sábado, 4 de julho de 2026

Regarding the 250th anniversary of US Independence


We, the generation of the 60s, 70s, 80s have memories. So we must say and show the right path to our young generation. No propagandists, no to hate speech, no to neofascists, whether from the left or from the right. Having witnessed the turbulent shifts of history, we carry a unique responsibility to pass down the truth about where fanaticism and authoritarianism inevitably lead. When icons like Woody Guthrie, Johnny Cash and Pete Seeger sang, they did not answer to partisan machines or blind dogmas; they stood firmly for human dignity, truth, and the freedom of ordinary people against any form of oppression.

Extremism operates the exact same way no matter what flag it waves, relying on propaganda to distort reality, dehumanize opponents, and silence dissent. Guiding the youth today means teaching them to question easy promises and political scapegoats, encouraging them to look closely at the lessons of the past, and reminding them that standing up for the working class and the vulnerable is an act of universal empathy rather than a tool for political manipulation. By keeping our collective memory alive with honesty and conviction, we can ensure the next generation recognizes these historical traps and uses the power of authentic voice and art to keep building a freer, more compassionate world.

Mocho-galego - O Teorema Plumado da Terra


"Sobre o osso lascado de um carvalho antigo,
Onde o mar verde do prado se espraia lento,
Vejam a precisão do instante: a tensão
Que se liberta no arranque do Mocho.
A elegância pura do gatilho de penas,
Onde o corpo, ainda atado à casca,
Já desenha, com a asa que se abre,
A mestria terna do primeiro voo.

As suas órbitas são duas luas de enxofre,
Faróis de febre líquida que dissecam a luz:
Eles decifram o dia. Rastreiam a curva lenta do vento
Sobre as cristas das giestas, caçando
A deriva da poeira, o milimétrico passo de um rato.

É um relógio de carne, um engenho de penas
Forjado por eras de ensaios e golpes certeiros
Para ser o nervo vigilante de todo o ecossistema.
O padrão do seu dorso - mapa de castanhos e cremes -
Funde-se na casca, devora a própria casca,
Uma engrenagem viva da complexa teia que o sustenta.

As garras, tensas como pinças de precisão,
Cravam-se na madeira em declínio, a sua única âncora
Contra a maré ascendente da mudança invisível.
É o freio biológico que governa a matéria - dos escaravelhos,
Das aranhas tecelãs, dos roedores -, a chave de abóbada
Que sustenta o teto vivo deste mundo verde.

A sua postura é um manifesto de equilíbrio frágil.
Se o carvalho tombar, se o prado vivo for asfalto,
Se o silêncio for quebrado por um ruído mais bruto,
Estes lumes de âmbar irão desvanecer. E com a sua partida,
Uma biblioteca inteira de voo e visão será rasgada.

Pois quem medirá o tremor na erva
Quando o vigia silencioso desaparecer?
Ele é o pulso selvagem da memória da paisagem,
Que agora plana, nessa linha onde a terra e o céu se fundem,
Por um mundo que temos mesmo de defender.

João Soares, 04.07.2027

A Filantropia enganadora e porque é importante taxar os bilionários



Durante anos venderam a ideia de que a luta de classes era uma invenção da esquerda. Conversa de comunistas. Teorias de ressabiados. Inveja de quem teve sucesso. Uma fantasia repetida sempre que alguém ousava falar de desigualdade ou da concentração da riqueza.
Depois aparece Warren Buffett. Sim, Warren Buffett. Esse conhecido marxista. Admirador de Che Guevara. Frequentador assíduo da Festa do Avante. Praticamente um bolchevique de Wall Street.
E diz isto:
De repente, a teoria da conspiração da esquerda passou a ser uma confissão de um dos homens mais ricos do planeta. Buffett não disse que a luta de classes existiu. Disse que existe. Não disse que a sua classe ganhou. Disse que está a ganhar. [New York Times, 2006]
Durante décadas, convenceram milhões de pessoas de que falar em luta de classes era coisa de comunistas, sindicalistas e ressabiados. Entretanto, a guerra continuou a ser travada. E, segundo um dos seus principais protagonistas, está a correr bastante bem para um dos lados.

"Regra Buffett" nunca chegou a ser implementada.
Apesar de ter tido uma enorme tração mediática e o apoio explícito do então presidente Barack Obama, a proposta falhou o seu caminho legislativo no Congresso dos Estados Unidos.

Em 2012, o projeto de lei (batizado formalmente como Paying a Fair Share Act) foi levado a votação no Senado norte-americano. Embora tenha conseguido uma maioria simples de votos a favor (51 contra 45), a proposta foi travada pela oposição do Partido Republicano através de uma manobra de bloqueio parlamentar (o chamado filibuster), que exigia uma maioria qualificada de 60 votos para que o debate e a votação final pudessem avançar.

Os opositores da medida argumentaram na altura que aumentar os impostos sobre os mais ricos equivalia a uma "guerra de classes" e que a introdução desta taxa iria prejudicar o investimento privado, travar a criação de emprego e desacelerar a economia.

Assim, o sistema fiscal norte-americano manteve-se estruturalmente idêntico no que toca à proteção dos rendimentos de capital. Até hoje, os ganhos derivados de investimentos financeiros e ações continuam a ser taxados a taxas significativamente mais baixas do que os salários do trabalho, permitindo que a assimetria denunciada por Warren Buffett continue a ser uma realidade.

O outro lado da Filantropia
A generosidade proclamada pelos super-ricos através de iniciativas como o The Giving Pledge costuma recolher aplausos unânimes, mas, quando se vira a moeda, a filantropia dos multimilionários revela uma face muito mais cinzenta e amplamente criticada por economistas e sociólogos. Longe de ser um ato puramente altruísta, a transferência de fortunas para fundações privadas funciona, em grande parte, como um mecanismo altamente eficaz de evasão ou otimização fiscal. Ao canalizarem o seu dinheiro para estas estruturas, os bilionários obtêm deduções de impostos massivas, o que significa que o Estado — e, por arrastamento, os cidadãos comuns — deixa de arrecadar receitas que poderiam ser aplicadas em serviços públicos essenciais, como o SNS, a escola pública ou as infraestruturas.

Além da questão financeira, há um profundo défice democrático neste modelo. Quando a riqueza é transferida para fundações geridas pelos próprios magnatas ou pelas suas famílias, o poder de decisão sobre o que é prioritário para a sociedade passa das mãos de governos eleitos para as mãos de elites privadas. São os multimilionários que passam a ditar, segundo as suas convicções pessoais ou interesses de mercado, se o dinheiro deve ir para a cura de uma doença específica, para a exploração espacial ou para reformas educativas que nem sempre são testadas ou validadas. Este fenómeno cria uma espécie de plutocracia disfarçada de caridade, onde o destino do bem-estar social fica sujeito aos caprichos de um punhado de indivíduos que não respondem perante nenhum eleitorado. Ler como os ricos se tornaram mesquinhos

Por fim, não se pode ignorar o tremendo ganho de reputação e a lavagem de imagem, muitas vezes apelidada de philanthro-washing. Muitas destas fortunas colossais foram erguidas com base em práticas laborais controversas, salários baixos, lóbis políticos para travar direitos sociais ou modelos de negócio que aceleraram a crise climática. Ao doarem uma percentagem vistosa do que acumularam, estes empresários conseguem desviar as atenções do escrutínio público e das críticas à forma como geraram a sua riqueza, transformando-se de predadores económicos em benfeitores da humanidade, enquanto mantêm intacto o sistema económico que perpetua as desigualdades que eles próprios dizem combater.

