sábado, 17 de agosto de 2019

Fumos e Gases Tóxicos: O Encobrimento (Documentário que deu na RTP, 52min.)



O escândalo do encobrimento das consequências da queima de combustíveis fósseis.

Uma visão retrógrada das alterações climáticas tomou conta da Casa Branca. Documentos provam que desde 1957 as empresas petrolíferas sabiam que a queima de combustíveis fósseis altera o clima. Uma história sobre o maior encobrimento da história que durou 60 anos.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

True cost of cheap food is health and climate crises, says commission

Fonte: The Guardian

The true cost of cheap, unhealthy food is a spiralling public health crisis and environmental destruction, according to a high-level commission. It said the UK’s food and farming system must be radically transformed and become sustainable within 10 years.

The commission’s report, which was welcomed by the environment secretary, Michael Gove, concluded that farmers must be enabled to shift from intensive farming to more organic and wildlife friendly production, raising livestock on grass and growing more nuts and pulses. It also said a National Nature Service should be created to give opportunities for young people to work in the countryside and, for example, tackle the climate crisis by planting trees or restoring peatlands.

“Our own health and the health of the land are inextricably intertwined [but] in the last 70 years, this relationship has been broken,” said the report, which was produced by leaders from farming, supermarket and food supply businesses, as well as health and environment groups, and involved conversations with thousands of rural inhabitants.

“Time is now running out. The actions that we take in the next 10 years are critical: to recover and regenerate nature and to restore health and wellbeing to both people and planet,” said the commission, which was convened by the RSA, a group focused on pressing social challenges.

The commission said most farmers thought they could make big changes in five to 10 years if they got the right backing.

“Farmers are extraordinarily adaptable,” said Sue Pritchard, director of the RSA commission and an organic farmer in Wales. “We have to live with change every single day of our lives.

“We are really keen that farmers feel they are in the driving seat and that they can be a force of change. At the moment, a lot of farmers feel beleaguered and that they have become the bad guys. But without sustainable, secure and safe farming in the UK, we will not survive.”

The commission criticised decades of government policy aimed at making food cheaper, fuelling rising obesity and other health problems. “The true cost of that is simply passed off elsewhere in society – in a degraded environment, spiralling ill health and impoverished high streets,” said the report.

Pritchard said the UK had the third cheapest basket of food in the developed world, but also had the highest food poverty in Europe in terms of people being able to afford a healthy diet. Type 2 diabetes, a diet-related illness, costs the UK £27bn a year, she said.

The commission also said agriculture produced more than 10% of the UK’s climate-heating gases and was the biggest destroyer of wildlife; the abundance of key species has fallen 67% since 1970 and 13% of species are now close to extinction.

To solve these crises, the commission said “agroecology” practices must be supported – such as organic farming and agroforestry, where trees are combined with crops and livestock such as pigs or egg-laying hens.

The commission has also adapted for the UK a recently published scientific diet that is both nutritious and environmentally sustainable. While it and other studies recommend large reductions in meat-eating, Pritchard said: “There is a strong case to be made [in the UK] to support sustainable beef and lamb in the places where grass is the best thing to grow.”

The so-called planetary health diet calls for more nuts and pulses in diets and Pritchard said these and more vegetables could be grown in the UK. Hazelnuts and walnuts are native to the UK, she pointed out, and some farmers are now starting to grow crops like lentils and quinoa, as well as beans and peas.

The commission said the government must develop a plan to put the countryside and the communities living there at the centre of the green economy.

“[Brexit] creates a once-in-50-years opportunity to change our food and farming system, but we need to act now: the climate emergency makes urgent, radical action on the environment essential,” said Sir Ian Cheshire, chair of the RSA commission and also a senior government adviser.

Gove said: “This report raises issues that are hugely important. We know that it is in the interests of farmers and landowners to move to a more sustainable model.” He added that the government’s agriculture bill would reward farmers with public money for public goods and a new “farm to fork” food review would look to ensure everyone had access to healthy British food.

