sábado, 8 de agosto de 2026

Lebanon Hanover - Babes of the 80s (She Past Away Remix)


Eco de Néon e Decadência: a convergência sombria entre Lebanon Hanover, She Past Away e Last Night in Soho
A interseção entre a música dos Lebanon Hanover, remisturada pelos She Past Away, e o filme Last Night in Soho (2021) representa uma convergência estética fascinante onde a melancolia, o romantismo sombrio e a nostalgia perversa se encontram num diálogo contínuo.

Sonoramente, a faixa enquadra-se no universo da música alternativa underground, cruzando o darkwave, o coldwave e o post-punk. A versão original dos Lebanon Hanover- duo formado em 2010 pela vocalista e guitarrista suíça Larissa Iceglass e pelo baixista e vocalista britânico William Maybelline - destaca-se pelo seu minimalismo cru, linhas de baixo pulsantes e uma atmosfera gelada. Contudo, ao ser remisturada pela banda turca She Past Away (liderada por Volkan Caner), a canção ganha uma roupagem marcadamente gothic rock e synthwave, adicionando sintetizadores densos, ritmos dançáveis de caixas de ritmo retro e uma cadência magnética, tipicamente herdada da vaga dos anos 1980. A escolha de She Past Away para remisturar "Babes of the 80s" assenta na mestria da dupla turca em injetar uma energia dançável e uma produção obscura sem perder a essência melancólica original, transformando a ode nostálgica num verdadeiro hino para as pistas de dança góticas contemporâneas.

A nível conceptual, o universo dos Lebanon Hanover bebe diretamente de influências literárias e filosóficas profundas. No plano filosófico, destaca-se o Existencialismo de Jean-Paul Sartre e Albert Camus, visível na tematização do absurdo, do isolamento do indivíduo e do peso da liberdade numa sociedade alienante. Encontra-se também uma forte marca do Niilismo de Friedrich Nietzsche e da perspetiva do pessimismo filosófico de Arthur Schopenhauer, em que o sofrimento e a futilidade da existência são encarados de frente.

No âmbito literário, a estética da banda inspira-se no Romantismo Obscuro (Dark Romanticism) de autores como Edgar Allan Poe, explorando o macabro, a vulnerabilidade psicológica e a obsessão pela morte. Há igualmente uma herança direta do Decadentismo do século XIX, evocando poetas como Charles Baudelaire (As Flores do Mal) no retrato da decadência urbana, da melancolia e da busca obsessiva por uma beleza trágica. A poesia da Beat Generation e o isolamento romantizado da literatura gótica clássica terminam de moldar letras que expressam uma forte anomia social, a rejeição do consumismo moderno e a romantização contínua de um passado irrecuperável.

É precisamente este pilar temático que cria uma ponte indissociável com Last Night in Soho, o thriller psicológico realizado por Edgar Wright. O filme acompanha Eloise (Thomasin McKenzie), uma jovem aspirante a estilista obcecada pelos anos 60 que viaja no tempo e vive a vida de Sandie (Anya Taylor-Joy), uma cantora da época, apenas para descobrir que o glamour do passado esconde uma realidade sórdida de exploração e trauma.

O terror psicológico em Last Night in Soho nasce do desmantelamento da mente da protagonista, Ellie, à medida que a sua obsessão pelo passado deixa de ser um refúgio e se transforma num pesadelo invasivo. Ao contrário do terror tradicional baseado apenas em monstros ou violência física, o filme de Edgar Wright constrói o medo através do confronto constante da personagem com a sua própria perceção, a herança do trauma e a perda de controlo sobre a realidade.

Em primeiro lugar, o terror manifesta-se na dissolução das fronteiras entre a ilusão e o mundo real. Inicialmente, as viagens de Ellie até aos anos 1960 acontecem apenas nos seus sonhos, mas a linha que separa a vigília do sono esbate-se rapidamente. As visões de Sandie e dos homens sem rosto começam a invadir a sua vida quotidiana em pleno dia - em reflexos de espelhos, nas aulas da faculdade ou no local de trabalho. A incapacidade de confiar nos próprios sentidos gera uma paranoia sufocante, intensificada pelo trauma intergeracional e pela herança de doença mental. Sabendo que a sua mãe sofria de esquizofrenia e cometeu suicídio após ter visões, Ellie vive num estado permanente de dúvida interior, questionando se está verdadeiramente a testemunhar eventos sobrenaturais ou se está a sucumbir à mesma espiral de loucura que destruiu a sua família.

Além disso, a empatia obsessiva de Ellie por Sandie transforma-se numa experiência traumática na primeira pessoa. Ellie não é uma mera espectadora do passado; ela absorve e sente o medo, a manipulação e a exploração que Sandie sofreu no meio noturno de Soho. O terror surge quando se percebe presa à tragédia de outra mulher, revivendo abusos sem qualquer poder para intervir ou salvar a vítima.

Por fim, o filme utiliza a desconstrução da nostalgia como a sua maior armadilha psicológica. A idealização romântica dos Swinging Sixties revela-se um ambiente claustrofóbico e de pesadelo. O horror psicológico atinge o seu auge quando a estética vibrante, a música estimulante e as luzes de néon passam a representar a fachada de uma rede sórdida de exploração e violência, transformando o sonho dourado de Ellie numa prisão assombrada pelos fantasmas do passado.

A razão pela qual os fãs editam music videos não oficiais cruzando esta remistura com imagens do filme reside na ressonância temática e estética perfeita entre ambas as obras. Por um lado, existe a crítica à nostalgia perigosa: a letra de "Babes of the 80s" ironiza e lamenta a fascinação romantizada por uma década passada, enquanto no filme Eloise sofre da mesma obsessão em relação aos anos 60, com ambas as obras a desmistificarem a ideia de que o passado era uma época dourada. Por outro lado, a sonoridade soturna e sensual do remix espelha a estética visual do filme - dominada por luzes de néon vermelhas e azuis, sombras, espelhos e uma atmosfera de pesadelo elegante. Finalmente, o ritmo hipnótico e dançável dos She Past Away encaixa perfeitamente nas sequências de clube, dança e alucinação do filme, acentuando a transição da euforia para a paranoia. Um fã decide criar este tipo de edição para materializar visualmente o sentimento que a música evoca, criando uma narrativa visual simbiótica onde a ilusão, a decadência urbana e o terror psicológico ganham uma nova camada de intensidade poética.

Sobre o Filme


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Aqui estão algumas das faixas autorais mais marcantes em que Tobias Bernstrup assume os vocais com a sua voz grave e dramática, acompanhadas pelos respetivos links para ouvir no YouTube:
  1. Tobias Bernstrup - 27 (Laser Mix) - Um dos seus maiores clássicos. É uma faixa vibrante de Italo Disco e synth-pop, recheada de arpejos marcantes e vocais expressivos. (A versão em italiano chama-se "Ventisette").
  2. Tobias Bernstrup - 1984 - Inspirada na atmosfera distópica e sombria do livro de George Orwell, mistura vocais graves com uma linha de sintetizador melancólica e futurista.
  3. Tobias Bernstrup - Private Eye - Com uma sonoridade que remete para as bandas sonoras retrofuturistas de suspense e film noir, destaca-se pelo clima cinematográfico e vocal envolvente.
  4. Tobias Bernstrup - Videodrome - Com referências ao cinema de terror dos anos 80, esta faixa autoral traz batidas enérgicas de synthwave e vocais teatrais.
  5. Tobias Bernstrup - Utopia (Italoconnection Remix) -  Uma das suas faixas mais celebradas na cena eletrónica/synth-pop, muito tocada em pistas e por DJs da cena alternativa.
  6. Tobias Bernstrup - Moments Lost - Do álbum Romanticism, é uma música com uma cadência mais melancólica, evidenciando o tom de voz sombrio e sentimental do artista.

