quarta-feira, 15 de julho de 2026

Acabei de submeter o meu parecer de discordância relativamente ao Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis (PSZAER)

Ler o texto aqui


Anexei o relatório do próprio Governo (Agenda Nacional de IA) e o mais recente relatório “Global Data Centers Outlook 2026”, elaborado pela JLL.

𝐀𝐜𝐞𝐥𝐞𝐫𝐚𝐫 𝐚𝐬 𝐙𝐀𝐄𝐑 𝐚 𝐭𝐨𝐝𝐨 𝐨 𝐜𝐮𝐬𝐭𝐨? 𝐍𝐚̃𝐨 𝐚 𝐞𝐬𝐭𝐞 𝐩𝐫𝐞𝐜̧𝐨
Como o litoral e as grandes áreas metropolitanas (como Lisboa e Porto) estão com a rede elétrica severamente saturada, direcionar as ZAER para o interior ajuda a equilibrar a Rede Elétrica Nacional (REN). Ao produzir energia nestas zonas e ao acoplá-las a novos sistemas de armazenamento de grande escala (baterias), torna-se viável abastecer os grandes centros de consumo e de dados através de linhas de transporte de alta tensão que atravessam o país, sem sobrecarregar ainda mais os nós elétricos do litoral.

Isto é a narrativa por detrás das ZAER.

O grande paradoxo de toda esta história é simples: a eletricidade produzida nestes novos moldes não vai para as pessoas que vivem na região. Vai, quase toda, alimentar os servidores gigantes de multinacionais como a Amazon, a Google ou a Microsoft.

O negócio funciona através de acordos privados a longo prazo, conhecidos na gíria como PPAs (Power Purchase Agreements). Na prática, uma elétrica constrói o parque solar no Alentejo ou no interior e vende essa energia diretamente à tecnológica por um preço fechado e muito baixo durante 10 ou 15 anos. Com isto, a multinacional garante energia barata e o "selo verde" para os seus relatórios financeiros de sustentabilidade, o promotor assegura o retorno do investimento e as populações locais ficam apenas com a paisagem desfigurada e menos terra para trabalhar.

Há ainda outro pormenor que quase ninguém explica e que pesa no bolso de todos. Para que essa eletricidade viaje do interior até aos grandes centros de dados ou ao litoral, é preciso construir novas linhas de alta tensão e subestações. Quem paga esta fatura milionária de expansão da rede? Nós. O custo das infraestruturas é diluído nas tarifas de acesso à rede que aparecem na fatura da luz de qualquer família portuguesa ao fim do mês. Acabamos, no fundo, a subsidiar indiretamente a rede que serve estas tecnológicas.

A Agência Europeia do Ambiente (AEA) classifica Portugal, a par de outros países do sul do continente como Espanha, Itália e Grécia, como uma das regiões europeias mais vulneráveis e pressionadas pelo stress hídrico. A agência considera a escassez de água no território nacional um problema altamente premente que exige políticas urgentes de resiliência. Atualmente, o país encontra-se bem acima do limiar de alerta de stress hídrico da União Europeia, sendo frequentemente apontado como o sexto país com maior pressão sobre os recursos hídricos durante o período do verão. Esta classificação sazonal deve-se ao facto de o período estival combinar uma seca meteorológica acentuada com uma redução severa dos caudais dos rios e um aumento drástico das captações para a agricultura irrigada, o turismo e o consumo doméstico.

Para medir esta pressão de forma técnica, a AEA utiliza o indicador de exploração de água conhecido como WEI+, que calcula a percentagem de água doce consumida face aos recursos renováveis disponíveis em cada região. Os padrões europeus estipulam que valores acima de 20% indicam stress hídrico, ao passo que valores acima de 40% sinalizam um stress severo e um uso insustentável da água. Embora a média anual portuguesa possa parecer moderada à escala global, as análises regionais e sazonais da agência revelam que as bacias hidrográficas do sul, nomeadamente as do Sado, do Mira e do Algarve, ultrapassam com frequência e de forma alarmante o limiar crítico de 40% durante a primavera e o verão.

Claro que Portugal precisa de apostar nas renováveis e fechar as centrais poluentes. Ninguém discute isso. Mas o modelo atual tem um forte cunho extrativista: o interior arca com os custos ambientais, perde o montado ou o olival e vê a sua paisagem descaracterizada, enquanto a riqueza, a eletricidade barata e os empregos qualificados vão para as sedes das empresas e para os polos tecnológicos do litoral.

A solução não passa por travar a transição, mas por mudar as regras do jogo. O licenciamento destes grandes projetos devia obrigar à criação de comunidades de energia locais, que distribuíssem parte da eletricidade de graça ou a preço de custo a quem vive e trabalha nessas regiões. Sem regras que protejam quem lá está, as novas zonas de aceleração do interior correm o risco de ser apenas o quintal de energia barata das grandes tecnológicas.

Esta vulnerabilidade é substancialmente agravada pela elevada dependência transfronteiriça de Portugal, uma vez que o país depende fortemente dos caudais de rios internacionais como o Tejo, o Douro e o Guadiana, que nascem em território espanhol. Esta circunstância deixa a segurança hídrica nacional exposta às decisões de gestão do país vizinho, especialmente em anos de seca ibérica severa. Além disso, a AEA aponta no seu diagnóstico que o problema em Portugal é potenciado pela ineficiência no consumo, estimando que até metade da água captada para a agricultura seja perdida por sistemas de rega desatualizados, enquanto as perdas nos setores industrial e urbano também continuam elevadas. Face ao cenário de alterações climáticas, as projeções da agência apontam para reduções que podem atingir 40% nos caudais dos rios durante o verão, reforçando o aviso de que o país não pode sustentar novos projetos de consumo intensivo e inflexível de água sem uma transição urgente para a reutilização de águas residuais tratadas.

O 'bicho-de-sete-cabeças' que não é: como uma loja online unificada salvaria os museus públicos

Pelo que conheço de e-commerce, pôr de pé uma loja online que junte o espólio de mais de 30 museus e monumentos nacionais não é bicho-de-sete-cabeças, mas exige dividir os custos em dois momentos: o arranque e o dia a dia.

Para começar, o desenvolvimento do site - que tem de ser robusto para cruzar os stocks de museus diferentes -, a fotografia profissional das réplicas e livros, e a integração com sistemas de pagamento (como o MB Way, ou melhor ainda um agregador, como a Stripe ou a Adyen) e faturação ficaria entre os 21.500 € e os 43.000 €. É um investimento feito apenas uma vez.

O verdadeiro desafio está no que vem a seguir. Manter a loja viva e a faturar custaria entre 30.000 € e 61.000 € por ano. Este valor serve para pagar os servidores, o marketing digital (essencial para que os turistas saibam que a loja existe) e, acima de tudo, a logística: alguém tem de estar num armazém central a embalar as peças com cuidado e a despachar as encomendas.

Pode parecer muito dinheiro para a realidade da nossa cultura, mas as contas fazem-se depressa. Se cada cliente gastar, em média, 40 € (o preço de um catálogo e de uma lembrança), a loja só precisa de fazer 6 ou 7 vendas por dia para pagar todas as suas despesas e começar a dar lucro. Para os milhões de visitantes que os museus portugueses recebem todos os anos, isto é uma gota no oceano.