The report was backed by Labour and the Liberal Democrats. The Green MP Caroline Lucas said: “This monumental report is a powerful and profound account of the ecological transformation of our food and farming system that we urgently need – and where we can start.”

The commission said a new non-profit bank should be set up to provide finance to farmers investing in new practices.

With Brexit uncertainty worrying farmers, the commission urged minister to stop delays on policy and trade decisions and commit to a future-proof ambition by January 2020. It also said schools, hospitals and prisons should buy more sustainably produced British food.

Prof Joanna Price, the vice-chancellor of the Royal Agricultural University, said: “The report paints an honest picture of the challenges and sets out some bold ideas to address them. We strongly agree that farming can be a force for positive change and that rural communities can thrive as a powerhouse for a green economy.”

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Nunca o aquecimento foi tão global nos últimos 2000 anos — e a culpa é nossa

"O período mais quente e que afectou mais continentes, países e regiões dos últimos dois mil anos ocorreu durante o século XX. Estas são as principais conclusões de uma investigação que reconstruiu a evolução das temperaturas médias anuais desde o ano 1 (d.C.) até ao ano de 2000 e que foi divulgada pela revista científica Nature."


Fonte: aqui
Caso existissem termómetros há dois mil anos, dificilmente teriam registado temperaturas tão altas como as que se fizeram sentir nos últimos anos. De há dois milénios para cá que as temperaturas não atingiam picos tão altos em pelo menos 98% do planeta — e tudo por causa da mão humana. 

O período mais quente e que afectou mais continentes, países e regiões dos últimos dois mil anos ocorreu durante o século XX. Estas são as principais conclusões de uma investigação que reconstruiu a evolução das temperaturas médias anuais desde o ano 1 (d.C.) até ao ano de 2000 e que foi esta quinta-feira divulgada pela revista científica Nature.

Os cientistas responsáveis pela investigação fazem parte de vários institutos internacionais que se especializam no estudo das alterações climáticas, como o Centro de Pesquisa Climática de Bjerknes (Bjerknes Center for Climate Research), na Noruega, o Centro de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas de Oeschger (Oeschger Centre for Climate Change Research), em Berna, na Suíça, o Observatório Terrestre de Lamont-Doherty (Lamont-Doherty Earth Observatory) da Universidade Columbia, nos Estados Unidos ou o Departamento de Física da Universidade de Múrcia, em Espanha.

Sem termómetros, tudo o que os cientistas têm à mão são indicadores climáticos indirectos ("proxies", na linguagem académico) tais como documentos históricos, registos escritos de colheitas, épocas de floração, de observação do tempo e catástrofes meteorológicas, ou seja, dados que ajudam a reconstituir o clima numa determinada época. No entanto, foi na própria Natureza que os investigadores encontraram as maiores fontes. As amostras de gelo das regiões polares guardam testemunhos milenares sobre a precipitação, sobre a fusão periódica da cobertura gelada e sobre a composição da atmosfera — dos corais do Pacífico também se extraem dados climáticos.

Usando precisamente estes registos paleoclimáticos, como anéis de árvores, análise do crescimento dos glaciares e da composição dos sedimentos de lagos, os cientistas estudaram mais de 700 destes registos e concluíram que o aquecimento actual “não tem paralelo em termos de temperaturas absolutas” nos últimos dois milénios, e é também o mais abrangente. Até mesmo no ponto mais alto da Anomalia Climática Medieval (950-1250), só 40% da superfície da Terra atingiu as temperaturas mais altas ao mesmo tempo.

Os anéis de árvores foram particularmente importantes, uma vez que a sua largura e densidade indicam, ano a ano, se o clima foi mais quente ou mais frio, mais húmido ou mais seco. Combinando-se amostras de diferentes idades, é possível reconstituir as condições climáticas ao longo de milhares de anos.

