segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Peter Thiel: o homem por trás da Palantir, da cidade privada em Honduras e da nova experiência libertária na Argentina



O bilionário que acredita que a democracia pode ser incompatível com a liberdade está ligado a uma empresa que trabalha com governos e forças militares, financia experiências de “cidades privadas”, reúne algumas das pessoas mais poderosas do mundo numa organização reservada e agora está a viver na Argentina de Javier Milei. Pelo caminho, começou também a dar conferências privadas sobre o Anticristo.

Peter Thiel é uma daquelas figuras que parecem ter sido retiradas de um romance de ficção científica.

É bilionário, cofundou o PayPal e a Palantir, foi um dos primeiros grandes investidores do Facebook, financiou políticos norte-americanos como Donald Trump e J. D. Vance, apoia experiências de novos modelos de governação e é uma das figuras mais influentes do chamado tecno-libertarianismo.

Mas, nos últimos dois anos, Thiel tornou-se conhecido por algo ainda mais peculiar.

Começou a dedicar uma série de conferências privadas ao Anticristo, defendendo uma visão apocalíptica na qual uma tentativa de resolver grandes problemas globais – como alterações climáticas, inteligência artificial ou guerra nuclear – poderia acabar por conduzir a um governo mundial totalitário.

Em 2026, levou essas conferências para Roma, a poucos quilómetros do Vaticano.

Entretanto, uma fuga de informação revelou pela primeira vez uma visão muito mais detalhada do funcionamento de Dialog, uma organização privada que Thiel ajudou a fundar em 2006 e que durante cerca de duas décadas manteve os seus membros e encontros longe do escrutínio público.

E, enquanto tudo isto acontecia, Thiel instalou temporariamente a família na Argentina de Javier Milei.

Não se trata de acontecimentos isolados.

Existe uma linha de pensamento que atravessa todos eles: a desconfiança em relação às instituições democráticas tradicionais, a defesa da inovação tecnológica sem demasiadas restrições, a concentração de poder em indivíduos altamente capazes e a procura de novos modelos de organização da sociedade.

Quem é Peter Thiel?
Nascido em Frankfurt, na Alemanha, em 1967 e criado posteriormente nos Estados Unidos, Thiel estudou Filosofia e Direito em Stanford.

A sua carreira começou no mundo financeiro e jurídico, mas ganhou uma dimensão completamente diferente quando cofundou, em 1998, a PayPal com um grupo de empreendedores que viria a ficar conhecido como a “PayPal Mafia”.

Depois da venda da empresa ao eBay, em 2002, Thiel começou a investir em tecnologia.

Um dos seus investimentos mais famosos foi o Facebook: em 2004, tornou-se o primeiro grande investidor externo da empresa, colocando cerca de 500 mil dólares na então pequena rede social.

O investimento acabaria por valer milhares de milhões.

Mas seria outra empresa que definiria a sua influência política e tecnológica.

A infância em África
Thiel nasceu na Alemanha, mas a sua família mudou-se para África quando ele ainda era criança.

Durante alguns anos viveu na África do Sul e no então Sudoeste Africano, território administrado pela África do Sul que viria a tornar-se a Namíbia.

Em Swakopmund, cidade costeira de forte herança alemã, Thiel frequentou uma escola de língua alemã enquanto o seu pai trabalhava numa mina de urânio em Rössing. Aos dez anos, deixou África e mudou-se com a família para os Estados Unidos.

A época e o lugar são importantes.

Thiel cresceu numa sociedade organizada pelo apartheid, num sistema em que a população branca ocupava uma posição privilegiada e a população negra era submetida a uma complexa estrutura de segregação racial e desigualdade.

Swakopmund tinha ainda uma característica particularmente invulgar: décadas depois da derrota da Alemanha nazi, a cidade conservava uma forte presença da cultura alemã e, segundo relatos recolhidos pelo Guardian, existiam naquele período manifestações abertas de nostalgia nazi.

O contexto familiar também estava ligado à indústria extractiva.

O pai de Thiel trabalhava numa mina de urânio, enquanto a população negra empregada nas minas vivia em condições muito diferentes das dos gestores brancos. O Guardian descreve uma estrutura em que os trabalhadores negros recebiam salários baixos e viviam em condições precárias, enquanto os gestores brancos beneficiavam de um estilo de vida muito mais confortável.

África como origem do seu libertarianismo?
Não é possível dizer simplesmente que o apartheid “criou” o pensamento político de Peter Thiel.

Mas existe uma ligação que o próprio Thiel estabeleceu retrospectivamente.

Ele descreveu a escola que frequentou em Swakopmund como extremamente rígida e disse que essa experiência lhe criou uma forte aversão à regimentação e à conformidade, algo que posteriormente contribuiu para a sua aproximação ao libertarianismo.

Essa interpretação é particularmente interessante porque a oposição à conformidade se tornou uma característica central da sua personalidade intelectual.

Na universidade, Thiel viria a construir uma reputação de pensador contrarian – alguém que procura deliberadamente ideias que contradigam o consenso.

Uma biografia de Thiel publicada em 2021, The Contrarian, alegou que, quando era estudante em Stanford, ele teria descrito o apartheid como “economicamente sólido”. Thiel negou ter apoiado o apartheid. O Guardian apresenta esta alegação como parte de uma controvérsia sobre as suas posições durante a juventude.

O que se sabe é que Thiel cresceu dentro de uma sociedade profundamente desigual, beneficiando da posição privilegiada da população branca, e que essa experiência marcou a sua relação com autoridade, conformidade e liberdade individual.

A coincidência com Elon Musk
Thiel não é o único membro da chamada “PayPal Mafia” com uma infância ligada à África Austral.

Elon Musk cresceu na África do Sul e David Sacks nasceu em Cape Town. Roelof Botha, outro antigo executivo do PayPal, é neto de Pik Botha, ministro dos Negócios Estrangeiros do regime do apartheid.

O paralelismo chamou a atenção de jornalistas e historiadores precisamente porque alguns dos homens que viriam a adquirir enorme influência na tecnologia e na política norte-americanas foram formados, durante a infância ou juventude, dentro ou próximo de uma sociedade marcada por desigualdade extrema, segregação e uma profunda desconfiança em relação ao Estado e às instituições.
Palantir

Em 2003, Thiel, Alex Karp e outros associados criaram a Palantir Technologies.

A empresa desenvolveu software capaz de integrar e analisar enormes quantidades de dados provenientes de diferentes fontes.

O princípio é relativamente simples de explicar. Imagine milhares de bases de dados que normalmente não comunicam entre si: imigração, polícia, informação financeira, viagens, comunicações, empresas, mapas, redes sociais ou registos governamentais.

A tecnologia da Palantir permite juntar essas informações e encontrar relações, padrões e ligações que seriam difíceis de identificar manualmente.

É uma ferramenta extremamente poderosa. E é precisamente isso que está no centro da controvérsia.

A Palantir trabalha com governos, forças armadas, serviços de inteligência, empresas e sistemas de saúde. Entre os seus clientes estão instituições norte-americanas e europeias.

A empresa tornou-se particularmente importante nos setores da defesa e segurança.

O nome, aliás, vem de O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien: os palantíri eram pedras que permitiam ver acontecimentos e pessoas a grande distância.

Peter Thiel não é o CEO da Palantir
Apesar de Peter Thiel ser frequentemente apresentado como a figura por trás da Palantir, não é ele quem dirige a empresa no dia a dia. Thiel é cofundador e chairman. O CEO é Alex Karp.

E compreender Karp é importante porque a Palantir não é apenas uma empresa criada por Thiel que entretanto ficou entregue a outra pessoa. Karp tem uma visão própria e bastante explícita sobre a relação entre tecnologia, poder e segurança nacional.

Em 2026, essa visão tornou-se particularmente evidente com a publicação de The Technological Republic, o livro de Karp.

