quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Sobre a acampada no Porto pela Habitação Justa

PONTO PRÉVIO
1.Em Portugal, existem cerca de 773 mil trabalhadores por conta própria (trabalhadores independentes/recibos verdes). 
2. Segundo o relatório da EAPN, Portugal ocupa a 3.ª pior posição da UE no que toca ao risco de pobreza especificamente entre os trabalhadores independentes e outras situações que excluem o trabalho por conta de outrem
3. O risco de pobreza geral dos empregados no país desceu de forma consolidada, fixando-se em 8,6% (dados do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento do INE). No entanto, a média nacional dos trabalhadores esconde a enorme disparidade enfrentada pelos "recibos verdes", cuja taxa de pobreza é historicamente duas a três vezes superior à dos trabalhadores com contrato
4. Dependência Económica (Falsos Recibos Verdes): um dos fatores estruturais que explica a fragilidade contínua é que mais de 14% dos trabalhadores por conta própria dependem economicamente de um único cliente (que representa 75% ou mais dos seus rendimentos), inserindo-se naquilo que comummente se designa por "falsos recibos verdes"
Fonte [Sete Margens]
A acampada que desde sábado tem estado na Praça D. João I, no Porto, vai permanecer e volta a montar acampamento.

A organização apela ainda a que as pessoas continuem a doar tendas ao movimento, como têm feito, existindo neste momento uma reserva de tendas que poderá ser utilizada esta noite. 

A concentração de hoje, pelas 19:00, arrancou com "Grândola, Vila Morena", de José Afonso, um espelho da canção que os manifestantes cantavam pouco antes da carga policial da última madrugada.
As cerca de duas mil pessoas presentes empunhavam cartazes contra o presidente da Câmara do Porto, Pedro Duarte, e a reivindicar o direito à habitação, entoando palavras de ordem como "O povo unido jamais será vencido" e "Pedro Duarte, demissão".

O movimento pela habitação que tem protestado no Porto denunciou hoje uma carga policial, esta madrugada, que causou ferimentos em 39 dos participantes, dois dos quais ficaram em estado grave.
De acordo com o movimento, entre os feridos está uma pessoa com deficiência e vários participantes na concentração foram hospitalizados.

Os participantes voltaram a instalar tendas durante a noite, que foram retiradas pela polícia, depois de o presidente da Câmara do Porto ter dito na quarta-feira que seria “absolutamente implacável com qualquer tentativa de colocação de tendas” na Praça D. João I”.

O movimento apresenta seis reivindicações principais: “abaixo a lei das rendas; fim dos despejos; fim da compra de imóveis por fundos abutres; mais habitação pública; recuperação de imóveis devolutos para habitação; tetos às rendas”.

A discrepância entre a liderança política e a realidade social do país é evidente. Por um lado, o Primeiro-Ministro detém um património imobiliário substancial - incluindo uma residência de grandes dimensões envolvida em polémicas urbanísticas e dezenas de imóveis de rendimento , garantindo uma estabilidade financeira familiar partilhada pela sua rede de contactos. 

14 membros do governo têm interesses imobiliários, que passaram para testas de ferro quando foram para o governo.

Por outro lado, o panorama do país revela dados alarmantes: um décimo da população vive em pobreza persistente (com estimativas informais a apontarem para valores significativamente superiores), 10% da população encontra-se em risco sério de pobreza prolongada e cerca de 15 mil pessoas vivem em situação de sem-abrigo. Perante este cenário, as críticas do executivo, que qualifica os protestos da população de 'egoísmo', claro que geram mais indignação e hipocrisia.

Entretanto a alegada de Pedro Duarte falou, o artigo 18.º do Decreto-Lei n.º 310/2002, de 18 de dezembro, estabelece que os acampamentos ocasionais fora dos locais próprios para campismo dependem de licença municipal. Porém O direito de reunião e manifestação em locais públicos não carece de qualquer autorização ou licença prévia das câmaras municipais.

Força Porto, força pais inteiro, Europa e todos os países que vivem dominados por gente indiferente e que desrespeita o seu povo!

Justiça ambiental e a infância: Por que milhões de crianças pagam o preço mais alto da crise climática

A emergência climática não afeta todos da mesma forma, e as suas consequências mais severas recaem com maior gravidade sobre os grupos que menos contribuíram para a sua origem. No centro desta injustiça estão as crianças e, em particular, as populações indígenas. Os contornos dramáticos desta realidade ficaram patentes quando os dados divulgados no Público Azul revelaram que cerca de 25,8 milhões de crianças na América Latina e no Caribe enfrentam os impactos diretos do fenómeno El Niño, entre secas severas que esvaziam rios essenciais, vagas de calor extremo e interrupções no acesso à água potável e à educação. A dimensão deste problema junta-se aos crescentes alertas internacionais da UNICEF sobre o impacto do clima na infância, que demonstram como a degradação ambiental ameaça os direitos básicos das gerações mais jovens em todo o mundo.

Ao mesmo tempo, a comunidade científica global deu um passo inédito para compreender a extensão deste fenómeno com a publicação de um estudo pioneiro no BMC Global Health Research. Trata-se da primeira revisão a sistematizar formalmente a evidência global sobre os impactos das alterações climáticas na saúde das crianças indígenas, oferecendo um enquadramento rigoroso e alinhado com as evidências disponibilizadas no PubMed Central sobre o impacto da injustiça ambiental na saúde infantil. Estas investigações confirmam que as populações infantis enfrentam uma vulnerabilidade desproporcional, combinando a fragilidade biológica de um organismo em desenvolvimento com a degradação acelerada dos seus territórios e modos de vida ancestrais. No contexto regional, iniciativas como o Programa Criança e Natureza têm vindo a destacar como os conceitos de justiça climática e racismo ambiental afetam diretamente os direitos e a segurança dos menores no Sul Global.

Apesar do pioneirismo e da amplitude da nova revisão, os próprios investigadores alertam que a ciência sobre este tema ainda não é totalmente conclusiva e apresenta limitações importantes na evidência disponível. Quase metade dos estudos analisados não apresentou resultados específicos para crianças indígenas e a investigação existente continua concentrada num número muito reduzido de países e comunidades. Por essa razão, os autores sublinham que é urgente desenvolver novos estudos em mais regiões do globo e assegurar uma participação mais significativa e genuína das comunidades e dos jovens indígenas. O objetivo passa por compreender em profundidade os diferentes impactos climáticos e garantir que as respostas políticas e ambientais tenham em conta as reais prioridades, experiências e conhecimentos destas populações. Como defende Jaime Turnbull, um dos autores do trabalho, reconhecer a soberania, os conhecimentos e as experiências vividas dos povos indígenas, garantindo que as comunidades lideram a definição das soluções, é o único caminho para alcançar resultados equitativos e eficazes no combate à crise climática para as crianças e as suas famílias.

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

LORN - Anvil


"Anvil" de LORN: O Eco Eletrónico da Extinção e o Mito Transumanista
Nascido em Normal, Illinois, e radicado em Milwaukee, o produtor norte-americano Marcos Ortega, conhecido no meio musical como LORN, consolidou-se como uma das figuras mais singulares e influentes da música eletrónica experimental contemporânea. Enquadrado em géneros como o IDM, o Dark Wave, o Industrial e o Leftfield Bass, o trabalho de LORN distingue-se por uma estética sonora sombria, visceral e melancólica, em que sintetizadores analógicos pesados e ritmos hipnóticos constroem atmosferas densas e inquietantes. A faixa "Anvil", pertencente ao seu álbum Vessel de 2015, exemplifica perfeitamente essa identidade: a canção evoca a ideia de um esmagamento inevitável - como sugere o próprio termo "bigorna"-, servindo de metáfora para o peso da mortalidade, o isolamento na era tecnológica e a transição para o desconhecido.

A dimensão conceptual da música atingiu o seu cume em 2016 com o lançamento do seu aclamado videoclipe, concebido e realizado pela dupla artística franco-belga GERIKO, composta por Hélène Jeudy e Antoine Caëcke. Situada num ano de 2100 assolado pela sobrepopulação extrema e pela rutura de recursos do planeta, a curta-metragem de animação apresenta uma solução estatal distópica: a criação da Anvil, uma rede social pós-morte onde a consciência dos cidadãos é digitalizada e armazenada num servidor público, exigindo contudo a eutanásia e desmaterialização do seu corpo físico. A narrativa acompanha os instantes finais de uma jovem mulher na Terra antes da sua transição para a rede digital, confrontando o espectador com a fronteira entre o alívio de uma imortalidade virtual e a tragédia do aniquilamento da condição humana tangível.

