sábado, 24 de outubro de 2020

A UE deve combater o colapso da biodiversidade



Tradução de Ana Pacheco
Original
The EU Must Fight the Collapse of Biodiversity
Os trabalhos de Charles Darwin sobre biologia evolutiva, com a aplicação do principio da selecção natural: “sobrevivência do mais apto” inspiraram uma série de ideologias e actividades humanas que vão desde o fascínio fascista pela eugenia e pureza de raça, ao desenvolvimento de organismos geneticamente modificados na agricultura e à economia “Laissez-faire”.
A mentalidade da sobrevivência do mais apto continua muito viva na geopolítica de hoje. A centralização de poder foi racionalizada, como um meio natural de segurança, que, por sua vez, exige competição por recursos e ideologias opostas.
Actualmente, as ilhas Galápagos, um ecossistema com elevada biodiversidade, onde Darwin efectuou a sua pesquisa, sofrem com a sobrepesca das frotas pesqueiras chinesas que saqueiam as áreas marinhas ao seu redor, numa flagrante demonstração de poder. Com esta actuação, a China contribui para a destruição do oceano, que abriga espécies criticamente importantes, como os tubarões-martelo, alterando toda uma cadeia alimentar onde a humanidade se inclui.
Este exemplo não é apenas um evento isolado. Na verdade, a destruição da biodiversidade passou a ser a norma. Os humanos causaram o desaparecimento de 83% dos mamíferos selvagens, e 50% das plantas, nas últimas quatro décadas. Acresce que, ainda mais impressionante, o último relatório da Plataforma Intergovernamental para a Biodiversidade e Ecossistemas (IPBES) anunciou que teve início a sexta extinção em massa do planeta. Como mostra a revisão de Dasgupta, esta extinção está directamente relacionada com a aceleração da globalização económica actual.
De salientar que uma extinção em massa não se limitaria aos reinos vegetal e animal. Como humanos é fundamental que entendamos a nossa pertença e interdependência à natureza, se quisermos salvar a humanidade da fome, do colapso civilizacional e da extinção.

Porquê que a biodiversidade é importante?

Biodiversidade é vida.
A maioria das pessoas demonstra um grande desconhecimento acerca da biodiversidade que os rodeia: que uma complexa ligação de plantas e insectos acarreta a polinização das plantas, que por sua vez produz alimentos. Espécies chave – animais que têm um papel central em determinados ecossistemas, como os castores que projectam paisagens, regulam fluxos de água e contribuem para a filtração da mesma. O fitoplâncton e a vegetação marinha e terrestre usam o dióxido de carbono para a produção de oxigénio. Certas espécies de animais e plantas que participam na despoluição de solos, enquanto outras o descompactam, permitindo o estabelecimento de vida. Os mangais que protegem os litorais de inundações e tempestades devastadoras, ao mesmo tempo que alimentam a vida marinha.
Individualmente, as espécies desempenham funções cruciais no solo, subsolo, nas profundezas oceânicas e em diversas paisagens terrestres. Juntas, cada espécie complementa outras, colaborando de forma interdependente para o benefício comum dentro dos ecossistemas e entre ecossistemas. Em suma, a biodiversidade é a base da resiliência ecossistémica, que é essencial para combater as mudanças climáticas.
A biodiversidade é essencialmente uma arte e ciência da natureza. É informação em movimento e inteligência dos modelos, cores, formas, texturas, cheiros e aprendizagem. É a própria evolução, e nós fazemos parte dela. As culturas humanas costumam emanar de bio-regiões, resultando em diferentes hábitos alimentares, arquitecturas e negócios económicos. O termo francês “terroir” integra este conceito na perfeição: a cultura que exerce a sua força sobre os ecossistemas, criando uma economia e pessoas resilientes.

A Visão Global da Biodiversidade
Contudo, dois fenómenos interligados estão a enfraquecer as culturas humanas e a biodiversidade natural. Primeiro, a globalização económica que favorece as economias de escala em relação à produção tradicional. Para tal, contribuem os fortes benefícios macroeconómicos, que produzem efeitos colaterais: padronização, uma vez que, os humanos precisam de forma crescente de solo para as suas monoculturas, e urbanização, dependente da forma como a economia desenvolve os sectores industriais e de serviços. Como resultado temos a invasão exponencial humana dos habitats naturais.
O segundo fenómeno é a uniformização das técnicas agrícolas de cultivo. Estas aumentaram significativamente após a Segunda Guerra Mundial e com a Revolução Verde (na qual os países em desenvolvimento começaram a usar pesticidas e culturas de elevado rendimento), assim como, o uso de poluentes e combustíveis fósseis. Como consequência, este comportamento acarretou um ataque aos solos e à água das quais a biodiversidade depende. Com o tempo, esta uniformização enfraqueceu a saúde dos ecossistemas em todo o mundo, degradando a sua capacidade de armazenar carbono, água e vida. Para os humanos, isto significa que a água está poluída e que as cadeias alimentares estão contaminadas. Como resultado, os alimentos são menos nutritivos, porque os solos perderam nutrientes que a biodiversidade produz.
Além destes fenómenos decorrentes do crescimento económico e das estratégias de desenvolvimento, a biodiversidade passou a ser um objecto directo de consumo. Como as espécies-chave, exemplo dos tigres, leões e elefantes, que são cada vez mais raras, também é mais lucrativo caçar. Em 2014, a Interpol alertou que o tráfico de animais selvagens se tornou a quarta actividade mais lucrativa em todo mundo – correspondendo a cerca de 15 mil milhões de euros anuais em receitas. Este sector ilegal combina altos níveis de violência com corrupção, resultando em abusos sistémicos dos direitos humanos de defensores ambientais e comunidade indígenas. Em 2017, cerca de quatro defensores ambientais foram mortos por semana. Com eles, o conhecimento precioso para redesenhar de forma sustentável os habitats humanos foi perdido.
Todas estas questões estão intrinsecamente ligadas a níveis crescentes de desigualdade económica. Na verdade, a desigualdade realmente prevê a perda de biodiversidade. Este é um aviso severo: a padronização económica não apenas despojou os ecossistemas da sua vitalidade, como também despojou as comunidades humanas da sua capacidade de administrar a natureza e contribuir para a sua complexidade. Para ilustrar, os acordos de livre comércio entre a Europa e os países latino-americanos promovem produções em grande escala que invadem os ecossistemas locais e os meios de subsistência tradicionais. Isso reduz os preços das culturas tradicionais e empurra os agricultores para a pobreza, ao mesmo tempo que estimula a dependência económica de aportes agroquímicos. Na verdade, não há nada de gratuito ou libertador neste tipo de actuação.
O resultado? Desintegração social e ecológica. Quanto mais a política falha em reconhecer os fundamentos aberrantes sobre os quais se sustenta, mais rápido irá gerar conflito a várias escalas.