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

She Past Away - Soluk

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Letra
Katıl bize
Bu son çağırı
Tanrın hatalı
Işığı gör 

Katıl bize
Bu son çağırı
Tanrın hatalı
Işığı gör

Hatırla bilgeyi!
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Boyun eğme!
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Tradução
Junte-se a nós
Este é o último chamado
O seu Deus está errado
Veja a luz

Junte-se a nós
Este é o último chamado
O seu Deus está errado
Veja a luz

Lembre-se do sábio!

Aquele que guia
Não se submeta!

Com a consciência do nada

Projeto falho
O fim está próximo
A civilização que brotou com mentiras
Está a deteriorar-se gradualmente

Civilização
A civilização que brotou com mentiras
Está a deteriorar-se gradualmente

Civilização
A civilização que brotou com mentiras
Está a deteriorar-se gradualmente

Civilização
Está a deteriorar-se gradualmente

Lembre-se do sábio!
Aquele que guia
Não se submeta!

Com a consciência do nada

Projeto falho
O fim está próximo
A civilização que brotou com mentiras
Está a deteriorar-se gradualmente

Civilização
A civilização que brotou com mentiras
Está a deteriorar-se gradualmente

A civilização que brotou com mentiras
Está a deteriorar-se gradualmente

Crítica à religião e sociedade em “Soluk” de She Past Away
O videoclipe de «Soluk» (termo turco que se traduz como Pálido ou Sopro/Hálito), lançado pelos She Past Away em 2015, faz parte do álbum Narin Yalnızlık

A obra resulta de uma colaboração artística transnacional que junta várias geografias. A banda She Past Away é originária da Turquia (formada em Bursa e sediada entre Istambul e Atenas), sendo composta por Volkan Caner e Doruk Öztürkcan, com composição original partilhada com İdris Akbulut. O videoclipe foi realizado por Dimitris Chaz Lee, de nacionalidade grega, e lançado pela discográfica independente Fabrika Records, igualmente sediada na Grécia. Por sua vez, as figuras centrais que protagonizam o vídeo são a dupla andrógina da banda americana de neo-post-punk Drab Majesty (Andrew Clinco / Deb Demure e Alex Nicolaou / Mona D), provenientes dos Estados Unidos da América.

A nível concetual, a letra da canção expressa uma visão profunda de desilusão e rejeição da modernidade, fazendo uma convocatória lírica para o despertar perante a decadência moral e afirmando que a civilização germina sobre mentiras e se encontra em processo de apodrecimento. A narrativa poética rejeita dogmas religiosos e falsas autoridades morais, apelando à consciência do vazio e à recusa da submissão numa meditação sobre a perda de sentido e a necessidade de encarar a verdade nua de um universo desprovido de ilusões consoladoras.

Visualmente, o videoclipe traduz este conceito através de uma estética monocromática em preto e branco focada na alienação e na asfixia cultural. A figura de pele e cabelos brancos surge inicialmente a ler jornais e a consumir informação, mas vê progressivamente a sua boca e rosto cobertos e colados por retalhos de imprensa impressos com palavras como World, Culture, Justice ou Pleasure. Esta colagem transforma-se numa mordaça física e num sufocamento simbólico, representando a forma como a cultura de massas, os slogans institucionais e a sobrecarga de informação calam a voz individual e anulam o pensamento crítico, enquanto os rostos sombrios da banda atuam como uma consciência distante que observa a queda da mente humana.

No plano das influências, a obra bebe diretamente nas fontes do Existencialismo e do Niilismo filosófico, evidenciando pontos de contacto com o pensamento de Friedrich Nietzsche na proclamação da falência dos dogmas tradicionais, no diagnóstico da decadência civilizacional e na necessidade de encarar o abismo sem evasões. Notam-se também ressonâncias da crítica à Sociedade do Espectáculo de Guy Debord e da Teoria Crítica, na medida em que a imagem expõe a conversão dos meios de comunicação em instrumentos de alienação, combinando-se com o pessimismo misantrópico e a tradição da literatura gótica e do romantismo sombrio, onde o indivíduo lúcido se encontra irremediavelmente isolado perante a ruína das estruturas humanas.

Inteligência Artificial e água: a fatura invisível


Tendemos a ver o armazenamento em “nuvem” como um conceito abstrato. Mas cada pergunta que fazemos a um assistente de inteligência artificial (IA) depende de uma estrutura física concreta: um centro de dados onde milhares de servidores trabalham sem interrupção, aquecem e precisam de ser arrefecidos. E, na maioria dos casos, esse arrefecimento faz-se com água que evapora em torres de arrefecimento e não regressa ao sistema. À pegada direta soma-se a indireta: a água consumida na produção da eletricidade que alimenta estas infraestruturas e no fabrico dos chips que as equipam.

Os números começam a ser conhecidos e não são tranquilizadores. Investigadores da Universidade da Califórnia estimaram que o treino do modelo GPT-3 terá evaporado cerca de 700 mil litros de água doce apenas nos centros de dados norte-americanos da Microsoft, e que uma conversa de 10 a 50 interações com um destes modelos consome, em média, o equivalente a uma garrafa de meio litro de água. O mesmo estudo, publicado na Communications of the ACM ("Making AI Less 'Thirsty': Uncovering and Addressing the Environmental Footprint of AI Models"), projeta que a procura global de IA possa representar, já em 2027, uma captação de água entre 4,2 e 6,6 mil milhões de metros cúbicos por ano. É certo que são estimativas, mas a falta de transparência das empresas tecnológicas quanto aos seus consumos reais é, em si mesma, parte do problema.

Poderíamos pensar que esta é uma preocupação distante, já que quase metade dos centros de dados de todo o mundo se localizam nos Estados Unidos, parte deles em áreas desérticas ou semidesérticas. Não é. Portugal está a posicionar-se agressivamente como destino europeu para esta indústria e fá-lo quando grande parte do território do continente vive em situação de escassez hídrica estrutural. O índice de escassez WEI+ para Portugal continental subiu para 34% no período 1989-2015, atingindo 74% na região hidrográfica do Sado e Mira e 66% nas Ribeiras do Algarve, existindo ainda o risco de perdermos 30 a 40% da disponibilidade das nossas massas de água até 2050, num contexto de redução de 25% da precipitação face aos valores históricos (dados do Relatório do Estado do Ambiente / APA). É neste país que decidimos instalar infraestruturas que funcionam 24 horas por dia e cuja sede de água e energia cresce ao ritmo da procura de IA.

