sábado, 17 de outubro de 2026

PSD, CDS-PP, IL e Chega - O triunfo dos porcos


O Chega por várias vezes tem ameaçado a democracia, banca confusão e destila discurso de ódio, xenófobo  e com  tiques neonazis. Nada a ver com PS. O PSD infelizmente tem membros mais extremistas e sempre que esteve no Governo, despreza os pobres.

A metáfora política formulada por George Orwell em O Triunfo dos Porcos (Animal Farm) serve de espelho para analisar a evolução da crise habitacional e as dinâmicas partidárias no Parlamento português. Na alegoria de Orwell, a tomada da Quinta dos Animais prometia libertação e igualdade, mas a estrutura de poder foi gradualmente moldada para beneficiar elites restritas, alterando as regras à medida que os interesses económicos e a manutenção da ordem assim o exigiam.

Neste cenário político, os partidos com responsabilidades de governo ou de aliança liberal-conservadora (PSD, CDS-PP e IL) assumem o papel dos gestores da quinta que justificam a desregulamentação do mercado em nome da eficiência e da liberdade económica. Sempre que exercem o poder executivo, a sua linha de atuação foca-se na liberalização do setor imobiliário e na facilitação de despejos, sob a premissa de que o mercado autorregulado resolverá a escassez de oferta, uma lógica que acaba por empurrar as populações de menores rendimentos para situações de extrema vulnerabilidade.

Por seu lado, a extrema-direita do Chega desempenha um papel análogo ao dos cães de guarda da narrativa orwelliana: utiliza um discurso inflamado de rutura, focado no espetáculo mediático, no ruído institucional e na criação de bodes expiatórios sociais, mas, quando chega o momento de votar propostas estruturantes para o mercado imobiliário, atua de forma a viabilizar a agenda económica da direita tradicional.

A cronologia recente da habitação e do xadrez parlamentar reflete esta dinâmica de forma clara:

2012 – A Lei Cristas e a Abertura ao Mercado: Sob o Governo de coligação PSD/CDS-PP, aprovou-se a alteração ao Novo Regime do Arrendamento Urbano através da Lei n.º 31/2012, habitualmente conhecida como "Lei Cristas", que liberalizou o mercado de arrendamento, reduziu os prazos de transição dos contratos antigos e acelerou os procedimentos de despejo. A medida visava dinamizar o mercado, mas acabou por desencadear uma vaga de subida de rendas e perda de habitação por parte de famílias vulneráveis.

2023 – As Tentativas de Controlo com o "Mais Habitação": O Governo do PS aprovou o pacote legislativo através da Lei n.º 56/2023, estabelecendo limites ao aumento de rendas em novos contratos e introduzindo regras para o Alojamento Local, numa tentativa de impor travões à especulação, embora tenha enfrentado oposição firme à direita e críticas de insuficiência à esquerda.

2026 – A Nova Lei do Arrendamento e Pacote Habitacional: O Governo submeteu à Assembleia da República propostas de autorização legislativa para rever o regime de arrendamento urbano e conceder desagravamentos fiscais ao setor, culminando na publicação de diplomas como a Lei n.º 9-A/2026 e regulamentação associada, alterando normas sobre limites às rendas e procedimentos de despejo.

O Alinhamento das Forças Políticas no Parlamento: A proposta do Executivo foi aprovada na generalidade com os votos a favor do PSD, CDS-PP e Iniciativa Liberal. O Chega optou pela abstenção, viabilizando o diploma após alcançar um acordo com o PSD para alterações na especialidade. Em sentido oposto, os partidos da oposição à esquerda - PS, Bloco de Esquerda, PCP, Livre, PAN e JPP - votaram em bloco contra a iniciativa, alertando para o risco de aumento da precariedade habitacional e pela ausência de garantias efetivas de proteção aos inquilinos.

A crise habitacional atual reflete o impacto direto destas opções legislativas. Enquanto o discurso político da extrema-direita recorre a tiradas agressivas e à polarização mediática, a sua prática parlamentar viabiliza as políticas de desregulamentação económica defendidas pelo bloco de direita. O resultado prático para a população traduz-se no agravamento da crise de acesso à casa e na prevalência da especulação sobre o direito fundamental à habitação.

"Encostem-nos à parede", disse o deputado Bruno Nunes (Chega)

Francisco de Goya - "El tres de mayo de 1808" 

Durante o debate parlamentar sobre habitação e segurança, o Ministro dos Assuntos Parlamentares, Carlos Abreu Amorim, defende a ação policial e avisa que o Executivo "não vai ceder aos gritos que vêm da rua" (...)

Paulo Núncio (líder parlamentar do CDS-PP): " que não falte ao Governo, coragem e determinação, à CMP para porem na ordem esta minoria de arruaceiros 

Logo a seguir, o deputado Bruno Nunes (Chega) saúda ironicamente o PSD por apresentar "finalmente um ministro de direita a debate". 

O regresso do "Encostem-nos à parede": Bruno Nunes aproveita o discurso do ministro para reintroduzir a polémica frase do seu partido, afirmando que ao Governo só faltou dizer: "Encostem-nos à parede duma vez por todas por aquilo que têm feito em Portugal e por esta vergonha de intervenção, de ataque às forças de segurança". [video]

A linguagem de violência é a antecâmara da repressão. É isto que preparam se chegarem ao poder.

A realidade:
1. Desemprego elevado:  realidade laboral dos jovens portugueses é fortemente marcada por dois desafios estruturais: a alta taxa de desemprego juvenil e os elevados índices de contratação a termo, também conhecida como precariedade. Enquanto a taxa média de desemprego geral no país ronda os 5,7%, o desemprego na faixa etária dos 16 aos 24 anos atinge os 19,8%, o que significa que praticamente 1 em cada 5 jovens que terminam os estudos e tentam entrar no mercado laboral não conseguem encontrar emprego. Este indicador coloca Portugal significativamente acima da média da União Europeia, que se fixa nos 15,4%.

2. Precariedade laboral: Para além disso, quando os jovens conseguem ingressar no mercado de trabalho, a maioria enfrenta uma grande instabilidade contratual, visto que quase 40% de todos os trabalhadores com menos de 30 anos têm vínculos temporários ou contratos a termo. Esta realidade posiciona Portugal como o 4.º país da União Europeia com os níveis mais graves de precariedade laboral jovem, triplicando o risco registado na população ativa em geral, cuja média nacional de contratos temporários é de 12,8%. Esta conjugação de instabilidade contratual e desemprego inicial explica em grande parte o envelhecimento da população ativa e a persistência da emigração jovem.

3. Jovens saem mais tarde de casa: Este estudo identifica três fatores principais por detrás destas mudanças: o envelhecimento demográfico, a redução da natalidade e o aumento das separações e divórcios.

4. A percentagem de famílias proprietárias da residência principal é menor entre os jovens: Riqueza das famílias "aumentou de forma acentuada" nos últimos anos "devido ao forte crescimento dos preços da habitação". Jovens cada vez mais excluídos deste progresso. BdP/INE

5. Os ciganos e exclusão dos subsidiodependentes : De acordo com os dados estatísticos partilhados pelo Instituto da Segurança Social e analisados em relatórios parlamentares e plataformas de verificação de factos como o Polígrafo, as pessoas de etnia cigana representam uma fração reduzida do universo total de beneficiários, situando-se historicamente entre os 3% e os 6% do total de famílias que auferem a prestação. Isto significa que a esmagadora maioria dos titulares do apoio - mais de 94% - pertence à população maioritária não cigana. Do ponto de vista do impacto orçamental global, o montante canalizado para este grupo representa uma percentagem residual das despesas totais da Segurança Social.

