terça-feira, 15 de setembro de 2026

No Dia Internacional da Democracia - Do Clique à Fratura Social: Como o Slacktivism, a Perda de Empatia e a Polarização Estão a Redefinir a Democracia Digital

A alvorada da internet alimentou a utopia de uma praça pública global onde a informação descentralizada fortaleceria o debate democrático e a cidadania ativa. Três décadas após os primeiros passos da web comercial, o cenário contemporâneo revela uma realidade antagónica. A mediação do quotidiano pelas redes sociais transformou a participação cívica num bem de consumo efémero. No centro desta metamorfose está o fenómeno do slacktivism - uma fusão entre slacker (preguiçoso) e activism (ativismo) -, onde o compromisso político é progressivamente substituído por microações digitais de baixo custo pessoal e nulo impacto estrutural.

A génese conceptual do termo remonta a meados dos anos 90, descrita por intelectuais como Dwight Ozaki e Fred Clark como uma estratégia de baixo limiar para envolver cidadãos em causas comunitárias. No entanto, foi o ensaísta Evgeny Morozov em The Net Delusion que redefiniu o conceito na era das plataformas digitais, denunciando a ilusão de que partilhar uma hashtag ou assinar uma petição online equivale a uma mobilização política efetiva. Ao gerar um efeito psicológico de "saciedade moral", o clique inicial oferece ao utilizador a sensação do dever cumprido, inibindo frequentemente o seu envolvimento em ações no mundo físico, como o voluntariado, a filiação partidária ou a participação sindical.

2. A Espetacularização do Sofrimento e a Anestesia Empática
A ascensão dos formatos de vídeo vertical (como o TikTok, os Reels e os Shorts) acelerou a conversão de crises sociais complexas em tendências efémeras de entretenimento. Este ecossistema impõe uma lógica de aceleração informacional que atua diretamente sobre a capacidade afetiva do utilizador, conduzindo a uma forma de anestesia ou "fadiga de compaixão".

Neste ambiente, a manifestação de apoio a uma causa converte-se em virtue signalling (sinalização de virtude) - um ato performativo direcionado para a validação pelos pares na própria bolha digital. Estudos no campo da neurobiologia social e da comunicação, como as investigações da Stanford Social Neuroscience Lab, demonstram que a empatia humana requer tempo de processamento reflexivo. A sobrecarga de estímulos visuais curtos e a transição rápida entre tragédias humanas e conteúdos humorísticos no mesmo feed fragmentam o foco cognitivo, neutralizando a capacidade de escuta profunda e reduzindo a empatia a um bem descartável.

3. A Arquitetura da Indignação e o Circuito da Polarização
O slacktivism não subsiste no vácuo; ele é amplificado pela própria arquitetura económica das plataformas. Como demonstram as investigações de Shoshana Zuboff sobre o Capitalismo de Vigilância, o modelo de negócio das redes assenta na retenção da atenção através da otimização algorítmica. Conteúdos que suscitam indignação, moralismo e maniqueísmo geram taxas de conversão e engagement significativamente mais elevadas do que análises ponderadas.

Dimensão SociológicaMecanismo DigitalConsequência Democrática
Identidade de TriboAlgoritmos de recomendação baseados em afinidade (filter bubbles)Homogeneização ideológica e isolamento em bolhas informacionais
Reatividade EmocionalRecompensa imediata por métricas de reação (likes, partilhas)Substituição do argumento racional pelo ataque ad hominem
Perseguidismo DigitalDinâmicas de recompensa por vigilância moral mútuaCultura do cancelamento e recusa do diálogo transversal

A investigação conduzida pelo Pew Research Center sobre Polarização Política documenta como a exposição continuada a ambientes digitais segregados intensifica a antipatia partidária. Quando o debate público é filtrado por algoritmos que premeiam o conflito, o "outro" deixa de ser um interlocutor legítimo e passa a ser percetionado como uma ameaça moral. O slacktivism, que começa como uma forma passiva de apoio, converte-se facilmente em agressividade punitiva digital quando a tribo exige demonstrações públicas de repúdio a quem diverge da norma do grupo.

3. A Erosão Institucional e os Desafios à Participação Cívica
O resultado articulado entre slacktivism, perda de empatia e polarização é a aceleração da atomização social. A participação nas instituições democráticas tradicionais - autarquias, associações de moradores, movimentos de cidadania territorial - exige negociação, compromisso e aceitação da lentidão burocrática. Em contraste, a cultura digital oferece a promessa de um impacto instantâneo que, embora gratificante no plano individual, carece de eficácia transformadora a longo prazo.

Superar este quadro implica transcender a mera literacia digital e avançar para uma reflexão crítica sobre o design das tecnologias que medeiam a vida pública. Tal como já defendi aqui o resgate da soberania democrática exige recuperar a capacidade de estar presente no espaço físico, reabilitar a empatia enquanto competência cívica e recusar a simplificação das causas humanas a meros fluxos de dados num ecrã.

Referências e Leituras Académicas Complementares

Pew Research Center. Research Topics: Political Polarization & Media Habits
DataReportal / We Are Social & Meltwater (2026). Digital 2026: Global Overview 

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Fontaines D.C. - Marianne

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Conheço o trabalho impactante dos Fontaines D.C. e sigo-os atentamente desde Dogrel (2019). Na era da fragmentação cultural e dos algoritmos de recomendação, já não existem 'hinos geracionais' capazes de unir populações inteiras como acontecia nas décadas de 1960 ou 1970 - ou como a contracultura punk, que foi cooptada e virou entretenimento. Hoje, a música de intervenção opera em nichos. A banda fala para uma bolha informada e consciente, mas que já partilha das mesmas angústias e do mesmo sentimento de impotência. Deixaram, assim, de ser a voz da raiva jovem que protesta nas ruas para se tornarem os cronistas da exaustão existencial de uma geração que começa a sentir o peso do cansaço, a perda do idealismo de juventude e o perigo da apatia cívica no mundo contemporâneo.

