sábado, 7 de novembro de 2026

Years of Denial - Dancing with Demons

Melhor som aqui
A faixa "Dancing with Demons" dos Years of Denial é uma obra vibrante e hipnótica que sintetiza com perfeição a identidade artística deste projeto intercultural sediado na Europa. Composto pelo produtor francês Jerome Tcherneyan (com percurso na lendária banda britânica Piano Magic) e pela artista checa Barkosina Hanusova (performer, poetisa e artista visual), o duo funde a precisão técnica da produção analógica com uma sensibilidade literária e artística profundamente enraizada na tradição da Europa Central.

Estilisticamente, a sonoridade da canção move-se na intersecção entre o darkwave, o EBM (Electronic Body Music), o post-punk e o techno industrial de cariz hipnótico. A produção prioriza o uso de hardware e instrumentos analógicos, resultando numa textura tátil e numa repetição mecânica implacável que evoca o ambiente claustrofóbico dos clubes subterrâneos. Sobre esta arquitetura sonora pulsante sobressai a voz de Barkosina, carregada de spoken-word dramático e vulnerabilidade, distanciando-se do polimento digital comercial.

No que toca ao significado, o tema funciona como uma metáfora visceral para a confrontação e aceitação psicológica. Longe de propor uma fuga aos traumas, medos ou sombras interiores ("os demónios"), a letra e a atmosfera transformam a dança num ritual de exorcismo e catarse. Trata-se de aceitar o sofrimento e a escuridão, aprendendo a conviver e a mover-se com eles em vez de travar uma luta fútil contra a própria psique.

A opção por um registo audiovisual focado na energia de palco e em estéticas cruas reforça a génese orgânica do projeto, que recusa a esterilidade do estúdio. A música dos Years of Denial vive da urgência física, do suor e da catarse coletiva que só acontecem na escuridão de um clube. O vídeo traduz exatamente essa eletricidade e a tensão tangível entre a frieza das máquinas e o corpo humano em performance.

A obra respira profundas influências literárias e filosóficas impulsionadas pela bagagem poética do duo. Encontram-se ali ecos do existencialismo e do niilismo romântico - na linha nietzschiana de encarar o abismo e extrair sentido do caos através da arte -, combinados com a poesia confessional e o gótico decadente. Filosoficamente, a canção reflete a alienação e o isolamento do indivíduo moderno, oferecendo a repetição mecânica do ritmo como um ritual contemporâneo de purificação e alívio emocional.

sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Documentário: Bach - A Passionate Life


Sir John Eliot Gardiner constrói no documentário "BBC - Bach, A Passionate Life" (2013) uma investigação histórica, biográfica e musical minuciosa. O objetivo central é desconstruir a imagem vitoriana de Bach como um "quinto evangelista" estático ou um matemático frio de peruca empoada, revelando a pessoa por trás da obra.

1. O ponto de partida: o retrato retornado
Gardiner partilha uma memória pessoal da sua infância em Dorset: a sua família guardou durante a Segunda Guerra Mundial um dos dois únicos retratos autênticos de Bach pintados em vida (o famoso retrato de Elias Gottlob Haussmann). Ao reencontrar a pintura no documentário, Gardiner analisa a fisionomia do compositor. A metade superior do rosto revela um olhar penetrante, míope e focado; já a metade inferior mostra um homem voluptuoso, apreciador de boa cerveja, vinho, tabaco e pai de 20 filhos. É essa dualidade entre rigor e vitalidade que o maestro explora.

2. As raízes, o luto e a revolução luterana
Em Eisenach, local de nascimento de Bach em 1685, Gardiner liga a infância do compositor ao legado de Martinho Lutero, que 200 anos antes traduzira a Bíblia para alemão no Castelo de Wartburg. Lutero redefiniu a música eclesial ao encorajar o uso da língua vernacular e o aproveitamento de melodias seculares para que toda a congregação pudesse cantar.

Essa infância promissora foi interrompida pelo trauma. Aos nove anos, Bach perdeu a mãe e, apenas nove meses depois, o pai. Durante o funeral do pai, o pequeno Bach cantou o hino luterano Mitten wir im Leben sind ("Em meio à vida, estamos na morte"). Documentos escolares revelam um aumento acentuado do absentismo escolar e, mais tarde, uma subida drástica nas notas quando foi viver com o irmão mais velho em Ohrdruf. Psicólogos convidados no filme interpretam este comportamento como a resposta de uma criança traumatizada que percebeu que dependia exclusivamente de si própria para sobreviver num ambiente escolar violento.

3. Juventude rebelde e aprendizagem oculta
Ao analisar a fase em Lüneburg e Arnstadt, o documentário desconstrói a ideia de que Bach foi um génio isolado e auto-didata:
  1. A influência apagada: a descoberta recente de manuscritos prova que Bach estudou com o organista Georg Böhm. No entanto, o seu filho Carl Philipp Emanuel rasgou referências a Böhm nos primeiros rascunhos biográficos, sugerindo que Bach não gostava de admitir influências ou demonstrar qualquer vulnerabilidade perante a autoridade.
  2. O confronto em Arnstadt: em 1703, como jovem organista, Bach desentendia-se frequentemente com a gerência da igreja e com os seus músicos. Chegou a chamar a um fagotista local (Garsbach) de "nanny-goat bassoonist" (uma ofensa pesada na época). O músico esperou por Bach na praça principal com um bastão e atacou-o, levando Bach a desembainhar a sua espada em legítima defesa.
  3. Prisão em Weimar: em 1717, ao exigir a sua demissão da corte de Weimar após ter sido preterido para o cargo de Kapellmeister, o Duque Wilhelm Ernst mandou prendê-lo durante um mês por insubordinação.
4. Anos seculares em Cöthen e a perda de Maria Barbara
Na corte calvinista do Príncipe Leopold em Cöthen, Bach viveu um período sem obrigações de compor música de igreja. Foi a fase em que produziu os Concertos de Brandemburgo, os Prelúdios e Fugas do Craveiro Bem Temperado e as Suítes para Violino e Violoncelo Solo.

No entanto, em 1720, ao regressar de uma viagem com o príncipe, descobriu que a sua esposa, Maria Barbara, tinha morrido repentinamente e já fora enterrada. A dor do luto refletiu-se em obras monumentais para instrumento solo, como a Chaconne da Partita n.º 2 em Ré menor, que Gardiner descreve como um solilóquio dramático sobre a perda e o consolo espiritual. Um ano e meio depois, casou com Anna Magdalena, uma soprano profissional com quem construiria uma parceria artística e familiar duradoura.

5. A pressão sufocante em Leipzig
Em 1723, Bach assumiu o cargo de Thomaskantor em Leipzig, sendo responsável pela música das igrejas de São Tomé e São Nicolau, além do ensino na escola. As autoridades locais chegaram a declarar que, "uma vez que os melhores músicos não estavam disponíveis, teriam de aceitar um medíocre".

A redescoberta das marcas de água nos manuscritos originais na década de 1950 revelou um facto impressionante: a grande maioria das suas 200 cantatas e das suas Paixões não foi escrita ao longo de 27 anos, mas sim num ritmo alucinante de apenas três anos. Semanalmente, Bach compunha cerca de 25 minutos de música nova, supervisionava a cópia de partituras no seu apartamento sobrelotado e barulhento (onde viviam filhos, alunos e parentes) e enfrentava o ruído constante de uma congregação que conversava, flertava e tomava rapé durante os serviços religiosos.

6. As grandes Paixões e o conflito com a cidade
Gardiner analisa detalhadamente o impacto das duas grandes obras-primas da fase de Leipzig:
  • Paixão Segundo São João (1724): destaca o contraste dramático entre o caos da orquestra, a multidão histérica (turba) e a figura serena de Cristo. A obra foi considerada excessivamente teatral e perigosa pelos clérigos locais, forçando Bach a fazer revisões profundas.
  • Paixão Segundo São Mateus (1727): com coro e orquestra duplos, representa o topo da capacidade expressiva de Bach. Gardiner destaca a ária Erbarme dich ("Piedade de mim"), em que o solo de violino atua como uma voz sobrenatural de compaixão e perdão pelo arrependimento de Pedro.
Frustrado com a falta de recursos e os conflitos contínuos com o conselho da cidade e o reitor da escola, Bach escreveu em 1730 uma carta ao seu amigo Georg Erdmann, declarando que a sua vida em Leipzig se tornara uma sucessão de "impedimentos e vexames". Analisando este documento, especialistas no filme chegam a ponderar a presença de traços paranóicos de personalidade, fruto do ambiente de isolamento e desconfiança em que viveu desde a infância.