6. Radiografia do RSI em Portugal- o desfasamento entre os mitos sociais e a realidade dos números: Os dados estatísticos oficiais mais recentes de 2026, publicados pelo Gabinete de Estratégia e Planeamento do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, traçam o perfil real do Rendimento Social de Inserção (RSI) em Portugal. O indicador estrutural mais relevante é que o número de beneficiários do RSI atingiu em 2026 o valor mais baixo dos últimos 20 anos, fixando-se em torno de 153.000 a 160.000 indivíduos, distribuídos por cerca de 73.000 a 78.000 famílias, ou seja 1.8% das famílias residentes em Portugal. Para encontrar números tão reduzidos na série histórica, é necessário recuar até ao ano de 2005. Esta radiografia demográfica oficial e os montantes atribuídos revelam a realidade do apoio em Portugal, cuja distribuição contraria vários mitos do senso comum, evidenciando que a prestação protege sobretudo menores e mulheres em situação de vulnerabilidade monoparental. No que respeita à idade, as crianças são um terço, sendo o grupo etário mais representativo o de menores de 18 anos, que compõem 33% do total de beneficiários do RSI. Os jovens dos 18 aos 29 anos representam apenas 13,7%, dividindo-se os restantes beneficiários entre adultos em idade ativa e a população com mais de 50 anos, que tem vindo a registar uma tendência ligeira de subida devido ao envelhecimento demográfico. Quanto ao género, as mulheres continuam a ser a maioria dos cidadãos abrangidos, cifrando-se em cerca de 52,7% contra 47,3% de homens, estando muitas vezes associadas a agregados familiares monoparentais com menores a cargo. Geograficamente, o maior volume de beneficiários concentra-se nos distritos com maior densidade populacional e focos urbanos de pobreza, com Lisboa a liderar o volume total de pessoas apoiadas, seguida de perto pelo Porto e por Setúbal, enquanto os distritos de Bragança, Guarda e Portalegre registam os números mais baixos do país.
Ao analisar os valores médios reais das prestações, os montantes monetários transferidos reforçam o caráter assistencialista de "última linha" da medida, situando-se substancialmente abaixo de qualquer salário de referência. Por indivíduo, o valor médio mensal recebido por cada beneficiário individual fixa-se nos 160,32 €, ao passo que o valor médio transferido para o total do agregado familiar ronda os 336 € mensais. O próprio valor de referência, que serve de teto máximo legal para calcular as capitações de quem não tem qualquer outro tipo de rendimento, está fixado em 247,56 € por adulto em 2026. Esta modéstia orçamental é corroborada por um estudo recente do ISCTE, o qual revela que o RSI cobre hoje apenas cerca de 40% da população que se encontra efetivamente abaixo do limiar da pobreza em Portugal, demonstrando critérios de triagem patrimonial e financeira muito apertados, como o limite de depósitos bancários de até 60 vezes o Indexante de Apoios Sociais (IAS).

PSD lida mal com a revolução popular


Metade dos jovens portugueses vive na incerteza dos recibos verdes. Ocupamos o vergonhoso 4.º lugar no ranking da precariedade da União Europeia. Ter emprego não chega, habitação pesa: estudos mostram que a pobreza persiste em Portugal, principalmente entre os jovens e idosos

Ter casa, estabilidade e dignidade não devia ser uma utopia para quem está a começar a vida.

O Luís Montenegro vem dizer: “Não sejam egoístas” e que  "2.300 euros é um valor razoável por uma habitação"

Portugal está com preços o imobiliário totalmente desfasados da realidade salarial do país. No Reino Unido a segunda habitação e as casas vazias ou de férias já pagam impostos a dobrar e a triplicar, na Escócia é ainda mais duro. Os preços imediatamente caíram quando a medida entrou em vigor e entraram mais casas no mercado de arrendamento. Outros relatórios da OCDE e do Eurostat evidenciam que na Alemanha, a proporção de arrendatários ultrapassou os 50% em 2022, o que a torna única entre os países da UE. A Suíça, tendo em conta a Associação Europeia de Comércio Livre (EFTA, o Reino Unido e os países candidatos), apresenta a percentagem mais elevada de arrendatários, com 57,7%.

Sempre considerei que o PSD carrega no seu DNA uma vertente autoritária e de bloqueio, umas vezes mais disfarçada, outras vezes perfeitamente visível. A história não me deixa mentir: basta recordar o governo de Cavaco Silva e a forma desproporcionada com que respondeu ao bloqueio da Ponte 25 de Abril, enviando a GNR e a polícia de choque. Essa decisão culminou em confrontos violentos, vários feridos e um jovem de Almada que ficou paraplégico por causa da repressão policial. A juntar a isto, o desdém de Cavaco Silva, que na altura desvalorizou a revolta a partir de uma cimeira na Grécia, tentando colar os manifestantes ao PCP ou à extrema-esquerda - uma postura atroz que mereceu, e bem, duras críticas por parte do então Presidente Mário Soares.

Para mim, a estratégia desta direita é clara: querem manter a maioria da população na pobreza e na vulnerabilidade. Porquê? Porque um povo empobrecido é um povo manietado, à mercê do que o Estado, as grandes empresas ou os fundos abutres decidam pagar-lhe. Quem vive só para sobreviver, vive no medo - perde a voz, perde a exigência e perde o poder de lutar pelos seus direitos.

É este o pensamento político que move esta gente. Na sua maioria, são figuras sem uma carreira profissional com significado, habituadas a saltitar entre cargos superiores, decorativos e altamente remunerados. Recuso a ideia de que o PSD tem sensibilidade social ou humanista. E nem vale a pena virem com a conversa de Sá Carneiro, porque, no fundo, a matriz ideológica e insensível deste partido sempre foi exatamente a mesma.

Os meus apelos, além da justa contestação nas ruas:
1. Apelo aos jovens que se sindicalizem. Portugal é o 4º país com menor taxa de sindicalização (ver gráfico)


2. Depois disto e perante o que daqui resultar, desejo mesmo que os nossos jovens voltem a confiar na política, vigilantes de populistas e continuem a lutar. 

3. Apelo finalmente que não se abstenham de votar.

Qual é a percentagem de habitação social nos vários países da União Europeia?



A Suíça e a Alemanha registam taxas de arrendamento elevadas, com mais de metade da população a alugar casa. Em contrapartida, os países dos Balcãs apresentam taxas de aquisição de habitação própria mais elevadas, embora muitas casas estejam sobrelotadas.

A crise da habitação é uma preocupação crescente em toda a Europa, marcada pela escassez e pelo aumento das rendas. Cerca de 70% dos residentes na UE são proprietários das suas casas, enquanto os restantes 30% são arrendatários. Cerca de 17% da população da UE vive em condições de sobrelotação.

Na Europa, o panorama da habitação é variado, com uma divisão significativa entre proprietários e arrendatários. Em oito dos 36 países europeus, mais de 90% da população vivia em casa própria em 2022, de acordo com o Eurostat.