A forma mais democrática é exigir regulação e taxação dos bilionários. 
A exigência de uma maior taxação sobre os bilionários tem deixado de ser um debate puramente académico para se tornar uma pressão política concreta, movida pela necessidade de corrigir o que muitos consideram ser uma falha estrutural do capitalismo moderno. A estratégia para viabilizar esta mudança assenta, primordialmente, na cooperação internacional, dado que os super-ricos operam numa economia globalizada que lhes permite deslocar o património para jurisdições com tributação mais favorável. Projetos como a proposta de um imposto global sobre a riqueza, que visa estabelecer uma taxa mínima anual sobre as maiores fortunas, são fundamentais para evitar a concorrência fiscal entre Estados e impedir a existência de paraísos fiscais que servem de refúgio ao capital.
A nível nacional, a luta pela justiça fiscal passa por reformas legislativas que alterem a forma como a riqueza é tributada, centrando-se na taxação de mais-valias não realizadas - o património latente que cresce sem ser tributado enquanto não é vendido - e no encerramento de lacunas que permitem aos multimilionários viver através de empréstimos garantidos pelas suas próprias ações, escapando assim ao imposto sobre o rendimento das pessoas singulares. Paralelamente, o reforço dos impostos sobre heranças é defendido como uma medida essencial para prevenir a cristalização de dinastias financeiras que exercem um poder desproporcional sobre a democracia. 
Esta causa tem vindo a ganhar força através da pressão cívica, com movimentos de cidadãos e até de investidores consciencializados a sublinharem que a filantropia voluntária é um paliativo insuficiente perante a necessidade urgente de um sistema redistributivo robusto, transparente e democrático, que reponha o equilíbrio entre a acumulação de capital privado e o financiamento dos bens e serviços públicos que sustentam a coesão social.
Saber mais:

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Iamnoone - Into the Void (feat. Kay-Chi)


A própria banda descreve a música como uma espécie de "limiar" ou uma "anomalia gravitacional". O significado central gira em torno da desconexão entre a mente ou o espírito e o corpo físico, além da dolorosa perceção do envelhecimento e da perda de identidade. A letra e o conceito abordam os seguintes temas: "O que nos tornamos quando a âncora do nosso corpo é cortada? (...) Como nos tornamos fantasmas de nós mesmos quando éramos mais jovens?".

Em primeiro lugar, há uma crise de identidade, ou seja, a sensação de olhar para trás ou para o próprio corpo abaixo e já não se reconhecer, como se o indivíduo fosse um mero espetador da sua própria vida ("I see myself below / Still breathing, soft and slow"). Além disso, explora-se o vazio da nostalgia, visto que o "vazio" (void) ao qual o título se refere não é totalmente deserto, mas sim povoado por memórias. É aquele sentimento de nostalgia profunda em que se flutua pelo passado, percebendo que essa versão antiga já se transformou em poeira. Por fim, nota-se um desapego da matéria, com um tom esotérico e poético de quase-morte ou emancipação espiritual, onde a voz lírica flutua no silêncio do éter, deixando para trás as amarras do mundo físico. É uma música densa, introspetiva e que funciona quase como um espelho existencial envolvido por sintetizadores analógicos impecáveis.

Há aqui uma belíssima mistura dos dois mundos, mas a balança pende massivamente para a pura poesia e para a metáfora artística. No entanto, o que torna a letra e o conceito tão fascinantes é que a arte, muitas vezes, descreve de forma poética fenómenos reais que a ciência estuda em laboratório.

Se analisarmos o texto à luz da ciência atual, a "desconexão mente-corpo" descrita na letra, onde o indivíduo olha para o próprio corpo abaixo, corresponde muito de perto ao que a neurociência estuda como Experiências Fora do Corpo (Out-of-Body Experiences) ou Experiências de Quase-Morte (EQM). Para a ciência, isto não se trata de uma emancipação espiritual, mas sim de uma falha temporária na junção temporoparietal do cérebro - a região responsável por integrar os nossos sentidos e nos dar a perceção de que estamos dentro do nosso próprio corpo. Quando há falta de oxigénio, stress extremo ou trauma, o cérebro pode baralhar-se e criar a ilusão de que a consciência está a flutuar no éter.

Por outro lado, os conceitos de "anomalia gravitacional" e "vazio" têm, obviamente, uma base na astrofísica, que estuda buracos negros e o vazio cósmico. Contudo, a banda utiliza estes fenómenos físicos como metáforas psicológicas puras para ilustrar a força gravítica da nostalgia e o isolamento da mente. Da mesma forma, a crise de identidade e a dor de ver o próprio corpo envelhecer são temas amplamente documentados pela psicologia do desenvolvimento, que explica como a nossa autoimagem mental tende a ficar estagnada numa versão mais jovem, gerando um choque cognitivo quando nos olhamos ao espelho numa idade avançada.

Em resumo, os iamnoone e o Kay-Chi não escreveram um artigo científico, mas sim pura poesia existencial. O grande mérito deles, e do próprio género Darkwave, é precisamente utilizar a frieza de termos espaciais e científicos para dar forma e beleza às dores mais profundas, analógicas e abstratas da experiência humana.

Correntes verticais em “montanha-russa” no Oceano Antártico são mais intensas do que se pensava (video)


Investigadores australianos e norte-americanos mapearam pela primeira vez, com elevado detalhe, os movimentos verticais de massas de água no Oceano Antártico, revelando correntes muito mais intensas e complexas do que as estimativas anteriores sugeriam.

O estudo, publicado na revista científica Communications Earth & Environment, combinou observações de satélite com dados recolhidos por planadores oceânicos autónomos, criando uma imagem tridimensional sem precedentes das correntes que atravessam os primeiros mil metros de profundidade do oceano.

Segundo Yann-Treden Tranchant, estas correntes verticais desempenham um papel fundamental no transporte de calor, carbono, nutrientes e oxigénio entre a superfície e as profundezas marinhas.

“Ao ligarem a atmosfera ao oceano profundo, estas correntes ajudam a regular o clima da Terra”, explica o investigador.

Um redemoinho gigante junto à Antártida
A investigação centrou-se numa região particularmente dinâmica da Antarctic Circumpolar Current, a corrente oceânica mais forte do planeta, que circula em torno da Antártida.

Na área estudada, a sul da Tasmania, os cientistas analisaram um enorme redemoinho oceânico ciclónico formado junto à chamada Frente Polar, a fronteira natural onde águas frias antárticas encontram águas mais quentes provenientes do norte.

Este redemoinho apresentava uma diferença de quase um metro na altura da superfície do mar entre o seu centro e as águas circundantes, tornando-se um laboratório natural ideal para estudar os movimentos verticais da água.

Satélites e robôs mergulhadores
Os dados foram recolhidos durante a missão FOCUS, realizada em 2023 a bordo do navio de investigação RV Investigator.

A equipa utilizou observações do satélite Surface Water Ocean Topography (SWOT), capaz de detetar pequenas variações da altura da superfície do mar a partir do espaço.

Em simultâneo, dois planadores oceânicos autónomos foram colocados no interior do redemoinho. Estes robôs subaquáticos mergulharam repetidamente até mil metros de profundidade, recolhendo milhares de medições de temperatura, salinidade e oxigénio dissolvido.

Além disso, foram libertadas 15 bóias à deriva para acompanhar a velocidade e a direção das correntes superficiais.

Movimentos de centenas de metros por dia
Ao combinar os dados obtidos pelo satélite com as observações recolhidas debaixo de água, os investigadores conseguiram reconstruir os movimentos verticais da água em três dimensões.

Os resultados mostram que as correntes ascendentes e descendentes frequentemente ultrapassam os 150 metros por dia e podem deslocar massas de água várias centenas de metros em apenas 24 horas.

Estas correntes estendem-se até, pelo menos, mil metros de profundidade e ocorrem em escalas relativamente pequenas, por vezes inferiores a 10 quilómetros de largura.

Segundo os autores, a intensidade destes movimentos é significativamente superior à prevista por muitos modelos de circulação oceânica de grande escala.

Implicações para o clima global
Os cientistas acreditam que esta nova capacidade de observar movimentos verticais poderá melhorar significativamente a compreensão do papel do Oceano Antártico no sistema climático terrestre.


Os autores defendem que futuras observações através do satélite SWOT poderão permitir estimar com maior precisão a transferência de carbono, nutrientes, oxigénio e calor ao longo do tempo, ajudando a aperfeiçoar os modelos climáticos e a compreender melhor a resposta dos oceanos às alterações climáticas.