Do ponto de vista filosófico e literário, a obra mergulha profundamente nas correntes do transumanismo e do pós-humanismo, questionando os limites do mind uploading e a mercantilização da própria existência. A narrativa reflete as teorias socio-filosóficas sobre biopolítica e controlo estatal dos corpos, bem como as noções de hiperrealidade e simulação formuladas por pensadores como Jean Baudrillard. No plano literário e estético, "Anvil" bebe do universo cyberpunk de autores fundamentais como William Gibson e Philip K. Dick, combinando-o com uma linguagem visual marcante inspirada no traço arquitetónico de François Schuiten (As Cidades Obscuras) e na estética do manga e anime de culto japonês, nomeadamente as obras de Katsuhiro Otomo (Akira) e Masamune Shirow (Ghost in the Shell)

A teia sem centro


Falcão- peregrino (Falco peregrinus)
𝐀 𝐓𝐞𝐢𝐚 𝐒𝐞𝐦 𝐂𝐞𝐧𝐭𝐫𝐨
Descalço os sapatos e, com eles,
a ilusão de que estou fora.
A pele já não é uma fronteira,
é apenas um ponto de contacto.

Não há topo na pirâmide;
a cicuta, a cigarra e o granito
têm o mesmo peso ontológico que o meu olhar.
O valor de uma árvore não se mede em metros cúbicos de madeira,
mas no sobressalto vivo do seu próprio existir.

O antropocentrismo desmorona-se como gesso húmido.
O que chamo «meu corpo»
é apenas a Terra a respirar através deste nome provisório.
O rio não corre para nos servir;
o rio corre porque é a linguagem da montanha.

Desaprender o domínio.
Escutar a inteligência silenciosa das raízes,
o direito inerente de cada líquen, de cada lobo,
de ser exatamente o que é.

A verdadeira revolução não é técnica,
é um acordar do Self ecológico:
reconhecer que ferir a teia
é ferir a mão que a toca.

Dissolver a posse.
Tornar-me, finalmente,
paisagem

João Paulo Soares, 14.10.2026

P.S. O que é o Self ecológico? Saiba mais aqui

Dia Internacional dos Resíduos Elétricos: Quase 18% dos portugueses inquiridos já deitaram pequenos equipamentos elétricos no lixo comum


Um estudo sobre comportamentos relacionados com a tecnologia de baixo custo e consumo rápido, realizado em 12 países europeus, revela que, em Portugal, um em cada seis compradores inquiridos (17,8%) já colocou pequenos equipamentos elétricos deste tipo no lixo comum ou em contentores inadequados.

Este estudo europeu, divulgado pelo Electrão, põe em evidência o destino de carregadores, cabos, auriculares, luzes LED e outros pequenos aparelhos do quotidiano que são muitas vezes adquiridos a baixo custo para satisfazer uma necessidade pontual ou assegurar um equipamento de reserva.

O estudo foi promovido pelo WEEE Forum, a associação internacional de entidades gestoras de resíduos elétricos da qual o Electrão faz parte. Os resultados são divulgados no âmbito da XIV edição do Dia Internacional dos Resíduos Elétricos, iniciativa criada pelo WEEE Forum em 2018, assinalada anualmente a 14 de outubro e que tem este ano como tema a tecnologia “fast tech”.

Em Portugal, oito em cada dez inquiridos (82,5% dos 503 participantes) compraram, pelo menos, um destes produtos no espaço de um ano (entre agosto de 2025 e julho de 2026). Entre quem já comprou estes equipamentos, um terço (33,6%) referiu ter guardado aparelhos que deixou de utilizar.

As papeleiras de rua e o ecoponto amarelo são indicados por 29,8% dos compradores como destinos inadequados onde já colocaram estes pequenos equipamentos elétricos. 41,9% dos inquiridos referem ter entregado estas tipologias de equipamentos num local de recolha ou instalação municipal (ecocentros). Em alguns casos, os comportamentos coexistem: há quem guarde em casa alguns equipamentos fora de uso, entregue outros para reciclagem em locais oficiais e descarte incorretamente outros aparelhos.

Dados globais do estudo
No conjunto dos 12 países, mais de um terço dos compradores (38,6%) afirma ter descartado pelo menos um destes equipamentos sem nunca o utilizar, depois de uma única utilização ou antes de completar um mês de uso.

Perante uma avaria, 59,1% escolheriam novamente o mesmo modelo ou outro equipamento barato. Apesar disso, 80,3% afirmam que, em algumas compras, teriam optado por pagar mais por alternativas mais duradouras.

“Os aparelhos de baixo custo e curta duração continuam a ser equipamentos elétricos. Devemos prolongar o seu uso até ser possível, nomeadamente através da reutilização, e quando deixam de servir é necessário encaminhá-los para reciclagem”, realça o Diretor-Geral de Elétricos e Pilhas do Electrão, Ricardo Furtado.

Recuperar materiais e tratar componentes perigosos
Estes aparelhos, mesmo de pequena dimensão, precisam de ser encaminhados para reciclagem para que os seus materiais sejam recuperados e os componentes, que exigem cuidados específicos, tenham tratamento adequado.

O encaminhamento para reciclagem permite recuperar metais e plásticos que podem voltar a ser usados no fabrico de produtos, reduzindo a necessidade de extrair novas matérias-primas.

O tratamento adequado inclui também a remoção e gestão dos componentes com substâncias perigosas, para proteger o ambiente e a saúde humana. Colocar estes aparelhos no lixo comum compromete esse encaminhamento.

A escala do desafio é mundial. Segundo o Global E-waste Monitor 2024, da UNITAR e da União Internacional das Telecomunicações, foram geradas 62 milhões de toneladas de resíduos elétricos e eletrónicos em 2022. Apenas 22,3% tiveram recolha e reciclagem formalmente documentadas.

Acresce que, no caso dos equipamentos que contêm baterias de iões de lítio, há ainda um risco de segurança. O WEEE Forum alerta que, quando estes aparelhos são descartados indevidamente, as baterias podem ser esmagadas ou perfuradas nos veículos de recolha ou nas instalações de triagem e tratamento e provocar incêndios. A entrega em canais próprios permite encaminhá-los para unidades dedicadas, reduzindo os riscos para trabalhadores e instalações.

Mobilização mundial com arte e recolha no Parque Mayer
O Dia Internacional dos Resíduos Elétricos (Internacional E-Waste Day, na sigla original) pretende mobilizar consumidores, empresas e outras organizações a dar o destino correto a estes resíduos, através de campanhas de sensibilização e iniciativas de recolha. Em 2025 aderiram a esta iniciativa mais de 140 organizações de 50 países, nos seis continentes. Em 2026, a atenção centra-se nos pequenos equipamentos de tecnologia de consumo rápido.


Para assinalar esta efeméride Dia Internacional dos Resíduos Elétricos, o Electrão tem uma instalação no Parque Mayer, junto ao Teatro Variedades, em Lisboa. A associação apoiou também o espetáculo “Pigmalião”, uma ópera contemporânea portuguesa, adaptada a partir do clássico, que foi apresentada neste teatro de 17 a 20 de setembro. Com música de Gerson de Sousa Batista e encenação e conceção plástica de João Vieira Fino, o espetáculo reinterpreta o mito num futuro devastado. A cenografia integrou uma escultura construída com resíduos de equipamentos elétricos e eletrónicos fornecidos pelo Electrão.

O Electrão apela a que os consumidores verifiquem quais os equipamentos que ainda podem utilizar, reparar ou doar e entreguem os que chegaram ao fim de vida nos pontos de recolha adequados. Cabos, carregadores e pequenos aparelhos elétricos também precisam de recolha separada. Os locais de entrega podem ser consultados em Onde Reciclar.

Portugal recicla menos de metade da meta comunitária, salienta a associação ambientalista Zero
"As razões para este descalabro são múltiplas, mas têm sempre por base ações ou omissões das três entidades públicas que ao longo destes 20 anos deveriam ter zelado por garantir a boa gestão dos Resíduos dos Equipamentos Elétricos e Eletrónicos (REEE): o Ministério do Ambiente, a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e a Direção-Geral das Atividades Económicas (DGAE)", aponta a associação.

Recordando que neste ano se cumprem 20 anos da entrada em funcionamento do Sistema de Gestão dos REEE (SIGREEE), a Zero diz que são 20 anos de boicotes e ilegalidades e que as comemorações não podiam ser mais tristes.

Segundo os últimos dados oficiais da APA, em 2024 Portugal recolheu e tratou 32% dos REEE, menos de metade da meta comunitária que é de 65%.

