sábado, 15 de agosto de 2026

A Genealogia do Sagrado: como o Mito, o Misticismo, a Religião e a Espiritualidade moldaram a mente humana

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A relação do ser humano com o desconhecido não é estática; possui uma história evolutiva e uma geografia conceptual precisa. Para compreender plenamente as diferenças entre mito, misticismo, religião e espiritualidade, torna-se fundamental traçar primeiro o mapa temporal da sua emergência ao longo da história da humanidade, para depois decompor a arquitetura conceptual que distingue cada uma destas dimensões.

I. A Cronologia Histórica da Emergência
Na alvorada da espécie humana, muito antes de existirem cidades, escritas ou dogmas, o Mito foi a primeira manifestação da inteligência abstrata e simbólica. No Paleolítico Inferior e Médio, à medida que o Homo sapiens desenvolvia a linguagem complexa, surgia a necessidade premente de ordenar o caos do mundo natural. O mito nasceu como a narrativa primordial: histórias sobre a origem do fogo, do sol, da caça e da morte que davam sentido e forma ao cosmos através de metáforas e personificações.

Com o amadurecimento das capacidades cognitivas e rituais no Paleolítico Superior, a humanidade não se limitou a narrar o invisível; procurou vivenciá-lo. Surge assim o Misticismo, cuja expressão mais antiga é o xamanismo primordial. Através de ritos de transe, pinturas rupestres profundas e estados alterados de consciência, determinados membros da tribo buscavam o contacto direto e imediato com o sagrado descrito pelas narrativas míticas. O misticismo antecede a instituição porque dependia de uma vivência intuitiva e interior, sem a mediação de livros sagrados ou hierarquias formais.

Com a Revolução Neolítica e o aparecimento das primeiras civilizações urbanas na Mesopotâmia, no Egito e no Vale do Indo, a escala das sociedades humanas alterou-se radicalmente. Milhares de indivíduos estranhos entre si precisavam agora de viver sob as mesmas regras e crenças. Nasce a Religião institucionalizada. O antigo mito transforma-se em texto sagrado oficial; a experiência mística individual é canalizada e regulada por castas sacerdotais; e os ritos tribais convertem-se em dogmas, leis morais e liturgias estatais. A religião surge, assim, como o grande instrumento de coesão social e ordenamento comunitário do mundo antigo.

Finalmente, a Espiritualidade, embora possua raízes na viragem filosófica da chamada Era Axial (surgimento do Budismo, do Taoísmo e da filosofia grega no século VI a.C.), consolida-se na sua acepção moderna com o advento do Iluminismo, da secularização e da modernidade ocidental. À medida que a ciência assumiu a explicação do mundo físico e as instituições religiosas perderam o monopólio da política e da moral, a busca pelo sentido da existência regressou ao indivíduo. A espiritualidade surge como uma categoria autónoma e pós-institucional - a reivindicação de uma orientação interior, ética e existencial, liberta da obrigação de adesão a dogmas ou a autoridades eclesiais.

II. As Distinções Conceptuais e Funcionais
Tendo compreendido a sua gestação no tempo, torna-se claro que estas quatro dimensões não concorrem entre si, mas operam em níveis distintos da experiência humana:
  1. O Mito é o domínio da narrativa e da linguagem: etimologicamente derivado do grego mythos ("palavra" ou "discurso"), o mito é a estrutura cognitiva que organiza o significado. Não se trata de uma "falsidade" ou de uma ilusão, mas de uma verdade ontológica expressa através do símbolo e da alegoria. O mito fornece os arquétipos e as histórias de origem que fundam o imaginário de uma cultura.
  2. O Misticismo é o domínio da experiência e da epistemologia: vindo de myein ("fechar os olhos" para ver o invisível), o misticismo é a busca da união direta com o Absoluto ou o Divino. Desafia a lógica racional e ultrapassa a linguagem, tratando de uma experiência essencialmente inefável onde a fronteira entre o sujeito que observa e o objeto observado se dissolve.
  3. A Religião é o domínio da instituição e da sociologia: assente na raiz latina religare ("re-ligar"), a religião é a codificação social do sagrado. Envolve uma comunidade moral (a Igreja, a Umma, o Sangha), um corpo de dogmas, um código de conduta prescritivo, uma hierarquia e um conjunto de rituais públicos. A religião garante a continuidade da tradição e a ordem social.
  4. A Espiritualidade é o domínio da subjetividade e da existência: derivada de spiritus ("hálito de vida"), a espiritualidade diz respeito à atitude e ao estado interior do indivíduo perante a vida, o sofrimento, a finitude e a totalidade. Pode viver dentro de uma religião formal, mas subsiste de forma perfeitamente autónoma no indivíduo secular, expressando-se na procura pessoal de propósito, compaixão e transcendência.
Concluindo, a evolução histórica do sagrado traçou um arco fascinante: começou na narrativa coletiva do mito, aprofundou-se na vivência direta do misticismo, ergueu-se na estrutura comunitária da religião e culminou na autonomia subjetiva da espiritualidade contemporânea.

Referências bibliográficas
  1. Cassirer, E. (1955). The Philosophy of Symbolic Forms, Volume 2: Mythical Thought (R. Manheim, Trans.). Yale University Press.
  2. Durkheim, É. (1995). The Elementary Forms of Religious Life (K. E. Fields, Trans.). The Free Press.
  3. Eliade, M. (1959). The Sacred and the Profane: The Nature of Religion (W. R. Trask, Trans.). Harcourt, Brace & World.
  4. Jaspers, K. (1953). The Origin and Goal of History (M. Bullock, Trans.). Yale University Press.
  5. Kołakowski, L. (1989). The Presence of Myth (A. Czerniawski, Trans.). University of Chicago Press.
  6. Otto, R. (1923). The Idea of the Holy: An Inquiry into the Non-rational Factor in the Idea of the Divine and its Relation to the Rational (J. W. Harvey, Trans.). Oxford University Press.
  7. Weber, M. (1978). Economy and Society: An Outline of Interpretive Sociology (G. Roth & C. Wittich, Eds.). University of California Press.

As Mulheres da Nova Direita em Portugal - Bases Teóricas e Ameaça Democrática

A emergência de uma nova militância de mulheres conservadoras no espaço público português, vai mais além do   revisionismo do Movimento Nacional Feminista, do Estado Novo e tem como teorização o  manifesto, que passou para o livro Identidade e Família. Este movimento já arquitetado em meados de 2021, junto como o Manifesto Identidade e Família são duas faces da mesma moeda. Trata-se da reorganização de um Novo Conservadorismo que está a moldar a direita em Portugal e na Europa, combinando a mobilização jovem nas redes sociais com o resgate de velhos dogmas morais. Esta aliança une a linha da frente de novas bancadas e ativistas a uma elite intelectual, médica e católica tradicional. Por trás de uma estética moderna e de discursos que apelam a uma suposta "verdadeira emancipação", esconde-se uma estratégia para desmantelar conquistas sociais e, sobretudo, para branquear e apagar a herança de figuras históricas incontornáveis como Maria de Lourdes Pintasilgo.

