sexta-feira, 24 de julho de 2026

O Atolamento das Vaidades


Ontem, Donald Trump declarou que a guerra com o Irão está a correr “melhor do que qualquer um esperava”. Está a delirar, é claro. E os seus delírios são a razão pela qual o preço do petróleo voltou a cerca de 100 dólares por barril e - como explicarei em breve  - o preço real é muito superior a isso.

A guerra gratuita de Trump contra o Irão transformou-se num atoleiro notável - notável porque a única coisa que mantém a guerra em curso é a vaidade de Trump. Perdeu efectivamente a guerra nos primeiros tempos, quando se tornou evidente que o regime de linha dura do Irão tinha sobrevivido ao ataque inicial e que os militares norte-americanos não conseguiam manter o Estreito de Ormuz aberto. Mas Trump é psicologicamente incapaz de admitir o fracasso. Assim, a guerra continua, enfraquecendo os Estados Unidos a cada dia, enquanto ele procura alguma forma de transformar a sua derrota abjeta numa vitória.

E as declarações de que as consequências económicas da guerra foram contidas parecem agora perigosamente prematuras.

É verdade que, durante o primeiro fecho do Estreito, os preços do petróleo não subiram tanto como muitos analistas - incluindo eu próprio, em certa medida - esperavam. Parte do petróleo do Golfo Pérsico chegou aos mercados contornando o Estreito de Ormuz, principalmente através do oleoduto saudita para o Mar Vermelho. A China reduziu drasticamente as suas importações de petróleo. E o mundo compensou uma parte substancial da escassez de oferta reduzindo os seus stocks.

O segundo encerramento de Ormuz pode ser pior, por vários motivos. Os aliados houthis do Irão estão agora a atacar navios no Mar Vermelho, ameaçando esta válvula de segurança. Além disso, os stocks estão agora muito mais baixos do que quando o conflito começou e não podem servir de reserva daqui para a frente.

Talvez o mais importante a perceber sobre a situação actual, no entanto, é que o petróleo é mais caro do que parece.

Ninguém queima petróleo bruto. O petróleo precisa de ser refinado para se transformar em combustíveis utilizáveis, principalmente gasolina e gasóleo. E há uma escassez global de capacidade de refinação. Isto reflecte em parte a guerra no Irão, mas também a campanha surpreendentemente eficaz da Ucrânia contra a infra-estrutura energética de Vladimir Putin.

Esta escassez de capacidade de refinação ajudou a manter os preços do crude baixos - porquê comprar crude se não se pode refiná-lo? Mais importante, porém, significa que os preços dos produtos petrolíferos para os consumidores finais são muito mais elevados do que seria de esperar, tendo em conta o preço do petróleo bruto. O gráfico no início deste post mostra o preço do gasóleo no mercado grossista, que mesmo durante o cessar-fogo falhado estava muito acima do seu nível pré-guerra e está agora próximo do seu pico anterior.

O spread geral - a diferença de preço entre um barril de crude e o preço dos produtos refinados a partir desse barril - explodiu, de cerca de 25 dólares por barril antes da guerra para mais de 65 dólares agora:

Do ponto de vista dos consumidores finais, isto equivale a um aumento de 40 dólares por barril no preço do crude. Na prática, o mundo está a lidar com o equivalente a 140 dólares pelo petróleo, embora o preço anunciado ronde "apenas" os 100 dólares.

Prenuncia uma catástrofe económica? Não, ainda não. Mas não é um bom sinal.

A desaceleração da inflação no mês passado parece agora temporária. Com os preços da energia a subirem novamente - para não falar do impacto inflacionista da nova ronda tarifária de Trump, imposta sob a desculpa absurda de que as nações não estão a fazer o suficiente para acabar com o trabalho forçado - as taxas de juro vão quase certamente subir, intensificando a pressão sobre as famílias e as empresas. As taxas de longo prazo, refletindo os futuros aumentos esperados da Fed, são já demasiado elevadas:

Ainda assim, as coisas podiam ser piores. E podem estar prestes a piorar. O Wall Street Journal refere que Trump está em "modo de vingança" e que as forças armadas dos EUA estão a enviar tropas para o Médio Oriente.

E se Trump insistir no fracasso, intensificando drasticamente a sua guerra desastrosa, os impactos económicos, para não falar dos humanos, serão muito mais graves.

França e Espanha tentam sobreviver a um fenómeno que está a atingir o Mediterrâneo e que ainda não chegou a Portugal

Os incêndios que destruíram parte de Vouzela e Alijó nos últimos dias são um exemplo de que é preciso estar atento, mas Portugal vai-se livrando, pelo menos para já, do inferno que está a atingir os países aqui ao lado.

Com a Europa em pânico perante ondas de calor consecutivas, França e Espanha são os melhores exemplos de um verão terrível que está deixar milhares e milhares de pessoas em sobressalto.

Depois de Almería ter vivido o pior incêndio de sempre da Andaluzia, com 13 mortes contabilizadas, mais acima cerca de 20 mil pessoas foram forçadas a deixar as suas casas perante os fogos fogos florestais de França.

É uma nova onda de calor vinda do mar que os investigadores não temem apelidar de “dantesca”, com a costa atlântica francesa a ter um impacto particularmente intenso.

Mais abaixo, e não muito longe de Almería, a província de Murcía vai sofrendo com dias constantes acima dos 40 graus. Esta terça-feira foram 44,7 em Cieza, de acordo com a agência de meteorologia de Espanha, a Aemet.

Antes disso tinham sido cidades como Albacete, Ávila ou Teruel a registar temperaturas recorde para julho, com os termómetros a chegarem aos 42 graus. Já nos arredores de Madrid tiveram de ser retiradas mais de três mil pessoas perante o perigoso aproximar das chamas.

De acordo com o Sistema de Monitorização do Mediterrâneo, esta onda de calor está a afetar 80% da superfície do mar que banha o sul da Europa, provocando temperaturas por vezes extremas, algumas delas com anomalias de cinco graus acima do expectável. Portugal, até porque tem a costa já em mar aberto, vai conseguindo escapar a este fenómeno.

Os dados do Sistema Europeu de Informação de Fogos Florestais apontam mesmo um ano recorde em termos de área ardida nesta altura do ano. É quase o dobro em relação ao mesmo período registado nas últimas duas décadas.

Em França a situação não é muito diferente. O fogo que começou junto à vila de Saumos, a 40 quilómetros de Bordéus, já queimou 3.700 hectares em pouco mais de 24 horas.

Não há registo de vítimas, mas muitas vidas não voltarão a ser as mesmas, até porque muitas casas foram totalmente consumidas pelas chamas. Nas últimas horas chegaram a estar 800 operacionais apoiados por vários meios aéreos a tentar conter as chamas, mas a situação continua “desfavorável” e longe de estar controlada.

“O fogo está altamente errático e a ganhar força muito significativa”, avisou o chefe do serviço regional de bombeiros, Marc Vermeulen, citado pelo jornal The Guardian.

“Uma das principais frentes está muito próxima de uma área semi-urbana. Estamos a defender casa a casa”, acrescentou.