Mais de metade da população arrenda na Alemanha e na Suíça
Na Alemanha, a proporção de arrendatários ultrapassou os 50% em 2022, o que a torna única entre os países da UE. A Suíça, tendo em conta a Associação Europeia de Comércio Livre (EFTA, o Reino Unido e os países candidatos), apresenta a percentagem mais elevada de arrendatários, com 57,7%.
Taxa de proprietários mais elevada nos países dos Balcãs
A Macedónia do Norte, a Albânia e a Roménia apresentam taxas de habitação própria superiores a 95%. Com exceção da Turquia, a taxa de propriedade de habitação era mais elevada nos países dos Balcãs, uma tendência que se estende à Hungria, Sérvia, Croácia e Montenegro.

Em contrapartida, países como a Áustria, a Turquia, a Dinamarca, a França, a Suécia e o Reino Unido situam-se abaixo da taxa média de habitação própria da UE, que é de 69,1%.

Entre os "quatro grandes" da UE, a Espanha e a Itália registam as taxas mais elevadas, com três em cada quatro residentes a viver em casa própria.
Políticas públicas e habitação social de arrendamento
Os países europeus adoptaram várias medidas políticas para garantir habitação a preços acessíveis, nomeadamente subsídios de habitação, habitação social de arrendamento e regulamentação das rendas.

Em média, a habitação social representa 8% do parque habitacional total da UE, de acordo com o relatório da OCDE sobre habitação a preços acessíveis. Trata-se de alojamentos residenciais para arrendamento a preços inferiores aos do mercado e atribuídos de acordo com regras específicas e não com mecanismos de mercado.

Os Países Baixos, a Áustria e a Dinamarca têm as maiores percentagens de habitação social, constituindo mais de 20% do seu parque habitacional total.
O Reino Unido, a França, a Irlanda, a Islândia e a Finlândia têm sectores moderados de habitação social, variando entre 10% e 19%.
O sector é relativamente pequeno na Suíça (8%) e na Alemanha (2,7%), onde mais de metade da população é arrendatária.
Tem divisões suficientes na sua casa?
A qualidade da habitação é fundamental. A OCDE sublinha que as casas sobrelotadas e com pouco espaço afetam negativamente a saúde, especialmente das crianças. O número médio de divisões por pessoa e as taxas de sobrelotação são indicadores-chave da qualidade da habitação.

Em 2022, o número médio de divisões por pessoa na UE era de 1,6, variando entre 2,3 divisões em Malta e 1,1 divisões na Polónia, Roménia e Eslováquia.

O número médio de quartos por pessoa era inferior nos países candidatos dos Balcãs, o que se correlaciona com taxas mais elevadas de sobrelotação. Apesar das elevadas taxas de propriedade nos países dos Balcãs, a sobrelotação continua a ser um problema nestas regiões.

Pelo menos metade da população do Montenegro, da Albânia e da Sérvia vivia em casas sobrelotadas. Na UE, a taxa de sobrelotação era de 16,8%.

Entre os países da UE, as taxas mais elevadas de sobrelotação foram observadas na Letónia (41,7%), na Roménia (40,5%) e na Bulgária (36,2%), enquanto as mais baixas foram observadas em Chipre (2,2%), Malta (2,8%) e Países Baixos (2,9%).

Apelo à habitação a preços acessíveis
Em janeiro de 2024, um coletivo de 100 fornecedores de habitação pública, cooperativa e social, juntamente com decisores políticos e investigadores, reuniu-se no Parlamento Europeu. Liderado pela Housing Europe, o grupo divulgou um manifesto que delineia três passos para garantir uma habitação acessível e digna para todos na UE:

  • Adotar um novo paradigma de habitação
  • Apoiar o movimento para uma transição energética justa
  • Abordar as causas profundas para acabar com a exclusão habitacional
Em particular, o manifesto apelou ao apoio à habitação pública, cooperativa, social e de iniciativa comunitária como espinha dorsal dos sistemas nacionais de habitação.

Holygram - She's Like The Sun

Os Holygram são uma banda alemã de post-punk formada na cidade de Colónia em 2015. A sonoridade da banda, em especial na faixa “She's Like The Sun”, integrante do álbum de estreia Modern Cults lançado em 2018, caracteriza-se por uma fusão densa e envolvente de várias vertentes da música alternativa. O post-punk e o darkwave formam a espinha dorsal do tema, que assenta em linhas de baixo pulsantes, repetitivas e hipnóticas, acompanhadas por ritmos de bateria mecânicos e precisos. A estas influências junta-se o shoegaze, criando uma parede sonora rica em guitarras repletas de efeitos de reverb, delay e distorção, que geram uma atmosfera etérea e imersiva. Adicionalmente, a herança do krautrock reflete-se na estrutura motórica e contínua do ritmo, enquanto os sintetizadores sombrios conferem uma textura industrial e urbana de inspiração oitentista. 

No que toca ao significado da canção, “She's Like The Sun” aborda a fascinação, a obsessão e a alienação nas relações interpessoais e na vida urbana contemporânea. A figura feminina que «é como o sol» surge como uma metáfora dupla: por um lado, representa um farol de luz, calor e atração magnética no meio da escuridão da metrópole; por outro, evoca uma força avassaladora e perigosa que, tal como o sol, encandeia ou queima quem dela se aproxima demasiado. A letra reflete assim a procura de ligação num mundo marcado pela desconexão emocional, pela nostalgia e pela melancolia existencial, onde o desejo e o isolamento se entrelaçam profundamente. 

Por sua vez, o videoclipe adota uma abordagem intimista e descontraída que contrasta com a densidade da música. Apresentado num formato estilo karaoke e produzido em tom de diário de bordo pelo realizador Janosch Pugnaghi, o teledisco utiliza imagens captadas durante a digressão da banda pela América do Norte em 2018. Em vez de uma narrativa obscura tradicional do género, o vídeo mostra os membros da banda em bastidores, viagens e momentos de estrada. Este contraste entre a melancolia melódica e as imagens reais humaniza o projeto e desmistifica a figura do mito do rock, transformando o trajeto numa viagem nostálgica de companheirismo. 

A nível de influências literárias e filosóficas, a lírica e o conceito estético da banda bebem de várias referências intelectuais marcantes. A metáfora do sol liga-se diretamente ao mito clássico de Ícaro e à tentação de voar demasiado perto do objeto de desejo ou fascínio, sabendo que a proximidade excessiva pode resultar em destruição emocional. Paralelamente, a temática do absurdo, do isolamento individual na cidade moderna e da busca incessante de sentido reflete o existencialismo de autores como Albert Camus e Jean-Paul Sartre, onde o indivíduo navega pela noite urbana à procura de uma luz que valide a sua existência. Por fim, o ambiente industrial e néon evoca a literatura de ficção científica distópica, explorando a alienação nas hipermetrópoles onde o indivíduo é engolido pela arquitetura fria e pela tecnologia, restando-lhe cultos modernos de afetos e obsessões para preencher o vazio existencial.

