Bioterra
Blogue de Educação Ambiental, iniciado em 01.04.2004
segunda-feira, 14 de setembro de 2026
Sidewalks and Skeletons - † BORN TO DIE †
domingo, 13 de setembro de 2026
Como fazer a ruptura pós-capitalista
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| Löwy: crise climática pede a ruptura do capitalismo |
- Shoshana Zuboff (A Era do Capitalismo de Vigilância): Dá-lhe o argumento central sobre como as plataformas digitais não são meros meios de comunicação, mas indústrias de modificação comportamental que destroem a autonomia e a capacidade de organização coletiva.
- Andreas Malm (Como Salvar um Planeta em Chamas / How to Blow Up a Pipeline): Fundamenta a crítica ao pacifismo estratégico tradicional. Malm defende que, perante a urgência, o movimento ecológico tem de ultrapassar os protestos simbólicos e adotar a sabotagem tática de infraestruturas fósseis (sem violência contra pessoas) para encarecer o capital poluidor.
- Mark Fisher (Realismo Capitalista): Sustenta a tese da alienação e da paralisia: a ideia de que o sistema criou uma anestesia cultural onde é "mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo", transformando o sofrimento e a ansiedade em consumo passivo.
- Ivan Illich (Tools for Conviviality): Alimenta a ideia da construção de "cidadelas analógicas" — a necessidade de criar tecnologias e redes de escala humana, locais e desvinculadas dos megassistemas industriais e digitais para devolver a autonomia às comunidades.
- Cédric Durand ou Nick Srnicek (Capitalismo de Plataforma / Feudalismo Digital): Em vez de olhar para a psicologia do ecrã (como Han faz), estes autores explicam a arquitetura económica real de como as grandes plataformas extraem renda e capturam o comportamento humano.
- Bernard Stiegler: Para uma crítica da tecnologia incomparavelmente mais rigorosa e profunda. Stiegler concilia a filosofia da técnica com a neurobiologia e a economia política, explicando como a tecnologia digital nos priva do "saber-fazer" e do "saber-viver", gerando uma proletarização da mente.
- Bernard Stiegler (24/7: O Capitalismo Tardio e os Fins do Sono): Examina como o capitalismo do século XXI tenta eliminar as pausas humanas naturais (como o sono e a reflexão), transformando o tempo contínuo num mercado de consumo e vigilância.
Já há um ano, Jason Hickel advertia sobre os efeitos desastrosos da aceleração da IA e o fetiche do crescimento: uma síntese da entrevista à Novara Media
| sectores a reduzir / desmantelar | sectores a expandir |
| indústria de armamento e militarismo | transportes públicos universais |
| aviação comercial de alta frequência | sistemas de saúde e educação públicos |
| fast fashion e obsolescência programada | energias renováveis e eficiência de edifícios |
| pecuária industrial e publicidade comercial | agricultura ecológica e soberania alimentar |
- extrapolação dos limites planetários: fundamentado no trabalho do stockholm resilience centre, que monitoriza os limites biofísicos da terra (como mudanças climáticas, perda de biodiversidade e uso de água doce).
- desigualdade na pegada ecológica: citando dados do global footprint network e da base de dados global de fluxos materiais da onu ambiente (unep), Hickel sublinha que o norte global é responsável por mais de 70% do uso excessivo de recursos materiais do planeta em relação aos níveis sustentáveis, e por cerca de 92% das emissões históricas de carbono acima da quota segura de 350 ppm.
- drenagem neta do sul global: apoiado nas suas próprias investigações publicadas em revistas como a The Lancet Planetary Health, o autor demonstra que os países ricos extraem anualmente do sul global biliões de toneladas de recursos e milhões de anos de trabalho equivalente a preços desvalorizados para manter o seu nível de consumo.