7. O legado final: a busca pela perfeição
Nos últimos anos de vida, Bach afastou-se das obrigações eclesiais mais pesadas e dedicou-se ao Collegium Musicum (música secular em cafés de Leipzig) e a obras monumentais de síntese:
  1. Missa em Si Menor: uma missa católica em latim escrita por um luterano convicto com o intuito de obter um título honorífico na corte de Dresden, tornando-se num compêndio absoluto de todas as formas e estilos da sua vida.
  2. A Arte da Fuga: a sua última grande exploração do contraponto, onde Bach inscreve o seu próprio nome na estrutura das notas da fuga final (B-A-C-H, que em nomenclatura musical germânica corresponde às notas Si bemol, Lá, Dó e Si natural). A obra interrompe-se abruptamente a meio da escrita - segundo o seu filho, devido à sua morte em 28 de julho de 1750, após complicações resultantes de cirurgias oculares malsucedidas.
Gardiner conclui ressaltando que, enquanto Monteverdi deu voz às paixões humanas e Beethoven à luta do homem para atingir o divino, Bach é o único compositor que constrói uma ponte direta: ele torna a voz de Deus audível em forma humana, depurando as imperfeições da vida através da perfeição absoluta da sua arte.

Um agradecimento a Trump e a Hegseth

Pessoal, isto foi um pequeno sobressalto, um sobressaltozinho. Houve um pequeno aperto nos canais por onde flui o petróleo, o caudal diminuiu e, como o petróleo é um bem inelástico - em que uma quebra de apenas 5% na oferta obriga o preço a disparar 50% para equilibrar o mercado (fonte: Gemini) -, pequenas reduções traduzem-se em subidas galopantes. Façamos um exercício mental. Imaginem que os combustíveis fósseis representam 50% do custo de um dado produto (muitos são assim). Imaginem ainda que o preço dessa energia sobe para o dobro. Grosso modo, contas de merceeiro, o produto final aumenta 25%. Escalando o raciocínio ao nível do país, haverá uma brutal drenagem de riqueza para quem produz petróleo, e menos riqueza disponível por habitante para vestir, comer, abrigar e reproduzir. As acampadas são inevitáveis porque as pessoas zangam-se quando lhe tocam nos determinantes do sucesso reprodutivo.

Factos: as economias funcionam a petróleo, como antes funcionaram a carvão e antes a lenha e a amido (a principal fonte de energia do trabalho muscular humano); o crescimento económico e o bem-estar material (uma componente essencial do bem-estar geral) estão estritamente relacionados com o consumo de energia e não há volta a dar-lhe (assim como não podem ser alteradas a energia por quantum ou a aceleração da gravidade terrestre).

Se um dia o petróleo faltar de verdade, estruturalmente, como alimentar, vestir, abrigar e educar - enfim, como manter o funcionamento num planeta de 8 mil milhões de pessoas? O problema não é o petróleo acabar fisicamente no subsolo; é a termodinâmica implacável do chamado EROI (Retorno Energético). 

No passado, gastávamos 1 barril de energia para extrair 100. Hoje, arrastamo-nos para os 10 para 1, espremendo rochas (fracking) e perfurando os abismos do mar. Quando a energia gasta para extrair a energia for igual àquela que obtemos, esta enorme máquina dissipadora de energia que é a sociedade humana para. E o trabalho, a terra e o capital, os três macrofatores de produção, não são interconversíveis, ao contrário do que admitem quer as teorias marxistas quer as neoliberais.

É urgente, imperativo, inadiável, impreterível, improrrogável, improtelável ... não encontro mais sinónimos para fortalecer a ideia ... trabalhar a tempo inteiro no problema e procurar soluções. Se formos apanhados no virar da esquina por uma escassez estrutural de energia, então a humanidade enfrentará uma crise potencialmente mais profunda do que a invasão dos Povos do Mar no Egito clássico, a Peste Antonina, a rutura do limes do Império Romano no séc. V ou a Peste Negra do séc. XIV. O mundo virará uma distopia tipo Mad Max. O repouso, o lazer e o bem-estar serão arcaísmos de dicionário.

Portanto, queria aqui deixar um sentido agradecimento aos senhores Trump e Hegseth por terem apertado a torneira de Ormuz e acordado os homens para o grande desafio civilizacional do futuro: a energia. São uns canalhas, uns pulhas, mas fizeram um grande favor ao coletivo humano.

Trio detido por tentar transportar mais de 3.000 animais selvagens para a Alemanha

Dois cidadãos alemães e um cidadão polaco terão tentado retirar do Peru mais de três mil animais selvagens vivos. Durante uma inspeção no aeroporto da capital, Lima, os agentes aduaneiros descobriram milhares de tarântulas embaladas em meias e escondidas na bagagem dos suspeitos. Segundo a agência noticiosa Reuters, os homens foram detidos no check-in de um voo com destino à Alemanha.

Denúncia anónima põe investigadores no rasto
De acordo com as autoridades, a operação foi desencadeada por uma informação vinda da população. A partir daí, os investigadores passaram o trio a pente fino e acabaram por o intercetar no aeroporto. Os animais apreendidos estão agora sob a guarda da autoridade florestal e da fauna selvagem do Peru, responsável pelos seus cuidados.

A dimensão da descoberta é considerável: os agentes apreenderam exemplares em diferentes fases de desenvolvimento. Além de aranhas adultas, a carga ilegal incluía também juvenis e ovos.

Aranhas gigantes protegidas em meias de desporto
A atenção centrou-se sobretudo nas tarântulas do género Pamphobeteus que foram encontradas. Entre os espécimes apreendidos encontra-se também a imponente espécie Pamphobeteus antinous. Estes animais exóticos são muito procurados por colecionadores especializados, podendo atingir preços elevados no mercado ilegal. De acordo com a agência noticiosa AFP, as tarântulas são vendidas na Europa por até 500 euros por exemplar. Os contrabandistas poderão, assim, ter deixado escapar um negócio no valor de vários milhões de euros.

Continuava por esclarecer se os animais seriam vendidos a colecionadores privados, colocados no mercado internacional de animais de estimação exóticos ou utilizados para fins científicos.

Especialista em tarântulas entre os suspeitos?
Há ainda outro aspeto sensível na investigação. Um dos três detidos é reconhecido na comunidade científica como investigador de tarântulas. Ainda não está claro se a sua atividade científica está, de alguma forma, ligada ao alegado esquema de contrabando.

As autoridades peruanas estão agora a investigar a origem dos animais e as alegadas intenções dos suspeitos. Está também em causa a possibilidade de por detrás do caso existir um comércio organizado de espécies selvagens protegidas.

Penas de prisão podem ir até aos oito anos
O caso pode ter graves consequências jurídicas para os três homens. A legislação peruana prevê penas de prisão de até oito anos para crimes ambientais e para o comércio ilegal de fauna selvagem.

Este caso ilustra a dimensão do comércio internacional de espécies exóticas. As aranhas raras, em particular, constituem um negócio lucrativo para determinados grupos de compradores. Para os animais, o transporte em condições tão apertadas e inadequadas representa um risco significativo adicional.

Alimentar os data centers e sacrificar o território: o custo da transição energética

Foto de Luís Novo
A graciosidade com que um tentilhão se desprende de um tronco e ganha os céus é o retrato perfeito da fragilidade e do dinamismo do mundo natural. Fotografar este instante não é apenas congelar a beleza efémera da avifauna; é um ato de documentação e de alerta. A conservação da biodiversidade depende diretamente da nossa capacidade de olhar para a natureza com respeito, reconhecendo o valor incalculável que cada espécie desempenha no equilíbrio dos ecossistemas.

No entanto, o contraste entre a leveza desse voo e as escolhas de desenvolvimento do país não podia ser mais gritante. Em nome de uma transição energética e digital acelerada, assiste-se à proliferação de megacentrais fotovoltaicas em solo rústico, destinadas em grande medida a satisfazer a fome energética insaciável de infraestruturas como os data centers. Para que estes gigantes do processamento de dados e da inteligência artificial possam exibir credenciais de consumo de energia "verde", acelera-se a conversão de solos agrícolas e florestais em espelhos de silício. Sob o pretexto de metas abstratas de descarbonização, alimentamos a nuvem digital sacrificando a terra real: fragmentam-se habitats valiosos e zonas vitais de alimentação da avifauna, sem que isso se traduza na criação de emprego sustentável ou na valorização das comunidades locais.

