sábado, 26 de setembro de 2026

Uma espécie de cartel. Donos da inteligência artificial estão a usar o medo para fechar o mercado



Estão a meio de uma das competições mais agressivas da história do desenvolvimento tecnológico, mas mesmo assim foram capazes de concordar. Dario Amodei, presidente-executivo da Anthropic, Sam Altman, da OpenAI, e Elon Musk, da xAI, vieram a público admitir que o avanço descontrolado da Inteligência Artificial de fronteira (IA) acarreta riscos reais e exige um abrandamento concertado no ritmo de desenvolvimento. Um alinhamento quase sem precedentes entre os três maiores rivais de Silicon Valley, mas que, para os especialistas em cibersegurança ouvidos pela CNN Portugal, esconde motivações bem mais pragmáticas e calculadas do que um súbito despertar de consciência.

"Olho para isto como uma espécie de tentativa de colocar um muro à entrada de novos players. Com esta regulação, os pequenos concorrentes não têm capacidade de capital para conseguir estar ao alcance destes grandes grupos. No fundo, é tentar fazer uma espécie de cartel", resume Vítor Hugo Silva, especialista em cibersegurança, mestre em Segurança da Informação e arquiteto de cibersegurança da Galp.

Ao contrário dos alertas dos líderes destas empresas, que apontaram para o perigo iminente de os sistemas ultrapassarem as salvaguardas humanas e exigirem travões de emergência, os especialistas descartam essa ideia quase cinematográfica de uma IA a ganhar consciência, a contornar os criadores e a ameaçar fugir ao controlo dos humanos. Longe dos cenários de ficção científica, os documentos internos e relatórios de segurança apontam para um problema bem mais antigo: uma nova ferramenta que acelera o desenvolvimento tecnológico que, ao mesmo tempo, pode ser explorada para o crime.

Quando a Anthropic publicou um relatório a avaliar se os seus modelos poderiam ajudar na criação de armas biológicas, o alarme soou de imediato. Mas, na verdade, não houve qualquer algoritmo a tentar produzir vírus de forma autónoma, nem planos terroristas explícitos, mas sim utilizadores e cientistas a explorar a capacidade computacional do modelo para recolher dados sensíveis. Tratou-se de um problema clássico das tecnologias de duplo uso, onde a mesma informação que acelera o desenvolvimento de uma vacina pode, nas mãos erradas, ser desviada para conceber ameaças biológicas.

"O que existia naquela investigação era um potencial de duplo uso: a moeda que tem duas faces, o mal e o bem. A tecnologia sempre foi assim", explica Vítor Hugo Silva, para quem a insistência no mito da "máquina rebelde" apenas desvia as atenções da verdadeira falibilidade técnica destes sistemas. "Estes modelos são modelos probabilísticos. Há sempre uma chance de fazer alguma coisa que não era suposto. Não é intencional, é mesmo probabilidade, só isso".

O perigo mais próximo, defende o especialista, não é o de um ataque autónomo de um modelo de IA, mas sim o de uma precipitação humana em transferir poder de decisão para sistemas estatísticos sem a devida validação. Ao contrário da automação tradicional, como os pilotos automáticos da aviação comercial, desenhados para responder de forma determinística e previsível a regras muito restritas, os grandes modelos de linguagem operam sob lógicas probabilísticas, gerando respostas que parecem coerentes, mas que comportam sempre uma margem inevitável de erro e alucinação.

Para os especialistas, confiar cegamente nestes sistemas para gerir infraestruturas críticas, como redes elétricas, abastecimento de água ou refinarias, pode resultar em erros demasiado graves. Mesmo quando a probabilidade é baixa. "Temos de estar preocupados, não propriamente com a tecnologia em si, mas com a forma como se tem usado a tecnologia. Tem sempre duas faces na mesma moeda, para o bem e para o mal. Não focava muito na questão do controlo, porque estamos sempre no controlo. Nós é que temos de ter os pés na terra, perceber quais são as potencialidades da ferramenta e definir grades de segurança", afirma Bernardo Forbes Costa, especialista em Inteligência Artificial e professor na Nova School of Business and Economics.

Para os especialistas, este continua mesmo a ser o principal perigo, com utilizadores com más intenções a conseguir utilizar estas ferramentas para causar danos de larga escala. É por isso que Bernardo Forbes Costa olha para a proposta de Dario Amodei, que defendeu a criação de um sistema de fiscalização e auditorias permanentes, capaz de ditar o ritmo de treino e de lançamento dos modelos mais avançados, como algo que obedece mais às regras de mercado do que a questões éticas.

"Vamos supor, num cenário catastrófico máximo, que efetivamente um grupo terrorista consegue desenvolver um vírus que gera uma crise pandémica global ao estilo da Covid, e descobre-se que foi através de um modelo da Anthropic ou da OpenAI. Isso é uma sentença de morte para uma empresa. Não é só algo perfeitamente altruísta e responsável; há sempre também uma preocupação económica em última instância", nota Bernardo Forbes Costa.

Os especialistas apontam também para um outro motivo financeiro que pode estar a levar a uma mudança na postura destas empresas tecnológicas. A fatura da corrida aos modelos de fronteira tornou-se demasiado grande face ao atual retorno comercial. De acordo com projeções financeiras públicas da OpenAI, a criadora do ChatGPT estimava prejuízos na ordem dos 5 mil milhões de dólares para 2024, apesar de receitas de cerca de 3,7 mil milhões, absorvendo faturas de computação que crescem a ritmos difíceis de sustentar. No mesmo sentido, gigantes do capital de risco como a Sequoia Capital chegaram a alertar para um "buraco de 600 mil milhões de dólares" entre aquilo que a indústria gasta em infraestrutura, com centros de dados, eletricidade e processadores gráficos da Nvidia, e as receitas reais que o ecossistema de inteligência artificial consegue gerar no mercado.

"Há aqui uma questão económica que não se consegue ignorar: até que ponto os incrementos dos modelos em termos de eficiência já não são lineares àquilo que é o investimento? Para tornar o modelo duas vezes melhor, eu tenho de gastar quatro vezes mais, por exemplo. Estamos a chegar a um plateau, a um achatamento da curva em termos de eficiência. Os limites da física começam a pregar partidas pelo tamanho dos transístores", explica Vítor Hugo Silva.

Em vez de criar legislação que trave o progresso tecnológico e que sirva apenas para salvar as contas das principais empresas do setor, a resposta para garantir uma maior segurança destes modelos pode passar por uma abordagem segmentada. Para Bernardo Forbes Costa, a regulação deve focar-se na forma como a tecnologia chega ao público, com uma arquitetura segmentada em níveis de acesso. Nesta solução, as empresas ofereceriam modelos de linguagem "mais libertos de resguardas de segurança para a investigação, para governos, para instâncias militares e outros modelos menos capazes para o uso civil". Ao mesmo tempo isso poderia permitir que "novos modelos continuem a ser desenvolvidos", mas que não sejam necessariamente lançados ao público. "Uma coisa é o desenvolvimento do modelo, outra coisa é a sua comercialização", defende.

Os especialistas alertam também para o facto de os países ocidentais correrem o risco de ficar para trás face à concorrência tecnológica de países com menos restrições éticas. Particularmente por parte do maior rival geopolítico norte-americano, a China, que tem focado os seus esforços em copiar e aperfeiçoar modelos de baixo custo.

O próprio relatório da Anthropic apontou o dedo a laboratórios chineses que tentaram replicar as capacidades dos modelos Claude através desse método, evitando gastar milhares de milhões de dólares e os anos de investigação que sustentaram o seu desenvolvimento. Vários laboratórios em Pequim e Hangzhou, como a DeepSeek ou a Alibaba com a Qwen, conseguiram colocar modelos de código aberto no topo dos benchmarks mundiais recorrendo a modelos ocidentais como "professores" para treinar arquiteturas muito mais compactas e baratas.

"O que a China tende a fazer no fundo é o que se chama destilação de modelos. Agarram num modelo de topo e tentam, de certa forma, copiá-lo. A única coisa de que preciso e o meu constrangimento passa a ser a necessidade de ter uma boa máquina", alerta Bernardo Forbes Costa.

