segunda-feira, 6 de julho de 2026

Alterações climáticas e ignorância, ou pior, agnotologia

Índice de Risco Climático,2025 [fonte]

Estamos a atravessar uma onda de calor. O tema das alterações climáticas está na ordem do dia. Por bons motivos? Depende. Como a ignorância é muita, tropeço a cada passo por esses murais fora numa notícia antiga (1930) em como a temperatura em Lisboa subiu a 38° e numa outra de 1944 também indicava Lisboa com 39º C à sombra. Os "doutores" das redes sociais já decidiram: é tudo uma aldrabice, "verão sempre houve", estão a ver como sempre ocorreram temperaturas altas? E a felicidade desta ignorância "moderna" logo se apoia nas mensagens políticas dos novos arautos da negação científica, das teorias da conspiração e do populismo que se alimenta de desinformação como pão para a boca.

Isso são notícias de Agosto, habitualmente mais quente no Verão e relacionadas com o anticiclone dos Açores. Ora  o Anticiclone dos Açores tem sofrido alterações profundas no seu comportamento e na sua "morada" habitual devido ao aquecimento global. Historicamente, a sua dinâmica sempre oscilou entre as estações: no verão, expande-se e move-se para nordeste, fixando-se mais perto da Península Ibérica e do Golfo da Biscaia, onde funciona como um "escudo" que afasta as tempestades atlânticas para norte e garante dias secos e frentes quentes em Portugal. Já no inverno, contrai-se e recua para sul ou sudoeste, mais perto das latitudes subtropicais e das Caraíbas, abrindo a "porta" para que as frentes chuvosas cheguem à costa ibérica.

No entanto, estudos climatológicos recentes demonstram que, devido às alterações climáticas, este sistema de altas pressões está a expandir-se substancialmente e a cobrir uma área muito maior no Atlântico Norte. Esta expansão faz com que o "escudo" de alta pressão empurre a precipitação de inverno cada vez mais para norte, em direção ao Reino Unido e à Escandinávia, tornando os outonos e invernos na Península Ibérica anormalmente secos e prolongando as dinâmicas de seca crónica. Por outro lado, em períodos específicos de desregulação climática recente, o anticiclone tem sofrido desvios anómalos para sul ou sudoeste, mesmo em épocas em que deveria estar robusto a norte, deixando a Península Ibérica vulnerável a frentes muito cavadas e a rios atmosféricos severos.

Resumindo, embora geograficamente continue a ter o seu centro de ação no Atlântico Norte subtropical - na região que se estende dos Açores até às Bermudas -, a sua área de influência cresceu significativamente. O resultado prático desta transformação é a persistência de secas mais severas e a ocorrência de verões mais propensos a bloqueios atmosféricos, que arrastam o ar quente do Norte de África diretamente para Portugal. 

Relembro também que agora as ondas de calor são cada mais cedo, mais prolongadas, ano atrás de ano. O climatologista e professor Carlos da Câmara tem sido uma das vozes mais contundentes ao analisar a gravidade das recentes ondas de calor de junho, alertando repetidamente que a situação atual é muito pior e muitíssimo mais complicada do que os registos históricos sugeriam para esta época do ano. O especialista enfatiza que o grande perigo destes episódios precoces já não reside apenas nas temperaturas máximas extremas atingidas durante o dia, mas sim no fenómeno das noites tropicais consecutivas, onde os termómetros teimam em não baixar dos trinta graus em algumas regiões. Esta ausência de arrefecimento noturno impede que o corpo humano recupere do esforço térmico diário, gerando um impacto direto e severo na saúde pública e no aumento da mortalidade. Para explicar a frequência destes extremos, Carlos da Câmara recorre frequentemente à metáfora estatística da curva de distribuição do clima, demonstrando que um pequeno desvio na temperatura média global provocado pelas alterações climáticas é suficiente para multiplicar drasticamente a probabilidade de ocorrência de fenómenos que antes eram considerados virtualmente impossíveis. O investigador deixa claro que olhar para estes eventos como mero calor normal de verão é um erro perigoso, sublinhando a urgência de encarar estas dinâmicas como um problema estrutural profundo que exige uma adaptação imediata da sociedade.

O aquecimento é global, existe e a tendência é para uma real crise climática, não apenas em Portugal, mas em todo o mundo. . A recente agitação política, em meados de Maio, que causou satisfação em setores alinhados com Donald Trump e com a indústria dos combustíveis fósseis deveu-se, na verdade, às intensas batalhas diplomáticas na aprovação do calendário e do âmbito do futuro Sétimo Relatório de Avaliação (AR7). Nestas reuniões, países produtores de petróleo e alas políticas conservadoras pressionam frequentemente para atrasar os prazos de entrega dos estudos ou para suavizar a linguagem nos resumos executivos destinados aos decisores políticos, tentando evitar metas explícitas de eliminação de energias fósseis. Contudo, os cientistas do IPCC sublinham que estas negociações políticas em nada alteram os factos físicos já demonstrados no AR6. Os dados empíricos recolhidos continuam a provar que a temperatura global está a subir de forma acelerada, e as projeções mais severas continuam válidas, independentemente das tentativas de desaceleração diplomática que ocorrem nos bastidores das Nações Unidas. 

Além disso, o consenso científico de que a Terra está a aquecer e que essa mudança é principalmente causada por actividades humanas é esmagador. Este consenso é apoiado por vários estudos de milhares de cientistas em todo o mundo e por declarações de posicionamento de organizações científicas, muitas das quais explicitamente concordam com os relatórios de síntese do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

Quase todos os cientistas de clima com obra publicada (97–98%) apoiam o consenso sobre mudança climática antropogénica e os 3% restantes de estudos contrários ou não podem ser replicados ou contêm erros. Um estudo de novembro de 2019 mostrou que o consenso entre cientistas de investigação cresceu para 100%, baseado numa revisão de 11.602 artigos revistos por pares publicados nos primeiros sete meses de 2019! Cf. Powell, James (20.11.2019). «Scientists Reach 100% Consensus on Anthropogenic Global Warming». Bulletin of Science, Technology & Society.
A medida das alterações climáticas não é a olhómetro. São décadas de estudo, observações, medições. E uma onda de calor anual é diferente de duas, três, quatro, cinco, etc. E é diferente um pico máximo de temperatura a cada três ou cinco anos, ou uma frequência mais curta. É a intensidade, frequência e duração dos fenómenos meteorológicos que contam para avaliar as mudanças climáticas. A meteorologia é outra coisa.

A meteorologia é a ciência que estuda o estado da atmosfera e os seus fenómenos no curto prazo (o tempo que está a fazer agora ou que fará nos próximos dias). O clima representa o padrão e a condição média da atmosfera observados ao longo de longos períodos, geralmente entre 10 e 30 anos. Enquanto pessoas comuns falam de meteorologia, cientistas falam de clima.