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Boy Harsher - Hard Beat

Melhor som aqui
Letra
[Verse 1]
Broken glass makes my heart full
I have never been consoled
Strangers pass and see my eyes glow
Take the wheel, I’ve lost control

[Pre-Chorus]
Trust me once
Let’s make it real

[Chorus]
Real, real
Let’s make it real
Trust me once
Let’s make it real
Real
Let’s make it real
Trust me once

[Verse 2]
There’s a crash, and I’m mistaken
I can’t speak, and my eyes won’t close
Never asked you to save me
I feel high when the lights are low

[Chorus]
Let’s make it real
Real, real
Let’s make it real
Trust me once
Let’s make it real
Real
Let’s make it real

[Bridge]
I have never been the right one
I have never been consoled

[Chorus]
Trust me once
Let’s make it real
Real
Let’s make it real

Entre a colisão e o transe: alienação e existencialismo em  Hard Beat
O grupo Boy Harsher é uma dupla de música eletrónica e darkwave de origem norte-americana, fundada em Northampton, Massachusetts, por Jae Matthews e Augustus Muller. A sua sonoridade distingue-se por uma abordagem inovadora ao género, fundindo elementos de darkwave, synthwave, EBM e música industrial através de batidas aceleradas e minimalistas que contrastam com o tom vocal hipnótico, sensual e angustiado de Matthews.

No videoclipe de "Hard Beat", a narrativa visual gravita em torno do trauma, da alienação e da vigilância, abrindo com imagens de uma figura feminina imobilizada por aparelhos ortopédicos e articulando um ambiente voyeurista gravado em ecrãs vintage. A estética noturna e as sequências rodadas na estrada materializam o desejo obsessivo de reencontrar sensações viscerais perante o isolamento físico e a desconexão emocional. Esta temática encontra forte eco nas influências literárias do projeto, remetendo diretamente ao romance Crash (1973), de J.G. Ballard, em que a tecnologia, a dor corporal e a destruição se entrelaçam com o erotismo e a busca pela identidade, alinhando-se igualmente a visões existencialistas sobre o absurdo e a dormência da vida moderna.

Em termos de significado conciso, a canção explora a anestesia emocional e a busca desesperada por uma ligação tangível através do extremo. Versos sobre vidro quebrado ou a perda de controlo ao volante traduzem a necessidade de ceder o domínio da própria existência para conseguir sentir algo genuíno. O refrão, focado na ideia de tornar a experiência real, funciona como uma súplica de autenticidade num mundo insensível, transformando a metáfora do colisão ou acidente não num momento de pânico, mas num choque entorpecente que traz libertação e euforia.

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quinta-feira, 23 de julho de 2026

Ramones - We’re A Happy Family

Melho som aqui
Letra
[Chorus 1]
We're a happy family
We're a happy family
We're a happy family
Me, Mom and Daddy (2X)

[Chorus 2]
Sitting here in Queens
Eating re-fried beans
We're in all the magazines
Gulpin' down Thorazines
We ain't got no friends
Our troubles never end
No Christmas cards to send
Daddy likes men

[Verse]
Daddy's telling lies
Baby's eating flies
Mommy's on pills
Baby's got the chills
I'm friends with the president
I'm friends with the pope
We're all making a fortune
Selling Daddy's dope

[Chorus 2]

[Chorus 1]
We're a happy family
We're a happy family
We're a happy family
Me, Mom and Daddy

Lançada em 1977 no aclamado álbum Rocket to Russia, a canção "We’re A Happy Family" dos Ramones é uma das obras mais emblemáticas do punk rock norte-americano. Oriunda de Nova Iorque, nos Estados Unidos da América, a banda imortalizou-se através de um estilo musical caracterizado pela velocidade avassaladora do punk, enraizado no garage rock e enriquecido com melodias orelhudas inspiradas no bubblegum pop dos anos 60.

O Sonho Americano em estilhaços
O significado da canção reside numa sátira profundamente corrosiva ao ideal do American Way of Life e ao mito da família suburbana impecável, exaustivamente vendido pelos meios de comunicação da época. A letra pinta o retrato de um lar completamente disfuncional e caótico, no qual os membros negociam psicotrópicos ("sellin' Thorazine"), consomem comida enlatada de forma compulsiva e lidam com fobias, vícios e psicoses. O génio da composição reside no contraste irónico: quanto mais degradante e surreal se torna o quotidiano daquela casa, com maior insistência a família repete o refrão que assegura estarem todos felizes.

Uma música intemporal
A atemporalidade de "We’re A Happy Family" deve-se à persistência do fenómeno que crítica. Se nos anos 70 a farsa do bem-estar se concentrava nos postais ilustrados e nos comerciais de televisão, hoje encontra o seu eco perfeito na cultura de aparências e validação das redes sociais. Além disso, a opção por abordar a alienação social através do humor negro e de uma sonoridade simples e direta garantiu que a faixa mantivesse o seu frescor ao longo das décadas.

A nível de influências literárias e filosóficas, embora os Ramones mantivessem uma postura estritamente urbana e sem pretensões académicas, a faixa conecta-se diretamente com o Absurdismo e o Existencialismo de pensadores como Albert Camus, ao expor a futilidade de tentar manter convenções sociais num mundo sem sentido. Em termos literários, a canção alinha-se com a ficção satírica da contracultura norte-americana de autores como Kurt Vonnegut e William S. Burroughs, utilizando o bizarro e a paródia para desmantelar a hipocrisia da sociedade de consumo.

Mais de 35% das novas páginas da web já são criadas por inteligência artificial

Relatórios e estudos indicam que a inteligência artificial (IA) está a transformar a internet. Mais de 35% das novas páginas da web já são produzidas por IA, enquanto mais da metade do tráfego online é gerada por robôs e sistemas automatizados, cenário que levanta dúvidas sobre a sustentabilidade do modelo económico da web aberta.

Segundo uma reportagem do portal Gizmodo, a adoção crescente de ferramentas de IA generativa coincide com mudanças na Pesquisa do Google. Hoje, respostas produzidas por IA aparecem no topo dos resultados para diversas consultas, reduzindo a necessidade de os utilizadores acederem a páginas da web. Um estudo da Growth Memo aponta que 75% dos utilizadores que utilizam o Modo IA permanecem a conversar com o chatbot em vez de clicar em hiperligações de sites. A tendência preocupa empresas de comunicação social e produtores de conteúdo porque o modelo tradicional da internet depende do tráfego gerado pelos motores de pesquisa. Ao aceder a páginas da web, os utilizadores visualizam anúncios que financiam jornalistas, criadores e outros profissionais responsáveis pela produção de conteúdo original. Com menos visitantes humanos e mais respostas entregues diretamente por IA, esse modelo passa a enfrentar novos desafios.

IA produz, IA consome: a internet está morta?
Outro levantamento mostra que mais de 50% do tráfego da internet atualmente não é gerado por pessoas, mas sim por sistemas automatizados. O dado foi divulgado num relatório da Cloudflare publicado este mês e reforça que os robôs já representam uma parcela significativa da atividade online.

O Google, no entanto, contesta parte das interpretações sobre os impactos dos seus recursos de IA. Em nota enviada ao Gizmodo, um porta-voz da empresa afirmou que o estudo segundo o qual 75% dos utilizadores permanecem no Modo IA "não era representativo", argumentando que os participantes receberam "tarefas forçadas e não naturais que provavelmente influenciaram o seu comportamento". Segundo a companhia, a pesquisa não refletia consultas nem hábitos reais dos utilizadores. A empresa também defendeu a precisão dos seus recursos baseados em IA. Em comunicado ao portal, o Google afirmou: "Testámos rigorosamente a qualidade destes recursos usando amostras estatisticamente significativas de consultas representativas de utilizadores. As respostas são precisas na grande maioria das vezes e, quando erramos, usamos esses exemplos para aprimorar continuamente os nossos sistemas”.

