sábado, 31 de outubro de 2026

Teto de 16 mil euros para carros elétricos e a crise da habitação: apoio real ou desconexão da poupança familiar?

No âmbito do Dia Mundial da Poupança, que hoje se assinala, a discussão sobre a capacidade de gestão orçamental das famílias portuguesas ganha um novo capítulo com os mais recentes anúncios do Governo para a transição energética e a habitação. Com a promessa de apoios à aquisição de veículos elétricos para agregados vulneráveis que podem chegar aos 16.000 euros - cobrindo até 80% do valor do automóvel sem IVA -, surge o debate inescapável sobre a eficácia e a prioridade do destino dos fundos públicos.

Para a grande maioria dos agregados que enfrentam a atual crise habitacional e o aumento do custo de vida, a poupança não é uma escolha estratégica, mas um exercício diário de sobrevivência financeira. Embora os incentivos estatais visem acelerar a descarbonização, a exigência de capital próprio para cobrir os restantes 20% do veículo (acrescidos de IVA e despesas associadas), a incerteza sobre se o reembolso será diferido ou pago no ato da compra e a eventual limitação aos modelos elegíveis ou pré-selecionados colocam estes veículos fora do alcance de quem mais necessita, tal como tem sido analisado em detalhe pelo projeto Contas-poupança.

Paralelamente, subsiste a dicotomia ironizada na opinião pública entre as prioridades dos apoios sociais e as necessidades primárias da população: sem a estabilidade de um teto e de um orçamento familiar equilibrado, a capacidade de aceder a tecnologias de mobilidade sustentável permanece profundamente limitada. Para acompanhar a evolução destes regulamentos, as condições formais de candidatura e o calendário oficial de execução, a informação detalhada sobre os programas de incentivo pode ser consultada diretamente no portal do Fundo Ambiental.

Afinal, saíram de Portugal mais de 780 mil pessoas em apenas cinco anos


No meio da discussão sobre a entrada de estrangeiros em Portugal nos últimos anos, nem sequer se soube quantificar bem a saída de residentes para outras paragens em busca de melhores condições de vida.

As novas estimativas do Instituto Nacional de Estatística (INE), analisadas pelo PÁGINA UM e confrontadas com os dados anteriores, elevam afinal para 602.300 as saídas permanentes entre 2021 e 2024, contra as 123.615 estimadas até às alterações metodológicas em Junho passado, que causaram uma rectificação na quantificação da população portuguesa. São afinal quase cinco vezes o valor anterior, numa revisão que acrescenta cerca de 479 mil movimentos ao retrato de quem deixou o país.

Aos valores deste quadriénio (2021-2024) acrescentam mais 179.948 saídas no ano passado. Assim, independentemente do saldo migratório estar francamente positivo, há uma realidade chocante: nos últimos cinco anos, saíram de Portugal para viver em países estrangeiros um total de 782.248 pessoas. São quase 430 saídas em média em cada um dos dias dos últimos cinco anos. Esta ‘sangria’ foi, porém, compensada por um fluxo de entradas muito superior, mas sobretudo por pessoas que se confrontam com uma nova realidade socio-cultural. 

A diferença neste período torna-se clara quando se confronta o quadro revisto do INE para 2021-2024 com os antigos valores do próprio instituto que ainda continuam disponíveis no Eurostat. Para 2021, a estimativa passou de 25.079 para 120.806 saídas e, para 2022, de 30.954 para 128.536. Em 2023, o número subiu de 33.666 para 164.087. A maior correcção ocorreu em 2024: onde antes se apontavam 33.916 emigrantes permanentes, a nova série apresenta 188.871, mais de cinco vezes e meia o valor anterior.

Trata-se de uma revisão das estimativas para anos já decorridos, pelo que a diferença não corresponde a saídas ocorridas agora. Aquilo que mudou foi a dimensão atribuída à emigração. Num país que passou a receber muitos mais imigrantes, as entradas e o saldo positivo podiam deixar em segundo plano um fluxo de saída que os próprios dados oficiais subestimavam face aos resultados da nova metodologia.


Com efeito, o saldo migratório resulta apenas da diferença entre entradas e saídas. Pode, por isso, permanecer muito positivo mesmo quando a emigração é elevada, desde que a imigração a supere. O contributo de quem chega para o crescimento da população, para a actividade económica e para compensar o saldo natural negativo não permite concluir que Portugal esteja a conseguir reter quem já cá vive, sobretudo no caso dos jovens. Os dois movimentos coexistem, e o resultado agregado pouco esclarece sobre os percursos de quem parte.

Porém, existem sinais que mostram que é a população jovem que mais sai. Entre os residentes dos 20 aos 39 anos, a revisão de 2024 é expressiva: a estimativa passou de 22.606 para 92.605 saídas, um pouco mais de quatro vezes o valor anterior. A diferença aproxima-se de 70 mil movimentos num único ano, em idades que abrangem a conclusão de estudos, a entrada no mercado de trabalho, a consolidação de carreiras e a formação de famílias. Mas a idade, por si só, não permite concluir que se trata de jovens portugueses ou de pessoas com formação superior.

A alteração também muda a escala dos números que sustentaram notícias e intervenções políticas há poucos meses. Em 24 de Junho, a SIC Verifica considerou verdadeira a afirmação de Mariana Leitão de que desde 2017 não emigravam tantos jovens, com base em 19.249 saídas dos 20 aos 34 anos em 2024. Na nova série, esse mesmo ano e essas mesmas idades somam 73.494. A verificação assentava nos dados oficiais então disponíveis, que a revisão veio quase quadruplicar.

A revisão está longe de se limitar aos jovens. Entre os 40 e os 64 anos, a estimativa para 2024 passou de 7.849 para 56.521 saídas, mais de sete vezes o valor anterior. A correcção foi tão ampla nos restantes escalões que o peso dos 20 aos 39 anos no total desse ano desceu de 66,7% para 49%, apesar do forte aumento em números absolutos. O novo retrato mostra, assim, uma emigração mais numerosa e menos concentrada nos adultos jovens do que sugeriam as estimativas anteriores.

Incluindo 2025, a nova série soma 782.248 saídas em cinco anos, das quais 366.018 entre os 20 e os 39 anos e 255.044 entre os 40 e os 64. O último ano apresenta, contudo, uma descida do total para 179.948, menos 4,7% do que em 2024. Na meia-idade, o movimento foi o contrário: as saídas aumentaram 7,5%, para 60.752. A revisão em alta dos valores históricos não deve, por isso, confundir-se com um aumento contínuo da emigração em todas as idades.

