domingo, 4 de outubro de 2026

Faz mal deixar o gato ir à rua sozinho?


Gatos domésticos e a biodiversidade: o impacto silencioso na vida selvagem
Durante décadas, existiu o mito de que os felinos precisam de "liberdade" e de acesso à rua para terem uma vida plena e feliz. No entanto, a realidade atual desmente esta ideia. Deixar o seu felino passear sozinho e sem supervisão é, hoje em dia, um dos maiores riscos para a sua sobrevivência e, simultaneamente, uma ameaça silenciosa para o equilíbrio ambiental.
Embora o gato doméstico (Felis catus) seja um companheiro dócil dentro de quatro paredes, as suas garras e dentes escondem um predador altamente eficaz. Quando sai de casa, o seu instinto de caça permanece totalmente intacto. Ele não caça por fome, mas sim por puro reflexo natural. O resultado deste comportamento assume proporções alarmantes à escala global, com milhares de milhões de aves e pequenos mamíferos a perderem a vida todos os anos devido à predação felina.

O impacto global em números
Os números associados à predação felina são alarmantes. Um grande estudo internacional publicado na Nature Communications revelou que os gatos em liberdade consomem mais de 2.000 espécies de animais diferentes em todo o mundo, incluindo centenas que se encontram sob ameaça de conservação.
Apenas nos Estados Unidos, as estimativas apontam para a perda anual de aves - entre 1,3 e 4 mil milhões de indivíduos.  Mamíferos: entre 6,3 e 22,3 mil milhões de pequenos animais.

De acordo com dados analisados pela BBC News Brasil, esta pressão predatória contínua já associou os gatos à extinção moderna de pelo menos 63 espécies de aves, mamíferos e répteis.

A vulnerabilidade das ilhas e habitats isolados
O problema atinge proporções críticas em ecossistemas insulares. Como muitas espécies nativas evoluíram em ambientes sem a presença de mamíferos carnívoros rápidos, elas não possuem estratégias de defesa ou fuga eficazes. Em Portugal, este risco é visível em territórios como os Açores e a Madeira, onde projetos de conservação como o Natura@Night da SPEA monitorizam o impacto de gatos assilvestrados em aves marinhas vulneráveis, como as cagarras.

A realidade em Portugal Continental
A discussão ganha ainda mais relevância com os dados recentes do Primeiro Censo Nacional de Animais Errantes, coordenado pela Universidade de Aveiro em parceria com o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). O estudo confirmou a existência de cerca de 830 mil gatos errantes nas áreas urbanizadas do país.
Além da predação direta da fauna urbana, o ICNF alerta no seu canal oficial para outro perigo ecológico: a hibridização. O cruzamento de gatos domésticos abandonados com o raro gato-bravo (Felis silvestris) - uma espécie classificada "Em Perigo" de extinção em Portugal - ameaça a integridade genética da fauna selvagem nativa.

Os perigos invisíveis da rua para a saúde do gato e saúde pública
Os gatos domésticos não devem andar na rua sozinhos e sem supervisão devido a uma combinação de riscos graves para a sua própria segurança, para a saúde pública e para o equilíbrio do meio ambiente. [1, 2]
Os veterinários e as principais associações de bem-estar animal recomendam que vivam exclusivamente no interior (ou com acesso vedado) pelos seguintes motivos estruturais: [1, 2]

1. Riscos letais imediatos para o gato
A rua é um ambiente hostil para um animal domesticado. Os gatos com acesso livre à rua enfrentam perigos constantes que reduzem drasticamente a sua esperança média de vida: [1, 2, 3]
  1. Atropelamentos: é uma das causas mais comuns de morte súbita. Os gatos não têm perceção do perigo do trânsito automóvel. [1, 2, 3, 4]
  2. Envenenamentos: seja por ingestão acidental de químicos (como anticongelante de carros), raticidas ou plantas tóxicas, o risco de intoxicação é altíssimo. [1, 2]
  3. Maus-tratos e violência: infelizmente, os animais na rua estão expostos à crueldade humana, armadilhas ou ataques de cães. [1, 2]
  4. Lutas territoriais: os gatos são extremamente territoriais. As brigas com outros gatos de rua causam ferimentos graves, abcessos e infeções que necessitam de intervenção cirúrgica. [1, 2, 3]
2. Transmissão de doenças incuráveis
Mesmo que um gato seja vacinado, as saídas à rua expõem-no a vírus altamente contagiosos e fatais entre felinos. Estudos recentes mostram que gatos com acesso à rua têm taxas de doenças infeciosas semelhantes às de gatos totalmente errantes. Os principais riscos são: [1, 2, 3]
  1. FIV e FeLV: o Vírus da Imunodeficiência Felina (FIV) e a Leucemia Felina (FeLV) não têm cura e são transmitidos facilmente através de mordeduras, arranhões ou partilha de fluidos na rua. [1, 2]
  2. Zoonoses (risco para os humanos): os gatos que andam na rua podem trazer para dentro de casa parasitas (pulgas, carraças, desinterias por vermes) e doenças transmissíveis ao ser humano, como a toxoplasmose e a raiva. [1, 2]
3. Destruição da biodiversidade local
Como vimos anteriormente, o instinto de caça do gato não desaparece por ele ter comida em casa. Um gato doméstico na rua torna-se um predador invasor que caça aves, lagartos e pequenos mamíferos nativos apenas por reflexo. Esta pressão ecológica contribui para o declínio de espécies protegidas e desequilibra a fauna urbana. [1, 2, 3, 4]

Medidas de prevenção e guarda responsável
A mitigação deste impacto silencioso não passa por diabolizar os felinos, mas sim por promover uma mudança de comportamento nos seus tutores. Algumas das recomendações estruturais apoiadas por especialistas incluem:
  1. Acesso controlado ao exterior: manter os gatos domésticos dentro de casa ou construir espaços exteriores vedados e seguros. Quem procura inspiração prática pode consultar várias Ideias para fazer um cercado externo (catios), que permitem adaptar janelas, pátios ou varandas para dar liberdade vigiada ao animal sem riscos.
  2. Estilo de vida enriquecido: para evitar o tédio e a ansiedade de estar apenas no interior, o tutor deve aplicar estratégias descritas num Guia de enriquecimento ambiental para gatos. Isto inclui a instalação de arranhadores altos, jogos de procura e o fornecimento de dietas ricas em proteína animal para satisfazer o reflexo natural de caça de forma segura.
  3. Controlo de populações de rua: apoiar os programas municipais de esterilização para travar o crescimento exponencial de colónias errantes. De acordo com o enquadramento legal de Detenção de Animais de Companhia do ICNF, a promoção da guarda responsável e o controlo destes animais em ambiente urbano (através de programas como o CED - Capturar, Esterilizar, Devolver) são passos cruciais para proteger tanto o bem-estar animal como a fauna selvagem nativa.

Helena Freitas: a ciência por uma agenda de paz


A doutora em Ecologia e titular da Cátedra UNESCO em Biodiversidade e Conservação para o Desenvolvimento Sustentável ensina-nos como a transição energética, a produção de alimentos e a regeneração dos ecossistemas se relacionam com a igualdade.

As videiras subiam vertiginosamente e, ao passarem de uma à outra pelos ramos das árvores, estendiam as suas folhagens ao longo dos muros daquele sítio. Nos campos, entre montes e vales, crescia o milho na lavoura. Nos limites orientais de Vila Nova de Famalicão, corria o Pele e, nas suas margens, avançava uma indústria têxtil que então já completava um século de existência. Na década de 60, o Minho começava a repartir-se entre o campo e a urbe, enquanto novas fábricas abriam um futuro diferente à terra. Foi ali, onde uma natureza ainda selvagem se confundia com o quotidiano suado dos agricultores e operários, que nasceu a doutora Helena Maria de Oliveira Freitas (Mogege, 1962).

Esse ambiente haveria de permanecer, não apenas na sua memória, mas também como fonte do ímpeto que mais tarde levaria a cientista a investigar os mecanismos de funcionamento dos sistemas vivos. Ao relembrar a infância em busca das razões que a levaram a ser a mulher que se tornou, não escolhe, porém, a natureza como primeira inspiração. No seio da família, recebeu o carinho e o incentivo para viajar e explorar o mundo, crescer e indagar, uma liberdade que identifica como a razão mais profunda da sua trajectória. “Tive sempre um universo de muito amor à minha volta”, conta.

Ainda criança, passou dois anos em Angola, de onde recorda poucas coisas. A educação católica, vivida sem rigidez, e a prática do basquetebol deixaram-lhe marcas distintas. Da primeira, ficou-lhe a busca de um sentido de humanidade. Da segunda, o gosto pelo fazer colectivo. “Eu sempre gostei de construir e de trabalhar em equipa”, recorda. Mais adiante, a Biologia, que acreditava ser a ciência do século seguinte, apresentou-se como resposta à curiosidade que a movia: desvendar a lógica da vida.

