domingo, 26 de julho de 2026

Porque é que a Inteligência Artificial consome tanta energia e água?


Toda a pergunta feita a um chatbot - até um simples "bom dia"- passa por servidores que consomem eletricidade. Na maioria dos casos, essa infraestrutura também usa água para arrefecimento, o que torna esse consumo hídrico um dos principais pontos de tensão sobre a sustentabilidade da IA.

De acordo com o relatório de eletricidade da Agência Internacional de Energia (IEA), os centros de dados consumiram cerca de 415 terawatt-hora (TWh) em 2024, perto de 1,5% de toda a eletricidade do planeta, com previsão de duplicar até 2030.

Mas o que mais preocupa é que boa parte dos centros de dados já opera em regiões com stresse hídrico, aumentando a pressão sobre um recurso escasso e mal distribuído.

Vejamos a seguir por que razão os modelos de IA consomem tanta energia e água, como funcionam os centros de dados por trás desta tecnologia e quais as soluções que as empresas testam para reduzir este impacto.

Por que razão a inteligência artificial consome tanta energia?
O principal motivo do consumo elevado é o processamento paralelo em escala industrial. Treinar um modelo de linguagem exige milhares de GPUs a operar simultaneamente durante semanas, analisando volumes massivos de dados até ajustar mil milhões de parâmetros.

Mas o consumo não termina com o treino. Cada nova pergunta feita a um chatbot ativa esse modelo novamente - e são mil milhões dessas consultas por dia, sustentando uma procura contínua por eletricidade.

O funcionamento constante gera calor, que precisa de ser dissipado por sistemas de arrefecimento. É por isso que, além da energia, o consumo de água também entra na equação dos centros de dados.

Uma análise publicada pela MIT Technology Review estima que treinar o GPT-4 consumiu cerca de 50 gigawatt-hora, energia suficiente para abastecer a cidade de São Francisco durante três dias inteiros.

Mas esse gasto de treino é pontual - a fase de uso diário, chamada de inferência, responde por entre 80% e 90% de toda a capacidade computacional da IA hoje, segundo investigadores ouvidos pela publicação.

O papel das GPUs no processamento
As GPUs (unidades de processamento gráfico) - aquelas mesmas usadas para renderizar gráficos em jogos de vídeo - ganharam com a IA um novo papel. Elas conseguem realizar milhões de cálculos ao mesmo tempo, algo essencial para treinar e executar os sofisticados modelos de linguagem.

Hoje, chips avançados, como o H100 da Nvidia, são projetados especificamente para este tipo de tarefa intensiva; consomem grandes quantidades de energia e exigem sistemas robustos de refrigeração para evitar o sobreaquecimento.

Em centros de dados de grande porte, é comum encontrar mais de 10 mil GPUs a funcionar em conjunto. Quanto maior o modelo de IA, mais chips são necessários - e maior o consumo total de eletricidade.

Por que razão a IA também consome água?
Como os servidores aquecem absurdamente, boa parte dos centros de dados usa água para os arrefecer o tempo todo e evitar falhas por sobreaquecimento. Outros, porém, dependem apenas de arrefecimento a ar, sem uso de água.

O consumo acontece de três formas: diretamente, no arrefecimento dos centros de dados; indiretamente, na geração da eletricidade que os abastece; e também na fabricação dos componentes eletrónicos que sustentam a IA.

Esta escala só tende a crescer. Um levantamento divulgado pela aliança GDSA projeta que o uso global de água pela IA pode saltar de 1,1 mil milhões para 6,6 mil milhões de metros cúbicos até 2027 - mais da metade do consumo anual do Reino Unido.

Como funciona o arrefecimento dos centros de dados
Os centros de dados removem o calor dos servidores por meio de dois métodos principais:
  1. Arrefecimento a ar: usa ar condicionado industrial para direcionar o ar gelado pela frente dos computadores e recolher o ar quente pelo corredor traseiro dos equipamentos.
  2. Arrefecimento líquido: fixa placas com canais de água tratada diretamente sobre os processadores, ou mergulha os próprios servidores em tanques com óleo dielétrico (que não conduz eletricidade), enviando o fluido aquecido para torres externas, onde é arrefecido.
O uso de água para controlar a temperatura dos servidores

Uma análise do Lincoln Institute of Land Policy sobre o impacto hídrico e territorial dos data centers estima que um centro de dados de médio porte consome tanta água quanto uma pequena cidade. Já instalações de grande escala chegam a gastar até 19 milhões de litros (5 milhões de galões) por dia, segundo o centro de investigação.

No Texas, um estudo do Houston Advanced Research Center (HARC) projeta que os centros de dados da região vão consumir 399 mil milhões de galões de água em 2030, o equivalente a 1,51 mil milhões de metros cúbicos.

O que são os centros de dados e por que razão importam tanto?
Espécie de "cérebros" da internet, os centros de dados são instalações físicas que albergam computadores, servidores e sistemas de armazenamento de uma organização para guardar e processar dados.

No contexto da IA, a importância dos centros de dados explodiu com a chegada dos complexos de hiperescala (Hyperscale), que revolucionaram a infraestrutura física ao trocar processadores comuns (CPUs) por superchips (GPUs e TPUs) focados em cálculos massivos.

O sobreaquecimento sem precedentes gerado por estes superchips exigiu a troca do ar condicionado tradicional por sistemas de arrefecimento líquido direto no chip. Mas quem realmente empurra o consumo elétrico para um patamar monstruoso são os próprios chips - a ponto de empresas de tecnologia estarem a comprar e a reativar centrais nucleares dedicadas para dar conta da procura.

Neste cenário, estas estruturas gigantescas tornaram-se o epicentro de uma corrida geopolítica por infraestrutura e capacidade computacional, na qual o grande desafio é garantir respostas em tempo real e, ao mesmo tempo, conter a procura por energia.

Infraestrutura necessária para executar modelos de IA
A operação de um modelo de IA depende de uma cadeia de equipamentos interligados. Entre os principais estão:
  1. Servidores com GPUs e CPUs: processam e armazenam os dados dos modelos;
  2. Sistemas de armazenamento: guardam dados de treino e backups;
  3. Equipamentos de rede: conectam os servidores entre si e à internet;
  4. Sistemas de arrefecimento: mantêm a temperatura sob controlo e evitam falhas;
  5. Geradores e baterias de emergência: garantem funcionamento contínuo durante cortes de energia.
Quais são os impactos ambientais da IA - e o que estão as empresas a fazer?
A IA gera impactos ambientais concretos, como emissões de carbono, consumo excessivo de água e lixo eletrónico, enquanto as empresas de tecnologia testam soluções que ainda não resolvem completamente o problema.

Segundo um artigo de investigação da Penn State University, o crescimento dos centros de dados amplia as emissões de gases de efeito de estufa, uma vez que boa parte da eletricidade usada ainda vem de fontes fósseis.
As iniciativas das empresas ainda não cobrem todos os riscos potenciais e efetivos.

Principais riscos ambientais:
  1. Emissões de carbono ligadas à eletricidade de origem fóssil;
  2. Stresse hídrico em regiões que já enfrentam escassez de água;
  3. Geração de lixo eletrónico pela vida útil curta das GPUs;
  4. Uso de geradores a gasóleo como reforço energético, poluindo o ar local.
Iniciativas para reduzir o impacto:
  1. Arrefecimento por imersão ou circuito fechado, que poupa água;
  2. Contratos de energia sem emissão de carbono, como o acordo assinado pela Microsoft para reativar a central nuclear de Three Mile Island;
  3. Metas de "zero água" para arrefecimento assumidas por grandes empresas de tecnologia;
  4. Modelos de IA menores e mais eficientes, treinados para tarefas específicas.
Mesmo com os avanços, investigadores do Lincoln Institute of Land Policy afirmam que a falta de transparência das empresas dificulta medir o real impacto ambiental da IA no mundo.