A canção "Marianne", dos Fontaines D.C., insere-se num estilo marcado pelo Rock Alternativo / Pós-Punk, incorporando elementos de Synth-Rock, Indie Rock e Art Rock. No que diz respeito às principais características sonoras do tema, destaca-se o Post-Punk Moderno, que mantém a linha de baixo pulsante e expressiva - característica fundadora do género - aliada a uma atmosfera densa e soturna. A presença de texturas eletrónicas e sintetizadores (Synth-Rock / Industrial Lite) contrasta com os discos de estreia da banda, nos quais predominavam as guitarras cruas; aqui, a faixa utiliza loops mecânicos e timbres sintéticos que conferem ao tema um tom hipnótico, frio e moderno. Além disso, a vertente de Art Rock e a orquestração noir enriquecem a faixa com arranjos mais cinematográficos e dramáticos, marcados por "floreios orquestrais noir" e camadas que constroem uma tensão progressiva. Por sua vez, o Indie Rock e o Shoegaze subtil fazem com que as guitarras funcionem mais como "paredes de som" difusas e com efeitos (reverb, delay) do que propriamente com riffs diretos de garagem. Esta sonoridade reflete um resumo claro da evolução estética dos Fontaines D.C., assinalando a transição da banda irlandesa - originária de Dublin — da sua sonoridade inicial de Punk/Post-Punk de garagem, cru e acelerado, para uma estética mais ambiciosa, polida e eletrónica, na qual a eletrónica e o rock alternativo dos anos 90 servem de base para a atmosfera de anestesia e alienação descrita na letra. No que concerne ao significado da canção, "Marianne" aborda o escapismo, o entorpecimento emocional e a ténue fronteira entre a obsessão e a autodestruição. Em termos de intervenção, a faixa não funciona como uma canção de protesto político tradicional de intervenção direta, mas constrói uma crítica existencial e social sobre o vazio da sociedade moderna, questionando para onde se pode fugir quando o próprio ato de escapar se torna cada vez mais difícil num mundo dominado pela alienação.  O videoclipe do tema, dirigido pelo prestigiado realizador Dave Meyers, traduz visualmente esta carga dramática através de uma estética alucinógena e cinematográfica. O clipe explora a perda de identidade e a claustrofobia num ambiente surreal que espelha o tom entorpecedor da música. Esta ambiência liga-se diretamente às influências literárias e filosóficas do tema: literariamente, a banda inspira-se no conceito de reinvenção e farsa associado à obra de Patricia Highsmith (The Talented Mr. Ripley) e na poesia fragmentada do modernismo; do ponto de vista filosófico, a faixa bebe do Existencialismo e do Niilismo, ao retratar a busca por anestesia não como uma libertação triunfante, mas como uma diluição existencial no meio da modernidade. 

O Abraço do Sol e da Vida: Uma Ode ao Encontro e à Resistência

Nesta imagem, capturada em Gemunde, no Porto, a Terra desvela um dos seus rituais mais antigos e urgentes: o dinamismo mutualista no seu estado mais puro. Um girassol ergue-se como um centro gravitacional de vida, onde a reciprocidade não é uma escolha, mas a própria condição de existência. A sua corola, um disco solar denso em tons de terra e ouro, transforma-se na praça pública onde a planta oferece néctar e as abelhas asseguram a fertilidade - uma troca perfeitamente equilibrada onde nenhum dos lados extrai sem devolver.

No entanto, esta dança ancestral enfrenta hoje a sombra das agressões humanas. A proliferação de venenos invisíveis, como os neonicotinóides e os pesticidas de síntese, ataca silenciosamente o sistema nervoso destas pequenas arquitetas da biodiversidade, desorientando-as e ameaçando colmeias inteiras. Quando o modelo agrícola convencional fragmenta esta teia vital, compromete o próprio ecossistema que o sustenta.

É precisamente aqui que a agricultura biológica e a economia circular emergem como imperativos éticos e regenerativos. Ao rejeitar os químicos sintéticos e ao fechar ciclos de nutrientes em harmonia com a natureza, a produção biológica devolve aos campos a capacidade de autocura. O girassol e as abelhas personificam o motor circular da vida: a matéria orgânica nutre o solo, o solo saudável alimenta a flor, a flor sustenta o polinizador e este garante a continuidade dos frutos e das sementes, sem resíduos, sem contaminação, num fluxo infinito de renovação.

Ao fundo, o azul do céu e o verde carnudo do folhedo emolduram este instante de resistência simbiótica. O que a foto regista não é apenas um momento poético, mas uma chamada de atenção: defender estas abelhas e apostar num modo de produção biológico é salvaguardar o tecido vivo que nos alimenta e a própria saúde do planeta.

Ciência em Ação: O Impacto Neurobiológico dos Pesticidas nas Abelhas
A vulnerabilidade das abelhas aos agrotóxicos e a sua incapacidade de os evitar não é uma mera suposição, mas um facto demonstrado pela comunidade científica internacional:
  1. Atração Neuroquímica e Falta de Deteção: A investigação realizada por Kessler et al. (2015) na Nature provou que as abelhas não conseguem detetar a presença de neonicotinóides e chegam a preferir néctar contaminado, uma vez que estes químicos estimulam os seus recetores cerebrais de forma análoga aos mecanismos de adição.
  2. Perda de Orientação e Navegação: Experiências conduzidas por Henry et al. (2012) na Science através de microchips RFID demonstraram que doses subletais afetam criticamente a memória espacial, impedindo os polinizadores de regressar à colmeia.
  3. Danos na Aprendizagem Olfativa: O estudo de Williamson & Wright (2013) no Journal of Experimental Biology evidenciou que a exposição a defensivos agrícolas compromete a retenção de memória e a capacidade de associar odores a fontes de alimento seguras.
  4. Procura Compulsiva de Alimento por Escassez: Trabalhos como o de Muth et al. (2019) na Frontiers in Ecology and Evolution mostram como a degradação dos habitats força as abelhas a consumir recursos contaminados, anulando qualquer barreira de repulsão natural.

O tempo despendido no consumo de conteúdos digitais e as suas implicações sociológicas: atomização social, alienação e o declínio da intervenção cívica

O ecossistema digital consolidou-se como o eixo central da vida quotidiana, com os utilizadores de internet em Portugal a demonstrarem uma ligação cada vez mais profunda às plataformas online. Os dados do relatório Digital 2026, elaborado pela We Are Social em parceria com a Meltwater, revelam que mais de 7,5 milhões de portugueses utilizam redes sociais, representando cerca de 8 em cada 10 internautas no país. Em média, o tempo despendido nas redes sociais situa-se nas 2 horas e 10 minutos por dia, com o TikTok a liderar no tempo médio de utilização (1 hora e 23 minutos diários por utilizador ativo) e o YouTube a destacar-se pelo alcance massivo. No entanto, o consumo apresenta uma forte assimetria geracional: os jovens dos 15 aos 24 anos lideram o tempo de ecrã com 2 horas e 25 minutos diários, ao passo que a faixa dos 25 aos 44 anos regista 1 hora e 45 minutos e os utilizadores com mais de 45 anos fixam-se em 1 hora e 15 minutos. Este comportamento mobile-first - impulsionado por 95,9% dos utilizadores que acedem à rede via smartphone - estende-se ao processo de compra, onde 65% dos jovens dos 16 aos 24 anos usam as redes para pesquisar marcas, e à integração massiva da Inteligência Artificial generativa, utilizada diariamente por mais de 40% dos internautas portugueses. 