A influência do Homem

Os primeiros registos oficiais das temperaturas médias anuais não vão além dos meados do século XIX, nos primeiros anos da Revolução Industrial, altura em que as máquinas de vários países começaram a queimar carvão, um passo que acabaria por marcar o primeiro contributo do Homem para o aquecimento global. 

Mesmo assim, os períodos de aquecimento e arrefecimento antes da Revolução Industrial estavam dentro dos parâmetros das variações naturais do clima, dizem os cientistas. O sobreaquecimento actual está a acontecer em simultâneo em várias zonas do planeta, como na Europa central, no Árctico, no sudeste da Ásia e na bacia amazónica. De fora da equação tem ficado apenas a Antárctica – mas o continente gelado está a começar a sentir cada vez mais os efeitos do aquecimento do planeta. 

“O nosso estudo fornece fortes indícios de que o aquecimento global causado pelo homem não pode ser comparado com outras causas, como as erupções vulcânicas. Não há precedentes para estes acontecimentos nos últimos 2000 anos”, lê-se no estudo. 

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Em Idanha-a-Nova, as Nações Unidas pedem preservação dos meios rurais para garantir sustentabilidade

A dirigente da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) Mariana Dias Simpson defendeu no dia 17 de Julho a defesa dos meios rurais para garantir transição para sistemas alimentares sustentáveis.

Fonte: aqui

"Nos últimos 50 anos, o foco no aumento do rendimento das colheitas e na melhoria das práticas de produção contribuíram para a redução da fome, para o aumento da expectativa de vida, queda nas taxas de mortalidade infantil e redução da pobreza global", afirmou Mariana Dias Simpson.

A responsável, que falava em Idanha-a-Nova, no distrito de Castelo Branco, durante a sessão de abertura do V Fórum Mundial de Inovação Rural, adiantou que esses benefícios para a saúde, estão a ser compensados por dietas pouco saudáveis que são ricas em calorias vazias e em alimentos altamente processados e pouco sustentáveis, onde houve uma rutura muito grande na relação daquilo que se produz com o que se consome, traduzindo-se num alto custo para o planeta.

"A transição para sistemas alimentares sustentáveis passa pela proteção e melhoria dos meios de vida rurais, com a valorização da agricultura familiar, a equidade e bem-estar social das populações rurais e urbanas, proteção conservação e melhoria da eficiência dos recursos naturais", defendeu.

A responsável da FAO realçou que, atualmente, parte significativa da população está malnutrida e os limites da natureza estão a ser ultrapassados, em grande parte, devido ao modo como estamos a produzir os alimentos.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Está o “abominable mystery” de Darwin perto de ser desvendado?

Foto e notícia aqui


É um dos maiores mistérios na comunidade científica: como surgiram as plantas com flor? A resposta poderá estar numa nova descoberta com participação de um investigador português.
Corria o ano de 1879 quando Charles Darwin cunhou, numa carta ao seu amigo Joseph Hooker, uma expressão que os anais da História não apagaram: “abominable mystery”. Referia-se o pai da teoria da evolução àquele que é, ainda hoje, um dos maiores mistérios da botânica: qual a origem das plantas com flor? Graças a um investigador do MARE – Centro de Ciências do Mar e Ambiente da Universidade de Coimbra e à sua equipa, talvez estejamos mais perto da resposta. Mário Mendes, em colaboração com investigadores do Instituto Paul Scherrer, em Zurique (Suíça), descobriu estruturas femininas e masculinas de plantas fossilizadas até agora desconhecidas da comunidade científica que levaram à criação de um novo grupo de plantas, batizado BEG.

“Desde 2008 que começámos a encontrar estruturas de plantas que não compreendíamos muito bem o que eram”, recorda ao i Mário Mendes, que é também professor na Universidade de Coimbra. Para já, o investigador encontrou apenas estruturas femininas e estruturas masculinas, em locais diferentes. “Enquanto as estruturas femininas – sementes – foram encontradas na jazida de Catefica, as estruturas masculinas foram encontradas na jazida de Vale de Água. Infelizmente, ainda não tive a sorte de apanhar a planta, mas ainda espero apanhá-la”, afirma.