O futuro da inteligência artificial será mais sustentável?
A resposta a esta pergunta ainda é um grande ponto de interrogação: as soluções em desenvolvimento podem reduzir o consumo por tarefa de IA, mas a procura por centros de dados cresce mais rápido do que qualquer refinação conseguiria compensar.

Investigadores da Penn State University sobre eficiência energética e IA apontam que, sem mudanças, os centros de dados podem responder por até 20% do consumo elétrico global entre 2030 e 2035, pressionando redes já sobrecarregadas.

A eficiência energética por watt tem melhorado a cada nova geração de chips, reduzindo a energia gasta em cada cálculo - mas não ao ritmo necessário para compensar o crescimento da procura. Modelos de IA menores, treinados para tarefas específicas, também ajudam a evitar o desperdício de capacidade.

Para tornar o setor mais transparente, a União Europeia exige, desde 2024, através do regulamento de monitorização da Comissão Europeia, que os centros de dados comuniquem o seu consumo de energia e água. Contudo, o primeiro ciclo de relatórios mostrou falhas: apenas cerca de um terço das instalações enviou dados, e os números do consumo de água continuam pouco fiáveis.

As perspectivas apontam que, mantido o ritmo atual, a IA tende, sim, a tornar-se mais eficiente - mas não necessariamente mais sustentável.

O grande problema da IA não é apenas quanto cada sistema consome, mas quantas vezes é utilizado: quanto mais pessoas recorrem a chatbots e geradores de imagem, maior é a pressão sobre recursos naturais já escassos.

Formulada assim, a pergunta certa é: até que ponto a conveniência de uma resposta instantânea da IA vale o custo ambiental por trás dela - e quem deve pagar essa conta?

Xénia - A regra de Zeus

Zeus Xenios-Philoxenon
A Odisseia de Christopher Nolan pode não ser totalmente fiel ao poema épico de Homero mas tem o dom de por toda a gente a falar desta obra fundamental que, com a Ilíada, fundou a chamada civilização ocidental. Interessa pouco a escolha dos intérpretes  de alguns personagens, pois no fundo todos eles são inadequados já que não há gregos entre o cast, o que até é bastante insultuoso para a Grécia. 

Adiante. O que mais importa na Odisseia é que se tornou numa obra universal e ainda hoje pode ser entendida por todos, desde japoneses a congoleses: é um épico de provação e superação das dificuldades que podia ocorrer em qualquer civilização. E está tão bem relatado, que se torna no primeiro livro de aventuras digno desse nome. E a regra de Zeus (xénia), da hospitalidade obrigatória aos que chegam, de dar comida, bebida e abrigo sem perguntar nada e a gratidão intrínseca que os migrantes devem ter aos seus hospitaleiros ainda hoje tem eco nos migrantes actuais. 

Essa regra foi quebrada por Ulisses e também por alguns dos hospitaleiros, como Polifemo, e isso levou às desgraças que cada um teve de sofrer. E esta regra de Zeus não podia ser mais actual, pois ainda hoje a quebramos constantemente com os emigrantes, sejam os desgraçados africanos que atravessam o Mediterrâneo, sejam os hindus que povoam Lisboa que são rejeitados pela extrema-direita, sejam os latinos expulsos pelo ICE nos EUA. 

Daí o termo xenófobo, que é o contrário de bem-receber e à regra de Zeus, que podia ser de Deus, o tal que unificou o Olimpo num só omnipotente ser divino, que com todos os seus poderes não consegue aplacar as atrocidades que se cometem todos os dias contra emigrantes e não só.

Ler mais:
Deconstruction in a nutshell : a conversation with Jacques Derrida

sábado, 25 de julho de 2026

The Smashing Pumpkins e "The Everlasting Gaze": gnosticismo e o novo alter-ego de Billy Corgan

Melhor som aqui
Letra
[Refrain]
You know I’m not dead
You know I’m, you know I’m not dead
You know I’m not dead

[Verse 1]
Now you know
Where I’ve been
As you sleep
Torn I am
Weighted down
Patiently
Born of love

[Pre-Chorus 1]
You know I’m, you know I’m not dead
I’m just living in my head
Forever waiting

[Chorus]
On the ways of your desire
You always find a way
And through it all
Into us all you move
Forgotten touch
Forbidden thought
We can never have enough

[Refrain]
You know I’m not dead
You know I’m, you know I’m not dead
You know I’m not dead

[Verse 2]
Found below
The creatures scream
Stranglehold
A god machine
Begging to
Tear us out
What is hell?

[Pre-Chorus 2]
You know I’m, you know I’m not dead
I’m just the tears inside your head
Forever waiting

[Chorus]
On the ways of your desire
You always find a way
And through it all
Into us all you move
Forgotten touch
Forbidden thought
We can never have enough
You know I’m not dead

[Bridge]
We all want to hold in the everlasting gaze
Enchanted in the rapture of his sentimental sway
But underneath the wheels lie the skulls of every C.O.G
The fickle fascination of an everlasting god

[Pre-Chorus 3]
You know I’m not dead
I’m just living in my head
Forever waiting
Forever waiting a cruel death
You know I’m not dead
I’m just living for myself
Forever waiting

[Outro]
You know I’m not dead (4X)

Mergulho no abismo de Nietzsche e na mente de Billy Corgan para desvendar um dos temas mais intensos do rock.
Lançada no final de 1999 como o primeiro single do álbum Machina/The Machines of God (2000), "The Everlasting Gaze" é uma das composições mais emblemáticas e ferozes dos The Smashing Pumpkins. A canção destaca-se de imediato pelo seu riff grave e potente em afinação drop D, acompanhado pela bateria frenética e técnica de Jimmy Chamberlin.

Apesar de já terem passado mais de duas décadas e meia desde a sua edição, o legado da faixa e da banda continua a atravessar e a influenciar sucessivas gerações de ouvintes e músicos. A capacidade do grupo para misturar peso esmagador com melodias sombrias serviu de inspiração direta para grandes nomes do rock alternativo e post-grunge, tais como Silversun Pickups, My Chemical Romance, Deftones e Placebo.

O videoclipe oficial do tema, assinado pelo aclamado realizador sueco Jonas Åkerlund, marcou o arranque visual de uma nova era para a banda ao apresentar a estreia da baixista canadiana Melissa Auf der Maur, que assumiu o instrumento após a saída de D'arcy Wretzky. O clipe abdica de uma narrativa tradicional para apostar numa estética de ensaio crua, claustrofóbica e altamente energética. Filmado num espaço fechado sob uma iluminação fria e com cortes de câmara caóticos, o vídeo coloca em evidência a atitude magnética, os cabelos ruivos e a presença marcante de Auf der Maur, cuja imagem sensual e postura de palco trouxeram um dinamismo renovado ao grupo no ecrã. O objetivo do vídeo foi capturar a intensidade e a catarse visceral da banda, desnudando as ilusões do espetáculo para focar inteiramente no som.