A Rússia já perdeu mais soldados na Ucrânia do que os EUA em TODAS as guerras desde 1945. Multiplicado por quatro

O estudo é do CSIS, um dos centros de investigação de defesa mais respeitados do mundo. Os números batem certo com as estimativas de outros governos um pouco por todo o mundo.
A conta total: 2 milhões de baixas, somando mortos, feridos e desaparecidos de ambos os lados.
Só a Rússia perdeu 1,4 milhões de soldados: 1% da população inteira do país. Destes, 450 mil morreram. Tudo por decisão de um homem só.
Para perceber a dimensão disto:
A Rússia já perdeu 4 vezes mais soldados na Ucrânia do que os EUA perderam em TODAS as guerras desde a Segunda Guerra Mundial. Coreia, Vietname, Iraque, Afeganistão. Tudo somado.
E o fardo não é dividido de forma igual. Regiões pobres e minorias étnicas morrem muito mais. Nos meios de comunicação da oposição russa acumulam-se relatos de aldeias onde a população masculina simplesmente deixou de existir.
E a guerra está a ficar pior para Moscovo.
Durante anos, morriam 2 ou 3 russos por cada ucraniano fora de combate. No primeiro semestre deste ano, a proporção saltou para 8 por 1.
O motivo tem nome: drones. A Ucrânia alargou tanto o alcance deles que criou uma "zona de morte" ao redor da linha da frente. Uma faixa tão saturada de drones que um soldado russo praticamente não consegue sair dela vivo.
Mas o drone é apenas metade da explicação.
A outra metade é a própria Rússia: uma estratégia de desgaste que atira soldados em massa contra linhas defendidas, mau treino, corrupção, moral no chão. O exército trata as pessoas como munição descartável.
Resultado: pela primeira vez na guerra, a Rússia já não consegue recrutar soldados ao mesmo ritmo em que os perde. A conta deixou de fechar.
Mais assustador do que a razão destas mortes, é o tempo que elas demoram. Os soldados russos estão literalmente a viver menos do que as moscas.
As moscas vivem entre 15 e 30 dias. Já um militar russo, desde o momento em que chega ao campo de treino até à sua morte no campo de batalha, demora cerca de 10 a 21 dias.
Quando chega à linha da frente, a sua esperança de vida ronda os 20 a 35 minutos.
A Ucrânia também sangra: até 625 mil baixas, com até 150 mil mortos.
2 milhões de baixas somadas é mais do que em Estalinegrado, considerada até hoje a batalha mais sangrenta da história. Claro, Estalinegrado durou apenas 6 meses. A guerra na Ucrânia já dura há mais de 4 anos, mas ainda não tem data para acabar.
Fica a pergunta: Estalinegrado tornou-se o símbolo eterno do horror da guerra. Como é que a história se vai lembrar da Ucrânia?

Dead Astronauts - Get Lost

Melhor som aqui


Letra
Like an iron lung
Keeping me alive
I'd rather you sold my soul
Than keep on dragging me behind

You will take
You will shake it
What will you do when I'm just bones

You will break it
Then reshape it
What will you do when I'm just bones

When I'm just bones...

For our last dance in a distant expanse
I will get all lost out here for you
I will get all lost out here for you
I will get all lost out here for you

You will take
You will shake it
What will you do when I'm just bones

You will break it
Then reshape it
What will you do when I'm just bones

A parabolic trance
A macabre dance
I will get all lost out here for you
I will get all lost out here for...

You will take
You will shake it
What will you do when I'm just bones

You will break it
Then reshape it
What will you do when I'm just bones
I will get all lost out here for you

Significado da canção
"Get Lost" ("Perder-se" ou "Desaparecer") explora o espaço ambíguo entre a nostalgia e o escapismo. A música lida com o peso do distanciamento emocional e as dores do amor (lovesickness).

A letra e a melodia trabalham em dupla dinâmica: enquanto os sintetizadores transmitem uma sensação de movimento constante e fuga (um desejo de correr sem rumo pela noite), a melodia carrega uma profunda tristeza. "Get Lost" significa usar a desorientação e a perda de controle (seja na pista de dança, no isolamento urbano ou na própria mente) como um mecanismo de defesa contra uma realidade dolorosa.

Inspirações Filosóficas, Romanticistas e Poéticas
O cerne do Romantismo do século XIX permanece perfeitamente vivo na estética dos Dead Astronauts através do culto à melancolia e ao trágico. A canção evoca diretamente o conceito de Sehnsucht - a palavra alemã que os românticos utilizavam para descrever um desejo nostálgico e inacabável por algo indefinido -, fundindo a dor da ausência com o isolamento. O indivíduo e a noite, elementos prediletos do Romantismo clássico para a expressão máxima do eu, ganham aqui uma roupagem contemporânea: a noite urbana e os néons sombrios substituem as florestas misteriosas e as tempestades do passado, servindo de palco para uma profunda dualidade poética. A música vive destes contrastes, mostrando-se simultaneamente fria e apaixonada, estática na sua melancolia, mas veloz no seu ritmo sintético. Esta estética "Nocturnal Noir" constrói uma poesia visual marcante, povoada por imagens de faróis borrados pela chuva na estrada, silhuetas solitárias e a busca de refúgio no anonimato das sombras, onde o "perder-se" surge como uma metáfora para a libertação da própria identidade.

Esta fuga da identidade abre portas a uma forte veia existencialista que questiona a ligação humana numa era hiperconectada, mas profundamente solitária. O desejo de desaparecer funciona como uma recusa em performar ou moldar-se às expectativas do mundo exterior, ecoando a angústia e o isolamento moderno debatidos por Jean-Paul Sartre. Paralelamente, a faixa abraça o Absurdismo e a filosofia do escapismo - ou da evasão da realidade - face ao peso do vazio emocional. Tal como Albert Camus sugeria que a aceitação do absurdo da vida exige uma resposta ativa, "Get Lost" propõe que o movimento contínuo (a fuga, a dança frenética e a aceleração na noite) é a única reação possível para encontrar algum vislumbre de alívio ou beleza na dor. Trata-se de uma releitura moderna do Spleen urbano e do tédio existencial de Charles Baudelaire, onde o escapismo deixa de ser uma mera cobardia e passa a ser a única ferramenta de sobrevivência do indivíduo na penumbra da metrópole.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Daniel Knutz - Victim of Time

Melhor som aqui
Letra
In the depths of Time I find my reflection
Cannot freeze the hours no escape no protection
Youth slips away like sand through my fingers
I'm just a prisoner as the clock forever lingers

[refrão] 3X
Victim of Time

Shadows of Time I'm lost and confined
A victim of hours that I can’t unwind
The hands keep turning as I fade away
Days are nights and nights are days

[refrão] 4X

Lines on my face tell stories of the years
Each wrinkle a reminder of joys and tears
I try to escape there is no way to go
But I'll keep dancing until Time fades my soul

[refrão] 6X

Significado da canção
A música aborda a crise da autoperceção perante o envelhecimento e a finitude. O eu lírico vê-se ao espelho ("In the depths of Time I find my reflection") e percebe que perdeu o controlo sobre a própria existência.
Há um forte sentimento de impotência ("no escape no protection"). O tempo é retratado como um carcereiro inflexível ("I'm just a prisoner") que transforma a rotina num borrão monótono onde o sentido se perde ("Days are nights and nights are days").
No entanto, o final traz uma reviravolta crucial: a aceitação resiliente. Em vez de se entregar totalmente ao desespero, ele decide resistir através da arte, do movimento e da vida ("But I'll keep dancing until Time fades my soul").