Mais análises de temas dos Holygram:
HOLYGRAM - Signals
HOLYGRAM - Still There
HOLYGRAM - Modern Cults

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Fontaines D.C. - Japan

A Máscara do Quotidiano: Realismo Urbano e Alienação Existencial em "Japan" dos Fontaines D.C.
Originários de Dublin, os irlandeses Fontaines D.C. afirmam-se como uma das vozes mais densas e poéticas do rock alternativo e do post-punk contemporâneo. Em "Japan", a banda preserva a sua matriz urbana e melancólica, mas renova o seu vocabulário musical ao abraçar uma sonoridade mais intimista, acústica e envolvente. O tema centra-se numa crónica amarga sobre o tédio das rotinas, a desconexão emocional e a falsidade inerente às relações modernas. A letra acompanha a figura de uma mulher descrita como "mímica" - uma metáfora para a representação performativa e desprovida de sentimento -, que sustenta financeiramente um parceiro ausente, supostamente situado "no Japão". Essa barreira geográfica não passa de um símbolo para o abismo emocional que os separa, expondo a vacuidade de uma relação mantida por conveniência e habituada ao disfarce.

No plano concetual e filosófico, a obra bebe intensamente do realismo sujo (dirty realism) e da rica tradição literária da observação urbana. Esta herança, profundamente enraizada em autores irlandeses como James Joyce (em Dubliners), revela-se no olhar minucioso e quase clínico sobre o quotidiano cinzento de personagens comuns e nas suas pequenas tragédias silenciosas. Ao mesmo tempo, a canção dialoga diretamente com o existencialismo e com a filosofia da inautenticidade. A alcunha da "mímica" e o verso em que se sugere que ela se afasta do próprio corpo durante a intimidade espelham o conceito de "má fé" e dissociação emocional: a tendência humana para desempenhar papéis sociais rígidos, anestesiando os sentidos para evitar a dor do confronto com a realidade.

Esta carga lírica ganha corpo na narrativa do videoclipe, que recusa qualquer romantização ou exotismo sobre o Japão e prefere situar a ação em cenários suburbanos banais, centros comerciais genéricos e rotinas sufocantes. As personagens movem-se de forma mecânica e automatizada, simbolizando a alienação da vida contemporânea. A tensão atinge o seu ponto de rutura com a constante pergunta do refrão - "Why'd you go and make it real?" -, uma súplica desesperada que expõe o custo de rasgar a ilusão: a transição dolorosa entre o conforto anestesiante de uma farsa mantida em piloto automático e a brutalidade de ter de encarar a verdade sobre quem realmente somos.

Sem teto no Parque da Cidade: o esquilo Bernardo e o drama habitacional do Porto

Foi durante um passeio pelo Parque da Cidade que avistei este esquilo-vermelho, imóvel sobre a madeira envelhecida, a fitar o horizonte com um olhar tão expressivo e alerta que parecia carregar o peso de uma verdadeira preocupação. Ao observar a sua postura minuciosa, como se estivesse a inspecionar o seu próprio pedaço de terra, foi impossível não traçar um paralelo imediato com a realidade que nos rodeia: a premente crise habitacional que afeta a cidade do Porto. Esta coincidência inspirou-me a escrever uma fábula urbana que une o destino deste pequeno roedor ao drama vivido por tantos portuenses.

"Nas alturas da copa das árvores, o esquilo Bernardo procura incansavelmente por um abrigo. A sua espécie depende de cavidades naturais em troncos velhos e robustos, mas estas "casas tradicionais" são cada vez mais raras e disputadas, obrigando os esquilos a competir ferozmente por um refúgio seguro - tal como os portuenses veem escassear as habitações acessíveis nos seus bairros históricos. Para contornar a falta de espaço, resta-lhe a exaustiva tarefa de construir o seu próprio drey, um ninho esférico feito de ramos e musgo que exige um investimento colossal de energia e tempo, espelhando os sacrifícios sufocantes e o esforço financeiro que as famílias hoje enfrentam para erguer ou adquirir um lar.

E quando nada disso está ao alcance, o esquilo é forçado a recorrer aos troncos caídos no solo: locais de passagem úteis para esconder pinhas ou sementes, mas vulneráveis a predadores e incapazes de oferecer a estabilidade de um verdadeiro abrigo. No Porto, essa precariedade traduz-se no recurso a soluções temporárias e incertas. Revela-se na proliferação de quartos inflacionados, onde a renda de um simples espaço absorve mais de metade do ordenado e força à sobrelotação em apartamentos partilhados. Reflete-se na vulnerabilidade constante dos contratos de curtíssima duração, que impedem a criação de raízes e deixam os inquilinos sob o espetro de aumentos drásticos ou não renovações no final de cada ano. Traduz-se no empurrar sistemático das pessoas para a periferia, trocando a história da cidade por horas de deslocação diária. E traduz-se, de forma dramática, no regresso de adultos e jovens trabalhadores à casa dos pais por incapacidade de arcar com um teto próprio, ou no sufoco acrescido trazido pelas ruturas conjugais - numa região e num país com taxas de divórcio assustadoramente elevadas, onde a separação de um casal significa a necessidade imediata de duas habitações num mercado que não consegue garantir sequer uma.

Quer se viva no cimo de um pinheiro no Parque da Cidade ou num edifício centenário na Baixa da Invicta, a lição que este olhar atento nos deixa é universal: a segurança de ter um teto não devia ser um privilégio de poucos, mas a garantia fundamental para que qualquer habitante possa guardar as suas provisões e prosperar com dignidade."

Nota: "A precariedade laboral, os baixos salários e a crise na habitação - que forçam os jovens a permanecer em casa dos pais até mais tarde - surgem como os principais obstáculos ao início da vida em casal e ao casamento." Saber mais sobre este estudo aqui

Ter emprego não chega, habitação pesa: estudos mostram que a pobreza persiste em Portugal, principalmente entre os jovens e idosos


Metade dos jovens portugueses vive na incerteza dos recibos verdes. Ocupamos o vergonhoso 4.º lugar no ranking da precariedade da União Europeia.
Ter casa, estabilidade e dignidade não devia ser uma utopia para quem está a começar a vida.

Vamos novamente a factos e não basearmo-nos nas questões triviais como o que os jovens vestem  ou se estão a ser manipulados pela esquerda ou pela direita. 
𝐐𝐮𝐚𝐧𝐭𝐨𝐬 𝐣𝐨𝐯𝐞𝐧𝐬 𝐞𝐬𝐭𝐚̃𝐨 𝐚 𝐫𝐞𝐜𝐢𝐛𝐨𝐬 𝐯𝐞𝐫𝐝𝐞𝐬 𝐞𝐦 𝐏𝐨𝐫𝐭𝐮𝐠𝐚𝐥?
Segundo os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE):   em termos absolutos estima-se que existam cerca de 60.000 a 80.000 jovens (até aos 29/30 anos) a trabalhar de forma independente ou a prestação de serviços (recibos verdes).

𝐅𝐚𝐥𝐬𝐨𝐬 𝐫𝐞𝐜𝐢𝐛𝐨𝐬 𝐯𝐞𝐫𝐝𝐞𝐬 𝐞 𝐝𝐞𝐩𝐞𝐧𝐝𝐞̂𝐧𝐜𝐢𝐚: entre a população jovem que trabalha a recibos verdes (faixa dos 16 aos 34 anos), regista-se a maior taxa de dependência económica e organizacional. Cerca de 20% destes jovens dependem de um único cliente (ou seja, cumprem funções de trabalhadores por conta de outrem, com horário estipulado e chefia, mas sem direito a contrato, subsídios ou proteção no desemprego).   