- inviabilidade do desacoplamento total: recorrendo às conclusões do painel intergovernamental sobre mudanças climáticas (ipcc), Hickel aponta que não existem provas empíricas de que seja possível desacoplar o crescimento do PIB do consumo de recursos materiais à velocidade necessária para cumprir as metas do Acordo de Paris.
sábado, 12 de setembro de 2026
ACTORS - Youth
O fenómeno do homonacionalismo: como a AfD e Alice Weidel reconfiguraram o voto LGBTIA+ na Alemanha
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«Não sou queer, sou apenas casada com uma mulher que conheço há 20 anos». Apesar do discurso tradicionalmente conservador e da defesa do modelo familiar clássico, o partido de extrema-direita alemão Alternative für Deutschland (AfD) conseguiu captar um volume significativo e surpreendente de votos junto de setores da comunidade LGBTI+, particularmente entre homens homossexuais e bissexuais. Este fenómeno, frequentemente analisado através do conceito de "homonacionalismo", ficou evidente em várias sondagens realizadas no país. Numa pesquisa efetuada pela popular plataforma de encontros para homens gay Romeo, por exemplo, a AfD chegou a liderar as intenções de voto entre os utilizadores na Alemanha, ultrapassando partidos historicamente associados à defesa dos direitos das minorias sexuais, como Os Verdes e o Partido Social-Democrata (SPD). O principal motor para esta adesão eleitoral reside na forte agenda anti-imigração do partido. Uma parcela substancial dos eleitores LGBTI+ que vota na AfD justifica a sua escolha com o medo do aumento do antissemitismo e da homofobia na esfera pública, associando estes problemas ao crescimento da imigração proveniente de países de maioria muçulmana ou de sociedades culturalmente muito conservadoras. Para estes eleitores, as propostas de restrição de fronteiras da extrema-direita são percpcionadas como uma salvaguarda para o seu estilo de vida e segurança individual. Além disso, a figura de Alice Weidel, co-líder nacional da AfD - que é abertamente homossexual, vive numa união do mesmo sexo e tem dois filhos com a sua companheira -, serve como um elemento de validação para este eleitorado, reduzindo a perceção de que o partido seja intrinsecamente homofóbico. Existe também uma rejeição, por parte de setores mais assimilados da comunidade, em relação ao ativismo LGBTQIA+ contemporâneo e às pautas de identidade de género. No entanto, este apoio eleitoral convive com profundas contradições em relação ao programa oficial da AfD. O partido opõe-se abertamente ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, defende ativamente a família tradicional como único pilar da sociedade, combate a introdução de conteúdos sobre diversidade sexual nas escolas e rejeita a Lei de Autodeterminação de Género, promovendo iniciativas para banir símbolos como a bandeira arco-íris de edifícios públicos. Esta dualidade faz com que a relação entre a extrema-direita alemã e a comunidade LGBTI+ continue a ser um dos temas mais controversos e fracturantes do debate político na Alemanha- num cenário onde, para muitos analistas, impera a lógica de que vale tudo para atingir o poder. A contradição entre a agenda da AfD e o apoio de parte do eleitorado LGBTI+ é um dos fenómenos sociopolíticos mais estudados na Alemanha contemporânea. A leitura de que impera a lógica do "vale tudo para atingir o poder" é fundamentada por diversos académicos, jornalistas e politólogos que analisam as táticas de comunicação do partido e a psicologia do seu eleitorado. A teórica cultural Esta complexa teia explicativa reflete a razão pela qual a sociedade alemã vive hoje um tempo nem branco nem negro, mas marcado por profundas zonas cinzentas e contradições éticas. A população enfrenta uma forte polarização onde a perceção de insegurança individual e o medo do radicalismo religioso superam a adesão estrita aos princípios liberais e aos direitos sociais abrangentes. Adicionalmente, regista-se a normalização do que antes era inaceitável: o cordão sanitário político (Brandmauer) que afastava a extrema-direita está a esboroar-se, e o eleitorado habituou-se ao discurso da AfD, deixando de o ver sob uma ótica maniqueísta de "bem contra o mal" para o encarar como uma opção viável de protesto. O próprio movimento LGBTI+ vive uma fratura interna, deixando de ser um bloco monolítico e dividindo-se entre um eleitorado mais "assimilado ou conservador" e as pautas identitárias e trans mais recentes. Por fim, vigora uma hipocrisia institucionalizada em que o eleitorado aceita votar num partido cuja co-líder, Alice Weidel, beneficia pessoalmente de direitos - como a união de pessoas do mesmo sexo e a parentalidade - que a própria plataforma do seu partido procura limitar ou revogar para o resto da sociedade. Este vídeo Breaking down Far Right AfD Party’s anti LGBTQ+ platform in Germany analisa detalhadamente o paradoxo da AfD na Alemanha, explicando como o partido utiliza táticas políticas complexas enquanto mantém uma plataforma que afeta os direitos da comunidade LGBTI+. |
O colapso dos sistemas naturais pode intensificar o aquecimento em 30 por cento, alerta novo estudo
sexta-feira, 11 de setembro de 2026
Caoilfhionn Rose - Canyons
A algoritização do ódio: as redes sociais, a extrema-direita e a erosão da democracia
- Facebook (Meta): continua a ser o pioneiro na monetização do clickbait e na otimização da raiva, cortando o alcance orgânico do jornalismo e da cultura para forçar o pagamento de promoção, enquanto distribui gratuitamente conteúdos divisivos.
