sábado, 18 de julho de 2026

O reflexo de uma geração cobaia: a vida sob o império do algoritmo


O documentário The Guinea Pig Generation: Born Into the Algorithm propõe uma reflexão profunda e, por vezes, inquietante sobre a primeira geração da história que cresceu com um ecrã na mão e um algoritmo a ditar-lhe os passos. O cerne da obra reside na premissa de que os jovens nascidos na viragem do milénio funcionaram, sem o saberem, como cobaias humanas de uma gigantesca experiência sociológica e psicológica gerida pelas grandes empresas de Silicon Valley. Ao analisar o impacto das redes sociais e da inteligência artificial na saúde mental, na socialização e na perceção da realidade, o documentário expõe como estes jovens foram moldados por mecanismos concebidos para viciar, monetizar a atenção e polarizar o discurso público.

A narrativa sustenta-se através de um painel diversificado de entrevistados, que equilibra a perspetiva científica com os testemunhos na primeira pessoa. Entre as principais vozes contam-se psicólogos clínicos especializados em desenvolvimento juvenil, neurocientistas que explicam como os fluxos constantes de dopamina das notificações reconfiguram o cérebro adolescente, e ex-engenheiros e ex-designers das principais plataformas tecnológicas. Estes últimos assumem o papel de arrependidos, revelando os bastidores dos mecanismos de "scroll" infinito e as métricas de validação social que criaram. A par destes especialistas, o documentário dá voz aos próprios jovens da Geração Z - influenciadores digitais, ativistas e estudantes -, que partilham relatos francos sobre a ansiedade de performance, a dismorfia corporal alimentada por filtros e a sensação generalizada de solidão num mundo hiperconectado.

O funcionamento do algoritmo assenta num mecanismo invisível de radicalização que ajuda a explicar como um jovem perfeitamente integrado no mundo real, com uma vida social saudável e uma relação estável, pode adotar posturas políticas extremadas nas redes sociais. Este processo, que afeta profundamente a Geração Z em plataformas como o YouTube, o TikTok, o X ou o Discord, começa com o que a ciência chama de caça à atenção. O objetivo primordial destas tecnologias é manter o utilizador colado ao ecrã pelo maior tempo possível. Como os conteúdos equilibrados, moderados ou puramente históricos tendem a gerar menos retenção, os algoritmos priorizam publicações que despertem emoções fortes, como a indignação, o medo, a polémica ou o orgulho identitário, que disparam imediatamente os níveis de atenção e interação.

É a partir daqui que se ativa o funil de recomendação. Um jovem pode iniciar a sua navegação a ver conteúdos totalmente inofensivos sobre musculação, videojogos, humor ou análises simples à situação económica atual. Contudo, ao detetar esse interesse inicial, o sistema começa a sugerir, de forma gradual e impercetível, conteúdos progressivamente mais intensos dentro daquela esfera. No espaço de poucos meses, o feed de publicações afunila de tal maneira que passa a exibir quase exclusivamente canais de cariz nacionalista e de extrema-direita, fechando o utilizador numa bolha de filtragem isolada do resto do mundo.

O culminar deste processo é a ilusão de consenso. Uma vez preso nesta bolha digital, a totalidade das informações, vídeos e comentários que surgem no ecrã do jovem passa a validar e a reforçar essa visão específica do mundo. Para quem consome este fluxo contínuo, aquela bolha transforma-se na realidade nua e crua, gerando a forte convicção de que os factos ali apresentados constituem uma verdade oculta que a comunicação social tradicional, as escolas ou os próprios pais tentam deliberadamente esconder.
As ideologias nacionalistas e de extrema-direita oferecem algo muito sedutor para esta geração digital: respostas simples para problemas complexos, um sentido de pertença e certezas absolutas. Enquanto a realidade é cinzenta e cheia de nuances, o algoritmo vende uma narrativa de "nós contra eles", de orgulho e de proteção de uma identidade.

Para compreender o alcance desta obra, é fundamental definir quem é, afinal, a Geração Z. Geralmente compreendida como o grupo demográfico de indivíduos nascidos entre meados dos anos 90 e o início da década de 2010 (mais especificamente entre 1997 e 2012) esta é a primeira geração puramente nativa digital. Ao contrário dos Millennials, que ainda se lembram do mundo analógico e da transição para a internet, a Geração Z não conhece uma realidade sem Wi-Fi, smartphones ou redes sociais. Caracterizam-se por uma fluidez cultural notável, uma forte consciência social e ambiental, e uma capacidade inata de processar grandes volumes de informação visual em simultâneo. Contudo, esta mesma hiperconexão tornou-os estatisticamente mais propensos a crises de ansiedade, depressão e isolamento social, sendo os primeiros a herdar os efeitos secundários de uma infância mediada por algoritmos de recomendação que lucram com o tempo que passam agarrados ao ecrã. O documentário acaba por ser um espelho desta dualidade: o retrato de uma geração que possui o mundo na ponta dos dedos, mas que luta diariamente para não se perder no labirinto digital que lhe foi imposto.

Influenciadores digitais ecológicos (ou também chamados eco-influencers ou greenfluencers)
Em Portugal: figuras como a Catarina Barreiros (fundadora do projeto Do Zero, uma das vozes mais ouvidas e respeitadas na sustentabilidade em Portugal), Isabel Barros ou projetos partilhados como as Verdes Marias, mostram como é possível acumular dezenas de milhares de seguidores a falar exclusivamente de ecologia, escolhas conscientes e educação ambiental.  
A nível internacional: figuras pioneiras como Lauren Singer (do famoso blogue Trash is for Tossers, conhecida por colocar anos de lixo doméstico dentro de um único frasco de vidro) movimentam comunidades de centenas de milhares de pessoas globalmente.  

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Palestra
Algoritmos: potencial extraordinário ou risco existencial?

Anatomia de um arboricídio: o sacrifício de um Pinheiro-Manso em Lisboa

A recente condenação de um pinheiro-manso histórico em Lisboa reabriu o debate sobre a forma leviana como o património natural urbano é gerido em Portugal. No centro da polémica, José Ribeiro e Castro alega que a decisão de abate foi tomada com base num parecer técnico contratado a privados, uma manobra que serviu para ignorar e contornar as indicações expressas em sentido contrário dadas pelos técnicos oficiais da Câmara Municipal de Lisboa. Para justificar o corte, a narrativa oficial recorreu ao clássico exagero mediático, empolando o perigo com expressões alarmistas como "dezenas de toneladas" em risco de queda, e invocando os habituais argumentos dos passeios levantados ou de tubagens danificadas. No entanto, não faltaram alertas legítimos da sociedade civil, com o Fórum Cidadania Lx a encabeçar os avisos de que estávamos perante um atentado ambiental desnecessário.

