segunda-feira, 27 de julho de 2026

Portugal deve rever Plano de Restauro da Natureza, pede associação de ambiente

A associação ambientalista Zero alertou hoje que Portugal deve rever o Plano Nacional de Restauro da Natureza (PNRN) antes de o enviar a Bruxelas, porque aprová-lo como está é “comprometê-lo à partida”.

Num comunicado a propósito do Dia Nacional da Conservação da Natureza, que se assinala na terça-feira, a associação deixa seis sugestões de mudança do Plano, não negando que este é um instrumento importante e “uma oportunidade histórica de transformar o restauro numa verdadeira política de Estado com força de lei”.

Entende a associação que o PNRN deve contemplar um relatório anual de execução, medidas localizadas e não vagas, haver uma entidade responsável pelo Plano e não “competências difusas”, haver uma autoridade de execução, e haver um compromisso orçamental plurianual do Estado e um inventário dos subsídios ambientalmente prejudiciais.

Um plano de restauro não se executa “com boas intenções, mas com datas, mapas, responsáveis e financiamento”, o que este PNRN não tem, diz a Zero.

Não se sabe se está a funcionar, porque o primeiro relatório de execução só está previsto dentro de seis anos, das 406 medidas 58% (237) são “nacionais” e sem localização definida, nenhuma das 406 medidas tem uma entidade responsável ou um custo estimado associado, a forma de governação está por definir, e dos 500 milhões de euros anuais anunciados há, segundo a Zero, apenas 168,7 milhões.

Ou seja, resume, o diagnóstico do PNRN está correto e Portugal sabe o que restaurar e porquê mas faltam as medidas concretas.

A propósito da efeméride de terça-feira a Zero recorda no comunicado que a 28 de julho de 1948 surgiu a associação de ambiente mais antiga da Península Ibérica, a Liga para a Proteção da Natureza, na altura criada pela defesa da Mata do Solitário, na Serra da Arrábida (o Parque foi criado em 1976).

E alerta que entre a classificação de uma área no papel e a sua gestão efetiva no terreno tem havido sempre “uma distância persistente”. É essa distância entre os plano e o resultado que a Zero teme ver repetida no PNRN.

A Zero recorda que os prazos para designar as Zonas Especiais de Conservação e publicar os respetivos planos de gestão terminaram em 2012 e não foram cumpridos, que em 2019, o Tribunal de Justiça da União Europeia condenou o país, e que a Comissão Europeia condenou Portugal a pagar uma multa que no verão passado já ia nos 100 milhões de euros.

O PNRN deve ser enviado por Portugal a Bruxelas em setembro próximo. Está em consulta pública no Portal Participa até 19 de agosto.

"Bem-vindo a 2030": por que razão não terá nada (e não será feliz)


“Bem-vindo a 2030. Eu sou dono de nada, não tenho privacidade e a vida nunca foi melhor”. Esta frase aparentemente contraditória é o título de um artigo publicado pelo Fórum Económico Mundial em 2016, da autoria de Ida Auken, uma parlamentar da Dinamarca.
A ideia dela nunca foi fazer uma profecia, mas sim especular sobre um futuro dominado pela economia circular - e ali descreve uma realidade em que ficou tão fácil, rápido e barato simplesmente alugar e usar imediatamente qualquer coisa, que já nem faz sentido ser proprietário de algo. Na teoria detalhada no texto, este verdadeiro ecossistema de acesso contínuo permitiria a todos ter o que quisessem quando desejassem, tudo isso com energia limpa, zero desperdício e muito mais tempo livre.
Ainda faltam alguns anos para chegarmos a 2030, mas na prática o que este caminho tem vindo a gerar é uma dependência crescente e escassez artificial.

Nos últimos 10 anos, pode dizer-se que a imaginação de Ida Auken conseguiu antecipar uma dinâmica real, mas errou redondamente no diagnóstico humano e económico. A nossa realidade está a caminhar na direção de não sermos donos de coisa nenhuma e não termos privacidade, mas tanto as causas como as consequências desta situação não têm o mesmo tom cor-de-rosa de otimismo da previsão.

O ciclo da "Merdificação": do encanto da Netflix à morte dos suportes físicos
Um bom exemplo de como e por que razão as coisas descarrilaram é o mercado do entretenimento, especificamente o de filmes e séries. A plataforma de streaming da Netflix mostrava em 2016 quão bom poderia ser abdicar de querer ser dono das coisas. Em vez de gastar rios de dinheiro a construir coleções de DVDs e a subscrever canais e mais canais de TV por cabo, bastava pagar uma mensalidade mais barata do que uma pizza e tinha-se acesso imediato e irrestrito a um catálogo de filmes e séries que continha praticamente tudo o que se poderia querer ver.

Não é por acaso que a Netflix fez o sucesso que fez e cresceu ao ponto de, durante muitos anos, ter impacto até na pirataria. O problema é que a forma como o mercado internacional funciona impede que algo assim continue por muito tempo, uma vez que a situação da Netflix em 2016 só era possível por uma combinação de subsídio vindo de capital de risco, o que era viabilizado apenas por políticas de juros baixos, e por licenças baratas que só existiam porque os estúdios tradicionais ainda não sabiam fixar o preço da distribuição digital de conteúdos. Era uma questão de tempo até que alguns fatores mudassem a situação.

Por um lado, outras empresas percebem o potencial do novo mercado e passam a competir por um espaço próprio nele; como algumas dessas empresas são as produtoras dos conteúdos que estavam disponíveis na Netflix, faz-lhes mais sentido retirar as suas produções de lá e colocá-las nos seus próprios serviços, pulverizando o acesso. Por outro lado, a própria Netflix, até então inquestionavelmente dominante no espaço do streaming, passa a ter de investir cada vez mais na caríssima produção de conteúdos próprios enquanto, simultaneamente, vê o crescimento do número de utilizadores desacelerar com a chegada de concorrentes de peso.

Para os acionistas, não existe a opção de aceitar que o valor das suas ações não vá aumentar o máximo possível para manter a qualidade e a relação custo-benefício da plataforma para o público. Assim, com a aquisição de novos utilizadores em queda, a solução é espremer lucros daqueles que já existem. Por isso, os preços aumentam, surgem planos com anúncios e os novos conteúdos de qualidade são substituídos cada vez mais por produções pasteurizadas, com fórmulas repetitivas e uso de IA no que for possível para tornar o processo mais ágil e barato.

Este processo, popularmente conhecido como “enshittification” (ou “merdificação”, em tradução livre), não é exclusivo da Netflix e já foi observado numa quantidade enorme de mercados, plataformas e produtos.

Ilusão da licença digital
Um exemplo mais recente foi o anúncio da Sony sobre o seu plano para encerrar de vez a fabricação de suportes físicos para os seus jogos. Com o fim dos discos, agora vai ser tudo digital através da loja oficial da PlayStation – esqueça a possibilidade de revender jogos que já terminou ou emprestar jogos facilmente aos seus amigos. Se por algum motivo algum título que comprou for retirado da loja e não o tiver descarregado, adeus, sem hipótese de o recuperar.

Caso a sua conta seja pirateada e a Sony decida que não quer ajudar a recuperá-la por iniciativa própria, terá de ser você a lutar na Justiça para tentar forçar a gigante corporativa a fazer o mínimo. E antes que alguém me acuse de terrorismo psicológico, aconteceu exatamente isso a um utilizador brasileiro identificado pela gamertag Ordo_Liberal: a conta Xbox dele foi invadida mesmo com a autenticação de dois fatores ativada e a Microsoft recusou-se a recuperá-la, argumentando que, como ele apenas tinha acesso a uma licença dos jogos, teria de comprar tudo novamente numa conta nova. O jogador teve de derrotar uma verdadeira equipa de advogados da empresa para conseguir forçar a recuperação da conta original com a biblioteca completa.

Caberiam mais uma série de exemplos aqui, desde a Uber e Lyft até ao motor de busca do Google, às recomendações (e fabrico) de produtos da Amazon e até aos smartglasses da Meta, mas cada um destes casos tem contextos socioeconómicos ligeiramente diferentes por trás da merdificação. Ainda assim, já dá para ter uma ideia de quão universal é a presença desta regra informal quando falamos de produtos e serviços, não é?