No entanto, a verdadeira dimensão de "The Everlasting Gaze" vai muito além da sua estética e sonoridade pesada. A canção serve como o portal de entrada para o universo concetual de Machina/The Machines of God, uma ópera rock criada por Billy Corgan sobre a evolução espiritual do seu alter-ego: a personagem Zero (figura niilista da era Mellon Collie), que, após ouvir a voz de Deus, renasce com o nome Glass e decide fundar a banda Glass and the Machines of God.que, após ouvir a voz de Deus, decide fundar uma banda chamada The Machines of God.

Tanto a letra como o conceito do álbum estão fortemente impregnados de referências filosóficas e literárias. O próprio título da canção faz uma alusão direta ao famoso aforismo do filósofo alemão Friedrich Nietzsche em Para Além do Bem e do Mal: "Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não se tornar também um monstro. E se olhares muito tempo para um abismo, o abismo também olhará para ti." A par do pensamento nietzschiano, a canção mergulha profundamente na filosofia do Gnosticismo, uma corrente espiritual dos primeiros séculos que defendia que o mundo material fora criado por uma entidade imperfeita e que a verdadeira salvação residia no Gnosis - o conhecimento interior e intuitivo da essência divina aprisionada na matéria.

Em "The Everlasting Gaze", a lente gnosticista manifesta-se no desejo de rutura com o mundo material, marcado pela fama e pelas ilusões do Ego ("You know I'm not dead..."), e na busca implacável por esse "olhar eterno" interior. Para alcançar a libertação espiritual, a personagem precisa de rasgar as expetativas externas e encarar a sua própria sombra, gerando uma constante tensão entre a fragilidade da carne e o anseio pela transcendência.

Esta complexidade temática reflete o ecletismo musical de Billy Corgan, cujo som resultou de uma fusão singular de múltiplas influências absorvidas na juventude. A paixão pelo hard rock e metal clássico de bandas como Black Sabbath, Judas Priest e Cheap Trick trouxe o gosto pelos riffs pesados e solos virtuosos. Por sua vez, a parede de som etérea e textural do shoegaze e dream pop de My Bloody Valentine e Cocteau Twins permitiu-lhe sobrepor dezenas de camadas de guitarras em estúdio. A atmosfera melancólica e gótica do post-punk de The Cure, Joy Division e Bauhaus moldou a vulnerabilidade das suas letras e o tom do seu baixo, enquanto a ambição concetual do rock progressivo de Pink Floyd e Rush encorajou a criação de álbuns narrativos. Por fim, o fascínio pelos sintetizadores e ritmos industriais da new wave de Depeche Mode e Kraftwerk adicionou a textura moderna que culminou na sonoridade de Machina. É precisamente a junção da fúria do metal, com a atmosfera do shoegaze, a melancolia gótica e a profundidade gnosticista que faz de "The Everlasting Gaze" uma obra-prima singular no rock alternativo.

Girinos de Sintra ajudam a compreender como anfíbios lidam com o aquecimento do planeta

Uma investigação liderada por cientistas portugueses descobriu que os girinos desta espécie adaptam a sua dieta para compensar o aumento do gasto de energia causado pela subida da temperatura da água em que se desenvolvem.

Os anfíbios são considerados o grupo de vertebrados mais ameaçados do mundo. Estima-se que cerca de 41% de todas as espécies a nível global corram risco de extinção e as populações dessa classe continuam em declínio.

Entre 1980 e 2004, 91% do agravamento dos estatutos de conservação dos anfíbios foi causado por doenças e perda de habitat. Desde então, as alterações climáticas têm vindo a assumir uma dimensão cada vez mais destacada no rol de ameaças enfrentadas por esses animais, uma ameaça cujos efeitos são amplificados pela incessante destruição dos locais onde vivem.

Com aproximadamente duas em cada cinco espécies de anfíbios atualmente a serem empurradas cada vez mais para o precipício da extinção, os cientistas pedem medidas urgentes para conservar os seus habitats e aplacar as causas das grandes perdas.

Uma das grandes “leis” das ciências que se dedicam à conservação da Natureza dita que não se pode proteger o que não se conhece. Por isso, saber como os anfíbios, e outros organismos, lidam com os efeitos das alterações climáticas é fundamental para saber como e onde é preciso agir.

Um grupo de investigadores, liderado por cientistas do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, descobriu que um sapo que ocorre na Península Ibérica, sul de França e norte de África é capaz, quando ainda na forma de girino, de se adaptar ao aumento da temperatura da água onde está a desenvolver-se. Contudo, essa capacidade tem limites, que poderão ser duramente postos à prova à medida que a temperatura média da Terra sobe cada vez mais, porque os humanos continuam a lançar na atmosfera gases com efeito de estufa.

Mudar hábitos alimentares
Tal como os répteis e a maioria dos peixes, os anfíbios são animais ectotérmicos, ou, se quisermos, de “sangue frio”. Isso significa que a sua temperatura corporal é essencialmente regulada pela temperatura do meio envolvente. Assim, a temperatura da água em que os girinos nascem e crescem pode não só determinar se se desenvolvem de forma saudável e se poderão vir a ter problemas de saúde quando forem adultos, mas também, em última instância, a sua sobrevivência.

Em águas mais quentes, o metabolismo dos animais acelera, gastando mais energia e, por isso, obrigando a consumir mais calorias para manterem um bom peso corporal. Num artigo publicado na revista ‘Scientific Reports’, os investigadores descobriram que os girinos do sapo-comum (Bufo spinosus) são capazes de alterar o que comem consoante a temperatura da água.

Para isso, criaram, em laboratório, girinos capturados na Serra de Sintra, com diferentes condições de temperatura de 12, 16 e 20 graus Celsius, e com regimes de alimentação distintos.

Ao estudarem os pequenos sapos, percebeu-se que, quando a água estava mais fria, consumiam mais alimentos de origem animal, neste caso, larvas de mosquitos. Contudo, em águas mais quentes, os girinos comiam mais matéria vegetal (espinafres, nesta experiência) e aumentavam a taxa de consumo.

À ‘Green Savers’, Sara Bento, investigadora do CE3C e primeira autora do estudo, diz que essa adaptação da dieta à temperatura da água permite aos girinos de sapo-comum “reduzir alguns dos efeitos negativos associados ao aumento da temperatura”. No entanto, avisa que essa capacidade tem limites, pois, a partir de determinado ponto, quando a água se torna demasiado quente, é possível que não haja mudança de dieta que permita aos pequenos anfíbios dar a volta ao problema da perda de energia.

“Nessa situação, mesmo uma alimentação equilibrada e considerada ótima pode deixar de ser suficiente para compensar os custos metabólicos”, salienta a cientista.

E os limites dessa capacidade de adaptação são especialmente pressionados quando a temperatura da água está acima da média durante muito tempo ou durante ondas de calor. Como este estudo apenas testou temperaturas até aos 20 graus, Sara Bento diz que não foi possível saber ao certo a partir de que temperatura essa capacidade é anulada, o que, para se descortinar, exigirá novas investigações com temperaturas mais elevadas.

Desenvolvimento mais rápido, mas pior condição física
A investigação revelou também que, em águas mais quentes, os girinos de sapo-comum desenvolvem-se mais rapidamente, mas, quando na forma final, acabam por ficar mais pequenos do que sapos que se desenvolveram em águas mais frias e apresentam pior condição física.

