quinta-feira, 25 de junho de 2026

O Andorinhão

Andorinhão-preto (Apus apus) - Foto de Nuno Campos

O Andorinhão
"Elegante, escuro, incansável e livre.
Irmão do vento, filho do céu sem fim.

Amante do ar livre, do vendaval impetuoso e da emoção da caça.
Temendo apenas o solo firme, a terra pesada e a quietude de uma gaiola.

Doador de velocidade ao céu, de um grito agudo ao verão e de sombras às nuvens.
Vivendo num turbilhão de movimento, dormindo na brisa, bebendo da chuva.

Ansiando tocar as estrelas, perseguir o sol e nunca ter de aterrar.
Encontrando um lar nas vigas mais altas, nos céus mais profundos e no azul aberto.

Residente do horizonte sem limites.
Apus"

João Soares, 25.06.2026

Como é que os andorinhões conseguem dormir a voar?
O que muitas pessoas desconhecem é que os andorinhões passam quase toda a vida a voar, incluindo dormir. E conseguem fazê-lo sem acidentes porque “não dormem de forma contínua”.

À noite, “sobem a altitudes que podem chegar aos 2000 metros, aproveitando massas de ar quente”, e dessa forma ficam a salvo de chocar contra telhados, fachadas de prédios e outras estruturas. “Fazem movimentos de batimentos de asas de quatro segundos aos quais se seguem períodos de repouso de três segundos, que funcionam como um período de descanso intermitente”.

Tudo isto acontece enquanto continuam a voar a cerca de 20 km/h, sempre embalados pelas correntes de ar. E como descansam à noite em altitudes elevadas, os predadores – como corujas e falcões – têm dificuldade em caçá-los.

A verdade é que o corpo destas aves insectívoras está especialmente adaptado para o voo. “Toda a silhueta parece um arco com uma flecha. A cabeça fica bem escondida entre os ombros, as asas têm forma de foice e o corpo parece um torpedo.” É assim que atingem velocidades de 100 km/h, sendo considerados as aves mais rápidas do mundo em voo contínuo.

E é em pleno voo que caçam, normalmente a velocidades mais moderadas para escolherem os alimentos preferidos. “Com a sua enorme boca conseguem caçar mais de quinhentas espécies diferentes de insectos de diversos tamanhos e formas, e até aranhas em teias suspensas no ar.”

É também assim que recolhem materiais para os ninhos, aproveitando tudo o que apanham, como ervas secas e penas, que depois misturam com saliva. E é no ar que muitas vezes acasalam e realizam todas as outras tarefas, como a limpeza das penas ou beber água – o que fazem “em voos rasantes a rios e lagoas.”

Pousam apenas para se abrigarem de chuvas fortes e tempestades prolongadas, abrigando-se nos ninhos ou noutros abrigos, mas só aguentam sem comer um máximo de três a quatro dias. Outra pausa no voo acontece quando cuidam das crias que já nasceram. Nos primeiros 10 a 15 dias de vida daquelas, “um dos adultos, ou até os dois, ficam no ninho durante a noite.”

Os pequenos andorinhões vão permanecer abrigados quase um mês e meio. Depois, logo na primeira vez que levantam voo, “ficam de imediato independentes dos pais e nunca irão regressar ao ninho, começando a migração para África quase de imediato.” Durante pelo menos dois anos, vão continuar a voar, fazendo um total de 50.000 km sem pausas.

“Se considerarmos que a esperança de vida de um andorinhão pode chegar aos 21 anos – normalmente vivem apenas quatro a seis anos – percorrem distâncias que dariam para ir e vir à Lua várias vezes.”
Fonte

Perdeu tudo: Musk não é mais trilionário após ações da SpaceX caírem

Menos de duas semanas depois da estreia da SpaceX na Bolsa de Nova Iorque, as ações da empresa afundaram, numa altura em que os mercados recuam nas grandes tecnológicas. Elon Musk viu 350 mil milhões de dólares, cerca de 306 mil milhões de euros, desaparecerem do seu património líquido.

As ações da SpaceX dispararam depois da Oferta Pública Inicial de 12 de junho, subindo de um preço de abertura de 150 dólares para um máximo histórico ligeiramente acima dos 225 dólares — o que levou a capitalização bolsista da empresa a aproximar-se dos 3 biliões de dólares, e tornou Elon Musk o primeiro trilionário da História.

Segundo análise da ONG humanitária Oxfam, ele será mais rico do que os 46% mais pobres da população mundial juntos, cerca de 3,8 bilhões de pessoas.

Se Musk gastasse 1 milhão de dólares por dia, levaria 2.740 anos para gastar 1 trilhão de dólares, supondo que esse valor não rendesse nenhum juro.

"Essa concentração extrema de riqueza é sintomática de décadas de políticas pró-bilionários que lhes permitiram ditar as regras econômicas a seu favor", afirmou a Oxfam em nota.

Nabil Ahmed, diretor sénior de justiça económica da Oxfam América, disse que a ascensão do magnata ao status de trilionário "é um novo marco para a oligarquia e um dia sombrio para a democracia".

Mas, nos dias seguintes, muitos investidores começaram a perder confiança, dissipando centenas de milhares de milhões de dólares em valor à medida que as ações desciam - primeiro lentamente, depois com uma aceleração cada vez mais acentuada.

Só na segunda-feira, as ações afundaram quase 17%, o pior desempenho diário da empresa até à data, nota o Futurism.

Na manhã de terça-feira, a viagem inaugural de 11 dias da SpaceX em bolsa ficava simbolicamente encerrada com as ações a caírem abaixo do preço de abertura, atingindo um mínimo histórico pouco acima dos 147 dólares.

Por outras palavras, a SpaceX perdeu oficialmente todos os ganhos registados desde a entrada em bolsa. Mais tarde, as ações recuperaram para valores intermédios da casa dos 150 dólares, um nível que teria sido impensável apenas alguns dias antes.

Com a queda das ações da SpaceX, 350 mil milhões de dólares desapareceram do património líquido de Elon Musk — que a Forbes estima que tenha atingido, após a OPI e a valorização inicial, os 1,4 biliões de dólares.