O livro começa com uma frase reveladora: “Silicon Valley perdeu-se.”

Karp argumenta que a indústria tecnológica norte-americana se afastou das necessidades estratégicas dos Estados Unidos e que Silicon Valley deveria voltar a trabalhar mais directamente com o Estado, sobretudo em áreas como defesa, inteligência e segurança.

A própria Palantir publicou posteriormente um resumo do livro organizado em 22 teses, num texto que assumia claramente um tom político e geopolítico.

E uma das ideias centrais é particularmente significativa: a inteligência artificial está a transformar a própria natureza da guerra.

Num manifesto publicado pela empresa, a Palantir defende que está a começar uma nova era de dissuasão militar baseada em inteligência artificial.

A pergunta, segundo o documento, já não é se serão construídas armas de IA. É quem as construirá e com que finalidade.

Karp defende, assim, uma relação muito mais próxima entre Silicon Valley e o aparelho de defesa norte-americano.

A Palantir chega a afirmar que a indústria tecnológica tem uma “dívida moral” para com o país que tornou possível a sua ascensão e que Silicon Valley deveria ir além das aplicações para consumidores e contribuir directamente para o crescimento económico e a segurança nacional.

Esta posição ajuda a explicar por que razão Karp é tão vocal na defesa da utilização de inteligência artificial em operações militares.

Tecnologia ou infraestrutura de poder?
A Palantir desenvolve sistemas capazes de juntar enormes quantidades de informação provenientes de fontes diferentes – imagens de câmaras, redes sociais, dados públicos, registos policiais, drones e outras bases de dados – e transforma-as em informação utilizável para investigação ou tomada de decisões.

Para os defensores da empresa, isto permite que governos e forças militares tomem decisões mais rápidas e informadas.

Para os críticos, significa outra coisa: a criação de uma infraestrutura tecnológica que pode tornar a vigilância, a identificação de pessoas e a utilização militar de dados muito mais poderosas.

O debate tornou-se ainda mais intenso porque os clientes da Palantir incluem precisamente algumas das instituições com maior capacidade coerciva do Estado. Nos Estados Unidos, a empresa trabalha com o Pentágono, a CIA e o ICE. Na Europa, os seus sistemas também são utilizados por forças policiais e outras autoridades.

E existe uma diferença fundamental entre dizer que uma empresa fornece uma ferramenta e perguntar o que essa ferramenta permite fazer quando colocada nas mãos de um Estado.

A Palantir responde que o software não toma sozinho decisões políticas ou militares. Mas essa defesa não elimina a questão mais ampla: quanto mais poderosa for a ferramenta, mais importante se torna saber quem decide como utilizá-la.

É por isso que a posição de Karp é tão relevante para compreender a Palantir.

Ele não apresenta a empresa como uma simples fornecedora neutra de software. Apresenta-a como parte de uma transformação mais profunda na relação entre tecnologia, Estado e poder militar. E isso aproxima, de forma bastante evidente, a Palantir do universo político e intelectual de Peter Thiel.
Da inteligência artificial à vigilância

A controvérsia tornou-se particularmente forte na Europa. No Reino Unido, a Palantir tem um contrato de cerca de 330 milhões de libras e sete anos com o NHS, o sistema público de saúde britânico, para desenvolver a Federated Data Platform. A plataforma pretende ligar diferentes conjuntos de dados do NHS e melhorar a gestão dos serviços.

Para os defensores, é precisamente o tipo de tecnologia que pode tornar um sistema gigantesco mais eficiente.

Para os críticos, a questão é outra: deverá uma empresa tecnológica norte-americana, com fortes ligações ao setor militar e de inteligência dos EUA, ocupar uma posição tão importante na infraestrutura digital de um serviço público europeu?

Em 2026, a pressão aumentou. Parlamentares britânicos passaram a defender que o contrato deveria ser abandonado, enquanto o Governo britânico iniciou uma revisão do acordo e pondera utilizar uma cláusula que permitiria terminar o contrato em 2027.

O problema não é apenas a privacidade. É também a soberania tecnológica.

Se um país depende de uma empresa estrangeira para uma parte crítica da sua infraestrutura digital, quem controla realmente essa infraestrutura? Essa pergunta tornou-se particularmente importante na Europa desde o regresso da guerra à Europa e o aumento das tensões entre os EUA e os seus aliados.

A Europa procura alternativas à Palantir
A Europa começou a procurar alternativas próprias. Em França, a agência de segurança interna DGSI escolheu a empresa francesa ChapsVision para substituir progressivamente a Palantir. A decisão foi apresentada pelo Governo francês como parte de uma estratégia de soberania tecnológica.

A ChapsVision é uma empresa relativamente pequena comparada com a Palantir, mas está a tentar ocupar precisamente esse espaço: integração de dados, inteligência artificial, investigação e segurança.

A Palantir tinha sido utilizada pelos serviços franceses desde os atentados terroristas de 2015. Agora, França quer demonstrar que pode construir uma alternativa europeia. E não está sozinha.

A Alemanha, os Países Baixos, a Suíça, a Dinamarca e outros países têm debatido a dependência de tecnologias norte-americanas. O secretário de Estado neerlandês da Defesa afirmou em 2026 que deveria existir uma alternativa plenamente funcional à Palantir num prazo de dois anos.

A própria discussão já criou um novo mercado: “o Palantir europeu”. ChapsVision é provavelmente o candidato mais evidente neste momento, embora empresas como Quantexa, Adarga, DataWalk, Ripjar e Siren também sejam apontadas como alternativas em diferentes áreas.

Thiel quer muito mais do que tecnologia
Para perceber Peter Thiel é preciso sair do mundo empresarial. Thiel tem uma visão política e filosófica muito própria.

É associado ao libertarianismo tecnológico (“tecno-libertarianismo”), embora as suas ideias sejam mais radicais do que o libertarianismo económico tradicional.

Uma das suas frases mais conhecidas surgiu num ensaio de 2009: “I no longer believe that freedom and democracy are compatible.”

Thiel argumenta que as democracias tendem a criar maiorias políticas que podem limitar a liberdade individual, enquanto o capitalismo e a inovação tecnológica podem ser travados por regulamentação.

Isto é relevante para se compreender o fascínio de Thiel por experiências que procuram criar espaços onde as regras sejam diferentes. É aqui que se entra em Próspera.

Próspera: a “cidade tecnológica” de Peter Thiel

Imagine poder construir uma cidade praticamente do zero. Agora imagine que, em vez de estar sujeita às mesmas regras fiscais, regulatórias e administrativas do país onde se encontra, essa cidade dispõe de uma enorme autonomia. Essa é, em termos simplificados, a ideia por trás de Próspera, na ilha de Roatán, nas Honduras.

Próspera é uma ZEDE – Zona de Emprego e Desenvolvimento Económico. O projeto nasceu no contexto de uma legislação hondurenha que permitia a criação de zonas com elevado grau de autonomia. A ideia era criar uma espécie de “startup city”: um laboratório onde novas formas de governação, tributação, regulação e tecnologia pudessem ser testadas.

Próspera possui um sistema jurídico e regulatório próprio, utiliza mecanismos privados de arbitragem e foi concebida para atrair empreendedores e investidores internacionais.

E aqui entra o dinheiro do Silicon Valley. Próspera recebeu financiamento de investidores ligados a figuras como Peter Thiel, Sam Altman e Marc Andreessen. A própria empresa responsável pelo projeto afirma ter captado mais de 120 milhões de dólares junto de quase 100 investidores; outras reportagens apontam para valores próximos dos 200 milhões.

