quinta-feira, 14 de maio de 2026

O Crepúsculo dos Gigantes de Vidro

"O problema da humanidade é que temos emoções do paleolítico, instituições medievais e tecnologia divina." — E.O. Wilson
Retomando as recentes reflexões de Helena Freitas, depois de ler este livro e começando com a citação supra, cumpre-me fazer uma reflexão sobre esta era. Aqui vai.

O Crepúsculo dos Gigantes de Vidro
Se olharmos para o espelho da História, a nossa era assemelha-se a uma estranha forma de barbárie sofisticada. Não somos bárbaros no sentido clássico — aqueles que derrubavam portões de ferro —, mas sim bárbaros de luva branca e ecrã tátil, capazes de uma violência sistémica que a tecnologia apenas torna mais eficiente. Esta nova barbárie manifesta-se, acima de tudo, no desprezo pelo mundo vivo e na morte da empatia. Tratamos o planeta como um armazém de recursos infinitos e as pessoas como perfis a abater. Em Portugal, a ascensão de forças como o Chega, com canal televiso próprio no Youtube e o esgoto de propaganda de páginas como o "Sentinela Lusa", ou plataformas de maior alcance como o "Direita TV", perfis da rede X e influencers, assim como diversos grupos de inspiração eugenista e ultranacionalista no Telegram, são o sintoma local de um mal maior: a falência da comunicação. Nestes feudos digitais, a xenofobia e a segregação são vendidas como soluções para um "novo Portugal", enquanto, na verdade, apenas nos devolvem ao tribalismo mais obscuro e especulativo.

Esta rejeição da linguagem comum de proteção à vida ganha contornos de barbárie institucional quando observamos o abandono formal de tratados internacionais. Não se trata apenas de burocracia, mas de um desinvestimento na sobrevivência da espécie. O caso do Acordo de Paris é o mais emblemático deste recuo, com os Estados Unidos a formalizarem a sua retirada em 2026, colocando a maior economia do mundo fora do esforço global para limitar o aquecimento a 1,5°C, enquanto a Arábia Saudita, embora formalmente presente, é acusada de obstruir metas que impliquem o abandono dos combustíveis fósseis. Este padrão de excecionalismo é antigo e profundo: os EUA nunca ratificaram o Protocolo de Quioto nem a Convenção da Basileia sobre Resíduos Perigosos - continuando a ser um dos maiores exportadores de lixo plástico sem controlo estrito -, e permanecem como o único país do mundo que não ratificou a Convenção sobre a Diversidade Biológica.

Vemos, assim, o colapso de uma ordem que se pretendia racional. Quando potências com o maior poder biotecnológico e militar do planeta se recusam a vincular-se a regras de proteção de ecossistemas ou do Mar Alto, abrem caminho para um cenário de eugenia e exploração desenfreada. Quando a ciência é perseguida por conveniência política e os cidadãos são sacrificados a sangue-frio em nome de nacionalismos, o "Gigante de Vidro" da civilização começa a estilhaçar-se. Somos a primeira civilização com ferramentas de deuses e impulsos de paleolítico, onde o belicismo recorrente substitui a diplomacia. No final, esta barbárie não se faz pelo desconhecimento, mas pelo desprezo deliberado pela vida e pela palavra, deixando-nos isolados enquanto observamos a nossa própria humanidade estilhaçar-se através de um retângulo de vidro.

Referências Bibliográficas

1. ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. (1944). Dialética do Esclarecimento.
Foco: A análise da "barbárie sofisticada" e como a racionalidade técnica pode levar ao retrocesso civilizacional.

2. ECO, Umberto. (2018). Contra o Fascismo.
Foco: A identificação do "Ur-Fascismo" e as raízes do nacionalismo e da intolerância que alimentam os "feudos digitais".

3. FREITAS, Helena. (2020). A Vida na Terra: Ecologia e Conservação.
Foco: A urgência da proteção da biodiversidade e a crítica ao desinvestimento institucional na sobrevivência da espécie.

4. HAN, Byung-Chul. (2022). Infocracia: Digitalização e a Crise da Democracia.
Foco: O impacto do "retângulo de vidro" na destruição da empatia e na fragmentação da comunicação pública.

5. HARARI, Yuval Noah. (2018). 21 Lições para o Século XXI.
Foco: O colapso das narrativas globais e os perigos da fusão entre biotecnologia e algoritmos (eugenia e controlo).

6. LATOUR, Bruno. (2017). Onde Aterrar? Como se orientar politicamente no Antropoceno.
Foco: O abandono dos tratados climáticos pelas elites e a negação da realidade física do planeta.

7. MALM, Andreas. (2016). Fossil Capital: The Rise of Steam Power and the Roots of Global Warming.
Foco: A resistência de potências como a Arábia Saudita em abandonar os combustíveis fósseis por interesses económicos sistémicos.

8. SNYDER, Timothy. (2017). Sobre a Tirania: Vinte lições do século XX para o presente.
Foco: O aviso sobre a fragilidade das instituições modernas perante o avanço do autoritarismo e da propaganda.

8. WILSON, Edward O. (2012). A Conquista Social da Terra.
Foco: A origem do conflito entre os nossos impulsos paleolíticos (tribalismo) e a necessidade de cooperação global.

Catfish: descubra o que é o golpe com perfis digitais

Por mais que as camadas de proteção, dicas de precaução e os sistemas de segurança nos ambientes online estejam disponíveis em maior número, os novos golpes digitais continuam sendo criados, ou adaptados, por pessoas mal-intencionadas e que sabem como utilizar a engenharia social para atingir o elo mais fraco: o ser humano. O chamado Catfish é um dos tipos de armadilhas que estão sendo aplicadas atualmente.

Talvez você já tenha visto casos de pessoas dizendo que alguém está usando a sua foto para entrar em contato, principalmente por WhatsApp ou via uma conta falsa nas redes sociais. Ao se passarem por outra pessoa, como alguém conhecido, os criminosos fazem novas vítimas com o objetivo de capturar dados, receber dinheiro, até instalar vírus no celular de quem foi pego neste golpe.

Esse é o cenário em que o Catfish acontece. Quer compreender mais sobre o assunto? Então, continue a leitura e veja quais são as dicas de segurança que os especialistas do Santander indicam para você.

O que é o golpe Catfish?
Apesar de ter um nome em inglês, o golpe Catfish é aplicado em diferentes regiões do Brasil e do mundo, já que se refere a uma armadilha digital capaz de alcançar as vítimas de onde elas estiverem, e que os criminosos conseguem operar igualmente de qualquer lugar.

Ele ocorre quando uma pessoa mal-intencionada cria uma identidade falsa nas redes sociais para enganar e atrair pessoas para o golpe. Geralmente, o criminoso por trás do perfil falso busca estabelecer um relacionamento online com a vítima, muitas vezes românticos e fingindo ser alguém que não é.

Para você saber: o termo Catfish remete a “peixe-gato”, como uma espécie de tradução para essa prática em que há uma pessoa mal-intencionada fazendo uma pessoa comum como “presa” e vítima.

Em quais contextos o golpe Catfish acontece?
Os ambientes online são propícios a serem cenários de golpes porque em determinadas situações é difícil distinguir o que é real daquilo que não é.

Por exemplo, ao trocar mensagens em redes sociais, você poderá estar conversando com um perfil falso sem saber, basta que esteja usando a imagem de alguém que você conhece ou algo semelhante a isso.

Dessa forma, o golpe Catfish ocorre em contextos como os exemplos a seguir:
- Está interessado de forma romântica e passa a manter uma conversa diária por dias seguidos, perguntando assuntos pessoais, relatando o dia a dia e demais pontos de uma troca de mensagens comum;
- Encontrou o número em algum grupo em comum e mantém o bate-papo como se quisesse se tornar um amigo virtual da vítima, mostrando um perfil que utiliza fotos de outras pessoas para passar confiança;
- Entram em contato com familiares e amigos, e dizem ser um novo número de contato (o telefone de trabalho, por exemplo). Com a vítima aceitando tal mensagem como verdadeira e dando abertura, os criminosos alegam situações em que precisam de dinheiro ou de algum dado sigiloso;
- Afirmam que querem muito encontrar você pessoalmente, mas sempre apresentam algum motivo, como um imprevisto, para evitar que isso aconteça.

Saiba como se proteger do golpe Catfish
Quer redobrar os seus cuidados para se proteger online? Então, confira quais são as medidas de segurança para não ser vítima do golpe Catfish.

