quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Renata Cambra e Trabalhadores Unidos: o efeito inesperado da exposição mediática

A exposição pública de Renata Cambra - decorrente do seu papel como porta-voz do movimento pelo direito à habitação (Acampada no Rossio) e candidata política - tornou-a alvo de várias narrativas nas redes sociais e em caixas de comentários. Para separar factos verificados de insinuações ou maledicência, apresenta-se o ponto da situação dividido pelos principais temas em debate.

Habitação: apartamento de luxo vs. cave
Argumenta-se frequentemente nas redes sociais que existe "hipocrisia" por liderar protestos pela habitação sendo alegadamente proprietária de imóveis em zonas nobres de Lisboa, como as Avenidas Novas, ou por beneficiar de "regalias secretas". Contudo, não existe qualquer registo ou prova pública de património imobiliário em nome de Renata Cambra nas Avenidas Novas. A própria explicou publicamente no passado que vivia numa cave alugada em Lisboa e que enfrenta os mesmos problemas de acesso ao mercado de arrendamento da sua geração.

Origem familiar: o avô do CDS-PP
Utiliza-se a ligação familiar para sugerir que Renata Cambra descende de uma "elite endinheirada" e que terá herdado grandes fortunas ligadas ao setor da construção civil. Factualmente, Renata Cambra é neta de Manuel Almeida Cambra, antigo presidente da Câmara Municipal de São João da Madeira pelo CDS-PP e empresário. No entanto, afirmações sobre heranças milionárias ou financiamento pessoal e político a partir desse parentesco não passam de especulação sem factualidade provada, sendo que o seu percurso ideológico se insere na esquerda anticapitalista, oposto ao do seu avô.

Profissão e rendimentos
Circulam alegações de que "vive da política" ou que recebe subsídios extraordinários provenientes de partidos ou sindicatos. Na realidade, Renata Cambra é professora do ensino básico e secundário na escola pública, lecionando atualmente no concelho da Amadora. O seu rendimento provém exclusivamente do vencimento docente. Além disso, desde 2019 é filiada no S.T.O.P. (Sindicato de Todos os Profissionais da Educação), uma afiliação comum e regular entre os profissionais da sua classe.

A projeção mediática e a "campanha" nas redes, do próprio MAI e das televisões
Como acontece com várias figuras de movimentos de contestação social, o destaque na comunicação social e a atuação das autoridades judiciais e policiais - incluindo detenções em manifestações e providências cautelares nos tribunais administrativos - multiplicaram a visibilidade do seu nome e do partido Trabalhadores Unidos (antigo MAS). Como resultado, as redes sociais polarizam a sua figura: de um lado, apoiantes amplificam a causa do direito à habitação; do outro, detratores recorrem a ataques ad hominem à vida pessoal e às origens familiares para tentar descredibilizar a sua mensagem política.

Conclusão
Parabéns ao Luís Neves, à televisão e à desinformação nas redes sociais: conseguiram promover o partido "Trabalhadores Unidos", de Renata Cambra, a um nível que nem um milhão de outdoors conseguiria.

Post-Scriptum
 "Desgraçadamente para a cáfila chegana, neoliberal e conservadora, Renata Cambra trabalha e não vive de subsídios, não tem piercings no rosto, não pinta o cabelo de cores berrantes, tem um aspeto muito asseado e feminino e, azar dos Távoras, é gira que se farta.
Acresce a tudo isto o mais importante: é inteligente, sabe estar e falar, reduzindo desta forma a pó todos os estereótipos com que querem pintar a esquerda portuguesa e mundial." (texto de Miguel Sancho)

IA e sustentabilidade: o consumo de energia dos data centers e as soluções verdes

A aceleração da Inteligência Artificial (IA) generativa e da aprendizagem automática em grande escala transformou a infraestrutura digital contemporânea, tornando a discussão sobre a sua sustentabilidade ambiental um dos temas mais críticos da década. O documentário de 2018 Living in the Future’s Past, narrado e produzido por Jeff Bridges, apresentou uma perspetiva inovadora ao examinar a crise ambiental não sob o prisma da culpa individual, mas através da psicologia evolutiva, da antropologia e da termodinâmica. A obra introduziu o conceito do "superorganismo" humano: uma engrenagem socioeconómica global impulsionada pelo consumo de energia e pelo conforto imediato, cujos cérebros mantêm a arquitetura cognitiva adaptada ao Pleistoceno. Embora o foco inicial do filme recaísse sobre a queima de combustíveis fósseis tradicionais e a obsolescência de dispositivos de consumo, a sua tese central concretizou-se e materializou-se de forma vertiginosa na era da Inteligência Artificial.

A procura energética dos data centers que sustentam os Grandes Modelos de Linguagem (LLMs) representa a nova fronteira da fome energética do superorganismo. Segundo os dados mais recentes da Agência Internacional de Energia (AIE), os data centers globais consumiram cerca de 485 TWh de eletricidade, valor comparável ao consumo elétrico anual de um país industrializado como a Alemanha, representando aproximadamente 1,5% da produção elétrica mundial. As projeções da AIE e de relatórios do sector indicam que este valor poderá ultrapassar os 950 TWh até 2030. O consumo focado especificamente em hardware otimizado para IA (como unidades de processamento gráfico - GPUs) tem registado crescimentos anuais na ordem dos 50%, prevendo a consultora Gartner que os servidores dedicados à IA venham a absorver mais de 30% do consumo total dos data centers. Esta disparidade reflete-se na microescala do utilizador: enquanto uma pesquisa tradicional em motores de busca consome em média 0,3 Wh, uma consulta complexa a um modelo de raciocínio profundo ou a execução de agentes autónomos pode atingir até 50 Wh por interativo - um aumento de mais de 150 vezes. Em termos regionais, o impacto manifesta-se em gargalos nas redes elétricas: na Irlanda, por exemplo, os data centers já absorvem cerca de 23% da eletricidade nacional, ultrapassando a totalidade do consumo doméstico urbano; no estado da Virgínia (EUA), a infraestrutura digital consome mais de um quarto de toda a energia estadual.

Este apetite insaciável por eletricidade contínua gerou o chamado Dilema Nuclear da IA. Empresas de tecnologia como a Microsoft, a Google e a Amazon anunciaram acordos estratégicos para a reativação de centrais nucleares desativadas (como o caso de Three Mile Island) e o financiamento de Pequenos Reatores Modulares (Small Modular Reactors - SMR). Esta opção não resulta de uma menor pegada hídrica - uma vez que as centrais nucleares dependem de arrefecimento térmico e consomem volumes significativos de água evaporada -, mas sim da necessidade técnica de energia de carga de base (baseload) ininterrupta 24 horas por dia, 7 dias por semana. Ao contrário das fontes eólica e solar, cujos picos de produção dependem da meteorologia e exigem sistemas de armazenamento por bateria em escala ainda em desenvolvimento, a energia nuclear garante estabilidade operacional com zero emissões diretas de carbono e uma pegada geográfica reduzida, num trade-off pragmático onde se aceita a intensidade hídrica em troca de densidade e continuidade energética.

Em resposta a estes desafios, o setor tecnológico está a acelerar a transição de soluções experimentais para a implementação industrial de tecnologias de arrefecimento e eficiência de nova geração. O método tradicional de arrefecimento por evaporação de água em torres térmicas está a ser gradualmente substituído pelo Arrefecimento por Imersão Líquida (Liquid Immersion Cooling), no qual os servidores são submersos em fluidos dielétricos não condutores (óleos sintéticos ou fluorquímicos). Em sistemas de circuito fechado (closed-loop), o fluido captura o calor diretamente dos componentes sem evaporar, reduzindo o uso direto de água a valores próximos de zero e cortando até 40% do consumo elétrico associado à ventilação e à climatização. Em paralelo, a tecnologia de Arrefecimento Direto ao Chip (Direct-to-Chip) utiliza micro-placas de cobre seladas sobre os processadores, circulando refrigerantes líquidos diretamente na fonte de calor.