Além dos números, no seu comunicado, a Zero traça ainda um percurso muito negativo de todo o processo, começando por recordar que nos primeiros 12 anos de funcionamento do sistema (até 2018) a APA autorizou que os REEE triturados em unidades de fragmentação de sucata contassem para as metas das entidades gestoras dos REEE (Electrão e ERP), sem que existisse qualquer evidência de que esses resíduos tivessem sido devidamente descontaminados.

Após 2018, esses resíduos deixaram de contar e por isso as entidades gestoras nunca mais cumpriram as metas das suas licenças, o que implicava o pagamento de uma Taxa de Gestão de Resíduos (TGR) de 10 euros por tonelada, tão baixa "que continuou a ser economicamente compensatória a má gestão dos REEE".

Kill Shelter & Antipole - A Kiss in the Rain

Uma Dança entre a Memória e a Mortalidade: Análise a “A Kiss in the Rain”

"A Kiss in the Rain", colaboração entre o projeto britânico Kill Shelter (Pete Burns) e o músico norueguês Antipole (Karl Morten Dahl), é um dos temas mais marcantes do álbum A Haunted Place (2021). A canção ergue-se como um hino elegante e melancólico que navega pelas águas da darkwave, do post-punk contemporâneo, tragic wave e da coldwave. Sonoramente, a faixa é construída sobre uma base ritmada e fria de sintetizadores analógicos, linhas de baixo pulsantes e guitarras cristalinas banhadas em chorus e delay, evocando a nostalgia soturna do som alternativo dos anos 80 - com influências diretas de nomes incontornáveis como The Cure, The Chameleons ou Clan of Xymox -, mas com uma produção moderna, densa e envolvente.

No seu significado lírico e temático, "A Kiss in the Rain" explora a dualidade entre a vulnerabilidade afetuosa e a decadência emocional. O gesto do beijo sob a chuva funciona como uma metáfora perfeita para a procura de beleza, intimidade e redenção no meio da tempestade - seja esta uma crise pessoal, o isolamento existencial ou a brevidade do tempo. A letra aborda a inevitabilidade da perda e a natureza efémera da ligação humana, sugerindo que, por vezes, os momentos mais puros de paixão e entrega ocorrem precisamente quando tudo à nossa volta se desmorona. A chuva surge não apenas como um elemento atmosférico, mas como um agente purificador e lavador de dores antigas, onde a dor da memória e o conforto do afeto se fundem num único instante.

O videoclipe reforça esta narrativa através de uma estética visual sóbria e contemplativa, estruturada em torno de fotografias de cemitério que evocam uma profunda sensação de saudade, misticismo e introspeção. As imagens estáticas de campas, esculturas tumulares e paisagens fúnebres cruzam-se com a melancolia inerente à música, transformando o registo visual num tributo à memória, à perda e ao silêncio eterno. Este desfile de fotografias capta na perfeição o espírito haunted (assombrado) do álbum, criando uma atmosfera solene e poética que espelha o estado psicológico de isolamento e luto sem recorrer a artifícios complexos ou explícitos.

Em termos de influências literárias e filosóficas, a canção navega por águas densas e contemplativas, bebendo tanto do Existencialismo de Jean-Paul Sartre e Albert Camus como da obra de Hermann Hesse. Ao confrontar a finitude da existência e o absurdo do mundo com o desejo humano de encontrar sentido através do contacto com o outro, a faixa evoca essa constante dualidade entre o espiritual e o carnal, o isolamento e o desejo de fusão. Tal como o Lobo da Steppe (Steppenwolf) ou o percurso de transição interior em Demian, "A Kiss in the Rain" capta a dor de quem caminha à margem num mundo frio e material, mas procura desesperadamente um vislumbre de transcendência ou redenção. Há também um claro eco do Romantismo escuro e da poesia decadentista do século XIX - lembrando autores como Lord Byron, Edgar Allan Poe, Novalis e Charles Baudelaire -, onde a melancolia (spleen), o efémero e o amor entrelaçado com a mortalidade assumem o papel principal. A imagem do beijo sob a chuva e das estátuas tumulares espelha a ideia de que a verdadeira beleza e a descoberta do "eu" surgem no limiar entre a vida e a morte, no abraço ao efémero e na capacidade de transformar a dor e a solidão numa experiência estética sublime - provando que a escuridão na música pode ser um refúgio de profunda sensibilidade e beleza.

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Cast of Lions - Sticks and Stones


Cast of Lions: O Retrato de uma Infância Inocente no Coração do Indie Rock
Lançada em 2013 no único álbum de estúdio da banda, Eyes Wide to New Places, a canção “Sticks & Stones” do grupo britânico Cast of Lions assume-se como uma autêntica ode à infância e à redescoberta da inocência. Formada em Londres, a banda nasceu como um projeto paralelo de vida curta que reuniu músicos com percurso firmado no cenário alternativo do Reino Unido, nomeadamente Stefan Abingdon (dos The Midnight Beast) e elementos da prestigiada formação de synth-punk Hadouken!. Musicalmente, o projeto move-se entre o indie rock, o indie pop e o pop-punk alternativo, combinando guitarras enérgicas, arranjos rítmicos marcantes e melodias de grande impacto imediato.

A letra de “Sticks & Stones” contrasta de forma percetível a nostalgia dos jogos infantis com as marcas do envelhecimento e o peso da vida adulta. Ao evocar imagens de crianças a correr com paus, pedras e "armas" desenhadas com as mãos, a canção explora a forma como a infância encara o mundo: com fascínio, pureza e sem o cinismo inerente à maturidade. A composição subverte propositadamente o célebre provérbio da tradição oral anglófona - "Sticks and stones may break my bones, but words will never hurt me", despojando-o da sua carga moral para o devolver ao seu sentido físico e lúdico. Na narrativa da canção, os arranhões e ossos partidos da infância são feridas superficiais que saram rapidamente, em claro contraste com as dores invisíveis e a carga emocional simbolizadas pelas rugas da vida adulta.
Versão acústica
Sob o ponto de vista filosófico e literário, o conceito da canção e do próprio álbum ressoa profundamente com o olhar puro e desarmado sobre a realidade. Esta perspetiva evoca o pensamento do Iluminismo e do Romantismo - desde o "estado de natureza" e a pureza original defendidos por Jean-Jacques Rousseau até à celebração da imaginação infantil nas obras poéticas de William Blake e William Wordsworth. A infância surge aqui como um estado primordial de verdade e liberdade, no qual o olhar do indivíduo permanece amplo (eyes wide) e capaz de se deslumbrar com o quotidiano, antes que as convenções sociais e a ansiedade existencial imponham as suas barreiras.

A existência do Cast of Lions esteve intrinsecamente ligada à ética da cultura DIY (Do It Yourself ou "Faça Você Mesmo"). Como reflexo deste movimento que tem as suas raízes no punk dos anos 1970, o grupo optou por não depender das grandes editoras multinacionais, criando o seu próprio selo (Cast of Lions Records) para lançar a sua música com total autonomia artística. Após a edição do álbum em agosto de 2013 e a promoção de alguns videoclipes, o projeto cumpriu o seu propósito pontual. Os seus elementos regressaram aos seus caminhos originais e a novos desafios: Stefan Abingdon prosseguiu o seu trabalho no audiovisual e na comédia musical, enquanto os restantes membros migraram progressivamente para a produção em estúdio, engenharia de som e composição para outros artistas. A banda deixou, assim, um registo temporal único e apreciado pelos entusiastas do indie alternativo da década de 2010.

Transição energética em Portugal pode impedir 34.000 mortes prematuras e poupar 8,5 mil milhões de euros

O estudo, da coligação “Plan4Climate” (um projeto europeu de ambiente) e da Rede de Ação Climática Europa (CAN Europe, maior rede de organizações não governamentais de ambiente), quantifica “os benefícios da ação climática que costumam faltar nos debates centrados no custo da transição”.

A transição energética na Europa pode salvar 34.000 vidas e gerar 826 mil milhões de euros por ano até 2030, 8,5 mil milhões só em Portugal, indica um estudo divulgado hoje.

Segundo o documento, com medidas de poupança de energia, os 826 mil milhões de euros até 2030 podem subir para quase dois biliões de euros anuais até 2050.

O estudo, da coligação “Plan4Climate” (um projeto europeu de ambiente) e da Rede de Ação Climática Europa (CAN Europe, maior rede de organizações não governamentais de ambiente), quantifica “os benefícios da ação climática que costumam faltar nos debates centrados no custo da transição”.

