segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Governo paga 20 mil euros para ter SportTV em São Bento - uma atitude sem noção e insensível, típico de narcisistas


Ser confrontado com a notícia de que o Governo de Luís Montenegro decidiu gastar cerca de 20 mil euros para instalar o canal Sport TV na residência oficial do Primeiro Ministro e no Parlamento nesta altura do país é, no mínimo, um sinal de desfasamento profundo entre o que este executivo escolhe como prioridade e aquilo que os cidadãos realmente vivem.
Este contrato de três anos, celebrado por ajuste direto com a NOS, garante acesso ‘premium’ a canais desportivos que transmitem futebol, incluindo a liga portuguesa e competições europeias, e será pago com dinheiro público até 2028 — um montante que se justifica facilmente, mas que politicamente soa a falta de empatia e sentido de realidade face ao sofrimento de quem perdeu casa, energia ou meios de subsistência na sequência das tempestades. 
Não é a questão do valor — 20 mil euros não vão desestabilizar um Orçamento do Estado — é a hierarquia de prioridades que está em causa 
Quando o Governo admite défices para cobrir os apoios às vítimas das calamidades, quando milhares aguardam apoios urgentes e quando a própria resposta estatal foi lenta e insuficiente em muitas regiões, optar por gastar dinheiro dos contribuintes em canais desportivos para o Primeiro Ministro e para o Parlamento é uma demonstração flagrante de falta de noção sobre as expectativas e necessidades do país Esta decisão transmite uma mensagem implícita de desconexão social: enquanto cidadãos lutam com as consequências de uma catástrofe natural, o executivo parece mais preocupado com entretenimento institucional do que com a eficácia da resposta à crise. 
 A incapacidade de priorizar o essencial reflete, sobretudo, uma falta de empatia que não combina com responsabilidade governativa séria. 

A graciosidade efémera nas nossas cidades


Foto do meu amigo Nuno Pimenta

Grace amidst the grind

"One gaze follows the path ahead,
Tracing the lines where the sunlight is shed.
The other lingers, a quiet surprise,
With the world’s hidden mischief caught in her eyes.

Between the stone walls and the crowd's muffled roar,
Is a secret shared, then a moment more.
Amidst the grind, two women remain in a soft, steady light
The heart of the city, looking back at you. " 
João Soares, 13.02.206

Sobre os efeitos negativos da gentrificação aqui e aqui

Pia Erlandsson - uma pintora singular

Under Trädet - Debaixo da Árvore (2013)

Pia Erlandsson (pintora Sueca, nascida em 1961)

Estilo e Temas
O trabalho de Erlandsson é frequentemente descrito como etéreo e focado na figura humana.

Temas:  as suas obras retratam principalmente pessoas, buscando transmitir emoções universais e diferentes estados da mente humana.

Estilo: ela explora a tensão e a harmonia entre cores, formas, luz e sombra. Os seus fundos são muitas vezes abstratos, permitindo que o espectador crie seu próprio espaço interpretativo. Para a artista, a pintura é uma narrativa onde cores e formas funcionam como "palavras". 

A indefinição dos rostos é a "assinatura" emocional de Pia Erlandsson. Essa técnica confere um aspecto onírico (parecido com um sonho) às obras. Em nossos sonhos e memórias, raramente lembramos de rostos com nitidez fotográfica; lembramos da "sensação" da presença da pessoa. A figura deixa de ser "uma pessoa específica" e passa a ser um "sentimento humano". Ou seja, com o rosto esfumado ou inacabado, o foco muda para a postura, a luz e a cor, que comunicam o estado emocional — como a introspecção, a alegria, conexão humana, conexão ecológica, a dúvida ou a solidão. 

Técnicas:
Pia Erlandsson é amplamente reconhecida pelo seu trabalho com aquarela, mas diversificou sua produção nos últimos anos:
Aquarela: é sua técnica principal, onde ela aproveita a imprevisibilidade do pigmento e da água no papel.
Acrílica e óleo: começou a trabalhar com estas técnicas mais recentemente, aplicando-as em telas (muitas vezes de grandes dimensões).


