O bilionário que acredita que a democracia pode ser incompatível com a liberdade está ligado a uma empresa que trabalha com governos e forças militares, financia experiências de “cidades privadas”, reúne algumas das pessoas mais poderosas do mundo numa organização reservada e agora está a viver na Argentina de Javier Milei. Pelo caminho, começou também a dar conferências privadas sobre o Anticristo.
Peter Thiel é uma daquelas figuras que parecem ter sido retiradas de um romance de ficção científica.
É bilionário, cofundou o PayPal e a Palantir, foi um dos primeiros grandes investidores do Facebook, financiou políticos norte-americanos como Donald Trump e J. D. Vance, apoia experiências de novos modelos de governação e é uma das figuras mais influentes do chamado tecno-libertarianismo.
Mas, nos últimos dois anos, Thiel tornou-se conhecido por algo ainda mais peculiar.
Começou a dedicar uma série de conferências privadas ao Anticristo, defendendo uma visão apocalíptica na qual uma tentativa de resolver grandes problemas globais – como alterações climáticas, inteligência artificial ou guerra nuclear – poderia acabar por conduzir a um governo mundial totalitário.
Em 2026, levou essas conferências para Roma, a poucos quilómetros do Vaticano.
Entretanto, uma fuga de informação revelou pela primeira vez uma visão muito mais detalhada do funcionamento de Dialog, uma organização privada que Thiel ajudou a fundar em 2006 e que durante cerca de duas décadas manteve os seus membros e encontros longe do escrutínio público.
E, enquanto tudo isto acontecia, Thiel instalou temporariamente a família na Argentina de Javier Milei.
Não se trata de acontecimentos isolados.
Existe uma linha de pensamento que atravessa todos eles: a desconfiança em relação às instituições democráticas tradicionais, a defesa da inovação tecnológica sem demasiadas restrições, a concentração de poder em indivíduos altamente capazes e a procura de novos modelos de organização da sociedade.
Quem é Peter Thiel?
Nascido em Frankfurt, na Alemanha, em 1967 e criado posteriormente nos Estados Unidos, Thiel estudou Filosofia e Direito em Stanford.
A sua carreira começou no mundo financeiro e jurídico, mas ganhou uma dimensão completamente diferente quando cofundou, em 1998, a PayPal com um grupo de empreendedores que viria a ficar conhecido como a “PayPal Mafia”.
Depois da venda da empresa ao eBay, em 2002, Thiel começou a investir em tecnologia.
Um dos seus investimentos mais famosos foi o Facebook: em 2004, tornou-se o primeiro grande investidor externo da empresa, colocando cerca de 500 mil dólares na então pequena rede social.
O investimento acabaria por valer milhares de milhões.
Mas seria outra empresa que definiria a sua influência política e tecnológica.
A infância em África
Thiel nasceu na Alemanha, mas a sua família mudou-se para África quando ele ainda era criança.
Durante alguns anos viveu na África do Sul e no então Sudoeste Africano, território administrado pela África do Sul que viria a tornar-se a Namíbia.
Em Swakopmund, cidade costeira de forte herança alemã, Thiel frequentou uma escola de língua alemã enquanto o seu pai trabalhava numa mina de urânio em Rössing. Aos dez anos, deixou África e mudou-se com a família para os Estados Unidos.
A época e o lugar são importantes.
Thiel cresceu numa sociedade organizada pelo apartheid, num sistema em que a população branca ocupava uma posição privilegiada e a população negra era submetida a uma complexa estrutura de segregação racial e desigualdade.
Swakopmund tinha ainda uma característica particularmente invulgar: décadas depois da derrota da Alemanha nazi, a cidade conservava uma forte presença da cultura alemã e, segundo relatos recolhidos pelo
Guardian, existiam naquele período manifestações abertas de nostalgia nazi.
O contexto familiar também estava ligado à indústria extractiva.
