Bioterra
Blogue de Educação Ambiental, iniciado em 01.04.2004
sábado, 26 de setembro de 2026
Uma espécie de cartel. Donos da inteligência artificial estão a usar o medo para fechar o mercado
Ana Catarina: A crónica viral sobre a ONU, a América e a Praça dos que Podiam Fazer Alguma Coisa
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| Vista da escultura “Não-Violência” ou “Arma com Nó”, do artista Carl Fredrik Reuterswärd, na Praça de Visitantes da ONU , na sede da ONU |
sexta-feira, 25 de setembro de 2026
Trentemøller: Swerve
A sonoridade de "Swerve", obra do produtor e compositor dinamarquês Trentemøller (Anders Trentemøller, natural de Copenhaga), reflete uma marcante evolução estética. Tendo percorrido as origens da eletrónica e do minimal techno, o artista dinamarquês firma aqui uma identidade densa que cruza o dream pop, o shoegaze, o post-rock e a indietronica. A faixa é construída a partir de sintetizadores melancólicos, guitarras saturadas em reverberação e um ritmo hipnótico, criando uma atmosfera profundamente cinematográfica, sombria e nostálgica.
No centro da identidade sonora da canção está a contribuição de Sakura Katsuura . A artista e designer empresta a sua voz sussurrada e etérea em japonês, introduzindo uma dimensão íntima que contrasta com a frieza das texturas eletrónicas e reforça a sensação de distanciamento e introspeção. O próprio conceito de "Swerve" - a ideia de mudar bruscamente de direção ou desviar-se — evoca a perda de controlo, a impermanência e a vertigem dos momentos em que a vida muda imprevisivelmente de rumo, deixando o indivíduo a flutuar sem rumo fixo entre memórias e desilusões.
No teledisco, esta narrativa visual é ampliada pelas performances expressivas de um elenco composto por Sakura Katsuura, Sophie Vyshnevska, Viktor Farkas, Anni Chen e Swell . Através de dinâmicas corporais e olhares contidos, o teledisco explora o alienamento e a desconexão emocional na era moderna, retratando corpos fisicamente próximos cujas mentes permanecem isoladas. Com uma iluminação de alto contraste e movimentos de câmara fluidos, a estética cinematográfica gera um ambiente onírico onde o ato de desviar o olhar reflete a incapacidade de encarar a realidade ou o outro diretamente.
Esta fusão estética e conceptual estabelece pontes diretas com referências literárias e filosóficas marcantes. O desvio sugerido no título ecoa o conceito epicurista de clinamen - a inclinação imprevisível dos átomos teorizada por Lucrécio em De Rerum Natura e posteriormente analisada por Gilles Deleuze -, representando a rutura inesperada do fluxo contínuo e a entrada do caos na estabilidade diária. A faixa dialoga também com o existencialismo de Jean-Paul Sartre e Albert Camus ao evocar a alienação e a vertigem perante a ausência de sentido, enquanto a volatilidade das interações no videoclipe espelha a "modernidade líquida" de Zygmunt Bauman e a fragilidade dos laços humanos. Por fim, o contraste entre o vocal em japonês e o ambiente pós-punk remete para a atmosfera de realismo mágico urbana de Haruki Murakami, na qual personagens solitárias atravessam cenários frios imersas num isolamento psicológico e num surrealismo subtil.
A Lua, Gloriosamente Indiferente
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| Image credit: NASA/Goddard Space Flight Center Scientific |
O Caso de Souto de Moura nos Açores: Sustentabilidade e Habitação Social em Destaque
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| Mofo |
É precisamente nesta interseção entre as políticas públicas de sustentabilidade e a sua aplicação prática que ganha relevância a análise de casos concretos, como o do loteamento de habitação social nas Sete Cidades, em São Miguel (Açores), projetado pelo arquiteto Eduardo Souto de Moura em coautoria com Adriano Pimenta. Concluído por volta de 2010, este conjunto habitacional oferece uma oportunidade para avaliar, no longo prazo, se os princípios teóricos da sustentabilidade se traduziram em qualidade de vida duradoura para a comunidade.

Confrontando as três dimensões basilares promovidas no âmbito das comemorações do Dia Nacional da Sustentabilidade com a realidade deste projeto público, destacam-se os seguintes pontos de reflexão:
1.Sustentabilidade ambiental e adequação climática: embora o projeto procure reinterpretar a volumetria tradicional das habitações açorianas, a opção pelo betão visto como material predominantemente exposto revelou-se problemática perante a humidade extrema e a pluviosidade do microclima das Sete Cidades. A colonização biológica da fachada exterior (líquenes e fungos) e as elevadas exigências de ventilação para controlar a humidade ambiente demonstram que a sustentabilidade exige o respeito pelos materiais e pelas técnicas construtivas locais.
2. Sustentabilidade económica e custo de vida: a habitação de cariz social destina-se a populações com recursos limitados. Quando o desempenho térmico e a gestão da humidade de uma solução arquitetónica obrigam a consumos contínuos de eletricidade (através do uso frequente de desumidificadores e aquecedores) ou exigem manutenções exteriores constantes, o encargo financeiro sobre os residentes e a administração pública torna-se elevado, contrariando o princípio da eficiência no ciclo de vida do edifício.
3. Sustentabilidade social e aceitação comunitária: a relação dos moradores com as habitações foi marcada por críticas quanto à funcionalidade do espaço interno e ao conforto habitacional. O caso evidencia a importância do planeamento participativo e da escuta ativa das comunidades locais, garantindo que o desenho arquitetónico responde às reais necessidades quotidianas dos utilizadores.