Apesar da defesa da companhia, o Gizmodo relata que as respostas produzidas pelo Modo IA ainda apresentam erros factuais. Num teste feito pelo jornalista Mike Pearl, a ferramenta afirmou, de forma incorreta, que o presidente de Madagáscar seria conhecido pela alcunha "Andy" e inventou um suposto ex-chefe de governo de Montserrat. Após ser questionada, a própria IA reconheceu o erro e respondeu: "Está absolutamente correto, e peço desculpa por ter fornecido informações completamente incorretas na minha última resposta”. Para o Gizmodo, a evolução destas ferramentas também está a alterar o comportamento dos utilizadores. Em vez de procurar páginas publicadas por pessoas, cresce o hábito de fazer perguntas diretamente aos chatbots, que sintetizam a informação disponível na web. A mudança pode reduzir ainda mais o acesso aos sites originais e colocar pressão sobre um modelo que, durante décadas, sustentou financeiramente a produção de conteúdo na internet.

Ler mais:
  1. Cloudflare lança o Precursor para conter o tráfego automatizado através da análise contínua das sessões
  2. Cloudflare Introduces Precursor; One-Click Behavioral Defense Against Modern Bots

Bohumil Hrabal - Uma Solidão Demasiado Ruidosa

Reler "Uma Solidão Demasiado Ruidosa", originalmente publicada em 1976 e reeditada com uma excelente tradução de Ludmila Dismanová, é recordar que trabalhar numa cave a prensar livros ensina uma lição rápida: o papel tem peso, cheiro e poeira, poesia, absurdo, tragédia, comédia, esforço intelectual. Esta obra não é uma história limpinha, estruturada com princípio, meio e fim para entreter a cabeça numa viagem de comboio. É o monólogo sufocante, poético e ligeiramente alcoólico de Haňta, um homem que passa trinta e cinco anos metido num buraco em Praga a desmarcar papel velho, refugos de tipografias e bibliotecas inteiras proibidas pelo regime. O interior do livro é um turbilhão onde a máquina não para, o barulho é infernal e a cerveja ajuda a suportar a sujidade e o mofo. Só que, ao longo de três décadas a destruir cultura, Haňta faz o oposto: bebe as palavras. Salva edições raras do monte de lixo, lê frases soltas de Kant, Spinoza, Hegel ou Lao-Tsé no meio de papéis ensanguentados do talho e guarda-as na cabeça, transformando a sua mente num arquivo vivo de tudo o que o poder quis apagar.
Esta narrativa é profundamente autobiográfica e reflete de forma direta o percurso e a filosofia do próprio Bohumil Hrabal. Doutorado em Direito pela Universidade Carolina de Praga, o autor foi impedido de exercer a profissão pela Segunda Guerra Mundial e pela subsequente ascensão do regime comunista. Remetido para a margem como intelectual indesejado, trabalhou como ferroviário, operário siderúrgico e, entre 1954 e 1958, como empacotador de papel na rua Spálená. Da sua rotina diária extraiu as descrições mecânicas da prensa e o ambiente da cave onde assistiu ao abate massivo de livros confiscados. Assim como a sua personagem, Hrabal tornou-se um "sábio involuntário", resgatando do lixo e devorando a grande literatura e filosofia ocidental.
A própria trajetória do livro espelha o contexto político em que o autor viveu. Após o fim da Primavera de Praga em 1968, Hrabal foi banido das edições oficiais, pelo que a obra teve de circular clandestinamente em edições samizdat - cópias dactilografadas em segredo - antes de ver a luz do dia no estrangeiro e, mais tarde, na Checoslováquia. O consumo de cerveja por parte de Haňta reflete também a vivência do escritor nas cervejarias de Praga, como a famosa U Zlatého tygra, onde aperfeiçoou o estilo pábení: uma narrativa fluida e sem pausas que cruza a filosofia erudita com a conversa banal de botequim. Reescrevendo o texto três vezes até atingir o tom lírico definitivo, Hrabal considerava este romance o cume da sua criação e o seu testamento vital, tendo chegado a confessar que tinha vindo ao mundo apenas para o escrever.

Porque é importante ler este romance?
Uma inteligência artificial pode cruzar milhões de dados para pintar um quadro no estilo de Rembrandt ou compor uma sinfonia ao modo de Beethoven, ou elaborar um texto camiliano em segundos mas esse processo é uma simulação estatística, desprovida de biografia, sofrimento ou necessidade de expressão. A arte humana não nasce num vácuo de dados, mas sim do conflito do artista com a sua própria mortalidade, com o contexto histórico e com as suas contradições internas. Quando a sociedade passa a valorizar a arte apenas pela velocidade de produção ou pela sua capacidade de gerar estímulos visuais rápidos, o público arrisca-se a consumir um subproduto industrializado e esteticamente homogéneo. O verdadeiro valor da pintura, da música, da literatura ou do cinema reside no facto de serem canais de comunhão entre duas consciências: quem cria deposita ali a sua mundividência, e quem observa reconstrói esse sentido através da sua própria experiência de vida. Proteger a arte na era digital significa, por isso, resgatar o direito ao erro, à imperfeição e à intencionalidade, elementos que nenhuma prensa ou algoritmo consegue programar.

Dinheiro, gastos e benesses do Estado. Os segredos da vida financeira de Salazar


Há mitos que sobrevivem porque são confortáveis. O de D. Sebastião sobrevive porque alimenta a esperança. O de Robin dos Bosques porque consola os desfavorecidos. E o de António de Oliveira Salazar porque oferece aos seus admiradores uma espécie de superioridade moral retrospetiva: sim, foi ditador, dizem alguns, mas ao menos não roubou; sim, governou durante décadas sem eleições livres, mas morreu pobre; sim, concentrou um poder sem paralelo na história portuguesa contemporânea, mas nunca se aproveitou dele para enriquecer.

O problema dos mitos é a sua irritante tendência para se chocarem com os factos.

Um extenso trabalho de investigação do jornalista Marco Alves publicado na revista Sábado (n.º 1160, de 22 a 28 de julho de 2026) veio reunir um conjunto impressionante de informações sobre a situação patrimonial do antigo presidente do Conselho. E aquilo que emerge não é a figura de um milionário extravagante nem a de um cleptocrata à escala de outros ditadores europeus. Mas também não é a imagem do professor pobre, vestido de modéstia franciscana, que alguns continuam a apresentar.

Marco Alves já tinha, em 2023, publicado o livro Salazar Confidencial. Durante quatro décadas, António de Oliveira Salazar recebeu milhares de cartas de amigos, familiares, ministros, padres e figuras ilustres da elite do Estado Novo. Mendigavam ao presidente do Conselho favores, ajudas e cunhas para obterem um cargo, uma promoção, uma casa em Lisboa ou uma palavra de Salazar para intervir em todo o tipo de problemas, incluindo em processos judiciais e em casos de crime, violência e adultério envolvendo figuras notáveis da sociedade.

Importa recordar que essa imagem não foi construída apenas pelos admiradores que lhe sobreviveram. Foi também alimentada pelo próprio. Salazar ajudou a moldar cuidadosamente a perceção pública de uma vida austera e quase desapegada dos bens materiais. Ficou célebre a frase segundo a qual devia “à Providência a graça de ser pobre”. Décadas depois, essa frase permanece viva na memória coletiva e continua a funcionar como uma espécie de certificado moral póstumo.

A verdade, porém, como tantas vezes acontece, é mais incómoda.