Toda a verdade sobre a Rússia, NATO, União Europeia, EUA e Ucrânia e, por fim, a China


1. A Ucrânia tem mesmo forças nazis? 
A Ucrânia não é um Estado nazi e Volodymyr Zelensky não lidera forças nazis. A narrativa de que o país está dominado por neonazis é uma das principais ferramentas de propaganda e desinformação utilizadas pelo governo russo para justificar a invasão perante a sua própria população e o mundo. Na verdade, o próprio presidente Zelensky é judeu e perdeu familiares no Holocausto, tendo sido eleito democraticamente em 2019 com mais de 73% dos votos, o que torna a acusação de liderar um regime nazi uma contradição óbvia. Além disso, embora existam grupos de extrema-direita na Ucrânia — assim como na Rússia e na maioria dos países europeus —, o seu peso político real é residual, visto que nas últimas eleições legislativas a coligação de partidos de extrema-direita obteve apenas cerca de 2% dos votos, não conseguindo sequer representação no Parlamento ucraniano.
O mito alimentado por Moscovo baseia-se sobretudo nas origens do Batalhão Azov. Em 2014, quando a Rússia anexou a Crimeia e fomentou a guerra no Donbass, o exército ucraniano estava desestruturado e surgiram milícias voluntárias para defender o território. O grupo Azov original foi de facto fundado por indivíduos com ligações a fações radicais de ultradireita e claques de futebol, utilizando símbolos visuais controversos. No entanto, ainda no final de 2014, o governo ucraniano integrou oficialmente o grupo na Guarda Nacional, iniciando um processo profundo de reestruturação. Ao longo dos anos, os líderes políticos radicais foram afastados, a unidade foi despolitizada e transformada numa força militar regular de defesa. Inclusive, o governo dos Estados Unidos levantou as restrições ao fornecimento de armas à brigada após confirmar que esta se tinha tornado uma unidade militar profissional padrão. Para a Rússia, o rótulo de "nazi" carrega um peso histórico e emocional gigantesco herdado da Segunda Guerra Mundial, sendo utilizado de forma estratégica para desumanizar o adversário e criar um falso pretexto moral para a agressão militar.

2. As eleições na Rússia não são consideradas democráticas, livres ou justas por analistas internacionais, pelas Nações Unidas, pela União Europeia e por organizações independentes de direitos humanos. 
O sistema político russo é classificado como um regime autoritário ou uma autocracia eleitoral, o que significa que o país mantém a aparência de uma democracia — com urnas, boletins de voto e campanhas —, mas todo o processo é rigidamente controlado pelo Kremlin para garantir a permanência de Vladimir Putin no poder. O principal pilar desta falta de democraticidade é a eliminação sistemática da oposição real, onde qualquer candidato que represente uma ameaça séria é impedido de concorrer, seja através do exílio, de desqualificações burocráticas por parte da Comissão Eleitoral Central ou da prisão sob acusações politizadas, como aconteceu emblematicamente com Alexei Navalny. Para simular uma pluralidade, o regime permite apenas a participação da chamada "oposição sistémica", composta por partidos minoritários que fingem competir, mas que na prática apoiam as diretrizes do governo e nunca criticam diretamente o presidente ou a guerra.
Além da ausência de adversários reais, o processo é profundamente distorcido pelo controlo total dos meios de comunicação social, uma vez que todas as grandes cadeias de televisão, jornais e rádios são estatais ou pertencem a aliados de Putin, enquanto a internet e a imprensa independente enfrentam uma censura feroz. Organizações independentes de monitorização eleitoral denunciam consistentemente fraudes massivas nas contagens de votos, incluindo o enchimento de urnas, a manipulação de sistemas de voto eletrónico que não permitem auditoria e a forte coação sobre funcionários públicos e trabalhadores de empresas estatais, que são obrigados a votar sob ameaça de demissão. Adicionalmente, as eleições russas carecem de observadores internacionais credíveis e incluem votações forçadas em territórios ucranianos ocupados militarmente, o que viola o direito internacional. Em suma, o objetivo destas eleições não é dar uma escolha ao povo, mas sim fazer uma demonstração de força, utilizando maiorias esmagadoras fabricadas para legitimar as políticas do regime perante o mundo e desanimar qualquer oposição interna.

3. E a historieta do Tio Sam e de Putin é também falsa. 
A "historieta do Tio Sam e de Putin" refere-se à narrativa de que a guerra na Ucrânia é apenas um conflito provocado exclusivamente pelo "Tio Sam" (os Estados Unidos) para encurralar o Putin, ou à ideia romântica de que a Rússia é uma vítima inocente que foi obrigada a atacar para se defender do expansionismo ocidental, sim, essa também é uma versão altamente distorcida e falsa da realidade.
Essa narrativa - muito repetida pela propaganda russa e por setores que adotam uma postura anti-EUA automática - ignora deliberadamente a história, a soberania da Ucrânia e as próprias ambições imperialistas de Vladimir Putin. A análise factual desmitifica essa história em bloco:
  • A Ucrânia é um país independente e soberano desde 1991. A decisão de se aproximar da União Europeia ou da NATO não foi uma "invasão disfarçada" dos Estados Unidos, mas sim uma escolha democrática do próprio povo ucraniano. 
  •  Histórica e economicamente, os ucranianos assistiram ao crescimento e à prosperidade de vizinhos ex-comunistas que se juntaram ao Ocidente (como a Polónia e os países bálticos), enquanto as nações que ficaram sob a órbita da Rússia (como a Bielorrússia) estagnaram em ditaduras. 
  • A aproximação ao Ocidente foi uma tentativa da Ucrânia de garantir a sua própria segurança e modernização, e não uma conspiração americana.
Além disso, a própria NATO nunca forçou a entrada de nenhum país. São os países da Europa de Leste que pedem desesperadamente para aderir à aliança porque têm, compreensivelmente, medo do histórico de agressão da Rússia. O argumento de Putin de que se sentiu "ameaçado" cai por terra quando olhamos para os factos: a NATO é uma aliança defensiva e nenhum país ocidental tinha planos ou intenções de invadir o território russo, que possui o maior arsenal nuclear do planeta e, portanto, uma capacidade de dissuasão total.
O erro central dessa "historieta" é retirar totalmente a culpa a Vladimir Putin e o direito de escolha à Ucrânia, tratando o conflito como se os ucranianos fossem meros peões sem vontade própria num tabuleiro de xadrez entre Washington e Moscovo. A verdade é que a invasão foi um ato de agressão deliberado, planeado pelo Kremlin com o objetivo de anexar territórios, travar a democratização de um país vizinho e restaurar a antiga esfera de influência da era soviética.

4. A afirmação de que o Donbas e a região histórica da Novorossiya -  que engloba cidades como Odessa, Mykolaiv, Dnipro e Kharkiv - nunca foram da Ucrânia é historicamente falsa, tratando-se de um mito construído pelo nacionalismo russo para tentar legitimar as suas pretensões territoriais atuais. 
Muito antes de o Império Russo ou da Imperatriz Catarina, a Grande, terem conquistado estas terras no final do século XVIII, o território do sul e do leste da Ucrânia não era um vazio demográfico; a área era conhecida como os "Campos Selvagens" e estava sob o controlo e a profunda influência dos Cossacos Ucranianos, que ali estabeleceram povoações agrícolas, feitorias e rotas comerciais. O próprio termo Novorossiya ("Nova Rússia") foi apenas uma designação administrativa e colonial criada pelo Império Russo em 1764, funcionando exatamente da mesma forma que o Império Britânico criou a "Nova Inglaterra" na América do Norte. Além disso, os censos do próprio Império Russo (como o de 1897) comprovam que a esmagadora maioria dos camponeses que colonizaram e cultivaram o interior dessa região eram ucranianos, fixando-se os russos sobretudo como funcionários públicos e operários nas grandes cidades nascentes.
A propaganda russa costuma alegar que as grandes cidades da região foram fundadas do zero por russos, mas a verdade é que muitas foram erguidas sobre antigos colonatos ucranianos, tártaros ou fortalezas otomanas já existentes, como é o caso de Odessa, construída no local do antigo porto tártaro de Hadjibey. Com o colapso do Império Russo em 1917, o nome Novorossiya desapareceu dos mapas oficiais e os próprios habitantes escolheram o seu destino ao integrarem o Donbas, Kharkiv, Odessa e Mykolaiv na recém-declarada República Popular da Ucrânia, precisamente porque a maioria da população partilhava essa identidade. Mais tarde, quando os bolcheviques desenharam as fronteiras da União Soviética, incluíram estas regiões na Ucrânia Soviética pelo mesmo motivo demográfico. O teste definitivo de pertença ocorreu em dezembro de 1991, aquando do referendo para a independência da Ucrânia: mesmo nas zonas com maior presença da língua russa, a população votou massivamente a favor de fazer parte da Ucrânia independente, com aprovações que atingiram os 83,9% em Donetsk, 83,8% em Luhansk, 86,3% em Kharkiv e 85,3% em Odessa. Ignorar esta autodeterminação com base num rótulo colonial do século XVIII seria o equivalente a dizer que o Brasil pertence hoje a Portugal ou que os Estados Unidos são território britânico.