Saliente-se que estes números abrangem residentes de nacionalidade portuguesa e estrangeira. Podem reunir situações distintas, desde portugueses que procuram oportunidades no exterior a imigrantes que regressam ao país de origem ou seguem para outro destino depois de viverem em Portugal. Por agora, este quadro por idades não separa essas trajectórias, nem permite calcular quantos dos que saíram tinham nacionalidade portuguesa.

Para ser contado como emigrante permanente é necessário ter vivido em Portugal durante pelo menos um ano e sair com intenção de residir no estrangeiro durante pelo menos outro ano. A definição exclui, portanto, o simples trânsito pelo território.

Num período de forte imigração, importa conhecer a dimensão destas novas partidas, mas também a da emigração portuguesa, incluindo a de jovens que terminam os estudos. Sem dados sobre qualificações e motivos, fica por apurar o peso dos salários, das oportunidades de carreira ou de outras condições de vida nas decisões de saída.

Como o PÁGINA UM noticiou em 30 de Junho, o INE retirou os quadros detalhados de 2021 a 2024 para os rever em linha com as novas estimativas da população residente. O ficheiro actualizado em 30 de Setembro confirma que as estimativas relativas a 2021 e aos anos seguintes assentam agora em informação administrativa. Até 2020, a metodologia apoiava-se em recenseamentos e inquéritos, pelo que o instituto adverte para os cuidados na comparação entre as duas séries.

Os acumulados apresentados medem movimentos de saída, podendo incluir uma pessoa que regressou e voltou a emigrar. Não correspondem a uma perda líquida de igual número de habitantes, pois esta depende também das entradas e do saldo entre nascimentos e mortes.

A imigração pode compensar as saídas em número de residentes, mas essa conta não diz se quem chega e quem parte tem as mesmas qualificações, ocupa as mesmas profissões ou vive nas mesmas regiões. A revisão torna mais evidente a necessidade de olhar para os dois fluxos, para perceber tanto a capacidade de atrair população como a de a fixar.

Fonte: Página UM

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Xenofobia e monopólio
As "habitações" miseráveis em que os imigrantes vivem dão lucro de milhares, tudo pago em dinheiro e sem direito a recibo. PSP já fez duas vistorias. Todos trabalham e estão legalizados em Portugal, mas não têm contratos de arrendamento. 

No Dia Mundial da Poupança: o preço alto das tartarugas baratas nos rios de portugal


Quando falamos de poupança, pensamos em literacia financeira e gestão de recursos. Contudo, a compra por impulso de animais de estimação a baixo custo - como as pequenas tartarugas exóticas das décadas de 80 e 90 — gerou um dividendo ecológico devastador. Hoje, investigadores da Universidade de Évora identificam já 7 espécies exóticas a multiplicar-se nos nossos rios, exigindo investimentos avultados na conservação dos cágados autóctones e demonstrando que a falta de planeamento ambiental sai cara a todo o ecossistema.

A descoberta, detalhada num artigo da revista científica Herpetozoa, decorre do trabalho de doutoramento de João Rato e do projeto TARTARUGA - uma iniciativa liderada por Filipe Banha com o patrocínio do Fundo Ambiental. Até agora, a comunidade científica já tinha conhecimento da fixação em Portugal da tartaruga-da-Flórida (Trachemys scripta) e da tartaruga-de-pescoço-listado (Mauremys sinensis). No entanto, as amostragens de campo realizadas entre 2024 e 2025 em 39 pontos do país confirmaram que a variedade de répteis exóticos a habitar os rios e lagos portugueses é substancialmente maior do que se julgava, tendo sido validadas sete espécies exóticas em sete localizações distintas.

Embora o exemplar oriundo da Flórida continue a ser o mais comum, as missões de monitorização identificaram também a tartaruga-mapa-falsa e vários espécimes pertencentes ao género Pseudemys. Dois achados específicos causaram particular inquietação nos especialistas: a captura de doze crias jovens de tartaruga-de-pescoço-listado, o que sugere que a espécie já se estará a reproduzir de forma autónoma em ambiente selvagem, e os primeiros sinais de tentativas de desova da tartaruga-mapa-falsa na região de Sintra, um indicador forte de que este animal poderá vir a fixar colónias permanentes na natureza. A instituição de ensino superior sublinha que o comércio de animais de companhia, operado tanto por circuitos legais como ilegais, funciona como a principal origem destas introduções indevidas quando os proprietários decidem libertá-los nos riachos e albufeiras.

Os cientistas advertem que a proliferação destas espécies invasoras ameaça o equilíbrio ecológico e a sobrevivência dos cágados autóctones, muito embora os efeitos exatos a longo prazo destas novas linhagens ainda careçam de estudos mais aprofundados. Atualmente, o projeto TARTARUGA foca-se em mitigar este cenário através do controlo populacional de répteis exóticos em quatro áreas protegidas do sul do país. Para Filipe Banha, este diagnóstico demonstra que a crise ambiental associada às tartarugas exóticas é mais complexa e dinâmica do que o previsto, exigindo um reforço urgente nas políticas de prevenção, na consciencialização dos cidadãos para a posse responsável e numa vigilância contínua das bacias hidrográficas nacionais para travar perigos biológicos imprevisíveis.

Histórico
O fenómeno de invasão teve início no final do século XX, quando exemplares juvenis adquiridos em lojas de animais eram posteriormente abandonados em parques, tanques e rios por particulares assim que atingiam a idade adulta. Notícias e relatórios de conservação publicados pelo Jornal Wilder detalham como a taxa de crescimento acelerada, o maior porte e a agressividade destas tartarugas exóticas levaram à perda de habitats e à monopolização dos locais de insolação (essenciais para a regulação térmica dos cágados autóctones). Além da competição direta por alimento e desova, estas exóticas atuam como vetores de infeções como a STEF e de parasitas aos quais a fauna nativa não apresenta imunidade.

Atualmente, a problemática estende-se por todo o território nacional. No Norte e Centro, rios como o Douro, Mondego e Ave registam a presença constante de espécimes exóticos maduros em zonas periurbanas. Na Área Metropolitana de Lisboa e Vale do Tejo, focos populacionais elevados em parques urbanos e ribeiras motivam campanhas autárquicas de captura e erradicação. Já nas regiões do Alentejo e Algarve, as elevadas temperaturas propiciam a desova e reprodução contínua destas exóticas nas albufeiras e charcos temporários, secando recursos fundamentais durante a estiagem.

Para travar o avanço do problema, a legislação enquadrada pelo Decreto-Lei n.º 92/2019 proíbe a detenção, comércio e libertação na natureza de tartarugas exóticas invasoras. Segundo as orientações oficiais disponibilizadas no portal do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e divulgadas por entidades de proteção ambiental, qualquer espécime exótico encontrado na natureza ou que já não possa ser mantido em cativeiro não deve ser libertado, devendo a situação ser comunicada ao ICNF ou ao SEPNA da GNR para o devido encaminhamento.