Esta obra de Pia Erlandsson é intitulada "Beslut"- 2014 (que em sueco significa "Decisão").

O que a obra transmite?
Pia Erlandsson é mestre em capturar o que ela chama de "estados da mente", e "Beslut" é um exemplo perfeito disso:

Dilema interno: a presença de múltiplas figuras (ou versões da mesma figura) sugere o processo mental de uma tomada de decisão. As diferentes direções dos olhares e as inclinações das cabeças representam a dúvida, a hesitação e a ponderação.
Melancolia e introspecção: o uso de contornos difusos e cores que "sangram" umas nas outras cria uma atmosfera onírica, quase fantasmagórica, sugerindo que estamos vendo um sentimento em vez de uma cena física real.
Conflito silencioso: Há um contraste entre a leveza da aquarela e o peso emocional nos rostos. A figura à direita, olhando para fora do grupo, parece representar o momento em que se escolhe um caminho diferente dos outros.
Fraturnidade ou solidão coletiva: As figuras estão próximas, mas não interagem entre si, transmitindo uma sensação de isolamento, mesmo quando acompanhadas.
É uma pintura que ressoa com quem já se sentiu "dividido" diante de uma escolha importante.

"Tre kvinnor" (Três Mulheres) 2016

Ao contrário das aquarelas anteriores, esta peça demonstra a transição da artista para o uso de acrílico sobre tela, o que resulta em texturas mais marcadas e cores mais saturadas.

O que a obra transmite?
Esta pintura explora a dinâmica das relações interpessoais e a individualidade dentro de um grupo:

Comunicação silenciosa: as três figuras femininas estão próximas, mas não há um contato visual direto óbvio entre todas. Isso evoca uma sensação de conversa interna ou de uma conexão que não precisa de palavras.
Contraste de personalidades: O uso das cores nas vestimentas (o vermelho vibrante, o branco puro e os tons mais escuros) pode ser interpretado como diferentes facetas de uma mesma psique ou temperamentos distintos que coexistem num mesmo espaço.
Presença e ausência: enquanto as figuras centrais e da esquerda parecem mais integradas, a figura à direita possui uma postura mais altiva e um olhar direcionado para cima, sugerindo aspiração, distanciamento ou uma busca por algo além do círculo imediato.
Luz e sombra: a iluminação dramática, vinda da esquerda, cria um jogo de sombras que dá profundidade e um ar de mistério à cena, característica marcante do trabalho de Erlandsson em óleo e acrílica.
É uma obra que transmite força feminina e uma certa solenidade, típica da forma como Pia retrata a figura humana como algo sagrado e introspectivo.

Black Swan Lane - Slip

I’ll never forget. 
What’s in your mind. 
It makes me blind. 
It makes me high. 
An infinite love. 

I cannot change. 
An infinite life. 
It makes me blind. 
It gets me high. 

Filmed in Turin, Manchester and Atlanta
Terry McGarry é a personagem principal do vídeo.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Vivaldi - "Apri le luci, e mira" por Roberta Mameli


"Apri le luci, e mira" é uma ária da ópera Catone in Utica (RV 705), composta por António Vivaldi com libreto de Pietro Metastasio. A ária aparece no Ato I, Cena 9 ou 10, dependendo da edição, e é frequentemente interpretada por sopranos, como Roberta Mameli, ou contra-tenores.

Mais informações aqui

Apri le luci

Apri le luci e mira
Il mio costante affetto
Per te il mio cor sospira
Per te il mio cor sospira, sospira
E non l'inten...
Intendi ancor

Apri le luci e mira
E mira il mio costante affetto
E mira il mio costante affetto
Per te il mio cor sospira
Per te il mio cor sospira
Costa...ante
Costa...ante

Apri le luci e mira
Il mio costante affetto
Per te il mio cor sospira
E non l'intendi ancor
E non l'intendi ancor

E in tacita favella
Co' soli miei sospiri
Ti scopro, oh Dio, la bella
Fia...amma che m'arde il cor

Ti scopro, oh Dio
La bella bella fia...amma
Oh Dio, co' miei sospiri
La bella bella fiamma
Che m'arde, m'arde il cor
Che m'arde, che m'arde il cor