Qual o papel da União Europeia neste contexto?
Para que a UE tenha sucesso na luta concomitante contra as alterações climáticas e o colapso da biodiversidade, deve abordar os fatores fundamentais da desintegração ecológica. O Acordo Verde da UE é um passo significativo na direção certa. Ainda está em fase de desenvolvimento estratégico, para o qual o setor de política externa deve contribuir de forma proactiva e construtiva. Algumas áreas já precisam de mais atenção e maior priorização.
A biodiversidade, a economia circular e as estratégias do campo à mesa devem ser apoiadas pela reforma de antigos mecanismos como a Política Agrícola Comum (PAC), que em seu estado actual mina a credibilidade do Acordo Verde quer na Europa, quer nos restantes países fora da Europa. A PAC na Europa é o principal motor da perda de biodiversidade e um dos principais contribuintes para as emissões de dióxido de carbono. O próximo quadro financeiro plurianual deve fornecer incentivos robustos para mudanças sistémicas em direção a abordagens agroecológicas e restauração de ecossistemas.
Acresce que, a PAC incentiva a concorrência desleal com parceiros em todo o mundo, incluindo países da África Ocidental. Em Burkina Faso, a PAC pode diminuir a contribuição dos meios de subsistência tradicionais para a economia nacional e criar pobreza desnecessária, pois os produtos europeus subsidiados inundam os mercados e automaticamente excluem os produtores de leite, por exemplo. Na melhor das hipóteses, a UE é uma celebração da diversidade em todas as suas formas. Portanto, deve também celebrar as paisagens produtivas da biodiversidade como um marco político em seus investimentos internos e externos.
Num mundo onde a competição geopolítica leva países e povos a saquear a natureza, é essencial que a UE construa a sua reputação como parceiro de política externa, que apoia novos contratos socio-ecológicos a nível mundial. Devemos mapear e reconhecer as interdependências ecológicas que regulam o nosso planeta, e então governar de acordo com elas. Devemos alinhar políticas, investimentos e projetos com a gestão social e económica da natureza. A UE deve investigar como conceber a sua política externa de forma a preservar, regenerar e institucionalizar a saúde dos ecossistemas locais ao longo dos seus compromissos diplomáticos. Assumir este compromisso também implica habilitar ou incentivar os sistemas sociais e políticos a assumirem uma função de administração do seu ambiente natural, por exemplo, fortalecendo os direitos humanos e ambientais em conjunto.
A UE também deve contribuir urgentemente para tornar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis (ODS) das Nações Unidas mais coesos em questões ambientais. Um estudo recente demonstra que as metas ambientais dos ODS não preservam a biodiversidade. Em vez disso, distorcem os dados em direção a indicadores socioeconômicos que promovem o progresso em detrimento da natureza. O financiamento de desenvolvimento da Europa deve resolver esse problema.
Finalmente, dentro do Acordo Verde, a UE deve ser extremamente cuidadosa para não comparar o clima com as metas ambientais. É cada vez mais claro que a tecnologia digital europeia e as ambições verdes dependem das atividades de mineração que terão efeitos negativos nos principais ecossistemas que regulam o clima. A menos que a UE invista em maior pesquisa e desenvolvimento de novas baterias, a demanda industrial e popular por extração mineral levará rapidamente a UE a ultrapassar as fronteiras planetárias - limites naturais essenciais cuja extensão levaria a danos dramáticos e irremediáveis a uma escala global.

Ainda há esperança para o coelho bravo em Portugal?

Fonte: aqui


O coelho europeu, que tem no território português um dos seus habitat, passou do estatuto de “quase ameaçado”, categoria que se mantinha desde 2008, para “ameaçado de extinção”, de acordo com a Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). Apesar de terem sido implementadas algumas iniciativas na Europa, os cientistas confirmam que a situação piorou nos territórios onde estes animais são nativos, sendo Portugal uma dessas zonas.

É de referir que esta ameaça não tem apenas consequências para os coelhos, considerando que existem outras espécies, algumas também ameaçadas, que dependem destes mamíferos para sobreviver. Por exemplo, o coelho é uma presa essencial para o lince-ibérico, que se encontra em perigo de extinção, ou para a águia-imperial-ibérica, classificada como Vulnerável na Europa e Criticamente Em Perigo em Portugal.

Existem vários factores responsáveis pelo decréscimo progressivo da densidade das populações de coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus) nos ecossistemas ibéricos: caça intensa, deterioração do habitat, elevadas densidades de predadores generalistas, competição com herbívoros de grande porte, além da espécie estar sujeita a várias doenças, constituindo ambas factores significativos de mortalidade.