A ascensão de quadros femininos no campo da nova direita - com destaque para deputadas do Chega como Rita Matias, e em linha com fenómenos europeus protagonizados por figuras como Giorgia Meloni em Itália - veio reconfigurar a paisagem política. Ao contrário do conservadorismo tradicional, estas protagonistas não recusam a presença pública da mulher. Pelo contrário, ocupam o palco político e usam redes digitais como o TikTok e o Instagram para defender que a "verdadeira liberdade" passa pelo regresso ao essencialismo biológico, pelo culto da maternidade e pela defesa intransigente da "família natural". O objetivo passa por disputar a narrativa dos direitos das mulheres, catalogando o feminismo moderno como um "dogma ideológico" e posicionando-se como guardiãs dos valores cristãos perante a secularização e a mudança demográfica.

Movimento de mulheres conservadoras aproxima Chega da agenda evangélica brasileira e do Novo Conservadorismo
Em Julho, o grupo juntou-se em Sintra para um evento que reuniu “mulheres conservadoras”. O lançamento oficial do movimento está anunciado para Novembro.
O pré-lançamento realizou-se a 11 de Julho, no Palácio Valenças, em Sintra, num espaço pertencente à Câmara Municipal. O encontro contou com a presença de deputadas do Chega, entre as quais Rita Matias, Cláudia Estevão e Madalena Cordeiro, e da deputada federal brasileira Priscila Costa, avançou o Diário de Notícias Brasil.
Entre as oradoras estiveram Teresa Nogueira Pinto, que integra o governo-sombra do Chega com a pasta da Cultura; Catarina Nicolau Campos, jurista e chefe de gabinete do grupo parlamentar do CDS-PP; e Rute Sousa, uma das oito influenciadoras que esteve em Israel a convite da Embaixada israelita em Portugal e que soma mais de 108 mil seguidores apenas no Instagram. Na apresentação das participantes, a organização fez também referência à maternidade e ao número de filhos.
O Movimento Mulheres Conservadoras Portugal ainda tem pouca informação pública disponível, mas, desde Junho, tem vindo a publicar conteúdos nas redes sociais. Entre eles está um vídeo de uma reunião com deputadas do Chega, realizada no gabinete do partido, na Assembleia da República
A aproximação à direita brasileira ganha particular relevância pelo papel que as igrejas evangélicas desempenham no Brasil como importante base de apoio da direita e do bolsonarismo. Em Portugal, o Chega tem mantido contactos com comunidades evangélicas, mas não tem assumido, até agora, uma estratégia política especificamente dirigida a este eleitorado.
De acordo com os Censos de 2021, entre a população com mais de 15 anos residente em Portugal, cerca de 186 mil pessoas identificaram-se como “protestantes evangélicos”.

É no centro desta disputa cultural que o novo ativismo conservador promove o apagamento do legado de Maria de Lourdes Pintasilgo. Primeira e única mulher a chefiar um Governo em Portugal e figura cimeira do movimento O Graal, Pintasilgo provou que a fé católica e o compromisso ético não exigem a submissão ao patriarcado nem o confinamento ao lar. Enquanto Pintasilgo defendeu que a emancipação das mulheres e a igualdade eram exigências do próprio Evangelho, recusando a maternidade como um destino único ou uma gaiola social, o movimento atual tenta colar a defesa da igualdade de género a um "marxismo cultural". Ao fazê-lo, estas novas frentes conservadoras omitem que a maior pioneira do feminismo e da igualdade política em Portugal foi uma mulher de fé católica, cuja ação assentava na libertação e na justiça social - e não na preservação da autoridade masculina ou do papel da dona de casa.

Se este novo ativismo feminino garante o impacto nas redes e  na rua, o livro Identidade e Família - coordenado por António Bagão Félix, Paulo Otero, Pedro Afonso e Victor Gil - serve de pilar doutrinário. A obra compila ensaios que contestam a dita "ideologia de género", o aborto, a eutanásia e o construtivismo social nas escolas. A apresentação da obra na livraria Buchholz por Pedro Passos Coelho, a par da comparência de dirigentes do CDS-PP e do Chega, evidenciou a capacidade deste movimento para cruzar pontes entre o centro-direita católico e a nova extrema-direita parlamentar.

Este processo insere-se numa vaga documentada em toda a Europa, visível na afirmação de lideranças femininas sob o lema "Sou mulher, sou mãe, sou cristã", na reação articulada contra a agenda woke em países como Espanha através do Vox, em França e na Europa Central, e na ligação a movimentos pró-vida das Américas, como a influência do CPAC ou do PL Mulher no Brasil.

Conclusão
A articulação entre a militância de novas mulheres conservadoras e a sustentação teórica do livro Identidade e Família demonstra que o Novo Conservadorismo em Portugal está estruturado. Ao usarem as ferramentas da modernidade para defender o regresso a valores tradicionais, estas frentes procuram reescrever a história recente do país. Contudo, ao fazê-lo, esbarram na memória que tentam branquear: a praxis de Maria de Lourdes Pintasilgo, a prova histórica de que ter fé e combater pela emancipação das mulheres continua a ser uma das maiores forças de libertação da democracia portuguesa.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Primal Scream - Kowalski

Melhor som aqui
Letra
[Intro]
This radio station was named Kowalski
In honor of the last American hero
To whom speed means freedom of the soul
The question is not when he's gonna stop
But who is gonna stop him

[Verse 1]
Like Kowalski in Vanishing Point
Kowalski in Vanishing Point
Kowalski in Vanishing Point
Vanishing Point, Vanishing Point, Vanishing Point

[Verse 2]
Like a butterfly on a pin
Like a butterfly on a pin
Soul on ice, soul on ice
Soul on ice, soul on ice

[Interlude]
What happening?
What happening?
What you need? Speed
Lighten up before

[Instrumental Break]

[Interlude]
There goes the challenger being chased by the blue, blue meanies on wheels
The vicious traffic squad cars are after our lone driver
The last American hero
The, the electric centaur, the demigod
The super driver of the golden west
Two nasty Nazi cars are close behind the beautiful, lone driver
The police know that they're getting closer, closer
Closer to our soul hero in his soul mobile
Yeah, baby, they're about to strike
They're gonna get him, smash him
Rape the last beautiful, free soul on this planet

[Refrain]
Vanishing Point, Vanishing Point
Vanishing Point, Vanishing Point

[Interlude]

[Refrain]
Soul on ice, soul on ice
Soul on ice, soul on ice
Soul on ice, soul on ice, soul on ice

[Outro]
Hello, Kowalski?
Hello, Kowalski?
Hello, Kowalski?
Cut it off

Primal Scream e Vanishing Point: A História da Música Kowalski e do Filme de 1971
A faixa abre precisamente com essa amostra de áudio (sample) icónica do filme original de 1971. A voz pertence à personagem Super Soul, o DJ de rádio cego interpretado pelo ator Cleavon Little, que atua como guia espiritual e aliado de Kowalski ao longo de toda a perseguição policial no deserto. No monólogo inicial da canção, ouve-se a sua transmissão de rádio na qual ele diz: "Kowalski, order of the day is to go. And we gonna do it in style...", servindo de ponto de partida perfeito para o tom hipnótico e acelerado da música dos Primal Scream.