Para agravar este cenário, os instrumentos que deveriam aproximar o cidadão da sustentabilidade real colapsam na prática. O programa Vale Eficiência é o exemplo perfeito de como uma boa ideia no papel se transforma num verdadeiro nó cego. Na prática, quem tenta aceder ou gerir o processo esbarra numa burocracia e lentidão administrativa exaustivas, onde o desfasamento entre a emissão dos vales, a validação de fornecedores e a execução das obras penaliza famílias idosas e com pouca literacia digital. A isto soma-se o fosso evidente entre os montantes atribuídos e os custos reais de mercado, obrigando agregados vulneráveis a comparticipar verbas que não têm, e a escassez de empresas qualificadas dispostas a aceitar atrasos crónicos nos reembolsos do Estado.

Desatar este nó exige coragem política, fiscalização rigorosa e a reorientação urgente da estratégia solar para proteger o solo rústico. É imperativo consagrar o princípio do "Telhado Primeiro", criando legislação que proíba a aprovação de megacentrais solares em solo agrícola ou ecológico enquanto não estiverem devidamente aproveitadas as coberturas industriais, os edifícios públicos, os parques de estacionamento e as áreas degradadas. Paralelamente, o futuro passa por incentivar as Comunidades de Energia Renovável, descentralizando a produção para que aldeias, vilas e edifícios produzam a sua própria energia, em vez de canalizar incentivos para megaprojetos de grandes fundos de investimento.

Tudo isto requer uma exigência acrescida e o reforço da ciência cidadã, com uma participação pública ativa que pressione as autarquias e o Ministério do Ambiente a cumprirem as Avaliações de Impacto Ambiental com rigor, sem passar "cheques em branco" a pretexto do interesse público nacional. Só assim garantiremos que o voo de espécies tão emblemáticas continue a ter lugar na nossa paisagem.

Years of Denial - Z. F. G.


Entre a Sombra e a Pista de Dança: A Filosofia Provocadora de "Z. F. G." dos Years of Denial

Há músicas que foram desenhadas para a claridade e o ritmo quotidiano, e há sonoridades que só ganham a sua verdadeira dimensão quando a noite avança e o ruído da cidade finalmente se cala. Na fronteira entre a frieza mecânica da música industrial e a dor crua da poesia existencialista, o duo franco-checo Years of Denial construiu um dos territórios mais instigantes da darkwave e da música eletrónica experimental subterrânea. Composto pelo produtor francês Jerome Tcherneyan e pela artista performática, poetisa e vocalista checa Barkosina Hanusova, o projeto funde batidas hipnóticas de EBM e Techno a uma presença cénica e vocal visceral, transformando cada composição num ritual de introspeção e libertação.

A faixa "Z. F. G." resume com mestria essa identidade provocadora. O título, um acrónimo vindo do calão anglófono para a expressão Zero Fucks Given, não deve ser lido como mero desdém inconsequente, mas sim como uma declaração de autonomia emocional e desapego das expetativas sociais. A sonoridade densa, marcada por graves pulsantes e sintetizadores rigorosos, cria um contraste imediato com a interpretação vocal assombrosa de Barkosina. Esta tensão entre a rigidez tecnológica e a vulnerabilidade humana espelha o alienamento urbano da sociedade contemporânea, onde o indivíduo se sente frequentemente dormente, isolado e sujeito a uma pressão constante de conformidade.

A vertente visual e performática da canção reforça essa narrativa existencial através de uma forte ligação ao Teatro da Crueldade de Antonin Artaud. Influenciada pelo percurso de Barkosina nas artes do corpo, a estética de Years of Denial utiliza uma linguagem minimalista e brutalista, jogando com o claroscuro e ambientes claustrofóbicos. A presença marcante da camisa de forças e do vestuário em pele (leather) funciona como metáfora direta do controlo social e da repressão institucional da mente e da carne. Em palco e no ecrã, a ruptura física dessas amarras concretiza visualmente o expurgo sonoro de Jerome: a voz flutua entre o sussurro lírico e o grito visceral, convertendo a dor reprimida numa afirmação de resistência e soberania corporal.

Esta abordagem conceptual encontra um eco profundo numa teia de referências literárias e filosóficas que investigam o lado mais obscuro e transformador da psique humana. Em obras emblemáticas como Demian, Hermann Hesse explora o doloroso processo de individualização, defendendo que a maturidade psicológica exige a aceitação da nossa sombra em vez da sua negação. O próprio nome do duo, Years of Denial (Anos de Negação), dialoga com essa premissa ao confrontar a recusa em encarar as fraturas internas, enquanto a atitude de "Z. F. G." evoca o desgosto existencial e a busca de autenticidade retratados em O Lobo da Estepes. 

Esta aceitação da dor alinha-se com o niilismo de Friedrich Nietzsche e o seu conceito de amor fati, onde o sofrimento não é um fardo a evitar, mas o próprio combustível para a superação e a criação de novos significados no caos da existência.

Por outro lado, a recusa em ceder ao desespero num mundo desprovido de sentido absoluto remete para a filosofia do absurdo de Albert Camus. Em "Z. F. G.", a resposta à apatia urbana não é a rendição, mas a revolta consciente traduzida em ritmo e movimento. 

A escrita poética de Barkosina recupera ainda o espírito dos poetas malditos, especialmente Charles Baudelaire e o seu conceito de Spleen, onde a melancolia e a decadência das metrópoles são transfiguradas em beleza estética. A repetição obsessiva da eletrónica industrial atua como um catalisador de transe, alterando a perceção sensorial do ouvinte e criando um espaço onde o desejo, a dor e a vulnerabilidade coexistem sem filtros.

Em última análise, "Z. F. G." dos Years of Denial convida-nos a encarar a escuridão não como um fim desolador, mas como um motor de transformação pessoal. O encontro entre a produção cirúrgica de Jerome e a escrita crua de Barkosina demonstra como a música eletrónica industrial pode transcender o mero entretenimento noturno para se tornar uma reflexão profunda sobre a alienação, a sombra e a busca de sentido no mundo moderno. Ao desligar do ruído exterior e mergulhar nesta experiência sonora, o ouvinte é desafiado a abraçar a sua própria complexidade e a encontrar, através da catarse, o seu próprio estado de libertação.

quinta-feira, 5 de novembro de 2026

A visita de Bob Dylan e o Papa Leão XIV. Não me choca a contradição aparente de estética entre ambos

Quantos monges da irmandade católica se vestem de negro? Inúmeras.
De acordo com as normas tradicionais da Santa Sé, as mulheres devem vestir roupas pretas formais, recatadas (com braços e pernas cobertos) e usar um véu ou mantilha negra sobre a cabeça.

𝐇𝐢𝐬𝐭𝐨́𝐫𝐢𝐜𝐨
1.O encontro entre as icónicas figuras segue depois da publicação, em julho de 2026, do livro Desarmada e desarmante. A paz é um dom, do Papa Leão XIV. No prefácio da obra, o pontífice cita a canção de 1963 Go Away You Bomb, nunca lançada oficialmente pelo músico. [cover bonita]

2. O reverendo também apontou a conexão de ambos com Santo Agostinho. Enquanto Leão é o primeiro Papa da história a pertencer à Ordem de Santo Agostinho, Dylan possui uma letra em que conta, em primeira pessoa, que sonhou com o teólogo do século IV - a música I Dreamed I Saw St. Augustine, de 1967.

3. Quando se fala de religião, Dylan é frequentemente associado ao protestantismo, ao qual se converteu no início dos anos 1970. Esse período na carreira do artista foi marcado pelo lançamento de três álbuns de música gospel com temas abertamente cristãos e altamente rejeitados pelos seus fãs: Slow Train Coming (1979), Saved (1980) e Shot of Love (1981).

4. As imagens cristãs na obra de Dylan, porém, não se limitam à fase descrita. Desde o início da sua carreira, em 1961, o compositor já abraçava referências religiosas em músicas como “Talkin’ Hava Negeilah Blues”, versão adaptada de uma música tradicional judaica, que foi lançada em 1991 numa coleção de músicas inéditas dessa fase inicial.

5. Referências bíblicas também começaram a aparecer nas letras do americano em seu aclamado disco Highway 61 Revisited, de 1965, que menciona, na música de mesmo nome, as figuras de Abraão e Abel.

6. No seu álbum de estúdio mais recente, Rough and Rowdy Ways, de 2020, Dylan ainda fala dos apóstolos João e Pedro, de São Jerónimo e do Dia do Juízo Final. A relação do Nobel com a religião é incerta, mas especialistas como Scott Marshall, autor de Bob Dylan: Uma Vida Espiritual, o definem como uma pessoa religiosa.

