Bioterra
Blogue de Educação Ambiental, iniciado em 01.04.2004
terça-feira, 3 de novembro de 2026
Ane Brun ft. Röyksopp - Eat The Fruit
Vale Eficiência II: lavagem verde ou impossível no terreno?
A pobreza energética em Portugal não é novidade para ninguém. Quem vive numa casa fria no inverno e num forno durante o verão sabe bem como o isolamento do nosso edificado deixa a desejar. É precisamente aqui que entra o Programa Vale Eficiência (PVE). Depois dos avanços e recuos no terreno, o Governo anunciou o contacto a 28 mil famílias vulneráveis para a atribuição dos vales que tinham ficado pendentes. Mas a pergunta que muitos fazem continua no ar: esta medida muda mesmo a vida das pessoas ou fica só bonito no papel?
Olhando para a ideia de base, a intenção é acertada. Em vez de andar a subsidiar a fatura da luz mês a mês - o que apenas tapa o sol com a peneira -, o programa tenta resolver a raiz do problema. Como estava dar até três vales por família (o que pode somar 3.900 euros mais IVA) para trocar janelas antigas por caixilharia de classe A, colocar bombas de calor ou instalar painéis solares é uma ajuda substancial. Para quem conta os tostões ao fim do mês, seria impossível fazer este investimento do próprio bolso.
Outro ponto a favor é a promessa de cortar na burocracia. Acabar com a obrigatoriedade do facilitador técnico e abrir uma plataforma mais direta entre as famílias e os fornecedores é um passo lógico. Se há coisa que matou a primeira fase do programa foi a lentidão e a complicação dos processos. Porém surge a dúvida persistente: por que razão o apoio passou de até três vales para apenas um?
Há vários obstáculos que explicam a desconfiança de quem está no terreno:
- Os preços do mercado subiram: três vales ajudam, mas cobrir a troca de janelas numa casa inteira ou comprar equipamentos térmicos modernos hoje em dia custa bem mais do que isso.
- Muitas famílias vulneráveis não têm um euro de sobra para cobrir a diferença exigida pelos empreiteiros.
- O estado real das habitações também conta: trocar de janelas numa casa que tem o telhado a meter água ou paredes cheias de humidade estrutural serve de muito pouco.
- O programa apoia o equipamento, mas muitas destas casas precisavam de obras de fundo primeiro.
- A isto soma-se a falta de fornecedores em certas zonas: fora dos grandes centros urbanos, a oferta de empresas aderentes ao programa é curta.
- Há famílias com o vale na mão que simplesmente não encontram quem vá lá fazer o serviço dentro dos prazos.
No fim de contas, o Vale Eficiência não é um mau programa - tem pés e cabeça. Só que o sucesso de uma política pública não se mede pelos vales atribuídos nas notícias, mede-se pelo conforto térmico que chega à casa das pessoas. Se esta nova fase mais simples funcionar e as obras saírem rapidamente do papel, a medida cumpre a sua função. Se os vales continuarem empacados em burocracias e margens de orçamento que as famílias não podem pagar, será mais um capítulo de boas intenções que pouco mudou no país.
Nemonte Nenquimo explica porque é que o Ocidente precisa de ser resgatado
A líder Waorani afirma que milénios de convivência harmoniosa com o meio ambiente conferem aos grupos indígenas uma perspectiva única sobre o Ocidente consumista.
Cada criança Waorani conhece a história da boca da jiboia. Como a cobra avança lentamente, observando, os seus movimentos quase imperceptíveis, antes de atacar, engolindo toda a sua vítima.
Nemonte Nenquimo conhece a dentada da jibóia. Encantada em menina pelos olhos azuis e pelos vestidos coloridos de uma menina missionária americana na sua aldeia amazónica no Equador , aceitou ser batizada e saiu de casa para estudar numa escola da igreja.
“O meu avô costumava dizer-me que o sistema global de dinheiro e bens materiais é como uma jiboia. Atrai as pessoas, enfeitiça”, diz o ativista indígena de 41 anos. “É um facto, eu vivi isso.”
A Nenquimo de hoje percorreu um longo caminho desde a adolescência. Aclamada pela revista Time como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo , esta ativista pelos direitos indígenas identifica-se com orgulho como “mãe, líder e guerreira da Amazónia”.
Vestida com trajes cerimoniais, os olhos cobertos por um corante vermelho feito com sementes de anato e com uma faixa sagrada de fibra de palmeira na cabeça, esteve na Europa em setembro para receber o prémio Gulbenkian de 1 milhão de euros para a humanidade .
