quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Ainda antes de a mina abrir, a injustiça já chegou ao Barroso, mostra estudo europeu

O projeto da mina de lítio em Covas do Barroso, no concelho de Boticas, transformou a região num dos maiores palcos de conflito social e ambiental em Portugal. Promovido pela empresa Savannah Resources, o projeto insere-se na estratégia da União Europeia para garantir a autossuficiência em matérias-primas críticas essenciais à transição energética e à produção de veículos elétricos. Contudo, a intenção de implantar uma exploração de mineração a céu aberto numa região classificada pela FAO, desde 2018, como Património Agrícola Mundial gerou uma forte onda de contestação por parte das populações locais, de associações de defesa do território e de investigadores académicos.

A análise deste caso pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra trouxe para o debate o conceito de justiça prospetiva ambiental, que descreve como os impactos negativos de um grande empreendimento começam muito antes do início da exploração física do solo. Desde a fase de anúncio, consultas públicas e processos de licenciamento, o território passa a viver num estado prolongado de incerteza e ansiedade. Este período prévio afeta diretamente a economia local, paralisando investimentos na agricultura e no turismo rural, e provoca fraturas no tecido social, dividindo a comunidade entre a expetativa de compensações económicas e o receio da destruição do seu modo de vida.

O impasse no Barroso expõe o dilema central da transição ecológica europeia: a contradição entre a urgência global de descarbonização e os custos locais dessa mesma transformação. Enquanto os promotores sustentam que o projeto cumpre os requisitos ambientais e impulsionará a economia regional, as populações e movimentos de contestação denunciam a assimetria de poder nos processos decisórios e rejeitam que territórios rurais protegidos sejam convertidos em zonas de sacrifício para responder a metas industriais externas.

Texto completo: Público

A oliveira e a arte de resistir à seca

Pode visualizar o cartaz, com mais detalhe aqui

Sempre me fascinou a sobrevivência das espécies em condições extremas, em particular a das árvores quando a água escasseia. Presas ao lugar onde nasceram, atravessam décadas (por vezes séculos) expostas ao sol, ao vento e à incerteza da chuva. Não podem procurar sombra nem seguir a água. Ainda assim, têm de a transportar das raízes até às folhas, mantendo em funcionamento essa extraordinária maquinaria que transforma luz em vida.

Poucas árvores encarnam tão bem esta capacidade como a oliveira. O tronco retorcido e o brilho prateado das folhas parecem guardar a memória de muitos verões. Quando o calor seca os campos, a oliveira resiste. Algumas vivem séculos e persistem mesmo em condições de grande aridez. Em Portugal, as oliveiras antigas são também arquivos vivos da paisagem e da relação entre as comunidades humanas e o território.

Como é possível tamanha resistência? Não existe um único segredo, mas uma combinação de soluções afinadas pela evolução. Quando a água falta, a oliveira fecha os estomas, pequenos poros das folhas responsáveis pelas trocas gasosas. Ao fazê-lo, reduz a transpiração e conserva água. Os estomas concentram-se na face inferior da folha, protegidos por uma densa camada de tricomas prateados, que ajuda a limitar a perda de água sem impedir as trocas gasosas. As folhas estreitas, espessas e coriáceas revelam uma anatomia moldada para enfrentar a secura. A superfície foliar reflete parte da radiação e a orientação das folhas pode também alterar-se, reduzindo a exposição nos períodos de maior intensidade luminosa. A oliveira parece imóvel, mas está permanentemente a ajustar o seu funcionamento ao ambiente.

Uma parte decisiva desta história acontece debaixo do solo. O sistema radicular é plástico: adapta a sua arquitetura à distribuição da água e explora diferentes volumes de solo à medida que as condições se alteram. É como se procurasse, em profundidade e em extensão, as reservas de uma paisagem que começa a secar.

Mas a seca traz outro perigo. À medida que o solo perde água, aumenta a tensão nas colunas de água que percorrem o xilema. Se essa tensão se tornar excessiva, podem formar-se bolhas de ar capazes de interromper o transporte entre raízes e folhas. Também aqui a anatomia conta. A arquitetura hidráulica da oliveira, assente numa rede de numerosos vasos condutores, muitos deles relativamente estreitos, ajuda a limitar a propagação destas falhas e a manter o transporte de água mesmo quando algumas vias deixam de funcionar. Nada disto é um milagre. É biologia e evolução: uma engenharia de sobrevivência construída lentamente sob o sol e a seca do Mediterrâneo.

Oliveira mais antiga de Portugal fica na Herdade do Peso, tem 3.712 anos [toda a história aqui]

Ao longo de milhares de anos, a oliveira evoluiu num ambiente marcado pela irregularidade da água, mas o clima mediterrânico está a mudar. As temperaturas aumentam, a precipitação torna-se mais incerta, as ondas de calor intensificam-se e as secas podem tornar-se mais longas e severas. É tentador olhar para uma espécie tão resistente e imaginar que resistirá sempre, mas tal não significa invulnerabilidade. Todas as adaptações têm limites.

A oliveira mostra-nos a extraordinária capacidade da vida para se adaptar e o perigo de imaginarmos que essa capacidade é infinita. Talvez essa seja uma das grandes lições das plantas: não sobrevivem porque dominam o ambiente, mas porque a evolução lhes permitiu responder às suas variações e viver dentro dos limites que ele impõe.

Num clima em mudança, talvez também nós tenhamos de aprender essa lição: compreender melhor os limites, respeitar os ritmos da natureza e perguntar menos que espécies poderão substituir as atuais, e mais que condições teremos de preservar para que as nossas paisagens continuem vivas.

Helena Freitas - Diário de Coimbra, 22.09.2026

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quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Then Comes Silence - Remaker Redeemer

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A canção "Remaker Redeemer" explora temas recorrentes na discografia da banda, nomeadamente a mortalidade, a metamorfose pessoal e a procura de salvação ou reconstrução interior num mundo em decadência. O título contrapõe as ideias de recriação ("Remaker") e de redenção ("Redeemer"), abordando a dor do processo de autodestruição seguido do renascimento emocional. A letra retrata a luta interior contra os próprios demónios e a urgência de encontrar um propósito espiritual ou existencial que traga libertação.

No videoclipe de "Remaker Redeemer", essa narrativa é traduzida através de uma estética fortemente noir e minimalista, saturada de contrastes de luz e sombra (claroscuro). O simbolismo do vídeo apoia-se em rituais de passagem, no isolamento do indivíduo e em metáforas visuais sobre o fim de um ciclo para o início de outro. A imagética soturna e a iluminação dramática sublinham a sensação de claustrofobia emocional e a transição da escuridão para uma iluminação interior.

Sob o ponto de vista literário e filosófico, a obra remete diretamente para o existencialismo de pensadores como Friedrich Nietzsche e Jean-Paul Sartre, focando-se na responsabilidade individual de criar o seu próprio significado diante do absurdo da vida. Há igualmente ecos marcantes da literatura gótica e do romantismo sombrio do século XIX, evocando noções do subliminar, do mortal e do trágico, bem como alusões a figuras mitológicas ou religiosas do redenção e transformação espiritual revisitadas a partir de uma perspetiva secular e melancólica.

O Impacto Hídrico dos Data Centers em Abrantes: Do Rio Tejo à Evaporação

A discussão em torno do impacto ambiental dos novos projetos de megacentros de dados planeados para Abrantes (como o EDC One e o Hyperion) exige uma análise rigorosa e desprovida de alarmismo. Ao analisar a transição entre a desativada Central Termoelétrica do Pego e estas novas infraestruturas digitais, torna-se evidente uma mudança estrutural na gestão dos recursos hídricos do rio Tejo: a transição de um modelo de utilização com devolução de caudal para um modelo de consumo por evaporação atmosférica.