Salazar cultivou durante toda a vida uma imagem de austeridade. Essa imagem tinha fundamento. Gostava pouco de ostentação, não se deixou seduzir pelo luxo exuberante e manteve hábitos relativamente sóbrios. Contudo, austeridade não é sinónimo de pobreza. Uma pessoa pode ser frugal sem ser pobre. E uma pessoa pode viver de forma simples sem deixar de acumular património.

Quando morreu, em 1970, Salazar possuía contas bancárias, propriedades rurais, terrenos, casas, objetos de prata, ouro, livros, manuscritos, coleções e diversos bens cujo valor, atualizado para os dias de hoje, atingiria montantes muito significativos. Só os depósitos bancários conhecidos correspondiam a cerca de 113 mil euros em valores atuais. A isso somavam-se casas, quintas, vinhas, olivais, pinhais e terrenos cujo valor acumulado, nos preços do mercado contemporâneo, atingiria facilmente valores de vários milhões de euros.

Nada disto faz dele um magnata. Mas também não permite continuar a repetir, sem qualificação, que "morreu pobre".

Aliás, a reportagem desmonta um dos aspetos mais curiosos da narrativa salazarista. O homem que passava a vida a falar de contenção financeira era simultaneamente proprietário de um património rural bastante respeitável. Herdou parte dele, adquiriu outra parte e valorizou alguns desses bens ao longo do tempo. Isso não constitui qualquer crime. O problema surge quando essa realidade desaparece da história e é substituída por uma imagem quase monástica.

Há ainda outro equívoco recorrente.

Os admiradores de Salazar costumam estabelecer uma comparação implícita entre o chefe do Estado Novo e alguns governantes contemporâneos. A mensagem é simples: os políticos de hoje entram pobres e saem ricos; Salazar entrou pobre e saiu pobre.

A primeira parte da frase pode ser objeto de discussão. A segunda torna-se mais difícil de sustentar.

Segundo os elementos revelados pela investigação, o antigo governante acumulou poupanças ao longo da vida, possuía património imobiliário e conservava um espólio de valor considerável. Não estamos perante alguém dependente da caridade alheia ou reduzido à indigência. Estamos perante um homem que viveu confortavelmente durante décadas e que morreu com uma situação financeira sólida.

Há ainda um dado curioso que raramente aparece nestas discussões. Atualizado para valores de hoje, o salário de Salazar como presidente do Conselho rondaria os 8.450 euros brutos mensais, valor que não difere dramaticamente daquele que aufere um primeiro-ministro contemporâneo. À primeira vista, isto parece reforçar a narrativa da modéstia. Mas só à primeira vista. É que Salazar passou cerca de 31 anos instalado no Palacete de São Bento sem suportar uma despesa que pesa fortemente no orçamento de qualquer cidadão comum: a habitação. A comparação só é justa quando se compara o pacote completo.

A questão torna-se ainda mais interessante quando se observa a fronteira entre o dinheiro privado e os recursos públicos.

Não surgem provas de enriquecimento ilícito no sentido clássico do termo. Mas aparecem numerosos exemplos de uma realidade típica dos regimes longos: a progressiva confusão entre o Estado e o governante.

Funcionários públicos trataram de assuntos privados relacionados com propriedades suas. Membros do Governo ocuparam-se de questões pessoais. Houve intervenções administrativas relativas a casas, terrenos, obras, jardins, abastecimento de água e diversos problemas da sua esfera particular. Tudo isto era frequentemente encarado com naturalidade.

E porquê?

Porque as ditaduras tendem a produzir esse efeito. Ao fim de décadas, deixa de ser evidente onde acaba o poder do Estado e onde começa a vida privada de quem governa. O aparelho público passa gradualmente a funcionar como extensão do governante.

Nem sequer é necessário existir corrupção para que essa promiscuidade aconteça.

O mesmo se verifica nos últimos anos da sua vida. Após a queda da cadeira que o afastou do poder, o Estado suportou despesas significativas relacionadas com os seus cuidados médicos e com a sua situação pessoal. Segundo os elementos reunidos pela investigação, os encargos associados ao tratamento prolongado de Salazar ascenderiam, a valores atuais, a cerca de 1,9 milhões de euros. Além disso, foi-lhe atribuído um vencimento vitalício após deixar o exercício efetivo das funções governativas.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Drab Majesty - Cold Souls

Melhor som aqui
Letra
When you walked away at dawn
I heard your song
And now it's on my mind
Made a design on the right side of my heart
It may be wrong
But it wasn't black or white

[refrão]
Wondering when I look at your life if I caught you dead and numb
If you were only just a dreamer
If we were all night

When you were dead I took you by your head
When you were dead I took you by your head

What a wasted ode to hope
My heart is on the line
Staring at the time
And I gazed amazed
While a quiet storm was born inside your eyes
All dressed in black and white

[refrão]

When you were dead I took you by your head (4X)

Ambiguidade emocional e luto em "Cold Souls" de Drab Majesty
O projeto musical Drab Majesty, oriundo de Los Angeles, Califórnia, destaca-se no cenário alternativo contemporâneo por sua fusão singular de sonoridade vintage e profunda carga conceitual. Idealizado pelo multi-instrumentista Andrew Clinco sob o alter ego andrógino Deb Demure, o projeto conta também com a colaboração do teclista e vocalista Mona D (Alex Nicolaou). A sonoridade do grupo, frequentemente autodenominada como "Tragic Wave", navega pelas vertentes do darkwave, post-punk, synth-pop e shoegaze, caracterizando-se por guitarras arpejadas repletas de chorus e delay, sintetizadores analógicos, ritmos marcados por drum machines e camadas densas e atmosféricas que remetem à estética de gravadoras emblemáticas dos anos 80, como a 4AD.

O conceito do Drab Majesty ultrapassa a dimensão puramente musical, amparando-se em uma complexa teia de influências filosóficas, literárias e esotéricas. Deb Demure adota uma postura de anulação do ego, posicionando-se não como um frontman tradicional, mas como um vaso ou canal transceptor responsável por captar frequências do universo. O visual andrógino, marcado por perucas platinadas, rostos pintados de branco e óculos escuros, busca transcender marcadores tradicionais de género, raça e individualidade. As suas composições dialogam com o hermetismo, o misticismo ocidental, a mitologia clássica - como o mito de Narciso - e a fenomenologia da ufologia e de cultos neocosmológicos dos anos 70 e 80.

A faixa "Cold Souls", integrante do aclamado álbum The Demonstration (2017), exemplifica essa proposta ao explorar temáticas de alienação, desapego material e paralisia emocional. Inspirado pela narrativa de movimentos como o culto Heaven's Gate e Unarius Academy of Science , o álbum e a canção abordam o corpo humano como uma mera "casca terrena", da qual a alma precisa se libertar em busca de transcendência e purgação espiritual. 

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This is what Drab Majesty would play at their funeral
Q&A: Deb DeMure & Mona D (Drab Majesty) Dispelled & Unmasked
"Too Soon To Tell" if Drab Majesty will be gig of the year

Reno, Danúbio, Elba, Loire. Alguns dos maiores rios da Europa vão secar este verão


Uma vaga de calor prolongada e a ausência persistente de precipitação na Europa estão a deixar os principais cursos de água do continente a níveis criticamente baixos. Rios vitais como o Reno, o Danúbio, o Elba e o Loire estão a registar reduções drásticas no seu caudal, ameaçando a navegação comercial, a geração de energia hidroelétrica e nuclear, a agricultura e os ecossistemas aquáticos.