𝐂𝐨𝐧𝐭𝐫𝐚𝐭𝐨𝐬 𝐩𝐫𝐞𝐜𝐚́𝐫𝐢𝐨𝐬 𝐧𝐨 𝐠𝐞𝐫𝐚𝐥: se alargarmos a análise à precariedade laboral jovem (que inclui contratos a termo, temporários e recibos verdes), o panorama é ainda mais expressivo: 𝐜𝐞𝐫𝐜𝐚 𝐝𝐞 𝟓𝟎% 𝐝𝐨𝐬 𝐣𝐨𝐯𝐞𝐧𝐬 𝐞𝐦𝐩𝐫𝐞𝐠𝐚𝐝𝐨𝐬 𝐞𝐦 𝐏𝐨𝐫𝐭𝐮𝐠𝐚𝐥 𝐭𝐞̂𝐦 𝐥𝐚𝐜̧𝐨𝐬 𝐥𝐚𝐛𝐨𝐫𝐚𝐢𝐬 𝐩𝐫𝐞𝐜𝐚́𝐫𝐢𝐨𝐬, 𝐬𝐞𝐧𝐝𝐨 𝐚 𝐭𝐚𝐱𝐚 𝐝𝐞 𝐩𝐫𝐞𝐜𝐚𝐫𝐢𝐞𝐝𝐚𝐝𝐞 𝐞𝐧𝐭𝐫𝐞 𝐨𝐬 𝐣𝐨𝐯𝐞𝐧𝐬 𝐩𝐨𝐫𝐭𝐮𝐠𝐮𝐞𝐬𝐞𝐬 𝐮𝐦𝐚 𝐝𝐚𝐬 𝐦𝐚𝐢𝐬 𝐞𝐥𝐞𝐯𝐚𝐝𝐚𝐬 𝐝𝐞 𝐭𝐨𝐝𝐚 𝐚 𝐔𝐧𝐢𝐚̃𝐨 𝐄𝐮𝐫𝐨𝐩𝐞𝐢𝐚.

Falta de apoios: quase metade das pessoas em situação de pobreza (cerca de 45,4% em idade ativa) não recebe qualquer prestação social do Estado

Das grandes cidades até às aldeias, o cenário que nos rodeia é exatamente o mesmo: hotéis a multiplicar-se e uma lei de arrendamento cada vez mais penalizadora. Isto não é uma discussão de esquerda nem de direita. O que vivemos ultrapassou há muito a gentrificação ou a 'disneylandização' do país - é a ausência absoluta de políticas e decisões que protejam quem está a tentar construir o seu futuro.

A manifestação que eclodiu no Porto é profundamente justa e urgente. Há anos que programas como o Porta 65 se revelam insuficientes e desfasados da realidade, enquanto o "jovem trabalhador" foi diluído sob o eufemismo do "colaborador". Falamos de uma geração que cumpre horários das 7h às 19h ou enfrenta turnos da noite, mas cujo esforço é sistematicamente ignorado quando chega a hora da efetivação. Ao menor sinal de incerteza, as empresas descartam-nos, remetendo-os de novo para a precariedade, sem rede de proteção social nem perspetiva de estabilidade.

Tendas montadas na via pública, durante a noite e com o mesmo propósito: alertar para a crise da habitação. A "Acampada pela Habitação", que está a levar milhares de pessoas às ruas do Porto, desde sábado, não é o primeiro protesto do género em Portugal. Em 2020, a Juventude Social-democrata (JSD), do PSD, organizou uma manifestação com tendas em frente ao Ministério do Ensino Superior, em Lisboa, em plena pandemia. Nessa altura, não houve ordem da PSP para os jovens dispersarem, para a retirada de tendas ou carga policial.

Longe de ser um episódio isolado, a força e o grito de revolta que nasceu esta semana no Porto deviam alastrar-se de forma inexorável a todo o país. É errado pensar que este é apenas um problema da Invicta ou da capital; é um drama nacional. Hoje, o protesto legítimo de quem exige simplesmente o direito a viver onde trabalha acaba por ser duplamente neutralizado: pela partidocracia, que tenta colar rótulos e partidarizar a indignação para alimentar guerras de poder, e pela pós-democracia, que rebaixou a habitação de direito constitucional fundamental a mera mercadoria financeira. 

A frustração que sentimos vai muito além da questão dos rendimentos - é a perceção amarga e profunda de que as regras do jogo foram desenhadas sem ter em conta quem está, hoje, a tentar começar a sua vida. 

Resta-lhes o quê? O aeroporto? Emigrar outra vez? Sair da zona de conforto? Separar novamente as famílias? Repetir a receita de Passos Coelho? E pior, ouvirem o Primeiro-Ministro chamar-lhes "egoístas"?

Os nossos jovens não querem fugir. Querem erguer a sua vida na terra onde nasceram. Garanti-lo é a causa mais nobre de qualquer sociedade. E hoje, perante a falta de respostas, a juventude une-se numa só voz e diz-nos: "Não!

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

DARKWAYS - I Like The Night (And The Night Likes Me)


A banda DARKWAYS, sediada em Barcelona (Espanha) e formada pelos músicos Marc Pérez Marín e Lluís Sanz, traz na faixa "I Like The Night (And The Night Likes Me)" uma fusão envolvente de Darkwave, Synthwave e Goth Rock. A sua sonoridade combina sintetizadores pulsantes de inspiração retro, ritmos eletrónicos acelerados e guitarras com efeitos de chorus, complementados por vocais melancólicos que resgatam a essência do pós-punk oitentista.

A canção funciona como uma celebração e um hino de libertação, no qual a noite deixa de ser um lugar de perigo ou solidão para se tornar um refúgio e uma aliada. Versos como "I like the night, darkness is my only friend..." sintetizam a ideia de que a escuridão acolhe a verdadeira identidade do indivíduo, protegendo-o do julgamento e do ritmo desgastante da rotina diurna. Do ponto de vista literário e filosófico, a composição bebe no Romantismo Gótico de autores como Edgar Allan Poe e Lord Byron - que idealizavam o mistério e a melancolia noturna -, cruzando-se ainda com visões existencialistas e com o conceito de integração da "sombra" de Carl Jung, onde abraçar a própria introspeção é o caminho para a autenticidade.

Esta atmosfera estética e sonora cria uma ponte direta e afetiva com as boas vivências dos anos 80. O apelo visual de néons a rasgar a penumbra urbana e o nevoeiro noturno remete de imediato para a linguagem cinematográfica cult dessa década, ao estilo de Blade Runner ou dos thrillers de John Carpenter. Além disso, o ritmo hipnótico e envolvente ressuscita a energia mágica das pistas de dança e das discotecas goth e synthpop da época, assim como a sensação inesquecível de liberdade ao percorrer as ruas da cidade à noite com o rádio a tocar, transformando a nostalgia oitentista numa experiência viva e revigorante. É aqui que nos reencontramos como as "almas danadas" de ontem e de hoje, -como a minha amiga Gotika e seus amigos bem descrevem - herdeiras legítimas de um sentimento que procura na noite um refúgio onde a música é alta o suficiente para calar o ruído do mundo.

Num quotidiano saturado de obrigações e expetativas, a cena underground funciona como um escudo terapêutico e libertador. Quando os graves ressoam no peito, a música abafa a ansiedade e a dança na penumbra transforma-se num transe que nos devolve ao momento presente. Longe do julgamento da luz do dia, o escuro dos clubes acolhe a nossa estética e essência sem pedir justificações, unindo estranhos numa cumplicidade silenciosa.