Para começar, nunca transfira dinheiro nem faça pagamentos para pessoas, por mais que esteja com a foto de algum conhecido seu, sem verificar antes se são elas mesmas que estão solicitando essa ajuda financeira. Ou seja, converse pessoalmente ou por chamada de vídeo com o seu contato, e confirme a mensagem.

Caso tenha conhecido alguém pela internet, como em aplicativos de relacionamento, busque maneiras de confirmar que essa pessoa existe mesmo. Por exemplo, investigue as fotos nas redes sociais, publicações com família e amigos, faça chamadas de vídeo e faça uma busca do nome completo em sites de pesquisa.

Sempre que possível marque um encontro presencial, em locais públicos e seguros, e leve alguém de confiança para acompanhá-lo(a), e desconfie de determinados assuntos, como os que envolvem dinheiro, e demais apelos emocionais.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

LADANIVA - Here's to you Ararat


Amor por Arménia, símbolo de resistência e de um país, povo e cultura que sofreu imenso e dele tenho imensa admiração!
O vídeo é uma homenagem à montanha, um símbolo poderoso para o povo arménio. A letra (cantada em arménio) expressa um profundo amor e admiração pelo Ararat, chamando-lhe "Rei dos Arménios" e "alicerce das nossas almas".
Neste vídeo, destaco os melismas de Jaklin Baghdasaryan. São, aliás, a grande "assinatura" vocal dela e o que torna o som dos LADANIVA tão autêntico.

Aqui estão alguns pontos sobre a técnica dela:
  • Ornamentação arménia: Jaklin utiliza muitos elementos do canto tradicional arménio e do Médio Oriente. Esses melismas não são apenas "enfeites"; eles carregam a carga emocional da música. Ela consegue passar por várias notas numa única sílaba com uma precisão cirúrgica.
  • Agilidade e fluidez: o que impressiona na voz dela é a rapidez. Ela faz as transições entre notas (os chamados runs) de forma muito fluida, quase como se fosse um instrumento de sopro (como o duduk ou a flauta).
  • Controlo de sopro: para fazer melismas tão longos e detalhados sem perder a afinação, é preciso um controlo de diafragma muito forte, algo que ela claramente refinou durante a sua formação académica no jazz e na música do mundo.
  • Microtonalidade: em "Here's to you Ararat" nota-se que Jaklin  brinca com intervalos que nem sempre existem na escala ocidental padrão, o que dá aquele toque exótico e hipnotizante.
LADANIVA é um grupo franco-arménio sediado em Lille, França.
O nome da banda, "Ladaniva", é uma referência ao famoso carro todo-o-terreno russo Lada Niva, que os pais de ambos os músicos possuíam.
Jaklin Baghdasaryan: nasceu na Arménia (Yeghegnadzor) e cresceu na Bielorrússia antes de se mudar para França em 2014. Ela estudou no Conservatório de Lille, o que explica o seu excelente controlo técnico
Louis Thomas: o seu parceiro musical é francês.
Louis Thomas toca guitarra [00:46].
Os outros músicos são mostrados a tocar clarinete [00:27], um davul (tambor tradicional) [00:38] e um saz (instrumento de corda) [00:49].
Eu sabia que o Monte Ararat é visível da Arménia, mas agora faz parte da Turquia, e imagino como o povo arménio se deve sentir ao ver a sua montanha histórica apenas de longe.

Estudo científico revela que as cidades europeias podem produzir quase 30% das hortícolas que necessitam


O estudo recentemente publicado na revista Sustainable Cities and Society analisou 840 cidades europeias e concluiu que os espaços urbanos poderão produzir milhões de toneladas de hortícolas por ano.

Coberturas planas, quintais, terrenos abandonados, faixas verdes pouco utilizadas e outros espaços urbanos poderiam contribuir para alimentar cerca de 190 milhões de pessoas, chegando em alguns cenários a cobrir perto de 30% das necessidades de hortícolas frescos dessas cidades.

O mais interessante é que os investigadores não basearam as suas conclusões em tecnologias futuristas, agricultura vertical muito dispendiosa ou sistemas altamente industrializados.

Pelo contrário, o estudo focou-se sobretudo em soluções relativamente simples, acessíveis e de baixa tecnologia, baseadas em hortas no solo ao ar livre, em telhados planos e em terrenos baldios, muito próximas daquilo que muitos agricultores urbanos já fazem há décadas.

Na verdade, as cidades sempre produziram alimento. Durante séculos, Lisboa, Porto, Coimbra, Braga ou Évora viveram rodeadas de hortas, vinhas, olivais, pomares e pequenos campos agrícolas integrados no tecido urbano e periurbano.

O século XX alterou profundamente essa relação. Impermeabilizámos solos férteis, enterrámos linhas de água, destruímos quintas históricas e afastámos progressivamente a produção alimentar dos centros urbanos. Hoje começamos finalmente a compreender a fragilidade estrutural deste modelo.

As alterações climáticas, os eventos extremos, as crises energéticas e a inflação alimentar estão a obrigar cidades e governos a repensar a segurança alimentar. A agricultura urbana deixa assim de ser apenas uma ferramenta educativa ou recreativa. Passa a ser uma estratégia de resiliência territorial.

Depois de mais de vinte anos ligado à agricultura regenerativa urbana, continuo profundamente convencido de que uma cidade capaz de produzir parte do que come é uma cidade mais saudável, mais justa e mais resiliente.

Este estudo vem apenas confirmar aquilo que muitos agricultores urbanos conhecem há décadas. Por baixo do betão continua a existir território fértil, e dentro das cidades continua a existir uma profunda necessidade humana de cultivar alimento.

Já em 2013, um relatório da UNCTAD afirmava que o modelo de agricultura industrial era insustentável e que os modelos agroecológicos locais/ regionais diminuiriam a desigualdade entre Norte Global e Sul Global, entregando às populações de países ditos menos desenvolvidos ferramentas e educação para poderem obter os seus próprios alimentos.

Mais info:

terça-feira, 12 de maio de 2026

O Adeus à Árvore da Vida: Ciência revela perda de 300 mil milhões de anos de história botânica


As plantas são a base da maior parte da vida na Terra, mas as Alterações Climáticas e a Crise Ecológica estão a remodelar rapidamente os seus habitats e a aumentar o risco de extinção de formas inesperadas.

Dois estudos recentes, publicados na revista Science no dia 7 de maio de 2026, utilizam modelação evolutiva de larga escala e projeções climáticas de alta resolução para preencher lacunas críticas no nosso conhecimento sobre como a flora global reagirá ao aquecimento do planeta.

O primeiro estudo, de Wang et al., revela um paradoxo preocupante: embora as migrações induzidas pelo clima possam aumentar a riqueza de espécies a nível local (em cerca de 28% da superfície terrestre), este "baralhamento" geográfico não reduz o risco global de extinção. A investigação estima que entre 7% e 16% das mais de 67 mil espécies analisadas correm alto risco até 2100. O dado mais alarmante é que cerca de 80% destas extinções serão causadas pelo desaparecimento absoluto de habitats adequados, e não apenas pela incapacidade das plantas em migrarem. Ou seja, mesmo que as espécies consigam acompanhar a velocidade das alterações climáticas, muitas deixarão de ter um local viável para viver.

Complementando esta visão, o estudo de Forest et al. foca-se na integridade evolutiva, analisando a "árvore da vida" de mais de 335 mil espécies de plantas com flor. Os investigadores concluíram que aproximadamente 21,2% da história evolutiva destas plantas está ameaçada — o que equivale à perda potencial de 307 mil milhões de anos de progressos biológicos únicos. O estudo identifica quase 10 mil espécies prioritárias (conhecidas como espécies EDGE), que são evolutivamente distintas e estão globalmente em perigo. A perda destas linhagens seria catastrófica, pois representam "ramos" únicos da árvore genética que não têm parentes próximos, eliminando potenciais recursos medicinais e características de resiliência que levaram milhões de anos a desenvolver.

Em conjunto, estas investigações demonstram que as estratégias de conservação atuais são insuficientes. Os autores defendem uma mudança de paradigma: não basta proteger áreas aleatórias; é urgente focar os esforços na identificação de refúgios climáticos estáveis e na preservação de linhagens evolutivas insubstituíveis, recorrendo também à expansão de bancos de sementes e, em certos casos, à migração assistida para evitar uma simplificação irreversível da biodiversidade terrestre.