E convém ter presente! Apesar da forte evidência, o negacionismo climático persiste frequentemente através da desinformação alimentada por grupos com interesses económicos focados em atrasar transições energéticas e políticas de mitigação. Ou seja, há muitos palermas que, inocentemente, vão na conversa para papalvos. À custa disso, outros vão ganhando milhões e batem palmas. Também é sabido que agentes políticos e influenciadores são pagos ao serviço desses interesses económico- financeiros para espalhar desinformação.
Ouçamos a ciência! Não os vendedores de banha da cobra

Saber mais:

domingo, 5 de julho de 2026

Dogstar - All In Now

Letra
You keep touching, you'll get burned
You think by now that you'd have learned
That there's more here than you can handle
You keep betting everything
Always try your best to please
But sometimes, things are bigger than us

Run, run away
From what holds you tight
And dims your light
There's other ways
Keep you warm at night
Without the fight

No one to save your life tonight
It's up to you to do what's right by your heart
Whatever's left
You can flip it upside-down
Helps you get from lost to found
And the world will be riding by your side

There's nothing to lose
You've gone all in now
Think you know by now
That this was what it should be
But thoughts of breaking free
Wouldn't come to be

A banda norte-americana Dogstar, (mundialmente conhecida por ter o ator Keanu Reeves como baixista) é originária de Los Angeles, Califórnia. Apresenta na sua música "All In Now" uma sonoridade profundamente enraizada no rock alternativo e no pós-grunge dos anos noventa, misturando melodias cativantes do indie rock com guitarras distorcidas e uma linha de baixo pulsante. Para além dos riffs enérgicos, a faixa carrega uma forte carga reflexiva. Sob uma perspetiva filosófica, a canção flerta com o existencialismo e o estoicismo ao pregar a resiliência e a urgência de se viver o momento presente, evocando a ideia de aceitação e superação diante das incertezas da vida. Esta atmosfera de estrada, melancolia urbana e busca por identidade ecoa o espírito de romancistas da Geração Beat, como Jack Kerouac, e a crueza do realismo sujo de Charles Bukowski. Poeticamente, a letra traduz um lirismo confessional e nostálgico que aborda a efemeridade do tempo e a vulnerabilidade das ligações humanas, transformando o desapego do passado e a entrega emocional num convite direto para que o ouvinte se lance por inteiro no agora.

Agora o partido Chega desmistifica o pós-verdade - normaliza a mentira que foi espalhada




Portugal é muito "suave" com estes cheganos. A filha do Jaime Nogueira Pinto consegue ser mais extrema-direita que o seu pai. E não sei o futuro, mas nada me parece ser optimista, para quem defende a esquerda e pensadores como Fourier, Owen e Saint Simon. Vejamos o caso da Alemanha. A Alemanha destaca-se internacionalmente por ter um dos ecossistemas de maior escrutínio, regulação e resistência institucional contra a desinformação, embora enfrente uma pressão sem precedentes de campanhas massivas da extrema-direita e de agentes externos, como redes de desinformação russas.
Esta forte resistência alemã baseia-se em três pilares principais. O primeiro é o rigor legislativo, onde o país foi pioneiro global com a lei NetzDG, que obriga as redes sociais a remover discursos de ódio e notícias falsas criminosas em até 24 horas sob pena de multas multimilionárias, servindo de base para a atual Lei dos Serviços Digitais da União Europeia. O segundo pilar é a comunicação social pública forte e confiável, mantendo um sistema de radiodifusão altamente robusto, financiado pelos cidadãos e protegido de interferências governamentais, o que garante níveis de confiança consistentemente elevados na população. O terceiro pilar assenta numa sociedade civil ativa e em consórcios de verificação de factos, com coletivos independentes como o Correctiv a gerar impactos históricos ao expor esquemas e reuniões secretas da extrema-direita, mobilizando milhões de cidadãos em protestos de rua em defesa da democracia.
Apesar deste forte escrutínio, a extrema-direita tem conseguido contornar os filtros tradicionais através de estratégias digitais altamente sofisticadas. O partido Alternative für Deutschland e os seus influenciadores dominam redes visuais como o TikTok, superando largamente os partidos tradicionais no alcance orgânico junto do eleitorado mais jovem através de vídeos curtos que misturam sátira, pânico moral e desinformação. A esta estratégia soma-se o uso intensivo de inteligência artificial para a criação de deepfakes e a estreita ligação com campanhas de influência russas, como a rede Doppelgänger, focadas em polarizar debates sobre imigração e geopolítica. Assim, embora o escrutínio e a reação da sociedade alemã sejam rigorosos, a velocidade e a sofisticação tecnológica destas ofensivas continuam a testar os limites das defesas democráticas do país.

O video foi extraído do Programa Ás Avessas de 30 de Maio. Ver aqui o debate completo.

Europe to redefine oil as “sustainable”


The Council's Sustainable Finance Disclosure Regulation (SFDR) revision drops the exclusion that kept fossil fuel expansion out of Europe's transition funds. The decision landed in the middle of the continent's most severe heatwave on record.

In the same week that France logged its hottest day since national records began in 1947, the European Union moved to loosen what the word “sustainable” is allowed to mean on a fund label.

The two events were not connected by design. They were connected by date. On June 24, as a heatwave that the World Weather Attribution group of scientists described as the most severe ever recorded in the region gripped Western Europe, the Council of the European Union adopted its negotiating position on a revision of the SFDR, the EU's rulebook for sustainable financial products. The same group of scientists concluded that June heat of this intensity would have been virtually impossible fifty years ago without human-caused warming. By the end of that week, the World Health Organization's director-general said more than 1,300 excess deaths had been recorded across Europe since June 21.

That was the backdrop against which Europe decided to make room for oil in its sustainable investment rules.
The Council removed the one line that kept oil expansion out of sustainable funds


SFDR was built in 2021 to do two things: steer capital toward the low-carbon transition, and make greenwashing harder. The current revision, often called SFDR 2.0, sorts products into three new categories: sustainable, transition, and ESG basics.

The European Commission's own proposal would have excluded companies expanding their fossil fuel activities from the transition category altogether. The Council deleted that exclusion. In its place, a company opening new oil and gas fields can still qualify for a transition label, provided that around 20% of its capital expenditure is aligned with the EU taxonomy of green activities, and that it adopts a time-bound plan to reduce its operational emissions.

Consider a company that pours the bulk of its capital into expanding oil production and a fifth into wind and solar. Under the Council's proposal, it could still carry a transition label. That label is not cosmetic. Transition and sustainable funds shape how pension funds, insurers, and asset managers allocate trillions of euros, so what the word certifies is not a technicality.

A 20% test on the wrong emissions cannot capture an oil company's real footprint
Here is the detail the headline number hides. The requirement to cut emissions covers a company's Scope 1 and Scope 2, the pollution from running its own operations. It does not touch Scope 3, the emissions released when customers burn the oil and gas the company sells. For a fossil fuel producer, Scope 3 is the overwhelming majority of the harm, by many estimates 80% to 95% of the total. The rule scores the small share and ignores the rest.

The scale of the mismatch is easy to miss. Global clean energy investment is on track to reach around $2.2 trillion in 2026, close to double the money flowing into fossil fuels, according to the International Energy Agency. Yet oil and gas companies account for less than 5% of that clean energy spending. A rule that rewards a 20% capex slice, while ignoring the product itself, measures the smallest part of the story.

A few billion invested in renewables does not cancel out billions spent locking in new fossil production for decades. One reduces future emissions; the other commits them. They are not equivalent, financially or scientifically.

