pousada, em Portalegre com a Escola Superior de Comunicação e Design e em Coimbra com a Ponte Pedonal Pedro e Inês.
5. Gonçalo Byrne
O percurso de Gonçalo Byrne inclui intervenções em Lisboa com a Sede da Ordem dos Arquitectos, a Reabilitação do Palácio do Muge e o Teatro Tália, em Estoi (Faro) com a Reconversão do Palácio de Estoi em Pousada de Portugal, em Coimbra com a Reabilitação do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra e em Viseu com as intervenções no centro histórico e espaço público.
6. Spaceworkers (Henrique Marques e Rui Dinis)
O trabalho do gabinete Spaceworkers desenvolve-se em Penafiel com a Casa de Sambade e o Centro de Interpretação do Românico, estendendo-se também a Paredes e Lousada.
7. João Mendes Ribeiro
As obras de João Mendes Ribeiro encontram-se em Coimbra com a Casa da Escrita e o Teatro Académico de Gil Vicente, e na Ribeira Grande (Açores) com o Centro de Artes Arquipélago.
8. AND-RE (Bruno André e Francisco Ré)
Os projetos do estúdio AND-RE situam-se em Águeda com o Centro de Artes de Águeda, expandindo a sua atuação às cidades do Porto e de Vila Nova de Gaia.
9. Luís Pedro Silva
A intervenção de Luís Pedro Silva localiza-se em Matosinhos / Porto com o Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões.
10. Diogo Aguiar Studio
O trabalho do Diogo Aguiar Studio marca presença no Porto com o Pavilhão do Museu de Serralves, bem como em Guimarães e Lisboa.
ANÁLISE e CONCLUSÃO
A proliferação de grandes obras de autor em Portugal revela o lado mais amargo e paradoxal da transformação urbana das últimas décadas. Quando observamos o mapa das intervenções assinadas pelos arquitetos mais celebrados do país - de Lisboa ao Porto, passando por Évora, Braga, Viseu ou pelas faixas costeiras -, torna-se evidente que o prestígio estético e a requalificação formal caminharam lado a lado com a proliferação da gentrificação, com a escalada da especulação imobiliária e com o agudizar de uma crise habitacional sem precedentes.
Em cidades como Lisboa e o Porto, as intervenções de grande escala no património e no centro histórico funcionaram, na prática, como o grande íman do capital imobiliário internacional. Onde Álvaro Siza Vieira desenhou a reconstrução do Chiado ou a dupla Aires Mateus ergueu grandes sedes corporativas e edifícios de linguagem minimalista, o valor do solo disparou a níveis incomportáveis para os salários nacionais. A "boa arquitetura" tornou-se uma chancela de valorização especulativa: os centros urbanos deixaram de ser lugares de vida comunitária para se transformarem em montras de luxo, condomínios exclusivos e fundos de investimento imobiliário encapuçados em reabilitação de charme.
Paralelamente, a proliferação de grandes infraestruturas vocacionadas para a atração de fluxos massivos - como os terminais de cruzeiros de Lisboa, por Carrilho da Graça, e de Leixões, por Luís Pedro Silva - atuou como um acelerador da turistificação. Bairros inteiros viram a sua população residente ser gradualmente substituída por Alojamento Local e o comércio tradicional por serviços direcionados ao consumo efémero. O custo de vida nestas zonas escalou rapidamente, tornando o simples ato de viver e consumir na própria cidade num privilégio inacessível para as famílias locais.
Mesmo fora das duas grandes metrópoles, a reconversão de edifícios históricos em hotéis e pousadas de luxo - seja pelas mãos de Eduardo Souto de Moura em Viseu, de Gonçalo Byrne em Faro ou de Carrilho da Graça no Crato - exemplifica a subtração de património público ao usufruto da comunidade. Espaços de memória e identidade coletiva foram devolvidos à sociedade na forma de enclaves privados de acesso reservado, onde o valor cultural é capitalizado em benefício da indústria turística de alto padrão.
O resultado desta dinâmica é a rutura moral que hoje empurra milhares de jovens para as ruas em protesto. A arquitetura portuguesa mais requisitada acabou por desenhar a moldura estética de um modelo urbano excluidor. Construiu-se uma cidade de fachada, cenográfica e altamente rentável para o turismo e para os fundos de investimento, mas profundamente hostil, inflacionada e inabitável para a população que dela necessita para construir a sua vida quotidiana.
Foto: Terminal de Cruzeiros de Lisboa - Carrilho da Graça




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