Já em 2014 foi publicado Natural History is Dying, and We Are All the Losers, na revista Scientific American

Relembrar a obra "À Espera dos Bárbaros" de John Maxwell Coetzee



A obra "À Espera dos Bárbaros", publicada em 1980 por J.M. Coetzee, constitui-se como uma densa alegoria sobre a natureza do poder, a erosão da moralidade e a construção artificial da inimizade. A narrativa centra-se na figura do Magistrado, um administrador colonial que vive numa pacata cidade fronteiriça de um Império sem nome, cuja rotina é estilhaçada pela chegada do Coronel Joll. Este oficial do "Terceiro Gabinete" encarna a face mais sombria da autoridade, instaurando um estado de exceção sob o pretexto de uma iminente invasão bárbara. Através da tortura e da paranoia, Joll transforma a convivência pacífica num cenário de terror, forçando o Magistrado a confrontar a sua própria cumplicidade no sistema que agora o horroriza.

Intelectualmente, o romance é um palimpsesto de referências que elevam a trama para além da crítica política imediata. A génese do título e do tema central reside no poema do grego Constantino Cavafy, que explora a ideia de que o Império necessita da figura do "bárbaro" para justificar a sua própria existência e coesão interna. Esta necessidade política de um inimigo externo é o motor que permite ao Estado exercer uma violência sem limites, um conceito que encontra eco nas teorias de Hannah Arendt sobre a "banalidade do mal". O Coronel Joll não é movido por um ódio pessoal, mas sim por uma eficiência burocrática e uma cegueira ética que Arendt identificou nos perpetradores dos maiores crimes do século XX.

A atmosfera de opressão e o absurdo da máquina estatal remetem invariavelmente para Franz Kafka. Tal como nas obras do autor checo, o Magistrado vê-se preso numa engrenagem que não consegue controlar nem compreender totalmente, onde a justiça é uma miragem e a punição precede muitas vezes o crime. Esta violência física, exercida sobre os corpos dos prisioneiros, estabelece um diálogo direto com as teses de Michel Foucault em Vigiar e Punir. Coetzee demonstra como o Império utiliza a tortura para inscrever o seu poder na carne, transformando o corpo humano num território de domínio absoluto onde a "verdade" é extraída através do sofrimento.

No centro da crise espiritual do protagonista está a sua relação com uma prisioneira bárbara, deixada cega e mutilada. Aqui, a narrativa mergulha na filosofia da alteridade de Emmanuel Levinas. O Magistrado tenta, através do cuidado e de uma obsessiva observação, compreender o sofrimento da rapariga, mas acaba por perceber que o "Outro" permanece radicalmente inacessível. A sua tentativa de redenção é, em si mesma, uma forma de apropriação, revelando que mesmo o desejo de bondade pode estar contaminado pela estrutura de poder colonial.

Escrito durante o auge do regime do Apartheid na África do Sul, o texto de Coetzee transcende o seu contexto histórico para se tornar uma meditação universal. Ao recusar localizações geográficas precisas, o autor sugere que a barbárie não habita fora das muralhas, nas planícies dos nómadas, mas sim no coração da civilização que se define pela exclusão e pela crueldade. O desfecho da obra, marcado por uma espera vazia e pela decadência do posto fronteiriço, sublinha a tese de que todos os impérios, ao alimentarem-se da destruição do outro, acabam por acelerar a sua própria e inevitável queda.

Novo relatório revela que escravidão moderna no Reino Unido atingiu níveis recorde

A escravatura no Reino Unido atingiu níveis recorde e a expectativa é que se agrave na próxima década, alertou a comissária independente do governo para o combate à escravatura.

Esse número aumentou mais de 50% nos últimos cinco anos e está a acontecer com pessoas cada vez mais jovens

De acordo com o número de denúncias encaminhadas para o mecanismo nacional de encaminhamento, que avalia as potenciais vítimas de escravatura e lhes oferece apoio, os números quase duplicaram nos últimos cinco anos, passando de 12.691 denúncias em 2021 para 23.411 em 2025, o número mais elevado alguma vez registado.

No seu relatório, publicado na terça-feira, Eleanor Lyons afirmou que este aumento não se deve apenas à melhor detecção da escravatura, mas também ao agravamento das condições no Reino Unido e em todo o mundo.

“A pobreza, a instabilidade global, os conflitos, a deslocação global de pessoas e a rutura das rotas migratórias seguras estão a criar um fluxo crescente de vulnerabilidades que os traficantes exploram rapidamente”, lê-se no relatório, Antecipando a Exploração: Uma Análise Baseada em Projeções Futuras. O relatório reuniu pesquisas compiladas por mais de 50 especialistas de diferentes áreas, incluindo segurança pública, governo, sociedade civil e organizações sem fins lucrativos, e é a primeira análise abrangente e prospetiva sobre como a escravatura moderna e o tráfico humano provavelmente evoluirão no Reino Unido na próxima década.

Lyons afirmou que, a menos que o Reino Unido tome medidas, a situação poderá agravar-se ainda mais com a utilização da inteligência artificial para ampliar e profissionalizar a exploração; o aumento do uso de trabalho digital em esquemas fraudulentos – como atrair pessoas para fraudes de investimento e romance; e a integração de criptomoedas em modelos de tráfico.

O relatório também expressou preocupação com o crescimento contínuo das plataformas da economia gig, o trabalho coercivo em áreas como a agricultura, a construção civil e a mineração, e o aumento da escravatura reprodutiva, como a recolha forçada de óvulos e a gestação de substituição.

Lyons instou os ministros a aumentar o financiamento das unidades policiais especializadas para que possam combater a exploração, processar mais empresas que exploram ou escravizam trabalhadores e lançar uma campanha nacional para ajudar o público a reconhecer e denunciar a exploração. Pediu ainda ao governo que melhore o atendimento às vítimas.

O relatório alertou que, sem medidas urgentes, as redes criminosas tornar-se-ão mais astutas, menos visíveis e mais difíceis de desmantelar. “A escravatura e as formas mais terríveis de exploração estão a tornar-se mais disseminadas neste país e a evoluir mais rapidamente do que conseguimos reagir”, disse Lyons.

“À medida que a exploração se torna mais complexa e oculta, impulsionada pela tecnologia e pela instabilidade global, irá espalhar-se ainda mais e tornar-se mais difícil de travar, a menos que ajamos agora”.

Um relatório de avaliação separado, também publicado na terça-feira pelo influente grupo de peritos em tráfico de seres humanos do Conselho da Europa, o GRETA, destacou um aumento acentuado do número de potenciais vítimas de tráfico.

Embora os especialistas tenham elogiado uma série de medidas tomadas pelas autoridades do Reino Unido nos últimos anos para combater o tráfico de seres humanos, como a de não responsabilizar as vítimas por actos criminosos que foram forçadas a cometer pelos seus traficantes, instaram o Reino Unido a adoptar uma série de outras medidas para alinhar plenamente as leis, políticas e práticas de combate ao tráfico de pessoas do país com a Convenção sobre a Acção contra o Tráfico de Seres Humanos.

O relatório destacou a necessidade de mais recursos, maior priorização e melhor coordenação entre as forças policiais e outras agências, bem como o reforço das investigações financeiras.

Acrescentou ainda que são necessárias mais salvaguardas para prevenir o tráfico de pessoas para exploração laboral, bem como o tráfico de pessoas de grupos vulneráveis ​​– incluindo crianças, migrantes, requerentes de asilo e pessoas sem-abrigo.

Um porta-voz do Ministério do Interior afirmou: “A escravatura moderna é um flagelo global que abusa e explora pessoas para obter lucro. Estamos empenhados em rever o sistema de combate à escravatura moderna para reduzir as oportunidades de abuso do sistema, garantindo, ao mesmo tempo, que temos as proteções adequadas para quem delas necessita.

Estamos a trabalhar com sobreviventes corajosos para fundamentar o desenvolvimento de políticas e melhorar o processo de identificação de vítimas. Também tomámos medidas imediatas para reduzir o atraso nos processos, garantindo que as vítimas obtêm decisões rápidas e o apoio necessário para reconstruir as suas vidas.”