Saber mais:

Análise
A recente queda da SpaceX, que perdeu mais de 600 mil milhões de dólares em valor de mercado num espaço de três dias, representa um evento de proporções históricas que cruza a volatilidade financeira com a alta geopolítica. Apesar do impacto numérico impressionante, que equivale à economia inteira de vários países, a empresa ainda retém uma capitalização superior a dois biliões de dólares, mantendo-se acima do preço da sua recente OPI. Para compreender este fenómeno, é necessário analisar o cenário através de duas lentes interligadas: a económica e a política.

Do ponto de vista económico, este recuo acentuado reflete uma forte correção de mercado após a euforia inicial da OPI. Um dos principais fatores técnicos para esta oscilação foi a baixa flutuação de ações no mercado, uma vez que apenas uma pequena percentagem do capital total da empresa foi disponibilizada para negociação pública. Quando a oferta é muito reduzida e a procura por parte de pequenos investidores é maciça, o preço sobe de forma artificialmente rápida, mas o reverso da medalha é que qualquer movimento de venda em massa faz o valor desabar com o mesmo impacto. Além disso, o grande gatilho para a desconfiança dos investidores foi o anúncio de que a SpaceX irá emitir títulos de dívida para angariar pelo menos 20 mil milhões de dólares, com o objetivo de refinanciar empréstimos de curto prazo associados à aquisição e integração da xAI, a empresa de inteligência artificial de Elon Musk. Como a SpaceX passou a ser avaliada também como um conglomerado de inteligência artificial, a empresa acabou por ser severamente castigada pelo ceticismo geral que atualmente afeta o setor tecnológico global, onde persistem receios de uma bolha tecnológica e de potenciais subidas de juros.

No plano político, o tombo financeiro ganha contornos ainda mais complexos devido ao papel estratégico que a SpaceX desempenha na infraestrutura de segurança e exploração espacial dos Estados Unidos. Em primeiro lugar, esta perda afetou diretamente a fortuna pessoal de Elon Musk, retirando-lhe o estatuto temporário de trilionário, o que tem impacto na sua capacidade de autofinanciamento e na sua influência geopolítica direta, frequentemente exercida através de tecnologias como a rede Starlink. Em segundo lugar, o governo norte-americano, através da NASA e do Pentágono, depende quase exclusivamente da SpaceX para missões críticas de Defesa e exploração espacial. Uma volatilidade financeira desta magnitude numa empresa que detém um monopólio de infraestrutura vital gera apreensão em Washington, levantando dúvidas sobre se o endividamento para financiar projetos de inteligência artificial poderá, a longo prazo, desviar o foco dos programas espaciais essenciais. Por fim, ao misturar a atividade aeroespacial fortemente regulada com investimentos de alto risco em inteligência artificial, Musk atrai um escrutínio redobrado por parte de reguladores e opositores políticos, que questionam a enorme concentração de contratos estatais nas mãos de uma entidade privada exposta a tanta volatilidade. Em suma, esta perda bilionária não sinaliza a falência da SpaceX, mas sim um ajuste drástico de expectativas que prova como as finanças privadas, a inteligência artificial e a segurança nacional estão hoje indissociavelmente ligadas.

The Young Gods, live at Hellfest Open Air 2026

Setlist 
0:00 Appear Disappear
4:07 Systemized
7:47 Hey Amour
12:30 Blackwater
19:42 All My Skin Standing
29:58 Kissing the Sun
34:14 Gasoline Man
38:59 Blue Me Away
43:00 Mes yeux de tous
49:04 Shine That Drone

Um dos grandes nomes do rock eletrónico, o trio suíço The Young Gods está entre as atrações mais prestigiadas do Hellfest deste ano. Acturam no dia 20 de junho no palco Valley.

Formado em Genebra em 1985, o projeto The Young Gods foi lançado por Franz Treichler, Cesare Pizzi e Frank Bagnoud. O mentor do grupo, Treichler, mantém-se como o único membro permanente até aos dias de hoje, após mais de quarenta anos de carreira. Bernard Trontin juntou-se a eles, substituindo Bagnoud, em 1997.

Pioneiros no seu género, os The Young Gods influenciaram muitos artistas que ultrapassaram em muito o seu próprio nível de fama, tornando-os uma referência essencial do underground. David Bowie, Nine Inch Nails, Ministry: todos veneram a prolífica banda suíça que, ao lado de outro monumento da música industrial (a banda alemã Einstürzende Neubauten), representa um dos pilares fundamentais do rock experimental e atmosférico.

Para esta edição de 2026 do Hellfest, tomam conta do palco Valley para um dos concertos mais memoráveis ​​do festival. Uma experiência imperdível trazida até si pela ARTE Concert.

Filmado a 20 de junho de 2026 no Hellfest Open Air Festival, Clisson.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Holy Motors - Stay the Night


O significado de "Stay the Night" baseia-se na ideia de proximidade efémera e isolamento partilhado. Embora as letras dos Holy Motors sejam minimalistas e abstratas, focando-se mais na criação de uma atmosfera do que numa narrativa linear, a canção funciona como um convite íntimo e vulnerável, mas totalmente despido de ilusões futuras. Ao pedir a alguém para ficar apenas por aquela noite, deixando claro que isso não significa uma ligação para a vida, a letra retrata o desapego moderno e o consolo mútuo entre duas pessoas solitárias. Existe uma aceitação melancólica de que a relação tem um prazo de validade curto, embora a química entre ambas seja descrita como altamente inflamável e perigosa, através da metáfora do fogo e da gasolina. No fundo, a música evoca o cenário de duas almas que procuram um refúgio temporário contra o mundo exterior, isolando-se num quarto escuro para partilhar a sua solidão por breves horas, como se estivessem num motel perdido à beira de uma estrada deserta.

Zonas protegidas ardem duas vezes menos, indica análise da WWF

As Zonas Especiais de Conservação (ZEC) da Rede Natura 2000 arderam duas vezes menos entre 2021 e 2025 do que o restante território, segundo uma análise da WWF Portugal, sugerindo uma abordagem integrada de prevenção e conservação da natureza.

“Os resultados desta análise sugerem a necessidade de uma abordagem integrada de políticas públicas que articule prevenção de incêndios, conservação da natureza e gestão ativa do território”, defendeu a associação ambientalista num comunicado hoje divulgado.