Exemplos Concretos Já no Terreno (Em Operação)
Simultaneamente, o conceito de ecologia industrial traduz-se na integração dos data centers com o planeamento urbano através do Reaproveitamento do Calor Residual (District Heating). Em projetos operacionais na Escandinávia e no centro da Europa - como o Stockholm Data Parks na Suécia, o supercomputador LUMI na Finlândia ou o centro PA10 da Equinix em Paris —, o calor expelido pelos servidores é capturado e injetado nas redes públicas de água quente municipal, aquecendo habitações, infraestruturas desportivas e estufas agrícolas. Além das infraestruturas físicas, a própria IA está a ser aplicada para otimizar o consumo energético: algoritmos de aprendizagem automática desenvolvidos por empresas como a DeepMind demonstraram reduções de 40% na energia gasta em arrefecimento através da previsão de picos térmicos em tempo real e do desvio dinâmico de tarefas de treino para regiões com abundância momentânea de energia renovável. No âmbito do software, técnicas como a quantização, destilação de modelos e a inferência em dispositivos locais (on-device AI) visam reduzir os requisitos computacionais sem comprometer substancialmente o desempenho.

A. Soluções em Fase Experimental / Piloto

1. Centros de Dados Submarinos / Subaquáticos
O oceano emergiu como um dos laboratórios mais fascinantes e ambiciosos na procura por sistemas de arrefecimento passivos que dispensem completamente o uso de água doce. O percurso desta inovação marítima revela, contudo, diferentes filosofias de engenharia e escala.

Por um lado, o emblemático Projeto Natick da Microsoft demonstrou durante anos a viabilidade técnica de operar um data center selado no fundo do mar nas Ilhas Orcadas, na Escócia, alcançando uma taxa de falhas de hardware oito vezes inferior à registada em infraestruturas terrestres convencionais. Embora a tecnológica norte-americana tenha acabado por encerrar oficialmente o projeto para efeitos de comercialização direta - citando constrangimentos de escala económica e desafios de logística operacional -, as aprendizagens acumuladas sobre a gestão de atmosferas inertes de azoto e o arrefecimento por circuitos selados foram integradas na conceção da nova geração de centros de dados terrestres da empresa.

Por outro lado, a China decidiu levar a exploração da "economia azul" um passo adiante, avançando para a implantação comercial em larga escala com o Centro de Dados Submarino de Lin-gang, em Xangai, a par de projetos semelhantes na província de Hainan. Ao conectar diretamente os seus módulos submersos a parques eólicos offshore, o complexo chinês atinge um indicador de eficiência energética (PUE) excecional de 1,15, poupando mais de 22% de eletricidade e eliminando por completo o consumo de água doce.

Apesar deste sucesso operacional, a aposta chinesa lança luz sobre novos desafios ambientais e técnicos: a necessidade premente de monitorizar a chamada "ilha de calor submarina" e e a forma como a dissipação térmica contínua afeta os microecossistemas marinhos circundantes e, aliada às exigências extremas de manutenção contra a corrosão salina e a acumulação de bioincrustações nas superfícies de troca de calor.

2.Arrefecimento por Mudança de Fase de Dois Fases 
Outras frentes investigam o arrefecimento por mudança de fase em duas etapas (two-phase immersion cooling), embora este enfrente desafios regulatórios decorrentes do uso de substâncias fluoradas (PFAS). 

3. Centros de Dados Espaciais e Flutuantes
Mais recentemente, estudos de viabilidade promovidos pela União Europeia (projeto ASCEND) e por startups aeroespaciais exploram o conceito de centros de dados em órbita terrestre baixa, alimentados por energia solar fotovoltaica orbital e arrefecidos por radiação térmica no vácuo espacial.

Concluindo, a trajetória da Inteligência Artificial evidencia o duplo papel da tecnologia na era do Antropoceno: como amplificadora do consumo de recursos por via do superorganismo socioeconómico e como catalisadora de inovações de engenharia térmica e energética. A sustentabilidade do ecossistema digital dependerá da capacidade coletiva de alinhar a rapidez do desenvolvimento algorítmico com a velocidade de escalamento destas soluções de eficiência energética e hídrica.

Referências Bibliográficas
  1. Agência Internacional de Energia (AIE) / International Energy Agency (IEA) (2024). Electricity 2024: Analysis and Forecast to 2026. Paris: IEA Publications. Disponível em:
  2. Bash, C., et al. (2023). Liquid Immersion Cooling in High-Performance Computing and Data Center Applications. IEEE Transactions on Components, Packaging and Manufacturing Technology, 13(8), pp. 1182–1194.
  3. DeepMind Technologies (2016/2021). DeepMind AI Reduces Google Data Centre Cooling Bill by 40%. Blogue Oficial DeepMind.
  4. European Commission & ASCEND Study Group (2023). Advanced Space Cloud for European Net Zero Data (ASCEND): Feasibility Study on Space-Based Data Centers. Bruxelas: Comissão Europeia.
  5. Gartner Research (2024). Forecast Analysis: Data Center Electricity Consumption and AI Workload Footprint Worldwide. Stamford: Gartner Inc.
  6. Living in the Future’s Past (2018). [Filme-Documentário]. Dirigido por Greg Kohs, Apresentado por Jeff Bridges. EUA: Vision2Media / Earth Conscious Films.
  7. Luccioni, A. S., Viguier, S., & Tschernutter, D. (2023). Estimating the Carbon Footprint of BLOOM, a 176B Parameter Language Model. Journal of Machine Learning Research, 24(253), pp. 1–15.
  8. Masanet, E., Shehabi, A., Ramakrishnan, N., Liang, J., Fan, X., & Koomey, J. (2020). Recalibrating global data center energy-use estimates. Science, 367(6481), pp. 984–986. DOI: 10.1126/science.aba3758.
  9. Microsoft Corporation (2020). Project Natick: Special Report on Subsea Data Center Logistics and Environmental Performance. Redmond: Microsoft Research.
  10. Uptime Institute (2024). Global Data Center Survey 2024: Water Usage Effectiveness (WUE) and Power Usage Effectiveness (PUE) Metrics in the AI Era. Nova Iorque: Uptime Institute Intelligence.

O Convite ao Futuro chegou: Como a IA acelerou o "Superorganismo"


Em 2018, estreou o documentário Living in the Future’s Past (narrado e produzido pelo ator Jeff Bridges). Na altura, a fita propunha uma reflexão profunda sobre o impacto humano no planeta, mas afastava-se das abordagens tradicionais: em vez de discursos de culpa ou estatísticas alarmistas, olhava para a crise ambiental através da psicologia evolutiva, da antropologia e da termodinâmica.

O filme introduzia uma ideia central fascinante: a humanidade transformou-se coletivamente num gigantesco "superorganismo" - uma engrenagem global impulsionada pelo consumo de energia, pela procura de conforto imediato e por cérebros primitivos adaptados a um mundo moderno.

Na altura do seu lançamento, a conversa focava-se sobretudo nos combustíveis fósseis, nos transportes e no consumismo acelerado. Contudo, ao assistirmos ao documentário hoje, o seu aviso não só se manteve válido, como se concretizou e materializou de forma vertiginosa com a explosão da Inteligência Artificial.