“Esta relação já é amplamente conhecida em animais ectotérmicos e é designada por regra ‘temperatura–tamanho’”, explica Sara Bento. “Em condições mais quentes, o desenvolvimento tende a acelerar mais do que o crescimento, fazendo com que os animais atinjam a maturidade com menor tamanho corporal.”

Assim, os girinos que passaram a sua fase larvar em águas mais quentes podem, após a metamorfose, transitar para terra firme com menos peso e também com menos reservas de energia. E isso, segundo a investigadora, “pode afetar o seu desempenho durante as fases juvenil e adulta no meio terrestre”. Ainda assim, é possível, se bem que não certo, que os sapos-comuns que saiam da água mais pequenos possam recuperar quando na porção semiaquática das suas vidas e compensar os problemas causados pelas temperaturas mais altas das águas onde se desenvolveram.

Por isso, Sara Bento diz-nos que “os nossos resultados não nos permitem afirmar que este efeito, isoladamente, represente uma ameaça à sobrevivência da espécie”. No entanto, reconhece que apontam para um “potencial fator de risco”, que descreve como “importante”, especialmente se o aumento da temperatura da água se conjugar com outros fatores como a falta de alimento, a seca ou a predação.

Além dos efeitos da temperatura no desenvolvimento dos sapos, este trabalho mostrou também que águas mais quentes alteram as concentrações de azoto e de carbono nos tecidos dos animais na forma final, ou seja, nas fases juvenil e adulta das suas vidas.

Isso sugere que, em temperaturas mais elevadas, os girinos têm mais dificuldade em manter “o equilíbrio dos nutrientes no organismo”, como refere a cientista, o que pode resultar de alterações na dieta que o animal faz para compensar os efeitos das temperaturas mais elevadas.

Ainda que tal não tenha sido avaliado neste estudo, Sara Bento não põe de parte a possibilidade de os sapos, quando deixam a fase larvar, poderem vir a recuperar o equilíbrio dos nutrientes nos seus tecidos. Mas é possível que esse desequilíbrio possa tornar os sapos-comuns, pelo menos os juvenis que saíram de águas mais quentes, presas menos nutritivas para os predadores que deles se alimentam.

É preciso saber mais para se poder proteger
O sapo-comum está classificado na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza com o estatuto de “Pouco preocupante”, pelo que não é considerado uma espécie em risco de extinção. Esse estatuto está também refletido no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal de 2005, quando ainda tinha do nome científico Bufo bufo.

No Atlas dos Anfíbios e Répteis de Portugal, lançado em 2008, é dito que o sapo-comum é uma espécie que se encontra “de forma contínua” de norte a sul do país. Contudo, de acordo com a mesma fonte, esta espécie anteriormente considerada “muito abundante”, estava, na altura, a sofrer “um declínio generalizado das suas populações em grande parte da Península Ibérica e, em particular, nas zonas mais secas”. Essa queda em muito se deve, escreviam os especialistas, à destruição dos seus locais de reprodução, a explosões nocivas de algas nos charcos e albufeiras onde vivem por causa da pecuária intensiva, à competição com espécies exóticas e até à perseguição que lhes é lançada pelos humanos, por aversão.

Além disso, estes sapos podem percorrer vários quilómetros para chegarem aos locais de reprodução, pelo que sofrem uma elevada mortalidade por causa de atropelamentos.

Porém, “não existem dados recentes suficientes para caracterizar, com segurança, a atual tendência populacional desta espécie em Portugal”, diz Sara Bento. Por isso, defende que seria importante “uma atualização” das informações sobre os sapos-comuns no país, “baseada em monitorização padronizada da distribuição, abundância e sucesso reprodutor das populações”.

“Só com esses dados será possível detetar declínios, identificar as suas causas e avaliar de forma mais rigorosa o possível agravamento do estatuto de conservação desta e de outras espécies”, declara a investigadora do CE3C.

Para já, diz que “a prioridade deve ser proteger os habitats de reprodução a nível local”, como charcos, lagoas e troços de ribeira, para assegurar que conservam água “durante tempo suficiente para os girinos completarem a metamorfose”.

“Com o aumento previsto das temperaturas e dos eventos climáticos extremos como ondas de calor e secas severas na região mediterrânica, esse período com água poderá tornar-se mais curto e irregular”, avisa. Por isso, sublinha que é importante “limitar a drenagem e a captação de água durante a época de reprodução, preservar a qualidade da água e a vegetação ribeirinha, manter zonas com sombra que funcionem como refúgios térmicos e recuperar ou criar redes de charcos com diferentes profundidades”.

E essas medidas não beneficiariam apenas os sapos-comuns, mas também “muitas outras espécies de anfíbios e organismos dependentes destes ecossistemas”, assegura.

Colocando o sapo-comum no lugar de protagonista, servindo como “espécie-modelo”, esta equipa de cientistas quis perceber como é que animais ectotérmicos, especialmente os anfíbios, respondem ao aumento da temperatura, traço indelével das alterações climáticas que atualmente assolam o planeta.

Mas Sara Bento diz que os mecanismos que ela e a restante equipa observaram durante esta investigação “poderão ser relevantes para muitas outras espécies, incluindo espécies com estatuto de ameaça mais preocupante”.

Além do CE3C, este trabalho envolveu também o Laboratório Associado TERRA, o CHANGE – Instituto para as Alterações Globais e Sustentabilidade, o Politécnico de Leiria, o MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente e instituições britânicas e suecas.

A Odisseia é ficção. Mas os seus monstros e magia podem ter bases científicas

Pellegrino Tibaldi (1550–1551) - Ulisses acceca Polifemo (em português: Ulisses cega Polifemo)

A Odisseia é um mito. É duvidoso que um homem tivesse demorado, literalmente, uma década a viajar desde Tróia, uma cidade situada na costa da Turquia, até à ilha grega de Ítaca após a guerra de Tróia, tivesse sido amaldiçoado para fazer amor com bruxas, viajado até ao Hades e lutado com um ciclope. Ou, se tivesse mesmo demorado assim tanto tempo, a sua maldição deveria incluir não pedir indicações.

No entanto, o relato da viagem extraordinariamente longa de Ulisses alude a coisas que as pessoas poderão ter encontrado no mundo antigo, desde um ciclope de carne e osso a remoinhos assassinos e plantas alucinogénicas. Seguem-se algumas das realidades científicas por trás das suas lendárias aventuras.

O ciclope
Na história, o ciclope Polifemo - um gigante que aprecia carne humana e, como é óbvio, tem apenas um olho no meio da cabeça - prende a tripulação de Ulisses e come alguns dos seus homens ao almoço. Ulisses cega Polifemo com uma lança aquecida e depois eles conseguem fugir, amarrados às barrigas das ovelhas de Polifemo.

Uma das hipóteses para a origem deste gigante mítico com um só olho encontra-se nos fósseis do Deinotherium giganteum, um parente do elefante que deambulou pela Europa, a Ásia e África há entre 23 e 8 milhões de anos. Paleontólogos desenterraram os seus ossos na ilha de Creta, onde os antigos gregos também os podem ter encontrado. Os crânios de elefante têm cavidades oculares relativamente pequenas, com um orifício enorme no centro. Esse orifício aloja a tromba. Contudo, uma vez que os elefantes alcançavam 4,6 metros à altura do ombro, o enorme crânio poderá ter sido confundido com a cabeça de uma pessoa gigante com um só olho.