Apri le luci
Apri le luci e mira
Il mio costante affetto
Per te il mio cor sospira
Per te il mio cor sospira, sospira
E non l'inten... intendi ancor

Apri le luci e mira
E mira il mio costante affetto
E mira il mio costante affetto
Per te il mio cor sospira
Per te il mio cor sospira
Costa...ante
Costa...ante

Apri le luci e mira
Il mio costante affetto
Per te il mio cor sospira
E non l'intendi ancor
E non l'intendi ancor

O Enredo e a Personagem
A ária é cantada por Arbace, o Príncipe da Numídia. Ele está profundamente apaixonado por Marzia, a filha de Catão (Cato), o Jovem. O conflito central da cena reside na lealdade dividida e no amor não correspondido:

A Situação: Arbace é um aliado fiel de Catão contra Júlio César. No entanto, Marzia, por quem ele é devoto, está secretamente apaixonada pelo inimigo de seu pai, César.

O Momento: A ária ocorre após um confronto onde Arbace tenta expressar os seus sentimentos ou a sua fidelidade, enfrentando a frieza ou a agitação de Marzia.

O Significado do Texto
O título traduz-se como "Abre os olhos e olha".

Apelo Emocional: Arbace pede a Marzia que olhe para ele e reconheça o sofrimento e a sinceridade do seu amor.

Contraste Dramático: A letra evoca a imagem de alguém que está a "morrer" de amor ou lealdade, implorando por um único gesto de compaixão ou reconhecimento antes do destino trágico que a guerra civil romana impõe a todos.

Características Musicais
Como é típico de Vivaldi, a música reflete o estado psicológico da personagem:

Estilo: é uma ária que mistura o virtuosismo técnico do barroco com uma linha melódica expressiva, destinada a mostrar a nobreza e a agonia de Arbace.

Instrumentação: o acompanhamento de cordas é vibrante, sublinhando a urgência do pedido "Apri le luci" (abre os olhos).

Encontros Improváveis: Véronique du Boisrouvray e Albert Camus

Véronique du Boisrouvray - La Médaille (2018)

Quando vi este quadro à minha frente, pensei logo em Albert Camus: "Todo o acto de rebeldia expressa uma nostalgia pela inocência e um apelo à essência do ser." 

A Condessa Véronique du Boisrouvray nasceu em Paris, em 1951.

É uma artista autodidata de pastel e retrato
Contexto: Oriunda de uma linhagem aristocrática, a sua vida é marcada pela discrição e pela dedicação total ao aperfeiçoamento da sua arte, sendo membro de honra de prestigiadas sociedades de pastellistas.

Estilo e Técnica
A obra de Boisrouvray é frequentemente descrita como Realismo Poético ou Hiper-realismo Suave.

A Técnica do Pastel: ela utiliza o pastel seco com uma precisão cirúrgica. Ao contrário de muitos artistas que procuram um efeito "esfumado" ou impressionista, Véronique trabalha as camadas para obter uma densidade de cor e uma textura que, à primeira vista, muitos confundem com pintura a óleo.

Luz e Sombra: A sua técnica foca-se no chiaroscuro (claro-escuro), onde a luz parece emanar de dentro dos objetos, conferindo-lhes uma qualidade quase sagrada ou eterna.

Precisão: Existe um rigor técnico extremo na representação das texturas — seja a transparência de um vidro, a suavidade de uma pétala ou a rugosidade de uma fruta.

Tema Principal
A artista foca-se no retrato.
Como explora o retrato?
A artista não se limita a reproduzir uma face; ela utiliza o pastel seco para construir uma presença física e psicológica:

A Técnica da Camada: ela sobrepõe inúmeras camadas de pigmento puro para criar a "carne" do rosto. Isso permite-lhe obter tonalidades de pele extremamente realistas, onde a luz parece estar sob a epiderme, e não apenas refletida nela.

O foco no detalhe tátil: Véronique dá a mesma importância à textura de um tecido (como a blusa em "La Médaille") ou ao brilho de um fio de cabelo do que aos traços fisionómicos. Isso cria uma sensação de proximidade quase íntima com o modelo.

