segunda-feira, 13 de julho de 2026

RY X - Salt

Melhor som aqui

Letra

Under the lighting
Heavier breath
High by a mouth made
Knees to your chest

[refrão]
We let love be like water to wine
We let love be the higher design
We let love be a call in the night
We let love be the fire divine

Under the shadow
Heavy remains
Chemical ashes fall
Lips to my veins

[refrão]

But here we are turning our heads down
Here we are falling like lovers
We're falling like lovers and I turn my head
'Cause I know what shame you've done

[refrão] 2X

I know I started it all
I know I started to run
I won't let go of it all
I won't let go of the gun

Oh God, below
What have we done?

Abaixo, analiso os diferentes aspetos desta obra, desde as suas origens até às suas camadas mais profundas de significado.

RY X, nome artístico do cantor, compositor e produtor Ry Cuming, é um artista australiano cuja identidade musical foi profundamente moldada pelas suas origens em Angourie, uma isolada comunidade costeira em New South Wales. Essa ligação visceral com a natureza reflete-se num estilo musical único, frequentemente classificado como Indie Pop, Ambient Folk e Alt-Pop. A sua assinatura sonora assenta numa abordagem minimalista e despojada, onde guitarras acústicas dedilhadas e sintetizadores subtis servem de moldura para a sua voz de falsete etérea, criando uma atmosfera de intensa intimidade, melancolia e vulnerabilidade. A faixa "Salt", lançada no aclamado álbum Dawn, é um dos exemplos mais puros desta estética.

A canção funciona como uma meditação profunda sobre a dor, a impermanência e o processo de cura. O título "Salt" carrega uma dupla metáfora poética: evoca tanto o sal das lágrimas provocadas pelo sofrimento e pelo distanciamento emocional, quanto o sal do oceano, que atua como um elemento de purificação e renovação espiritual. Na sua essência, a letra explora a coragem de se manter vulnerável e a necessidade de sentir a dor por inteiro para que se possa, eventualmente, transcendê-la.

Essa mesma narrativa estende-se ao videoclipe da faixa, co-dirigido pelo próprio artista. Visualmente, o vídeo utiliza uma paleta de cores frias e um jogo expressivo de luz e sombra para construir uma atmosfera cinematográfica e crua. Através da dança contemporânea e expressionista, os corpos dos intérpretes contorcem-se, aproximam-se e repelem-se, traduzindo visualmente o conflito interno, o desejo de conexão e a angústia da separação. A presença constante de elementos naturais e a nudez parcial reforçam o desapego das máscaras sociais, expondo o ser humano no seu estado mais primitivo e honesto.

Do ponto de vista intelectual, a obra de RY X bebe de ricas fontes filosóficas, literárias e poéticas que valorizam o silêncio e a introspeção. Há uma clara ressonância com o pensamento oriental, particularmente com o Zen Budismo e o conceito do Wabi-Sabi, que prega a aceitação da imperfeição e da transitoriedade da vida. Em vez de evitar o sofrimento, o compositor abraça-o como parte fundamental da existência. Na literatura e na poesia, "Salt" aproxima-se do Romantismo Sombrio e do olhar transcendental de autores como Rainer Maria Rilke e Walt Whitman, que utilizavam as forças da natureza como um espelho para a alma. O mar e os elementos naturais surgem na canção como representações do inconsciente e das emoções avassaladoras, transformando o peso do sofrimento num ritual estético de desapego que converte a dor numa beleza quase sagrada.

Entrevista. Clara E. Mattei: “A austeridade é muito eficaz a produzir individualismo, alienação, ódio aos mais pobres, vergonha de ser pobre”


No imaginário comum, o economista é uma figura formal, absorvida por cálculos, gráficos e fórmulas, entregue a um labor inevitavelmente chato. Contudo, uma nova geração de profissionais tem desafiado este estereótipo: são um sucesso nas redes sociais, participam em debates que mobilizam grandes audiências, publicam em várias línguas. Thomas Piketty, Mariana Mazzucato, Gabriel Zucman [recorda a entrevista] ou Kate Raworth são alguns exemplos desta constelação. Mas Clara E. Mattei talvez seja a estrela que melhor desmonta o cliché do economista enfadonho. Além da sua simpatia, é divertida. Parece movida a pilhas, tal é a energia e a vitalidade que irradia.

Esta entrevista devia ter acontecido horas antes da conferência organizada pelo FREE, Forum for Real Economic Emancipation [Fórum para a Emancipação Económica Real, em tradução livre] - organização que Clara fundou e à qual preside -, numa escola secundária em Bishop’s Stortford, no leste de Inglaterra, a 50 minutos de comboio do centro de Londres. Ia debater-se o impacto das guerras no custo de vida e as alternativas económicas e políticas à austeridade. Mas, à última hora, os planos mudaram. Mattei tinha uma reunião na London School of Economics and Political Science (universidade londrina especializada em ciências sociais), e só seria possível conversar durante a viagem entre a capital britânica e o local do evento.

Uma entrevista on the road, dentro de um táxi, no para-arranca do trânsito. Entre perguntas e respostas, apartes para a comitiva que seguia connosco, a economista ainda recebia ou fazia chamadas com a equipa de voluntários que a estava a ajudar: “Salvatore, temos de comprar comida para o lanche. Qualquer coisa: uns snacks, fruta, legumes crus, húmus, queijos… Sim, vão ao supermercado mais próximo. Deixem lá panfletos!”

Chegámos à escola quinze minutos antes do início do debate. Clara saiu do carro à pressa e desapareceu por momentos. Tinha ido acertar os últimos detalhes com a organização, mas pouco depois já estava de volta: “Ainda temos dez minutos para recrutar pessoas. Venham!” E lá foi ela, de passo apressado, distribuir mais uns folhetos promocionais a quem passava. Para usar um termo do país onde vive e dá aulas, é uma mulher cheia de stamina.

Clara Elisabetta Mattei é professora de Economia na Universidade de Tulsa, no Oklahoma, Estados Unidos da América, e tem licenciatura e mestrado em Filosofia, antes de se doutorar em Economia. O seu livro mais conhecido, A Ordem do Capital - Como os economistas inventaram a austeridade e abriram o caminho ao fascismo (ed. Temas e Debates, 2024), nasceu de uma investigação nos arquivos do Banco de Itália e do Banco de Inglaterra sobre o período que se seguiu à Primeira Guerra Mundial. Entre centenas de cartas, memorandos e textos técnicos, encontrou documentos, muitos deles traduzidos pela primeira vez e nunca antes divulgados, que sustentam a sua tese de que as políticas de austeridade do pós-guerra prepararam o terreno para a ascensão dos fascismos que conduziriam à Segunda Guerra Mundial.