O estudo mais detalhado das estruturas permitiu perceber que as descobertas partilhavam características de várias ordens de plantas, o que explica o nome do grupo – BEG são as iniciais de Bennettitales, Erdtmanithecales e Gnetales. “As plantas do grupo BEG são contemporâneas das primeiras plantas com flor, que apareceram no Cretácico Inferior”, esclarece o investigador. As Bennettitales e as Erdtmanithecales estão extintas, mas as Gnetales ainda têm, atualmente, um representante – a Ephedra, um arbusto.

Mas como é que as estruturas encontradas podem ajudar a desvendar o “mistério abominável”? É que, a partir da análise às várias amostras recolhidas no campo, os investigadores suspeitam que o grupo talvez possa tratar-se de um grupo de transição, o que pode explicar como surgiram as angiospérmicas (plantas com flor). “Ao analisarmos com detalhe aquelas estruturas reprodutoras, começámos a perceber que talvez este grupo, além de novo, poderia até ser um grupo de transição entre as gimnospérmicas e as angiospérmicas. Na verdade, as plantas do grupo BEG até estão mais associadas às gimnospérmicas – nós, aliás, catalogamo-las como sendo gimnospérmicas –, mas as suas estruturas reprodutoras apresentam algumas analogias com as estruturas reprodutoras das plantas com flor, as angiospérmicas”, o que leva a equipa de Mário Mendes a suspeitar que possa ter havido “uma transição gradual” de um tipo de plantas para as outras.

Como elucida o investigador do MARE da Universidade de Coimbra, o aparecimento de uma nova espécie ocorre em circunstâncias normais de forma gradual, mas no caso das plantas com flor não se sabe exatamente o que aconteceu e persistem muitas dúvidas relativamente à sua origem, que é descrita como repentina. “O grande mistério que há na comunidade científica desta área é perceber como é que as angiospérmicas aparecem tão rapidamente no Cretácico Inferior e outros grupos de plantas se extinguem. Como é que estas plantas aparecem tão subitamente? Bem, se calhar não foi assim tão subitamente quanto isso. E esta nossa investigação levanta a hipótese de, afinal, ter havido ali uma fase de transição”, explica Mário Mendes.

As descobertas, de resto, já foram dadas a conhecer à comunidade científica, em artigos publicados nas revistas Review of Palaeobotany and Palynology e Grana.

Passo a passo até à grande descoberta A confirmar-se que se trata, de facto, de um grupo de transição, a descoberta pode abrir horizontes para o nosso conhecimento botânico.

Mas não foi fácil chegar aqui e a investigação envolveu vários passos pelos quais tanto as estruturas femininas recolhidas na jazida de Catefica como as estruturas masculinas encontradas na jazida de Vale de Água passaram. “Os restos encontram-se conservados naqueles níveis argilosos mais escuros da jazida. Recolhemos alguns blocos e levámo-los para o laboratório”, explica ao i Mário Mendes. A seguir, o primeiro passo foi secar completamente a argila. Já seca, a equipa colocou-a dentro de um recipiente com água, para conseguir desintegrá-la. Como se consegue essa desintegração? “Forma-se uma espécie de uma papa e tudo o que é material incarbonizado [processo de fossilização] dispersa”, esclarece o docente da Universidade de Coimbra.