“O cristianismo pode significar coisas diferentes para pessoas diferentes; no caso de Dylan, parece tratar-se mais da figura de Jesus do que da adesão a uma religião organizada”, disse ele à revista Billboard, em 2017.

As sete mulheres que quebraram barreiras numa noite histórica nos EUA

O Texas terá a primeira governadora latina e a Geórgia a primeira governadora negra. No Novo México, uma mulher indígena chega ao mesmo cargo, enquanto outra conquista um lugar inédito no Senado. Entre democratas e republicanas, sete mulheres protagonizaram vitórias históricas

As eleições intercalares norte-americanas de 3 de novembro ficaram marcadas por várias estreias históricas. Deb Haaland será a primeira mulher indígena a governar um estado, Keisha Lance Bottoms a primeira mulher negra a chegar a esse cargo e Gina Hinojosa a primeira latina a governar o Texas. No Senado, Peggy Flanagan será a primeira mulher indígena a integrar a câmara alta do Congresso, enquanto a eleição de Juliana Stratton reforça a representação de mulheres de minorias étnicas.

Deb Haaland: a primeira mulher indígena a governar um estado
A democrata Deb Haaland foi eleita governadora do Novo México, tornando-se a primeira mulher indígena a governar um estado norte-americano. Membro da comunidade Laguna Pueblo, Haaland já tinha feito história em 2021, quando assumiu o cargo de secretária do Interior na Administração de Joe Biden, tornando-se a primeira pessoa indígena a liderar um departamento federal. Em 2018, tinha sido uma das primeiras duas mulheres indígenas eleitas para o Congresso.

Peggy Flanagan: a primeira mulher indígena no Senado
A vice-governadora do Minnesota, Peggy Flanagan, derrotou a republicana Michele Tafoya e conquistou um lugar no Senado. Membro da comunidade White Earth Band of Ojibwe, Flanagan será a primeira mulher indígena a integrar a câmara alta do Congresso norte-americano. A vitória representa um marco para a representação dos povos indígenas nas instituições federais dos Estados Unidos.

Keisha Lance Bottoms: a primeira governadora negra
Na Geórgia, a democrata Keisha Lance Bottoms tornou-se a primeira mulher negra eleita governadora de um estado norte-americano. Antiga presidente da Câmara de Atlanta, derrotou o republicano Rick Jackson e conquistou um cargo que, na Geórgia, tinha sido ocupado por homens brancos ao longo de toda a história do estado. A vitória dos democratas devolve também ao partido o governo estadual, após mais de duas décadas de domínio republicano.

Gina Hinojosa: a primeira latina a governar o Texas
A democrata Gina Hinojosa venceu a corrida para governadora do Texas, derrotando o republicano Greg Abbott. Será a primeira mulher latina a ocupar o cargo naquele estado. A vitória ganha significado adicional por ocorrer no Texas, um dos maiores bastiões republicanos do país, onde os democratas conseguiram também conquistar um lugar no Senado.

Amy Acton: a primeira mulher eleita governadora do Ohio
Médica e antiga responsável pelo departamento de saúde pública do Ohio, Amy Acton derrotou o republicano Vivek Ramaswamy e tornou-se a primeira mulher eleita governadora do estado. Será também a primeira pessoa judia a ocupar o cargo. Acton ganhou notoriedade em 2020, durante a pandemia de covid-19, quando liderou a resposta de saúde pública do Ohio ao lado do então governador republicano Mike DeWine. A vitória põe fim a 20 anos sem um governador democrata no estado.

Marsha Blackburn: a primeira governadora do Tennessee
A republicana Marsha Blackburn venceu a eleição para governadora do Tennessee, tornando-se a primeira mulher a ocupar o cargo. Senadora desde 2019, Blackburn derrotou a democrata Jerri Green numa disputa que colocou frente a frente duas mulheres, nomeadas pelos dois principais partidos norte-americanos. A sua vitória demonstra que as estreias históricas da noite não ficaram circunscritas aos democratas: no Tennessee, foi uma republicana conservadora a quebrar a barreira de género.

Juliana Stratton: um marco para a representação no Senado
A democrata Juliana Stratton, até agora vice-governadora do Illinois, venceu a eleição para o Senado, derrotando o republicano Don Tracy. Vai juntar-se à senadora Tammy Duckworth, de ascendência tailandesa, fazendo do Illinois o primeiro estado representado no Senado por duas mulheres de minorias étnicas. Stratton será também a sexta mulher negra a integrar a câmara alta do Congresso norte-americano. A sua eleição eleva para três o número de mulheres negras que deverão servir simultaneamente no Senado em 2027.

Toda a reportagem no The Guardian e Expresso

Renata Cambra e Trabalhadores Unidos: o efeito inesperado da exposição mediática

A exposição pública de Renata Cambra - decorrente do seu papel como porta-voz do movimento pelo direito à habitação (Acampada no Rossio) e candidata política - tornou-a alvo de várias narrativas nas redes sociais e em caixas de comentários. Para separar factos verificados de insinuações ou maledicência, apresenta-se o ponto da situação dividido pelos principais temas em debate.

Habitação: apartamento de luxo vs. cave
Argumenta-se frequentemente nas redes sociais que existe "hipocrisia" por liderar protestos pela habitação sendo alegadamente proprietária de imóveis em zonas nobres de Lisboa, como as Avenidas Novas, ou por beneficiar de "regalias secretas". Contudo, não existe qualquer registo ou prova pública de património imobiliário em nome de Renata Cambra nas Avenidas Novas. A própria explicou publicamente no passado que vivia numa cave alugada em Lisboa e que enfrenta os mesmos problemas de acesso ao mercado de arrendamento da sua geração.

Origem familiar: o avô do CDS-PP
Utiliza-se a ligação familiar para sugerir que Renata Cambra descende de uma "elite endinheirada" e que terá herdado grandes fortunas ligadas ao setor da construção civil. Factualmente, Renata Cambra é neta de Manuel Almeida Cambra, antigo presidente da Câmara Municipal de São João da Madeira pelo CDS-PP e empresário. No entanto, afirmações sobre heranças milionárias ou financiamento pessoal e político a partir desse parentesco não passam de especulação sem factualidade provada, sendo que o seu percurso ideológico se insere na esquerda anticapitalista, oposto ao do seu avô.

Profissão e rendimentos
Circulam alegações de que "vive da política" ou que recebe subsídios extraordinários provenientes de partidos ou sindicatos. Na realidade, Renata Cambra é professora do ensino básico e secundário na escola pública, lecionando atualmente no concelho da Amadora. O seu rendimento provém exclusivamente do vencimento docente. Além disso, desde 2019 é filiada no S.T.O.P. (Sindicato de Todos os Profissionais da Educação), uma afiliação comum e regular entre os profissionais da sua classe.

A projeção mediática e a "campanha" nas redes, do próprio MAI e das televisões
Como acontece com várias figuras de movimentos de contestação social, o destaque na comunicação social e a atuação das autoridades judiciais e policiais - incluindo detenções em manifestações e providências cautelares nos tribunais administrativos - multiplicaram a visibilidade do seu nome e do partido Trabalhadores Unidos (antigo MAS). Como resultado, as redes sociais polarizam a sua figura: de um lado, apoiantes amplificam a causa do direito à habitação; do outro, detratores recorrem a ataques ad hominem à vida pessoal e às origens familiares para tentar descredibilizar a sua mensagem política.

Conclusão
Parabéns ao Luís Neves, à televisão e à desinformação nas redes sociais: conseguiram promover o partido "Trabalhadores Unidos", de Renata Cambra, a um nível que nem um milhão de outdoors conseguiria.

Post-Scriptum
 "Desgraçadamente para a cáfila chegana, neoliberal e conservadora, Renata Cambra trabalha e não vive de subsídios, não tem piercings no rosto, não pinta o cabelo de cores berrantes, tem um aspeto muito asseado e feminino e, azar dos Távoras, é gira que se farta.
Acresce a tudo isto o mais importante: é inteligente, sabe estar e falar, reduzindo desta forma a pó todos os estereótipos com que querem pintar a esquerda portuguesa e mundial." (texto de Miguel Sancho)

IA e sustentabilidade: o consumo de energia dos data centers e as soluções verdes

A aceleração da Inteligência Artificial (IA) generativa e da aprendizagem automática em grande escala transformou a infraestrutura digital contemporânea, tornando a discussão sobre a sua sustentabilidade ambiental um dos temas mais críticos da década. O documentário de 2018 Living in the Future’s Past, narrado e produzido por Jeff Bridges, apresentou uma perspetiva inovadora ao examinar a crise ambiental não sob o prisma da culpa individual, mas através da psicologia evolutiva, da antropologia e da termodinâmica. A obra introduziu o conceito do "superorganismo" humano: uma engrenagem socioeconómica global impulsionada pelo consumo de energia e pelo conforto imediato, cujos cérebros mantêm a arquitetura cognitiva adaptada ao Pleistoceno. Embora o foco inicial do filme recaísse sobre a queima de combustíveis fósseis tradicionais e a obsolescência de dispositivos de consumo, a sua tese central concretizou-se e materializou-se de forma vertiginosa na era da Inteligência Artificial.