Este abate coloca Lisboa em total contraciclo com as grandes cidades europeias, que hoje competem para expandir as suas copas urbanas. Ao contrário do que a ignorância política faz crer, a ciência atual oferece inúmeras tecnologias que previnem o arboricídio, sem que seja necessário invocar o exemplo máximo da engenharia tradicional japonesa, o Nemawashi. O progresso tecnológico permite-nos, de facto, resolver estes conflitos sem recurso à motosserra. Para o problema das raízes e dos passeios, existem tecnologias subterrâneas como as células de solo modulares e as barreiras físicas, que direcionam o crescimento radicular para baixo e protegem o pavimento. Para a avaliação da saúde da árvore, o diagnóstico pode ser feito com o rigor de uma ecografia através de tomógrafos sonoros e resistógrafos, que revelam se o tronco está oco sem desferir um único golpe. Numa escala macro, as metrópoles usam sensores de inclinação IoT, drones e laser LiDAR por satélite para vigiar o stress hídrico, complementados por plataformas de cadastro aberto e QR Codes que dão a cada árvore um bilhete de identidade digital, permitindo ao cidadão fiscalizar a legalidade de qualquer intervenção e combater a impunidade.

O argumento do custo financeiro destas tecnologias também não colhe. O mercado oferece hoje soluções em vários patamares: se a monitorização contínua por sensores IoT exige orçamentos de grandes capitais, o desenvolvimento de aplicações de denúncia urbana e a instalação de barreiras de raiz são investimentos perfeitamente acessíveis a qualquer pequeno município. Os especialistas são unânimes: investir na preservação é altamente rentável, pois o custo de manter uma árvore adulta saudável é uma ínfima fração do prejuízo económico e ambiental que resulta da sua remoção, da reparação de infraestruturas e do agravamento das ilhas de calor urbanas. No fundo, este caso expõe uma crise de mentalidade. Confundir a gestão de árvores urbanas com o trabalho de um homem de motosserra é o mesmo que confundir um cirurgião com um carniceiro. Ambos usam ferramentas de corte e ambos alteram o corpo, mas enquanto o primeiro estuda anos para curar e preservar a vida, o segundo apenas quer despachar o trabalho, amputando cegamente o que lhe aparece à frente. Lisboa perdeu mais do que um pinheiro; perdeu a oportunidade de demonstrar maturidade e respeito pela ciência.

Transportna : Testamento (Zapovit)


Letra
Quando eu morrer, enterrem-me numa sepultura,
no meio da vasta estepe,
na querida Ucrânia.

Para que os vastos prados,
e o Dniepre, e os penhascos,
possam ser vistos, possam ser ouvidos,
como o rugido ressoa.

Depois levante-se, quebre as correntes,
espalhe a sua vontade.

O sangue do inimigo no vale
O mar levará para sempre.

Quando o sangue do inimigo da Ucrânia
para o mar azul... então eu
Voarei para Deus.

Mas antes disso, não sei
O que é a oração.

Só a vontade, só a luta é
O tesouro sagrado.

Depois levante-se, quebre as correntes,
espalhe a sua vontade.

O sangue do inimigo no vale
O mar levará para sempre.

Numa grande e nova família,
onde a liberdade flui,
não se esqueça de se lembrar
Com uma palavra gentil e silenciosa.

Depois levante-se, quebre as correntes,
Espalhe a sua vontade.
Que a Ucrânia se erga de novo,
Como uma canção que ressoa em nós!

O projeto musical Transportna é originário da Ucrânia, embora tenha ramificações de distribuição ligadas à Lituânia. A sua sonoridade enquadra-se claramente no género Post-Punk eslavo, com fortes influências de Darkwave e Cold Wave, caracterizando-se por linhas de baixo marcantes, guitarras melancólicas e sintetizadores minimalistas. Um dos pontos mais debatidos sobre este projeto é o uso assumido de Inteligência Artificial. A Transportna tornou-se viral na comunidade de nicho precisamente por utilizar geradores de áudio (como o Suno AI ou softwares semelhantes) para conceber os seus instrumentais e vozes, um facto que gerou bastante discussão após alguns dos seus temas iniciais terem incluído, por lapso da IA, instruções textuais de prompts cantadas diretamente na música.

O videoclipe e a mensagem da canção funcionam como uma clara música de intervenção, profundamente enraizada no contexto de resistência e afirmação da soberania ucraniana. O significado visual e lírico gira em torno da luta contra a opressão, da libertação e do sacrifício pela pátria. A grande inspiração literária e filosófica desta obra é o poeta, pintor e herói nacional ucraniano do século XIX, Taras Shevchenko. A letra da canção é uma adaptação direta de "Zapovit" (O Testamento), o seu poema mais célebre escrito em 1845, no qual Shevchenko apela ao seu povo para que se levante, quebre as correntes da tirania e regue a liberdade. Ao fundir este clássico do romantismo literário com a estética fria do pós-punk gerado por algoritmos, o projeto cria um contraste entre o legado histórico e a modernidade tecnológica.

O videoclipe desta versão de "Zapovit" pela Transportna destaca-se como uma obra visualmente hipnotizante, cuja beleza reside no forte contraste entre a crueza da guerra e a imortalidade da cultura. Construído com uma paleta de cores fria, dessaturada e cinzenta que casa na perfeição com a sonoridade Cold Wave, o vídeo justapõe a dureza das paisagens urbanas modernas e da destruição industrial com a solenidade de monumentos históricos e a beleza intemporal das estepes ucranianas. Esta escolha estética cria uma ponte temporal imediata, demonstrando que a dor e a luta cantadas por Taras Shevchenko em 1845 continuam dolorosamente presentes nas ruas da Ucrânia de hoje.

O simbolismo da natureza é explorado de forma poética através da terra e da água, focando-se no rio Dnipro que o próprio poeta mencionou no seu testamento literário. O rio surge no teledisco como um elemento de purificação e memória viva, onde as imagens fluidas e melancólicas traduzem a passagem do tempo e a limpeza espiritual da nação face ao opressor. Longe de glorificar a violência, o vídeo foca-se na dignidade humana ao incluir rostos de soldados e cidadãos comuns em momentos de profundo silêncio e introspeção. Estes olhares fixos e emotivos humanizam a própria Inteligência Artificial que gera a música, criando um equilíbrio perfeito entre a frieza mecânica dos sintetizadores e a carga emocional crua das pessoas reais.

Embora o ambiente visual seja predominantemente escuro, marcado pelo betão e pela arquitetura brutalista típica do pós-punk de Leste, há uma clara progressão em direção à luz conforme a música caminha para o fim. Quando a letra evoca o renascimento e a liberdade, o plano visual acompanha essa transição espiritual, terminando com uma sensação de transcendência e esperança. A verdadeira beleza deste trabalho reside, portanto, na sua capacidade de transformar um testamento fúnebre e uma tragédia contemporânea num hino estético de resiliência e imortalidade cultural.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Nina Gallow – Kein Gift In Mir

Melhor som aqui

O projeto Nina Gallow (da autoria da artista alemã homónima) e o tema Kein Gift In Mir (que se traduz como "Nenhum Veneno Em Mim") trazem de facto algo muito fresco e "invulgar" ao panorama do darkwave atual. Há algumas razões técnicas e artísticas que explicam por que soa tão diferente do darkwave tradicional.