O prémio reconhece a liderança da Aliança Ceibo , uma coligação de quatro povos da floresta que abrange o Equador, o Peru e a Colômbia, que ajudou a cofundar em 2014 e que luta para defender as terras e as culturas amazónicas.
Nascida numa comunidade Waorani no sul da Amazónia equatoriana, Nenquimo ganhou destaque internacional ao publicar uma carta aberta aos líderes mundiais na qual, entre outras verdades contundentes, denunciou o “homem branco que sabe muito pouco para o poder que exerce”.
A carta que se tornou viral foi motivada pela pandemia de Covid-19, que ceifou a vida a milhares de povos da floresta amazónica, incluindo a do proeminente cacique Kayapó Paulinho Paiakan .
“O mundo exterior vem com belas palavras: ‘Nós salvamos, nós trazemos um projeto de salvação’, [mas] vocês não estão a salvar; vocês estão realmente a matar o meu povo, os meus antepassados, o meu território”, diz ela.
Através da Aliança Ceibo, Nenquimo tem-se empenhado em resistir à invasão do mundo exterior. A “pilhagem” da floresta amazónica, um polo de atração para madeireiros, petrolíferas, criadores de gado e garimpeiros nas últimas décadas, é um tema recorrente. Há anos, ela liderou uma ação judicial bem-sucedida contra a decisão do governo equatoriano de conceder uma licença para a exploração de petróleo numa área de 202.000 hectares (500.000 acres) de terras históricas Waorani.
Outras táticas implementadas pela aliança incluem um sistema de "guarda indígena" , onde as patrulhas voluntárias utilizam drones, câmaras de monitorização e outros equipamentos de vigilância para rastrear incursões ilegais nas suas terras.
Mas a oposição é feroz. No ano passado, após um protesto nacional organizado pelo principal grupo indígena do Equador (Conaie), a Aliança Ceibo viu as suas contas bancárias congeladas sem aviso prévio.
A violência de gangues de narcotraficantes e de garimpeiros ilegais está também a alastrar para os territórios indígenas, alerta Nenquimo. Na vizinha Colômbia, por exemplo – que inclui territórios de dois dos grupos étnicos da Aliança, os A’i Cofán e Siona – 39 activistas dos direitos territoriais foram assassinados no ano passado, quase um terço de todos os assassinatos deste tipo no mundo.
A sua luta vai para além da proteção da terra. A incursão dos cowori (palavra waorani para "homem branco") está também a minar as ricas tradições linguísticas, culturais e espirituais dos povos da floresta, defende ela.
“Através da sua ‘salvação’, desligam-nos da nossa própria ligação com as plantas, com o espírito do jaguar, com a cura”, diz ela. “O povo Waorani começou mesmo a deixar de tomar ayahuasca, que é uma medicina sagrada para todos os povos da Amazónia.”
No entanto, Nenquimo rejeita veementemente qualquer narrativa de vitimização. Ela afirma que é o Ocidente que precisa realmente de ser resgatado. Além disso, a defensora da floresta tropical acredita que grupos como o seu têm as respostas na mão.
Em primeiro lugar, o Ocidente tem o imperativo de se reconectar com a Mãe Terra. A floresta, como Nenquimo gosta de dizer, é o “mercado, farmácia, loja de ferragens e local de culto” da sua comunidade. Destruí-la, portanto, é pôr em risco a sua sobrevivência.
“Não somos destruidores. Não poluímos o rio. O ouro é o que temos de deixar. O petróleo é o sangue dos nossos antepassados”, diz ela. “A água que se bebe, o ar que se respira – como povos indígenas , estamos a proteger tudo isto.”
A ligação com a natureza estende-se à ligação com aqueles que a habitam e protegem, acrescenta. Milénios de convivência em harmonia com o meio ambiente conferem aos grupos indígenas conhecimentos únicos que o Ocidente consumista obteria ao redescobri-los. Daí a sua antipatia por organizações de solidariedade internacionais e outros grupos bem-intencionados que impõem soluções de sustentabilidade fruto da sua própria mentalidade de mercado, como os programas de crédito de carbono e a agricultura comercial “sustentável”.
No seu recente livro de memórias, " We Will Not Be Saved" (Não Seremos Salvos) , Nenquimo vai mais longe, defendendo que "a conectividade envolve responsabilidades"; principalmente para aqueles que se encontram em economias industrializadas, que devem estar atentos à jibóia e questionar a sua procura de um crescimento económico implacável.