The new definition mirrors the position of a company a court has already faulted
The Council did not invent these criteria in a vacuum. They closely resemble arguments long advanced by parts of the oil industry, which has pressed for a transition category broad enough to take in continued fossil production. TotalEnergies is the most visible example. Between January and June 2026, according to European Parliament transparency records, the company held around 35 meetings with members of the Parliament, several referencing SFDR directly, and its own strategy targets putting 20% of its portfolio into power and low-carbon energy by 2030, the same one-fifth threshold the Council settled on. That is not proof that one produced the other. It is a striking convergence between what an oil major asked for and what member states agreed.

There is a sharper irony in the timing. In October 2025, the Paris Judicial Tribunal found that TotalEnergies had misled consumers with claims about its ambition to reach carbon neutrality by 2050, made while it continued to expand oil and gas production, and ordered the offending statements removed. The company said it would not appeal, and the judgment became final. Less than a year later, the Council is proposing a definition of transition that would let a company doing what the court described, expanding fossil fuels while investing a minority share in cleaner energy, carry a transition label across Europe.

The court's reasoning lands on the same point the fund rule misses. What made the claim misleading was the gap between a transition image and continued fossil expansion. The Council's 20% test widens that gap and stamps it as compliant.

I put these questions to TotalEnergies before publication of this article. In response, a company spokesperson said:
“TotalEnergies' position on the SFDR is well known and has been publicly expressed by the Company in its response to the European Commission's consultation dated 6 April 2026. It is available on the European Commission's website.”
On the court ruling, the spokesperson referred me to a company clarification.

In that clarification, TotalEnergies stresses that the tribunal dismissed most of the claims against it, that the decision concerned three paragraphs about its carbon-neutrality ambition on a French affiliate's customer website rather than its advertising, and that no advertising by its French affiliates was condemned. The company rejects the charge of greenwashing and sets out its record at length: more than €20 billion invested in low-carbon energy worldwide since 2020, €4 billion of it in France; 32 gigawatts of installed renewable capacity producing 50 terawatt-hours of electricity in 2025, up from close to zero in 2020; selection to build France's largest ever renewables project, a €4.5 billion offshore wind farm; and cuts of 36% in emissions from its operated oil and gas facilities between 2015 and 2024, and 55% in methane between 2020 and 2024.

Those last figures, though, are reductions on the company's own operations, the Scope 1 and 2 the fund rule already counts, not on the far larger emissions released when the oil and gas it sells are burned.
The Council says fossil fuel companies still have a role to play

Asked about the greenwashing criticism, a Council spokesperson said companies active in the fossil fuel sector can still contribute to the transition, for example by developing low-carbon fuels or building electric vehicle charging infrastructure.

Campaigners see it differently. Reclaim Finance argued that governments had given in to lobbying from oil majors and opened the door to greenwashing of fossil fuel investment, framing the coming parliamentary vote as a choice between a fossil future and the wellbeing of European citizens.
A weaker label still has to point in the right direction

The Council's defenders make a real argument, and it deserves a fair hearing. The transition category was never meant to be the strictest tier. It exists to finance messy, real-world decarbonization rather than a handful of already-clean companies, and drawing the line too hard, they warn, would only push capital out of Europe into markets with weaker disclosure, or starve the hard-to-abate sectors that most need it.

The argument holds until you look at what the test actually rewards. A transition label, however lenient, has to certify one thing, that a company is moving away from fossil fuels. The Council's version does not require even that. A company can raise its oil output year after year and still qualify, as long as a fifth of its spending points elsewhere. That is not a permissive standard for transition. It is the absence of one, on the single variable that decides whether a transition is happening at all.

There is also a cleaner way to do the thing the rule claims to enable. An oil company that wants to raise money for a wind farm can already issue a green bond, where the proceeds are ring-fenced to that named project and reported on. The capital reaches the clean asset without the parent company's oil expansion borrowing the "sustainable" label. That is the honest instrument, and it exists. What the Council's change adds is not access to green finance but permission to badge the whole enterprise, oil growth included, as transition.

And the fear of capital fleeing Europe cuts the other way. A label that certifies expansion in order to keep money onshore has not kept the money honest. It has moved the greenwashing inside the rulebook.
The decision is not final, and that is where the leverage sits

The Council has agreed only its negotiating position. The European Parliament's economic affairs committee is due to vote on its amendments on July 15, with the full Parliament expected to adopt its position after the summer, before trilogue negotiations with the Council and the Commission later in the year. The direction can still change.

The exclusion the Council stripped out was the Commission’s own. Under the Commission’s proposal, companies expanding their fossil fuel activities are barred from the transition category outright. But the Commission is not a bystander here. It opened the SFDR up in the name of simplification, a drive to cut reporting burdens on the financial industry, and the Council followed that logic a step further. A revision the Commission sold as a remedy for greenwashing is turning into a license for it.

I asked the European Commission directly whether it stands by that exclusion and will defend it in the negotiations. Its full, on-the-record reply was this:

“The Commission remains fully committed to engaging constructively with the co-legislators to achieve a balanced and timely agreement on the proposal.”
A spokesperson also referred me to the Commission's published reasoning, which sets out the exclusion in its own text.

The response leaves the Commission's position open to interpretation. While it does not say the Commission has abandoned its original proposal, it also does not explicitly reaffirm that it will defend this particular safeguard during the negotiations. The stronger rule still exists on paper. Whether it survives the legislative process will depend on the negotiations ahead, and particularly on the outcome in the European Parliament.

The problem was never the oil. It is the label.
Here the argument is easily misread, so it is worth stating plainly. The world will keep burning oil for years while it builds the alternatives. Reasonable people can debate whether Europe is better off pumping some of its own rather than importing every barrel, and amid a run of Middle East supply shocks, that energy-security case is not frivolous. But it is a different question from the one the Council has answered.

Nobody has to call a new oil field clean in order to keep the lights on. Oil can be produced, taxed, regulated, and wound down on a schedule, without being sold to a saver as a contribution to the energy transition. The decision in front of Europe is not whether the oil comes out of the ground. It is whether pulling it out counts as sustainable investment. That is the smaller question, and the far more dangerous one.

If oil is green, nothing is
A sustainable label is not a badge of virtue. It is a piece of information. Markets run on information. A pension fund, an insurer, or a saver moving money into a green product cannot audit a company's drilling plans. They trust the label to tell them what their capital is doing. Europe's sustainably labeled fund market, worth around €10 trillion, exists because that one word is assumed to mean something specific.

Stretch the word to cover a company opening new oil fields, and it stops carrying information. If the same label sits on a wind developer and on an oil major with a 20% side project, it no longer tells them apart. The investor who wanted the real thing can no longer find it. And the company doing the genuine, expensive work of transition loses the one advantage the label was meant to confer, cheaper capital and patient shareholders who believe the plan. Economists have a plain description for markets where buyers cannot separate quality from imitation. The honest product gets crowded out, and in time nobody pays a premium for the label at all.

The damage does not stop at oil. Once extraction qualifies as transition on a one-fifth capex test, every hard-to-abate sector arrives with the same claim, coal with a capture pilot, an airline with a fuel pledge, until the category describes almost everyone, which is another way of saying it describes no one. If oil extraction is green, the honest answer to what is not green becomes very little.