Hoje, esta dinâmica de subscrição forçada já avança sobre os eletrónicos físicos: desde smartphones de última geração alugados até construtoras automóveis que exigem mensalidades para libertar funções de hardware que já estão instaladas no seu próprio carro. E isto vale também para setores de produtos fora da área que costumamos associar mais à tecnologia.

Crise das memórias: IA devora o hardware do consumidor
Ao mesmo tempo que esta triste realidade do mundo corporativo já nos empurrava para o modelo de subscrições infinitas, a chegada da IA generativa e dos robôs não só acelerou este comboio para a velocidade máxima, como também cortou todos os travões da locomotiva. Estes sistemas ameaçam de forma não muito velada o trabalho de absolutamente toda a gente, eliminando a fonte de rendimento de grande parte da população mundial e concentrando ainda mais a riqueza nas mãos de poucos.

A IA não está a libertar o ser humano do trabalho braçal para que este produza mais arte, cultura e entretenimento enquanto aproveita melhor a vida. Está a precarizar o trabalho intelectual, a roubar trabalho autoral sem permissão nem distribuição de receita, e a usar mão de obra sub-remunerada em países mais pobres para treinar os robôs que vão ocupar os seus postos de trabalho no futuro.

A falta de regulamentação e o comportamento das Big Techs de “agir primeiro, pedir desculpa depois” já se transformou em vários processos de direitos de autor movidos por consórcios de artistas e órgãos de comunicação social contra as gigantes da IA. Nos escritórios, a transição é imposta à força: profissionais de criação e programadores enfrentam metas de produtividade absurdas sob a justificativa de que a IA deve acelerar o processo - ignorando a perda de qualidade e o aumento de erros no produto final.

Ao mesmo tempo, os centros de dados que vão permitir que as capacidades das IAs aumentem cada vez mais exigem expansão e atualização constantes. Isto deu origem a uma competição desequilibrada por semicondutores, especialmente no que diz respeito à memória RAM, e os três grandes fornecedores de memória que basicamente dominam quase toda a produção global escolheram, logicamente, vender às Big Techs dispostas a pagar o preço que for preciso, em vez de venderem a quem produz dispositivos para o consumidor final. O ritmo é tão intenso que mais de 70% da produção de memória de alta velocidade é consumida hoje justamente pelo mercado da inteligência artificial, deixando o mercado de eletrónicos de consumo a disputar as migalhas a preços inflacionados.

Os componentes tornaram-se tão escassos que até gigantes dos dispositivos de consumo direto, como a Apple e a Samsung, estão a ter de aumentar os preços dos seus produtos para manter parte das suas margens de lucro.

Com margens ainda menores, fabricantes de escala global, mas um pouco mais pequenas, sofrem agravamentos mais significativos – isto quando não são forçadas a adiar lançamentos e a revelar novidades com preços que há dois anos seriam considerados delirantes, como a nova Steam Machine a partir de 1050 $. As consolas de jogos, que tradicionalmente deveriam ir ficando mais baratas com o tempo, passam por aumentos grandes e consecutivos mesmo 6 anos após o lançamento.

Quando é que a crise acaba?
A pior parte é que não dá para dizer que esta seja uma crise passageira. As empresas de memória estão a lucrar como nunca. Segundo analistas, a receita operacional da Micron só em 2026 deverá ficar entre os 90 e os 100 mil milhões de dólares, o que é mais do que a soma de todo o lucro acumulado pela empresa nos 35 anos anteriores.

A situação é muito parecida na Samsung e na SK Hynix, que compõem o resto do trio que domina 90% do mercado de DRAM e também a totalidade da produção de memórias HBM, as mais rápidas e desejadas. Por isso, é óbvio que não têm qualquer motivação para mudar a situação, ainda para mais considerando que, antes da explosão da IA, estas mesmas fabricantes sofriam para fechar o balanço financeiro no verde, já que tinham de ceder às pressões das grandes empresas de eletrónicos e vender a sua produção com descontos agressivos.

Ao ritmo atual, a previsão é que a parte mais dolorosa desta crise dure no mínimo até 2028, com escassez e subida de preços a continuarem pelo menos até meados de 2030; mesmo depois disso, é improvável que os preços voltem ao “normal” de antigamente – deverão apenas parar de aumentar tanto e tão rapidamente. E mesmo isto pode ser otimismo, com o CEO da SK Hynix, uma das três grandes fabricantes de memória, a avisar que 2027 vai ser o pior ano de todos nesta crise e que a procura deverá continuar maior do que a oferta mesmo depois de 2030.

Também não adianta torcer pelo “rebentamento da bolha da IA”, uma vez que o nível de investimento associado às gigantes do setor é hoje tão grande que isso provavelmente afundaria o mundo numa depressão económica de níveis catastróficos.

A escolha forçada: por que razão não terá nada?
Com a combinação desta provável concentração de rendimento acelerada pela IA e pelos robôs, somada aos aumentos de preços de todo o tipo de produtos devido à crise das memórias, um futuro em que não seremos donos de nada parece-me cada vez mais inevitável. Não por causa de uma realidade utópica em que os produtos como serviço são melhores e mais baratos – a merdificação encarregar-se-á de eliminar o que surgir nesse sentido –, mas sim porque, em breve, a maioria de nós já não terá o poder de compra necessário para possuir algo próprio.

E aí, o que resta para todos nós, os 99% de não-milionários, é escolher entre três opções bastante difíceis: ou aceitamos a crescente realidade em que tudo é um serviço por subscrição e nos submetemos aos caprichos das Big Techs, ou desistimos de tudo e acabamos cada vez mais marginalizados e desatualizados, ou então apertamos os cintos para resistir por conta própria enquanto exigimos a políticos e entidades reguladoras legislações que, para ser sincero, provavelmente virão tarde demais.

Se, como eu, acha a terceira opção mais interessante, então a forma de resistir é estudar. Como utilizar sistemas abertos como as diferentes distribuições de Linux? Como fazer jailbreak em dispositivos como smartphones para estender o seu suporte de hardware por mais tempo? Como montar um servidor próprio (NAS) usando o que tiver de máquinas velhas em casa para armazenar os seus ficheiros e centralizar os seus conteúdos multimédia sem depender de nuvens pagas? Como reaproveitar tablets e portáteis antigos para dar uma nova vida a equipamentos que iriam para o lixo? Estes conhecimentos não vão mudar o contexto macroeconómico que nos trouxe até aqui, mas são o único escudo real para o ajudar a continuar no controlo da sua própria vida digital, na medida do possível.

Ler mais:
Sophia Harris (2015) - Netflix helps reform hard-core movie pirates, but at a cost
Mauritaz Wagner (2020) - The effect of Netflix on movie piracy and its impact on the movie industry
Sarah Frick, et al (2023) - Pirate and chill: The effect of netflix on illegal streaming

TR/ST - Gloryhole

Melhor som aqui
Letra

Warmth of your shiny breast
This season gives you white
Persistence and practice
My begging mother
Please hold me tight

[refrão] 2X
Wasted youth is smoldering
Our lust fell in from stars
Shall only pass this once
Devote only so far
Warmed as your season
Consistently white
Expensive swallow fills my throat
Warned off the preaching in wavering white
Lost in glossy now I know

"Gloryhole" dos TR/ST: significado, estética Queer e música de Intervenção
Apesar de surgir num contexto de música eletrónica de clube e de estética soturna, Gloryhole pode ser interpretada sob o prisma da música de intervenção, ainda que distanciada dos moldes tradicionais do protesto político direto. Em vez de utilizar panfletos ideológicos ou palavras de ordem explícitas, a canção atua como uma forma de intervenção social, corporizada e existencial ao dar voz à margem, ao anonimato e ao desejo dissidente. O próprio termo refere-se a um buraco numa divisória, habitualmente em casas de banho públicas ou espaços clandestinos, projetado para práticas sexuais anónimas sem contacto interpessoal direto. Enquanto a música de intervenção clássica se foca na denúncia de instituições, na crítica económica ou no combate a regimes, o TR/ST opera no plano da política do corpo. Ao centrar a narrativa no erotismo anónimo, no desejo visceral e nos espaços subterrâneos da subcultura queer, a canção recusa a higienização e a assimilação da identidade por parte das normas heteronormativas e da moralidade burguesa. Reivindicar a obscuridade, a abjeção e o perigo do desejo cru torna-se uma tomada de posição subversiva que nega a necessidade de pedir licença para existir.