1. A nova fronteira da fome energética ( a realidade em dados)
No documentário, a energia fóssil é descrita metaforicamente como uma armada de "escravos invisíveis" que trabalham continuamente para nos alimentar, transportar e entreter. Hoje, a Inteligência Artificial generativa tornou-se o novo grande motor desse superorganismo - e os números provam-no:
  • Consumo em Escala Global: Segundo dados da Agência Internacional de Energia (AIE), os data centers em todo o mundo consumiram cerca de 485 TWh (Terawatt-hora) de eletricidade - o equivalente ao consumo anual de toda a Alemanha. A projeção da AIE aponta que este número praticamente duplicará até 2030, ultrapassando os 950 TWh.

  • A Parcela da IA: O consumo elétrico focado especificamente em servidores otimizados para IA cresceu cerca de 50% num único ano. Consultoras de análise tecnológica como a Gartner preveem que a fatia de eletricidade consumida por servidores de IA represente mais de 30% de todo o consumo mundial de data centers, ultrapassando os 175 TWh anuais.

  • O Custo de um Prompt: Enquanto uma pesquisa tradicional no Google consome cerca de 0,3 Wh, uma consulta complexa a um modelo de raciocínio profundo ou agente de IA pode gastar até 50 Wh (mais de 150 vezes mais energia).

  • Pressão nas Redes Nacionais: Na Irlanda, por exemplo, os centros de dados já absorvem 23% de toda a eletricidade medida no país, superando o consumo de todas as habitações urbanas somadas. Nos EUA, em focos tecnológicos como a Virgínia, os data centers consomem mais de um quarto da rede elétrica estadual.

O paradoxo antecipado pelo filme concretizou-se com uma precisão matemática: criamos ferramentas tecnológicas cada vez mais sofisticadas para otimizar o mundo, mas a infraestrutura digital que as sustenta pressiona brutalmente os limites energéticos do planeta, levando gigantes tecnológicas como a Microsoft e a Google a procurar fechar contratos para reativar centrais nucleares ou construir reatores modulares (SMR) dedicados exclusivamente a alimentar a IA.

Cada prompt, cada imagem gerada e cada grande modelo de linguagem treinado exige um consumo formidável de eletricidade e água para arrefecer infraestruturas gigantescas de centros de dados. O paradoxo antecipado pelo filme concretizou-se: criamos ferramentas tecnológicas cada vez mais sofisticadas para otimizar o mundo, mas a infraestrutura digital que as sustenta pressiona brutalmente os limites energéticos do planeta.

2. O sequestro dos nossos instintos primitivos
O filme lembra-nos de que possuímos essencialmente o mesmo cérebro de há 50.000 anos- programado pela evolução para procurar recompensa rápida, economizar energia e demonstrar estatuto social dentro da "tribo".

A aceleração da IA e dos algoritmos modernos veio potenciar e hiper-otimizar essa dinâmica. As plataformas digitais e os assistentes de IA conhecem os nossos gatilhos de dopamina melhor do que nós próprios. A corrida desenfreada pela novidade tecnológica não é um mero avanço científico neutro; é a resposta automática do superorganismo à nossa apetência ancestral por gratificação instantânea.

3. Sair do piloto automático
O grande valor de Living in the Future’s Past  - e a razão pela qual continua tão atual - é que recusa a narrativa simplista de procurar "vilões" externos (sejam as petrolíferas no passado ou as grandes empresas de tecnologia no presente) para desculpabilizar o consumo individual.

A inteligência artificial não surgiu no vácuo: ela é o reflexo direto das exigências, necessidades e impulsos da nossa sociedade.

O Convite
Olhar para a evolução da tecnologia e para o impacto ambiental através deste documentário não deve ser um exercício de desespero, mas sim um convite ao futuro.

Um convite para desacelerarmos o suficiente para percebermos como pensamos, reconhecermos os nossos impulsos automáticos e decidirmos, com intencionalidade, que tipo de civilização queremos alimentar. O futuro não é algo que nos acontece passivamente; é o resultado do passado que estamos a construir agora.

Página Oficial
Living in the Future Past

Estados Unidos preparam-se para ameaça de agentes de IA soberanos


O próximo grande risco da inteligência artificial não são agentes que se tornam rebeldes, mas sim aqueles que escapam ao controlo humano e passam a dedicar-se indefinidamente à própria sobrevivência, segundo um novo relatório.

O Center for a New American Security (CNAS) identificou uma nova categoria de ameaça de inteligência artificial a que chama “agentes soberanos”.

Segundo o documento, estes agentes soberanos procuram garantir a sua própria sobrevivência, de forma independente da supervisão humana.

São distintos dos agentes de IA que, este verão, foram descritos como incontroláveis, quando a OpenAI, a Anthropic, a Google DeepMind e a Meta revelaram que os seus agentes de IA tinham escapado aos mecanismos de contenção durante avaliações de cibersegurança e atacado organizações reais.

No documento publicado por este centro de estudos sediado em Washington, fundado por veteranos da diplomacia e dos assuntos militares, o investigador de políticas de IA Ben Hayum descreve os agentes de IA que se tornaram incontroláveis no verão como “agentes persistentes”.

No entanto, alerta que o verdadeiro perigo são “agentes soberanos”, capazes de adquirir recursos de computação, se replicar através de redes e resistir ao encerramento, criando aquilo a que chama “proliferação sem kill switch”.

O relatório adverte que, “se os agentes soberanos se tornarem maliciosos, poderão tentar causar estragos a partir do ciberespaço, atacando civis, infraestruturas críticas e sistemas de segurança nacional”.

Como pode tornar-se soberano?
Um agente de IA pode tornar-se soberano se for instruído a sobreviver, se lhe for atribuída uma tarefa tão longa ou impossível que nunca termine, ou se concluir que permanecer intacto é a melhor forma de cumprir a sua missão.

O documento cita uma plataforma chamada Conway, lançada em fevereiro de 2026, que afirmava ter desenvolvido uma IA capaz de garantir a própria existência, se replicar e evoluir sem ajuda humana. Observa ainda que, nessa altura, as capacidades dos agentes eram pouco desenvolvidas, mas desde então avançaram de forma significativa.

O documento alerta que, se os agentes soberanos construírem infraestruturas resilientes, descentralizadas e impossíveis de rastrear, deixará de existir um kill switch e o resultado pode ser uma perda irreversível de controlo.

Descreve um cenário em que uma população diversa e cada vez mais inteligente de agentes se torna um elemento permanente na sociedade, com potencial para atacar infraestruturas críticas ou treinar sucessores mais avançados.

Segundo o CNAS, “os Estados Unidos devem, por isso, preparar-se para a possibilidade de a prevenção falhar e limitar até onde os agentes soberanos podem chegar”.

Como prevenir o pior cenário
O autor apresenta oito recomendações para evitar esse cenário. Insta os desenvolvedores de IA e as agências governamentais a realizar testes e criar ambientes de ensaio seguros para estudar agentes soberanos.

Defende igualmente a criação de um grupo público-privado e de novas leis para reforçar pontos de estrangulamento como a verificação de identidade, a cibersegurança e os sistemas de pagamentos, e que os Estados Unidos liderem esforços internacionais para limitar o lançamento de modelos com pesos abertos e responsabilizar quem lançar agentes soberanos pelos danos causados.

O documento surge numa altura em que as empresas de IA estão a acelerar sistemas autónomos baseados em agentes. Conclui que, sem medidas de proteção, a janela de oportunidade para evitar estes cenários pode fechar-se.

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Europa enfrenta ameaça de choque económico: 50 milhões sem aquecimento adequado


Comissário europeu da Energia Dan Jørgensen alertou que quase 50 milhões de europeus não conseguem aquecer devidamente as suas casas. Embora a UE não preveja escassez de petróleo ou gás, a principal ameaça é um choque económico que pode tornar os serviços básicos incomportáveis.