O Danúbio, o segundo maior rio da Europa depois do Volga, caiu para o nível mais baixo dos últimos 30 anos na Roménia, onde desagua no Mar Negro, segundo a agência governamental Romanian Waters.
De acordo com a agência, o caudal do Danúbio em Baziaș, onde o rio entra no país, desceu para cerca de 1.700 m³ por segundo, pouco mais de um terço da média de julho, que ronda 4.700 m³ por segundo.

A seca deixou longos trechos de areia exposta nas margens junto à fronteira com a Bulgária, com vários serviços de ferry suspensos e barcaças de transporte de cereais paradas, reportou a Reuters. A agência acrescentou que a situação deverá melhorar a partir de 20 de julho, quando se previa chuva em vários condados.

Do outro lado do continente, o outro grande rio europeu, o Reno, também foi afetado pela onda de calor e pela seca. A imprensa europeia notou que o nível da água no ponto crítico de medição em Kaub desceu recentemente para 80–90 centímetros.

O Reno é uma rota de transporte essencial para mercadorias como cereais, minerais, minérios, carvão e produtos petrolíferos, incluindo gasolina. Os baixos níveis do rio têm afetado a navegação, obrigando os navios de carga a navegar parcialmente carregados, o que aumenta significativamente os custos de transporte nos centros industriais europeus.

A Reuters noticiou recentemente que o rio deverá subir ligeiramente após chuvas inesperadas no sul da Alemanha, permitindo que os navios transportem cargas maiores.

Em França, o Loire, com 625 milhas (cerca de 1.005 km), ficou recentemente reduzido a um leito seco com poças isoladas após semanas de calor intenso em Montjean-sur-Loire, segundo relatos da imprensa. O Doubs também secou, evidenciando o agravamento das condições de seca.

Impactos Socioeconómicos e perspetivas
A diminuição dos caudais dos rios afeta não só o comércio e as redes de logística industrial, mas agrava também a crise energética no continente. A escassez de água fria limita a capacidade de refrigeração das centrais nucleares e térmicas, enquanto as albufeiras hidroelétricas operam com reservas mínimas.

Segundo as projeções da Agência Europeia do Ambiente e do Observatório Europeu da Seca, a frequência e a intensidade destes eventos extremos tendem a aumentar devido às alterações climáticas, exigindo reformas urgentes na gestão sustentável dos recursos hídricos na Europa.

Quando uma morte pode ser evitada, ela deixa de ser um acidente e torna-se um fracasso coletivo


Por Julian Fernandez Quilez
Quando uma morte pode ser evitada, ela deixa de ser um acidente e torna-se um fracasso coletivo.
Há notícias que magoam especialmente, e esta, sem dúvida, é uma delas.
Como amante da natureza e fotógrafa que dedicou inúmeras horas a observar, documentar e admirar a fauna da nossa região, esta notícia me entristeceu profundamente. Meu coração se desolou ao saber que Urze, uma ibex feminina que representava a esperança de recuperação da espécie em nossa região, perdeu a vida junto com os seus dois filhotes em um barco de irrigação coberto de plástico na área de Isso.
Não posso evitar sentir uma imensa impotência. Não porque foi um evento imprevisível, mas precisamente porque foi uma tragédia que poderia ter sido evitada.
Urze chegou à área de Isso dois anos atrás equipada com um colar de rastreamento. Ela mal começou a sua nova vida quando perdeu o seu companheiro, Libre, um macho que morreu após ser atropelado na estrada perto do território onde ambos se haviam instalado. Apesar desse duro golpe, Urze avançou e conseguiu salvar a ninhada que estava no seu útero quando chegou à nossa região. Ela era um símbolo de esperança, prova de que o ibex estava lentamente voltando ao seu lugar, onde nunca deveria ter sido perdido.
A coisa mais triste é que essa tragédia foi totalmente evitável.
Barcos cobertos de plástico são verdadeiras armadilhas mortais. Suas superfícies lisas impedem qualquer possibilidade de escapar. Não são apenas lince, também mares, jardineiros, cervos, raposas, gatos, lagartos monitor, répteis, anfíbios e até mesmo pássaros de prédio que desempenham uma atividade de caça e que caem para beber ou tentam capturar alguma prática que está presa na água.
Não estamos a falar de um novo problema. Há anos, Castellana, a primeira lince feminina a chegar à área de Albatana, foi casada com um macho chamado Lucero. Ele também acabou se afogando em outro barco de plástico. Hoje, a história se repete.
Quantos outros animais têm de morrer antes de tomar medidas?
Não é suficiente lamentar quando uma desastre ocorre. É necessário prevenir. Existem soluções simples, econômicas e eficazes que já estão a ser usadas em muitos lugares e devem ser obrigatórias em todas as barcas de irrigação:
  1. Instale rampas de escape que permitam a qualquer animal que caia na água sair.
  2. Coloque redes ou redes de resgate nas laterais.
  3. Incorporar plataformas ou cordas flutuantes que servem como refúgio temporário até que o animal possa sair da barca.
  4. Instalar escadas e escapatórias flutuantes em cortiça 
  5. Adaptar todas as lagoas existentes e exigir que as novas se incorporem a esses sistemas desde a construção.
O custo dessas medidas é insignificante em comparação com a valorização de uma vida, e ainda mais quando estamos a falar sobre uma espécie cuja recuperação exigiu décadas de trabalho e um enorme investimento económico e humano.

Mas os barcos não são a única ameaça que continua a tirar vidas.
As estradas que cruzam ou fronteiram as áreas onde o lince vive continuam a ser um dos seus maiores inimigos. O companheiro do Urze morreu logo após se estabelecer na área. Dois anos depois, Urze e os seus filhotes morreram num barco. Duas tragédias diferentes com o mesmo comum denominador: ambas poderiam ter sido evitadas.
Portanto, além de adaptar barcos de plástico, é essencial agir nas estradas que cruzam os territórios desta espécie: 
  1. É necessário implementar reduções de velocidade nos pontos mais conflitivos
  2. Colocar sinalética animal
  3. Instalar radares, melhorar a identificação específica para a fauna 
  4. Construir cruzeiros de fauna com cercas que lhes permitam ir para onde for necessário. 
Não podemos continuar a esperar por cada nova morte para nos lembrar do que já sabemos.
A recuperação do lince da Ibéria exigiu décadas de esforço, milhares de horas de trabalho e milhões de euros em investimento público. Seria uma grande contradição voltar a eles para que possam continuar a morrer de ameaças que conhecemos perfeitamente e que têm uma solução. A conservação não termina quando um lince é libertado; começa no mesmo momento. Devemos garantir que possa viver e criar seus filhotes num ambiente seguro.
Também quero fazer uma reconhecimento muito especial aos Agentes Ambientais, cuja dedicação diária é essencial para o monitoramento, proteção e conservação do lince ibério. Graças ao seu trabalho, a recuperação desta espécie foi possível e continua a progredir. Mas nem mesmo o melhor trabalho de campo pode impedir mortes que dependem exclusivamente de nós colocarmos soluções onde sabemos que há um problema.

Este artigo não pretende procurar culpados, mas sim despertar consciências. É um apelo às administrações, às comunidades de caçadores, aos proprietários de barcos e a todos os órgãos competentes para agir agora. Porque conservar uma espécie não é apenas sobre reprodução e liberação; é sobre eliminar as ameaças que continuam a acabar com a vida dela.

Não pedimos o impossível. Pedimos a força de vontade. Instalar uma rampa de escape num barco, colocar uma rede, um cortejo flutuante ou reduzir a velocidade em uma trilha perigosa é muito pouco. O que é inestimável é a vida de uma espécie que temos tanto esforço para recuperar.