O conceito do gloryhole representa uma arquitetura da clandestinidade que, historicamente, nasceu da sobrevivência e da fuga à perseguição policial e social. Ao trazer esta realidade erótica e marginal para o centro da obra, a música intervém no espaço público e força o ouvinte a confrontar geografias subterrâneas de prazer e dor que a sociedade prefere invisibilizar, transformando o estigma num espaço de validação da memória e de libertação. Esta dimensão de protesto cultural é amplificada pela popular associação visual ao filme Funeral Parade of Roses, de Toshio Matsumoto, conectando a sonoridade de TR/ST à história da contracultura queer dos anos 60 e à luta pelo direito à existência fora dos padrões impostos.

Neste cenário, o hedonismo sombrio e os versos que evocam uma juventude desperdiçada funcionam como uma resposta existencial ao desespero do mundo contemporâneo. Perante um futuro incerto ou sufocante, entregar-se ao efémero e encontrar beleza no que é rotulado de impróprio torna-se uma ferramenta de sobrevivência imediata, afirmando que o corpo e a vida pertencem ao indivíduo e não ao controlo social. A nível sonoro, a fusão de darkwave e EBM com vocais guturais atua como um manifesto contra a sonoridade comercial genérica, criando no espaço do clube subterrâneo um santuário de transe coletivo onde o trauma, a solidão e a vergonha são expurgados através da dança. Assim, a intervenção aqui não é partidária, mas sim profundamente política na forma como usa o corpo, o desejo e a transgressão estética para resistir à norma e resgatar a liberdade individual.

Mais info:
TR/ST (Album) wikipedia

domingo, 26 de julho de 2026

The Smashing Pumpkins e "Zero": niilismo de Nietzsche, o primeiro alter-ego de Billy Corgan e a tragédia que mudou o rumo da banda

Melhor som aqui
Letra
[Verse 1]
My reflection, dirty mirror
There's no connection to myself
I'm your lover, I'm your zero
I'm the face in your dreams of glass

[Pre-Chorus]
So save your prayers
For when we're really gonna need 'em
Throw out your cares and fly
Wanna go for a ride?

[Chorus]
She's the one for me
She's all I really need, oh yeah
She's the one for me

[Bridge]
Emptiness is loneliness
And loneliness is cleanliness
And cleanliness is godliness
And God is empty just like me

[Verse 2]
Intoxicated with the madness
I'm in love with my sadness
Bullshit fakers, enchanted kingdoms
The fashion victims chew their charcoal teeth

[Pre-Chorus]
I never let on
That I was on a sinkin' ship
I never let on that I was down

[Guitar Solo]

[Pre-Chorus]
You blame yourself
For what you can't ignore
You blame yourself for wanting more

[Chorus]
She's the one for me
She's all I really need, oh yeah
She's the one for me
She's my one and only

Mergulho no abismo do niilismo e na mente de Billy Corgan para desvendar um dos capítulos mais explosivos e trágicos do rock alternativo dos anos 90. 
Se em "The Everlasting Gaze" assistimos a um Billy Corgan focado no gnosticismo e no despertar espiritual, foi anos antes, em "Zero", que o músico atingiu o ponto mais alto do niilismo dos anos 90.

Lançada em outubro de 1995 como uma das faixas mais emblemáticas do lendário álbum duplo Mellon Collie and the Infinite Sadness, "Zero" marcou um ponto de viragem definitivo na carreira dos The Smashing Pumpkins. Antes de Billy Corgan mergulhar no gnosticismo e na busca espiritual de "The Everlasting Gaze", foi em "Zero" que o músico atingiu o ponto mais alto da apatia e da dor existencial. A canção destaca-se de imediato pelo seu riff pesado e cortante em afinação drop D, pontuado por um uso brilhante de harmónicos de guitarra modulados com efeitos de flanger e whammy, conferindo ao tema uma sonoridade mecânica, agressiva e quase industrial.

Apesar de já terem passado mais de três décadas desde o seu lançamento, o impacto de "Zero" e da era Mellon Collie continua a ecoar na cultura pop e na história da música. O álbum, que vendeu mais de 10 milhões de cópias só nos Estados Unidos e alcançou a certificação de Diamante, provou que a banda conseguia rivalizar com o fenómeno do grunge mantendo uma visão estética grandiosa. A fusão única de heavy metal, rock industrial e shoegaze pesado abriu caminho e influenciou diretamente a sonoridade de bandas como Deftones, Marilyn Manson, Garbage e grande parte do movimento nu metal do final da década de 90.

O videoclipe oficial do tema foi assinado pela aclamada artista visual e fotógrafa tcheca Yelena Yemchuk, na altura namorada de Corgan e responsável por toda a identidade gráfica de Mellon Collie. O clipe abdica de uma narrativa linear para apostar numa atmosfera barroca, soturna e claustrofóbica. Filmado numa sala decadente com iluminação fria e sombras profundas, o vídeo coloca a banda a atuar enquanto é observada em silêncio por espetadores voyeuristas e enigmáticos. O objetivo do vídeo foi tecer uma crítica crua à objetificação dos artistas pela indústria cultural, capturando a sensação de isolamento, a paranóia trazida pela fama e a desconexão da banda com o mundo exterior.

Durante este período, Billy Corgan encarnou a estética da canção através do seu primeiro alter-ego, "Zero": cabeça completamente rapada, calças prateadas e a icónica t-shirt preta com a palavra ZERO e o logótipo do coração na manga. Esta persona funcionava como a personificação do niilismo, da dormência emocional e da alienação da "Geração X". É precisamente esta figura que, anos mais tarde, na narrativa do álbum Machina/The Machines of God, "morre" para renascer como a personagem Glass.

Tanto a letra como o conceito por trás de "Zero" estão fortemente impregnados de referências filosóficas e literárias. A constante alusão ao vazio em versos marcantes como "God is empty just like me / Emptiness is loneliness, and loneliness is cleanliness / And cleanliness is godliness, and god is empty just like me" reflete a marca do niilismo de Friedrich Nietzsche e do existencialismo europeu, abordando a perda de absolutos e o absurdo da existência. A par do pensamento nietzschiano, a canção e o álbum duplo absorveram a melancolia trágica e o tom dramático dos poetas do Romantismo (como William Blake e Lord Byron), enquanto a estrutura conceptual da obra evocava uma perda da inocência infantil próxima da literatura de transição do século XIX e do universo de Alice no País das Maravilhas.

No entanto, a verdadeira dimensão e a tragédia da era Mellon Collie acabariam por ser severamente marcadas em julho de 1996, em Nova Iorque, no auge da digressão mundial. O teclista contratado Jonathan Melvoin morreu num quarto de hotel vítima de uma overdose de heroína. O baterista Jimmy Chamberlin, que estava presente na mesma noite e também sofreu uma overdose, sobreviveu, mas o incidente levou a banda a tomar a decisão drástica de o demitir devido ao seu historial crónico de toxicodependência.

O choque emocional causou um trauma profundo no grupo e a ausência forçada da bateria orgânica e virtuosa de Chamberlin mudou radicalmente a orientação artística dos The Smashing Pumpkins. Este trágico acontecimento forçou-os a abandonar as guitarras pesadas e a enveredar por uma sonoridade eletrónica, acústica e profundamente soturna no álbum seguinte, Adore (1998). É precisamente esta transição entre o peso de "Zero", a dor de Adore e a busca espiritual de Machina que faz do percurso da banda uma das jornadas artísticas mais fascinantes e complexas do rock moderno.

Porque é que a Inteligência Artificial consome tanta energia e água?


Toda a pergunta feita a um chatbot - até um simples "bom dia"- passa por servidores que consomem eletricidade. Na maioria dos casos, essa infraestrutura também usa água para arrefecimento, o que torna esse consumo hídrico um dos principais pontos de tensão sobre a sustentabilidade da IA.