Historicamente, a antiga central a carvão do Pego operava sob uma licença da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) para a captação de cerca de 5,7 a 6,2 milhões de metros cúbicos de água por ano. Apesar do volume substancial retirado do rio para o arrefecimento das turbinas, a arquitetura do sistema mantinha um balanço mássico quase neutro no troço local. Sob regras estritas de controlo térmico impostas pela Diretiva do Quadro da Água da União Europeia — que limitava o aumento de temperatura da água devolvida a um máximo de 3 °C -, a esmagadora maioria do volume captado regressava diretamente ao caudal do Tejo a jusante da captação.

Em contrapartida, as estimativas divulgadas pelo movimento ambientalista proTEJO para os novos data centers apontam para necessidades hídricas diárias situadas entre os 3,6 e os 22,2 milhões de litros. Isto traduz-se num volume anual projetado de 1,3 a 8,1 milhões de metros cúbicos de água. Embora o cenário mais baixo se assemelhe aos valores históricos do Pego, o cenário de pico ultrapassa-os significativamente. Contudo, a diferença mais crítica não reside no volume bruto captado, mas sim na tecnologia de arrefecimento evaporativo adotada por estas infraestruturas de processamento de dados.

Ao contrário do circuito da central termoelétrica, as torres de arrefecimento evaporativo convertem entre 70% a 80% da água captada em vapor de água, retirando-a de forma irreversível do ciclo hídrico local a curto e médio prazo. Apenas os restantes 20% a 30% permanecem no estado líquido como efluentes de purga (blowdown), caracterizados por uma elevada concentração de sais minerais e que exigem encaminhamento para estações de tratamento de águas residuais. Desta forma, o troço do Tejo em Abrantes perde permanentemente a maior parte da água captada, intensificando a pressão sobre o caudal ecológico local, especialmente durante os períodos de seca estival.

Esta pressão torna-se ainda mais preocupante num cenário de incerteza quanto à infraestrutura hídrica nacional. O anunciado plano de barragens e mini-barragens - essencial para reforçar a capacidade de retenção e regularização do caudal, sobretudo nos afluentes do Tejo - continua sem conhecer execução prática. Sem estas obras de armazenamento e regularização, o Tejo fica desprovido de uma "almofada" hídrica que possa compensar captações intensivas em anos secos.

Esta transição ocorre num contexto em que os relatórios do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) identificam a Península Ibérica como uma das regiões europeias mais suscetíveis à redução das precipitações e ao stresse hídrico. Perante a incerteza quanto à execução de novas infraestruturas de regularização de caudais na bacia do Tejo, torna-se urgente promover uma reflexão séria e científica. A transição digital de Portugal deve ser encorajada, mas exige o compromisso com soluções tecnológicas sustentáveis, como o arrefecimento a ar (dry cooling), circuitos fechados ou o uso de Águas para Reutilização (ApR), salvaguardando a resiliência do ecossistema do rio Tejo.

Evitar rastos de aviões atrasaria em 10 anos o seu impacto no aquecimento global

Evitar a formação de rastos de condensação, as linhas brancas deixadas pelos aviões no céu, numa pequena parcela dos voos poderia atrasar em cerca de dez anos o aquecimento global atribuível à aviação, segundo um estudo.

De acordo com um estudo elaborado pela Klima Consulting, por encomenda da organização ambientalista Transport & Environment (T&E) e assinado pelo ex-cientista do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) Olivier Boucher, esta medida permitiria reduzir até 0,025 graus o aumento de temperatura previsto para 2050.

O relatório divulgado na terça-feira calcula que, se o aquecimento gerado por estes rastos fosse reduzido para metade a partir de 2030, a contribuição da aviação para o aumento da temperatura global atingiria 0,08 graus em 2050, em vez de atingir esse nível uma década antes, em 2040.

Para 2070, a redução acumulada seria de cerca de 0,049 graus, segundo o estudo, que estima que evitar os rastos permitiria libertar entre 3 e 5 pontos percentuais da margem de aquecimento mundial disponível entre 2025 e 2050 para limitar o aumento da temperatura a 2 graus.

Os rastos formam-se quando o vapor de água emitido pelos motores condensa e congela sob determinadas condições de humidade e temperatura a grandes altitudes, podendo dar origem a nuvens que retêm calor na atmosfera.

Além disso, o seu efeito climático concentra-se num número reduzido de percursos.

Em 2019, apenas 3% dos voos foram responsáveis por 80% do aquecimento associado aos rastos, segundo pesquisas citadas pela T&E, com especial incidência nos voos noturnos e durante o inverno.

Por isso, os autores do relatório consideram que modificar ligeiramente as rotas ou os horários de determinados voos para evitar zonas atmosféricas propícias à sua formação pode ser uma das formas mais económicas de reduzir, a curto prazo, o impacto climático da aviação.

Aos níveis atuais de tráfego aéreo, reduzir para metade o aquecimento provocado pelos rastos de condensação equivaleria a evitar, a cada ano, entre 67 e 225 milhões de toneladas de CO2 equivalente - o que representa entre 7% e 23% das emissões globais de dióxido de carbono da aviação previstas para 2025.

“Desviar ou reprogramar apenas alguns voos poderia adiar em dez anos a contribuição da indústria da aviação para o aquecimento global”, salientou a diretora de Aviação da T&E, Diane Vitry, classificando os rastos de condensação como uma das oportunidades mais acessíveis para reduzir o impacto climático do setor.

A União Europeia começou, em 2025, a controlar as emissões da aviação que não sejam de CO2, tendo a Comissão Europeia proposto, no âmbito da revisão do mercado europeu de carbono, conceder licenças de emissão gratuitas às companhias aéreas que evitem com sucesso a formação destes rastos.

Além disso, está previsto para este inverno, no Atlântico Norte, o primeiro teste à escala do espaço aéreo oceânico para reduzir este fenómeno, numa iniciativa que conta com a participação, entre outros, do governo britânico e dos serviços de controlo de tráfego aéreo.

Os autores do estudo sublinharam, no entanto, que o benefício para a temperatura perdura apenas enquanto se mantiverem as medidas para evitar os rastos, e que atuar sobre eles não substitui a redução das emissões de CO2 da aviação.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

IAMTHESHADOW - Embracing The Fall

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A canção "Embracing The Fall" aborda temas existenciais sobre a aceitação da ruína e a rendição ao inevitável. O significado da composição reside na ideia de que a queda não deve ser encarada com pavor, mas sim como uma transição libertadora e uma oportunidade de redenção através da vulnerabilidade. Trata-se de abraçar o colapso interno ou a decadência das certezas humanas para encontrar paz no silêncio que se segue ao fim de um ciclo.

Esteticamente, o videoclipe reforça esta narrativa através de uma linguagem visual minimalistamente sombria, marcada por fortes contrastes de luz e sombra, jogos de chiaroscuro e sequências contemplativas que simulam uma descida ao inconsciente. A vertigem e o movimento constante de descida no vídeo simbolizam a perda de controlo e o abandono de resistências do indivíduo perante o destino, espelhando visualmente o ato de se deixar cair na escuridão.

No plano das influências literárias e filosóficas, a obra dos IAMTHESHADOW bebe diretamente do Existencialismo de pensadores como Jean-Paul Sartre e Friedrich Nietzsche, explorando a vertigem da liberdade individual e a perda de sentido no mundo moderno. Há igualmente ressonâncias do Romantismo gótico e do Simbolismo de autores como Edgar Allan Poe e Charles Baudelaire, visíveis no fascínio pela beleza do declínio, na introspeção melancólica e na busca por uma catarse espiritual no seio da penumbra.