Iluminação de Estúdio Clássica: ela utiliza frequentemente fundos neutros e escuros (estilo tenebrismo), o que isola o sujeito e força o observador a concentrar-se na expressão e na interioridade da pessoa retratada.

Qual é a mensagem?
A mensagem central da sua obra foca-se na dignidade do silêncio e na beleza da introspeção:

A pausa no Tempo: num mundo saturado de imagens rápidas e digitais, os seus retratos convidam à lentidão. A mensagem é que existe uma beleza profunda nos momentos comuns e silenciosos.

A humanidade singular: ao pintar modelos contemporâneos com uma técnica que remete aos grandes mestres do passado, ela transmite a ideia de que a dignidade humana é intemporal.

A Espiritualidade no quotidiano: Através do uso magistral da luz, a artista eleva o modelo a algo quase sagrado. A "mensagem" não é política ou social, mas sim estética e contemplativa: um apelo para reconhecer a poesia na luz que incide sobre um rosto ou um objeto.


Prémios e Exposições
Apesar de não ter um currículo académico padrão, a sua qualidade técnica é tão elevada que é reconhecida por instituições de elite. É membro da Sociedade Francesa de Pastel, da Sociedade Francesa de Arte em Pastel e membro efetivo da Sociedade de Pastel da América. Expõe em mostras internacionais, nomeadamente no Festival Internacional de Pastel de Feytiat, e alcançou o estatuto de "Master Circle" na IAPS em 2023.

"A minha busca é a da harmonia e da luz. O pastel permite-me tocar a matéria de uma forma que nenhum outro meio consegue."

Por que a sua obra é relevante?
Num mundo artístico muitas vezes focado no abstrato ou no digital, Véronique du Boisrouvray mantém viva a tradição da observação meticulosa. Ela prova que o pastel, muitas vezes visto como um meio secundário ou de esboço, é capaz de uma profundidade e durabilidade monumentais.

Firecrest ou Estrelinha-real

Firecrest (Regulus ignicapilla)

The smallest passerine of Europe
"In the emerald cathedrals of the forest, there dwells a tiny sovereign—the Firecrest. Though he is but a thumb’s weight of breath and bone, the smallest spark in Europe’s vast woods, he refuses to be overlooked. He wears a sliver of the sun upon his head as a crown, a fierce golden stripe that belies his fragile frame.

He does not sing to explain the wind or to justify his place among the towering pines. He sings because he is a miniature masterpiece, casting a melody as bright and sharp as a needle’s point into the quiet air. To see him is to realize that beauty is never measured by scale, but by the fire one carries within." 
- João Soares 09.02.26

Chelsea Wolfe - Feral Love


[Verse]
Run from the light
Your eyes, black like an animal
Deep in the wander
And care for no one but the offspring of your might

Run from the one who comes to find you
Wait for the night that comes to hide

Your eyes, black like an animal
Black like an animal
Crossing the water
Lead them to die

[Chorus]
We press for the water
Press for the river, press for the rain

"Feral Love" é a primeira faixa do álbum Pain is Beauty (2013) de Chelsea Wolfe. A música foi utilizada no trailer da quarta temporada de Game of Thrones.

Conflito primal e desejo de liberdade em “Feral Love”
Ao abrir o álbum "Pain Is Beauty" com "Feral Love", Chelsea Wolfe destaca o conflito entre instinto selvagem e as regras da civilização, tema inspirado no romance "Sons and Lovers" de D.H. Lawrence. A repetição do verso “Your eyes, black like an animal” (Seus olhos, negros como os de um animal) enfatiza a animalidade e a recusa em se submeter à luz, que simboliza exposição, controle social e racionalidade. O trecho “Run from the light” (Fuja da luz) reforça essa fuga consciente do que é civilizado em direção ao que é primal e instintivo.