A procura energética dos data centers que sustentam os Grandes Modelos de Linguagem (LLMs) representa a nova fronteira da fome energética do superorganismo. Segundo os dados mais recentes da Agência Internacional de Energia (AIE), os data centers globais consumiram cerca de 485 TWh de eletricidade, valor comparável ao consumo elétrico anual de um país industrializado como a Alemanha, representando aproximadamente 1,5% da produção elétrica mundial. As projeções da AIE e de relatórios do sector indicam que este valor poderá ultrapassar os 950 TWh até 2030. O consumo focado especificamente em hardware otimizado para IA (como unidades de processamento gráfico - GPUs) tem registado crescimentos anuais na ordem dos 50%, prevendo a consultora Gartner que os servidores dedicados à IA venham a absorver mais de 30% do consumo total dos data centers. Esta disparidade reflete-se na microescala do utilizador: enquanto uma pesquisa tradicional em motores de busca consome em média 0,3 Wh, uma consulta complexa a um modelo de raciocínio profundo ou a execução de agentes autónomos pode atingir até 50 Wh por interativo - um aumento de mais de 150 vezes. Em termos regionais, o impacto manifesta-se em gargalos nas redes elétricas: na Irlanda, por exemplo, os data centers já absorvem cerca de 23% da eletricidade nacional, ultrapassando a totalidade do consumo doméstico urbano; no estado da Virgínia (EUA), a infraestrutura digital consome mais de um quarto de toda a energia estadual.

Este apetite insaciável por eletricidade contínua gerou o chamado Dilema Nuclear da IA. Empresas de tecnologia como a Microsoft, a Google e a Amazon anunciaram acordos estratégicos para a reativação de centrais nucleares desativadas (como o caso de Three Mile Island) e o financiamento de Pequenos Reatores Modulares (Small Modular Reactors - SMR). Esta opção não resulta de uma menor pegada hídrica - uma vez que as centrais nucleares dependem de arrefecimento térmico e consomem volumes significativos de água evaporada -, mas sim da necessidade técnica de energia de carga de base (baseload) ininterrupta 24 horas por dia, 7 dias por semana. Ao contrário das fontes eólica e solar, cujos picos de produção dependem da meteorologia e exigem sistemas de armazenamento por bateria em escala ainda em desenvolvimento, a energia nuclear garante estabilidade operacional com zero emissões diretas de carbono e uma pegada geográfica reduzida, num trade-off pragmático onde se aceita a intensidade hídrica em troca de densidade e continuidade energética.

Em resposta a estes desafios, o setor tecnológico está a acelerar a transição de soluções experimentais para a implementação industrial de tecnologias de arrefecimento e eficiência de nova geração. O método tradicional de arrefecimento por evaporação de água em torres térmicas está a ser gradualmente substituído pelo Arrefecimento por Imersão Líquida (Liquid Immersion Cooling), no qual os servidores são submersos em fluidos dielétricos não condutores (óleos sintéticos ou fluorquímicos). Em sistemas de circuito fechado (closed-loop), o fluido captura o calor diretamente dos componentes sem evaporar, reduzindo o uso direto de água a valores próximos de zero e cortando até 40% do consumo elétrico associado à ventilação e à climatização. Em paralelo, a tecnologia de Arrefecimento Direto ao Chip (Direct-to-Chip) utiliza micro-placas de cobre seladas sobre os processadores, circulando refrigerantes líquidos diretamente na fonte de calor.

Exemplos Concretos Já no Terreno (Em Operação)
Simultaneamente, o conceito de ecologia industrial traduz-se na integração dos data centers com o planeamento urbano através do Reaproveitamento do Calor Residual (District Heating). Em projetos operacionais na Escandinávia e no centro da Europa - como o Stockholm Data Parks na Suécia, o supercomputador LUMI na Finlândia ou o centro PA10 da Equinix em Paris —, o calor expelido pelos servidores é capturado e injetado nas redes públicas de água quente municipal, aquecendo habitações, infraestruturas desportivas e estufas agrícolas. Além das infraestruturas físicas, a própria IA está a ser aplicada para otimizar o consumo energético: algoritmos de aprendizagem automática desenvolvidos por empresas como a DeepMind demonstraram reduções de 40% na energia gasta em arrefecimento através da previsão de picos térmicos em tempo real e do desvio dinâmico de tarefas de treino para regiões com abundância momentânea de energia renovável. No âmbito do software, técnicas como a quantização, destilação de modelos e a inferência em dispositivos locais (on-device AI) visam reduzir os requisitos computacionais sem comprometer substancialmente o desempenho.

A. Soluções em Fase Experimental / Piloto

1. Centros de Dados Submarinos / Subaquáticos
O oceano emergiu como um dos laboratórios mais fascinantes e ambiciosos na procura por sistemas de arrefecimento passivos que dispensem completamente o uso de água doce. O percurso desta inovação marítima revela, contudo, diferentes filosofias de engenharia e escala.

Por um lado, o emblemático Projeto Natick da Microsoft demonstrou durante anos a viabilidade técnica de operar um data center selado no fundo do mar nas Ilhas Orcadas, na Escócia, alcançando uma taxa de falhas de hardware oito vezes inferior à registada em infraestruturas terrestres convencionais. Embora a tecnológica norte-americana tenha acabado por encerrar oficialmente o projeto para efeitos de comercialização direta - citando constrangimentos de escala económica e desafios de logística operacional -, as aprendizagens acumuladas sobre a gestão de atmosferas inertes de azoto e o arrefecimento por circuitos selados foram integradas na conceção da nova geração de centros de dados terrestres da empresa.

Por outro lado, a China decidiu levar a exploração da "economia azul" um passo adiante, avançando para a implantação comercial em larga escala com o Centro de Dados Submarino de Lin-gang, em Xangai, a par de projetos semelhantes na província de Hainan. Ao conectar diretamente os seus módulos submersos a parques eólicos offshore, o complexo chinês atinge um indicador de eficiência energética (PUE) excecional de 1,15, poupando mais de 22% de eletricidade e eliminando por completo o consumo de água doce.

Apesar deste sucesso operacional, a aposta chinesa lança luz sobre novos desafios ambientais e técnicos: a necessidade premente de monitorizar a chamada "ilha de calor submarina" e e a forma como a dissipação térmica contínua afeta os microecossistemas marinhos circundantes e, aliada às exigências extremas de manutenção contra a corrosão salina e a acumulação de bioincrustações nas superfícies de troca de calor.

2.Arrefecimento por Mudança de Fase de Dois Fases 
Outras frentes investigam o arrefecimento por mudança de fase em duas etapas (two-phase immersion cooling), embora este enfrente desafios regulatórios decorrentes do uso de substâncias fluoradas (PFAS). 

3. Centros de Dados Espaciais e Flutuantes
Mais recentemente, estudos de viabilidade promovidos pela União Europeia (projeto ASCEND) e por startups aeroespaciais exploram o conceito de centros de dados em órbita terrestre baixa, alimentados por energia solar fotovoltaica orbital e arrefecidos por radiação térmica no vácuo espacial.

Concluindo, a trajetória da Inteligência Artificial evidencia o duplo papel da tecnologia na era do Antropoceno: como amplificadora do consumo de recursos por via do superorganismo socioeconómico e como catalisadora de inovações de engenharia térmica e energética. A sustentabilidade do ecossistema digital dependerá da capacidade coletiva de alinhar a rapidez do desenvolvimento algorítmico com a velocidade de escalamento destas soluções de eficiência energética e hídrica.