De acordo com o relatório de eletricidade da Agência Internacional de Energia (IEA), os centros de dados consumiram cerca de 415 terawatt-hora (TWh) em 2024, perto de 1,5% de toda a eletricidade do planeta, com previsão de duplicar até 2030.

Mas o que mais preocupa é que boa parte dos centros de dados já opera em regiões com stresse hídrico, aumentando a pressão sobre um recurso escasso e mal distribuído.

Vejamos a seguir por que razão os modelos de IA consomem tanta energia e água, como funcionam os centros de dados por trás desta tecnologia e quais as soluções que as empresas testam para reduzir este impacto.

Por que razão a inteligência artificial consome tanta energia?
O principal motivo do consumo elevado é o processamento paralelo em escala industrial. Treinar um modelo de linguagem exige milhares de GPUs a operar simultaneamente durante semanas, analisando volumes massivos de dados até ajustar mil milhões de parâmetros.

Mas o consumo não termina com o treino. Cada nova pergunta feita a um chatbot ativa esse modelo novamente - e são mil milhões dessas consultas por dia, sustentando uma procura contínua por eletricidade.

O funcionamento constante gera calor, que precisa de ser dissipado por sistemas de arrefecimento. É por isso que, além da energia, o consumo de água também entra na equação dos centros de dados.

Uma análise publicada pela MIT Technology Review estima que treinar o GPT-4 consumiu cerca de 50 gigawatt-hora, energia suficiente para abastecer a cidade de São Francisco durante três dias inteiros.

Mas esse gasto de treino é pontual - a fase de uso diário, chamada de inferência, responde por entre 80% e 90% de toda a capacidade computacional da IA hoje, segundo investigadores ouvidos pela publicação.

O papel das GPUs no processamento
As GPUs (unidades de processamento gráfico) - aquelas mesmas usadas para renderizar gráficos em jogos de vídeo - ganharam com a IA um novo papel. Elas conseguem realizar milhões de cálculos ao mesmo tempo, algo essencial para treinar e executar os sofisticados modelos de linguagem.

Hoje, chips avançados, como o H100 da Nvidia, são projetados especificamente para este tipo de tarefa intensiva; consomem grandes quantidades de energia e exigem sistemas robustos de refrigeração para evitar o sobreaquecimento.

Em centros de dados de grande porte, é comum encontrar mais de 10 mil GPUs a funcionar em conjunto. Quanto maior o modelo de IA, mais chips são necessários - e maior o consumo total de eletricidade.

Por que razão a IA também consome água?
Como os servidores aquecem absurdamente, boa parte dos centros de dados usa água para os arrefecer o tempo todo e evitar falhas por sobreaquecimento. Outros, porém, dependem apenas de arrefecimento a ar, sem uso de água.

O consumo acontece de três formas: diretamente, no arrefecimento dos centros de dados; indiretamente, na geração da eletricidade que os abastece; e também na fabricação dos componentes eletrónicos que sustentam a IA.

Esta escala só tende a crescer. Um levantamento divulgado pela aliança GDSA projeta que o uso global de água pela IA pode saltar de 1,1 mil milhões para 6,6 mil milhões de metros cúbicos até 2027 - mais da metade do consumo anual do Reino Unido.

Como funciona o arrefecimento dos centros de dados
Os centros de dados removem o calor dos servidores por meio de dois métodos principais:
  1. Arrefecimento a ar: usa ar condicionado industrial para direcionar o ar gelado pela frente dos computadores e recolher o ar quente pelo corredor traseiro dos equipamentos.
  2. Arrefecimento líquido: fixa placas com canais de água tratada diretamente sobre os processadores, ou mergulha os próprios servidores em tanques com óleo dielétrico (que não conduz eletricidade), enviando o fluido aquecido para torres externas, onde é arrefecido.
O uso de água para controlar a temperatura dos servidores

Uma análise do Lincoln Institute of Land Policy sobre o impacto hídrico e territorial dos data centers estima que um centro de dados de médio porte consome tanta água quanto uma pequena cidade. Já instalações de grande escala chegam a gastar até 19 milhões de litros (5 milhões de galões) por dia, segundo o centro de investigação.

No Texas, um estudo do Houston Advanced Research Center (HARC) projeta que os centros de dados da região vão consumir 399 mil milhões de galões de água em 2030, o equivalente a 1,51 mil milhões de metros cúbicos.

O que são os centros de dados e por que razão importam tanto?
Espécie de "cérebros" da internet, os centros de dados são instalações físicas que albergam computadores, servidores e sistemas de armazenamento de uma organização para guardar e processar dados.

No contexto da IA, a importância dos centros de dados explodiu com a chegada dos complexos de hiperescala (Hyperscale), que revolucionaram a infraestrutura física ao trocar processadores comuns (CPUs) por superchips (GPUs e TPUs) focados em cálculos massivos.

O sobreaquecimento sem precedentes gerado por estes superchips exigiu a troca do ar condicionado tradicional por sistemas de arrefecimento líquido direto no chip. Mas quem realmente empurra o consumo elétrico para um patamar monstruoso são os próprios chips - a ponto de empresas de tecnologia estarem a comprar e a reativar centrais nucleares dedicadas para dar conta da procura.

Neste cenário, estas estruturas gigantescas tornaram-se o epicentro de uma corrida geopolítica por infraestrutura e capacidade computacional, na qual o grande desafio é garantir respostas em tempo real e, ao mesmo tempo, conter a procura por energia.

Infraestrutura necessária para executar modelos de IA
A operação de um modelo de IA depende de uma cadeia de equipamentos interligados. Entre os principais estão:
  1. Servidores com GPUs e CPUs: processam e armazenam os dados dos modelos;
  2. Sistemas de armazenamento: guardam dados de treino e backups;
  3. Equipamentos de rede: conectam os servidores entre si e à internet;
  4. Sistemas de arrefecimento: mantêm a temperatura sob controlo e evitam falhas;
  5. Geradores e baterias de emergência: garantem funcionamento contínuo durante cortes de energia.
Quais são os impactos ambientais da IA - e o que estão as empresas a fazer?
A IA gera impactos ambientais concretos, como emissões de carbono, consumo excessivo de água e lixo eletrónico, enquanto as empresas de tecnologia testam soluções que ainda não resolvem completamente o problema.

Segundo um artigo de investigação da Penn State University, o crescimento dos centros de dados amplia as emissões de gases de efeito de estufa, uma vez que boa parte da eletricidade usada ainda vem de fontes fósseis.
As iniciativas das empresas ainda não cobrem todos os riscos potenciais e efetivos.

Principais riscos ambientais:
  1. Emissões de carbono ligadas à eletricidade de origem fóssil;
  2. Stresse hídrico em regiões que já enfrentam escassez de água;
  3. Geração de lixo eletrónico pela vida útil curta das GPUs;
  4. Uso de geradores a gasóleo como reforço energético, poluindo o ar local.
Iniciativas para reduzir o impacto:
  1. Arrefecimento por imersão ou circuito fechado, que poupa água;
  2. Contratos de energia sem emissão de carbono, como o acordo assinado pela Microsoft para reativar a central nuclear de Three Mile Island;
  3. Metas de "zero água" para arrefecimento assumidas por grandes empresas de tecnologia;
  4. Modelos de IA menores e mais eficientes, treinados para tarefas específicas.
Mesmo com os avanços, investigadores do Lincoln Institute of Land Policy afirmam que a falta de transparência das empresas dificulta medir o real impacto ambiental da IA no mundo.

O futuro da inteligência artificial será mais sustentável?
A resposta a esta pergunta ainda é um grande ponto de interrogação: as soluções em desenvolvimento podem reduzir o consumo por tarefa de IA, mas a procura por centros de dados cresce mais rápido do que qualquer refinação conseguiria compensar.

Investigadores da Penn State University sobre eficiência energética e IA apontam que, sem mudanças, os centros de dados podem responder por até 20% do consumo elétrico global entre 2030 e 2035, pressionando redes já sobrecarregadas.