O despovoamento e a perda da vida colectiva

O desafio do despovoamento atravessa territórios e países segundo lógicas convergentes, embora assuma expressões distintas em função da sua matriz biofísica, económica e cultural. Em muitos territórios rurais repete-se um mesmo processo: envelhecimento, saída dos mais jovens, retração dos serviços, redução das oportunidades económicas e perda gradual da capacidade de atrair novo investimento. Em sentido contrário, cidades e regiões metropolitanas concentram talento, criatividade, emprego, cultura, mobilidade e investimento, alimentando a perceção de que é aí que acontece a modernidade. A cidade torna-se não apenas um lugar onde existem mais oportunidades, mas também o lugar onde parece possível imaginar o futuro. 

Mas o despovoamento não significa apenas menos pessoas. Significa também menos relações, menos redes de proximidade, menos capacidade coletiva e menos instituições capazes de sustentar a vida quotidiana. Quando desaparece uma escola, encerra um estabelecimento comercial ou se perde um serviço de saúde, não desaparece apenas uma função: desaparece também um lugar de encontro e uma parte da infraestrutura social que mantém uma comunidade viva. O território vai perdendo aquilo que poderíamos chamar a sua densidade relacional. E essa perda pode criar um círculo difícil de inverter: menos população reduz serviços e oportunidades; menos serviços e oportunidades tornam o território ainda menos atrativo.

É por isso que será insuficiente procurar revitalizar estes territórios apenas através de incentivos financeiros ou da instalação pontual de atividades económicas. A pergunta fundamental é outra: como criar condições para que nestes lugares seja novamente possível construir um projeto de vida? Isso implica emprego, habitação, mobilidade e conectividade digital, naturalmente, mas também educação, cultura, espaços de encontro, serviços de proximidade e capacidade de decisão local. Um território resiliente não é apenas aquele que conserva recursos naturais; é aquele que conserva e renova a sua capacidade de criar comunidade.

Existe, simultaneamente, uma oportunidade. Num contexto de alterações climáticas, transição energética, transformação dos sistemas alimentares e procura crescente de qualidade ambiental, os territórios rurais deixam de poder ser vistos simplesmente como periferias das cidades. São espaços onde se encontram muitos dos recursos estratégicos das próximas décadas: água, solo, biodiversidade, floresta, produção alimentar, energia renovável e capacidade de armazenamento de carbono. Mas seria um erro transformar esta riqueza numa nova relação extrativa, em que os territórios fornecem serviços essenciais às áreas metropolitanas sem que o valor criado permaneça localmente.

Reinventar estes territórios significa, portanto, transformar os seus ativos naturais em capacidade económica, social e institucional, criando valor acrescentado local e novas oportunidades para quem aí vive ou queira regressar. E exige reconhecer que soluções desenhadas a partir de modelos excessivamente centralizados dificilmente responderão à enorme diversidade destes lugares. A questão não é simplesmente deixar a natureza ocupar o espaço abandonado, nem tentar reproduzir em pequena escala o modelo urbano; é construir um modelo diferente de modernidade territorial, menos dependente da concentração, mas igualmente capaz de oferecer futuro. 

Um território pode conservar floresta, biodiversidade ou paisagens extraordinárias e, ainda assim, tornar-se progressivamente mais vulnerável se perder pessoas, confiança, redes locais e capacidade de ação coletiva. Nesse sentido, a infraestrutura social pode ser tão determinante para a resiliência de um território como a sua infraestrutura física ou ecológica.

Um território começa a desaparecer muito antes de ficar sem pessoas: desaparece quando deixa de ser possível imaginar nele um futuro.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Johan Agebjörn - Nightbows (feat. R. Missing)


A canção "Nightbows" é uma colaboração entre o produtor sueco Johan Agebjörn (famoso por seu trabalho no duo Sally Shapiro e por influências que vão do Italo disco ao ambient) e o duo norte-americano de synthpop e darkwave R. Missing, baseado em Nova Iorque e liderado pela vocalista Sharon Shy. Do ponto de vista estilístico, a faixa se consolida na interseção entre o Synthwave, a Darkwave e o Dream Pop, fundindo as texturas eletrônicas cintilantes e melancólicas de Agebjörn com os vocais etéreos, frios e soturnos característicos do R. Missing.

O significado da música gravita em torno do próprio conceito que dá título à obra: os nightbows ou moonbows, que são raros arco-íris noturnos formados pela refração da luz da lua. Conceitualmente, a composição explora a ideia de encontrar uma beleza fugidia, rara e quase invisível no ápice da escuridão. As letras abordam o isolamento, a transitoriedade dos sentimentos e a busca por lampejos de significado quando o mundo diurno está adormecido, retratando o estado mental de quem se sente desfasado da realidade comum.

O videoclipe oficial reforça essa atmosfera através de uma estética cinematográfica, lo-fi e minimalista. Utilizando tons escuros, luzes néon difusas, névoa e sombras de cenários urbanos e desérticos, o vídeo simboliza a solidão contemporânea e o abismo entre o espaço físico e a psique dos personagens. A narrativa visual não busca contar uma história linear, mas sim evocar um estado de transe que reflete a caminhada de uma alma errante pela penumbra à procura de algo inacessível.

Em termos de influências literárias e filosóficas, a faixa e a identidade dos artistas dialogam profundamente com o Existencialismo de filósofos como Albert Camus e Jean-Paul Sartre, expressando a sensação de absurdo, o vazio interior e a alienação do indivíduo. Há também forte inspiração no Romanticismo Sombrio e no Decadentismo, lembrando a Poesia Noturna de Charles Baudelaire ou Edgar Allan Poe, onde a melancolia e o lado sombrio da existência são elevados a uma categoria estética superior. Por fim, nota-se uma dimensão fenomenológica inspirada por pensadores como Gaston Bachelard, em que a noite deixa de ser apenas a ausência de luz e passa a ser um espaço poético para a imaginação e a introspecção profunda.

Peter Thiel: o homem por trás da Palantir, da cidade privada em Honduras e da nova experiência libertária na Argentina



O bilionário que acredita que a democracia pode ser incompatível com a liberdade está ligado a uma empresa que trabalha com governos e forças militares, financia experiências de “cidades privadas”, reúne algumas das pessoas mais poderosas do mundo numa organização reservada e agora está a viver na Argentina de Javier Milei. Pelo caminho, começou também a dar conferências privadas sobre o Anticristo.

Peter Thiel é uma daquelas figuras que parecem ter sido retiradas de um romance de ficção científica.

É bilionário, cofundou o PayPal e a Palantir, foi um dos primeiros grandes investidores do Facebook, financiou políticos norte-americanos como Donald Trump e J. D. Vance, apoia experiências de novos modelos de governação e é uma das figuras mais influentes do chamado tecno-libertarianismo.

Mas, nos últimos dois anos, Thiel tornou-se conhecido por algo ainda mais peculiar.

Começou a dedicar uma série de conferências privadas ao Anticristo, defendendo uma visão apocalíptica na qual uma tentativa de resolver grandes problemas globais – como alterações climáticas, inteligência artificial ou guerra nuclear – poderia acabar por conduzir a um governo mundial totalitário.

Em 2026, levou essas conferências para Roma, a poucos quilómetros do Vaticano.

Entretanto, uma fuga de informação revelou pela primeira vez uma visão muito mais detalhada do funcionamento de Dialog, uma organização privada que Thiel ajudou a fundar em 2006 e que durante cerca de duas décadas manteve os seus membros e encontros longe do escrutínio público.

E, enquanto tudo isto acontecia, Thiel instalou temporariamente a família na Argentina de Javier Milei.

Não se trata de acontecimentos isolados.