The timing sharpens the risk. Sustainable investing is already on the back foot, worn down by years of greenwashing scandals, funds quietly stripped of their green labels, and a political backlash that treats ESG as an insult. The SFDR move is not an isolated event. In the same days, under pressure from the Trump administration, the World Bank retired its headline target to steer 45% of lending toward projects with climate benefits, and the International Monetary Fund’s own watchdog reported a fading focus on climate, even as the underlying programs survived. That survival was not a gift: at the World Bank, a coalition of nearly 100 countries held the line and forced the plan to continue over Washington's objection, a reminder that the pressure runs both ways. Trust in the category is the scarce resource, and the SFDR revision was written to rebuild it with clearer and stricter definitions. On this one provision, it would do the reverse. It would take the reform meant to restore the meaning of sustainable finance and spend it dissolving the meaning of the word at its center.

Europe does not have to choose between energy security and climate credibility. It can pursue both. What it cannot do is tell investors that new oil production is sustainable without changing the meaning of the word itself. The July vote decides more than the fate of one regulation. It decides whether a green label still carries information an investor can trust, and with it the integrity of the market built on that single word.

Just launched! A comprehensive new manual gives guidance on identifying, framing, and investigating international environmental crimes

This guide from UCLA Law's The Promise Institute for Human Rights (Europe) and Climate Counsel is a crucial resource for practitioners, investigators and civil society actors seeking accountability for environmental crimes.

It also provides the practical foundations for future implementation of an international crime of #ecocide.

The natural world is increasingly being placed at the heart of international criminal law, with the International Criminal Court’s Prosecutor last year announcing a major policy review that commits it to pursuing accountability for environmental harm. As international precedent develops, the prospect that ecocide (mass harm to nature) will be recognised by ICC member states as the fifth core atrocity crime grows stronger. Such a step would place it on the same legal footing as genocide, war crimes, crimes against humanity and the crime of aggression.

Access the manual here

The manual is compiled by Kate Mackintosh and Richard J. Rogers, with contributions from Maksym Popov,Donna Cline, Wayne Jordash KC, Dmytro Koval and Professor Darryl Robinson.

sábado, 4 de julho de 2026

Massive Attack - Ritual Spirit feat. Azekel

Melhor som aqui

Letra
[verso 1]
Who'll mend this broke beat star
Who’s strength do I speak of
Climbing deep burning
Climbing deeper
Kinda deep burning

[verso 2]
Who's words that I spoke now storm
I keep it turning
It's Climbing deep burning
Climbing deeper
Kinda deeper

[refrão]
Climbing deep burning
Climbing deeper
Kinda deep burning

[verso 1] 2X
Who'll mend this broke beat star
Who’s strength do I sleep on
Climbing deep burning
Climbing deeper
Kinda deep burning

[refrão]

Significado da canção
A canção "Ritual Spirit" funciona quase como um mantra hipnótico sobre a vulnerabilidade, o esgotamento existencial e a busca por regeneração através do autoconhecimento. A sua letra foca-se na dor e no transe da transformação interior, algo que se torna evidente através de versos repetitivos como "climbing deeper" e "kinda deep burning". No cerne desta narrativa, a expressão "Who'll mend this broke beat star" sugere a imagem poética de alguém que está quebrado, desgastado pelo peso do mundo ou pelas exigências da fama, mas que, ainda assim, procura uma força interior — ou uma conexão quase espiritual com o outro — para se reconstruir. Esta densidade psicológica encontra o seu reflexo perfeito no icónico videoclipe da faixa, onde a supermodelo Kate Moss dança na escuridão total, iluminada apenas por uma lâmpada nua que ela própria manipula. O vídeo serve como uma metáfora visual exata para o processo evocado pela música: a iluminação dos cantos mais sombrios e esquecidos da nossa própria mente.
Esta atmosfera distópica e existencialista não nasce ao acaso; ela é profundamente alimentada pelas inspirações literárias e filosóficas que moldam os Massive Attack. Embora Robert "3D" Del Naja, o cérebro por trás desta era do coletivo, raramente aponte um único poema ou livro para justificar uma linha específica, a banda é historicamente guiada por um panteão muito claro de pensadores, poetas e romancistas. O tom meditativo e doloroso de "Ritual Spirit" ecoa, desde logo, a filosofia de Friedrich Nietzsche. A ideia de mergulhar no próprio abismo e o conceito de passar por uma destruição inevitável para alcançar a transformação pessoal e a superação ligam-se diretamente às noções nietzscheanas de superação do niilismo. Paralelamente, as dualidades entre o sagrado e o profano, a luz e a escuridão, e o misticismo puramente urbano presentes na escrita da banda bebem muito da poesia visionária e espiritual de William Blake.
O isolamento e a alienação que a faixa transmite encontram também raízes nos romances de ficção científica de J.G. Ballard e Philip K. Dick. Embora estes autores sejam mais frequentemente associados aos temas explicitamente políticos da discografia do grupo, a paranoia urbana e a solidão tecnológica que eles descreveram servem aqui de cenário para a imagem da tal "estrela partida" que tenta sobreviver à modernidade. Por fim, o minimalismo cirúrgico da letra e a sua profunda sensação de fragmentação espiritual remetem para a estrutura modernista de T.S. Eliot. Em particular, a obra The Waste Land surge como um paralelo perfeito para esta canção, celebrando a ideia de que a reconstrução do "eu" contemporâneo só se consegue fazer juntando, pacientemente, os pedaços que ficaram partidos pelo caminho.

Criminalidade. Revisão da população mostra país ainda mais seguro

A taxa de criminalidade foi revista em baixa nos últimos anos, na sequência das alterações do INE. O país vive um dos períodos com menor incidência da criminalidade em quase trinta anos. Este artigo integra a rubrica Visão Periférica.
4 Julho 2026, 11h00

Muita tinta já correu na sequência da disrupção estatística provocada pela revisão populacional do INE. Mas não ficará por aqui. Esperam-se outras repercussões nos próximos tempos, tendo em conta que estão a ser revisitados vários indicadores que dependem da população, como a riqueza anual por habitante ou dados relativos ao emprego e à saúde. Um deles - a taxa de criminalidade - já foi atualizado esta semana pelo INE, mas passou despercebido.

Os novos dados mostram que houve 32 crimes por cada mil habitantes em 2025, uma subida face a 2024 (31,2), mas abaixo de 2023 (33,2). Estes últimos dois valores (tal como os dos dois anos anteriores) são já reflexo da revisão do INE — antes, estavam em causa mais dois crimes por mil habitantes (33 e 35, respetivamente, segundo as contas do Jornal Económico).

Isto significa que a taxa de criminalidade do ano passado é a quinta mais baixa desde 1998. E a taxa de 2024 passa a ser a terceira. Nesta comparação, estão incluídos os anos de 2020 (28,7 crimes) e 2021 (28,4) - períodos em que houve confinamentos e, por arrasto, menos oportunidades para várias tipologias de crime. Dito de outro modo, se não contássemos com este período de excepção, o valor de 2024 teria sido o mais baixo em pelo menos 28 anos. E a taxa de 2025 seria a terceira mais baixa.