O caso de Sines é paradigmático e, em parte, um exemplo a reter. O mega-campus de data-centers em desenvolvimento na antiga zona da central termoelétrica, que poderá atingir 1,2 GW de capacidade, foi desenhado para arrefecer os servidores com água do mar, reaproveitando os canais de captação e devolução da antiga central, sem consumo evaporativo de água doce nos processos de arrefecimento. De acordo com o estudo de impacte ambiental, o consumo de água potável do campus completo ficará limitado a usos humanos (cerca de 275 m³/dia), quando um centro de dados convencional de dimensão equivalente poderia consumir mais de mil milhões de litros de água por mês em arrefecimento, o equivalente a quase 50 mil famílias. A diferença entre uma solução e outra é abissal e demonstra que as escolhas de projeto e de localização importam, e muito. Ainda assim, importa não esquecer que a própria utilização de água do mar tem impactes que não podem ser desvalorizados, desde a afetação de organismos marinhos na captação à devolução de salmoura e de água a temperatura mais elevada, e que exigem avaliação, monitorização e minimização rigorosas.

Mas seria um erro descansar sobre este exemplo. Primeiro, porque o litígio que hoje opõe a EDP ao Estado quanto à titularidade das infraestruturas de captação de água do mar em Sines mostra como estas soluções dependem de condições muito específicas, dificilmente replicáveis noutros pontos do território. Segundo, porque a corrida aos centros de dados não se esgota em Sines, multiplicam-se projetos e intenções de investimento por todo o país, incluindo em regiões onde não há mar por perto nem folga hídrica para acomodar novos consumos. Terceiro, porque a pressão sobre a água de todo o conjunto dos projetos de interesse nacional previstos para a zona industrial de Sines representa uma necessidade agregada de água doce na ordem dos 10 hectómetros cúbicos por ano, equivalente ao consumo de um concelho de média dimensão, numa região servida por albufeiras que já abastecem populações e regadio em expansão.

Já não é possível defender um regresso a um mundo sem inteligência artificial, sendo necessário reconhecer o seu potencial em áreas como a gestão da água, desde a deteção de perdas nas redes e a otimização do regadio até à modelação hidrológica que suporta os Planos de Gestão de Região Hidrográfica. No entanto, é essencial assegurar que o desenvolvimento da IA decorra dentro dos limites planetários, respeitando a disponibilidade de recursos naturais, nomeadamente energia, água e matérias-primas, e garantindo que os seus benefícios sociais e ambientais superam os impactos da infraestrutura que a suporta. E isso tem tradução concreta na política da água.

Desde logo, transparência: os consumos de água (e energia) dos centros de dados devem ser públicos, medidos e reportados, instalação a instalação, e não escondidos atrás de médias corporativas ou de segredos comerciais. Depois, planeamento: a decisão sobre onde instalar estas infraestruturas tem de estar subordinada aos balanços hídricos regionais e aos Planos de Gestão de Região Hidrográfica, cujo 4.º ciclo (2028-2033) está em preparação e não pode ignorar esta nova categoria de utilizadores, privilegiando localizações com soluções de arrefecimento sem consumo de água doce, como a água do mar ou circuitos fechados, e o recurso a águas residuais tratadas em vez de água potável. Importa, contudo, ressalvar que o recurso à água do mar e, em particular, a dessalinizada não é isento de impactes, pelo que estas soluções devem ser sujeitas a avaliação de impacte ambiental exigente, sem nunca substituírem a prioridade que deve ser dada à eficiência e à necessidade de redução da procura. A recente Estratégia Europeia para a Resiliência Hídrica, que aponta para uma melhoria de pelo menos 10% na eficiência hídrica na União Europeia até 2030, deve ser o referencial mínimo. Finalmente, hierarquia de usos: em situação de seca, o abastecimento humano e os ecossistemas têm prioridade, e os títulos de utilização de recursos hídricos atribuídos a estas infraestruturas devem prever, desde o licenciamento, mecanismos de redução e contingência, tal como se exige a outros setores.

A água que os nossos rios e aquíferos já não garantem em cada verão não pode ser hipotecada a uma indústria que cresce mais depressa do que a nossa capacidade de a planear. Portugal tem uma oportunidade real de acolher a economia digital pela via certa, mas só o fará se a política da água deixar de correr atrás dos investimentos e passar a estar, de uma vez por todas, à frente deles.

Saber mais
Iniciativa da UE para Resiliência Hídrica:


Diretora do Google DeepMind diz que risco de extinção por IA 'não é zero'


A possibilidade de a inteligência artificial (IA) representar um risco existencial para a humanidade continua a preocupar parte dos principais nomes do setor. A diretora de operações de IA da Google DeepMind, Lila Ibrahim, afirmou que a hipótese de a tecnologia provocar a extinção da humanidade "não é zero", embora tenha ressaltado que qualquer estimativa além disso seria apenas um palpite. Ao mesmo tempo, a executiva contestou previsões otimistas de empresários como Elon Musk sobre o futuro da IA.

Em entrevista à revista Fortune, Ibrahim lembrou que assinou, em 2023, a declaração do Center for AI Safety que defendia que o risco de extinção causado pela IA deveria ser tratado com a mesma prioridade de ameaças como guerras nucleares e pandemias.

Três anos depois, ela afirmou que mantém a mesma posição. "Não é zero", disse sobre a possibilidade de um cenário extremo. "Qualquer coisa além disso é apenas um palpite meu, é a engenheira em mim." Segundo a executiva, "seria irresponsável da nossa parte não falar sobre o risco existencial”.

Debate sobre riscos e oportunidades
Ibrahim afirmou que o avanço acelerado da IA exige que empresas e governos discutam não apenas as oportunidades, mas também os possíveis impactos negativos da tecnologia. Para ela, uma das lições deixadas pela pandemia foi que ameaças de grande escala nem sempre são previsíveis.

A executiva também afirmou que a indústria de tecnologia falhou, no passado, ao não debater suficientemente os riscos associados à expansão da internet e das redes sociais. "As duas coisas que me tiram o sono são: estamos a fazer tudo o que podemos para mitigar os riscos? E estamos a fazer tudo o que podemos para maximizar as oportunidades? Na minha opinião, essas duas coisas andam de mãos dadas", afirmou.

As declarações de Ibrahim somam-se às de outros investigadores e executivos que já manifestaram preocupação com os impactos da IA. Geoffrey Hinton, conhecido como um dos "padrinhos da inteligência artificial", estimou anteriormente entre 10% e 20% a hipótese de a humanidade ser extinta nas próximas décadas em consequência da tecnologia.

Já Dario Amodei, diretor da Anthropic e também signatário do manifesto de 2023, afirmou que existe 25% de probabilidade de o futuro ser "muito, muito mau". Antes mesmo da popularização da IA generativa, o físico Stephen Hawking também alertou para os riscos que sistemas avançados poderiam representar.

Na entrevista, Ibrahim também discordou das previsões feitas por Elon Musk sobre uma sociedade em que o trabalho deixaria de existir devido à abundância produzida por robôs e sistemas de IA. O empresário afirmou recentemente que, até 2036, o dinheiro perderia relevância porque produtos e serviços seriam extremamente baratos e os governos distribuiriam um rendimento básico universal elevado. Jeff Bezos, fundador da Amazon, também já projetou que milhões de pessoas viverão no espaço nas próximas décadas.

Para a diretora da Google DeepMind, porém, o ritmo de evolução da IA torna impossível prever com precisão como será o futuro. "Não acho que possamos realmente prever como será o futuro", afirmou à Fortune.

Em vez de apostar em cenários distantes, Ibrahim defendeu que o foco esteja no uso da tecnologia para resolver problemas concretos, como eventos climáticos extremos, resíduos industriais e o desenvolvimento de soluções para doenças. "Prefiro que concentremos a nossa atenção em como usar a tecnologia como ferramenta para maximizar o potencial humano", disse.