Depois, usando um chuveiro e um crivo com uma malha de 250 micra, “despejámos o recipiente com a argila, que é filtrada pela malha, onde fica retido o material fossilífero que houver”, explica o investigador. Esse material foi depois seco ao ar – não pode secar na estufa para evitar fragmentar o carvão, uma vez que as partículas incarbonizadas são particularmente sensíveis. Já seco, foi observado à lupa binocular. De seguida, o material foi então bem lavado com ácido florídrico, “para eliminar todos os restos de material mineral que pudessem estar agarrados e ficar completamente limpo”. Só aí foi possível aplicar a técnica de microscopia eletrónica de varrimento, que permite ver praticamente tudo. “É possível, por exemplo, ver a estrutura das sementes, se há pólenes, de que tipo são, entre outras características”.

Este método, contudo, não deixa ver o interior, mas o avanço da tecnologia possibilitou a criação de uma outra técnica que o permite: a microcenografia de raio-X por radiação de sincrotrão. O nome é difícil, mas Mário Mendes descodifica o mecanismo: “É como se fosse uma TAC, é uma técnica não destrutiva. O melhor aparelho que existe na Europa – só existem dois – está na Suíça, no Instituto Paul Scherrer. O aluguer é muito caro, na ordem dos milhares de euros, mas é um passo muito importante na análise”, conta ao i. E como funciona? A amostra recolhida é colocada na máquina, que acelera as partículas e vai transmitir energia aos eletrões e aos protões, possibilitando a visualização de toda a estrutura no seu interior sem que o espécime seja destruído.

Estudadas estas estruturas, o investigador anseia agora, numa primeira fase, por encontrar estruturas masculinas e femininas no mesmo local – depois, encontrar a planta fossilizada, idealmente com as estruturas femininas e masculinas in situ.Um grupo de plantas quase exclusivo do país Os espécimes que se enquadram neste novo grupo agora descrito só têm vindo a ser encontrados, em grande quantidade, em Portugal e nos Estados Unidos (EUA), no Grupo Potomac. Além disso, poucos mais registos existem: “Já foi descoberta uma semente na Dinamarca e, na zona da Europa central, julgo que já apareceu qualquer coisa também, mas não com esta intensidade”, destaca Mário Mendes. E como explicá-lo? “Pode ter que ver com as condições ambientais mas, na verdade, ainda não percebemos exatamente o porquê de se encontrarem com maior intensidade nestes dois locais”, responde o investigador.

O facto pode impressionar quem não esteja por dentro da matéria mas, como Mário Mendes assinala, o país tem uma grande vantagem em relação a outros: é que, em Portugal, o Cretácico “está muito bem representado”.

“Temos toda a sequência, desde a idade Berriasiana até à Maastrichiana, todo [o Cretácico] está representado. Nos outros países há hiatos, há andares que não estão lá. Não é por acaso que os estrangeiros vêm cá, levam o nosso material e, depois, nós ficamos prejudicados e ninguém quer saber”, lamenta.

No ano passado, Mário Mendes já tinha denunciado o problema ao i: em Portugal, ao contrário do que acontece com os vestígios arqueológicos, não há legislação que proteja as descobertas feitas no âmbito da paleontologia [ciência que estuda os fósseis de animais e plantas]. Por isso, nada impede que os investigadores estrangeiros transportem para os seus países fósseis que são património português.Além de um novo grupo, uma nova espécie Este ano, o investigador português já fez mais do que uma descoberta: além de um novo grupo, Mário Mendes descobriu também uma nova espécie. “Foi descoberta por mim, recolhida em janeiro deste ano. Quando olhei para ela parecia-me uma flor, parece que tem três carpelos [folha floral feminina que produz os gâmetas femininos – óvulos], mas não são, são conjuntos de três sementes. E não só é nova espécie como também é novo género”, explica.

Ainda não foi publicada – de acordo com Mário Mateus, “sairá em breve na revista Cretaceous Research” –, mas já tem nome: Battenispermum hirsutum. Porquê? “O nome do género, Battenispermum, é dedicado a David Batten, professor emérito da Universidade de Manchester que morreu vítima de cancro, em fevereiro”. Quanto ao nome da espécie, hirsutum (hirsuto, em português, que se diz sobre o que tem pelos longos), justifica dizendo que “tem uns pelos muito bonitos cuja função ainda não se percebeu bem qual é, mas parecem envolvê-la”.