Em janeiro, publicou Escape from Capitalism - Economics is Political, and Other Liberating Truths [ainda sem tradução em português], livro em que questiona a ideia de que a economia é uma ciência neutra e apolítica. Parte de conceitos como a austeridade, o desemprego ou a inflação para mostrar como são habitualmente mobilizados para preservar o status quo e apresentar o capitalismo como inevitável. É um manifesto contra a resignação: recusa tratar a pobreza e a desigualdade como acidentes, ou a ordem económica atual como algo natural ou eterno.

Clara acredita que essa ordem pode ser mudada. Uma convicção que lhe corre no sangue, como mostra a história dos seus tios-avós, Gianfranco e Teresa Mattei, duas figuras da resistência antifascista italiana a quem dedica os seus escritos. Gianfranco, químico e militante clandestino, suicidou-se em 1944, depois de ser preso e torturado, para não denunciar os companheiros. Teresa, conhecida como “Chicci”, foi eleita para a Assembleia Constituinte italiana, em 1946, e contribuiu para inscrever no artigo 3.º da Constituição uma ideia fundamental: não há igualdade efetiva enquanto obstáculos económicos e sociais continuarem a limitar a liberdade das pessoas.

Clara Mattei estará em Lisboa, a 15 de julho, na Lisbon Praxis Summer School 2026, organizada pelo Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, sob o tema “Teorias Críticas do Fascismo”.

Despejo dos hortelões no Porto - "Misericórdia" só de nome


O caso do despejo dos utentes da Horta Comunitária do Porto deixa-me triste e indignado. Contrariamente ao último relatório da SCMP (2025), que é totalmente positivo - destacando inclusive a atribuição de 62 novos talhões, em 2025, no âmbito do projeto Horta à Porta -, a realidade atual demonstra o oposto.

Uma instituição cujo foco histórico é a "Misericórdia" e o apoio social não pode extinguir um projeto com tanto impacto positivo na comunidade e na sustentabilidade urbana. Com esta decisão, a SCMP comporta-se como uma empresa privada de saúde mental, descurando o facto de que o contacto com o meio ambiente é parte fundamental da terapia e da recuperação dos utentes. Inúmeros estudos clínicos comprovam que tratar a saúde mental ignorando o meio ambiente e a natureza é uma abordagem clinicamente ineficaz. 

Isto traduz-se em pura lavagem verde (greenwashing), fazendo desaparecer, em pouco mais de três meses, uma das maiores hortas urbanas da Europa.

A polémica em torno do fim das hortas públicas da LIPOR no Porto (o programa "Horta à Porta") e o consequente despejo dos hortelãos é o reflexo perfeito de um trade-off político e social - aquele cenário clássico em que, para se ganhar de um lado, tem de se sacrificar o outro, sem que exista uma solução que agrade a todos. No centro da discussão, a postura do executivo liderado por Pedro Duarte ilustra bem esta balança de prioridades.

De um lado da balança, a autarquia e os proprietários dos terrenos, como a Santa Casa da Misericórdia do Porto (dona do espaço junto ao Hospital Conde Ferreira), justificam a desocupação com a necessidade de avançar com planos de reestruturação interna. No caso da Misericórdia, o argumento oficial não é a venda dos terrenos para a especulação imobiliária, mas sim a modernização e requalificação do complexo hospitalar, além da reorientação da horta para fins puramente terapêuticos e sociais da própria instituição. Sob o ponto de vista da gestão de ativos, trata-se de rentabilizar e ordenar o património para garantir a sustentabilidade das suas próprias obras de assistência.

Do outro lado da balança, o custo deste ganho institucional é inteiramente social e ambiental. O encerramento do projeto destrói uma das maiores redes de hortas comunitárias da Europa, retira o sustento e o passatempo de mais de duas centenas de famílias e elimina focos essenciais de biodiversidade e coesão social no meio do asfalto da cidade. É precisamente aqui que o trade-off se torna mais evidente para Pedro Duarte: ao focar-se na gestão rigorosa de ativos, na reavaliação de cedências antigas e na aplicação estrita da lei sobre a ocupação dos terrenos, o executivo municipal prioriza a eficiência e o ordenamento do património público. Contudo, assume o pesado custo reputacional e político de ser criticado pela oposição por falta de sensibilidade social e pela ausência de alternativas viáveis de realojamento para os produtores locais. 

Mesmo que o objetivo declarado não seja o lucro imediato através de imobiliário, a decisão mexe com feridas abertas na cidade. O receio da oposição e dos hortelãos de que a libertação destes espaços centrais acabe por abrir portas à pressão imobiliária a longo prazo é o que alimenta o conflito. A atuação do executivo neste caso não se resume a um acerto ou erro absoluto, mas sim à escolha consciente de um dos lados da balança; é uma escolha ideológica e de gestão. Optou-se pelo ordenamento e requalificação dos equipamentos, aceitando como "dano colateral" o desalojamento de uma comunidade que ali tinha criado raízes.

domingo, 12 de julho de 2026

MARO - Kiss me (Lyric Video)


A "KISS ME" funciona como uma cápsula do tempo muito específica, que se apoia mais na criação de uma atmosfera do que em referências intelectuais explícitas. Se pensarmos no cinema, a música carrega exatamente a mesma melancolia enevoada e o isolamento urbano que a Sofia Coppola filma, lembrando aquela sensação de Lost in Translation de estarmos num quarto de hotel a ver o mundo a passar lá fora enquanto nos ligamos a alguém a um nível quase tátil. O vídeo lírico, com aquela textura que remete para o VHS ou para a película antiga, reforça esse apelo à nostalgia visual, quase como se estivéssemos a ver um filme do movimento Mumblecore, focado no hiper-realismo dos silêncios e das conversas espontâneas de madrugada.

Filosoficamente, a abordagem é puramente existencialista, mas sem a densidade académica. Quando a letra pede para esquecermos o passado e vivermos aquilo como se fosse o último dia, há uma urgência discreta em focar no "eterno agora". É uma forma de romantismo cru, herdeira daquela ideia do século XIX da entrega total ao outro como única âncora de salvação no meio do caos, misturada com uma sensibilidade moderna sobre a impermanência das coisas. A escrita não tenta ser um romance denso ou uma poesia cheia de metáforas complexas; ela prefere a honestidade das palavras banais — o sorriso, o sono, a mente — para criar uma intimidade imediata. No fundo, a grande inspiração da música acaba por ser o próprio tempo e a forma como decidimos desacelerá-lo para caber dentro de um abraço.

"KISS ME" é um manifesto sobre a vulnerabilidade e o desejo de suspender o tempo através da intimidade. A canção funciona como um pedido de tréguas ao mundo exterior, focando-se na criação de um espaço seguro onde duas pessoas se despem das suas bagagens, das ansiedades e do peso do passado para existirem apenas no presente.

Há uma dualidade muito bonita na letra: ao mesmo tempo que existe uma entrega cega e romântica - quase uma promessa de fuga absoluta onde se aceita ir para qualquer lugar desde que seja em conjunto -, há também um apego ao mais simples e mundano dos gestos quotidianos, como o beijo mesmo antes de adormecer ou o riso partilhado que já não se consegue esconder.