Fica claro que o problema nunca foi o preço da tecnologia, mas sim a falta de vontade política para gerir a nossa Cultura com uma visão sustentável, estratégica e promoção da Língua Portuguesa 
(P.S. sem nacionalismos ou ideologias) 

Ironia: a pretensa loja até existe, mas actualmente é um cemitério, desde 2012! . O que aconteceu? O dinheiro público foi gasto, mas as plataformas exigem manutenção contínua, interação constante entre as autarquias e a logística e como concluí, não há uma visão estratégica da Cultura Portuguesa além-fronteiras.

Neste aspecto (lojas virtuais de museus) não somos Franceses, Alemães, Holandeses nem os Países Nórdicos.

De Serralves à Vista Alegre: O sucesso das lojas digitais que o setor público devia imitar
As fundações privadas em Portugal estão, na verdade, bastante mais avançadas na transição digital do que o setor público. Como têm maior autonomia de gestão, orçamentos focados na internacionalização e processos de decisão mais ágeis, conseguiram criar plataformas de comércio eletrónico muito completas e intuitivas, que funcionam quase como montras de design e cultura.

Um dos melhores exemplos nacionais é a Loja de Serralves, no Porto, que se posiciona hoje como uma verdadeira concept store de arte contemporânea. No seu site, além de uma vasta livraria especializada em arte e arquitetura, é possível adquirir edições limitadas e numeradas de artistas consagrados, peças de decoração exclusivas, acessórios de moda desenhados por criadores portugueses e brinquedos didáticos de design premiado. Na mesma linha de excelência, as Lojas da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, dividem-se entre o catálogo do museu clássico e o do recém-renovado Centro de Arte Moderna (CAM). O seu espaço online destaca-se pela impressionante oferta de catálogos de exposições e ensaios históricos, mas também por peças de joalharia fina inspiradas na famosa coleção de René Lalique e por reproduções de azulejaria artística desenvolvidas em parcerias com galerias nacionais.

Para quem procura um nicho mais histórico e aristocrático, a Fundação das Casas de Fronteira e Alorna disponibiliza na sua loja virtual os "Cadernos da Fundação" - que reúnem investigações sobre o património barroco e a literatura dos séculos XVII e XVIII - , além de peças de azulejaria e produtos exclusivos inspirados na iconografia do próprio Palácio Fronteira. Por fim, num cruzamento perfeito entre a arte, a indústria e a preservação histórica, a Fundação Vista Alegre desempenha um papel crucial ao disponibilizar online réplicas exatas de peças de porcelana do século XIX, retiradas diretamente do espólio do seu museu histórico, bem como edições limitadas produzidas em colaboração com artistas contemporâneos globais.

A grande vantagem destas plataformas, além da óbvia comodidade de receber as peças em casa, é que muitas oferecem descontos de liquidação em livros e catálogos antigos que já não se encontram no mercado comum. Acima de tudo, comprar nestes canais digitais é uma forma direta de apoiar a sustentabilidade da cultura em Portugal, uma vez que a receita destas vendas reverte inteiramente para a manutenção do património, restauro de peças e financiamento de novas exposições e bolsas artísticas. 

Sim, os bilhetes normais são caros e proibitivos para o dia a dia. Mas conhecendo os dias específicos, podemos usufruir do melhor que estas fundações privadas têm para oferecer com o mesmo custo do programa Acesso 52 dos museus públicos: zero euros.

After The Sin - Morning Blue

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A canção "Morning Blue", da banda polaca After The Sin, destaca-se no panorama independente europeu por fundir de forma brilhante a melancolia introspetiva do darkwave e do coldwave com a energia física e pulsante da Electronic Body Music (EBM). Originária de Poznań, um importante polo da subcultura gótica na Polónia, a banda constrói em "Morning Blue" uma atmosfera que une o peso de baixos sintetizados e repetitivos a batidas eletrónicas secas e marciais, herança direta do som industrial das pistas underground dos anos oitenta. O título do tema faz um trocadilho poético entre a luz gélida do amanhecer e o estado de depressão profunda, traduzindo liricamente a paralisia emocional, o isolamento e a obsessão por um passado que o eu lírico é incapaz de superar. Essa angústia é esteticamente representada no seu videoclipe através de sombras marcantes, tons frios e cortes claustrofóbicos que confinam os integrantes nos seus próprios labirintos mentais. No campo das ideias, a composição bebe diretamente do Romantismo Sombrio do século dezanove, onde a dor e a melancolia são as expressões máximas de sensibilidade, ao mesmo tempo que dialoga com o Existencialismo de filósofos como Jean-Paul Sartre e Albert Camus ao retratar o aprisionamento da consciência e a alienação do indivíduo diante de um mundo indiferente. Concluindo, "Morning Blue" é uma obra que traduz a agonia mental contemporânea através de uma interpretação vocal fria e de um ritmo agressivo feito tanto para a reflexão filosófica como para a catarse na pista de dança.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Triggerfinger - Through The Beam

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Embora os Triggerfinger se apresentem ao mundo com a força bruta e visceral de um autêntico canhão de rock 'n' roll, a verdade é que o universo estético e lírico da banda belga esconde um subtexto intelectual refinado, onde as influências literárias, filosóficas e sociológicas se cruzam de forma surpreendente. O próprio videoclipe de "Through The Beam" é um exemplo perfeito desta fusão, servindo como uma representação visual clara da filosofia do absurdo, popularizada por Albert Camus. Ao caminharem pelas ruas movimentadas de Los Angeles vestidos com fatos de alta-costura impecáveis enquanto executam uma coreografia robótica e sem sentido prático, os músicos personificam o indivíduo existencialista que, consciente do caos e do absurdo do quotidiano, decide continuar a caminhar com ironia, elegância e leveza. Esta quebra intencional da lógica e da rotina urbana carrega também uma forte herança do Dadaísmo, utilizando o nonsense para ridicularizar as regras rígidas e utilitaristas da sociedade moderna.

Por trás do ritmo contagiante e da modernização do seu som, que agora pisca o olho ao synth bass e ao pop alternativo, reside uma crítica social muito contemporânea que dialoga diretamente com as teorias do sociólogo Zygmunt Bauman sobre a "modernidade líquida". A letra de "Through The Beam" reflete sobre a maré implacável de distrações tecnológicas e o consumismo fútil que assolam as novas gerações. Ao propor pontes e empatia entre jovens e adultos num mundo saturado de ruído digital, a banda defende a importância de manter o foco no que é humanamente essencial. Esta postura lírica é embalada por uma estética visual de "dândi moderno" fortemente influenciada pelo Decadentismo literário do final do século XIX. Ruben Block e os seus companheiros encarnam a figura do esteta aristocrático que, apesar da sua aparência imaculada, é atraído pela melancolia, pela decadência e pelo sombrio. No final, os Triggerfinger utilizam a sofisticação da filosofia e da literatura europeias como uma máscara elegante, provando que o rock mais pesado e o pensamento crítico podem perfeitamente caminhar de mãos dadas pela mesma passadeira.