Em primeiro lugar, destaca-se a fusão com o Neue Deutsche Härte e EBM. Enquanto o darkwave clássico - ao estilo de Clan of Xymox ou Lebanon Hanover - tende a ser mais melancólico, minimalista e atmosférico, a Nina Gallow injeta uma dose massiva de peso industrial e ritmos de EBM (Electronic Body Music). Há uma agressividade rítmica e uma produção eletrónica muito limpa, moderna e cortante que flerta diretamente com o metal industrial e o techno obscuro.

Outro fator crucial é o contraste vocal e o uso da língua alemã. A escolha do idioma não é por acaso: a fonética alemã, que é naturalmente mais dura e marcada, contrasta perfeitamente com a entrega vocal da artista. Ela não se limita a "sussurrar" de forma etérea como é comum no género; a voz de Nina flutua entre o desalento gótico, a frieza robótica e uma assertividade quase punk.

Por fim, a faixa carrega uma estética cyberpunk moderna. Ao contrário de muitas bandas de darkwave que olham essencialmente para o passado e para a nostalgia dos anos 80, Kein Gift In Mir olha para o futuro. A faixa soa a algo que ouvirias num clube underground de Berlim em 2085 - uma sonoridade cibernética, claustrofóbica mas incrivelmente dançável.

O Elogio da Lentidão

Estava na minha lista de espera há alguns anos. Esta semana conclui a sua leitura. Foi como um longo suspiro de alívio que eu nem sabia que precisava de dar. A própria capa do livro Elogio da Lentidão, com aquele tom azul sereno e uma tipografia que se impõe sem gritar, já parecia antecipar o tom da leitura. Porque, no fundo, ler o Lamberto Maffei é exatamente isso: uma conversa pausada com um cientista que nos tenta resgatar da nossa própria exaustão diária. Por ser um ensaio, não há personagens ou uma narrativa de ficção; o protagonista aqui é o próprio funcionamento da nossa mente. Além disso, para quem já leu o Elogio da Rebeldia, a ligação é imediata: no mundo de hoje, recusar a pressa é a forma mais pura de insubmissão.

Curiosamente, este título partilha o nome exato com outro clássico contemporâneo: o Elogio da Lentidão do jornalista Carl Honoré (2004), o grande manifesto do movimento Slow. No entanto, a forma como os dois autores abordam o mesmo problema revela perspectivas muito diferentes, embora profundamente complementares. Enquanto Honoré adopta uma abordagem sociológica e cultural, mapeando como a pressa invadiu a nossa alimentação, o sexo, o trabalho e as cidades, Maffei vai à raiz biológica do problema. Honoré foca-se no estilo de vida e nas escolhas do quotidiano, propondo uma revolução comportamental; já Maffei foca-se na evolução da espécie, demonstrando que a pressa digital é uma violência contra a nossa própria anatomia cerebral. Para Honoré, abrandar é uma questão de qualidade de vida; para Maffei, é uma necessidade de preservação neurológica.

Vivemos numa época em que a rapidez é aplaudida como a virtude suprema e a pressa é constantemente confundida com produtividade. Como nos lembra o historiador Eric Hobsbawm, o século XX consagrou o triunfo da velocidade, transformando a aceitação da aceleração num mito que dita as regras do mundo contemporâneo. Desde o Manifesto Futurista de Marinetti, decretou-se que o tempo e o espaço tinham morrido em nome de uma pressa omnipresente. Hoje, quem escolhe ser lento é frequentemente visto como indolente ou pouco perspicaz. No entanto, o que Maffei faz, com a mestria e a bagagem de um neurobiologista, é desmontar essa armadilha em que todos caímos. Ele explica-nos, com uma clareza desarmante, que o cérebro humano é, essencialmente, uma máquina lenta. A tecnologia tornou as comunicações externas instantâneas, mas as conexões entre os nossos neurónios permanecem inalteradas desde a nossa filogénese. O cérebro rápido e reativo pertence aos nossos mecanismos ancestrais mais primitivos - aqueles focados apenas na sobrevivência imediata, que não calculam consequências. O pensamento profundo - aquele que nos permite criar significado, resolver problemas complexos e construir memórias que perduram - exige algo que a sociedade moderna detesta: tempo e silêncio.

A literatura já nos tinha avisado disso. Como bem escreveu Milan Kundera, a lentidão está diretamente ligada à intensidade da memória, enquanto a velocidade nos empurra para o esquecimento. No final luminoso de As Vinhas da Ira, de Steinbeck, o adjetivo "lentamente" repete-se como um mantra no gesto de compaixão pura de Rosa de Sharon.

É essa a grande lição partilhada pela ciência de Maffei e pela arte da escrita: a lentidão não melhora apenas a qualidade do nosso pensamento; ela é a condição necessária para a empatia, para o cuidado e para a solidariedade.

No final, ler este livro deixa-nos com uma cumplicidade desarmante e com uma certeza irrefutável. Maffei comprova biologicamente aquilo que o nosso corpo já tentava dizer-nos em cada momento de exaustão: nós fomos feitos para abrandar.

O fenómeno do pára-brisas limpo: a dita "viagem confortável" que esconde uma catástrofe ecológica


Durante décadas, quem conduzia pelas estradas de Portugal conhecia um pequeno incómodo inevitável. Ao fim de algumas dezenas de quilómetros, sobretudo nas noites quentes de Primavera e Verão, o pára-brisas ficava coberto de insetos esmagados. Era preciso lavar o vidro, limpar os faróis, remover aquela película de pequenos corpos que se acumulava ao longo da viagem.

Hoje, muitos automobilistas já nem se lembram disso. As viagens fazem-se com os pára-brisas quase limpos.

O fenómeno tornou-se tão banal que poucos se interrogam sobre o seu significado. Afinal, quem haveria de lamentar a ausência de insetos esmagados? E, no entanto, o que a ciência designa formalmente por "fenómeno do pára-brisas" (windshield phenomenon) é, na verdade, um dos sinais mais inquietantes da transformação ecológica do nosso tempo.

O desaparecimento dos insetos não é uma curiosidade estatística nem uma preocupação romântica. Em Portugal, o alerta deixou de ser apenas uma suspeita visual para passar a ser um facto científico incontornável. A publicação do Livro Vermelho dos Invertebrados de Portugal Continental, que contou com forte liderança e coordenação científica nacional, revelou que mais de duas centenas de espécies de invertebrados terrestres e de água doce estão ativamente ameaçadas de extinção no nosso território.

Os insetos constituem uma parte fundamental da biomassa animal terrestre. São a base alimentar de inúmeras espécies de aves, morcegos, anfíbios, répteis, peixes e pequenos mamíferos. Quando os insetos desaparecem, toda a cadeia ecológica começa a vacilar. Uma andorinha não se alimenta de teorias económicas. Um morcego não vive de discursos políticos. Um papa-moscas não sobrevive de boas intenções. Todos dependem de insetos reais, capturados todos os dias, aos milhares. Quando esses insetos escasseiam, a fome instala-se, a reprodução diminui e as extinções locais sucedem-se em absoluto silêncio.