Aprender a ultrapassar as barreiras que nos dividem também é fundamental, afirma. Como união de povos distintos com um historial de conflitos intertribais, a Aliança Ceibo demonstra, em microcosmo, o que é possível quando antigas inimizades são deixadas para trás.
Esta viagem começa com a empatia, diz ela. Nas suas memórias, recorda ter percebido que, para que os juízes do seu caso judicial histórico a "verdadeiramente a vissem", também precisava de os ver: "Não como inimigos... não como caricaturas de conquista, mas sim como pessoas."
Por último, e talvez o mais difícil, é encontrar a humildade para ouvir genuinamente e a força para amar verdadeiramente. Esta líder Waorani tem todas as razões para odiar os cowori: sob o seu domínio, doenças, poluição, desflorestação e, na sua própria experiência, abusos sexuais foram infligidos ao seu povo.
Se os países “desenvolvidos” do mundo devem ser salvos – do desejo de tomar, possuir e controlar – então reconhecer que os últimos povos “primitivos” remanescentes do planeta podem ter algo valioso a transmitir merece ser considerado, sugere ela.
“Se não tem mente nem coração para amar, então qual é o sentido? É só raiva, vontade de devorar, vontade de acumular”, diz ela. “Quando morrermos, partiremos com um espírito leve e pacífico. Não precisaremos de sofrer no nosso espírito.”
Fontes:
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segunda-feira, 2 de novembro de 2026
The Mission - Tower Of Strength
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Compre agora pague depois muda a 20 de novembro e Portugal não tem lei
Uma semana antes da Black Friday, as regras do “compre agora, pague depois” vão mudar na União Europeia. A partir de 20 de novembro de 2026, os pagamentos em prestações sem juros, como os que muitas lojas e plataformas oferecem no checkout, passam a ser tratados como crédito ao consumo. Mas há um problema: Portugal ainda não tem lei nacional para aplicar a regra.
O que muda a 20 de novembro
A mudança vem da segunda diretiva do crédito ao consumo, a Diretiva (UE) 2023/2225. Entre outras coisas, elimina o limite mínimo de 200 euros e passa a abranger também os créditos sem juros, o que inclui as soluções de “compre agora, pague depois”. Há uma exceção: acordos em que o próprio comerciante permite pagar mais tarde, sem encargos e dentro de um prazo limitado. O artigo que consultei não indica quanto dura esse prazo.
O que ganhas como consumidor
Quando o pagamento em prestações passa a ser crédito ao consumo, o prestador de crédito tem de cumprir mais obrigações. Antes de contratares, tem de te dar informação mais clara: o valor financiado, o número e o montante das prestações, os juros, as comissões e o custo total do crédito. Tem também de avaliar a tua capacidade financeira e fica proibido de conceder crédito não solicitado.
Tens ainda direito a desistir do contrato no prazo de 14 dias, sem teres de justificar. Para quem costuma comprar em campanhas como a Black Friday, isto pode ser um travão a compras por impulso que acabam em dívidas difíceis de gerir.
O problema: Portugal ainda não aprovou a lei
O prazo para os Estados-Membros transporem a diretiva para o direito nacional terminou a 20 de novembro de 2025. Entretanto Portugal ainda não tem legislação nacional que concretize a diretiva. A ASFAC, a associação do setor financeiro, considerou “impossível” aplicar o novo regime na data prevista e pediu um ano para adaptação. Segundo a mesma fonte, não existia sequer um projeto de lei conhecido.
Isto não quer dizer que as regras não existam. Alguns juristas defendem que os consumidores poderão invocar a diretiva mesmo sem transposição, mas a notícia ressalva que não há garantia de sucesso.
O tema é relevante porque cada vez mais portugueses usam este tipo de pagamento. Segundo um inquérito da Klarna 32% dos portugueses usaram o “compre agora, pague depois” nos últimos 12 meses, contra 8% em 2024.
O que fazer até lá
Na prática, não deves contar com um novo nível de proteção só porque a data chegou. Antes de aceitares pagar em prestações, lê o que te mostram: quantas prestações são, quanto pagas no total, se há juros ou comissões e o que acontece se falhares um pagamento. Se a loja não for clara, desconfia. E lembra-te de que um pagamento fracionado continua a ser uma dívida, mesmo quando o preço parece o mesmo.