Se você suspeita de algum caso de tráfico humano, é vital denunciar.
Portugal: Ligue 808 257 257 (Linha de Apoio à Vítima), contacte a PJ/PSP local ou ainda a AIMA 

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Investigação do New York Times revela campanha de influência estatal de Israel na Eurovisão


Israel impulsionou artificialmente a sua candidata à Eurovisão através de uma campanha de influência apoiada pelo Estado, alimentando especulações de que o seu segundo lugar no voto popular foi distorcido por intervenção governamental, revelou uma investigação do New York Times.

A campanha - que incluiu fundos públicos, pressão diplomática, anúncios online multilingues e apelos diretos para que os espetadores votassem repetidamente - expôs como Israel transformou o concurso de música mais visto do mundo numa arma de soft power, enquanto a sua imagem global colapsava devido ao genocídio em Gaza.

A investigação do Times, baseada em documentos internos da Eurovisão, dados de votação confidenciais e entrevistas com mais de 50 pessoas, concluiu que o governo do Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu gastou pelo menos 1 milhão de dólares em marketing relacionado com o festival. Parte do financiamento proveio do gabinete de hasbara de Netanyahu, amplamente entendido como o braço de propaganda de Israel no estrangeiro.

Só em 2024, os gastos do governo israelita em publicidade ligada à Eurovisão ultrapassaram os 800.000 dólares, a maioria proveniente do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Uma rubrica separada do gabinete de hasbara do primeiro-ministro terá alocado verbas especificamente para a “promoção do voto”.


As revelações levantam sérias questões sobre se os fortes resultados de Israel na Eurovisão refletiram um apoio público genuíno ou uma campanha governamental coordenada, concebida para fabricar uma aparência de popularidade na Europa, onde a opinião pública se virou drasticamente contra Israel devido ao genocídio em Gaza.

Supostamente, os governos não devem intervir na votação da Eurovisão, que é formalmente um concurso entre emissoras públicas e artistas. No entanto, o Times apurou que os esforços de Israel foram mais amplos e começaram anos antes do que se sabia. O governo israelita terá apoiado discretamente esforços promocionais em torno das suas participações desde, pelo menos, 2018, o ano em que Israel venceu o concurso.

O investimento aumentou acentuadamente após o início do genocídio em Gaza, quando cresceram os apelos em toda a Europa para que o país fosse excluído do certame. Segundo o jornal, as autoridades israelitas acreditavam que um desempenho forte demonstraria que Israel ainda era amado pelo público europeu, apesar dos protestos em massa, dos apelos ao boicote e das crescentes acusações de crimes de guerra.

O Padrão de Votação e a Reação Internacional
Em 2024, a representante de Israel, Eden Golan, ficou em segundo lugar no voto do público e liderou a votação em vários países onde o sentimento pró-palestiniano era forte. A comunicação social israelita celebrou o resultado como prova de que “o mundo, afinal, não está contra nós”.

O padrão repetiu-se em 2025, quando o representante de Israel, Yuval Raphael, terminou em segundo lugar na classificação geral e venceu o voto popular. Desta vez, o resultado gerou um escrutínio muito maior depois de a emissora finlandesa Yle ter revelado que o governo israelita comprou anúncios online em várias línguas, instando as pessoas a votarem em Israel até ao máximo de 20 vezes permitido.


O próprio Netanyahu publicou um gráfico nas redes sociais a encorajar o voto em Raphael (20 vezes). Grupos pró-Israel em toda a Europa circularam mensagens semelhantes, enquanto diplomatas e funcionários de embaixadas israelitas ajudaram a mobilizar o apoio da diáspora.

O diretor da Eurovisão, Martin Green, reconheceu que a campanha de Israel foi “desproporcionada” e “excessiva”, mas insistiu que esta não afetou o resultado. O Times, contudo, apurou que a União Europeia de Radiodifusão (EBU), que organiza o evento, não realizou uma investigação externa completa e manteve os dados detalhados da votação em segredo, inclusive perante as suas próprias emissoras membros.

A controvérsia intensificou-se à medida que várias estações de televisão europeias exigiram respostas. A emissora da Eslovénia solicitou repetidamente os dados da votação e ameaçou retirar-se. Espanha pediu um debate sobre a participação de Israel e alertou que o sistema de votação é vulnerável a manipulações. A emissora pública da Islândia acusou Israel de se apropriar indevidamente do concurso.

Com o aumento da indignação, Islândia, Irlanda, Holanda, Espanha e Eslovénia avançaram para um boicote à edição de 2026. Segundo o Times, os organizadores da Eurovisão temem perder centenas de milhares de dólares em taxas de participação caso o boicote se alargue.

Esta campanha faz parte de uma ofensiva de propaganda israelita muito maior. Israel aumentou drasticamente o financiamento para a hasbara à medida que o seu prestígio internacional colapsa. Relatórios indicam que o orçamento para a diplomacia pública de Israel disparou para cerca de 730 milhões de dólares — quase cinco vezes os 150 milhões alocados no ano anterior — numa tentativa de reabilitar a sua imagem após os acontecimentos em Gaza.

O futuro passa pelas Comunidades de Energia Renovável (CER) mas com mais reindustrialização solar dentro da Europa /União Europeia

Produção e partilha de energia limpa por um grupo de cidadãos e instituições públicas e privadas a custos vantajosos com redução significativa da emissão de CO2 é o foco que está na origem da criação das Comunidades de Energia Renovável (CER).

Em 2019 foi introduzido em Portugal o Decreto-Lei n.º 162/2019 que define as bases para a criação destas Comunidades. A energia solar é a fonte de energia preferencial na Europa para a criação de CER pela abundância, custos mais reduzidos e simplicidade do planeamento da instalação. Conheça neste artigo o que são as Comunidades de Energia Renovável, como se podem constituir e quais os seus benefícios.

De acordo com o Fundo Ambiental, as Comunidades de Energia Renovável tornam possível que cidadãos, empresas e entidades públicas e privadas, produzam, consumam, partilhem, armazenem e vendam a energia produzida a partir de fontes de energia renováveis. Desta forma, participam ativamente na transição energética, na transformação das redes elétricas convencionais em redes elétricas inteligentes e, ao mesmo tempo, conferem maior qualidade de serviço e segurança de abastecimento, ao permitirem a integração significativa de fontes renováveis.

CER – O que são e como funcionam?
Uma Comunidade de Energia Renovável (CER) reúne cidadãos, empresas e instituições, inclusive Municípios, na realização de projetos de energia renovável com proveito e partilha dessa energia para satisfazer as suas necessidades locais. Baseia-se numa participação aberta e voluntária dos seus membros que estão localizados na proximidade desses projetos. O objetivo principal de uma CER é proporcionar aos seus membros e às localidades onde se encontra benefícios ambientais, económicos e sociais.

O Decreto-Lei n.º 162/2019 que regula as CER visa facilitar a participação ativa na transição energética de empresas e de cidadãos interessados em investir, sem subsídios públicos, em recursos energéticos renováveis que respondam às necessidades de consumo.

Os membros de uma Comunidade de Energia Renovável têm de ter proximidade geográfica e podem organizar-se entre si para Autoconsumo Coletivo (ACC). No entanto, enquanto no Autoconsumo Coletivo os autoconsumidores têm de ser proprietários das instalações de autoconsumo, no caso das CER esta obrigatoriedade não se coloca. Ou seja, a Comunidade de Energia Renovável destina-se à satisfação das necessidades de energia elétrica dos seus membros e não tem necessariamente de ser proprietária das instalações de consumo que deverá alimentar, mas apenas da(s) Unidade(s) de Produção para Autoconsumo (UPAC).

Para clarificar, o Autoconsumo Coletivo refere-se à atividade de produção de energia renovável para consumo próprio através de uma ou mais Unidades de Produção para Autoconsumo (UPAC), constituída por, pelo menos, dois autoconsumidores locais. Destina-se à satisfação das necessidades de energia elétrica dos autoconsumidores que constituem o coletivo que são também proprietários da(s) UPAC(s) e das instalações de consumo e partilham a energia de acordo com coeficientes previamente definidos pelos próprios. Os autoconsumidores são, assim, detentores dos contratos de fornecimento de energia elétrica que devem ser alimentados pelo coletivo.

Quais os benefícios de uma Comunidade de Energia Renovável?
O principal benefício é a redução na fatura da eletricidade que pode alcançar uma média de 30%. Uma poupança considerável numa altura em que os preços da eletricidade alcançam máximos históricos. Para a indústria é particularmente relevante, tendo em conta que a eletricidade influencia muito o custo de produção, logo, a rentabilidade ou até a manutenção do negócio.