Não é correto, contudo, dizer que Peter Thiel “é dono de Próspera”. A estrutura é mais complexa e a composição exata dos investidores privados não é totalmente pública. O que é indiscutível é que Thiel está ligado ao ecossistema financeiro e ideológico que apoiou o projeto. [Fonte]

domingo, 20 de setembro de 2026

NECRØ - Cold Cut


Nascidos no underground lisboeta pela mão de João Vairinhos e Sara Inglês, os NECRØ afirmaram-se como uma das propostas mais singulares da música eletrónica obscura em Portugal. Movimentando-se no cruzamento entre a Darkwave, a Coldwave, o Darksynth e o EBM, o duo constrói um universo sonoro denso e hipnótico, sustentado por sintetizadores pesados, pulsões industriais e uma interpretação vocal soturna que oscila entre o mistério e a desolação.

No tema "Cold Cut", peça central do seu álbum de estreia Into Oblivion, a banda mergulha nas mecânicas da alienação urbana e na insensibilidade emocional. A canção não procura consolo; retrata o choque entre o desejo de ligação humana e a necessidade de anestesia perante a dor diária. Imagens líricas como "shake the void with a cold cut" ou "fall on glass" desenham a sensação de paralisia e o refúgio num torpor contínuo, onde o indivíduo se torna incapaz de sentir. Essa mesma atmosfera traduz-se no videoclipe de "Cold Cut", concebido e realizado por Sara Inglês. Através de uma iluminação estroboscópica, jogos de sombras e uma linguagem visual claustrofóbica, o vídeo explora a desassociação e a perda de identidade, transformando a tela num purgatório visual onde as figuras parecem mover-se entre a realidade e a ilusão.

Por trás desta sonoridade crua habita uma densa camada conceitual que cruza o existencialismo filosófico e o ocultismo moderno. Mais do que usar o esoterismo como um adereço estético, os NECRØ empregam-no como uma lente para examinar a psique humana. A morte surge nas suas composições não como um fim biológico, mas como a "dissolução do Eu" - a transição dolorosa para a apatia absoluta. O próprio "vazio" recorrente na sua obra aproxima-se do Abismo hermético, um espaço de origem e esquecimento para onde a mente alienada inevitavelmente descamba.

A nível estético e musical, o duo rejeita os clichés visuais do género, optando por um minimalismo frio e geométrico que sugere uma ordem cósmica indiferente ao sofrimento individual. A própria estrutura repetitiva e incisiva das suas batidas eletrónicas funciona como um ritual profano contemporâneo: um transe mecânico concebido para desarmar o ouvinte, confrontá-lo com a sua própria finitude e conduzi-lo à aceitação da transcendência através do esquecimento.

Ação climática e combate à poluição podem gerar 15 dólares por cada dólar investido

As alterações climáticas e a poluição atmosférica estão interligadas

O estudo, divulgado no Dia Internacional do Ar Limpo por um Céu Azul, é a primeira avaliação económica global abrangente dos benefícios de adotar medidas integradas para combater as alterações climáticas e melhorar a qualidade do ar.

Investir simultaneamente no combate às alterações climáticas e à poluição atmosférica poderá gerar cerca de 15 dólares (cerca de 12,8 euros) em benefícios económicos por cada dólar investido, segundo um novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA) e da Climate and Clean Air Coalition (CCAC).

Segundo o relatório, as 25 medidas analisadas poderão gerar benefícios económicos anuais equivalentes a 2,8% do PIB mundial em 2035, 4,5% em 2050 e 11,4% em 2100. Estes ganhos incluem a redução das despesas de saúde, o aumento da produtividade e a diminuição dos custos associados aos danos provocados pelas alterações climáticas.

Mesmo excluindo os benefícios relacionados com o bem-estar e outros ganhos não diretamente refletidos no mercado, as medidas analisadas deverão gerar cerca de quatro dólares por cada dólar investido.

“Durante demasiado tempo, tratámos a ação climática como um custo a gerir e a poluição atmosférica como o resultado infeliz do desenvolvimento. Este relatório mostra o contrário: o ar limpo é um motor fundamental do desenvolvimento, da saúde, da segurança alimentar e energética e da estabilidade climática – um ativo no qual temos de investir”, afirma Inger Andersen, diretora-executiva do PNUA.

A responsável sublinha que já existem soluções comprovadas, mas que falta “uma liderança decisiva por parte dos governos, das instituições financeiras e das empresas” para as implementar com a rapidez e coordenação necessárias.

Cada ano de atraso custa 1,5 biliões de dólares
O relatório estima que cada ano de atraso na implementação das medidas represente uma perda de mais de 1,5 biliões de dólares em benefícios económicos, equivalente a cerca de 0,5% do PIB mundial.

“Um rácio benefício-custo de 15 para 1 atrairia capital instantaneamente em praticamente qualquer outro sector”, considera Elliott Harris, copresidente independente da avaliação.

Segundo o especialista, uma das razões pelas quais este investimento ainda não acontece à escala necessária é o facto de os benefícios estarem distribuídos por diferentes áreas, como os sistemas de saúde, a produtividade e a redução dos danos climáticos.

“Cada ano de atraso custa ao mundo mais de 1,5 biliões de dólares em benefícios que não vamos recuperar”, alerta.

Poluição do ar provoca milhões de mortes prematuras
Os benefícios económicos identificados incluem a redução das despesas de saúde, ganhos de produtividade e a diminuição dos danos materiais, mas também o valor económico associado à redução das mortes prematuras e à melhoria da saúde.

Em 2025, a exposição à poluição atmosférica exterior provocada por atividades humanas, nomeadamente partículas PM2,5 e ozono, esteve associada a cerca de 6,4 milhões de mortes prematuras em todo o mundo. A poluição do ar dentro das habitações terá provocado mais dois milhões de mortes prematuras, incluindo cerca de 300 mil crianças.

O relatório contabiliza ainda os efeitos económicos das doenças relacionadas com a poluição atmosférica, incluindo a pressão sobre os sistemas de saúde, as perdas de produtividade e os impactos no bem-estar.

Só em 2025, a poluição exterior terá contribuído para 5,5 milhões de novos casos de asma infantil, dois milhões de novos casos de demência e milhões de casos de enfarte, doenças pulmonares, diabetes, acidente vascular cerebral e cancro do pulmão.

25 medidas em seis setores
As medidas analisadas abrangem seis grandes sectores: energia e sistemas associados aos combustíveis fósseis, indústria, transportes, agricultura e sistemas alimentares, cozinhar e aquecer as habitações e gestão de resíduos.

Entre as propostas estão o reforço das energias renováveis e da eficiência energética, a expansão de soluções de cozinha e aquecimento limpas, normas mais exigentes para as emissões e eficiência dos veículos, a promoção dos veículos elétricos e a utilização de combustíveis com baixo teor de enxofre no transporte marítimo.

O pacote inclui ainda medidas para reduzir as fugas de petróleo e gás, melhorar a gestão de gado e estrume, aumentar a eficiência na utilização de fertilizantes, adotar práticas agrícolas mais eficientes, reduzir a queima de resíduos agrícolas e melhorar a gestão de resíduos sólidos e águas residuais.

A redução progressiva dos hidrofluorocarbonetos (HFC) e o combate às emissões de metano e carbono negro fazem igualmente parte da estratégia.

Se forem plenamente implementadas, as 25 medidas poderão evitar cumulativamente 144 milhões de mortes prematuras relacionadas com a poluição atmosférica até 2050, incluindo 96 milhões associadas exclusivamente à poluição do ar exterior.

Menos emissões e menos aquecimento global
A implementação imediata das medidas permitiria reduzir para metade as emissões globais de dióxido de carbono até 2050, face ao cenário de referência utilizado no relatório. As emissões de metano poderiam diminuir 60% e os principais poluentes atmosféricos, incluindo carbono negro, dióxido de enxofre e óxidos de azoto, cerca de 70%.

As medidas permitiriam ainda evitar aproximadamente 0,34 ºC de aquecimento global até 2050 e 1,4 ºC até 2100. Em muitas regiões, onde as temperaturas terrestres aumentam mais rapidamente do que a média global, o aquecimento evitado poderá atingir entre 1,5 e 2 ºC até ao final do século.