A análise da WWF Portugal, ao indicar que nas ZEC há menor proporção de área ardida, contraria estudos que indicam que estas áreas ardem mais. A organização cruzou dados de incêndios com informação sobre o uso do solo e habitats naturais em Portugal continental.

A diretora de Conservação e Políticas da WWF Portugal, Catarina Grilo, disse, citada no comunicado, que os resultados da análise mostram que a conservação da natureza “não é incompatível” com a prevenção de incêndios.

“Pelo contrário, as áreas classificadas analisadas registaram uma incidência proporcionalmente menor de área ardida do que o restante território, o que demonstra a importância de olhar para os incêndios de forma holística e integrando perceções não só dos setores florestal e da proteção civil, mas também da conservação da natureza”, sublinhou.

Por isso, concluiu, integrar prevenção de incêndios e conservação da natureza “não é apenas possível, é indispensável”.

De acordo com os dados divulgados no trabalho, com o título “Natureza e Incêndios: áreas e habitats mais afetados em Portugal”, entre 2021 e 2025 ardeu cerca de 6,1% da área fora das ZEC, face a 2,9 dentro dessas áreas.

A associação notou que cerca de um quarto da área ardida no período em causa ocorreu no interior das zonas protegidas e os incêndios afetam sobretudo matos e formações arbustivas, um tipo de vegetação que desempenha um “papel ecológico relevante”, mas que “continua a não ser tido em conta na gestão do território”.

A WWF Portugal salientou também que alguns habitats classificados exigem atenção redobrada, como charnecas, zonas rochosas e determinadas formações florestais, que apresentam “níveis relevantes de afetação pelo fogo”, e que por isso precisam de medidas de gestão e conservação específicas.

O estudo apontou para a importância não só de gerir de forma estratégica áreas de matos e mosaicos agroflorestais, como também considerar a distribuição de habitats na definição de medidas de prevenção, e integrar melhor o conhecimento científico nas políticas públicas.

Indicou ainda que as causas intencionais de incêndio têm maior expressão nas ZEC do que fora delas, algo que “merece aprofundamento”, inclusive “procurando explorar fatores de ordem social”.

A IA pode superar a inteligência humana até 2030, dizem Altman e Musk

A possibilidade de a inteligência artificial (IA) ultrapassar a inteligência humana deixou de ser uma hipótese distante e passou a fazer parte das previsões feitas pelos principais nomes do setor. Nos últimos meses, os executivos que lideram o desenvolvimento da tecnologia passaram a defender publicamente que os sistemas de IA poderão atingir ou superar as capacidades intelectuais humanas ainda nesta década, num movimento que pode transformar a economia, o mercado de trabalho e a produção científica.

O mais recente a reforçar esta avaliação foi o CEO da OpenAI, Sam Altman. Numa entrevista concedida ao jornal alemão Die Welt no final de 2025, o executivo afirmou que ficaria “muito surpreendido” se, até 2030, não existissem modelos capazes de realizar tarefas que os seres humanos não conseguem executar de forma autónoma.

Segundo Altman, os avanços observados desde o lançamento do ChatGPT, em 2022, aceleraram bastante o desenvolvimento da tecnologia. Para ele, os sistemas de IA já apresentam capacidades consideradas surpreendentes e tendem a evoluir rapidamente nos próximos anos.

O executivo afirmou ainda que consegue imaginar um cenário em que entre 30% e 40% das atividades atualmente realizadas na economia sejam executadas por sistemas de IA num futuro próximo.

A previsão do líder da OpenAI, porém, é considerada conservadora quando comparada com a de outros líderes do setor. Um dos exemplos é Dario Amodei, CEO da Anthropic e antigo executivo da OpenAI, que já declarou acreditar que a IA poderá superar os seres humanos em praticamente todas as atividades intelectuais até 2027.

Bilionários divergem sobre prazos, mas concordam sobre o impacto
Entre os defensores de uma evolução ainda mais acelerada está Elon Musk, fundador da xAI e CEO da Tesla. Numa publicação na rede social X, o empresário afirmou que a IA provavelmente ultrapassará a soma da inteligência de todos os seres humanos dentro de quatro ou cinco anos.

A declaração foi feita em resposta ao empreendedor Peter H. Diamandis, que discutia os limites da capacidade humana de inovação. Para Musk, o avanço dos sistemas de IA está a ocorrer a um ritmo tão acelerado que a tecnologia poderá atingir um nível de inteligência superior ao conjunto da humanidade antes do início da próxima década.

As projeções de Musk fazem parte de uma visão mais ampla sobre o futuro da IA e da robótica. O empresário defende que máquinas inteligentes e robôs humanoides poderão assumir grande parte das atividades produtivas atualmente realizadas por pessoas, aumentando drasticamente a oferta de bens e serviços.

Em diferentes ocasiões, ele chegou a afirmar que esta transformação poderia criar uma era de “abundância” económica sem precedentes.

No centro desta estratégia está o Optimus, o robô humanoide desenvolvido pela Tesla. A empresa aposta que a tecnologia poderá ser utilizada em fábricas, centros logísticos, escritórios e residências. Musk já declarou que os robôs se podem tornar mais importantes para os negócios da companhia do que os próprios veículos elétricos.

Apesar do entusiasmo, tanto Altman quanto Musk reconhecem que ainda existem obstáculos para o avanço da IA. Um deles é a infraestrutura necessária para operar modelos cada vez mais sofisticados. Altman afirmou recentemente que a procura por processamento já supera a capacidade disponível da OpenAI. Para ampliar essa estrutura, a empresa participa na construção de grandes centros de dados nos EUA, incluindo o projeto Stargate, desenvolvido em parceria com a Oracle e o SoftBank.

Mesmo com desafios técnicos e dúvidas sobre os impactos sociais da tecnologia, os líderes do setor concordam num ponto: a corrida rumo à chamada superinteligência artificial já está em andamento e pode redefinir a relação entre humanos e máquinas ao longo da próxima década.