No entanto, com o passar dos anos, a espécie vai tornar-se cada vez mais resistente, acreditam os cientistas. Em estudos realizados em laboratório, publicados num artigo científico em 2017, concluiu-se que “pelo menos um terço da população de coelho-bravo em Portugal já apresenta alguma imunidade” à nova estirpe de doença hemorrágica viral.

Por exemplo, nos Açores, a abundância de coelho europeu (também conhecido por coelho bravo) é monitorizada periodicamente pelos Serviços Florestais, através da contagem de coelhos ao longo de percursos pré-estabelecidos. As contagens são realizadas de noite, com recurso a projetores de luz, e o número de coelhos observados é utilizado para estimar um índice de abundância relativa.

As variações neste índice traduzem as flutuações no efetivo, e permitem avaliar tendências populacionais e ajustar o esforço de caça de forma a assegurar a sustentabilidade deste recurso, bem como o seu equilíbrio com as atividades agrícolas e florestais. Este método é o mesmo utilizado na monitorização da abundância de outras populações de coelho, da Península Ibérica à Austrália

Porém, para alguns criadores, a via mais segura para garantir que estes animais cheguem à fase adulta, saudáveis e se reproduzam, é a criação em cativeiro. Num ambiente controlado, o coelho bravo está mais protegido das doenças mortíferas que o afetam, tem acesso a comida e a água de qualidade, assim como cresce num habitat relativamente protegido da ação dos seus predadores naturais.

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Unemployed people sleep worse than workers



ONE OF THE unexpected benefits of lockdown has been some precious extra moments of shut-eye. According to Fitbit, a fitness-tracking firm, American users of its wearable devices got an additional 20 minutes of sleep in April, compared with the previous year; Fitbitters elsewhere also enjoyed more time under the covers. But not everyone has been sleeping well of late. The pandemic has put millions out of work. According to a new working paper, these newly unemployed workers are much more likely to suffer from poor sleep.

To see how employment status affects sleeping habits, researchers at University College London and Dartmouth College analysed data on 2.5m Americans, collected by the Centres for Disease Control and Prevention (CDC) between 2006 and 2019. Participants were asked how many hours they slept on average, and how often their sleep was disturbed. The researchers found that, although unemployed people got a little more sleep overall (about six minutes per day), this average masks wide variations. More of the jobless suffer from either too little or too much sleep (which have similar consequences).

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quinta-feira, 22 de outubro de 2020


Álvaro Vasconcelos


«O assassinato do professor Samuel Paty, porque ensinava a liberdade de expressão, é um crime monstruoso, manifestação extrema do obscurantismo que prolifera, do islamismo radical às correntes da supremacia branca, ao abrigo das redes sociais e do discurso de ódio.
Perante o horror do impensável, a emoção e a revolta são reações naturais, todavia, contra os inimigos da liberdade, a razão e o conhecimento são as armas mais eficazes.
Sobre Abdoullakh Anzorov, de 18 anos, autor do crime, sabemos que era de origem chechena, que cresceu em França e que postou um vídeo com imagens de Samuel Paty decapitado, tendo gritado: “Alá é grande!”
Desde o atentado no Metro de Paris, em 1995, ao do Charlie Hebdo, em janeiro de 2015, que se estuda o perfil dos autores de atos de terror (ler, por exemplo, Olivier Roy). Na maioria são jovens niilistas, desenraizados em França, reféns do mundo virtual da internet, do ódio e das teorias conspirativas, encontrando aí, no extremismo islamita da Al-Qaeda e Daesh uma razão de ser. Cresceram numa sociedade espetáculo, em que a única glória é aparecer nas redes sociais, mesmo depois de mortos; radicalizaram-se com as imagens de violência e morte no Médio Oriente, com as guerras da Síria e do Iraque, onde o direito à vida e a ilegitimidade da violência contra civis não são lei. A Tchetchénia é outra Síria, do espetáculo macabro da guerra de extermínio levada a cabo a mando de Putin.
O fanatismo medra também nas zonas de exclusão social, de ensino precário, lá onde a república não é sinónimo de igualdade e fraternidade.
Importa discutir como isolar os que pregam o fanatismo, combatendo, ao mesmo tempo, o racismo antimuçulmano e as organizações da extrema-direita que daquele se alimentam.
Como outros países, a França não encontrou ainda a resposta adequada e, perante a gravidade da situação sanitária e social, a tentação de desviar a atenção para as questões identitárias é enorme.
A resposta não está nas teorias do choque das civilizações, na identificação do terror com o Islão, nem, como temos visto, na prossecução de uma política que diminua as liberdades públicas, em nome da segurança, nem ainda em contrapor ao fanatismo religioso um dogmatismo laico, que em desrespeito pela liberdade exclui a religião do espaço público, estigmatiza as mulheres que cobrem os cabelos com um lenço e considera que o fanatismo é inerente à religião, nomeadamente a muçulmana. A maioria esmagadora dos 5 milhões de muçulmanos de França condena o fanatismo e os seus crimes, e são cidadãos da República, na diversidade das suas convicções.
É entrar no jogo do criminoso identificar o seu ato com uma religião, como o fez o Ministro de Interior, Darmadin, ao falar de terrorismo de “origem sunita”, estigmatizando o islão. Anunciar uma “guerra interna” é entrar numa perigosa escalada verbal, condenada ao fracasso, com Marine Le Pen. Não foi esse o discurso que elegeu Macron e o tornou a esperança do liberalismo político na Europa.
É também importante que os media não se deixem inebriar pelos índices de audiências, fomentados pelo espetáculo da violência verbal da extrema-direita, como Éric Zemmour, em França, condenado por defender a descriminação, mas que continua a destilar o ódio racial pela televisão.
As medidas a tomar devem ter um valor universal e ser contra todas as formas de incitação ao ódio. Importa, assim, além de aplicar a lei contra o discurso de ódio aos islamitas radicais, aplicá-la também ao discurso de ódio antimuçulmano e antissemita da extrema-direita. Esta questão torna-se ainda mais importante perante a consciência de que estamos a entrar na terceira vaga do terrorismo: a da extrema-direita.
A primeira vaga de atos de terror foi a da extrema-esquerda (brigadas vermelhas ou Setembro Negro), nos anos 70 e 80, seguida pela dos islamitas radicais, nos anos 90 e na primeira década deste século, que parece agora ter perdido capacidade de organização e os atos serem de fanáticos solitários.
Hoje, a maioria dos atos de terror são perpetrados por movimentos supremacistas brancos, que ganharam um novo fôlego com a chegada de Trump à Casa Branca, como é o caso de 90% dos atos cometidos nos Estados Unidos em 2018 e 2019, na maioria contra negros, muçulmanos e judeus.
A extrema-direita e o islamismo radical alimentam-se e inspiram-se mutuamente. Um membro da Atomwaffen Division (AWD), rede terrorista neonazi, ativa nos Estados Unidos e na Europa, declarou, segundo um relatório do instituto americano CSIS, que “a cultura de martírio e insurreição em grupos como os talibãs e o Daesh deve ser admirada e reproduzida.”
Para vencer a radicalização é preciso unir os cidadãos, independentemente da sua religião ou da falta dela. A laicidade implica tolerância, o caminho para prevenir as guerras de religião, como ensina Voltaire.
Ao decapitar o professor Paty, Abdoullakh Anzorov ambicionava decapitar a França dos seus muçulmanos, vitória que os fanáticos não podem ter.»