Mais do que diversão, a noite é um espaço inabalável de resistência, autenticidade e fraternidade. Numa era dominada pelas aparências e pela positividade forçada, reunir esta tribo na escuridão é um ato de afirmação - o lugar onde a melancolia, a rebeldia e a beleza da sombra encontram finalmente teto e celebração.


Sobre a acampada no Porto pela Habitação Justa

PONTO PRÉVIO
1.´Em Portugal, existem cerca de 773 mil trabalhadores por conta própria (trabalhadores independentes/recibos verdes). 
2. Segundo o relatório da EAPN, Portugal ocupa a 3.ª pior posição da UE no que toca ao risco de pobreza especificamente entre os trabalhadores independentes e outras situações que excluem o trabalho por conta de outrem
3. O risco de pobreza geral dos empregados no país desceu de forma consolidada, fixando-se em 8,6% (dados do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento do INE). No entanto, a média nacional dos trabalhadores esconde a enorme disparidade enfrentada pelos "recibos verdes", cuja taxa de pobreza é historicamente duas a três vezes superior à dos trabalhadores com contrato.
4. Dependência Económica (Falsos Recibos Verdes): um dos fatores estruturais que explica a fragilidade contínua é que mais de 14% dos trabalhadores por conta própria dependem economicamente de um único cliente (que representa 75% ou mais dos seus rendimentos), inserindo-se naquilo que comummente se designa por "falsos recibos verdes".
Fonte [Sete Margens]
A acampada que desde sábado tem estado na Praça D. João I, no Porto, vai permanecer e volta a montar acampamento.

A organização apela ainda a que as pessoas continuem a doar tendas ao movimento, como têm feito, existindo neste momento uma reserva de tendas que poderá ser utilizada esta noite. 

A concentração de hoje, pelas 19:00, arrancou com "Grândola, Vila Morena", de José Afonso, um espelho da canção que os manifestantes cantavam pouco antes da carga policial da última madrugada.

As cerca de duas mil pessoas presentes empunhavam cartazes contra o presidente da Câmara do Porto, Pedro Duarte, e a reivindicar o direito à habitação, entoando palavras de ordem como "O povo unido jamais será vencido" e "Pedro Duarte, demissão".

O movimento pela habitação que tem protestado no Porto denunciou hoje uma carga policial, esta madrugada, que causou ferimentos em 39 dos participantes, dois dos quais ficaram em estado grave.
De acordo com o movimento, entre os feridos está uma pessoa com deficiência e vários participantes na concentração foram hospitalizados.

Os participantes voltaram a instalar tendas durante a noite, que foram retiradas pela polícia, depois de o presidente da Câmara do Porto ter dito na quarta-feira que seria “absolutamente implacável com qualquer tentativa de colocação de tendas” na Praça D. João I”.

O movimento apresenta seis reivindicações principais: “abaixo a lei das rendas; fim dos despejos; fim da compra de imóveis por fundos abutres; mais habitação pública; recuperação de imóveis devolutos para habitação; tetos às rendas”.

A discrepância entre a liderança política e a realidade social do país é evidente. Por um lado, o Primeiro-Ministro detém um património imobiliário substancial - incluindo uma residência de grandes dimensões envolvida em polémicas urbanísticas e dezenas de imóveis de rendimento , garantindo uma estabilidade financeira familiar partilhada pela sua rede de contactos. 

14 membros do governo têm interesses imobiliários, que passaram para testas de ferro quando foram para o governo.

Por outro lado, o panorama do país revela dados alarmantes: um décimo da população vive em pobreza persistente (com estimativas informais a apontarem para valores significativamente superiores), 10% da população encontra-se em risco sério de pobreza prolongada e cerca de 15 mil pessoas vivem em situação de sem-abrigo. Perante este cenário, as críticas do executivo, que qualifica os protestos da população de 'egoísmo', claro que geram mais indignação e hipocrisia.

Entretanto a alegada de Pedro Duarte falou, o artigo 18.º do Decreto-Lei n.º 310/2002, de 18 de dezembro, estabelece que os acampamentos ocasionais fora dos locais próprios para campismo dependem de licença municipal. Porém O direito de reunião e manifestação em locais públicos não carece de qualquer autorização ou licença prévia das câmaras municipais.

Força Porto, força país inteiro, Europa e todos os países que vivem dominados por gente indiferente e que desrespeita o seu povo!

Justiça ambiental e a infância: Por que milhões de crianças pagam o preço mais alto da crise climática

A emergência climática não afeta todos da mesma forma, e as suas consequências mais severas recaem com maior gravidade sobre os grupos que menos contribuíram para a sua origem. No centro desta injustiça estão as crianças e, em particular, as populações indígenas. Os contornos dramáticos desta realidade ficaram patentes quando os dados divulgados no Público Azul revelaram que cerca de 25,8 milhões de crianças na América Latina e no Caribe enfrentam os impactos diretos do fenómeno El Niño, entre secas severas que esvaziam rios essenciais, vagas de calor extremo e interrupções no acesso à água potável e à educação. A dimensão deste problema junta-se aos crescentes alertas internacionais da UNICEF sobre o impacto do clima na infância, que demonstram como a degradação ambiental ameaça os direitos básicos das gerações mais jovens em todo o mundo.

Ao mesmo tempo, a comunidade científica global deu um passo inédito para compreender a extensão deste fenómeno com a publicação de um estudo pioneiro no BMC Global Health Research. Trata-se da primeira revisão a sistematizar formalmente a evidência global sobre os impactos das alterações climáticas na saúde das crianças indígenas, oferecendo um enquadramento rigoroso e alinhado com as evidências disponibilizadas no PubMed Central sobre o impacto da injustiça ambiental na saúde infantil. Estas investigações confirmam que as populações infantis enfrentam uma vulnerabilidade desproporcional, combinando a fragilidade biológica de um organismo em desenvolvimento com a degradação acelerada dos seus territórios e modos de vida ancestrais. No contexto regional, iniciativas como o Programa Criança e Natureza têm vindo a destacar como os conceitos de justiça climática e racismo ambiental afetam diretamente os direitos e a segurança dos menores no Sul Global.

Apesar do pioneirismo e da amplitude da nova revisão, os próprios investigadores alertam que a ciência sobre este tema ainda não é totalmente conclusiva e apresenta limitações importantes na evidência disponível. Quase metade dos estudos analisados não apresentou resultados específicos para crianças indígenas e a investigação existente continua concentrada num número muito reduzido de países e comunidades. Por essa razão, os autores sublinham que é urgente desenvolver novos estudos em mais regiões do globo e assegurar uma participação mais significativa e genuína das comunidades e dos jovens indígenas. O objetivo passa por compreender em profundidade os diferentes impactos climáticos e garantir que as respostas políticas e ambientais tenham em conta as reais prioridades, experiências e conhecimentos destas populações. Como defende Jaime Turnbull, um dos autores do trabalho, reconhecer a soberania, os conhecimentos e as experiências vividas dos povos indígenas, garantindo que as comunidades lideram a definição das soluções, é o único caminho para alcançar resultados equitativos e eficazes no combate à crise climática para as crianças e as suas famílias.