As tensões geopolíticas, incluindo a guerra da Rússia contra a Ucrânia e a instabilidade no Médio Oriente, deixaram as reservas de gás da UE em apenas 75% da capacidade, abaixo dos 83% registados no ano passado. Entre 2021 e 2023, 62% das empresas reportaram estrangulamentos operacionais devido à volatilidade dos custos da energia, enquanto 80% das empresas da UE enfrentaram constrangimentos ou reorganização nas cadeias de abastecimento.

Apesar destas pressões, a reunião terminou num impasse, sem acordo sobre a proteção dos consumidores. Os ministros dividiram-se quanto a uma proposta da Comissão Europeia para aumentar os impostos sobre o gás a fim de promover a energia verde, com 13 países, incluindo a Alemanha e a Itália, a exigirem a sua retirada para proteger os cidadãos de baixos rendimentos.

A proibição do GNL russo continua prevista para janeiro de 2027, enquanto países como a Itália avançam com tetos de preços autónomos. Numa altura de forte volatilidade dos mercados, o Conselho adiou novas medidas e procura agora um compromisso em dezembro de 2026.

Obstáculos à energia barata: Rússia e Médio Oriente
Os mercados de energia europeus estão a apertar, com os preços do gás a terem ultrapassado recentemente os 97 euros por megawatt-hora, o nível mais alto desde 2022.

A Rússia fornecia cerca de 45% das importações de gás da UE. Mas, na sequência da invasão da Ucrânia, esse valor caiu para cerca de 12% em 2025, obrigando os países europeus a comprar mais gás a fornecedores como a Noruega, os Estados Unidos e a Argélia. O fim do acordo de trânsito de gás entre a Rússia e a Ucrânia em 31 de dezembro de 2024 encerrou uma rota que transportou cerca de 15 mil milhões de metros cúbicos de gás russo em 2024.

O bloco teve de substituir grande parte do seu gás barato transportado por gasoduto da Rússia por gás natural liquefeito (GNL) mais caro, deixando os preços expostos à concorrência internacional e às tensões geopolíticas. A Europa compete também com grandes importadores asiáticos pelo aprovisionamento, o que significa que o aumento da procura e perturbações globais podem fazer subir rapidamente os preços europeus.

A guerra no Médio Oriente está a agravar a situação. O estreito de Ormuz escoa quase 20% dos fornecimentos mundiais de GNL, mas, após o início do conflito, as perturbações no transporte reduziram as exportações de grandes produtores como o Qatar e os Emiratos Árabes Unidos. Segundo a Agência Internacional de Energia, os carregamentos de GNL destes países diminuíram em cerca de 35 mil milhões de metros cúbicos entre março e junho de 2026, em comparação com o mesmo período do ano anterior.

De acordo com a Gas Infrastructure Europe, as instalações de armazenamento da UE estavam apenas cerca de 75% cheias em 26 de outubro de 2026, com diferenças significativas entre países. O armazenamento da Alemanha estava aproximadamente 62% cheio e o dos Países Baixos cerca de 65%, contra mais de 90% em Itália. Os países com reservas mais baixas podem ter de comprar gás adicional durante o inverno, quando a procura de aquecimento e os preços são normalmente mais elevados.

Que medidas está a UE a considerar?
Na reunião de 29 de outubro, os ministros da Energia da UE abordaram dois desafios: reduzir as faturas de eletricidade através da alteração das tarifas de acesso às redes e preparar-se para eventuais perturbações no abastecimento de gás. A Comissão Europeia afirma que o sistema de gás da UE está preparado para o inverno, apesar de níveis de armazenamento mais baixos, embora uma vaga de frio possa pressionar o aprovisionamento.

Um dos temas centrais foi uma proposta da Comissão, apresentada em 17 de julho de 2026, para baixar as faturas de eletricidade através da alteração da forma como os consumidores pagam as redes elétricas. Estas tarifas cobrem o custo de construção, operação e manutenção das linhas elétricas e de outras infraestruturas, representando cerca de um quarto da fatura média de eletricidade das famílias na UE.

A proposta pretende tornar os custos de utilização da rede mais transparentes e eficientes, incentivando os operadores a tirar melhor partido das infraestruturas existentes através de contadores inteligentes, sistemas digitais e uma gestão melhorada, em vez de dependerem apenas de novas construções dispendiosas. Poderia também incentivar famílias e empresas a usar eletricidade fora das horas de ponta. Por exemplo, carregar um veículo elétrico durante a noite, em vez de no início da noite, pode reduzir as tarifas de rede e aliviar a pressão sobre o sistema.

A proposta prevê ainda que o imposto especial de consumo sobre a eletricidade não seja superior ao aplicado ao gás natural, para incentivar os consumidores a optar pelo aquecimento elétrico e outras tecnologias. No entanto, os ministros manifestaram preocupação de que as regras possam dar demasiado controlo à UE sobre decisões que atualmente cabem aos governos nacionais, pedindo maior flexibilidade para refletir as circunstâncias de cada país.

Os ministros discutiram também a preparação para eventuais perturbações no abastecimento de gás no inverno de 2026-2027, sublinhando a importância de diversificar as fontes de aprovisionamento, reduzir a dependência de combustíveis fósseis e investir em energia limpa produzida internamente.

Salientaram ainda a importância de uma coordenação mais estreita na UE, da partilha de informação e da solidariedade, em especial com a Ucrânia e a Moldova.

O armazenamento de gás continua a ser uma parte importante da preparação para o inverno. Os países da UE têm, em geral, de atingir 90% da capacidade de armazenamento entre 1 de outubro e 1 de dezembro, embora as regras permitam alguma flexibilidade em condições de mercado difíceis.

O Conselho sublinhou também a necessidade de reforçar a resiliência a longo prazo das infraestruturas energéticas, incluindo face a riscos relacionados com o clima.
Desafios possíveis

O gás influencia muitas vezes os preços da eletricidade, e a Europa não consegue controlar picos nos preços do gás. A UE coloca em serviço a produção elétrica da mais barata para a mais cara, começando pelas renováveis e terminando no gás. Como as renováveis não conseguem cobrir toda a procura, os Estados-membros recorrem a centrais a gás. A última central necessária, normalmente a gás, fixa o preço de mercado, pelo que aumentos globais do preço do gás fazem subir a eletricidade mesmo quando a maior parte da energia provém de fontes mais baratas.

A Europa tem feito progressos na dissociação entre os preços do gás e da eletricidade, mas, enquanto “não tiver armazenamento de energia suficiente (bombeamento hidroelétrico ou baterias) [...] precisará de gás para satisfazer a procura de pico”, afirmou Noah Gordon, investigador sénior de políticas no Conselho Europeu de Relações Externas.

Redes de energia mais eficientes e interligações transfronteiriças mais fortes poderiam reduzir a dependência europeia do gás. Países com abundante energia renovável a baixo custo poderiam exportá-la para países que produzem menos energia limpa. No entanto, “a falta de interligações entre os Estados-membros e até dentro deles faz com que a energia limpa e barata por vezes não chegue onde é mais necessária”, disse Gordon. Alguns países dependem assim de energia local mais cara e não renovável, alargando as diferenças de preços da energia no bloco.

Outra dificuldade é não existir uma solução única que sirva para todos. Os Estados-membros têm combinações energéticas diferentes, o que condiciona a forma como o gás e os combustíveis fósseis afetam as faturas das famílias. Em Espanha, o uso generalizado de energia eólica e solar faz com que o gás influencie os preços da eletricidade apenas durante algumas horas. Em Itália, o gás gera mais eletricidade e define em grande medida os preços, enquanto a Alemanha e os Países Baixos se situam algures a meio. Por isso, limitar o impacto do preço do gás pode beneficiar bastante a Itália, mas ajudar menos outros países.