Cresceu ao lado do Mondego, onde concluiu a licenciatura em Biologia na Universidade de Coimbra, em 1985. Antes de terminar o curso, já era monitora nas aulas práticas de Ecologia Vegetal. Passou a assistente estagiária, depois a assistente, e começou a ensinar Fisiologia Vegetal enquanto avançava na investigação. O doutoramento em Ecologia, concluído em 1993, em colaboração com a Universidade de Bielefeld, na Alemanha, levou-a a estudar os tricomas vesiculares de plantas do género Atriplex, estruturas foliares de espécies tolerantes à salinidade. Esse objecto microscópico continha uma pergunta. Como consegue a vida responder quando o ambiente a põe à prova? Vieram os sais, os metais, a contaminação do solo, a adaptação ao stress e a possibilidade de aprender com organismos resistentes para recuperar sistemas degradados.

“Eu sou uma fisiologista”, diz, quando perguntada sobre as mudanças no seu percurso científico. Não reconhece, porém, verdadeiras rupturas. A ecologia ajudava-a a formular os problemas; a fisiologia permitia-lhe procurar explicações. A ciência experimental, afirma, foi “vital”. Mais tarde, o campo de observação cresceria até às comunidades humanas, porque conservar a natureza sem as considerar se lhe tornara impossível.

As escalas da vida
Entre 1994 e 1996, o pós-doutoramento na Universidade de Stanford levou-a ao estudo dos efeitos ecofisiológicos do aumento do dióxido de carbono nos ecossistemas mediterrânicos. Trouxe daí uma convicção que transmitiria aos alunos. Quem investiga deve sair do próprio laboratório, conhecer outras culturas científicas, confrontar métodos e aprender a construir respostas com pessoas diferentes.

Em 1999, integrou a equipa internacional que publicou na Science um trabalho de referência sobre diversidade e produtividade em comunidades herbáceas europeias. Experiências em oito locais mostraram que a redução da riqueza de espécies fazia cair a biomassa produzida e, para o mesmo número de espécies, menos grupos funcionais estavam associados a menor produtividade. A biodiversidade deixava de aparecer apenas como património a conservar e mostrava consequências mensuráveis no funcionamento dos ecossistemas.

Das plantas passou às relações entre raízes, fungos e bactérias, à fitorremediação de solos contaminados, aos montados, às dunas, às espécies invasoras, à biodiversidade do solo, às alterações climáticas, à conservação e, mais recentemente, à agroecologia, aos sistemas alimentares e às relações entre conhecimento, natureza e sociedade. Foi aumentando a escala: da folha à planta, desta ao ecossistema, daí à paisagem e à humanidade. Em 2026, soma mais de 300 publicações científicas internacionais e mantém intensa actividade de investigação.

Quando lhe pedem os nomes mais importantes da sua caminhada, não começa pelos grandes mestres nem pelas instituições. “Os mais decisivos foram sempre os meus alunos”, responde. Junta-lhes investigadores, colaboradores e equipas que, diz, a ajudaram “a viver o caminho”. Reconhece neles uma fonte de aprendizagem e inspiração.

Em 2003, tornou-se professora catedrática. No ano seguinte, assumiu a direcção do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra e a presidência da Sociedade Portuguesa de Ecologia. Seria ainda vice-presidente da Federação Europeia de Ecologia. É ao Jardim que regressa com particular afeição: a renovação daquele espaço, diz, foi “uma das experiências mais importantes” da sua vida académica.

Criou uma unidade dedicada à matriz ecológica, o actual Centro de Ecologia Funcional, reunindo investigadores de diferentes áreas em torno de problemas multidisciplinares. Entre 2011 e 2015, foi vice-reitora da Universidade de Coimbra e, em 2014, tornou-se titular da Cátedra UNESCO em Biodiversidade e Conservação para o Desenvolvimento Sustentável. “Entendi que também tinha a obrigação de participar e dar algum tempo para essa missão”, conta.

O dever de participar
Em 2015, foi eleita pelo círculo de Coimbra como independente nas listas do Partido Socialista e tornou-se deputada à Assembleia da República. Explica a decisão pelo que observara durante os anos da intervenção da troika, considerando que “a ciência, a academia e as universidades tinham sido duramente penalizadas”, num momento que julgava crítico para o país.

Em 2016, suspendeu o mandato parlamentar para coordenar a Unidade de Missão para a Valorização do Interior. A desigualdade territorial e social interpelava-a de outro modo. Populações afastadas de serviços, dificuldades no acesso à saúde e à educação, territórios que perdiam gente e oportunidades. Coordenou o Programa Nacional para a Coesão Territorial, mas depressa encontrou os limites da função. Diz ter percebido que “não tinha as condições materiais e políticas” para realizar a missão como desejava. “Achei que era mais útil fora do projecto”.

Distinguida com a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique, o Prémio Ernst Haeckel da Federação Europeia de Ecologia e o Grande Prémio Ciência Viva, ela completou anos na última quinta-feira. No dia seguinte, descreveu como uma “prenda inesperada e feliz” a oportunidade de estar com o Papa Leão XIV na UNESCO, em Paris. Reconhece no pontífice uma preocupação que também a move: transformar a relação das sociedades com o mundo natural. Para ela, a transição energética, a produção de alimentos e a regeneração dos ecossistemas são inseparáveis da igualdade.

Da natureza do Minho à ciência de Coimbra, a sua trajectória alargou-se, mas, quando explica o que a move, regressa à família e ao muito que dela recebeu. O amor e a liberdade da infância trouxeram, no seu entendimento, a responsabilidade de fazer frutificar o que lhe foi confiado. A ciência, a docência e a participação pública são formas de retribuir. Como as árvores do Norte em que as videiras se apoiam, a doutora Helena Freitas tem ajudado a fazer do conhecimento um amparo para que outras vidas floresçam. “A agenda ambiental é uma agenda de paz”, ensina.

sábado, 3 de outubro de 2026

Melhor destino de reforma no estrangeiro já não é na Europa, mas seis dos dez primeiros são europeus


Uruguai lidera um novo ranking global de destinos de reforma, destronando o líder do ano passado, Portugal. Ainda assim, a Europa continua a ser a região mais representada, com seis países no top 10. As Américas ocupam três lugares, enquanto Maurícia fica em segundo lugar.

O índice de reforma de 2026 da Global Citizen Solutions compara 46 programas de residência para reformados e titulares de rendimentos passivos, avaliando qualidade de vida, liberdade de viagem e vias de acesso à cidadania, fiscalidade, processos de candidatura e custos.

Na Europa, os pontos fortes são os elevados padrões de vida, a força dos passaportes e as vias para obter cidadania, embora a carga fiscal mais elevada penalize as pontuações. Espanha, Portugal, Letónia, Andorra, Itália e Grécia entram todas no top 10, com Portugal a descer este ano para o quinto lugar.

Uruguai lidera graças a resultados sólidos nas cinco categorias, em vez de ficar em primeiro lugar numa só. Maurícia surge logo depois, ao combinar um quadro fiscal favorável com bons resultados nos restantes critérios.

O relatório sublinha que o destino ideal depende das prioridades de cada reformado. Menos de quatro pontos separam o primeiro do décimo lugar, o que torna os líderes muito próximos entre si.

Quais são as principais prioridades de quem se reforma no estrangeiro?
A qualidade de vida é o fator com maior peso no índice, seguida da mobilidade e da cidadania, depois da fiscalidade, dos processos de candidatura e dos custos. Esta ponderação reflete, segundo o relatório, as prioridades de uma pessoa típica que se reforma fora do seu país.

A Europa destaca-se na qualidade de vida e na mobilidade, mas obtém classificações mais baixas em matéria de impostos, com grandes diferenças entre programas. As Américas distinguem-se pela acessibilidade e pela fiscalidade favorável, enquanto Maurícia lidera o desempenho africano. No Médio Oriente, os principais atrativos são os baixos impostos e a rapidez de processamento. Os Emirados Árabes Unidos, 19.º no conjunto, ocupam o primeiro lugar nos regimes fiscais preferenciais. Espanha, terceira a nível global, regista também pontuações elevadas em mobilidade e na possibilidade de se mudar com familiares.

Passaportes fortes e vias claras para a cidadania ajudam muitos programas europeus e latino-americanos a obter pontuações elevadas. Os destinos do Golfo oferecem fiscalidade favorável e processos rápidos, mas os respetivos programas de reforma não incluem uma via padrão para a cidadania.