Mais do que uma simples canção de amor, o significado de "KISS ME" reside nessa urgência de desacelerar. Num mundo onde tudo muda demasiado depressa, o amor ali é retratado como o único porto de abrigo possível, um pacto silencioso de proteção mútua onde o maior luxo é poder partilhar os pensamentos da madrugada sem medo de julgamentos. É uma música sobre encontrar a imensidão nos detalhes mais pequenos e silenciosos de uma relação.

Plano Nacional de Restauro da Natureza avança para consulta pública


Projeto coordenado pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas vai estar em consulta pública até 19 de agosto, aberta a todos os interessados. Portugal prevê investir 500 milhões por ano até 2030.

A elaboração deste plano é uma resposta ao Regulamento Europeu do Restauro da Natureza, que estabelece que todos os Estados-membros devem restaurar pelo menos 20% das áreas terrestres e marinhas nestes próximos cinco anos, até 2030, garantindo ainda que até 2050 todos os ecossistemas que necessitem de recuperação vão estar em processo de restauro. [Consultar aqui, o estado da arte do Restauro da Natureza, na Europa]

De acordo com o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), responsável pela promoção e coordenação deste processo, o projeto do Plano Nacional de Restauro da Natureza (PNRN) “estabelece prioridades de intervenção em ecossistemas terrestres, marinhos, agrícolas, florestais, ripícolas e urbanos, definindo medidas concretas e indicadores de monitorização para acelerar a recuperação dos habitats degradados”.

A nova legislação europeia relativa ao restauro de natureza, aprovada em 2024, definiu que cada um dos Estados-membros tem o dever de apresentar às autoridades europeias, até setembro de 2026, um plano nacional que estabeleça todas as medidas previstas para o alcance das respetivas metas e o caminho para aí chegar, incluindo as necessidades de financiamento.

O plano português prevê um investimento anual de 500 milhões de euros em restauro de natureza até 2030, considerando diferentes instrumentos comunitários e nacionais disponíveis, incluindo verbas do Portugal 2030, da Política Agrícola Comum, do Fundo Ambiental e dos EEA Grants, e também a tendência de crescimento do investimento privado.

O plano define também 407 medidas de intervenção em ecossistemas terrestres, costeiros e de água doce (152 medidas), marinhos (27), fluviais (83), urbanos (oito), agrícolas (84) e florestais (25). Estão ainda previstas 28 medidas para ajudar as espécies polinizadoras.

De acordo com o diagnóstico apresentado pelo Governo quando o plano foi pela primeira vez apresentado publicamente, no início de junho passado, cerca de 260 quilómetros quadrados do território nacional precisam de intervenções de restauro ecológico prioritárias, o equivalente a cerca de 0,3% da superfície do país.

Está prevista também a plantação de três milhões de árvores por ano, até 2030, a realização do plano de ação relativo aos polinizadores em Portugal e também projetos-piloto em cinco municípios (Beja, Évora, Leiria, São João da Madeira e Vila Real), que vão permitir testar soluções de adaptação às alterações climáticas, baseadas na natureza.

O plano inclui também programas já em execução, como o PRO~RIOS, que prevê a recuperação de 1500 quilómetros de linhas de água até ao final da década.

O projeto do PNRN que está agora em consulta pública e que será entregue a Bruxelas vai ser ainda avaliado e revisto a nível europeu, prevendo-se que a versão definitiva seja entregue até setembro de 2027.

Os 11 documentos que fazem parte deste projeto, incluindo a avaliação ambiental estratégica do plano, estão disponíveis no portal Participa e também no Portal do Restauro da Natureza.

Crying Vessel - Bound In Mystery

Melhor som aqui
Letra
Moonrise, I hear you breathing,
Soft light through the trees,
Whispers in the black wind,
Carry me where shadows sleep.

Echoes drift in water,
Holds me, in the deep,
Your voice brings me stillness,
Calling me from your sleep.

Wash away my mortal skin,
Call of night, let me in
Take my breath and walk away
Our fate is bound in mystery.
Now guide me through your dreams,
Where silence comes between
Take a breath and draw me in,
Our fate is bound in mystery.

Softly, you touch my skin
Still light, through the breeze
Calmly, the winds are soaking
Everything thats in between

Wash away my mortal skin,
Call of night, let me in
Take my breath and walk away
Our fate is bound in mystery.
Now guide me through your dreams,
Where silence comes between
Take a breath and draw me in,
Our fate is bound in mystery.

Analisar a obra "Bound In Mystery" do duo Crying Vessel é mergulhar num universo onde a música, a narrativa visual e o pensamento intelectual operam como um portal para o oculto. O projeto, com uma identidade transatlântica suíço-americana idealizada pelo músico e produtor norte-americano Slade Templeton e expandida com a entrada do baterista suíço Basil Oberli, funde a precisão técnica europeia com a densidade visceral do submundo alternativo dos Estados Unidos. Musicalmente, a faixa assenta firmemente no revivalismo do Darkwave, do Post-Punk e do Goth Rock, destacando-se por guitarras cintilantes carregadas de chorus e reverb, sintetizadores atmosféricos que criam texturas densas e cinzentas, e uma performance vocal dual que flutua entre a melancolia arrastada dos anos 80, à semelhança de legados como The Cure e Depeche Mode, e um refrão expansivo e intensamente melódico.

A nível de significado, a canção explora a linha ténue onde o sonho, o ritual e o destino se confundem, seguindo a ligação invisível e inescapável entre duas almas através da escuridão. O tema central não se foca no medo do desconhecido, mas sim na rendição absoluta a ele, expressa em versos que aludem a um processo de transmutação espiritual e desapego da carne, sugerindo a necessidade de deixar morrer uma antiga versão de si mesmo para aceitar um laço ou ciclo que transcende a própria vida. Esta abordagem lírica e estética bebe diretamente de várias fontes de inspiração, começando pelo romance gótico do século dezanove de Mary Shelley e Bram Stoker, focado na paixão destrutiva e no isolamento. A obra lida ainda com o conceito de mitos ou ilusões que a mente cria ao tentar fugir do destino, evocando ideias filosóficas como o Amor Fati de Friedrich Nietzsche, que defende a aceitação total e o amor pela vida com todas as suas sombras e repetições eternas, e o fatalismo de Arthur Schopenhauer, que propõe que os indivíduos estão atados a uma vontade metafísica cega que os arrasta uns para os outros no escuro.

Visualmente, o teledisco opera dentro do subgénero cinematográfico do folk horror e do suspense psicológico, transformando o cenário de uma floresta densa e fria na manifestação física do subconsciente e do labirinto mental das personagens. A cinematografia adota o dinamismo caótico, a obsessão e a desintegração da identidade pessoal típicos do cinema de realizadores como Andrzej Żuławski (em Possession) e David Lynch, onde os membros da banda se movem como reflexos distorcidos um do outro, personificando a dualidade também presente nas duas vozes da música. O uso da natureza isolada como uma entidade viva e ritualística remete ainda para a estética de cineastas contemporâneos como Robert Eggers, conferindo ao vídeo uma textura granulada de película antiga que transporta o espectador para um plano temporal indefinido, reforçando a ideia de que este mistério é eterno e cíclico.