Menor despesa com energia, novos empregos, melhor saúde, menos dias de trabalho perdidos por doença e danos climáticos globais evitados são os benefícios, referidos num comunicado sobre o estudo e hoje divulgado pela associação ambientalista Zero, que faz parte das entidades responsáveis pelo relatório.

Segundo o documento, as medidas de poupança de energia podem trazer à Europa, até 2030, mais de 8,5 milhões de empregos a tempo integral, incluindo cerca de 6,5 milhões na construção e na renovação de edifícios.

E além de se impedirem 34.000 mortes prematuras, também são evitados cerca de 8.000 internamentos hospitalares em cada ano e 3,3 milhões de dias de baixa por doença, graças à redução da poluição atmosférica.

A análise, de mais de 60 páginas, inclui resultados por país, apontando que os 8,5 mil milhões que Portugal pode gerar em cobenefícios (impactos positivos adicionais que resultam de uma intervenção, além do benefício principal) até 2030 é um valor que equivale a 2,45% do PIB de 2025.

“Até 2050, os cobenefícios podem chegar a 28,6 mil milhões de euros anuais, ou seja, 8,25% da riqueza produzida em todo o ano passado”, diz-se no comunicado da Zero.

Citando o relatório, a associação destaca que o principal argumento para Portugal acelerar a transição energética é a redução do preço da energia, podendo a diminuição dos custos com energia atingir os 280 euros por pessoa em 2030 e 1.069 euros por pessoa em 2050.

“Isto torna a ação climática diretamente relevante para as famílias e para o combate à pobreza energética. A estes ganhos somam-se os danos climáticos globais evitados, estimados em 279 euros por pessoa em 2030 e 1.282 euros por pessoa em 2050”, acrescenta.

Aplicado a Portugal, o estudo indica outros benefícios da transição, explicando que até 2030 as medidas de poupança de energia podem evitar 678 mortes prematuras por ano, e pode evitar-se ainda a perda de cerca de 66 mil dias de trabalho por doença.

A Zero diz que o Orçamento do Estado de 2027, apresentado na semana passada, deverá ser melhorado nas próximas semanas, incorporando medidas com financiamento e metas quantificadas que acelerem uma transição energética justa no transporte pesado de mercadorias e de passageiros, na indústria e nos edifícios.

O relatório lembra que a dependência continuada dos combustíveis fósseis também tem custos elevados. Em 2025, diz, a União Europeia gastou cerca de 340 mil milhões de euros em importações de combustíveis fósseis, enquanto o défice de investimento climático foi de 344 mil milhões de euros.

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

The Chameleons- Nathan's Phase

As Máscaras da Existência: A Alienação Urbana e o Lirismo Existencial em "Nathan's Phase" dos The Chameleons
Lançada originalmente na compilação The Fan and the Bellows (1986) e mais tarde desnudada numa versão íntima no álbum Strip (2000), "Nathan's Phase" ocupa um lugar singular no percurso dos The Chameleons. Longe das camadas etéreas e das guitarras mergulhadas em reverb que definiram o som atmosférico da banda de Manchester, esta faixa entrega uma energia crua, urgente e visceral. Movida por uma secção rítmica pulsante e guitarras cortantes, a música prescinde de videoclipes elaborados ou produções vistosas para se impor como uma das expressões mais genuínas do pós-punk e do gothic rock dos anos 80, sustentada pela força de uma narrativa de puro desgaste psicológico.

No centro da composição não está uma figura histórica, mas sim "Nathan", uma metáfora viva do indivíduo em colapso interior. A letra acompanha o peso sufocante de alternar entre diferentes papéis e aparências no dia a dia, registando o momento em que as dissimulações sociais ruem e deixam exposta uma vulnerabilidade inevitável. Esta viagem pela perda de identidade ressoa hoje com um impacto espantoso. Numa época em que a vida pública é moldada pelas aparências em rede e pelo esforço contínuo de sustentar personas perfeitas, a paralisia, a ansiedade e o esgotamento vividos por Nathan traduzem, com assustadora precisão, o isolamento e o burnout da vida contemporânea.

Versão acústica

Essa sensibilidade lírica ganha profundidade ao conectar-se com uma tradição poética e filosófica muito própria. Embora o vocalista Mark Burgess sempre tenha escrito a partir das suas vivências diretas na Inglaterra industrial, o seu texto respira o espírito do Romantismo britânico. Através daquilo a que John Ruskin chamou de "falácia patética", a paisagem cinzenta, fria e claustrofóbica de Manchester deixa de ser um mero pano de fundo para se transformar na própria extensão do estado de alma da personagem, numa ressonância direta com a poesia de William Wordsworth e Samuel Taylor Coleridge. Há também um desencanto puramente moderno nessa atmosfera, que lembra as cidades desoladas e fragmentadas de T.S. Eliot em "The Waste Land" e a melancolia quotidiana de poetas como Thomas Hardy ou Philip Larkin.

Música presente no EP-Tomorrow Remember Yesterday (2024)
Nas entrelinhas desse retrato urbano, sobressai ainda uma forte dimensão existencial. A tensão constante entre aquilo que guardamos no íntimo e as máscaras que vestimos para o mundo dialoga com a filosofia de Jean-Paul Sartre e a sua reflexão sobre a inautenticidade das convenções sociais. Ao mesmo tempo, a sensação de deslocamento e sufoco perante a realidade aproxima a figura de Nathan do universo absurdo e claustrofóbico de Franz Kafka. No final, "Nathan's Phase" ultrapassa as fronteiras da sua época: é um retrato cru da solidão humana, um espelho da fragilidade da identidade e um dos momentos mais honestos da música britânica da sua era.

A Maioria Frágil e o Regresso ao Quotidiano: Uma Análise da Direita e a Reinvenção da Esquerda


A Direita vive, em grande medida, do espetáculo, da arena e da lógica de reality show - e isso não é bom nem sério numa democracia.
Embora Pedro Passos Coelho e André Ventura convirjam em temas como a segurança, o controlo da imigração e a revisão constitucional, a concretização de um Governo conjunto revelar-se-ia inviável. As propostas populistas de Ventura — como o aumento generalizado de pensões e salários sem sustentabilidade financeira — colidem frontalmente com a inflexibilidade e o rigor orçamental que definem a matriz de Passos Coelho. Uma eventual coligação resultaria no esvaziamento do Chega ou numa instabilidade governativa permanente. A grande diferença entre ambos reside na motivação: enquanto Passos atua por convicção reformista e aceita pagar o preço político de decisões impopulares, Ventura adota uma postura oportunista em que as convicções são moldadas em função da conquista do poder.

A esta fratura somam-se as visões contrastantes do restante espectro à direita. Luís Montenegro insiste na autonomia do PSD e no cumprimento do "não é não" ao Chega, preferindo acordos pontuais para governar. Por outro lado, Nuno Melo, à frente do CDS-PP, atua como o garante institucional e moderador da Aliança Democrática, enquanto a Iniciativa Liberal, sob a liderança de Mariana Leitão, recusa converter-se num apêndice do PSD ou num aliado do populismo estatista do Chega, focando-se em reformas liberais profundas na economia e na fiscalidade.

O resultado é um paradoxo estrutural: o conjunto da Direita (PSD, Chega, IL e CDS) detém uma maioria sociológica e eleitoral indiscutível na sociedade portuguesa, dominando a agenda temática, mas encontra-se profundamente fragmentada e incapaz de traduzir esse peso numa solução de governação estável. Ambos os caminhos radicais se revelam nefastos: alimentam discursos fraturantes, desvalorizam as alterações climáticas e promovem uma visão regressiva da sociedade. O verdadeiro risco para a democracia provém, precisamente, do crescimento destas narrativas extremistas que minam a confiança nas instituições.

Do ruído político à reinvenção da Esquerda
A crise da Esquerda contemporânea prende-se, em grande parte, com o facto de se ter focado em debates identitários e de superioridade moral, descurando o núcleo tradicional da sua ação política: a economia, os salários, a habitação e a defesa dos serviços públicos. Para se reconstruir e sair deste impasse, o caminho passa por adotar uma estratégia assente no materialismo e no quotidiano, abandonando o discurso puramente académico para responder diretamente às dores reais da classe trabalhadora, como o custo de vida, a precariedade laboral e o acesso à saúde.

Em vez de se limitar a reagir ou a indignar-se com as narrativas da Direita e da Extrema-Direita, a Esquerda precisa de ditar a agenda com soluções estruturais, utilizando uma linguagem universal e acessível. Ao substituir o jargão sociológico por uma comunicação clara e inclusiva, torna-se possível reconstruir pontes com o eleitorado popular, reaproximando a ação política das periferias e dos centros urbanos empobrecidos onde historicamente tinha força.