Pensamento da Semana- Miguel Torga


Um Autêntico Sonho de Amor
Orgulho, vaidade, despeito, rancor, tudo passa, se verdadeiramente o homem tem dentro de si um autêntico sonho de amor. Essas pequenas misérias são fatais apenas no começo, na puberdade, quando se olha uma janela e se desflora quem está lá dentro. Depois, não. Depois, sofre-se é pelo homem, é pela estupidez colectiva, é por não se poder continuar alegremente num mundo povoado, e se desejar um deserto de asceta. O ascetismo é a desumanização, é o adeus à vida, e é duro ser uma espécie de fantasma da cultura cercado de areias.
Miguel Torga, in "Diário (1948)"

Na cauda da Europa: 70% dos habitats portugueses estão em degradação

Relatório coloca Portugal no último lugar da União Europeia.




Cerca de 70% dos habitats protegidos, classificados em Portugal como Rede Natura 2000, estão numa tendência desfavorável e de deterioração. A conclusão surge num relatório da Agência Europeia do Ambiente feito com base nos dados enviados por cada país sobre os avanços e recuos entre 2013 e 2018.

Portugal surge não apenas ao lado dos cinco países onde mais de metade dos habitats desta rede ecológica estão em processo de deterioração (ao lado da Hungria, Alemanha, Irlanda e Eslovénia), como é, também, aquele onde essa percentagem é mais alta.

No caso do estatuto de conservação das espécies protegidas, a maioria, perto de 60%, recebe, em Portugal, uma classificação de "desconhecido", sendo muito poucos os casos, quer nas espécies quer nos habitats, em que a tendência é classificada como "favorável" e "em melhoria".

No ponto habitats, fazendo uma análise global, a nível europeu, a agência da União Europeia conclui que "a maioria das regiões revela tendências estáveis ou de deterioração, especialmente no Norte de Itália, Alemanha, Irlanda, Suécia e costa de Portugal".

O presidente da associação ambientalista Zero diz que olhar para o mapa apresentado neste relatório é "verdadeiramente dramático" pelos cerca de 70% dos habitats nacionais em estado desfavorável e de deterioração, "o pior resultado entre os 28 países europeus", mas também pela linha "bem escura que acompanha toda a costa do Continente, algo lamentável face aos valores naturais que nós temos e que são de tão grande importância".

Francisco Ferreira destaca o atraso "enorme", "de duas décadas praticamente", das zonas especiais de conservação para proteger estes habitats, potenciando a falta de planos de gestão, numa responsabilidade que é partilhada por sucessivos governos que não deram prioridade ao assunto.

O representante da Zero defende que há pressões turísticas e económicas para que determinadas áreas que já deviam estar protegidas continuem sem essa proteção, dando como exemplo o estuário do Sado e o plano de expansão do porto de Setúbal.

O mesmo relatório da Agência Europeia do Ambiente refere que, entre 2013 e 2018, Portugal foi o país que menos aumentou as suas áreas especiais de conservação, com a aplicação concreta de planos de conservação da natureza, numa subida que a própria agência classifica como "marginal" (apenas +3,8%).

Em Espanha as áreas especiais de conservação multiplicaram-se por dez no mesmo período de tempo, enquanto em França cresceram perto de 200%.

Pilhas de lítio


Com a vitória de Luis Arce do Movimiento al Socialismo (MAS), economista e ex-ministro das Finanças de Evo Morales, a Bolívia voltou a mostrar nas urnas o que já havia demonstrado em 2019, antes do golpe. Uma crónica de Raquel Ribeiro.

Na sua leitura no Nueva Sociedad, o sociólogo Julio Córdova Villazón, explicava a contundente vitória do MAS no domingo como um voto de resistência de um sector popular, tanto urbano como rural, vítima de uma série de violências no último ano na Bolívia: “a violência eleitoral” da falsa denúncia de fraude de 2019, aceite pela Organização dos Estados Americanos (OEA); a “violência a simbólica” sofrida pelos indígenas e populares, com “constantes desqualificações, desde o Estado e das redes sociais povoadas por sectores conservadores de classe média, que difundiram imagens de ‘hordas de violentos e ignorantes’, e em Novembro de 2019 polícias que queimaram a wiphala (bandeira indígena reconhecida constitucionalmente)”; “violência militar-policial”, materializada em vários massacres; e a “violência económica” imposta no contexto pandémico.