Página Oficial
Triggerfinger 

Volta a Portugal quer entrar no coração do Gerês, mas ICNF ainda não aprovou a etapa


A 87ª Volta a Portugal em Bicicleta prepara-se para entrar, pela primeira vez em quase um século de história, no coração do Parque Nacional da Peneda-Gerês. O percurso anunciado para a sétima etapa da edição de 2026 atravessa a Mata de Albergaria e a Portela do Homem, uma das zonas de maior sensibilidade ecológica do país, tendo já desencadeado críticas de ambientalistas e especialistas ligados ao parque. O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), porém, ainda não deu luz verde.

A etapa, marcada para 13 de Agosto, liga Vieira do Minho às Termas do Gerês e assume um carácter inédito. Não há registos recentes de a Volta a Portugal ter atravessado a Mata de Albergaria, tendo esta incursão sido apresentada pela organização como uma estreia.

Contactado pelo PÚBLICO, o ICNF limita-se a afirmar que “recebeu um pedido de parecer sobre o percurso da Volta a Portugal em Bicicleta, que se encontra em análise”, o que significa que não existe, para já, qualquer decisão sobre a passagem pela área protegida.

Processo depende de autorizações
A Federação Portuguesa de Ciclismo sublinha que o processo segue os trâmites habituais de licenciamento e que a realização da etapa dependerá sempre das autorizações das entidades competentes.
“Como acontece com todas as provas do calendário nacional e internacional, os percursos são propostos pela organização e os respectivos processos de licenciamento encontram-se em tramitação junto das entidades competentes, às quais cabe emitir os pareceres e autorizações legalmente exigidos”, afirma Jorge Rodrigues, assessor da direcção, ao PÚBLICO.

Área de sensibilidade elevada
A Mata de Albergaria é uma zona especial do parque. Trata-se de uma Reserva Biogenética reconhecida pelo Conselho da Europa, integrada no Parque Nacional da Peneda-Gerês e na Zona Especial de Conservação.
Para Miguel Dantas da Gama, membro do Conselho Estratégico do parque, a proposta é inaceitável. “Entram no Parque pela Caniçada, sobem às Termas, Albergaria, Portela do Homem, saem para Espanha, descem a Lobios, entram no Lindoso, Britelo, sobem de novo para Brufe, barragem de Vilarinho da Furna, Covide, S. Bento da Porta Aberta, Caniçada. Inacreditável”, critica.

“Não é aceitável que, em 2026, ainda haja quem se atreva a propor este tipo de atentados contra o único parque nacional português”, acrescenta.

O especialista lembra que a estrada Mata de Albergaria–Portela do Homem atravessa precisamente a zona mais sensível do Parque Nacional Peneda-Gerês e está sujeita a regras específicas de circulação [nota embaixo]

Mais do que discutir a legalidade de eventos desportivos em áreas protegidas - admitida pela legislação desde que existam pareceres e autorizações -, o debate centra-se na oportunidade de permitir a entrada de uma das maiores operações logísticas do desporto português numa zona de elevado valor ecológico e que em 2016 sofreu um grande incêndio.

Legislação
Esta área protegida rege-se pelo Plano de Ordenamento do Parque Nacional da Peneda-Gerês (POPNPG) aprovado pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 11-A/2011 de 4 de fevereiro.

Ora esse Plano determina, no seu Artigo 8.º (Actos e actividades condicionados) que "[...] na área de intervenção do POPNPG ficam sujeitos a parecer do ICNB, I. P., os seguintes actos e actividades, quando realizados em áreas sujeitas a regimes de protecção [como é o caso da Mata de Albergaria]: "e) A prática de actividades desportivas e recreativas não motorizadas [...] bem como a realização de eventos desportivos ou recreativos, [...] excepto se previstas na Carta de Desporto de Natureza;", o que não acontece.

Não faltam locais montanhosos em Portugal onde esta competição se poderia realizar, mas acertaram logo numa área protegida, o que mostra, por um lado, a profunda iliteracia ambiental e, por outro, o enorme recuo das medidas e ações de conservação da natureza.

Fonte

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Município de Oleiros dá parecer desfavorável ao Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis (ZAER)

O Município de Oleiros reconhece a importância da transição energética, da descarbonização e da produção de energia a partir de fontes renováveis. No entanto, é de parecer desfavorável à proposta atualmente em consulta pública, por considerar que a mesma não assegura a adequada proteção do território e dos seus valores naturais, sociais e económicos.

A proposta abrange mais de 35 % do território do concelho de Oleiros, incluindo áreas próximas de habitações, captações e infraestruturas de abastecimento público de água, espaços florestais de elevado valor ecológico, património natural e zonas de forte vocação turística.

Na análise efetuada, o Município concluiu que subsistem insuficiências técnicas, metodológicas e territoriais, pelo que defende, entre outras medidas:
  • Redução significativa da área proposta para o concelho de Oleiros;
  • Exclusão das áreas ambiental e paisagisticamente mais sensíveis;
  • Validação cartográfica à escala municipal;
  • Definição de limites máximos de ocupação territorial por município;
  • Prioridade para a instalação de projetos em áreas já artificializadas, industriais, degradadas ou anteriormente intervencionadas;
  • Articulação efetiva com os instrumentos municipais de gestão do território.
O Município considera ainda que a política energética deve privilegiar o desenvolvimento de Comunidades de Energia Renovável e o reforço do autoconsumo, promovendo uma transição energética mais equilibrada e geradora de benefícios para as populações, em vez da concentração de grandes áreas de implantação suscetíveis de alterar de forma significativa a identidade e o modelo de desenvolvimento do território.

Para o Presidente da Câmara Municipal de Oleiros, Miguel Marques, “a posição assumida pelo Município não representa uma oposição às energias renováveis, mas sim, que a sua implementação deve ser compatível com a proteção dos recursos naturais, da floresta, da paisagem, do património e da qualidade de vida das populações.”

Consultar:

A inteligência artificial pode provocar um colapso no mercado de ações?