Programas europeus com melhor desempenho no índice de 2026
Os dez programas internacionais de reforma melhor classificados na Europa são os de Espanha, Portugal, Letónia, Andorra, Itália, Grécia, Áustria, Albânia, Chipre e Malta. Todos figuram na metade superior do índice.

Os programas europeus destacam-se sobretudo na qualidade de vida e na mobilidade. A contrapartida está nos impostos. Espanha, considerada o melhor país europeu para viver a reforma no estrangeiro, ocupa o quinto lugar mundial em qualidade de vida e oferece um processo de candidatura relativamente simples, que pode demorar até oito meses. Porém, o país surge em último lugar entre os 46 em matéria fiscal, com tributação mundial, impostos regionais sobre o património e sem regime especial para titulares de vistos.

Portugal surge em segundo lugar na Europa. O país, que liderou a lista global em 2025, caiu este ano para a quinta posição. A descida acompanha o aumento dos anos exigidos para aceder à cidadania. Em maio, o requisito passou de cinco para dez anos para a maioria dos candidatos de fora da UE.
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Ainda assim, o país mantém uma classificação global muito elevada, beneficiando de ser uma das principais vias europeias mais acessíveis, com o requisito de rendimento fixado em 920 euros mensais. Portugal regista também boas pontuações em mobilidade, mas o processamento pode demorar até dois anos e a sua posição 41.ª em fiscalidade pode tornar o destino menos atrativo para reformados que privilegiam impostos mais baixos.

Os programas com melhor desempenho fiscal, nomeadamente Malta, Andorra e Chipre, tendem a impor outros requisitos exigentes, como limiares de rendimento elevados, grandes investimentos ou processos lentos. Vários países oferecem ainda regimes opcionais, como a taxa fixa de 7% sobre pensões estrangeiras na Grécia e no sul de Itália.

Os prazos de processamento e os custos variam bastante: a Letónia, terceiro melhor programa europeu, oferece tempos de decisão entre dois e quatro meses e é um dos regimes de menor custo. Em contraste, o processo em Chipre pode ultrapassar dois anos, embora o país aplique uma taxa de 5%, sujeita a condições específicas.

A Irlanda ocupa o primeiro lugar em qualidade de vida no índice. Combina um ambiente de língua inglesa com algumas das classificações mais fortes em segurança e ambiente.

Andorra apresenta as melhores pontuações do índice em segurança e ambiente; ocupa o terceiro lugar mundial em qualidade de vida e oferece impostos baixos, com o imposto sobre o rendimento limitado a 10% e sem tributação sobre o património ou heranças. É também o programa mais caro de todo o índice, ao exigir um investimento local de 1 milhão de euros, além de um rendimento substancial.

Itália e Grécia ocupam, respetivamente, o primeiro e o segundo lugares a nível mundial em mobilidade e cidadania. São também o quinto e o sexto destinos europeus de reforma mais bem classificados. Ambos oferecem opções para reduzir a carga fiscal, mas o requisito de rendimento mensal da Grécia, fixado em 3 500 euros, é um dos mais elevados.

Quanto rendimento mensal é necessário para se qualificar?
Os requisitos de rendimento mensal diferem muito, desde menos de 600 euros na Nicarágua até mais de 9.000 euros no Bahrein. Na Europa, um rendimento inferior a 800 euros mensais pode ser suficiente em Chipre, se outros critérios forem cumpridos, enquanto em Andorra o rendimento mensal tem de ultrapassar 4.500 euros. Para efeitos de comparação, os valores apresentados no gráfico foram convertidos em euros, pelo que podem variar com as taxas de câmbio.

Também é relevante a origem do rendimento. Em alguns casos, os candidatos têm de provar rendimentos passivos obtidos no estrangeiro ou uma pensão; noutros, aceitam-se poupanças ou dividendos. E, mesmo quando o limiar de rendimento é relativamente baixo, alguns regimes exigem igualmente poupanças, depósitos, investimentos ou outros pagamentos iniciais significativos.

Cabo Verde, Namíbia, Chile, Zâmbia e Marrocos ficam fora do gráfico porque o relatório não esclarece se os requisitos de rendimento são mensais. El Salvador também é excluído, já que apresenta limiares distintos para pensionistas e para pessoas que vivem de rendimentos passivos. Nestes países, os requisitos de rendimento situam-se entre 825 e 1 800 dólares.
Em quanto tempo se pode obter um passaporte?

Uma via para a cidadania é comum, mas não está garantida. Segundo o relatório, 24 programas oferecem naturalização em até cinco anos e 17 entre seis e dez anos. Andorra exige 20 anos. Quatro — Malta, Emirados Árabes Unidos, Irlanda e Bahrein — não preveem via padrão através de vistos de reforma ou de rendimentos passivos.

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Os prazos mais curtos registam-se na América do Sul: cerca de dois anos na Argentina e aproximadamente três no Uruguai, Paraguai e alguns outros países.

No entanto, 11 países, entre os quais Áustria, Andorra, Emirados Árabes Unidos e Malásia, não permitem dupla nacionalidade, segundo o relatório. Os candidatos podem ter de renunciar à cidadania de origem e, para quem não estiver disposto a fazê-lo, a residência permanente pode ser o limite.
O que oferecem outras regiões

As Américas distinguem-se pela acessibilidade e pela fiscalidade favorável. Brasil, Argentina e Chile oferecem também passaportes fortes e vias relativamente curtas para a cidadania, o que aumenta o apelo da região.

Maurícia é o país africano com melhor desempenho. No Médio Oriente, os principais atrativos são os baixos impostos e o processamento rápido, embora os regimes de reforma não incluam uma via padrão para a cidadania.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Calor e poluição causam milhares de mortes em Portugal, indica relatório

Avaliação global do Relatório Saúde Ambiente 2025 alerta para milhares de mortes associadas a riscos ambientais e pede proteção dos mais vulneráveis, cuidados de saúde mais sustentáveis e preparação para catástrofes climáticas.

Portugal está a reduzir as emissões de gases com efeito de estufa e a melhorar alguns indicadores ambientais, mas continua a enfrentar perdas de saúde associadas ao calor, à poluição e à degradação dos ecossistemas. A avaliação global «Saúde e Ambiente 2025: Urgência para Ação», que integra o Relatório Saúde Ambiente 2025 do Observatório Português da Saúde e Ambiente (OPSA), defende uma mudança de prioridade: tratar a crise ambiental também como uma emergência de saúde.

Os números reunidos no documento tornam visível a dimensão do problema: estimam-se 2.009 mortes em excesso durante os episódios de calor considerados em 2025 e cerca de 4 710 mortes atribuíveis à poluição do ar em 2023, incluindo as componentes exterior e interior. O relatório cita ainda uma estimativa de 750 mortes prematuras anuais associadas à poluição sonora. Estes valores respeitam a metodologias e períodos distintos e não devem ser somados.

Os riscos agravam as desigualdades
As ondas de calor já não são apenas uma ameaça de verão. A avaliação regista seis episódios em 2025, distribuídos pela primavera, verão e outono, e destaca a pressão dos incêndios, da escassez de água e da perda de biodiversidade. A deteção do mosquito Aedes albopictus, que pode transmitir doenças como dengue e chikungunya, passou de 18 concelhos do continente em 2024 para 28 em 2025. A presença do mosquito não significa, por si só, transmissão local destas doenças.

A capacidade de proteção é desigual: 15,7% da população declarou não conseguir aquecer adequadamente a sua casa em 2024. Pessoas idosas, crianças, doentes crónicos e famílias com menos recursos estão entre os grupos mais vulneráveis. O relatório defende que a resposta comece onde as pessoas vivem, com melhores habitações, espaços verdes, redução da poluição e apoio às populações mais expostas.

Há progressos. Falta uma resposta nacional integrada
O balanço reconhece avanços: em 2024, as emissões nacionais de gases com efeito de estufa estavam 40,1% abaixo das de 2005. A proporção de dias com qualidade do ar classificada como «Fraco» ou «Mau» diminuiu de 16,8%, em 2005, para 1,1%, em 2023. Mas melhorar médias nacionais não elimina os riscos locais nem garante proteção a todos.

O setor da saúde enfrenta uma dupla responsabilidade: responder aos impactos ambientais e reduzir os danos associados à sua própria atividade. Segundo a estimativa citada no documento, é responsável por 4,8% das emissões nacionais de gases com efeito de estufa. A avaliação considera que a sustentabilidade ambiental ainda não assumiu a necessária prioridade política no Serviço Nacional de Saúde e que a implementação de medidas de adaptação permanece insuficiente.