Sob o ponto de vista musical, o tema funde o rock psicodélico com ritmos pesados de dub, trip-hop e big beat, servindo de peça central a um álbum conceptual desenhado pelo vocalista Bobby Gillespie como uma espécie de banda sonora alternativa para o filme. No plano filosófico e literário, tanto a canção como a fita de 1971 partilham raízes no existencialismo e no niilismo da contracultura dos anos 70, bem como na literatura de estrada da Beat Generation, invocando o espírito de obras como Pela Estrada Fora de Jack Kerouac ao transformar a fuga em alta velocidade de Kowalski - um veterano da Guerra do Vietname desiludido com o sistema - num ato de rejeição e busca por liberdade absoluta.
Kowalski (song)

Filmes:
1. Vanishing Point (1971)
É um grande clássico do cinema action-existencialist da década de 1970 e um marco dos filmes de perseguição de carros
Vanishing Point e 1971, realizado por Richard C. Sarafian e protagonizado por Barry Newman no papel do icónico Kowalski, é considerado um marco do cinema de ação e da cultura de culto dos anos 70. A história segue um ex-piloto de corridas e veterano de guerra que faz uma aposta para transportar um Dodge Challenger R/T de 1970 branco de Denver até São Francisco num tempo quase impossível. Ao longo do trajeto, a sua viagem em alta velocidade transforma-se numa perseguição policial de grande escala e numa reflexão sobre a liberdade e a contracultura da época, contando ainda com a ajuda de um locutor de rádio cego chamado Super Soul.

2. Vanishing Point (1997) - o remake
Em 1997, surgiu a versão para televisão, realizada por Charles Robert Carner e protagonizada por Viggo Mortensen. Embora conserve a premissa de velocidade e o mesmo modelo de Dodge Challenger branco, esta refilmagem alterou substancialmente as motivações do protagonista. Nesta versão, Jimmy Kowalski não corre por causa de uma aposta libertária, mas sim para chegar a tempo de acompanhar a sua mulher grávida, que sofreu complicações graves de saúde. A história ganha assim um tom mais dramático e pessoal, embora mantenha a essência do combate do indivíduo contra as autoridades ao longo das autoestradas americanas.

Mulheres conservadoras em Portugal: o contraponto ao legado de Maria de Lourdes Pintasilgo

Sobre o "movimento de mulheres conservadoras" é usar as conquistas  por exemplo - o voto, a candidatura e a voz pública - contra elas mesmas.

Esquece quem faz que não sabe (ou não se lembra) que, no Estado Novo, o máximo que faziam em público era benzer-se na missa e pedir autorização por escrito para ir às compras. E não, não estou a exagerar.

Antes do 25 de Abril, uma mulher casada precisava do consentimento do marido para trabalhar, viajar ou abrir uma conta bancária. Hoje, estas militantes "cheganas" aproveitam a autonomia conquistada para apoiar quem marcha ao lado de quem quer retirar-lhes direitos - de quem lhes quer enfiar o avental à força. Agora um pouquinho "mais a sério", dá-me repulsa, nojo, assistir a mulheres a lutar pela própria submissão - e ainda verem-se aplaudidas por quem devia defender o progresso social -;é tão absurdo como ver perus a manifestarem-se alegremente a favor do Natal todos os dias.

Não é novidade, e é triste e revoltante ver a "cheganice" aliar-se aos evangélicos e seus propósitos de ter mais votantes.

É isto que temos que nos indignar e criar repulsa e falar a verdade. Vejamos em contraponto o legado de Maria de Lourdes Pintasilgo, uma católica convicta e ativista e progressista.

O pensamento pioneiro de Maria de Lourdes Pintasilgo e o confronto com a Ditadura
Maria de Lourdes Pintasilgo (1930–2004) foi uma das figuras mais marcantes e singulares do século XX português, tendo-se tornado na primeira e até hoje única mulher a assumir o cargo de Primeira-Ministra de Portugal, em 1979, além de ser uma das mais destacadas pensadoras da igualdade de género no espaço lusófono e internacional. O seu pensamento estruturou-se em torno da ideia de que a emancipação das mulheres não devia significar uma mera assimilação do modelo masculino de poder, mas sim uma transformação profunda na própria forma de fazer política, introduzindo valores de cuidado, mediação, ecologia e justiça social. Como dirigente do Graal, um movimento internacional de mulheres católicas, e sendo ela própria uma católica convicta, Pintasilgo demonstrou que a fé e o progresso social não eram incompatíveis. Pelo contrário, defendia que o verdadeiro compromisso ético e humanista exigia a libertação das estruturas patriarcais e autoritárias que historicamente remetiam as mulheres ao silêncio.

Durante os últimos anos do Estado Novo, em pleno período da chamada "Primavera Marcelista", gerou-se uma ténue fresta de debate sobre a modernização e o desenvolvimento económico do país. Em 1970, o regime criou a Comissão para a Política Social Relativa à Mulher - a antecessora histórica da atual Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG) -, convidando Maria de Lourdes Pintasilgo para a presidir. Foi nesse contexto que Pintasilgo conduziu um diálogo estratégico com o Presidente do Conselho, Marcello Caetano, usando a sua formação em Engenharia Química, o seu rigor técnico e a sua projeção internacional junto da Organização das Nações Unidas para confrontar o regime com a contradição da condição feminina em Portugal.

Pintasilgo conseguiu convencer Marcello Caetano da necessidade de mudar a política em relação às mulheres ao demonstrar, com diagnósticos sociológicos e económicos rigorosos, que a profunda discriminação jurídica, profissional e civil existente - como a obrigação de obter autorização do marido para trabalhar, viajar ou abrir uma conta bancária - representava um atraso civilizacional e um travão ao desenvolvimento do próprio país. Além disso, invocou a dimensão internacional para sublinhar o isolamento de Portugal face aos organismos mundiais. A sua atuação permitiu que o país integrasse a Comissão do Estatuto da Mulher da ONU e viabilizou os primeiros diplomas legais de proteção ao trabalho feminino e à maternidade ainda antes da Revolução. Ao utilizar as fissuras da ditadura para erguer as bases institucionais dos direitos das mulheres, Maria de Lourdes Pintasilgo abriu caminho para as transformações democráticas que se consolidariam após o 25 de Abril de 1974, reafirmando a voz e a autonomia feminina como conquistas irreversíveis da história portuguesa.