Existe uma linha de pensamento que atravessa todos eles: a desconfiança em relação às instituições democráticas tradicionais, a defesa da inovação tecnológica sem demasiadas restrições, a concentração de poder em indivíduos altamente capazes e a procura de novos modelos de organização da sociedade.

Quem é Peter Thiel?
Nascido em Frankfurt, na Alemanha, em 1967 e criado posteriormente nos Estados Unidos, Thiel estudou Filosofia e Direito em Stanford.

A sua carreira começou no mundo financeiro e jurídico, mas ganhou uma dimensão completamente diferente quando cofundou, em 1998, a PayPal com um grupo de empreendedores que viria a ficar conhecido como a “PayPal Mafia”.

Depois da venda da empresa ao eBay, em 2002, Thiel começou a investir em tecnologia.

Um dos seus investimentos mais famosos foi o Facebook: em 2004, tornou-se o primeiro grande investidor externo da empresa, colocando cerca de 500 mil dólares na então pequena rede social.

O investimento acabaria por valer milhares de milhões.

Mas seria outra empresa que definiria a sua influência política e tecnológica.

A infância em África
Thiel nasceu na Alemanha, mas a sua família mudou-se para África quando ele ainda era criança.

Durante alguns anos viveu na África do Sul e no então Sudoeste Africano, território administrado pela África do Sul que viria a tornar-se a Namíbia.

Em Swakopmund, cidade costeira de forte herança alemã, Thiel frequentou uma escola de língua alemã enquanto o seu pai trabalhava numa mina de urânio em Rössing. Aos dez anos, deixou África e mudou-se com a família para os Estados Unidos.

A época e o lugar são importantes.

Thiel cresceu numa sociedade organizada pelo apartheid, num sistema em que a população branca ocupava uma posição privilegiada e a população negra era submetida a uma complexa estrutura de segregação racial e desigualdade.

Swakopmund tinha ainda uma característica particularmente invulgar: décadas depois da derrota da Alemanha nazi, a cidade conservava uma forte presença da cultura alemã e, segundo relatos recolhidos pelo Guardian, existiam naquele período manifestações abertas de nostalgia nazi.

O contexto familiar também estava ligado à indústria extractiva.

O pai de Thiel trabalhava numa mina de urânio, enquanto a população negra empregada nas minas vivia em condições muito diferentes das dos gestores brancos. O Guardian descreve uma estrutura em que os trabalhadores negros recebiam salários baixos e viviam em condições precárias, enquanto os gestores brancos beneficiavam de um estilo de vida muito mais confortável.

África como origem do seu libertarianismo?
Não é possível dizer simplesmente que o apartheid “criou” o pensamento político de Peter Thiel.

Mas existe uma ligação que o próprio Thiel estabeleceu retrospectivamente.

Ele descreveu a escola que frequentou em Swakopmund como extremamente rígida e disse que essa experiência lhe criou uma forte aversão à regimentação e à conformidade, algo que posteriormente contribuiu para a sua aproximação ao libertarianismo.

Essa interpretação é particularmente interessante porque a oposição à conformidade se tornou uma característica central da sua personalidade intelectual.

Na universidade, Thiel viria a construir uma reputação de pensador contrarian – alguém que procura deliberadamente ideias que contradigam o consenso.

Uma biografia de Thiel publicada em 2021, The Contrarian, alegou que, quando era estudante em Stanford, ele teria descrito o apartheid como “economicamente sólido”. Thiel negou ter apoiado o apartheid. O Guardian apresenta esta alegação como parte de uma controvérsia sobre as suas posições durante a juventude.

O que se sabe é que Thiel cresceu dentro de uma sociedade profundamente desigual, beneficiando da posição privilegiada da população branca, e que essa experiência marcou a sua relação com autoridade, conformidade e liberdade individual.

A coincidência com Elon Musk
Thiel não é o único membro da chamada “PayPal Mafia” com uma infância ligada à África Austral.

Elon Musk cresceu na África do Sul e David Sacks nasceu em Cape Town. Roelof Botha, outro antigo executivo do PayPal, é neto de Pik Botha, ministro dos Negócios Estrangeiros do regime do apartheid.

O paralelismo chamou a atenção de jornalistas e historiadores precisamente porque alguns dos homens que viriam a adquirir enorme influência na tecnologia e na política norte-americanas foram formados, durante a infância ou juventude, dentro ou próximo de uma sociedade marcada por desigualdade extrema, segregação e uma profunda desconfiança em relação ao Estado e às instituições.
Palantir

Em 2003, Thiel, Alex Karp e outros associados criaram a Palantir Technologies.

A empresa desenvolveu software capaz de integrar e analisar enormes quantidades de dados provenientes de diferentes fontes.

O princípio é relativamente simples de explicar. Imagine milhares de bases de dados que normalmente não comunicam entre si: imigração, polícia, informação financeira, viagens, comunicações, empresas, mapas, redes sociais ou registos governamentais.

A tecnologia da Palantir permite juntar essas informações e encontrar relações, padrões e ligações que seriam difíceis de identificar manualmente.

É uma ferramenta extremamente poderosa. E é precisamente isso que está no centro da controvérsia.

A Palantir trabalha com governos, forças armadas, serviços de inteligência, empresas e sistemas de saúde. Entre os seus clientes estão instituições norte-americanas e europeias.

A empresa tornou-se particularmente importante nos setores da defesa e segurança.

O nome, aliás, vem de O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien: os palantíri eram pedras que permitiam ver acontecimentos e pessoas a grande distância.

Peter Thiel não é o CEO da Palantir
Apesar de Peter Thiel ser frequentemente apresentado como a figura por trás da Palantir, não é ele quem dirige a empresa no dia a dia. Thiel é cofundador e chairman. O CEO é Alex Karp.

E compreender Karp é importante porque a Palantir não é apenas uma empresa criada por Thiel que entretanto ficou entregue a outra pessoa. Karp tem uma visão própria e bastante explícita sobre a relação entre tecnologia, poder e segurança nacional.

Em 2026, essa visão tornou-se particularmente evidente com a publicação de The Technological Republic, o livro de Karp.

O livro começa com uma frase reveladora: “Silicon Valley perdeu-se.”

Karp argumenta que a indústria tecnológica norte-americana se afastou das necessidades estratégicas dos Estados Unidos e que Silicon Valley deveria voltar a trabalhar mais directamente com o Estado, sobretudo em áreas como defesa, inteligência e segurança.

A própria Palantir publicou posteriormente um resumo do livro organizado em 22 teses, num texto que assumia claramente um tom político e geopolítico.

E uma das ideias centrais é particularmente significativa: a inteligência artificial está a transformar a própria natureza da guerra.

Num manifesto publicado pela empresa, a Palantir defende que está a começar uma nova era de dissuasão militar baseada em inteligência artificial.

A pergunta, segundo o documento, já não é se serão construídas armas de IA. É quem as construirá e com que finalidade.

Karp defende, assim, uma relação muito mais próxima entre Silicon Valley e o aparelho de defesa norte-americano.

A Palantir chega a afirmar que a indústria tecnológica tem uma “dívida moral” para com o país que tornou possível a sua ascensão e que Silicon Valley deveria ir além das aplicações para consumidores e contribuir directamente para o crescimento económico e a segurança nacional.

Esta posição ajuda a explicar por que razão Karp é tão vocal na defesa da utilização de inteligência artificial em operações militares.

Tecnologia ou infraestrutura de poder?
A Palantir desenvolve sistemas capazes de juntar enormes quantidades de informação provenientes de fontes diferentes – imagens de câmaras, redes sociais, dados públicos, registos policiais, drones e outras bases de dados – e transforma-as em informação utilizável para investigação ou tomada de decisões.