Convém notar que a incidência da criminalidade em Portugal, nos últimos anos, já se encontrava em níveis reduzidos quando comparada com outros períodos da história recente. Mesmo antes desta revisão, o pico de 2023 era inferior a qualquer taxa entre 1999 e 2013.

Os valores mais elevados foram registados entre 2008 e 2010 (na casa dos 40 crimes), período que coincide com a crise financeira global. Nos anos seguintes, durante a Troika, houve uma progressiva redução, com quatro descidas consecutivas a partir de 2011 (até atingir 33,8 em 2014), num contexto de queda da população (menos 163 mil pessoas em quatro anos). E depois estabilizou: em seis dos últimos oito anos (com exceção do período da pandemia), andou sempre entre 31 e 32 crimes por mil habitantes.


Claro que nem todos os crimes são iguais, mas a análise por categoria não altera as conclusões. Nos crimes contra a integridade física, a taxa de criminalidade está em 5 por 1.000 habitantes, o valor mais baixo desde pelo menos 2011. O mesmo se aplica aos furtos de veículo e em veículo motorizado (2,4) e aos furtos e roubos por esticão e na via pública (0,6) — neste caso, ao mesmo nível do período 2021-2023. Os crimes contra o património (16,2) só não são o valor mais reduzido porque na pandemia houve menos (de 2020 a 2022 oscilou entre 14 e 15 por mil habitantes).

As duas únicas categorias em que a taxa de criminalidade não está em níveis historicamente baixos dizem respeito ao comportamento na estrada: a condução com taxa de álcool igual ou superior a 1,2 g/l é de 2 por cada mil (tinha sido inferior entre 2017 e 2021 e em 2024) e a condução sem habilitação (1,3), que supera nove dos últimos 15 anos.

Os imigrantes
Comparando com os dados imediatamente anteriores à pandemia, houve um aumento de 9% na criminalidade registada entre 2019 e 2025: mais 30 mil, para um total de 365 mil crimes, segundo as contas do JE, com base no Relatório Anual de Segurança Interna (RASI), publicado no final de março. Só que, sabemos agora, este aumento ocorreu enquanto a população crescia 10,1%, cerca de um milhão de pessoas desde 2019, sobretudo imigrantes.

Numa altura em que os cidadãos estrangeiros representam 14% da população, a incidência da criminalidade é uma das mais baixas em quase três décadas, comparando bem com o pré-pandemia (32,3 crimes por mil habitantes em 2019) e com o registo de há uma década (os mesmos 32 crimes em 2016). Nesses anos, porém, os cidadãos estrangeiros representavam apenas entre 3% e 4% dos residentes. Ou seja, o peso dos imigrantes duplicou no país, mas os níveis de criminalidade mantiveram-se estáveis em relação à população, contrariando as narrativas populistas.

Contra a pós-verdade do eucalipto e dos "matos": cumprir escrupulosamente a Lei


Mitigar a tragédia dos incêndios florestais exige atacar o problema em duas frentes: travar as ignições e mudar radicalmente a estrutura da floresta. O eucalipto não pode continuar a ser o "combustível perfeito" do nosso território.

A prioridade absoluta? Quebrar a continuidade do combustível através do ordenamento. A nossa floresta deixou de ser um ecossistema para passar a ser um mar contínuo de eucaliptos. É urgente criar mosaicos na paisagem, intercalando os eucaliptais com faixas de espécies autóctones - como o carvalho, o castanheiro ou o sobreiro. Estas árvores têm copas mais húmidas e folhas muito menos inflamáveis, funcionando como verdadeiras barreiras naturais contra o fogo.

Mas o ordenamento não chega; a gestão ativa e a limpeza são vitais. Os dados mostram que as áreas de eucaliptal geridas profissionalmente, pela indústria papeleira, ardem pouco (as taxas andam pelos 2%). O drama está nos milhares de hectares privados deixados ao abandono. Para mudar isto, é preciso limpar o mato do subcoberto, respeitar o espaçamento entre árvores e, acima de tudo, controlar a regeneração natural - aquela que nasce sozinha e sem regras logo a seguir a um incêndio.

No terreno, porém, a realidade bate de frente com a ineficácia do Estado e a falta de fiscalização. Há regras, sim, mas os pequenos proprietários continuam a avançar com plantações clandestinas e sem qualquer licenciamento. O eucalipto tornou-se o refúgio financeiro da terra abandonada: exige pouco investimento e dá algum lucro a curto prazo, mesmo sem cuidados. Para desarmar este barril de pólvora, o caminho passa por criar incentivos financeiros sérios que convençam os proprietários a trocar o risco do eucalipto pela segurança das florestas de conservação ou dos sistemas agroflorestais. Algo que, na prática, continua a falhar.

Do lado do combate, o sucesso depende de vigilância, tecnologia e mão dura contra o crime. Apostar em videovigilância e patrulhas nas horas críticas permite apagar o fogo nos primeiros minutos, antes que o eucaliptal comece a projetar faúlhas a quilómetros de distância. Só que o sistema falha onde devia ser mais forte.

Primeiro, nas comunicações: em cenários de grande catástrofe, o SIRESP continua a falhar por saturação ou perda de sinal. Quando a rede vai abaixo, a coordenação no terreno colapsa. Segundo, o subaproveitamento da tecnologia: os drones com sensores térmicos seriam ideais para vigiar a floresta à noite, mas a sua utilização esbarra sempre numa burocracia absurda, na falta de pilotos certificados, nas forças de segurança e na ausência de uma frota pública que esteja mesmo operacional.

Enquanto não resolvermos o caos das plantações clandestinas, os apagões do rádio e a paralisia tecnológica na vigilância, o eucaliptal vai continuar a arder sem controlo. E, de nove em nove anos, estaremos exatamente no mesmo sítio: a lamentar os "piroverões", a ver casas arder e a chorar tragédias que eram perfeitamente evitáveis

Regarding the 250th anniversary of US Independence


We, the generation of the 60s, 70s, 80s have memories. So we must say and show the right path to our young generation. No propagandists, no to hate speech, no to neofascists, whether from the left or from the right. Having witnessed the turbulent shifts of history, we carry a unique responsibility to pass down the truth about where fanaticism and authoritarianism inevitably lead. When icons like Woody Guthrie, Johnny Cash and Pete Seeger sang, they did not answer to partisan machines or blind dogmas; they stood firmly for human dignity, truth, and the freedom of ordinary people against any form of oppression.

Extremism operates the exact same way no matter what flag it waves, relying on propaganda to distort reality, dehumanize opponents, and silence dissent. Guiding the youth today means teaching them to question easy promises and political scapegoats, encouraging them to look closely at the lessons of the past, and reminding them that standing up for the working class and the vulnerable is an act of universal empathy rather than a tool for political manipulation. By keeping our collective memory alive with honesty and conviction, we can ensure the next generation recognizes these historical traps and uses the power of authentic voice and art to keep building a freer, more compassionate world.


Also recall the episode of a tweet by George Bush's brother in 2016. The tweet was published by Jeb Bush on February 16, 2016, during his campaign for the Republican Party presidential primaries. The post is extremely minimalist and consists of just one image: a photograph of a .45 caliber semiautomatic pistol (an FNX-45) with the inscription "Gov. Jeb Bush" engraved on the barrel. The caption simply read "America." The tweet immediately went viral and generated a massive wave of criticism, memes, and parodies on a global scale. Users from all over the world began responding with photos of typical objects from their own countries using the same monotonic caption. In 2020, Anja Thaler made a homonymous music video "America is a Gun", based on this story.