O pai de Thiel trabalhava numa mina de urânio, enquanto a população negra empregada nas minas vivia em condições muito diferentes das dos gestores brancos. O Guardian descreve uma estrutura em que os trabalhadores negros recebiam salários baixos e viviam em condições precárias, enquanto os gestores brancos beneficiavam de um estilo de vida muito mais confortável.
África como origem do seu libertarianismo?
Não é possível dizer simplesmente que o apartheid “criou” o pensamento político de Peter Thiel.
Mas existe uma ligação que o próprio Thiel estabeleceu retrospectivamente.
Ele descreveu a escola que frequentou em Swakopmund como extremamente rígida e disse que essa experiência lhe criou uma forte aversão à regimentação e à conformidade, algo que posteriormente contribuiu para a sua aproximação ao libertarianismo.
Essa interpretação é particularmente interessante porque a oposição à conformidade se tornou uma característica central da sua personalidade intelectual.
Na universidade, Thiel viria a construir uma reputação de pensador
contrarian – alguém que procura deliberadamente ideias que contradigam o consenso.
Uma biografia de Thiel publicada em 2021,
The Contrarian, alegou que, quando era estudante em Stanford, ele teria descrito o apartheid como “economicamente sólido”. Thiel negou ter apoiado o apartheid. O Guardian apresenta esta alegação como parte de uma controvérsia sobre as suas posições durante a juventude.
O que se sabe é que Thiel cresceu dentro de uma sociedade profundamente desigual, beneficiando da posição privilegiada da população branca, e que essa experiência marcou a sua relação com autoridade, conformidade e liberdade individual.
A coincidência com Elon Musk
Thiel não é o único membro da chamada “PayPal Mafia” com uma infância ligada à África Austral.
Elon Musk cresceu na África do Sul e David Sacks nasceu em Cape Town. Roelof Botha, outro antigo executivo do PayPal, é neto de Pik Botha, ministro dos Negócios Estrangeiros do regime do apartheid.
O paralelismo chamou a atenção de jornalistas e historiadores precisamente porque alguns dos homens que viriam a adquirir enorme influência na tecnologia e na política norte-americanas foram formados, durante a infância ou juventude, dentro ou próximo de uma sociedade marcada por desigualdade extrema, segregação e uma profunda desconfiança em relação ao Estado e às instituições.
Palantir
Em 2003, Thiel, Alex Karp e outros associados criaram a Palantir Technologies.
A empresa desenvolveu software capaz de integrar e analisar enormes quantidades de dados provenientes de diferentes fontes.
O princípio é relativamente simples de explicar. Imagine milhares de bases de dados que normalmente não comunicam entre si: imigração, polícia, informação financeira, viagens, comunicações, empresas, mapas, redes sociais ou registos governamentais.
A tecnologia da Palantir permite juntar essas informações e encontrar relações, padrões e ligações que seriam difíceis de identificar manualmente.
É uma ferramenta extremamente poderosa. E é precisamente isso que está no centro da controvérsia.
A Palantir trabalha com governos, forças armadas, serviços de inteligência, empresas e sistemas de saúde. Entre os seus clientes estão instituições norte-americanas e europeias.
A empresa tornou-se particularmente importante nos setores da defesa e segurança.
O nome, aliás, vem de O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien: os palantíri eram pedras que permitiam ver acontecimentos e pessoas a grande distância.
Peter Thiel não é o CEO da Palantir
Apesar de Peter Thiel ser frequentemente apresentado como a figura por trás da Palantir, não é ele quem dirige a empresa no dia a dia. Thiel é cofundador e chairman. O CEO é Alex Karp.
E compreender Karp é importante porque a Palantir não é apenas uma empresa criada por Thiel que entretanto ficou entregue a outra pessoa. Karp tem uma visão própria e bastante explícita sobre a relação entre tecnologia, poder e segurança nacional.
O livro começa com uma frase reveladora: “Silicon Valley perdeu-se.”