Escrevo estas palavras com grande tristeza, mas também com a esperança de que servirão para mudar as coisas. Espero que a morte de Urze, dos seus dois filhotes, do Libre, do Lucero e de tantos outros não seja apenas mais uma história de notícias, mas o impulso definitivo para tomar medidas reais e eficazes.
Que esta seja a última vez que tenhamos que chorar pela morte de um lince por razões que estavam nas nossas mãos para evitar. O lince ibércio merece algo melhor. A nossa natureza também. Por favor, partilhem isto, isso tem de mudar.

Aves associadas aos meios agrícolas em declínio há duas décadas

Tão fofos, o chapim-carvoeiro!
O chapim-carvoeiro (Periparus ater) é absolutamente adorável com aquela "cabeça grande", as bochechas brancas e a mancha branca bem destacada na nuca!
Eles são super pequeninos, cheios de energia e encantadores de observar. Sabiam que são dos poucos chapins que adoram florestas de coníferas (como pinhais) e têm o hábito extraordinário de esconder sementes nas cascas das árvores para comer mais tarde no inverno? Além desta incrível capacidade de armazenar alimento nas ranhuras da casca para os dias mais frios, estas aves são famosas em Portugal por serem grandes aliadas no controlo biológico de pragas como a lagarta-do-pinheiro nos nossos pinhais.
Preservemos o nosso campo e floresta. Hoje foi publicado o relatório do censos da SPEA - Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves. E as notícias não são optimistas.

Relativo ao período 2004-2025, o relatório ontem divulgado, com dados dos censos do continente, Madeira e Açores, também identifica “tendências preocupantes” em espécies como a laverca, a andorinha-das-chaminés, o cuco ou o picanço-barreteiro.

As aves nos meios florestais e urbanos têm uma evolução positiva, mas as associadas aos meios agrícolas estão em declínio desde 2004, indica um relatório divulgado hoje pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA).

Relativo ao período 2004-2025, o relatório ontem divulgado, com dados dos censos do continente, Madeira e Açores, também identifica “tendências preocupantes” em espécies como a laverca, a andorinha-das-chaminés, o cuco ou o picanço-barreteiro.

O relatório do censo das aves (SPEA/BirdLife) combinou as tendências populacionais de várias espécies representativas de cada habitat e deixou “um alerta claro”, o do que “a biodiversidade dos meios agrícolas continua sob forte pressão”, diz no comunicado Hany Alonso, coordenador nacional do Censo de Aves Comuns e técnico superior de ciência da SPEA.

“A evolução positiva dos indicadores florestal e urbano é um bom sinal, mas não compensa a perda de biodiversidade nos meios agrícolas e os declínios de espécies como a laverca, a andorinha-das-chaminés ou o cuco”, acrescentou.

Nos meios agrícolas, 10 das 23 espécies avaliadas regularmente apresentam um declínio moderado no período (2004-2025), entre elas a andorinha-das-chaminés, o mocho-galego e o abelharuco, a par de espécies como o peneireiro, o cartaxo e o pardal.

Nos meios florestais, cinco das 20 espécies analisadas estão em declínio moderado: o picanço-barreteiro, o cuco, a rola-brava, a cotovia-dos-bosques e o chapim-real.

Segundo o censo, a laverca e a águia-caçadeira apresentam declínios acentuados, e a perdiz-comum, o chasco-ruivo e o rouxinol-grande-dos-caniços mostram tendências negativas.

Outras espécies como a felosa-poliglota, o peneireiro-cinzento e a alvéola-cinzenta apresentam declínios moderados.

Os resultados mostram, segundo a SPEA/BirdLife, que o declínio das aves é transversal a diferentes ecossistemas e a diferentes grupos funcionais (insetívoras, granívoras, carnívoras), mas que é nos meios agrícolas que o declínio é mais expressivo, afetando tanto espécies residentes como migradoras.

Os autores do trabalho salientam que houve recentemente maior participação nos censos, o que reforça o conhecimento sobre as aves

Nos Açores o censo abrangeu as nove ilhas. Foram calculadas tendências para 17 espécies, com destaque para o aumento acentuado da rola-turca e para as tendências negativas da toutinegra-dos-Açores e do milhafre.

Para a Madeira, não se estimaram tendências. As espécies mais abundantes dos últimos censos são o canário-da-terra, o melro-preto e a toutinegra.

Leia mais:

terça-feira, 21 de julho de 2026

The Smashing Pumpkins - Stand Inside Your Love

Melhor som aqui

Letra
You and me
Meant to be
Immutable
Impossible
It's destiny
Pure lunacy
Incalculable
Insufferable (Inseparable)

But for the last time
You're everything that I want and asked for
You're all that i dream

Who wouldn't be the one you love
Who wouldn't stand inside Your love?
Protected and the lover of

A pure soul
And beautiful
You
Don't understand
Don't fear (feel) me now
I will breathe for the both of us
Travel the world
Traverse the skies
Your home is here
Within my heart

And for the first time
I feel as though i am reborn in my mind
Recast as child and mystic sage

Who wouldn't be the one you love?
Who wouldn't stand inside our love?

And for the first time
I'm telling you how much i need and bleed for
Your every move and waking sound in my time
I'll wrap my wire around your heart
and your mind
You're mine forever now

Who wouldn't be the one you love and live for?
Who wouldn't stand inside your love and die for?
Who wouldn't be the one you love?

Simbolismo, estética Gótica e shoegaze sinfónico na obra-prima dos The Smashing Pumpkins
Lançada no ano 2000 como o segundo single do álbum Machina/The Machines of God, "Stand Inside Your Love" é uma das composições mais marcantes da banda de rock alternativo The Smashing Pumpkins, fundada em Chicago, nos Estados Unidos da América. 
Do ponto de vista estético e sonoro, a canção insere-se no rock alternativo com uma forte matriz de rock gótico, shoegaze e dream pop, caraterizada por camadas densas de guitarras distorcidas mas melodiosas, um ritmo cavalgante de bateria e arranjos de grande amplitude dramática que roçam o rock sinfónico.
Liricamente, a canção representa um momento singular na obra do vocalista e compositor Billy Corgan. Concebida como uma declaração de afeto à sua namorada da altura, a fotógrafa e artista ucraniana Yelena Yemchuk, a faixa foi descrita pelo próprio Corgan como a sua tentativa de escrever "a canção de amor definitiva". Afastando-se do cinismo, da angústia e da alienação habitual no rock dos anos 90, o significado do tema centra-se na devoção romanticamente absoluta, na vulnerabilidade e no amor enquanto refúgio e força redentora. 
O ato de "estar dentro do amor de alguém" simboliza a rendição total do ego a uma união espiritual mais elevada, onde a entrega emocional não é vista como uma fraqueza, mas sim como um escudo contra a decadência do mundo exterior.
O videoclipe da canção, realizado pelo cineasta britânico W.I.Z., amplia esta carga dramática ao transpor a narrativa para uma estética teatral expressionista e decadentista em preto e branco. Protagonizado por Billy Corgan e Yelena Yemchuk, o teledisco é uma reinterpretação visual da tragédia literária Salomé (1891), do escritor irlandês Oscar Wilde. No teledisco, Corgan assume uma figura trágica e devota, enquanto Yemchuk encarna a figura enigmática e hipnotizante de Salomé, criando uma atmosfera gótica de desejo, paixão e fatalismo onde a beleza e a tragédia coexistem.
As influências literárias e filosóficas da obra assentam profundamente no Esteticismo e no Decadentismo do final do século XIX, refletindo a obra de Wilde e as célebres ilustrações a tinta da China de Aubrey Beardsley. A canção e o vídeo bebem também do Romantismo do século XIX, explorando a filosofia do sublime e o conceito do amor trágico e devocional (l'amour fou), no qual a união amorosa é encarada como uma experiência mística quase sacra. Ao fundir a espiritualidade alquímica do conceito do álbum Machina com o drama existencialista da finitude humana, "Stand Inside Your Love" estabelece um diálogo permanente entre o desejo de imortalidade do espírito através do afeto e a fragilidade inevitável da condição humana.