- X / Twitter: sob a liderança de Elon Musk, a plataforma desmontou grande parte das suas equipas de moderação de conteúdo, alterou a verificação de contas para um modelo pago sem autenticação real e reconfigurou o algoritmo para ampliar posts de alto envolvimento emocional, tornando-se uma incubadora direta de teorias da conspiração e discurso extremista.
- TikTok: utiliza um algoritmo de recomendação hiper-otimizado que identifica fragilidades emocionais em segundos. Ao priorizar vídeos de curta duração baseados em choque, pânico moral ou desinformação médica e política, a rede cria espirais rápidas de radicalização para públicos extremamente jovens.
- YouTube (Google): o seu motor de recomendação foi documentado por diversos académicos por conduzir utilizadores ao longo de "tocas de coelho" (rabbit holes) ideológicas, onde vídeos moderados levam gradualmente a conteúdos cada vez mais extremistas e conspiratórios para reter a visualização contínua.
- Telegram e WhatsApp: funcionam como redes de comunicação opaca em massa onde a desinformação circula sem qualquer moderação de factos. A arquitetura de grupos e canais gigantes permite a orquestração de campanhas de difamação e pânico social longe do escrutínio público.
- Simplicidade maniqueísta vs. complexidade: o discurso de extrema-direita constrói narrativas diretas de "nós contra eles", medo e ameaça. Tais mensagens adaptam-se com facilidade à leitura rápida do feed, ao contrário de análises ponderadas sobre políticas públicas ou causas como o ativismo ambiental e a ciência, que exigem nuance e acabam sufocadas pela máquina.
- Tática do clickbait emocional: ao alavancar títulos enganadores e factos distorcidos (que chegam a representar entre 60% a 70% dos artigos virais), estes atores transformam o pânico moral, o preconceito e a paranoia em mercadoria virótica.
- Exploração das bolhas de filtro: ao isolar os utilizadores em ecossistemas de validação mútua, os algoritmos criam câmaras de eco impermeáveis ao contraditório, expostas continuamente a versões hiperbolizadas da realidade.
- Guerra memética e humor de fronteira: o sensacionalismo assume frequentemente a forma de memes e conteúdos pretensamente humorísticos, suavizando o extremismo e permitindo espalhar desinformação a uma velocidade superior à da verdade.
- Destruição da confiança nas instituições: o jornalismo de investigação e o conhecimento científico perdem sustentabilidade e alcance diante da enxurrada de lixo digital.
- Normalização do discurso de ódio: a validação algorítmica do conteúdo ruidoso desloca o limite do aceitável (Janela de Overton), dando centralidade a ideias anteriormente remetidas à margem do espectro político.
- Incapacidade de governação plural: uma cidadania submetida a fluxos constantes de medo perde a capacidade de ponderar escolhas políticas, transformando o debate democrático numa guerra cultural permanente.
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