[Fonte]
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A crise do socialismo e a crise da democracia social-democrata em Portugal: "Ninguém vai para a rua apanhar pancada"
Fonte - Público
A sondagem (Pitagórica), revela o apoio massivo à causa (69%) e às manifestações (74%), apenas discordando do recurso a tendas (60%) [Fonte] Além disso este levantamento mostra também que a intervenção policial para retirar as tendas dos manifestantes no Porto recebeu mais avaliações negativas do que positivas.
A crise do socialismo e da social-democracia em Portugal
O PS em Portugal é um rebento genético e ideológico do SPD alemão. Quando o PS português foi fundado, em 1973 na Alemanha, inspirou-se fortemente no modelo do SPD alemão que o financiou durante muitos anos. São partidos muito próximos e entraram juntos na ‘Terceira Via’ pelas mãos de Schröder e Guterres. Por isso é muito interessante ver o que o SPD alemão está, neste momento, a fazer no meio da crise da habitação que se vive também em Berlim (por sinal, muito menos grave do que a de Lisboa ou do Porto).
Depois do Die Linke (partido da esquerda socialista) ganhar as eleições na cidade de Berlim, no mês passado, o governo federal com os ‘socialistas’ do SPD, decidiu avançar e acelerar uma lei federal para travar e impossibilitar o plano municipal do Die Linke que tem no seu programa a socialização de casas de grandes fundos imobiliários (devidamente indemnizados). Isto, apesar da Constituição da Alemã, o Grundgesetz, prever expressamente a socialização do solo e de imóveis e a sua entrada na esfera pública.
E porque é que os ‘socialistas’ do SPD querem a toda a velocidade avançar com a nova lei e travar a socialização de solos e de imóveis?
Porque não querem que o município gerido pelo Die Linke exproprie e compre para a cidade de Berlim parte dos apartamentos geridos por grandes empresas e fundos imobiliários privados. O objetivo da medida do Die Linke é transferir cerca de 200.000 a 240.000 habitações para o controlo público e baixar os preços das rendas na capital alemã. Os alvos principais são 12 grandes fundos imobiliários na capital alemã e a medida apoia-se num referendo popular de 2021. O plano visa só fundos imobiliários proprietárias com mais de 3.000 habitações na capital alemã, só o excedente seria municipalizado. Mas o SPD, padrinho do PS, é contra e vai, juntamente com a CDU do chanceler Merz, em grande coligação, impedir que a crise da habitação se resolva em Berlim pelo modelo austríaco de Viena (cidade considerada como tendo a melhor qualidade de vida da Europa e onde não há gentrificação nem crise na habitação porque 60% do parque habitacional pertence ao município e a cooperativas públicas).
Ironicamente na habitação a confortável situação actual de Viena vem da época - entre 1919 e 1934 - em que foi governada pelos socialistas do SPÖ, antes de se afastarem formalmente do marxismo em 1958 e de aceitarem as premissas do neoliberalismo nos anos zero (à semelhança do SPD alemão com o seu programa de Bad Godesberg de 1959). Na habitação a cidade de Viena preservou ao longo de um século os bons princípios da igualdade e solidariedade.
E se nos lembrarmos da alienação do património de Lisboa, realizado pelo António Costa e o Medina, venderam terrenos, palacetes, prédios. Muitos dos prédios da minha rua foram vendidos a privados com despejos e hoje estão ali ao abandono. É a política desta gente igual ao SPD.
Estudo
Notícia do dia
Recordatória
Mergulhar na floresta urbana: um refúgio contra o ruído e o vazio cívico
Vivemos a era do citizen washing: auscultam-se os cidadãos por conveniência, criam-se campanhas de fachada social, mas na hora de decidir, a urgência dá lugar ao espetáculo e ao empurrar de barriga.
Passeando um pouco. Mergulhar na floresta, mesmo urbana, ajuda a equilibrar o balanço de uma semana que passou, bem dura, distópica e agora uma nova semana, imprevisível, como sempre. O balanço de 2026 está quase a chegar. Pessoalmente teve dias bons e meses de indignação e uma sensação de vazio cívico.
Da televisão às redes socias falta o discurso neutro, imparcial e de lucidez cívica. Premeia-se o "exótico" e não as questões estruturais, que adiamos incessantemente, empurrando a barriga para as próximas gerações?
O conceito de "citizen washing" (ou civic washing) encaixa no tom da minha reflexão: refere-se ao uso performativo da participação cidadã ou da responsabilidade social-cívica por parte de instituições, empresas ou agentes políticos. Cria-se uma ilusão de compromisso com a comunidade e com as gerações futuras, enquanto na prática as decisões estruturais continuam a ser adiadas ou ignoradas.