No entanto, os gregos também poderiam estar familiarizados com a ciclopia, um defeito congénito raro e mortal, em que as órbitas oculares e o cérebro não se dividem da forma correcta durante o desenvolvimento do embrião humano. Em vez de um nariz, o feto desenvolve um apêndice tubular que aparece geralmente acima de um único olho. A ciclopia só ocorre uma vez em cada 100.000 nascimentos humanos. Infelizmente, 39 por cento são nados-mortos e os que resistem ao nascimento não sobrevivem mais do que 13 horas.

Embora seja uma condição muito rara, os cientistas estimaram que na época d’ A Odisseia, poderiam nascer cerca de 53 casos de ciclopia humana por ano em todo o mundo. Além disso, outras espécies também podem padecer de ciclopia, incluindo ovelhas, vacas e cabras - sobretudo se as progenitoras ingerirem plantas como heléboro.

O monstro e o remoinho
Ulisses escapou a Polifemo de forma inteligente, mas uma vez encurralado entre o monstro marinho Cila, com as suas seis cabeças, e o poderoso remoinho Caríbdis, já não teve tanta sorte. Perdeu a sua tripulação numa tempestade intensa. Na manhã seguinte, Ulisses encontra-se entre os dois. Esta perigosa passagem baseia-se num sítio real – o Estreito de Messina, um canal estreito entre a Calábria, na península itálica, e a ilha da Sicília.

No estreito, o Mar Jónico encontra-se com o Mar Tirreno e os dois corpos de água têm marés opostas – a maré alta no Jónico é maré baixa no Tirreno e vice-versa, diz Sergio Longhitano, sedimentologista da Universidade de Basilicata, em Itália, que publicou um artigo sobre as águas traiçoeiras do estreito em 2018. Por isso, “no meio do Estreito de Messina, existe um ponto conhecido na oceanografia como ponto anfidrómico”, diz Longhitano, onde a altura da água nunca muda.

A altura pode nunca mudar, mas as correntes mudam, acelerando até uns estimados 5 metros por segundo quando há ventos fortes ou tempestades, diz Longhitano. As correntes rápidas e em constante mudança e as marés contrastantes formam padrões estranhos na água. “Por vezes, vêm-se as correntes divergentes”, diz Longhitano. As correntes mais fortes fluem em sentidos opostos, enquanto as mais pequenas puxam para dentro. Quando as correntes que puxam para dentro fluem na mesma direcção “ou quando as duas correntes convergem, pode haver remoinhos”, diz ele. As marés desta região mudam a cada seis horas, o que significa podem surgir remoinhos no estreito várias vezes por dia. Caríbdis está sempre à espera.

Quanto a Cila, o monstro de seis cabeças, existe “uma enorme falésia que pode ser vista à distância, sobretudo ao pôr do Sol. Conseguimos ver uma forma muito escura estendendo-se em direcção ao norte do Estreito de Messina”, explica Longhitano. Embora seja impossível conhecer a inspiração exacta de Homero, este pode ser um bom sítio para um monstro.

Os comedores de lótus
Alguns encontros d’ A Odisseia acarretam menos perigos, assemelhando-se mais a festas com drogas à disposição. Ao chegar a uma ilha, Ulisses envia batedores para conhecer os habitantes, mas eles são “comedores de lótus”, que partilham deliciosos frutos de “lótus”, pondo os tripulantes num transe que os leva a abandonar as suas tarefas.

Muitas pessoas pensam imediatamente em drogas viciantes como o ópio, mas os antigos gregos conheciam as papoilas e o ópio e não lhe chamavam lótus. Além disso, o ópio é mencionado especificamente na Odisseia, como “nepente”, uma droga que Helena de Tróia mistura com vinho para ajudar os gregos a esquecerem as suas adversidades.

O que era então o lótus? Numa análise efectuada em 2020, cientistas conseguiram identificar sete géneros diferentes de plantas às quais os antigos gregos chamavam “lótus”.

Algumas são os nenúfares que podemos descrever actualmente como flores de lótus, do género Nymphaea. Mas Homero diz que o “lótus dos Lotófagos” era uma árvore e autores posteriores como Heródoto, Teofrasto e Plínio situam os comedores de lótus no norte de África, na região da cidade de Trípoli, na Líbia.

“Não conheço nenhum ‘lótus’ que cause perda de memória, diz Joe Schwarcz, químico da Universidade McGill, em Montreal, no Canadá. “Alguns historiadores supuseram que os gregos se referissem à jujubeira (ou tamareira-chinesa) como ‘lótus’.” Plantas arbustivas como a jujubeira pertencem ao género Ziziphus. As plantas deste género produzem um tipo jujuba que existe no norte de África. Este fruto não tem propriedades psicoactivas, mas pode ser fermentado e um golo de álcool é sempre bom para esquecer.

A bruxa que transformou homens em porcos
Noutra ilha, a bruxa Circe faz uma emboscada a Ulisses à a sua tripulação, causando-lhes mais problemas de memória. Fá-los beber uma poção com “drogas potentes que os fazem esquecer completamente o seu lar”. Ao beberem, os homens transformam-se em porcos. Ulisses vai libertá-los, auxiliado pelo deus Hermes, que colhe uma planta chamada moli, com raízes negras e flores brancas. Armado com a planta, Ulisses resiste à magia de Circe e salva os seus homens.

Seria necessária magia de verdade para transformar homens em porcos. Mas fazer homens acreditar que são porcos é muito mais fácil, diz Schwarcz. “Os antigos gregos conheciam certamente as plantas que tinham capacidades psicoactivas.” Plantas como a datura (Datura stromonium), frequentemente chamada figueira-do-inferno, e a beladona (Atropa belladonna) contêm compostos como atropina e escopolamina que bloqueiam os receptores de um mensageiro químico do cérebro chamado acetilcolina. “No cérebro, [este químico] participa na criação de memórias e o bloqueio da sua actividade causa alucinações e, possivelmente, delírios”, diz Schwarcz.

Quanto à “moli” que manteve Ulisses em segurança, “o antídoto para o envenenamento com atropina é a fisostigmina, que está presente no feijão-de-Calabar (Physostigma venenosum)”, diz Schwarcz. Num artigo publicado em 2022, Schwarcz também sugere que a flor branca de Ulisses pudesse ser Galanthus nivalis, que produz galantamina. Ambos os químicos bloqueiam a enzima que decompõe a acetilcolina, o que poderia aumentar os níveis do mensageiro químico. (Patologias como a doença de Alzheimer estão associadas a uma actividade reduzida da acetilcolina no cérebro e a galantamina e a fisostigmina foram ambas estudadas como tratamento.)

A Odisseia torna bem claro que as plantas podem ser remédios, mas também podem ser venenos. “A ideia mais enganadora talvez seja que “o natural é seguro” e “a natureza sabe o que faz”, diz Schwarcz.

E embora alguns dos encontros do poema épico possam ter uma base científica, um pouco de magia nunca fez mal a ninguém. É possível inventar monstros, os homens podem contar histórias sobre o submundo e as bruxas podem fazer venenos. “É apenas uma história. E numa história vale tudo”, diz Schwarcz. “As plantas podem transformar homens em porcos, embora algumas pessoas possam dizer que não são necessárias [plantas] para essa transformação.”