Surpreendentemente, embora a composição pareça pertencer inteiramente ao reino da arte e do misticismo, existe uma ponte fascinante entre a sua estética e conceitos da ciência moderna. A ligação invisível e inevitável descrita na letra funciona como uma tradução poética perfeita do entrelaçamento quântico na física, o fenómeno no qual duas partículas operam como um único sistema e determinam instantaneamente o estado uma da outra, independentemente da distância no universo. Paralelamente, o comportamento hipnótico, os movimentos repetitivos e o transe das personagens ligam-se à neurociência dos estados alterados de consciência, especificamente à diminuição da atividade na rede de modo padrão do cérebro, o que biologicamente causa a dissolução do ego e a perda das fronteiras entre o indivíduo e o mundo exterior. Por fim, a própria escolha de uma floresta escura ativa os mecanismos da psicologia evolutiva ligados à nictofobia, o medo ancestral do desconhecido que os seres humanos desenvolveram para a sobrevivência, transformando uma reação biológica de defesa numa experiência artística de rendição absoluta à escuridão.

sábado, 11 de julho de 2026

Por detrás da sua imagem amiga do ambiente, a gigante sueca de mobiliário IKEA - o maior consumidor de madeira do mundo - esconde práticas bastante pouco escrupulosas


O documentário "IKEA, o Caçador de Árvores" (originalmente IKEA, le seigneur des forêts ou How IKEA Plunders the Planet, 2024 ), realizado por Xavier Deleu e Marianne Kerfriden com base numa investigação jornalística de Alexander Abdelilah e Robert Schmidt, expõe o contraste dramático entre a imagem pública ecológica do gigante sueco do mobiliário e o impacto ambiental real da sua cadeia global de abastecimento de madeira. Consumindo cerca de 20 milhões de metros cúbicos de madeira por ano - o equivalente ao abate de uma árvore a cada um ou dois segundos -, a multinacional transformou-se num predador florestal global, cuja procura implacável por matéria-prima barata impulsiona crimes ambientais e a destruição de ecossistemas preciosos em múltiplos continentes.

A investigação percorre vários países, revelando que a exploração intensiva começa na própria Suécia. Ali, ativistas locais e representantes do povo indígena Sámi denunciam a prática sistemática de cortes rasos (abates totais de parcelas florestais) nas últimas florestas boreais antigas. Estas áreas ricas em biodiversidade são sistematicamente substituídas por monoculturas industriais de árvores alinhadas que funcionam como autênticos "desertos verdes", destruindo os líquenes de que as renas locais dependem para sobreviver e alterando permanentemente a paisagem escandinava.

O cenário agrava-se na Roménia e na Ucrânia, onde o documentário acompanha o rasto da madeira que alimenta as fábricas de fornecedores da IKEA. Na cordilheira dos Cárpatos romenos, lar de algumas das últimas florestas virgens da Europa, ativistas de organizações não-governamentais como a Agent Green expõem o abate ilegal e abusivo dentro de parques nacionais e áreas teoricamente protegidas pela rede Natura 2000. Cientistas e investigadores demonstram como o sistema de rastreabilidade é contornado através do branqueamento de madeira, misturando troncos extraídos ilegalmente com lotes autorizados. O impacto estende-se à Ucrânia, onde investigações anteriores já tinham sinalizado a entrada de madeira extraída de forma irregular nas cadeias de produção de produtos icónicos da marca.

A nível global, a reportagem viaja até à Rússia (região da Sibéria), expondo ligações a fornecedores locais envolvidos no desflorestamento de florestas protegidas de Taiga antes das restrições geopolíticas, e até à Nova Zelândia. Neste último país, o documentário foca-se nas consequências catastróficas das plantações intensivas de pinheiros exóticos que substituíram a vegetação nativa. Quando ocorrem tempestades violentas, os resíduos de madeira deixados pelas empresas de exploração florestal nas encostas deslizam em massa, gerando violentas enxurradas de detritos que destroem rios, praias e infraestruturas, afetando diretamente as comunidades locais e as terras ancestrais do povo Māori, que lamentam a perda da harmonia ecológica original. Representantes do povo Māori declararam na ONU que tal prática corporativa representa uma nova forma de colonização, retirando poder às comunidades nativas em favor do lucro estrangeiro e degradando a ligação sagrada que mantêm com a terra (Papatūānuku).

Um dos pontos centrais da crítica do documentário foca-se no papel do FSC (Forest Stewardship Council). Criado originalmente na década de 1990 com o apoio de organizações de prestígio como a WWF e a Friends of the Earth para garantir uma gestão florestal sustentável, o selo verde é apontado pelos realizadores e por antigos fundadores como tendo sido instrumentalizado. O FSC acabou por se transformar num escudo de greenwashing (lavagem verde) para as grandes corporações. Ao certificar áreas onde se praticam cortes rasos ou onde a madeira provém de origens controversas, o sistema falha em proteger as florestas que restam no planeta, permitindo que o consumidor compre mobiliário de massa sob uma falsa premissa de sustentabilidade.

Em janeiro de 2024, o documentário IKEA Loves Wood (IKEA elsker træ) já denunciava más práticas na Roménia.

Dinheiro a circular por paraísos fiscais e fundações suspeitas, graças à IKEA
Este artigo do portal de jornalismo independente Basta! esmiuça um relatório da organização Attac Alemanha sobre o intrincado labirinto financeiro que a IKEA utiliza para praticar a otimização fiscal em larga escala e minimizar as suas obrigações tributárias. A investigação desconstrói a imagem pública puramente filantrópica da empresa, demonstrando como as receitas geradas nas lojas físicas são canalizadas por uma complexa rede de holdings e fundações que se estende por várias jurisdições. 

No cerne desta estrutura está uma rede de fundações ostensivamente sem fins lucrativos, desenhada para fragmentar a propriedade legal e blindar o capital contra a tributação. Na Holanda, a fundação Stichting Ingka fica no topo da pirâmide como proprietária do Ingka Group, que opera a maioria das lojas globais. Pelo facto de o fisco holandês a reconhecer como uma entidade de caridade, os seus vastos rendimentos de investimentos e ativos líquidos desfrutam de massivas isenções fiscais. Além disso, a legislação holandesa protege este arranjo ao não exigir que a fundação publique relatórios financeiros anuais. 

Enquanto isso, o conceito da marca em si é controlado por outro braço através da Fundação Interogo, localizada no paraíso fiscal de Liechtenstein. Uma investigação da televisão sueca revelou que esta única entidade permitiu ao fundador da empresa, Ingvar Kamprad, evitar o pagamento de algo entre 2,3 e 3,2 mil milhões de euros em impostos ao longo de um período de vinte anos. 