Mocho-galego - O Teorema Plumado da Terra


"Sobre o osso lascado de um carvalho antigo,
Onde o mar verde do prado se espraia lento,
Vejam a precisão do instante: a tensão
Que se liberta no arranque do Mocho.
A elegância pura do gatilho de penas,
Onde o corpo, ainda atado à casca,
Já desenha, com a asa que se abre,
A mestria terna do primeiro voo.

As suas órbitas são duas luas de enxofre,
Faróis de febre líquida que dissecam a luz:
Eles decifram o dia. Rastreiam a curva lenta do vento
Sobre as cristas das giestas, caçando
A deriva da poeira, o milimétrico passo de um rato.

É um relógio de carne, um engenho de penas
Forjado por eras de ensaios e golpes certeiros
Para ser o nervo vigilante de todo o ecossistema.
O padrão do seu dorso - mapa de castanhos e cremes -
Funde-se na casca, devora a própria casca,
Uma engrenagem viva da complexa teia que o sustenta.

As garras, tensas como pinças de precisão,
Cravam-se na madeira em declínio, a sua única âncora
Contra a maré ascendente da mudança invisível.
É o freio biológico que governa a matéria - dos escaravelhos,
Das aranhas tecelãs, dos roedores -, a chave de abóbada
Que sustenta o teto vivo deste mundo verde.

A sua postura é um manifesto de equilíbrio frágil.
Se o carvalho tombar, se o prado vivo for asfalto,
Se o silêncio for quebrado por um ruído mais bruto,
Estes lumes de âmbar irão desvanecer. E com a sua partida,
Uma biblioteca inteira de voo e visão será rasgada.

Pois quem medirá o tremor na erva
Quando o vigia silencioso desaparecer?
Ele é o pulso selvagem da memória da paisagem,
Que agora plana, nessa linha onde a terra e o céu se fundem,
Por um mundo que temos mesmo de defender.

João Soares, 04.07.2027

A Filantropia enganadora e porque é importante taxar os bilionários

Durante anos venderam a ideia de que a luta de classes era uma invenção da esquerda. Conversa de comunistas. Teorias de ressabiados. Inveja de quem teve sucesso. Uma fantasia repetida sempre que alguém ousava falar de desigualdade ou da concentração da riqueza.
Depois aparece Warren Buffett. Sim, Warren Buffett. Esse conhecido marxista. Admirador de Che Guevara. Frequentador assíduo da Festa do Avante. Praticamente um bolchevique de Wall Street.
E diz isto:
De repente, a teoria da conspiração da esquerda passou a ser uma confissão de um dos homens mais ricos do planeta. Buffett não disse que a luta de classes existiu. Disse que existe. Não disse que a sua classe ganhou. Disse que está a ganhar. [New York Times, 2006]
Durante décadas, convenceram milhões de pessoas de que falar em luta de classes era coisa de comunistas, sindicalistas e ressabiados. Entretanto, a guerra continuou a ser travada. E, segundo um dos seus principais protagonistas, está a correr bastante bem para um dos lados.

"Regra Buffett" nunca chegou a ser implementada.
Apesar de ter tido uma enorme tração mediática e o apoio explícito do então presidente Barack Obama, a proposta falhou o seu caminho legislativo no Congresso dos Estados Unidos.

Em 2012, o projeto de lei (batizado formalmente como Paying a Fair Share Act) foi levado a votação no Senado norte-americano. Embora tenha conseguido uma maioria simples de votos a favor (51 contra 45), a proposta foi travada pela oposição do Partido Republicano através de uma manobra de bloqueio parlamentar (o chamado filibuster), que exigia uma maioria qualificada de 60 votos para que o debate e a votação final pudessem avançar.

Os opositores da medida argumentaram na altura que aumentar os impostos sobre os mais ricos equivalia a uma "guerra de classes" e que a introdução desta taxa iria prejudicar o investimento privado, travar a criação de emprego e desacelerar a economia.

Assim, o sistema fiscal norte-americano manteve-se estruturalmente idêntico no que toca à proteção dos rendimentos de capital. Até hoje, os ganhos derivados de investimentos financeiros e ações continuam a ser taxados a taxas significativamente mais baixas do que os salários do trabalho, permitindo que a assimetria denunciada por Warren Buffett continue a ser uma realidade.

O outro lado da Filantropia
A generosidade proclamada pelos super-ricos através de iniciativas como o The Giving Pledge costuma recolher aplausos unânimes, mas, quando se vira a moeda, a filantropia dos multimilionários revela uma face muito mais cinzenta e amplamente criticada por economistas e sociólogos. Longe de ser um ato puramente altruísta, a transferência de fortunas para fundações privadas funciona, em grande parte, como um mecanismo altamente eficaz de evasão ou otimização fiscal. Ao canalizarem o seu dinheiro para estas estruturas, os bilionários obtêm deduções de impostos massivas, o que significa que o Estado — e, por arrastamento, os cidadãos comuns — deixa de arrecadar receitas que poderiam ser aplicadas em serviços públicos essenciais, como o SNS, a escola pública ou as infraestruturas.

Além da questão financeira, há um profundo défice democrático neste modelo. Quando a riqueza é transferida para fundações geridas pelos próprios magnatas ou pelas suas famílias, o poder de decisão sobre o que é prioritário para a sociedade passa das mãos de governos eleitos para as mãos de elites privadas. São os multimilionários que passam a ditar, segundo as suas convicções pessoais ou interesses de mercado, se o dinheiro deve ir para a cura de uma doença específica, para a exploração espacial ou para reformas educativas que nem sempre são testadas ou validadas. Este fenómeno cria uma espécie de plutocracia disfarçada de caridade, onde o destino do bem-estar social fica sujeito aos caprichos de um punhado de indivíduos que não respondem perante nenhum eleitorado. Ler como os ricos se tornaram mesquinhos

Por fim, não se pode ignorar o tremendo ganho de reputação e a lavagem de imagem, muitas vezes apelidada de philanthro-washing. Muitas destas fortunas colossais foram erguidas com base em práticas laborais controversas, salários baixos, lóbis políticos para travar direitos sociais ou modelos de negócio que aceleraram a crise climática. Ao doarem uma percentagem vistosa do que acumularam, estes empresários conseguem desviar as atenções do escrutínio público e das críticas à forma como geraram a sua riqueza, transformando-se de predadores económicos em benfeitores da humanidade, enquanto mantêm intacto o sistema económico que perpetua as desigualdades que eles próprios dizem combater.