Quase fora desta corrida está a Europa. Segundo os dados do relatório AI Index 2026, da Universidade de Stanford, em 2025, dos modelos de IA notáveis produzidos no mundo, 59 tiveram origem nos Estados Unidos e 35 na China. Em toda a Europa, somaram-se apenas dois. O fosso repete-se na capacidade instalada e na propriedade intelectual, com 5.427 centros de dados nos Estados Unidos, dez vezes o registado em qualquer outro país. O fosso de infraestrutura é ainda mais gritante: o continente europeu não tem um único grande fornecedor de computação em nuvem e depende quase a 100% de semicondutores e servidores norte-americanos.

"Estamos em maus lençóis a esse nível, porque tudo o que é inteligência artificial de ponta, na vanguarda, é tudo americano e chinês. Não temos quase nada na Europa", adverte o professor da Nova SBE

Saber mais:
1. Sequoia Capital. (2024). AI's $600B Question. Sequoia Capital Research

Ana Catarina: A crónica viral sobre a ONU, a América e a Praça dos que Podiam Fazer Alguma Coisa

A narrativa tem como pano de fundo a 79.ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), realizada em Nova Iorque no final de setembro de 2024. A autora constrói uma viagem ficcionada e surrealista a partir de Lisboa, onde se infiltra na comitiva diplomática portuguesa para observar de perto os bastidores do poder.

A razão pela qual a crónica volta a ser partilhada e ganha nova tração prende-se com o facto de o calendário político global se repetir com uma precisão quase mecânica. Ao regressar a época da Assembleia Geral da ONU em Nova Iorque, com as mesmas figuras centrais da diplomacia nacional e internacional a ocupar os mesmos palcos, a análise satírica de Ana Catarina recupera de imediato toda a sua frescura e pertinência. O texto funciona como um espelho de um ciclo diplomático que parece estagnado no tempo, onde os intervenientes e os discursos se mantêm inalterados enquanto os problemas reais nas ruas de Manhattan e no resto do mundo continuam por resolver, transformando esta peça de reflexão num retrato tão atual hoje como no momento em que foi escrita.

"Sabem onde é que estive estes dias?

Na América.

Um rapaz disse-me para ir com ele ver os aviões. Ou estava a cantar a música dos Azeitonas e eu levei aquilo a sério. Pronto, não interessa. Fui.

Parou a viatura naquele sítio ao lado do Prior Velho onde se veem os aviões e lá ficámos.

Até me faz impressão existir uma terra chamada Prior Velho. Toda a gente sabe que um prior já nasce velho.

Lá estava eu a observar aquele fenómeno social que ainda nenhum livro de psicologia de massas conseguiu explicar quando vejo o Rangel a entrar num avião.

Aí não me contive. Abri uma abertura na rede e fui atrás.

Isto já foi naquela parte da música em que o Miguel Araújo canta que um dia há de levar alguém à América. E não foi difícil entrar no avião porque o Rangel paga bilhete inteiro mas só utiliza meio. Meio dele, meio meu, ninguém deu por nada.

Por sorte ando sempre com um caderno na mala e fui anotando.

Chegados à América, eu sempre colada ao Rangel, começámos a ver pessoas. Muitas pessoas. Vimos também políticos, mas isso já não vos posso garantir que fossem pessoas.



O Rangel nem parece um rapaz da cidade. Em cada esquina dava um grito:

— Aponta, Catarina! Aponta isto!

E eu apontava. Uma loja de filigrana.

— Aponta!

Uma livraria com livros do Tio Patinhas.

— Aponta! — disse que lhe fazia lembrar o outro tio, o Marcelo.

Um café com pastéis de nata.

— APONTA!

Uma garrafa de vinho do Esporão.

— CATARINA, ESTÁS A VER ISTO?

Estava. Ao fim de duas horas já tinha apontado três restaurantes portugueses, dois galos de Barcelos, uma camisola do Cristiano Ronaldo e um homem chamado Manuel que era de Newark mas tinha uma tia em Viseu. Tudo lhe dava orgulho em Portugal.

A mim dão-me orgulho coisas mais consistentes. Sei lá. Salários a subir. Rendas a descer. Pessoas a conseguirem marcar uma consulta antes de morrerem. Cada um com as suas taras.

Entre a Quinta Avenida e a Sétima, que, se não estou em erro, é a Sexta, demos de caras com o Castelo Branco. O Castelo Branco não é uma pastelaria. Não confundam. É um senhor. O Rangel conhecia-o, embora não tenha conseguido apurar de onde.

Foram lanchar os dois e eu fiquei ali a observar a cidade que nunca dorme.



Também não percebo a admiração. Há milhares de pessoas em Nova Iorque que não dormem porque nem sequer têm uma cama.

Vi um homem sair de um edifício onde um apartamento custa mais do que uma aldeia no Alentejo e passar por cima de outro homem que dormia num cartão.

Vi limusines paradas em semáforos ao lado de pessoas a pedir dinheiro para comer.

Vi lojas onde uma carteira custa o salário anual de quem limpa a montra.

Peguei imediatamente no caderno:
“Quando chegar a Portugal escrever à Mariana Leitão.”

A Mariana provavelmente não sabe disto. É o que dá conhecer os países pela Netflix. Uma pessoa vê aquelas coberturas em Manhattan, mulheres com copos de vinho junto às janelas e homens a correr no Central Park e deduz que os americanos estão todos muito bem.

Depois do almoço infiltrei-me na comitiva portuguesa e entrei nas Nações Unidas.

Ah pois é...

Vocês têm uma amiga que ouviu o António Guterres despedir-se do mundo. Salvo seja.

Ele agora vai voltar para o Fundão, que no Fundão é que ele faz falta, e o homem também já precisa de descansar. Dez anos a tentar que a humanidade se comporte deve cansar mais do que apanhar cereja.

O Luís também lá estava. O Luís, já sabem, esteja onde estiver tem sempre aquela cara de quem está a pensar nas vindimas.

Por isso não consegui perceber se estava preocupado com Gaza, com a Ucrânia, com o clima ou se lhe tinham dito que este ano a Touriga Nacional vinha com pouco grau.

Também não vi muita gente a conversar com ele.

O Rangel, por exemplo, tinha coisas para fazer. Foi lanchar com o Zé, encontrar portugueses e cumprimentar um senhor chinês que, segundo percebi, cumprimenta os colegas aos beijos.

A diplomacia internacional avançou imenso. Antigamente invadiam-se países. Agora dá-se dois beijinhos e marca-se uma reunião.

Entretanto começaram os discursos.

Um dizia que era preciso acabar com as guerras. Outro concordava.

Outro dizia que era preciso combater a fome. Toda a gente concordava.

Outro dizia que era preciso respeitar o direito internacional. Concordaram todos outra vez.

Olhei para o planeta. Não se notava nada.

Anotei no caderno:
“ONU: grupo de whatsapp da humanidade. Toda a gente lê. Ninguém responde.”

Depois falou o Lula.

Aí fechei o caderno. Não apontei nada. Ouvi.

Era o que todos deviam fazer de vez em quando. Ouvir o Lula.

Quando saímos já era noite.

Não fiquei para o dia seguinte. Era o dia em que o Netanyahu ia explicar que o Irão está a 15 dias de ter uma bomba nuclear. Diz isto desde 1992 e eu tinha coisas para fazer.

Despedi-me do Rangel porque ele ainda queria procurar uma mercearia em Queens onde lhe tinham garantido que havia tremoços portugueses e eu tinha um avião para apanhar.

Vim embora da cidade onde dizem que as ruas não têm nome.

É mentira.

A cidade onde as ruas não têm nome é Espinho.

Em Nova Iorque as ruas têm nomes. Eu é que lhes chamaria outras coisas.

Rua da Miséria.

Avenida da Desigualdade.

Travessa dos que Dormem no Chão.

Largo dos que Passam por Cima.

Avenida dos que Têm Demais.

Rua dos que Não Têm Nada.

E, lá ao fundo, enorme, iluminada e cheia de bandeiras de países que passaram o dia inteiro a dizer que queremos salvar o mundo:

Praça dos que Podiam Fazer Alguma Coisa."