O problema do financiamento Apesar de ter um português envolvido, esta investigação foi financiada pelo Swedish Research Council. É que, se lá fora a investigação fundamental, a dita clássica, é considerada tão prioritária quanto a investigação aplicada – que tem retorno financeiro direto, como a medicina ou a indústria farmacêutica –, por cá, a visão existente é ligeiramente diferente. “Desde que foram criadas áreas prioritárias, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior financia essencialmente investigação aplicada, porque tem retorno financeiro direto, quantificável e tangível, e deixa à margem a investigação fundamental, que é extremamente importante. Isto não acontece em países como Espanha, França ou EUA, que investem seriamente neste tipo de investigação. Eu sei que a investigação é cara, mas acredito que a ignorância é muito mais cara”, avisa Mário Mendes.

O investigador destaca, no entanto, “a sensibilidade” de algumas entidades que se têm disponibilizado a financiar alguns dos seus trabalhos em paleobotânica – como é o caso, por exemplo, da Fundação Millennium BCP e da Fundação Amadeu Dias. “Se continuarmos a caminhar neste sentido, o que vai acontecer é que determinadas áreas do saber, daqui a uns anos, vão desaparecer e vamos ficar prejudicados em relação a outros países”, alerta o docente da Universidade de Coimbra.



segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Neve derrete e forma lago nos Alpes Franceses

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A meteorologia está cada vez irregular, o aquecimento global está a aumentar de dia para dia e atinge já as zonas mais frias do mundo.

No alto dos Alpes Franceses, um alpinista fotografou a formação de um lago no cume do Dent du Géant e do Aiguilles Marbrées, depois da intensa onda de calor que atingiu a Europa central no final de junho. Bryan Mestre ficou chocado quando percebeu que a neve derretida deu origem a uma piscina natural que se está a formar a uma altitude de 11.100 pés (3.400 m) na cordilheira do Monte Branco.

De acordo com o Copernicus Climate Change Service, o mês de junho deste ano foi o mais quente alguma vez registado na Terra. Segundo dados divulgados pela agência de satélites, durante os últimos dias do mês as temperaturas médias da Europa estavam 2ºC acima do normal, e as temperaturas estavam entre os 6ºC e os 10ºC acima do normal na maior parte da França, Alemanha e norte da Espanha.

Foi com uma publicação no Instagram que o alpinista francês demonstrou a preocupação e alertou para estas mudanças climáticas.+

A foto foi tirada no dia 28 de junho – 10 dias depois de Paul Todhunter, o companheiro de alpinismo, ter fotografado o mesmo lugar, mas coberto de neve. Bryan alertou que “isto é verdadeiramente preocupante… os glaciares estão a derreter pelo mundo inteiro a uma velocidade exponencial”.

“Está localizado na área de 3.400 a 3.500 metros. Supostamente devias encontrar gelo e neve nessa altitude, não água líquida. Na maioria das vezes, quando ficamos um dia inteiro nesta altitude, a água das nossas garrafas de água começa a congelar.”

“Eu já lá estive muitas vezes, em junho, julho e até agosto, e nunca vi água líquida lá em cima”, acrescentou.

domingo, 11 de agosto de 2019

Aquametragem: animação para a poupança de água




A curta-metragem animada Aquametragem, da portuguesa Marina Lobo, foi a vencedora da categoria “Proteger o nosso planeta” no Festival de Filmes ODSs em Acção, organizado pela Organização das Nações Unidas (ONU). Esta é a maior competição de trabalhos cinematográficos dedicados aos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

A curta, de pouco mais de cinco minutos, tem o objectivo de sensibilizar o público, “tanto crianças como adultos”, a utilizar os recursos hídricos de uma forma mais responsável e eficiente, explicou por telefone ao P3 Marina Lobo. No vídeo, Hidro, o protagonista da animação, ganha acesso a uma fonte potável de água, mas comete muitos erros na sua utilização: lava o carro de mangueira, demora demasiado tempo no banho e contribui para a poluição através da emissão de gases poluentes ao tratar a água utilizada. Hidro aprende com os erros e passa a valorizar a importância de utilizar um "recurso finito e escasso" de uma forma sustentável.