Ao mesmo tempo, tornam-se raros os insetos que desempenham funções vitais. Os polinizadores são o exemplo mais flagrante. Abelhas selvagens, abelhões, moscas-das-flores e borboletas garantem a reprodução de grande parte das plantas silvestres e cultivadas. Para tentar travar este colapso, Portugal aprovou o plano nacional [Polinizadores em Ação]. Desenvolvido em parceria com a comunidade científica da Universidade de Coimbra e o ICNF, este roteiro define mais de uma centena de medidas urgentes para recuperar os habitats destes animais, cientes de que, sem eles, não desaparecem apenas as flores - diminuem drasticamente as colheitas e a nossa própria segurança alimentar.

Mas talvez as histórias mais elucidativas sejam aquelas que envolvem criaturas aparentemente insignificantes. Tomemos as joaninhas.

Durante milhões de anos, as joaninhas foram aliadas silenciosas da agricultura, alimentando-se de afídios e cochonilhas de forma gratuita e altamente eficaz. Depois vieram os pesticidas químicos. Investigadores portugueses ligados ao cE3c (Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais) têm vindo a alertar para esta realidade, tendo inclusive participado em debates científicos de relevo nacional como o documentário O Apocalipse dos Insetos , focado precisamente no esforço urgente para travar esta extinção em massa provocada pelo ser humano. Ao inundarmos os campos com veneno, eliminámos os inimigos naturais das pragas. Sem as joaninhas, as cochonilhas encontraram caminho livre para se multiplicarem, restando ao ser humano a habitual e ingénua surpresa: “Como é possível haver tantas cochonilhas?

A história dos pirilampos é ainda mais poética e, por isso, mais dolorosa. Quem cresceu no campo recorda-se das noites de Verão iluminadas pelos seus lampejos verdes. Hoje, a poluição luminosa e a destruição de habitats afastaram-nos da nossa vista. Mas há um elo invisível e químico: as larvas dos pirilampos alimentam-se de caracóis e escaravelhos. Ao aplicarmos produtos químicos nos jardins e campos, quebramos estas cadeias tróficas.

Projetos nacionais de conservação ativa, como o inovador LIFE BEETLES nos Açores - que conta com a cooperação de investigadores do próprio cE3c -, provam que o caminho tem de ser inverso: focar no restauro dos habitats e na recuperação destas espécies outrora desvalorizadas.

Os ecossistemas não são coleções de espécies independentes. São redes complexas de interdependências construídas ao longo de milhões de anos de evolução. Quando retiramos um fio, outros começam a ceder.

Por tudo isto, o pára-brisas limpo de um automóvel é hoje uma imagem profundamente cinzenta. Não representa uma viagem mais confortável. Representa um silêncio biológico crescente. Um vazio que se instala lentamente nas noites de Verão, nos campos agrícolas e nas bermas das estradas.

Quando os últimos lampejos dos pirilampos se apagarem e as joaninhas sobreviverem apenas nas ilustrações dos livros infantis, talvez compreendamos finalmente que a verdadeira praga nunca foram os insetos. A verdadeira praga foi a nossa incapacidade de perceber que tudo está ligado.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Pixies - Gouge Away: uma das obras-primas mais desconfortáveis, influentes e magnéticas da história do rock

Melhor som aqui

Letra

[refrão]
Gouge away
You can gouge away
Stay all day
If you want to

Missy aggravation
Some sacred questions
You stroke my locks
Some marijuana if you got some

[refrão]

Sleeping on your belly
You break my arms
You spoon my eyes
Been rubbing a bad charm with holy fingers

[refrão]

Chained to the pillars
A three day party
I break the walls
And kill us all with holy fingers

[refrão]

Entre o templo e o abismo: a anatomia de "Gouge Away" dos Pixies
Lançada em 1989 como a faixa de encerramento do lendário álbum Doolittle, "Gouge Away" sintetiza a genialidade dos Pixies em equilibrar o belo e o grotesco, o sagrado e o profano. Através de uma poética cortante, a canção utiliza o mito bíblico de Sansão e Dalila, extraído do Livro dos Juízes, não como uma pregação moralista, mas como uma violenta alegoria sobre a autodestruição, a traição e a codependência. Ao retratar a mutilação física do herói hebreu - cujos olhos foram arrancados pelos filisteus após ter o seu segredo revelado pela amante -, o compositor Black Francis despe a narrativa de qualquer heroísmo épico. Em vez disso, ele foca-se no realismo visceral do abuso físico e psicológico, aproximando-se da estética do surrealismo cinematográfico ao transformar a dor extrema numa metáfora para a cegueira emocional e a apatia diante do próprio fim.

Filosoficamente, a faixa ressoa com um existencialismo niilista e flerta abertamente com a pulsão de morte freudiana. No apelo masoquista do refrão - onde o eu lírico convida o agressor a continuar a tortura por quanto tempo desejar -, revela-se um indivíduo que encontra uma mórbida libertação na entrega absoluta ao seu carrasco. Essa tensão psicológica é perfeitamente traduzida pela arquitetura musical da banda, que pavimentou o caminho para a revolução do rock alternativo dos anos 1990. Estruturada sobre a icónica dinâmica de "sussurro e grito", a canção transita do minimalismo sombrio dos seus versos - guiados apenas por uma linha de baixo hipnótica e vocais contidos - para a explosão catártica e distorcida do seu refrão. O contraste entre os gritos desesperados de Black Francis e os coros doces e melódicos de Kim Deal funciona como um diálogo espectral de sedução e ruína, consolidando "Gouge Away" como uma das obras-primas mais desconfortáveis, influentes e magnéticas da história do rock.

Versão acústica
Versão indie pop/ synth pop /new wave/ minimal synth dos Nation of Language

Ainda Girabolhos: A ironia da data e o impacto ambiental da nova barragem no Mondego


Por Alexandre Silva
Hoje, dia 15 de julho, vai ser anunciado pela Senhora Ministra do Ambiente e da Energia, a abertura do concurso para atribuição da concessão de captação de água, produção, Hidroelétrica e conceção, construção, exploração e conservação do Aproveitamento Hidráulico de Fins Múltiplos Girabolhos/Bogueira no rio Mondego.

A data escolhida para o lançamento do procedimento concursal é no mínimo sinistra, enigmática, hilariante, infeliz, senão provocatória. Vejamos, por mero acaso ou por incúria, por desconhecimento ou insensatez, ou talvez para acicatar aqueles, que se manifestam e levantam muitas reservas à construção deste empreendimento, os promotores decidiram fazer o anúncio oficial, em data coincidente com as comemorações dos 50 anos do Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE) e, aproveitando o ensejo, para se regozijarem pela recente classificação da região como Reserva da Biosfera da UNESCO (RBU). 

Será que o ICNF (salvaguardando que o empreendimento se encontra na periferia exterior do PNSE) e a pomposa RBU concordam com este tipo de infraestruturas? 

Acresce, ainda, que o local de implantação deste empreendimento é território abrangido pelo Estrela Geopark UNSECO e área marginal ao Sítio de Interesse Comunitário: Carregal do Sal, ao abrigo da Directiva habitats – Rede Natura 2000, criada para a conservação do narciso-do-mondego (Narcissus scaberulus), planta endémica do troço médio do rio Mondego. 