Não foi, então, por acaso a percentagem de participação popular nas eleições de domingo: 87%, superior à do ano em que se elegeu Morales (2005). Alguém há de explicar as sondagens que colocavam Arce timidamente em segundo-lugar atrás de Mesa, ou taco-a-taco com Mesa para uma muito provável segunda volta. Talvez as sondagens não tenham ouvido os populares, rurais e urbanos, vindas como vêm de empresas geridas por yuppies, homens de fato completo e camisa branca bem engomada à Guaidó, ou mulheres loiras platinadas como Jeanine Añez, gente que faz capa na Forbes como calendário da Playboy para executivos que se auto-proclamam presidentes.

Talvez as sondagens tenham servido igualmente para lembrar a opinião pública de quanto pode ser manipulada, de dentro (da Bolívia, da América Latina), e sobretudo de fora (EUA). Em meados de setembro, o Washington Post revelava que o Facebook tinha suspendido um dos seus anunciantes, CLS Strategies, porque usava contas falsas na Venezuela, Bolívia e México para manipular opinião. A suspensão do anunciante deu-se porque “violava os princípios da ingerência no estrangeiro”, revela o Facebook.

Isso, sabemos, é o que o Facebook diz. Na verdade, a ingerência das empresas norte-americanas com o aval do governo, na América Latina, tem longa tradição, de que a mais recente é a corrida ao lítio para os carros eléctricos Tesla do magnata Elon Musk, que não teve pejo em afirmar no Twitter, em Julho, que os EUA (ou ele próprio? Usou um royal “we”) orquestrariam golpes onde quer que fosse preciso. “Deal with it”, escreveu. A Wikipedia chama-lhe “empreendedor” que é liberalês para “empresário”, com três nacionalidades (sul-africano, canadiano e norte-americano) cuja fortuna está avaliada nos 89 mil milhões de dólares. Também ele foi capa da Forbes, e está em 7º na lista dos milionários.

O hashtag #choraElonMusk dominou o Twitter Brasil toda a noite de domingo, com a eleição de Luis Arce – na verdade ele é MAS, mas é uma espécie de tecnocrata, até “elogiado” pelo jornal de direita ABC, em Espanha, pela sua “moderação”, que terá de limpar as forças armadas de golpistas, apaziguar a oposição, construir a Bolívia pós-Evo e, sobretudo, gerir a pressão internacional para a exploração de uma das maiores reservas de lítio do mundo.

Quem também concentra enormes reservas de lítio é a Argentina (agora com um governo de esquerda moderada) e o Chile, à beira da sua primeira reforma constitucional desde o fim da ditadura de Pinochet, e que levou, no Outono de 2019, às maiores manifestações (e consequentes repressões) de que ali há memória. Esse triângulo de desertos de sal entre o Chile-Argentina-Bolívia concentra 50% de todo o lítio do mundo, precisamente como nos tempos da colónia aí se concentravam ouro, prata, e, mais tarde, cobre e nitrato de potássio.

Não foi por acaso que o James Bond foi à Bolívia filmar o “Quantum of Solace” em 2008, em que 007 consegue impedir um magnata sem escrúpulos de participar num golpe de estado por causa do controlo da água de um lago. Rings a bell? Nem por coincidência, em 2019, a própria “brand” James Bond já anunciou o seu novo carro Aston EV com bateria de lítio, e ainda nem há cinco dias o submarino ao serviço de sua Majestade (da Royal Navy UK, não de Hollywood, claro) também revelou a sua nova bateria de lítio subaquática.

Quanto tempo “chorará” Elon Musk? Os analistas que ainda acreditam que há alguma diferença entre Republicanos e Democratas contam com o milagre nas eleições americanas no início de novembro. Para os latino-americanos, habituados a serem tratados como o quintal de Washington, sabe-se que não será Biden a mudar o status quo, porque o império nunca dorme e sempre contra-ataca.


Raquel Ribeiro nasceu no Porto, em 1980. É jornalista e escritora. Doutorou-se no Reino Unido com uma tese sobre a ideia de Europa na obra de Maria Gabriela Llansol. Foi colaboradora do jornal Público, foi bolseira Gabriel García Márquez da Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano, na Colômbia, e da Universidade de Nottingham, com o projeto War Wounds, sobre testemunhos da presença cubana na guerra civil de Angola. Viveu em Cuba e em Inglaterra. "Este Samba no Escuro" é o seu segundo romance. É professora de estudos portugueses na Universidade de Edimburgo. Escreve às quartas-feiras. 

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Última avaliação mostra que a natureza da Europa se encontra em declínio acentuado e continuado

Práticas agrícolas e silvícolas insustentáveis, expansão urbana e poluição são as principais pressões responsáveis pelo drástico declínio da biodiversidade na Europa, que ameaça a sobrevivência de milhares de espécies animais e de habitats. Além disso, as diretivas da União Europeia (UE) de proteção da natureza e outras leis ambientais continuam a não ser aplicadas pelos Estados-Membros. A maioria das espécies e habitats protegidos não se encontram em bom estado de conservação e é preciso fazer muito mais para reverter a situação, segundo o relatório da Agência Europeia do Ambiente (AEA), intitulado «Estado da Natureza na UE», hoje publicado.


A nossa avaliação mostra que a salvaguarda da saúde e resiliência da natureza da Europa e do bem-estar das populações requer alterações profundas à forma como produzimos e consumimos os alimentos, gerimos e utilizamos as florestas e construímos cidades. Estes esforços devem ser acompanhados por uma melhor implementação e aplicação das políticas de conservação e um enfoque na recuperação da natureza, bem como numa ação climática cada vez mais ambiciosa, em especial nos setores dos transportes e da energia.