Para os defensores da empresa, isto permite que governos e forças militares tomem decisões mais rápidas e informadas.

Para os críticos, significa outra coisa: a criação de uma infraestrutura tecnológica que pode tornar a vigilância, a identificação de pessoas e a utilização militar de dados muito mais poderosas.

O debate tornou-se ainda mais intenso porque os clientes da Palantir incluem precisamente algumas das instituições com maior capacidade coerciva do Estado. Nos Estados Unidos, a empresa trabalha com o Pentágono, a CIA e o ICE. Na Europa, os seus sistemas também são utilizados por forças policiais e outras autoridades.

E existe uma diferença fundamental entre dizer que uma empresa fornece uma ferramenta e perguntar o que essa ferramenta permite fazer quando colocada nas mãos de um Estado.

A Palantir responde que o software não toma sozinho decisões políticas ou militares. Mas essa defesa não elimina a questão mais ampla: quanto mais poderosa for a ferramenta, mais importante se torna saber quem decide como utilizá-la.

É por isso que a posição de Karp é tão relevante para compreender a Palantir.

Ele não apresenta a empresa como uma simples fornecedora neutra de software. Apresenta-a como parte de uma transformação mais profunda na relação entre tecnologia, Estado e poder militar. E isso aproxima, de forma bastante evidente, a Palantir do universo político e intelectual de Peter Thiel.
Da inteligência artificial à vigilância

A controvérsia tornou-se particularmente forte na Europa. No Reino Unido, a Palantir tem um contrato de cerca de 330 milhões de libras e sete anos com o NHS, o sistema público de saúde britânico, para desenvolver a Federated Data Platform. A plataforma pretende ligar diferentes conjuntos de dados do NHS e melhorar a gestão dos serviços.

Para os defensores, é precisamente o tipo de tecnologia que pode tornar um sistema gigantesco mais eficiente.

Para os críticos, a questão é outra: deverá uma empresa tecnológica norte-americana, com fortes ligações ao setor militar e de inteligência dos EUA, ocupar uma posição tão importante na infraestrutura digital de um serviço público europeu?

Em 2026, a pressão aumentou. Parlamentares britânicos passaram a defender que o contrato deveria ser abandonado, enquanto o Governo britânico iniciou uma revisão do acordo e pondera utilizar uma cláusula que permitiria terminar o contrato em 2027.

O problema não é apenas a privacidade. É também a soberania tecnológica.

Se um país depende de uma empresa estrangeira para uma parte crítica da sua infraestrutura digital, quem controla realmente essa infraestrutura? Essa pergunta tornou-se particularmente importante na Europa desde o regresso da guerra à Europa e o aumento das tensões entre os EUA e os seus aliados.

A Europa procura alternativas à Palantir
A Europa começou a procurar alternativas próprias. Em França, a agência de segurança interna DGSI escolheu a empresa francesa ChapsVision para substituir progressivamente a Palantir. A decisão foi apresentada pelo Governo francês como parte de uma estratégia de soberania tecnológica.

A ChapsVision é uma empresa relativamente pequena comparada com a Palantir, mas está a tentar ocupar precisamente esse espaço: integração de dados, inteligência artificial, investigação e segurança.

A Palantir tinha sido utilizada pelos serviços franceses desde os atentados terroristas de 2015. Agora, França quer demonstrar que pode construir uma alternativa europeia. E não está sozinha.

A Alemanha, os Países Baixos, a Suíça, a Dinamarca e outros países têm debatido a dependência de tecnologias norte-americanas. O secretário de Estado neerlandês da Defesa afirmou em 2026 que deveria existir uma alternativa plenamente funcional à Palantir num prazo de dois anos.

A própria discussão já criou um novo mercado: “o Palantir europeu”. ChapsVision é provavelmente o candidato mais evidente neste momento, embora empresas como Quantexa, Adarga, DataWalk, Ripjar e Siren também sejam apontadas como alternativas em diferentes áreas.

Thiel quer muito mais do que tecnologia
Para perceber Peter Thiel é preciso sair do mundo empresarial. Thiel tem uma visão política e filosófica muito própria.

É associado ao libertarianismo tecnológico (“tecno-libertarianismo”), embora as suas ideias sejam mais radicais do que o libertarianismo económico tradicional.

Uma das suas frases mais conhecidas surgiu num ensaio de 2009: “I no longer believe that freedom and democracy are compatible.”

Thiel argumenta que as democracias tendem a criar maiorias políticas que podem limitar a liberdade individual, enquanto o capitalismo e a inovação tecnológica podem ser travados por regulamentação.

Isto é relevante para se compreender o fascínio de Thiel por experiências que procuram criar espaços onde as regras sejam diferentes. É aqui que se entra em Próspera.

Próspera: a “cidade tecnológica” de Peter Thiel

Imagine poder construir uma cidade praticamente do zero. Agora imagine que, em vez de estar sujeita às mesmas regras fiscais, regulatórias e administrativas do país onde se encontra, essa cidade dispõe de uma enorme autonomia. Essa é, em termos simplificados, a ideia por trás de Próspera, na ilha de Roatán, nas Honduras.

Próspera é uma ZEDE – Zona de Emprego e Desenvolvimento Económico. O projeto nasceu no contexto de uma legislação hondurenha que permitia a criação de zonas com elevado grau de autonomia. A ideia era criar uma espécie de “startup city”: um laboratório onde novas formas de governação, tributação, regulação e tecnologia pudessem ser testadas.

Próspera possui um sistema jurídico e regulatório próprio, utiliza mecanismos privados de arbitragem e foi concebida para atrair empreendedores e investidores internacionais.

E aqui entra o dinheiro do Silicon Valley. Próspera recebeu financiamento de investidores ligados a figuras como Peter Thiel, Sam Altman e Marc Andreessen. A própria empresa responsável pelo projeto afirma ter captado mais de 120 milhões de dólares junto de quase 100 investidores; outras reportagens apontam para valores próximos dos 200 milhões.

Não é correto, contudo, dizer que Peter Thiel “é dono de Próspera”. A estrutura é mais complexa e a composição exata dos investidores privados não é totalmente pública. O que é indiscutível é que Thiel está ligado ao ecossistema financeiro e ideológico que apoiou o projeto. [Fonte]

domingo, 20 de setembro de 2026

NECRØ - Cold Cut


Nascidos no underground lisboeta pela mão de João Vairinhos e Sara Inglês, os NECRØ afirmaram-se como uma das propostas mais singulares da música eletrónica obscura em Portugal. Movimentando-se no cruzamento entre a Darkwave, a Coldwave, o Darksynth e o EBM, o duo constrói um universo sonoro denso e hipnótico, sustentado por sintetizadores pesados, pulsões industriais e uma interpretação vocal soturna que oscila entre o mistério e a desolação.

No tema "Cold Cut", peça central do seu álbum de estreia Into Oblivion, a banda mergulha nas mecânicas da alienação urbana e na insensibilidade emocional. A canção não procura consolo; retrata o choque entre o desejo de ligação humana e a necessidade de anestesia perante a dor diária. Imagens líricas como "shake the void with a cold cut" ou "fall on glass" desenham a sensação de paralisia e o refúgio num torpor contínuo, onde o indivíduo se torna incapaz de sentir. Essa mesma atmosfera traduz-se no videoclipe de "Cold Cut", concebido e realizado por Sara Inglês. Através de uma iluminação estroboscópica, jogos de sombras e uma linguagem visual claustrofóbica, o vídeo explora a desassociação e a perda de identidade, transformando a tela num purgatório visual onde as figuras parecem mover-se entre a realidade e a ilusão.