Nos últimos anos, os índices do mercado de ações internacional, particularmente os americanos, têm experimentado um ciclo ascendente acentuado, o que certamente agradou a um grande número de investidores.
De acordo com o consenso dos analistas, espera-se que as ações de tecnologia, assim como as ações de energia e industriais, que compõem o índice S&P 500 dos EUA, gerem lucros recordes novamente em 2026 e 2027.
No entanto, a valorização das ações se baseia quase que inteiramente num único fator: o desenvolvimento da inteligência artificial (IA), que supostamente impulsionará a produtividade e os lucros das empresas.
Qual é o problema? As avaliações das empresas atingiram níveis muito elevados, observa Russ Mould, colunista económico do jornal britânico The Telegraph.
Segundo o jornalista, as ações de empresas americanas listadas em bolsa estão sendo negociadas, em média, a 41 vezes seus lucros anuais  - ou seja, cada dólar de lucro é avaliado pelo mercado em 41 dólares.
Para efeito de comparação, a relação preço/lucro é superior ao nível de 32,5 observado pouco antes da quebra da bolsa de valores de 1929 e da Grande Depressão dos anos seguintes.
Além disso, o Investing observa que o nível médio de avaliação das ações tem sido historicamente em torno de 17,3, o que é 2,5 vezes menor que a mínima atual.
Esses indicadores levam alguns analistas a crer que a atual euforia do mercado de ações poderá, como frequentemente ocorreu no passado, ser seguida por uma correção brutal.
"Com uma avaliação mais que o dobro da de seus pares britânicos e europeus, e a mais alta desde o auge da bolha da internet, as ações americanas estão prestes a enfrentar uma década turbulenta", afirma Russ Mould.
"Essa diferença entre o que os investidores aplicam e o que ganham é, de certa forma, o equivalente financeiro ao recuo repentino do mar antes de um tsunami", descreve a revista Slate.
Alguns analistas estão preocupados com a discrepância entre as promessas da IA e a possibilidade real de ganhos de produtividade.
"Uma contradição desta magnitude só pode ser resolvida de duas maneiras: ou os benefícios realmente alcançam as fantasias utópicas ligadas à IA, ou o mercado fecha a lacuna entre a avaliação financeira e a produtividade pelo caminho mais difícil", analisa a Futurism.
Como destaca o The Telegraph, os ganhos de produtividade associados à IA continuam, nesta fase, a justificar a hipótese de uma subida acentuada e sustentada dos mercados de ações.
No entanto, o desenvolvimento dessa tecnologia exige investimentos muito pesados, o que pode reduzir as margens e os lucros das empresas do setor.
Lucros decepcionantes em relação aos investimentos realizados podem gerar desconfiança entre os investidores e causar o estouro da bolha. Além disso há problemas geopolíticos.
A história do mercado de ações está repleta de exemplos de tecnologias, como a internet na década de 1990, que geraram um entusiasmo notável no mercado de ações antes de uma violenta reversão da tendência.
Em geral, a tecnologia acaba sendo adotada em larga escala no médio prazo. No entanto, as oscilações do mercado de ações costumam deixar um rasto de perdas para empresas e investidores.
A implementação da IA deve, de fato, impulsionar a produtividade da economia. No entanto, os níveis atuais de avaliação das ações também são motivo de preocupação. Especialistas sugerem cautela.

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Governo vai rever regime de gratuitidade dos museus e diz que são exigências da Comissão Europeia


No alinhamento da direita populista, a "infanta" Margarida Balseiro Lopes encontrou uma resposta genial: pagar para entrar em todos os museus. Deus nos livre de dar coisas de graça a este povo. A senhora Ministra da Cultura, com a lucidez que só os gabinetes bem iluminados do Palácio da Ajuda conseguem proporcionar, bateu no cerne da questão: os portugueses não gostam de arte; gostam é de borlas e  do ar refrigerado dos Museus. E se há coisa que desvaloriza uma pintura de Amadeo de Souza-Cardoso ou uma escultura renascentista é o ultrajante preço de zero euros. 

É uma questão de pura psicologia económica. Cientistas de algures já provaram que se não nos custar um rim a entrar num museu, os nossos olhos simplesmente recusam-se a focar o óleo sobre tela. O cérebro humano, esse órgão mercantilista, olha para um claustro manuelino gratuito e pensa: "Se não cobram por isto, de certeza que é gesso pintado ou as infiltrações são falsas".  

O plano é infalível. Em breve, os museus estarão vazios de gente, mas repletos de "valor". As obras de arte repousarão finalmente sozinhas, intocadas pelo olhar plebeu de quem não tem dez euros para gastar num domingo à tarde. E quando as salas estiverem perfeitamente desertas, a sustentabilidade estará alcançada: zero custos de manutenção com as pegadas do público.  As obras de arte repousarão finalmente sozinhas, intocadas pelo olhar plebeu de quem não tem dez euros para gastar num domingo à tarde. E quando as salas estiverem perfeitamente desertas, a sustentabilidade estará alcançada: zero custos com as pegadas do público.

A economista Clara Mattei explica isto na perfeição: a obsessão com a austeridade e com a mercantilização da vida não serve para equilibrar contas; serve para nos disciplinar. Para nos recordar que não temos direito à beleza ou ao lazer sem antes mostrarmos a carteira.

Quando a UE invoca o Artigo 56.º do TFUE para travar o "Acesso 52", ela está a demonstrar as suas prioridades, pois o direito de um cidadão é visto estritamente através da sua identidade enquanto consumidor ou destinatário de serviços num mercado globalizado, fazendo com que o acesso à cultura deixe de ser um direito social ou uma ferramenta de coesão nacional para a população local e passe a ser tratado como uma mercadoria que não pode sofrer distorções de concorrência.

Na minha investigação, argumento que o Estado moderno foi reconfigurado para blindar a economia da vontade democrática, e a reação de Bruxelas ilustra isto perfeitamente: o governo português tentou implementar uma medida de redistribuição social para dar acesso gratuito à cultura a quem paga os impostos que mantêm esses museus, mas uma instituição tecnocrática e não eleita intervém para invalidar uma decisão soberana em nome de regras de livre mercado. O resultado prático é a austeridade por via indireta, pois, como Portugal dificilmente conseguirá comportar financeiramente a extensão da gratuitidade a dezenas de milhões de turistas estrangeiros, a pressão da UE vai forçar o país a recuar e a retirar o benefício aos seus próprios cidadãos, o que prova que o mercado nivela sempre por baixo e que, se não pode ser mercantilizado para todos, não pode ser gratuito para ninguém.

Os tecnocratas europeus justificam a sua ação com a neutralidade da lei e a justiça da não-discriminação, mas, como cidadão atento, eu diria que esta igualdade abstrata esconde uma profunda desigualdade material. Exigir que um cidadão português, com um salário médio significativamente mais baixo do que a média europeia, pague o mesmo que um turista de um país com maior poder de compra para aceder ao património do seu próprio país é, em si, uma forma de violência económica, pelo que a lei europeia acaba por proteger o poder de compra do turista consumidor enquanto sufoca a capacidade do trabalhador local de aceder aos bens públicos que ele próprio financia. Concluindo, como Clara Mattei, eu diria que este caso não é sobre regras jurídicas neutras, mas sim sobre como as instituições europeias utilizam o direito económico para impedir os Estados-membros de protegerem os seus cidadãos das forças do mercado, empurrando os bens públicos para a mercantilização total.

Obrigado, Senhora Ministra. Finalmente compreendemos que a cultura não serve para nos elevar o espírito; serve para sabermos quanto pesa a carteira.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

RY X - Salt

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Letra

Under the lighting
Heavier breath
High by a mouth made
Knees to your chest

[refrão]
We let love be like water to wine
We let love be the higher design
We let love be a call in the night
We let love be the fire divine

Under the shadow
Heavy remains
Chemical ashes fall
Lips to my veins

[refrão]

But here we are turning our heads down
Here we are falling like lovers
We're falling like lovers and I turn my head
'Cause I know what shame you've done

[refrão] 2X

I know I started it all
I know I started to run
I won't let go of it all
I won't let go of the gun

Oh God, below
What have we done?

Abaixo, analiso os diferentes aspetos desta obra, desde as suas origens até às suas camadas mais profundas de significado.