O refrão “We press for the water, press for the river, press for the rain / We press for the water, press for the river, press for the pain” (Buscamos a água, buscamos o rio, buscamos a chuva / Buscamos a água, buscamos o rio, buscamos a dor) mostra uma busca intensa por algo essencial, mas também perigoso e doloroso. A água pode simbolizar vida e renovação, mas também travessia e risco, sugerindo a vontade de ultrapassar limites em busca de liberdade, mesmo que isso traga sofrimento. O videoclipe e o filme “Lone” ampliam essa interpretação, ligando a música a temas de natureza, sexualidade e mortalidade, onde o desejo de fuga e autopreservação se mistura à dor inevitável. A presença da faixa em “Game of Thrones” reforça o clima sombrio e a luta pela sobrevivência em ambientes hostis, intensificando o tom da composição.
Versão [espectacular]
Ao vivo - aqui e aqui

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Dia do Amor - Handel: Dove sei, amato bene (Rodelinda)



Sobre a Ópera Rodelinda

Dove sei, amato bene!
Vieni, l’alma a consolar

Sono oppresso da’ tormenti
ed i crudeli miei lamenti
sol con te posso bear.

Dove sei... 

Tradução
Onde estás, amado!
Vem, consola a minha alma.

Estou oprimido por tormentos,
e os meus cruéis lamentos
só contigo posso suportar.

Onde estás...

Esta é uma das árias mais belas e emocionantes de George Frideric Handel. Ela faz parte da ópera Rodelinda, estreada em 1725, em Londres.

Aqui está o contexto dramático e a tradução para ajudar você a sentir a profundidade da obra:

O Contexto na Ópera Rodelinda
A ária é cantada por Bertarido, o rei deposto de Milão. Todos acreditam que ele morreu no exílio, inclusive a sua esposa, a rainha Rodelinda.

Neste momento (Ato I, Cena VI), Bertarido retorna disfarçado e vê seu próprio monumento fúnebre erguido pela rainha. Ele está escondido, observando de longe o sofrimento da sua amada, sentindo a dor da separação e a solidão de ser um "fantasma" em seu próprio reino. É um momento de extrema vulnerabilidade e melancolia.

1. Mais sobre Georg Friedrich Händel
2. Cantada por Jakub Józef Orliński
3. Dia de S.Valentim. Dias dos Namorados. Dia do Amor

Feliz Dia do Amor - Jakub Józef Orliński sings "L'amante consolato"


Son tanto ito cercando
che pur alfin trovai
colei che desiai
duramente penando,
Oh questa volta sì ch'io non m'inganno,
s'io non godo mio danno!

Son tali quei contenti
che pur alfin io provo
che tutto mi rinovo
doppo lunghi tormenti.
Ma tutti com'io fo far non sapranno
chi non gode suo danno.


English
I searched for so long
that I finally found
the one that I desired,
after rigorous suffering.
Oh, this time let me not fool myself,
let me not be rejoicing in my own downfall.

The delights that I feel
at last are such
that everything renews me,
after prolonged agony.
But not everyone would be able to do as I do,
not being able to rejoice in their own downfall.

A epidemia invisível dos ultraprocessados


Nas prateleiras dos supermercados, embalagens coloridas prometem conveniência, sabor imediato e preços acessíveis. Mas por detrás dessa sedução industrial esconde-se uma ameaça que a ciência tem vindo a estudar e não permite ignorar. Um estudo internacional publicado na The Lancet, assinado por 43 especialistas de vários países, revela que os alimentos ultraprocessados não são apenas "menos saudáveis” são agentes ativos de doença, com impacto mensurável em praticamente todos os órgãos humanos.

Os números impressionam. Em países como EUA, Reino Unido e Austrália, metade das calorias ingeridas diariamente provém de ultraprocessados. Snacks embalados, refrigerantes, refeições prontas e cereais artificiais tornaram-se rotina, substituindo alimentos frescos e minimamente processados. O estudo identificou mais de 30 associações distintas entre o consumo destes produtos e doenças crónicas: obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão, problemas cardiovasculares, depressão e mortalidade precoce.

Mas o alerta vai mais longe. Não se trata apenas de calorias vazias ou excesso de açúcar. Os investigadores descrevem um efeito sistémico: fígado, rins, coração e cérebro mostram sinais de impacto direto. A combinação de aditivos, emulsionantes e processos industriais altera a forma como o corpo metaboliza os alimentos, criando uma espécie de “nova biologia alimentar” que fragiliza o organismo.