Por trás desta sonoridade crua habita uma densa camada conceitual que cruza o existencialismo filosófico e o ocultismo moderno. Mais do que usar o esoterismo como um adereço estético, os NECRØ empregam-no como uma lente para examinar a psique humana. A morte surge nas suas composições não como um fim biológico, mas como a "dissolução do Eu" - a transição dolorosa para a apatia absoluta. O próprio "vazio" recorrente na sua obra aproxima-se do Abismo hermético, um espaço de origem e esquecimento para onde a mente alienada inevitavelmente descamba.

A nível estético e musical, o duo rejeita os clichés visuais do género, optando por um minimalismo frio e geométrico que sugere uma ordem cósmica indiferente ao sofrimento individual. A própria estrutura repetitiva e incisiva das suas batidas eletrónicas funciona como um ritual profano contemporâneo: um transe mecânico concebido para desarmar o ouvinte, confrontá-lo com a sua própria finitude e conduzi-lo à aceitação da transcendência através do esquecimento.

Ação climática e combate à poluição podem gerar 15 dólares por cada dólar investido

As alterações climáticas e a poluição atmosférica estão interligadas

O estudo, divulgado no Dia Internacional do Ar Limpo por um Céu Azul, é a primeira avaliação económica global abrangente dos benefícios de adotar medidas integradas para combater as alterações climáticas e melhorar a qualidade do ar.

Investir simultaneamente no combate às alterações climáticas e à poluição atmosférica poderá gerar cerca de 15 dólares (cerca de 12,8 euros) em benefícios económicos por cada dólar investido, segundo um novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA) e da Climate and Clean Air Coalition (CCAC).

Segundo o relatório, as 25 medidas analisadas poderão gerar benefícios económicos anuais equivalentes a 2,8% do PIB mundial em 2035, 4,5% em 2050 e 11,4% em 2100. Estes ganhos incluem a redução das despesas de saúde, o aumento da produtividade e a diminuição dos custos associados aos danos provocados pelas alterações climáticas.

Mesmo excluindo os benefícios relacionados com o bem-estar e outros ganhos não diretamente refletidos no mercado, as medidas analisadas deverão gerar cerca de quatro dólares por cada dólar investido.

“Durante demasiado tempo, tratámos a ação climática como um custo a gerir e a poluição atmosférica como o resultado infeliz do desenvolvimento. Este relatório mostra o contrário: o ar limpo é um motor fundamental do desenvolvimento, da saúde, da segurança alimentar e energética e da estabilidade climática – um ativo no qual temos de investir”, afirma Inger Andersen, diretora-executiva do PNUA.

A responsável sublinha que já existem soluções comprovadas, mas que falta “uma liderança decisiva por parte dos governos, das instituições financeiras e das empresas” para as implementar com a rapidez e coordenação necessárias.

Cada ano de atraso custa 1,5 biliões de dólares
O relatório estima que cada ano de atraso na implementação das medidas represente uma perda de mais de 1,5 biliões de dólares em benefícios económicos, equivalente a cerca de 0,5% do PIB mundial.

“Um rácio benefício-custo de 15 para 1 atrairia capital instantaneamente em praticamente qualquer outro sector”, considera Elliott Harris, copresidente independente da avaliação.

Segundo o especialista, uma das razões pelas quais este investimento ainda não acontece à escala necessária é o facto de os benefícios estarem distribuídos por diferentes áreas, como os sistemas de saúde, a produtividade e a redução dos danos climáticos.

“Cada ano de atraso custa ao mundo mais de 1,5 biliões de dólares em benefícios que não vamos recuperar”, alerta.

Poluição do ar provoca milhões de mortes prematuras
Os benefícios económicos identificados incluem a redução das despesas de saúde, ganhos de produtividade e a diminuição dos danos materiais, mas também o valor económico associado à redução das mortes prematuras e à melhoria da saúde.

Em 2025, a exposição à poluição atmosférica exterior provocada por atividades humanas, nomeadamente partículas PM2,5 e ozono, esteve associada a cerca de 6,4 milhões de mortes prematuras em todo o mundo. A poluição do ar dentro das habitações terá provocado mais dois milhões de mortes prematuras, incluindo cerca de 300 mil crianças.

O relatório contabiliza ainda os efeitos económicos das doenças relacionadas com a poluição atmosférica, incluindo a pressão sobre os sistemas de saúde, as perdas de produtividade e os impactos no bem-estar.

Só em 2025, a poluição exterior terá contribuído para 5,5 milhões de novos casos de asma infantil, dois milhões de novos casos de demência e milhões de casos de enfarte, doenças pulmonares, diabetes, acidente vascular cerebral e cancro do pulmão.

25 medidas em seis setores
As medidas analisadas abrangem seis grandes sectores: energia e sistemas associados aos combustíveis fósseis, indústria, transportes, agricultura e sistemas alimentares, cozinhar e aquecer as habitações e gestão de resíduos.

Entre as propostas estão o reforço das energias renováveis e da eficiência energética, a expansão de soluções de cozinha e aquecimento limpas, normas mais exigentes para as emissões e eficiência dos veículos, a promoção dos veículos elétricos e a utilização de combustíveis com baixo teor de enxofre no transporte marítimo.

O pacote inclui ainda medidas para reduzir as fugas de petróleo e gás, melhorar a gestão de gado e estrume, aumentar a eficiência na utilização de fertilizantes, adotar práticas agrícolas mais eficientes, reduzir a queima de resíduos agrícolas e melhorar a gestão de resíduos sólidos e águas residuais.

A redução progressiva dos hidrofluorocarbonetos (HFC) e o combate às emissões de metano e carbono negro fazem igualmente parte da estratégia.

Se forem plenamente implementadas, as 25 medidas poderão evitar cumulativamente 144 milhões de mortes prematuras relacionadas com a poluição atmosférica até 2050, incluindo 96 milhões associadas exclusivamente à poluição do ar exterior.

Menos emissões e menos aquecimento global
A implementação imediata das medidas permitiria reduzir para metade as emissões globais de dióxido de carbono até 2050, face ao cenário de referência utilizado no relatório. As emissões de metano poderiam diminuir 60% e os principais poluentes atmosféricos, incluindo carbono negro, dióxido de enxofre e óxidos de azoto, cerca de 70%.

As medidas permitiriam ainda evitar aproximadamente 0,34 ºC de aquecimento global até 2050 e 1,4 ºC até 2100. Em muitas regiões, onde as temperaturas terrestres aumentam mais rapidamente do que a média global, o aquecimento evitado poderá atingir entre 1,5 e 2 ºC até ao final do século.

“Este relatório apresenta a evidência mais rigorosa até à data de que tratar as alterações climáticas e a poluição atmosférica como problemas separados leva-nos a subestimar os benefícios de combater qualquer um deles”, afirma Simon Dietz, copresidente da avaliação e professor de Política Ambiental na London School of Economics.

Segundo o investigador, quando os dois problemas são analisados em conjunto, “os retornos foram maiores do que os que cada um poderia mostrar isoladamente”, uma vez que as mesmas fontes, sectores e políticas estão frequentemente na origem de ambos.

Barreiras podem atrasar implementação
Apesar dos benefícios identificados, o relatório aponta vários obstáculos à implementação das medidas, nomeadamente processos de decisão fragmentados, capacidade limitada de fiscalização e fraca coordenação entre governos.

No conjunto, estas barreiras poderão atrasar quase oito anos a implementação integral das medidas à escala mundial. O relatório defende, por isso, um planeamento integrado das políticas climáticas, de qualidade do ar, saúde e economia, instituições e mecanismos de fiscalização mais fortes e uma melhor articulação entre financiamento público e privado.

Segundo a avaliação, a adoção de incentivos fiscais e regulamentação que permitam ao sector privado implementar tecnologias simultaneamente rentáveis e capazes de reduzir emissões poderá acelerar a transição e desbloquear até 10 biliões de dólares em benefícios adicionais para a saúde até 2040.