A eficiência energética por watt tem melhorado a cada nova geração de chips, reduzindo a energia gasta em cada cálculo - mas não ao ritmo necessário para compensar o crescimento da procura. Modelos de IA menores, treinados para tarefas específicas, também ajudam a evitar o desperdício de capacidade.

Para tornar o setor mais transparente, a União Europeia exige, desde 2024, através do regulamento de monitorização da Comissão Europeia, que os centros de dados comuniquem o seu consumo de energia e água. Contudo, o primeiro ciclo de relatórios mostrou falhas: apenas cerca de um terço das instalações enviou dados, e os números do consumo de água continuam pouco fiáveis.

As perspectivas apontam que, mantido o ritmo atual, a IA tende, sim, a tornar-se mais eficiente - mas não necessariamente mais sustentável.

O grande problema da IA não é apenas quanto cada sistema consome, mas quantas vezes é utilizado: quanto mais pessoas recorrem a chatbots e geradores de imagem, maior é a pressão sobre recursos naturais já escassos.

Formulada assim, a pergunta certa é: até que ponto a conveniência de uma resposta instantânea da IA vale o custo ambiental por trás dela - e quem deve pagar essa conta?

Xénia - A regra de Zeus

Zeus Xenios-Philoxenon
A Odisseia de Christopher Nolan pode não ser totalmente fiel ao poema épico de Homero mas tem o dom de por toda a gente a falar desta obra fundamental que, com a Ilíada, fundou a chamada civilização ocidental. Interessa pouco a escolha dos intérpretes  de alguns personagens, pois no fundo todos eles são inadequados já que não há gregos entre o cast, o que até é bastante insultuoso para a Grécia. 

Adiante. O que mais importa na Odisseia é que se tornou numa obra universal e ainda hoje pode ser entendida por todos, desde japoneses a congoleses: é um épico de provação e superação das dificuldades que podia ocorrer em qualquer civilização. E está tão bem relatado, que se torna no primeiro livro de aventuras digno desse nome. E a regra de Zeus (xénia), da hospitalidade obrigatória aos que chegam, de dar comida, bebida e abrigo sem perguntar nada e a gratidão intrínseca que os migrantes devem ter aos seus hospitaleiros ainda hoje tem eco nos migrantes actuais. 

Essa regra foi quebrada por Ulisses e também por alguns dos hospitaleiros, como Polifemo, e isso levou às desgraças que cada um teve de sofrer. E esta regra de Zeus não podia ser mais actual, pois ainda hoje a quebramos constantemente com os emigrantes, sejam os desgraçados africanos que atravessam o Mediterrâneo, sejam os hindus que povoam Lisboa que são rejeitados pela extrema-direita, sejam os latinos expulsos pelo ICE nos EUA. 

Daí o termo xenófobo, que é o contrário de bem-receber e à regra de Zeus, que podia ser de Deus, o tal que unificou o Olimpo num só omnipotente ser divino, que com todos os seus poderes não consegue aplacar as atrocidades que se cometem todos os dias contra emigrantes e não só.

Ler mais:
Deconstruction in a nutshell : a conversation with Jacques Derrida

sábado, 25 de julho de 2026

The Smashing Pumpkins e "The Everlasting Gaze": gnosticismo e o novo alter-ego de Billy Corgan

Melhor som aqui
Letra
[Refrain]
You know I’m not dead
You know I’m, you know I’m not dead
You know I’m not dead

[Verse 1]
Now you know
Where I’ve been
As you sleep
Torn I am
Weighted down
Patiently
Born of love

[Pre-Chorus 1]
You know I’m, you know I’m not dead
I’m just living in my head
Forever waiting

[Chorus]
On the ways of your desire
You always find a way
And through it all
Into us all you move
Forgotten touch
Forbidden thought
We can never have enough

[Refrain]
You know I’m not dead
You know I’m, you know I’m not dead
You know I’m not dead

[Verse 2]
Found below
The creatures scream
Stranglehold
A god machine
Begging to
Tear us out
What is hell?

[Pre-Chorus 2]
You know I’m, you know I’m not dead
I’m just the tears inside your head
Forever waiting

[Chorus]
On the ways of your desire
You always find a way
And through it all
Into us all you move
Forgotten touch
Forbidden thought
We can never have enough
You know I’m not dead

[Bridge]
We all want to hold in the everlasting gaze
Enchanted in the rapture of his sentimental sway
But underneath the wheels lie the skulls of every C.O.G
The fickle fascination of an everlasting god

[Pre-Chorus 3]
You know I’m not dead
I’m just living in my head
Forever waiting
Forever waiting a cruel death
You know I’m not dead
I’m just living for myself
Forever waiting

[Outro]
You know I’m not dead (4X)

Mergulho no abismo de Nietzsche e na mente de Billy Corgan para desvendar um dos temas mais intensos do rock.
Lançada no final de 1999 como o primeiro single do álbum Machina/The Machines of God (2000), "The Everlasting Gaze" é uma das composições mais emblemáticas e ferozes dos The Smashing Pumpkins. A canção destaca-se de imediato pelo seu riff grave e potente em afinação drop D, acompanhado pela bateria frenética e técnica de Jimmy Chamberlin.

Apesar de já terem passado mais de duas décadas e meia desde a sua edição, o legado da faixa e da banda continua a atravessar e a influenciar sucessivas gerações de ouvintes e músicos. A capacidade do grupo para misturar peso esmagador com melodias sombrias serviu de inspiração direta para grandes nomes do rock alternativo e post-grunge, tais como Silversun Pickups, My Chemical Romance, Deftones e Placebo.

O videoclipe oficial do tema, assinado pelo aclamado realizador sueco Jonas Åkerlund, marcou o arranque visual de uma nova era para a banda ao apresentar a estreia da baixista canadiana Melissa Auf der Maur, que assumiu o instrumento após a saída de D'arcy Wretzky. O clipe abdica de uma narrativa tradicional para apostar numa estética de ensaio crua, claustrofóbica e altamente energética. Filmado num espaço fechado sob uma iluminação fria e com cortes de câmara caóticos, o vídeo coloca em evidência a atitude magnética, os cabelos ruivos e a presença marcante de Auf der Maur, cuja imagem sensual e postura de palco trouxeram um dinamismo renovado ao grupo no ecrã. O objetivo do vídeo foi capturar a intensidade e a catarse visceral da banda, desnudando as ilusões do espetáculo para focar inteiramente no som.

No entanto, a verdadeira dimensão de "The Everlasting Gaze" vai muito além da sua estética e sonoridade pesada. A canção serve como o portal de entrada para o universo concetual de Machina/The Machines of God, uma ópera rock criada por Billy Corgan sobre a evolução espiritual do seu alter-ego: a personagem Zero (figura niilista da era Mellon Collie), que, após ouvir a voz de Deus, renasce com o nome Glass e decide fundar a banda Glass and the Machines of God.que, após ouvir a voz de Deus, decide fundar uma banda chamada The Machines of God.

Tanto a letra como o conceito do álbum estão fortemente impregnados de referências filosóficas e literárias. O próprio título da canção faz uma alusão direta ao famoso aforismo do filósofo alemão Friedrich Nietzsche em Para Além do Bem e do Mal: "Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não se tornar também um monstro. E se olhares muito tempo para um abismo, o abismo também olhará para ti." A par do pensamento nietzschiano, a canção mergulha profundamente na filosofia do Gnosticismo, uma corrente espiritual dos primeiros séculos que defendia que o mundo material fora criado por uma entidade imperfeita e que a verdadeira salvação residia no Gnosis - o conhecimento interior e intuitivo da essência divina aprisionada na matéria.

Em "The Everlasting Gaze", a lente gnosticista manifesta-se no desejo de rutura com o mundo material, marcado pela fama e pelas ilusões do Ego ("You know I'm not dead..."), e na busca implacável por esse "olhar eterno" interior. Para alcançar a libertação espiritual, a personagem precisa de rasgar as expetativas externas e encarar a sua própria sombra, gerando uma constante tensão entre a fragilidade da carne e o anseio pela transcendência.