Esta mudança de postura é fundamental para enfrentar as grandes transformações do século XXI, começando pela transição ecológica. Em vez de ser apresentada como um conjunto de restrições ou impostos penalizadores para os mais pobres, a agenda verde deve ser uma alavanca de justiça social, focada no investimento público em transportes coletivos de qualidade, no isolamento térmico das habitações e na criação de emprego verde com direitos laborais.

Da mesma forma, a resposta à aceleração da Inteligência Artificial (IA) não pode passar pela tecnofobia ou pela resignação mercantilista, mas sim pela garantia de que os ganhos de produtividade gerados pela automação servem para financiar o Estado Social, reduzir o horário de trabalho sem perda de rendimento e requalificar os trabalhadores afetados.

Finalmente, para lidar com o sobreturismo que devasta as cidades, a Esquerda deve resgatar o direito à habitação e ao espaço público, regulando de forma estrita o alojamento local, impondo tetos às rendas e protegendo o comércio tradicional. Só ao integrar estes desafios modernos numa matriz económica focada na melhoria real da vida quotidiana das pessoas é que a Esquerda conseguirá apresentar uma alternativa sólida e mobilizadora.

Tecnofascismo e carbofascismo: as novas formas de dominação do poder contemporâneo e o fim da política tradicional


Resumo
A reconfiguração geopolítica e sociotécnica do século XXI impõe a necessidade de ultrapassar as molduras teóricas herdadas da modernidade. Este ensaio desenvolve uma análise crítica sobre como a intersecção entre o tecnofascismo e o carbofascismo constitui a arquitetura de poder dominante do nosso tempo. Argumenta-se que, enquanto o tecnofascismo rege a subjetividade humana através de ecossistemas algorítmicos e do capitalismo de vigilância, o carbofascismo assegura a reprodução material do capital fóssil e a inércia sistémica perante a catástrofe ecológica. Perante esta aliança estrutural, o espetro político convencional (Esquerda e Direita institucionais) revela-se incapaz de resposta, resultando numa anestesia política generalizada.

1. Introdução: O Diagnóstico do Poder Contemporâneo
A teoria política clássica acostumou-se a definir o poder através da coerção estatal exercida dentro de fronteiras soberanas, medida pelo monopólio da violência legítima (Weber) ou pelas instituições disciplinares (Foucault). Contudo, o cenário contemporâneo apresenta um deslocamento fundamental: o exercício do controlo transicionou para mecanismos de modulação comportamental invisível e para a preservação forçada da infraestrutura energética de combustíveis fósseis.
A tese central deste ensaio assenta na premissa de que o poder atual é estruturado por dois eixos complementares:
1. O eixo imaterial/algorítmico (Tecnofascismo), que captura a atenção, atomiza a sociedade e modula o comportamento do cidadão;
2. O eixo material/extrativista (Carbofascismo), que impõe a continuidade do modelo fóssil, sacrificando a estabilidade ecomaterial do planeta em prol da acumulação de capital.

A convergência destas forças gera um nó cego institucional, no qual as vias tradicionais de representação política e reivindicação social se tornam obsoletas e inoperantes.

2. O Tecnofascismo e a Modulação Digital do Comportamento
O conceito de tecnofascismo descreve a consolidação do poder de corporações multinacionais de tecnologia (Big Tech) que operam além da soberania dos Estados e redefinem a esfera pública. Esta forma de dominação não necessita do terror físico tradicional dos regimes autoritários do século XX; em vez disso, atua por via da submissão voluntária e do condicionamento psíquico.

2.1. O Capitalismo de Vigilância e a Ilusão de Autonomia
Como analisa Shoshana Zuboff em The Age of Surveillance Capitalism (2019), o capitalismo digital opera através da apropriação unilateral da experiência humana privada, convertida em "excedente comportamental" (behavioral surplus). Este excedente é alimentado a sistemas de inteligência artificial desenhados para prever e modificar ações futuras.
Nesta arquitetura:
  • A coerção estatal é substituída pela psicopolítica digital (Han, 2014), em que o utilizador é constantemente induzido à auto-exposição e ao consumo atencional;
  • A arquitetura das redes sociais e das bolhas de ressonância (echo chambers) incentiva a polarização dirigida, transformando conflitos sociais estruturais em "guerras culturais" online estéreis;
  • A energia coletiva e a capacidade de organização no mundo físico degradam-se à medida que a atenção é atomizada e desprovida de eficácia política real.
2.2. A Substituição da Esfera Pública pelo Algoritmo
O filósofo e sociólogo Evgeny Morozov alerta para o perigo do "solucionismo tecnológico" — a ideia de que todos os problemas complexos da sociedade podem ser resolvidos por algoritmos e otimização de dados. O tecnofascismo manifesta-se precisamente quando a mediação algorítmica substitui o debate deliberativo democrático. O cidadão deixa de ser um sujeito político ativo para se tornar um ponto de extração de dados e um recetador passivo de estímulos otimizados para maximizar o engagement.

2.3. A Monetização da Intolerância (Bigotry) como Mecanismo de Dispersão 
A eficácia do tecnofascismo reside na capacidade de rentabilizar e amplificar a intolerância e o preconceito (bigotry). Dado que as arquiteturas algorítmicas priorizam métricas de reação emocional imediata, o discurso de ódio e a menorização do "outro" tornam-se mercadorias de alta rentabilidade. Esta dinâmica converte fraturas sociais profundas em mero espetáculo reativo, garantindo que o ressentimento popular seja drenado contra minorias vulneráveis em vez de se dirigir à infraestrutura material do capital fóssil e corporativo.

3. O Carbofascismo e o Imperativo do Capital Fóssil
Se o tecnofascismo domina a dimensão psíquica e informativa, o carbofascismo comanda a infraestrutura material da sobrevivência humana. O termo descreve a aliança coerciva e institucional entre o setor dos combustíveis fósseis, o capital financeiro e as elites políticas governamentais para manter a hegemonia do carbono a todo o custo.

3.1. A Dinâmica do Capital Fóssil
Na obra Fossil Capital (2016), o ecologista político Andreas Malm demonstra que o capitalismo histórico não se aliou às energias fósseis simplesmente por escassez de alternativas, mas pela capacidade que o carvão e o petróleo proporcionavam para disciplinar a força de trabalho e centralizar o poder de produção.

Atualmente, o carbofascismo manifesta-se no bloqueio sistemático da transição energética necessária:
  • Inércia sistémica: apesar de relatórios científicos conclusivos - como os do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) , a infraestrutura fóssil continua a receber subsídios massivos e investimentos estatais.
  • Violência extrativista: a degradação ambiental e as desigualdades do Sul Global são tratadas pelas elites financeiras como externalidades negativas e custos colaterais inevitáveis em nome da estabilidade dos mercados.
  • Autoritarismo fóssil: o recrudescimento da repressão policial e jurídica contra movimentos de justiça climática e ativistas ambientais sinaliza o endurecimento dos Estados para proteger os ativos energéticos corporativos.
4. A Obsolecência da Geometria Política Tradicional: Esquerda e Direita Institucionais
Um dos pontos centrais da análise reside na constatação de que as categorias políticas tradicionais perdem utilidade concetual e prática no contexto atual.

4.1. Limitações da Esquerda e Direita Institucionais
Tanto o centro-esquerda como a direita liberal ou conservadora continuam a operar dentro do paradigma do crescimento económico infinito e da gestão do Estado-Nação do século XIX:
  • A Direita Tradicional atua como facilitadora das exigências do capital financeiro e tecnológico, promovendo a desregulamentação do mercado de dados e da indústria extrativa.
  • A Esquerda Institucional, ao focar a sua ação na redistribuição marginal do rendimento sem questionar as matrizes tecno-energéticas do poder, limita-se a gerir os sintomas do sistema sem confrontar as suas causas estruturais.
4.2. A Incompetência perante o Poder Transnacional
Tanto o complexo Big Tech como o Big Oil funcionam através de redes transnacionais imunes à legislação dos Estados singulares. A representação partidária tradicional promete soberania popular através do voto, mas defronta-se com corporações que determinam os preços da energia, controlam os fluxos de informação e contornam a fiscalidade nacional. O ato eleitoral torna-se, assim, um ritual de legitimação impotente perante lógicas que não respondem ao sufrágio universal.