“Este relatório apresenta a evidência mais rigorosa até à data de que tratar as alterações climáticas e a poluição atmosférica como problemas separados leva-nos a subestimar os benefícios de combater qualquer um deles”, afirma Simon Dietz, copresidente da avaliação e professor de Política Ambiental na London School of Economics.

Segundo o investigador, quando os dois problemas são analisados em conjunto, “os retornos foram maiores do que os que cada um poderia mostrar isoladamente”, uma vez que as mesmas fontes, sectores e políticas estão frequentemente na origem de ambos.

Barreiras podem atrasar implementação
Apesar dos benefícios identificados, o relatório aponta vários obstáculos à implementação das medidas, nomeadamente processos de decisão fragmentados, capacidade limitada de fiscalização e fraca coordenação entre governos.

No conjunto, estas barreiras poderão atrasar quase oito anos a implementação integral das medidas à escala mundial. O relatório defende, por isso, um planeamento integrado das políticas climáticas, de qualidade do ar, saúde e economia, instituições e mecanismos de fiscalização mais fortes e uma melhor articulação entre financiamento público e privado.

Segundo a avaliação, a adoção de incentivos fiscais e regulamentação que permitam ao sector privado implementar tecnologias simultaneamente rentáveis e capazes de reduzir emissões poderá acelerar a transição e desbloquear até 10 biliões de dólares em benefícios adicionais para a saúde até 2040.

Como o Cartaxo-Nortenho Deixou de Reproduzir-se em Portugal (e a Culpa É Nossa)

«Pelo Entrudo, cartaxo penudo», ditava a antiga sabedoria popular das nossas serras. O adágio assinalava o despertador da primavera através do cartaxo-comum (Saxicola rubicola), a ave residente que ainda hoje canta no topo dos arbustos em pleno inverno. No entanto, o provérbio evoca um ecossistema rural e pastoril que está a ruir - e o reflexo mais trágico desse colapso não é a perda do ditado, mas o desaparecimento silencioso do seu parente mais raro: o cartaxo-nortenho (Saxicola rubetra). Sim, a espécie já foi uma ave reprodutora no nosso país e hoje está praticamente extinta como tal.

A afirmação soa a um pequeno detalhe ornitológico, irrelevante para a azáfama dos dias, mas é um lembrete ecológico brutal. É um dos muitos sinais dos tempos que teimamos em ignorar, reflexo direto da nossa profunda dificuldade cultural em interiorizar o conceito de wilderness - a vida selvagem na sua escala livre, não moldada pela conveniência humana - e em compreender que, na teia da biodiversidade, tudo está rigorosamente interligado.

Num país onde não faltam causas e lutas nobres a reclamar atenção - da vitalidade da cultura e do teatro às pontes geopolíticas da CPLP -, a defesa do património biológico continua remetida para uma periferia menor. Quando surge na agenda pública, surge quase sempre enviesada por interesses imbecis, vista como um obstáculo ao desenvolvimento económico ou como um capricho contemplativo. Estruturalmente, somos um país materialista: medimos o valor da terra pelo betão que suporta ou pela madeira rápida que dela se extrai, incapazes de atribuir valor ao que não se traduz em rendimento imediato.

A extinção funcional do cartaxo-nortenho como reprodutor nas nossas montanhas não foi um acidente de percurso; foi o resultado previsível dessa visão tacanha do território.

A biologia da espécie carrega consigo o seu próprio calcanhar de Aquiles: ao contrário de tantas outras aves que procuram a proteção das copas das árvores ou o abrigo inacessível das rochas, o cartaxo-nortenho nidifica exclusivamente no chão. Escondido entre as touceiras de relva e a vegetação rasteira dos prados húmidos de altitude, o ninho depende em absoluto da integridade e do mosaico vegetativo da montanha.

Foi precisamente essa estrutura que a intervenção humana estilhaçou nas serras do Norte. Primeiro, através da monocultura florestal: a conversão dos prados abertos em manchas densas de pinhal e eucaliptal fechou a paisagem e destruiu o habitat de caça e nidificação. Depois, com o declínio e abandono do pastoreio extensivo tradicional, que mantinha os prados abertos, permitindo que a vegetação evoluísse para matos densos e contínuos. Por fim, a praga dos incêndios recorrentes que fustigam ciclicamente as terras altas, destruindo as posturas em plena época de reprodução.

Estamos em setembro. Precisamente agora, enquanto lê estas linhas, milhares destas aves atravessam o nosso país de norte a sul. Mas não se iluda: os indivíduos que neste mês de setembro pousam nas vedações do Cabo de São Vicente ou nos arbustos da Ria de Alvor não são os herdeiros das nossas serras. São migradores vindos do centro e norte da Europa que usam o nosso território como mero posto de abastecimento na sua épica travessia rumo à África subsariana.

O desaparecimento do cartaxo-nortenho enquanto reprodutor dos nossos picos não é apenas a perda de uma ave; é o sintoma acabado de um país que continua sem saber conviver com a sua própria natureza nem valorizar os ecossistemas de montanha que herdou.

sábado, 19 de setembro de 2026

The Secret French Postcards - Blush

Melhor som aqui

«Escondidos Atrás do Nosso Próprio Disfarce» - Os The Secret French Postcards Protegem Corações Partidos No Vídeo de «Blush»

Originários da cidade de Jönköping, na Suécia, a banda The Secret French Postcards foi fundada em 2016 pelo músico Olli Ohlander e consolidou-se como uma das referências escandinavas do post-punk, da darkwave e do synth-rock de inspiração oitentista. O próprio nome do grupo carrega uma herança do romantismo obscuro e erótico do século XIX, tendo sido diretamente inspirado por um leilão de antigos postais e fotografias eróticas clandestinas da era Art Déco. Essa estética retrô, misteriosa e ligeiramente proibida serve como fundação visual e narrativa para a identidade da banda.

A canção Blush exemplifica com precisão o universo concetual do grupo. O tema central da faixa gravita em torno do isolamento e da perda da vulnerabilidade emocional em resposta às desilusões da vida. O título faz referência direta ao ato de corar - o rubor involuntário nas bochechas que sinaliza timidez, paixão e ingenuidade. Na narrativa da canção, essa inocência é destruída e substituída por uma carcaça emocional rígida, onde o indivíduo passa a viver escondido sob a sua própria dissimulação. A lírica contrasta a comédia social e a tentativa de manter as aparências exteriores com o colapso interno de um coração partido.

Esta dinâmica relaciona-se profundamente com correntes filosóficas e literárias como o existencialismo e a psicologia analítica. A música aborda a condição do ser humano isolado num mundo próprio, paralisado pela ansiedade e pela constatação de que a vida em sociedade pode transformar-se num ato teatral de inautenticidade. Esse comportamento reflete diretamente o conceito de má-fé teorizado por Jean-Paul Sartre, em que se adota uma postura fingida para fugir à angústia da realidade, assim como a teoria da Persona de Carl Jung, onde a máscara social concebida para proteção acaba por aprisionar a essência do indivíduo.

Filmado numa estética estilizada de film noir em preto e branco, o vídeo utiliza elementos visuais simbólicos como máscaras flutuantes, espelhos e reflexos em janelas para espelhar a temática dos disfarces e do isolamento interior.

No âmbito musical, embora mantenha a estrutura característica da coldwave e do indie rock noturno - lembrando nomes como The Cure, She Past Away e The Church -, a banda introduz nuances distintas na sua sonoridade recente. O elemento mais surpreendente na composição de Blush é a presença subtil de uma harmónica com influências de blues ao fundo do arranjo, um instrumento atípico para o género sintetizado europeu. Combinado com o vocal aveludado no estilo crooner de Olli Ohlander e uma mixagem espacial e cristalina que dá destaque a linhas de baixo marcantes e guitarras límpidas, o grupo consegue equilibrar a frieza melancólica do post-punk clássico com um calor orgânico e altamente acessível.