Há exemplos que mostram capacidade de mudança. Na Unidade Local de Saúde de Santa Maria, o consumo de energia primária caiu cerca de 40% em 2023 face a 2019. Na ULS de Santo António, o Projeto ROSE reduziu os resíduos abrangidos pela intervenção de cerca de 106 para 57 toneladas entre 2022 e 2025. O desafio é passar destas experiências a uma política integrada, continuada e mensurável.

Prevenir, transformar os cuidados e preparar a resposta
Entre as prioridades recomendadas pelo Conselho Português para a Saúde e Ambiente (CPSA) estão uma estrutura de governação que articule diferentes ministérios, uma estratégia nacional de sustentabilidade ambiental na saúde e um Plano Nacional de Adaptação da Saúde, abrangendo os setores público e privado. Estas respostas devem ter metas explícitas, financiamento, responsáveis identificados e avaliação dos resultados.

No terreno, isso significa identificar e acompanhar pessoas vulneráveis, reforçar a vigilância e os alertas, proteger escolas e lares, criar espaços de arrefecimento acessíveis e garantir a continuidade dos cuidados durante ondas de calor, incêndios, cheias ou tempestades. Significa também investir na prevenção da doença, reduzir cuidados desnecessários e desperdícios, promover compras sustentáveis, melhorar a literacia do público, formar os profissionais e reforçar a investigação.

«A proteção da saúde não pode esperar que a degradação ambiental se traduza em mais episódios de doença, nem a proteção do ambiente pode permanecer exterior às decisões de saúde», conclui a avaliação.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta para 13 milhões de mortes anuais associadas a fatores ambientais.

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

BLVCK CEILING — (why are you) so cold

Melhor som aqui . Filme " After Life" (2009)

A faixa "(why are you) so cold" é uma criação do produtor norte-americano Dan Ocean (Dan Cuccia), sediado em Boston e figura de relevo no projeto de música eletrónica BLVCK CEILING. A obra insere-se no Witch House, uma vertente sombria da eletrónica emergida no início dos anos 2010 que cruza microgéneros como o darkwave, o synthwave e o dark ambient com batidas lentas e arrastadas herdadas do hip-hop no estilo chopped and screwed, repletas de sintetizadores distorcidos, ecos densos e sampling de vocais etéreos. Longe de ser uma composição do zero ou uma cover instrumental tradicional, a música é uma reinterpretação direta baseada no tema "So Cold" (2004), da banda de rock alternativo e post-grunge Breaking Benjamin. O artista isolou as faixas vocais de Benjamin Burnley, desacelerou a afinação do verso central "Why are you so cold?" e envolveu-o numa textura atmosférica e melancólica, transpondo a dor da traição e da rejeição do rock original para um estado de transe e isolamento emocional.


Esta construção estética e concetual ressoa de forma profunda com diversas correntes literárias e filosóficas. No plano da literatura gótica e do romantismo sombrio, evidentes em autores como Edgar Allan Poe e Mary Shelley, a faixa canaliza um fascínio quase poético pela decadência, pela melancolia e pelo luto emocional, transformando a dor pessoal numa atmosfera assombrada e envolvente. Do ponto de vista filosófico, o tema toca diretamente no existencialismo de Jean-Paul Sartre e no niilismo de Friedrich Nietzsche, ao traduzir através da sonoridade arrastada e repetitiva o confronto do indivíduo com o vazio, a alienação e a rutura de sentido. Além disso, a pergunta retórica que dá título à canção remete para os limites do solipsismo e para a incomunicabilidade humana: a constatação dolorosa da impossibilidade de alcançar a mente do outro, aprisionado numa frieza inexpugnável que reflete a própria solidão e o distanciamento da condição humana contemporânea.

Fez a pesquisa certa, mas acabou a seguir o link errado. O que é o ‘malvertising’ e como o evitar

A maioria de nós sabe que deve evitar clicar em links estranhos em e-mails ou mensagens de texto. Mas e quanto à publicidade online chamativa exibida em um site em que você confia? 

Esse é o perigo do malvertising, uma tática de cibercrime que usa anúncios online para espalhar malware, roubar informações ou redirecionar usuários para sites maliciosos. O malvertising frequentemente se esconde dentro de redes de publicidade legítimas e pode aparecer em sites confiáveis, tornando difícil a detecção tanto para os proprietários do site quanto para os visitantes. 

O que é malvertising? 
O malvertising, uma junção de "malicious advertising" (publicidade maliciosa), ocorre quando cibercriminosos usam anúncios online para enviar malware ou direcionar usuários para sites fraudulentos. 

Estes anúncios geralmente parecem totalmente legítimos. Em muitos casos, os invasores enviam anúncios limpos para redes de publicidade confiáveis durante um tempo para construir uma reputação positiva antes de, mais tarde, modificar o anúncio para incluir código malicioso. Como resultado, anúncios prejudiciais podem aparecer ao lado de conteúdo legítimo em sites populares, canais de notícias ou plataformas de compras. Eles podem até aparecer como anúncios de pesquisas no Google! 

O objetivo do malvertising pode variar. Alguns hackers visam instalar malware no dispositivo de uma vítima, enquanto outros buscam roubar credenciais de login, enganar os usuários para que baixem softwares falsos ou redirecioná-los para sites de golpes. 

Como funciona o malvertising? 
Os ataques de malvertising exploram o complexo ecossistema da publicidade online. Os editores de sites frequentemente exibem anúncios de uma rede de publicidade de terceiros sem analisar diretamente os anúncios. Se um criminoso conseguir colocar um anúncio malicioso dentro dessa rede, os visitantes do site podem ser expostos. 

Às vezes, os usuários são infectados após clicar no anúncio. Em outros casos, o simples carregamento do anúncio pode acionar um "drive-by download" – o usuário nem perceberá que algo incomum aconteceu até que o malware já esteja instalado em seu dispositivo. Como esses anúncios podem aparecer em sites que, de outra forma, seriam confiáveis, as vítimas podem baixar a guarda e presumir que o anúncio é seguro.

Identificando o malvertising 
O malvertising pode ser difícil de detectar, mas existem alguns sinais de alerta aos quais se deve prestar atenção. 
  1. Anúncios pop-up inesperados 
  2. Páginas da web que redirecionam repentinamente para outro site 
  3. Anúncios que promovem atualizações de software urgentes 
  4. Avisos de vírus ou alertas de segurança pop-up repentinos 
  5. Anúncios no meio do texto que parecem suspeitos ou não relacionados ao conteúdo 
  6. Downloads que começam automaticamente sem a sua permissão 
  7. Se um anúncio parecer bom demais para ser verdade ou criar um senso de urgência, nunca clique.
Como se proteger do malvertising 
Embora não exista uma fórmula mágica de segurança cibernética, algumas práticas recomendadas podem reduzir o seu risco. Para começar, ter senhas longas e fortes e sempre ativar o MFA pode ajudar a frustrar um ataque de malvertising.  

Mantenha seu software atualizado 
Os cibercriminosos exploram vulnerabilidades de software conhecidas. Instalar atualizações para o seu sistema operacional, navegador e aplicativos ajuda a fechar brechas de segurança que os invasores podem visar. Ative as atualizações automáticas para simplificar esse processo. Vale a pena os poucos minutos que leva. Manter as atualizações de software em dia ajuda a prevenir o tipo de ataque "drive-by-download".  

Use software de segurança 
Ferramentas antivírus e anti-malware confiáveis podem ajudar a detectar e bloquear downloads maliciosos antes que infectem seu dispositivo. Verifique se o software de segurança já vem com o sistema operacional do seu dispositivo.  

Pense duas vezes antes de clicar num anúncio 
Com o malvertising, mesmo os anúncios que aparecem em sites confiáveis podem não ser seguros. Você não precisa clicar nos anúncios – você pode pesquisar sobre a empresa ou o produto para ter uma ideia se é legítimo e encontrar uma maneira de acessar o site confiável de forma independente do anúncio. Solicitações repentinas para baixar extensões de navegador também podem ser malvertising – recomendamos simplesmente não baixar nenhuma extensão que lhe seja solicitada.   

Use um navegador seguro 
A maioria dos navegadores modernos (Chrome, Safari, Firefox) inclui recursos de segurança que podem identificar sites potencialmente perigosos e bloquear conteúdo malicioso conhecido. 

Evite sites suspeitos 
O malware e o malvertising prosperam no lado mais obscuro da internet – é por isso que é uma boa ideia evitar sites de pirataria ou de compartilhamento de arquivos, por exemplo. Os golpistas também tentarão se envolver em malvertising por meio de "typosquatting" (erros de digitação) nos resultados de pesquisa, especialmente em lojas de aplicativos ou mercados de extensões de navegador. Leia com atenção e observe as avaliações quando estiver à procura de um aplicativo. Caso contrário, você pode obter um aplicativo malicioso ou, na melhor das hipóteses, inseguro, quando pensava que estava a obter algo legítimo.