Esta complexidade temática reflete o ecletismo musical de Billy Corgan, cujo som resultou de uma fusão singular de múltiplas influências absorvidas na juventude. A paixão pelo hard rock e metal clássico de bandas como Black Sabbath, Judas Priest e Cheap Trick trouxe o gosto pelos riffs pesados e solos virtuosos. Por sua vez, a parede de som etérea e textural do shoegaze e dream pop de My Bloody Valentine e Cocteau Twins permitiu-lhe sobrepor dezenas de camadas de guitarras em estúdio. A atmosfera melancólica e gótica do post-punk de The Cure, Joy Division e Bauhaus moldou a vulnerabilidade das suas letras e o tom do seu baixo, enquanto a ambição conceptual do rock progressivo de Pink Floyd e Rush encorajou a criação de álbuns narrativos. Por fim, o fascínio pelos sintetizadores e ritmos industriais da new wave de Depeche Mode e Kraftwerk adicionou a textura moderna que culminou na sonoridade de Machina. É precisamente a junção da fúria do metal, com a atmosfera do shoegaze, a melancolia gótica e a profundidade gnosticista que faz de "The Everlasting Gaze" uma obra-prima singular no rock alternativo.

Girinos de Sintra ajudam a compreender como anfíbios lidam com o aquecimento do planeta

Uma investigação liderada por cientistas portugueses descobriu que os girinos desta espécie adaptam a sua dieta para compensar o aumento do gasto de energia causado pela subida da temperatura da água em que se desenvolvem.

Os anfíbios são considerados o grupo de vertebrados mais ameaçados do mundo. Estima-se que cerca de 41% de todas as espécies a nível global corram risco de extinção e as populações dessa classe continuam em declínio.

Entre 1980 e 2004, 91% do agravamento dos estatutos de conservação dos anfíbios foi causado por doenças e perda de habitat. Desde então, as alterações climáticas têm vindo a assumir uma dimensão cada vez mais destacada no rol de ameaças enfrentadas por esses animais, uma ameaça cujos efeitos são amplificados pela incessante destruição dos locais onde vivem.

Com aproximadamente duas em cada cinco espécies de anfíbios atualmente a serem empurradas cada vez mais para o precipício da extinção, os cientistas pedem medidas urgentes para conservar os seus habitats e aplacar as causas das grandes perdas.

Uma das grandes “leis” das ciências que se dedicam à conservação da Natureza dita que não se pode proteger o que não se conhece. Por isso, saber como os anfíbios, e outros organismos, lidam com os efeitos das alterações climáticas é fundamental para saber como e onde é preciso agir.

Um grupo de investigadores, liderado por cientistas do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, descobriu que um sapo que ocorre na Península Ibérica, sul de França e norte de África é capaz, quando ainda na forma de girino, de se adaptar ao aumento da temperatura da água onde está a desenvolver-se. Contudo, essa capacidade tem limites, que poderão ser duramente postos à prova à medida que a temperatura média da Terra sobe cada vez mais, porque os humanos continuam a lançar na atmosfera gases com efeito de estufa.

Mudar hábitos alimentares
Tal como os répteis e a maioria dos peixes, os anfíbios são animais ectotérmicos, ou, se quisermos, de “sangue frio”. Isso significa que a sua temperatura corporal é essencialmente regulada pela temperatura do meio envolvente. Assim, a temperatura da água em que os girinos nascem e crescem pode não só determinar se se desenvolvem de forma saudável e se poderão vir a ter problemas de saúde quando forem adultos, mas também, em última instância, a sua sobrevivência.

Em águas mais quentes, o metabolismo dos animais acelera, gastando mais energia e, por isso, obrigando a consumir mais calorias para manterem um bom peso corporal. Num artigo publicado na revista ‘Scientific Reports’, os investigadores descobriram que os girinos do sapo-comum (Bufo spinosus) são capazes de alterar o que comem consoante a temperatura da água.

Para isso, criaram, em laboratório, girinos capturados na Serra de Sintra, com diferentes condições de temperatura de 12, 16 e 20 graus Celsius, e com regimes de alimentação distintos.

Ao estudarem os pequenos sapos, percebeu-se que, quando a água estava mais fria, consumiam mais alimentos de origem animal, neste caso, larvas de mosquitos. Contudo, em águas mais quentes, os girinos comiam mais matéria vegetal (espinafres, nesta experiência) e aumentavam a taxa de consumo.

À ‘Green Savers’, Sara Bento, investigadora do CE3C e primeira autora do estudo, diz que essa adaptação da dieta à temperatura da água permite aos girinos de sapo-comum “reduzir alguns dos efeitos negativos associados ao aumento da temperatura”. No entanto, avisa que essa capacidade tem limites, pois, a partir de determinado ponto, quando a água se torna demasiado quente, é possível que não haja mudança de dieta que permita aos pequenos anfíbios dar a volta ao problema da perda de energia.

“Nessa situação, mesmo uma alimentação equilibrada e considerada ótima pode deixar de ser suficiente para compensar os custos metabólicos”, salienta a cientista.

E os limites dessa capacidade de adaptação são especialmente pressionados quando a temperatura da água está acima da média durante muito tempo ou durante ondas de calor. Como este estudo apenas testou temperaturas até aos 20 graus, Sara Bento diz que não foi possível saber ao certo a partir de que temperatura essa capacidade é anulada, o que, para se descortinar, exigirá novas investigações com temperaturas mais elevadas.

Desenvolvimento mais rápido, mas pior condição física
A investigação revelou também que, em águas mais quentes, os girinos de sapo-comum desenvolvem-se mais rapidamente, mas, quando na forma final, acabam por ficar mais pequenos do que sapos que se desenvolveram em águas mais frias e apresentam pior condição física.

“Esta relação já é amplamente conhecida em animais ectotérmicos e é designada por regra ‘temperatura–tamanho’”, explica Sara Bento. “Em condições mais quentes, o desenvolvimento tende a acelerar mais do que o crescimento, fazendo com que os animais atinjam a maturidade com menor tamanho corporal.”

Assim, os girinos que passaram a sua fase larvar em águas mais quentes podem, após a metamorfose, transitar para terra firme com menos peso e também com menos reservas de energia. E isso, segundo a investigadora, “pode afetar o seu desempenho durante as fases juvenil e adulta no meio terrestre”. Ainda assim, é possível, se bem que não certo, que os sapos-comuns que saiam da água mais pequenos possam recuperar quando na porção semiaquática das suas vidas e compensar os problemas causados pelas temperaturas mais altas das águas onde se desenvolveram.

Por isso, Sara Bento diz-nos que “os nossos resultados não nos permitem afirmar que este efeito, isoladamente, represente uma ameaça à sobrevivência da espécie”. No entanto, reconhece que apontam para um “potencial fator de risco”, que descreve como “importante”, especialmente se o aumento da temperatura da água se conjugar com outros fatores como a falta de alimento, a seca ou a predação.

Além dos efeitos da temperatura no desenvolvimento dos sapos, este trabalho mostrou também que águas mais quentes alteram as concentrações de azoto e de carbono nos tecidos dos animais na forma final, ou seja, nas fases juvenil e adulta das suas vidas.

Isso sugere que, em temperaturas mais elevadas, os girinos têm mais dificuldade em manter “o equilíbrio dos nutrientes no organismo”, como refere a cientista, o que pode resultar de alterações na dieta que o animal faz para compensar os efeitos das temperaturas mais elevadas.

Ainda que tal não tenha sido avaliado neste estudo, Sara Bento não põe de parte a possibilidade de os sapos, quando deixam a fase larvar, poderem vir a recuperar o equilíbrio dos nutrientes nos seus tecidos. Mas é possível que esse desequilíbrio possa tornar os sapos-comuns, pelo menos os juvenis que saíram de águas mais quentes, presas menos nutritivas para os predadores que deles se alimentam.

É preciso saber mais para se poder proteger
O sapo-comum está classificado na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza com o estatuto de “Pouco preocupante”, pelo que não é considerado uma espécie em risco de extinção. Esse estatuto está também refletido no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal de 2005, quando ainda tinha do nome científico Bufo bufo.