Por isso, sim. Portugal proibiu a equipa russa de trampolim de usar bandeira e hino na Taça do Mundo de Ginástica. É apenas um gesto simbólico, mas neste caso e pelo que atrás já referi, Portugal agiu bem.

P.S. A "grande" China, por exemplo, bane qualquer cantor/artista que exiba a bandeira de Taiwan, do Tibete, Hong Kong ou do povo Uigur. 
𝐎 𝐠𝐨𝐯𝐞𝐫𝐧𝐨 𝐝𝐚 𝐑𝐞𝐩𝐮́𝐛𝐥𝐢𝐜𝐚 𝐏𝐨𝐩𝐮𝐥𝐚𝐫 𝐝𝐚 𝐂𝐡𝐢𝐧𝐚 𝐚𝐝𝐨𝐭𝐚 𝐮𝐦𝐚 𝐩𝐨𝐥𝐢́𝐭𝐢𝐜𝐚 𝐝𝐞 𝐭𝐨𝐥𝐞𝐫𝐚̂𝐧𝐜𝐢𝐚 𝐳𝐞𝐫𝐨 𝐞𝐦 𝐫𝐞𝐥𝐚𝐜̧𝐚̃𝐨 𝐚 𝐪𝐮𝐚𝐥𝐪𝐮𝐞𝐫 𝐦𝐚𝐧𝐢𝐟𝐞𝐬𝐭𝐚𝐜̧𝐚̃𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐩𝐨𝐬𝐬𝐚 𝐬𝐞𝐫 𝐢𝐧𝐭𝐞𝐫𝐩𝐫𝐞𝐭𝐚𝐝𝐚 𝐜𝐨𝐦𝐨 𝐮𝐦 𝐪𝐮𝐞𝐬𝐭𝐢𝐨𝐧𝐚𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨 𝐝𝐚 𝐬𝐮𝐚 𝐬𝐨𝐛𝐞𝐫𝐚𝐧𝐢𝐚 𝐭𝐞𝐫𝐫𝐢𝐭𝐨𝐫𝐢𝐚𝐥, 𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐢𝐧𝐜𝐥𝐮𝐢 𝐬𝐢́𝐦𝐛𝐨𝐥𝐨𝐬 𝐥𝐢𝐠𝐚𝐝𝐨𝐬 𝐚 𝐓𝐚𝐢𝐰𝐚𝐧, 𝐚𝐨 𝐓𝐢𝐛𝐞𝐭𝐞, 𝐇𝐨𝐧𝐠 𝐊𝐨𝐧𝐠 𝐞 𝐚̀ 𝐫𝐞𝐠𝐢𝐚̃𝐨 𝐝𝐞 𝐗𝐢𝐧𝐣𝐢𝐚𝐧𝐠, 𝐥𝐚𝐫 𝐝𝐨 𝐩𝐨𝐯𝐨 𝐔𝐢𝐠𝐮𝐫. 
Na massiva e altamente regulada indústria do entretenimento chinesa, a exibição de bandeiras ou o apoio a estas causas resulta num banimento praticamente imediato e severo. Este processo de cancelamento cultural e económico envolve a rescisão instantânea de contratos publicitários, o cancelamento de digressões e a remoção completa do catálogo musical e audiovisual do artista das principais plataformas de streaming do país, como o Weibo e o NetEase. Em casos de produções televisivas ou cinematográficas já gravadas, o governo exige frequentemente que as cenas do artista sejam cortadas ou que o seu rosto seja desfocado digitalmente.
Ao longo dos anos, diversos nomes da cultura pop internacional e regional sofreram estas sanções. A cantora Lady Gaga e a banda Maroon 5, por exemplo, viram as suas músicas banidas e concertos cancelados após demonstrarem apoio ou se encontrarem com o Dalai Lama, líder espiritual tibetano. No cenário do K-pop, a cantora taiwanesa Chou Tzu-yu, integrante do grupo Twice, causou uma enorme polémica na China continental em 2015 após segurar a bandeira de Taiwan num programa de televisão sul-coreano, o que a pressionou a gravar um pedido de desculpas público afirmando que "só existe uma China". Para as autoridades de Pequim, o acesso ao gigantesco mercado de consumo chinês é tratado como um privilégio condicionado ao respeito absoluto pelas diretrizes políticas e pela integridade territorial defendida pelo Partido Comunista Chinês.
A situação aplica-se igualmente a Hong Kong, que se tornou outra das grandes linhas vermelhas para o governo chinês, especialmente após os protestos pró-democracia de 2014 e 2019. Qualquer artista, seja local ou internacional, que expresse a mínima simpatia ou apoio aos manifestantes enfrenta exatamente o mesmo mecanismo de retaliação e censura. Figuras de destaque do entretenimento da própria cidade, como a cantora de Cantopop Denise Ho e o conceituado ator Anthony Wong, viram as suas carreiras na China continental completamente destruídas por demonstrarem apoio ao movimento democrático, resultando na remoção das suas obras de todas as plataformas digitais, contratos rescindidos e um boicote total por parte da indústria, acabando mesmo por sofrer perseguição judicial no próprio território de Hong Kong ao abrigo da nova Lei de Segurança Nacional. No panorama internacional, partilhar uma simples mensagem de solidariedade para com Hong Kong nas redes sociais é o suficiente para desencadear o cancelamento de digressões e a fúria dos consumidores nacionalistas. Tudo isto reforça a mensagem inabalável de Pequim: para operar ou lucrar no mercado chinês, o alinhamento com a narrativa oficial sobre a soberania e a estabilidade de todos os seus territórios, incluindo as suas Regiões Administrativas Especiais, tem de ser absoluto

Filipe Duarte dos Santos tem uma coisa para lhe dizer sobre este calor: "Estamos em negação, isto não vai parar"

Durante muito tempo, o verão teve uma espécie de pacto com o corpo: o dia podia queimar, mas a noite devolvia algum descanso. Esse pacto está a quebrar-se.

As noites tropicais tornam-se mais frequentes, as cidades acumulam calor, os edifícios revelam fragilidades para as quais não foram desenhados e aquilo que antes parecia uma exceção meteorológica começa a parecer uma condição nova da vida europeia.

Filipe Duarte Santos não fala deste fenómeno como quem descreve uma surpresa. Professor catedrático jubilado da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, geofísico e uma das figuras mais reconhecidas em Portugal no estudo das alterações climáticas, observa há décadas a distância entre aquilo que a ciência sabe e aquilo que a política executa. Perante a hipótese de estarmos não diante de uma simples vaga de calor, mas de uma nova normalidade que se manifesta em vagas de calor, não hesita: “Não tenho dúvida nenhuma de que é a segunda hipótese”.

A diferença está na média, explica.

A temperatura média global da atmosfera à superfície já aumentou cerca de 1,5 graus Celsius desde o início do século XX. Pode parecer pouco. Não é. A média empurra os extremos para cima. As ondas de calor “sempre existiram”. Só que agora estão “num patamar mais alto”. No mesmo lugar, no mesmo mês, as temperaturas máximas são hoje mais altas do que há 50 ou 100 anos. “Isto não vai parar.”

O impacto não é apenas ambiental. É físico, urbano, económico, social. O calor mata de forma discreta, sobretudo quando o corpo deixa de recuperar durante a noite. “A mortalidade excessiva aumenta durante as ondas de calor”, sublinha. E não aumenta por igual. Atinge primeiro os idosos, as pessoas com doenças cardiovasculares, quem vive sozinho, quem vive em habitações mal isoladas ou sem condições térmicas, quem não pode fugir para um espaço arrefecido. As alterações climáticas, nas suas palavras, “agravam as desigualdades existentes”.