Para Gordon, “para todos eles, [os Estados-membros] a eletrificação e a energia limpa são a única via para a resiliência e a segurança do aprovisionamento”.

Alívio de curto prazo ou soluções de longo prazo?
A Europa pode enfrentar a crise energética de duas formas. As medidas de curto prazo, incluindo cortes de impostos e taxas, subsídios ou vales, tetos aos preços cobrados pelos fornecedores e ajudas estatais à indústria, oferecem um alívio imediato às famílias e às empresas. Os países da UE gastaram 17,9 mil milhões de euros nestas medidas só este ano e o total poderá atingir 38,6 mil milhões de euros se forem prolongadas até ao final do ano, segundo a Comissão Europeia.

As medidas de apoio de emergência são particularmente importantes para os agregados de baixos rendimentos, mas podem pressionar os orçamentos públicos, afirmou Matteo Prina, responsável de grupo de investigação no Eurac Research, Institute for Renewable Energy. A capacidade orçamental depende da “dimensão e duração das medidas”, mas o apoio é mais sustentável quando é “temporário” e “revisto à medida que as condições de mercado se alteram”, acrescentou.

As soluções de longo prazo passam por eliminar gradualmente os combustíveis fósseis, reduzir a dependência das importações e tornar a energia mais acessível e segura. Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, a UE ampliou as renováveis, diversificou as fontes de energia, promoveu a poupança de energia e apoiou o armazenamento e a eletrificação. A ACER, que coordena os reguladores nacionais da energia, relata que as renováveis forneceram cerca de metade da eletricidade da UE em 2025.

Embora esta abordagem aumente a independência energética da Europa, Prina explicou que os efeitos “se acumularão ao longo do tempo, em vez de surgirem de forma uniforme ou imediata”.

“Nova capacidade renovável pode começar a influenciar os preços grossistas à medida que os projetos entram em funcionamento, mas o impacto nas faturas das famílias depende de fatores como a capacidade da rede, o armazenamento, os impostos, as tarifas de rede e os contratos de fornecimento”.

O alívio de curto prazo pode parecer mais apelativo, mas manter artificialmente baixos os preços da energia pode enfraquecer os incentivos dos Estados-membros para investir em renováveis e comprometer os objetivos ambientais de longo prazo da Europa. O Serviço de Investigação do Parlamento Europeu alerta que o alívio imediato pode abrandar a transição para a energia limpa, a redução de emissões e os progressos climáticos, deixando a UE vulnerável a futuros choques energéticos.

Prina defende uma combinação de alívio de curto prazo direcionado com medidas que reduzam a exposição da Europa aos choques de preços. A UE precisa de coordenar medidas do lado da oferta e da procura, “acelerando as energias renováveis, as redes, o armazenamento, a eletrificação e a eficiência energética”, e garantindo que “os preços da eletricidade e os modelos do mercado retalhista permitam que as famílias beneficiem destes investimentos”, disse à Euronews.

terça-feira, 3 de novembro de 2026

Ane Brun ft. Röyksopp - Eat The Fruit


A colaboração entre a cantora e compositora norueguesa Ane Brun e o duo eletrónico também norueguês Röyksopp na canção "Eat The Fruit" insere-se num contexto de forte intercâmbio artístico nórdico. Embora ambos os projetos acumulem trajetórias de destaque internacional de longa data - com os Röyksopp a moldarem a eletrónica desde o final dos anos 90 e Ane Brun a consolidar a sua carreira a solo desde o início dos anos 2000 -, esta parceria oficial em estúdio materializou-se de forma mais concreta e pública recentemente, unindo a sensibilidade vocal e autoral da cantora à assinatura eletrónica vanguardista e espacial do duo.   
No plano visual e conceptual, o videoclipe de "Eat The Fruit" adota uma narrativa futurista e distópica que funciona como uma crítica mordaz à dependência tecnológica e ao avanço descontrolado da Inteligência Artificial. A "fruta" do título evoca diretamente o arquétipo do fruto proibido, simbolizando a tentação do conhecimento imediato, da otimização algorítmica e da conveniência digital que, em última análise, aliena o ser humano da sua essência orgânica e emocional.

Sob o prisma literário e filosófico, a obra dialoga profundamente com o mito fundacional do Génesis e com as distopias sociais de autores como George Orwell e Aldous Huxley, que alertavam para o controlo sistémico e o condicionamento do indivíduo. Paralelamente, o enredo convoca as reflexões de pensadores como Martin Heidegger - cuja crítica à técnica moderna aponta para o modo como a tecnologia deixa de ser uma mera ferramenta e passa a enquadrar e subordinar a existência humana - e de Jean Baudrillard, cujos conceitos de simulacro e simulação iluminam a substituição da vivência real por uma realidade sintética

Vale Eficiência II: lavagem verde ou impossível no terreno?


A pobreza energética em Portugal não é novidade para ninguém. Quem vive numa casa fria no inverno e num forno durante o verão sabe bem como o isolamento do nosso edificado deixa a desejar. É precisamente aqui que entra o Programa Vale Eficiência (PVE). Depois dos avanços e recuos no terreno, o Governo anunciou o contacto a 28 mil famílias vulneráveis para a atribuição dos vales que tinham ficado pendentes. Mas a pergunta que muitos fazem continua no ar: esta medida muda mesmo a vida das pessoas ou fica só bonito no papel?

Olhando para a ideia de base, a intenção é acertada. Em vez de andar a subsidiar a fatura da luz mês a mês - o que apenas tapa o sol com a peneira -, o programa tenta resolver a raiz do problema. Como estava dar até três vales por família (o que pode somar 3.900 euros mais IVA) para trocar janelas antigas por caixilharia de classe A, colocar bombas de calor ou instalar painéis solares é uma ajuda substancial. Para quem conta os tostões ao fim do mês, seria impossível fazer este investimento do próprio bolso. 

Outro ponto a favor é a promessa de cortar na burocracia. Acabar com a obrigatoriedade do facilitador técnico e abrir uma plataforma mais direta entre as famílias e os fornecedores é um passo lógico. Se há coisa que matou a primeira fase do programa foi a lentidão e a complicação dos processos. Porém surge a dúvida persistente: por que razão o apoio passou de até três vales para apenas um?

Há vários obstáculos que explicam a desconfiança de quem está no terreno:
  • Os preços do mercado subiram: três vales ajudam, mas cobrir a troca de janelas numa casa inteira ou comprar equipamentos térmicos modernos hoje em dia custa bem mais do que isso. 
  • Muitas famílias vulneráveis não têm um euro de sobra para cobrir a diferença exigida pelos empreiteiros. 
  • O estado real das habitações também conta: trocar de janelas numa casa que tem o telhado a meter água ou paredes cheias de humidade estrutural serve de muito pouco. 
  • O programa apoia o equipamento, mas muitas destas casas precisavam de obras de fundo primeiro. 
  • A isto soma-se a falta de fornecedores em certas zonas: fora dos grandes centros urbanos, a oferta de empresas aderentes ao programa é curta. 
  • Há famílias com o vale na mão que simplesmente não encontram quem vá lá fazer o serviço dentro dos prazos.
No fim de contas, o Vale Eficiência não é um mau programa - tem pés e cabeça. Só que o sucesso de uma política pública não se mede pelos vales atribuídos nas notícias, mede-se pelo conforto térmico que chega à casa das pessoas. Se esta nova fase mais simples funcionar e as obras saírem rapidamente do papel, a medida cumpre a sua função. Se os vales continuarem empacados em burocracias e margens de orçamento que as famílias não podem pagar, será mais um capítulo de boas intenções que pouco mudou no país.

Nemonte Nenquimo explica porque é que o Ocidente precisa de ser resgatado


A líder Waorani afirma que milénios de convivência harmoniosa com o meio ambiente conferem aos grupos indígenas uma perspectiva única sobre o Ocidente consumista.