Hans Bruyninckx, diretor executivo da AEA


De acordo com o relatório da AEA “State of nature in the EU — Results from reporting under the nature directives 2013-2018 ”, uma maioria das espécies protegidas na UE como o falcão-sacre ou o salmão do Danúbio, e dos habitats, desde os prados às dunas, em toda a Europa enfrentam um futuro incerto a menos que se faça urgentemente mais para reverter a situação. O relatório da AEA é publicado em simultâneo com o relatório da Comissão Europeia sobre o estado da natureza, e neles se dá conta dos progressos realizados na consecução dos objetivos da legislação da UE para a conservação da natureza. 

O relatório da AEA mostra uma evolução positiva dos esforços de conservação. Tanto o número como a superfície das zonas protegidas no âmbito da rede Natura 2020 aumentaram ao longo dos últimos 6 anos e a UE atingiu as metas globais, com cerca de 18 % da sua superfície terrestre e quase 10 % da superfície marítima protegidas.

Contudo, os progressos gerais realizados não são suficientes para atingir os objetivos da Estratégia da UE para a Biodiversidade até 2020. De acordo com a avaliação da AEA, a maioria das espécies e habitats protegidos estão em estado de conservação deficiente ou mau e muitos deles continuam a deteriorar-se. Dos três principais grupos estudados, os habitats e as aves encontram-se muito longe do objetivo, enquanto o grupo das espécies não-avícolas atingiu praticamente a meta definida.

O Comissário do Ambiente, Oceanos e Pescas, Virginijus Sinkevičius, declarou: «Esta avaliação do estado da natureza é o mais completo «exame de saúde» da natureza alguma vez feito na UE. Mostra claramente que continuamos a perder o nosso sistema de suporte de vida essencial. Cerca de 81 % dos habitats ao nível da UE encontram-se em mau estado, com as turfeiras, os prados e os habitats de dunas a apresentar o nível mais elevado de deterioração. Precisamos urgentemente de cumprir os compromissos da nova Estratégia de Biodiversidade da UE para reverter este declínio para o benefício da natureza, das populações, do clima e da economia.»

«A nossa avaliação mostra que a salvaguarda da saúde e resiliência da natureza da Europa e do bem-estar das populações requer alterações profundas à forma como produzimos e consumimos os alimentos, gerimos e utilizamos as florestas e construímos cidades. Estes esforços devem ser acompanhados por uma melhor implementação e aplicação das políticas de conservação e um enfoque na recuperação da natureza, bem como numa ação climática cada vez mais ambiciosa, em especial nos setores dos transportes e da energia», declarou Hans Bruyninckx, diretor executivo da AEA.

Principais ameaças à natureza

O relatório da AEA refere que a agricultura intensiva, a expansão urbana e as atividades silvícolas insustentáveis constituem as principais pressões sobre os habitats e as espécies. A poluição do ar, da água e do solo tem igualmente um impacto nos habitats, assim como a exploração excessiva dos animais resultante da captura ilegal e das práticas de caça e pesca não sustentáveis.

Estas ameaças são agravadas por alterações aos rios e lagos, tais como as barragens e a captação de água, as espécies exóticas invasoras e as alterações climáticas. O abandono dos terrenos agrícolas contribui para o declínio continuado dos habitats seminaturais, tais como os prados, e das suas espécies, tais como as borboletas e as aves das zonas agrícolas.
Perspetivas

O relatório aponta para algumas evoluções positivas, na sua maioria à escala nacional ou regional. Várias espécies e habitats mostraram melhorias, como a rã ágil na Suécia, as lagoas costeiras de França e o abutre barbudo, ao nível da UE. A rede Natura 2000 mostra resultados positivos para muitas espécies e habitats. Por exemplo, os habitats costeiros e as dunas, que estão bem cobertos pela rede Natura 2000, apresentam melhor estado de conservação do que os habitats menos cobertos ou cobertos de forma marginal.

Em termos de políticas, também há esperanças graças à nova Estratégia de Biodiversidade da UE para 2030 e à estratégia «do prado ao prato», ambas elementos centrais do Pacto Ecológico Europeu. A estratégia de biodiversidade tem por objetivo reforçar e ampliar a rede de zonas protegidas, implementar um plano de restauração, assegurar ecossistemas saudáveis, resilientes às alterações climáticas, ricos em biodiversidade e que proporcionem a gama de serviços essenciais à prosperidade e ao bem-estar dos cidadãos.

Para além destas novas políticas, são necessários esforços adicionais para melhorar as capacidades de controlo nos Estados-Membros para cumprimento das metas. Atualmente, continuam a existir muitas lacunas nos dados, em especial no que se refere às espécies e habitats marinhos. São também precisos mais dados para avaliar plenamente o papel da rede Natura 2000. Por último, a implementação da legislação da UE deve ser significativamente melhorada.

Estado e tendências
Cerca de metade (47 %) das 463 espécies avícolas da UE apresentam um bom estado de conservação, o que represente cerca de 5 % menos do que no último período de referência em 2008-2012. A proporção de aves com estatuto de conservação deficiente ou mau aumentou 7 % nos últimos seis anos, atingindo um total de 39 %.
A nível nacional, cerca de 50 % das tendências populacionais com melhoria envolvem principalmente as aves das zonas húmidas e marinhas, para as quais foram designadas áreas no âmbito da rede Natura 2000, como o pato-ferrugíneo ou o airo-de-asa-branca. As aves nidificantes, como o grou e o milhafre-real, tem o maior número de relatos indicadores de melhoria das tendências populacionais. Isto deve-se à implementação da proteção ou restauração dos habitats e a melhorias no conhecimento, na monitorização e na sensibilização.
Apenas 15 % das avaliações de habitat apresentaram um estado de conservação bom, com 81 % com estados de conservação deficientes ou maus ao nível da UE. Os prados, as dunas e os habitats de pântanos e turfeiras mostram fortes tendências de deterioração, enquanto as florestas apresentam as tendências com mais melhorias. Comparativamente ao período coberto pelo relatório anterior, a fração de habitats em mau estado de conservação aumentou 6 %.
As regiões marinhas obtiveram muitas avaliações com estado de conservação desconhecido, refletindo a falta generalizada de dados sobre as espécies.
Cerca de um quarto das espécies apresenta um bom estado de conservação ao nível da UE, o que constitui um aumento de 4 % comparativamente ao período de referência anterior. Os répteis e as plantas vasculares, como a lagartixa italiana, a cobra-ferradura, a agrimónia ou a genciana amarela apresentam a percentagem mais elevada de bom estado de conservação (35 %).