Vista da escultura “Não-Violência” ou “Arma com Nó”, do artista Carl Fredrik Reuterswärd, na Praça de Visitantes da ONU , na sede da ONU

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Trentemøller: Swerve


A sonoridade de "Swerve", obra do produtor e compositor dinamarquês Trentemøller (Anders Trentemøller, natural de Copenhaga), reflete uma marcante evolução estética. Tendo percorrido as origens da eletrónica e do minimal techno, o artista dinamarquês firma aqui uma identidade densa que cruza o dream pop, o shoegaze, o post-rock e a indietronica. A faixa é construída a partir de sintetizadores melancólicos, guitarras saturadas em reverberação e um ritmo hipnótico, criando uma atmosfera profundamente cinematográfica, sombria e nostálgica.

No centro da identidade sonora da canção está a contribuição de Sakura Katsuura . A artista e designer empresta a sua voz sussurrada e etérea em japonês, introduzindo uma dimensão íntima que contrasta com a frieza das texturas eletrónicas e reforça a sensação de distanciamento e introspeção. O próprio conceito de "Swerve" - a ideia de mudar bruscamente de direção ou desviar-se — evoca a perda de controlo, a impermanência e a vertigem dos momentos em que a vida muda imprevisivelmente de rumo, deixando o indivíduo a flutuar sem rumo fixo entre memórias e desilusões.

No teledisco, esta narrativa visual é ampliada pelas performances expressivas de um elenco composto por Sakura Katsuura, Sophie Vyshnevska, Viktor Farkas, Anni Chen e Swell . Através de dinâmicas corporais e olhares contidos, o teledisco explora o alienamento e a desconexão emocional na era moderna, retratando corpos fisicamente próximos cujas mentes permanecem isoladas. Com uma iluminação de alto contraste e movimentos de câmara fluidos, a estética cinematográfica gera um ambiente onírico onde o ato de desviar o olhar reflete a incapacidade de encarar a realidade ou o outro diretamente.

Esta fusão estética e conceptual estabelece pontes diretas com referências literárias e filosóficas marcantes. O desvio sugerido no título ecoa o conceito epicurista de clinamen - a inclinação imprevisível dos átomos teorizada por Lucrécio em De Rerum Natura e posteriormente analisada por Gilles Deleuze -, representando a rutura inesperada do fluxo contínuo e a entrada do caos na estabilidade diária. A faixa dialoga também com o existencialismo de Jean-Paul Sartre e Albert Camus ao evocar a alienação e a vertigem perante a ausência de sentido, enquanto a volatilidade das interações no videoclipe espelha a "modernidade líquida" de Zygmunt Bauman e a fragilidade dos laços humanos. Por fim, o contraste entre o vocal em japonês e o ambiente pós-punk remete para a atmosfera de realismo mágico urbana de Haruki Murakami, na qual personagens solitárias atravessam cenários frios imersas num isolamento psicológico e num surrealismo subtil.

A Lua, Gloriosamente Indiferente

Image credit: NASA/Goddard Space Flight Center Scientific

Antes do alfabeto, antes do relógio, esta pedra imperturbável já aqui estava - uma presença ancestral, indiferente e crua, a puxar pelo oceano e pelos ossos sem pedir permissão.

Pergunto-me: como é que os primeiros hominídeos a sentiram? Sem palavras para «órbita» ou «maré», erguendo as mãos pré-vocais para a escuridão, terão sentido aquela atração gravitacional no peito? Será que se tornaram um pouco mais humanos com aquela visão, ou eram simplesmente pó a reconhecer pó?

E eis que surge o absurdo da nossa era: homens em fatos elegantes e com carteiras sem fundo, Bezos a inspecionar crateras para futuros armazéns, Musk a sonhar com painéis publicitários de néon cravados no regolito. A sátira definitiva do ego humano: olhar para quatro mil milhões de anos de silêncio sereno e perguntar: «Quanto vale este imóvel?»

Anseiam por extrair o basalto lunar com fins lucrativos, vendendo bilhetes VIP para o vazio sem ar, enquanto a Terra sob os seus pés arde em febre.

No entanto, a Lua permanece gloriosamente imperturbável. Continua a girar - indiferente, imensa - segurando os oceanos na palma da sua mão sem nunca saber o que é a água e sem se importar minimamente com quem é o dono do foguetão.

João Soares, 24.09.2026 

O Caso de Souto de Moura nos Açores: Sustentabilidade e Habitação Social em Destaque

Mofo

O Dia Nacional da Sustentabilidade, instituído pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 56/2023, de 9 de junho, assinala-se a 25 de setembro, coincidindo com a data de adoção dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) pelas Nações Unidas. Esta efeméride reforça que o caminho para um país mais sustentável exige uma abordagem holística sobre as dimensões ambiental, social e económica, garantindo um envolvimento inclusivo e participativo de toda a sociedade para «não deixar ninguém para trás».

É precisamente nesta interseção entre as políticas públicas de sustentabilidade e a sua aplicação prática que ganha relevância a análise de casos concretos, como o do loteamento de habitação social nas Sete Cidades, em São Miguel (Açores), projetado pelo arquiteto Eduardo Souto de Moura em coautoria com Adriano Pimenta. Concluído por volta de 2010, este conjunto habitacional oferece uma oportunidade para avaliar, no longo prazo, se os princípios teóricos da sustentabilidade se traduziram em qualidade de vida duradoura para a comunidade.

Confrontando as três dimensões basilares promovidas no âmbito das comemorações do Dia Nacional da Sustentabilidade com a realidade deste projeto público, destacam-se os seguintes pontos de reflexão:

1.Sustentabilidade ambiental e adequação climática: embora o projeto procure reinterpretar a volumetria tradicional das habitações açorianas, a opção pelo betão visto como material predominantemente exposto revelou-se problemática perante a humidade extrema e a pluviosidade do microclima das Sete Cidades. A colonização biológica da fachada exterior (líquenes e fungos) e as elevadas exigências de ventilação para controlar a humidade ambiente demonstram que a sustentabilidade exige o respeito pelos materiais e pelas técnicas construtivas locais.   

2. Sustentabilidade económica e custo de vida: a habitação de cariz social destina-se a populações com recursos limitados. Quando o desempenho térmico e a gestão da humidade de uma solução arquitetónica obrigam a consumos contínuos de eletricidade (através do uso frequente de desumidificadores e aquecedores) ou exigem manutenções exteriores constantes, o encargo financeiro sobre os residentes e a administração pública torna-se elevado, contrariando o princípio da eficiência no ciclo de vida do edifício.

3. Sustentabilidade social e aceitação comunitária: a relação dos moradores com as habitações foi marcada por críticas quanto à funcionalidade do espaço interno e ao conforto habitacional. O caso evidencia a importância do planeamento participativo e da escuta ativa das comunidades locais, garantindo que o desenho arquitetónico responde às reais necessidades quotidianas dos utilizadores.

A análise deste conjunto habitacional com mais de uma década de vivência oferece uma reflexão crítica sobre a necessidade de alinhar a arquitetura contemporânea com a arquitetura vernácula, demonstrando que a verdadeira sustentabilidade depende da durabilidade, da funcionalidade e da dignidade proporcionadas a quem habita o espaço.

Além disso, a questão da eficiência energética e do conforto térmico é, de facto, uma das fragilidades mais apontadas a este projeto de habitação social. A escolha do betão visto como material predominantemente exposto traz desafios acrescidos no microclima extremamente húmido, frio e chuvoso da cratera das Sete Cidades. Sendo um material de elevada inércia térmica e reduzida permeabilidade ao vapor de água, o betão exige um esforço acrescido de aquecimento e ventilação para que as superfícies interiores atinjam uma temperatura de conforto e evitem o ponto de orvalho, resultando na necessidade frequente de recorrer a equipamentos elétricos.   Por sua vez, este consumo elétrico continuado traduz-se num elevado encargo financeiro para as famílias, o que anula o próprio propósito de uma habitação de custos controlados. A conjugação entre a insuficiência dos sistemas de ventilação mecânica para a libertação do vapor de água quotidiano, a elevada humidade do microclima local e o comportamento higrotérmico do betão gera condensações internas, o aparecimento de fungos e um ambiente interior bastante desconfortável. Este cenário evidencia o desfasamento entre o desenho conceptual e os padrões reais de habitabilidade e sustentabilidade, mesmo num edifício cujo projeto cumpre formalmente os requisitos do certificado energético (com classificação estimada de nível B).  