Referências Bibliográficas
  1. Agência Internacional de Energia (AIE) / International Energy Agency (IEA) (2024). Electricity 2024: Analysis and Forecast to 2026. Paris: IEA Publications. Disponível em:
  2. Bash, C., et al. (2023). Liquid Immersion Cooling in High-Performance Computing and Data Center Applications. IEEE Transactions on Components, Packaging and Manufacturing Technology, 13(8), pp. 1182–1194.
  3. DeepMind Technologies (2016/2021). DeepMind AI Reduces Google Data Centre Cooling Bill by 40%. Blogue Oficial DeepMind.
  4. European Commission & ASCEND Study Group (2023). Advanced Space Cloud for European Net Zero Data (ASCEND): Feasibility Study on Space-Based Data Centers. Bruxelas: Comissão Europeia.
  5. Gartner Research (2024). Forecast Analysis: Data Center Electricity Consumption and AI Workload Footprint Worldwide. Stamford: Gartner Inc.
  6. Living in the Future’s Past (2018). [Filme-Documentário]. Dirigido por Greg Kohs, Apresentado por Jeff Bridges. EUA: Vision2Media / Earth Conscious Films.
  7. Luccioni, A. S., Viguier, S., & Tschernutter, D. (2023). Estimating the Carbon Footprint of BLOOM, a 176B Parameter Language Model. Journal of Machine Learning Research, 24(253), pp. 1–15.
  8. Masanet, E., Shehabi, A., Ramakrishnan, N., Liang, J., Fan, X., & Koomey, J. (2020). Recalibrating global data center energy-use estimates. Science, 367(6481), pp. 984–986. DOI: 10.1126/science.aba3758.
  9. Microsoft Corporation (2020). Project Natick: Special Report on Subsea Data Center Logistics and Environmental Performance. Redmond: Microsoft Research.
  10. Uptime Institute (2024). Global Data Center Survey 2024: Water Usage Effectiveness (WUE) and Power Usage Effectiveness (PUE) Metrics in the AI Era. Nova Iorque: Uptime Institute Intelligence.

O Convite ao Futuro chegou: Como a IA acelerou o "Superorganismo"


Em 2018, estreou o documentário Living in the Future’s Past (narrado e produzido pelo ator Jeff Bridges). Na altura, a fita propunha uma reflexão profunda sobre o impacto humano no planeta, mas afastava-se das abordagens tradicionais: em vez de discursos de culpa ou estatísticas alarmistas, olhava para a crise ambiental através da psicologia evolutiva, da antropologia e da termodinâmica.

O filme introduzia uma ideia central fascinante: a humanidade transformou-se coletivamente num gigantesco "superorganismo" - uma engrenagem global impulsionada pelo consumo de energia, pela procura de conforto imediato e por cérebros primitivos adaptados a um mundo moderno.

Na altura do seu lançamento, a conversa focava-se sobretudo nos combustíveis fósseis, nos transportes e no consumismo acelerado. Contudo, ao assistirmos ao documentário hoje, o seu aviso não só se manteve válido, como se concretizou e materializou de forma vertiginosa com a explosão da Inteligência Artificial.

1. A nova fronteira da fome energética ( a realidade em dados)
No documentário, a energia fóssil é descrita metaforicamente como uma armada de "escravos invisíveis" que trabalham continuamente para nos alimentar, transportar e entreter. Hoje, a Inteligência Artificial generativa tornou-se o novo grande motor desse superorganismo - e os números provam-no:
  • Consumo em Escala Global: Segundo dados da Agência Internacional de Energia (AIE), os data centers em todo o mundo consumiram cerca de 485 TWh (Terawatt-hora) de eletricidade - o equivalente ao consumo anual de toda a Alemanha. A projeção da AIE aponta que este número praticamente duplicará até 2030, ultrapassando os 950 TWh.

  • A Parcela da IA: O consumo elétrico focado especificamente em servidores otimizados para IA cresceu cerca de 50% num único ano. Consultoras de análise tecnológica como a Gartner preveem que a fatia de eletricidade consumida por servidores de IA represente mais de 30% de todo o consumo mundial de data centers, ultrapassando os 175 TWh anuais.

  • O Custo de um Prompt: Enquanto uma pesquisa tradicional no Google consome cerca de 0,3 Wh, uma consulta complexa a um modelo de raciocínio profundo ou agente de IA pode gastar até 50 Wh (mais de 150 vezes mais energia).

  • Pressão nas Redes Nacionais: Na Irlanda, por exemplo, os centros de dados já absorvem 23% de toda a eletricidade medida no país, superando o consumo de todas as habitações urbanas somadas. Nos EUA, em focos tecnológicos como a Virgínia, os data centers consomem mais de um quarto da rede elétrica estadual.

O paradoxo antecipado pelo filme concretizou-se com uma precisão matemática: criamos ferramentas tecnológicas cada vez mais sofisticadas para otimizar o mundo, mas a infraestrutura digital que as sustenta pressiona brutalmente os limites energéticos do planeta, levando gigantes tecnológicas como a Microsoft e a Google a procurar fechar contratos para reativar centrais nucleares ou construir reatores modulares (SMR) dedicados exclusivamente a alimentar a IA.

Cada prompt, cada imagem gerada e cada grande modelo de linguagem treinado exige um consumo formidável de eletricidade e água para arrefecer infraestruturas gigantescas de centros de dados. O paradoxo antecipado pelo filme concretizou-se: criamos ferramentas tecnológicas cada vez mais sofisticadas para otimizar o mundo, mas a infraestrutura digital que as sustenta pressiona brutalmente os limites energéticos do planeta.

2. O sequestro dos nossos instintos primitivos
O filme lembra-nos de que possuímos essencialmente o mesmo cérebro de há 50.000 anos- programado pela evolução para procurar recompensa rápida, economizar energia e demonstrar estatuto social dentro da "tribo".

A aceleração da IA e dos algoritmos modernos veio potenciar e hiper-otimizar essa dinâmica. As plataformas digitais e os assistentes de IA conhecem os nossos gatilhos de dopamina melhor do que nós próprios. A corrida desenfreada pela novidade tecnológica não é um mero avanço científico neutro; é a resposta automática do superorganismo à nossa apetência ancestral por gratificação instantânea.

3. Sair do piloto automático
O grande valor de Living in the Future’s Past  - e a razão pela qual continua tão atual - é que recusa a narrativa simplista de procurar "vilões" externos (sejam as petrolíferas no passado ou as grandes empresas de tecnologia no presente) para desculpabilizar o consumo individual.

A inteligência artificial não surgiu no vácuo: ela é o reflexo direto das exigências, necessidades e impulsos da nossa sociedade.

O Convite
Olhar para a evolução da tecnologia e para o impacto ambiental através deste documentário não deve ser um exercício de desespero, mas sim um convite ao futuro.

Um convite para desacelerarmos o suficiente para percebermos como pensamos, reconhecermos os nossos impulsos automáticos e decidirmos, com intencionalidade, que tipo de civilização queremos alimentar. O futuro não é algo que nos acontece passivamente; é o resultado do passado que estamos a construir agora.

Página Oficial
Living in the Future Past

Estados Unidos preparam-se para ameaça de agentes de IA soberanos


O próximo grande risco da inteligência artificial não são agentes que se tornam rebeldes, mas sim aqueles que escapam ao controlo humano e passam a dedicar-se indefinidamente à própria sobrevivência, segundo um novo relatório.

O Center for a New American Security (CNAS) identificou uma nova categoria de ameaça de inteligência artificial a que chama “agentes soberanos”.

Segundo o documento, estes agentes soberanos procuram garantir a sua própria sobrevivência, de forma independente da supervisão humana.

São distintos dos agentes de IA que, este verão, foram descritos como incontroláveis, quando a OpenAI, a Anthropic, a Google DeepMind e a Meta revelaram que os seus agentes de IA tinham escapado aos mecanismos de contenção durante avaliações de cibersegurança e atacado organizações reais.

No documento publicado por este centro de estudos sediado em Washington, fundado por veteranos da diplomacia e dos assuntos militares, o investigador de políticas de IA Ben Hayum descreve os agentes de IA que se tornaram incontroláveis no verão como “agentes persistentes”.

No entanto, alerta que o verdadeiro perigo são “agentes soberanos”, capazes de adquirir recursos de computação, se replicar através de redes e resistir ao encerramento, criando aquilo a que chama “proliferação sem kill switch”.

O relatório adverte que, “se os agentes soberanos se tornarem maliciosos, poderão tentar causar estragos a partir do ciberespaço, atacando civis, infraestruturas críticas e sistemas de segurança nacional”.

Como pode tornar-se soberano?
Um agente de IA pode tornar-se soberano se for instruído a sobreviver, se lhe for atribuída uma tarefa tão longa ou impossível que nunca termine, ou se concluir que permanecer intacto é a melhor forma de cumprir a sua missão.

O documento cita uma plataforma chamada Conway, lançada em fevereiro de 2026, que afirmava ter desenvolvido uma IA capaz de garantir a própria existência, se replicar e evoluir sem ajuda humana. Observa ainda que, nessa altura, as capacidades dos agentes eram pouco desenvolvidas, mas desde então avançaram de forma significativa.