A praga dos amontoados de pedras na Torre: tradição das mariolas ou destruição do Parque Natural?


Recentemente o Pedro Sarda viajou com os seus filhos até à “Torre”, o ponto mais alto de Portugal Continental. Já não ia à Torre há bastante tempo. Partilho a sua indignação.
"No essencial não tinha mudado assim tanto desde a minha última visita ao mesmo local. 
No entanto desta vez fui confrontado com um espectáculo verdadeiramente decadente. Ao que parece virou moda amontoar pedrinhas em montes simulando as chamadas “mariolas”. 
As mariolas originais têm um contexto, uma história e sobretudo uma finalidade. 
As chamadas mariolas eram (talvez cada vez menos) “marcas” deixadas na paisagem, habitualmente por pastores, com a finalidade de marcar o caminho. 
Esses pequenos amontoados de pedras eram colocados em locais estratégicos para que quem fosse a caminhar pudesse ter noção da direcção certa a seguir, em particular em períodos de fraca visibilidade. 
A “modinha” de começar a amontoar pedras só porque alguém se lembrou que é giro, ou só porque “sim”, não só não tem qualquer finalidade como tem até diversos impactos negativos. 
Desde logo, o mais evidente, para quem tiver o mínimo de sensibilidade, é o paisagístico. O cenário era em pouco ou nada diferente de uma autêntico cemitério. Aqueles amontoados de calhaus pareciam verdadeiramente sepulturas. O que, pode-se afirmar, até faz um pouco sentido já que ali parecia “jazer” o que outrora era uma paisagem relativamente natural. 
Por isso a meu ver a designação mais adequada não é de “mariolas” mas neste caso de “merdiolas”. Suponho que se nota o tom demasiado “irritado” nas minhas palavras o que se deve justamente a estar... profundamente irritado. 
Nas proximidades da entrada para uma das galerias de lojas com Produtos Regionais encontrei um autocolante bastante discreto onde se apelava ao bom senso dos visitantes (apelar ao bom senso em Portugal?) justamente no sentido de não adoptarem essa prática. As razões (impactos negativos da remoção das pedras do solo) transcritas no “aviso” eram: 
- Deixa o solo exposto a ventos fortes, evaporação e erosão 
- Desprotege a vegetação do vento e do solo  
- Modifica o habitate da fauna endémica 
- Altera o equilíbrio ecológico de habitats e paisagens protegidas (convém não esquecer que estamos neste caso a falar de um Parque Natural)
- Deixa uma profunda marca humana na paisagem natural 
- O equilíbrio precário dos amontoados torna-os perigosos para animais ou crianças que deles se aproximem. 
- As “mariolas” (pequenos amontoados de pedras) têm, em ambiente de montanha, a função tradicional de marcar a direcção correcta em caminhos pedestres. Reproduzi-las aleatoriamente inutiliza a função essencial das originais. 
Como mencionei o autocolante era efectivamente bastante discreto. Ainda assim, creio que mesmo com um autocolante mais visível ou até um cartaz o resultado não seria assim tão substancialmente diferente. Face à dimensão da estupidez e parolice “humanas” suponho que só medidas mais radicais têm a capacidade de surtir algum efeito. 
Um amigo do Sabugal (relativamente próximo da Torre), quando partilhava com ele a minha indignação perante aquele cenário decepcionante, contou-me que algumas escolas de Seia, creio, desenvolveram uma acção de sensibilização com os alunos na qual procederam á remoção de vários desses amontoados tentando repor a paisagem natural e sensibilizando obviamente para o problema. 
Não sei exactamente quando é que decorreu a acção mas entretanto muitas hordas de turistas terão passado pela torre fazendo questão de deixar a sua “assinatura” pindérica. 
Também os meus filhos, quando chocados com o panorama, derrubaram alguns dos pequenos mamarrachos mas ainda foram criticados por uns parolos, por sinal franceses, que devem ter um apurado sentido de gosto artístico assim como um ainda maior conhecimento das coisas do mundo natural. Provavelmente terão também lá deixado a sua Torre Eifel feita de calhaus. (Parece que a estupidez é mesmo das coisas mais universais que existem). 
De qualquer forma, mais do que esta triste situação em particular, acredito que a situação está bastante para além desta situação em específico e que se prende com questões porventura mais profundas e diria até... filosóficas. 
O Toque de Tânatos porque parece que onde quer que o ser humano chegue, faz questão de onde toca... o transformar em Merda. Por outras palavras, faz questão de estragar. Uma realidade ou “fenómeno” que tende a ser tanto mais provável quanto mais animais da espécie humana chegarem a determinado local. Como se não bastasse...parece que tudo o que basta para começar uma qualquer moda estúpida, com impacto para os habitats locais, é... simplesmente alguém começar. Depois com a banalização das redes sociais e afins é uma questão de tempo (muito pouco tempo) até se espalhar como um vírus. 
É importante falar das redes sociais pois, ao que parece, os “artistas” (pimba) fazem questão de “postar” com todo o orgulho as suas “obras de arte”. 
Este é um daqueles momentos em que o meu desencantamento com a espécie humana é de tal ordem que invejo Thoreau que decidiu isolar-se numa cabana no bosque. (o livro é Walden ou a Vida nos Bosques de Henry David Thoreau).
Creio que, no que a esta questão diz respeito (assim bem como a muitas outras), não se pode esperar que subitamente as criaturas que seguem a “modinha” dos montes de calhaus adquiram consciência e deixem de o fazer. 
Pelo que percebi, a Torre é um território muito particular administrado de forma conjunta por vários municípios da região (vem-me, assim à cabeça, Seia, Manteigas...). Parece-me fundamental a colocação no local de placas de considerável dimensão a dissuadir da prática em questão. Como provavelmente não será o suficiente, creio que faria todo o sentido a afectação de um pequeno corpo de “Guardas” responsáveis por zelar pelo espaço, nomeadamente proibindo determinantemente a prática. No caso de simples presença dos Guardas não ser suficiente, creio que é um daqueles casos em que passar multa se justifica plenamente e é na verdade necessário. Por vezes é esse o único local onde doí verdadeiramente aos portugueses: no bolso!!!"


Administração Trump reduz proteção de espécies ameaçadas


O governo norte-americano reduziu o alcance das proteções a espécies ameaçadas, estabelecendo que a morte acidental de animais protegidos não será mais considerada ilegal, segundo um memorando governamental divulgado pela organização Center for Biological Diversity.

O documento, datado de 14 de setembro, cuja autenticidade foi confirmada à agência de notícias AFP, redefine o conceito de ‘captura’ (‘take’), um termo jurídico que abrange atos como perseguir, matar ou capturar uma espécie.

Com esta nova diretriz, as mortes colaterais provocadas por atividades industriais e económicas de grande escala, como a exploração madeireira, a navegação comercial, a mineração, a perfuração de petróleo e a construção de barragens, deixam de constituir uma violação da lei federal americana. O próprio documento oficial exemplifica que incidentes como a colisão acidental de navios com baleias ameaçadas de extinção ou o abate de árvores que sirvam de habitat a morcegos protegidos já não serão tratados como crimes ambientais, desde que o objetivo principal da atividade não tenha sido visar o animal. 

“Um navio que atinge acidentalmente uma baleia não a ‘capturou’, uma vez que a trajetória não foi direcionada contra a baleia”, refere o documento, citando o falecido juiz conservador do Tribunal Supremo dos Estados Unidos de América, Antonin Scalia.

“Derrubar uma árvore não constitui uma ‘captura’ dos morcegos que nela se abrigam, a menos que a árvore seja derrubada com o objetivo de matá-los ou capturá-los”, acrescenta.