Contexto

As diretivas da UE de proteção da natureza — Diretiva Habitats e Diretiva Aves — exigem esforços de conservação para mais de 2000 espécies e habitats em toda a UE.

A avaliação da AEA, que tem por base os dados comunicados pelos Estados-Membros da UE, é o maior e mais completo exercício de recolha e comunicação de dados levado a cabo na Europa relativamente ao estado da natureza. Mais de 220 000 pessoas (60 % delas, voluntários) contribuíram para este processo em toda a Europa.

Os dados analisados visam identificar êxitos e aspetos a melhorar em matéria de conservação da natureza, as principais pressões e ameaças e os indicadores do estado de conservação atual.

RedHawk - Seeker Of Visions



“Before our white brothers came to civilize us we had no jails. Therefore we had no criminals. You can’t have criminals without a jail. We had no locks or keys, and so we had no thieves. If a man was so poor that he had no horse, tipi or blanket, someone gave him these things. We were to uncivilized to set much value on personal belongings. We wanted to have things only in order to give them away. We had no money, and therefore a man’s worth couldn’t be measured by it. We had no written law, no attorneys or politicians, therefore we couldn’t cheat. We really were in a bad way before the white men came, and I don’t know how we managed to get along without these basic things which, we are told, are absolutely necessary to make a civilized society.”

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Ricardo Gusmão: “A dimensão do suicídio em Portugal é maior do que os números podem fazer crer. Há ocultação e suicídios mascarados”

Ricardo Gusmão: “A dimensão do suicídio em Portugal é maior do que os números podem fazer crer. Há ocultação e suicídios mascarados”



Os números do suicídio em Portugal não estão escondidos, como pode haver quem pense, mas também não correspondem à realidade, diz, em entrevista ao Expresso, Ricardo Gusmão, psiquiatra no Hospital de Magalhães Lemos e responsável pela implementação, a nível nacional, de diversos programas de prevenção do suicídio. “Calcula-se que sejam ‘ocultados’ nos registos até mais 30, 50 ou 60% de suicídios, como mortes violentas indeterminadas, como acidentes e como morte de causa natural não especificada”. Há outra coisa importante. É que “as vezes até parece que é normal, ou um direito humano ou de cidadania, podermos querer matar-nos. Não é verdade. É um mito”. “É quase sempre um sinal grosseiro de disfunção, tal como qualquer homicídio é”

Numa troca de mensagens anterior à entrevista que se segue, Ricardo Gusmão, psiquiatra no Hospital de Magalhães Lemos, no Porto, e presidente da EUTIMIA – Aliança Portuguesa Contra a Depressão em Portugal afirmou, num esforço de contextualização do assunto, que Portugal é o país da Europa Ocidental que pior regista os suicídios. Também disse que muitas das mortes por suicídio são registadas indevidamente e que por isso o suicídio é “largamente sub-representado em Portugal”.

“Chama-se a isso ‘ocultação’ e ‘suicídios mascarados’”, fenómeno que, “apesar de reconhecido” no país, continua a ser “um problema gravíssimo”, disse o também docente e investigador do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, já durante a entrevista ao Expresso, realizada na véspera do Dia Mundial da Saúde Mental (sábado, 10 de outubro). “Calcula-se que sejam ‘ocultados’ nos registos até mais 30, 50 ou 60% de suicídios, como mortes violentas indeterminadas, como acidentes e como morte de causa natural não especificada”. Isso leva, afirmou também, a que se continue a “insistir na ideia de que Portugal é um país de baixas taxas de suicídio”, uma “ideia errada e perigosa que impede a resolução do problema”.

Portugal é, segundo afirmou, “o país da Europa Ocidental que pior regista os suicídios”. Porque é que isto acontece?
Um dos indicadores de desenvolvimento global sustentável que a comunidade internacional acordou é a necessidade de reduzir expressivamente o número de suicídios durante a próxima década. Há cerca de um milhão, talvez mais, mortes por suicídio todos os anos no mundo. As mortes por suicídio são evitáveis e, desta forma, a sua redução é um desígnio importantíssimo de saúde publica. É preciso ter isto em atenção: o suicídio não é nenhum mistério insondável — sabemos quais são os seus determinantes e, principalmente, sabemos que acontecem quando as pessoas estão doentes, com doenças psiquiátricas, ou eventualmente quando estão num estado psíquico de grande fragilidade, o qual seria transitório se o tempo não se esgotasse tragicamente. O que frequentemente ocorre é falta de comunicação.

Como assim?
Quem sofre não comunica e os que lhe são próximos não percebem. A pessoa suicida está, muitas vezes, terrivelmente sozinha. É por isso que mais de metade dos suicídios sucedem na primeira tentativa. Os outros ficam a sentir-se terrivelmente culpados por não terem conseguido evitar a morte e sentem-se abandonados por quem parte, insuficientes e irrelevantes face à partida do familiar ou amigo. As pessoas que sobrevivem a um suicídio ficam em risco de depressão e suicídio. Sabemos isto inequivocamente. Mas não se fala sobre o assunto. E às vezes fala-se adensando o tabu, o estigma, descrevendo o suicídio como algo misterioso, insondável e imprevisível. O conhecimento de todos e da consciência da dimensão do problema pode mitigá-lo.