Um terceiro grande tentáculo corporativo, o Ikano Group, está sediado em Luxemburgo e pertence aos três filhos de Kamprad. Esse braço supervisiona a gestão financeira, serviços bancários, imobiliários e de seguros, utilizando subsidiárias adicionais ocultas em paraísos fiscais como a Suíça e a ilha de Curaçao, nas Antilhas Holandesas. 

Ao movimentar continuamente dinheiro entre a Holanda, Luxemburgo, Liechtenstein e Curaçao, a multinacional sueca paga taxas efetivas de imposto muito abaixo das médias corporativas europeias padrão. A empresa de retalho controladora historicamente enfrentou uma taxa efetiva de imposto sobre o rendimento de apenas 17,8%, enquanto o Inter IKEA Group, detentor da marca, pagou no máximo 11,6%. 

O sigilo que envolve estes arranjos é uma escolha deliberada. Quando a comissão de informação da Assembleia Nacional Francesa intimou grandes multinacionais a depor sobre otimização fiscal corporativa, a IKEA recusou-se categoricamente a participar, oferecendo a desculpa de que, infelizmente, carecia de conhecimento técnico num campo tão complexo, uma justificativa que os parlamentares rotularam como altamente improvável e perturbadora para uma organização do seu porte. 
O artigo, em última análise, destaca uma contradição gritante entre as mensagens corporativas e as práticas financeiras, observando que, embora a IKEA Foundation proclame publicamente uma dedicação ao bem-estar das crianças, a corporação como um todo minimiza agressivamente as próprias receitas fiscais necessárias para financiar os sistemas públicos de educação e saúde nas comunidades onde opera.

Trump, Ending Decades of Protection, Opens Wild Habitats to Drilling and Mining

O pica-pau-de-cockade-vermelha, uma das espécies diretamente afetadas pela perda de habitat florestal

The Trump administration on Friday moved to open the habitats of imperiled animals to farming, drilling, mining, real estate development and other activities in what environmentalists characterized as the most severe erosion of protections for wildlife in half a century.

It did so by recasting a single word, “harm.”

For more than 50 years, the federal government has used a broader definition of harm to animals under the Endangered Species Act, a bedrock environmental law. It included any significant “modification or degradation” of habitat that kills or injures animals by impairing their ability to eat, shelter or breed.

The Supreme Court upheld this interpretation in 1995, ruling against property owners who argued that harm should only mean directly killing or injuring an endangered animal.

But on Friday, the Interior Department and the Commerce Department announced a final rule that rescinded this longstanding interpretation. Under the rule, destroying an endangered species’ nest or habitat would no longer be considered illegal.

The change could open the door for fossil fuel companies, agricultural interests, land developers and others to disturb or even destroy the habitats of vulnerable species. Many species are already running out of places to live, and the new rule is likely to add extreme pressure, experts said.

Earthjustice, an environmental law firm, said it planned a legal challenge. But if the case were to reach the current Supreme Court, its conservative supermajority could enshrine the change, preventing future administrations from reversing it, said Karrigan Börk, an environmental law professor at University of California Davis.

The move on Friday was the latest in a series of extraordinary efforts by the Trump administration to weaken environmental regulations designed to fight climate change and prevent species extinction. In March, a panel of administration officials voted to exempt oil and gas drilling in the Gulf of Mexico from measures to protect endangered whales and other imperiled species.

In a news release, the Interior and Commerce Departments said they were taking action to restore the Endangered Species Act to its original intent. They argued that in recent years, environmentalists and Democratic administrations had weaponized the act to block drilling and other development nationwide.

“For years, federal agencies abused the E.S.A. to obstruct lawful land use and burden American families and businesses,” Interior Secretary Doug Burgum said in a statement. “That approach turned routine activity into a regulatory trap, drove up costs that impacted people’s lives, and expanded federal authority beyond what Congress intended.”

The National Mining Association, a trade group, applauded the announcement.
“Our industry is absolutely committed to the conservation and recovery of threatened and endangered species — and their habitats — but the definition of ‘harm’ has long been abused to serve as a punitive obstacle impeding critical projects” Tawny Bridgeford, the group’s general counsel and senior vice president, said in a statement.

Legal scholars said the government was acting without conducting scientific research into the impact of the change, a step that would typically precede a move of this kind.

The change is “undermining the fundamental purpose of the Endangered Species Act,” said Lynn Scarlett, who served as deputy interior secretary under President George W. Bush.

Habitat modification or degradation caused by human activity is often the main reason that species face extinction. An intergovernmental body of leading scientists has found it to be the top driver of biodiversity loss worldwide.

Modifying habitat can easily harm individual animals without intentionally or immediately killing or injuring them, said Gary Frazer, who oversaw the U.S. Fish and Wildlife Service’s endangered species program for two decades before retiring in 2025.

Piping plovers, for instance, need undisturbed beaches to nest and raise their young. They return to the same sites year after year, but only occupy them in the spring and summer. During winter, when the birds have migrated south, a property owner could develop a beach without immediately hurting any individual piping plovers. But come spring, the returning plovers would find themselves without a place to feed, nest and raise their chicks.

Or take red-cockaded woodpeckers, which are not migratory but require mature pine trees to hollow out the cavities where extended families roost. Even if a timber company or developer cut down those trees without causing direct injury to any birds, they could not survive without other unoccupied old trees.

Amphibians like California tiger salamanders begin their lives in seasonal ponds but move into upland burrows after metamorphosis. If a pond were drained during the summer, the salamanders that returned to the spot would not have the water they need to produce the next generation.

“We are at the precipice of losing 50 years of progress in the protection of America’s wildlife, because we know that the challenges for most animals are not that they’re getting shot,” said Justin Pidot, a professor of environmental law at the University of Arizona who served as the general counsel at the White House Council on Environmental Quality during the Biden administration.

After the rule was proposed last year, it triggered roughly 220,000 public comments. About 99 percent were against the change, according to an analysis by The New York Times that used artificial intelligence.

Among those asking the administration to reconsider were state wildlife agencies in some Republican-governed states.

“Threatened and endangered species are entirely dependent on healthy habitats,” wrote Bruce Kreft, the chief of the conservation and communications division of the North Dakota Game and Fish Department. The proposed change, he said, “would have dire consequences.”

Ted Will, who was the director of the Georgia Department of Natural Resources Wildlife Resources Division at the time, wrote that “the greatest threat to the vast majority of species of greatest conservation need in Georgia, whether federally listed or not, is habitat loss.”

Attorneys general from 16 states — including Arizona, California, Illinois and New York — said the rationale for the change was “arbitrary, capricious, an abuse of discretion and contrary to law.”

Those supporting the change included industries affected by habitat restrictions. Oil and gas trade groups including the American Petroleum Institute wrote that harm must involve a direct injury to a particular animal.

But the vast majority of commenters appeared to be individuals, often begging the government to reconsider.