Karp argumenta que a indústria tecnológica norte-americana se afastou das necessidades estratégicas dos Estados Unidos e que Silicon Valley deveria voltar a trabalhar mais directamente com o Estado, sobretudo em áreas como defesa, inteligência e segurança.
A própria Palantir publicou posteriormente um resumo do livro organizado em 22 teses, num texto que assumia claramente um tom político e geopolítico.
E uma das ideias centrais é particularmente significativa: a inteligência artificial está a transformar a própria natureza da guerra.
Num
manifesto publicado pela empresa, a Palantir defende que está a começar uma nova era de dissuasão militar baseada em inteligência artificial.
A pergunta, segundo o documento, já não é se serão construídas armas de IA. É quem as construirá e com que finalidade.
Karp defende, assim, uma relação muito mais próxima entre Silicon Valley e o aparelho de defesa norte-americano.
A Palantir chega a afirmar que a indústria tecnológica tem uma “dívida moral” para com o país que tornou possível a sua ascensão e que Silicon Valley deveria ir além das aplicações para consumidores e contribuir directamente para o crescimento económico e a segurança nacional.
Esta posição ajuda a explicar por que razão Karp é tão vocal na defesa da utilização de inteligência artificial em operações militares.
Tecnologia ou infraestrutura de poder?
A Palantir desenvolve sistemas capazes de juntar enormes quantidades de informação provenientes de fontes diferentes – imagens de câmaras, redes sociais, dados públicos, registos policiais, drones e outras bases de dados – e transforma-as em informação utilizável para investigação ou tomada de decisões.
Para os defensores da empresa, isto permite que governos e forças militares tomem decisões mais rápidas e informadas.
Para os críticos, significa outra coisa: a criação de uma infraestrutura tecnológica que pode tornar a vigilância, a identificação de pessoas e a utilização militar de dados muito mais poderosas.
O debate tornou-se ainda mais intenso porque os clientes da Palantir incluem precisamente algumas das instituições com maior capacidade coerciva do Estado. Nos Estados Unidos, a empresa trabalha com o Pentágono, a CIA e o
ICE. Na Europa, os seus sistemas também são utilizados por forças policiais e outras autoridades.
E existe uma diferença fundamental entre dizer que uma empresa fornece uma ferramenta e perguntar o que essa ferramenta permite fazer quando colocada nas mãos de um Estado.
A Palantir responde que o software não toma sozinho decisões políticas ou militares. Mas essa defesa não elimina a questão mais ampla: quanto mais poderosa for a ferramenta, mais importante se torna saber quem decide como utilizá-la.
É por isso que a posição de Karp é tão relevante para compreender a Palantir.
Ele não apresenta a empresa como uma simples fornecedora neutra de software. Apresenta-a como parte de uma transformação mais profunda na relação entre tecnologia, Estado e poder militar. E isso aproxima, de forma bastante evidente, a Palantir do universo político e intelectual de Peter Thiel.
Da inteligência artificial à vigilância
A controvérsia tornou-se particularmente forte na Europa. No Reino Unido, a Palantir tem um contrato de cerca de 330 milhões de libras e sete anos com o NHS, o sistema público de saúde britânico, para desenvolver a Federated Data Platform. A plataforma pretende ligar diferentes conjuntos de dados do NHS e melhorar a gestão dos serviços.
Para os defensores, é precisamente o tipo de tecnologia que pode tornar um sistema gigantesco mais eficiente.
Para os críticos, a questão é outra: deverá uma empresa tecnológica norte-americana, com fortes ligações ao setor militar e de inteligência dos EUA, ocupar uma posição tão importante na infraestrutura digital de um serviço público europeu?
Em 2026, a pressão aumentou. Parlamentares britânicos passaram a defender que o contrato deveria ser abandonado, enquanto o Governo britânico iniciou uma revisão do acordo e pondera utilizar uma cláusula que permitiria terminar o contrato em 2027.
O problema não é apenas a privacidade. É também a soberania tecnológica.