No que concerne às proeminentes "torres" de betão - que constituem o prolongamento vertical dos corpos dos fornos e chaminés exteriores -, estas foram igualmente alvo de fortes críticas e estranheza por parte da comunidade e dos residentes. Do ponto de vista estético e formal, a escala monumental e austera destas chaminés em betão cru contrasta vivamente com as delicadas chaminés e fornos da arquitetura tradicional micaelense, habitualmente caiados de branco e de proporções mais modestas. Esta linguagem visual agressiva levou a que a população local percepcionasse estas estruturas não como um tributo à memória construtiva dos Açores, mas antes como uma imposição industrial e descaracterizadora.   Paralelamente, no plano funcional e do conforto quotidiano, a opção por chaminés de tal envergadura acopladas à fachada gerou sérios constrangimentos. A exposição contínua destas elevadas massas de betão ao vento rigoroso e à chuva constante das Sete Cidades favorece o arrefecimento das superfícies e potencia fragilidades na estanquidade e nas juntas de ligação às habitações, criando zonas propícias a infiltrações e condensações. Além disso, a altura e a geometria destas estruturas tornaram as tarefas habituais de limpeza, manutenção e controlo da tiragem da salamandra bastante mais complexas para os moradores. Deste modo, o elemento que no projeto representava uma reinterpretação poética do forno açoriano acabou por ser vivenciado no dia a dia como uma solução sobredimensionada e pouco prática.  

 [Fases do projecto aqui]

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Eivør - Spøkilsir - Revenants


Eivør (Eivør Pálsdóttir), uma das artistas mais emblemáticas das Ilhas Faroé — território autónomo do Reino da Dinamarca -, construiu uma identidade artística singular ao fundir as raízes do folk nórdico com dark folktronica, art pop e música ambiente. A canção "Spøkilsir", originalmente lançada em faroês no álbum Slør (2015) e mais tarde adaptada para o inglês sob o título "Revenants" (2017), exemplifica perfeitamente esta estética ao combinar técnicas vocais tradicionais escandinavas, como o kveding e o galdr, com sintetizadores industriais e paisagens sonoras cinemáticas.

Tematicamente, a composição explora o peso do passado e a forma como memórias, traumas e emoções mal resolvidas continuam a assombrar o presente. O termo revenant - referente a um espírito que regressa dos mortos - serve de metáfora para estas presenças internas que habitam o subconsciente, convidando o ouvinte a refletir sobre a aceitação da dor e a coexistência com as próprias sombras em vez da sua negação. No teledisco, esta mensagem ganha vida através das paisagens dramáticas, austeras e enevoadas das Ilhas Faroé, onde a natureza funciona como um espelho da psique humana. A performance de Eivør adquire contornos quase xamânicos e rituais, encenando um confronto poético com figuras veladas que simbolizam o limiar entre o visível e o invisível, a vida e a memória.

Esta abordagem carrega fortes influências literárias e filosóficas. Por um lado, bebe do folclore nórdico e nas sagas medievais, evocando a figura do draugr - o morto que regressa por deixar algo inacabado na terra. Por outro, dialoga diretamente com o conceito de "Sombra" da psicologia analítica de Carl Jung, sugerindo que o crescimento pessoal exige integrar as partes reprimidas da mente, bem como com a angústia existencial da temporalidade abordada por filósofos como Søren Kierkegaard. A obra filia-se ainda no Romantismo Escuro, onde o sublime e o aterrador se entrelaçam para encontrar beleza na melancolia e na impermanência.

Ainda antes de a mina abrir, a injustiça já chegou ao Barroso, mostra estudo europeu

O projeto da mina de lítio em Covas do Barroso, no concelho de Boticas, transformou a região num dos maiores palcos de conflito social e ambiental em Portugal. Promovido pela empresa Savannah Resources, o projeto insere-se na estratégia da União Europeia para garantir a autossuficiência em matérias-primas críticas essenciais à transição energética e à produção de veículos elétricos. Contudo, a intenção de implantar uma exploração de mineração a céu aberto numa região classificada pela FAO, desde 2018, como Património Agrícola Mundial gerou uma forte onda de contestação por parte das populações locais, de associações de defesa do território e de investigadores académicos.

A análise deste caso pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra trouxe para o debate o conceito de justiça prospetiva ambiental, que descreve como os impactos negativos de um grande empreendimento começam muito antes do início da exploração física do solo. Desde a fase de anúncio, consultas públicas e processos de licenciamento, o território passa a viver num estado prolongado de incerteza e ansiedade. Este período prévio afeta diretamente a economia local, paralisando investimentos na agricultura e no turismo rural, e provoca fraturas no tecido social, dividindo a comunidade entre a expetativa de compensações económicas e o receio da destruição do seu modo de vida.

O impasse no Barroso expõe o dilema central da transição ecológica europeia: a contradição entre a urgência global de descarbonização e os custos locais dessa mesma transformação. Enquanto os promotores sustentam que o projeto cumpre os requisitos ambientais e impulsionará a economia regional, as populações e movimentos de contestação denunciam a assimetria de poder nos processos decisórios e rejeitam que territórios rurais protegidos sejam convertidos em zonas de sacrifício para responder a metas industriais externas.

Texto completo: Público

A oliveira e a arte de resistir à seca

Pode visualizar o cartaz, com mais detalhe aqui

Sempre me fascinou a sobrevivência das espécies em condições extremas, em particular a das árvores quando a água escasseia. Presas ao lugar onde nasceram, atravessam décadas (por vezes séculos) expostas ao sol, ao vento e à incerteza da chuva. Não podem procurar sombra nem seguir a água. Ainda assim, têm de a transportar das raízes até às folhas, mantendo em funcionamento essa extraordinária maquinaria que transforma luz em vida.

Poucas árvores encarnam tão bem esta capacidade como a oliveira. O tronco retorcido e o brilho prateado das folhas parecem guardar a memória de muitos verões. Quando o calor seca os campos, a oliveira resiste. Algumas vivem séculos e persistem mesmo em condições de grande aridez. Em Portugal, as oliveiras antigas são também arquivos vivos da paisagem e da relação entre as comunidades humanas e o território.

Como é possível tamanha resistência? Não existe um único segredo, mas uma combinação de soluções afinadas pela evolução. Quando a água falta, a oliveira fecha os estomas, pequenos poros das folhas responsáveis pelas trocas gasosas. Ao fazê-lo, reduz a transpiração e conserva água. Os estomas concentram-se na face inferior da folha, protegidos por uma densa camada de tricomas prateados, que ajuda a limitar a perda de água sem impedir as trocas gasosas. As folhas estreitas, espessas e coriáceas revelam uma anatomia moldada para enfrentar a secura. A superfície foliar reflete parte da radiação e a orientação das folhas pode também alterar-se, reduzindo a exposição nos períodos de maior intensidade luminosa. A oliveira parece imóvel, mas está permanentemente a ajustar o seu funcionamento ao ambiente.

Uma parte decisiva desta história acontece debaixo do solo. O sistema radicular é plástico: adapta a sua arquitetura à distribuição da água e explora diferentes volumes de solo à medida que as condições se alteram. É como se procurasse, em profundidade e em extensão, as reservas de uma paisagem que começa a secar.

Mas a seca traz outro perigo. À medida que o solo perde água, aumenta a tensão nas colunas de água que percorrem o xilema. Se essa tensão se tornar excessiva, podem formar-se bolhas de ar capazes de interromper o transporte entre raízes e folhas. Também aqui a anatomia conta. A arquitetura hidráulica da oliveira, assente numa rede de numerosos vasos condutores, muitos deles relativamente estreitos, ajuda a limitar a propagação destas falhas e a manter o transporte de água mesmo quando algumas vias deixam de funcionar. Nada disto é um milagre. É biologia e evolução: uma engenharia de sobrevivência construída lentamente sob o sol e a seca do Mediterrâneo.