A ideia para a Aquametragem partiu da Lisboa E-Nova (Agência de Energia e Ambiente de Lisboa). Marina Lobo — que, além de animadora, também é engenheira ambiental — teve conhecimento do desafio e acabou por ser a escolhida para desenvolver uma animação sobre a água, em 2018. Além de chamar à atenção para o desperdício deste recurso, o vídeo também sugere uma abordagem sustentável ao problema, “baseada nos 5Rs do uso da água”: reduzir o consumo, reduzir o desperdício, reutilizar, reciclar e recorrer a origens alternativas.

sábado, 10 de agosto de 2019

Cartaz

Estudo revela como elefantes ajudam a combater o aquecimento global

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Um estudo publicado na revista Nature Geoscience
revela como os elefantes africanos da floresta (Loxodonta cyclotis) têm ajudado as árvores a estocarem mais carbono e, dessa forma, a combater o aquecimento global.

De acordo com o pesquisador Fabio Berzaghi, do Laboratório de Ciências Climáticas e Ambientais e do Clima (CEA), da França, eles descobriram que a redução da densidade do tronco florestal devido à presença de elefantes, que desbastam naturalmente as árvores, leva a mudanças na competição por luz, água e espaço entre as árvores – mudança que favorece o surgimento de maiores árvores com maior densidade de madeira.

“Essa mudança na estrutura da floresta tropical africana e na composição de espécies aumenta o equilíbrio a longo prazo da biomassa acima do solo”, informa o pesquisador. Eles concluíram que os distúrbios provocados pelos elefantes nas florestas africanas geram incremento na biomassa de 26 a 70 toneladas por hectare.

Por outro lado, Berzaghi explica que a extinção dos elefantes resultaria em redução de 7% da biomassa acima do solo nas florestas tropicais da África Central: “Esses resultados são confirmados por dados de inventário de campo. Nós especulamos que a presença de elefantes pode ter moldado a estrutura das florestas tropicais da África, o que provavelmente desempenha um papel importante em comparação com a floresta tropical da Amazônia.”

A interferência dos elefantes-da-floresta nas árvores de pequeno porte, que costumam ser desbastadas por eles, reduz o número de pequenas árvores e estimula o crescimento das grandes que armazenam mais carbono. Isso também modifica as condições da floresta, de acordo com o pesquisador.

“Esses resultados mostram que os grandes herbívoros desempenham papel importante na dinâmica das florestas tropicais a longo prazo. Na África Central, o ‘efeito elefante’ aumenta os estoques de carbono acima do solo em três bilhões de toneladas. Indiretamente, os elefantes contribuem para reduzir o CO2 atmosférico e nos ajudam a combater o aquecimento global”, acrescenta.

Porém, a caça de elefantes visando a comercialização do marfim tem impedido esses animais de desempenharem um papel que Berzaghi qualifica como de um “formidável engenheiro do ecossistema”. Até porque os elefantes também são conhecidos por transitarem pela floresta espalhando sementes que darão origem às novas gerações de árvores. “Nossos resultados trazem mais evidências do papel importante e único dos elefantes da floresta nas florestas tropicais da África Central”, reforça.

Referência

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Erosão da costa portuguesa é grave e efeitos vão piorar, dizem especialistas

Foto e reportagem aqui


As zonas da costa com ocupação humana são as mais atingidas pelos efeitos da erosão costeira em Portugal, uma situação que vai agravar-se, apesar das medidas que têm sido tomadas e que custam anualmente milhões ao Estado, realçam especialistas.