The Awakening - Until The Dawn

Melhor som daqui
Letra
Angels, don't you know you're my lifeline?
When I feel like letting go, I need you by my side
To make these feelings go away
To start the healing once again

Carry me through the dark, I need to know the way out

I hold my breath again as the night falls
I need to let you in through these hollow walls
And take my hand as I pray
Wipe the tears from my face

Carry me through the dark, I need to know the way out

Angels, don't you know you're my lifeline?
Carry me through the dark
Carry me through the dark, I need to know the way out

The Awakening – Until The Dawn: significado, estilo e influências da canção
A banda The Awakening é um dos projetos mais emblemáticos do gothic rock e do darkwave, fundada em Joanesburgo, na África do Sul, em 1995, pelo músico, compositor e produtor Ashton Nyte (atualmente radicado nos Estados Unidos). No tema "Until The Dawn", lançado como o primeiro single do seu décimo terceiro álbum de estúdio (The Lost Theatre), o grupo reafirma a sua identidade musical marcada pela fusão de guitarras melancólicas, ritmos pulsantes do post-punk e pelos profundos vocais barítonos característicos do seu líder. Liricamente, a canção explora a vulnerabilidade e a resiliência humana, focando-se na coragem necessária para pedir ajuda durante momentos de profunda escuridão interior e sofrimento pessoal, transformando o apelo a uma "linha de vida" (lifeline) numa celebração de esperança até ao despontar de um novo dia. Do ponto de vista conceptual e criativo, o universo artístico do projeto é fortemente moldado por influências filosóficas e literárias que vão desde o existencialismo e o romantismo sombrio do século XIX até ao pensamento distópico de George Orwell (em especial a crítica ao isolamento e ao controlo expressa em 1984), combinando de forma poética alegorias espirituais, dilemas éticos e o incessante anseio de redenção e conexão humana.

O tecido literário e filosófico no universo de Ashton Nyte
No universo criativo dos The Awakening e na escrita poética de Ashton Nyte, manifesta em temas como "Until The Dawn" do álbum The Lost Theatre, a música transcende o mero entretenimento para se tornar um espaço de profunda reflexão conceptual. A estética da banda apoia-se num diálogo constante com a literatura clássica e a filosofia existencial, moldando uma narrativa que utiliza a escuridão não como um fim absoluto, mas como o ponto de partida para a iluminação interior.

Do ponto de vista literário, a influência do Romantismo Sombrio e da tradição gótica de figuras como Edgar Allan Poe e Lord Byron é evidente na forma como a noite e a figura simbólica dos "anjos" são evocadas. Longe de uma representação estritamente teológica, o apelo a uma força protetora ou a uma "linha de vida" surge como uma metáfora romântica para a fragilidade da condição humana, a angústia da perda e a necessidade vital de ligação afetiva. A esta sensibilidade junta-se o eco da literatura distópica, em particular a visão de George Orwell em 1984. A ideia de atravessar "paredes ocas" em busca de cura e redenção reflete a luta do indivíduo contra o isolamento alienante e a perda de empatia impostos por uma sociedade fria e desumanizada. Além disso, o próprio enquadramento concetual do álbum remete para o Teatro do Absurdo de Samuel Beckett, no qual a vida é representada como um palco trágico-cómico e o ato de aguardar a alvorada se assemelha à incessante busca por sentido num mundo que parece desprovido dele.

No plano filosófico, a canção mergulha nas correntes do existencialismo de Søren Kierkegaard e Jean-Paul Sartre. A expressão explícita da dor e da vontade de desistir confronta o ouvinte com a angústia existencial e com o desespero interior. A decisão de pedir ajuda e procurar um caminho para fora da escuridão espelha o "salto de fé" de Kierkegaard - o momento em que a vulnerabilidade é aceite e convertida num ato consciente de escolha e resiliência. Esta jornada através das sombras rumo à luz estabelece também uma analogia com a Alegoria da Caverna de Platão, onde a libertação da escuridão simboliza o despertar da consciência e a ultrapassagem do sofrimento. Ao recusar o niilismo passivo e ao transformar a dor numa busca ativa por esperança, Ashton Nyte constrói uma obra em que a literatura e a filosofia se unem para guiar o ouvinte até ao despontar de uma nova alvorada.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Nadiiife - A Warriors Hymn


A canção "A Warrior’s Hymn", lançada pela artista e compositora alemã Nadine Wairimu Moser - conhecida pelo nome artístico Nadiiife -, insere-se no universo do neofolk, dark folk e indie folk, destacando-se por uma sonoridade cinematográfica e arranjos vocais densos. A obra abdica de uma letra em idioma convencional para se apoiar no uso de melismas, vocalizes e glossolalia, recorrendo a estruturas silábicas intuitivas sem significado linguístico literal como forma de expressar sentimentos e emoções onde a linguagem falada se revela insuficiente.
O nome próprio Wairimu é um nome tradicional Kikuyu (etnia maioritária do Quénia), o que reflete as suas raízes ou ascendência queniana.
Dedicada pela própria artista àqueles que não encontram as palavras certas para descrever a sua dor e a quem permanece forte perante as adversidades, a faixa aborda o conceito de "guerreiro" sob uma perspetiva interior e de resiliência psicológica. Este tema é transposto visualmente no videoclipe codirigido por Nadiiife e pela fotógrafa e realizadora Vivienne Mok, no qual a iluminação etérea e a interpretação em dança contemporânea das bailarinas Alana Nastold e Laetitia Kiefer traduzem o conflito interno, a vulnerabilidade e a busca pela libertação emocional.
No plano filosófico e literário, a obra dialoga com o arquétipo do guerreiro espiritual e conceitos da fantasia sombria e do folclore europeu, aproximando-se de correntes como o existencialismo e o estoicismo. O estoicismo, em particular, fundamenta-se historicamente num rigoroso monismo materialista panteísta. Para os filósofos estoicos da Antiguidade, como Zenão de Cítio, Crisipo, Séneca, Epicteto e Marco Aurélio, a realidade compreende uma única substância e o universo físico é idêntico a Deus. Nessa visão, tudo o que existe - incluindo virtudes, afetos e a própria alma - possui natureza corporal.
A estrutura do monismo estoico organiza a matéria única a partir de dois princípios inseparáveis: o princípio passivo, representado pela matéria inerte e moldável, e o princípio ativo, identificado como o Logos ou Pneuma (sopro racional e criador) que permeia e ordena o cosmos. Esta perspetiva resulta na sympatheia, a conceção de que todas as partes do universo estão interligadas por uma rede contínua de causa e efeito. Na ética estoica, esta unidade cosmológica justifica o dever de viver em conformidade com a natureza e aceitar a ordem do universo (Amor Fati), compreendendo o indivíduo como parte integrada de um todo único e racional.

O Atolamento das Vaidades


Ontem, Donald Trump declarou que a guerra com o Irão está a correr “melhor do que qualquer um esperava”. Está a delirar, é claro. E os seus delírios são a razão pela qual o preço do petróleo voltou a cerca de 100 dólares por barril e - como explicarei em breve  - o preço real é muito superior a isso.

A guerra gratuita de Trump contra o Irão transformou-se num atoleiro notável - notável porque a única coisa que mantém a guerra em curso é a vaidade de Trump. Perdeu efectivamente a guerra nos primeiros tempos, quando se tornou evidente que o regime de linha dura do Irão tinha sobrevivido ao ataque inicial e que os militares norte-americanos não conseguiam manter o Estreito de Ormuz aberto. Mas Trump é psicologicamente incapaz de admitir o fracasso. Assim, a guerra continua, enfraquecendo os Estados Unidos a cada dia, enquanto ele procura alguma forma de transformar a sua derrota abjeta numa vitória.