O texto é assinado por Brian Nesvik, diretor da agência federal responsável pela preservação da vida selvagem nos Estados Unidos, United States Fish and Wildlife Service (FWS).

O departamento responsável pela gestão de terras federais, ao qual a agência está vinculada, confirmou à AFP a autenticidade do documento.

“Este memorando reflete fielmente as diretrizes” da agência “sobre a aplicação da Lei de Espécies Ameaçadas após a adoção da regra definitiva que elimina a definição regulatória do termo ‘prejuízo'”, indica o texto.

Como seria de esperar, esta decisão gerou uma onda imediata de contestação por parte de várias organizações de defesa do ambiente. Brett Hartl, diretor de assuntos governamentais do Center for Biological Diversity, criticou duramente a medida, afirmando que a mesma ataca o coração da lei ao dar uma aprovação federal à destruição da biodiversidade. Em termos semelhantes, o NRDC (Natural Resources Defense Council) alertou que esta alteração jurídica retira qualquer incentivo financeiro e legal que as empresas privadas tinham até agora para mitigar riscos, planear com cautela e evitar a morte de animais em risco crítico de extinção.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Antilope & Pedro Code - The Expanse


A colaboração em "The Expanse" junta o músico e compositor norueguês Karl Morten Dahl (o projeto Antipole, sediado em Trondheim) e o vocalista e poeta português Pedro Code (conhecido pelo seu trabalho na banda de darkwave IAMTHESHADOW). Esta união transnacional reflete a própria essência do som, estabelecendo uma ponte entre a melancolia contemplativa do Norte da Europa e o romantismo obscuro e existencialista do Sul.

A canção insere-se nas correntes de Post-Punk, Coldwave e Darkwave, destacando-se pela sua arquitetura sonora. Enquanto os sintetizadores criam uma atmosfera envolvente e fluida em segundo plano, a guitarra sobressai com arpejos limpos, hipnóticos e repletos de reverb e delay. Este dedilhado preciso e melódico sobrepõe-se à pulsão eletrónica, evocando referências icónicas dos anos 80 como The Cure, Durutti Column ou Clan of Xymox, mantendo simultaneamente uma identidade contemporânea e elegante.

Visualmente, o videoclipe em preto e branco contrapõe a imensidão da natureza norueguesa - composta por árvores, florestas e espaços abertos onde a guitarra é tocada - com a introspeção dos espaços fechados e urbanos onde Pedro Code interpreta a voz. Esta dicotomia reflete o tema central da obra: a busca por significado perante "a expansão" (the expanse) do tempo e do espaço. Liricamente, o tema aborda o vazio, a espera e a passagem inexorável do tempo, utilizando a estética monocromática para simbolizar a sobriedade do isolamento e a procura de clareza interior no meio da escuridão.

A lírica de Pedro Code bebe fortemente do existencialismo filosófico, evocando pensadores como Jean-Paul Sartre e Søren Kierkegaard ao abordar a condição humana, a solidão, a finitude e a necessidade de preencher o vazio da existência através da palavra e da arte. Notam-se ainda traços do romantismo sombrio e da poesia simbolista, nos quais elementos naturais como a luz, a sombra e o gelo servem de metáforas para estados de alma e reflexões sobre a memória.

Shalom e Salam vs. Extremismo: A Distinção Entre Religião, Política e a Indústria da Guerra

Judaísmo e Sionismo no Estado de Israel: o que são, o que os distingue e como moldam um país.[Fonte]

Sionismo e judaísmo são coisas bem diferentes. O judaísmo tem no seu cerne a busca pela paz. A palavra Shalom, no fundo, vai muito além de um simples "não haver guerra" - fala de plenitude, de harmonia, de estar bem com os outros e com o espiritual. Daí a saudação Shalom Aleichem ("A paz esteja convosco").

Se olharmos para a história, antes de Israel ser criado em 1948, já existiam grupos paramilitares de extrema-direita ligados ao sionismo revisionista - como o Irgun e o Lehi (a chamada Gangue de Stern). Eles usaram táticas de terror e violência tanto contra os britânicos como contra a população árabe local. Na altura, essas ações foram criticadas e condenadas até pela própria liderança sionista oficial (a Haganah) e por grandes intelectuais judeus pelo mundo fora. Hoje em dia, vemos fações do ultranacionalismo religioso a serem igualmente acusadas de extremismo e violência.

O mesmo se aplica ao Islão, que é uma religião intrinsecamente ligada à paz. A própria palavra "Islão" vem da mesma raiz que Salam ("paz" em árabe), e a saudação As-salamu alaykum significa exatamente "A paz esteja convosco".

Quanto à Sharia (que significa "o caminho para a fonte de água"), ela é a estrutura ética e jurídica do Islão, mas não é um código penal rígido num livro único. É uma tradição viva de interpretação baseada em quatro pilares: o Alcorão, a Sunnah (os ensinamentos do profeta Maomé), o Ijma (o consenso dos sábios) e o Qiyas (o raciocínio por analogia). Grupos radicais e terroristas, como o Daesh, pegam numa versão completamente descontextualizada e brutal da Sharia, que é rejeitada pela esmagadora maioria dos juristas islâmicos no mundo inteiro. 

Aliás, a esmagadora maioria dos cerca de 1,9 mil milhões de muçulmanos condena estes radicais - até porque as próprias populações muçulmanas são, muitas vezes, as suas principais vítimas.


Olhando agora para os factos mais recentes: no dia 16 deste mês, a administração Trump aprovou um pacote de venda de armas a Israel no valor de 2,8 mil milhões de dólares, que inclui 40 mil bombas (20 mil Mk84 de 2000 libras e 20 mil BLU-117). O Congresso já foi notificado informalmente.[Fonte]

A questão essencial aqui é como isto é financiado: a maior parte do valor vem do programa de Financiamento Militar Estrangeiro dos EUA. Ou seja, no papel, os EUA dão subsídios ou empréstimos a países aliados, mas com uma regra fixa: o dinheiro dos contribuintes americanos doado a Israel tem obrigatoriamente de ser gasto a comprar armas a fabricantes norte-americanos. Na prática, o dinheiro sai dos impostos dos americanos, passa por Israel e volta diretamente para injetar capital na indústria de defesa dos próprios Estados Unidos.

Retirem as vossas conclusões.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Lorn - Acid Rain

Melhor som aqui
Marcos Ortega, conhecido pelo nome artístico Lorn, é um produtor e músico norte-americano nascido em Normal, Illinois, e criado em Milwaukee, Wisconsin. A sua obra enquadra-se nos géneros da música eletrónica experimental, IDM (Intelligent Dance Music), synthwave e wonky. A faixa "Acid Rain" destaca-se por incorporar elementos marcantes de witch house, patentes no ritmo lento e arrastado de matriz hip-hop/trap, nas linhas de baixo densas, nos sintetizadores distorcidos e nas texturas vocais fantasmagóricas que conferem à música uma atmosfera opressiva, soturna e ritualística.

O videoclipe, realizado por Julian Flores, Pavel Brenner e Sherif Alabede (do coletivo Room 113), apresenta uma estética visual sombria e hipnótica. O enredo acompanha um grupo de claques (cheerleaders) após um acidente de viação fatal num automóvel clássico durante a noite. O vídeo desenrola-se num espaço entre a vida e a morte - um limbo ou purgatório vivido na fração de segundo antes da perda total de consciência. As jovens emergem dos destroços e executam uma coreografia contorcida, mecânica e espasmódica. Esta dança não representa um espetáculo, mas sim uma reação visceral de agonia, choque e rebeldia contra o fim iminente, culminando com o regresso à imagem real do veículo e à confirmação do seu destino trágico.