Será que a UNESCO compactuaria com a implementação deste empreendimento?

E quanto ao Plano Nacional de Restauro da Natureza a que estamos obrigados no âmbito da União Europeia? Não estamos a ir precisamente no sentido oposto? E os compromissos da mesma Rede Natura?

Será que foram avaliados os verdadeiros impactes sobre os sobreirais de ambas as vertentes do rio Mondego, na área de implementação do empreendimento? 

As barragens têm impactos ambientais muito significativos e as atuais orientações da Directiva-Quadro da Água, não privilegiam estas infraestruturas e consideram-nas como “pressões hidromorfológicas”. 

Presentemente, a União Europeia condiciona ou não financia de todo barragens.  Serão os vencedores do concurso os financiadores do projeto? A que custos para o erário publico e para os contribuintes? Rendas milionárias, quase perpétuas? Impostos encapotados? 

Uma barragem com fins hidroelétricos deve estar próxima da sua capacidade máxima, já para regularizar picos de caudal deve estar o mais vazia possível. Não parece um contrassenso?  

A Avaliação de Impacto Ambiental (AIA) de 2009/2010 está, no mínimo, desatualizada e enferma de omissões.  

A sub-bacia regularizada pela Barragem de Girabolhos representará apenas 15% da Bacia do Mondego. O rio Ceira contribuiu com mais de 1000 m3/s nas cheias de 2019 e 2026. Não será fácil controlar as cheias em Coimbra e no Baixo Mondego aquando de eventos extremos. Girabolhos-Bogueira é um mero paliativo, caríssimo, de duvidosa eficiência e catastrófico a nível ambiental.

Porquê a pressa? Tendo sido alterados, os pressupostos iniciais a que o empreendimento se destinava, não seria lógico e mais consensual lançar uma nova AIA e depois decidir?

A APA consegue saber qual o impacte sobre a população de narciso-do-mondego, sobre os sobreirais e sobre os serviços dos ecossistemas associados a este troço do rio Mondego? 


A montante de Girabolhos-Bogueira:
O que se fez após os incêndios de 2017, 2022 e 2025 para minimizar a erosão? 
Porque não reabilitar a Barragem de Fagilde aumentando a sua capacidade de reserva?
E a jusante de Girabolhos-Bogueira:
Como tem sido a manutenção, ou falta dela, no Aproveitamento Hidráulico do Baixo Mondego? Diques em rutura, vegetação exótica e invasora a desestabilizar e fragilizar a estabilidade e a segurança dos diques.

E a contínua construção em leito de cheia no setor inferior do Mondego? Quem a autoriza, mesmo após as cheias de 2026, apesar dos constantes e recorrentes alertas? 

Porque se projetou e edificou em 1991, um troço da A1 em pleno dique direito do Canal Principal do Mondego construído, 10 anos antes, em 1981?

E a falta do desassoreamento do troço do Mondego entre Santa Clara-Açude? De quem é a competência? Da APA? Do Governo? do Aproveitamento Hidráulico do Baixo Mondego?



O que se antevê caso Girabolhos-Bogueira realmente se construa:
Abre-se  um sério precedente para a construção da Barragem de Nossa Senhora da Assedasse, entretanto adormecida numa qualquer gaveta poeirenta, mas que encontrará respaldo de Girabolhos-Bogueira! 

Estamos também dispostos a abdicar dos Casais de Folgosinho e do Covão da Ponte (Gouveia-Manteigas)? 

E porque não exumar das catacumbas o projeto da barragem da Candieira, em pleno Vale Glaciário do Zêzere (Aproveitamento Hidráulico do Alto-Zêzere)?

Será, também, uma excelente oportunidade para instalar parques eólicos e, talvez fotovoltaicos, como estruturas complementares a Girabolhos-Bogueira, que serão financiados, sob a forma de rendas ruinosas, a longo prazo, para pagar o investimento da construção. Não seremos nós a pagar, mas será a herança que será legada às gerações futuras e a uma população, ainda mais reduzida do que aquela que, hoje, por cá sobrevive.

Por fim, de que valem os chapéus como Reservas da Biosfera e Geoparques UNSECO, Sítios Rede Natura 2000, como o de Carregal do Sal criado para proteger uma planta endémica do Portugal e cuja área de inundação da barragem será um forte revés à sua conservação?

Será que o narciso-do-mondego sabe mesmo nadar?

Sobreturismo nas montanhas: o impacto ambiental que ninguém quer ver


A pressão humana sobre as montanhas está a atingir um ponto de rutura irreversível. Um mega-estudo que analisou quase 50 anos de investigação científica global sobre o turismo de montanha  ("Environmental and Economic Impacts of Mountain Tourism: A Critical Review") revela que, a partir de 2019, o alerta disparou: a urgência climática e o fenómeno do overtourism (sobreturismo) estão a sufocar os ecossistemas de altitude.

Para percebermos a gravidade real deste cenário, a ciência aponta para quatro grandes problemas silenciosos que estão a acontecer agora mesmo

1. Microplásticos no topo do mundo: o estudo do Everest
No que toca à poluição por plásticos, o estudo mais emblemático e surpreendente é o "Mount Everest's microplastics", publicado em 2020 na prestigiada revista One Earth pela investigadora Imogen Napper e a sua equipa. Os cientistas analisaram amostras de neve e de água de ribeiros recolhidas em vários pontos da montanha, incluindo no "Balcony" a 8.440 metros de altitude - praticamente no topo do monte Everest.
Os resultados foram alarmantes: encontraram microplásticos em absolutamente todas as amostras de neve analisadas. A análise laboratorial revelou que a esmagadora maioria destas partículas eram fibras de poliéster, acrílico, nylon e polipropileno. A conclusão dos investigadores é direta: a fonte desta poluição não é o lixo trazido pelo vento de cidades distantes, mas sim o próprio vestuário técnico de alta performance, as cordas e as tendas utilizadas pelos montanhistas de elite durante a sua subida.

2. O colapso da gestão de resíduos no Himalaia
Para compreender o impacto sistémico do lixo físico e da falta de infraestruturas em áreas remotas, o artigo de referência é o "Contemporary environmental issues in Sagarmatha (Everest) National Park", publicado pelo geógrafo Alton C. Byers na revista Mountain Research and Development.
Este estudo clássico mapeou no terreno como o crescimento descontrolado do turismo de aventura nas últimas décadas colapsou por completo a capacidade de carga da região. Byers documentou a proliferação de lixeiras informais a céu aberto ao longo dos trilhos de aproximação, onde toneladas de plástico, metal e dejetos humanos são depositados sem qualquer tratamento, contaminando diretamente os lençóis freáticos e os ribeiros que abastecem as populações locais que vivem no sopé das montanhas.