Outro benefício imediato é a redução de CO2 e o consequente impacto benéfico no planeta. As Comunidades de Energia Renovável podem desempenhar um papel fundamental no cumprimento das metas e objetivos de Portugal e da Europa no que se refere ao clima e à sustentabilidade.

A criação de Comunidades de Energia Renovável tem ainda como objetivo estimular a coesão social e territorial ao envolver pessoas e instituições públicas e privadas, o que pode gerar emprego e contribuir para uma melhor distribuição do tecido empresarial por todo o país e também proporcionar maior competitividade.

A partilha do excedente de produção de energia elétrica das Comunidades é outra das vantagens.

Que fonte de energia renovável escolher para criar uma CER?
A maioria dos projetos de Comunidades de Energia em desenvolvimento na Europa são de energia solar. A energia solar revela-se a mais indicada para este tipo de projetos por vários fatores.

Quais os fatores que tornam a energia solar a principal escolha para criar uma Comunidade de Energia Renovável?
Um deles, no caso concreto de Portugal, tem a ver com a abundância. Portugal é um dos países da Europa com maior disponibilidade de radiação solar: 2.500 a 3.200 horas de sol por ano. Outro, é o baixo custo quando comparado a outras fontes renováveis. Além disso, o planeamento de uma instalação fotovoltaica é mais simples. De acordo com o mesmo guia, a energia solar é uma ótima opção para ambientes urbanos e tem um grande impacto na criação de empregos e no desenvolvimento económico local.

Como constituir uma Comunidade de Energia Renovável?
O novo Decreto-Lei define as bases para o Autoconsumo Coletivo (ACC) e Comunidades de Energia Renovável (CER) que se tratam de novos modelos de organização local de autoprodução de energia que apresentam novas oportunidades para as comunidades locais de consumidores, para a indústria e para os fornecedores de serviços e tecnologias de autoprodução e autoconsumo a partir de fontes de energia 100% limpa. Significa que particulares, Autarquias, Juntas de Freguesia, Parques Industriais e pequenas e médias empresas podem tornar-se produtores, armazenistas e vendedores de energia. Assim, é possível alcançar uma redução da fatura de eletricidade, através de uma utilização sustentável dos recursos locais disponíveis na própria comunidade, bem como contribuir para as metas de descarbonização e, com isso, para um planeta mais saudável.

Como constituir então uma Comunidade de Energia Renovável?
A Comunidade pode ser constituída por pessoas físicas ou jurídicas e qualquer entidade pública ou privada que queira criar uma Comunidade de Energia Renovável. Até mesmo um conjunto de pessoas que vive no mesmo bairro pode fazê-lo.

O primeiro passo é escolher uma área próxima dos consumidores para instalar a estrutura para a produção. Este passo é de extrema importância. Se estivermos a falar de um sistema fotovoltaico para autoconsumo, a área deve ter uma boa exposição solar para assegurar que se obtém o melhor rendimento. Opções podem ser telhados ou terrenos.

No caso das Comunidades de Energia Renovável, a estrutura selecionada não precisa de ser propriedade da comunidade, a não ser que se opte pela solução de Autoconsumo Coletivo. Numa CER, a estrutura pode ser fornecida por um ou mais membros da Comunidade ou até por outras pessoas ou entidades que não fazem parte da Comunidade.


Quais os incentivos para constituir uma Comunidade de Energia Renovável (CER)?
Apesar do Decreto-Lei que serve de base à criação das Comunidades de Energia Renovável ter entrado em vigor no início de 2020, em Portugal ainda são conhecidas poucas Comunidades de Energia Renovável. Foi lançado de 14 de junho a 31 de outubro de 2022 um concurso com um apoio total de 30 milhões de euros para a criação de Comunidades de Energia Renovável (CER) e Autoconsumo Coletivo (ACC). Um concurso integrado no programa “Eficiência energética em edifícios de serviços” e com apoios disponíveis para edifícios residenciais, de serviços e da Administração Pública. O aviso de abertura do concurso está disponível aqui.

O objetivo é o financiamento do Autoconsumo Coletivo e das Comunidades de Energia Renovável como modelos essenciais para assegurar a produção de energia elétrica a partir de fontes renováveis. De acordo com a Recuperar Portugal, espera-se que este apoio permita alcançar cerca de 30% do consumo de energia primária nos edifícios beneficiados, o que representa 93 MW.

Novas medidas em 2026 (Decreto-Lei n.º 58/2026 e atualizações da DGEG) visam acelerar o licenciamento, reforçar o acesso às redes e criar modelos de partilha mais justos, reduzindo a burocracia.

Minha análise
Ponto 1 - O modelo energético que as políticas públicas devem incentivar cada vez mais é o da energia dos e para os cidadãos e cidadãs. A legislação já permite o desenvolvimento de Comunidades de Energia Renovável (que não são as "comunidades energéticas ou de energia" publicitadas por grandes empresas do ramo), mas sim associações, cooperativas, fundações ou sociedades sem fins lucrativos em que pessoas que vivem na mesma zona (num raio de 2 - 4 km consoante os casos) se juntam para produzir, partilhar energia renovável e desenvolver outras atividades na área da energia, como compras coletivas para renovação energética das suas casas, mobilidade partilhada elétrica, literacia energética, entre outras. O caminho da autonomia e da descarbonização passa pela cooperação! A Comunidade de Energia Renovável de Telheiras/Lumiar, da Associação Viver Telheiras com o apoio da Junta de freguesia do Lumiar, é um exemplo pioneiro de base cidadã, mas há outros na Culatra, na Comenda e em todo o país a dar os primeiros passos. Isso sim é que o Governo deve apoiar com incentivos fiscais, financiamento e capacitação técnica. A Coopérnico tem apoiado tecnicamente vários projetos, tem em curso um programa de mentoria e tem feito um enorme esforço de defesa da clarificação da lei, da desburocratização e da agilização dos procedimentos para os cidadãos se envolverem e recolherem os benefícios dessa participação democrática no setor da energia. Mas as políticas e entidades públicas têm de ser coerentes, mostrar claramente o caminho e não obstaculizar o modelo descentralizado gerido pelos cidadãos e cidadãs

Ponto 2- Há um grande dilema aqui. Ficar refém dos fabricantes chineses de painéis solares, baterias e aerogeradores é reduzir a dependência energética? Se a UE vai proibir os inversores chineses porque continua a importar os outros equipamentos que podem pôr em causa a segurança energética europeia? Fonte

Climáximo mancha de tinta vermelha fachada da empresa de defesa Thales


Elementos do coletivo Climáximo mancharam, esta segunda-feira, com tinta vermelha a fachada da empresa Thales, especializada em Defesa, em Oeiras, num protesto pela parceria que a firma tem com a produtora de armas israelita Elbit Systems.

A PSP de Oeiras disse à Lusa que os agentes estiveram no local pelas 07:05 e confirmaram a ação, mas já não encontraram nenhum ativista quando chegaram ao edifício.

Numa nota divulgada à comunicação social, os elementos do Climáximo dizem que escreveram a palavra "genocida" a vermelho na fachada da Thales, em Paço de Arcos, a 4.ª maior empresa de armamento, tecnologia e segurança da Europa, produzindo mísseis, carros de combate, drones e outros equipamentos e tecnologias usadas para vigilância e aniquilação de alvos.

Citado no comunicado, o estudante de biologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa Filipe Antunes acusa a Thales de lucrar diretamente "com a morte de milhares de pessoas" e de ser "parte integral de um modelo que promove a matança de pessoas inocentes por todo o mundo" que é “indissociável dos combustíveis fósseis”.

"Estes são um multiplicador da capacidade bélica, sendo a guerra moderna dependente e só possível devido aos combustíveis fósseis", considera o estudante, elemento deste movimento.

Refere ainda que a Thales é central nos esforços de militarização das fronteiras europeias que fazem das pessoas migrantes "alvos de ataque, repressão e desumanização" e considera a empresa "um pilar" na expansão da extrema-direita internacional e no "progresso do imperialismo e de políticas bélicas, genocídas e fascistas".