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

LORN - Anvil


"Anvil" de LORN: O Eco Eletrónico da Extinção e o Mito Transumanista
Nascido em Normal, Illinois, e radicado em Milwaukee, o produtor norte-americano Marcos Ortega, conhecido no meio musical como LORN, consolidou-se como uma das figuras mais singulares e influentes da música eletrónica experimental contemporânea. Enquadrado em géneros como o IDM, o Dark Wave, o Industrial e o Leftfield Bass, o trabalho de LORN distingue-se por uma estética sonora sombria, visceral e melancólica, em que sintetizadores analógicos pesados e ritmos hipnóticos constroem atmosferas densas e inquietantes. A faixa "Anvil", pertencente ao seu álbum Vessel de 2015, exemplifica perfeitamente essa identidade: a canção evoca a ideia de um esmagamento inevitável - como sugere o próprio termo "bigorna"-, servindo de metáfora para o peso da mortalidade, o isolamento na era tecnológica e a transição para o desconhecido.

A dimensão conceptual da música atingiu o seu cume em 2016 com o lançamento do seu aclamado videoclipe, concebido e realizado pela dupla artística franco-belga GERIKO, composta por Hélène Jeudy e Antoine Caëcke. Situada num ano de 2100 assolado pela sobrepopulação extrema e pela rutura de recursos do planeta, a curta-metragem de animação apresenta uma solução estatal distópica: a criação da Anvil, uma rede social pós-morte onde a consciência dos cidadãos é digitalizada e armazenada num servidor público, exigindo contudo a eutanásia e desmaterialização do seu corpo físico. A narrativa acompanha os instantes finais de uma jovem mulher na Terra antes da sua transição para a rede digital, confrontando o espectador com a fronteira entre o alívio de uma imortalidade virtual e a tragédia do aniquilamento da condição humana tangível.

Do ponto de vista filosófico e literário, a obra mergulha profundamente nas correntes do transumanismo e do pós-humanismo, questionando os limites do mind uploading e a mercantilização da própria existência. A narrativa reflete as teorias socio-filosóficas sobre biopolítica e controlo estatal dos corpos, bem como as noções de hiperrealidade e simulação formuladas por pensadores como Jean Baudrillard. No plano literário e estético, "Anvil" bebe do universo cyberpunk de autores fundamentais como William Gibson e Philip K. Dick, combinando-o com uma linguagem visual marcante inspirada no traço arquitetónico de François Schuiten (As Cidades Obscuras) e na estética do manga e anime de culto japonês, nomeadamente as obras de Katsuhiro Otomo (Akira) e Masamune Shirow (Ghost in the Shell)

A teia sem centro


Falcão- peregrino (Falco peregrinus)
𝐀 𝐓𝐞𝐢𝐚 𝐒𝐞𝐦 𝐂𝐞𝐧𝐭𝐫𝐨
Descalço os sapatos e, com eles,
a ilusão de que estou fora.
A pele já não é uma fronteira,
é apenas um ponto de contacto.

Não há topo na pirâmide;
a cicuta, a cigarra e o granito
têm o mesmo peso ontológico que o meu olhar.
O valor de uma árvore não se mede em metros cúbicos de madeira,
mas no sobressalto vivo do seu próprio existir.

O antropocentrismo desmorona-se como gesso húmido.
O que chamo «meu corpo»
é apenas a Terra a respirar através deste nome provisório.
O rio não corre para nos servir;
o rio corre porque é a linguagem da montanha.

Desaprender o domínio.
Escutar a inteligência silenciosa das raízes,
o direito inerente de cada líquen, de cada lobo,
de ser exatamente o que é.

A verdadeira revolução não é técnica,
é um acordar do Self ecológico:
reconhecer que ferir a teia
é ferir a mão que a toca.

Dissolver a posse.
Tornar-me, finalmente,
paisagem

João Paulo Soares, 14.10.2026

P.S. O que é o Self ecológico? Saiba mais aqui

Dia Internacional dos Resíduos Elétricos: Quase 18% dos portugueses inquiridos já deitaram pequenos equipamentos elétricos no lixo comum


Um estudo sobre comportamentos relacionados com a tecnologia de baixo custo e consumo rápido, realizado em 12 países europeus, revela que, em Portugal, um em cada seis compradores inquiridos (17,8%) já colocou pequenos equipamentos elétricos deste tipo no lixo comum ou em contentores inadequados.

Este estudo europeu, divulgado pelo Electrão, põe em evidência o destino de carregadores, cabos, auriculares, luzes LED e outros pequenos aparelhos do quotidiano que são muitas vezes adquiridos a baixo custo para satisfazer uma necessidade pontual ou assegurar um equipamento de reserva.

O estudo foi promovido pelo WEEE Forum, a associação internacional de entidades gestoras de resíduos elétricos da qual o Electrão faz parte. Os resultados são divulgados no âmbito da XIV edição do Dia Internacional dos Resíduos Elétricos, iniciativa criada pelo WEEE Forum em 2018, assinalada anualmente a 14 de outubro e que tem este ano como tema a tecnologia “fast tech”.

Em Portugal, oito em cada dez inquiridos (82,5% dos 503 participantes) compraram, pelo menos, um destes produtos no espaço de um ano (entre agosto de 2025 e julho de 2026). Entre quem já comprou estes equipamentos, um terço (33,6%) referiu ter guardado aparelhos que deixou de utilizar.

As papeleiras de rua e o ecoponto amarelo são indicados por 29,8% dos compradores como destinos inadequados onde já colocaram estes pequenos equipamentos elétricos. 41,9% dos inquiridos referem ter entregado estas tipologias de equipamentos num local de recolha ou instalação municipal (ecocentros). Em alguns casos, os comportamentos coexistem: há quem guarde em casa alguns equipamentos fora de uso, entregue outros para reciclagem em locais oficiais e descarte incorretamente outros aparelhos.

Dados globais do estudo
No conjunto dos 12 países, mais de um terço dos compradores (38,6%) afirma ter descartado pelo menos um destes equipamentos sem nunca o utilizar, depois de uma única utilização ou antes de completar um mês de uso.

Perante uma avaria, 59,1% escolheriam novamente o mesmo modelo ou outro equipamento barato. Apesar disso, 80,3% afirmam que, em algumas compras, teriam optado por pagar mais por alternativas mais duradouras.

“Os aparelhos de baixo custo e curta duração continuam a ser equipamentos elétricos. Devemos prolongar o seu uso até ser possível, nomeadamente através da reutilização, e quando deixam de servir é necessário encaminhá-los para reciclagem”, realça o Diretor-Geral de Elétricos e Pilhas do Electrão, Ricardo Furtado.

Recuperar materiais e tratar componentes perigosos
Estes aparelhos, mesmo de pequena dimensão, precisam de ser encaminhados para reciclagem para que os seus materiais sejam recuperados e os componentes, que exigem cuidados específicos, tenham tratamento adequado.

O encaminhamento para reciclagem permite recuperar metais e plásticos que podem voltar a ser usados no fabrico de produtos, reduzindo a necessidade de extrair novas matérias-primas.

O tratamento adequado inclui também a remoção e gestão dos componentes com substâncias perigosas, para proteger o ambiente e a saúde humana. Colocar estes aparelhos no lixo comum compromete esse encaminhamento.