RY X, nome artístico do cantor, compositor e produtor Ry Cuming, é um artista australiano cuja identidade musical foi profundamente moldada pelas suas origens em Angourie, uma isolada comunidade costeira em New South Wales. Essa ligação visceral com a natureza reflete-se num estilo musical único, frequentemente classificado como Indie Pop, Ambient Folk e Alt-Pop. A sua assinatura sonora assenta numa abordagem minimalista e despojada, onde guitarras acústicas dedilhadas e sintetizadores subtis servem de moldura para a sua voz de falsete etérea, criando uma atmosfera de intensa intimidade, melancolia e vulnerabilidade. A faixa "Salt", lançada no aclamado álbum Dawn, é um dos exemplos mais puros desta estética.

A canção funciona como uma meditação profunda sobre a dor, a impermanência e o processo de cura. O título "Salt" carrega uma dupla metáfora poética: evoca tanto o sal das lágrimas provocadas pelo sofrimento e pelo distanciamento emocional, quanto o sal do oceano, que atua como um elemento de purificação e renovação espiritual. Na sua essência, a letra explora a coragem de se manter vulnerável e a necessidade de sentir a dor por inteiro para que se possa, eventualmente, transcendê-la.

Essa mesma narrativa estende-se ao videoclipe da faixa, co-dirigido pelo próprio artista. Visualmente, o vídeo utiliza uma paleta de cores frias e um jogo expressivo de luz e sombra para construir uma atmosfera cinematográfica e crua. Através da dança contemporânea e expressionista, os corpos dos intérpretes contorcem-se, aproximam-se e repelem-se, traduzindo visualmente o conflito interno, o desejo de conexão e a angústia da separação. A presença constante de elementos naturais e a nudez parcial reforçam o desapego das máscaras sociais, expondo o ser humano no seu estado mais primitivo e honesto.

Do ponto de vista intelectual, a obra de RY X bebe de ricas fontes filosóficas, literárias e poéticas que valorizam o silêncio e a introspeção. Há uma clara ressonância com o pensamento oriental, particularmente com o Zen Budismo e o conceito do Wabi-Sabi, que prega a aceitação da imperfeição e da transitoriedade da vida. Em vez de evitar o sofrimento, o compositor abraça-o como parte fundamental da existência. Na literatura e na poesia, "Salt" aproxima-se do Romantismo Sombrio e do olhar transcendental de autores como Rainer Maria Rilke e Walt Whitman, que utilizavam as forças da natureza como um espelho para a alma. O mar e os elementos naturais surgem na canção como representações do inconsciente e das emoções avassaladoras, transformando o peso do sofrimento num ritual estético de desapego que converte a dor numa beleza quase sagrada.

Entrevista. Clara E. Mattei: “A austeridade é muito eficaz a produzir individualismo, alienação, ódio aos mais pobres, vergonha de ser pobre”


No imaginário comum, o economista é uma figura formal, absorvida por cálculos, gráficos e fórmulas, entregue a um labor inevitavelmente chato. Contudo, uma nova geração de profissionais tem desafiado este estereótipo: são um sucesso nas redes sociais, participam em debates que mobilizam grandes audiências, publicam em várias línguas. Thomas Piketty, Mariana Mazzucato, Gabriel Zucman [recorda a entrevista] ou Kate Raworth são alguns exemplos desta constelação. Mas Clara E. Mattei talvez seja a estrela que melhor desmonta o cliché do economista enfadonho. Além da sua simpatia, é divertida. Parece movida a pilhas, tal é a energia e a vitalidade que irradia.

Esta entrevista devia ter acontecido horas antes da conferência organizada pelo FREE - Forum for Real Economic Emancipation [Fórum para a Emancipação Económica Real, em tradução livre] - organização que Clara fundou e à qual preside -, numa escola secundária em Bishop’s Stortford, no leste de Inglaterra, a 50 minutos de comboio do centro de Londres. Ia debater-se o impacto das guerras no custo de vida e as alternativas económicas e políticas à austeridade. Mas, à última hora, os planos mudaram. Mattei tinha uma reunião na London School of Economics and Political Science (universidade londrina especializada em ciências sociais), e só seria possível conversar durante a viagem entre a capital britânica e o local do evento.

Uma entrevista on the road, dentro de um táxi, no para-arranca do trânsito. Entre perguntas e respostas, apartes para a comitiva que seguia connosco, a economista ainda recebia ou fazia chamadas com a equipa de voluntários que a estava a ajudar: “Salvatore, temos de comprar comida para o lanche. Qualquer coisa: uns snacks, fruta, legumes crus, húmus, queijos… Sim, vão ao supermercado mais próximo. Deixem lá panfletos!”

Chegámos à escola quinze minutos antes do início do debate. Clara saiu do carro à pressa e desapareceu por momentos. Tinha ido acertar os últimos detalhes com a organização, mas pouco depois já estava de volta: “Ainda temos dez minutos para recrutar pessoas. Venham!” E lá foi ela, de passo apressado, distribuir mais uns folhetos promocionais a quem passava. Para usar um termo do país onde vive e dá aulas, é uma mulher cheia de stamina.

Clara Elisabetta Mattei é professora de Economia na Universidade de Tulsa, no Oklahoma, Estados Unidos da América, e tem licenciatura e mestrado em Filosofia, antes de se doutorar em Economia. O seu livro mais conhecido, A Ordem do Capital - Como os economistas inventaram a austeridade e abriram o caminho ao fascismo (ed. Temas e Debates, 2024), nasceu de uma investigação nos arquivos do Banco de Itália e do Banco de Inglaterra sobre o período que se seguiu à Primeira Guerra Mundial. Entre centenas de cartas, memorandos e textos técnicos, encontrou documentos, muitos deles traduzidos pela primeira vez e nunca antes divulgados, que sustentam a sua tese de que as políticas de austeridade do pós-guerra prepararam o terreno para a ascensão dos fascismos que conduziriam à Segunda Guerra Mundial.

Em janeiro, publicou Escape from Capitalism - Economics is Political, and Other Liberating Truths [ainda sem tradução em português], livro em que questiona a ideia de que a economia é uma ciência neutra e apolítica. Parte de conceitos como a austeridade, o desemprego ou a inflação para mostrar como são habitualmente mobilizados para preservar o status quo e apresentar o capitalismo como inevitável. É um manifesto contra a resignação: recusa tratar a pobreza e a desigualdade como acidentes, ou a ordem económica atual como algo natural ou eterno.

Clara acredita que essa ordem pode ser mudada. Uma convicção que lhe corre no sangue, como mostra a história dos seus tios-avós, Gianfranco e Teresa Mattei, duas figuras da resistência antifascista italiana a quem dedica os seus escritos. Gianfranco, químico e militante clandestino, suicidou-se em 1944, depois de ser preso e torturado, para não denunciar os companheiros. Teresa, conhecida como “Chicci”, foi eleita para a Assembleia Constituinte italiana, em 1946, e contribuiu para inscrever no artigo 3.º da Constituição uma ideia fundamental: não há igualdade efetiva enquanto obstáculos económicos e sociais continuarem a limitar a liberdade das pessoas.