A questão do cumprimento dos embargos pela Thales é um dos temas mais divisivos no panorama geopolítico europeu, especialmente quando analisamos a linha ténue entre a legalidade estrita e a responsabilidade ética. Para compreender a situação em Portugal e no resto da Europa, é necessário notar que a Thales não opera no vácuo; ela funciona sob um regime de autorizações estatais que, muitas vezes, serve de "escudo" jurídico contra acusações de violação de tratados.

De uma perspetiva puramente legal, a Thales afirma respeitar rigorosamente todos os embargos impostos pela ONU e pelas jurisdições onde mantém sedes, como França e Reino Unido. No entanto, o que observadores internacionais e organizações de direitos humanos apontam é a existência de "zonas cinzentas". Um exemplo recorrente é a exportação de componentes de tecnologia de dupla utilização (dual-use), que podem ser classificados como civis mas acabam integrados em sistemas de armamento. Além disso, a empresa tem enfrentado desafios judiciais significativos, como a queixa-crime apresentada em França por alegada cumplicidade em crimes de guerra no Iémen, sob o argumento de que a manutenção técnica fornecida aos equipamentos da coligação liderada pela Arábia Saudita facilitou ataques a civis.

Outro ponto crítico prende-se com a estrutura multinacional da empresa. Muitas vezes, componentes fabricados numa subsidiária britânica ou australiana podem ser exportados para destinos que enfrentariam maiores restrições se o envio fosse feito diretamente de França. Este fenómeno, descrito por críticos como "triangulação", permite que a empresa se mantenha dentro da lei de cada país, embora possa estar a contornar o espírito dos embargos internacionais mais amplos.
Apesar do discurso de "conformidade", a Thales enfrenta pressões legais significativas:

O Caso do Iémen (Investigação em curso): em 2022, ONGs como a Sherpa e a Amnistia Internacional entraram com uma queixa criminal na França contra a Thales, Dassault e MBDA. A acusação é de cumplicidade em crimes de guerra. Alegam que a Thales forneceu manutenção e sistemas de mira para jatos usados pela Coligação política liderada pela Arábia Saudita em ataques a civis no Iémen, mesmo após as atrocidades terem sido documentadas. A investigação judicial ainda estava ativa em 2025.

Exportações para Israel (2024-2026): após a suspensão parcial de licenças de armas pelo Reino Unido em 2024, surgiram denúncias de que componentes da Thales (como radares para drones Watchkeeper) continuaram a ser enviados. A empresa e o governo alegaram que eram para "re-exportação" (para países como a Roménia), mas grupos como o CAAT (Campaign Against Arms Trade) denunciaram em 2026 que não havia provas de que esses componentes saíram de Israel, sugerindo uma brecha no controle de uso final.

Em suma, embora a Thales raramente seja apanhada numa violação direta e flagrante de um embargo — o que resultaria em sanções catastróficas para os seus acionistas —, ela é frequentemente acusada de beneficiar de interpretações políticas convenientes das regras de exportação. Para a empresa, a validade de uma licença governamental é o selo de ética necessário; para os seus detratores, essa licença é apenas uma formalidade burocrática que não apaga a responsabilidade moral sobre o destino final da tecnologia vendida.

O coletivo, que luta pela "justiça climática", denuncia a "fatia considerável" de emissões do complexo industrial militar, tal como os milhões gastos em armamento e combustíveis fósseis, afirmando que este financiamento deveria antes ser aplicado na criação de um "Serviço Nacional do Clima", para gerir a transição energética, e em empregos no setor dos cuidados e serviços de apoio social, garantindo saúde, educação e alimentação.

"Se não desmantelarmos os combustíveis fósseis, não só não vamos conseguir travar os conflitos atuais como estes se vão multiplicar e escalar em guerras por acesso a comida e água", considera o Climáximo, que convoca a população a juntar-se, no dia 15 de maio, à concentração que vai promover ao final da tarde frente à sede do Governo.

Nikolai Gogol - sobre a corrupção de uma classe decadente que domina o povo ignorante e escravo do Estado


Há momentos em que é impossível encaminhar a sociedade, ou mesmo uma geração inteira, para o belo sem revelar toda a profundidade da sua verdadeira abominação.

Esta frase de Nikolai Gogol carrega o peso do realismo fantástico e da sátira social que definiram a sua obra. Gogol não era apenas um contador de histórias; era um observador clínico das falhas humanas. Para compreender o que ele pretende dizer, precisamos de olhar para a ideia de choque de realidade.

Em primeiro lugar, surge a necessidade do espelho cruel. Gogol sugere que a sociedade vive frequentemente num estado de negação ou hipocrisia e, para ele, falar sobre beleza, virtude ou progresso moral é inútil se os alicerces da sociedade estiverem podres. O conceito é simples: não se pode curar uma doença se o paciente se recusa a admitir que está doente. Assim, a acção da arte ou da história deve ser a de actuar como um espelho que não embeleza, revelando a abominação — as injustiças, a corrupção e a mediocridade — para que o horror da própria imagem force a mudança.

Esta abordagem liga-se à catarse pelo grotesco, estilo pelo qual Gogol é famoso. Em obras como O Inspector Geral ou Almas Mortas, o autor retrata burocratas corruptos e proprietários de terras absurdos, não apenas para fazer rir, mas para causar um desconforto profundo. Ele acredita que a beleza não pode florescer em solo contaminado por mentiras não reveladas e que a sociedade só se sentirá motivada a procurar a beleza e a ordem moral quando o peso do seu próprio vazio se tornar insuportável. É a ideia de que é preciso chegar ao fundo do poço para, finalmente, olhar para cima.

Desta forma, o papel do artista é o de um revelador. Para Gogol, o escritor não deve apenas entreter, mas sim realizar uma espécie de exorcismo social. Ele afirma que é impossível conduzir uma geração pela lógica ou pelo incentivo gentil porque as pessoas estão anestesiadas. O choque provocado pela revelação da profundidade da verdadeira abominação é o que possui a energia cinética necessária para retirar uma sociedade da sua inércia moral.

Em resumo, Gogol defende que a regeneração moral exige honestidade brutal. Ele acredita que a luz só será valorizada e procurada quando todos compreenderem plenamente a extensão das trevas em que estão mergulhados. É uma visão pessimista no diagnóstico, mas esperançosa no objectivo final: a transformação através da verdade.

domingo, 10 de maio de 2026

ICNF e APA: WWF, Zero, SPEA e Quercus questionam reestruturação anunciada pela ministra do Ambiente



As quatro organizações reagiram esta quinta-feira com preocupação ao anúncio feito pelo gabinete da ministra do Ambiente e Energia. Quercus pede reunião urgente com Maria da Graça Carvalho.

As mudanças planeadas para o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e para a Agência Portuguesa de Ambiente (APA), anunciadas esta semana pela ministra da tutela, Maria da Graça Carvalho, estão a ser vistas com apreensão por várias organizações ligadas à defesa do ambiente, que pedem para ser escutadas neste processo e receiam que a anunciada “simplificação profunda dos processos de licenciamento” enfraqueça ainda mais a conservação do património natural.

A WWF Portugal foi uma das primeiras a reagir, manifestando preocupação com os planos de reestruturação e exigindo que “qualquer processo de reforma reforce a capacidade técnica e operacional da APA e do ICNF, assegure qualidade técnica nas avaliações ambientais, garanta participação pública efectiva e transparente e mantenha elevados padrões de protecção da natureza e ordenamento do território”

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“O comunicado do Governo centra-se exclusivamente na linguagem da desburocratização e da facilitação do investimento, sem uma única menção à missão fundamental destas instituições: proteger o património natural de Portugal”, afirma a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), defendendo que “a eficiência administrativa não pode ser alcançada à custa do enfraquecimento dos mecanismos de proteção ambiental”.

A mesma opinião é partilhada pela ZERO, que aponta o dedo às reformas em cima da mesa, considerando-as “uma clara tentativa de fragilizar ainda mais as instituições que devem defender o bem comum, criando não só uma inaceitável pressão adicional sobre recursos técnicos que já estão há muito no limite das suas capacidades, mas também prejudicando a qualidade e o rigor das avaliações que serão efetuadas, o que poderá levar a decisões tecnicamente pouco ponderadas”.

A ONG questiona também se este processo de “debilitação” poderá ser agravado por “cortes nos orçamentos de funcionamento das instituições, situação que gerará a inoperacionalidade quase total dos serviços públicos”. E alerta para uma possível “tentativa de desestruturação da política pública de ambiente, em benefício de interesses que poderão não ser compatíveis com os instrumentos de gestão territorial ou com a conservação dos valores naturais protegidos”.