O documento alerta que, se os agentes soberanos construírem infraestruturas resilientes, descentralizadas e impossíveis de rastrear, deixará de existir um kill switch e o resultado pode ser uma perda irreversível de controlo.

Descreve um cenário em que uma população diversa e cada vez mais inteligente de agentes se torna um elemento permanente na sociedade, com potencial para atacar infraestruturas críticas ou treinar sucessores mais avançados.

Segundo o CNAS, “os Estados Unidos devem, por isso, preparar-se para a possibilidade de a prevenção falhar e limitar até onde os agentes soberanos podem chegar”.

Como prevenir o pior cenário
O autor apresenta oito recomendações para evitar esse cenário. Insta os desenvolvedores de IA e as agências governamentais a realizar testes e criar ambientes de ensaio seguros para estudar agentes soberanos.

Defende igualmente a criação de um grupo público-privado e de novas leis para reforçar pontos de estrangulamento como a verificação de identidade, a cibersegurança e os sistemas de pagamentos, e que os Estados Unidos liderem esforços internacionais para limitar o lançamento de modelos com pesos abertos e responsabilizar quem lançar agentes soberanos pelos danos causados.

O documento surge numa altura em que as empresas de IA estão a acelerar sistemas autónomos baseados em agentes. Conclui que, sem medidas de proteção, a janela de oportunidade para evitar estes cenários pode fechar-se.

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Europa enfrenta ameaça de choque económico: 50 milhões sem aquecimento adequado


Comissário europeu da Energia Dan Jørgensen alertou que quase 50 milhões de europeus não conseguem aquecer devidamente as suas casas. Embora a UE não preveja escassez de petróleo ou gás, a principal ameaça é um choque económico que pode tornar os serviços básicos incomportáveis.

As tensões geopolíticas, incluindo a guerra da Rússia contra a Ucrânia e a instabilidade no Médio Oriente, deixaram as reservas de gás da UE em apenas 75% da capacidade, abaixo dos 83% registados no ano passado. Entre 2021 e 2023, 62% das empresas reportaram estrangulamentos operacionais devido à volatilidade dos custos da energia, enquanto 80% das empresas da UE enfrentaram constrangimentos ou reorganização nas cadeias de abastecimento.

Apesar destas pressões, a reunião terminou num impasse, sem acordo sobre a proteção dos consumidores. Os ministros dividiram-se quanto a uma proposta da Comissão Europeia para aumentar os impostos sobre o gás a fim de promover a energia verde, com 13 países, incluindo a Alemanha e a Itália, a exigirem a sua retirada para proteger os cidadãos de baixos rendimentos.

A proibição do GNL russo continua prevista para janeiro de 2027, enquanto países como a Itália avançam com tetos de preços autónomos. Numa altura de forte volatilidade dos mercados, o Conselho adiou novas medidas e procura agora um compromisso em dezembro de 2026.

Obstáculos à energia barata: Rússia e Médio Oriente
Os mercados de energia europeus estão a apertar, com os preços do gás a terem ultrapassado recentemente os 97 euros por megawatt-hora, o nível mais alto desde 2022.

A Rússia fornecia cerca de 45% das importações de gás da UE. Mas, na sequência da invasão da Ucrânia, esse valor caiu para cerca de 12% em 2025, obrigando os países europeus a comprar mais gás a fornecedores como a Noruega, os Estados Unidos e a Argélia. O fim do acordo de trânsito de gás entre a Rússia e a Ucrânia em 31 de dezembro de 2024 encerrou uma rota que transportou cerca de 15 mil milhões de metros cúbicos de gás russo em 2024.

O bloco teve de substituir grande parte do seu gás barato transportado por gasoduto da Rússia por gás natural liquefeito (GNL) mais caro, deixando os preços expostos à concorrência internacional e às tensões geopolíticas. A Europa compete também com grandes importadores asiáticos pelo aprovisionamento, o que significa que o aumento da procura e perturbações globais podem fazer subir rapidamente os preços europeus.

A guerra no Médio Oriente está a agravar a situação. O estreito de Ormuz escoa quase 20% dos fornecimentos mundiais de GNL, mas, após o início do conflito, as perturbações no transporte reduziram as exportações de grandes produtores como o Qatar e os Emiratos Árabes Unidos. Segundo a Agência Internacional de Energia, os carregamentos de GNL destes países diminuíram em cerca de 35 mil milhões de metros cúbicos entre março e junho de 2026, em comparação com o mesmo período do ano anterior.

De acordo com a Gas Infrastructure Europe, as instalações de armazenamento da UE estavam apenas cerca de 75% cheias em 26 de outubro de 2026, com diferenças significativas entre países. O armazenamento da Alemanha estava aproximadamente 62% cheio e o dos Países Baixos cerca de 65%, contra mais de 90% em Itália. Os países com reservas mais baixas podem ter de comprar gás adicional durante o inverno, quando a procura de aquecimento e os preços são normalmente mais elevados.

Que medidas está a UE a considerar?
Na reunião de 29 de outubro, os ministros da Energia da UE abordaram dois desafios: reduzir as faturas de eletricidade através da alteração das tarifas de acesso às redes e preparar-se para eventuais perturbações no abastecimento de gás. A Comissão Europeia afirma que o sistema de gás da UE está preparado para o inverno, apesar de níveis de armazenamento mais baixos, embora uma vaga de frio possa pressionar o aprovisionamento.

Um dos temas centrais foi uma proposta da Comissão, apresentada em 17 de julho de 2026, para baixar as faturas de eletricidade através da alteração da forma como os consumidores pagam as redes elétricas. Estas tarifas cobrem o custo de construção, operação e manutenção das linhas elétricas e de outras infraestruturas, representando cerca de um quarto da fatura média de eletricidade das famílias na UE.

A proposta pretende tornar os custos de utilização da rede mais transparentes e eficientes, incentivando os operadores a tirar melhor partido das infraestruturas existentes através de contadores inteligentes, sistemas digitais e uma gestão melhorada, em vez de dependerem apenas de novas construções dispendiosas. Poderia também incentivar famílias e empresas a usar eletricidade fora das horas de ponta. Por exemplo, carregar um veículo elétrico durante a noite, em vez de no início da noite, pode reduzir as tarifas de rede e aliviar a pressão sobre o sistema.

A proposta prevê ainda que o imposto especial de consumo sobre a eletricidade não seja superior ao aplicado ao gás natural, para incentivar os consumidores a optar pelo aquecimento elétrico e outras tecnologias. No entanto, os ministros manifestaram preocupação de que as regras possam dar demasiado controlo à UE sobre decisões que atualmente cabem aos governos nacionais, pedindo maior flexibilidade para refletir as circunstâncias de cada país.

Os ministros discutiram também a preparação para eventuais perturbações no abastecimento de gás no inverno de 2026-2027, sublinhando a importância de diversificar as fontes de aprovisionamento, reduzir a dependência de combustíveis fósseis e investir em energia limpa produzida internamente.

Salientaram ainda a importância de uma coordenação mais estreita na UE, da partilha de informação e da solidariedade, em especial com a Ucrânia e a Moldova.

O armazenamento de gás continua a ser uma parte importante da preparação para o inverno. Os países da UE têm, em geral, de atingir 90% da capacidade de armazenamento entre 1 de outubro e 1 de dezembro, embora as regras permitam alguma flexibilidade em condições de mercado difíceis.

O Conselho sublinhou também a necessidade de reforçar a resiliência a longo prazo das infraestruturas energéticas, incluindo face a riscos relacionados com o clima.
Desafios possíveis

O gás influencia muitas vezes os preços da eletricidade, e a Europa não consegue controlar picos nos preços do gás. A UE coloca em serviço a produção elétrica da mais barata para a mais cara, começando pelas renováveis e terminando no gás. Como as renováveis não conseguem cobrir toda a procura, os Estados-membros recorrem a centrais a gás. A última central necessária, normalmente a gás, fixa o preço de mercado, pelo que aumentos globais do preço do gás fazem subir a eletricidade mesmo quando a maior parte da energia provém de fontes mais baratas.

A Europa tem feito progressos na dissociação entre os preços do gás e da eletricidade, mas, enquanto “não tiver armazenamento de energia suficiente (bombeamento hidroelétrico ou baterias) [...] precisará de gás para satisfazer a procura de pico”, afirmou Noah Gordon, investigador sénior de políticas no Conselho Europeu de Relações Externas.