E o mais incrível e triste, é que é um fenómeno global [estudo]
Leituras de hoje
Outras leituras
A acampada passa a ser legal. Será agora que a bastonada passa a ilegal?
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| Fonte: [Público] |
Com o apoio de mais de 400 advogados, que defenderam o direito à manifestação, as acampadas de Lisboa e do Porto têm resistido à ordem, argumentando que as tendas são um elemento simbólico. A PSP já avançou, por quatros vezes, com cargas policiais, provocando mais de uma centena de feridos até agora. A PSP argumenta que também tem sido atacada e contabiliza 13 feridos na madrugada de domingo em Lisboa.
Depois temos o burgesso do ministro da economia, Manuel Castro Almeida, a falar nos altos custos dos solos, como motivo dos altos custos da habitação, tudo isso visando tornar urbano o que até aqui foi rústico, num pleno assalto à natureza. E tens parques supostamente naturais a saque, como o de Sintra-Cascais.
Já há um chorrilho de sátira política nas redes sociais. Li um assim "Quero reservar, no Rossio, tenda tamanho T4, para 5 pessoas, no período de 15 a 31 de dezembro. É necessário algum pré-pagamento? Grato!" Resposta:
"Eu posso-lhe arrendar, as condições são estas: Quechua para 4 pessoas, é fresh&black. 2 colchões insufláveis com bomba incluída, 2 sacos de cama, mesa dobrável, placa elétrica, frigorífico com rodas.
3 mil euros por mês.
2 cauções
Não podem levar animais (leia-se fachos) nem podem fazer barulho para perturbar a manifestação.
Empresto uns cravos."
Entretanto, leio que as dormidas no alojamento turístico teve maior crescimento em 4 meses em setembro - INE
Em conclusão
Incomodam mais as tendas do que as razões que levam os jovens a montá-las. Indigna mais a pobreza à vista de todos do que a falta de futuro que a torna inevitável. É esta a sociedade que construímos: tão preocupada em afastar o que incomoda, tão pouco disposta a enfrentar o que o provoca.
Diz não ao pacote Omnibus X- pela saúde, abelhas e agricultores
O Conselho da UE votou favoravelmente a lei Food and Feed Safety Omnibus . E o resultado preocupa-nos.
Mas o Parlamento Europeu ainda não votou e é aí que ainda podes fazer a diferença.
Cinco especialistas em direitos humanos da ONU alertaram recentemente para os riscos da proposta Food and Feed Safety Omnibus, que poderá enfraquecer as regras de proteção contra pesticidas perigosos, prolongando a exposição a substâncias nocivas. Os agricultores, os trabalhadores agrícolas, as comunidades rurais e as crianças estão entre os grupos mais vulneráveis.
A 5 de novembro, os Eurodeputados das comissões de Ambiente e Agricultura decidem se pesticidas já reconhecidos como perigosos para a saúde e para o ambiente continuam a ser usados durante as próximas décadas.
Pesticidas que a ciência já provou serem perigosos para a saúde humana vão continuar a ser usados nas culturas, a infiltrar-se nos solos e a chegar às fontes de água, durante mais 15 a 25 anos. Não porque são seguros. Porque se decidiu que podem ficar.
Com menos controlo. Sem que novos dados científicos obriguem a agir.
Os Eurodeputados portugueses estão nessa sala. E quando os cidadãos falam, eles ouvem, especialmente antes de uma votação.
Em menos de 2 minutos, tu podes enviar uma mensagem diretamente aos Eurodeputados portugueses. É uma ação simples com um impacto real.
Saber mais
- Food & Feed Omnibus, co-written by the pesticide lobby
- PAN Europe position paper: Food and Feed Safety Omnibus threatens EU pesticide rules
- Analysis by Générations Futures: 49 pesticides at risk of unlimited approval
- Legal opinion on The Lawfulness of the Planned Amendments through the „Food and Feed Safety Omnibus“
O que está em causa?
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A austeridade real em Portugal: o que a "Maçã da Terra" de Van Gogh nos ensina sobre a crise da habitação
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| Vincent van Gogh, Os Comedores de Batatas (De Aardappeleters, 1885) |
Vale a pena olhar para a realidade estatística do nosso país antes de generalizar. Esses comportamentos de ostentação que vemos - os carros topo de gama, as marcas e as viagens exóticas - representam na verdade a realidade de apenas cerca de 10% da população mais abastada em Portugal. O problema é que esses 10% ganham uma visibilidade desproporcionada através das redes sociais, da televisão, dos reality shows e do futebol, criando a falsa ilusão de que "está tudo a gastar à grande".