Clara Mattei estará em Lisboa, a 15 de julho, na Lisbon Praxis Summer School 2026, organizada pelo Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, sob o tema “Teorias Críticas do Fascismo”.

Despejo dos hortelões no Porto - "Misericórdia" só de nome


O caso do despejo dos utentes da Horta Comunitária do Porto deixa-me triste e indignado. Contrariamente ao último relatório da SCMP (2025), que é totalmente positivo - destacando inclusive a atribuição de 62 novos talhões, em 2025, no âmbito do projeto Horta à Porta -, a realidade atual demonstra o oposto.

Uma instituição cujo foco histórico é a "Misericórdia" e o apoio social não pode extinguir um projeto com tanto impacto positivo na comunidade e na sustentabilidade urbana. Com esta decisão, a SCMP comporta-se como uma empresa privada de saúde mental, descurando o facto de que o contacto com o meio ambiente é parte fundamental da terapia e da recuperação dos utentes. Inúmeros estudos clínicos comprovam que tratar a saúde mental ignorando o meio ambiente e a natureza é uma abordagem clinicamente ineficaz. 

Isto traduz-se em pura lavagem verde (greenwashing), fazendo desaparecer, em pouco mais de três meses, uma das maiores hortas urbanas da Europa.

A polémica em torno do fim das hortas públicas da LIPOR no Porto (o programa "Horta à Porta") e o consequente despejo dos hortelãos é o reflexo perfeito de um trade-off político e social - aquele cenário clássico em que, para se ganhar de um lado, tem de se sacrificar o outro, sem que exista uma solução que agrade a todos. No centro da discussão, a postura do executivo liderado por Pedro Duarte ilustra bem esta balança de prioridades.

De um lado da balança, a autarquia e os proprietários dos terrenos, como a Santa Casa da Misericórdia do Porto (dona do espaço junto ao Hospital Conde Ferreira), justificam a desocupação com a necessidade de avançar com planos de reestruturação interna. No caso da Misericórdia, o argumento oficial não é a venda dos terrenos para a especulação imobiliária, mas sim a modernização e requalificação do complexo hospitalar, além da reorientação da horta para fins puramente terapêuticos e sociais da própria instituição. Sob o ponto de vista da gestão de ativos, trata-se de rentabilizar e ordenar o património para garantir a sustentabilidade das suas próprias obras de assistência.

Do outro lado da balança, o custo deste ganho institucional é inteiramente social e ambiental. O encerramento do projeto destrói uma das maiores redes de hortas comunitárias da Europa, retira o sustento e o passatempo de mais de duas centenas de famílias e elimina focos essenciais de biodiversidade e coesão social no meio do asfalto da cidade. É precisamente aqui que o trade-off se torna mais evidente para Pedro Duarte: ao focar-se na gestão rigorosa de ativos, na reavaliação de cedências antigas e na aplicação estrita da lei sobre a ocupação dos terrenos, o executivo municipal prioriza a eficiência e o ordenamento do património público. Contudo, assume o pesado custo reputacional e político de ser criticado pela oposição por falta de sensibilidade social e pela ausência de alternativas viáveis de realojamento para os produtores locais. 

Mesmo que o objetivo declarado não seja o lucro imediato através de imobiliário, a decisão mexe com feridas abertas na cidade. O receio da oposição e dos hortelãos de que a libertação destes espaços centrais acabe por abrir portas à pressão imobiliária a longo prazo é o que alimenta o conflito. A atuação do executivo neste caso não se resume a um acerto ou erro absoluto, mas sim à escolha consciente de um dos lados da balança; é uma escolha ideológica e de gestão. Optou-se pelo ordenamento e requalificação dos equipamentos, aceitando como "dano colateral" o desalojamento de uma comunidade que ali tinha criado raízes.

domingo, 12 de julho de 2026

MARO - Kiss me (Lyric Video)


A "KISS ME" funciona como uma cápsula do tempo muito específica, que se apoia mais na criação de uma atmosfera do que em referências intelectuais explícitas. Se pensarmos no cinema, a música carrega exatamente a mesma melancolia enevoada e o isolamento urbano que a Sofia Coppola filma, lembrando aquela sensação de Lost in Translation de estarmos num quarto de hotel a ver o mundo a passar lá fora enquanto nos ligamos a alguém a um nível quase tátil. O vídeo lírico, com aquela textura que remete para o VHS ou para a película antiga, reforça esse apelo à nostalgia visual, quase como se estivéssemos a ver um filme do movimento Mumblecore, focado no hiper-realismo dos silêncios e das conversas espontâneas de madrugada.

Filosoficamente, a abordagem é puramente existencialista, mas sem a densidade académica. Quando a letra pede para esquecermos o passado e vivermos aquilo como se fosse o último dia, há uma urgência discreta em focar no "eterno agora". É uma forma de romantismo cru, herdeira daquela ideia do século XIX da entrega total ao outro como única âncora de salvação no meio do caos, misturada com uma sensibilidade moderna sobre a impermanência das coisas. A escrita não tenta ser um romance denso ou uma poesia cheia de metáforas complexas; ela prefere a honestidade das palavras banais — o sorriso, o sono, a mente — para criar uma intimidade imediata. No fundo, a grande inspiração da música acaba por ser o próprio tempo e a forma como decidimos desacelerá-lo para caber dentro de um abraço.

"KISS ME" é um manifesto sobre a vulnerabilidade e o desejo de suspender o tempo através da intimidade. A canção funciona como um pedido de tréguas ao mundo exterior, focando-se na criação de um espaço seguro onde duas pessoas se despem das suas bagagens, das ansiedades e do peso do passado para existirem apenas no presente.

Há uma dualidade muito bonita na letra: ao mesmo tempo que existe uma entrega cega e romântica - quase uma promessa de fuga absoluta onde se aceita ir para qualquer lugar desde que seja em conjunto -, há também um apego ao mais simples e mundano dos gestos quotidianos, como o beijo mesmo antes de adormecer ou o riso partilhado que já não se consegue esconder.

Mais do que uma simples canção de amor, o significado de "KISS ME" reside nessa urgência de desacelerar. Num mundo onde tudo muda demasiado depressa, o amor ali é retratado como o único porto de abrigo possível, um pacto silencioso de proteção mútua onde o maior luxo é poder partilhar os pensamentos da madrugada sem medo de julgamentos. É uma música sobre encontrar a imensidão nos detalhes mais pequenos e silenciosos de uma relação.

Plano Nacional de Restauro da Natureza avança para consulta pública


Projeto coordenado pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas vai estar em consulta pública até 19 de agosto, aberta a todos os interessados. Portugal prevê investir 500 milhões por ano até 2030.

A elaboração deste plano é uma resposta ao Regulamento Europeu do Restauro da Natureza, que estabelece que todos os Estados-membros devem restaurar pelo menos 20% das áreas terrestres e marinhas nestes próximos cinco anos, até 2030, garantindo ainda que até 2050 todos os ecossistemas que necessitem de recuperação vão estar em processo de restauro. [Consultar aqui, o estado da arte do Restauro da Natureza, na Europa]

De acordo com o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), responsável pela promoção e coordenação deste processo, o projeto do Plano Nacional de Restauro da Natureza (PNRN) “estabelece prioridades de intervenção em ecossistemas terrestres, marinhos, agrícolas, florestais, ripícolas e urbanos, definindo medidas concretas e indicadores de monitorização para acelerar a recuperação dos habitats degradados”.