No Atlas dos Anfíbios e Répteis de Portugal, lançado em 2008, é dito que o sapo-comum é uma espécie que se encontra “de forma contínua” de norte a sul do país. Contudo, de acordo com a mesma fonte, esta espécie anteriormente considerada “muito abundante”, estava, na altura, a sofrer “um declínio generalizado das suas populações em grande parte da Península Ibérica e, em particular, nas zonas mais secas”. Essa queda em muito se deve, escreviam os especialistas, à destruição dos seus locais de reprodução, a explosões nocivas de algas nos charcos e albufeiras onde vivem por causa da pecuária intensiva, à competição com espécies exóticas e até à perseguição que lhes é lançada pelos humanos, por aversão.

Além disso, estes sapos podem percorrer vários quilómetros para chegarem aos locais de reprodução, pelo que sofrem uma elevada mortalidade por causa de atropelamentos.

Porém, “não existem dados recentes suficientes para caracterizar, com segurança, a atual tendência populacional desta espécie em Portugal”, diz Sara Bento. Por isso, defende que seria importante “uma atualização” das informações sobre os sapos-comuns no país, “baseada em monitorização padronizada da distribuição, abundância e sucesso reprodutor das populações”.

“Só com esses dados será possível detetar declínios, identificar as suas causas e avaliar de forma mais rigorosa o possível agravamento do estatuto de conservação desta e de outras espécies”, declara a investigadora do CE3C.

Para já, diz que “a prioridade deve ser proteger os habitats de reprodução a nível local”, como charcos, lagoas e troços de ribeira, para assegurar que conservam água “durante tempo suficiente para os girinos completarem a metamorfose”.

“Com o aumento previsto das temperaturas e dos eventos climáticos extremos como ondas de calor e secas severas na região mediterrânica, esse período com água poderá tornar-se mais curto e irregular”, avisa. Por isso, sublinha que é importante “limitar a drenagem e a captação de água durante a época de reprodução, preservar a qualidade da água e a vegetação ribeirinha, manter zonas com sombra que funcionem como refúgios térmicos e recuperar ou criar redes de charcos com diferentes profundidades”.

E essas medidas não beneficiariam apenas os sapos-comuns, mas também “muitas outras espécies de anfíbios e organismos dependentes destes ecossistemas”, assegura.

Colocando o sapo-comum no lugar de protagonista, servindo como “espécie-modelo”, esta equipa de cientistas quis perceber como é que animais ectotérmicos, especialmente os anfíbios, respondem ao aumento da temperatura, traço indelével das alterações climáticas que atualmente assolam o planeta.

Mas Sara Bento diz que os mecanismos que ela e a restante equipa observaram durante esta investigação “poderão ser relevantes para muitas outras espécies, incluindo espécies com estatuto de ameaça mais preocupante”.

Além do CE3C, este trabalho envolveu também o Laboratório Associado TERRA, o CHANGE – Instituto para as Alterações Globais e Sustentabilidade, o Politécnico de Leiria, o MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente e instituições britânicas e suecas.

A Odisseia é ficção. Mas os seus monstros e magia podem ter bases científicas

Pellegrino Tibaldi (1550–1551) - Ulisses acceca Polifemo (em português: Ulisses cega Polifemo)

A Odisseia é um mito. É duvidoso que um homem tivesse demorado, literalmente, uma década a viajar desde Tróia, uma cidade situada na costa da Turquia, até à ilha grega de Ítaca após a guerra de Tróia, tivesse sido amaldiçoado para fazer amor com bruxas, viajado até ao Hades e lutado com um ciclope. Ou, se tivesse mesmo demorado assim tanto tempo, a sua maldição deveria incluir não pedir indicações.

No entanto, o relato da viagem extraordinariamente longa de Ulisses alude a coisas que as pessoas poderão ter encontrado no mundo antigo, desde um ciclope de carne e osso a remoinhos assassinos e plantas alucinogénicas. Seguem-se algumas das realidades científicas por trás das suas lendárias aventuras.

O ciclope
Na história, o ciclope Polifemo - um gigante que aprecia carne humana e, como é óbvio, tem apenas um olho no meio da cabeça - prende a tripulação de Ulisses e come alguns dos seus homens ao almoço. Ulisses cega Polifemo com uma lança aquecida e depois eles conseguem fugir, amarrados às barrigas das ovelhas de Polifemo.

Uma das hipóteses para a origem deste gigante mítico com um só olho encontra-se nos fósseis do Deinotherium giganteum, um parente do elefante que deambulou pela Europa, a Ásia e África há entre 23 e 8 milhões de anos. Paleontólogos desenterraram os seus ossos na ilha de Creta, onde os antigos gregos também os podem ter encontrado. Os crânios de elefante têm cavidades oculares relativamente pequenas, com um orifício enorme no centro. Esse orifício aloja a tromba. Contudo, uma vez que os elefantes alcançavam 4,6 metros à altura do ombro, o enorme crânio poderá ter sido confundido com a cabeça de uma pessoa gigante com um só olho.

No entanto, os gregos também poderiam estar familiarizados com a ciclopia, um defeito congénito raro e mortal, em que as órbitas oculares e o cérebro não se dividem da forma correcta durante o desenvolvimento do embrião humano. Em vez de um nariz, o feto desenvolve um apêndice tubular que aparece geralmente acima de um único olho. A ciclopia só ocorre uma vez em cada 100.000 nascimentos humanos. Infelizmente, 39 por cento são nados-mortos e os que resistem ao nascimento não sobrevivem mais do que 13 horas.

Embora seja uma condição muito rara, os cientistas estimaram que na época d’ A Odisseia, poderiam nascer cerca de 53 casos de ciclopia humana por ano em todo o mundo. Além disso, outras espécies também podem padecer de ciclopia, incluindo ovelhas, vacas e cabras - sobretudo se as progenitoras ingerirem plantas como heléboro.

O monstro e o remoinho
Ulisses escapou a Polifemo de forma inteligente, mas uma vez encurralado entre o monstro marinho Cila, com as suas seis cabeças, e o poderoso remoinho Caríbdis, já não teve tanta sorte. Perdeu a sua tripulação numa tempestade intensa. Na manhã seguinte, Ulisses encontra-se entre os dois. Esta perigosa passagem baseia-se num sítio real – o Estreito de Messina, um canal estreito entre a Calábria, na península itálica, e a ilha da Sicília.

No estreito, o Mar Jónico encontra-se com o Mar Tirreno e os dois corpos de água têm marés opostas – a maré alta no Jónico é maré baixa no Tirreno e vice-versa, diz Sergio Longhitano, sedimentologista da Universidade de Basilicata, em Itália, que publicou um artigo sobre as águas traiçoeiras do estreito em 2018. Por isso, “no meio do Estreito de Messina, existe um ponto conhecido na oceanografia como ponto anfidrómico”, diz Longhitano, onde a altura da água nunca muda.

A altura pode nunca mudar, mas as correntes mudam, acelerando até uns estimados 5 metros por segundo quando há ventos fortes ou tempestades, diz Longhitano. As correntes rápidas e em constante mudança e as marés contrastantes formam padrões estranhos na água. “Por vezes, vêm-se as correntes divergentes”, diz Longhitano. As correntes mais fortes fluem em sentidos opostos, enquanto as mais pequenas puxam para dentro. Quando as correntes que puxam para dentro fluem na mesma direcção “ou quando as duas correntes convergem, pode haver remoinhos”, diz ele. As marés desta região mudam a cada seis horas, o que significa podem surgir remoinhos no estreito várias vezes por dia. Caríbdis está sempre à espera.

Quanto a Cila, o monstro de seis cabeças, existe “uma enorme falésia que pode ser vista à distância, sobretudo ao pôr do Sol. Conseguimos ver uma forma muito escura estendendo-se em direcção ao norte do Estreito de Messina”, explica Longhitano. Embora seja impossível conhecer a inspiração exacta de Homero, este pode ser um bom sítio para um monstro.

Os comedores de lótus
Alguns encontros d’ A Odisseia acarretam menos perigos, assemelhando-se mais a festas com drogas à disposição. Ao chegar a uma ilha, Ulisses envia batedores para conhecer os habitantes, mas eles são “comedores de lótus”, que partilham deliciosos frutos de “lótus”, pondo os tripulantes num transe que os leva a abandonar as suas tarefas.