Do ADN às 2.100 Línguas: o que a genética e o Ethnologue revelam sobre África


Se a África decidisse desenhar as suas fronteiras com base nas identidades reais do seu povo - como a Europa fez ao longo de séculos -, o resultado seria um mapa com milhares de países. Só a África sozinha teria mais Estados soberanos do que todos os países do mundo atual juntos. [mapa interactivo: aqui]

E isto não é um exagero poético. Trata-se de uma realidade confirmada tanto pelos linguistas como pelos geneticistas.

Enquanto a base de dados do Ethnologue regista mais de 2.100 línguas vivas no continente, a genética da população humana diz-nos algo ainda mais fascinante: a África alberga a maior diversidade de ADN de todo o planeta. Como o Homo sapiens surgiu lá e ali permaneceu durante centenas de milhares de anos antes de pequenos grupos migrarem para o resto do mundo, a variação genética acumulada entre duas comunidades africanas vizinhas pode ser muito maior do que a diferença entre um europeu e um asiático.

Quando cruzamos a história das línguas com a história do ADN, este mosaico humano organiza-se em cinco grandes grupos:

1. Níger-Congo
É o maior gigante demográfico e linguístico do continente, reunindo cerca de 1.650 grupos. Inclui as grandes populações da África Ocidental — como os Yorubá, Igbo, Akan e Fulas — e toda a família de povos Bantu (como os Zulus, Xhosas e Kikuyus). O seu ADN reflete a maior expansão agrícola e demográfica da história africana, que se espalhou do oeste para todo o centro e sul do continente ao longo dos últimos três milénios.

2. Afro-Asiática
Ocupando o Sahara, o Norte de África e o Chifre da África, este grupo (que junta Bérberes, Hausas, Amharas e Somalis) soma entre 200 e 300 etnias. Os seus genes e idiomas contam a história de pontes milenares e trocas constantes entre o continente africano e o Médio Oriente.

3. Nilo-Saariana
Distribuídos ao longo do Vale do Nilo e da faixa do Sahel, povos como os Dinka, Maasai e Nuer mantêm linhagens genéticas profundamente antigas. São populações históricas de pastores e guerreiros adaptados aos ecossistemas de savana, com características físicas e linguísticas muito próprias.

4. Khoisan
Os povos San (os chamados Bosquímanos) e Nama do sul da África representam um dos capítulos mais antigos do ser humano. Famosos pelas suas línguas compostas por sons de "cliques", o seu ADN revela um ramo que se separou do tronco principal da humanidade há mais de 100.000 anos. São, literalmente, uma janela viva para a história genética mais remota da nossa espécie.

5. Austronésia
Localizado exclusivamente na ilha de Madagáscar, o povo Malgaxe é um caso fascinante. Embora a ilha faça parte da geografia africana, a sua população nasceu de uma fusão extraordinária: navegadores vindos do Sudeste Asiático há 1.500 anos cruzaram-se com as populações Bantu vindas do continente.

No fundo, os mapas políticos que estudamos na escola apenas cobrem a superfície. Por trás de linhas desenhadas à régua em conferências coloniais no século XIX, a África continua a ser o maior reservatório de diversidade biológica e cultural que a humanidade tem para oferecer.

Fonte

Os rostos por trás do mapeamento humano e linguístico de África
A compreensão do mosaico humano africano resultou do trabalho complementar de antropólogos, linguistas e geneticistas de renome ao longo do último século. No campo da antropologia e da cartografia étnica, um dos primeiros grandes marcos foi estabelecido pelo antropólogo norte-americano George Murdock que, na sua obra de 1959, Africa: Its Peoples and Their Culture History, delineou e catalogou territorialmente mais de 800 regiões étnicas no continente. Esta base histórica de Murdock abriu caminho para iniciativas de catalogação sistemática como o compêndio Ethnologue, impulsionado inicialmente por Richard S. Pittman na década de 1950 e posteriormente expandido por Barbara Grimes, transformando-se na maior referência científica mundial para a identificação e classificação de mais de 2.100 línguas vivas africanas.

Paralelamente ao desenvolvimento das bases de dados, a organização estrutural deste vasto universo de idiomas deve-se ao trabalho do linguista Joseph Greenberg. A sua obra seminal de 1966, The Languages of Africa, revolucionou a linguística ao classificar a totalidade dos idiomas do continente nas quatro grandes macrofamílias tradicionais: Níger-Congo, Afro-Asiática, Nilo-Saariana e Khoisan. A rigorosa taxonomia desenvolvida por Greenberg permitiu aos cientistas rastrear não apenas a evolução dos idiomas, mas também os padrões de expansão e migração dos povos ao longo dos milénios.

Três dezenas de países oferecem agora uma maior liberdade de circulação aos seus cidadãos do que os Estados Unidos


Como já tinha referido aqui, novo estudo mostra que há um declínio do passaporte Norte-Americano, devido à falta de reciprocidade. A perda de posição dos EUA é impulsionada pela falta de abertura do próprio país. Enquanto os americanos viajam sem visto para 180 destinos, os EUA só permitem a entrada sem visto para 46 nacionalidades (ficando em 73º lugar no índice de abertura). Essa rigidez faz com que outros países - como a China - continuem a exigir visto dos cidadãos americanos. Além disso este estudo concluí que os EUA ultrapassaram a China e tornaram-se o maior mercado mundial de pessoas à procura de dupla/tripla cidadania ou residência noutros países. 61% dos americanos com rendimento anual superior a US$ 200.000 consideram mudar-se de país nos próximos 5 anos. O conceito de «riqueza» entre famílias de elevado poder de compra mudou: já não se resume ao capital financeiro, mas sim à liberdade geopolítica de escolher onde viver, trabalhar e investir.

Key Facts
  1. Americans can travel visa-free to 180 countries around the world - putting the U.S. at No. 10 in the Henley Passport Index, on par with Iceland.
  2. Since multiple countries can be tied in the rankings, the U.S. sits behind 36 other countries that offer greater visa-free mobility.
  3. Singapore, at No. 1, offers visa-free access to 12 more countries than America.
  4. In 2006, the U.S. jointly held the No. 1 position along with Finland and Denmark, with each country able to access 130 destinations without a visa.
  5. By 2016, the U.S. blue book had slid to No. 4; by 2021, it had fallen to No. 7.

What Makes Some Passports More Powerful Than Others?
The Henley Passport Index monitors the number of destinations that can be visited visa-free or visa-on-demand. Global freedom of movement is a key measure of soft power for citizens when they travel abroad. Citizens of Singapore- the No. 1 passport in the ranking - enjoy access to 192 travel destinations out of 227 around the world visa-free. In a three-way tie for the No. 2 spot, South Korea, Japan and the United Arab Emirates each provides access to 188 destinations without a visa. The U.S. passport comes in just behind Lithuania and Liechtenstein in the ranking.