Oliveira mais antiga de Portugal fica na Herdade do Peso, tem 3.712 anos [toda a história aqui]

Ao longo de milhares de anos, a oliveira evoluiu num ambiente marcado pela irregularidade da água, mas o clima mediterrânico está a mudar. As temperaturas aumentam, a precipitação torna-se mais incerta, as ondas de calor intensificam-se e as secas podem tornar-se mais longas e severas. É tentador olhar para uma espécie tão resistente e imaginar que resistirá sempre, mas tal não significa invulnerabilidade. Todas as adaptações têm limites.

A oliveira mostra-nos a extraordinária capacidade da vida para se adaptar e o perigo de imaginarmos que essa capacidade é infinita. Talvez essa seja uma das grandes lições das plantas: não sobrevivem porque dominam o ambiente, mas porque a evolução lhes permitiu responder às suas variações e viver dentro dos limites que ele impõe.

Num clima em mudança, talvez também nós tenhamos de aprender essa lição: compreender melhor os limites, respeitar os ritmos da natureza e perguntar menos que espécies poderão substituir as atuais, e mais que condições teremos de preservar para que as nossas paisagens continuem vivas.

Helena Freitas - Diário de Coimbra, 22.09.2026

Saber mais:

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Then Comes Silence - Remaker Redeemer

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A canção "Remaker Redeemer" explora temas recorrentes na discografia da banda, nomeadamente a mortalidade, a metamorfose pessoal e a procura de salvação ou reconstrução interior num mundo em decadência. O título contrapõe as ideias de recriação ("Remaker") e de redenção ("Redeemer"), abordando a dor do processo de autodestruição seguido do renascimento emocional. A letra retrata a luta interior contra os próprios demónios e a urgência de encontrar um propósito espiritual ou existencial que traga libertação.

No videoclipe de "Remaker Redeemer", essa narrativa é traduzida através de uma estética fortemente noir e minimalista, saturada de contrastes de luz e sombra (claroscuro). O simbolismo do vídeo apoia-se em rituais de passagem, no isolamento do indivíduo e em metáforas visuais sobre o fim de um ciclo para o início de outro. A imagética soturna e a iluminação dramática sublinham a sensação de claustrofobia emocional e a transição da escuridão para uma iluminação interior.

Sob o ponto de vista literário e filosófico, a obra remete diretamente para o existencialismo de pensadores como Friedrich Nietzsche e Jean-Paul Sartre, focando-se na responsabilidade individual de criar o seu próprio significado diante do absurdo da vida. Há igualmente ecos marcantes da literatura gótica e do romantismo sombrio do século XIX, evocando noções do subliminar, do mortal e do trágico, bem como alusões a figuras mitológicas ou religiosas do redenção e transformação espiritual revisitadas a partir de uma perspetiva secular e melancólica.

O Impacto Hídrico dos Data Centers em Abrantes: Do Rio Tejo à Evaporação

A discussão em torno do impacto ambiental dos novos projetos de megacentros de dados planeados para Abrantes (como o EDC One e o Hyperion) exige uma análise rigorosa e desprovida de alarmismo. Ao analisar a transição entre a desativada Central Termoelétrica do Pego e estas novas infraestruturas digitais, torna-se evidente uma mudança estrutural na gestão dos recursos hídricos do rio Tejo: a transição de um modelo de utilização com devolução de caudal para um modelo de consumo por evaporação atmosférica.

Historicamente, a antiga central a carvão do Pego operava sob uma licença da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) para a captação de cerca de 5,7 a 6,2 milhões de metros cúbicos de água por ano. Apesar do volume substancial retirado do rio para o arrefecimento das turbinas, a arquitetura do sistema mantinha um balanço mássico quase neutro no troço local. Sob regras estritas de controlo térmico impostas pela Diretiva do Quadro da Água da União Europeia — que limitava o aumento de temperatura da água devolvida a um máximo de 3 °C -, a esmagadora maioria do volume captado regressava diretamente ao caudal do Tejo a jusante da captação.

Em contrapartida, as estimativas divulgadas pelo movimento ambientalista proTEJO para os novos data centers apontam para necessidades hídricas diárias situadas entre os 3,6 e os 22,2 milhões de litros. Isto traduz-se num volume anual projetado de 1,3 a 8,1 milhões de metros cúbicos de água. Embora o cenário mais baixo se assemelhe aos valores históricos do Pego, o cenário de pico ultrapassa-os significativamente. Contudo, a diferença mais crítica não reside no volume bruto captado, mas sim na tecnologia de arrefecimento evaporativo adotada por estas infraestruturas de processamento de dados.

Ao contrário do circuito da central termoelétrica, as torres de arrefecimento evaporativo convertem entre 70% a 80% da água captada em vapor de água, retirando-a de forma irreversível do ciclo hídrico local a curto e médio prazo. Apenas os restantes 20% a 30% permanecem no estado líquido como efluentes de purga (blowdown), caracterizados por uma elevada concentração de sais minerais e que exigem encaminhamento para estações de tratamento de águas residuais. Desta forma, o troço do Tejo em Abrantes perde permanentemente a maior parte da água captada, intensificando a pressão sobre o caudal ecológico local, especialmente durante os períodos de seca estival.

Esta pressão torna-se ainda mais preocupante num cenário de incerteza quanto à infraestrutura hídrica nacional. O anunciado plano de barragens e mini-barragens - essencial para reforçar a capacidade de retenção e regularização do caudal, sobretudo nos afluentes do Tejo - continua sem conhecer execução prática. Sem estas obras de armazenamento e regularização, o Tejo fica desprovido de uma "almofada" hídrica que possa compensar captações intensivas em anos secos.

Esta transição ocorre num contexto em que os relatórios do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) identificam a Península Ibérica como uma das regiões europeias mais suscetíveis à redução das precipitações e ao stresse hídrico. Perante a incerteza quanto à execução de novas infraestruturas de regularização de caudais na bacia do Tejo, torna-se urgente promover uma reflexão séria e científica. A transição digital de Portugal deve ser encorajada, mas exige o compromisso com soluções tecnológicas sustentáveis, como o arrefecimento a ar (dry cooling), circuitos fechados ou o uso de Águas para Reutilização (ApR), salvaguardando a resiliência do ecossistema do rio Tejo.

Evitar rastos de aviões atrasaria em 10 anos o seu impacto no aquecimento global

Evitar a formação de rastos de condensação, as linhas brancas deixadas pelos aviões no céu, numa pequena parcela dos voos poderia atrasar em cerca de dez anos o aquecimento global atribuível à aviação, segundo um estudo.

De acordo com um estudo elaborado pela Klima Consulting, por encomenda da organização ambientalista Transport & Environment (T&E) e assinado pelo ex-cientista do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) Olivier Boucher, esta medida permitiria reduzir até 0,025 graus o aumento de temperatura previsto para 2050.

O relatório divulgado na terça-feira calcula que, se o aquecimento gerado por estes rastos fosse reduzido para metade a partir de 2030, a contribuição da aviação para o aumento da temperatura global atingiria 0,08 graus em 2050, em vez de atingir esse nível uma década antes, em 2040.

Para 2070, a redução acumulada seria de cerca de 0,049 graus, segundo o estudo, que estima que evitar os rastos permitiria libertar entre 3 e 5 pontos percentuais da margem de aquecimento mundial disponível entre 2025 e 2050 para limitar o aumento da temperatura a 2 graus.

Os rastos formam-se quando o vapor de água emitido pelos motores condensa e congela sob determinadas condições de humidade e temperatura a grandes altitudes, podendo dar origem a nuvens que retêm calor na atmosfera.

Além disso, o seu efeito climático concentra-se num número reduzido de percursos.

Em 2019, apenas 3% dos voos foram responsáveis por 80% do aquecimento associado aos rastos, segundo pesquisas citadas pela T&E, com especial incidência nos voos noturnos e durante o inverno.

Por isso, os autores do relatório consideram que modificar ligeiramente as rotas ou os horários de determinados voos para evitar zonas atmosféricas propícias à sua formação pode ser uma das formas mais económicas de reduzir, a curto prazo, o impacto climático da aviação.