Kasper Bjørke: Young Again (feat. Jacob Bellens)

Melhor som aqui

[Verse 1]
Enough is enough, no one stops the caterpillar
The weight of the world already too much to bear
You do it too loud, mix it up with vanilla
The sound is the best I have heard for a million years

[Verse 2]
From the thunder that came, I was never the same
And I would stop to think of what to do
I was taking a leap I was playing for keeps with you

[Verse 3]
Too many touches on my skin
That's lying between now and then
Too many kisses on my chin
So severe

[Verse 4]
I can't believe the state I'm in
I can't believe what's happening
We'll never be this young again
Guinevere

[Verse 5]
The comic relief that makes room for my decision
To tighten the rope so that you never will forget
The music that comes from when playing with precision
The words are too rough, I can't shake it from off my head

[Verse 6]
I was making a mess for the better I guess
With a desire to be understood
There were people around with the need to get down for good

[Verse 7]
The many touches on my skin
That's lying between now and then
The many kisses on my chin
So severe

[Verse 8]
I can't believe what's happening
I can't believe the state I'm in
We'll never be this young again
Guinevere

Significado da canção
Kasper Bjørke e Jacob Bellens são dois artistas de nacionalidade dinamarquesa que, nesta colaboração de 2009 intitulada "Young Again", criaram uma faixa que transita entre o synth-pop, o indie dance e o electro-house. Se analisarmos apenas a letra, a música foca-se na nostalgia, na efemeridade da juventude e na aceitação da passagem do tempo, deixando o aviso agridoce de que nunca seremos tão jovens como no momento presente.

O uso do nome Guinevere nesta canção baseia-se no forte simbolismo que a personagem carrega na literatura, servindo como uma metáfora perfeita para a mensagem de melancolia e nostalgia da música. O compositor Jacob Bellens, conhecido pelo seu estilo abstrato e romântico, utiliza a icónica rainha de Camelot para evocar o arquétipo do amor proibido e trágico. Na mitologia arturiana, o romance de Guinevere com Lancelot é sinónimo de uma paixão avassaladora, mas que carrega consigo a dor e a inevitabilidade da ruína, o que se alinha perfeitamente com o desabafo melancólico presente na letra da canção.

Além disso, a figura de Guinevere está intrinsecamente ligada ao fim de uma era dourada, já que a sua traição acabou por ditar a queda de Camelot e a destruição da Távola Redonda. Ao cruzar essa referência com o refrão que repete que nunca mais seremos assim tão jovens, a música transforma a personagem num símbolo da perda da inocência e da passagem implacável do tempo. Ao escolher um nome mítico e intemporal em vez de um nome comum, o autor eleva a pessoa a quem canta ao estatuto de uma musa distante e inalcançável, transformando a canção num lamento poético sobre as marcas que os amores intensos deixam na nossa pele e a saudade de um passado que não volta atrás.

No entanto, o conceito de biofilia - que remete para a ligação inata do ser humano com a natureza e com o mundo vivo - torna-se o pilar central da obra quando olhamos para a sua componente visual. No teledisco, realizado por Karim Huu Do , esta ligação é explorada de forma artística e surrealista, mostrando plantas, musgos e fungos a brotarem diretamente da pele e dos corpos das personagens. Esta fusão funciona como uma metáfora poética onde o ciclo da vida humana é equiparado ao ciclo botânico do nascimento, florescimento e decomposição. Assim, ao contrastar a batida eletrónica e sintética com imagens puramente orgânicas, a obra completa acaba por sugerir que, independentemente do quão urbanos ou tecnológicos nos tornemos, a nossa essência permanece biológica e inevitavelmente ligada à Terra.

terça-feira, 23 de junho de 2026

Relembrar a canção "Turn! Turn! Turn" de Pete Seeger com Judy Collins- "Um tempo para a paz, eu juro que não é tarde demais"


Letra

[refrão]
To everything, turn, turn, turn
There is a season, turn, turn, turn
And a time to every purpose under heaven

A time to be born, a time to die
A time to plant, a time to reap
A time to kill, a time to heal
A time to laugh, a time to weep

[refrão]

A time to build up, a time to break down
A time to dance, a time to mourn
A time to cast away stones
A time to gather stones together

[refrão]

A time of love, a time of hate
A time of war, a time of peace
A time you may embrace
A time to refrain from embracing

[refrão]

A time to gain, a time to lose
A time to rend, a time to sew
A time for love, a time for hate
A time for peace, I swear it's not too late

Versão dos Byrd

A letra é quase inteiramente baseada numa tradução da Bíblia (a famosa versão King James em inglês). Pete Seeger pegou no texto do Livro de Eclesiastes (Capítulo 3, versículos 1 a 8), tradicionalmente atribuído ao Rei Salomão, reorganizou algumas linhas e adicionou o refrão "Um tempo para a paz, eu juro que não é tarde demais."

O significado original do texto bíblico "Turn! Turn! Turn" é uma reflexão filosófica sobre a natureza cíclica e inevitável da vida humana. Lembra-nos que tudo o que enfrentamos — seja a alegria ou a dor, o ganho ou a perda - faz parte de um ritmo natural e equilibrado do universo. Nada dura para sempre, e há um momento apropriado para cada experiência.

No entanto, quando Pete Seeger adaptou o texto em 1959, ele transformou uma reflexão antiga num hino pacifista e de protesto. O verdadeiro "ponto de viragem" da música está na única linha totalmente nova que Seeger acrescentou no final:

“A time for peace, I swear it's not too late” (Um tempo para a paz, eu juro que não é tarde demais).

Ao adicionar esta frase no contexto do final dos anos 50 e década de 1960 (marcada pela Guerra Fria, pela iminência de um conflito nuclear e, mais tarde, pela Guerra do Vietname), a música passou de uma constatação fatalista sobre os ciclos da vida para uma súplica urgente pela paz mundial. Ela avisa a humanidade de que, embora a guerra tenha tido o seu tempo na história, o tempo presente exige obrigatoriamente a paz, antes que seja tarde de mais.

Change fatigue: o novo esgotamento que as empresas ainda não querem ver

Durante anos, as empresas convenceram-se de que tinham identificado o grande desafio do mundo do trabalho: fazer as pessoas sentirem que pertencem. Investiram milhões em cultura, engagement, propósito, employee experience, bem-estar e inclusão. E fizeram-no com razão. O sentimento de pertença melhora retenção, colaboração, inovação e desempenho. Mas há um problema: muitas organizações continuam a responder à pergunta certa para o mundo de ontem.