Dia Mundial das Cidades - A visão revolucionária do arquiteto Jan Gehl

O documentário The Human Scale (Projetando cidades para pessoas, não para carros – A visão revolucionária do arquiteto Jan Gehl) aborda de forma crítica o modelo de urbanismo modernista centrado nos automóveis, consolidado ao longo do século XX, e propõe uma mudança paradigmática focada nas necessidades humanas. A narrativa explora como o planeamento urbano afeta diretamente o bem-estar, a segurança, a saúde mental e a coesão social dos cidadãos. Através do estudo de padrões comportamentais, o filme demonstra que a escala humana . baseada nos sentidos, no ritmo da caminhada a 5 km/h e na interação social . deve ser a prioridade na conceção das cidades contemporâneas, em detrimento da velocidade e do espaço concedido aos veículos motorizados.

Ao longo do filme, a reflexão é construída através de casos práticos e desafios enfrentados em diversos países de diferentes continentes. Na Dinamarca, em Copenhaga, é apresentado o modelo pioneiro de pedestrização e recolha de dados sobre a utilização do espaço público. Nos Estados Unidos, o documentário destaca a transformação de Nova Iorque, nomeadamente a fecho da Times Square ao trânsito automóvel e a implementação de ciclovias sob a consultoria da equipa de Gehl. Na China, em cidades como Chongqing, é analisado o impacto da rápida urbanização e da migração em massa, que muitas vezes replica arranha-céus e autoestradas à custa da vida comunitária. Na Austrália, é evidenciada a revitalização dos becos (laneways) de Melbourne para criar uma cidade mais vibrante. No Bangladesh, em Daca, é exposta a crise socioespacial gerada pela priorização de infraestruturas para carros numa das metrópoles mais densas do mundo, prejudicando os peões e o transporte tradicional. Por fim, na Nova Zelândia, é documentado o processo de reconstrução de Christchurch após o sismo de 2011, onde a participação cidadã orientou o futuro planeamento da cidade.

O arquiteto e urbanista central na obra é o dinamarquês Jan Gehl, cujas décadas de investigação sobre o comportamento humano em espaços públicos fundamentam as propostas apresentadas. O documentário conta também com a participação e perspetivas de colaboradores de renome, como o arquiteto David Sim e o urbanista Rob Adams, responsável pela transformação urbana de Melbourne.

ghostbells - Phantoms


Os Ghostbells são um duo de música eletrónica/darkwave/EBM sediado nos Estados Unidos (formado pelos músicos Jessica Perry e Jim Finley). A banda edita a sua música através da editora alemã Out Of Line Music.

No que respeita ao estilo musical, sobressai uma grande diversidade de nuances dentro do espectro dark e alternativo. A sonoridade constrói-se sobre as fundações do rock gótico e do post-punk, onde pontuam riffs de guitarra atmosféricos, linhas de baixo proeminentes e ritmos marcantes. A esta base junta-se uma dimensão de darkwave, synthwave e ambient através do uso de sintetizadores texturizados que criam uma atmosfera densa e imersiva. Adicionalmente, escutam-se influências de doom metal e metal atmosférico em passagens mais lentas, pesadas e dramáticas, alternando com momentos contemplativos de ethereal wave e neoclássico que apostam em arranjos dramáticos e vocais assombrados.

Quanto ao significado da canção, a temática de Phantoms / Ghostbells gira em torno dos "fantasmas" da memória, em que o conceito de phantoms representa memórias não resolvidas, traumas, remorsos e ausências que continuam a ecoar na mente como um sino distante (ghostbells). A obra aborda também a mortalidade e a impermanência, refletindo sobre o fim das coisas, o luto e a inevitabilidade da passagem do tempo, culminando num isolamento existencial marcado pela sensação de desconexão do mundo físico e pelo refúgio na introspeção do mundo interior.

Estas ideias ramificam-se por marcantes influências literárias e filosóficas. Na literatura, destaca-se o romantismo sombrio e gótico de autores como Edgar Allan Poe, Lord Byron e Mary Shelley, focando a perda, o sublime, a beleza na melancolia e o sobrenatural, bem como a poesia simbolista e decadentista de Charles Baudelaire em Les Fleurs du Mal e a melancolia da vertente mais introspetiva de Fernando Pessoa e dos seus heterónimos. No plano filosófico, a composição cruza o existencialismo de Søren Kierkegaard e Jean-Paul Sartre sobre o sentido da vida, o vazio e a finitude humana, o pessimismo filosófico de Arthur Schopenhauer e Emil Cioran focado na dor da existência e no fascínio pelo sofrimento estético, e o conceito de hauntologia de Jacques Derrida, segundo o qual o presente se encontra perpetuamente assombrado pelos "fantasmas" do passado e pelas expectativas de um futuro que nunca se concretizou.

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Febre da inteligência artificial esgota placas de circuito impresso e inflaciona o mercado de hardware até 2028


O crescimento explosivo da indústria da inteligência artificial continua a deixar marcas profundas em toda a cadeia de abastecimento tecnológica global. Depois de o mercado ter assistido a um aumento acentuado nos preços das memórias, das unidades de armazenamento e das placas gráficas, a nova vítima desta corrida desenfreada aos componentes electrónicos são as placas de circuito impresso. Estes elementos fundamentais, conhecidos pela sigla inglesa PCB, preparam-se para sofrer um aumento drástico de preços num futuro muito próximo. A informação foi avançada num artigo publicado no Nikkei Asia sobre o estado actual da indústria de semicondutores e infraestruturas tecnológicas.


Prazos de entrega estendem encomendas até ao final da década
Actualmente, os fabricantes de hardware enfrentam um cenário de enorme complexidade logística. As empresas que produzem placas de circuito impresso não conseguem garantir a capacidade necessária para satisfazer simultaneamente a procura voraz dos servidores de inteligência artificial e as necessidades do mercado da electrónica tradicional. Este estrangulamento na linha de montagem provocou um prolongamento sem precedentes nos tempos de espera. Os prazos de entrega das encomendas estendem-se agora por períodos que chegam a atingir 30 meses de espera. Na prática, isto significa que um pedido de componentes submetido hoje aos fornecedores asiáticos poderá apenas ser entregue no final do ano de 2028.

A situação gera um ambiente de incerteza para as marcas de consumo, que dependem de um fluxo constante de material para manter as linhas de produção activas. Um executivo de uma fabricante norte-americana de computadores revelou mesmo que garantir o fornecimento adequado destas placas se tornou uma tarefa extremamente difícil. Este obstáculo logístico surge numa altura curiosa, uma vez que as previsões da própria indústria apontam para um declínio nas vendas de computadores pessoais no próximo ano. Ainda assim, a escassez de componentes básicos sobrepõe-se a qualquer abrandamento na procura por parte dos consumidores finais.