Aos níveis atuais de tráfego aéreo, reduzir para metade o aquecimento provocado pelos rastos de condensação equivaleria a evitar, a cada ano, entre 67 e 225 milhões de toneladas de CO2 equivalente - o que representa entre 7% e 23% das emissões globais de dióxido de carbono da aviação previstas para 2025.

“Desviar ou reprogramar apenas alguns voos poderia adiar em dez anos a contribuição da indústria da aviação para o aquecimento global”, salientou a diretora de Aviação da T&E, Diane Vitry, classificando os rastos de condensação como uma das oportunidades mais acessíveis para reduzir o impacto climático do setor.

A União Europeia começou, em 2025, a controlar as emissões da aviação que não sejam de CO2, tendo a Comissão Europeia proposto, no âmbito da revisão do mercado europeu de carbono, conceder licenças de emissão gratuitas às companhias aéreas que evitem com sucesso a formação destes rastos.

Além disso, está previsto para este inverno, no Atlântico Norte, o primeiro teste à escala do espaço aéreo oceânico para reduzir este fenómeno, numa iniciativa que conta com a participação, entre outros, do governo britânico e dos serviços de controlo de tráfego aéreo.

Os autores do estudo sublinharam, no entanto, que o benefício para a temperatura perdura apenas enquanto se mantiverem as medidas para evitar os rastos, e que atuar sobre eles não substitui a redução das emissões de CO2 da aviação.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

IAMTHESHADOW - Embracing The Fall

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A canção "Embracing The Fall" aborda temas existenciais sobre a aceitação da ruína e a rendição ao inevitável. O significado da composição reside na ideia de que a queda não deve ser encarada com pavor, mas sim como uma transição libertadora e uma oportunidade de redenção através da vulnerabilidade. Trata-se de abraçar o colapso interno ou a decadência das certezas humanas para encontrar paz no silêncio que se segue ao fim de um ciclo.

Esteticamente, o videoclipe reforça esta narrativa através de uma linguagem visual minimalistamente sombria, marcada por fortes contrastes de luz e sombra, jogos de chiaroscuro e sequências contemplativas que simulam uma descida ao inconsciente. A vertigem e o movimento constante de descida no vídeo simbolizam a perda de controlo e o abandono de resistências do indivíduo perante o destino, espelhando visualmente o ato de se deixar cair na escuridão.

No plano das influências literárias e filosóficas, a obra dos IAMTHESHADOW bebe diretamente do Existencialismo de pensadores como Jean-Paul Sartre e Friedrich Nietzsche, explorando a vertigem da liberdade individual e a perda de sentido no mundo moderno. Há igualmente ressonâncias do Romantismo gótico e do Simbolismo de autores como Edgar Allan Poe e Charles Baudelaire, visíveis no fascínio pela beleza do declínio, na introspeção melancólica e na busca por uma catarse espiritual no seio da penumbra.

O despovoamento e a perda da vida colectiva

O desafio do despovoamento atravessa territórios e países segundo lógicas convergentes, embora assuma expressões distintas em função da sua matriz biofísica, económica e cultural. Em muitos territórios rurais repete-se um mesmo processo: envelhecimento, saída dos mais jovens, retração dos serviços, redução das oportunidades económicas e perda gradual da capacidade de atrair novo investimento. Em sentido contrário, cidades e regiões metropolitanas concentram talento, criatividade, emprego, cultura, mobilidade e investimento, alimentando a perceção de que é aí que acontece a modernidade. A cidade torna-se não apenas um lugar onde existem mais oportunidades, mas também o lugar onde parece possível imaginar o futuro. 

Mas o despovoamento não significa apenas menos pessoas. Significa também menos relações, menos redes de proximidade, menos capacidade coletiva e menos instituições capazes de sustentar a vida quotidiana. Quando desaparece uma escola, encerra um estabelecimento comercial ou se perde um serviço de saúde, não desaparece apenas uma função: desaparece também um lugar de encontro e uma parte da infraestrutura social que mantém uma comunidade viva. O território vai perdendo aquilo que poderíamos chamar a sua densidade relacional. E essa perda pode criar um círculo difícil de inverter: menos população reduz serviços e oportunidades; menos serviços e oportunidades tornam o território ainda menos atrativo.

É por isso que será insuficiente procurar revitalizar estes territórios apenas através de incentivos financeiros ou da instalação pontual de atividades económicas. A pergunta fundamental é outra: como criar condições para que nestes lugares seja novamente possível construir um projeto de vida? Isso implica emprego, habitação, mobilidade e conectividade digital, naturalmente, mas também educação, cultura, espaços de encontro, serviços de proximidade e capacidade de decisão local. Um território resiliente não é apenas aquele que conserva recursos naturais; é aquele que conserva e renova a sua capacidade de criar comunidade.

Existe, simultaneamente, uma oportunidade. Num contexto de alterações climáticas, transição energética, transformação dos sistemas alimentares e procura crescente de qualidade ambiental, os territórios rurais deixam de poder ser vistos simplesmente como periferias das cidades. São espaços onde se encontram muitos dos recursos estratégicos das próximas décadas: água, solo, biodiversidade, floresta, produção alimentar, energia renovável e capacidade de armazenamento de carbono. Mas seria um erro transformar esta riqueza numa nova relação extrativa, em que os territórios fornecem serviços essenciais às áreas metropolitanas sem que o valor criado permaneça localmente.

Reinventar estes territórios significa, portanto, transformar os seus ativos naturais em capacidade económica, social e institucional, criando valor acrescentado local e novas oportunidades para quem aí vive ou queira regressar. E exige reconhecer que soluções desenhadas a partir de modelos excessivamente centralizados dificilmente responderão à enorme diversidade destes lugares. A questão não é simplesmente deixar a natureza ocupar o espaço abandonado, nem tentar reproduzir em pequena escala o modelo urbano; é construir um modelo diferente de modernidade territorial, menos dependente da concentração, mas igualmente capaz de oferecer futuro. 

Um território pode conservar floresta, biodiversidade ou paisagens extraordinárias e, ainda assim, tornar-se progressivamente mais vulnerável se perder pessoas, confiança, redes locais e capacidade de ação coletiva. Nesse sentido, a infraestrutura social pode ser tão determinante para a resiliência de um território como a sua infraestrutura física ou ecológica.

Um território começa a desaparecer muito antes de ficar sem pessoas: desaparece quando deixa de ser possível imaginar nele um futuro.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Johan Agebjörn - Nightbows (feat. R. Missing)


A canção "Nightbows" é uma colaboração entre o produtor sueco Johan Agebjörn (famoso por seu trabalho no duo Sally Shapiro e por influências que vão do Italo disco ao ambient) e o duo norte-americano de synthpop e darkwave R. Missing, baseado em Nova Iorque e liderado pela vocalista Sharon Shy. Do ponto de vista estilístico, a faixa se consolida na interseção entre o Synthwave, a Darkwave e o Dream Pop, fundindo as texturas eletrônicas cintilantes e melancólicas de Agebjörn com os vocais etéreos, frios e soturnos característicos do R. Missing.

O significado da música gravita em torno do próprio conceito que dá título à obra: os nightbows ou moonbows, que são raros arco-íris noturnos formados pela refração da luz da lua. Conceitualmente, a composição explora a ideia de encontrar uma beleza fugidia, rara e quase invisível no ápice da escuridão. As letras abordam o isolamento, a transitoriedade dos sentimentos e a busca por lampejos de significado quando o mundo diurno está adormecido, retratando o estado mental de quem se sente desfasado da realidade comum.

O videoclipe oficial reforça essa atmosfera através de uma estética cinematográfica, lo-fi e minimalista. Utilizando tons escuros, luzes néon difusas, névoa e sombras de cenários urbanos e desérticos, o vídeo simboliza a solidão contemporânea e o abismo entre o espaço físico e a psique dos personagens. A narrativa visual não busca contar uma história linear, mas sim evocar um estado de transe que reflete a caminhada de uma alma errante pela penumbra à procura de algo inacessível.