A análise deste conjunto habitacional com mais de uma década de vivência oferece uma reflexão crítica sobre a necessidade de alinhar a arquitetura contemporânea com a arquitetura vernácula, demonstrando que a verdadeira sustentabilidade depende da durabilidade, da funcionalidade e da dignidade proporcionadas a quem habita o espaço.
Além disso, a questão da eficiência energética e do conforto térmico é, de facto, uma das fragilidades mais apontadas a este projeto de habitação social. A escolha do betão visto como material predominantemente exposto traz desafios acrescidos no microclima extremamente húmido, frio e chuvoso da cratera das Sete Cidades. Sendo um material de elevada inércia térmica e reduzida permeabilidade ao vapor de água, o betão exige um esforço acrescido de aquecimento e ventilação para que as superfícies interiores atinjam uma temperatura de conforto e evitem o ponto de orvalho, resultando na necessidade frequente de recorrer a equipamentos elétricos. Por sua vez, este consumo elétrico continuado traduz-se num elevado encargo financeiro para as famílias, o que anula o próprio propósito de uma habitação de custos controlados. A conjugação entre a insuficiência dos sistemas de ventilação mecânica para a libertação do vapor de água quotidiano, a elevada humidade do microclima local e o comportamento higrotérmico do betão gera condensações internas, o aparecimento de fungos e um ambiente interior bastante desconfortável. Este cenário evidencia o desfasamento entre o desenho conceptual e os padrões reais de habitabilidade e sustentabilidade, mesmo num edifício cujo projeto cumpre formalmente os requisitos do certificado energético (com classificação estimada de nível B).
No que concerne às proeminentes "torres" de betão - que constituem o prolongamento vertical dos corpos dos fornos e chaminés exteriores -, estas foram igualmente alvo de fortes críticas e estranheza por parte da comunidade e dos residentes. Do ponto de vista estético e formal, a escala monumental e austera destas chaminés em betão cru contrasta vivamente com as delicadas chaminés e fornos da arquitetura tradicional micaelense, habitualmente caiados de branco e de proporções mais modestas. Esta linguagem visual agressiva levou a que a população local percepcionasse estas estruturas não como um tributo à memória construtiva dos Açores, mas antes como uma imposição industrial e descaracterizadora. Paralelamente, no plano funcional e do conforto quotidiano, a opção por chaminés de tal envergadura acopladas à fachada gerou sérios constrangimentos. A exposição contínua destas elevadas massas de betão ao vento rigoroso e à chuva constante das Sete Cidades favorece o arrefecimento das superfícies e potencia fragilidades na estanquidade e nas juntas de ligação às habitações, criando zonas propícias a infiltrações e condensações. Além disso, a altura e a geometria destas estruturas tornaram as tarefas habituais de limpeza, manutenção e controlo da tiragem da salamandra bastante mais complexas para os moradores. Deste modo, o elemento que no projeto representava uma reinterpretação poética do forno açoriano acabou por ser vivenciado no dia a dia como uma solução sobredimensionada e pouco prática.
[Fases do projecto aqui]
quinta-feira, 24 de setembro de 2026
Eivør - Spøkilsir - Revenants
Ainda antes de a mina abrir, a injustiça já chegou ao Barroso, mostra estudo europeu
A oliveira e a arte de resistir à seca
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| Pode visualizar o cartaz, com mais detalhe aqui |
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| Oliveira mais antiga de Portugal fica na Herdade do Peso, tem 3.712 anos [toda a história aqui] |
quarta-feira, 23 de setembro de 2026
Then Comes Silence - Remaker Redeemer
O Impacto Hídrico dos Data Centers em Abrantes: Do Rio Tejo à Evaporação
A discussão em torno do impacto ambiental dos novos projetos de megacentros de dados planeados para Abrantes (como o EDC One e o Hyperion) exige uma análise rigorosa e desprovida de alarmismo. Ao analisar a transição entre a desativada Central Termoelétrica do Pego e estas novas infraestruturas digitais, torna-se evidente uma mudança estrutural na gestão dos recursos hídricos do rio Tejo: a transição de um modelo de utilização com devolução de caudal para um modelo de consumo por evaporação atmosférica.
Historicamente, a antiga central a carvão do Pego operava sob uma licença da
Em contrapartida, as estimativas divulgadas pelo movimento ambientalista
Ao contrário do circuito da central termoelétrica, as torres de arrefecimento evaporativo convertem entre 70% a 80% da água captada em vapor de água, retirando-a de forma irreversível do ciclo hídrico local a curto e médio prazo. Apenas os restantes 20% a 30% permanecem no estado líquido como efluentes de purga (blowdown), caracterizados por uma elevada concentração de sais minerais e que exigem encaminhamento para estações de tratamento de águas residuais. Desta forma, o troço do Tejo em Abrantes perde permanentemente a maior parte da água captada, intensificando a pressão sobre o caudal ecológico local, especialmente durante os períodos de seca estival.
Esta pressão torna-se ainda mais preocupante num cenário de incerteza quanto à infraestrutura hídrica nacional. O anunciado plano de barragens e mini-barragens - essencial para reforçar a capacidade de retenção e regularização do caudal, sobretudo nos afluentes do Tejo - continua sem conhecer execução prática. Sem estas obras de armazenamento e regularização, o Tejo fica desprovido de uma "almofada" hídrica que possa compensar captações intensivas em anos secos.
Esta transição ocorre num contexto em que os relatórios do







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