Prioridade absoluta às infraestruturas de inteligência artificial
O principal motor deste desequilíbrio reside na enorme atracção de capital gerada pelas novas tecnologias de processamento de dados. As infraestruturas dedicadas à inteligência artificial estão a absorver quase toda a oferta disponível no mercado de placas de circuito impresso. Este segmento específico encontra-se em rápida expansão e consegue atrair um volume de investimento substancialmente superior ao da electrónica de consumo tradicional, um fenómeno que ganha contornos visíveis quando a com o anúncio de um acordo entre a Apple e a Broadcom para assegurar componentes vitais.

Perante este cenário, os fabricantes de placas de circuito impresso dão prioridade absoluta aos clientes ligados à inteligência artificial, uma vez que estes demonstram total disponibilidade para pagar valores muito mais elevados pelos materiais. Esta dinâmica de mercado deixa os fornecedores de computadores convencionais numa posição de desvantagem, obrigando-os a competir ferozmente pela pouca capacidade de produção que resta nas fábricas. A pressão sobre a cadeia de abastecimento não é um fenómeno isolado, afectando diversas áreas do sector tecnológico, tal como se tem observado noutros segmentos da indústria mobile onde a procura pelo Galaxy Z Fold 8 traz desafios de produção à Samsung.

Custos das matérias primas agravam crise de produção
O problema que a indústria enfrenta actualmente vai muito além da simples limitação da capacidade de fabrico das instalações industriais. Os materiais básicos necessários para a construção física destas placas estão também a sofrer uma inflação severa. O artigo destaca especificamente o caso dos laminados revestidos a cobre, um elemento essencial na estrutura de qualquer placa de circuito impresso. Desde Julho de 2026, estes laminados registaram aumentos de preços 12 vezes consecutivas.

Esta escalada nos custos das matérias-primas significa que uma eventual expansão das fábricas não seria suficiente para resolver a crise de fornecimento a curto prazo. Para o segmento de consumo, este conjunto de factores transforma-se numa enorme dor de cabeça. Manter um fornecimento estável de componentes a preços acessíveis já era um desafio complexo para as marcas. Agora, com o custo das placas de circuito impresso a subir e a disponibilidade a diminuir drasticamente, os custos globais de produção de hardware preparam-se para um aumento inevitável, o que deverá reflectir-se no preço final pago pelos utilizadores que pretendam adquirir novos equipamentos nos próximos anos.

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A minha árvore que não é minha

Foto e texto do meu amigo botânico Carlos Aguiar

Em modo de fim de semana, e cheia de ruídos inflamados nas redes sociais, quando li esta crónica, foi como foi como uma raiz a travar a pressa do passo.

"Lá num canto do terreno vive a árvore, que não é minha. Quem pela primeira vez a vê, estranha: uma nogueira sem tronco, de copa arrojada pelo chão? Abeiram-se os curiosos da semba e percebem: é uma árvore, sim, de grosso tronco, manchado de líquenes amarelos, como é próprio da espécie, fincado dois metros abaixo, sólido, no solo fértil da horta do vizinho.
Diz o direito civil dos romanos que eu, como proprietário, tenho direitos exclusivos à coluna de ar que se ergue na vertical da estrema. Nenhum ramo ou folha pode invadir o meu espaço sem consentimento. Mas consinto, porque decepar uma nogueira brava é crime botânico grave... e os frutos que caem deste lado pertencem-me de direito.
Árvore, encontrei-te triste e enfraquecida. As entranhas trespassadas por videiras com a grossura de um punho. Braças e pernadas feridas pelos espinhos de silvas e roseiras-bravas. Adossado ao tronco, um vasto sabugueiro tirava-te a luz de que tanto precisas. Os ramos jovens secos nas pontas; as folhas manchadas pela antracnose, os frutos negros e mofados pela Xanthomonas.
Olhei para ti e compadeci-me. Armei-me de tesoura e serrote e, decidido, carreguei nos teus inimigos. Como um explorador de terras virgens, calquei ervas, cortei troncos, sarmentos e turiões, aparei galhos. Vieram os dias grandes e aqueceu o tempo. Da mesma forma que sorvo o ar fresco da manhã, bebo a água fresca da fonte e, a honrar o sol nascente, trinco uma maçã, abriste a copa ao sol, alongaste no espaço vazio os ramos, e estendeste as tuas raízes ao solo da horta, a aproveitar, à socapa, o azoto e a água das batateiras. Agora a luz é toda tua. O verde encheu o céu. Pelo ar veio o pólen, o sexo aconteceu e carregaste-te de frutos.
Na reserva da sombra da casa, levanto os olhos do livro e sinto-te. Fantasio que és um ser senciente regressado do passado, que pensas, decides e sabes agradecer. Com as folhas a tremeluzir na brisa julgo que sussurras: “vem cá”. Quando o vento mais forte te limpa os excessos da copa e os ramos secos caem num brando estrépito no solo, estás a dizer-me: “também sou capaz, sem ajuda”. O rebrilho das folhas molhadas de murrinha na luz crua da primavera é um sorriso de bem-estar. E os frutos? Presentes de agradecimento. Se na colheita me golpeias com uma noz, é porque brincas; zangada seria um galho de peso. Ou talvez me estejas a pedir mais cuidados. Uma calda de cobre? Adubo ao pé? Ergo-me e riposto: se te portares bem, no próximo ano, veremos.
As tuas folhas cansadas crestam e amarelecem. Em breve devolverão ao solo a fertilidade de que necessitarás no próximo ano. Dormirás profundamente, indiferente à água a escorrer pelos caules despidos e à agitação do vento. E a seiva suculenta protegida, sob a casca, a salvo das ferroadas da geada.
Árvore que és quase minha, chegamos juntos ao outono na esperança de uma nova primavera."

William Rees: o colapso da civilização é inevitável?


O colapso da civilização tecno-industrial moderna é inevitável. Neste podcast William Rees, ecologista humano e economista ecológico, defende que a natureza da humanidade evoluiu em tempos mais simples e tornou-nos totalmente incapazes de compreender a civilização global enormemente complexa e destrutiva para a vida que criamos. A mundividência do excepcionalismo humano, alimentada pela energia fóssil e sustentada pelo mito do crescimento ilimitado e do engenho humano, está a levar-nos cada vez mais fundo na sobrecarga ecológica e a conduzir a humanidade a uma dolorosa contracção tanto da população humana como do consumo. 