A escala do desafio é mundial. Segundo o Global E-waste Monitor 2024, da UNITAR e da União Internacional das Telecomunicações, foram geradas 62 milhões de toneladas de resíduos elétricos e eletrónicos em 2022. Apenas 22,3% tiveram recolha e reciclagem formalmente documentadas.

Acresce que, no caso dos equipamentos que contêm baterias de iões de lítio, há ainda um risco de segurança. O WEEE Forum alerta que, quando estes aparelhos são descartados indevidamente, as baterias podem ser esmagadas ou perfuradas nos veículos de recolha ou nas instalações de triagem e tratamento e provocar incêndios. A entrega em canais próprios permite encaminhá-los para unidades dedicadas, reduzindo os riscos para trabalhadores e instalações.

Mobilização mundial com arte e recolha no Parque Mayer
O Dia Internacional dos Resíduos Elétricos (Internacional E-Waste Day, na sigla original) pretende mobilizar consumidores, empresas e outras organizações a dar o destino correto a estes resíduos, através de campanhas de sensibilização e iniciativas de recolha. Em 2025 aderiram a esta iniciativa mais de 140 organizações de 50 países, nos seis continentes. Em 2026, a atenção centra-se nos pequenos equipamentos de tecnologia de consumo rápido.


Para assinalar esta efeméride Dia Internacional dos Resíduos Elétricos, o Electrão tem uma instalação no Parque Mayer, junto ao Teatro Variedades, em Lisboa. A associação apoiou também o espetáculo “Pigmalião”, uma ópera contemporânea portuguesa, adaptada a partir do clássico, que foi apresentada neste teatro de 17 a 20 de setembro. Com música de Gerson de Sousa Batista e encenação e conceção plástica de João Vieira Fino, o espetáculo reinterpreta o mito num futuro devastado. A cenografia integrou uma escultura construída com resíduos de equipamentos elétricos e eletrónicos fornecidos pelo Electrão.

O Electrão apela a que os consumidores verifiquem quais os equipamentos que ainda podem utilizar, reparar ou doar e entreguem os que chegaram ao fim de vida nos pontos de recolha adequados. Cabos, carregadores e pequenos aparelhos elétricos também precisam de recolha separada. Os locais de entrega podem ser consultados em Onde Reciclar.

Portugal recicla menos de metade da meta comunitária, salienta a associação ambientalista Zero
"As razões para este descalabro são múltiplas, mas têm sempre por base ações ou omissões das três entidades públicas que ao longo destes 20 anos deveriam ter zelado por garantir a boa gestão dos Resíduos dos Equipamentos Elétricos e Eletrónicos (REEE): o Ministério do Ambiente, a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e a Direção-Geral das Atividades Económicas (DGAE)", aponta a associação.

Recordando que neste ano se cumprem 20 anos da entrada em funcionamento do Sistema de Gestão dos REEE (SIGREEE), a Zero diz que são 20 anos de boicotes e ilegalidades e que as comemorações não podiam ser mais tristes.

Segundo os últimos dados oficiais da APA, em 2024 Portugal recolheu e tratou 32% dos REEE, menos de metade da meta comunitária que é de 65%.

Além dos números, no seu comunicado, a Zero traça ainda um percurso muito negativo de todo o processo, começando por recordar que nos primeiros 12 anos de funcionamento do sistema (até 2018) a APA autorizou que os REEE triturados em unidades de fragmentação de sucata contassem para as metas das entidades gestoras dos REEE (Electrão e ERP), sem que existisse qualquer evidência de que esses resíduos tivessem sido devidamente descontaminados.

Após 2018, esses resíduos deixaram de contar e por isso as entidades gestoras nunca mais cumpriram as metas das suas licenças, o que implicava o pagamento de uma Taxa de Gestão de Resíduos (TGR) de 10 euros por tonelada, tão baixa "que continuou a ser economicamente compensatória a má gestão dos REEE".

Kill Shelter & Antipole - A Kiss in the Rain

Uma Dança entre a Memória e a Mortalidade: Análise a “A Kiss in the Rain”

"A Kiss in the Rain", colaboração entre o projeto britânico Kill Shelter (Pete Burns) e o músico norueguês Antipole (Karl Morten Dahl), é um dos temas mais marcantes do álbum A Haunted Place (2021). A canção ergue-se como um hino elegante e melancólico que navega pelas águas da darkwave, do post-punk contemporâneo, tragic wave e da coldwave. Sonoramente, a faixa é construída sobre uma base ritmada e fria de sintetizadores analógicos, linhas de baixo pulsantes e guitarras cristalinas banhadas em chorus e delay, evocando a nostalgia soturna do som alternativo dos anos 80 - com influências diretas de nomes incontornáveis como The Cure, The Chameleons ou Clan of Xymox -, mas com uma produção moderna, densa e envolvente.

No seu significado lírico e temático, "A Kiss in the Rain" explora a dualidade entre a vulnerabilidade afetuosa e a decadência emocional. O gesto do beijo sob a chuva funciona como uma metáfora perfeita para a procura de beleza, intimidade e redenção no meio da tempestade - seja esta uma crise pessoal, o isolamento existencial ou a brevidade do tempo. A letra aborda a inevitabilidade da perda e a natureza efémera da ligação humana, sugerindo que, por vezes, os momentos mais puros de paixão e entrega ocorrem precisamente quando tudo à nossa volta se desmorona. A chuva surge não apenas como um elemento atmosférico, mas como um agente purificador e lavador de dores antigas, onde a dor da memória e o conforto do afeto se fundem num único instante.

O videoclipe reforça esta narrativa através de uma estética visual sóbria e contemplativa, estruturada em torno de fotografias de cemitério que evocam uma profunda sensação de saudade, misticismo e introspeção. As imagens estáticas de campas, esculturas tumulares e paisagens fúnebres cruzam-se com a melancolia inerente à música, transformando o registo visual num tributo à memória, à perda e ao silêncio eterno. Este desfile de fotografias capta na perfeição o espírito haunted (assombrado) do álbum, criando uma atmosfera solene e poética que espelha o estado psicológico de isolamento e luto sem recorrer a artifícios complexos ou explícitos.

Em termos de influências literárias e filosóficas, a canção navega por águas densas e contemplativas, bebendo tanto do Existencialismo de Jean-Paul Sartre e Albert Camus como da obra de Hermann Hesse. Ao confrontar a finitude da existência e o absurdo do mundo com o desejo humano de encontrar sentido através do contacto com o outro, a faixa evoca essa constante dualidade entre o espiritual e o carnal, o isolamento e o desejo de fusão. Tal como o Lobo da Steppe (Steppenwolf) ou o percurso de transição interior em Demian, "A Kiss in the Rain" capta a dor de quem caminha à margem num mundo frio e material, mas procura desesperadamente um vislumbre de transcendência ou redenção. Há também um claro eco do Romantismo escuro e da poesia decadentista do século XIX - lembrando autores como Lord Byron, Edgar Allan Poe, Novalis e Charles Baudelaire -, onde a melancolia (spleen), o efémero e o amor entrelaçado com a mortalidade assumem o papel principal. A imagem do beijo sob a chuva e das estátuas tumulares espelha a ideia de que a verdadeira beleza e a descoberta do "eu" surgem no limiar entre a vida e a morte, no abraço ao efémero e na capacidade de transformar a dor e a solidão numa experiência estética sublime - provando que a escuridão na música pode ser um refúgio de profunda sensibilidade e beleza.