A nível de inspirações, a premissa do videoclipe apoia-se diretamente na mitologia dos povos originários dos Estados Unidos (Nativos Americanos). O projeto baseia-se na crença tradicional de que, perante a chegada da Morte, a pessoa tem o direito de realizar a sua última dança, cabendo à própria Morte a obrigação de assistir. Esta dimensão espiritual cruza-se com influências do Existencialismo de Albert Camus e Jean-Paul Sartre, onde o ser humano confronta a solidão e o absurdo da condição mortal. A utilização de ícones do imaginário americano dos anos 50 - como o restaurante diner, o carro conversível e as fardas escolares - transfigurados num cenário surrealista evoca o Realismo Mágico e o Horror Cósmico, resgatando simultaneamente o conceito clássico da "Dança Macabra" e do Memento Mori como lembretes da fragilidade humana.


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Menos água nos rios, nos lagos e nos glaciares - Seca de rios globais em 2025 foi uma das piores em 35 anos


O ano de 2025 foi dos piores das últimas décadas para os caudais dos rios e o armazenamento de água na superfície terrestre também está a diminuir, tendo havido uma perda generalizada nos glaciares pelo quarto ano consecutivo.

Os dados fazem parte do último Relatório sobre o Estado dos Recursos Hídricos Globais em 2025, hoje divulgado pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), um organismo da ONU.

O documento indica que a Ásia e a África são as regiões mais afetadas por desastres relacionados com a água, responsáveis por pelo menos metade de todos os eventos extremos relacionados e por mais de 80% das mortes associadas nos últimos cinco anos.

Os autores do documento dizem que o ciclo da água no planeta se tornou mais errático e imprevisível, oscilando entre pouca água ou água a mais, que há uma continuidade no declínio de armazenamento de água doce na Terra, e que os rios no mundo tiveram no ano passado um dos anos mais secos das últimas três décadas.

O documento faz uma avaliação científica de todo o ciclo da água no planeta, desde as descargas dos rios às águas subterrâneas, o armazenamento, a evapotranspiração e a neve e o gelo, bem como de eventos com grande impacto.

Partes desse ciclo, como a chuva ou a humidade do solo, são rápidas e respondem ao clima, mas outras, como a água subterrânea ou os glaciares são lentas, tradicionalmente reservas que atuam como uma “conta poupança”, um amortecedor para os anos se seca, explica a OMM em comunicado sobre o relatório, citando a secretária-geral, Celeste Saulo.

“Estamos a esgotar essa conta poupança. O armazenamento terrestre global de água tem apresentado uma tendência de queda desde 2014–2016 - um sinal persistente que dura uma década. Pelo quarto ano consecutivo, todas as principais regiões de glaciares da Terra perderam massa de gelo”, disse, acrescentando que com a água subterrânea se passa o mesmo, com quase dois terços dos poços monitorizados a perderem água em 2025.

O relatório especifica que o ano passado foi dos mais secos dos últimos 35 anos no caudal de muitos rios, que pelo sétimo ano consecutivo o número de bacias hidrográficas consideradas normais baixou, atingindo valores entre 34 e 38%, e que o armazenamento terrestre de água (lençol freático, lagos e rios, humidade do solo, vegetação gelo e neve) está em declínio desde meados da década de 2010.

O ano passado foi também o quarto ano consecutivo com perda generalizada de glaciares em todas as regiões, “levando a riscos de curto prazo como enchentes e insegurança hídrica de longo prazo”.

Entre 2023 e 2025 houve uma perda de gelo equivalente a 1.400 gigatoneladas de água.

Agência de Proteção Ambiental elimina limitação às emissões de gases com efeito de estufa nas centrais elétricas dos EUA

A Agência de Proteção Ambiental (EPA) norte-americana divulgou na segunda-feira que vai revogar as regras que limitam as emissões de gases com efeito de estufa, que causam o aquecimento global, provenientes de centrais elétricas alimentadas a carvão e gás natural.
A alteração à regra, inicialmente proposta no ano passado, representa uma mudança fundamental em relação aos esforços dos presidentes democratas Joe Biden e Barack Obama para combater as alterações climáticas e reduzir a poluição industrial.

Os grupos ambientalistas criticaram a medida, afirmando que vai prejudicar a saúde dos norte-americanos e degradar ainda mais o ambiente, noticiou a agência Associated Press (AP), que antecipou também batalhas judiciais após a entrada em vigor da nova regra.

A revogação da regra para as centrais elétricas da era Biden permitiria poupar mais de 300 mil milhões de dólares em custos para o setor e ajudar a libertar a energia norte-americana, de acordo com a EPA.

A mudança permitirá que as empresas de energia tomem as melhores decisões para os seus consumidores, em vez de serem forçadas a fechar centrais antigas ou ineficientes, sublinhou o administrador assistente da EPA, Aaron Szabo.

A proposta, que deverá ser oficializada no próximo ano, surge na sequência de uma ação anterior da EPA, realizada este ano, que revogou uma conclusão científica que há muito servia de base central para a atuação dos EUA na regulação das emissões de gases com efeito de estufa e no combate às alterações climáticas.

A medida de fevereiro eliminou todos os padrões de emissão de gases com efeito de estufa para automóveis e camiões.

O novo plano aplicaria uma lógica semelhante para uma reversão mais ampla das regulamentações climáticas dirigidas a fontes fixas, como as centrais elétricas.


As centrais termoelétricas alimentadas a carvão, gás e petróleo são responsáveis por cerca de um quarto de toda a poluição climática dos EUA, ficando apenas atrás do setor dos transportes.

A poluição proveniente destas centrais é uma das maiores fontes globais de poluição que altera o clima.

As normas visadas pela EPA sob a administração liderada por Donald Trump poderiam evitar cerca de 30 mil mortes e gerar uma poupança de 275 mil milhões de dólares por cada ano em que estivessem em vigor, segundo um estudo da AP realizado no ano passado, que incluiu avaliações anteriores da própria agência e várias outras pesquisas.

Enquanto a China consolida o domínio mundial nas tecnologias limpas do século XXI (baterias, painéis solares, veículos elétricos), os EUA arriscam-se a ficar para trás num mercado global de energia limpa estimado em biliões de dólares. 

Na Europa mantem o foco na sustentabilidade ambiental e regulação, assumindo custos económicos mais altos no curto prazo para liderar a transição ecológica.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Softcult - I Held You Like Glass


Originárias do Canadá, concretamente da região de Ontário, as Softcult surgem no panorama da música alternativa contemporânea como uma das propostas mais singulares da atualidade. Fundada pelas irmãs gémeas Mercedes e Phoenix Arn-Horn, a banda constrói a sua identidade numa sonoridade marcante que combina a densidade atmosférica e etérea do shoegaze e do dream pop com a energia crua e direta do grunge noventista e do punk indie. A esta fusão de guitarras distorcidas e melodias imersivas, a dupla atribui a designação de "Riot Gaze", refletindo não só a sua assinatura estética, mas também o forte compromisso ideológico que atravessa toda a sua obra.

A faixa "I Held You Like Glass", pertencente ao EP When A Flower Doesn't Grow, é um reflexo límpido dessa interseção entre vulnerabilidade poética e crítica social. A canção debruça-se sobre a experiência sufocante de permanecer num relacionamento desgastante ou interpessoalmente tóxico, utilizando a metáfora central de segurar cacos de vidro com as próprias mãos. As letras constroem uma narrativa sobre o desgaste emocional progressivo e a anestesia defensiva que se instala quando a dor se torna um hábito diário. O tema atinge o seu ponto de viragem ao defender a necessidade premente de quebrar essa espiral, largar o vidro ferino e permitir que a ferida interior inicie finalmente o seu processo de cura.