Perspetiva científica divergente
Embora o diagnóstico do impacto ambiental de Rees seja amplamente respeitado, as suas conclusões sobre a inevitabilidade de um colapso drástico sofrem forte contestação no meio académico:
Em 2023 foi intensamente reprovado:
  1. Demógrafos da ONU e cientistas tradicionais argumentam que a população mundial deverá atingir o seu pico de forma pacífica por volta da década de 2080, decaindo gradualmente devido à urbanização, educação e acesso a métodos contracetivos - e não por via de uma mortalidade em massa.
  2. Críticos apontam que Rees subestima a capacidade de coordenação global, as transições energéticas para renováveis e a flexibilidade das sociedades modernas em implementar reformas estruturais de sustentabilidade, repetindo falhas de previsões catastróficas do passado (como as de Thomas Malthus ou Paul Ehrlich).
Porém William Rees colide frontalmente com  o movimento do decrescimento, gerando um dos debates mais tensos da ecologia contemporânea. Embora ambas as correntes partilhem o mesmo diagnóstico de que o capitalismo global e o crescimento infinito estão a destruir o planeta, a rutura surge na definição das causas e na inevitabilidade do desfecho. 

Rees adota uma postura de fatalismo biológico, argumentando que o ser humano é governado por impulsos inatos de expansão territorial e acumulação de recursos, funcionando de forma semelhante a uma cultura de bactérias que se expande até esgotar o seu meio. Para ele, a civilização tecnoindustrial moderna já ultrapassou o ponto de não retorno e o colapso demográfico e económico é um destino biofísico inescapável, restando pouca margem para a agência política. 

O movimento do decrescimento (degrowth) passou por uma transformação profunda nos últimos anos, abandonando o debate teórico sobre os motivos para decrescer e focando-se na modelação económica e na viabilidade política prática. Um dos maiores marcos empíricos dessa transição foi publicado na prestigiada revista The Lancet Planetary Health, onde cientistas da London School of Economics e da Universitat Autònoma de Barcelona revelaram que as propostas centrais do decrescimento - como priorizar o bem-estar e a sustentabilidade ecológica em detrimento do crescimento do PIB - contam com um apoio esmagador da população, reunindo entre 74% e 84% de aprovação no Reino Unido e 67% a 73% nos Estados Unidos. 

Complementando esta visão, o World Inequality Lab da Paris School of Economics, com a colaboração de economistas de topo como Thomas Piketty, publicou um relatório de referência detalhando as transições estruturais necessárias nas áreas do trabalho, fiscalidade global, saúde e educação. Este documento demonstra matematicamente como os países ricos podem contrair setores industriais destrutivos e reduzir a desigualdade, mantendo ou elevando os seus índices de desenvolvimento humano. 

Paralelamente, o recém-criado Degrowth Journal acelerou a publicação de revisões por pares de alta precisão, destacando-se investigações sobre cadeias de abastecimento globais que provam que a narrativa do "Crescimento Verde" é fisicamente insustentável sem uma redução absoluta do consumo energético. Por fim, revisões sistemáticas de políticas económicas publicadas em plataformas científicas de referência validam o progresso do movimento na criação de modelos de negócio baseados na suficiência e na governança ética de tecnologias digitais de baixo impacto. Toda esta literatura recente funciona como um contraponto direto ao fatalismo de William Rees, demonstrando que a estabilização da biosfera não exige uma tragédia demográfica, mas sim uma reestruturação profunda e planeada da arquitetura macroeconómica global.

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Lumière Sombre - She Dances In Darkness


Lumière Sombre é um projeto musical originário da Itália, criado por Francesca Dorio e Enrico Tavernini, cuja sonoridade se insere nas correntes do darkwave, post-punk e rock gótico. A sua música explora paisagens sonoras sombrias e melancólicas, dominadas por sintetizadores atmosféricos, batidas eletrónicas cadenciadas e guitarras densas, elementos característicos da subcultura alternativa gótica. O elemento diferenciador e a grande novidade na sua proposta artística residem na capacidade de fundir a estética oitentista clássica com uma produção contemporânea limpa e cinematográfica. Em vez de se limitem a uma nostalgia saudosista, o duo injeta uma urgência melódica moderna e uma forte narrativa visual - visível nos seus videoclipes de caráter artístico e teatral -, o que lhes tem permitido conquistar uma nova vaga de ouvintes no ecossistema digital atual.

Na canção "She Dances In Darkness", a banda explora a vulnerabilidade, o trauma e a luta interior contra os próprios demónios da mente. A narrativa lírica acompanha uma figura feminina que dança na obscuridade com lágrimas nos olhos numa tentativa desesperada de afastar o medo, proteger-se da angústia e encontrar um vislumbre de libertação e aceitação. A dança surge assim como um símbolo de resiliência e sobrevivência diante da exaustão mental e da ausência de luz.

Sob o ponto de vista das influências literárias e filosóficas, a obra dialoga com o Romantismo Negro, o Simbolismo e o Existencialismo. Ao transformar o sofrimento numa expressão estética, o tema evoca a tradição da poesia decadentista de autores como Charles Baudelaire, ao mesmo tempo que remete à filosofia de Friedrich Nietzsche sobre o confronto com o abismo e a criação artística como forma de redenção. A própria dualidade presente no nome da banda - a luz e a sombra - reflete a busca por sentido e beleza no meio do vazio existencial.

Portugal lidera subida de preços da habitação na UE entre 2020 e 2025


Se tentar comprar ou arrendar casa em Portugal hoje em dia, o diagnóstico é quase unânime: encontrar uma habitação adequada a um preço razoável tornou-se uma missão quase impossível. Dados recentes do Pordata apontam que cerca de 80% dos portugueses rejeita a ideia de que seja fácil encontrar casa a preços acessíveis, um valor que atinge os 82% na Área Metropolitana de Lisboa e escala até aos 88% na
Área Metropolitana do Porto. Mais do que uma perceção geral da população, as estatísticas confirmam a dimensão do fenómeno. Entre 2020 e 2025, os preços da habitação em Portugal subiram 41,5%, registando o maior incremento de toda a União Europeia nesse quinquénio e consolidando uma escalada acumulada de 81,9% desde o ano de 2010.

A explicação para este comportamento do mercado imobiliário em Portugal, manifestamente divergente de parceiros europeus como Espanha ou Itália, assenta no choque direto entre uma oferta cronicamente escassa e uma procura invulgarmente intensa. Do lado da oferta, o país vive um défice estrutural de construção que remonta à crise financeira de 2011. Com reduções anuais de 35% na construção civil nos anos de 2012 e 2013, o setor ficou profundamente desmantelado. Como resultado, em 2025 foram construídas apenas cerca de 27.000 novas casas em Portugal, o que representa menos de um quarto do volume registado no início do século XXI. A esta escassez junta-se o facto de a habitação pública ser quase inexistente, cobrindo apenas cerca de 1% do parque habitacional nacional, uma das percentagens mais baixas da OCDE. Nem mesmo o stock de imóveis vagos tem servido de almofada, uma vez que nas zonas de maior pressão urbana a percentagem de casas devolutas em condições imediatas de habitabilidade é reduzida, encontrando-se a maioria dependente de obras profundas, processos de herança ou litígios jurídicos.