À escala global, o estudo aponta para 6 mil milhões de utilizadores de internet e 5,66 mil milhões nas redes sociais (68,7% da população mundial), num cenário onde a publicidade social já ultrapassa a televisão e os motores de busca como principal meio de descoberta de marcas entre os 16 e os 34 anos.

A transição massiva para este ecossistema digital contínuo traz consigo profundas implicações sociológicas. A submersão em formatos de vídeo vertical e a personalização extrema por algoritmos favorecem a atomização social, um fenómeno em que os indivíduos se isolam em bolhas informacionais e de entretenimento hiperpersonalizado, fragilizando o tecido comunitário e as interações no espaço público físico.

Este consumo compulsivo acarreta igualmente riscos de alienação social, na medida em que a mediação do mundo real por ecrãs substitui a experiência interpessoal direta por laços parassociais e validação digital. Por sua vez, a saturação de estímulos rápidos e efémeros correlaciona-se com uma diminuição do escrutínio crítico e com uma baixa intervenção cívica, transformando o debate democrático num espetáculo de consumo individual e imediato, onde o ativismo muitas vezes se reduz ao slacktivism de redes sociais, distanciando os cidadãos do envolvimento comunitário tradicional e da ação política participativa.

Fontes e Hiperligações dos Estudos

Dia Europeu da Ecologia


Passaram mais de 150 anos desde que a palavra ecologia foi criada, para dar nome à ciência que estuda as relações entre os seres vivos e o ambiente. Hoje, esse conhecimento continua a ser essencial para compreendermos o mundo.

O Dia da Ecologia, que hoje se celebra, lembra-nos do impacto das nossas escolhas e de como tudo está interligado: da floresta ao oceano, do ar que respiramos à comida que nos chega ao prato.

É também a ecologia que nos dá as bases científicas para encontrar caminhos para viver em maior equilíbrio com o planeta.

O Dia europeu da ecologia, Ecology Day, reúne um conjunto de atividades e recursos pedagógicos que pretende sensibilizar o público para as mais diversas questões do campo da Ecologia.

A história da ecologia é marcada pela transição de uma observação naturalista e descritiva para uma ciência quantitativa, preditiva e interdisciplinar. Em 1866, o biólogo e naturalista alemão Ernst Haeckel formalizou o termo na sua obra Generelle Morphologie der Organismen, combinando as palavras gregas oikos (casa) e logos (estudo). Haeckel definiu a ecologia como o estudo das interações entre os organismos e o seu ambiente orgânico e inorgânico, focando-se essencialmente na adaptação individual das espécies ao seu habitat natural.

Ao longo das primeiras décadas do século XX, a disciplina ganhou rigor metodológico e abrangência concetual. Em 1935, o botânico britânico Arthur Tansley introduziu o conceito seminal de ecossistema, integrando os componentes biológicos e os fatores físicos e químicos num único sistema funcional. Na mesma época, cientistas como o matemático americano Alfred J. Lotka e o físico italiano Vito Volterra desenvolveram modelos matemáticos para descrever as dinâmicas de populações e as relações predador-presa, transformando a ecologia numa ciência com capacidade preditiva.

Na segunda metade do século XX, o foco desviou-se para a circulação de matéria e energia. Os irmãos Eugene Odum e Howard Odum, com a publicação do influente manual Fundamentals of Ecology em 1953, consolidaram a ecologia sistémica ao aplicar os princípios da termodinâmica ao estudo dos biomas. Pouco depois, em 1962, a bióloga marinha Rachel Carson publicou Primavera Silenciosa, uma obra marcante que expôs os perigos dos pesticidas e impulsionou o movimento ambientalista moderno, unindo o conhecimento científico rigoroso à consciência social e política.

Na viragem do século XXI, a disciplina expandiu-se para responder à crise global da biodiversidade. Investigadores como E. O. Wilson, pioneiro da sociobiologia e defensor da conservação da biodiversidade, e ecólogos contemporâneos como Robert Costanza, focado na valoração económica dos serviços dos ecossistemas, adaptaram a ecologia à era do Antropoceno. 

Hoje, a ciência ecológica apoia-se em Big Data, sequenciamento genético ambiental (eDNA) e deteção remota por satélite para monitorizar as alterações climáticas e fundamentar decisões globais de sustentabilidade.

A SPECO – Sociedade Portuguesa de Ecologia, empenha-se na dinamização deste dia: uma iniciativa internacional que une, de forma única, a ecologia e a sociedade, rumo à construção de um desenvolvimento humano mais sustentável.

Em associação com a Federação Europeia de Ecologia (EEF), a SPECO dedica-se anualmente a este dia, com o Alto-Patrocínio da Comissão Nacional da UNESCO.

Mais informações em Ecology Day.Eu ou em Ecology Day.

"Para mim, a ecologia não deve ser um dogma, deve ser integrada em uma grande pensamento político sobre a humanidade. O problema não é apenas preservar a Natureza, mas perceber que a nossa sobrevivência está ameaçada por dentro pela nossa forma de vida, pela consumição, pela circulação, pela nossa forma de ser submetida à ditadura do lucro, que é contrária à possibilidade de regenerar os recursos do planeta. Hoje, a minha preocupação é o destino da humanidade na Terra."
  
Edgar Morin  

Sidewalks and Skeletons - † BORN TO DIE †

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Sidewalks and Skeletons é o projeto solo de música electrónica do produtor britânico Jake Lee, originário de Bradford, Inglaterra. Fundado em 2011 e ativo até os dias de hoje, o projeto é uma das principais referências do gênero Witch House, fundindo vertentes como Darkwave, Ethereal Wave, Ambient e ritmos lentos e pesados inspirados na cultura chopped and screwed. A faixa † BORN TO DIE † sintetiza perfeitamente essa assinatura sonora, combinando sintetizadores distorcidos, graves profundos e vocais etéreos que criam uma atmosfera densa e melancólica.

O videoclipe de † BORN TO DIE † utiliza uma estética de vídeo caseiro lo-fi, sobreposições sombrias e efeitos de glitch para transmitir uma mensagem profundamente existencialista. A obra explora a fragilidade da vida e a inevitabilidade da morte, sugerindo que a finitude é a única certeza humana desde o momento do nascimento. Além disso, as imagens desoladas e as figuras envoltas em sombras refletem sentimentos de alienação, isolamento e desespero no contexto da vida moderna. O uso das cruzes na iconografia da música não possui um viés religioso tradicional, mas funciona como um elemento estético típico da cena Witch House para evocar o mistério, o esoterismo e o desconhecido.