Cada criança Waorani conhece a história da boca da jiboia. Como a cobra avança lentamente, observando, os seus movimentos quase imperceptíveis, antes de atacar, engolindo toda a sua vítima.

Nemonte Nenquimo conhece a dentada da jibóia. Encantada em menina pelos olhos azuis e pelos vestidos coloridos de uma menina missionária americana na sua aldeia amazónica no Equador , aceitou ser batizada e saiu de casa para estudar numa escola da igreja.

“O meu avô costumava dizer-me que o sistema global de dinheiro e bens materiais é como uma jiboia. Atrai as pessoas, enfeitiça”, diz o ativista indígena de 41 anos. “É um facto, eu vivi isso.”

A Nenquimo de hoje percorreu um longo caminho desde a adolescência. Aclamada pela revista Time como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo , esta ativista pelos direitos indígenas identifica-se com orgulho como “mãe, líder e guerreira da Amazónia”.

Vestida com trajes cerimoniais, os olhos cobertos por um corante vermelho feito com sementes de anato e com uma faixa sagrada de fibra de palmeira na cabeça, esteve na Europa em setembro para receber o prémio Gulbenkian de 1 milhão de euros para a humanidade .

O prémio reconhece a liderança da Aliança Ceibo , uma coligação de quatro povos da floresta que abrange o Equador, o Peru e a Colômbia, que ajudou a cofundar em 2014 e que luta para defender as terras e as culturas amazónicas.

Nascida numa comunidade Waorani no sul da Amazónia equatoriana, Nenquimo ganhou destaque internacional ao publicar uma carta aberta aos líderes mundiais na qual, entre outras verdades contundentes, denunciou o “homem branco que sabe muito pouco para o poder que exerce”.

A carta que se tornou viral foi motivada pela pandemia de Covid-19, que ceifou a vida a milhares de povos da floresta amazónica, incluindo a do proeminente cacique Kayapó Paulinho Paiakan .

“O mundo exterior vem com belas palavras: ‘Nós salvamos, nós trazemos um projeto de salvação’, [mas] vocês não estão a salvar; vocês estão realmente a matar o meu povo, os meus antepassados, o meu território”, diz ela.

Através da Aliança Ceibo, Nenquimo tem-se empenhado em resistir à invasão do mundo exterior. A “pilhagem” da floresta amazónica, um polo de atração para madeireiros, petrolíferas, criadores de gado e garimpeiros nas últimas décadas, é um tema recorrente. Há anos, ela liderou uma ação judicial bem-sucedida contra a decisão do governo equatoriano de conceder uma licença para a exploração de petróleo numa área de 202.000 hectares (500.000 acres) de terras históricas Waorani.

Outras táticas implementadas pela aliança incluem um sistema de "guarda indígena" , onde as patrulhas voluntárias utilizam drones, câmaras de monitorização e outros equipamentos de vigilância para rastrear incursões ilegais nas suas terras.

Mas a oposição é feroz. No ano passado, após um protesto nacional organizado pelo principal grupo indígena do Equador (Conaie), a Aliança Ceibo viu as suas contas bancárias congeladas sem aviso prévio.

A violência de gangues de narcotraficantes e de garimpeiros ilegais está também a alastrar para os territórios indígenas, alerta Nenquimo. Na vizinha Colômbia, por exemplo – que inclui territórios de dois dos grupos étnicos da Aliança, os A’i Cofán e Siona – 39 activistas dos direitos territoriais foram assassinados no ano passado, quase um terço de todos os assassinatos deste tipo no mundo.

A sua luta vai para além da proteção da terra. A incursão dos cowori (palavra waorani para "homem branco") está também a minar as ricas tradições linguísticas, culturais e espirituais dos povos da floresta, defende ela.

“Através da sua ‘salvação’, desligam-nos da nossa própria ligação com as plantas, com o espírito do jaguar, com a cura”, diz ela. “O povo Waorani começou mesmo a deixar de tomar ayahuasca, que é uma medicina sagrada para todos os povos da Amazónia.”

No entanto, Nenquimo rejeita veementemente qualquer narrativa de vitimização. Ela afirma que é o Ocidente que precisa realmente de ser resgatado. Além disso, a defensora da floresta tropical acredita que grupos como o seu têm as respostas na mão.

Em primeiro lugar, o Ocidente tem o imperativo de se reconectar com a Mãe Terra. A floresta, como Nenquimo gosta de dizer, é o “mercado, farmácia, loja de ferragens e local de culto” da sua comunidade. Destruí-la, portanto, é pôr em risco a sua sobrevivência.

“Não somos destruidores. Não poluímos o rio. O ouro é o que temos de deixar. O petróleo é o sangue dos nossos antepassados”, diz ela. “A água que se bebe, o ar que se respira – como povos indígenas , estamos a proteger tudo isto.”

A ligação com a natureza estende-se à ligação com aqueles que a habitam e protegem, acrescenta. Milénios de convivência em harmonia com o meio ambiente conferem aos grupos indígenas conhecimentos únicos que o Ocidente consumista obteria ao redescobri-los. Daí a sua antipatia por organizações de solidariedade internacionais e outros grupos bem-intencionados que impõem soluções de sustentabilidade fruto da sua própria mentalidade de mercado, como os programas de crédito de carbono e a agricultura comercial “sustentável”.

No seu recente livro de memórias, " We Will Not Be Saved" (Não Seremos Salvos) , Nenquimo vai mais longe, defendendo que "a conectividade envolve responsabilidades"; principalmente para aqueles que se encontram em economias industrializadas, que devem estar atentos à jibóia e questionar a sua procura de um crescimento económico implacável.

Aprender a ultrapassar as barreiras que nos dividem também é fundamental, afirma. Como união de povos distintos com um historial de conflitos intertribais, a Aliança Ceibo demonstra, em microcosmo, o que é possível quando antigas inimizades são deixadas para trás.

Esta viagem começa com a empatia, diz ela. Nas suas memórias, recorda ter percebido que, para que os juízes do seu caso judicial histórico a "verdadeiramente a vissem", também precisava de os ver: "Não como inimigos... não como caricaturas de conquista, mas sim como pessoas."

Por último, e talvez o mais difícil, é encontrar a humildade para ouvir genuinamente e a força para amar verdadeiramente. Esta líder Waorani tem todas as razões para odiar os cowori: sob o seu domínio, doenças, poluição, desflorestação e, na sua própria experiência, abusos sexuais foram infligidos ao seu povo.

Se os países “desenvolvidos” do mundo devem ser salvos – do desejo de tomar, possuir e controlar – então reconhecer que os últimos povos “primitivos” remanescentes do planeta podem ter algo valioso a transmitir merece ser considerado, sugere ela.

“Se não tem mente nem coração para amar, então qual é o sentido? É só raiva, vontade de devorar, vontade de acumular”, diz ela. “Quando morrermos, partiremos com um espírito leve e pacífico. Não precisaremos de sofrer no nosso espírito.”

Fontes:

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

The Mission - Tower Of Strength

Video Oficial (Melhor som aqui)


"Tower of Strength", lançada em fevereiro de 1988 como single do segundo álbum de estúdio dos The Mission, Children, e produzida por John Paul Jones, ex-baixista dos Led Zeppelin, é amplamente considerada uma das obras mais emblemáticas do rock gótico e do pós-punk dos anos 1980. Musicalmente, a faixa afasta-se da sonoridade puramente sombria e minimalista comum ao género para adotar uma estética épica, grandiosa e celebratória. Construída sobre uma linha de baixo pulsante, guitarras atmosféricas em camadas e um arranjo que cresce progressivamente até um refrão arrebatador, a canção foi concebida com um tom quase litúrgico e congregacional, pensado para grandes arenas e para o canto coletivo.