Why Has The U.S. Passport Lost Power Over The Past Two Decades?
The United States’ ranking on the Henley index is also suppressed by the country’s lack of reciprocity. While American passport holders can access 180 out of 227 destinations visa-free, the U.S. itself allows only 46 other nationalities to enter visa-free, putting it in 73rd place on the Henley Openness Index, where it barely outpaces Uganda. The lack of openness cuts both ways, and the United States “is now one of the few top-ranked passports whose citizens still require a visa to visit China,” the report notes.

Affluent Americans Want Second And Third Passports
For many global investment migration and citizenship planning consulting firms, the largest source market is rich Americans who not only want to travel but to potentially live elsewhere. Henley & Partners’ client data suggests geopolitical trends are increasingly shaping the decision-making of wealthy families seeking “Plan B” contingencies. Henley reported inquiries from U.S. nationals seeking alternative residence or citizenship increased 183% year-over-year in the first quarter of 2025, after President Trump was elected to a second term. Other prominent investment migration advisory firms see the same trend. The U.S. has replaced China as the largest market for clients seeking secondary or tertiary citizenships, Eric Major, CEO and chairman of Latitude World, told Forbes in May. More than six in 10 Americans (61%) earning over $200,000 annually are considering moving to another country within five years, according to a study released last month from Apex Capital Partners, another advisory firm that helps people secure foreign residency and citizenship. Just as there has been a shift in how nations prioritize freedom of movement, “we are witnessing the same shift in how families think about their future,” Dr. Christian Kaelin, chairman of Henley & Partners and creator of the Henley Passport Index, said. “True wealth is no longer defined solely by financial capital, but by the freedom to choose where they and future generations can live, work, study, invest and belong.”

The World’s Top 10 Most Powerful Passports (According To Visa-Free Access)
Singapore (192)
Japan, South Korea, United Arab Emirates (188)
Sweden (187)
Belgium, Denmark, Finland, France, Germany, Ireland, Italy, Luxembourg, Netherlands, Norway, Spain (186)
Austria, Greece, Malta, Portugal, Switzerland (185)
Hungary, Poland, United Kingdom (184)
Australia, Canada, Czechia, Latvia, Malaysia, New Zealand, Slovakia, Slovenia (183)
Croatia, Estonia (182)
Liechtenstein, Lithuania (181)
Iceland, United States (180)

Further Reading

Dave Eggers - "O ChatGPT está a silenciar uma geração inteira"


O CEO da OpenAI, Sam Altman, convidou o escritor e jornalista norte-americano, Dave Eggers, a falar perante os funcionários da empresa e, fiel ao que tem sido o seu percurso, o autor não perdeu a oportunidade para tecer duras críticas à Intenligência Artificial enquanto tecnologia.

Eggers, conhecido sobretudo pelo romance “The Circle” de 2013 onde faz críticas à indústria tecnologia, declarou que os textos gerados pelo ChatGPT, o resultado é uma “colagem sem sentido” - argumentando que ninguém terá interesse em ler livros criados com Inteligência Artificial.

Contou Eggers ao Financial Times que estas críticas levaram Altman a convidá-lo para uma pequena palestra na OpenAI, uma oportunidade que aproveitou para afirmar que a Inteligência Artificial seria devastadora para toda uma geração de jovens.

“O efeito que o ChatGPT está a ter na vida dos educadores é catastrófico”, declarou Eggers. “Intencional ou não, tornaram a vida de todos os professores infinitamente mais difícil do que era há dois anos. Pensem nisso.Se os estudantes estão a usar [o ChatGPT] para escreverem, que é uma grande tragédia, nunca aprenderão a escrever. E a voz ser-lhes-á roubada. Nunca terão a capacidade para comunicarem as suas verdades e contarem as suas próprias histórias. E isso é silenciar uma ou duas gerações inteiras”.

A afirmação de Eggers deve ser classificada como um aviso preventivo contra a dependência cognitiva.

Ele não está necessariamente a prever o fim da civilização, mas sim a questionar se estamos dispostos a trocar a dificuldade (e a beleza) do pensamento humano pela conveniência (e esterilidade) da resposta algorítmica. É uma crítica que serve de "freio" necessário num momento de euforia tecnológica desmedida, lembrando-nos de que a tecnologia, se mal utilizada, pode tornar-nos espectadores, em vez de criadores.

Para além de Dave Eggers, o debate contemporâneo sobre os impactos profundos da Inteligência Artificial conta com vozes influentes que abordam o tema sob prismas filosóficos, sociais e científicos. O historiador Yuval Noah Harari, por exemplo, foca-se no perigo existencial da perda de agência cultural, argumentando que a IA é a primeira tecnologia da história capaz de criar conceitos, narrativas e arte de forma totalmente autónoma. Para Harari, ao dominar a linguagem, a tecnologia adquire a capacidade de "hackear" o sistema operativo da própria civilização, o que pode resultar na manipulação em massa e no colapso da confiança nas instituições democráticas. Numa linha de pensamento focada na natureza da mente e do conhecimento, o linguista Noam Chomsky adota uma postura cética quanto à suposta inteligência destes sistemas, classificando a IA generativa como uma forma de plágio de alta tecnologia. Chomsky defende que os modelos de linguagem funcionam apenas com base em correlações estatísticas e probabilidades, carecendo de uma compreensão real sobre a moralidade, a verdade ou as relações de causa e efeito, o que os afasta irremediavelmente da verdadeira capacidade de pensamento crítico e criatividade do ser humano.

Noutro espectro da crítica encontram-se os cientistas que ajudaram a construir as bases desta revolução tecnológica e que hoje manifestam profundos arrependimentos. Geoffrey Hinton, frequentemente apelidado de um dos padrinhos da IA devido ao seu trabalho pioneiro em redes neuronais, demitiu-se do seu cargo na Google para poder alertar o mundo livremente sobre os riscos iminentes da tecnologia. Hinton manifesta um temor genuíno de que a inteligência digital ultrapasse a biológica muito mais cedo do que a comunidade científica previa, criando cenários propícios para a disseminação descontrolada de desinformação e para o desenvolvimento de armas autónomas letais. Alinhado no ceticismo tecnológico, o pioneiro da realidade virtual Jaron Lanier critica a própria designação de Inteligência Artificial, considerando-a um mito comercial perigoso que mascara a realidade. Para Lanier, estes sistemas são, na verdade, ferramentas de colaboração social massiva que extraem e reconfiguram o trabalho de milhões de criadores humanos reais, alertando que a humanização das máquinas resulta inevitavelmente na desvalorização do esforço e da singularidade das pessoas.

Por fim, as correntes focadas na justiça social e na ética prática expõem os danos imediatos e palpáveis que a IA já está a causar no quotidiano. A investigadora Timnit Gebru, antiga líder da equipa de ética da Google, cunhou o termo papagaios estocásticos para descrever os grandes modelos de linguagem, demonstrando que estes sistemas se limitam a repetir padrões linguísticos de forma mecânica e sem consciência. Gebru e os seus pares alertam para o facto de estes modelos refletirem, amplificarem e perpetuarem os preconceitos raciais, de género e de classe já presentes nos dados históricos da internet, servindo os interesses financeiros de grandes monopólios tecnológicos enquanto prejudicam as populações marginalizadas. Assim, quer seja através do medo da obsolescência cognitiva partilhado por Eggers e Chomsky, do alarmismo existencial de Hinton e Harari, ou da denúncia política de Gebru e Lanier, o pensamento crítico atual converge na ideia de que a IA exige uma regulação urgente e uma reflexão profunda sobre os limites que a humanidade deve impor às suas próprias criações.

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