A nova legislação europeia relativa ao restauro de natureza, aprovada em 2024, definiu que cada um dos Estados-membros tem o dever de apresentar às autoridades europeias, até setembro de 2026, um plano nacional que estabeleça todas as medidas previstas para o alcance das respetivas metas e o caminho para aí chegar, incluindo as necessidades de financiamento.

O plano português prevê um investimento anual de 500 milhões de euros em restauro de natureza até 2030, considerando diferentes instrumentos comunitários e nacionais disponíveis, incluindo verbas do Portugal 2030, da Política Agrícola Comum, do Fundo Ambiental e dos EEA Grants, e também a tendência de crescimento do investimento privado.

O plano define também 407 medidas de intervenção em ecossistemas terrestres, costeiros e de água doce (152 medidas), marinhos (27), fluviais (83), urbanos (oito), agrícolas (84) e florestais (25). Estão ainda previstas 28 medidas para ajudar as espécies polinizadoras.

De acordo com o diagnóstico apresentado pelo Governo quando o plano foi pela primeira vez apresentado publicamente, no início de junho passado, cerca de 260 quilómetros quadrados do território nacional precisam de intervenções de restauro ecológico prioritárias, o equivalente a cerca de 0,3% da superfície do país.

Está prevista também a plantação de três milhões de árvores por ano, até 2030, a realização do plano de ação relativo aos polinizadores em Portugal e também projetos-piloto em cinco municípios (Beja, Évora, Leiria, São João da Madeira e Vila Real), que vão permitir testar soluções de adaptação às alterações climáticas, baseadas na natureza.

O plano inclui também programas já em execução, como o PRO~RIOS, que prevê a recuperação de 1500 quilómetros de linhas de água até ao final da década.

O projeto do PNRN que está agora em consulta pública e que será entregue a Bruxelas vai ser ainda avaliado e revisto a nível europeu, prevendo-se que a versão definitiva seja entregue até setembro de 2027.

Os 11 documentos que fazem parte deste projeto, incluindo a avaliação ambiental estratégica do plano, estão disponíveis no portal Participa e também no Portal do Restauro da Natureza.

Crying Vessel - Bound In Mystery

Melhor som aqui
Letra
Moonrise, I hear you breathing,
Soft light through the trees,
Whispers in the black wind,
Carry me where shadows sleep.

Echoes drift in water,
Holds me, in the deep,
Your voice brings me stillness,
Calling me from your sleep.

Wash away my mortal skin,
Call of night, let me in
Take my breath and walk away
Our fate is bound in mystery.
Now guide me through your dreams,
Where silence comes between
Take a breath and draw me in,
Our fate is bound in mystery.

Softly, you touch my skin
Still light, through the breeze
Calmly, the winds are soaking
Everything thats in between

Wash away my mortal skin,
Call of night, let me in
Take my breath and walk away
Our fate is bound in mystery.
Now guide me through your dreams,
Where silence comes between
Take a breath and draw me in,
Our fate is bound in mystery.

Analisar a obra "Bound In Mystery" do duo Crying Vessel é mergulhar num universo onde a música, a narrativa visual e o pensamento intelectual operam como um portal para o oculto. O projeto, com uma identidade transatlântica suíço-americana idealizada pelo músico e produtor norte-americano Slade Templeton e expandida com a entrada do baterista suíço Basil Oberli, funde a precisão técnica europeia com a densidade visceral do submundo alternativo dos Estados Unidos. Musicalmente, a faixa assenta firmemente no revivalismo do Darkwave, do Post-Punk e do Goth Rock, destacando-se por guitarras cintilantes carregadas de chorus e reverb, sintetizadores atmosféricos que criam texturas densas e cinzentas, e uma performance vocal dual que flutua entre a melancolia arrastada dos anos 80, à semelhança de legados como The Cure e Depeche Mode, e um refrão expansivo e intensamente melódico.

A nível de significado, a canção explora a linha ténue onde o sonho, o ritual e o destino se confundem, seguindo a ligação invisível e inescapável entre duas almas através da escuridão. O tema central não se foca no medo do desconhecido, mas sim na rendição absoluta a ele, expressa em versos que aludem a um processo de transmutação espiritual e desapego da carne, sugerindo a necessidade de deixar morrer uma antiga versão de si mesmo para aceitar um laço ou ciclo que transcende a própria vida. Esta abordagem lírica e estética bebe diretamente de várias fontes de inspiração, começando pelo romance gótico do século dezanove de Mary Shelley e Bram Stoker, focado na paixão destrutiva e no isolamento. A obra lida ainda com o conceito de mitos ou ilusões que a mente cria ao tentar fugir do destino, evocando ideias filosóficas como o Amor Fati de Friedrich Nietzsche, que defende a aceitação total e o amor pela vida com todas as suas sombras e repetições eternas, e o fatalismo de Arthur Schopenhauer, que propõe que os indivíduos estão atados a uma vontade metafísica cega que os arrasta uns para os outros no escuro.

Visualmente, o teledisco opera dentro do subgénero cinematográfico do folk horror e do suspense psicológico, transformando o cenário de uma floresta densa e fria na manifestação física do subconsciente e do labirinto mental das personagens. A cinematografia adota o dinamismo caótico, a obsessão e a desintegração da identidade pessoal típicos do cinema de realizadores como Andrzej Żuławski (em Possession) e David Lynch, onde os membros da banda se movem como reflexos distorcidos um do outro, personificando a dualidade também presente nas duas vozes da música. O uso da natureza isolada como uma entidade viva e ritualística remete ainda para a estética de cineastas contemporâneos como Robert Eggers, conferindo ao vídeo uma textura granulada de película antiga que transporta o espectador para um plano temporal indefinido, reforçando a ideia de que este mistério é eterno e cíclico.

Surpreendentemente, embora a composição pareça pertencer inteiramente ao reino da arte e do misticismo, existe uma ponte fascinante entre a sua estética e conceitos da ciência moderna. A ligação invisível e inevitável descrita na letra funciona como uma tradução poética perfeita do entrelaçamento quântico na física, o fenómeno no qual duas partículas operam como um único sistema e determinam instantaneamente o estado uma da outra, independentemente da distância no universo. Paralelamente, o comportamento hipnótico, os movimentos repetitivos e o transe das personagens ligam-se à neurociência dos estados alterados de consciência, especificamente à diminuição da atividade na rede de modo padrão do cérebro, o que biologicamente causa a dissolução do ego e a perda das fronteiras entre o indivíduo e o mundo exterior. Por fim, a própria escolha de uma floresta escura ativa os mecanismos da psicologia evolutiva ligados à nictofobia, o medo ancestral do desconhecido que os seres humanos desenvolveram para a sobrevivência, transformando uma reação biológica de defesa numa experiência artística de rendição absoluta à escuridão.

sábado, 11 de julho de 2026

Por detrás da sua imagem amiga do ambiente, a gigante sueca de mobiliário IKEA - o maior consumidor de madeira do mundo - esconde práticas bastante pouco escrupulosas


O documentário "IKEA, o Caçador de Árvores" (originalmente IKEA, le seigneur des forêts ou How IKEA Plunders the Planet, 2024 ), realizado por Xavier Deleu e Marianne Kerfriden com base numa investigação jornalística de Alexander Abdelilah e Robert Schmidt, expõe o contraste dramático entre a imagem pública ecológica do gigante sueco do mobiliário e o impacto ambiental real da sua cadeia global de abastecimento de madeira. Consumindo cerca de 20 milhões de metros cúbicos de madeira por ano - o equivalente ao abate de uma árvore a cada um ou dois segundos -, a multinacional transformou-se num predador florestal global, cuja procura implacável por matéria-prima barata impulsiona crimes ambientais e a destruição de ecossistemas preciosos em múltiplos continentes.