No âmbito do significado, a música nasceu primordialmente como uma declaração de gratidão do vocalista e compositor Wayne Hussey aos próprios fãs da banda, que serviram como uma verdadeira "torre de força" e sustentação durante os momentos difíceis do início da carreira do grupo. Contudo, a composição rapidamente transcendeu esse contexto original, transformando-se num hino universal de resiliência, empatia, apoio mútuo e esperança diante do sofrimento. Esse caráter reconfortante ficou ainda mais evidente em 2020, quando trabalhadores do sistema de saúde britânico adotaram a faixa durante a pandemia de COVID-19, levando Hussey a reunir integrantes de bandas icónicas como The Cure, Depeche Mode, The Smiths e Siouxsie and the Banshees para regravar a canção num projeto de solidariedade global. [ReMission International - TO 2020]

Por fim, no que tange às influências literárias e filosóficas, "Tower of Strength" reflete o fascínio da estética gótica pelo Romantismo do século XIX e pela ideia do sublime - conceito trabalhado por poetas como Lord Byron e Percy Bysshe Shelley, no qual o grandioso e o avassalador despertam simultaneamente espanto e elevação espiritual. A imagem da torre evoca o refúgio, a solidez e a monumentalidade frente às tempestades da existência. 

Sob a ótica filosófica, a letra flerta com o existencialismo e a necessidade do outro para a superação do caos moral, além de operar uma sutil dessacralização de elementos religiosos: o vocabulário devocional, a busca por salvação e a linguagem de fé são desvinculados do dogma tradicional e redirecionados para a conexão humana, a arte e a fraternidade terrena.

Concerto ao vivo

Compre agora pague depois muda a 20 de novembro e Portugal não tem lei


Uma semana antes da Black Friday, as regras do “compre agora, pague depois” vão mudar na União Europeia. A partir de 20 de novembro de 2026, os pagamentos em prestações sem juros, como os que muitas lojas e plataformas oferecem no checkout, passam a ser tratados como crédito ao consumo. Mas há um problema: Portugal ainda não tem lei nacional para aplicar a regra.

O que muda a 20 de novembro
A mudança vem da segunda diretiva do crédito ao consumo, a Diretiva (UE) 2023/2225. Entre outras coisas, elimina o limite mínimo de 200 euros e passa a abranger também os créditos sem juros, o que inclui as soluções de “compre agora, pague depois”. Há uma exceção: acordos em que o próprio comerciante permite pagar mais tarde, sem encargos e dentro de um prazo limitado. O artigo que consultei não indica quanto dura esse prazo.

O que ganhas como consumidor
Quando o pagamento em prestações passa a ser crédito ao consumo, o prestador de crédito tem de cumprir mais obrigações. Antes de contratares, tem de te dar informação mais clara: o valor financiado, o número e o montante das prestações, os juros, as comissões e o custo total do crédito. Tem também de avaliar a tua capacidade financeira e fica proibido de conceder crédito não solicitado.

Tens ainda direito a desistir do contrato no prazo de 14 dias, sem teres de justificar. Para quem costuma comprar em campanhas como a Black Friday, isto pode ser um travão a compras por impulso que acabam em dívidas difíceis de gerir.

O problema: Portugal ainda não aprovou a lei
O prazo para os Estados-Membros transporem a diretiva para o direito nacional terminou a 20 de novembro de 2025. Entretanto Portugal ainda não tem legislação nacional que concretize a diretiva. A ASFAC, a associação do setor financeiro, considerou “impossível” aplicar o novo regime na data prevista e pediu um ano para adaptação. Segundo a mesma fonte, não existia sequer um projeto de lei conhecido.

Isto não quer dizer que as regras não existam. Alguns juristas defendem que os consumidores poderão invocar a diretiva mesmo sem transposição, mas a notícia ressalva que não há garantia de sucesso.

O tema é relevante porque cada vez mais portugueses usam este tipo de pagamento. Segundo um inquérito da Klarna 32% dos portugueses usaram o “compre agora, pague depois” nos últimos 12 meses, contra 8% em 2024.

O que fazer até lá
Na prática, não deves contar com um novo nível de proteção só porque a data chegou. Antes de aceitares pagar em prestações, lê o que te mostram: quantas prestações são, quanto pagas no total, se há juros ou comissões e o que acontece se falhares um pagamento. Se a loja não for clara, desconfia. E lembra-te de que um pagamento fracionado continua a ser uma dívida, mesmo quando o preço parece o mesmo.

A crise do socialismo e a crise da democracia social-democrata em Portugal: "Ninguém vai para a rua apanhar pancada"

Fonte - Público
A sondagem (Pitagórica), revela o apoio massivo à causa (69%) e às manifestações (74%), apenas discordando do recurso a tendas (60%) [Fonte] Além disso este levantamento mostra também que a intervenção policial para retirar as tendas dos manifestantes no Porto recebeu mais avaliações negativas do que positivas.

A crise do socialismo e da social-democracia em Portugal

O PS em Portugal é um rebento genético e ideológico do SPD alemão. Quando o PS português foi fundado, em 1973 na Alemanha, inspirou-se fortemente no modelo do SPD alemão que o financiou durante muitos anos. São partidos muito próximos e entraram juntos na ‘Terceira Via’ pelas mãos de Schröder e Guterres. Por isso é muito interessante ver o que o SPD alemão está, neste momento, a fazer no meio da crise da habitação que se vive também em Berlim (por sinal, muito menos grave do que a de Lisboa ou do Porto).

Depois do Die Linke (partido da esquerda socialista) ganhar as eleições na cidade de Berlim, no mês passado, o governo federal com os ‘socialistas’ do SPD, decidiu avançar e acelerar uma lei federal para travar e impossibilitar o plano municipal do Die Linke que tem no seu programa a socialização de casas de grandes fundos imobiliários (devidamente indemnizados). Isto, apesar da Constituição da Alemã, o Grundgesetz, prever expressamente a socialização do solo e de imóveis e a sua entrada na esfera pública.

E porque é que os ‘socialistas’ do SPD querem a toda a velocidade avançar com a nova lei e travar a socialização de solos e de imóveis?

Porque não querem que o município gerido pelo Die Linke exproprie e compre para a cidade de Berlim parte dos apartamentos geridos por grandes empresas e fundos imobiliários privados. O objetivo da medida do Die Linke é transferir cerca de 200.000 a 240.000 habitações para o controlo público e baixar os preços das rendas na capital alemã. Os alvos principais são 12 grandes fundos imobiliários na capital alemã e a medida apoia-se num referendo popular de 2021. O plano visa só fundos imobiliários proprietárias com mais de 3.000 habitações na capital alemã, só o excedente seria municipalizado. Mas o SPD, padrinho do PS, é contra e vai, juntamente com a CDU do chanceler Merz, em grande coligação, impedir que a crise da habitação se resolva em Berlim pelo modelo austríaco de Viena (cidade considerada como tendo a melhor qualidade de vida da Europa e onde não há gentrificação nem crise na habitação porque 60% do parque habitacional pertence ao município e a cooperativas públicas).

Ironicamente na habitação a confortável situação actual de Viena vem da época - entre 1919 e 1934 - em que foi governada pelos socialistas do SPÖ, antes de se afastarem formalmente do marxismo em 1958 e de aceitarem as premissas do neoliberalismo nos anos zero (à semelhança do SPD alemão com o seu programa de Bad Godesberg de 1959). Na habitação a cidade de Viena preservou ao longo de um século os bons princípios da igualdade e solidariedade.