A imensa maioria das pessoas vive uma realidade completamente oposta e invisível.
Esta disparidade faz lembrar a essência do famoso quadro de Vincent van Gogh, Os Comedores de Batatas (De aardappeleters, em holandês). A própria etimologia da palavra revela a sua simplicidade: aarde (terra) e appel (maçã) - os "comedores da maçã da terra". Retrata o tempo em que os agricultores holandeses saciavam a sua fome com o alimento mais básico e acessível que a terra lhes dava, num esforço diário focado na pura subsistência.
Hoje, a grande barreira para a nossa geração já não é a falta de vontade de poupar, mas sim uma limitação económica e bancária estrutural. Há vinte ou trinta anos, os bancos financiavam frequentemente 100% do valor da habitação. Hoje, devido às regras bancárias e à inflação dos preços do mercado imobiliário, os bancos exigem uma entrada inicial mais despesas (IMT e Imposto do Selo) que facilmente ultrapassam os 20.000 € a 30.000 € em capital próprio.
Com a média salarial em Portugal (uma das mais baixas da Europa) tão desfasada do custo de vida e a recibos verdes, onde a renda de uma casa absorve com frequência mais de metade do ordenado líquido, torna-se matematicamente impossível para a maioria dos jovens e trabalhadores juntar esse valor, mesmo vivendo em rigorosa austeridade sem ir a restaurantes ou férias.
Tal como os camponeses de Van Gogh, a prioridade da maioria das famílias continua a ser a subsistência diária e o essencial. Nesses casos, a ausência de casa própria não resulta de irresponsabilidade, frivolidade ou "cultura de dependência", mas sim de um bloqueio financeiro inultrapassável.
Em conclusão: a transição para um estilo de vida mais sustentável deve caminhar lado a lado com a justiça social e económica, pois não há sustentabilidade real quando a prioridade de uma população é a mera sobrevivência diária.
GHOST COP - All Souls Days
A canção "All Souls Day", da dupla nova-iorquina Ghost Cop - constituída pela vocalista e compositora Lucy Swope e pelo produtor Sean Dack -, movimenta-se entre os universos do dark synthpop, do synthwave e do pós-punk eletrónico. O seu som é frequentemente associado à estética da Tragic Wave, uma vertente da darkwave que cruza ritmos dançáveis com um dramatismo profundo e lírico, traduzindo a postura daquilo a que a própria banda chama "feel-bad dance music". Paralelamente, a herança da cena de Nova Iorque faz sobressair influências do movimento No Wave, perceptíveis nas linhas de baixo frias e repetitivas, na produção minimalista e numa atitude crua e niilista que rejeita a polidez do synthpop comercial.
O título da faixa faz referência direta ao Dia de Finados, servindo de metáfora para o luto por versões passadas de si mesmo, o isolamento urbano e a convivência com memórias e traumas antigos. No plano visual, o videoclipe oficial - realizado e dirigido pelos próprios membros da banda, Sean Dack e Lucy Swope - adota uma estética cinematográfica inspirada no cinema giallo, no terror B dos anos 80 e na fotografia cyberpunk, recorrendo a cenários claustrofóbicos e luzes de néon para materializar um purgatório mental urbano.
Do ponto de vista concetual, a obra constrói um ecossistema filosófico e literário denso, sustentado em três eixos fundamentais:
- Existencialismo e Angústia (Sartre e Camus): ao confrontar o ouvinte com a finitude, o vazio e a repetição de padrões emocionais, a narrativa lírica aproxima-se das noções de náusea de Jean-Paul Sartre e do absurdo de Albert Camus. A canção explora o peso da responsabilidade e da liberdade individual num mundo desprovido de sentido transcendente, onde o indivíduo se encontra isolado, obrigado a encarar a angústia da sua própria existência e a dor de não conseguir escapar a si mesmo.
- Romantismo Sombrio e Gótico Urbano (Poe e Baudelaire): A atmosfera da faixa recupera a obsessão pela decadência, pelo luto e pela beleza trágica. Tal como nos contos de Edgar Allan Poe, há uma atração fatalista pelo mórbido e pelos fantasmas interiores da psique. Simultaneamente, a obra dialoga com o gótico urbano de Charles Baudelaire e o seu conceito de spleen - a melancolia profunda e o tédio existencial gerados pelo isolamento na metrópole moderna, onde a multidão intensifica a solidão do indivíduo.