Esperar por "provas perfeitas" é repetir erro histórico
A comparação com o tabaco é inevitável. Tal como aconteceu no século XX, as empresas recorrem a marketing agressivo, lobbying político e estratégias de influência para atrasar regulamentações. A The Lancet avisa: esperar por “provas perfeitas” seria repetir o erro histórico de deixar que um produto nocivo se enraizasse ainda mais nas dietas globais.

O estudo não se limita à ciência. Aponta também para a política e para a desigualdade social. Os ultraprocessados são mais consumidos em comunidades vulneráveis, onde o preço e a conveniência pesam mais do que a qualidade nutricional. A crise é, portanto, dupla: sanitária e social.

​​De acordo com os inquéritos nacionais analisados pelos investigadores da série publicada na The Lancet, a presença destes produtos na dieta das famílias aumentou de forma expressiva nas últimas décadas. Em Espanha, por exemplo, a proporção de energia proveniente de ultraprocessados nas compras alimentares quase triplicou, passando de cerca de 11% para 32%. Na China, o salto foi igualmente significativo, de 4% para 10% em apenas 30 anos. A tendência repete-se na América Latina: no México e no Brasil, a contribuição energética dos ultraprocessados duplicou em 40 anos, evoluindo de 10% para 23%.

A análise mostra ainda que a proporção destes produtos na ingestão energética total varia de acordo com fatores económicos e culturais. Nos países do Sul da Europa com maior rendimento, como Portugal, Itália, Chipre e Grécia, e em algumas economias asiáticas, como Taiwan e Coreia do Sul, os ultraprocessados representam menos de um quarto da dieta. Já em nações como Austrália e Canadá, essa percentagem ultrapassa os 40%, enquanto no Reino Unido e nos EUA chega a superar metade da energia diária consumida.

Desafio não é só individual
Os especialistas pedem medidas urgentes: legislação forte, rotulagem clara com alertas visíveis, promoção ativa de dietas frescas e acessíveis e políticas públicas que enfrentam desigualdades. Para além da transparência informativa, defendem também regras mais apertadas no campo do marketing, sobretudo no que toca à publicidade dirigida a crianças e à difusão em plataformas digitais. Entre as medidas propostas está ainda a exclusão de alimentos ultraprocessados de instituições públicas, como escolas e hospitais, e a definição de limites tanto para a sua comercialização como para o espaço que ocupam nas prateleiras dos supermercados.

O desafio é global e não pode ser resolvido apenas com escolhas individuais. No fundo, o que este estudo revela é uma verdade desconfortável: os ultraprocessados são um motor silencioso da crise de saúde contemporânea. A sua omnipresença nas mesas e prateleiras representa uma ameaça comparável às epidemias de tabaco e álcool do século passado. A diferença é que, desta vez, a ciência chega cedo e clara. Falta saber se a política terá coragem de colocar a saúde antes do lucro.

A Ancestralidade das Florestas

"O tempo aqui não avança,
ele se enraíza profundamente.
Um segredo guardado
nas cascas grossas das árvores,
onde a seiva é o sangue antigo
que batiza a terra,
um leito de folhas caídas,
de ossos esquecidos,
de águas que guardam o passado.

Vastidão antiga,
onde cada tronco retorcido
é um ancestral que observa,
e cada sombra,
um refúgio místico e quieto.

As copas tocam o céu numa prece silenciosa,
tecem redes de um verde que desafia os milénios.
A terra, em sua paciência densa e rude,
conhece o ciclo,
sabe que tudo, um dia, retornará a ela.

É um diálogo invisível,
tecido pelos micélios,
fios sutis sob o tapete do chão.
Aqui, não há o novo nem o velho,
apenas a eterna, a viva pulsação
que conecta tudo.

Respirar esta mata
é sorver a memória,
a essência de quem já foi bicho,
de quem foi vento que soprou,
de semente que germinou.
A floresta não narra a nossa história;
ela nos sonha,
sem interrupção,
eternamente."