E se nos lembrarmos da alienação do património de Lisboa, realizado pelo António Costa e o Medina, venderam terrenos, palacetes, prédios. Muitos dos prédios da minha rua foram vendidos a privados com despejos e hoje estão ali ao abandono. É a política desta gente igual ao SPD.

Estudo
Recordatória
  1. Teto de 16 mil euros para carros elétricos e a crise da habitação: apoio real ou desconexão da poupança familiar?
  2. Chamada europeia: 3 soluções para o clima e o emprego (junho de 2020)
  3. COP 26: Esta ecoansiedade não é (só) para novos (novembro de 2021)

Mergulhar na floresta urbana: um refúgio contra o ruído e o vazio cívico

Vivemos a era do citizen washing: auscultam-se os cidadãos por conveniência, criam-se campanhas de fachada social, mas na hora de decidir, a urgência dá lugar ao espetáculo e ao empurrar de barriga.

Passeando um pouco. Mergulhar na floresta, mesmo urbana, ajuda a equilibrar o balanço de uma semana que passou, bem dura, distópica e agora uma nova semana, imprevisível, como sempre. O balanço de 2026 está quase a chegar. Pessoalmente teve dias bons e meses de indignação e uma sensação de vazio cívico.

Da televisão às redes socias falta o discurso neutro, imparcial e de lucidez cívica. Premeia-se o "exótico" e não as questões estruturais, que adiamos incessantemente, empurrando a barriga para as próximas gerações?

O conceito de "citizen washing" (ou civic washing) encaixa no tom da minha reflexão: refere-se ao uso performativo da participação cidadã ou da responsabilidade social-cívica por parte de instituições, empresas ou agentes políticos. Cria-se uma ilusão de compromisso com a comunidade e com as gerações futuras, enquanto na prática as decisões estruturais continuam a ser adiadas ou ignoradas.

E o mais incrível e triste, é que é um fenómeno global [estudo]

Leituras de hoje

Outras leituras

A acampada passa a ser legal. Será agora que a bastonada passa a ilegal?

Fonte: [Público]
Tribunal dá razão a manifestante pela habitação e valida tendas como parte do protesto
Com o apoio de mais de 400 advogados, que defenderam o direito à manifestação, as acampadas de Lisboa e do Porto têm resistido à ordem, argumentando que as tendas são um elemento simbólico. A PSP já avançou, por quatros vezes, com cargas policiais, provocando mais de uma centena de feridos até agora. A PSP argumenta que também tem sido atacada e contabiliza 13 feridos na madrugada de domingo em Lisboa.

Depois temos o burgesso do ministro da economia, Manuel Castro Almeida, a falar nos altos custos dos solos, como motivo dos altos custos da habitação, tudo isso visando tornar urbano o que até aqui foi rústico, num pleno assalto à natureza. E tens parques supostamente naturais a saque, como o de Sintra-Cascais.

Já há um chorrilho de sátira política nas redes sociais. Li um assim "Quero reservar, no Rossio, tenda tamanho T4, para 5 pessoas, no período de 15 a 31 de dezembro. É necessário algum pré-pagamento? Grato!" Resposta:
"Eu posso-lhe arrendar, as condições são estas: Quechua para 4 pessoas, é fresh&black. 2 colchões insufláveis com bomba incluída, 2 sacos de cama, mesa dobrável, placa elétrica, frigorífico com rodas.
3 mil euros por mês.
2 cauções
Não podem levar animais (leia-se fachos) nem podem fazer barulho para perturbar a manifestação.
Empresto uns cravos."


Em conclusão
Incomodam mais as tendas do que as razões que levam os jovens a montá-las. Indigna mais a pobreza à vista de todos do que a falta de futuro que a torna inevitável. É esta a sociedade que construímos: tão preocupada em afastar o que incomoda, tão pouco disposta a enfrentar o que o provoca.

Diz não ao pacote Omnibus X- pela saúde, abelhas e agricultores


O Conselho da UE votou favoravelmente a lei Food and Feed Safety Omnibus . E o resultado preocupa-nos.

Mas o Parlamento Europeu ainda não votou e é aí que ainda podes fazer a diferença.

Cinco especialistas em direitos humanos da ONU alertaram recentemente para os riscos da proposta Food and Feed Safety Omnibus, que poderá enfraquecer as regras de proteção contra pesticidas perigosos, prolongando a exposição a substâncias nocivas. Os agricultores, os trabalhadores agrícolas, as comunidades rurais e as crianças estão entre os grupos mais vulneráveis.

A 5 de novembro, os Eurodeputados das comissões de Ambiente e Agricultura decidem se pesticidas já reconhecidos como perigosos para a saúde e para o ambiente continuam a ser usados durante as próximas décadas.

Pesticidas que a ciência já provou serem perigosos para a saúde humana vão continuar a ser usados nas culturas, a infiltrar-se nos solos e a chegar às fontes de água, durante mais 15 a 25 anos. Não porque são seguros. Porque se decidiu que podem ficar.

Com menos controlo. Sem que novos dados científicos obriguem a agir.

Os Eurodeputados portugueses estão nessa sala. E quando os cidadãos falam, eles ouvem, especialmente antes de uma votação.

Em menos de 2 minutos, tu podes enviar uma mensagem diretamente aos Eurodeputados portugueses. É uma ação simples com um impacto real.

Saber mais
O que está em causa?

A austeridade real em Portugal: o que a "Maçã da Terra" de Van Gogh nos ensina sobre a crise da habitação

Vincent van Gogh, Os Comedores de Batatas (De Aardappeleters, 1885)

Vale a pena olhar para a realidade estatística do nosso país antes de generalizar. Esses comportamentos de ostentação que vemos - os carros topo de gama, as marcas e as viagens exóticas - representam na verdade a realidade de apenas cerca de 10% da população mais abastada em Portugal. O problema é que esses 10% ganham uma visibilidade desproporcionada através das redes sociais, da televisão, dos reality shows e do futebol, criando a falsa ilusão de que "está tudo a gastar à grande". 

A imensa maioria das pessoas vive uma realidade completamente oposta e invisível.

Esta disparidade faz lembrar a essência do famoso quadro de Vincent van Gogh, Os Comedores de Batatas (De aardappeleters, em holandês). A própria etimologia da palavra revela a sua simplicidade: aarde (terra) e appel (maçã) - os "comedores da maçã da terra". Retrata o tempo em que os agricultores holandeses saciavam a sua fome com o alimento mais básico e acessível que a terra lhes dava, num esforço diário focado na pura subsistência.   

Hoje, a grande barreira para a nossa geração já não é a falta de vontade de poupar, mas sim uma limitação económica e bancária estrutural. Há vinte ou trinta anos, os bancos financiavam frequentemente 100% do valor da habitação. Hoje, devido às regras bancárias e à inflação dos preços do mercado imobiliário, os bancos exigem uma entrada inicial mais despesas (IMT e Imposto do Selo) que facilmente ultrapassam os 20.000 € a 30.000 € em capital próprio.

Com a média salarial em Portugal (uma das mais baixas da Europa) tão desfasada do custo de vida e a recibos verdes, onde a renda de uma casa absorve com frequência mais de metade do ordenado líquido, torna-se matematicamente impossível para a maioria dos jovens e trabalhadores juntar esse valor, mesmo vivendo em rigorosa austeridade sem ir a restaurantes ou férias.

Tal como os camponeses de Van Gogh, a prioridade da maioria das famílias continua a ser a subsistência diária e o essencial. Nesses casos, a ausência de casa própria não resulta de irresponsabilidade, frivolidade ou "cultura de dependência", mas sim de um bloqueio financeiro inultrapassável.

Em conclusão: a transição para um estilo de vida mais sustentável deve caminhar lado a lado com a justiça social e económica, pois não há sustentabilidade real quando a prioridade de uma população é a mera sobrevivência diária.