3. O impacto silencioso sobre a fauna selvagem
No que diz respeito à perturbação da vida selvagem, destaca-se uma enorme meta-análise publicada na revista PLOS ONE por Courtney L. Larson e os seus colaboradores, intitulada "Effects of recreation on animals in protected areas". Os investigadores analisaram sistematicamente 274 estudos científicos independentes para perceber como as atividades de lazer afetam os animais.
A grande conclusão é que mesmo atividades consideradas de "baixo impacto", como uma simples caminhada (hiking) ou corrida em trilhos de montanha, desencadeiam respostas fisiológicas de stress muito fortes na fauna local. A presença humana constante força os animais a abandonar áreas ricas em alimento, altera os seus padrões de sono e de caça e reduz significativamente as suas taxas de sucesso reprodutivo, empurrando espécies já ameaçadas para altitudes ainda mais extremas e inóspitas.

4. A destruição invisível do solo e da flora alpina
Por fim, para entender a degradação física dos trilhos, os investigadores Jeff Marion e Yu-Fai Leung publicaram o artigo "Trail environments and visitor impacts" no Journal of Environmental Management. Os autores explicam a mecânica por trás do pisoteio turístico.
As plantas que crescem em ambientes alpinos enfrentam condições meteorológicas extremas e, por isso, têm um crescimento incrivelmente lento - algumas demoram décadas a crescer escassos centímetros. O estudo demonstra que bastam algumas dezenas de passagens de caminhantes fora dos trilhos oficiais para compactar o solo de forma irreversível. Esta compactação impede que as sementes germinem, bloqueia a infiltração da água da chuva e destrói a microflora do solo. Sem vegetação para segurar a terra, a chuva e o vento iniciam um processo rápido de erosão que rasga a montanha e pode provocar derrocadas de terra severas.

Conclusão
Anda-se a querer matar aquilo que pode ser realmente a galinha dos ovos de ouro do futuro, apenas porque pensam unicamente no imediato, do que acham que agrada o povo, sobretudo o povo eleitor, que acreditando que este tipo de turismo vai dar dinheiro aos montes e toda a vida, apoiam iniciativas e ideias que lhes são vendidas como garantia de futuro.
Também é possível trazer mais valias para o território sem estragar e comprometer o futuro, tem é que se fazer como deve ser feito, com sustentabilidade, com visão e não da maneira mais fácil porque, assim, acabarão por matar a galinha. Muitos países já estão a pagar muito caro e nós continuamos a não aprender com os erros dos outros.
Na Tailândia fecharam das praias mais conhecidas, na Islândia reduziram o número de turistas e proibiram o acesso a uma série de locais, em alguns países, como aqui ao lado em Espanha, em algumas zonas naturais e protegidas, as visitas são condicionadas apenas em determinados dias da semana e quando entrara o número de pessoas autorizado fecham o acesso nesse dia
Na Costa Rica visitas em áreas protegidas só com guias autorizados e com limite diário, nos Estados Unidos, Nova Zelândia e Austrália, nos principais Parques Naturais é necessária reserva antecipada para visitas e têm que ser acompanhadas por guias. E há muitos mais exemplos, mas muitos mais.
E em todas estas áreas protegidas vive gente. Gente que precisa dos turistas e vivem do turismo, o que demonstra que não é preciso estragar e destruir para se ganhar com o turismo de natureza.
Por cá, neste país, quer-se viver um ano inteiro do que se trabalha em 4 ou 5 meses. No turismo de natureza sustentável tem que se trabalhar todo ano.
Mas esses estrangeiros devem ser burros, não percebem nada disto. Nós é que somos as sumidades, nós é que somos o exemplo.
Aqui cada vez se abre mais, cada vez se quer mais confusão, mais lixo, cada vez se levantam mais restrições. Vende-se ao povo a ideia que viver numa área protegida é uma desgraça que só é minimizada se massificarmos. Mesmo sabendo que estão a mentir ao povo. O imediato, o agora, é que conta para quem convence o povo desta forma.

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Barragem de Girabolhos: entre o negócio concessionado e a ausência de uma visão estratégica


O anúncio da construção da Barragem de Girabolhos, no sistema do Baixo Mondego, surge mais uma vez envolto na retórica da ação governativa. No entanto, por trás da propaganda da "obra", esconde-se uma fragilidade desconcertante: a ausência de uma estratégia integrada para o território e um modelo de financiamento que coloca o interesse público em segundo plano.

Estamos perante a clássica política da obra como substituto da visão de futuro. Para compreender o real impacto desta decisão, é preciso analisar o projeto sob três prismas fundamentais: a viabilidade financeira, a inversão do processo de avaliação e a falta de propósito regional.

1. O dilema financeiro e o conflito de interesses na exploração
A realidade financeira do projeto é simples: a União Europeia não financia a sua construção e o Governo não tem orçamento para ela. Resta, por isso, a via da Parceria Público-Privada (PPP), entregando a construção e exploração a uma empresa privada que procurará, legítima e prioritariamente, o lucro através da produção hidroelétrica.

Esta opção privatizada gera um conflito de interesses técnico que anula um dos principais argumentos públicos a favor da barragem: a segurança das populações a jusante (rio abaixo).

Objetivo público (minimização de cheias)Objetivo privado (produção de energia)
Exige que a albufeira esteja com a cota de água muito baixa durante o inverno para ter capacidade de reter as pontas de cheia.Exige que a albufeira esteja o mais cheia possível para maximizar a pressão da água e gerar mais eletricidade (e receita).
O impasse: Como pode uma empresa privada, cujo modelo de negócio depende de ter a barragem cheia, garantir de forma eficaz a segurança das populações que exige que a barragem esteja vazia no inverno? O fim prioritário da segurança pública acaba inevitavelmente subjugado ao lucro da concessionária.

2. Um processo invertido: o estudo pago por quem quer construir
O modelo de concurso atual prevê que o futuro concessionário tenha até 18 meses para entregar o Estudo Prévio e o Estudo de Impacte Ambiental (EIA), e mais 12 meses para o projeto de execução após a Declaração de Impacte Ambiental (DIA).

Este procedimento inverte a lógica do planeamento rigoroso e da defesa do interesse público:
  1. Falta de independência científica: um Estudo de Impacte Ambiental pago pelo próprio concessionário à empresa que o elabora fica inevitavelmente condicionado pelos interesses económicos de quem passa o cheque.
  2. Decisão sem dados: o Governo deveria ter solicitado e pago um EIA independente, adequado ao contexto atual de alterações climáticas, ou um estudo de suporte à decisão política elaborado por especialistas multidisciplinares antes de decidir abrir o concurso público.
  3. Decidir avançar para o concurso sem estes estudos é avançar às cegas, protegendo o promotor privado em detrimento da qualidade ambiental e da segurança regional.
3. Obra sem visão: para quê esta barragem?
A nível estratégico, a pergunta essencial continua sem resposta: qual é o verdadeiro propósito desta infraestrutura?
Será para abastecer um território marcado pelo despovoamento, quando o verdadeiro desafio é criar condições socioeconómicas para fixar pessoas e investimento?
Será para expandir um modelo de agricultura de regadio intensivo numa região cuja vocação natural não se adequa a esse caminho?
Será para regular caudais, sem que se tenha demonstrado, com rigor e transparência, que esta é a solução mais custo-benefício e ecologicamente sustentável?