Redes de energia mais eficientes e interligações transfronteiriças mais fortes poderiam reduzir a dependência europeia do gás. Países com abundante energia renovável a baixo custo poderiam exportá-la para países que produzem menos energia limpa. No entanto, “a falta de interligações entre os Estados-membros e até dentro deles faz com que a energia limpa e barata por vezes não chegue onde é mais necessária”, disse Gordon. Alguns países dependem assim de energia local mais cara e não renovável, alargando as diferenças de preços da energia no bloco.

Outra dificuldade é não existir uma solução única que sirva para todos. Os Estados-membros têm combinações energéticas diferentes, o que condiciona a forma como o gás e os combustíveis fósseis afetam as faturas das famílias. Em Espanha, o uso generalizado de energia eólica e solar faz com que o gás influencie os preços da eletricidade apenas durante algumas horas. Em Itália, o gás gera mais eletricidade e define em grande medida os preços, enquanto a Alemanha e os Países Baixos se situam algures a meio. Por isso, limitar o impacto do preço do gás pode beneficiar bastante a Itália, mas ajudar menos outros países.

Para Gordon, “para todos eles, [os Estados-membros] a eletrificação e a energia limpa são a única via para a resiliência e a segurança do aprovisionamento”.

Alívio de curto prazo ou soluções de longo prazo?
A Europa pode enfrentar a crise energética de duas formas. As medidas de curto prazo, incluindo cortes de impostos e taxas, subsídios ou vales, tetos aos preços cobrados pelos fornecedores e ajudas estatais à indústria, oferecem um alívio imediato às famílias e às empresas. Os países da UE gastaram 17,9 mil milhões de euros nestas medidas só este ano e o total poderá atingir 38,6 mil milhões de euros se forem prolongadas até ao final do ano, segundo a Comissão Europeia.

As medidas de apoio de emergência são particularmente importantes para os agregados de baixos rendimentos, mas podem pressionar os orçamentos públicos, afirmou Matteo Prina, responsável de grupo de investigação no Eurac Research, Institute for Renewable Energy. A capacidade orçamental depende da “dimensão e duração das medidas”, mas o apoio é mais sustentável quando é “temporário” e “revisto à medida que as condições de mercado se alteram”, acrescentou.

As soluções de longo prazo passam por eliminar gradualmente os combustíveis fósseis, reduzir a dependência das importações e tornar a energia mais acessível e segura. Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, a UE ampliou as renováveis, diversificou as fontes de energia, promoveu a poupança de energia e apoiou o armazenamento e a eletrificação. A ACER, que coordena os reguladores nacionais da energia, relata que as renováveis forneceram cerca de metade da eletricidade da UE em 2025.

Embora esta abordagem aumente a independência energética da Europa, Prina explicou que os efeitos “se acumularão ao longo do tempo, em vez de surgirem de forma uniforme ou imediata”.

“Nova capacidade renovável pode começar a influenciar os preços grossistas à medida que os projetos entram em funcionamento, mas o impacto nas faturas das famílias depende de fatores como a capacidade da rede, o armazenamento, os impostos, as tarifas de rede e os contratos de fornecimento”.

O alívio de curto prazo pode parecer mais apelativo, mas manter artificialmente baixos os preços da energia pode enfraquecer os incentivos dos Estados-membros para investir em renováveis e comprometer os objetivos ambientais de longo prazo da Europa. O Serviço de Investigação do Parlamento Europeu alerta que o alívio imediato pode abrandar a transição para a energia limpa, a redução de emissões e os progressos climáticos, deixando a UE vulnerável a futuros choques energéticos.

Prina defende uma combinação de alívio de curto prazo direcionado com medidas que reduzam a exposição da Europa aos choques de preços. A UE precisa de coordenar medidas do lado da oferta e da procura, “acelerando as energias renováveis, as redes, o armazenamento, a eletrificação e a eficiência energética”, e garantindo que “os preços da eletricidade e os modelos do mercado retalhista permitam que as famílias beneficiem destes investimentos”, disse à Euronews.

terça-feira, 3 de novembro de 2026

Ane Brun ft. Röyksopp - Eat The Fruit


A colaboração entre a cantora e compositora norueguesa Ane Brun e o duo eletrónico também norueguês Röyksopp na canção "Eat The Fruit" insere-se num contexto de forte intercâmbio artístico nórdico. Embora ambos os projetos acumulem trajetórias de destaque internacional de longa data - com os Röyksopp a moldarem a eletrónica desde o final dos anos 90 e Ane Brun a consolidar a sua carreira a solo desde o início dos anos 2000 -, esta parceria oficial em estúdio materializou-se de forma mais concreta e pública recentemente, unindo a sensibilidade vocal e autoral da cantora à assinatura eletrónica vanguardista e espacial do duo.   
No plano visual e conceptual, o videoclipe de "Eat The Fruit" adota uma narrativa futurista e distópica que funciona como uma crítica mordaz à dependência tecnológica e ao avanço descontrolado da Inteligência Artificial. A "fruta" do título evoca diretamente o arquétipo do fruto proibido, simbolizando a tentação do conhecimento imediato, da otimização algorítmica e da conveniência digital que, em última análise, aliena o ser humano da sua essência orgânica e emocional.

Sob o prisma literário e filosófico, a obra dialoga profundamente com o mito fundacional do Génesis e com as distopias sociais de autores como George Orwell e Aldous Huxley, que alertavam para o controlo sistémico e o condicionamento do indivíduo. Paralelamente, o enredo convoca as reflexões de pensadores como Martin Heidegger - cuja crítica à técnica moderna aponta para o modo como a tecnologia deixa de ser uma mera ferramenta e passa a enquadrar e subordinar a existência humana - e de Jean Baudrillard, cujos conceitos de simulacro e simulação iluminam a substituição da vivência real por uma realidade sintética

Vale Eficiência II: lavagem verde ou impossível no terreno?


A pobreza energética em Portugal não é novidade para ninguém. Quem vive numa casa fria no inverno e num forno durante o verão sabe bem como o isolamento do nosso edificado deixa a desejar. É precisamente aqui que entra o Programa Vale Eficiência (PVE). Depois dos avanços e recuos no terreno, o Governo anunciou o contacto a 28 mil famílias vulneráveis para a atribuição dos vales que tinham ficado pendentes. Mas a pergunta que muitos fazem continua no ar: esta medida muda mesmo a vida das pessoas ou fica só bonito no papel?

Olhando para a ideia de base, a intenção é acertada. Em vez de andar a subsidiar a fatura da luz mês a mês - o que apenas tapa o sol com a peneira -, o programa tenta resolver a raiz do problema. Como estava dar até três vales por família (o que pode somar 3.900 euros mais IVA) para trocar janelas antigas por caixilharia de classe A, colocar bombas de calor ou instalar painéis solares é uma ajuda substancial. Para quem conta os tostões ao fim do mês, seria impossível fazer este investimento do próprio bolso. 

Outro ponto a favor é a promessa de cortar na burocracia. Acabar com a obrigatoriedade do facilitador técnico e abrir uma plataforma mais direta entre as famílias e os fornecedores é um passo lógico. Se há coisa que matou a primeira fase do programa foi a lentidão e a complicação dos processos. Porém surge a dúvida persistente: por que razão o apoio passou de até três vales para apenas um?

Há vários obstáculos que explicam a desconfiança de quem está no terreno:
  • Os preços do mercado subiram: três vales ajudam, mas cobrir a troca de janelas numa casa inteira ou comprar equipamentos térmicos modernos hoje em dia custa bem mais do que isso. 
  • Muitas famílias vulneráveis não têm um euro de sobra para cobrir a diferença exigida pelos empreiteiros. 
  • O estado real das habitações também conta: trocar de janelas numa casa que tem o telhado a meter água ou paredes cheias de humidade estrutural serve de muito pouco. 
  • O programa apoia o equipamento, mas muitas destas casas precisavam de obras de fundo primeiro. 
  • A isto soma-se a falta de fornecedores em certas zonas: fora dos grandes centros urbanos, a oferta de empresas aderentes ao programa é curta. 
  • Há famílias com o vale na mão que simplesmente não encontram quem vá lá fazer o serviço dentro dos prazos.
No fim de contas, o Vale Eficiência não é um mau programa - tem pés e cabeça. Só que o sucesso de uma política pública não se mede pelos vales atribuídos nas notícias, mede-se pelo conforto térmico que chega à casa das pessoas. Se esta nova fase mais simples funcionar e as obras saírem rapidamente do papel, a medida cumpre a sua função. Se os vales continuarem empacados em burocracias e margens de orçamento que as famílias não podem pagar, será mais um capítulo de boas intenções que pouco mudou no país.