A forma mais democrática é exigir regulação e taxação dos bilionários. 
A exigência de uma maior taxação sobre os bilionários tem deixado de ser um debate puramente académico para se tornar uma pressão política concreta, movida pela necessidade de corrigir o que muitos consideram ser uma falha estrutural do capitalismo moderno. A estratégia para viabilizar esta mudança assenta, primordialmente, na cooperação internacional, dado que os super-ricos operam numa economia globalizada que lhes permite deslocar o património para jurisdições com tributação mais favorável. Projetos como a proposta de um imposto global sobre a riqueza, que visa estabelecer uma taxa mínima anual sobre as maiores fortunas, são fundamentais para evitar a concorrência fiscal entre Estados e impedir a existência de paraísos fiscais que servem de refúgio ao capital.
A nível nacional, a luta pela justiça fiscal passa por reformas legislativas que alterem a forma como a riqueza é tributada, centrando-se na taxação de mais-valias não realizadas - o património latente que cresce sem ser tributado enquanto não é vendido - e no encerramento de lacunas que permitem aos multimilionários viver através de empréstimos garantidos pelas suas próprias ações, escapando assim ao imposto sobre o rendimento das pessoas singulares. Paralelamente, o reforço dos impostos sobre heranças é defendido como uma medida essencial para prevenir a cristalização de dinastias financeiras que exercem um poder desproporcional sobre a democracia. 
Esta causa tem vindo a ganhar força através da pressão cívica, com movimentos de cidadãos e até de investidores consciencializados a sublinharem que a filantropia voluntária é um paliativo insuficiente perante a necessidade urgente de um sistema redistributivo robusto, transparente e democrático, que reponha o equilíbrio entre a acumulação de capital privado e o financiamento dos bens e serviços públicos que sustentam a coesão social.

Saber mais:

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Iamnoone - Into the Void (feat. Kay-Chi)


A própria banda descreve a música como uma espécie de "limiar" ou uma "anomalia gravitacional". O significado central gira em torno da desconexão entre a mente ou o espírito e o corpo físico, além da dolorosa perceção do envelhecimento e da perda de identidade. A letra e o conceito abordam os seguintes temas: "O que nos tornamos quando a âncora do nosso corpo é cortada? (...) Como nos tornamos fantasmas de nós mesmos quando éramos mais jovens?".

Em primeiro lugar, há uma crise de identidade, ou seja, a sensação de olhar para trás ou para o próprio corpo abaixo e já não se reconhecer, como se o indivíduo fosse um mero espetador da sua própria vida ("I see myself below / Still breathing, soft and slow"). Além disso, explora-se o vazio da nostalgia, visto que o "vazio" (void) ao qual o título se refere não é totalmente deserto, mas sim povoado por memórias. É aquele sentimento de nostalgia profunda em que se flutua pelo passado, percebendo que essa versão antiga já se transformou em poeira. Por fim, nota-se um desapego da matéria, com um tom esotérico e poético de quase-morte ou emancipação espiritual, onde a voz lírica flutua no silêncio do éter, deixando para trás as amarras do mundo físico. É uma música densa, introspetiva e que funciona quase como um espelho existencial envolvido por sintetizadores analógicos impecáveis.

Há aqui uma belíssima mistura dos dois mundos, mas a balança pende massivamente para a pura poesia e para a metáfora artística. No entanto, o que torna a letra e o conceito tão fascinantes é que a arte, muitas vezes, descreve de forma poética fenómenos reais que a ciência estuda em laboratório.

Se analisarmos o texto à luz da ciência atual, a "desconexão mente-corpo" descrita na letra, onde o indivíduo olha para o próprio corpo abaixo, corresponde muito de perto ao que a neurociência estuda como Experiências Fora do Corpo (Out-of-Body Experiences) ou Experiências de Quase-Morte (EQM). Para a ciência, isto não se trata de uma emancipação espiritual, mas sim de uma falha temporária na junção temporoparietal do cérebro - a região responsável por integrar os nossos sentidos e nos dar a perceção de que estamos dentro do nosso próprio corpo. Quando há falta de oxigénio, stress extremo ou trauma, o cérebro pode baralhar-se e criar a ilusão de que a consciência está a flutuar no éter.

Por outro lado, os conceitos de "anomalia gravitacional" e "vazio" têm, obviamente, uma base na astrofísica, que estuda buracos negros e o vazio cósmico. Contudo, a banda utiliza estes fenómenos físicos como metáforas psicológicas puras para ilustrar a força gravítica da nostalgia e o isolamento da mente. Da mesma forma, a crise de identidade e a dor de ver o próprio corpo envelhecer são temas amplamente documentados pela psicologia do desenvolvimento, que explica como a nossa autoimagem mental tende a ficar estagnada numa versão mais jovem, gerando um choque cognitivo quando nos olhamos ao espelho numa idade avançada.

Em resumo, os iamnoone e o Kay-Chi não escreveram um artigo científico, mas sim pura poesia existencial. O grande mérito deles, e do próprio género Darkwave, é precisamente utilizar a frieza de termos espaciais e científicos para dar forma e beleza às dores mais profundas, analógicas e abstratas da experiência humana.

Correntes verticais em “montanha-russa” no Oceano Antártico são mais intensas do que se pensava (video)


Investigadores australianos e norte-americanos mapearam pela primeira vez, com elevado detalhe, os movimentos verticais de massas de água no Oceano Antártico, revelando correntes muito mais intensas e complexas do que as estimativas anteriores sugeriam.

O estudo, publicado na revista científica Communications Earth & Environment, combinou observações de satélite com dados recolhidos por planadores oceânicos autónomos, criando uma imagem tridimensional sem precedentes das correntes que atravessam os primeiros mil metros de profundidade do oceano.

Segundo Yann-Treden Tranchant, estas correntes verticais desempenham um papel fundamental no transporte de calor, carbono, nutrientes e oxigénio entre a superfície e as profundezas marinhas.

“Ao ligarem a atmosfera ao oceano profundo, estas correntes ajudam a regular o clima da Terra”, explica o investigador.

Um redemoinho gigante junto à Antártida
A investigação centrou-se numa região particularmente dinâmica da Antarctic Circumpolar Current, a corrente oceânica mais forte do planeta, que circula em torno da Antártida.

Na área estudada, a sul da Tasmania, os cientistas analisaram um enorme redemoinho oceânico ciclónico formado junto à chamada Frente Polar, a fronteira natural onde águas frias antárticas encontram águas mais quentes provenientes do norte.

Este redemoinho apresentava uma diferença de quase um metro na altura da superfície do mar entre o seu centro e as águas circundantes, tornando-se um laboratório natural ideal para estudar os movimentos verticais da água.

Satélites e robôs mergulhadores
Os dados foram recolhidos durante a missão FOCUS, realizada em 2023 a bordo do navio de investigação RV Investigator.

A equipa utilizou observações do satélite Surface Water Ocean Topography (SWOT), capaz de detetar pequenas variações da altura da superfície do mar a partir do espaço.

Em simultâneo, dois planadores oceânicos autónomos foram colocados no interior do redemoinho. Estes robôs subaquáticos mergulharam repetidamente até mil metros de profundidade, recolhendo milhares de medições de temperatura, salinidade e oxigénio dissolvido.

Além disso, foram libertadas 15 bóias à deriva para acompanhar a velocidade e a direção das correntes superficiais.

Movimentos de centenas de metros por dia
Ao combinar os dados obtidos pelo satélite com as observações recolhidas debaixo de água, os investigadores conseguiram reconstruir os movimentos verticais da água em três dimensões.