Fique de olho nos anúncios 
O malvertising mostra como as ameaças podem aparecer em locais inesperados, até mesmo em sites em que você confia. Mas, ao seguir algumas práticas recomendadas, você pode reduzir as suas hipóteses de sofrer um incidente. 

Perguntas Frequentes 
O que é malvertising? 
O malvertising é um ataque cibernético que usa anúncios online maliciosos para espalhar malware, redirecionar usuários para sites de golpes ou roubar informações confidenciais. 

É possível contrair malware sem clicar num anúncio? 
Sim. Algumas campanhas de malvertising usam "drive-by downloads", onde o código malicioso é executado automaticamente quando um anúncio é carregado no seu navegador, mesmo que você não clique nele. 

Sites confiáveis podem exibir anúncios maliciosos? 
Sim.  

Como posso me proteger do malvertising? 
Mantenha o seu software atualizado, use um software antivírus confiável, ative os recursos de segurança do navegador e evite clicar em anúncios online. 

Saber mais:

Oceanos têm aquecido a “ritmo alarmante”


O oceano está a aquecer a um ritmo “alarmante”, com consequências para os ecossistemas marinhos, as zonas costeiras e comunidades de todo o mundo, alerta o 10.º Relatório sobre o Estado do Oceano (OSR), divulgado esta quarta-feira pelo programa europeu Copernicus.

O relatório conta com a participação de 125 cientistas de todo o mundo e tem como foco principal o aquecimento dos oceanos, que acelerou desde 1960. Em 2025, o oceano absorveu um recorde de 23 zettajoules de energia, equivalente a cerca de 40 vezes o consumo energético mundial nesse ano.

O aquecimento das águas contribui para a ocorrência de ondas de calor marinhas, pode intensificar tempestades e afeta os ecossistemas, além de contribuir para a subida do nível do mar devido à expansão térmica da água e ao degelo terrestre.

“O oceano está a transformar-se diante dos nossos olhos: O aquecimento, a subida do nível do mar e a degradação dos ecossistemas são sinais interligados de mudanças significativas e de longo prazo. É nossa responsabilidade construir a capacidade permanente de antecipar esta transformação”, indica Pierre Bahurel, diretor-geral da Mercator Ocean International, que produziu o relatório, citado num comunicado do Copernicus, programa de observação da Terra da União Europeia (UE).

Na Europa, o Mediterrâneo apresenta diferenças significativas entre regiões. O Mediterrâneo Ocidental tem registado uma aceleração da subida do nível do mar desde o início dos anos 2000, enquanto a bacia Oriental apresenta uma aceleração acentuada desde 2018.

O relatório destaca ainda a vulnerabilidade dos pequenos Estados insulares em desenvolvimento, cujas economias e meios de subsistência dependem fortemente do oceano. Todas as suas Zonas Económicas Exclusivas (ZEE) são afetadas pelo aquecimento desde 1960 e 65% da área conjunta está exposta à aceleração da subida do nível do mar desde 1999.

As regiões polares também registam alterações profundas. No Ártico, o Grande Ecossistema Marinho do Mar de Barents perdeu 70% da sua extensão de gelo desde 1982. Na Antártida, a reduzida extensão do gelo marinho registada em 2022 coincidiu com uma falha reprodutiva sem precedentes entre os pinguins-imperador.

O nível médio global do mar aumentou entre 3,5 e 4,1 milímetros por ano entre 1999 e 2025, mas o ritmo acelerou para entre 3,9 e 4,5 milímetros anuais no período de 2012 a 2025. O relatório indica ainda que, entre 1985 e 2025, a acidez dos oceanos aumentou cerca de 17%.

Karina von Schuckmann, diretora do relatório, destaca que, além de fornecer um registo científico, o estudo tem mostrado “como a observação, a modelação e a previsão contínuas, bem como a colaboração científica, podem ajudar as sociedades a compreender o que está a mudar, onde e porquê, a antecipar os riscos futuros e a preparar-se para as suas consequências”.

Na Europa, os mares regionais estão sob intensa pressão, com algumas regiões a mudarem mais rapidamente do que outras.

Em março deste ano, o IPCC já tinha alertado aqui

terça-feira, 29 de setembro de 2026

bonjr - it's ok, you're ok

Nada como uma música excelente num final do dia, vale tudo para desacelerar e deixar o dia ir embora. 

"it's ok, you're ok" de bonjr destaca-se das baladas de amor convencionais porque se despoja de estruturas tradicionais e de letras explícitas em favor de uma profunda atmosfera de cura e aceitação. Em vez de se focar no drama imediato da rutura, a faixa capta o momento silencioso que se lhe segue - o processo de encontrar conforto e paz no meio do luto amoroso. Através de texturas ambientes exuberantes, sintetizadores quentes, uma produção slow no estilo wave e subtis excertos falados que funcionam como um mantra tranquilizador, a música cria um espaço íntimo onde a dor da perda e a autocompaixão coexistem. Por manter a sua paisagem sonora aberta e abstrata, permite ao ouvinte projetar as suas próprias memórias e sentimentos de superação na sua sonoridade acolhedora.

O videoclipe de "bonjr – it's ok, you're ok", dirigido por Benjamim Fiedler , explora os temas da dor do fim de uma relação, do luto amoroso e do processo gradual de aceitação. A narrativa visual contrasta dois estados emocionais distintos: o presente, marcado pelo isolamento, por viagens solitárias e pelo silêncio de divisões vazias, e o passado, evocado através de memórias intensas e intimistas banhadas numa iluminação vermelha dramática. O título e os curtos excertos falados no início da música - que traduzem a aceitação do fim de um amor - funcionam como um mantra de conforto para quem tenta ultrapassar um desgosto.

No que respeita à realização e aos atores, a produção aposta numa estética cinematográfica independente (indie), com uma fotografia atmosférica e intimista. Os intervenientes que aparecem no clipe representam um elenco diversificado de jovens adultos. Contudo, sendo esta uma produção independente, a equipa técnica e os atores envolvidos não são figuras do circuito comercial mainstream, pelo que as suas nacionalidades específicas não foram divulgadas publicamente pela produtora, servindo essa diversidade para conferir uma dimensão mais universal e global à história contada.
P. S. bonjr é um projeto DIY e indietronic do artista angolano Daniel Almeida

A ilusão do heroísmo: por que razão a caça aos troféus não tem lugar no século XXI

A recente publicação nas redes sociais por Kristi Noem, ex-Secretária de Segurança Interna dos EUA, posando triunfante ao lado de um alce morto por si com arco e flecha no Wyoming, reacendeu um urgente debate ético. Embora enquadrada como um momento de triunfo ao ar livre, a imagem ilustra um reflexo cultural preocupante: a celebração da morte de animais como uma conquista pessoal. No século XXI, as exibições públicas da caça troféu são inteiramente inaceitáveis. Se a caça ocorre sob quadros legais, deve ser realizada com discrição, contenção e solenidade, em vez de ser exibida como um espetáculo grotesco para validação nas redes sociais.

Note-se que no Estado de Wyomimg, regista uma sobrepopulação de alce canadiano em cerca de 25%, nas últimas duas décadas. 

Esta controvérsia com a caça ao alce não surge num vácuo, mas insere-se num histórico recente em que o tratamento de animais por parte de Kristi Noem foi centro de acesa polémica. Em abril de 2024, a divulgação de trechos do seu livro de memórias, No Going Back, gerou uma vaga de rejeição ao revelar que Noem tinha abatido a tiro a sua própria cadela de caça de 14 meses, Cricket, numa pedreira da propriedade, por a considerar "indomável" e incapaz de ser adestrada, além de ter abatido um bode na mesma ocasião. Ao tentar justificar o ato como uma prova da sua capacidade para tomar "decisões difíceis e pragmáticas" - uma narrativa calculada para projetar liderança política -, Noem enfrentou uma reação fortemente negativa de todo o espectro político. O episódio, que minou as suas aspirações políticas na altura, tornou-se um caso de estudo sobre os riscos de transformar a violência contra animais num espetáculo de firmeza.

A narrativa que envolve a caça com arco tenta frequentemente retratar o caçador como uma figura heroica envolvida numa busca exigente e ancestral. No entanto, ao remover este enquadramento romantizado, revela-se uma realidade profundamente diferente. A caça com arco baseia-se inerentemente em táticas de furtividade, camuflagem ou emboscada para atingir um animal desprevenido a curta distância - tipicamente entre 15 e 40 metros. Utilizar equipamento avançado de arcos compostos para disparar contra uma criatura desprevenida a queima-roupa não é um ato de bravura ou um duelo justo; é um ataque surpresa calculado que reflete cobardia em vez de valor.