As influências de Jake Lee baseiam-se fortemente no Romantismo Sombrio e na literatura gótica clássica, absorvendo o misticismo e a obsessão pela mortalidade presentes nas obras de autores como Edgar Allan Poe e H. P. Lovecraft. Essa carga literária transparece no sentimento de horror cósmico e na melancolia introspectiva de suas composições. Do ponto de vista cultural, o projeto conecta a herança do Post-Punk e da Darkwave dos anos 1980 à estética cyber-gótica contemporânea, utilizando frequências abafadas e texturas rituais para transformar a música numa experiência quase transcendental.

Página Oficial
Sidewalks and Skeletons

domingo, 13 de setembro de 2026

Como fazer a ruptura pós-capitalista

Löwy: crise climática pede a ruptura do capitalismo
O grande erro dos movimentos ecológicos atuais é continuarem a agir como se estivéssemos em meados do século passado, acreditando que basta organizar marchas, erguer cartazes e divulgar relatórios científicos para despertar a consciência das pessoas. Essa abordagem ignora uma mudança profunda: a praça pública de outrora foi substituída por um ecossistema digital desenhado ao milímetro para manter a população num estado de anestesia e distração permanentes. Esperar por uma revolução ética de baixo para cima quando a sociedade passa o dia a consumir dopamina rápida em ecrãs hipervigilados é uma ilusão ingénua - e um luxo que o relógio climático não nos concede.

Como já tinha referido aqui e aqui, para que o Ecologismo e o Humanismo Activo deixem de ser uma carta de intenções morais e se tornem uma força política real, a estratégia tem de deixar de ser pedagógica e passar a ser infraestrutural. Se a consciência coletiva está bloqueada pela arquitetura do capitalismo de vigilância descrita por Shoshana Zuboff, o primeiro passo não é tentar convencer o indivíduo sedado, mas desmontar a engenharia do vício. Isso exige tratar o assalto ao tempo e à cognição analisado por Jonathan Crary ou Bernard Stiegler como uma ameaça direta à própria capacidade de organização política. Sem resgatar o tempo e a lucidez roubados pelas plataformas digitais, qualquer tentativa de mobilização dilui-se inevitavelmente no ruído algorítmico.

Ao mesmo tempo, perante a paralisia cultural do "realismo capitalista" teorizada por Mark Fisher - em que se tornou mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do sistema económico -, o movimento precisa de abandonar a mera protestação simbólica. Como defende o historiador Andreas Malm, a escassez de tempo exige uma transição para a ação direta de alta fricção, focada no desmantelamento tático e financeiro das infraestruturas fósseis. O foco deixa de ser agradar à opinião pública e passa a ser tornar a atividade poluidora economicamente inviável. Essa disrupção física deve ser acompanhada por aquilo a que Ivan Illich chamava "ferramentas de convivência": a criação de redes locais e analógicas de sobrevivência alimentar, energética e comunitária. É na junção entre o resgate da atenção, a paralisação do capital ecocida e a construção de resiliência no terreno que a ética ambiental encontra a sua tradução em poder político efetivo.

Os Autores e Teóricos Subjacentes a Esta Tese

  • Shoshana Zuboff (A Era do Capitalismo de Vigilância): Dá-lhe o argumento central sobre como as plataformas digitais não são meros meios de comunicação, mas indústrias de modificação comportamental que destroem a autonomia e a capacidade de organização coletiva.
  • Andreas Malm (Como Salvar um Planeta em Chamas / How to Blow Up a Pipeline): Fundamenta a crítica ao pacifismo estratégico tradicional. Malm defende que, perante a urgência, o movimento ecológico tem de ultrapassar os protestos simbólicos e adotar a sabotagem tática de infraestruturas fósseis (sem violência contra pessoas) para encarecer o capital poluidor.
  • Mark Fisher (Realismo Capitalista): Sustenta a tese da alienação e da paralisia: a ideia de que o sistema criou uma anestesia cultural onde é "mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo", transformando o sofrimento e a ansiedade em consumo passivo.
  • Ivan Illich (Tools for Conviviality): Alimenta a ideia da construção de "cidadelas analógicas" — a necessidade de criar tecnologias e redes de escala humana, locais e desvinculadas dos megassistemas industriais e digitais para devolver a autonomia às comunidades.
  • Cédric Durand ou Nick Srnicek (Capitalismo de Plataforma / Feudalismo Digital): Em vez de olhar para a psicologia do ecrã (como Han faz), estes autores explicam a arquitetura económica real de como as grandes plataformas extraem renda e capturam o comportamento humano.
  • Bernard Stiegler: Para uma crítica da tecnologia incomparavelmente mais rigorosa e profunda. Stiegler concilia a filosofia da técnica com a neurobiologia e a economia política, explicando como a tecnologia digital nos priva do "saber-fazer" e do "saber-viver", gerando uma proletarização da mente.
  • Bernard Stiegler (24/7: O Capitalismo Tardio e os Fins do Sono): Examina como o capitalismo do século XXI tenta eliminar as pausas humanas naturais (como o sono e a reflexão), transformando o tempo contínuo num mercado de consumo e vigilância.

Já há um ano, Jason Hickel advertia sobre os efeitos desastrosos da aceleração da IA e o fetiche do crescimento: uma síntese da entrevista à Novara Media

Na sua intervenção no programa downstream da Novara Media (conduzido por Aaron Bastani), o antropólogo e economista político Jason Hickel apresentou um diagnóstico profundo e estruturado sobre o colapso ecológico, a falácia do crescimento económico infinito e as dinâmicas de aceleração tecnológica sob a lógica capitalista. o debate vai muito além do simples apelo à redução do consumo, desenhando um plano de planeamento económico democrático e ecossocialista.

1. A tirania do PIB e a ilusão do "crescimento verde"
O PIB mede a troca mercantil e não o bem-estar real. Aumentar o PIB exige transformar constantemente ecossistemas em mercadorias vendáveis. tentar manter a economia global a crescer 2% ou 3% ao ano anula a eficácia das energias renováveis.

2. A aceleração tecnológica e a IA sob o capitalismo
Sob a lógica da acumulação, a automação e a inteligência artificial não reduzem o esforço humano nem poupam recursos. Em vez disso, impulsionam uma procura energética gigante (necessária para alimentar data centers e minerar recursos) e são usadas para reduzir custos laborais e precarizar empregos. numa sociedade pós-capitalista, os ganhos da IA serviriam para reduzir a jornada de trabalho e redistribuir o tempo.