Por trás dessa construção musical e lírica residem influências filosóficas e literárias profundamente enraizadas. As Softcult bebem diretamente do espírito do movimento Riot Grrrl dos anos 90 e das correntes do feminismo interseccional contemporâneo, integrando leituras de ensaios e obras de ficção feminista nas suas composições. Além disso, o próprio nome da banda deriva de uma análise crítica das "culturas suaves" - estruturas sociológicas e convenções de poder hegemónicas que a sociedade aceita e reproduz sem questionar, tais como o patriarcado ou o consumismo. Alinhadas com a ética do "Do It Yourself" (DIY), as irmãs estendem o seu ativismo para fora dos palcos através da publicação mensal do zine impresso SCripture, consolidando a música como um verdadeiro veículo de intervenção política, social e humana.

Fascismo do Fim dos Tempos: Como Elites Tecnológicas e Religiosas se Preparam para o Apocalipse Global


Em setembro de 2026, a publicação do livro End Times Fascism: And the Fight for the Living World, escrito pela jornalista e ativista Naomi Klein e pela realizadora e escritora Astra Taylor, trouxe para o centro do debate uma tese alarmante sobre a ascensão da extrema-direita global. Numa entrevista concedida ao programa Democracy Now!, Klein e Taylor explicam que o fenómeno atual não é uma simples repetição do fascismo do século XX, mas uma evolução adaptada à era de colapso climático, avanço desenfreado da inteligência artificial e intensificação de conflitos geopolíticos.

Na perspetiva das autoras, o fascismo sempre funcionou como uma espécie de "capitalismo com dentes de fora" - uma reação violenta das elites para proteger as suas posições de poder quando o sistema económico entra em crise estrutural. Contudo, na sua nova roupagem, este fascismo do fim dos tempos funde três fações aparentemente distintas: fundamentalistas religiosos com visões messiânicas, etnonacionalistas obcecados pelo fecho de fronteiras e uma elite tecnológica de Silicon Valley que desistiu completamente da ideia de um futuro partilhado.

Um dos focos principais dessa análise é a ascensão da chamada "Máfia do PayPal" no poder político dos EUA. Nomes como Peter Thiel (cofundador da Palantir) e David Sacks (nomeado para a administração norte-americana para supervisionar a política de IA e criptomoedas) influenciaram diretamente figuras políticas como JD Vance. As autoras argumentam que essa aliança acelerou o desmantelamento de salvaguardas regulatórias, enquanto os executivos do setor utilizam a rivalidade com a China como pretexto para uma expansão desregulada da inteligência artificial, ignorando os riscos existenciais que a própria tecnologia acarreta.

Ao mesmo tempo que promovem sistemas que aceleram a rutura social e ambiental, estas elites preparam o seu próprio escapismo através da construção de bunkers subterrâneos, estações espaciais e a ilusão do que Klein denomina de "arrebatamento pela riqueza" (wealth rapture). O livro exemplifica esta lógica com propostas de requalificação imobiliária apresentadas no Fórum Económico Mundial em Davos, onde projetos como o "New Gaza" procuram transformar cenários de destruição massiva em empreendimentos imobiliários de luxo.

Os três pilares identificados por Naomi Klein e Astra Taylor constituem uma aliança frágil, mas extremamente perigosa, formada por grupos que divergem em crenças, mas convergem na aceitação da rutura do mundo para garantir o controlo ou a sobrevivência exclusiva durante o colapso.

O primeiro grupo é composto pelos Religiosos do Fim dos Tempos (Religious Endtimers), maioritariamente fundamentalistas associados a correntes do sionismo cristão e setores messiânicos. Para este pilar, os conflitos no Médio Oriente, a degradação ambiental e as crises sociais não são problemas a resolver, mas sim sinais proféticos incontornáveis do Armagedão ou da segunda vinda de Cristo. A sua função nesta aliança é conferir uma justificativa teológica e moral à destruição, encarando o caos e a violência apocalíptica como etapas necessárias de um plano divino.

Paralelamente surgem os Aceleracionistas Tecnológicos (Tech Endtimers), constituídos por bilionários, investidores e executivos de Silicon Valley ligados ao ecossistema da inteligência artificial. Embora reconheçam abertamente que a tecnologia desregulada pode causar desemprego em massa, rutura social ou até a extinção humana, adotam uma postura fatalista e aceleradora. Este grupo promove o que as autoras chamam de "arrebatamento pela riqueza" (wealth rapture), acreditando que o capital e a inovação lhes permitirão escapar às consequências da crise através de bunkers de luxo, colonização espacial ou fusão com a IA, lucrando com o colapso enquanto constroem saídas de emergência privadas.

Por fim, o pilar dos Etnonacionalistas (Ethonationalists) reúne movimentos e partidos da extrema-direita global focados na identidade nacional, racial ou cultural. A sua visão de mundo encara o futuro como um jogo de soma zero, onde recursos essenciais como água, terra e alimentos serão drasticamente escassos. O seu papel na aliança consiste em implementar o fecho absoluto de fronteiras, a militarização do Estado e a desumanização do "outro", canalizando o medo e a insegurança das populações contra alvos específicos, como imigrantes, minorias e refugiados climáticos.

Apesar das contradições evidentes entre o fervor religioso, o materialismo tecnológico e o nacionalismo estatal, estes três grupos encontram-se no mesmo ponto cego: todos desistiram da ideia de um futuro partilhado para toda a humanidade. Em vez de tentarem travar a crise global, unem forças para construir o que Klein e Taylor classificam como "arcas" exclusivas para as elites, abandonando o resto da população à mercê do colapso.

Para combater esta espiral autodestrutiva, Taylor e Klein propõem o conceito de "triplo desarmamento": desarmar arsenais nucleares e militares, estabelecer guardas-de-corpo rigorosas para tecnologias de alto risco como a IA e desmantelar a extrema concentração de riqueza, tratando a desigualdade desmedida como uma verdadeira arma de destruição maciça. A solução não passa por fugir do planeta, mas por um compromisso renovado com a sobrevivência e a solidariedade no mundo real.

A peça central desta contraofensiva reside no que as autoras definem como um "triplo desarmamento". Esta estratégia procura desmantelar as maiores ameaças existenciais do nosso tempo através de três frentes coordenadas: o desarmamento militar e nuclear, travando a corrida aos armamentos e a perigosa integração da Inteligência Artificial em sistemas de defesa; o desarmamento tecnológico, impondo regulamentação pública severa e guardas-de-corpo à IA antes que a sua expansão desenfreada cause danos irreversíveis; e o desarmamento da própria riqueza concentrada. Nesta última vertente, o acúmulo extremo de capital por parte dos bilionários é tratado como uma verdadeira arma de destruição maciça, exigindo políticas fiscais agressivas que redistribuam recursos e travem a privatização de infraestruturas essenciais.

Freneticamente oposta às fantasias corporativas de fuga para Marte, bunkers subterrâneos de luxo ou simulações virtuais na nuvem, surge a proposta de uma ética do "aqui" (here-ness). Esta postura filosófica e política recusa categoricamente o fatalismo de que o apocalipse é inevitável. Em vez disso, apela ao investimento direto na proteção das comunidades, dos territórios e dos ecossistemas reais, promovendo uma solidariedade horizontal entre as pessoas - em direto contraste com a solidariedade vertical oferecida pelos autoritários, que une o cidadão comum às elites através do medo e do ódio ao "outro".

Na prática, esta resistência já ganha forma em várias frentes de ação direta pelo mundo. Destaca-se a crescente vaga de protestos comunitários contra a construção descontrolada de data centers destinados à IA, devido ao seu consumo devastador de água e energia; a organização sindical de trabalhadores que lutam para impedir que a automação sirva unicamente para desmantelar direitos laborais; e a defesa ativa de migrantes e refugiados contra a militarização das fronteiras. Para guiar esta ação, as autoras sugerem o "Teste Steven Miller": uma métrica simples que estabelece que, se uma tecnologia ou concentração de poder for perigosa ao ponto de se tornar devastadora nas mãos do pior governante autoritário imaginável, essa ferramenta simplesmente não deve ter permissão para existir.