Além disso, as tentativas de justificar a caça troféu sob o disfarce de controlo populacional ignoram soluções ecologicamente sólidas e muito superiores. Em vez de confiar em caçadores recreativos para gerir a dimensão dos rebanhos, a conservação da vida selvagem deve priorizar a verdadeira restauração ecológica, como a reintrodução de predadores de topo nativos em ecossistemas selecionados. O restabelecimento da dinâmica natural entre predador e presa regula as populações selvagens de forma sustentável, promove a biodiversidade e restaura o equilíbrio em paisagens danificadas - tudo isto sem reduzir a majestosa vida selvagem a meros adereços para uma fotografia.

Movimento de cidadãos lança petição pela proteção do Parque Nacional da Peneda-Gerês


A ciência avisa e a cidadania exige mais empenho na conservação do Parque Nacional da Peneda-Gerês
Para: Presidente da Assembleia da República

I) FUNDAMENTAÇÃO DA INICIATIVA
Os cidadãos infra-assinados vêm, ao abrigo do direito constitucional de petição, solicitar à Assembleia da República a intervenção urgente na defesa do Parque Nacional da Peneda-Gerês e, em particular, da Mata de Albergaria, na sequência de vários acontecimentos perturbadores que ali ocorreram, sendo que a Volta a Portugal em Bicicleta 2026, que atravessou a Mata de Albergaria em 13 de Agosto deste ano, foi o que teve maior impacto mediático.

II) EXPOSIÇÃO
O Parque Nacional da Peneda-Gerês é o nosso único "parque nacional", não havendo condições territoriais para criar outro com o mesmo estatuto; ultrapassa o interesse nacional, por ter sido reconhecido, em 2009, como "Reserva da Biosfera Transfronteiriça Gerês-Xurés" pela UNESCO; por isso deve ser alvo de especiais medidas de conservação.

A Mata de Albergaria constitui o mais importante e mais bem conservado núcleo de floresta autóctone de Portugal, representando um dos melhores exemplos de bosques caducifólios atlânticos da região biogeográfica euro-siberiana no noroeste da Península Ibérica; desenvolve-se ao longo do vale do rio Homem, abrangendo uma área superior a 1.500 hectares e correspondendo à mais valiosa mancha florestal do Parque.

A vegetação é dominada por extensos carvalhais de carvalho-alvarinho (Quercus robur), acompanhados por carvalho-negral (Quercus pyrenaica), vidoeiro (Betula celtiberica), azevinho (Ilex aquifolium), aveleira (Corylus avellana) e teixo (Taxus baccata), concentrando este último cerca de 90% da população portuguesa da espécie. Destaca-se igualmente o azereiro (Prunus lusitanica), relíquia florística do período Terciário. O estrato herbáceo apresenta uma extraordinária diversidade, incluindo narcisos-bravos, orquídeas, feto-do-Gerês, selo-de-Salomão, betónica-bastarda, martagão e numerosas outras espécies de elevado interesse botânico. Musgos, hepáticas, líquenes e trepadeiras revestem árvores, rochas e solo, conferindo à floresta uma atmosfera permanentemente húmida e revelando um elevado grau de maturidade ecológica.

A diversidade de habitats, associada à existência de linhas de água permanentes, afloramentos rochosos, bosques maduros e clareiras naturais, sustenta uma fauna extremamente rica. Entre os mamíferos ocorrem o lobo-ibérico (Canis lupus signatus), a marta (Martes martes), a lontra (Lutra lutra), o corço (Capreolus capreolus), a gineta (Genetta genetta), a toupeira-de-água (Galemys pyrenaicus) e diversas espécies de morcegos protegidos. A avifauna inclui espécies florestais como o açor (Accipiter gentilis) e o falcão-abelheiro (Pernis apivorus). As linhas de água albergam anfíbios e répteis de elevado interesse conservacionista, entre os quais a salamandra-portuguesa (Chioglossa lusitanica) e o lagarto-de-água (Lacerta schreiberi), ambos endemismos ibéricos. Entre os invertebrados merece especial referência a vaca-loura (Lucanus cervus), um dos maiores escaravelhos da Europa, dependente da madeira em decomposição dos carvalhos maduros.

Para além da sua extraordinária biodiversidade, a Mata de Albergaria desempenha funções ecológicas fundamentais na conservação dos solos, na regulação do ciclo hidrológico, na proteção das cabeceiras das linhas de água, na fixação de carbono e na manutenção dos processos ecológicos característicos das florestas atlânticas maduras.

A Mata de Albergaria distingue-se ainda por conservar importantes atributos de floresta madura (old-growth attributes), como a continuidade ecológica, a elevada complexidade estrutural, a presença de árvores centenárias, abundante madeira morta em diferentes estados de decomposição e um sub-bosque altamente diversificado. Estas características, cada vez mais raras na Europa Ocidental, são reconhecidas pela Comissão Europeia como indicadores de ecossistemas florestais de elevadíssimo valor para a conservação da biodiversidade, conferindo-lhe uma importância científica, ecológica e patrimonial que ultrapassa largamente o contexto nacional.

A excecional integridade ecológica da Mata de Albergaria justificou o seu reconhecimento como Reserva Biogenética do Conselho da Europa, distinção reservada a ecossistemas de elevado valor para a conservação do património natural europeu. Integra igualmente a Rede Natura 2000, a Reserva da Biosfera Transfronteiriça Gerês-Xurés, reconhecida pela UNESCO, e beneficia do mais elevado nível de proteção previsto no Plano de Ordenamento do Parque Nacional da Peneda-Gerês.

A Mata de Albergaria constitui, assim, um património natural de importância nacional e europeia, representando o mais relevante núcleo de floresta autóctone existente em Portugal. Os restantes bosques de carvalho do país são significativamente mais pequenos e, na sua maioria, muito mais jovens, não apresentando o mesmo grau de naturalidade, continuidade ecológica e maturidade florestal.

III. FUNDAMENTAÇÃO JURÍDICA
a) O Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG), criado em 1971 pelo Decreto nº 187/71, rege-se atualmente pelo POPNPG, aprovado pela RCM n.º 11-A/2011, de 4 de Fevereiro (retificada pela Declaração de Retificação n.º 10-A/2011). O artigo 8.º sujeita a parecer do ICNB (hoje ICNF) a prática de atividades desportivas e recreativas não motorizadas e a realização de eventos desportivos ou recreativos em áreas sujeitas a regimes de proteção, exceto se previstas na Carta de Desporto de Natureza, o que não era o caso da Volta a Portugal em Bicicleta.
b) A Mata de Albergaria está em regime de proteção parcial de tipo I (com núcleos de proteção total), e o regulamento é rigoroso quanto à estrada que foi atravessada pela Volta a Portugal em Bicicleta: na estrada florestal de Leonte até à Portela do Homem é permitido o trânsito não motorizado; o trânsito motorizado só nas condições da Portaria n.º 31/2007 e do Edital de acesso à Mata de Albergaria, ou seja, o atravessamento com pagamento de portagem e proibição de paragem.
c) Adicionam-se ao POPNPG outras medidas de proteção, nomeadamente a ZEC Peneda/Gerês (Rede Natura 2000 - se a atividade for suscetível de afetar significativamente o sítio, exige avaliação de incidências ambientais nos termos do art. 10.º do DL 140/99), Reserva Biogenética do Conselho da Europa e Reserva Mundial da Biosfera da UNESCO, além do regime geral do DL 142/2008 (RJCNB).

IV. FUNDAMENTAÇÃO SOCIAL E ECONÓMICA
A estrada que atravessa a Mata de Albergaria, por ser acesso à Fronteira de Portela do Homem e, logo, à Galiza, tem grande interesse para a população local, quer portuguesa, quer espanhola, que se desloca ao outro lado fronteira para compras em condições mais vantajosas. Tem interesse, igualmente, para o turismo, pois complementa uma rota de visita automóvel à Peneda-Gerês.

O encerramento permanente da Fronteira da Portela do Homem e, logo, a diminuição de trânsito na Estrada que lhe dá acesso, como acontecia antes da adesão de Portugal à CEE (hoje União Europeia) em 1986, não faria atualmente qualquer sentido. Contudo, a regulamentação rigorosa da utilização desta via é essencial para preservar a paisagem e a biodiversidade, que constituem pilares fundamentais do turismo e, logo, têm grande interesse social e económico.