“Everyone knows a species cannot live without its habitat,” wrote Ashleigh Smith of Port Angeles, Wash.

Environmental lawyers and activists said that projects are rarely blocked because of habitat restrictions. More often, individuals or companies have to create “habitat conservation plans,” which describe the expected effects on endangered species and detail steps that will be taken to minimize them, they said.

With the change, people and governments will still need permits for actions that would, say, crush or bury endangered animals, but not for felling a tree or polluting a river that the animal relies on, said Jane Davenport, a senior attorney with Defenders of Wildlife, a conservation group. That means landowners would take fewer measures to protect endangered species, and also contribute less to offsetting their actions by helping the species elsewhere.

“A lot of our endangered species are on the edge,” Dr. Börk said. “If you lose that species, it is gone.”

More Environmental News
The Trump administration put a climate science critic in charge of the National Climate Assessment and fired an E.P.A. official who proposed tracking microplastics at a fish farm. On Thursday, the E.P.A. moved to loosen pollution limits on trucks.

A Apple processa a OpenAI por apropriação indevida de informações confidenciais

A gigante norte-americana Apple interpôs na sexta-feira uma ação judicial contra a OpenAI, acusando vários dos seus ex-funcionários de terem transmitido informações confidenciais à start-up californiana, após terem sido recrutados por esta.

A ação judicial marca uma escalada das tensões entre as duas empresas, que se tinham associado em 2024 para integrar o ChatGPT, a interface de inteligência artificial (IA) da OpenAI, nos produtos da Apple.

Mas quando a Apple apresentou a sua assistente de voz reformulada, a Siri, no mês passado, a sua componente de IA era baseada no modelo Gemini AI da Google, em vez do ChatGPT.

Desde então, a relação entre as duas empresas deteriorou-se significativamente.

O documento judicial, apresentado num tribunal federal de San Jose (Califórnia), alega uma "estratégia" da OpenAI "para extrair informações confidenciais" provenientes da Apple.

Num comunicado, um porta-voz da OpenAI afirmou que a empresa "não está interessada em informações confidenciais de outras empresas", ao mesmo tempo que indicou que ainda está a analisar as acusações que lhe são feitas.

Para além da OpenAI, são especificamente visados pelo processo dois antigos quadros da Apple, entre os quais Tang Tan, cofundador da start-up io Products com Jony Ive, antigo responsável pelo design dos produtos da marca da maçã.

A io Products foi adquirida pela OpenAI em maio de 2025 por 6,5 mil milhões de dólares, um passo importante na diversificação da criadora do ChatGPT, que prevê lançar, até 2027, uma gama de dispositivos centrados na IA.

Segundo a Apple, Tang Tan levou consigo documentos internos quando saiu da empresa em 2024.

Agora responsável pelos produtos físicos na OpenAI, estaria a procurar ativamente obter dados adicionais junto de funcionários da Apple que se candidatam a um cargo na empresa líder em IA, de acordo com o documento judicial.

Outro ex-funcionário da Apple, Chang Liu, é acusado de ter guardado dispositivos internos depois de ter deixado a empresa em 2026 e de ter continuado a aceder à rede informática interna.

"Na medida em que mais de 400 ex-funcionários da Apple trabalham atualmente na OpenAI, não é surpreendente que alguns tenham conhecimento de informações confidenciais e protegidas", reconhece o gigante da eletrónica de consumo.

"Mas a OpenAI decidiu explorar essas informações", afirma, porém, o criador do iPhone.

A Apple classificou estas descobertas, e agora acusações, como "a ponta do iceberg", afirmando ter apenas uma visão limitada do que se passa na OpenAI.

Para a empresa, estas supostas manobras inscrevem-se no desenvolvimento, por parte da OpenAI, de dispositivos físicos, domínio em que o laboratório de IA não tinha qualquer experiência prévia.

A Apple pede ao tribunal que proíba a OpenAI de explorar informações confidenciais provenientes dos seus colaboradores, antigos ou atuais, bem como que lhe seja concedida uma indemnização por danos, sem fixar o montante.

Esta ação judicial ameaça colocar algumas "pedras no caminho" da OpenAI, num momento em que a empresa se prepara para uma entrada na bolsa muito aguardada.

Para a empresa, avaliada em cerca de 852 mil milhões de dólares, a diversificação no setor dos dispositivos de consumo é considerada um importante motor de crescimento.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

HAEVN - Where Did You Go

Melhor som aqui
[Verse 1]
I have been chasing an old place in time
At the town station, we jump the fence at night
Do you ever think of you and I?
I have been waiting every day and night
Have you barricaded all your feelings dry?
Do you ever think of you and I?
Now you're living on the other side

[Chorus]
You left a hole in my world so long, long ago
So where did you go? Another life carried on
Where did you go? Where did you go?
Where did you go? Where did you go?

[Verse 2]
You said that we wasted our younger days in life
But you were just jaded in the heat of the fight
There's no reason to be out of sight
Now you're living on the other side

[Chorus]

[Bridge]
I, alone, love you
Bring me back to what we began
I, alone, love you
Show me all that I'll never have

[Pre-Chorus] 4X
Where did you go? Where did you go?

[Chorus]

Minha análise
Em "Where Did You Go", os HAEVN exploram com mestria a dor da ausência e a profunda dificuldade de lidar com a perda de alguém marcante. A repetição insistente da pergunta "Where did you go?" funciona não apenas como uma busca por respostas concretas, mas sobretudo como um reflexo da incapacidade de aceitar o vazio deixado por quem partiu. O verso "You left a hole in my world so long, long ago" sublinha que o passar do tempo foi insuficiente para cicatrizar esta ferida, reforçando o impacto duradouro e paralisante da separação na vida do narrador.

Inspirada por sentimentos de saudade e desolação após o término de uma relação, a composição recorre a memórias nostálgicas da juventude, como "chasing an old place in time" e "jump the fence at night", para traduzir o desejo desesperado de resgatar e reviver momentos felizes do passado. Versos como "Have you barricaded all your feelings dry?" e "Now you're living on the other side" sugerem uma dolorosa assimetria: enquanto a outra pessoa conseguiu seguir em frente e distanciar-se emocionalmente, quem canta permanece estagnado e refém das lembranças.

Esta divergência de perspetivas torna-se ainda mais evidente na passagem "You said that we wasted our younger days in life, but you were just jaded in the heat of the fight", que expõe ressentimentos antigos e visões opostas sobre o valor daquilo que viveram juntos. Toda esta narrativa melancólica e introspetiva é amplificada pela assinatura sonora dos HAEVN, cujas texturas atmosféricas, cinemáticas e subtilmente próximas do shoegaze intensificam a sensação de solidão, transformando a canção numa busca contínua de sentido num mundo que ficou incompleto.