Se um país depende de uma empresa estrangeira para uma parte crítica da sua infraestrutura digital, quem controla realmente essa infraestrutura? Essa pergunta tornou-se particularmente importante na Europa desde o regresso da guerra à Europa e o aumento das tensões entre os EUA e os seus aliados.
A Europa procura alternativas à Palantir
A Europa
começou a procurar alternativas próprias. Em França, a agência de segurança interna DGSI escolheu a empresa francesa ChapsVision para substituir progressivamente a Palantir. A decisão foi apresentada pelo Governo francês como parte de uma estratégia de soberania tecnológica.
A ChapsVision é uma empresa relativamente pequena comparada com a Palantir, mas está a tentar ocupar precisamente esse espaço: integração de dados, inteligência artificial, investigação e segurança.
A Palantir tinha sido utilizada pelos serviços franceses desde os atentados terroristas de 2015. Agora, França quer demonstrar que pode construir uma alternativa europeia. E não está sozinha.
A
Alemanha, os Países Baixos, a Suíça, a Dinamarca e outros países têm debatido a dependência de tecnologias norte-americanas. O secretário de Estado neerlandês da Defesa afirmou em 2026 que deveria existir uma alternativa plenamente funcional à Palantir num prazo de dois anos.
A própria discussão já criou um novo mercado: “o Palantir europeu”. ChapsVision é provavelmente o candidato mais evidente neste momento, embora empresas como Quantexa, Adarga, DataWalk, Ripjar e Siren também sejam apontadas como alternativas em diferentes áreas.
Thiel quer muito mais do que tecnologia
Para perceber Peter Thiel é preciso sair do mundo empresarial. Thiel tem uma visão política e filosófica muito própria.
É associado ao libertarianismo tecnológico (“tecno-libertarianismo”), embora as suas ideias sejam mais radicais do que o libertarianismo económico tradicional.
Uma das suas frases mais conhecidas surgiu num ensaio de 2009: “I no longer believe that freedom and democracy are compatible.”
Thiel argumenta que as democracias tendem a criar maiorias políticas que podem limitar a liberdade individual, enquanto o capitalismo e a inovação tecnológica podem ser travados por regulamentação.
Isto é relevante para se compreender o fascínio de Thiel por experiências que procuram criar espaços onde as regras sejam diferentes. É aqui que se entra em Próspera.
Próspera: a “cidade tecnológica” de Peter Thiel
Imagine poder construir uma cidade praticamente do zero. Agora imagine que, em vez de estar sujeita às mesmas regras fiscais, regulatórias e administrativas do país onde se encontra, essa cidade dispõe de uma enorme autonomia. Essa é, em termos simplificados, a ideia por trás de Próspera, na ilha de Roatán, nas Honduras.
Próspera é uma ZEDE – Zona de Emprego e Desenvolvimento Económico. O projeto nasceu no contexto de uma legislação hondurenha que permitia a criação de zonas com elevado grau de autonomia. A ideia era criar uma espécie de “startup city”: um laboratório onde novas formas de governação, tributação, regulação e tecnologia pudessem ser testadas.
Próspera possui um sistema jurídico e regulatório próprio, utiliza mecanismos privados de arbitragem e foi concebida para atrair empreendedores e investidores internacionais.
E aqui entra o dinheiro do Silicon Valley. Próspera recebeu financiamento de investidores ligados a figuras como Peter Thiel, Sam Altman e Marc Andreessen. A própria empresa responsável pelo projeto afirma ter captado mais de 120 milhões de dólares junto de quase 100 investidores; outras reportagens apontam para valores próximos dos 200 milhões.
Não é correto, contudo, dizer que Peter Thiel “é dono de Próspera”. A estrutura é mais complexa e a composição exata dos investidores privados não é totalmente pública. O que é indiscutível é que Thiel está ligado ao ecossistema financeiro e ideológico que apoiou o projeto. [
Fonte]