Porque a pergunta dominante dentro das empresas já não é apenas “será que pertenço aqui?”. É outra, bem mais desconfortável:

“Será que tenho futuro aqui?” A inteligência artificial está a transformar funções inteiras. A automação redefine competências. Novas ferramentas surgem a uma velocidade impossível de acompanhar. Equipas são reorganizadas. Modelos de negócio são reinventados. Empresas que eram símbolos de estabilidade anunciam despedimentos. Apesar disso, demasiadas organizações continuam a comunicar a transformação como se fosse uma atualização de software: inevitável, excitante e supostamente autoexplicativa.

Não é. Para milhões de profissionais, a transformação tecnológica não está a ser vivida como uma oportunidade abstrata de inovação. Está a ser vivida como ambiguidade permanente. Não saber que competências serão necessárias daqui a três anos. Não saber como será avaliado o desempenho. Não saber se a função continuará a existir. Não saber se a empresa está realmente a preparar as pessoas para a mudança ou apenas a exigir adaptação infinita.

E a verdade incómoda é esta: a maioria das organizações ainda não sabe liderar pessoas em contextos de transformação contínua.

Os números ajudam a desmontar algum otimismo corporativo. Segundo a Microsoft e o LinkedIn, 76% dos profissionais afirmam precisar de competências em inteligência artificial para permanecerem competitivos. Apenas 39% receberam formação em IA por parte das suas empresas. A Hays encontrou um padrão semelhante: 78% dos profissionais que usam IA no trabalho dizem não ter recebido formação formal, apesar de a maioria já utilizar estas ferramentas regularmente.

Traduzido para linguagem simples: estamos a pedir às pessoas que atravessem uma revolução tecnológica enquanto lhes entregamos um manual incompleto.

Depois surpreendemo-nos com a resistência. Durante demasiado tempo, as empresas interpretaram a resistência à mudança como um problema de mindset, atitude ou falta de adaptabilidade. Mas talvez valha a pena considerar uma hipótese menos confortável: e se aquilo a que chamamos resistência for, em muitos casos, fadiga?

O fenómeno já tem nome: change fatigue. Não estamos a viver uma fase de mudança. Estamos a viver um regime permanente de mudança. E existe uma diferença importante entre mudar ocasionalmente e trabalhar dentro de um ambiente onde nada estabiliza tempo suficiente para ser plenamente aprendido, integrado ou compreendido. A Gartner já alertou para os níveis crescentes de exaustão associados à mudança persistente. Ainda assim, muitas organizações insistem em acumular iniciativas de transformação sem criar condições psicológicas mínimas para que as pessoas as consigam absorver.

Mais tecnologia. Mais reestruturações. Mais processos. Mais urgência. Menos clareza. Menos previsibilidade. Menos capacidade humana para acompanhar o ritmo. É aqui que muitas estratégias de transformação começam a falhar - não na tecnologia, mas na experiência humana da mudança. Porque qualquer transformação altera muito mais do que workflows ou ferramentas.

Muda identidades profissionais. Muda relações de poder. Muda perceções de valor. Muda aquilo que cada pessoa acredita em saber fazer bem. Ignorar esta dimensão tem custos elevados. Não produz agilidade. Produz cinismo. Não acelera inovação. Amplifica desgaste. Não reforça compromisso. Corrói confiança. Talvez por isso a gestão da mudança esteja a deixar de ser uma competência operacional para se tornar numa competência central de liderança. Não basta perguntar: “como implementamos esta tecnologia?” A pergunta decisiva passou a ser outra: “como ajudamos as pessoas a atravessar esta transformação sem perderem confiança, competência ou saúde psicológica?”

E aqui reside um dos maiores equívocos da próxima década. Muitas organizações continuarão a investir fortemente em cultura, engagement e bem-estar sem reconhecer que o contexto psicológico do trabalho mudou profundamente.

A pertença continua a importar. Mas a pertença não substitui a clareza. A cultura não substitui a segurança perante o futuro. E sessões sobre propósito dificilmente resolvem a ansiedade de quem não consegue perceber qual será o seu lugar numa organização transformada pela inteligência artificial.

Talvez seja esta a nova vantagem competitiva que muitos líderes ainda não reconheceram. Não serão necessariamente as empresas com melhor tecnologia, maior orçamento ou maior capacidade de automação a ganhar a próxima década.

Serão as empresas capazes de responder com honestidade a uma pergunta extraordinariamente simples: “Ajudar-me-ão a navegar aquilo que vem a seguir?”

Durante anos, acreditámos que o maior desafio das organizações era fazer as pessoas sentirem que pertenciam. Talvez o verdadeiro desafio seja mais exigente.

Conseguir que as pessoas se sintam seguras enquanto tudo à sua volta muda.

Fonte

António Guterres exige "toda a verdade" sobre o custo climático da IA

O secretário-geral da ONU avisou que o mundo precisa de agir com "muito mais urgência" para limitar o aquecimento global. O secretário-geral da ONU, António Guterres, instou os líderes do setor da Inteligência Artificial a “dizerem toda a verdade” sobre o impacto ambiental dos centros de dados, apontando o dedo aos combustíveis fósseis.

“Chega de custos escondidos. Chega de impor este fardo aos mais vulneráveis. É tempo de dizer toda a verdade. Se a IA quer contribuir para a construção de um futuro melhor, precisa de ser honesta sobre o seu custo atual”, disse António Guterres esta terça-feira, durante o seu discurso na Semana de Ação Climática de Londres, um evento anual realizado na capital britânica.

O secretário-geral da ONU anunciou o lançamento da Iniciativa de Transparência Ambiental da IA, que exigirá que os gigantes globais da inteligência artificial calculem e divulguem a pegada ambiental das suas atividades — em termos de carbono, água e uso da terra, por exemplo. As empresas ficam comprometidas, então, a abastecer essas atividades com energia renovável até ao final da década.

“As comunidades desconhecem muitas vezes o impacto ambiental da infraestrutura que está a ser desenvolvida à sua volta”, sublinhou Guterres, reconhecendo que a IA é “exigente em termos de terra, água e energia”, embora possa contribuir para “acelerar as soluções climáticas”.