Também a Quercus exige cautela neste processo de reestruturação, admitindo que “a modernização, simplificação e automatização de processos é desejável”, mas desde que “não abra caminho ao eventual esvaziamento de competências e de autonomia destes organismos” nem comprometa a sua capacidade operacional e os meios necessários para fiscalizarem no terreno.

Fiscalizar antes ou no final?
Outra das medidas olhadas com preocupação, aliás, é a “simplificação profunda” dos processos de licenciamento, incluindo a passagem de um modelo de controlo prévio para a aposta na fiscalização a posteriori.

A Quercus teme que a simplificação anunciada tenha de facto como objetivo a criação de “um ‘livre-trânsito’ para atropelar os interesses e as regras ambientais”.

“A destruição de um habitat prioritário, a perturbação de espécies em época de nidificação ou a alteração irreversível de uma zona húmida não são danos que possam ser remediados com uma multa ou uma ordem de reposição”, acrescenta por seu lado a SPEA, que afirma que “enfraquecer os mecanismos de avaliação prévia não só agravaria a situação do património natural como exporia Portugal a sanções comunitárias acrescidas”.

“Proteger a natureza é proteger o futuro de Portugal e dos portugueses. As zonas húmidas que filtram a água que bebemos, as paisagens naturais saudáveis que nos protegem dos incêndios, os ecossistemas costeiros que defendem as comunidades piscatórias — tudo isto depende de instituições públicas capazes de fazer o seu trabalho. Quando se enfraquecem a APA e o ICNF, não é só a Natureza que fica desprotegida são só as aves que ficam desprotegidas: são as pessoas”, afirma Pedro Neto, diretor-executivo da SPEA.

Também a ZERO avisa para a necessidade de mais reflexão face a uma nova simplificação dos processos de licenciamento, depois das iniciativas do Governo socialista (Simplex) e do atual Executivo. “Não deixa de ser preocupante que se proponha mais simplificação sem uma efetiva avaliação de quais foram os resultados das medidas tomadas anteriormente. Não seria aconselhável avaliar o que já foi proposto antes de voltar a sugerir mais alterações?”, questionam.

Além do mais, acrescenta a mesma associação, “o discurso político parece querer passar a mensagem que o licenciamento não tem uma função ou dignidade próprias”. “Ele existe para garantir a equidade entre todos (todos devem ter de cumprir as mesmas obrigações) e garantir que o bem comum não seja usurpado ou prejudicado para interesse apenas de alguns. Nem todo o investimento contribui para o desenvolvimento sustentável do país, nem deve ser aprovado”, sustenta.

ONG de Ambiente querem ser ouvidas
A SPEA apela também à tomada de várias medidas da parte do Governo, incluindo que a missão de conservação da natureza seja assumida como “pilar central da reforma” e não como “o obstáculo a remover”, e lembra também a necessidade de reforço dos meios humanos, técnicos e financeiros do ICNF e da APA – “condição indispensável para que qualquer reforma produza resultados reais”.

Tanto a WWF, SPEA como a Quercus e a ZERO exigem que o processo de reestruturação envolva ouvir as organizações de conservação da natureza, mas também outras entidades como a comunidade científica, “garantindo que as decisões são informadas pelo melhor conhecimento disponível”.

A Quercus anunciou também que vai pedir uma reunião “com urgência” à ministra do Ambiente, “a fim de expôr as suas reservas, preocupações e obter todas as informações sobre esta reestruturação”. “Paralelamente, iremos solicitar uma audiência a todos os Grupos Parlamentares sobre este assunto no sentido de exigir a fiscalização necessária para garantir a defesa do Ambiente”, avisa esta ONG.

Em homenagem a Francesca Albanese

Yanis Varoufakis

Há uma pergunta que me assalta nas primeiras horas da madrugada, quando o sono não chega e a mente remói velhos assuntos. A pergunta é esta: «O que teria eu feito na década de 1930, na manhã seguinte à Kristallnacht?» Não o que digo que teria feito. Não o que espero que tivesse feito. Mas o que teria eu realmente feito — quando os comboios começaram a circular, quando os vizinhos ficaram em silêncio, quando o preço da decência passou a ser a perda de tudo? A maioria de nós, penso eu, teria feito pouco. Não por malícia. Por medo. Pela convicção suave e insidiosa de que alguém falaria, de que a situação é complexa, de que temos de ser «razoáveis».

Para que não nos esqueçamos, o comum é o álibi do extraordinário. E como nos agarrámos a esse álibi! Como ainda nos agarramos a ele! E então, de vez em quando, surge alguém que não se agarra. Alguém que dá um passo em frente quando os outros recuam. Alguém que diz o nome da coisa quando todos os outros estão ocupados a nomear outra coisa. Francesca Albanese é essa pessoa. Ela ergue-se perante o mundo — sozinha, desarmada, armada apenas com a lei, a linguagem e uma coragem rara — e diz o que os centristas não dizem, o que os ministérios dos Negócios Estrangeiros não dizem, o que os conselhos editoriais não dizem.

Ela diz: «Isto é um genocídio. E estamos a assistir a tudo.» Não me digam que isso é exagero. Não me digam que o termo é contestado. Ela não o utilizou de ânimo leve. Utilizou-o da mesma forma que um médico chega cientificamente a um diagnóstico — não para ferir, mas para alertar. Não para inflamar, mas para nomear. E por isso, vieram atrás dela. Oh, como vieram atrás dela. Calúnias. Investigações. Editoriais maliciosos. Contas bancárias congeladas. Desapropriação do único apartamento que alguma vez possuíra. A máquina dos respeitáveis voltou-se contra ela para a esmagar. Porque os respeitáveis não suportam o que ela representa: um espelho que lhes mostra a sua cumplicidade.

Voltemos, mais uma vez, à década de 1930. De volta aos poucos que se levantaram quando os comboios começaram a circular carregados de judeus. Havia Aristides de Sousa Mendes, um cônsul português em Bordéus. Ele desafiou o seu próprio governo. Assinou milhares de vistos, à mão, durante horas, até os dedos sangrarem. Salvou mais vidas do que Schindler. E morreu sem um tostão, desonrado, apagado. Havia um oficial alemão em Varsóvia chamado Wilm Hosenfeld. Ele escondeu um pianista judeu nos escombros. Não salvou milhares. Salvou um. Mas esse único — Władysław Szpilman — guardou a memória. E a memória é «o único refúgio do qual não podemos ser expulsos». Havia Raoul Wallenberg. Havia os aldeões de Le Chambon. Havia os anónimos, os silenciosos, os poucos furiosos que diziam: «Não enquanto eu estiver aqui.»

Francesca Albanese é a sua herdeira. Não porque ande armada. Não porque esconda refugiados na sua cave. Mas porque faz algo igualmente perigoso num mundo que aperfeiçoou a arte de não ver. Ela vê. E fala. Não fala como uma diplomata. Ainda bem que não! Os diplomatas deram-nos a linguagem do «há argumentos de ambos os lados», da «moderação» e da «proporcionalidade». A linguagem diplomática é o túmulo perfumado da clareza moral. Não, ela fala como jurista. Como ser humano. Como uma mulher que olhou para o abismo e se recusou a chamá-lo de «paisagem geopolítica complexa».

Edna O’Brien descreveu uma vez uma personagem que «tinha a imprudência daqueles que já perderam tudo o que valia a pena perder». Francesca Albanese não perdeu tudo. Ela tem a sua dignidade, o seu cargo, a sua voz, a sua família. Mas calculou o custo de dizer a verdade ao poder. E decidiu que esse custo é infinitamente menor do que o custo do silêncio.

Qual é esse custo? Vamos nomeá-lo. Ela foi chamada de antissemita — ela, que se baseia no direito internacional forjado nas cinzas de Auschwitz e nas chamas de Nuremberga. Ela foi chamada de teórica da conspiração — ela, que cita todas as fontes, todas as notas de rodapé, todas as resoluções da ONU. Ela foi chamada de ingénua — ela, que compreende melhor do que a maioria a maquinaria da realpolitik.

Estas acusações não são argumentos. São a saliva dos que se sentem ameaçados. Porque Francesca Albanese ameaça algo muito precioso para os poderosos: o direito de cometer atrocidades sem ser identificado.