Ler mais:
Nota: No artigo o texto intitulado Para uma óptica revolucionária da condição feminina na Constituição, o link fornecido está errado. Podem lê-lo aqui 

Pequena Garça - Anima Mundi

Garça-caranguejeira (Ardeola ralloides)
𝑨𝒏𝒊𝒎𝒂 𝑴𝒖𝒏𝒅𝒊
Há uma inteligência sem nome
na curvatura destas asas ocres e luminosas,
uma física precisa onde o ar não é vazio,
mas corpo, suporte e abraço.

Irmão Vento, que sopras sem pedir licença,
carregas a poética do espaço em cada pena.

A matéria acorda do seu longo sono:
a pedra que um dia sonhou ser planta,
a planta que ansiou pela vertigem do movimento,
até que a luz, semente da Noosfera,
revelou a consciência suspensa no azul.

Pequena Garça, não voas sobre a Terra -
és a própria Terra que ganha céus e olhares.
Não há rutura entre a tua garra amarela
e a humidade dos juncos lá em baixo:
o ecossistema é uma só teia,
uma teia profunda onde tudo o que existe,
respira o mesmo sopro.

O teu peito avança, alento puro e luz,
na metamorfose contínua da forma.
Sem artifício, sem esforço,
apenas o ser na sua mais pura,
simples e indivisível presença.
𝐽𝑜𝑎̃𝑜 𝑆𝑜𝑎𝑟𝑒𝑠, 13.08.2026

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

O despertar da Consciência Cósmica na música e na natureza


J.S.Bach : Gigue, BWV 1006, alto recorder 




Video original aqui

O despertar da Consciência Cósmica na música e na natureza
Sob o abóbada de pedra onde as eras repousam em cinza silencioso,
Uma palheta de madeira ganha fôlego e põe a luz a brincar.
O ar transforma-se em melodia, um fio de prata a dançar,
Tecido através da quietude onde o passo sagrado é dado.

A luz do sol jorra pelo arco antigo e encontra o campo aberto,
Onde a terra e o céu cedem num padrão contínuo.
O vento lá fora, o tubo de madeira, o pulsar do coração na sala,
São fios de uma teia profunda que rompe a sombra na penumbra.

Uma criança senta-se perto com olhos tranquilos, atenta em pensamento suave,
O seu espírito unido a cada fio que a graça da música teceu.
Ela não ri, mas escuta profundamente, descansando sem sobressaltos —
Um eu tão vasto como todo o cosmos, fundindo-se com o sonho.

Pois a matéria não é poeira pesada, nem estrutura fria ou sem vida,
Arde em fogo interior, ascendendo em chama.
A Natureza é o espírito visto, uma visão trazida à luz,
E o espírito é a terra silenciosa transformada em luz viva.

Cada nota desdobra uma arquitetura, folha por flor a crescer,
Um fluxo mórfico de harmonia que flui para sempre em liberdade.
A sala expande-se com ar dinâmico, um santuário amplo,
Onde a consciência cósmica desperta e não deixa nenhum coração de fora.

A canção dissolve-se no silêncio, sagrada e completa,
Deixando o universo em louvor onde a terra e o altar se encontram.

João Soares, 

Fernando Alexandre defendeu o fim do pagamento do 14.º mês aos reformados?


Através da partilha de uma notícia do “Jornal Económico” a dar conta de que o Governo já tem o relatório final que vai servir para implementar uma nova reforma da Segurança Social, há quem aponte o dedo à estratégia do Executivo de Luís Montenegro nestas matérias.

“Há muito que venho alertando para o que a direita e a extrema-direita racista anda a ‘preparar’ para lixarem os portugueses no que diz respeito à Segurança Social e, portanto, às suas reformas e pensões”, começa por escrever um utilizador do X.

A publicação continua: “Pretendem privatizar a Segurança Social (SS) pública e, depois, colocá-la em bolsa, isto é, deixar todos os portugueses na mão e à sorte desta seita de capitalistas.”

Segue-se, depois, uma crítica concreta: “Estas ideias cripto-fascistas têm duas madrinhas e um padrinho, Marilu [uma provável referência à ex-ministra Maria Luís Albuquerque], Palma Ramalho e o impagável ministro da Educação Fernando Alexandre que há muito defende o fim definitivo do pagamento do 14.º mês aos reformados/pensionistas.”

Será que esta alegação em relação ao atual ministro da Educação tem fundamento?
De facto, numa entrevista de 21 de novembro de 2011 ao jornal “Público“, o professor de Economia da Universidade do Minho defendia uma “forte redução nas reformas futuras”. A justificação era a seguinte: “A decisão da poupança é tomada em grande medida pela expectativa de rendimento que se quer ter no futuro. Mas eu vou mais longe, e desde o início da crise defendo o corte definitivo do 14.º mês para as reformas acima dos 1500 euros mensais. Esse corte teria um efeito positivo na redução da despesa da Segurança Social, e representaria uma questão de justiça. É que as reformas actuais foram fixadas num período de expectativas demasiado optimistas e estão a ser financiadas por quem está agora a trabalhar e que vai ter um corte brutal no seu rendimento quando se reformar. Este sistema é injusto. É preciso criar um sistema de transição.”

Questionado sobre se o corte do 13.º e 14.º mês para os funcionários públicos devia ser temporário, Fernando Alexandre contestou: “Um dos salários deveria ser cortado de forma definitiva. Quando houver condições, os aumentos na função pública deveriam ser feitos com base no mérito. No entanto, o corte de dois meses, para muitas famílias, vai ser brutal.”

Assim, o corte do 14.º mês faria “as pessoas aterrar”. E “ajudava-as a perceberem que, de facto, muita coisa mudou”. O recado deixava-o aos políticos: “Ninguém gosta de dar más notícias. A democracia é assim. É curioso verificar que dois terços do aumento da despesa pública foram decididos pouco antes de eleições. O último exemplo foi o aumento dos funcionários públicos em 2009. Nas últimas décadas, a política orçamental portuguesa tem sido uma aberração, e por isso chegamos à situação actual. Agora é preciso dizer às pessoas que o Estado social está a diminuir. Em relação à educação e à saúde tenho muito receio do impacto que esse corte pode ter na vida das pessoas e no bem-estar da sociedade em geral. Um modelo de saúde como o americano é assustador.”

Além disso, em 2012, no estudo “A Poupança em Portugal”, que publicou em colaboração com Luís Aguiar-Conraria, Pedro Bação e Miguel Portela, Fernando Alexandre também defendeu um primeiro passo na privatização da Segurança Social, com a criação de um novo modelo contributivo.