She Past Away - Ritüel e o filme The Craft (1996)

Melhor som aqui e aqui

Ritual noturno: por que "The Craft" é a trilha sonora visual ideal para os She Past Away
Este tema formidável Ritüel dos turcos "She Past Away" tem inspirado fãs a elaborar videoclipes, uma vez que a banda não tem um videoclipe oficial. Desta feita, as cenas são do filme The Craft (1996), de Andrew Fleming, que moldou uma geração.

A estética e o som dos She Past Away - o influente duo turco de post-punk e darkwave formado por Volkan Caner e Doruk Öztürkcan - habitam na intersecção perfeita entre o luto, a escuridão e o esoterismo existencial. A sua obra-prima, a faixa "Ritüel", desenrola-se como uma dança hipnótica de submissão e dor, pontuada por sintetizadores frios e uma linha de baixo grave que ecoa a necessidade humana de transformação e pertença. Nenhuma obra cinematográfica encarna essa mesma energia ritualística e sombria tão perfeitamente quanto o clássico de culto de 1996, The Craft (Jovens Bruxas).

O filme dirigido por Andrew Fleming conta a história de Sarah Bailey, uma adolescente conturbada com dons psíquicos inatos que se muda para Los Angeles e encontra abrigo num trio de jovens ostracizadas: Nancy, Bonnie e Rochelle. Juntas, formam um coven de quatro bruxas - uma para cada ponto cardinal e elemento da natureza. O grupo recorre à magia para tentar curar traumas pessoais e desferir vingança contra um ambiente escolar tóxico, invocando a entidade criadora Manon. No entanto, a espiral de ganância e loucura desencadeada por Nancy transforma a busca por poder num duelo trágico, no qual a magia deixa de ser um refúgio para se tornar numa maldição.

Sob a superfície do melodrama jovem dos anos 90, The Craft carrega influências literárias e filosóficas profundas. O filme herda o fascínio do Romantismo Gótico presente nas obras de Mary Shelley e Edgar Allan Poe, onde a beleza surge intrinsecamente ligada à decadência e a figura marginalizada encontra a sua força naquilo que a sociedade teme. Do ponto de vista filosófico, a fita traduz o conceito de alteridade e a angústia existencial teorizada por Jean-Paul Sartre, usando a magia como uma tentativa desesperada de recuperar o controlo sobre a própria vida. A narrativa é também fortemente guiada pela Lei do Retorno espiritual, uma variação do princípio kármico que dita que as intenções lançadas ao universo voltam multiplicadas para quem as originou. Ou seja "A Lei de Três" (Rule of Three), que dita que tudo o que envias para o mundo -seja bem ou mal - retorna a ti triplicado. O filme serve como uma parábola moral sobre a hbris (arrogância) e a responsabilidade ético-espiritual.

Essa profunda ancoragem na feitiçaria real não foi acidental: The Craft tornou-se um marco geracional precisamente porque a produção contratou Pat Devin, uma sacerdotisa real da Covenant of the Goddess, para garantir a autenticidade das encantações, dos rituais e do simbolismo em cena. Ao afastar-se das caricaturas históricas de bruxas com verrugas e chapéus pontiagudos, o filme deu voz à revolta adolescente e ao empoderamento feminino através de uma estética goth inconfundível - marcada por maquilhagem escura, crucifixos, gargantilhas de veludo e botas militares. Como resultado direto, a longa-metragem funcionou como a porta de entrada de milhares de jovens para o Wicca, uma religião neopagã contemporânea sistematizada na primeira metade do século XX por Gerald Gardner. O Wicca caracteriza-se pela celebração dos ciclos da natureza, o culto à Deusa Tripla e ao Deus Chifrado, o respeito ao livre-arbítrio e a ausência de dogmas punitivos ou estruturas hierárquicas rígidas.

É neste ponto que a música dos She Past Away e o universo de The Craft se fundem em simbiose absoluta. Quando Volkan Caner canta "Acıyı hisset! Benimle dans et" ("Sinta a dor! Dance comigo") nos versos de "Ritüel", ele convoca o mesmo transe noturno em que as quatro protagonistas do filme se entregam na praia à beira-mar. Ambas as obras tratam o ritual não como um truque superficial, mas como uma purga emocional, um espaço seguro onde os desajustados dançam com as suas sombras, transformando a dor e a exclusão num espetáculo de pura libertação visual e sonora.

1. O filme completo está aqui
2. Banda sonora do filme aqui e toda informação aqui
4. Tudo sobre Wicca

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Bodies ft. Buzz Kull - Kill Shelter

Melhor som aqui
Letra
We shared the looks
and the womb
you came before me
our love was new
I was stuck
in a rhythm of hate
speaking in tongues
the devil can wait

[refrão]
We masked ourselves and our bodies
you never knew any better
we couldn’t tell anybody
our love was lost and forever

Physical form
now at its peak
a crowd around you
feed from the weak
moment of tense
days by the few
ignore the action
a lie I knew

[refrão]

A dança da alienação: estilo, significado e filosofia em "Bodies" (Kill Shelter ft. Buzz Kull)
A colaboração entre o projeto Kill Shelter e o artista Buzz Kull no tema "Bodies", lançado em 2018 no álbum Damage, junta duas forças proeminentes da música alternativa contemporânea numa obra densa, fria e hipnótica. No plano estilístico, a composição enquadra-se rigorosamente nos domínios do Darkwave, Post-Punk e EBM (Electronic Body Music), fundindo baterias eletrónicas mecânicas e pulsantes com linhas de sintetizador incisivas, guitarras atmosféricas carregadas de reverberação e uma interpretação vocal cavernosa e monótona. Esta sonoridade resulta de uma fusão geográfica e criativa singular entre duas nacionalidades distintas: o produtor e multi-instrumentista Peter White, responsável pelo projeto Kill Shelter a partir de Edimburgo, na Escócia, e o produtor Marc Henry, a mente por trás de Buzz Kull, vindo de Sydney, na Austrália.

O significado da canção e do seu videoclipe gravita em torno da alienação urbana, da objetificação e da anestesia emocional na era moderna. A narrativa conceptual reduz o ser humano à sua dimensão puramente física - meros "corpos" em movimento, desprovidos de ligação interpessoal ou profundidade psicológica. O videoclipe traduz visualmente este estado de desconexão através de uma estética lo-fi e claustrofóbica, dominada por iluminação estroboscópica, fortes contrastes em preto e branco e visões fragmentadas que simulam a sensação de transe e isolamento numa pista de dança escura.

No plano literário e filosófico, a obra inspira-se profundamente no Existencialismo e no Niilismo, abordando a perda de identidade, a inutilidade da procura de sentido e a solidão coletiva. Há também um claro eco do Distopismo Literário de autores como J.G. Ballard ou Philip K. Dick, onde a tecnologia e a modernidade industrial não servem para libertar o indivíduo, mas sim para o desumanizar, transformando a existência numa rotina puramente mecânica e corpórea.

Portugueses lideram estudo para descobrir como a poluição atmosférica castiga os mais pobres


Viver numa rua onde o ar carrega o peso de milhares de escapes diários ou o fumo constante de uma fábrica não é, para muitas famílias, uma escolha. É a única opção compatível com o seu orçamento.