Desinformação climática evolui: da inteligência artificial ao 'greenlash'


Especialistas dizem que a desinformação sobre o clima está a evoluir, concentrando-se cada vez mais em desmontar políticas verdes. Em paralelo, cresce o conteúdo gerado por inteligência artificial.
De rebater afirmações de que os invernos frios não provam que o aquecimento global é falso às alegações de que o clima muda naturalmente e, por isso, a humanidade não tem culpa, os cientistas passaram décadas a demonstrar a existência de uma crise climática.

Mas especialistas afirmam que estes discursos de desinformação estão a evoluir e que passam cada vez mais por desacreditar as políticas ambientais e a ação climática, em vez de negarem frontalmente o aquecimento global.

“A era do negacionismo climático está praticamente encerrada”, diz Ned Mendez, responsável pela investigação e análise na agência de campanhas digitais 411, à equipa de verificação da Euronews, O Cubo. “A indústria da desinformação desceu um degrau. Já não discute se a luta contra o aquecimento global é real, mas se a resposta é exequível, se é justa e se compensa o custo.”

“Quando pensamos em desinformação, tendemos a associá-la à negação da existência das alterações climáticas ou da sua origem humana. O que vemos hoje, porém, é que esta já não é necessariamente a forma mais comum que o fenómeno assume”, diz Eva Morel, secretária da entidade francesa de vigilância da desinformação climática, Quota Climat.

Este fenómeno insere‑se no contexto político mais vasto do “greenlash” - junção de “green” e “backlash” - que descreve a crescente resistência política à ação climática.

Apesar disso, a desinformação climática continua fortemente condicionada pela atualidade, explica Morel, moldada pelo debate político, pela publicação de documentos de política climática, por grandes encontros internacionais como as COP ou cimeiras europeias, bem como por fenómenos extremos como ondas de calor, cheias e incêndios florestais.

Estas narrativas não se limitam às redes sociais. Embora exista um consenso entre os dirigentes europeus de que as alterações climáticas são reais e exigem resposta, a negação continua presente no espaço político.

Na Alemanha, por exemplo, o partido de extrema‑direita Alternativa para a Alemanha (AfD) pôs em causa o consenso científico de que as alterações climáticas têm origem humana. Há também quem repita declarações do presidente norte‑americano, Donald Trump, que descreveu reiteradamente as alterações climáticas como uma “fraude” e atacou os governos europeus pelas políticas de ação climática, que apelidou de “green new scam”.

Ondas de calor alimentam desinformação
Mesmo assim, falsas alegações sobre a natureza das alterações climáticas continuam a surgir, a par da desinformação sobre as políticas climáticas.

Em junho, a onda de calor recorde na Europa desencadeou uma vaga de desinformação, incluindo publicações virais nas redes sociais que alegavam que as temperaturas elevadas não eram invulgares. Sustentavam que se alinhavam com picos de temperatura anteriores, citando ondas de calor ocorridas em Londres na década de 1970.

Climatologistas afirmam que estas alegações, além de enganadoras, aumentaram a hostilidade e o assédio de que estes cientistas são alvo, com muitos utilizadores online a culpá‑los pelo fracasso da ação climática.

“As pessoas argumentam que, no fundo, os [cientistas do clima] foram demasiado alarmistas, pouco pedagógicos, apontaram para soluções erradas e tomaram decisões erradas e que, por isso, a culpa é deles”, afirma Morel. “A responsabilidade é colocada sobre os especialistas.”

Estas narrativas falsas sobre a mais recente onda de calor europeia não são casos isolados. Quando, em outubro de 2024, o leste de Espanha recebeu em poucos dias a quantidade de chuva equivalente a um ano inteiro, a desinformação sobre um dos desastres naturais mais mortíferos da história do país, que tirou a vida a mais de 230 pessoas, ganhou grande força.

As alegações falsas incluíam acusações de que barragens tinham sido deliberadamente desmanteladas para agravar as cheias, bem como de que a estratégia de biodiversidade da União Europeia e a política de renaturalização dos rios estavam na origem do desastre.

Responsáveis políticos do partido espanhol de extrema‑direita Vox, que contesta a realidade das alterações climáticas, estiveram entre os principais difusores destas alegações.

Uma profunda desconfiança em relação às instituições alimentou estas narrativas, segundo Mendez. “Se alguém está predisposto a desconfiar de uma instituição, mesmo que ela forneça conselhos climáticos úteis, por exemplo, avisar que o nível da água será elevado às 16 horas, pode pensar: estão a inventar isto para provar uma tese.”

A monetização das redes sociais, que alimenta a economia da atenção, funciona também como incentivo à desinformação climática.

Dennis Kelleher of Better Markets - How "termites" are undermining financial stability



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Dennis M. Kelleher

TikTok está farto do lixo gerado por IA e vai passar a apanhar quem publica



Se andas no TikTok, de certeza que já esbarraste neles: vídeos estranhos, meio absurdos, com vozes robóticas e imagens claramente feitas por inteligência artificial, publicados às dezenas por contas que não fazem mais nada. Pois a própria plataforma está farta e acaba de anunciar que vai começar a caçá-los.

O que o TikTok vai fazer em relação à IA
Esta sexta-feira, o TikTok anunciou que vai reforçar os sistemas de deteção para identificar contas dedicadas exclusivamente a publicar aquilo a que chama “spam gerado por IA”. Nas próximas semanas, a plataforma vai testar melhorias que apontam sobretudo às contas que despejam conteúdo automático sobre temas sensíveis.


TikTok está farto do lixo gerado por IA e vai passar a apanhar quem publica
E quais são esses temas? Precisamente os mais perigosos quando a informação é falsa ou de baixa qualidade: política, atualidade, saúde e conselhos financeiros. Ou seja, as áreas onde um vídeo enganador feito por IA pode fazer estragos reais, desde desinformação política a maus conselhos de dinheiro ou saúde.

Afinal, o que é o “AI slop”?
O fenómeno tem nome e tudo: chama-se “AI slop”, algo como “lixo de IA”. Descreve aquele conteúdo produzido em massa por inteligência artificial, de baixíssima qualidade e muitas vezes sem pés nem cabeça, cujo único objetivo é gerar visualizações a custo quase zero.

A lógica de quem faz isto é simples e cínica. Com ferramentas de IA generativa, uma pessoa consegue produzir dezenas de vídeos por dia sem esforço, atirá-los ao algoritmo e ver o que “cola”. O problema é que este dilúvio de conteúdo automático rouba visibilidade aos criadores reais. Aqueles que passam horas a fazer vídeos genuínos ficam soterrados por baixo da enxurrada de lixo.

Como o TikTok identifica uma conta “de spam”
Segundo a plataforma, uma conta entra na mira quando junta vários destes sinais: produz conteúdos de IA “de baixa qualidade e muito padronizados”, concentra-se em temas de alto risco que podem abalar a confiança pública, e detalhe revelador compra ou vende seguidores. É o retrato-robô da fábrica de conteúdo automático montada só para explorar o algoritmo.