E as declarações de que as consequências económicas da guerra foram contidas parecem agora perigosamente prematuras.

É verdade que, durante o primeiro fecho do Estreito, os preços do petróleo não subiram tanto como muitos analistas - incluindo eu próprio, em certa medida - esperavam. Parte do petróleo do Golfo Pérsico chegou aos mercados contornando o Estreito de Ormuz, principalmente através do oleoduto saudita para o Mar Vermelho. A China reduziu drasticamente as suas importações de petróleo. E o mundo compensou uma parte substancial da escassez de oferta reduzindo os seus stocks.

O segundo encerramento de Ormuz pode ser pior, por vários motivos. Os aliados houthis do Irão estão agora a atacar navios no Mar Vermelho, ameaçando esta válvula de segurança. Além disso, os stocks estão agora muito mais baixos do que quando o conflito começou e não podem servir de reserva daqui para a frente.

Talvez o mais importante a perceber sobre a situação actual, no entanto, é que o petróleo é mais caro do que parece.

Ninguém queima petróleo bruto. O petróleo precisa de ser refinado para se transformar em combustíveis utilizáveis, principalmente gasolina e gasóleo. E há uma escassez global de capacidade de refinação. Isto reflecte em parte a guerra no Irão, mas também a campanha surpreendentemente eficaz da Ucrânia contra a infra-estrutura energética de Vladimir Putin.

Esta escassez de capacidade de refinação ajudou a manter os preços do crude baixos - porquê comprar crude se não se pode refiná-lo? Mais importante, porém, significa que os preços dos produtos petrolíferos para os consumidores finais são muito mais elevados do que seria de esperar, tendo em conta o preço do petróleo bruto. O gráfico no início deste post mostra o preço do gasóleo no mercado grossista, que mesmo durante o cessar-fogo falhado estava muito acima do seu nível pré-guerra e está agora próximo do seu pico anterior.

O spread geral - a diferença de preço entre um barril de crude e o preço dos produtos refinados a partir desse barril - explodiu, de cerca de 25 dólares por barril antes da guerra para mais de 65 dólares agora:

Do ponto de vista dos consumidores finais, isto equivale a um aumento de 40 dólares por barril no preço do crude. Na prática, o mundo está a lidar com o equivalente a 140 dólares pelo petróleo, embora o preço anunciado ronde "apenas" os 100 dólares.

Prenuncia uma catástrofe económica? Não, ainda não. Mas não é um bom sinal.

A desaceleração da inflação no mês passado parece agora temporária. Com os preços da energia a subirem novamente - para não falar do impacto inflacionista da nova ronda tarifária de Trump, imposta sob a desculpa absurda de que as nações não estão a fazer o suficiente para acabar com o trabalho forçado - as taxas de juro vão quase certamente subir, intensificando a pressão sobre as famílias e as empresas. As taxas de longo prazo, refletindo os futuros aumentos esperados da Fed, são já demasiado elevadas:

Ainda assim, as coisas podiam ser piores. E podem estar prestes a piorar. O Wall Street Journal refere que Trump está em "modo de vingança" e que as forças armadas dos EUA estão a enviar tropas para o Médio Oriente.

E se Trump insistir no fracasso, intensificando drasticamente a sua guerra desastrosa, os impactos económicos, para não falar dos humanos, serão muito mais graves.

França e Espanha tentam sobreviver a um fenómeno que está a atingir o Mediterrâneo e que ainda não chegou a Portugal

Os incêndios que destruíram parte de Vouzela e Alijó nos últimos dias são um exemplo de que é preciso estar atento, mas Portugal vai-se livrando, pelo menos para já, do inferno que está a atingir os países aqui ao lado.

Com a Europa em pânico perante ondas de calor consecutivas, França e Espanha são os melhores exemplos de um verão terrível que está deixar milhares e milhares de pessoas em sobressalto.

Depois de Almería ter vivido o pior incêndio de sempre da Andaluzia, com 13 mortes contabilizadas, mais acima cerca de 20 mil pessoas foram forçadas a deixar as suas casas perante os fogos fogos florestais de França.

É uma nova onda de calor vinda do mar que os investigadores não temem apelidar de “dantesca”, com a costa atlântica francesa a ter um impacto particularmente intenso.

Mais abaixo, e não muito longe de Almería, a província de Murcía vai sofrendo com dias constantes acima dos 40 graus. Esta terça-feira foram 44,7 em Cieza, de acordo com a agência de meteorologia de Espanha, a Aemet.

Antes disso tinham sido cidades como Albacete, Ávila ou Teruel a registar temperaturas recorde para julho, com os termómetros a chegarem aos 42 graus. Já nos arredores de Madrid tiveram de ser retiradas mais de três mil pessoas perante o perigoso aproximar das chamas.

De acordo com o Sistema de Monitorização do Mediterrâneo, esta onda de calor está a afetar 80% da superfície do mar que banha o sul da Europa, provocando temperaturas por vezes extremas, algumas delas com anomalias de cinco graus acima do expectável. Portugal, até porque tem a costa já em mar aberto, vai conseguindo escapar a este fenómeno.

Os dados do Sistema Europeu de Informação de Fogos Florestais apontam mesmo um ano recorde em termos de área ardida nesta altura do ano. É quase o dobro em relação ao mesmo período registado nas últimas duas décadas.

Em França a situação não é muito diferente. O fogo que começou junto à vila de Saumos, a 40 quilómetros de Bordéus, já queimou 3.700 hectares em pouco mais de 24 horas.

Não há registo de vítimas, mas muitas vidas não voltarão a ser as mesmas, até porque muitas casas foram totalmente consumidas pelas chamas. Nas últimas horas chegaram a estar 800 operacionais apoiados por vários meios aéreos a tentar conter as chamas, mas a situação continua “desfavorável” e longe de estar controlada.

“O fogo está altamente errático e a ganhar força muito significativa”, avisou o chefe do serviço regional de bombeiros, Marc Vermeulen, citado pelo jornal The Guardian.

“Uma das principais frentes está muito próxima de uma área semi-urbana. Estamos a defender casa a casa”, acrescentou.

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Boy Harsher - Hard Beat

Melhor som aqui
Letra
[Verse 1]
Broken glass makes my heart full
I have never been consoled
Strangers pass and see my eyes glow
Take the wheel, I’ve lost control

[Pre-Chorus]
Trust me once
Let’s make it real

[Chorus]
Real, real
Let’s make it real
Trust me once
Let’s make it real
Real
Let’s make it real
Trust me once

[Verse 2]
There’s a crash, and I’m mistaken
I can’t speak, and my eyes won’t close
Never asked you to save me
I feel high when the lights are low

[Chorus]
Let’s make it real
Real, real
Let’s make it real
Trust me once
Let’s make it real
Real
Let’s make it real

[Bridge]
I have never been the right one
I have never been consoled

[Chorus]
Trust me once
Let’s make it real
Real
Let’s make it real

Entre a colisão e o transe: alienação e existencialismo em  Hard Beat
O grupo Boy Harsher é uma dupla de música eletrónica e darkwave de origem norte-americana, fundada em Northampton, Massachusetts, por Jae Matthews e Augustus Muller. A sua sonoridade distingue-se por uma abordagem inovadora ao género, fundindo elementos de darkwave, synthwave, EBM e música industrial através de batidas aceleradas e minimalistas que contrastam com o tom vocal hipnótico, sensual e angustiado de Matthews.