A comunidade científica internacional já classifica a poluição atmosférica como o maior perigo ambiental para a sobrevivência humana, mas o risco não é igual para todos. As populações mais vulneráveis enfrentam níveis de exposição muito superiores.

Foi esta desigualdade que motivou uma equipa liderada pela Universidade de Aveiro a analisar exaustivamente a literatura científica global. Em colaboração com a Universidade de Coimbra, o Laboratório Associado de Sistemas Inteligentes da Universidade do Minho e a University of the West of England, os investigadores examinaram 99 artigos internacionais para perceber até que ponto as avaliações de impacto sanitário incorporam justiça ambiental e desigualdades sociais.

Mapa geográfico das falhas
Os resultados, publicados na revista Heliyon, revelam um desequilíbrio geográfico na produção de conhecimento. Dos 21 países onde se realizaram os estudos analisados, os Estados Unidos representam 53 por cento da amostra. O Canadá surge muito atrás, com seis por cento, seguido pela China com cinco por cento.

A investigação sobre injustiça ambiental cresce, no entanto, a ritmo acelerado: mais de metade dos artigos selecionados foram publicados nos últimos cinco anos.

Segundo os autores portugueses, esta tendência mostra uma maior atenção às dimensões sociodemográficas da crise ambiental. Ainda assim, a maioria dos trabalhos concentra-se nos efeitos prolongados da exposição, deixando de fora análises mais imediatas ou de curta duração.

O peso das partículas finas
A quase totalidade dos estudos centra-se nas partículas finas em suspensão, conhecidas como PM2.5. Estas partículas microscópicas conseguem penetrar profundamente no sistema respiratório e estão associadas a doenças graves.

Apesar disso, apenas metade dos artigos cruza os dados de monitorização ambiental com os registos médicos ou com os níveis reais de exposição das populações. A análise estatística clássica domina as metodologias, estando presente em cerca de 71 por cento dos casos. Os restantes trabalhos dividem-se entre modelação de cenários futuros e inquéritos diretos às comunidades afetadas, revelando abordagens ainda pouco integradas.

Ar puro não é para todos
A justiça climática parte da premissa de que quem menos contribui para a poluição é, muitas vezes, quem mais sofre com os seus efeitos. Todos os artigos revistos adotam esta perspetiva, avaliando fatores como rendimento e etnia. Os dados financeiros são o indicador mais utilizado, presente em 99 por cento das investigações.

A Organização Mundial da Saúde e o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas confirmam esta realidade. Famílias com baixos rendimentos e minorias étnicas vivem frequentemente perto de vias rodoviárias saturadas ou complexos industriais. A consequência traduz-se numa maior incidência de asma, doenças cardíacas crónicas e complicações durante a gravidez.

Lacunas na Europa
Perante este diagnóstico, os investigadores portugueses defendem que é urgente alargar estes estudos ao continente europeu e a outras regiões pouco representadas. A equipa sublinha a necessidade de modelos de análise mais robustos e métodos mistos capazes de captar a complexidade das variáveis sociais.

Para além dos dados numéricos, os autores destacam a importância de ouvir as comunidades através de inquéritos de proximidade.

O estudo conclui que compreender as perceções sociais e envolver os cidadãos na monitorização do ar é essencial para que as futuras políticas ambientais e de saúde pública deixem de ignorar as desigualdades que afetam a vida de milhões de pessoas.

Referência da notícia

Eclipse Solar 2026 em Portugal: vale a pena Montesinho ou ir para Espanha?

Vale a pena milhares de pessoas no aeródromo de Bragança para ver o eclipse solar, durante uns meros 20s e apenas 90%? [É a "loucura": farmácias de Bragança em rutura de stock de óculos para o eclipse]

No dia 12 de agosto de 2026, a Península Ibérica será o palco principal de um dos eventos astronómicos mais aguardados do século: um eclipse solar total. Contudo, apesar do entusiasmo mediático e do orgulho nacional, a realidade geográfica e astronómica impõe uma conclusão inequívoca: tentar assistir ao eclipse em solo português é uma escolha errada e um investimento de tempo sem garantia de retorno. Se o objetivo é vivenciar o fenómeno em toda a sua plenitude - a descida abrupta da noite em pleno dia, a queda de temperatura e a visão a olho nu da coroa solar -, a decisão racional passa por cruzar a fronteira e rumar ao Norte de Espanha. Veja aqui o mapa real.

Em quase todo o território de Portugal Continental, do Porto a Lisboa e ao Algarve, o eclipse será apenas parcial, variando entre 92% e 99% de ocultação. Os pareceres divulgados pelo Planetário do Porto / Centro Ciência Viva e por diversos astrónomos são perentórios nesta distinção: um eclipse 99% parcial não oferece 99% da experiência de um eclipse total, oferece 0%. Enquanto restarem escassos raios solares desprotegidos, o céu não escurece totalmente, é estritamente proibido retirar os óculos de proteção certificados e a coroa solar permanece invisível. Para a maioria dos residentes em Portugal, a experiência resumir-se-á a olhar através de filtros escuros para um simples "crescente de Sol".

O único ponto de Portugal Continental rasgado pela faixa de totalidade é a extremidade nordeste do Parque Natural de Montesinho, na aldeia de Guadramil em Bragança, mas focar os planos nesta região ou no Aeródromo Municipal de Bragança revela-se um erro estratégico. De acordo com o mapeamento e as diretrizes disponibilizadas pela Comissão Nacional Eclipse 2026, a duração da totalidade na aldeia de Guadramil será de escassos 26 segundos, enquanto no aeródromo o tempo cai para míseros 15 a 18 segundos. Além desta duração ínfima - onde qualquer nuvem ou ajuste de câmara faz perder o momento -, o evento ocorre pelas 19h30 com o Sol a escassos 10° acima do horizonte, correndo o risco de ficar tapado pelo relevo ou pela bruma ao nível do solo. Soma-se a isto o alerta das autoridades para a falta de capacidade da rede viária de montanha em Montesinho e do próprio aeródromo para acolher milhares de visitantes, criando um risco real de bloqueio no trânsito na hora do fenómeno.

Enquanto Portugal hesita na preparação de infraestruturas, Espanha já percebeu o enorme potencial económico do astro-turismo e está a mobilizar-se em força. Em regiões do Norte de Espanha como Galiza, Astúrias e Castela e Leão, o impacto comercial já se faz sentir com grande intensidade: a procura disparou de tal forma que estadias de 3 noites em pontos estratégicos de montanha, como na zona de Riaño em Leão, chegam a atingir valores inflacionados de 850 euros, com muitos alojamentos esgotados com longa antecedência. A razão para esta corrida ao mercado espanhol é simples: ao avançar no interior do país vizinho, a duração da noite solar salta para valores entre 1 minuto e 30 segundos e quase 2 minutos, o Sol encontra-se numa posição mais favorável no céu e a rede de autoestradas e planaltos permite acolher o público com muito maior segurança. Faça bem a sua escolha: ficar em Portugal no dia 12 de agosto de 2026 é arriscar uma enorme frustração, pelo que atravessar a fronteira em direção ao Norte de Espanha é a única forma de garantir a experiência de uma vida. Ou ver, descansado e gratuito, ao vivo em live stream na página da ESA

Mais info:

NASA - Total Solar Eclipse 2026


quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Crise de memória RAM? A China está a adorar!