5. Anestesia Política, Paralisia Social e a Ineficácia das Formas de Luta Clássicas
A convergência do bloqueio ambientalista e da alienação digital resulta num estado de exaustão psíquica e paralisia coletiva.

5.1. A Carga Cognitiva e a Ecoansiedade
O fluxo contínuo de informação catastrófica sobre as crises globais - desde o colapso climático ao avanço desregulado da inteligência artificial - sobrecarrega o sistema nervoso dos indivíduos. Estudos na área da psicologia social e relatórios ambientais indicam que o excesso de alarmismo sem canais eficazes de transformação gera:
  • Ceticismo e cinismo: a perceção de que os problemas são gigantescos conduz à resignação;
  • Burnout político: a energia ativista é gasta em campanhas e petições digitais que pouca incidência têm na estrutura de poder;
  • Ecoansiedade e desespero: a sensação de colapso eminente desmobiliza a ação e incentiva o rali de sobrevivência individual.
5.2. A Perda de Eficácia das Formas de Reivindicação Tradicionais
Historicamente, as grandes conquistas sociais foram obtidas por via da greve, da manifestação de rua, da organização sindical e do debate partidário. Hoje, contudo, observa-se uma desarticulação destas ferramentas:
  • Manifestações de rua: são neutralizadas ou assimiladas enquanto "espetáculo digital", convertidas em conteúdo para redes sociais que gera métricas para as próprias plataformas que se pretende criticar.
  • Sindicatos: foram enfraquecidos pela precarização do trabalho e pela dispersão geográfica impostas pela economia de plataformas (gig economy).
  • Partidos políticos: encontram-se reduzidos a máquinas de marketing eleitoral dependentes dos algoritmos das plataformas digitais para comunicar com o seu eleitorado.
6. Conclusão: Horizontes para Além da Anestesia
O diagnóstico formulado demonstra que o tecnofascismo e o carbofascismo não são desvios temporários, mas a forma consolidada do capitalismo tardio. Eles sustentam-se mutuamente: os ecossistemas digitais dispersam e anestesiam a resistência social necessária para interromper a trajetória de devastação ecológica imposta pelo capital fóssil.

Superar este estado de paralisação exige um reconhecimento claro da falência dos métodos de reforma gradualista. A construção de alternativas políticas eficazes para o século XXI exigirá:
  1. Soberania digital crítica: A criação de redes, infraestruturas de informação e ferramentas algorítmicas de código aberto e propriedade comunitária, desvinculadas das dinâmicas do capitalismo de vigilância;
  2. Ação direta e desobediência civil energética: A transição de um ativismo focado na consciencialização para estratégias de interrupção direta da infraestrutura de reprodução do capital fóssil, tal como preconizado por correntes da ecologia política radical;
  3. Reconfiguração das formas de organização: O abandono da dependência exclusiva das instituições representativas tradicionais em favor de novas formas de poder popular local, regional e transnacional.
Apenas ao confrontar simultaneamente a infraestrutura do carbono e a mediação algorítmica da atenção será possível resgatar a política da sua anestesia atual e devolver ao corpo social a capacidade de autodeterminação.

Shoshana Zuboff explica o Conceito de Capitalismo de Vigilância
Este vídeo é relevante para o ensaio pois conta com a reflexão direta da Professora Shoshana Zuboff sobre como as grandes empresas tecnológicas capturam a experiência humana e alteram comportamentos sociais e políticos.

Referências Bibliográficas
  1. Arora, Arush (2025). Social Media-Driven Polarisation in the United States:Mechanisms, Policy Gaps, and Recommendations
  2. Han, Byung-Chul (2014). Psychopolitics: Neoliberalism and New Technologies of Power. London: Verso.
  3. IPCC (2022). Climate Change 2022: Impacts, Adaptation and Vulnerability. Contribution of Working Group II to the Sixth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change. Cambridge: Cambridge University Press.
  4. IPCC (2023). Climate Change 2023: Synthesis Report. Contribution of Working Groups I, II and III to the Seventh Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change [Core Writing Team, H. Lee and J. Romero (eds.)]. Geneva: IPCC.
  5. Malm, Andreas (2016). Fossil Capital: The Rise of Steam Power and the Roots of Global Warming. London: Verso.
  6. Malm, Andreas (2021). How to Blow Up a Pipeline: Learning to Fight in a World on Fire. London: Verso.
  7. Morozov, Evgeny (2013). To Save Everything, Click Here: The Folly of Technological Solutionism. New York: PublicAffairs.
  8. Zuboff, Shoshana (2019). The Age of Surveillance Capitalism: The Fight for a Human Future at the New Frontier of Power. New York: PublicAffairs.



domingo, 11 de outubro de 2026

Rap, Grunge e Techno: as novas tribos da contracultura dos anos 90, consolidando o legado punk e pós-punk dos anos 80

Como recordei anteriormente, o movimento punk e o pós-punk dos anos 80 moldaram-nos não apenas o gosto musical, mas a própria coluna vertebral e a ética de vida. O underground dessa altura era, na sua essência, um espaço de total liberdade e inclusão radical: não éramos homofóbicos, racistas, gordofóbicos, idadistas ou transfóbicos. Rejeitávamos qualquer preconceito, discriminação ou moralismo tacanho. A margem era o nosso refúgio de igualdade, onde a diferença de cada um era acolhida sem rótulos ou julgamentos.

Com a chegada dos anos 90, essa matriz de liberdade desdobrou-se em novas tribos. Fala-se frequentemente do rap, do grunge e do techno como "movimentos de subversão cultural" dos anos 90 em Portugal. No entanto, mais do que ruturas absolutas, muitos destes fenómenos herdaram ou diluíram o espírito de resistência que o punk e o pós-punk já tinham conquistado nos anos 80. Ainda assim, ao redefinirem a música, a estética e os pontos de encontro da juventude, acabaram por moldar a forma como se vivia à margem no Portugal dessa década.

Ao contrário do rock tradicional, o rap português não nasceu nos clubes do centro da cidade, mas sim na periferia e nos bairros sociais da Grande Lisboa, da Margem Sul (como São João da Talha, Cova da Moura, Chelas ou Miratejo) e do Porto. O movimento começou a ganhar corpo no final dos anos 80 através dos B-Boys e do breakdance em pontos de encontro como o Areeiro ou as Amoreiras, atingindo dimensão nacional em 1994 com a histórica compilação Rapública, onde sobressaiu o icónico «Não Sabe Joaquina» dos Black Company. Enquanto as subculturas anteriores expressavam a sua angústia através da poética e do niilismo, o hip-hop trouxe o realismo cru, dando voz à denúncia do racismo institucional, do desemprego, da discriminação policial e das vivências da periferia através de nomes como General D, Boss AC, Da Weasel, Mind Da Gap, Dealema ou Chullage. A sua estética era vincadamente pragmática e Do It Yourself: sem acesso a marcas americanas, usavam-se calças e camisolas de fato de treino vários tamanhos acima (oversized), casacos desportivos, ténis clássicos como os Adidas Superstars ou Nike Air Max, bonés virados e hoodies largos, enquanto o grafiti cobria os muros e os comboios suburbanos.

Em simultâneo, o grunge (cujos adeptos eram frequentemente apelidados de gungas na gíria jovem portuguesa) conquistou a juventude através do impacto do rock alternativo vindo de Seattle, com bandas como Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden ou Alice in Chains. A estética gunga representou uma rejeição direta ao consumo ostensivo e ao estilo "engomado" do mainstream, traduzindo-se num desleixo calculado e numa postura melancólica de desassossego. O uniforme de rua era inconfundível: camisas de flanela xadrez desgastadas e abertas sobre t-shirts de bandas, calças de ganga rotas ou desfiadas, casacos de malha cardada oversized, gorros de lã descatados e calçado como os ténis Converse All Star velhos ou botas estilo Doc Martens. Ser gunga significava adotar uma atitude antirótulos e anti-sistema, habitando os pontos de encontro ao ar livre, escadarias da cidade, concertos de garagem e os festivais de Verão emergentes.