- Fantologia e Textura Sonora (Hauntology / Mark Fisher): Toda esta estrutura culmina numa manifestação do conceito de hauntology (fantologia), teorizado por Jacques Derrida e aplicado à música por Mark Fisher. Esta dimensão não se revela apenas na letra, mas na própria escolha dos instrumentos: ao utilizar sintetizadores analógicos retro, baixos sintetizados ásperos e texturas sonoras vintage, os Ghost Cop invocam a estética de uma época passada que já não existe. O som funciona como uma "fantasmagoria tecnológica", onde os timbres analógicos carregam uma nostalgia assustadora — o presente surge bloqueado e continuamente assombrado pelos escombros de relações findadas, por versões mortas de si próprio e por promessas de futuros que nunca se chegaram a concretizar.
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domingo, 1 de novembro de 2026
Da Islândia à Habitação: o poder da arte e da cultura na transformação social
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| António Gouveia - Terraço ao anoitecer (2026) |
Claro que não fico indiferente ao que aconteceu esta madrugada.
A madrugada tem esta magia: é quando o ruído do dia cala e a arte ganha espaço para nos fazer pensar com mais clareza. A olhar para esta imagem e a refletir sobre como a cultura transforma o espaço onde vivemos, lembrei-me de como o poder da linguagem artística já mudou o rumo de um país inteiro. Lembram-se da Revolução dos Tachos e Panelas na Islândia em 2008? A revolta começou através de um movimento artístico e pacífico, culminando na queda do governo, na reestruturação bancária e numa proposta constitucional feita pelos próprios cidadãos.
No caso islandês de 2008–2009, durante a chamada Revolução dos Tachos e Panelas (Búsáhaldayfirlýsingin), a linguagem artística, o espetáculo público e a participação comunitária desempenharam um papel central. O poeta Hörður Torfason organizou vigílias e comícios semanais em frente ao parlamento, utilizando a música e a intervenção cultural para dar voz ao descontentamento social. No entanto, é fundamental situar a arte no seu verdadeiro contexto político. O motor imediato da revolta foi o colapso sistémico do sistema bancário islandês - que representava quase dez vezes o PIB do país -, a desvalorização drástica da coroa e o risco iminente de bancarrota das famílias. A arte funcionou como o fio condutor e o amplificador da indignação, ajudando a ocupar o espaço público de forma pacífica e inclusiva.
Ainda assim, a demissão do governo, a reestruturação da banca e o processo constituinte participativo resultaram da combinação entre essa pressão de rua contínua e os mecanismos institucionais e jurídicos subsequentes.
A verdadeira lição da Islândia para o Movimento pela Habitação não é que a arte substitua a ação direta ou a negociação política, mas sim que a linguagem artística tem o poder de retirar a luta dos círculos ativistas fechados e de a devolver à comunidade.
A linguagem artística revela-se profundamente eficaz na luta pela habitação porque humaniza o que normalmente é abstrato. Estatísticas sobre rendas, taxas de juro e despejos são frias, mas a intervenção cultural - seja através de teatro de rua, murais, fotografia documental ou instalações no espaço público - dá rosto e memória à crise habitacional.
Além disso, a arte desmantela a narrativa hegemónica que insiste em tratar a habitação como um mero ativo financeiro, redefinindo-a no imaginário coletivo como um direito humano e um espaço de vida.
Ao mesmo tempo, a presença da cultura em manifestações e acampadas fortalece os laços afetivos e comunitários, criando a resistência necessária para combater o desgaste e o esgotamento dos ativistas a longo prazo.
No Dia Mundial do Veganismo - História, Filosofia, Impactos Sociais e Análise Demográfica
O Dia Mundial do Veganismo: Origem Histórica e Filosofia
O Dia Mundial do Veganismo é assinalado anualmente a um de novembro, tendo sido instituído em 1994 por Louise Wallis para celebrar o quinquagésimo aniversário da fundação da Vegan Society no Reino Unido e a criação formal do termo vegan por Donald Watson. No entanto, a matriz ética de abstenção do consumo de seres sencientes remonta à Antiguidade, encontrando raízes no princípio de Ahimsa presente nas tradições filosóficas e religiosas do Jainismo, Hinduismo e Budismo na Índia, bem como nos ensinamentos do filósofo grego Pitágoras. Esta celebração anual visa consciencializar a sociedade para o impacto das escolhas diárias sobre o bem-estar animal, a sustentabilidade do planeta e a saúde humana.