3. A reorganização da produção: o que deve crescer e encolher
sectores a reduzir / desmantelarsectores a expandir
indústria de armamento e militarismotransportes públicos universais
aviação comercial de alta frequênciasistemas de saúde e educação públicos
fast fashion e obsolescência programadaenergias renováveis e eficiência de edifícios
pecuária industrial e publicidade comercialagricultura ecológica e soberania alimentar
4. Ecossocialismo democrático e transição justa
Para garantir que a redução do uso de recursos não gera desemprego ou austeridade, Hickel defende uma garantia pública de emprego (assegurando trabalho remunerado na transição ecológica para quem dele necessite) e a desmercantilização dos serviços básicos (habitação, saúde, energia e transportes universais).

5. Dados concretos e evidência empírica
Hickel sustenta as suas teses com dados quantitativos consolidados em estudos de contabilidade de fluxos materiais e pegada de carbono:
  • extrapolação dos limites planetários: fundamentado no trabalho do stockholm resilience centre, que monitoriza os limites biofísicos da terra (como mudanças climáticas, perda de biodiversidade e uso de água doce).
  • desigualdade na pegada ecológica: citando dados do global footprint network e da base de dados global de fluxos materiais da onu ambiente (unep), Hickel sublinha que o norte global é responsável por mais de 70% do uso excessivo de recursos materiais do planeta em relação aos níveis sustentáveis, e por cerca de 92% das emissões históricas de carbono acima da quota segura de 350 ppm.
  • drenagem neta do sul global: apoiado nas suas próprias investigações publicadas em revistas como a The Lancet Planetary Health, o autor demonstra que os países ricos extraem anualmente do sul global biliões de toneladas de recursos e milhões de anos de trabalho equivalente a preços desvalorizados para manter o seu nível de consumo.
  • inviabilidade do desacoplamento total: recorrendo às conclusões do painel intergovernamental sobre mudanças climáticas (ipcc), Hickel aponta que não existem provas empíricas de que seja possível desacoplar o crescimento do PIB do consumo de recursos materiais à velocidade necessária para cumprir as metas do Acordo de Paris.

sábado, 12 de setembro de 2026

ACTORS - Youth

Melhor som aqui
A banda canadiana ACTORS, formada em Vancouver pelo vocalista, produtor e compositor Jason Corbett, consolida no single e videoclipe "Youth" a sua identidade marcada pelo post-punk contemporâneo, pela darkwave e pela synth-wave. Integrando a cena alternativa da editora Artoffact Records, o grupo destaca-se pelo som que combina linhas de baixo pulsantes, sintetizadores soturnos, guitarras cortantes e vocais densos e melancólicos. A produção musical do tema foi realizada pelo próprio Jason Corbett no seu estúdio, o Jacknife Sound, garantindo a estética sonora precisa que caracteriza o grupo, enquanto a construção visual do clipe reflete a direção artística e criativa da teclista e designer da banda, Shannon Hemmett, em parceria com realizadores recorrentes do projeto.

No plano conceptual, a obra dos ACTORS reflete influências que vão além da música, alimentando-se do surrealismo e da estética cinematográfica de realizadores como David Lynch, cuja exploração do subconsciente e dos mistérios ocultos sob a superfície do quotidiano serve de modelo para a composição das letras. Filosoficamente, as composições abordam premissas existencialistas voltadas para o isolamento moderno, a alienação, a dualidade da mente e a fragilidade das relações humanas. Em "Youth", essas vertentes traduzem-se numa narrativa poética sobre a efemeridade do tempo, a busca por identidade e a tensão entre a inocência perdida e as inquietações do mundo contemporâneo.

O fenómeno do homonacionalismo: como a AfD e Alice Weidel reconfiguraram o voto LGBTIA+ na Alemanha

«Não sou queer, sou apenas casada com uma mulher que conheço há 20 anos».

Apesar do discurso tradicionalmente conservador e da defesa do modelo familiar clássico, o partido de extrema-direita alemão Alternative für Deutschland (AfD) conseguiu captar um volume significativo e surpreendente de votos junto de setores da comunidade LGBTI+, particularmente entre homens homossexuais e bissexuais. Este fenómeno, frequentemente analisado através do conceito de "homonacionalismo", ficou evidente em várias sondagens realizadas no país. Numa pesquisa efetuada pela popular plataforma de encontros para homens gay Romeo, por exemplo, a AfD chegou a liderar as intenções de voto entre os utilizadores na Alemanha, ultrapassando partidos historicamente associados à defesa dos direitos das minorias sexuais, como Os Verdes e o Partido Social-Democrata (SPD).

O principal motor para esta adesão eleitoral reside na forte agenda anti-imigração do partido. Uma parcela substancial dos eleitores LGBTI+ que vota na AfD justifica a sua escolha com o medo do aumento do antissemitismo e da homofobia na esfera pública, associando estes problemas ao crescimento da imigração proveniente de países de maioria muçulmana ou de sociedades culturalmente muito conservadoras. Para estes eleitores, as propostas de restrição de fronteiras da extrema-direita são percpcionadas como uma salvaguarda para o seu estilo de vida e segurança individual. Além disso, a figura de Alice Weidel, co-líder nacional da AfD - que é abertamente homossexual, vive numa união do mesmo sexo e tem dois filhos com a sua companheira -, serve como um elemento de validação para este eleitorado, reduzindo a perceção de que o partido seja intrinsecamente homofóbico. Existe também uma rejeição, por parte de setores mais assimilados da comunidade, em relação ao ativismo LGBTQIA+ contemporâneo e às pautas de identidade de género.

No entanto, este apoio eleitoral convive com profundas contradições em relação ao programa oficial da AfD. O partido opõe-se abertamente ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, defende ativamente a família tradicional como único pilar da sociedade, combate a introdução de conteúdos sobre diversidade sexual nas escolas e rejeita a Lei de Autodeterminação de Género, promovendo iniciativas para banir símbolos como a bandeira arco-íris de edifícios públicos. Esta dualidade faz com que a relação entre a extrema-direita alemã e a comunidade LGBTI+ continue a ser um dos temas mais controversos e fracturantes do debate político na Alemanha- num cenário onde, para muitos analistas, impera a lógica de que vale tudo para atingir o poder.