À CNN Portugal, Filipe Duarte Santos deixa um aviso sem conforto. As emissões de dióxido de carbono “em vez de diminuírem, aumentaram” desde o Acordo de Paris. A meta de 1,5 graus está praticamente perdida, os 2 graus podem chegar a meio do século e o dióxido de carbono que lançamos para a atmosfera não desaparece a tempo da nossa vida: em termos de gerações humanas, “é como se ficasse lá para sempre”.

A esperança, aqui, já não é voltar ao clima que tínhamos. É impedir que o pior se torne inevitável. Porque “quanto mais adiarmos a solução, pior será para as gerações futuras”.

Segue-se a entrevista. A ler e aprender, claro

Morcheeba - The Moon


A canção "The Moon", lançada pela banda britânica Morcheeba no álbum Blackest Blue em 2021, é um excelente exemplo da sofisticação e da identidade alternativa que o grupo preserva desde a sua formação em Londres, nos meados dos anos 90. Estilisticamente, a faixa ancora-se no trip-hop e no downtempo, fundindo batidas eletrónicas lentas e psicadélicas com uma atmosfera densa e o vocal inconfundível, suave e aveludado de Skye Edwards. O que afasta este tema dos circuitos puramente comerciais e da pop de consumo rápido é a sua estrutura flutuante e o seu andamento vagoroso, que recusam as fórmulas rígidas de ganchos fáceis e refrões explosivos. Em vez disso, a produção aposta numa sonoridade noturna, misteriosa e quase hipnótica, onde as guitarras ecoantes e os sintetizadores imersivos convidam a uma audição atenta. Ao abdicar dos efeitos vocais artificiais e das batidas aceleradas feitas para as pistas de dança, os Morcheeba preferem focar-se na textura e na intimidade da canção, aproximando "The Moon" de uma estética indie e neopsicadélica que prioriza a arte e a ambiência em detrimento do apelo comercial imediato.

É um versão da canção original de Irena Zilic 

Embora os Morcheeba sejam conhecidos sobretudo pela sua estética sonora relaxante e atmosférica, o álbum Blackest Blue - e especificamente a canção "The Moon" - carrega um subtexto rico que dialoga com várias correntes filosóficas, literárias e poéticas.

No plano filosófico, a canção evoca o existencialismo e o estoicismo, focando-se na introspeção, no isolamento e na aceitação da pequenez humana perante a imensidão do cosmos. A lua e a noite funcionam como metáforas para o desconhecido e para o inconsciente, remetendo também para a filosofia da mente e para o conceito de "noite escura da alma", onde o indivíduo é obrigado a confrontar-se consigo mesmo longe das distrações do mundo moderno.

No que toca às influências romancistas, há um diálogo subjacente com o Romantismo literário do século XIX, particularmente com autores que exploraram o gótico e o sublime, onde a natureza (neste caso, o espaço e o ambiente lunar) é apresentada como algo belo mas simultaneamente misterioso e avassalador. A atmosfera da canção ecoa a melancolia e o isolamento de obras de Mary Shelley ou a busca interior presente na literatura existencialista do século XX, que retrata a jornada solitária do ser humano na procura de sentido.

Por fim, a nível poético, "The Moon" bebe diretamente da poesia simbolista e da poesia confessional. O uso de imagens vagas, texturas e metáforas sensoriais substitui a narrativa linear, uma técnica muito querida por poetas como Charles Baudelaire ou Arthur Rimbaud, que usavam a sinestesia para evocar estados de espírito. Há também uma forte ligação à tradição da poesia mística e romântica inglesa - como a de William Blake ou John Keats -, onde a lua é historicamente a musa da melancolia, da mudança e da intuição feminina, servindo de espelho perfeito para a interpretação vocal sussurrada e poética de Skye Edwards.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

HOLYGRAM - Signals

Melhor som aqui
Letra
Talk to me
Behind a wall
Kiss and live
Without a past
Where’s the sense in all of it?
Cause you and I
We live in the past
We live in the past

[refrão]
Sometimes when I close my eyes
I see you walk away
And everytime the sun comes up
The feeling is the same...

When we are
Talking high
I will fall
Into despair
Where’s the sense in all of it?
Cause you and I

[refrão]

And every night you make me feel so strange
And every day I still can feel the pain...

Cause
[refrão]

O Significado da Canção
Musical e liricamente, "Signals" encapsula a claustrofobia da vida moderna. A letra evoca uma atmosfera de vigilância, repetição e isolamento, onde os "sinais" do título funcionam como uma metáfora dupla. Por um lado, representam os estímulos tecnológicos e eletrónicos que bombardeiam o indivíduo constantemente (luzes de néon, frequências de rádio, ruído estático); por outro, simbolizam as tentativas desesperadas, e muitas vezes falhadas, de comunicação entre as pessoas numa sociedade fragmentada. Há uma sensação latente de se estar permanentemente sintonizado na frequência errada, perdido no ruído de fundo de uma cidade que nunca dorme, mas que também não acolhe.

O Significado do Vídeo
O videoclipe oficial de "Signals" traduz visualmente este desespero estético. Filmado maioritariamente a preto e branco, com fortes contrastes de luz (chiaroscuro) e uma estética vincadamente noir, o vídeo projeta imagens sobrepostas dos membros da banda e de paisagens urbanas brutas. As projeções e as distorções visuais mimetizam a interferência analógica, reforçando a ideia de que a identidade humana está a ser diluída pela tecnologia. A escolha de focar em espaços vazios, geometrias arquitetónicas duras e no movimento frenético das luzes da cidade acentua o sentimento de despersonalização: o indivíduo torna-se apenas mais uma sombra ou um fantasma na máquina urbana.

Inspirações Filosóficas, Romancistas e Poéticas
O Holygram bebe diretamente de uma tradição literária e filosófica europeia pessimista e existencialista para moldar o universo de "Signals".

No campo da filosofia, a canção ressoa fortemente com o conceito de alienação de Karl Marx, mas despido de política e focado no existencialismo, aproximando-se da "Sociedade do Espetáculo" de Guy Debord, onde as relações humanas diretas são substituídas por imagens e sinais mediáticos. Há também marcas do niilismo de Friedrich Nietzsche e da angústia existencial de Jean-Paul Sartre, onde o Homem se encontra condenado à solidão no meio da multidão.

Na romancística, a maior influência é a literatura distópica e de ficção científica pós-moderna. É impossível não traçar paralelos com o realismo frio de Franz Kafka, onde o indivíduo é esmagado por sistemas incompreensíveis, e com a claustrofobia de George Orwell em 1984, visível na obsessão pelos conceitos de observação e controlo. Adicionalmente, o movimento Cyberpunk, encabeçado por William Gibson (autor de Neuromancer), serve de molde para esta fusão entre alta tecnologia e baixa qualidade de vida, onde a carne e os circuitos se misturam.

Na poesia, a banda inspira-se no desespero urbano de T.S. Eliot, particularmente em The Waste Land (A Terra Devastada), que retrata a cidade moderna como um lugar estéril de almas desoladas. Há ainda um eco claro do "Spleen" de Charles Baudelaire e da sua poesia sobre os flâneurs de Paris — o caminhar sem rumo pelas ruas, observando a decadência e a beleza melancólica da modernidade, transformando a solidão urbana numa forma de arte sombria.