Como já disse várias vezes, a crise de memória RAM não é inocente. As 3 grandes fabricantes sofreram com excesso de stock durante algum tempo (o que resultou em margens mais curtas), e como tal, decidiram cortar na produção. Também decidiram cancelar planos para o desenvolvimento de novas linhas de produção. Tudo isso resultou na “crise” que agora se vive.

Mas, essa estratégia pode muito bem vir a resultar em algo extremamente curioso. As 3 grandes fabricantes (Samsung, Micron e SK Hynix), estão agora a ver um quarto concorrente a crescer de forma… Avassaladora. Dentro em breve, vamos ver um Big 4 e não um Big 3.

Pois é! O mundo não vive só de crises.
CXMT cresce 716% num ano e a China avança sem travões para esmagar o cartel da memória!

Quem pensava que as sanções dos Estados Unidos e as restrições de tecnologia iam matar a indústria de semicondutores na China pode começar a comer o pequeno-almoço, visto que está prestes a começar um novo dia.

A gigante chinesa de memórias CXMT não só sobreviveu, como se transformou na fabricante de DRAM com o crescimento mais rápido do planeta no segundo trimestre de 2026. De facto, os dados da Counterpoint Research mostram um disparo de receitas verdadeiramente de loucos: uns inacreditáveis 716% de aumento em comparação com o ano passado. É a China a mostrar que não precisa de pedir licença ao Ocidente para fazer chips de topo.

Assim, enquanto a Samsung tenta segurar a liderança do mercado com 39% de quota e a SK Hynix e a Micron andam à pancada pelo segundo lugar, a CXMT corre por fora e já ameaça entrar no clube.

Até a Apple quer estes chips!
Não vamos ser anjinhos e dizer que a China anda a vender chips mais baratos. Toda a gente gosta de dinheiro, e os chineses não são diferentes. De facto, os chips de memória da CXMT ainda não estão ao nível das outras 3 grandes fabricantes.

Mas, não estão muito longe, e apesar de caros, têm uma grande vantagem… Há stock!

E talvez mais importante que isto, a fabricante anda a aproveitar a onda para investir muito (e bem) no futuro. Afinal, ao contrário da SMIC, que ainda luta para ultrapassar certas barreiras na produção de processadores, a CXMT já está a produzir memórias de última geração e a fazer progressos sérios nos chips LPDDR6.

O motor deste crescimento avassalador assentou numa procura interna brutal na China e numa expansão agressiva das suas fábricas, financiada após a entrada na bolsa no início do ano. Aliás, a empresa já está a construir uma nova megafábrica em Pequim para produzir ainda mais.

E a ironia da história atinge o auge aqui! Até a própria Apple está a tentar fechar contratos com a CXMT para garantir o fornecimento de chips de memória para os seus equipamentos. Numa altura em que a crise da memória para a Inteligência Artificial encareceu tudo e forçou os americanos a subirem os preços dos seus produtos, Tim Cook bate à porta de Pequim a pedir socorro para não ficar sem stock.

A questão já não é “se”, é “quando”
A memória RAM e o armazenamento de alta velocidade são a espinha dorsal de tudo o que mexe na tecnologia moderna, desde os aceleradores de IA até ao smartphone que trazemos no bolso. Durante anos, Samsung, SK Hynix e Micron geriram o mercado quase a seu bel-prazer, ditando preços e volumes de produção.

A chegada da CXMT com apoio estatal, capacidade fabril massiva e preços competitivos vai virar o jogo ao contrário.

Curioso não é?

Solaris (1972) de Tarkovsky: Porque é que a ficção científica é mais atual hoje do que nunca?

A ficção científica filosófica Solaris, adaptada do romance de Stanisław Lem e imortalizada no cinema por Andrei Tarkovsky em 1972 (com uma nova versão de Steven Soderbergh em 2002), é um drama existencial sobre os limites da mente humana perante o desconhecido e o peso inegociável da culpa e da memória. A narrativa acompanha Kris Kelvin, um psicólogo enviado a uma estação espacial que orbita o planeta misterioso Solaris. O planeta é coberto por um oceano protoplasmático gigante que demonstra ter consciência e, ao ler as mentes dos cientistas da estação, materializa as suas memórias, desejos e remorsos mais ocultos na forma de "visitantes" físicos. Kelvin vê-se forçado a conviver com uma cópia perfeita da sua falecida esposa, Hari, que se tinha suicidado anos antes após uma discussão entre o casal, forçando-o a enfrentar a carga emocional do seu passado.

O filme choca e mantém o seu impacto porque subverte as convenções da ficção científica tradicional de tecnologia e conquista galáctica para questionar a condição humana. Apresenta uma crítica à arrogância e ao antropocentrismo ao mostrar uma inteligência alienígena inacessível à lógica humana, evidenciando que a busca pelo cosmos é frequentemente uma fuga de nós próprios. A obra aborda a materialização da dor e do luto através da memória, transformando o remorso numa presença física, enquanto explora o mistério da identidade e da consciência ao mostrar a evolução de Hari de uma mera projeção para um ser com sofrimento e agência próprios. Toda esta atmosfera é intensificada pelo ritmo contemplativo e pelo isolamento claustrofóbico que espelha a própria prisão mental dos cientistas.

As influências científicas e filosóficas da obra elevam-na a uma profunda meditação existencial baseada na epistemologia, na psicanálise e na física teórica do século XX. No âmbito científico, o fracasso da "Solariologia" - a disciplina fictícia criada para catalogar o oceano - ilustra os limites do empirismo e antecipa a Teoria do Caos e os Sistemas Complexos, demonstrando como certos fenómenos ultrapassam a capacidade de modelação humana. Para explicar a existência dos visitantes, recorre-se a conceitos quânticos de matéria neutrónica mantida por campos de força, conferindo-lhes características biológicas humanas à escala macroscópica, mas com uma estrutura subatómica não celular e capacidade de regeneração. 

No plano filosófico e psicológico, o oceano funciona como uma metáfora direta do inconsciente: mobiliza o recalque freudiano ao materializar a culpa e o trauma reprimidos, e atua como a Sombra junguiana, forçando o indivíduo a confrontar a parte rejeitada da sua psique. Sob a ótica epistemológica e do existencialismo de inspiração kantiana, sartreana e kierkegaardiana, Solaris questiona se é possível conhecer verdadeiramente o "Outro" ou apenas as nossas próprias projeções, ao mesmo tempo que reflete sobre o livre-arbítrio e a autenticidade da vida e do sofrimento de uma entidade criada como cópia. [Fonte: Fundação Stanisław Lem

Apesar do sucesso da obra cinematográfica, a relação entre Stanisław Lem e Andrei Tarkovsky foi marcada por uma célebre divergência artística. Lem ficou desapontado com a adaptação de 1972, afirmando que Tarkovsky tinha filmado "Crime e Castigo" no espaço. O desentendimento deveu-se ao choque entre o foco epistemológico de Lem - focado na impossibilidade de comunicação com o extraterrestre - e o humanismo moral e espiritual de Tarkovsky, que centrou a narrativa no pecado e na redenção de Kelvin. Lem criticou ainda a inclusão de cerca de 40 minutos iniciais passados na Terra com a família do protagonista, por considerar que introduziam um sentimentalismo nostálgico alheio à sua obra, e lamentou a redução visual e conceptual do oceano a um mero pano de fundo para conflitos morais humanos.