A contradição entre a agenda da AfD e o apoio de parte do eleitorado LGBTI+ é um dos fenómenos sociopolíticos mais estudados na Alemanha contemporânea. A leitura de que impera a lógica do "vale tudo para atingir o poder" é fundamentada por diversos académicos, jornalistas e politólogos que analisam as táticas de comunicação do partido e a psicologia do seu eleitorado. A teórica cultural Jasbir Puar formulou o conceito de homonacionalismo para descrever como certos setores de minorias sexuais acolhem ideologias nacionalistas e xenófobas, projetando a homofobia exclusivamente no "outro" - neste caso, nos imigrantes de países de maioria muçulmana. Em paralelo, a psicóloga social Beate Küpper demonstra que a AfD oferece a estes eleitores uma "identidade social de pertença", permitindo que o eleitor gay alemão se sinta parte do grupo dominante nacional em oposição ao imigrante muçulmano. Por sua vez, o cientista político Constantin Wurthmann aponta a figura de Alice Weidel como uma estratégia calculada de "folha de figueira" (fig leaf) para suavizar a imagem do partido e desarmar acusações de homofobia, permitindo ao eleitorado alinhar-se com a extrema-direita sem culpa ideológica. Já o ativista Volker Beck e o jornalista e analista político Enrique Anarte enquadram esta dinâmica no conceito de pinkwashing eleitoral, denunciando o uso da diversidade de uma figura de topo para ocultar uma plataforma abertamente hostil aos direitos LGBTI+.

Esta complexa teia explicativa reflete a razão pela qual a sociedade alemã vive hoje um tempo nem branco nem negro, mas marcado por profundas zonas cinzentas e contradições éticas. A população enfrenta uma forte polarização onde a perceção de insegurança individual e o medo do radicalismo religioso superam a adesão estrita aos princípios liberais e aos direitos sociais abrangentes. Adicionalmente, regista-se a normalização do que antes era inaceitável: o cordão sanitário político (Brandmauer) que afastava a extrema-direita está a esboroar-se, e o eleitorado habituou-se ao discurso da AfD, deixando de o ver sob uma ótica maniqueísta de "bem contra o mal" para o encarar como uma opção viável de protesto. O próprio movimento LGBTI+ vive uma fratura interna, deixando de ser um bloco monolítico e dividindo-se entre um eleitorado mais "assimilado ou conservador" e as pautas identitárias e trans mais recentes. Por fim, vigora uma hipocrisia institucionalizada em que o eleitorado aceita votar num partido cuja co-líder, Alice Weidel, beneficia pessoalmente de direitos - como a união de pessoas do mesmo sexo e a parentalidade - que a própria plataforma do seu partido procura limitar ou revogar para o resto da sociedade.

Este vídeo Breaking down Far Right AfD Party’s anti LGBTQ+ platform in Germany  analisa detalhadamente o paradoxo da AfD na Alemanha, explicando como o partido utiliza táticas políticas complexas enquanto mantém uma plataforma que afeta os direitos da comunidade LGBTI+.

O colapso dos sistemas naturais pode intensificar o aquecimento em 30 por cento, alerta novo estudo



À medida que o planeta aquece, a tundra está a descongelar, as zonas húmidas estão a fermentar e as florestas estão a ceder a incêndios florestais maiores e mais frequentes. o colapso destes sistemas naturais está a libertar volumes enormes de emissões, intensificando ainda mais o aquecimento provocado pela queima de combustíveis fósseis. de acordo com uma nova investigação, estes ciclos de retroalimentação (feedback loops) podem ampliar o aquecimento causado pela ação humana entre 20 e 30 por cento.

Mesmo que a humanidade alcance a neutralidade carbónica (emissões líquidas zero) no final deste século, as retroalimentações adicionariam mais 0,2 °C de aquecimento, segundo o estudo de modelação publicado esta semana na revista Environmental Research Letters. e se o mundo não conseguir atingir a neutralidade carbónica, e os países continuarem a produzir algumas emissões residuais até ao final deste século, o aquecimento adicional ficará mais próximo dos 0,4 °c.

O mundo está já 1,4 °C mais quente do que na era pré-industrial e as emissões de combustíveis fósseis continuam a crescer, colocando a Terra em rota para ultrapassar os 2,5 °C de aquecimento este século, dizem os cientistas - ultrapassando largamente as metas climáticas internacionais. no entanto, embora o aquecimento adicional proveniente dos ciclos de retroalimentação vá acelerar ainda mais o aumento das temperaturas, as emissões decorrentes do colapso dos sistemas naturais estão em grande parte ausentes dos modelos climáticos mais influentes, aqueles que orientam as negociações climáticas.

«Este multiplicador oculto está ausente dos modelos que orientam a política climática, pelo que esses modelos estão provavelmente a subestimar quanto aquecimento está para vir - e a sobrestimar quanto carbono ainda nos podemos dar ao luxo de emitir», disse o autor principal Sam Abernethy, investigador na Spark Climate Solutions, uma organização sem fins lucrativos sediada em São Francisco que visa identificar «pontos cegos» climáticos e contabilizá-los nas políticas. «para fechar essa lacuna, precisamos de compreender melhor estes processos e de os integrar nos modelos em que confiamos.»

Os desafios são enormes. os ciclos de retroalimentação são difíceis de modelar e escasseiam dados sobre emissões em locais de difícil acesso, como a Sibéria ou a Bacia do Congo. no entanto, como o Yale Environment 360 reportou recentemente, cientistas de todo o mundo estão a trabalhar para prever melhor as emissões dos sistemas naturais.

«Se não se estiver a incluir todas as emissões que vão para a atmosfera, fica-se de mãos atadas desde o início», disse Brian Buma, cientista climático no Environmental Defense Fund, ao e360. «as pessoas estão a reconhecer que, quanto mais tempo passarmos sem ter em conta estas emissões, maior será a lacuna.»

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sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Caoilfhionn Rose - Canyons


A atuação ao vivo de "Canyons" pela cantora e compositora britânica (com raízes familiares irlandesas e sediada em Manchester) Caoilfhionn Rose transmite uma beleza singular ao despir-se de artifícios de produção, apostando plenamente na atmosfera, na geografia e na textura sonora. Gravado numa encosta remota junto ao Loch Cluanie, na Escócia, o vídeo regista um momento puro e autêntico, onde a sua voz e a guitarra acústica azul interagem diretamente com o ar livre. Em vez de recorrer a um estúdio requintado, a atuação apoia-se na acústica natural, no vento ambiente discreto e num cenário vasto e contemplativo que espelha fisicamente os temas da canção sobre distância, espaço e perspetiva.

Musicalmente, a peça cruza o folk tradicional com nuances atmosféricas de dream pop e jazz espiritual, um estilo distintivo associado à sua editora, a Gondwana Records. A sua interpretação vocal leve e delicada cria um contraste íntimo com a imensidão da paisagem escocesa.

Em termos de influências literárias e filosóficas, o tema inspira-se diretamente no livro On Connection do poeta e dramaturgo britânico Kae Tempest, bem como em reflexões de cariz existencialista e estoico sobre a transitoriedade do tempo. A letra aborda o distanciamento emocional - os "desfiladeiros" que se abrem entre as pessoas - não como uma tragédia, mas sim como um lembrete sereno para valorizar o presente e aceitar os ciclos de mudança da vida. A obra destaca-se por parecer menos um videoclipe encenado e mais um registo íntimo e espontâneo capturado em viagem.