Em termos de influências literárias e filosóficas, a faixa e a identidade dos artistas dialogam profundamente com o Existencialismo de filósofos como Albert Camus e Jean-Paul Sartre, expressando a sensação de absurdo, o vazio interior e a alienação do indivíduo. Há também forte inspiração no Romanticismo Sombrio e no Decadentismo, lembrando a Poesia Noturna de Charles Baudelaire ou Edgar Allan Poe, onde a melancolia e o lado sombrio da existência são elevados a uma categoria estética superior. Por fim, nota-se uma dimensão fenomenológica inspirada por pensadores como Gaston Bachelard, em que a noite deixa de ser apenas a ausência de luz e passa a ser um espaço poético para a imaginação e a introspecção profunda.

Peter Thiel: o homem por trás da Palantir, da cidade privada em Honduras e da nova experiência libertária na Argentina



O bilionário que acredita que a democracia pode ser incompatível com a liberdade está ligado a uma empresa que trabalha com governos e forças militares, financia experiências de “cidades privadas”, reúne algumas das pessoas mais poderosas do mundo numa organização reservada e agora está a viver na Argentina de Javier Milei. Pelo caminho, começou também a dar conferências privadas sobre o Anticristo.

Peter Thiel é uma daquelas figuras que parecem ter sido retiradas de um romance de ficção científica.

É bilionário, cofundou o PayPal e a Palantir, foi um dos primeiros grandes investidores do Facebook, financiou políticos norte-americanos como Donald Trump e J. D. Vance, apoia experiências de novos modelos de governação e é uma das figuras mais influentes do chamado tecno-libertarianismo.

Mas, nos últimos dois anos, Thiel tornou-se conhecido por algo ainda mais peculiar.

Começou a dedicar uma série de conferências privadas ao Anticristo, defendendo uma visão apocalíptica na qual uma tentativa de resolver grandes problemas globais – como alterações climáticas, inteligência artificial ou guerra nuclear – poderia acabar por conduzir a um governo mundial totalitário.

Em 2026, levou essas conferências para Roma, a poucos quilómetros do Vaticano.

Entretanto, uma fuga de informação revelou pela primeira vez uma visão muito mais detalhada do funcionamento de Dialog, uma organização privada que Thiel ajudou a fundar em 2006 e que durante cerca de duas décadas manteve os seus membros e encontros longe do escrutínio público.

E, enquanto tudo isto acontecia, Thiel instalou temporariamente a família na Argentina de Javier Milei.

Não se trata de acontecimentos isolados.

Existe uma linha de pensamento que atravessa todos eles: a desconfiança em relação às instituições democráticas tradicionais, a defesa da inovação tecnológica sem demasiadas restrições, a concentração de poder em indivíduos altamente capazes e a procura de novos modelos de organização da sociedade.

Quem é Peter Thiel?
Nascido em Frankfurt, na Alemanha, em 1967 e criado posteriormente nos Estados Unidos, Thiel estudou Filosofia e Direito em Stanford.

A sua carreira começou no mundo financeiro e jurídico, mas ganhou uma dimensão completamente diferente quando cofundou, em 1998, a PayPal com um grupo de empreendedores que viria a ficar conhecido como a “PayPal Mafia”.

Depois da venda da empresa ao eBay, em 2002, Thiel começou a investir em tecnologia.

Um dos seus investimentos mais famosos foi o Facebook: em 2004, tornou-se o primeiro grande investidor externo da empresa, colocando cerca de 500 mil dólares na então pequena rede social.

O investimento acabaria por valer milhares de milhões.

Mas seria outra empresa que definiria a sua influência política e tecnológica.

A infância em África
Thiel nasceu na Alemanha, mas a sua família mudou-se para África quando ele ainda era criança.

Durante alguns anos viveu na África do Sul e no então Sudoeste Africano, território administrado pela África do Sul que viria a tornar-se a Namíbia.

Em Swakopmund, cidade costeira de forte herança alemã, Thiel frequentou uma escola de língua alemã enquanto o seu pai trabalhava numa mina de urânio em Rössing. Aos dez anos, deixou África e mudou-se com a família para os Estados Unidos.

A época e o lugar são importantes.

Thiel cresceu numa sociedade organizada pelo apartheid, num sistema em que a população branca ocupava uma posição privilegiada e a população negra era submetida a uma complexa estrutura de segregação racial e desigualdade.

Swakopmund tinha ainda uma característica particularmente invulgar: décadas depois da derrota da Alemanha nazi, a cidade conservava uma forte presença da cultura alemã e, segundo relatos recolhidos pelo Guardian, existiam naquele período manifestações abertas de nostalgia nazi.

O contexto familiar também estava ligado à indústria extractiva.

O pai de Thiel trabalhava numa mina de urânio, enquanto a população negra empregada nas minas vivia em condições muito diferentes das dos gestores brancos. O Guardian descreve uma estrutura em que os trabalhadores negros recebiam salários baixos e viviam em condições precárias, enquanto os gestores brancos beneficiavam de um estilo de vida muito mais confortável.

África como origem do seu libertarianismo?
Não é possível dizer simplesmente que o apartheid “criou” o pensamento político de Peter Thiel.

Mas existe uma ligação que o próprio Thiel estabeleceu retrospectivamente.

Ele descreveu a escola que frequentou em Swakopmund como extremamente rígida e disse que essa experiência lhe criou uma forte aversão à regimentação e à conformidade, algo que posteriormente contribuiu para a sua aproximação ao libertarianismo.

Essa interpretação é particularmente interessante porque a oposição à conformidade se tornou uma característica central da sua personalidade intelectual.

Na universidade, Thiel viria a construir uma reputação de pensador contrarian – alguém que procura deliberadamente ideias que contradigam o consenso.

Uma biografia de Thiel publicada em 2021, The Contrarian, alegou que, quando era estudante em Stanford, ele teria descrito o apartheid como “economicamente sólido”. Thiel negou ter apoiado o apartheid. O Guardian apresenta esta alegação como parte de uma controvérsia sobre as suas posições durante a juventude.

O que se sabe é que Thiel cresceu dentro de uma sociedade profundamente desigual, beneficiando da posição privilegiada da população branca, e que essa experiência marcou a sua relação com autoridade, conformidade e liberdade individual.

A coincidência com Elon Musk
Thiel não é o único membro da chamada “PayPal Mafia” com uma infância ligada à África Austral.

Elon Musk cresceu na África do Sul e David Sacks nasceu em Cape Town. Roelof Botha, outro antigo executivo do PayPal, é neto de Pik Botha, ministro dos Negócios Estrangeiros do regime do apartheid.

O paralelismo chamou a atenção de jornalistas e historiadores precisamente porque alguns dos homens que viriam a adquirir enorme influência na tecnologia e na política norte-americanas foram formados, durante a infância ou juventude, dentro ou próximo de uma sociedade marcada por desigualdade extrema, segregação e uma profunda desconfiança em relação ao Estado e às instituições.
Palantir

Em 2003, Thiel, Alex Karp e outros associados criaram a Palantir Technologies.

A empresa desenvolveu software capaz de integrar e analisar enormes quantidades de dados provenientes de diferentes fontes.

O princípio é relativamente simples de explicar. Imagine milhares de bases de dados que normalmente não comunicam entre si: imigração, polícia, informação financeira, viagens, comunicações, empresas, mapas, redes sociais ou registos governamentais.

A tecnologia da Palantir permite juntar essas informações e encontrar relações, padrões e ligações que seriam difíceis de identificar manualmente.

É uma ferramenta extremamente poderosa. E é precisamente isso que está no centro da controvérsia.

A Palantir trabalha com governos, forças armadas, serviços de inteligência, empresas e sistemas de saúde. Entre os seus clientes estão instituições norte-americanas e europeias.

A empresa tornou-se particularmente importante nos setores da defesa e segurança.

O nome, aliás, vem de O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien: os palantíri eram pedras que permitiam ver acontecimentos e pessoas a grande distância.

Peter Thiel não é o CEO da Palantir
Apesar de Peter Thiel ser frequentemente apresentado como a figura por trás da Palantir, não é ele quem dirige a empresa no dia a dia. Thiel é cofundador e chairman. O CEO é Alex Karp.