Para ler mais detalhadamente sobre cada um destes aspetos e ver imagens e esquemas explicativos, pode aceder a mais informações sobre a sinopse e o impacto de Solaris, explorar as influências científicas e filosóficas de Solaris e conhecer o conflito entre Stanisław Lem e Andrei Tarkovsky.

Andrei Tarkovsky era um crente convicto e a sua visão do mundo estava profundamente enraizada na fé e na tradição do Cristianismo Ortodoxo. No entanto, a sua religiosidade não se traduzia num dogmatismo cego ou numa prática institucional rígida, mas sim numa espiritualidade mística, poética e existencial. Sob o regime soviético - uma ditadura oficialmente ateia e materialista -, afirmar a fé era um ato de resistência espiritual. No seu livro Esculpir o Tempo e nos seus diários (Martirológio), Tarkovsky afirmava que a arte não existia para propagar ideias políticas, mas sim para cultivar a alma e preparar o homem para a transcendência, tendo chegado a declarar que via o seu trabalho como uma forma alternativa de oração.

A influência da tradição e da iconografia ortodoxa transborda em toda a sua cinematografia. A ideia central de que o sofrimento aceite com amor e o sacrifício pessoal podem redimir o mundo permeia obras como Andrei Rublev (sobre o famoso pintor de ícones do século XV), Stalker e o seu filme de despedida, O Sacrifício. Além disso, a sua estética visual - com o uso recorrente e quase ritualístico da água, da terra, do fogo e da luz - funciona como uma revelação do sagrado na própria matéria, aproximando o seu cinema da teologia do ícone ortodoxo, onde a imagem visível remete sempre para o invisível.

À semelhança de Fyodor Dostoievski, uma das suas maiores referências intelectuais, a fé de Tarkovsky não nascia da ignorância da dúvida, mas sim do confronto direto com a crise espiritual do homem moderno. Em Stalker (1979), a figura do protagonista encarna o conceito russo de yurodivy (o "louco por Cristo"), um indivíduo marginalizado que preserva a capacidade de crer num mundo tornado pragmático e cínico. Embora tenha demonstrado interesse por correntes como o Zen Budismo, a matriz conceptual e espiritual de Tarkovsky manteve-se inequivocamente ortodoxa, considerando ele que o esquecimento do divino e a perda da dimensão transcendente eram a verdadeira tragédia da humanidade contemporânea.

Refúgios climáticos: a solução que pode tornar as cidades mais resilientes às ondas de calor


As ondas de calor têm-se tornado mais frequentes, mais intensas e mais prolongadas, afetando sobretudo quem vive nas cidades. Ruas asfaltadas, edifícios de betão, falta de árvores e escassez de zonas de sombra criam o chamado efeito de ilha de calor urbana, fazendo com que a temperatura nas cidades seja significativamente superior à das áreas envolventes.

Nos últimos anos têm surgido várias iniciativas para responder a este desafio. Em Portugal, por exemplo, foi recentemente apresentado o Pro Nat.Urbe, um programa que pretende investir na criação de mais espaços verdes, corredores ecológicos e redes de conforto climático para tornar as cidades mais resilientes.

Agora surge uma nova medida complementar. O Turismo de Portugal lançou a Rede de Refúgios Climáticos | Stay Cool, integrada na Agenda para a Ação Climática no Turismo 2030, que pretende criar uma rede nacional de espaços preparados para proteger residentes e visitantes durante períodos de calor extremo.

Mas afinal, o que são refúgios climáticos? E porque poderão tornar-se tão importantes como os parques urbanos ou as bibliotecas?
O que são refúgios climáticos?

Os refúgios climáticos são espaços gratuitos onde qualquer pessoa pode encontrar conforto térmico durante uma vaga de calor.

Podem ser espaços interiores, como bibliotecas, museus, centros comerciais, equipamentos culturais, igrejas ou edifícios públicos climatizados, mas também espaços exteriores desde que ofereçam sombra, vegetação e condições adequadas de descanso.

Para integrarem a rede devem disponibilizar, sempre que possível:
  • sombra natural ou artificial;
  • vegetação;
  • água potável;
  • zonas de descanso;
  • instalações sanitárias;
  • boa ventilação ou climatização;
  • acessibilidade para pessoas com mobilidade reduzida;
  • informação sobre proteção durante ondas de calor.

O objetivo é simples: permitir que qualquer pessoa possa encontrar rapidamente um local seguro para recuperar do calor intenso.

Os grupos mais vulneráveis incluem idosos, crianças, pessoas com doenças crónicas, trabalhadores expostos ao exterior e famílias que vivem em habitações sem condições adequadas de isolamento térmico.

Em Portugal, muitas casas permanecem demasiado quentes durante o verão devido à pobreza energética, tornando os refúgios climáticos uma extensão do próprio espaço habitacional durante os dias mais extremos.

Barcelona tornou-se uma referência mundial
Uma das cidades que mais tem investido nesta estratégia é Barcelona.

A cidade iniciou a sua rede em 2020 com cerca de 70 espaços e atualmente disponibiliza centenas de refúgios climáticos distribuídos por praticamente todos os bairros. O objetivo é que todos os residentes tenham um refúgio a menos de cinco minutos a pé de casa.

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, um refúgio climático não é apenas um edifício com ar condicionado.

Barcelona definiu critérios rigorosos para estes espaços, incluindo temperatura adequada, acesso gratuito, água potável, casas de banho e zonas para descansar. Nos espaços exteriores, exige igualmente sombra e áreas verdes.

A cidade utiliza bibliotecas, escolas, museus, centros cívicos, mercados e parques urbanos, todos identificados através de sinalização própria e integrados num mapa digital acessível aos cidadãos.

Lisboa também começa a dar passos

Em Portugal, Lisboa tem vindo igualmente a desenvolver soluções.

Além de vários jardins, bibliotecas, museus e equipamentos culturais que funcionam como locais de abrigo durante episódios de calor extremo, foram criados mapas que identificam estes espaços, permitindo aos cidadãos encontrar rapidamente um local para descansar e refrescar-se.

Investigadores portugueses têm também desenvolvido ferramentas que ajudam a identificar as zonas da cidade mais vulneráveis ao calor, cruzando informação como:
  • intensidade da ilha de calor urbana;
  • densidade populacional;
  • distância a parques e jardins;
  • existência de árvores;
  • proximidade de bibliotecas e outros equipamentos públicos.
Esta análise permite priorizar os locais onde novos refúgios climáticos poderão ter maior impacto.

Adaptar a cidade, não apenas criar edifícios frescos
Os especialistas defendem que os refúgios climáticos são apenas uma parte da solução.
O verdadeiro desafio passa por transformar as cidades para que estas sejam naturalmente mais frescas.

Algumas das medidas mais eficazes incluem:
  • plantar mais árvores nas ruas;
  • criar corredores verdes;
  • instalar estruturas de sombra temporárias ou permanentes;
  • substituir superfícies impermeáveis por materiais mais permeáveis;
  • aumentar as zonas com água, como fontes e espelhos de água;
  • reduzir áreas asfaltadas;
  • criar microflorestas urbanas;
  • instalar bebedouros públicos;
  • preservar corredores naturais de ventilação;
  • diminuir o tráfego automóvel, reduzindo o chamado calor antropogénico.
Mesmo pequenas intervenções podem fazer diferença. Em Lisboa, por exemplo, projetos experimentais recorreram a estruturas têxteis para criar sombra em espaços onde a plantação de árvores não era possível, demonstrando que soluções simples podem melhorar significativamente o conforto térmico.