A Conta Poupança Desemprego, como lhe chamou, funcionaria em concreto para situações de desemprego, mas substitui, de certa forma, o papel da SS, como explicou na entrevista ao “Público”: “Se o trabalhador ficar desempregado, o subsídio é pago a partir dessa conta, e se ficar negativa, o Estado assume esse pagamento. Quando o trabalhador voltar ao ativo, o Estado recupera o saldo negativo. O que não for gasto em situações de desemprego será recebido na reforma. Este sistema responsabiliza mais o trabalhador“.

Em suma, é verdade que o atual ministro da Educação defende “há muito” o fim do pagamento do 14.º mês aos reformados e pensionistas. Mais concretamente, há 15 anos.

Falta regularizar apenas três Zonas Especiais de Conservação para Portugal cumprir as obrigações europeias da Directiva Habitats. A multa é de 2250 euros por dia


Falta regularizar os processos relativos às áreas da Serra da Estrela, do Sado e de Alvito/Cuba, para que fiquem concluídas as 61 ZEC e respetivos planos de gestão. Governo prevê concluir todo o processo ainda este ano.

Portugal está a suportar uma penalização de cerca de 750 euros por dia por cada Zona Especial de Conservação (ZEC) ainda em atraso, estando ainda por concluir três das 61 ZEC abrangidas pelo processo de regularização das áreas protegidas exigido pela União Europeia.

Segundo avançou o Ministério do Ambiente e Energia (MAEn) ao Público, falta finalizar a regularização das ZEC da Serra da Estrela, do Sado e de Alvito/Cuba. Nomeadamente, o diploma relativo à ZEC do Sado já concluiu o circuito governamental e foi remetido ao Presidente da República para promulgação; o plano de gestão da ZEC de Alvito/Cuva deverá ser submetido a Conselho de Ministros no início de setembro; e o plano de gestão da ZEC da Serra da Estrela encontra-se atualmente em circuito legislativo, na sequência da consulta pública recentemente concluída.

Recorde-se que, em março passado, o Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) condenou Portugal a pagar 10 milhões de euros por não ter executado um acórdão sobre a violação da Diretiva ‘Habitats’, relativa à preservação de habitats naturais, e 750 euros diários por cada um dos sítios que ainda não estão protegidos. Na altura, o TJUE referiu que Portugal não adotou medidas de conservação adequadas, considerando que estavam em causa infrações particularmente graves ao direito do ambiente da União, “nas quais Portugal persistiu ao longo do tempo”.

Tendo em conta que o território português abriga uma biodiversidade significativa - incluindo 99 tipos de habitats e 335 espécies abrangidas pela Diretiva Habitats- , “os riscos para o património natural comum da União são especialmente relevantes”, destacava o Tribunal, que impôs sanções financeiras até que todas as 61 zonas especiais de conservação em causa dispusessem “de proteção adequada”.

Desde então, o Governo diz ter acelerado significativamente o processo, com o MAEn a salientar que “o trabalho desenvolvido pelo Ministério do Ambiente e Energia permitiu acelerar de forma muito significativa a aprovação das designações e dos respetivos instrumentos de gestão”, colocando Portugal “numa trajetória de cumprimento integral” das obrigações europeias.

Fonte oficial do MAEn acrescenta que o trabalho iniciado pelo XXIV Governo, em 2024, deverá terminar este ano, sublinhando que este “veio corrigir um atraso acumulado ao longo de sucessivos governos, que manteve Portugal em incumprimento em matéria de obrigações europeias durante vários anos e deu origem a um processo de infração por parte da Comissão Europeia”.

O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) já tinha, entretanto, confirmado ao Jornal PT Green que entregou à tutela todos os planos de gestão das ZEC, ressalvando que “eventuais alterações ao calendário previsto poderão decorrer das diligências subsequentes ao processo, que poderão incluir pedidos de esclarecimento ou consultas ao ICNF”.

As ZEC integram a Rede Natura 2000, uma rede europeia de áreas destinadas à conservação de habitats e espécies ameaçados ou representativos da biodiversidade europeia.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

O Sopro do Sagrado em Serrabona


O 'Preludio' da suite em mi para violino: é uma das obras mais conhecidas de J.S. Bach, tão popular e maravilhosa que foi transcrita para quase todos os instrumentos. A versão em fá funciona às mil maravilhas na flauta de bisel alto. 
Local: o Prioriado de Serrabona - uma obra-prima do século XI, perdida nas montanhas catalãs perto de Perpignan
A piece  of Bach a day keeps the doctor away

O Sopro do Sagrado em Serrabona

Nas pedras seculares de Serrabona,
onde o tempo esquece a pressa dos homens,
a flauta suspende um sopro primordial
e desperta o sagrado no mais fundo.

Não há fronteira entre o templo e a terra,
entre a madeira que vibra e o espaço que ressoa;
a aragem que cruza as serras catalãs
é a mesma que se molda em harmonia.

Pelas mãos do mestre, o génio de Bach
deixa de ser nota e torna-se prece.
Cada frase musical é um degrau de silêncio,
um fio invisível tecido na matéria da vida.

Na memória do granito e no eco que se esvazia,
revela-se uma ordem discreta, um rasgo de luz pura:
auscultar essa arquitetura no cume dos Pirenéus
é sentir o pulso do cosmos na própria rocha.

João Soares, 12.08.2026

Página oficial do flautista 

Programa Nacional de Vacinação: as assimetrias regionais e o refúgio das redes antivacinas em Portugal

O Relatório Anual da Direção Geral de Saúde mostra que a maioria das vacinas infantis tem uma taxa de cobertura superior a 95% em Portugal, mas há concelhos que ficam abaixo dos 60%.A região algarvia mantem baixas taxas de vacinação Desigualdades persistem nas vacinas do HPV, gripe e covid-19.

As autoridades de saúde portuguesas estão a combater as baixas taxas de vacinação no Algarve através de uma estratégia focada na busca ativa de utentes e na proximidade comunitária Os centros de saúde realizam auditorias frequentes aos sistemas informáticos para identificar crianças e jovens com doses em atraso, avançando de imediato com contactos diretos através de telefonemas, SMS ou cartas registadas. Para mitigar o isolamento geográfico de concelhos como Aljezur e Vila do Bispo, equipas móveis de enfermagem deslocam-se às zonas rurais para administrar as vacinas localmente.Nas escolas da região, as autoridades cruzam os dados de matrícula com o registo vacinal para sinalizar alunos em falta e alertar os encarregados de educação. Paralelamente, os serviços de saúde pública trabalham com as autarquias locais para traduzir materiais informativos e integrar as comunidades estrangeiras residentes no Serviço Nacional de Saúde (SNS). Por fim, os profissionais de saúde desenvolvem ações de esclarecimento direcionadas para combater mitos e a hesitação vacinal junto de grupos específicos da população. Parece-me insuficiente. 