E os números disponíveis não correspondem à realidade, é isso?
A dimensão do problema do suicídio é maior do que os números podem fazer crer. Chama-se a isso ‘ocultação’ e ‘suicídios mascarados’. Em Portugal, apesar de ser um fenómeno reconhecido, é um problema gravíssimo. Somos um dos países da Europa, aliás, que pior regista os suicídios, juntamente com a Lituânia e a Polónia. Calcula-se que sejam ‘ocultados’ nos registos até mais 30, 50 ou 60% de suicídios, como mortes violentas indeterminadas, como acidentes e como morte de causa natural não especificada.

Mas por que razão isso acontece?
Os motivos da ocultação são muito heterogéneos, determinados por múltiplos agentes e funcionam de forma cumulativa. Podemos sugerir que são, de alguma forma, do foro cultural, tem a ver com a questão do estigma. A sua expressão é diferente consoante as zonas do país: no sul regista-se melhor os suicídios do que no norte — daí que os número no Alentejo sejam mais elevados — assim como se regista melhor nos centros urbanos, nos homens e nos jovens. Ainda há uma hierarquia entre as várias regiões no que diz respeito ao número de suicídios, mas estão todas muito mais próximas do que estavam há 20 anos. O que é certo, e voltando à questão da ocultação, é que nem todas as mortes violentas são autopsiadas, e só apenas cerca de 60% dos suicídios.

Porquê?
Parte importante do volume do problema parece consistir nos certificados de óbito emitidos nos hospitais e clínicas, nos quais são registados cerca de 90% das mortes violentas indeterminadas. Em Portugal, para cada três mortes por suicídio existem duas mortes violentas indeterminadas. Podemos morrer de morte natural ou morte violenta. As mortes violentas são as intencionais, suicídio e homicídio, e as não intencionais, os acidentes. As indeterminadas são aquelas para as quais não se reconhece a intenção. Na Europa, em média e no pior dos cenários, para cada 20 mortes por suicídio registado, ocorre uma morte indeterminada. Em Portugal, para cada 20 mortes por suicídio registado, ocorrem 12 mortes indeterminadas. Para cada 1000 suicídios anuais registados no nosso país, ocorrem mais 600 ocultos, invisíveis, desconhecidos.

Quais as consequências desse sub-registo?
Por causa disso, a dimensão do problema fica diminuída. Há anos que se insiste na ideia de que Portugal é um país de baixas taxas de suicídio. É uma ideia errada e perigosa que impede a resolução do problema por parte dos decisores políticos, das organizações de saúde e clínicos.

O Governo lançou recentemente uma campanha nacional de prevenção do suicídio. Como vê essa iniciativa?
Desde 2006 que ocorrem projetos e iniciativas de amplitude local e nacional e seria muitíssimo desejável que essas iniciativas pudessem ter a desejada visibilidade e impacto. Se não melhorarmos o registo da morte por suicídio, corremos o risco de chegar a atingir a redução de 20% de suicídio prevista nos SDG [Objetivos de Desenvolvimento Sustentável] até 2030 à custa da ocultação de suicídios. Será muito importante que essa redução possa acontecer por um nexo de causalidade real e efetivo: ação de saúde publica resultando na prevenção de mortes por suicídio. Seria muito desejável que fossem criados mecanismos para estimular a correta codificação dos óbitos violentos — homicídio, suicídio e acidentes — nos hospitais. Além disso, seria igualmente útil que os responsáveis locais pela saúde mental pudessem receber informação precoce e confidencial sobre as mortes por suicídio, numa perspetiva de vigilância e para poderem desencadear ações de prevenção junto dos familiares e amigos.

Porque é que, na sua opinião, não se investe nem dinheiro nem tempo no suicídio?
O suicídio está carregado de estigma e ainda se promove a ideia de que encerra um mistério ou uma questão filosófica. Às vezes até parece que é normal, ou um direito humano ou de cidadania, podermos querer matar-nos. Não é verdade. É um mito. É quase sempre um sinal grosseiro de disfunção, tal como qualquer homicídio é. Que Camus me perdoe, mas o suicídio é tão somente uma questão de saúde, impactada por fenómenos socioculturais é certo, tal como todas as outras questões de saúde.

É possível identificar tendências na evolução do número de suicídios em Portugal?
Houve um decréscimo significativo médio entre 1932 e 1999. Entre 1992 e 1999 esse decréscimo é exagerado, por causa da tal ocultação. Foi nessa altura que se alterou a forma de registar toda a mortalidade, tendo sido introduzida a classificação de mortalidade indeterminada. Nessa década, chegou a haver seis mortes indeterminadas para um suicídio. Em termos gerais, a tendência é decrescente, mas a um ritmo mais lento do que a diminuição da mortalidade em geral. O suicídio tem, além disso, aumentado mais acima dos 55 anos e decrescido nos mais jovens, mas ambas as tendências são ténues.

Com a pandemia espera um aumento do número de suicídios?
Em 1918, durante a gripe espanhola, não se observou um aumento do suicídio em Portugal. Durante a crise pandémica de 1957, houve um ligeiro aumento, mas provavelmente inexpressivo. E durante a crise global financeira, entre 2012 e 2014, houve um aumento nos homens com idades entre os 50 e os 60 anos, mas pouco significativo, entre 2% a 3%. De facto, qualquer crise tem o potencial de aumentar o risco de suicídio. Todavia, as crises que se assemelham a ‘estados de guerra’ aumentam a coesividade e o capital social, bem como a resiliência dos indivíduos. Todos nos tornamos mais solidários.