Ao mesmo tempo que a construção estagnava, a procura de habitação em Portugal transformava-se radicalmente. A partir de meados da década passada, o país tornou-se um polo de atração para o turismo e para o investimento direto estrangeiro, impulsionado por incentivos fiscais e regimes de residência específicos. Esta dinâmica levou à conversão de milhares de fogos habitacionais em Alojamento Local e retirou imóveis do mercado tradicional de arrendamento nas grandes cidades. Em simultâneo, a longa década de taxas de juro e Euribor em mínimos históricos estimulou a compra de habitação própria, levando a que a maioria das famílias considerasse a prestação do crédito bancário mais vantajosa do que o valor da renda cobrado no mercado.

Esta combinação de fatores explica a discrepância em relação a outros mercados europeus. Enquanto em Espanha a subida dos preços desde 2010 se ficou pelos 34%, beneficiando do enorme excedente de habitação construída antes da crise de 2008, e em Itália os preços caíram ligeiramente fruto do menor dinamismo económico e demográfico, Portugal enfrentou uma valorização acelerada devido à incapacidade de resposta da construção perante um fluxo de procura externa e interna sem precedentes.



As consequências desta encruzilhada fazem-se sentir no quotidiano das famílias e nas decisões de longo prazo da população. Cerca de metade dos portugueses assume que os custos com a habitação condicionam o resto do seu orçamento mensal, e um em cada quatro inquiridos já viu decisões estruturais da sua vida afetadas pelo acesso à casa. O impacto é particularmente visível nos mais jovens: os dados do INE / Censos revelam que apenas 42% dos jovens entre os 25 e os 34 anos eram proprietários em 2021, em forte contraste com os 70% registados na mesma faixa etária para a geração nascida nos anos 70. Sem um reforço expressivo do parque habitacional público e um aumento real na capacidade de construção e reabilitação, a pressão sobre o mercado imobiliário continuará a marcar o panorama socioeconómico do país.

A sede dos algoritmos: a pegada material, humana e ecológica da nuvem digital

Foto de Armindo Alves
A contemplação da água evoca habitualmente uma sensação de equilíbrio e imutabilidade, mas este recurso vital tornou-se o centro de uma das maiores tensões tecnológicas da nossa época. Quando nos detemos perante uma corrente de água e observamos o modo como a luz se desdobra sobre a sua superfície, é fácil associar a imagem à pureza e ao curso natural das coisas. No entanto, a transição digital e a ascensão da inteligência artificial têm sido sustentadas pelo mito da imaterialidade. O discurso dominante sobre a "nuvem" sugere um ecossistema abstrato, leve e desprovido de peso físico, mas por trás dessa ilusão virtual ergue-se uma arquitetura industrial massiva de centros de dados que consome recursos naturais e energéticos a um ritmo avassalador.

A dimensão mais premente desta dependência material manifesta-se nos conflitos pelo acesso à água e na profunda desigualdade da sua distribuição. A refrigeração dos milhares de servidores que mantêm o fluxo de dados ininterrupto exige volumes astronómicos de água, na sua maioria potável. Em períodos de seca prolongada, a priorização deste recurso para o arrefecimento das máquinas entra em confronto direto com as necessidades das populações e da agricultura local. Instala-se, assim, uma dinâmica de manifesta injustiça ambiental: estas infraestruturas são frequentemente erguidas em zonas rurais ou periferias vulneráveis, onde a extração massiva sobrecarrega os aquíferos e reduz a resiliência de comunidades que raramente retiram qualquer benefício direto desta expansão tecnológica.

Para além do consumo invisível de recursos fundamentais, a presença física destas instalações altera profundamente a saúde e a qualidade de vida quotidiana de quem com elas confina. O funcionamento contínuo de sistemas de ventilação de grande escala e o arranque periódico de geradores a diesel geram uma poluição sonora persistente. Trata-se de um ruído industrial de baixa frequência que não cessa, associado por diversos estudos a perturbações do sono, stresse crónico e a uma degradação progressiva da saúde mental e do bem-estar dos moradores das imediações.

Paralelamente, a insaciável procura elétrica destas autênticas fábricas digitais coloca uma pressão sem precedentes sobre as redes energéticas regionais. Em momentos de consumo crítico - como no decorrer de intensas ondas de calor -, a sobrecarga aumenta significativamente o risco de falhas e apagões no fornecimento de eletricidade a habitações e serviços essenciais. Além disso, a necessidade de financiar a expansão da rede elétrica acaba, não raras vezes, por refletir-se no aumento da fatura paga pelo consumidor doméstico, que passa a subsidiar indiretamente a pegada energética do setor tecnológico.

Esta apropriação intensiva de recursos públicos e do território contrasta de forma marcante com a promessa de progresso e desenvolvimento económico. Embora ocupem extensões gigantescas de solo, os centros de dados são espaços profundamente automatizados. Superada a fase inicial de construção, a criação de postos de trabalho diretos e permanentes é praticamente residual, revelando que o retorno socioeconómico para as regiões de acolhimento fica muito aquém do custo ambiental e territorial efetivamente suportado.

Longe do local onde os servidores se erguem, o impacto da infraestrutura digital desdobra-se numa cadeia de valor global cujos custos humanos e ecológicos são remetidos para a periferia da nossa perceção. A produção dos microchips e servidores de última geração depende da extração intensiva de minerais raros, como o cobalto e o lítio. Grande parte desta mineração concentra-se em países do Sul Global, onde é operada sob condições de trabalho precárias e exploratórias, deixando atrás de si um rasto de desflorestação, erosão e contaminação grave de solos e linhas de água.

Olhar para a água é, em última análise, um convite urgente a desconstruir a narrativa da imaterialidade digital. A inteligência artificial e o processamento de dados não acontecem no vácuo; assentam sobre limites ecossistémicos concretos. Cada pesquisa, cada modelo treinado e cada ficheiro armazenado consome recursos reais. Reconhecer esta materialidade é o primeiro passo para exigir regulação transparente, responsabilidade social e uma transição tecnológica que não se faça à custa dos bens comuns e da qualidade de vida das populações.

Referências bibliográficas e leituras complementares
  1. Crawford, K. (2021). Atlas of AI: Power, politics, and the planetary costs of artificial intelligence. Yale University Press.Hogan, M. (2015). Data flows and water woes: The extra-active clouds of Big Data. Big Data & Society, 2(2), 1–12. 
  2. International Energy Agency. (2024). Electricity 2024: Analysis and forecast to 2026. IEA Publications.
  3. Li, P., Yang, J., Islam, M. A., & Ren, S. (2023). Making AI less "thirsty": Uncovering and addressing the secret water footprint of AI models. 
  4. Mytton, D. (2021). Data centre water consumption. npj Clean Water, 4(1), Article 11. https://doi.org/10.1038/s41545-021-00101-w
  5. Siddik, A. B., Shehabi, A., & Marston, L. (2021). The environmental footprint of data centers: A glance at the water energy nexus. Environmental Research Letters, 16(6), Article 064008.