O debate em torno do movimento antivacinas e da proliferação de comunidades dogmáticas em Portugal exige uma análise objetiva das causas e uma revisão urgente do enquadramento legal. A experiência demonstra que o confronto direto com correntes New Age e determinadas comunidades de permacultura é ineficaz: nestes meios, o ceticismo em relação às vacinas e ao conhecimento científico assenta na construção de identidades, no sentimento de pertença e na rejeição do que consideram a "frieza" do sistema dominante. Esta mentalidade, contudo, gera consequências graves e conduz a mortes perfeitamente evitáveis.

A fixação destas famílias estrangeiras em Portugal - com particular incidência no interior (Beira Alta, região Centro) e no Algarve - resulta diretamente de um fenómeno de "fuga às regras". Países como a França e a Alemanha identificaram o risco do isolamento comunitário e do desrespeito pela saúde pública, endurecendo substancialmente os seus regimes jurídicos. Entre 2018 e 2020, tornaram a vacinação infantil obrigatória para o acesso ao ensino e erradicaram ou restringiram severamente o ensino doméstico (homeschooling).

Enquanto a Europa Central fechou as brechas legais, Portugal manteve-se como um dos países mais permissivos do continente, tornando-se um refúgio para quem procura educar os filhos fora do sistema oficial em redes locais sem controlo rigoroso. Embora a adesão da população nacional ao Programa Nacional de Vacinação seja massiva, a vacinação de menores não é juridicamente obrigatória, o que deixa uma margem de manobra perigosa. 

De salientar que há uma faixa social portuguesa em que a hesitação vacinal dos pais são na maioria da classe média-alta e alta. [artigo científico aqui]

Para proteger a saúde pública e a integração social das crianças, Portugal precisa de importar medidas coercivas inspiradas no modelo alemão, assegurando a devida conformidade constitucional:
  1. Condicionamento de acesso e sanções: nenhuma criança deve ser admitida em creches, escolas (públicas ou privadas), ATL ou colónias de férias sem o boletim de vacinação em dia. Caso seja detetada a ausência de vacinas, deve aplicar-se um prazo limite de três meses para regularização, sob pena de cancelamento da matrícula. Paralelamente, ao tornar o ensino presencial obrigatório e banir o ensino doméstico, os pais incumpridores devem ficar sujeitos a multas administrativas pesadas (a exemplo dos 2.500 euros aplicados na Alemanha).
  2. Abrangência a adultos e profissionais de risco: a obrigatoriedade vacinal deve estender-se a quem lida diretamente com populações vulneráveis - pessoal médico, trabalhadores de hospitais e lares, professores e funcionários de creches ou centros de acolhimento. A ausência de imunização deve proibir a contratação ou motivar a suspensão de funções.
Cabe ao Estado Português atuar legislativamente antes que a permissividade jurídica continue a expor a comunidade a riscos evitáveis.

Ler mais:

Metric - Eclipse [All Yours]

Melhor som aqui
Letra
All the lives always tempted to trade
Will they hate me for all the choices I made?
Will they stop when they see me again?
I can't stop, now I know who I am

[refrão]
Now I'm all yours, I'm not afraid
And you're all mine, say what they may
And all your love I'll take to a grave
And all my life starts now

Tear me down, they can't
Take you out of my thoughts
Under every scar there's a battle I've lost
Will they stop when they see us again?
I can't stop, now I know who I am

[refrão] 2X

Análise de "Eclipse (All Yours)" dos Metric: a música de Twilight
"Eclipse (All Yours)" é uma canção interpretada pela banda Metric, composta especialmente para a banda sonora oficial do filme A Saga Twilight: Eclipse (2010). O grupo é uma banda canadiana de rock independente, formada em Toronto, Ontário, em 1998, sob a liderança da vocalista e teclista Emily Haines e do guitarrista James Shaw.

No que respeita ao estilo musical, o Metric navega entre o Indie Rock, Synth-Pop, Post-Punk Revival e New Wave, unindo guitarras elétricas marcantes a sintetizadores pulsantes e linhas melódicas vocais bastante acessíveis. Embora não seja uma banda comercial na sua essência - tendo construído a sua carreira no circuito alternativo sob uma filosofia DIY ("do it yourself") e editando grande parte do seu catálogo através da sua própria editora independente, a Metric Music International -, o grupo alcançou uma grande projeção mainstream. Essa transição para o grande público foi impulsionada precisamente pela inclusão das suas faixas em bandas sonoras de sucessos globais, como a saga Twilight e o filme Scott Pilgrim vs. The World.

O significado da canção e do seu videoclipe está profundamente ligado à narrativa cinematográfica. A letra foi escrita sob a perspetiva direta da protagonista Bella Swan, abordando a devoção incondicional e a entrega definitiva refletidas no verso "I'm all yours" ("Sou toda tua"), ao mesmo tempo que expressa o conflito interno e o receio das consequências das suas decisões, visível na linha "Will they hate me for all the choices I've made?" - uma alusão clara ao triângulo amoroso e às tensões entre vampiros e lobisomens. Por sua vez, o vídeo combina a atmosfera melancólica e florestal do filme com a performance da banda. Nele, Emily Haines surge isolada numa cabana de madeira a compor ao piano enquanto observa trechos de romance e combate numa televisão retro, enquanto os restantes membros aparecem dispersos por cenários naturais sombrios, como florestas densas, penhascos e pedreiras, simbolizando a solidão e a tensão iminente da história.

Por fim, o som do Metric é moldado por um leque diversificado de influências musicais que equilibra o rock clássico, o pós-punk e o synth-pop. Entre as suas principais referências estão o New Wave e Post-Punk dos anos 80 (bandas como Joy Division, The Cure, New Order, Depeche Mode e Blondie) e o Indie e Alt-Rock dos anos 90 e 2000 (Sonic Youth, Pixies, The Velvet Underground, além da proximidade com a cena de Nova Iorque e Toronto ao lado de nomes como Yeah Yeah Yeahs, TV on the Radio e Broken Social Scene). Soma-se a isto a utilização de eletrónica vintage e uma base de estruturas clássicas, fruto da formação técnica de James Shaw na prestigiada escola Juilliard e das vivências vanguardistas da infância de Emily Haines.

Dia Mundial do Elefante 20026


Introdução e Contexto Histórico

Celebrado anualmente a 12 de agosto, o Dia Mundial do Elefante - instituído em 2012 por iniciativa da realizadora canadiana Patricia Sims e da Elephant Reintroduction Foundation da Tailândia - constitui um marco global para a consciencialização sobre a preservação e gestão sustentável da família Elephantidae. Em 2026, a efeméride assume um caráter de acrescida urgência analítica: o declínio demográfico persistente em África e na Ásia impõe a revisão contínua das estratégias de gestão de ecossistemas, o combate ao comércio ilícito de marfim e a reavaliação ética dos modelos do ecoturismo e dos safaris.