Portugal continua preso ao velho dogma de que "construir é resolver". Mas uma barreira de betão no rio não substitui uma política de ordenamento do território, não resolve a gestão integrada da água e não é, por si só, uma estratégia de adaptação às alterações climáticas.

Conclusão: o interior precisa de futuro, não apenas de betão
O interior do país e a região do Mondego precisam de conhecimento, inovação, emprego qualificado e valorização dos seus recursos naturais. Precisam de soluções que ataquem as causas do despovoamento, e não apenas os seus sintomas através de megaprojetos de engenharia.

A questão central não é uma postura cega contra ou a favor de barragens. É exigir que as grandes decisões públicas sejam fundamentadas, transparentes e sustentadas em evidência científica independente. Defender as populações e o ambiente do Mondego exige que paremos de medir a ambição nacional pelo volume de betão e passemos a medi-la, de uma vez por todas, pela qualidade e clareza da nossa visão.

Nota: o texto é um cruzamento das críticas de Helena Freitas e de Pedro Proença Cunha

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Zeroy Cruciatum - Watch the World Burn

Letra
[Verse 1]
The clock is ticking, the time is running out
Another shadow in the corner of my eye, no doubt
The air is heavy, the sky is turning grey
I feel the fire coming, washed away

[Chorus]
And I will stand right here and watch the world burn
To the ground, to the ground, to the ground
And I will stand right here and watch the world burn
To the ground, to the ground, to the ground

[Verse 2]
The ashes falling, like snow upon my skin
A silent witness to the chaos deep within
The walls are crumbling, the empires turn to dust
In this destruction, there’s a peace we have to trust

[Chorus]

[Bridge]
Let it burn...
Let the flames take it all away
Let the fire pave a brand new way
Through the ashes, we will rise again
But first, we let it end...

[Chorus]

O apocalipse íntimo de Zeroy Cruciatum: arte, luto e Industrial-Wave
A música como refúgio e catarse ganha contornos de pura dramaticidade no projeto Zeroy Cruciatum, idealizado pelo músico e produtor holandês Joris Terlingen. Atualmente radicado em Essen, na Alemanha - região historicamente marcada pela imponência cinzenta e pelas ruínas industriais do Vale do Ruhr -, o artista canaliza as suas vivências numa sonoridade densa que ele próprio define como Industrial-Wave. Este estilo funde de forma primorosa o peso rítmico e as texturas sintéticas da Electronic Body Music (EBM) com a sensibilidade melancólica do Darkwave, a entrega visceral do Post-Punk e o misticismo do Rock Gótico.

Foi sob esta atmosfera carregada que nasceu " Watch the World Burn"  uma obra profundamente pessoal concebida como uma válvula de escape para processar a dor e o luto devastador após a perda trágica do seu melhor amigo de infância, Zeroy, cujo nome Joris decidiu homenagear e imortalizar ao adotá-lo como parte do seu próprio pseudónimo artístico.

Longe de ser apenas um clamor de destruição gratuita, a canção carrega um significado existencial profundo: a metáfora de "assistir ao mundo queimar" ilustra a total impotência do indivíduo diante do colapso da sua própria realidade, ao mesmo tempo que enxerga no fogo um elemento de purificação e renascimento necessário para reconstruir a própria identidade a partir das cinzas.

Esta narrativa é poeticamente enriquecida por correntes intelectuais marcantes. Na filosofia, há um diálogo claro com o existencialismo e com o niilismo ativo de Friedrich Nietzsche, onde o vazio da perda é transformado em força criativa. Na literatura e na estética visual, a obra bebe do Romantismo Sombrio e do Expressionismo Alemão, projetando a dor interna em cenários desolados e apocalípticos.

Para dar vida a este universo visual no videoclipe oficial, o realizador PILATUS comandou uma produção minuciosa. Esta uniu as filmagens de estúdio capturadas por Adrian on the Brink  às imagens adicionais de Ira BelskyFinn Moeller e da produtora Anthem Films. O resultado é um manifesto audiovisual onde o luto deixa de ser apenas silêncio e se transforma em poesia industrial impetuosa.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

mary in the junkyard - Crash Landing

Melhor som aqui
Letra
[Verse 1]
Crash landing
You came in like you were done pretending
Comet face
With all of these holes I couldn't help but fall into

[Chorus]
You opened up like a coconut
You opened up like a coconut

[Verse 2]
Crash landing
You came in like you were done, done, done, done, done
Comet face
With all of these holes I can't help but fall down, down, down, down, down, down

[Chorus]
You opened up
You opened up like a coconut
You opened up
You openеd up like a coconut

[Bridge]
And I can take your mask off
But only in the dark
And you won't takе your shoes off
In case you have to run, run, run
Yeah, I can take your mask off
But only in the dark
And you won't take your shoes off
In case you have to run, run

[Verse 3]
Today, today, today, today
Or any other day
Tomorrow, tomorrow, tomorrow, tomorrow
In case, in case, in case, in case, in case
Nothing's gonna happen

[Verse 4]
And I want to go outside
But I'm scared you'll melt away if we leave this place
If it was any other day
If it was any other day
I'd get the fuck away

[Outro]
Crash landing
You came in like it was all my fault
Crash landing
I never want to see you again

A Anatomia Poética e Visual de um Fim de Relação
A canção "Crash Landing", o aclamado single de avanço do álbum de estreia  Role Model Hermit da banda mary in the junkyard, é uma obra densa e de forte carga dramática, que se destaca tanto pela sua sofisticação musical como pela riqueza das suas referências estéticas.

Nascido em Londres, este trio de nacionalidade britânica - composto por Clari Freeman-Taylor, Saya Barbaglia e David Addison - consolidou-se como uma das maiores promessas da cena artística do sul de Inglaterra. O seu estilo musical desafia categorizações fáceis, posicionando-se num território de partilha entre o art-rock, o indie rock experimental e o post-punk melancólico. A canção arranca com o som hipnótico e flutuante de um harmónio (um instrumento de fole antigo) que dita uma atmosfera quase litúrgica, para depois explodir numa vaga de guitarras distorcidas com traços de shoegaze e arranjos dramáticos de viola d'arco, acompanhando a interpretação vocal de Clari, que oscila entre a palavra sussurrada e o grito catártico.

O significado da canção debruça-se sobre a autópsia emocional de uma relação amorosa desgastante e assimétrica, marcada pela dificuldade em aceder à intimidade do outro. Através de metáforas cortantes, como a imagem de alguém que se teve de abrir "como um coco" para revelar alguma vulnerabilidade, ou a descrição de um parceiro que não descalça os sapatos por estar sempre pronto a fugir, a letra expõe o peso asfixiante de carregar os segredos e as limitações emocionais de outrem. Esse "pouso forçado" (tradução literal de crash landing) deságua num desejo definitivo de libertação e rutura.