Relembrar o pensamento de Charles Chaplin


"Em termos políticos, sou anarquista. Odeio governos, regras e grilhões. Não suporto animais enjaulados. As pessoas têm de ser livres." - Charles Chaplin
Esta frase foi dita pelo lendário cineasta e ator Charles Chaplin e reflete profundamente a postura humanista e anti-autoritária que marcou toda a sua vida e obra. Embora não pertença a um discurso oficial, a declaração resume a sua revolta contra as amarras institucionais, algo que ele expressava frequentemente em entrevistas e na sua própria arte. A personagem do Charlot era, na sua essência, a personificação do homem livre e marginal que desafiava constantemente as convenções sociais e a autoridade policial. Ao longo das décadas de 1930 e 1940, com o lançamento de obras primas como Tempos Modernos e O Grande Ditador, Chaplin usou o cinema para criticar ferozmente a desumanização industrial, o fascismo e o nacionalismo cego, o que acabou por atrair a atenção do governo dos Estados Unidos. Durante a era do Macarthismo, o FBI passou a vigiá-lo de perto, acusando-o falsamente de simpatias comunistas. O culminar deste sufoco político aconteceu em 1952, quando Chaplin viajou para Londres e o governo americano aproveitou a ocasião para lhe revogar o visto de reentrada no país. Revoltado com a perseguição e com o controlo estatal, o cineasta recusou-se a implorar o regresso e exilou-se na Suíça. Assim, quando Chaplin afirmava que odiava governos e não suportava ver pessoas como animais enjaulados, falava com o conhecimento de causa de quem sentiu na pele o peso do autoritarismo e da censura de um Estado que tentou travar a sua liberdade.
Este excerto pertence ao filme "O Grande Ditador" (The Great Dictator), lançado em 1940.
Esta cena, em específico, é o lendário discurso final do filme, amplamente considerado um dos momentos mais marcantes e emocionantes da história do cinema. No filme, Chaplin interpreta dois papéis: um ditador implacável chamado Adenoid Hynkel (uma sátira direta a Adolf Hitler) e um humilde barbeiro judeu. No final, o barbeiro é confundido com o ditador e é obrigado a discursar perante uma enorme multidão; em vez de propagar o ódio, ele quebra a personagem e faz este apelo universal à paz, à humanidade, à união e à liberdade.

O milagre dos eucaliptos de Melres

A 28 de Junho, o jornal Nascer do Sol publicou uma peça com um título que vale por si: “Eucaliptos resistem onde ardeu tudo”. O ponto de partida é real. Dois povoamentos de eucalipto ficaram intactos no meio de um incêndio que, em 2024, queimou cerca de quatro mil hectares em Penafiel, Paredes e Gondomar. Quem sobe ao miradouro de Melres vê hoje duas ilhas verdes numa encosta carbonizada. A imagem é forte e a pergunta que ela levanta é legítima. A resposta que o jornal lhe dá é que o problema do fogo está na gestão e não na espécie, e o título dá um salto que o resto do texto não sustenta.

A rubrica #areiaparaosolhos existe também para separar as frases que seduzem daquilo que as frases escondem. Vamos por partes.

O que o título promete e o que o próprio texto admite
O título diz “eucaliptos resistem”. Sugere que a espécie tem uma qualidade de resistência ao fogo. A explicação que o jornal apresenta aponta para o contrário. Segundo a peça jornalística, aquele povoamento aguentou porque foi plantado em terraços, porque as máquinas conseguem entrar para controlar a vegetação, e porque beneficiou de preparação do terreno e de redução de combustível. Por outras palavras, o que ali resistiu foi um regime de gestão intensiva, assente no uso de petróleo como energia barata, com solo trabalhado e biomassa retirada à mão e à máquina.

A própria peça responde, portanto, ao seu título. Aquelas árvores não pararam o fogo por serem eucaliptos. Pararam o fogo apesar de o serem, graças a um esforço de limpeza que removeu quase tudo o que era inflamável à volta delas. Atribuir esse mérito à espécie é o primeiro grão de areia para os olhos de quem lê. O mérito é do trabalho, e o trabalho foi feito precisamente porque o eucalipto, sozinho e em quantidade, arde com violência.

A frase que viaja sem o seu contexto
O artigo cita um investigador da Universidade de Lisboa para sustentar a ideia de que a espécie não é o problema e que o que conta é a quantidade de biomassa disponível para as chamas. A frase é defensável em termos estritos de comportamento do fogo. A carga de combustível pesa, e muito, na forma como um incêndio se propaga. O investigador é uma fonte independente e o reparo que aqui se faz não é sobre ele. É sobre o uso que o artigo faz das suas palavras.

A frase chega ao leitor decapada do contexto. “A espécie não é o problema” é verdade quando se fala apenas de física da combustão num talhão específico. Deixa de ser verdade quando se usa essa meia-ideia para ilibar um modelo inteiro de ocupação do território. Já o escrevi noutro texto neste site: o que desertifica o solo não é a árvore em si, é o regime de monocultura em que é plantada e explorada. A reportagem do Nascer do Sol fica-se pela primeira metade dessa frase, a que tira o foco do eucalipto, e descarta a segunda, a que devolve o foco ao regime que o multiplica em talhões de idade igual, sem estratos, sem sombra e sem água retida no solo.

O que a montra esconde: água, solo, microclima
Ao fixar todo o problema na quantidade de combustível e na limpeza do chão, o artigo apaga a dimensão que mais importa quando se fala de paisagens que ardem. Uma floresta biodiversa e estratificada, com plantas a ocupar diferentes alturas, funciona como um condensador. A atividade fotossintética arrefece o ar à sua volta, atrai humidade da atmosfera, condensa-a e prende-a no primeiro palmo de terra. Esse solo húmido e sombreado abranda o fogo. Um eucaliptal em monocultura faz o oposto. Deixa o vento seco correr, aquece, evapora e prepara o terreno para arder.


A ciência feita em Portugal já mediu estes factos. O investigador Joaquim Sande Silva ordenou, num estudo de 2009, as formações florestais por propensão para arder, e colocou o pinheiro-bravo e o eucalipto no topo, com o sobreiro, o castanheiro, a azinheira e o pinheiro-manso no fundo da lista. Vale a pena reter que o pinheiro-manso, também ele uma resinosa, fica entre os menos inflamáveis, sinal de que a etiqueta da espécie não decide tudo. Trabalho posterior da equipa de Jordi Garcia-Gonzalo, no mesmo Instituto Superior de Agronomia, mostrou que os povoamentos mistos e de folhosas reduzem o risco de fogo face ao pinheiro-bravo e ao eucalipto. O risco mora na monocultura densa e contínua de espécies inflamáveis, e a diversidade trabalha como corta-fogo.

E há uma razão económica para que estas espécies menos inflamáveis ocupem hoje tão pouco terreno. O carvalho, o castanheiro e o sobreiro são de crescimento lento, próprios das fases maduras da floresta, daquilo a que se chama o regime de abundância, e que podem levar décadas ou séculos a instalar-se. Esse tempo longo não serve o modelo da indústria da pasta de papel, que vive de cortar depressa e em grande quantidade. A própria Navigator descreve o eucalipto globulus como a espécie que está na origem dos seus papéis e valoriza-o justamente por ser de crescimento rápido, com ciclos de plantação e corte de cerca de doze anos, em povoamentos plantados exclusivamente para esse fim. Uma floresta que arde menos é, quase sempre, uma floresta que amadurece devagar, e uma floresta que amadurece devagar é tudo o que um modelo da indústria da celulose não pode permitir.

A “limpeza” que a reportagem celebra é, vista por este ângulo, parte do problema e não a solução. Um chão raspado até ao osso é um chão que perde água por evaporação, que regride na sucessão ecológica e que precisa de recomeçar do zero o trabalho de se cobrir. A peça apresenta o solo exposto como virtude. Em rigor, é a assinatura de um ecossistema mantido em estado de adolescência permanente, ao serviço da extracção, sempre pronto a recomeçar e nunca autorizado a amadurecer até à fase em que a paisagem se torna húmida e pouco inflamável.

A escala que falta à fotografia
A reportagem mostra dois talhões. O país tem outra dimensão. Portugal tem perto de oitocentos mil hectares de eucalipto e mais de um milhão de hectares de plantações industriais de espécies de crescimento rápido. As áreas onde o eucalipto não arde de forma explosiva são as parcelas bem geridas e protegidas pelas celuloses, uma minoria do total. A larga maioria, a que alimenta a indústria, é onde se exprimem as características mais combustíveis da espécie, a biomassa que se acumula depressa e o material incandescente que salta a quilómetros de distância e abre novas frentes.

Há ainda um problema de método na própria escolha do caso. Mostrar dois povoamentos que sobreviveram dentro de quatro mil hectares ardidos é seleccionar pelo resultado. Falta a pergunta que daria sentido ao número: quantos talhões de eucalipto, geridos ou não, arderam naquele mesmo incêndio? Sem essa conta, dois sobreviventes são uma anedota fotogénica e não uma prova.