A situação não é exclusiva de Portugal e deve-se a vários factores, dos quais se destaca a intervenção humana nos leitos dos rios, nomeadamente barragens que impedem os sedimentos de se deslocarem para a zona costeira, os erros do ordenamento da faixa costeira cometidos ao longo de décadas e a retirada de areia dos rios para a construção.

Filipe Duarte Santos, da Universidade de Lisboa, destacou que a costa portuguesa “é das costas, à latitude a que se encontra, mais energéticas do mundo”, com ventos persistentes predominantemente de quadrante norte-oeste que orientam nesta direcção as ondas.

Quando o mar atinge a costa, “não a atinge de frente, mas um bocadinho de lado”, e este movimento é permanente, desgastando a costa e “transportando areais de praias de norte para sul, com um valor médio de um milhão de toneladas de sedimentos por ano”.

Se os sedimentos dos rios que antes chegavam às praias não chegam, a costa está em constante desgaste, acrescentou.

Uma protecção artificial? 

“Este problema agudiza-se em áreas ocupadas. As áreas ocupadas não são compatíveis em termos evolutivos com aquela evolução da linha de costa e, a determinada altura, temos um conflito entre a progressão do mar, o recuo da linha de costa e a manutenção dos espaços ocupados na zona costeira”, salientou, pelo seu lado, Óscar Ferreira, da Universidade do Algarve.

De acordo com os especialistas, “não há uma resolução definitiva para o problema” e o que pode ser feito para minimizar a erosão costeira está a ser feito, sobretudo através do reforço sedimentar, alimentando artificialmente as praias com areia.

“Temos limitações do ponto de vista de investimento, limitações financeiras que todos os países têm, mais ou menos, o nosso problema é um problema que é caro de resolver, mas penso que dentro das possibilidades que temos eu diria que estamos a fazer o melhor que é possível”, disse Filipe Duarte Santos.

Além da alimentação das praias, “em certos casos, não existe outra alternativa se não fazer protecções rígidas, enrocamentos, esporões, intervenções pesadas”, realçou.

“Nas zonas onde não há ocupação, (...) onde não há um risco iminente para as populações, continua a deixar-se existir o recuo da linha de costa. Onde temos populações em risco, normalmente, tem havido um esforço de colocação de areia com os custos associados”, disse Óscar Ferreira, salientando que este é “um esforço continuado e economicamente elevado”.

Óscar Ferreira destacou que as áreas mais preocupantes em termos de erosão costeira são também zonas de ocupação humana, como as zonas de “Espinho até Cortegaça, a zona do Sul de Aveiro, a zona Sul da Figueira da Foz, a área da Caparica, a zona da Quarteira e de Vale de Lobo até Faro”.

O investigador defendeu que, “em algumas áreas”, deveria ser ponderado “um passo à frente para as próximas décadas”, através da reorganização e do reordenamento da faixa costeira onde for possível. Ou seja, retirar as pessoas que vivem na zona costeira para outros locais, o que não é fácil, sobretudo por questões sociais e culturais.

“As pessoas estão, obviamente, muito apegadas à área que ocupam e querem manter-se nessa mesma área, o que é perfeitamente compreensível. No entanto, também tem que haver cada vez mais uma percepção de que isso tem custos directos para o Estado muito elevados. (...) Todos pagam esses custos e, se por acaso tivessem que ser os directos beneficiários a pagar esses custos, eles não teriam capacidade para o fazer. E, muito provavelmente, acabariam eles próprios por retirar-se”, salientou.

Segundo os investigadores, o mar “subiu”, mas na costa portuguesas “ainda não se identifica um fenómeno” de erosão que seja apenas devido às alterações climáticas.

“A subida do nível médio do mar, em resultado das alterações climáticas, virá agravar ainda mais essa situação. Mas nós, neste momento, não precisamos sequer das alterações climáticas para ter já um problema grave”, concluiu Óscar Ferreira.