A algoritização do ódio: as redes sociais, a extrema-direita e a erosão da democracia


A transformação do ecossistema digital de um espaço de ligação interpessoal numa máquina industrial de rentabilização da mediocridade e do sensacionalismo ultrapassa as fronteiras da mera desilusão tecnológica ou da crítica de consumo. A mutação da esfera pública numa arquitetura desenhada para viciar provocou uma fratura tectónica na vida democrática contemporânea. Longe de serem juízes neutros, os algoritmos de recomendação das grandes plataformas atuam como catalisadores de incentivos perversos onde a indignação, o ruído e a falsidade se sobrepõem sistematicamente ao conhecimento e à utilidade real. É precisamente nesta assimetria estrutural - onde a futilidade e o conflito são convertidos em capital publicitário - que reside a aliança simbiótica entre a arquitetura Big Tech e a ascensão dos movimentos de extrema-direita, num processo que conspira ativamente contra as fundações da democracia liberal.

1. O modelo de negócio da atenção e a proliferação das redes
A premissa central sobre a qual repousa o império das redes sociais é a maximização do tempo de ecrã (engagement). Como demonstraram os dados divulgados pela whistleblower Frances Haugen através dos Facebook Papers, os sistemas de recomendação priorizaram historicamente as reações emotivas de "indignação" (Angry), atribuindo-lhes cinco vezes mais peso algorítmico do que a um simples "Gosto". Esta decisão de engenharia não respondeu a uma neutralidade política, mas sim a um cálculo económico: a raiva e o ridículo desencadeiam reações biológicas mais rápidas, comentários mais acesos e partilha compulsiva.

O resultado é uma economia da atenção globalizada em que várias plataformas promovem ativamente a desinformação e rentabilizam o discurso de ódio:
  1. Facebook (Meta): continua a ser o pioneiro na monetização do clickbait e na otimização da raiva, cortando o alcance orgânico do jornalismo e da cultura para forçar o pagamento de promoção, enquanto distribui gratuitamente conteúdos divisivos.
  2. X / Twitter: sob a liderança de Elon Musk, a plataforma desmontou grande parte das suas equipas de moderação de conteúdo, alterou a verificação de contas para um modelo pago sem autenticação real e reconfigurou o algoritmo para ampliar posts de alto envolvimento emocional, tornando-se uma incubadora direta de teorias da conspiração e discurso extremista.
  3. TikTok: utiliza um algoritmo de recomendação hiper-otimizado que identifica fragilidades emocionais em segundos. Ao priorizar vídeos de curta duração baseados em choque, pânico moral ou desinformação médica e política, a rede cria espirais rápidas de radicalização para públicos extremamente jovens.
  4. YouTube (Google): o seu motor de recomendação foi documentado por diversos académicos por conduzir utilizadores ao longo de "tocas de coelho" (rabbit holes) ideológicas, onde vídeos moderados levam gradualmente a conteúdos cada vez mais extremistas e conspiratórios para reter a visualização contínua.
  5. Telegram e WhatsApp: funcionam como redes de comunicação opaca em massa onde a desinformação circula sem qualquer moderação de factos. A arquitetura de grupos e canais gigantes permite a orquestração de campanhas de difamação e pânico social longe do escrutínio público.
2. A extrema-direita e o uso ativo do algoritmo
Se a infraestrutura das redes sociais foi desenhada para priorizar o conflito e a polarização, os movimentos populistas e radicais revelaram-se os seus utilizadores mais eficazes. Contudo, existe um debate central sobre esta relação: a extrema-direita não é meramente um produto passivo do algoritmo, mas sim um ator político estratégico que aprendeu ativamente a instrumentalizar a plataforma. Muito antes da otimização algorítmica, estes movimentos já exploravam os limites da propaganda; com as redes sociais, encontraram o meio perfeito para dar escala global a ressentimentos sociais, económicos e culturais preexistentes.

Esta captura opera através de quatro eixos fundamentais:
  1. Simplicidade maniqueísta vs. complexidade: o discurso de extrema-direita constrói narrativas diretas de "nós contra eles", medo e ameaça. Tais mensagens adaptam-se com facilidade à leitura rápida do feed, ao contrário de análises ponderadas sobre políticas públicas ou causas como o ativismo ambiental e a ciência, que exigem nuance e acabam sufocadas pela máquina.
  2. Tática do clickbait emocional: ao alavancar títulos enganadores e factos distorcidos (que chegam a representar entre 60% a 70% dos artigos virais), estes atores transformam o pânico moral, o preconceito e a paranoia em mercadoria virótica.
  3. Exploração das bolhas de filtro: ao isolar os utilizadores em ecossistemas de validação mútua, os algoritmos criam câmaras de eco impermeáveis ao contraditório, expostas continuamente a versões hiperbolizadas da realidade.
  4. Guerra memética e humor de fronteira: o sensacionalismo assume frequentemente a forma de memes e conteúdos pretensamente humorísticos, suavizando o extremismo e permitindo espalhar desinformação a uma velocidade superior à da verdade.
3. A erosão democrática: a ruptura do consenso factual
A democracia não exige o acordo universal sobre valores, mas pressupõe um terreno mínimo de factos partilhados. O impacto devastador da desinformação foi empiricamente mensurado em investigações do MIT, que demonstraram que conteúdos falsos têm 70% mais probabilidade de ser partilhados do que a verdade e atingem as primeiras 1.500 pessoas cerca de seis vezes mais rápido. Quando a mentira circula a esta velocidade em múltiplas plataformas, a possibilidade de um debate público racional colapsa.

A transfiguração da praça pública num mercado de quinquilharia emocional corrói o sistema democrático de três formas críticas:
  1. Destruição da confiança nas instituições: o jornalismo de investigação e o conhecimento científico perdem sustentabilidade e alcance diante da enxurrada de lixo digital.
  2. Normalização do discurso de ódio: a validação algorítmica do conteúdo ruidoso desloca o limite do aceitável (Janela de Overton), dando centralidade a ideias anteriormente remetidas à margem do espectro político.
  3. Incapacidade de governação plural: uma cidadania submetida a fluxos constantes de medo perde a capacidade de ponderar escolhas políticas, transformando o debate democrático numa guerra cultural permanente.
Conclusão: da matéria-prima à soberania democrática
A crise das redes sociais não é um desvio de percurso ou uma falha acidental da tecnologia: é o resultado lógico de um modelo comercial que mercantiliza a psique humana. Ao transformar a atenção em moeda e a raiva em dividendo, os algoritmos revelaram-se eficientes desestabilizadores da ordem democrática. Reconhecer que a tecnologia oferece o terreno, mas que os atores políticos instrumentalizam ativamente a infraestrutura, é o primeiro passo para compreender que a defesa da democracia no século XXI passa obrigatoriamente pela regulação rigorosa, transparência algorítmica e limitação do modelo de negócio baseado na vigilância e na polarização. Sem a recuperação de um espaço público guiado pela verdade factual e pela utilidade real, a soberania popular continuará refém de uma arquitetura otimizada para a distração em massa e o lucro.