João Soares, 14.02.216

Armand Amar - Save Us


La terre vue du ciel (Original Motion Picture Soundtrack)
Armand Amar
2004 - Long Distance

Yann Arthus-Bertrand - La Terre vue du ciel 2006 - Partie 1
Yann Arthus-Bertrand - La Terre vue du ciel 2006 - Partie 2

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Future Islands - Ran


Ingest, where it goes, nobody sees but me
So perfect and so sweet
But the rest, feels incomplete
Like the rabbit's foot I keep
In the locket, with no key

And I can't take it, I can't take this world without
This world without you
I can't take it, I can't take it on my own
On my own

[Refrão]
On these roads
Out of love, so it goes
How it feels when we fall, when we fold
How we lose control, on these roads
How it sings as it goes
Flight of field, driving snow
Knows the cold

Ran round the wailing world

And what's a song without you?
When every song I write is about you
When I can't hold myself without you
And I can't change the day I found you

[Refrão]

A Dor da Perda e a Jornada Solitária em 'Ran', lançada em 2017, presente no álbum  The Far Field
A música 'Ran' da banda Future Islands é uma profunda exploração da dor da perda e da solidão. A letra começa com uma reflexão sobre algo precioso e doce, mas que, sem a presença de uma pessoa amada, se torna incompleto. A metáfora do 'pé de coelho' guardado num medalhão sem chave sugere um talismã de sorte que perdeu seu significado, simbolizando a ausência de alguém essencial para a completude do eu lírico.

O refrão expressa a incapacidade de enfrentar o mundo sem essa pessoa, destacando a dependência emocional e a sensação de desamparo. A repetição de 'I can’t take it, I can’t take this world without you' reforça a intensidade do sentimento de perda e a dificuldade de seguir em frente sozinho. A música também aborda a jornada emocional em 'these roads', que pode ser interpretada como os caminhos da vida, onde o amor se perde e o controle é difícil de manter.

A letra também questiona o valor da arte sem a musa inspiradora, refletindo sobre a criação artística e a importância da pessoa amada como fonte de inspiração. A repetição de 'out of love, so it goes' sugere uma aceitação resignada da realidade dolorosa. A imagem do 'flight of field, driving snow' e 'knows the cold' evoca um cenário desolado e frio, simbolizando a solidão e a tristeza que acompanham a perda. 'Ran' é, portanto, uma canção que captura a essência da dor da perda, a luta para encontrar sentido e a jornada solitária que se segue.

Cheias no Baixo Mondego: não nos atirem Girabolhos para os olhos




Desenterrou-se agora o projecto da barragem de Girabolhos e atirou-se ao espaço público como solução milagrosa, tardia mas redentora, para um problema complexo: as cheias do Baixo Mondego. Esta, diga-se já, é uma solução intelectualmente desonesta, tecnicamente errada, financeiramente pesada e politicamente estúpida.

Por piada — mas apenas por piada — poderia dizer que, se a garantia de controlo das cheias é feita por um Governo cujo líder, Luís Montenegro, parece acreditar que os caudais do Mondego se regularizam com telefonemas para Madrid, quando toda a bacia hidrográfica se encontra no nosso país, talvez fosse mais eficaz fazer promessas e ir a Fátima.

Mas este não é um assunto para sarcasmos fáceis. Custa dinheiro público, cria expectativas infundadas e, no fim, entrega apenas soundbites de acção governativa. A ciência, porém, não se governa por conferência de imprensa. 

Convém começar pelo princípio. O Baixo Mondego é, historicamente, uma zona susceptível a inundações. Sempre foi. Durante séculos, as cheias sazonais faziam parte do regime natural da região e, mesmo sendo uma calamidade, contribuíam para a fertilidade agrícola dos campos. Foi para domesticar esse comportamento que, a partir das décadas de 1970 e sobretudo de 1980, se avançou com grandes obras de regularização hidráulica: diques longitudinais (para aumentar a capacidade de encaixe de caudais sem inundação adjacente), canais, rectificações e barragens.