Por sua vez, o techno afirmou-se como uma força contracultural igualmente poderosa, mas articulada de forma oposta aos discursos verbais do rap ou do grunge. Se estes lutavam através da palavra e da denúncia explícita, o techno afirmava-se pela abolição do discurso, pela despersonalização e pela libertação do corpo na dança. A cultura acid house e as free parties rejeitavam o circuito comercial dos clubes com seguranças e consumos mínimos, deslocando a festa para armazéns devolutos, pedreiras, herdades e praias isoladas - verdadeiras Zonas Autónomas Temporárias. Nas raves, a atenção deixava de estar num palco ou num culto de personalidade: o DJ tocava frequentemente na penumbra e a pista não tinha orientação fixa, promovendo a dissolução do ego e a igualdade absoluta. A batida hipnótica contínua (4/4) e os eventos que se prolongavam até ao meio do dia seguinte eram um ato de resistência contra a rotina de trabalho e a moral tradicional. A estética raver rompeu por completo com o visual escuro dos anos 80, priorizando o conforto e a liberdade de movimento com tons néon e fluorescentes, tecidos sintéticos, calças baggy e cargo e uma panóplia de acessórios funcionais: pequenas bolsas de cintura, óculos de sol futuristas usados no escuro, apitos, chupetas, chapéus bucket para o sol da manhã e, acima de tudo, a garrafa de água e os ténis de sola grossa (como as lendárias Buffalo), desenhados para suportar maratonas de impacto no betão.

O desafio da Educação Ambiental na era digital: como desconstruir a bolha virtual e os seus epifenómenos


O meu profundo conhecimento das subculturas juvenis dos anos 80 e 90 - como os góticos, punks e metaleiros - foi fundamental para a minha caminhada. Eram movimentos que se destacavam por ser abertamente antirracistas e livres de homofobia, transfobia, idadismo ou gordofobia. Já na viragem para a década de 90, acompanhei de perto as dificuldades da terceira geração de imigrantes dos países lusófonos, marcada pelo preconceito, pela falta de mobilidade social e pela marginalização.

Hoje, com 40 anos de atividade enquanto Educador Ambiental, continuo a priorizar o contacto direto no terreno com as dúvidas, inquietações e dinâmicas dos jovens, onde a realidade do nosso tempo se espelha de forma genuína. No entanto, confesso que na era digital este trabalho é significativamente mais desgastante. Enfrentamos uma juventude visivelmente mais conservadora, o crescimento da machosfera, a atração por líderes autoritários e a manifestação aberta do racismo, da desigualdade social e do discurso de ódio. Reconhecer e intervir nestas contradições é crucial para combater a masculinidade tóxica, desconstruir preconceitos e transformar a mercantilização das mentes em cidadania ativa.

O meu compromisso passa por desenvolver uma pedagogia viva assente na Carta da Terra, nos tratados internacionais de conservação da Natureza e nos Direitos Humanos. Através de visitas de estudo, ciência cidadã e vivências transformadoras, ligamos a justiça socioambiental ao respeito pela diversidade, criando um espaço seguro onde as angústias da juventude possam ser canalizadas para um rumo eco-pacifista e uma esperança regeneradora.

É precisamente por isso que considero fundamental a leitura da obra "Carta à Terra – e a Terra responde", da economista e ativista francesa Geneviève Azam. Lançado originalmente em 2019 e editado em plena pandemia, este livro já alertava para os perigos do solucionismo tecnológico e para a aceleração de uma era digital que nos afasta do mundo sensível, com graves consequências na degradação das relações humanas e ambientais.

Azam desenvolve uma crítica severa ao capitalismo verde e à ilusão tecnocrática de que a crise ecológica se resolve com meras leis de mercado. Rejeitando a ideia de uma Natureza passiva ou inerte, a autora apresenta o planeta como um organismo vivo e rebelde que reage às agressões humanas através de catástrofes climáticas e colapsos ecológicos. Num apelo premente à resistência política, à sensibilidade e à desobediência civil, a obra propõe um novo modo de habitar o mundo.

Esta edição  fica ainda mais enriquecida com o prefácio do líder e pensador indígena brasileiro Ailton Krenak, que constrói uma ponte entre o pensamento crítico de Azam e a cosmovisão ancestral dos povos originários. Krenak denuncia o erro da sociedade ocidental moderna de se descolar do corpo da Terra para criar a ilusão de um domínio ilimitado. Ridicularizando a obsessão tecnocrática de colonizar outros planetas enquanto destruímos a nossa própria casa, Krenak relembra-nos que o amanhã não está à venda e que a nossa sobrevivência depende de recuperar a escuta, o afeto e a comunhão com o território.

Esta obra torna-se, assim, uma leitura urgente para quem trabalha com as novas gerações. Ela valida e fundamenta a necessidade de retirar os jovens da bolha digital, reconectando-os sensorialmente com a Natureza e capacitando-os para transformar a crise contemporânea numa cidadania empática, ativa e regeneradora.

No seu pequeno-almoço, comeu um pão de alfarroba? A história do superalimento português votado ao esquecimento

No seu pequeno-almoço de hoje, comeu um pão de alfarroba? Se a resposta foi afirmativa, pertence a um número diminuto - e não crescente - de portugueses que consome e valoriza esta iguaria. A grande ironia é que, enquanto esse pão é comercializado quase como um produto de nicho ou exclusivo, toneladas do mesmo fruto apodrecem pelos campos do nosso país por falta de valorização no mercado nacional.

Quem percorre o barrocal algarvio ou as paisagens secas do Alentejo está habituado à silhueta imponente da alfarrobeira (Ceratonia siliqua). Durante séculos, a alfarroba fez parte do quotidiano rural do Sul de Portugal. Fruto escuro, rijo e de aroma adocicado, foi durante muito tempo visto como uma cultura de subsistência - alimento para os animais de tração, recurso em tempos de escassez e uma modesta fonte de rendimento complementar para as famílias agrícolas.

Contudo, nas últimas décadas, a perceção sobre este fruto sofreu uma transformação radical. A alfarroba passou de "comida de animais" a "ouro negro da agricultura portuguesa". O seu preço por quilo atingiu máximos históricos e a expetativa em redor desta cultura parecia ilimitada. Hoje, porém, assistimos ao colapso dessa ilusão. O mercado ruiu, o preço pago ao produtor desabou e toneladas de alfarroba ficam a apodrecer debaixo das árvores ou acabam utilizadas como simples estrume. Como é que um fruto com um valor nutricional excecional e um potencial económico gigante foi, em tão pouco tempo, votado ao quase esquecimento?

Sob o ponto de vista nutricional, a alfarroba é uma verdadeira preciosidade vegetal e apresenta-se como a alternativa ecológica perfeita ao cacau. A polpa da alfarroba contém entre 40% a 50% de açúcares naturais (frutose, glicose e sacarose), o que permite a sua utilização na doçaria e na panificação sem a necessidade de adicionar açúcares refinados em excesso. Ao contrário do cacau, não contém teobromina nem cafeína, sendo uma opção ideal para crianças, grávidas ou pessoas sensíveis a estimulantes. Além disso, é uma fonte extraordinária de fibra solúvel e insolúvel, auxilia na regulação intestinal e contém elevados níveis de polifenóis antioxidantes, apresentando simultaneamente um teor de gordura naturalmente muito baixo. A juntar a isto, a pegada ecológica da alfarrobeira é incomparavelmente menor que a do cacaueiro, tratando-se de uma árvore extremamente resistente à seca e perfeitamente adaptada ao clima mediterrânico.

Para compreender o colapso do mercado, é preciso desmistificar o valor económico da alfarroba. A grande tragédia deste fruto reside no facto de a indústria nunca ter estado verdadeiramente interessada na sua deliciosa polpa - que representa cerca de 85% a 90% do peso do fruto -, mas sim no seu caroço. As sementes representam apenas uma pequena fração do peso total, mas é delas que se extrai a goma de alfarroba, identificada na indústria alimentar com o código de aditivo E-410. Este ingrediente é um dos espessantes, emulsionantes e estabilizadores naturais mais valiosos do mundo, estando presente numa infinidade de produtos como gelados, molhos, iogurtes, comida para bebés, produtos farmacêuticos e cosméticos. Aqui instala-se a grande ironia: enquanto as multinacionais disputavam o caroço a peso de ouro para garantir o E-410, toneladas de polpa rica em nutrientes ficavam sem destino comercial claro, sendo desvalorizadas ou simplesmente desperdiçadas.

O auge desta instabilidade socioeconómica registou-se no contexto da pandemia de COVID-19. A crise sanitária internacional provocou ruturas graves nas cadeias globais de abastecimento e na logística marítima, levando a indústria agroalimentar a procurar assegurar agressivamente stocks de aditivos e estabilizadores cruciais. Esta escassez conjuntural gerou um pico especulativo no mercado da alfarroba em Portugal, onde o valor pago ao produtor atingiu patamares históricos - superando, em determinados momentos, os 2,50€ a 3,00€ por quilo -, o que motivou corridas à apanha e uma expetativa irrealista sobre a rentabilidade futura do setor.