Quem explica o “milagre”
A fonte que explica a resistência daqueles povoamentos é um engenheiro florestal da Navigator, a empresa proprietária dos eucaliptais. O perito que elogia a gestão dos talhões trabalha para a dona dos talhões. A reportagem apresenta-o entre especialistas, sem uma palavra sobre o conflito de interesse evidente. Não é preciso supor má-fé de ninguém para reconhecer o óbvio. Quem tem o ativo a defender não é uma fonte neutra sobre o valor ou risco desse ativo.

O desvio para os quatrocentos mil proprietários
No fim, a peça empurra a culpa. Diz que o problema da floresta portuguesa está nos mais de quatrocentos mil proprietários com parcelas minúsculas, sem escala para oferecerem rentabilidade. Repare o leitor neste movimento. Um problema de água, de solo e de modelo ecológico é convertido num problema de escala empresarial. E a solução implícita nesse diagnóstico é concentrar a terra em explorações grandes e geridas, ou seja, mais do mesmo modelo que produziu a paisagem inflamável e influenciou o clima seco. A pergunta que falta é simples. A floresta serve para dar rentabilidade a um sector que a quer tornar num chão de fábrica, ou serve para segurar água, sombra e comunidades? A reportagem responde à primeira e finge que é a única.

Veredito
O mais difícil de desmontar num texto destes não são as mentiras. São os factos verdadeiros postos ao serviço de uma conclusão falsa.

O facto de base é verdadeiro. Dois povoamentos de eucalipto sobreviveram ao incêndio em Melres, e sobreviveram por terem sido geridos, com terraços, acessos e remoção de combustível. Isso aconteceu e está correctamente descrito.

O título é falso. “Eucaliptos resistem onde ardeu tudo” generaliza dois talhões geridos para a espécie inteira e afirma quase o contrário do que a ciência e o próprio corpo do artigo dizem. O que resistiu foi a gestão do deserto verde.

A tese geral é descontextualizada. Constrói-se a partir de uma frase verdadeira retirada do seu contexto técnico, ilustra-se com um caso escolhido pelo resultado, sustenta-se numa fonte com interesse directo no assunto, e omite a água, o solo, a estratificação e a escala real do eucaliptal português. Cada peça, isolada, quase se defende. O conjunto conduz o leitor a uma conclusão que os factos não autorizam.

Por tudo isto esta notícia, tendo em conta a disposição dos factos e a falta de independência da fonte é   Areia Para Os Olhos.

Relacionados:

Trentemøller: In The Gloaming

Melhor som aqui
Letra
[Chorus]
You draw me in
You pull me down
A rose behind all those many thorns

[Verse 1]
Tears of a silent rain falling
Leading me back to you
Through the dusk, into the dark night

[Chorus]
You draw me in
You pull me down
A rose behind all those many thorns

[Bridge]
In the gloaming
All the shadows, they fall
In the moonlight
All the stars are aligned
For you
For me
For us to see

[Chorus]
You draw me in
You pull me down
A rose behind all those many thorns

[Verse 2]
In the gloaming
In the twilight
Will I find a way?

[Chorus]
You draw me in
You pull me down
A rose behind all those many thorns

Em relação à nacionalidade, o projeto é dinamarquês, já que Anders Trentemøller nasceu em Copenhague, na Dinamarca, e toda a produção e base do seu selo independente, In My Room, estão sediadas lá. Quanto às colaborações, a grande parceira desta faixa e de boa parte do álbum é a cantora e guitarrista dinamarquesa Lisbet Fritze, ex-membro da banda Giana Factory, que assume a responsabilidade pela voz etérea e flutuante que guia a melodia da canção, além de colaborar de perto nos arranjos de guitarra com Trentemøller. 
No estilo musical, a música marca uma consolidação da transição do artista, que começou na música eletrônica minimalista e no techno, migrando para sonoridades mais orgânicas e analógicas. Dessa forma, o estilo de "In The Gloaming" pode ser classificado como Dream Pop ou Space Pop, devido às linhas de sintetizadores brilhantes e vocais enevoados que remetem a bandas clássicas como Cocteau Twins, e também como Shoegaze ou Post-Punk, pelo uso de guitarras marcantes com muito reverb e linhas de baixo melódicas e proeminentes, com forte influência de bandas dos anos 80 e início dos 90, como The Cure e o selo 4AD. 
Sobre o significado da canção, o termo "Gloaming" significa o crepúsculo ou a hora do lusco-fusco, que é aquele momento de transição exato entre o fim do dia e o início da noite. Liricamente, a canção usa essa metáfora do entardecer para falar sobre transição, impermanência e o esmaecer de um relacionamento. Segundo o próprio Trentemøller, a letra é aberta e abstrata, funcionando quase como uma pintura para complementar a música, retratando a ambiguidade de um amor que está esfriando, como uma rosa por trás de tantos espinhos, a sensação de perda iminente, mas também a busca por uma luz ou guia para atravessar esse momento de escuridão, equilibrando melancolia e um romantismo sombrio. 
Por fim, a mensagem do vídeo mostra que o videoclipe oficial captura perfeitamente essa estética alucinógena e melancólica do crepúsculo, brincando visualmente com o conceito de liminaridade, que é o espaço entre dois estados, como a vigília e o sonho, ou a luz e a sombra. A mensagem do vídeo gira em torno do isolamento e da introspecção, de modo que, através de imagens granuladas, contrastes de luz desfocada e cores frias intercaladas com lampejos de luz quente, o clipe transmite a sensação de que o tempo está desacelerando, espelhando visualmente a jornada emocional da música e o sentimento de estar perdido nos seus próprios pensamentos, olhando para o espaço, enquanto o mundo ao redor mergulha na noite para simbolizar o fim de um ciclo ou o momento exato em que aceitamos que algo chegou ao fim.

Embora o videoclipe de "In The Gloaming" não seja um documentário sobre a natureza ou mostre florestas tropicais exuberantes, a biofilia faz-se presente de forma subtil, poética e melancólica. Trentemøller usa a relação com os elementos naturais para traduzir o estado psicológico das personagens, surgindo no vídeo através de três aspetos principais.

Primeiramente, o crepúsculo surge como um elemento vital, associado à hora do lusco-fusco, visto que a biofilia dita que respondemos biologicamente aos ciclos da Terra e ao ritmo circadiano. O teledisco é inteiramente focado na transição da luz do dia para a escuridão da noite, pelo que o ambiente natural do entardecer, com o sol a sumir no horizonte e a mudar a tonalidade do céu, não é apenas um fundo fotográfico, mas sim algo que dita o ritmo desacelerado, a introspecção e o sentimento de recolhimento das personagens, retratando o ser humano a reagir emocionalmente a um fenómeno natural.

Em segundo lugar, destacam-se os ambientes naturais nórdicos e o isolamento, dado que o vídeo se passa em grande parte ao ar livre, mostrando paisagens típicas da Escandinávia, como praias desertas, o mar cinzento, campos abertos e o vento constante. Existe aqui um contraste biofílico muito claro, pois as personagens parecem perdidas ou distantes quando estão em espaços fechados, sendo precisamente quando vão para a natureza, como a praia e o campo aberto, que parecem processar os seus sentimentos de forma mais profunda, funcionando a imensidão do mar e do céu como um espelho para o vazio ou a melancolia que sentem por dentro.

Por último, verifica-se o embate entre a luz orgânica e a luz artificial, com o teledisco a abusar de texturas visuais e a focar-se imenso na forma como a luz natural, vinda do sol poente e dos reflexos na água, bate na lente da câmara, gerando feixes de luz desfocados, conhecidos como lens flares. Esta busca por texturas orgânicas e imperfeitas da luz natural constitui uma forma de design biofílico visual que gera uma sensação de calor, presença e nostalgia que a luz artificial e fria de um estúdio jamais conseguiria replicar.

Concluindo, o veredicto aponta que, no vídeo, a biofilia não aparece como uma celebração alegre da vida selvagem, mas sim como uma ligação visceral e melancólica com a impermanência da natureza, onde as personagens procuram o isolamento no mundo natural para conseguirem digerir o fim de um ciclo afetivo.