No videoclipe de "Hard Beat", a narrativa visual gravita em torno do trauma, da alienação e da vigilância, abrindo com imagens de uma figura feminina imobilizada por aparelhos ortopédicos e articulando um ambiente voyeurista gravado em ecrãs vintage. A estética noturna e as sequências rodadas na estrada materializam o desejo obsessivo de reencontrar sensações viscerais perante o isolamento físico e a desconexão emocional. Esta temática encontra forte eco nas influências literárias do projeto, remetendo diretamente ao romance Crash (1973), de J.G. Ballard, em que a tecnologia, a dor corporal e a destruição se entrelaçam com o erotismo e a busca pela identidade, alinhando-se igualmente a visões existencialistas sobre o absurdo e a dormência da vida moderna.

Em termos de significado conciso, a canção explora a anestesia emocional e a busca desesperada por uma ligação tangível através do extremo. Versos sobre vidro quebrado ou a perda de controlo ao volante traduzem a necessidade de ceder o domínio da própria existência para conseguir sentir algo genuíno. O refrão, focado na ideia de tornar a experiência real, funciona como uma súplica de autenticidade num mundo insensível, transformando a metáfora do colisão ou acidente não num momento de pânico, mas num choque entorpecente que traz libertação e euforia.

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quinta-feira, 23 de julho de 2026

Ramones - We’re A Happy Family

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Letra
[Chorus 1]
We're a happy family
We're a happy family
We're a happy family
Me, Mom and Daddy (2X)

[Chorus 2]
Sitting here in Queens
Eating re-fried beans
We're in all the magazines
Gulpin' down Thorazines
We ain't got no friends
Our troubles never end
No Christmas cards to send
Daddy likes men

[Verse]
Daddy's telling lies
Baby's eating flies
Mommy's on pills
Baby's got the chills
I'm friends with the president
I'm friends with the pope
We're all making a fortune
Selling Daddy's dope

[Chorus 2]

[Chorus 1]
We're a happy family
We're a happy family
We're a happy family
Me, Mom and Daddy

Lançada em 1977 no aclamado álbum Rocket to Russia, a canção "We’re A Happy Family" dos Ramones é uma das obras mais emblemáticas do punk rock norte-americano. Oriunda de Nova Iorque, nos Estados Unidos da América, a banda imortalizou-se através de um estilo musical caracterizado pela velocidade avassaladora do punk, enraizado no garage rock e enriquecido com melodias orelhudas inspiradas no bubblegum pop dos anos 60.

O Sonho Americano em estilhaços
O significado da canção reside numa sátira profundamente corrosiva ao ideal do American Way of Life e ao mito da família suburbana impecável, exaustivamente vendido pelos meios de comunicação da época. A letra pinta o retrato de um lar completamente disfuncional e caótico, no qual os membros negociam psicotrópicos ("sellin' Thorazine"), consomem comida enlatada de forma compulsiva e lidam com fobias, vícios e psicoses. O génio da composição reside no contraste irónico: quanto mais degradante e surreal se torna o quotidiano daquela casa, com maior insistência a família repete o refrão que assegura estarem todos felizes.

Uma música intemporal
A atemporalidade de "We’re A Happy Family" deve-se à persistência do fenómeno que crítica. Se nos anos 70 a farsa do bem-estar se concentrava nos postais ilustrados e nos comerciais de televisão, hoje encontra o seu eco perfeito na cultura de aparências e validação das redes sociais. Além disso, a opção por abordar a alienação social através do humor negro e de uma sonoridade simples e direta garantiu que a faixa mantivesse o seu frescor ao longo das décadas.

A nível de influências literárias e filosóficas, embora os Ramones mantivessem uma postura estritamente urbana e sem pretensões académicas, a faixa conecta-se diretamente com o Absurdismo e o Existencialismo de pensadores como Albert Camus, ao expor a futilidade de tentar manter convenções sociais num mundo sem sentido. Em termos literários, a canção alinha-se com a ficção satírica da contracultura norte-americana de autores como Kurt Vonnegut e William S. Burroughs, utilizando o bizarro e a paródia para desmantelar a hipocrisia da sociedade de consumo.

Mais de 35% das novas páginas da web já são criadas por inteligência artificial

Relatórios e estudos indicam que a inteligência artificial (IA) está a transformar a internet. Mais de 35% das novas páginas da web já são produzidas por IA, enquanto mais da metade do tráfego online é gerada por robôs e sistemas automatizados, cenário que levanta dúvidas sobre a sustentabilidade do modelo económico da web aberta.

Segundo uma reportagem do portal Gizmodo, a adoção crescente de ferramentas de IA generativa coincide com mudanças na Pesquisa do Google. Hoje, respostas produzidas por IA aparecem no topo dos resultados para diversas consultas, reduzindo a necessidade de os utilizadores acederem a páginas da web. Um estudo da Growth Memo aponta que 75% dos utilizadores que utilizam o Modo IA permanecem a conversar com o chatbot em vez de clicar em hiperligações de sites. A tendência preocupa empresas de comunicação social e produtores de conteúdo porque o modelo tradicional da internet depende do tráfego gerado pelos motores de pesquisa. Ao aceder a páginas da web, os utilizadores visualizam anúncios que financiam jornalistas, criadores e outros profissionais responsáveis pela produção de conteúdo original. Com menos visitantes humanos e mais respostas entregues diretamente por IA, esse modelo passa a enfrentar novos desafios.

IA produz, IA consome: a internet está morta?
Outro levantamento mostra que mais de 50% do tráfego da internet atualmente não é gerado por pessoas, mas sim por sistemas automatizados. O dado foi divulgado num relatório da Cloudflare publicado este mês e reforça que os robôs já representam uma parcela significativa da atividade online.

O Google, no entanto, contesta parte das interpretações sobre os impactos dos seus recursos de IA. Em nota enviada ao Gizmodo, um porta-voz da empresa afirmou que o estudo segundo o qual 75% dos utilizadores permanecem no Modo IA "não era representativo", argumentando que os participantes receberam "tarefas forçadas e não naturais que provavelmente influenciaram o seu comportamento". Segundo a companhia, a pesquisa não refletia consultas nem hábitos reais dos utilizadores. A empresa também defendeu a precisão dos seus recursos baseados em IA. Em comunicado ao portal, o Google afirmou: "Testámos rigorosamente a qualidade destes recursos usando amostras estatisticamente significativas de consultas representativas de utilizadores. As respostas são precisas na grande maioria das vezes e, quando erramos, usamos esses exemplos para aprimorar continuamente os nossos sistemas”.

Apesar da defesa da companhia, o Gizmodo relata que as respostas produzidas pelo Modo IA ainda apresentam erros factuais. Num teste feito pelo jornalista Mike Pearl, a ferramenta afirmou, de forma incorreta, que o presidente de Madagáscar seria conhecido pela alcunha "Andy" e inventou um suposto ex-chefe de governo de Montserrat. Após ser questionada, a própria IA reconheceu o erro e respondeu: "Está absolutamente correto, e peço desculpa por ter fornecido informações completamente incorretas na minha última resposta”. Para o Gizmodo, a evolução destas ferramentas também está a alterar o comportamento dos utilizadores. Em vez de procurar páginas publicadas por pessoas, cresce o hábito de fazer perguntas diretamente aos chatbots, que sintetizam a informação disponível na web. A mudança pode reduzir ainda mais o acesso aos sites originais e colocar pressão sobre um modelo que, durante décadas, sustentou financeiramente a produção de conteúdo na internet.

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