Os centros de dados - os repositórios de servidores que alimentam a IA e outros serviços digitais - consomem energia de forma extremamente intensiva e atingiram a marca dos 448 terawatts/hora (TWh) de eletricidade em 2025. A consultoria Gartner estima um aumento de 26%, elevando o consumo para 565 TWh e a potência para 132 GW em 2026. As projeções da Agência Internacional da Energia (AIE) apontam para um consumo que pode variar entre 945 TWh e 1.050 TWh até 20230.

Guterres pede “mais urgência”
Numa altura em que a Europa enfrenta uma vaga de calor e vários países, como o Reino Unido, França e Itália, batem recordes de calor, o secretário-geral da ONU alerta que é preciso agir “com muito mais urgência”.

“Devemos agir com muito mais urgência para limitar rigorosamente a extensão e a duração de qualquer ultrapassagem de 1,5°C”, disse Guterres, referindo-se ao limite de aquecimento estabelecido pelo Acordo de Paris de 2015, em comparação com os níveis pré-industriais.

Para além da proposta relativa ao setor tecnológico, o secretário-geral da ONU lançou também um “apelo global à ação sobre o metano”, o segundo maior contribuinte para as alterações climáticas a seguir ao dióxido de carbono (CO2), com o objetivo de alcançar “emissões próximas de zero em toda a cadeia de valor”.

Para isso, Guterres propõe uma série de metas relacionadas com as fugas de metano na indústria do petróleo e gás e com a queima, que consiste na queima do gás natural emitido durante a extração de petróleo sem o seu aproveitamento.

Guterres defende também a redução das emissões do setor agrícola e dos aterros sanitários.
"Exorto a indústria dos combustíveis fósseis a assumir a responsabilidade e a fazer o que já deveria ter sido feito há muito tempo", disse António Guterres, sublinhando que "só em 2025, foram queimados cerca de 167 mil milhões de metros cúbicos de gás, o equivalente ao consumo anual de África".

"Não podemos continuar a depender de um sistema baseado em combustíveis fósseis que alimenta tanto a crise climática como a crise energética", declarou o secretário no discurso durante a conferência em Londres.

Alterações climáticas estão a causar mais extinções locais de espécies em zonas temperadas

Salamandra-europeia (Salamandra salamandra)

As alterações climáticas estão a causar mais extinções locais de espécies nas regiões temperadas do que nos trópicos, revelou um estudo da Universidade do Arizona divulgado no dia 18 de junho.

Segundo os cientistas, a principal razão é que as regiões temperadas estão a aquecer mais depressa dos que as tropicais.

Os investigadores descobriram que 49% das espécies de regiões temperadas sofreram extinção local nas áreas mais quentes em que se encontram implantadas, em comparação com 33% das espécies tropicais.

O trabalho, publicado na revista científica ‘Nature Climate Change‘, abrangeu cerca de 5.100 espécies de animais e plantas e desafia as ideias de longa data relativamente às espécies que estão mais ameaçadas, de acordo com os autores.

Entre os objetos de análise, estão centenas de espécies de borboletas e besouros, centenas de peixes e aves, mamíferos, rãs, salamandras e lagartos e quase 3.000 plantas.

A investigação, apresentada como a maior análise já realizada sobre extinções locais de espécies impulsionadas pelo clima, baseou-se em levantamentos da biodiversidade em quase 40.000 locais no mundo e permitiu comparar registos históricos com dados recolhidos mais recentemente.

“Durante décadas, os cientistas acreditaram que as espécies de climas temperados eram menos vulneráveis às alterações climáticas”, disse o autor principal do trabalho, Gopal Murali, da Universidade do Arizona, Estados Unidos, citado em comunicado. “Estamos surpreendidos com os resultados”, admitiu.

Os novos dados revelaram-se consistentes em diferentes grupos de organismos, incluindo insetos, vertebrados, plantas e espécies marinhas e de água doce.

Outro autor sénior da investigação, John Wiens, afirmou ter publicado em 2016 um estudo com 976 espécies, utilizando o mesmo tipo de dados, mas com conclusões diferentes: “Mostrou o padrão exatamente oposto, com mais extinções locais entre espécies tropicais”.

“O mundo mudou desde 2016”, disse Wiens, referindo que houve mais aquecimento na zona temperada da Terra, especialmente em latitudes mais elevadas.

“É possível que o padrão se tenha simplesmente invertido nas últimas décadas, o que ajuda a explicar a mudança nos resultados. Verificamos que as extinções em regiões temperadas superaram as das regiões tropicais”, disse.

As extinções locais observadas não significam que a espécie inteira foi extinta em todo o mundo, mas demonstram que as populações não conseguem sobreviver à transformação das condições ambientais numa determinada região.

“Perdas semelhantes ao longo da área de distribuição de uma espécie podem levar à extinção da espécie como um todo”, precisaram os cientistas.

“Normalmente, as pessoas pensam que uma espécie se move, simplesmente, para uma zona mais fria quando o clima aquece. Mas descobrimos que mais de 70% das espécies não está a fazer isso”, revelou Wiens.

“No essencial, a vida e a morte da maioria das espécies pode ser determinada por essas extinções locais e pela capacidade de as populações conseguirem, ou não, sobreviver no próprio local”, concluiu.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Ghost Cop - A Shot in the Dark


Letra

Just as you are
Rebel, roused
Scratching some weird skin
I heard your voice
Come as you are
Tempted by
This morning star
It's happening

Like a sinner picks the saint
Like a moth flies to a flame
I'm lost without control
As you know
Like a gray before the storm
The end before it's begun
The wheels turn round again

Just let it go
Everything you want
It's better than nothing
Just let me go
Everything you want
Well, that's what you get

Like a shot in the dark
A solo survivor
Straight through the heart
No one makes it out alive
As you know
Like the angel loves the Fall
The way to the City of Woe
What's buried in the snow
Comes forth in the thaw

Just let me go
Everything you want
It's better than nothing
I close my eyes
Everything you want
Well, that's what you get

Just let me die
You get everything you want

Like a shot in the dark
Like a shot in the dark (just let me go)
Like a shot in the dark

Lançada originalmente em 2023 (e presente também no aclamado álbum Trouble), "A Shot in the Dark" (expressão em inglês que significa "dar um tiro no escuro" ou tentar algo sem qualquer garantia de sucesso) explora temas profundos de pessimismo, ciclos viciosos e desconforto psicológico.