Os mapas podem salvar vidas
À medida que as ondas de calor se tornam mais frequentes, os mapas digitais assumem um papel cada vez mais importante.

Saber onde existe um refúgio climático próximo pode ser tão importante como localizar um hospital ou uma farmácia.

Aplicações móveis, sistemas de informação geográfica e plataformas de turismo podem integrar estes locais, permitindo aos utilizadores encontrar rapidamente um espaço fresco, verificar horários de funcionamento e receber indicações através da geolocalização.

A informação torna-se assim uma ferramenta de proteção da saúde pública.

Um investimento na adaptação ao calor extremo
Durante décadas, o planeamento urbano privilegiou o automóvel, o betão e a impermeabilização do solo. Hoje, as prioridades começam a mudar.

Criar cidades mais resilientes passa por aumentar a sombra, reforçar os espaços verdes, recuperar zonas de água e garantir que todos têm acesso a locais seguros durante as ondas de calor.

Os refúgios climáticos representam uma resposta concreta, relativamente simples e de rápida implementação, que pode proteger milhares de pessoas enquanto as cidades se adaptam aos períodos de calor extremo.

Ler mais:

terça-feira, 4 de agosto de 2026

She Past Away - Ritüel

Melhor som aqui
Letra
[Bölüm 1] 4X
Kemiriyor böcekler
Direniyor kemikler
Acıyı hisset!
Benimle dans et!

[Bölüm 2]
Gömülüyor
Kör boşluğa

Tradução
Insetos cortantes
Ossos resistindo
Sinta a dor!
Dança comigo

Ele está enterrado
Cegueira

She Past Away, "Ritüel", Wandinha e Nadja: a anatomia musical, literária e gótica do fenómeno Darkwave

O arranque de "Ritüel" é amplamente considerado uma das introduções mais magnéticas e eficientes da darkwave e do post-punk contemporâneo porque constrói uma tensão hipnótica e imediata com um minimalismo cirúrgico. A introdução não perde tempo com passagens graduais e estabelece logo nos primeiros segundos uma atmosfera claustrofóbica e altamente dançável. Essa força resulta da combinação perfeita entre o pulsar mecânico de uma linha de baixo sintetizada grave com a cadência seca de uma bateria eletrónica de estética oitentista. Essa base ritmada e implacável funciona como um motor contínuo que agarra o ouvinte e impõe uma marcha sombria, remetendo diretamente à energia das pistas de dança alternativas dos clubes góticos.

Sobre essa estrutura rítmica densa, a banda introduz um riff de guitarra elétrica com timbre limpo, carregado de efeitos de chorus e delay, que contrapõe o peso dos graves com notas agudas, cortantes e profundamente melancólicas. Em menos de trinta segundos, os She Past Away empilham com mestria todas as suas camadas fundamentais - o ritmo industrial, a pulsação do sintetizador e a melodia sombria da guitarra -, criando um contraste fascinante entre a urgência da dança e o peso da angústia existencial. É essa simplicidade geniosa e a transição fluida para o tom vocal grave de Volkan Caner que tornam a abertura da canção um momento instantaneamente reconhecível, eletrizante e memorável.

A sonoridade e a identidade do duo turco She Past Away enraízam-se profundamente nas tradições da literatura gótica, do romantismo sombrio e do existencialismo filosófico. Nas composições escritas em turco por Volkan Caner, a poética soturna inspira-se no pessimismo existencial de pensadores como Arthur Schopenhauer, Friedrich Nietzsche e Jean-Paul Sartre, traduzindo em versos o absurdo da rotina, o vazio existencial, a alienação urbana e a decadência interior. No campo literário, o clima melancólico da banda estabelece um diálogo direto com a poesia maldita e o simbolismo de Charles Baudelaire, a atmosfera trágica e macabra de Edgar Allan Poe, a decadência romantizada de Lord Byron e os cenários psicológicos claustrofóbicos de Franz Kafka. Essa fusão transforma canções como "Ritüel" em verdadeiras crônicas sobre a dor de existir, a finitude humana e o isolamento psíquico, traduzindo conceitos filosóficos densos em hinos do pós-punk e da darkwave.

Essa forte carga estética explica por que a música do duo é frequentemente associada à produção audiovisual contemporânea de estética sombria, como no caso do famoso vídeo de "Ritüel" que utiliza cenas de Wednesday ("Wandinha") - a série da Netflix protagonizada por Jenna Ortega e codirigida por Tim Burton. A série está profundamente ligada ao universo gótico, atuando como uma releitura moderna do gênero e da própria subcultura goth. Essa conexão manifesta-se no estilo visual da personagem principal, com o seu guarda-roupa monocromático, fascínio pela morte e postura cínica, elementos que resumem o arquétipo do romantismo sombrio. Além disso, a arquitetura neogótica da Nevermore Academy, cercada por florestas densas, gárgulas e mistérios sobrenaturais, resgata a tradição dos romances góticos clássicos dos séculos XVIII e XIX.

A célebre cena de dança do episódio 4 no baile RaveN sintetiza perfeitamente essa ponte entre o universo gótico da televisão e a cena musical darkwave. Para criar a coreografia, Jenna Ortega inspirou-se em movimentos característicos dos clubes góticos dos anos 80 e em ícones do pós-punk como Siouxsie Sioux, Lene Lovich e movimentos de bandas do rock gótico original. A atitude performática da dança, combinada com a atmosfera sombria do evento, fez com que as edições de fãs (fan edits) utilizando a sonoridade hipnótica e acelerada do She Past Away se tornassem um casamento perfeito no imaginário digital, unindo a nova onda do gótico na cultura pop às raízes literárias e filosóficas que sustentam o género até hoje.


Ver o filme Nadja (1994) completo aqui

Nadja (1994) é um filme independente norte-americano escrito e dirigido por Michael Almereyda, contando com a produção executiva de David Lynch, que também faz uma breve aparição na obra. O longa-metragem reinterpreta o mito do vampirismo sob uma ótica vanguardista e existencialista, transportando a herança de Drácula para o ambiente urbano e soturno da Nova Iorque dos anos 90.

A narrativa acompanha Nadja (interpretada por Elina Löwensohn), a filha do lendário Conde Drácula. Após a morte do pai, ela vagueia pelas ruas de Manhattan numa procura melancólica por libertação pessoal, ligação humana e pelo seu irmão gémeo, Edgar. No processo, Nadja seduz Lucy, uma mulher casada com Jim, desencadeando uma espiral de obsessão e segredos familiares. Ao mesmo tempo, Dr. Van Helsing - interpretado por Peter Fonda como um caçador de vampiros excêntrico e quase alheado - junta-se ao sobrinho para perseguir e eliminar os últimos descendentes da linhagem do conde.

Mais do que um filme de terror convencional focado no susto, a obra utiliza o vampirismo como uma metáfora para a solidão contemporânea, o vício, o luto e a alienação urbana. Visualmente, o filme destaca-se pelo uso de fotografia em preto e branco combinada com cenas capturadas pela câmara PXL-2000 - um brinquedo da Fisher-Price que gravava em fita de áudio -, o que confere às sequências um aspeto granulado, hipnótico e quase de sonho. Acompanhado por uma banda sonora marcante com nomes do rock alternativo da época, como Portishead e My Bloody Valentine, o filme consolidou-se como um clássico de culto do cinema independente da década de 1990.