Entre estas, destacam-se as barragens da Aguieira e do Raiva, que entraram em exploração nos anos 80 e reduziram de forma clara a frequência e a severidade das inundações a jusante. Isto é um facto histórico e técnico, não uma opinião.

Não foi aí que “algo falhou”. Pelo contrário: durante décadas, o sistema funcionou de acordo com os objectivos para que foi concebido. Também não é sério atribuir as cheias actuais a uma alegada pluviosidade excepcional. Conforme destaca Paulo Fernandes, professor da Universidade de Trás-os-Montes, os dados são claros: Janeiro de 2026 foi apenas o 11.º mês de Janeiro mais chuvoso desde 1940 na série de Coimbra. Não estamos, assim, perante um episódio extremo em termos históricos.

Quando há cheias significativas sem precipitação recorde, o problema raramente está no céu; está quase sempre na bacia.
E é aqui que o debate se torna incómodo e nos remete para o Verão passado — e por isso mesmo politicamente evitado: os incêndios rurais.

Nos últimos anos, e de forma particularmente intensa em 2025, vastas áreas da bacia hidrográfica do Mondego, sobretudo no alto curso e em sub-bacias críticas, foram devastadas por incêndios florestais de grande dimensão. Na bacia do Mondego, na Serra da Estrela e zonas de cabeceira e vertentes declivosas arderam como há muito não se via. Em Agosto houve um incêndio iniciado em Arganil que devastou mais de 65 mil hectares de áreas florestais e de matos; na região de Trancoso, outro que dizimou quase 47 mil hectares. Do ponto de vista hidrológico, isto não é um detalhe: é uma alteração estrutural do comportamento da bacia.

Solos queimados perdem cobertura vegetal, reduzem, de forma drástica, a infiltração, tornam-se mais susceptíveis à erosão e aceleram o escoamento superficial. O tempo de concentração da água encurta; os picos de cheia tornam-se mais rápidos e mais altos; o transporte de sedimentos aumenta, assoreando linhas de água e reduzindo a capacidade hidráulica dos canais. Tudo isto está documentado há décadas na literatura científica. E tudo isto ocorre quer se construa ou não mais uma barragem a montante.

Chegados aqui, importa desmontar o mito central: o que mudaria, na realidade, a barragem de Girabolhos? Do ponto de vista técnico, a resposta é muito menos impressionante do que o discurso político sugere. Girabolhos regularizaria apenas uma fracção limitada da bacia do Mondego — abarcará uma área de drenagem de apenas 980 km², cerca de 15% quer da área total contributiva quer do escoamento total anual.

Não estamos a falar, portanto, de uma albufeira com capacidade para controlar todo o sistema; estamos a falar de uma infra-estrutura que interceptaria uma pequena parte do escoamento a montante, deixando intactos contributos significativos de sub-bacias a jusante e de afluentes críticos.

Além disso, mesmo a regularização inter-anual proporcionada por Girabolhos não elimina cheias em cenários de precipitação concentrada ou de resposta rápida da bacia — precisamente aqueles que os incêndios tornam mais prováveis. As barragens não “absorvem” cheias por decreto: têm limites operacionais, volumes já ocupados antes das chuvas invernais (ainda mais se o uso predominante for hidroeléctrico), regras de exploração e constrangimentos de segurança. Em certos contextos, podem até agravar picos a jusante se forem obrigadas a descarregar.

Dizer, portanto, que Girabolhos “resolveria” as cheias do Baixo Mondego é vender uma solução simples para um problema que deixou de ser simples há muito. É ignorar a degradação do território, a política florestal errática, a ausência de gestão integrada da bacia e a incapacidade crónica de lidar com as consequências hidrológicas dos incêndios. E, em suma, é preferir betão a planeamento, obra visível a intervenção estrutural, fotografia de capacete a políticas de gestão do solo.

Nada disto significa que o debate sobre Girabolhos seja ilegítimo. Pode discutir-se a sua utilidade para armazenamento, para regularização de caudais em certos cenários, para produção energética ou para abastecimento. Aquilo que não se deve fazer é instrumentalizar a barragem como resposta automática a cheias que têm causas múltiplas e bem identificadas. E a imprensa engolir