A faixa aborda a dissonância emocional e a sensação de se estar perdido, avançando às cegas (o tal "tiro no escuro") por entre dinâmicas desgastantes e ambientes sombrios.

A letra e a melodia assombrada canalizam sentimentos de isolamento e ansiedade - algo muito presente no trabalho da banda, que costuma usar a música eletrónica industrial como uma catarse para lidar com a depressão e a neurodivergência. É uma música feita para dançar, mas com uma forte carga de melancolia e urgência noturna.

A faixa acaba por ser um poema sobre o fatalismo - a ideia de ver o fim de algo antes mesmo de começar, condenado a repetir os mesmos erros como uma mariposa atraída pela chama

Painéis solares em turfeiras podem ser uma dupla vantagem para o clima e para a natureza

Investigadores na Alemanha descobriram que a instalação de painéis solares em turfeiras novamente alagadas proporciona um habitat único para espécies de aves, além de gerar energia verde e, potencialmente, reter carbono.

A instalação de painéis solares em turfeiras novamente alagadas (rewetted) representa um novo tipo de uso da terra, oferecendo uma forma de gerar energia verde e de reduzir as emissões de gases com efeito de estufa. Agora, uma investigação da Universidade de Greifswald descobriu que este uso inovador do solo também pode beneficiar a natureza.

No estudo, publicado na revista Ecological Solutions and Evidence, os investigadores compararam a diversidade de aves num parque solar situado numa turfeira novamente alagada no norte da Alemanha. O local estava rodeado por turfeiras drenadas e exploradas de forma agrícola intensiva.

Os autores descobriram que o parque solar servia de habitat para várias espécies de aves ameaçadas e apresentava uma mistura invulgar de espécies associadas a ecossistemas agrícolas, zonas húmidas e até zonas florestais.

Hanna Rae Martens, ecologista de turfeiras na Universidade de Greifswald e autora principal do estudo, afirmou:

"A presença de espécies de zonas húmidas, como a escrevedeira-dos-caniços e o ameaçado petinha-dos-prados, mostra que o parque solar está realmente alagado e que as espécies típicas de turfeiras estão a regressar."

"No entanto, também registámos espécies como o pardal-montez e o petinha-das-árvores, que normalmente não se encontram em turfeiras. Todas parecem utilizar a estrutura dos painéis solares. Quando estou no terreno, vejo muitos petinhas-dos-prados pousados nos painéis, que voam para apanhar insetos e depois regressam ao seu poiso."

Cerca de 80% das turfeiras no Reino Unido estão degradadas. Na Alemanha, este número é ainda mais elevado, atingindo os 95%, devido principalmente à drenagem e à utilização agrícola. A nível global, as turfeiras drenadas são responsáveis por 5% das emissões de gases com efeito de estufa.

O alagamento de turfeiras drenadas poderia reduzir drasticamente estas emissões e restaurar a biodiversidade, mas existem dois problemas fundamentais. O primeiro é que, uma vez alagadas, a maioria das culturas agrícolas comuns já não pode ser produzida nestes terrenos. O segundo é que a restauração de turfeiras profundamente degradadas até um estado saudável e funcional pode demorar várias décadas.

O local do estudo é um dos primeiros a instalar painéis solares em turfeiras novamente alagadas. Ao abrigo de um programa do governo alemão, os proprietários de terras recebem incentivos financeiros para instalar painéis solares e alagar o terreno, proporcionando-lhes uma fonte alternativa de rendimento. As conclusões do estudo sugerem que, pelo menos a curto prazo, esta medida poderá também estar a impulsionar a biodiversidade.

"Nos casos em que a alternativa seria uma turfeira drenada e gerida de forma intensiva, a nossa investigação demonstra que os painéis solares em turfeiras novamente alagadas podem beneficiar a diversidade de aves", afirmou Hanna Rae Martens. "Mas não estamos a sugerir que se transformem todas as turfeiras da Alemanha, do Reino Unido ou de qualquer outro país em parques solares. As turfeiras saudáveis ou aquelas que têm um elevado potencial de restauração devem ser evitadas. Os parques solares são apenas mais uma ferramenta possível para apoiar o alagamento das turfeiras."

No estudo, que decorreu entre março e outubro de 2024, os investigadores utilizaram gravadores de áudio e inteligência artificial (machine learning) para comparar a diversidade de aves num parque solar em turfeira alagada com a de turfeiras drenadas vizinhas, utilizadas para a produção de pasto para gado.

Os investigadores alertam, contudo, que o seu estudo representa apenas um caso prático deste novo tipo de uso da terra. Hanna Rae Martens referiu:

"Até à data, existem cerca de cinco parques solares instalados em turfeiras novamente alagadas. São necessárias mais investigações para tirar conclusões sólidas sobre se estes resultados se repetem noutros locais e quais os fatores que contribuem para a composição das espécies."

Os investigadores pretendem agora expandir o seu estudo a mais locais, monitorizar outras espécies — como morcegos e insetos — e identificar quais os elementos das estruturas dos parques solares que podem ser otimizados para favorecer a biodiversidade.

O efeito de ilha de calor de dados: quantificação do impacto dos centros de dados de IA num mundo em aquecimento.



O "Efeito de Ilha de Calor de Dados" (Data Heat Island Effect) refere-se ao aumento localizado na temperatura da superfície terrestre causado pela dissipação massiva de calor dos centros de dados voltados para Inteligência Artificial (IA). Um estudo pioneiro liderado por investigadores da Universidade de Cambridge e da Universidade Tecnológica de Nanyang quantificou globalmente este impacto, demonstrando que estas instalações alteram os microclimas à sua volta. [1, 2, 3]
Abaixo estruturam-se as principais conclusões e métricas avançadas pela investigação. [1, 2]