1. Divergência taxonómica: as três espécies reconhecidas
A biogeografia contemporânea e a genómica populacional reconhecem atualmente três espécies distintas de elefantes:
  1. Elefante-de-savana-africano (Loxodonta africana): é o maior mamífero terrestre do planeta. Distribui-se maioritariamente pelas savanas e habitats abertos da África Subsaariana. Encontra-se classificado como Em Perigo (EN) pela Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN.
  2. Elefante-da-floresta-africano (Loxodonta cyclotis): distinguido formalmente do L. africana devido a evidências genéticas inequívocas, habita as florestas tropicais densas da África Central e Ocidental. De menor porte e com presas mais retas, está classificado como Em Perigo Crítico (CR) pela IUCN, tendo sofrido perdas drásticas devido à caça furtiva.
  3. Elefante-asiático (Elephas maximus): presente de forma fragmentada em 13 países do Sul e Sudeste Asiático. Morfologicamente caraterizado por orelhas menores e por uma única projeção digital na tromba, encontra-se igualmente classificado como Em Perigo (EN) na IUCN Red List.
2. Ponto de Situação Populacional e Ameaças
De acordo com os dados compilados no African Elephant Database mantido pela IUCN, estima-se que restem cerca de 400.000 a 415.000 elefantes africanos na natureza. Relatórios da World Wildlife Fund (WWF) e do programa CITES MIKE (Monitoring the Illegal Killing of Elephants) indicam que a população do elefante-da-floresta declinou mais de 86% em três décadas. A população selvagem de elefantes asiáticos é estimada em apenas 40.000 a 50.000 indivíduos.

As pressões antrópicas organizam-se em três eixos centrais:
  1. Caça furtiva e tráfico: a procura ilegal de marfim continua a perturbar as demografias locais.
  2. Fragmentação de habitat: a conversão agrícola e a urbanização destroem cenários de dispersão.
  3. Conflito Humano-Fauna (CHF): o aumento das sobreposições territoriais gera episódios letais de retaliação motivados pela destruição de culturas agrícolas.
3. Estratégias de Preservação e Conservação
As respostas institucionais assentam na transição para abordagens integradas de paisagem e tecnologia:
  1. Corredores ecológicos Transfronteiriços: iniciativas de grande escala, como a KAZA TFCA (Kavango-Zambezi Transfrontier Conservation Area), conectam parques nacionais em cinco países da África Austral, garantindo rotas de migração seguras.
  2. Tecnologia de rastreio e monitorização: implementação de coleiras com GPS via satélite geridas por organizações como a Save the Elephants e aplicação da plataforma de dados SMART (Spatial Monitoring and Reporting Tool) pelas brigadas de fiscalização.
  3. Mitigação biológica do CHF: desenvolvimento de cercas de colmeias (beehive fences) promovidas por projetos científicos como o Elephants and Bees, que aproveitam o repúdio natural dos elefantes relativamente às abelhas para afastar os animais de áreas agrícolas.
4. Restrições no turismo de safari e atividades recreativas
A indústria do ecoturismo atravessa uma reestruturação normativa impulsionada pelo bem-estar animal e por relatórios globais de entidades como a World Animal Protection.

Proibição de Safaris de Montaria (Elephant Rides)
A exploração turística assente na montaria e contacto direto tem sido desmantelada progressivamente:
Na África Austral (em particular no Botsuana), as diretivas da indústria de safari e das autoridades de conservação baniram as práticas comerciais de passeios a dorso de elefante.

No Sudeste Asiático (Tailândia), estudos de monitorização continuada promovidos pela World Animal Protection registam uma queda consistente na oferta de viagens a monte e a transição gradual para o modelo de "apenas observação" (observation-only sanctuaries).

Restrições de Capacidade e Impacto Ambiental em Safaris
Nos ecossistemas de safari em parque aberto (como no Parque Nacional do Chobe ou na Reserva do Masai Mara), os organismos governamentais aplicam diretrizes rigorosas:
  1. Lotação por avistamento: proibição de aglomeração de mais de 2 a 3 veículos em simultâneo junto a manadas.
  2. Manutenção de distâncias mínimas: para evitar stresse comportamental nas matriarcas e crias.
  3. Proibição do Off-Roading: Confinamento estrito aos trilhos oficiais para evitar a degradação da flora nativa.
Considerações Finais
A análise do estado de conservação dos elefantes em 2026 demonstra que a viabilidade a longo prazo da família Elephantidae depende da consolidação de corredores ecológicos contínuos, do combate intransigente ao crime ambiental e da transição definitiva do turismo recreativo para um modelo ético, sustentável e baseado exclusivamente na observação à distância.

Existe uma relação direta entre ecossistemas da machosfera e o movimento antivacina

Existe uma relação direta e documentada entre os ecossistemas da machosfera e o movimento antivacinas, uma convergência que é ilustrada na perfeição pelo conteúdo da imagem associado a Andrew Tate. Esta ligação assenta sobretudo na partilha de uma visão do mundo profundamente cética em relação às instituições estabelecidas e numa narrativa de resistência individual.

O principal ponto de contacto entre estas duas subculturas é a rejeição do que apelidam de "sistema" ou a Matrix. Tanto os grupos da machosfera como os ativistas antivacinas partilham a premissa de que os governos, os meios de comunicação social e a comunidade científica manipulam a população para manter o controlo. A metáfora da red pill - a ideia de tomar a pílula vermelha para "despertar" para a verdade oculta - é amplamente utilizada em ambos os universos, criando um terreno fértil para que teorias da conspiração sobre a saúde pública encontrem adesão junto de audiências que já desconfiam das narrativas oficiais.

Além disso, a cultura do fitness, da masculinidade dita "Alfa" e do biohacking, muito presente na machosfera, promove uma obsessão pela pureza biológica e pela autonomia física. Neste contexto, as vacinas são frequentemente retratadas como intervenções externas desnecessárias ou até prejudiciais à virilidade, à fertilidade e aos níveis naturais de testosterona. O cumprimento de orientações sanitárias ou a aceitação de vacinas é por vezes associado a traços de passividade, fraqueza ou submissão, enquanto a recusa é vendida como um ato de força, independência e rebeldia masculina.

Por fim, os próprios algoritmos das plataformas digitais facilitam esta sobreposição. Um utilizador que consome conteúdos sobre masculinidade tradicional ou conselhos de sedução é frequentemente direcionado para círculos de desinformação médica, teorias conspiratórias e políticas de extrema-direita.

Figuras influentes deste meio aproveitam estes tópicos fraturantes para gerar controvérsia, aumentar o envolvimento nas redes sociais e reforçar a sua imagem de líderes destemidos que desafiam o consenso geral.