V. O QUE É PEDIDO
Assim, pedimos à Assembleia da República, que aprove uma recomendação ao Governo, ou legislação adequada, para:
a) Reforçar a regulamentação do uso das rodovias que atravessam o Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG), vedando a eventos organizados, seja de que tipo for;
b) Com urgência, abrir concurso para diretor do Parque Nacional, como previsto na Leiº 63/2023, de 16 de novembro, e que deveria ter acontecido no prazo de 120 dias após publicação da lei (há, quase, 4 anos), escolhendo uma personalidade com perfil técnico adequado, capacidade de bom relacionamento com as populações e independência comprovada;
c) Rever o quadro legal da "cogestão" das áreas protegidas que, como está, apenas serve para a dinamização recreativa e turística do Parque Nacional (e das restantes áreas protegidas); embora essa dinamização seja desejável, por contribuir para a sensibilização ambiental e a economia local, ela deve ter em consideração, prioritariamente, a conservação dos valores naturais que se pretende sejam visitados;
d) Reforçar as competências do ICNF (Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas), dos Vigilantes da Natureza e do futuro Diretor do Parque Nacional;
e) Em todos os casos, nomeadamente nas estradas referidas acima, nos miradouros, nas cascatas e noutros pontos de atração de visitantes, devem ser feitos estudos de capacidade de carga, como acontece em parques de todo o mundo, e fixados limites de uso e visitação (em Portugal, que se conheça, apenas existem limites de visitantes na Reserva Natural das Berlengas).

VI. CONCLUSÃO
A presente petição não está associada a qualquer Organização de Defesa do Ambiente ou Partido Político, é uma petição de cidadãos/ãs utentes do Parque Nacional preocupados com a sua progressiva degradação e a falta de conservação do património natural e cultural.

Pelo exposto, solicitam aos Senhores/as Deputados/as a apreciação da presente petição e a respetiva conversão em iniciativa legislativa que garanta uma melhoria da gestão e conservação do Parque Nacional da Peneda-Gerês.

Gerês, 25 de setembro de 2026 (dia nacional da sustentabilidade),

Nuno Gomes de Oliveira, Alexandra Valongueiro, Bebiana Cunha, Bernd Markowsky, Carlos Evaristo
Isabel Ribeiro, Isabella Rodrigues, Jorge Moreira , José António Barros Basto, Leão Amaral, Paul Summers,
Paulo Pereira, Pedro Ribeiro Castro, Rui Barbosa, Teresa Araújo, Teresa Markowsky

domingo, 27 de setembro de 2026

Bonjr - if it's real, then i'll stay

If it’s real, then I’ll stay, da autoria do produtor bonjr (nome artístico do músico angolano Daniel Almeida), insere-se na interseção de géneros como o Wave, o Ambient Chill e o Downtempo. A sonoridade da faixa distingue-se pelas suas texturas imersivas, pads profundos, graves ressonantes e por um vocal grave e sussurrado que transmite uma sensação imediata de vulnerabilidade. Curiosamente, essa linha vocal foi gravada pelo próprio artista de forma caseira e improvisada apenas como uma guia temporária, mas a sua textura crua e intimista acabou por definir a identidade estética e emocional da canção. 

A beleza do tema reside na forma como evoca a melancolia e a introspeção através do minimalismo, onde o próprio título encerra em si um dilema existencial profundamente marcado pela modernidade líquida de Zygmunt Bauman, em que a volatilidade das ligações humanas gera um medo constante da desilusão. A condicional que dá nome à música («se for real, então eu fico») funciona como um mecanismo de defesa emocional: o indivíduo recusa-se a investir a sua presença, a sua energia e o seu afeto num espaço ou numa relação que se possa revelar uma mera ilusão ou um encontro efémero. 

Filosoficamente, esta premissa remete para a hesitação ontológica diante do que é ilusório, dialogando com a dúvida metódica de René Descartes e com os simulacros de Jean Baudrillard, ao mesmo tempo que retrata o momento anterior ao "salto de fé" de Søren Kierkegaard - o instante em que o sujeito hesita perante o risco do vazio. Literariamente, esta atmosfera aproxima-se do conceito de liminalidade, colocando o ouvinte num espaço intermédio e suspenso entre a partida e a permanência, onde é convidado a contemplar a autenticidade da sua própria realidade.


Página Oficial
Bonjr Music
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Por que Portugal é mais seguro que Espanha no Global Peace Index?


A diferença de posicionamento entre Portugal, em sexto lugar no ranking europeu e sétimo a nível mundial, e Espanha, em décimo nono lugar no ranking europeu e vigésimo quinto a nível mundial, no Global Peace Index deve-se principalmente à forma como os vinte e três indicadores do índice são calculados e ponderados. Embora ambos os países partilhem elevados padrões de segurança e qualidade de vida na Europa do Sul, Portugal supera Espanha no índice por três fatores estruturais.

O primeiro fator reside na instabilidade e tensão política interna. O Global Peace Index avalia fortemente a coesão e a estabilidade política de cada nação. Espanha perde pontos devido a tensões regionais históricas, como os movimentos separatistas na Catalunha e no País Basco, além de um ambiente de maior polarização partidária e manifestações políticas de grande dimensão. Em contrapartida, Portugal mantém indicadores de estabilidade política interna muito elevados, com ausência de movimentos separatistas e um clima de paz social contínuo.

O segundo fator prende-se com a militarização e os gastos com defesa. Sendo uma das maiores economias da União Europeia e um membro com capacidades militares significativas, Espanha apresenta gastos absolutos mais elevados em defesa, um maior volume de forças armadas e exportações de armamento e equipamento militar superiores às de Portugal. Já Portugal regista um perfil militar significativamente mais reduzido em termos absolutos e de exportação de equipamento de defesa, o que lhe permite pontuar substancialmente melhor nos indicadores do domínio de militarização do índice.

Por fim, o terceiro fator envolve a criminalidade percebida e os fatores de segurança societal. Apesar de Espanha ser um país muito seguro para o turismo e para o quotidiano, as suas cidades de grande dimensão registam taxas absolutas mais elevadas de furtos e pequenas infrações em pontos turísticos, além de uma perceção ligeiramente superior de risco em áreas urbanas de grande densidade. Por outro lado, Portugal apresenta taxas baixíssimas de crimes violentos, uma legislação sobre armas bastante rigorosa e níveis muito reduzidos de perceção de insegurança por parte da população no dia a dia.

A ausência da Noruega e da Suécia no Top 20 europeu explica-se pelos critérios específicos do Global Peace Index (GPI), um índice que mede o nível de paz global através de métricas amplas e não apenas com base na criminalidade do dia a dia.

No caso da Suécia, a queda no ranking deve-se ao crescimento da violência associada a gangues organizados, com um aumento notório de tiroteios e explosões, o que elevou a perceção de insegurança e o impacto do mercado ilegal de armas.

Já a Noruega, apesar de manter níveis altíssimos de segurança no quotidiano e taxas residuais de crimes violentos, acaba por ser penalizada no pilar da militarização. O país regista um volume considerável de exportação de material militar por habitante e assume despesas significativas em defesa e missões internacionais, fatores que influenciam negativamente a sua pontuação final no índice.

Fontes


sábado, 26 de setembro de 2026

Murder By Death - Lost River

Melhor som aqui
A banda americana Murder By Death, criada em Bloomington (Indiana), move-se entre o rock independente, o folk sombrio e a chamada gothic americana. O som do grupo destaca-se pelo uso do violoncelo e pela voz grave de Adam Turla. Lançada em 2012 no álbum Bitter Drink, Bitter Moon, a canção "Lost River" explora a culpa, o luto e a passagem do tempo. A imagem do "rio perdido" não nasce de um caso real, mas surge como uma invenção poética de Turla para representar a morte, o apagamento das memórias e o peso dos erros que cada pessoa carrega ao longo da vida.

O videoclipe, realizado por Gabe Darling (músico da banda nova-iorquina O'Death), acompanha essa atmosfera visualmente. Através de uma estética poética e desolada, com a banda a tocar em cenários despojados e envoltos numa atmosfera quase intemporal, o teledisco reforça os sentimentos de isolamento, a pequenez do indivíduo perante a força da natureza e o peso do destino.
 
A nível de influências, a música inspira-se no imaginário da literatura do Gótico Sulista de autores como Cormac McCarthy, William Faulkner e Flannery O'Connor, onde o pecado, a desolação rural e a decadência moral são temas recorrentes. Nota-se também uma clara alusão ao mito grego do rio Estige - a água como a última fronteira entre os vivos e os mortos. 

No fundo, "Lost River" confronta-nos com a ideia de que o tempo passa, as pessoas partem e o mundo simplesmente continua a girar, tenhamos nós deixado as nossas contas prestadas ou não.