Os resultados mostram que as correntes ascendentes e descendentes frequentemente ultrapassam os 150 metros por dia e podem deslocar massas de água várias centenas de metros em apenas 24 horas.

Estas correntes estendem-se até, pelo menos, mil metros de profundidade e ocorrem em escalas relativamente pequenas, por vezes inferiores a 10 quilómetros de largura.

Segundo os autores, a intensidade destes movimentos é significativamente superior à prevista por muitos modelos de circulação oceânica de grande escala.

Implicações para o clima global
Os cientistas acreditam que esta nova capacidade de observar movimentos verticais poderá melhorar significativamente a compreensão do papel do Oceano Antártico no sistema climático terrestre.


Os autores defendem que futuras observações através do satélite SWOT poderão permitir estimar com maior precisão a transferência de carbono, nutrientes, oxigénio e calor ao longo do tempo, ajudando a aperfeiçoar os modelos climáticos e a compreender melhor a resposta dos oceanos às alterações climáticas.

A Rússia já perdeu mais soldados na Ucrânia do que os EUA em TODAS as guerras desde 1945. Multiplicado por quatro

O estudo é do CSIS (Center for Strategic and International Studies) , um dos centros de investigação de defesa mais respeitados do mundo. Os números batem certo com as estimativas de outros governos um pouco por todo o mundo.
A conta total: 2 milhões de baixas, somando mortos, feridos e desaparecidos de ambos os lados.
Só a Rússia perdeu 1,4 milhões de soldados: 1% da população inteira do país. Destes, 450 mil morreram. Tudo por decisão de um homem só.
Para perceber a dimensão disto:
A Rússia já perdeu 4 vezes mais soldados na Ucrânia do que os EUA perderam em TODAS as guerras desde a Segunda Guerra Mundial. Coreia, Vietname, Iraque, Afeganistão. Tudo somado.
E o fardo não é dividido de forma igual. Regiões pobres e minorias étnicas morrem muito mais. Nos meios de comunicação da oposição russa acumulam-se relatos de aldeias onde a população masculina simplesmente deixou de existir.
E a guerra está a ficar pior para Moscovo.
Durante anos, morriam 2 ou 3 russos por cada ucraniano fora de combate. No primeiro semestre deste ano, a proporção saltou para 8 por 1.
O motivo tem nome: drones. A Ucrânia alargou tanto o alcance deles que criou uma "zona de morte" ao redor da linha da frente. Uma faixa tão saturada de drones que um soldado russo praticamente não consegue sair dela vivo.
Mas o drone é apenas metade da explicação.
A outra metade é a própria Rússia: uma estratégia de desgaste que atira soldados em massa contra linhas defendidas, mau treino, corrupção, moral no chão. O exército trata as pessoas como munição descartável.
Resultado: pela primeira vez na guerra, a Rússia já não consegue recrutar soldados ao mesmo ritmo em que os perde. A conta deixou de fechar.
Mais assustador do que a razão destas mortes, é o tempo que elas demoram. Os soldados russos estão literalmente a viver menos do que as moscas.
As moscas vivem entre 15 e 30 dias. Já um militar russo, desde o momento em que chega ao campo de treino até à sua morte no campo de batalha, demora cerca de 10 a 21 dias.
Quando chega à linha da frente, a sua esperança de vida ronda os 20 a 35 minutos.
A Ucrânia também sangra: até 625 mil baixas, com até 150 mil mortos.
2 milhões de baixas somadas é mais do que em Estalinegrado, considerada até hoje a batalha mais sangrenta da história. Claro, Estalinegrado durou apenas 6 meses. A guerra na Ucrânia já dura há mais de 4 anos, mas ainda não tem data para acabar.
Fica a pergunta: Estalinegrado tornou-se o símbolo eterno do horror da guerra. Como é que a história se vai lembrar da Ucrânia?

Dead Astronauts - Get Lost

Melhor som aqui


Letra
Like an iron lung
Keeping me alive
I'd rather you sold my soul
Than keep on dragging me behind

You will take
You will shake it
What will you do when I'm just bones

You will break it
Then reshape it
What will you do when I'm just bones

When I'm just bones...

For our last dance in a distant expanse
I will get all lost out here for you
I will get all lost out here for you
I will get all lost out here for you

You will take
You will shake it
What will you do when I'm just bones

You will break it
Then reshape it
What will you do when I'm just bones

A parabolic trance
A macabre dance
I will get all lost out here for you
I will get all lost out here for...

You will take
You will shake it
What will you do when I'm just bones

You will break it
Then reshape it
What will you do when I'm just bones
I will get all lost out here for you

Significado da canção
"Get Lost" ("Perder-se" ou "Desaparecer") explora o espaço ambíguo entre a nostalgia e o escapismo. A música lida com o peso do distanciamento emocional e as dores do amor (lovesickness).

A letra e a melodia trabalham em dupla dinâmica: enquanto os sintetizadores transmitem uma sensação de movimento constante e fuga (um desejo de correr sem rumo pela noite), a melodia carrega uma profunda tristeza. "Get Lost" significa usar a desorientação e a perda de controle (seja na pista de dança, no isolamento urbano ou na própria mente) como um mecanismo de defesa contra uma realidade dolorosa.

Inspirações Filosóficas, Romanticistas e Poéticas
O cerne do Romantismo do século XIX permanece perfeitamente vivo na estética dos Dead Astronauts através do culto à melancolia e ao trágico. A canção evoca diretamente o conceito de Sehnsucht - a palavra alemã que os românticos utilizavam para descrever um desejo nostálgico e inacabável por algo indefinido -, fundindo a dor da ausência com o isolamento. O indivíduo e a noite, elementos prediletos do Romantismo clássico para a expressão máxima do eu, ganham aqui uma roupagem contemporânea: a noite urbana e os néons sombrios substituem as florestas misteriosas e as tempestades do passado, servindo de palco para uma profunda dualidade poética. A música vive destes contrastes, mostrando-se simultaneamente fria e apaixonada, estática na sua melancolia, mas veloz no seu ritmo sintético. Esta estética "Nocturnal Noir" constrói uma poesia visual marcante, povoada por imagens de faróis borrados pela chuva na estrada, silhuetas solitárias e a busca de refúgio no anonimato das sombras, onde o "perder-se" surge como uma metáfora para a libertação da própria identidade.

Esta fuga da identidade abre portas a uma forte veia existencialista que questiona a ligação humana numa era hiperconectada, mas profundamente solitária. O desejo de desaparecer funciona como uma recusa em performar ou moldar-se às expectativas do mundo exterior, ecoando a angústia e o isolamento moderno debatidos por Jean-Paul Sartre. Paralelamente, a faixa abraça o Absurdismo e a filosofia do escapismo - ou da evasão da realidade - face ao peso do vazio emocional. Tal como Albert Camus sugeria que a aceitação do absurdo da vida exige uma resposta ativa, "Get Lost" propõe que o movimento contínuo (a fuga, a dança frenética e a aceleração na noite) é a única reação possível para encontrar algum vislumbre de alívio ou beleza na dor. Trata-se de uma releitura moderna do Spleen urbano e do tédio existencial de Charles Baudelaire, onde o escapismo deixa de ser uma mera cobardia e passa a ser a única ferramenta de sobrevivência do indivíduo na penumbra da metrópole.