Esta queda metafórica ganha corpo no significado do videoclipe, filmado em película analógica de 16mm no cenário imponente e desolador das Falésias Brancas de Dover. Vestida com um casaco estruturado que evoca asas pesadas e óculos de aviadora, a vocalista encarna uma pilota sobrevivente a um desastre. O teledisco joga constantemente com o contraste entre o confinamento dos músicos, encolhidos contra as enormes paredes de giz, e a imensidão do céu cinzento marcado por uma deslumbrante "murmuração" (a revoada acrobática e caótica de milhares de estorninhos), simbolizando visualmente o estado de desorientação e perda de controlo que acompanha o fim de uma ligação amorosa.

Por fim, a identidade da banda é profundamente moldada por influências romancistas, filosóficas e de poetas. Longe do registo quotidiano e literal de grande parte do indie rock moderno, mary in the junkyard procura abrigo no romantismo literário do século XIX, onde a natureza indomável serve de espelho às angústias da alma, e no realismo mágico, transformando vivências pessoais em fábulas modernas. No campo poético, a métrica fragmentada de Clari bebe da poesia rítmica e da spoken word, utilizando as palavras tanto pelo seu significado como pela sua textura percussiva e dadaísta. Do ponto de vista filosófico e da performance artística, o trio partilha uma forte afinidade com a lendária artista performática Marina Abramović. Esta influência traduz-se numa filosofia de palco assente na "presença absoluta" e na corporalidade, em que os três músicos funcionam quase como um quarteto de cordas clássico, reagindo fisicamente à respiração e ao movimento uns dos outros, transformando a dor de "Crash Landing" num ato existencial e de catarse coletiva.

Acabei de submeter o meu parecer de discordância relativamente ao Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis (PSZAER)

Ler o texto aqui


Anexei o relatório do próprio Governo (Agenda Nacional de IA) e o mais recente relatório “Global Data Centers Outlook 2026”, elaborado pela JLL.

𝐀𝐜𝐞𝐥𝐞𝐫𝐚𝐫 𝐚𝐬 𝐙𝐀𝐄𝐑 𝐚 𝐭𝐨𝐝𝐨 𝐨 𝐜𝐮𝐬𝐭𝐨? 𝐍𝐚̃𝐨 𝐚 𝐞𝐬𝐭𝐞 𝐩𝐫𝐞𝐜̧𝐨
Como o litoral e as grandes áreas metropolitanas (como Lisboa e Porto) estão com a rede elétrica severamente saturada, direcionar as ZAER para o interior ajuda a equilibrar a Rede Elétrica Nacional (REN). Ao produzir energia nestas zonas e ao acoplá-las a novos sistemas de armazenamento de grande escala (baterias), torna-se viável abastecer os grandes centros de consumo e de dados através de linhas de transporte de alta tensão que atravessam o país, sem sobrecarregar ainda mais os nós elétricos do litoral.

Isto é a narrativa por detrás das ZAER.

O grande paradoxo de toda esta história é simples: a eletricidade produzida nestes novos moldes não vai para as pessoas que vivem na região. Vai, quase toda, alimentar os servidores gigantes de multinacionais como a Amazon, a Google ou a Microsoft.

O negócio funciona através de acordos privados a longo prazo, conhecidos na gíria como PPAs (Power Purchase Agreements). Na prática, uma elétrica constrói o parque solar no Alentejo ou no interior e vende essa energia diretamente à tecnológica por um preço fechado e muito baixo durante 10 ou 15 anos. Com isto, a multinacional garante energia barata e o "selo verde" para os seus relatórios financeiros de sustentabilidade, o promotor assegura o retorno do investimento e as populações locais ficam apenas com a paisagem desfigurada e menos terra para trabalhar.

Há ainda outro pormenor que quase ninguém explica e que pesa no bolso de todos. Para que essa eletricidade viaje do interior até aos grandes centros de dados ou ao litoral, é preciso construir novas linhas de alta tensão e subestações. Quem paga esta fatura milionária de expansão da rede? Nós. O custo das infraestruturas é diluído nas tarifas de acesso à rede que aparecem na fatura da luz de qualquer família portuguesa ao fim do mês. Acabamos, no fundo, a subsidiar indiretamente a rede que serve estas tecnológicas.

A Agência Europeia do Ambiente (AEA) classifica Portugal, a par de outros países do sul do continente como Espanha, Itália e Grécia, como uma das regiões europeias mais vulneráveis e pressionadas pelo stress hídrico. A agência considera a escassez de água no território nacional um problema altamente premente que exige políticas urgentes de resiliência. Atualmente, o país encontra-se bem acima do limiar de alerta de stress hídrico da União Europeia, sendo frequentemente apontado como o sexto país com maior pressão sobre os recursos hídricos durante o período do verão. Esta classificação sazonal deve-se ao facto de o período estival combinar uma seca meteorológica acentuada com uma redução severa dos caudais dos rios e um aumento drástico das captações para a agricultura irrigada, o turismo e o consumo doméstico.

Para medir esta pressão de forma técnica, a AEA utiliza o indicador de exploração de água conhecido como WEI+, que calcula a percentagem de água doce consumida face aos recursos renováveis disponíveis em cada região. Os padrões europeus estipulam que valores acima de 20% indicam stress hídrico, ao passo que valores acima de 40% sinalizam um stress severo e um uso insustentável da água. Embora a média anual portuguesa possa parecer moderada à escala global, as análises regionais e sazonais da agência revelam que as bacias hidrográficas do sul, nomeadamente as do Sado, do Mira e do Algarve, ultrapassam com frequência e de forma alarmante o limiar crítico de 40% durante a primavera e o verão.

Claro que Portugal precisa de apostar nas renováveis e fechar as centrais poluentes. Ninguém discute isso. Mas o modelo atual tem um forte cunho extrativista: o interior arca com os custos ambientais, perde o montado ou o olival e vê a sua paisagem descaracterizada, enquanto a riqueza, a eletricidade barata e os empregos qualificados vão para as sedes das empresas e para os polos tecnológicos do litoral.

A solução não passa por travar a transição, mas por mudar as regras do jogo. O licenciamento destes grandes projetos devia obrigar à criação de comunidades de energia locais, que distribuíssem parte da eletricidade de graça ou a preço de custo a quem vive e trabalha nessas regiões. Sem regras que protejam quem lá está, as novas zonas de aceleração do interior correm o risco de ser apenas o quintal de energia barata das grandes tecnológicas.

Esta vulnerabilidade é substancialmente agravada pela elevada dependência transfronteiriça de Portugal, uma vez que o país depende fortemente dos caudais de rios internacionais como o Tejo, o Douro e o Guadiana, que nascem em território espanhol. Esta circunstância deixa a segurança hídrica nacional exposta às decisões de gestão do país vizinho, especialmente em anos de seca ibérica severa. Além disso, a AEA aponta no seu diagnóstico que o problema em Portugal é potenciado pela ineficiência no consumo, estimando que até metade da água captada para a agricultura seja perdida por sistemas de rega desatualizados, enquanto as perdas nos setores industrial e urbano também continuam elevadas. Face ao cenário de alterações climáticas, as projeções da agência apontam para reduções que podem atingir 40% nos caudais dos rios durante o verão, reforçando o aviso de que o país não pode sustentar novos projetos de consumo intensivo e inflexível de água sem uma transição urgente para a reutilização de águas residuais tratadas.