Métricas de impacto térmico
O estudo analisou dados de satélite da NASA recolhidos entre 2004 e 2024, cobrindo mais de 6.000 localizações fora de áreas densamente urbanizadas para isolar o efeito das infraestruturas de dados: [1, 2, 3]
  • Aumento médio: a temperatura da superfície da terra aumenta 2°C em média após o início das operações de um centro de dados de IA. [1]
  • Casos extremos: foram registados picos de aquecimento extremo de até 9,1°C na proximidade imediata de algumas infraestruturas. [1]
  • Raio de influência: o efeito térmico propaga-se através do espaço, sendo detetável a uma distância de até 10 quilómetros da instalação. [1]
  • Degradação da intensidade: a intensidade do calor gerado reduz-se para cerca de 30% quando atinge um raio de 7 km de distância. [1]
Dinâmica e Causas do Fenómeno
Os centros de dados focados em modelos de IA operam com milhares de unidades de processamento gráfico (GPUs) de alto desempenho a funcionar continuamente sob cargas de trabalho extremas. Esta arquitetura gera duas fontes principais de perturbação térmica: 
  • Exaustão direta [1]: Os sistemas de refrigeração industrial extraem calor do interior dos edifícios, expelindo massivamente ar quente e vapor de água para a atmosfera circundante. [1, 2]
  • Pegada da construção: As próprias características físicas do complexo (grandes telhados, superfícies de asfalto e betão) absorvem a radiação solar e criam um efeito semelhante ao das ilhas de calor urbanas tradicionais. [1, 2, 3]
Populações e regiões afetadas
Estima-se que mais de 340 milhões de pessoas vivam em zonas sob o raio de influência térmica destas instalações a nível global. Os investigadores apontaram que anomalias de temperatura anteriormente difíceis de justificar coincidem diretamente com a expansão de grandes polos de dados em regiões como: 
  • Aragão (Espanha)[1]
  • Bajío (México)
  • Teresina, Piauí (Nordeste do Brasil) [1, 2]
Caminhos para Mitigação
Para conter o aparecimento destas zonas microclimáticas sem travar a inovação tecnológica, o ecossistema aponta soluções em duas vertentes principais: 
  • Otimização de hardware e refrigeração[1, 2]: integração de tecnologias de refrigeração líquida avançada de ciclo fechado e reaproveitamento do calor residual para sistemas de aquecimento residencial local ou processos industriais. [1, 2, 3, 4]
  • Eficiência de software: desenvolvimento de algoritmos e modelos de IA estruturalmente focados em eficiência energética e sustentabilidade desde a sua conceção, reduzindo o esforço computacional bruto. [1]
A notícia já tinha sido avançada aqui

Europa: bombas de calor substituem a dobrar gás do Médio Oriente; que país lidera?

As vendas de bombas de calor dispararam em toda a Europa, ajudando as famílias a suportar os custos elevadíssimos do gás numa altura de guerra contra o Irão.

Segundo uma nova análise da Associação Europeia de Bombas de Calor (EHPA), as bombas de calor do continente fornecem tanta energia térmica como o gás natural liquefeito (GNL) transportado por mais de 200 navios-tanque.

Isto é o dobro do volume que chegou à UE em 2025 vindo do Médio Oriente e representa cerca de 7% do total anual de GNL importado pela UE. Segundo a EHPA, só em 2025 isso permitiu evitar custos de importação no valor impressionante de 9,7 mil milhões de euros.

Bombas de calor transformam o aquecimento na Europa
Quase três milhões de bombas de calor, que captam energia do ar, da água ou do solo e a convertem em calor ou ar frio, foram vendidas em 21 países europeus no ano passado, elevando o parque instalado para 29,3 milhões de unidades.

A análise indica que só as 2,9 milhões de novas bombas de calor substituem 2,5 mil milhões de metros cúbicos de GNL, o equivalente a cerca de 24% das importações da UE provenientes do Médio Oriente.

“Cada bomba de calor instalada representa mais um reforço da segurança energética europeia”, afirma Paul Kenny, da EHPA.

“O GNL é a fonte de energia mais cara e vem de fornecedores pouco fiáveis, mas as bombas de calor podem reduzir drasticamente a nossa dependência desse combustível. Na verdade, os europeus já estão a afastar-se dos sistemas de aquecimento a combustíveis fósseis, como mostram os nossos novos dados.”

Kenny acrescenta que o bloco tem agora de tornar o aquecimento limpo tão “simples e acessível” quanto possível.

O bloco prepara atualmente um pacote não legislativo sobre eletrificação, que deverá ser apresentado este mês. Para incentivar a adoção de bombas de calor, os Estados-membros são instados a reduzir impostos e IVA sobre o aquecimento verde e a eletricidade, medida que a Comissão já está a ponderar.

Muitos países europeus já oferecem incentivos para tornar as bombas de calor mais acessíveis. Mesmo Inglaterra, que historicamente registou a menor adesão a bombas de calor, concede um apoio de 7.500 libras (cerca de 8.638,76 euros) para ajudar a cobrir o custo de instalação, se forem cumpridos determinados critérios.

Que país europeu tem mais bombas de calor?
A França liderou no ano passado, com a venda de impressionantes 528 mil bombas de calor. O país tem agora o maior número de bombas de calor instaladas na Europa, com cerca de sete milhões de unidades.

A Itália surge logo a seguir, com 423 mil unidades vendidas em 2025, enquanto Malta (2 mil), Luxemburgo (3 mil) e Chipre (5 mil) ficaram no fim da tabela. Importa, porém, notar que a população destes três países em conjunto é de apenas cerca de 2,5 milhões de pessoas (face aos cerca de 69 milhões que vivem em França).

A Alemanha registou o maior aumento homólogo, com as instalações a dispararem 50%. A subida das vendas surge depois de o país ter abandonado, de forma controversa, um projeto de lei que obrigava as famílias a substituir caldeiras a combustíveis fósseis por alternativas compatíveis com o clima.

A líder parlamentar dos Verdes, Katherina Droege, cujo partido apresentou a lei original em 2023, descreveu a decisão como “um abandono completo das metas climáticas da Alemanha”.

Em termos relativos à dimensão da população, a Noruega lidera a corrida às bombas de calor, com 650 instalações por cada mil agregados familiares. A Finlândia segue de perto, com pouco mais de 540 instalações por cada mil agregados familiares.

Estes países mais frios derrubaram o mito de que as bombas de calor não funcionam com temperaturas baixas. Mesmo quando os termómetros descem aos 30 graus negativos, as bombas de calor podem continuar a ser mais eficientes do que o aquecimento elétrico.

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