Ladytron - Free, Free

Melhor som aqui
Letra
[Verse 1]
A morning alone, you head for the train
This time unsure if returning again
The classifieds dissolve on the way
Anaesthetised with nowhere to stay
And this is how you find yourself
The city lights are drawing you south
How cruel a thing to feel like you've won
With the cruelest thing that you've ever done, done, done

[Chorus]
Free to make yourself complete

[Verse 2]
It's okay, nobody diеd
Except for the ghost that you left behind
How cruel a thing to feel like you've won
With the cruelest thing that you've ever done, done, done

[Chorus]
Free to make yourself complete

[Outro]
Don't listen to your heart
Free, free

Análise Filosófica e Temática de "Free, Free" dos Ladytron
A banda britânica Ladytron, originária de Liverpool e formada no final dos anos 1990, sempre se destacou no cenário da música eletrónica pelo seu estilo distintivo que mescla synthpop, electropop e influências de shoegaze. No trabalho "Free, Free", integrado no álbum Paradises de 2026, a formação demonstra uma evolução estética ao desacelerar as frequências puramente dançantes para construir uma paisagem sonora mais envolvente, melancólica e contemplativa. O uso de sintetizadores analógicos com texturas densas e vocais etéreos cria uma atmosfera de "futurismo nostálgico", afastando-se do minimalismo mecânico dos seus primeiros trabalhos e aproximando-se de uma experiência quase hipnótica.

Liricamente, a canção explora o conceito de liberdade num mundo hiperconectado e saturado de informação. A repetição do vocábulo "Free" ao longo da faixa não funciona como uma celebração eufórica, mas sim como uma reflexão irónica e questionadora. A composição aborda o contraste entre a promessa moderna de autonomia individual e a realidade da dependência tecnológica, sugerindo que a busca incessante por libertação pode, paradoxalmente, conduzir ao isolamento e à apatia.

Sob o ponto de vista filosófico e literário, a obra dialoga diretamente com o existencialismo de Jean-Paul Sartre, particularmente com a noção de que a liberdade é um fardo inevitável que exige a construção contínua do próprio sentido da vida. Paralelamente, ecoa o pensamento de Guy Debord em A Sociedade do Espetáculo, ao retratar uma liberdade comodificada e ilusória, desenhada para criar a sensação de escolha dentro de um sistema rigidamente controlado. As ressonâncias da literatura de ficção científica distópica de autores como J.G. Ballard e Philip K. Dick também são evidentes, refletindo a alienação do indivíduo perante cenários urbanos e digitais onde a própria identidade se torna fluida e incerta. Em última análise, a faixa convida o ouvinte a questionar os limites da sua própria autonomia no mundo contemporâneo.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Há cada vez mais investigadores da Anthropic a alertar para os riscos da IA que se autoaperfeiçoa recursivamente. Musk fala em "armadilha"



As preocupações dentro da Anthropic sobre os riscos da inteligência artificial estão a ganhar força. Um dia depois de um antigo investigador da empresa ter abandonado o cargo com um alerta sombrio, outros investigadores e trabalhadores vieram a público para dizer que partilham das mesmas inquietações, enquanto Elon Musk e outras figuras classificam a onda de críticas como uma “operação”.

Jacob Coxon, antigo investigador da Anthropic, anunciou na quarta-feira a saída da empresa por considerar que nem a Anthropic nem a OpenAI, onde também trabalhou, estão a desenvolver modelos de inteligência artificial de forma responsável. Segundo Coxon, as duas empresas estão a “jogar com as nossas vidas”.

Os investigadores que entretanto se manifestaram receiam que a tecnologia possa tornar-se tão avançada e perigosa que provoque a extinção da humanidade na próxima década, defendendo que muitos dos seus colegas partilham estas preocupações, embora não as expressem publicamente.

Exemplo disso é Anna Wang, funcionária na área de segurança da Inteligência Artificial Geral na Anthropic e antiga trabalhadora da DeepMind, da Google, que afirmou na quinta-feira que muitas pessoas dentro da empresa querem abrandar o desenvolvimento para criar um plano capaz de reduzir os riscos associados a estes modelos.

“Ainda não existe um plano científico viável para resolver os riscos da IA que se autoaperfeiçoa recursivamente”, escreveu na rede social X.


“As coisas estão a avançar demasiado depressa, não temos de todo o nível de garantias que vamos querer para a ASI [superinteligência artificial]”, escreveu.

Mas a tese, no entanto, não é partilhada por todos. Elon Musk, por outro lado, adotou uma posição mais de confronto perante os alertas. “Parece uma armadilha”, escreveu na rede social X.

Horas depois, Jacob Coxon respondeu ao empresário com uma fotografia sua, acompanhada da mensagem: “Eu sou real e estas são as minhas crenças reais. Poderias perguntar aos teus investigadores da xAI sobre mim se não os tivesses despedido.”

Entretanto, e em declarações ao The Guardian, um porta-voz da Anthropic defendeu a estratégia da empresa. “Sempre fomos transparentes ao dizer que a IA trará benefícios enormes e riscos sem precedentes. Para responder a esses riscos, continuamos a desenvolver modelos com algumas das salvaguardas mais fortes da indústria”, afirmou.

Não é, contudo, totalmente claro de que forma Coxon e os outros investigadores esperam que os modelos de IA possam conduzir ao desaparecimento da humanidade. Alguns especialistas duvidam que a tecnologia venha a atingir um nível de inteligência capaz de provocar um apocalipse. Gary Marcus, cientista e uma das vozes mais conhecidas no debate sobre inteligência artificial, afirmou que é altura de boicotar a IA, mas por considerar que esta já está a causar danos.

Mais do que a extinção da humanidade, Marcus disse estar preocupado com o “risco de catástrofe” provocado por “agentes patogénicos gerados por IA, guerras iniciadas ou agravadas por desinformação gerada por IA, ataques informáticos que destruam infraestruturas críticas, entre outras coisas". "Nada do que vi indica que alguma destas questões esteja sob controlo”, acrescentou.

No mesmo dia, a Anthropic divulgou um relatório no qual documentou a forma como desmantelou uma operação que tentava desenvolver uma arma biológica utilizando os seus modelos de inteligência artificial.