Como o Cartaxo-Nortenho Deixou de Reproduzir-se em Portugal (e a Culpa É Nossa)

«Pelo Entrudo, cartaxo penudo», ditava a antiga sabedoria popular das nossas serras. O adágio assinalava o despertador da primavera através do cartaxo-comum (Saxicola rubicola), a ave residente que ainda hoje canta no topo dos arbustos em pleno inverno. No entanto, o provérbio evoca um ecossistema rural e pastoril que está a ruir - e o reflexo mais trágico desse colapso não é a perda do ditado, mas o desaparecimento silencioso do seu parente mais raro: o cartaxo-nortenho (Saxicola rubetra). Sim, a espécie já foi uma ave reprodutora no nosso país e hoje está praticamente extinta como tal.

A afirmação soa a um pequeno detalhe ornitológico, irrelevante para a azáfama dos dias, mas é um lembrete ecológico brutal. É um dos muitos sinais dos tempos que teimamos em ignorar, reflexo direto da nossa profunda dificuldade cultural em interiorizar o conceito de wilderness - a vida selvagem na sua escala livre, não moldada pela conveniência humana - e em compreender que, na teia da biodiversidade, tudo está rigorosamente interligado.

Num país onde não faltam causas e lutas nobres a reclamar atenção - da vitalidade da cultura e do teatro às pontes geopolíticas da CPLP -, a defesa do património biológico continua remetida para uma periferia menor. Quando surge na agenda pública, surge quase sempre enviesada por interesses imbecis, vista como um obstáculo ao desenvolvimento económico ou como um capricho contemplativo. Estruturalmente, somos um país materialista: medimos o valor da terra pelo betão que suporta ou pela madeira rápida que dela se extrai, incapazes de atribuir valor ao que não se traduz em rendimento imediato.

A extinção funcional do cartaxo-nortenho como reprodutor nas nossas montanhas não foi um acidente de percurso; foi o resultado previsível dessa visão tacanha do território.

A biologia da espécie carrega consigo o seu próprio calcanhar de Aquiles: ao contrário de tantas outras aves que procuram a proteção das copas das árvores ou o abrigo inacessível das rochas, o cartaxo-nortenho nidifica exclusivamente no chão. Escondido entre as touceiras de relva e a vegetação rasteira dos prados húmidos de altitude, o ninho depende em absoluto da integridade e do mosaico vegetativo da montanha.

Foi precisamente essa estrutura que a intervenção humana estilhaçou nas serras do Norte. Primeiro, através da monocultura florestal: a conversão dos prados abertos em manchas densas de pinhal e eucaliptal fechou a paisagem e destruiu o habitat de caça e nidificação. Depois, com o declínio e abandono do pastoreio extensivo tradicional, que mantinha os prados abertos, permitindo que a vegetação evoluísse para matos densos e contínuos. Por fim, a praga dos incêndios recorrentes que fustigam ciclicamente as terras altas, destruindo as posturas em plena época de reprodução.

Estamos em setembro. Precisamente agora, enquanto lê estas linhas, milhares destas aves atravessam o nosso país de norte a sul. Mas não se iluda: os indivíduos que neste mês de setembro pousam nas vedações do Cabo de São Vicente ou nos arbustos da Ria de Alvor não são os herdeiros das nossas serras. São migradores vindos do centro e norte da Europa que usam o nosso território como mero posto de abastecimento na sua épica travessia rumo à África subsariana.

O desaparecimento do cartaxo-nortenho enquanto reprodutor dos nossos picos não é apenas a perda de uma ave; é o sintoma acabado de um país que continua sem saber conviver com a sua própria natureza nem valorizar os ecossistemas de montanha que herdou.

sábado, 19 de setembro de 2026

The Secret French Postcards - Blush

Melhor som aqui

«Escondidos Atrás do Nosso Próprio Disfarce» - Os The Secret French Postcards Protegem Corações Partidos No Vídeo de «Blush»

Originários da cidade de Jönköping, na Suécia, a banda The Secret French Postcards foi fundada em 2016 pelo músico Olli Ohlander e consolidou-se como uma das referências escandinavas do post-punk, da darkwave e do synth-rock de inspiração oitentista. O próprio nome do grupo carrega uma herança do romantismo obscuro e erótico do século XIX, tendo sido diretamente inspirado por um leilão de antigos postais e fotografias eróticas clandestinas da era Art Déco. Essa estética retrô, misteriosa e ligeiramente proibida serve como fundação visual e narrativa para a identidade da banda.

A canção Blush exemplifica com precisão o universo concetual do grupo. O tema central da faixa gravita em torno do isolamento e da perda da vulnerabilidade emocional em resposta às desilusões da vida. O título faz referência direta ao ato de corar - o rubor involuntário nas bochechas que sinaliza timidez, paixão e ingenuidade. Na narrativa da canção, essa inocência é destruída e substituída por uma carcaça emocional rígida, onde o indivíduo passa a viver escondido sob a sua própria dissimulação. A lírica contrasta a comédia social e a tentativa de manter as aparências exteriores com o colapso interno de um coração partido.

Esta dinâmica relaciona-se profundamente com correntes filosóficas e literárias como o existencialismo e a psicologia analítica. A música aborda a condição do ser humano isolado num mundo próprio, paralisado pela ansiedade e pela constatação de que a vida em sociedade pode transformar-se num ato teatral de inautenticidade. Esse comportamento reflete diretamente o conceito de má-fé teorizado por Jean-Paul Sartre, em que se adota uma postura fingida para fugir à angústia da realidade, assim como a teoria da Persona de Carl Jung, onde a máscara social concebida para proteção acaba por aprisionar a essência do indivíduo.

Filmado numa estética estilizada de film noir em preto e branco, o vídeo utiliza elementos visuais simbólicos como máscaras flutuantes, espelhos e reflexos em janelas para espelhar a temática dos disfarces e do isolamento interior.

No âmbito musical, embora mantenha a estrutura característica da coldwave e do indie rock noturno - lembrando nomes como The Cure, She Past Away e The Church -, a banda introduz nuances distintas na sua sonoridade recente. O elemento mais surpreendente na composição de Blush é a presença subtil de uma harmónica com influências de blues ao fundo do arranjo, um instrumento atípico para o género sintetizado europeu. Combinado com o vocal aveludado no estilo crooner de Olli Ohlander e uma mixagem espacial e cristalina que dá destaque a linhas de baixo marcantes e guitarras límpidas, o grupo consegue equilibrar a frieza melancólica do post-punk clássico com um calor orgânico e altamente acessível.

A praga dos amontoados de pedras na Torre: tradição das mariolas ou destruição do Parque Natural?