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Uma espécie de cartel. Donos da inteligência artificial estão a usar o medo para fechar o mercado



Estão a meio de uma das competições mais agressivas da história do desenvolvimento tecnológico, mas mesmo assim foram capazes de concordar. Dario Amodei, presidente-executivo da Anthropic, Sam Altman, da OpenAI, e Elon Musk, da xAI, vieram a público admitir que o avanço descontrolado da Inteligência Artificial de fronteira (IA) acarreta riscos reais e exige um abrandamento concertado no ritmo de desenvolvimento. Um alinhamento quase sem precedentes entre os três maiores rivais de Silicon Valley, mas que, para os especialistas em cibersegurança ouvidos pela CNN Portugal, esconde motivações bem mais pragmáticas e calculadas do que um súbito despertar de consciência.

"Olho para isto como uma espécie de tentativa de colocar um muro à entrada de novos players. Com esta regulação, os pequenos concorrentes não têm capacidade de capital para conseguir estar ao alcance destes grandes grupos. No fundo, é tentar fazer uma espécie de cartel", resume Vítor Hugo Silva, especialista em cibersegurança, mestre em Segurança da Informação e arquiteto de cibersegurança da Galp.

Ao contrário dos alertas dos líderes destas empresas, que apontaram para o perigo iminente de os sistemas ultrapassarem as salvaguardas humanas e exigirem travões de emergência, os especialistas descartam essa ideia quase cinematográfica de uma IA a ganhar consciência, a contornar os criadores e a ameaçar fugir ao controlo dos humanos. Longe dos cenários de ficção científica, os documentos internos e relatórios de segurança apontam para um problema bem mais antigo: uma nova ferramenta que acelera o desenvolvimento tecnológico que, ao mesmo tempo, pode ser explorada para o crime.

Quando a Anthropic publicou um relatório a avaliar se os seus modelos poderiam ajudar na criação de armas biológicas, o alarme soou de imediato. Mas, na verdade, não houve qualquer algoritmo a tentar produzir vírus de forma autónoma, nem planos terroristas explícitos, mas sim utilizadores e cientistas a explorar a capacidade computacional do modelo para recolher dados sensíveis. Tratou-se de um problema clássico das tecnologias de duplo uso, onde a mesma informação que acelera o desenvolvimento de uma vacina pode, nas mãos erradas, ser desviada para conceber ameaças biológicas.

"O que existia naquela investigação era um potencial de duplo uso: a moeda que tem duas faces, o mal e o bem. A tecnologia sempre foi assim", explica Vítor Hugo Silva, para quem a insistência no mito da "máquina rebelde" apenas desvia as atenções da verdadeira falibilidade técnica destes sistemas. "Estes modelos são modelos probabilísticos. Há sempre uma chance de fazer alguma coisa que não era suposto. Não é intencional, é mesmo probabilidade, só isso".

O perigo mais próximo, defende o especialista, não é o de um ataque autónomo de um modelo de IA, mas sim o de uma precipitação humana em transferir poder de decisão para sistemas estatísticos sem a devida validação. Ao contrário da automação tradicional, como os pilotos automáticos da aviação comercial, desenhados para responder de forma determinística e previsível a regras muito restritas, os grandes modelos de linguagem operam sob lógicas probabilísticas, gerando respostas que parecem coerentes, mas que comportam sempre uma margem inevitável de erro e alucinação.

Para os especialistas, confiar cegamente nestes sistemas para gerir infraestruturas críticas, como redes elétricas, abastecimento de água ou refinarias, pode resultar em erros demasiado graves. Mesmo quando a probabilidade é baixa. "Temos de estar preocupados, não propriamente com a tecnologia em si, mas com a forma como se tem usado a tecnologia. Tem sempre duas faces na mesma moeda, para o bem e para o mal. Não focava muito na questão do controlo, porque estamos sempre no controlo. Nós é que temos de ter os pés na terra, perceber quais são as potencialidades da ferramenta e definir grades de segurança", afirma Bernardo Forbes Costa, especialista em Inteligência Artificial e professor na Nova School of Business and Economics.

Para os especialistas, este continua mesmo a ser o principal perigo, com utilizadores com más intenções a conseguir utilizar estas ferramentas para causar danos de larga escala. É por isso que Bernardo Forbes Costa olha para a proposta de Dario Amodei, que defendeu a criação de um sistema de fiscalização e auditorias permanentes, capaz de ditar o ritmo de treino e de lançamento dos modelos mais avançados, como algo que obedece mais às regras de mercado do que a questões éticas.

"Vamos supor, num cenário catastrófico máximo, que efetivamente um grupo terrorista consegue desenvolver um vírus que gera uma crise pandémica global ao estilo da Covid, e descobre-se que foi através de um modelo da Anthropic ou da OpenAI. Isso é uma sentença de morte para uma empresa. Não é só algo perfeitamente altruísta e responsável; há sempre também uma preocupação económica em última instância", nota Bernardo Forbes Costa.

Os especialistas apontam também para um outro motivo financeiro que pode estar a levar a uma mudança na postura destas empresas tecnológicas. A fatura da corrida aos modelos de fronteira tornou-se demasiado grande face ao atual retorno comercial. De acordo com projeções financeiras públicas da OpenAI, a criadora do ChatGPT estimava prejuízos na ordem dos 5 mil milhões de dólares para 2024, apesar de receitas de cerca de 3,7 mil milhões, absorvendo faturas de computação que crescem a ritmos difíceis de sustentar. No mesmo sentido, gigantes do capital de risco como a Sequoia Capital chegaram a alertar para um "buraco de 600 mil milhões de dólares" entre aquilo que a indústria gasta em infraestrutura, com centros de dados, eletricidade e processadores gráficos da Nvidia, e as receitas reais que o ecossistema de inteligência artificial consegue gerar no mercado.

"Há aqui uma questão económica que não se consegue ignorar: até que ponto os incrementos dos modelos em termos de eficiência já não são lineares àquilo que é o investimento? Para tornar o modelo duas vezes melhor, eu tenho de gastar quatro vezes mais, por exemplo. Estamos a chegar a um plateau, a um achatamento da curva em termos de eficiência. Os limites da física começam a pregar partidas pelo tamanho dos transístores", explica Vítor Hugo Silva.

Em vez de criar legislação que trave o progresso tecnológico e que sirva apenas para salvar as contas das principais empresas do setor, a resposta para garantir uma maior segurança destes modelos pode passar por uma abordagem segmentada. Para Bernardo Forbes Costa, a regulação deve focar-se na forma como a tecnologia chega ao público, com uma arquitetura segmentada em níveis de acesso. Nesta solução, as empresas ofereceriam modelos de linguagem "mais libertos de resguardas de segurança para a investigação, para governos, para instâncias militares e outros modelos menos capazes para o uso civil". Ao mesmo tempo isso poderia permitir que "novos modelos continuem a ser desenvolvidos", mas que não sejam necessariamente lançados ao público. "Uma coisa é o desenvolvimento do modelo, outra coisa é a sua comercialização", defende.

Os especialistas alertam também para o facto de os países ocidentais correrem o risco de ficar para trás face à concorrência tecnológica de países com menos restrições éticas. Particularmente por parte do maior rival geopolítico norte-americano, a China, que tem focado os seus esforços em copiar e aperfeiçoar modelos de baixo custo.

O próprio relatório da Anthropic apontou o dedo a laboratórios chineses que tentaram replicar as capacidades dos modelos Claude através desse método, evitando gastar milhares de milhões de dólares e os anos de investigação que sustentaram o seu desenvolvimento. Vários laboratórios em Pequim e Hangzhou, como a DeepSeek ou a Alibaba com a Qwen, conseguiram colocar modelos de código aberto no topo dos benchmarks mundiais recorrendo a modelos ocidentais como "professores" para treinar arquiteturas muito mais compactas e baratas.

"O que a China tende a fazer no fundo é o que se chama destilação de modelos. Agarram num modelo de topo e tentam, de certa forma, copiá-lo. A única coisa de que preciso e o meu constrangimento passa a ser a necessidade de ter uma boa máquina", alerta Bernardo Forbes Costa.

Quase fora desta corrida está a Europa. Segundo os dados do relatório AI Index 2026, da Universidade de Stanford, em 2025, dos modelos de IA notáveis produzidos no mundo, 59 tiveram origem nos Estados Unidos e 35 na China. Em toda a Europa, somaram-se apenas dois. O fosso repete-se na capacidade instalada e na propriedade intelectual, com 5.427 centros de dados nos Estados Unidos, dez vezes o registado em qualquer outro país. O fosso de infraestrutura é ainda mais gritante: o continente europeu não tem um único grande fornecedor de computação em nuvem e depende quase a 100% de semicondutores e servidores norte-americanos.

"Estamos em maus lençóis a esse nível, porque tudo o que é inteligência artificial de ponta, na vanguarda, é tudo americano e chinês. Não temos quase nada na Europa", adverte o professor da Nova SBE

Saber mais:
1. Sequoia Capital. (2024). AI's $600B Question. Sequoia Capital Research