Muitas pessoas pensam imediatamente em drogas viciantes como o ópio, mas os antigos gregos conheciam as papoilas e o ópio e não lhe chamavam lótus. Além disso, o ópio é mencionado especificamente na Odisseia, como “nepente”, uma droga que Helena de Tróia mistura com vinho para ajudar os gregos a esquecerem as suas adversidades.

O que era então o lótus? Numa análise efectuada em 2020, cientistas conseguiram identificar sete géneros diferentes de plantas às quais os antigos gregos chamavam “lótus”.

Algumas são os nenúfares que podemos descrever actualmente como flores de lótus, do género Nymphaea. Mas Homero diz que o “lótus dos Lotófagos” era uma árvore e autores posteriores como Heródoto, Teofrasto e Plínio situam os comedores de lótus no norte de África, na região da cidade de Trípoli, na Líbia.

“Não conheço nenhum ‘lótus’ que cause perda de memória, diz Joe Schwarcz, químico da Universidade McGill, em Montreal, no Canadá. “Alguns historiadores supuseram que os gregos se referissem à jujubeira (ou tamareira-chinesa) como ‘lótus’.” Plantas arbustivas como a jujubeira pertencem ao género Ziziphus. As plantas deste género produzem um tipo jujuba que existe no norte de África. Este fruto não tem propriedades psicoactivas, mas pode ser fermentado e um golo de álcool é sempre bom para esquecer.

A bruxa que transformou homens em porcos
Noutra ilha, a bruxa Circe faz uma emboscada a Ulisses à a sua tripulação, causando-lhes mais problemas de memória. Fá-los beber uma poção com “drogas potentes que os fazem esquecer completamente o seu lar”. Ao beberem, os homens transformam-se em porcos. Ulisses vai libertá-los, auxiliado pelo deus Hermes, que colhe uma planta chamada moli, com raízes negras e flores brancas. Armado com a planta, Ulisses resiste à magia de Circe e salva os seus homens.

Seria necessária magia de verdade para transformar homens em porcos. Mas fazer homens acreditar que são porcos é muito mais fácil, diz Schwarcz. “Os antigos gregos conheciam certamente as plantas que tinham capacidades psicoactivas.” Plantas como a datura (Datura stromonium), frequentemente chamada figueira-do-inferno, e a beladona (Atropa belladonna) contêm compostos como atropina e escopolamina que bloqueiam os receptores de um mensageiro químico do cérebro chamado acetilcolina. “No cérebro, [este químico] participa na criação de memórias e o bloqueio da sua actividade causa alucinações e, possivelmente, delírios”, diz Schwarcz.

Quanto à “moli” que manteve Ulisses em segurança, “o antídoto para o envenenamento com atropina é a fisostigmina, que está presente no feijão-de-Calabar (Physostigma venenosum)”, diz Schwarcz. Num artigo publicado em 2022, Schwarcz também sugere que a flor branca de Ulisses pudesse ser Galanthus nivalis, que produz galantamina. Ambos os químicos bloqueiam a enzima que decompõe a acetilcolina, o que poderia aumentar os níveis do mensageiro químico. (Patologias como a doença de Alzheimer estão associadas a uma actividade reduzida da acetilcolina no cérebro e a galantamina e a fisostigmina foram ambas estudadas como tratamento.)

A Odisseia torna bem claro que as plantas podem ser remédios, mas também podem ser venenos. “A ideia mais enganadora talvez seja que “o natural é seguro” e “a natureza sabe o que faz”, diz Schwarcz.

E embora alguns dos encontros do poema épico possam ter uma base científica, um pouco de magia nunca fez mal a ninguém. É possível inventar monstros, os homens podem contar histórias sobre o submundo e as bruxas podem fazer venenos. “É apenas uma história. E numa história vale tudo”, diz Schwarcz. “As plantas podem transformar homens em porcos, embora algumas pessoas possam dizer que não são necessárias [plantas] para essa transformação.”


The Awakening - Until The Dawn

Melhor som daqui
Letra
Angels, don't you know you're my lifeline?
When I feel like letting go, I need you by my side
To make these feelings go away
To start the healing once again

Carry me through the dark, I need to know the way out

I hold my breath again as the night falls
I need to let you in through these hollow walls
And take my hand as I pray
Wipe the tears from my face

Carry me through the dark, I need to know the way out

Angels, don't you know you're my lifeline?
Carry me through the dark
Carry me through the dark, I need to know the way out

The Awakening – Until The Dawn: significado, estilo e influências da canção
A banda The Awakening é um dos projetos mais emblemáticos do gothic rock e do darkwave, fundada em Joanesburgo, na África do Sul, em 1995, pelo músico, compositor e produtor Ashton Nyte (atualmente radicado nos Estados Unidos). No tema "Until The Dawn", lançado como o primeiro single do seu décimo terceiro álbum de estúdio (The Lost Theatre), o grupo reafirma a sua identidade musical marcada pela fusão de guitarras melancólicas, ritmos pulsantes do post-punk e pelos profundos vocais barítonos característicos do seu líder. Liricamente, a canção explora a vulnerabilidade e a resiliência humana, focando-se na coragem necessária para pedir ajuda durante momentos de profunda escuridão interior e sofrimento pessoal, transformando o apelo a uma "linha de vida" (lifeline) numa celebração de esperança até ao despontar de um novo dia. Do ponto de vista conceptual e criativo, o universo artístico do projeto é fortemente moldado por influências filosóficas e literárias que vão desde o existencialismo e o romantismo sombrio do século XIX até ao pensamento distópico de George Orwell (em especial a crítica ao isolamento e ao controlo expressa em 1984), combinando de forma poética alegorias espirituais, dilemas éticos e o incessante anseio de redenção e conexão humana.

O tecido literário e filosófico no universo de Ashton Nyte
No universo criativo dos The Awakening e na escrita poética de Ashton Nyte, manifesta em temas como "Until The Dawn" do álbum The Lost Theatre, a música transcende o mero entretenimento para se tornar um espaço de profunda reflexão conceptual. A estética da banda apoia-se num diálogo constante com a literatura clássica e a filosofia existencial, moldando uma narrativa que utiliza a escuridão não como um fim absoluto, mas como o ponto de partida para a iluminação interior.

Do ponto de vista literário, a influência do Romantismo Sombrio e da tradição gótica de figuras como Edgar Allan Poe e Lord Byron é evidente na forma como a noite e a figura simbólica dos "anjos" são evocadas. Longe de uma representação estritamente teológica, o apelo a uma força protetora ou a uma "linha de vida" surge como uma metáfora romântica para a fragilidade da condição humana, a angústia da perda e a necessidade vital de ligação afetiva. A esta sensibilidade junta-se o eco da literatura distópica, em particular a visão de George Orwell em 1984. A ideia de atravessar "paredes ocas" em busca de cura e redenção reflete a luta do indivíduo contra o isolamento alienante e a perda de empatia impostos por uma sociedade fria e desumanizada. Além disso, o próprio enquadramento concetual do álbum remete para o Teatro do Absurdo de Samuel Beckett, no qual a vida é representada como um palco trágico-cómico e o ato de aguardar a alvorada se assemelha à incessante busca por sentido num mundo que parece desprovido dele.

No plano filosófico, a canção mergulha nas correntes do existencialismo de Søren Kierkegaard e Jean-Paul Sartre. A expressão explícita da dor e da vontade de desistir confronta o ouvinte com a angústia existencial e com o desespero interior. A decisão de pedir ajuda e procurar um caminho para fora da escuridão espelha o "salto de fé" de Kierkegaard - o momento em que a vulnerabilidade é aceite e convertida num ato consciente de escolha e resiliência. Esta jornada através das sombras rumo à luz estabelece também uma analogia com a Alegoria da Caverna de Platão, onde a libertação da escuridão simboliza o despertar da consciência e a ultrapassagem do sofrimento. Ao recusar o niilismo passivo e ao transformar a dor numa busca ativa por esperança, Ashton Nyte constrói uma obra em que a literatura e a filosofia se unem para guiar o ouvinte até ao despontar de uma nova alvorada.