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Moby - Extreme Ways


Porque me lembrei desta música? Porque se aplica ao fenómeno actual da crise habitacional e da gentrificação.

Na arte e na crítica cultural, o significado de uma obra de arte nunca pertence exclusivamente às intenções originais do autor ou ao canal onde foi comercializada (como o cinema de Hollywood). Ele pertence também à forma como a obra ressoa nas vivências de quem a escuta.

Embora o imaginário coletivo a tenha confinado quase exclusivamente às cenas de fuga e aos créditos finais da saga cinematográfica de espionagem Jason Bourne, a génese e a força visceral desta composição residem num território muito mais íntimo, real e universal: a experiência da sobrevivência e da alienação na metrópole hiper-capitalista contemporânea. A música não foi concebida para super-heróis do cinema, mas sim para o indivíduo comum encurralado na engrenagem das grandes cidades, funcionando como um retrato sonoro sobre o deslocamento, a perda do sentimento de pertença e a violência silenciosa que molda o espaço urbano moderno.

Na letra, Moby aborda temas profundos de desapego, reinvenção e fuga. Quando a canção abre com versos sobre partir tudo de novo e deixar para trás o que se possui, ecoa com enorme precisão a experiência traumática do desraizamento, da especulação imobiliária e da gentrificação que afeta cidades como Lisboa, o Porto, Nova Iorque ou Berlim. Perante a transformação das metrópoles em espaços hostis e a precariedade de viver em locais exíguos e ruidosos - traduzidos na música pela menção a "sótanos sujos" e "ruído" -, o cidadão comum vê-se empurrado para a margem. A resposta psicológica a esta agressão do meio é o encerramento em si mesmo e o esgotamento emocional, espelhados na voz contida e monótona de Moby, que canta a necessidade de fechar os olhos e erguer uma carapaça protetora para conseguir resistir.

Análise geral
A canção "Extreme Ways" é um dos temas mais emblemáticos da carreira do artista norte-americano Moby (Richard Melville Hall, nascido em Harlem, Nova Iorque). Lançada originalmente no início dos anos 2000, a música insere-se nos géneros de electronica, electronic rock e ambient pop, combinando batidas de trip hop, sintetizadores atmosféricos, arranjos orquestrais e a energia do rock alternativo. A sua letra aborda temas profundos de desapego, reinvenção e fuga, retratando a necessidade de cortar amarras com o passado, enfrentar o desconhecido e procurar uma nova identidade após um colapso ou uma grande viragem de vida.

O enorme reconhecimento global da música está intimamente ligado ao cinema, mais especificamente à saga de filmes de ação e espionagem Jason Bourne (protagonizada por Matt Damon). "Extreme Ways" tornou-se a assinatura musical e o tema oficial dos créditos finais de todos os filmes da franquia, o que explica por que a secção de comentários dos seus vídeos está repleta de referências à saga e ao famoso agente secreto.

Do ponto de vista cultural e concetual, a canção carrega fortes influências literárias e filosóficas. No plano literário, remete para as obras de Robert Ludlum (criador da saga Bourne), marcadas pela paranóia, perda de memória e identidade fragmentada. No plano filosófico, reflete ideias do existencialismo e do absurdismo (de pensadores como Albert Camus e Martin Heidegger), ao retratar o indivíduo perante um mundo urbano caótico, impessoal e sob constante vigilância, forçado a reconstruir-se a partir do nada através de escolhas radicais.

Existem duas versões marcantes em vídeo para este tema:
A versão e o videoclip original (2002/2004): No videoclipe clássico, a imagem é focada exclusivamente no próprio Moby, acompanhado por figurantes num ambiente festivo com tonalidades de luz verde e preta. A voz que surge na faixa, assim como a imagem rápida que aparece nos coros por volta dos 3 minutos e 14 segundos, pertence ao próprio Moby e aos seus músicos de apoio ao vivo da época.


A nova versão Resound NYC (2023): Em 2023, Moby lançou uma nova roupagem orquestral da música, contando com a colaboração vocal do cantor australiano Dougy Mandagi (nascido na Indonésia). Dougy Mandagi é amplamente conhecido por ser o vocalista da banda de indie rock The Temper Trap, grupo que alcançou um enorme sucesso mundial em 2009 com o estrondoso hino "Sweet Disposition" (imortalizado no filme 500 Days of Summer). A sua voz marcante foi o elemento chave escolhido por Moby para dar uma nova vida a esta versão de 2023, cujo vídeo oficial (um visualiser urbano a preto e branco de Nova Iorque) reflete a solidão e o movimento frenético da vida moderna.

Companhia Aurifícia: novas participações ao MP e entidades da tutela




Em Abril foi enviada ao Presidente da Câmara Municipal do Porto uma carta aberta sobre a reconversão da antiga Companhia Aurifícia; em Julho, uma denúncia ao Ministério Público, depois de começarem a ser arrancadas árvores no interior do quarteirão. Em Outubro seguiram três novos textos, cada um para a sua entidade: o Ministério Público, a CCDR Norte e o Património Cultural, e a Inspecção-Geral de Finanças.

Este artigo resume o que sustentam, tema a tema. Os textos completos, em PDF e sem dados pessoais, estão ligados no quadro seguinte e no fim do artigo.

Tudo o que se segue é o que esses textos sustentam, com base em documentos do próprio Município e das entidades que tutelam o património. São posições de quem os subscreve, ainda sem decisão das entidades que os receberam.

Um loteamento tramitado como duas edificações
A operação prevê 122 fogos (26 na Parcela 1 e 96 na Parcela 2) em cerca de 19 mil m². Em Abril de 2024, a divisão municipal de apreciação arquitectónica concluiu que o pedido, então de loteamento, «consubstancia uma operação de loteamento». Mais tarde o pedido passou a ser de edificação, em duas parcelas, e foi aprovado como tal.

A diferença conta. Um loteamento exige licença própria e, acima de 100 fogos, consulta pública. Seguida a via da edificação, nenhuma das duas foi necessária. Os serviços municipais avisaram do «risco da não garantia da articulação com o tecido urbano envolvente» resultante desta «fragmentação de procedimentos», e a própria tutela do património tinha partido, em 2022, da informação municipal de que a divisão em lotes era obrigatória.