Uma filosofia de vida e não apenas uma dieta
Do ponto de vista concetual, o veganismo não é uma mera dieta ou moda passageira, mas sim uma filosofia e um modo de vida estruturado. A definição oficial estabelecida pela Vegan Society decreta que o veganismo procura excluir, na medida do possível e do praticável, todas as formas de exploração e crueldade contra os animais para alimentação, vestuário, cosmética ou qualquer outro fim. Isto implica escolhas conscientes que vão além do prato de refeição, levando à rejeição de materiais como couro, lã e seda, à recusa de produtos testados em animais e à oposição a formas de entretenimento que utilizem a fauna em cativeiro, tais como circos, touradas ou jardins zoológicos.
Evidência científica e impacto ambiental
Os impactos do movimento na sociedade moderna são visíveis e contam com uma base crescente de fundamentação científica. O estudo analítico de Poore e Nemecek publicado na revista Science em dois mil e dezoito demonstrou que a produção animal ocupa oitenta e três por cento das terras agrícolas mundiais, mas fornece apenas dezoito por cento das calorias. Os investigadores concluíram que a transição global para uma alimentação de base vegetal poderia reduzir a ocupação de solos agrícolas em mais de setenta e cinco por cento. Além disso, o Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas da Organização das Nações Unidas destaca a transição alimentar como uma das ferramentas mais eficazes para a mitigação das emissões de gases de efeito de estufa e para a preservação dos recursos hídricos.
Dados demográficos em Portugal e na Europa
No âmbito demográfico, a adesão ao veganismo apresenta números significativos, embora ainda minoritários no total da população. Em Portugal, estudos de mercado promovidos pela consultora Lantern apontam para a existência de dezenas de milhares de veganos assumidos, com uma comunidade mais alargada de vegetarianos e flexitarianos que ultrapassa dez por cento da população adulta. Na União Europeia, a percentagem de pessoas que se identificam como veganas varia habitualmente entre um e quatro por cento, registando-se a maior taxa de adesão em países como a Alemanha, a Áustria e o Reino Unido, enquanto milhões de outros consumidores reduzem ativamente o seu consumo de carne e laticínios.
Cultura Pop ocidental ou raízes globais?
Embora muitas vezes seja conotado como uma tendência urbana do Norte Global impulsionada pela comercialização de produtos análogos à carne, a alimentação estritamente vegetal tem raízes profundas em várias regiões do Sul Global. A Índia acolhe centenas de milhões de vegetarianos devido a tradições milenares, a Igreja Ortodoxa Tewahedo na Etiópia prescreve longos períodos de jejum estritamente vegetal ao longo do ano e a cultura Ital associada ao movimento Rastafari na Jamaica promove a alimentação natural e isenta de produtos animais desde o início do século vinte. A imagem ocidental do veganismo associada a produtos processados é apenas a face comercial recente de uma prática alimentar cuja base histórica assenta em leguminosas, cereais e vegetais comuns a diversas culturas do planeta.
Exequibilidade prática versus utopia global
A questão da exequibilidade global do veganismo divide especialistas entre a utopia e a viabilidade prática. Por um lado, persistem barreiras socioeconómicas e geográficas reais, tais como desertos alimentares, populações que habitam ecossistemas não-aráveis como o Ártico e o forte enraizamento cultural do consumo de carne em comunidades rurais. Por outro lado, defensores da viabilidade apontam a eficiência energética do consumo direto de plantas, o avanço da biofabricação e o imperativo de sustentabilidade como fatores determinantes para que a transição vegetal deixe de ser encarada como uma utopia e passe a ser adotada como uma necessidade estratégica de sobrevivência do planeta.
Referências bibliográficas e documentos analíticos
- Academy of Nutrition and Dietetics (2016). Position of the Academy of Nutrition and Dietetics: Vegetarian Diets. Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics, 116(12), 1970-1980.
- IPCC (2019). Special Report on Climate Change, Desertification, Land Degradation, Sustainable Land Management, Food Security, and Greenhouse gas fluxes in Terrestrial Ecosystems. Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas da Organização das Nações Unidas.
- Lantern (2023/2024). The Green Revolution: O mercado veggie em Portugal. Relatório analítico de consumo e dados demográficos.
- Poore, J., & Nemecek, T. (2018). Reducing food’s environmental impacts through producers and consumers. Science, 360(6392), 987-992.
- ProVeg International & Smart Protein Project (2023). Evolving appetites: An in-depth look at European consumers’ plant-based dietary shifts.
- The Vegan Society (1944/2020). Definition of Veganism and Historical Archives. Birmingham: The Vegan Society.
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