Recentemente o Pedro Sarda viajou com os seus filhos até à “Torre”, o ponto mais alto de Portugal Continental. Já não ia à Torre há bastante tempo. Partilho a sua indignação.
"No essencial não tinha mudado assim tanto desde a minha última visita ao mesmo local. 
No entanto desta vez fui confrontado com um espectáculo verdadeiramente decadente. Ao que parece virou moda amontoar pedrinhas em montes simulando as chamadas “mariolas”. 
As mariolas originais têm um contexto, uma história e sobretudo uma finalidade. 
As chamadas mariolas eram (talvez cada vez menos) “marcas” deixadas na paisagem, habitualmente por pastores, com a finalidade de marcar o caminho. 
Esses pequenos amontoados de pedras eram colocados em locais estratégicos para que quem fosse a caminhar pudesse ter noção da direcção certa a seguir, em particular em períodos de fraca visibilidade. 
A “modinha” de começar a amontoar pedras só porque alguém se lembrou que é giro, ou só porque “sim”, não só não tem qualquer finalidade como tem até diversos impactos negativos. 
Desde logo, o mais evidente, para quem tiver o mínimo de sensibilidade, é o paisagístico. O cenário era em pouco ou nada diferente de uma autêntico cemitério. Aqueles amontoados de calhaus pareciam verdadeiramente sepulturas. O que, pode-se afirmar, até faz um pouco sentido já que ali parecia “jazer” o que outrora era uma paisagem relativamente natural. 
Por isso a meu ver a designação mais adequada não é de “mariolas” mas neste caso de “merdiolas”. Suponho que se nota o tom demasiado “irritado” nas minhas palavras o que se deve justamente a estar... profundamente irritado. 
Nas proximidades da entrada para uma das galerias de lojas com Produtos Regionais encontrei um autocolante bastante discreto onde se apelava ao bom senso dos visitantes (apelar ao bom senso em Portugal?) justamente no sentido de não adoptarem essa prática. As razões (impactos negativos da remoção das pedras do solo) transcritas no “aviso” eram: 
- Deixa o solo exposto a ventos fortes, evaporação e erosão 
- Desprotege a vegetação do vento e do solo  
- Modifica o habitate da fauna endémica 
- Altera o equilíbrio ecológico de habitats e paisagens protegidas (convém não esquecer que estamos neste caso a falar de um Parque Natural)
- Deixa uma profunda marca humana na paisagem natural 
- O equilíbrio precário dos amontoados torna-os perigosos para animais ou crianças que deles se aproximem. 
- As “mariolas” (pequenos amontoados de pedras) têm, em ambiente de montanha, a função tradicional de marcar a direcção correcta em caminhos pedestres. Reproduzi-las aleatoriamente inutiliza a função essencial das originais. 
Como mencionei o autocolante era efectivamente bastante discreto. Ainda assim, creio que mesmo com um autocolante mais visível ou até um cartaz o resultado não seria assim tão substancialmente diferente. Face à dimensão da estupidez e parolice “humanas” suponho que só medidas mais radicais têm a capacidade de surtir algum efeito. 
Um amigo do Sabugal (relativamente próximo da Torre), quando partilhava com ele a minha indignação perante aquele cenário decepcionante, contou-me que algumas escolas de Seia, creio, desenvolveram uma acção de sensibilização com os alunos na qual procederam á remoção de vários desses amontoados tentando repor a paisagem natural e sensibilizando obviamente para o problema. 
Não sei exactamente quando é que decorreu a acção mas entretanto muitas hordas de turistas terão passado pela torre fazendo questão de deixar a sua “assinatura” pindérica. 
Também os meus filhos, quando chocados com o panorama, derrubaram alguns dos pequenos mamarrachos mas ainda foram criticados por uns parolos, por sinal franceses, que devem ter um apurado sentido de gosto artístico assim como um ainda maior conhecimento das coisas do mundo natural. Provavelmente terão também lá deixado a sua Torre Eifel feita de calhaus. (Parece que a estupidez é mesmo das coisas mais universais que existem). 
De qualquer forma, mais do que esta triste situação em particular, acredito que a situação está bastante para além desta situação em específico e que se prende com questões porventura mais profundas e diria até... filosóficas. 
O Toque de Tânatos porque parece que onde quer que o ser humano chegue, faz questão de onde toca... o transformar em Merda. Por outras palavras, faz questão de estragar. Uma realidade ou “fenómeno” que tende a ser tanto mais provável quanto mais animais da espécie humana chegarem a determinado local. Como se não bastasse...parece que tudo o que basta para começar uma qualquer moda estúpida, com impacto para os habitats locais, é... simplesmente alguém começar. Depois com a banalização das redes sociais e afins é uma questão de tempo (muito pouco tempo) até se espalhar como um vírus. 
É importante falar das redes sociais pois, ao que parece, os “artistas” (pimba) fazem questão de “postar” com todo o orgulho as suas “obras de arte”. 
Este é um daqueles momentos em que o meu desencantamento com a espécie humana é de tal ordem que invejo Thoreau que decidiu isolar-se numa cabana no bosque. (o livro é Walden ou a Vida nos Bosques de Henry David Thoreau).
Creio que, no que a esta questão diz respeito (assim bem como a muitas outras), não se pode esperar que subitamente as criaturas que seguem a “modinha” dos montes de calhaus adquiram consciência e deixem de o fazer. 
Pelo que percebi, a Torre é um território muito particular administrado de forma conjunta por vários municípios da região (vem-me, assim à cabeça, Seia, Manteigas...). Parece-me fundamental a colocação no local de placas de considerável dimensão a dissuadir da prática em questão. Como provavelmente não será o suficiente, creio que faria todo o sentido a afectação de um pequeno corpo de “Guardas” responsáveis por zelar pelo espaço, nomeadamente proibindo determinantemente a prática. No caso de simples presença dos Guardas não ser suficiente, creio que é um daqueles casos em que passar multa se justifica plenamente e é na verdade necessário. Por vezes é esse o único local onde doí verdadeiramente aos portugueses: no bolso!!!"


Administração Trump reduz proteção de espécies ameaçadas


O governo norte-americano reduziu o alcance das proteções a espécies ameaçadas, estabelecendo que a morte acidental de animais protegidos não será mais considerada ilegal, segundo um memorando governamental divulgado pela organização Center for Biological Diversity.

O documento, datado de 14 de setembro, cuja autenticidade foi confirmada à agência de notícias AFP, redefine o conceito de ‘captura’ (‘take’), um termo jurídico que abrange atos como perseguir, matar ou capturar uma espécie.

Com esta nova diretriz, as mortes colaterais provocadas por atividades industriais e económicas de grande escala, como a exploração madeireira, a navegação comercial, a mineração, a perfuração de petróleo e a construção de barragens, deixam de constituir uma violação da lei federal americana. O próprio documento oficial exemplifica que incidentes como a colisão acidental de navios com baleias ameaçadas de extinção ou o abate de árvores que sirvam de habitat a morcegos protegidos já não serão tratados como crimes ambientais, desde que o objetivo principal da atividade não tenha sido visar o animal. 

“Um navio que atinge acidentalmente uma baleia não a ‘capturou’, uma vez que a trajetória não foi direcionada contra a baleia”, refere o documento, citando o falecido juiz conservador do Tribunal Supremo dos Estados Unidos de América, Antonin Scalia.

“Derrubar uma árvore não constitui uma ‘captura’ dos morcegos que nela se abrigam, a menos que a árvore seja derrubada com o objetivo de matá-los ou capturá-los”, acrescenta.

O texto é assinado por Brian Nesvik, diretor da agência federal responsável pela preservação da vida selvagem nos Estados Unidos, United States Fish and Wildlife Service (FWS).

O departamento responsável pela gestão de terras federais, ao qual a agência está vinculada, confirmou à AFP a autenticidade do documento.

“Este memorando reflete fielmente as diretrizes” da agência “sobre a aplicação da Lei de Espécies Ameaçadas após a adoção da regra definitiva que elimina a definição regulatória do termo ‘prejuízo'”, indica o texto.

Como seria de esperar, esta decisão gerou uma onda imediata de contestação por parte de várias organizações de defesa do ambiente. Brett Hartl, diretor de assuntos governamentais do Center for Biological Diversity, criticou duramente a medida, afirmando que a mesma ataca o coração da lei ao dar uma aprovação federal à destruição da biodiversidade. Em termos semelhantes, o NRDC (Natural Resources Defense Council) alertou que esta alteração jurídica retira qualquer incentivo financeiro e legal que as empresas privadas tinham até agora para mitigar riscos, planear com cautela e evitar a morte de animais em risco crítico de extinção.