As árvores
O interior do quarteirão está classificado no Plano Director Municipal (PDM) como «área verde de elevado valor ecológico». O artigo 67.º, n.º 2, manda manter o coberto vegetal em boas condições fitossanitárias, e o comentário municipal ao regulamento diz que só se permite abater árvores em mau estado, cabendo ao particular prová-lo.

Segundo os textos, os projectos foram aprovados sem verificar, exemplar a exemplar, essa condição, e com uma lógica de compensação (153 novas árvores) que a norma não prevê. Os serviços municipais de estrutura verde tinham classificado como «em bom estado fitossanitário» e «de interesse para preservação» um pinheiro-manso, o n.º 33, que foi abatido a 31 de Julho de 2026.

A impermeabilização
Na Parcela 1, a informação prévia fixa um índice de impermeabilização de 0,91 e o projecto aprovado de 0,90. O PDM admite um máximo de 0,7, reduzido na área verde de elevado valor ecológico, o que dá cerca de 0,68 para esta parcela. Em Julho de 2024, os serviços municipais concluíram que as caves propostas agravavam um índice «já esgotado» e estavam em desconformidade com o PDM. Quatro meses depois, passaram a considerar a norma sem aplicação, invocando as preexistências.

O património
Os textos dirigidos à tutela do património apontam quatro questões:A garantia de reabilitação. Em 2022, a tutela exigiu que a construção nova fosse acompanhada pela reabilitação do conjunto classificado. Os pareceres de 2026 repetem a exigência no historial, mas não se conhece plano global, cronograma, contrato ou caução que a assegurem, e nada impede que se construa primeiro (ou só) a parte nova.
Reservas por resolver. Em 2024 e 2025, o Património Cultural referiu a perda de autenticidade de dois edifícios do conjunto (por causa das caves) e a excessiva volumetria dos dois edifícios novos. Os pareceres de 2026 não dão essas reservas por ultrapassadas.
Uma via nova, em lugar de um percurso pedonal. O PDM prevê neste quarteirão apenas um percurso pedonal, ligando à Rua de Cedofeita. A operação assenta numa «via habilitante» com circulação automóvel condicionada, que o PDM não prevê e que, segundo os textos, não se sabe ter sido submetida à tutela. Os serviços municipais reconhecem, aliás, a impossibilidade de concretizar o percurso pedonal a curto ou médio prazo.
Um conjunto sem zona especial de protecção. Quase catorze anos depois da classificação, o conjunto continua sem zona especial de protecção e sem restrições específicas, o que, segundo os textos, explica a ausência de condicionantes invocada pela tutela.

Os abates e as obras no terreno
Desde 3 de Julho de 2026 foram abatidas e arrancadas numerosas árvores. Segundo informação municipal de 16 de Julho, o licenciamento das obras de urbanização ainda não tinha decisão e os das duas parcelas estavam em curso. O Código Regulamentar do Município só admite abater árvores em terreno privado após autorização prévia do Município, e não se conhece nenhuma.

A 13 de Outubro, fotografias tiradas por um residente de um prédio confinante mostravam o interior do quarteirão desmatado, com o solo a descoberto e uma máquina escavadora. Segundo informação obtida pelo signatário, decorria acompanhamento arqueológico, mas desconhece-se o título dos trabalhos: tanto podem ser sondagens arqueológicas como uma escavação autorizada antes da licença.

Porque importa agora
Os textos sublinham o risco de facto consumado. Antes da licença, a lei permite autorizar trabalhos de demolição, escavação e contenção periférica, isto é, precisamente a escavação das caves. Depois de executada, a reconstituição do interior do quarteirão torna-se praticamente impossível, e uma futura declaração de nulidade perde o efeito útil.

Os textos
Os três textos completos, sem os dados pessoais de quem os subscreveu. 
Citam peças dos processos municipais e remetem para anexos que aqui não se publicam.

A cidade, esse grande negócio!

Um quarteirão camarário (público) vendido a Mário Ferreira por Eduardo Vitor Rodrigues

Sobretudo depois da crise financeira de 2008, Porto e Lisboa (e não só), mais do que cidades onde se fazem negócios, passaram a ser elas mesmas um negócio.

O espaço público foi-nos roubado, para esplanadas ou filas de turistas, e há uma crescente importância dos investimentos de fundos imobiliários (isentos de IRC) e de empresas e indivíduos estrangeiros (alguns com vistos dourados ou isenção de IRS) a comprar e alugar casas a preços cada vez maiores. Ao mesmo tempo, o nosso dinheiro (europeu e nacional) ajuda à abertura de hotéis (em nome da criação de emprego!) em vez de casas e o rendimento do alojamento de curta duração (AL), sem as regras da Alemanha e de outros países, leva a uma das maiores intensidades de AirBnB do mundo. Por isso, o valor médio do m2 de construção é hoje cerca de 160% superior ao de 2010, com grande parte dos 60.000 devolutos de 2021 (com IMI ridículo) no Porto e em Lisboa vazios, a valorizar.

O negócio vai bem para quem anda no imobiliário ou o herdou. Mas é de lamentar que quem lidera as cidades e está no governo central se esteja a “esquecer” que há quem tenha um salário mínimo de €920, quando o valor médio de arrendamento de um T2 é de €1380 no Porto e de €1880 em Lisboa (e não é muito menor nos concelhos envolventes), nem dê importância aos que precisam de optar entre comprar remédios, colocar comida na mesa ou deixar de pagar o aluguer de uma casa, ou aos que vivem com os pais há demasiado tempo.

A cidade tem de ser o lugar de todos!

Viver em Parques de Campismo: A Crise da Habitação e a Normalização da Precariedade


O colapso da classe média: como trabalhadores com empregos estáveis trocaram o direito à habitação pela normalização da precariedade.
Sugestão aos editores das redacções que enviaram jornalistas 24 horas por dia para as acampadas em Lisboa e no Porto e que agora estão sem tendas para filmar: façam reportagens com os milhares de cidadãos, portugueses, muitos dos quais com empregos estáveis e que, supreendentemente, ainda se consideram pertencentes à chamada 'classe média’ (versão lusitana), mas que vivem há anos, o ano inteiro, em tendas e roulottes, de forma ilegal e semi-clandestina, nos parques de campismo de norte a sul do país. Alguns desses parques, por exemplo na Costa da Caparica, parecem grandes campos de refugiados. E o que dizem muitas dessas pessoas? Que estão melhor do que quem tenta sobreviver a pagar rendas exorbitantes, que só assim o dinheiro chega até ao fim do mês; alguns referem com orgulho que "é como um condomínio fechado" e que até têm "segurança 24 horas por dia". O ser humano tem uma grande capacidade de adaptação. E justificar a miséria, aceitar a precariedade, desistir de um direito fundamental, exige menos energia do que lutar por esse direito contra um sistema injusto e repressivo.

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