A investigação percorre vários países, revelando que a exploração intensiva começa na própria Suécia. Ali, ativistas locais e representantes do povo indígena Sámi denunciam a prática sistemática de cortes rasos (abates totais de parcelas florestais) nas últimas florestas boreais antigas. Estas áreas ricas em biodiversidade são sistematicamente substituídas por monoculturas industriais de árvores alinhadas que funcionam como autênticos "desertos verdes", destruindo os líquenes de que as renas locais dependem para sobreviver e alterando permanentemente a paisagem escandinava.

O cenário agrava-se na Roménia e na Ucrânia, onde o documentário acompanha o rasto da madeira que alimenta as fábricas de fornecedores da IKEA. Na cordilheira dos Cárpatos romenos, lar de algumas das últimas florestas virgens da Europa, ativistas de organizações não-governamentais como a Agent Green expõem o abate ilegal e abusivo dentro de parques nacionais e áreas teoricamente protegidas pela rede Natura 2000. Cientistas e investigadores demonstram como o sistema de rastreabilidade é contornado através do branqueamento de madeira, misturando troncos extraídos ilegalmente com lotes autorizados. O impacto estende-se à Ucrânia, onde investigações anteriores já tinham sinalizado a entrada de madeira extraída de forma irregular nas cadeias de produção de produtos icónicos da marca.

A nível global, a reportagem viaja até à Rússia (região da Sibéria), expondo ligações a fornecedores locais envolvidos no desflorestamento de florestas protegidas de Taiga antes das restrições geopolíticas, e até à Nova Zelândia. Neste último país, o documentário foca-se nas consequências catastróficas das plantações intensivas de pinheiros exóticos que substituíram a vegetação nativa. Quando ocorrem tempestades violentas, os resíduos de madeira deixados pelas empresas de exploração florestal nas encostas deslizam em massa, gerando violentas enxurradas de detritos que destroem rios, praias e infraestruturas, afetando diretamente as comunidades locais e as terras ancestrais do povo Māori, que lamentam a perda da harmonia ecológica original. Representantes do povo Māori declararam na ONU que tal prática corporativa representa uma nova forma de colonização, retirando poder às comunidades nativas em favor do lucro estrangeiro e degradando a ligação sagrada que mantêm com a terra (Papatūānuku).

Um dos pontos centrais da crítica do documentário foca-se no papel do FSC (Forest Stewardship Council). Criado originalmente na década de 1990 com o apoio de organizações de prestígio como a WWF e a Friends of the Earth para garantir uma gestão florestal sustentável, o selo verde é apontado pelos realizadores e por antigos fundadores como tendo sido instrumentalizado. O FSC acabou por se transformar num escudo de greenwashing (lavagem verde) para as grandes corporações. Ao certificar áreas onde se praticam cortes rasos ou onde a madeira provém de origens controversas, o sistema falha em proteger as florestas que restam no planeta, permitindo que o consumidor compre mobiliário de massa sob uma falsa premissa de sustentabilidade.

Em janeiro de 2024, o documentário IKEA Loves Wood (IKEA elsker træ) já denunciava más práticas na Roménia.

Dinheiro a circular por paraísos fiscais e fundações suspeitas, graças à IKEA
Este artigo do portal de jornalismo independente Basta! esmiuça um relatório da organização Attac Alemanha sobre o intrincado labirinto financeiro que a IKEA utiliza para praticar a otimização fiscal em larga escala e minimizar as suas obrigações tributárias. A investigação desconstrói a imagem pública puramente filantrópica da empresa, demonstrando como as receitas geradas nas lojas físicas são canalizadas por uma complexa rede de holdings e fundações que se estende por várias jurisdições. 

No cerne desta estrutura está uma rede de fundações ostensivamente sem fins lucrativos, desenhada para fragmentar a propriedade legal e blindar o capital contra a tributação. Na Holanda, a fundação Stichting Ingka fica no topo da pirâmide como proprietária do Ingka Group, que opera a maioria das lojas globais. Pelo facto de o fisco holandês a reconhecer como uma entidade de caridade, os seus vastos rendimentos de investimentos e ativos líquidos desfrutam de massivas isenções fiscais. Além disso, a legislação holandesa protege este arranjo ao não exigir que a fundação publique relatórios financeiros anuais. 

Enquanto isso, o conceito da marca em si é controlado por outro braço através da Fundação Interogo, localizada no paraíso fiscal de Liechtenstein. Uma investigação da televisão sueca revelou que esta única entidade permitiu ao fundador da empresa, Ingvar Kamprad, evitar o pagamento de algo entre 2,3 e 3,2 mil milhões de euros em impostos ao longo de um período de vinte anos. 

Um terceiro grande tentáculo corporativo, o Ikano Group, está sediado em Luxemburgo e pertence aos três filhos de Kamprad. Esse braço supervisiona a gestão financeira, serviços bancários, imobiliários e de seguros, utilizando subsidiárias adicionais ocultas em paraísos fiscais como a Suíça e a ilha de Curaçao, nas Antilhas Holandesas. 

Ao movimentar continuamente dinheiro entre a Holanda, Luxemburgo, Liechtenstein e Curaçao, a multinacional sueca paga taxas efetivas de imposto muito abaixo das médias corporativas europeias padrão. A empresa de retalho controladora historicamente enfrentou uma taxa efetiva de imposto sobre o rendimento de apenas 17,8%, enquanto o Inter IKEA Group, detentor da marca, pagou no máximo 11,6%. 

O sigilo que envolve estes arranjos é uma escolha deliberada. Quando a comissão de informação da Assembleia Nacional Francesa intimou grandes multinacionais a depor sobre otimização fiscal corporativa, a IKEA recusou-se categoricamente a participar, oferecendo a desculpa de que, infelizmente, carecia de conhecimento técnico num campo tão complexo, uma justificativa que os parlamentares rotularam como altamente improvável e perturbadora para uma organização do seu porte. 
O artigo, em última análise, destaca uma contradição gritante entre as mensagens corporativas e as práticas financeiras, observando que, embora a IKEA Foundation proclame publicamente uma dedicação ao bem-estar das crianças, a corporação como um todo minimiza agressivamente as próprias receitas fiscais necessárias para financiar os sistemas públicos de educação e saúde nas comunidades onde opera.