Contudo, tratou-se de um fenómeno puramente conjuntural e desprovido de sustentabilidade estrutural. Com a normalização das rotas comerciais pós-pandemia, a pressão sobre os stocks de matérias-primas cedeu e a procura industrial regressou a níveis padronizados. Pressionada pelos custos elevados do aditivo E-410 durante a fase de escassez, a própria indústria alimentar reformulou vários dos seus produtos, substituindo a goma de alfarroba por alternativas sintéticas ou hidrocoloides mais económicos, como a goma de guar, a xantana ou amidos modificados. Sem a procura inflacionada pelo E-410, a cotação da alfarroba entrou em queda livre e a margem paga ao produtor desceu para patamares que inviabilizam financeiramente o custo da mão de obra necessária para a apanha manual.

Hoje, a realidade no campo é desalentadora. Em muitas explorações agrícolas do Sul do país, os agricultores optam por nem sequer colher o fruto. A alfarroba fica a apodrecer no chão ou é triturada para servir de fertilizante e estrume para o solo. É o fecho de um ciclo doloroso: um superalimento de valor inestimável reduzido a composto orgânico por incapacidade de valorização do mercado nacional. A história da alfarroba em Portugal é o reflexo de um modelo agrícola e industrial cego ao valor real dos seus recursos. Enquanto continuarmos a olhar para a alfarroba apenas como um fornecedor de aditivos químicos para a indústria transformadora estrangeira, ficaremos sempre reféns das oscilações dos mercados internacionais.

O futuro da alfarroba passa, inevitavelmente, pelo investimento na valorização da polpa: na criação de farinhas de alta qualidade, no desenvolvimento da panificação e doçaria saudável, na indústria de bebidas e na afirmação da alfarroba como uma alternativa ecológica e ética ao cacau. Até lá, continuaremos a assistir ao triste espetáculo de ver o nosso "ouro negro" a decompor-se na terra, à espera que a indústria se lembre, uma vez mais, de como ele é valioso.

sábado, 10 de outubro de 2026

Do Punk ao Techno: memórias de como era viver a noite e a contracultura dos anos 80 e 90


Recordo-me sempre e tenho orgulho de ter vivenciado talvez uma das épocas mais felizes, depois de ouvir falar, na altura, dos anos 60 e em particular do Maio de 68. Absorvíamos um pouco de tudo: música gótica, metaleira, música de pista de dança, música clássica. Aqui em Portugal, os bares e discotecas tinham seguranças e formavam-se filas para entrar; no entanto, alguém conhecido do segurança entrava logo, criando desconforto e indignação. Ao passo que em Espanha era tudo aberto. O pessoal bebia, falava num bar e entrava noutro, num circuito aberto. 

Nesta época fui membro de uma banda de garagem gótica, inspirada sobretudo nos The Cure, Joy Division, The Chameleons, Einstürzende Neubauten, Virgin Prunes e In The Nursery (bebíamos também um pouco de The Fall). Chamava-se Lilás Postes Mórbidos.

Nos anos 80, o pós-punk, o goth, o new wave e a música industrial ergueram-se não apenas como géneros musicais, mas como verdadeiras armaduras existenciais. As pistas de dança dos bares e clubes alternativos cheiravam a fumo denso de cigarro, laca e suor. Dançava-se de forma introspectiva e solitária, envolto em gabardinas escuras, cabelos esculpidos a spray e botas pesadas, num ambiente dominado pelo niilismo e pela penumbra. 

A ética do Do It Yourself (DIY) era verdadeiramente o coração pulsante da cena, sobretudo entre punks, góticos e metaleiros. Num Portugal onde a oferta de roupa alternativa era escassa ou proibitivamente cara - sem fast fashion, lojas online ou encomendas à distância de um clique -, pertencer ao underground exigia tanta criatividade manual quanto devoção musical.

As t-shirts pretas de algodão barato tornavam-se telas em branco. Usava-se tinta de tecido, lixívia para criar padrões manchados e escorridos, stencils feitos à mão em radiografias velhas ou cartão, e giletes para cortar golas e mangas. Os casacos de cabedal ou de ganga eram autênticas obras de arte em construção permanente: pintavam-se os logótipos das bandas com pincéis finos, cravavam-se picos e tachas comprados em retrosarias, e cosiam-se remendos (patches) feitos a partir de restos de tecido e marcadores permanentes. As correntes vinham muitas vezes do hardware ou de ferragens de construção civil, e os alfinetes de dama serviam tanto para segurar rasgões como para afirmar uma estética.

Havia também um ecossistema económico e social paralelo. Nas poucas feiras de rua, mercados de velharias, concertos em garagens ou em pequenos festivais locais, surgiam bancas improvisadas em panos estendidos no chão. Aí vendiam-se e trocavam-se t-shirts personalizadas, pendentes em estanho ou cabedal, pins artesanais, cassetes gravadas com capas desenhadas à mão (tape trading) e fanzines fotocopiadas em papel de fraca gramagem. A troca não era apenas material; era a forma primordial de criar redes de contactos. Mudar de cidade ou ir a um concerto noutro ponto do país significava levar a mochila cheia de material para vender ou trocar por algo que não se conseguia encontrar na própria terra.

Essa dimensão artesanal garantia que quase ninguém vestia a mesma peça. A identidade não se comprava feita numa prateleira; construía-se com paciência, cheiro a tinta, agulhas picadas nos dedos e muitas horas passadas no quarto a aperfeiçoar a estética da sua própria tribo.

Sem a facilidade dos ecrãs, a logística de todo este ecossistema assentava em redes orgânicas e analógicas. Para saber onde era a festa ou o concerto da noite, dependia-se do passa-palavra, do papel fotocopiado dos flyers distribuídos à porta das lojas de discos ou nas faculdades, e da sintonização em emissoras de rádio piratas e programas de autor. Como era impossível avisar de um atraso no caminho, os pontos de encontro tinham de ser cumpridos com pontualidade rigorosa. Se alguém falhasse no local combinado, perdia a pista do resto do grupo até à manhã seguinte.

Acima de tudo, sair à noite nessa época significava viver no presente absoluto. Ao cruzar a porta de casa, cada pessoa desaparecia do radar do mundo convencional, usufruindo de uma liberdade radical na invisibilidade. Não havia o registo compulsivo do momento, nem fotografias instantâneas para alimentar expectativas alheias. As raras imagens eram captadas por máquinas descartáveis e o resultado só era revelado semanas mais tarde. A verdadeira prova de uma noite lendária ficava guardada no zumbido persistente nos ouvidos ao amanhecer, nos bilhetes de autocarro amarrotados nos bolsos e na pertença visceral a uma tribo urbana que partilhava a mesma margem do mundo

Entretanto, fiz rádio, numa altura em que houve um boom de rádios clandestinas. A banda, o círculo de amigos underground (dentro e fora da Faculdade) e a rádio foram relevantes em termos pessoais. Foi uma fase em que precisava mesmo disso, pois fatalmente faleceu, com 42 anos, a minha irmã mais velha. Tinha 22 anos. 

Sabíamos e ouvíamos falar da Movida espanhola. Quantas vezes preferia ir a Santiago de Compostela curtir a noite do que ficar no Porto. Sucede que um grupo de galegos, em conversa, nos sugeriu ir até Madrid. Bora lá, nem hesitámos. Durante as 5 horas de viagem, era a desbunda total. De tudo falámos e tudo cantámos juntos. O inglês dos espanhóis era sofrível e ríamo-nos muito. Qual cancel culture, virtue signaling, wokismo e outras "moralidades" da era digital. Não existiam, nem imaginávamos nada disso. Puramente diversão, muita filosofia on the road, falávamos dos escritores e realizadores que partilhávamos em comum e pouco mais.

Com a viragem para os anos 90, iniciaram-se nas vagas divergentes e, ao mesmo tempo, de contracultura: o techno, o grunge e o rap. 

La Cabra resume um pouco tudo o que atrás descrevi. Quando foi lançada, em 1993, uniu toda a juventude da época (desde os adolescentes até aos que, como eu, já estavam a entrar nos 26-27 anos). O seu único objetivo é a sátira social, o humor escrachado e a provocação irreverente. Antes de se tornar uma faixa eletrónica dos The Farmlopez, esta letra já pertencia ao cancioneiro popular anónimo de Espanha. Era o tipo de música cantada em viagens de autocarro, festas de aldeia, casamentos e tunas académicas. O significado prático da canção é ser um hino de folia e desbunda (el desmadre), feito especificamente para as pessoas cantarem juntas quando já consumiram algum álcool e querem apenas festejar sem pensar em regras.