Amigos, os anos 30 não chegaram com botas militares e pogroms logo no primeiro dia. Chegaram aos poucos. Com restrições «razoáveis». Com medidas «proporcionais». Com o silêncio dos respeitáveis. Dizemos a nós próprios que teríamos sido diferentes. Que teríamos sido Sousa Mendes. Que teríamos sido Wallenberg. Mas a maioria de nós, receio, teria sido os vizinhos que mais tarde disseram: «Eu não sabia.»

Francesca Albanese sabe. E recusa-se a fingir o contrário. Por isso, louvemo-la. Não com estátuas ou prémios que ela não procura. Mas com algo mais difícil: com a nossa própria recusa em desviar o olhar. Com as nossas próprias vozes, erguidas em lugares que são seguros para nós, mas perigosos para ela. Com os nossos próprios corpos, se for preciso. Uma mulher corajosa, que ficou ferida durante uma manifestação à porta de uma base militar nuclear dos EUA em 1982, a infame Greenham Common, disse-me que «o coração é um caçador daquilo que não pode ter». Mas eu digo que o coração é um caçador daquilo que não vai perder. E o que não vamos perder é a memória daqueles que se levantaram quando levantar-se custava tudo. Francesca Albanese está a levantar-se agora. No nosso tempo. Em nosso nome. Sob o nosso céu indiferente. Vamos ficar ao lado dela. Não amanhã. Não quando for seguro. Agora.

sábado, 9 de maio de 2026

Nick Drake - Pink Moon


Fez 3 álbuns e ninguém o ouviu em vida. Morreu de depressão aos 26 anos. No final dos anos 70, diversos músicos descobriram-no, como os vocalistas dos Cure e dos REM, que reconheceram a sua enorme influência na sua própria música. A Rolling Stone colocou-o entre os maiores guitarristas de sempre. Foi preciso a Volkwagen fazer um anúncio nos anos 80 com a magnífica Pink Moon, cujo piano seria adicionado depois, para dar a volta ao planeta. 
Às vezes cria-se cedo de mais, às vezes o mundo não está preparado para a mudança. E quase sempre basta alguém que nos ouça. Pena que ninguém o ouviu antes de tomar os comprimidos fatais, pois teríamos certamente um continuum de excelência musical. 
Se ainda não ouviu Pink Moon ou outra qualquer música de Nick Drake não sabe o que perde!

Nick Drake entrou num estúdio em Londres em outubro de 1971. Sem banda. Sem ensaios. Sem grandes planos. Apenas ele, a sua guitarra e onze canções que precisava libertar da sua mente.
Ele sentou-se. Colocou um microfone. E tocou.

O seu produtor, John Wood, assistiu chocado. Não era assim que se faziam os discos. Sem camadas. Sem cordas. Sem acompanhamento.
"É só isso?", perguntou Wood quando Nick parou. "Não quer acrescentar nada?"
"Não", respondeu Nick suavemente. "Este é o disco."

Pink Moon. Onze canções. Pouco mais de 28 minutos de duração. Apenas uma voz e uma guitarra, captadas em luz ténue.

Foi lançado em fevereiro de 1972. Nick tinha 24 anos. A sua editora, a Island Records, não sabia o que fazer com ele. Muito silencioso. Muito incomum. Muito pesado. Pressionaram um pequeno lote. Enviaram. Esperaram.

Quase ninguém o comprou.

Nick já tinha lançado dois álbuns antes de Pink Moon. Ambos belíssimos. Ambos ignorados. Five Leaves Left. Bryter Layter. Aclamados pela crítica. Sem vendas.

Quando Pink Moon chegou, a Island Records tinha perdido o interesse. Deixaram de promovê-lo. Deixaram de atender as chamadas.

Nick voltou a viver com os pais no interior de Inglaterra. Uma pequena aldeia chamada Tanworth-in-Arden. A sua depressão piorou. Sempre fora quieto, distante, desconfortável perto dos outros. Mas agora não conseguia funcionar. Não conseguia compor. Não conseguia tocar. Mal conseguia sair do quarto.

Os seus pais tentaram de tudo. Terapia. Remédios. Antidepressivos que atenuavam os sintomas, mas nunca aliviavam o peso. Os amigos afastaram-se. Os laços musicais desapareceram. A indústria seguiu em frente.

Nick Drake tornou-se invisível.

A 25 de novembro de 1974, a mãe foi acordá-lo. Não havia descido para o café da manhã. Ela encontrou-o na cama. Frio. Um frasco de comprimidos vazio na mesa de cabeceira. Nick Drake tinha 26 anos.
O médico legista não conseguiu determinar se foi intencional ou acidental. Um veredicto inconclusivo. Uma interrogação no fim de uma vida curta e tranquila.
O seu funeral foi pequeno. Família. Alguns amigos antigos. O seu produtor.

Nenhum músico. Sem representante da gravadora. Nenhum fã. Porque não havia fãs. Foi enterrado em um cemitério tranquilo. Uma lápide simples. Esquecido.
E esse deveria ter sido o fim.

Mas algo inesperado começou a acontecer. No final da década de 1970, os músicos começaram a encontrar os discos de Nick em alfarrabistas. Descobertas fortuitas em coleções de amigos. Eles ouviram Pink Moon. Five Leaves Left. Bryter Layter.
E ficaram impressionados.

Robert Smith, dos The Cure: "Mudou tudo para mim".
Peter Buck, dos R.E.M.: "Nick Drake moldou a nossa abordagem à música." Os Smiths. Radiohead. Belle and Sebastian. Bon Iver. Todos o citaram como influência.
A notícia espalhou-se discretamente. De músico para músico. De artista para artista.
Na década de 1980, Nick já tinha um público fiel. Na década de 1990, os seus álbuns vendiam-se com constância.
Depois, em 1999, a Volkswagen usou "Pink Moon" num anúncio publicitário. Trinta segundos. Um carro a deslizar sob a luz do luar.

A música explodiu. De repente, todos perguntavam: Quem é Nick Drake?

Pink Moon subiu nas tabelas. Vinte e sete anos após o lançamento. O álbum que mal vendeu enquanto estava vivo tornou-se um fenómeno após a sua morte. Hoje, os álbuns de Nick Drake venderam milhões de cópias em todo o mundo.

A Rolling Stone classifica-o entre os maiores guitarristas de todos os tempos. A TIME considera-o um dos artistas mais influentes do século XX.

O seu túmulo em Tanworth-in-Arden está coberto de flores. Fãs de todo o mundo visitam-no. Deixam palhetas. Bilhetes. Agradecimentos silenciosos.
Os festivais anuais homenageiam a sua música. Espetáculos tributo. Exposições. Documentários.

Tudo o que nunca experimentou na vida. Eis o que torna esta história dolorosa. Nick não precisava de fama. Não queria ser uma estrela. Ele só queria que a sua música tivesse importância. Que chegasse às pessoas. Que significasse algo.

Quando Pink Moon foi lançado, apenas alguns milhares de pessoas o compraram.Nick viu isso como um fracasso. Mas entre esses poucos milhares estavam as pessoas certas. Músicos que moldariam milhões. Artistas que definiriam décadas.

Robert Smith ouviu-o. Mudou o som dos The Cure. Os The Cure influenciaram uma geração.
Peter Buck ouviu-o. Mudou o rumo do R.E.M. O R.E.M. inspirou inúmeras bandas.

O pequeno público de Nick tornou-se multiplicador. É assim que funciona a influência. Não através da fama instantânea. Através das almas certas que o ouvem no momento certo.

O Nick nunca soube disso. Morreu pensando que havia fracassado. Pensando que a sua música não tinha importância. Mas ele tinha criado algo intemporal.

A sua mãe, Molly, viveu o suficiente para testemunhar parte do seu renascimento antes de falecer em 1993. Ela disse: "O Nick só queria fazer música bonita. Ele teria ficado feliz por as pessoas finalmente o ouvirem".

Hoje, as novas gerações descobrem Nick Drake todos os anos. A Pink Moon ainda vende. Ainda ressoa. Ainda transforma vidas. Se o Nick pudesse ter visto isto. Se pudesse ter sabido que a sua música lhe sobreviveria durante décadas. Que não era um fracasso. Que ele importava.Talvez ele ainda estivesse aqui.

Essa é a tragédia. Não que tenha morrido desconhecido. Mas que tenha morrido sem nunca saber a verdade:
As suas canções tranquilas ecoariam mais alto do que ele alguma vez imaginou.