Who is Andrew Tate?

Referências Bibliográficas
Ler mais:

terça-feira, 11 de agosto de 2026

London Grammar - Nightcall


A melancolia noturna de "Nightcall": entre o synthwave e o existencialismo dos London Grammar


A letra de "Nightcall" aborda um reencontro noturno e tenso após um afastamento ou um evento traumático, focando-se no contraste entre a atração e o perigo. No original de Kavinsky, a faixa faz parte de uma narrativa concetual sobre um jovem que morre num acidente de carro nos anos 80 e regressa como "zombie" para rever a namorada. Na versão dos London Grammar, essa vertente de ficção científica desaparece, dando lugar a uma metáfora sobre a vulnerabilidade, o isolamento e a complexidade das relações humanas.

Esta narrativa liga-se a várias referências culturais e filosóficas. A figura misteriosa do condutor evoca o Herói Byroniano da literatura romântica - um indivíduo solitário, sombrio e carregado de culpa -, refletindo também o existencialismo urbano através da alienação e da viagem sem rumo na noite. A ideia de que "há algo em ti difícil de explicar" remete para o conceito de Doppelgänger e para a Sombra de Carl Jung, representando o lado oculto da personalidade que emerge no escuro. Além disso, a estética da autoestrada noturna remete para o Cinema Noir e para o conceito de "não-lugar" do antropólogo Marc Augé, onde o espaço urbano serve de palco para a suspensão do tempo e da moral.

O videoclipe oficial dos London Grammar reflete essa mesma atmosfera através de um ritmo lento e parado. Gravado num campo aberto e enevoado durante a noite, o vídeo mostra a banda a tocar sob luzes focadas, rodeada por elementos dispersos e aparentemente sem ligação direta: um carro vermelho com os faróis acesos, uma caravana iluminada, jovens reunidos à volta de uma fogueira e cavalos a correr no meio da névoa.

O significado deste videoclipe não passa por contar uma história linear, mas sim por traduzir visualmente o estado de espírito da canção. A lentidão das imagens e a penumbra reforçam a sensação de isolamento e melancolia. Os vários elementos funcionam como memórias desconexas ou símbolos de transição - o carro representa a viagem, a fogueira o desejo de calor e pertença, e os cavalos em liberdade simbolizam a natureza indomável dos sentimentos. Em vez de recorrer à ação ou à velocidade, o vídeo opta por uma estética contemplativa que deixa a música e a voz de Hannah Reid guiarem toda a carga dramática.

Filme Drive e filme completo aqui

Página oficial

Grande Muralha Verde restaura 1,66 milhão de hectares na África



Cerca de 1,66 milhão de hectares estão em processo de restauração no Sahel, região africana entre o deserto do Saara e a savana do Sudão. O resultado representa a principal conquista da iniciativa Acelerador da Grande Muralha Verde, que completou cinco anos e teve o relatório apresentado esta semana pela Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD).

Outros números em destaque do balanço incluem 24 milhões de toneladas de CO₂ equivalente sequestradas ou mitigadas, 4,6 milhões de empregos criados e 46 milhões de pessoas diretamente impactadas.

Segundo a UNCCD, o esforço envolve um conjunto de paisagens restauradas, áreas agrícolas, sistemas de água e comunidades. O objetivo é combinar a recuperação de terras com a segurança alimentar, a geração de oportunidades económicas, o acesso a energia limpa e o aumento da resiliência perante as alterações climáticas e a seca.

Grande Muralha Verde foi criada em 2007 pela União Africana e pela UNCCD e reúne atualmente 11 países fundadores, numa área de 156 milhões de hectares, do oeste do Senegal ao Corno de África. Já o "Acelerador" foi criado em 2021 para melhorar a coordenação da iniciativa, acompanhar os recursos financeiros e ajudar os países a medir os resultados das ações de restauração.

Resultados parciais
Apesar dos avanços, o próprio relatório alerta que ainda há limitações importantes no acompanhamento dos resultados. O Observatório da Grande Muralha Verde monitoriza mais de 389 projetos, porém menos de 90 apresentam atualmente dados de acordo com os indicadores harmonizados adotados pela iniciativa.

A UNCCD considera os resultados, portanto, iniciais. Além dos 1,66 milhão de hectares em restauração, os dados disponíveis apontam para a criação de 4,6 milhões de empregos, contra uma meta de 10 milhões até 2030, e a produção de 2.315 megawatts-hora de energia limpa. A entidade ressalta que os processos de restauração de terras podem levar anos ou décadas para produzir resultados completos e que o levantamento da totalidade dos projetos ainda está em curso.

Para tentar superar a fragmentação das informações, foi criado em 2024, em Ouagadougou, Burquina Faso, o Observatório da Grande Muralha Verde. A plataforma reúne informações sobre projetos, financiamento, resultados e dados geoespaciais. Segundo a UNCCD, o sistema já foi endossado por dez dos 11 países fundadores.

Também foram criadas coligações nacionais em nove dos 11 países, reunindo ministérios, sociedade civil, universidades, setor privado e meios de comunicação. A intenção é melhorar a coordenação das ações e transformar os compromissos financeiros em resultados verificáveis nos territórios.

Desafio do financiamento
O Acelerador foi lançado após a Cimeira One Planet, em 2021, quando parceiros técnicos e financeiros anunciaram mais de US$ 19 mil milhões em compromissos para a Grande Muralha Verde. A iniciativa passou a funcionar como uma estrutura para coordenar os esforços, acompanhar os recursos e fortalecer a capacidade dos países de demonstrar os resultados obtidos.

O relatório, porém, aponta que a distância entre compromissos e resultados continua a ser um desafio. Além da falta de dados completos, a UNCCD cita dificuldades de coordenação entre diferentes atores e o tempo necessário para que os recursos financeiros se transformem em ações no território.

A próxima etapa deve dar maior peso à comunicação, a mecanismos financeiros inovadores e à gestão transfronteiriça de terras e águas. Entre as possibilidades mencionadas estão obrigações verdes, créditos de carbono e mecanismos de financiamento combinado.

A experiência também procura ampliar a dimensão social da restauração. O relatório destaca iniciativas de geração de rendimento para mulheres, capacitação de jovens e fortalecimento de empreendimentos locais. Num dos exemplos citados pela UNCCD, mulheres do Mali receberam equipamentos e formação e ampliaram uma cooperativa de transformação de produtos agrícolas. No Chade, mulheres foram capacitadas para instalar e reparar painéis solares, transformando o acesso à energia em fonte de rendimento.

COP17
Seca, degradação da terra e restauração dos solos serão temas centrais na 17.ª Conferência das Partes (COP17) sobre Desertificação, que decorre entre os dias 17 e 28 de agosto em Ulan Bator, capital da Mongólia.