O TikTok não deu pormenores técnicos sobre como vai detetar estas contas, o que é normal, revelar o método seria dar o mapa a quem tenta contorná-lo.

Não é só o TikTok
Vale a pena notar que isto não é um caso isolado. O TikTok anunciou também uma funcionalidade de denúncia automática de conteúdo gerado por IA. Entretanto não está sozinho nesta luta: outras redes, como o Pinterest, já estão a implementar medidas parecidas para filtrar o dilúvio de conteúdo artificial.

No fundo, estamos a assistir ao início de uma batalha que vai marcar os próximos anos: as redes sociais construíram-se a incentivar quem publica mais, e agora veem-se obrigadas a distinguir o que é feito por pessoas do que é cuspido por máquinas.

França em revolta contra sistema de reciclagem de garrafas idêntico ao "Volta" em Portugal


Revolta ambiental. ONG's (Organizações Não Governamentais) e algumas autoridades locais eleitas estão a posicionar-se contra uma proposta do governo francês.

O plano prevê a reciclagem de garrafas plásticas recolhidas, em vez da sua reutilização. O presidente Emmanuel Macron retomou o projeto no final de maio deste ano, apesar de grupos ambientalistas já terem feito um alerta sobre o assunto algures em 2023.

Mas então, porque é que esta distinção é tão importante?
A ideia do governo é reciclar garrafas plásticas em vez de reutilizá-las. Axèle Gibert, coordenadora de prevenção de resíduos da France Nature Environnement (FNE), explica a questão: "Não se trata de um sistema de depósito para reutilização... mas de um sistema que permitirá aos fabricantes recuperar essas garrafas para produzir ainda mais plástico".

O problema: as garrafas não são lavadas para reutilização posterior
Elas serão recicladas. Além disso, muitos críticos do projeto, incluindo funcionários eleitos, querem usar um termo diferente de “depósito”. Segundo eles, as garrafas não são “retornáveis”. Até falam em 'greenwashing'. Nicolas Garnier, membro da associação Amorce, só vê lucro para os fabricantes. “Esta ampla medida de 'greenwashing' não tem outro objetivo senão vender mais garrafas de plástico descartáveis”.

Para o presidente da Câmara de Bures-sur-Yvette (Essonne), “teremos agora que tomar medidas que façam o Estado compreender que não deixaremos que este absurdo nos detenha”. Do lado do governo, Mathieu Lefèvre, Ministro Delegado responsável pela Transição Ecológica, explica que “a taxa de recolha e reciclagem de garrafas e outras embalagens de plástico foi de apenas 58,4% em 2024, contra uma meta de 90%”.

O uso de plástico continua a destruir o nosso planeta.

Se esta meta não for atingida, "a implementação de um sistema de depósito para reciclagem tornar-se-á obrigatória a 1 de janeiro de 2029". Segundo Nicolas Garnier, o projeto "custaria aos consumidores entre 1 mil milhão e 3 mil milhões de euros". Há, portanto, um verdadeiro impasse entre o governo e os críticos do projeto. Alguns autarcas de várias partes da França, apoiados por sindicatos do setor de gestão de resíduos, estão prontos para adotar medidas drásticas.

Mais especificamente, ameaçaram "suspender o pagamento da TGAP" - sigla para a taxa geral sobre atividades poluentes. Esta ameaça poderá concretizar-se caso o governo não mude de rumo e insista em manter a sua posição. Falando em nome dos opositores do sistema, o deputado Philippe Vigier lamentou o que descreveu não mais como uma consulta, mas como uma "imposição" por parte do Estado.

Como funciona a TAGP  e porque é que os autarcas ameaçam suspender o pagamento?
A TGAP (Taxe Générale sur les Activités Polluantes) é a Taxa Geral sobre Atividades Poluentes em França, um imposto cobrado pelo Estado com base no princípio do poluidor-pagador. Quem paga esta taxa diretamente ao Estado não são os cidadãos, mas sim as entidades responsáveis pela gestão de resíduos. Na prática, sempre que uma autarquia francesa recolhe o lixo dos seus habitantes e o envia para um aterro ou para um incinerador, é obrigada a pagar ao governo central uma quantia fixa por cada tonelada de resíduos tratada. A nível nacional, este imposto representa um valor astronómico que ronda as centenas de milhões de euros anuais pagos pelos municípios aos cofres do Estado.

O descontentamento com o plano do governo de Emmanuel Macron levou os presidentes de câmara e os municípios franceses a ameaçarem suspender o pagamento desta taxa, por se sentirem profundamente injustiçados a nível financeiro e logístico. Ao longo dos últimos anos, as autarquias investiram milhões de euros na modernização de ecocentros públicos para separar o lixo doméstico. Dentro de todos os resíduos, as garrafas de plástico PET limpas funcionam como o filé mignon do lixo, sendo o único material que os municípios conseguem vender a bom preço às empresas de reciclagem para financiar e cobrir os custos do resto da recolha urbana.

O novo plano do governo destrói completamente este equilíbrio económico. Ao criar um sistema de máquinas de depósito nos supermercados, o Estado retira a recolha das garrafas de plástico das mãos dos municípios e entrega o negócio diretamente à indústria das grandes marcas de bebidas. Isto resulta num castigo duplo para as autarquias francesas, que perdem subitamente uma receita essencial com a venda do plástico, mas continuam com a obrigação onerosa de recolher o lixo que ninguém quer, como restos de comida, fraldas ou sofás. Para agravar a situação, os municípios teriam de continuar a pagar a pesada taxa TGAP ao Estado pelo envio desse lixo restante para incineração ou aterro, mesmo sem o retorno financeiro do plástico.

Esta ameaça de suspensão do pagamento funciona, portanto, como uma poderosa arma de arremesso político e uma autêntica greve fiscal ecologicamente motivada. Ao cortarem o fluxo deste imposto, os autarcas franceses lançam um ultimato claro ao governo central, avisando que não vão financiar os cofres do Estado se este insistir em retirar o negócio do plástico ao setor público para o entregar aos grandes industriais privados (como a Nestlé, Coca-Cola, Pepsi-Cola, etc.)

Empresas industriais estão na mira de grupos ambientalistas

Por enquanto, as discussões parecem estar paralisadas.
As relações estão tensas e as associações lamentam o facto de o governo permitir que a indústria continue a utilizar plástico — repetidamente — em vez de combater essa prática e tentar minimizar o seu uso.

Fonte

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quinta-feira, 9 de julho de 2026

Bella Figura, coreogrado por Jiří Kylián


Criada em 1995 para o prestigiado Nederlands Dans Theater (NDT), «Bella Figura» é amplamente considerada uma das coreografias mais belas e icónicas da dança contemporânea.
O título italiano (que se traduz por «bela figura» ou «manter as aparências») serve de ponto de partida para uma viagem hipnotizante pela dualidade entre a arte e a realidade, o corpo humano e a vulnerabilidade dos bailarinos.

Biografia

Página Oficial
Jiří Kylián