E compreender Karp é importante porque a Palantir não é apenas uma empresa criada por Thiel que entretanto ficou entregue a outra pessoa. Karp tem uma visão própria e bastante explícita sobre a relação entre tecnologia, poder e segurança nacional.

Em 2026, essa visão tornou-se particularmente evidente com a publicação de The Technological Republic, o livro de Karp.

O livro começa com uma frase reveladora: “Silicon Valley perdeu-se.”

Karp argumenta que a indústria tecnológica norte-americana se afastou das necessidades estratégicas dos Estados Unidos e que Silicon Valley deveria voltar a trabalhar mais directamente com o Estado, sobretudo em áreas como defesa, inteligência e segurança.

A própria Palantir publicou posteriormente um resumo do livro organizado em 22 teses, num texto que assumia claramente um tom político e geopolítico.

E uma das ideias centrais é particularmente significativa: a inteligência artificial está a transformar a própria natureza da guerra.

Num manifesto publicado pela empresa, a Palantir defende que está a começar uma nova era de dissuasão militar baseada em inteligência artificial.

A pergunta, segundo o documento, já não é se serão construídas armas de IA. É quem as construirá e com que finalidade.

Karp defende, assim, uma relação muito mais próxima entre Silicon Valley e o aparelho de defesa norte-americano.

A Palantir chega a afirmar que a indústria tecnológica tem uma “dívida moral” para com o país que tornou possível a sua ascensão e que Silicon Valley deveria ir além das aplicações para consumidores e contribuir directamente para o crescimento económico e a segurança nacional.

Esta posição ajuda a explicar por que razão Karp é tão vocal na defesa da utilização de inteligência artificial em operações militares.

Tecnologia ou infraestrutura de poder?
A Palantir desenvolve sistemas capazes de juntar enormes quantidades de informação provenientes de fontes diferentes – imagens de câmaras, redes sociais, dados públicos, registos policiais, drones e outras bases de dados – e transforma-as em informação utilizável para investigação ou tomada de decisões.

Para os defensores da empresa, isto permite que governos e forças militares tomem decisões mais rápidas e informadas.

Para os críticos, significa outra coisa: a criação de uma infraestrutura tecnológica que pode tornar a vigilância, a identificação de pessoas e a utilização militar de dados muito mais poderosas.

O debate tornou-se ainda mais intenso porque os clientes da Palantir incluem precisamente algumas das instituições com maior capacidade coerciva do Estado. Nos Estados Unidos, a empresa trabalha com o Pentágono, a CIA e o ICE. Na Europa, os seus sistemas também são utilizados por forças policiais e outras autoridades.

E existe uma diferença fundamental entre dizer que uma empresa fornece uma ferramenta e perguntar o que essa ferramenta permite fazer quando colocada nas mãos de um Estado.

A Palantir responde que o software não toma sozinho decisões políticas ou militares. Mas essa defesa não elimina a questão mais ampla: quanto mais poderosa for a ferramenta, mais importante se torna saber quem decide como utilizá-la.

É por isso que a posição de Karp é tão relevante para compreender a Palantir.

Ele não apresenta a empresa como uma simples fornecedora neutra de software. Apresenta-a como parte de uma transformação mais profunda na relação entre tecnologia, Estado e poder militar. E isso aproxima, de forma bastante evidente, a Palantir do universo político e intelectual de Peter Thiel.
Da inteligência artificial à vigilância

A controvérsia tornou-se particularmente forte na Europa. No Reino Unido, a Palantir tem um contrato de cerca de 330 milhões de libras e sete anos com o NHS, o sistema público de saúde britânico, para desenvolver a Federated Data Platform. A plataforma pretende ligar diferentes conjuntos de dados do NHS e melhorar a gestão dos serviços.

Para os defensores, é precisamente o tipo de tecnologia que pode tornar um sistema gigantesco mais eficiente.

Para os críticos, a questão é outra: deverá uma empresa tecnológica norte-americana, com fortes ligações ao setor militar e de inteligência dos EUA, ocupar uma posição tão importante na infraestrutura digital de um serviço público europeu?

Em 2026, a pressão aumentou. Parlamentares britânicos passaram a defender que o contrato deveria ser abandonado, enquanto o Governo britânico iniciou uma revisão do acordo e pondera utilizar uma cláusula que permitiria terminar o contrato em 2027.

O problema não é apenas a privacidade. É também a soberania tecnológica.

Se um país depende de uma empresa estrangeira para uma parte crítica da sua infraestrutura digital, quem controla realmente essa infraestrutura? Essa pergunta tornou-se particularmente importante na Europa desde o regresso da guerra à Europa e o aumento das tensões entre os EUA e os seus aliados.

A Europa procura alternativas à Palantir
A Europa começou a procurar alternativas próprias. Em França, a agência de segurança interna DGSI escolheu a empresa francesa ChapsVision para substituir progressivamente a Palantir. A decisão foi apresentada pelo Governo francês como parte de uma estratégia de soberania tecnológica.

A ChapsVision é uma empresa relativamente pequena comparada com a Palantir, mas está a tentar ocupar precisamente esse espaço: integração de dados, inteligência artificial, investigação e segurança.

A Palantir tinha sido utilizada pelos serviços franceses desde os atentados terroristas de 2015. Agora, França quer demonstrar que pode construir uma alternativa europeia. E não está sozinha.

A Alemanha, os Países Baixos, a Suíça, a Dinamarca e outros países têm debatido a dependência de tecnologias norte-americanas. O secretário de Estado neerlandês da Defesa afirmou em 2026 que deveria existir uma alternativa plenamente funcional à Palantir num prazo de dois anos.

A própria discussão já criou um novo mercado: “o Palantir europeu”. ChapsVision é provavelmente o candidato mais evidente neste momento, embora empresas como Quantexa, Adarga, DataWalk, Ripjar e Siren também sejam apontadas como alternativas em diferentes áreas.

Thiel quer muito mais do que tecnologia
Para perceber Peter Thiel é preciso sair do mundo empresarial. Thiel tem uma visão política e filosófica muito própria.

É associado ao libertarianismo tecnológico (“tecno-libertarianismo”), embora as suas ideias sejam mais radicais do que o libertarianismo económico tradicional.

Uma das suas frases mais conhecidas surgiu num ensaio de 2009: “I no longer believe that freedom and democracy are compatible.”

Thiel argumenta que as democracias tendem a criar maiorias políticas que podem limitar a liberdade individual, enquanto o capitalismo e a inovação tecnológica podem ser travados por regulamentação.

Isto é relevante para se compreender o fascínio de Thiel por experiências que procuram criar espaços onde as regras sejam diferentes. É aqui que se entra em Próspera.

Próspera: a “cidade tecnológica” de Peter Thiel

Imagine poder construir uma cidade praticamente do zero. Agora imagine que, em vez de estar sujeita às mesmas regras fiscais, regulatórias e administrativas do país onde se encontra, essa cidade dispõe de uma enorme autonomia. Essa é, em termos simplificados, a ideia por trás de Próspera, na ilha de Roatán, nas Honduras.

Próspera é uma ZEDE – Zona de Emprego e Desenvolvimento Económico. O projeto nasceu no contexto de uma legislação hondurenha que permitia a criação de zonas com elevado grau de autonomia. A ideia era criar uma espécie de “startup city”: um laboratório onde novas formas de governação, tributação, regulação e tecnologia pudessem ser testadas.

Próspera possui um sistema jurídico e regulatório próprio, utiliza mecanismos privados de arbitragem e foi concebida para atrair empreendedores e investidores internacionais.

E aqui entra o dinheiro do Silicon Valley. Próspera recebeu financiamento de investidores ligados a figuras como Peter Thiel, Sam Altman e Marc Andreessen. A própria empresa responsável pelo projeto afirma ter captado mais de 120 milhões de dólares junto de quase 100 investidores; outras reportagens apontam para valores próximos dos 200 milhões.

Não é correto, contudo, dizer que Peter Thiel “é dono de Próspera”. A estrutura é mais complexa e a composição exata dos investidores privados não é totalmente pública. O que é indiscutível é que Thiel está ligado ao ecossistema financeiro e ideológico que apoiou o projeto. [Fonte]