quarta-feira, 3 de março de 2021

Aos 100 anos, Edgar Morin fala sobre a juventude

Em seu centenário, sociólogo relembra a resistência francesa – e compara a fome de então à dos precarizados de hoje. Para ele, jovens são, num mundo que convida à indiferença, o sujeito capaz de resistir à domesticação da vida adulta.


Entrevista a Guillaume Erner, na France Culture, com tradução do IHU Online

Nesta manhã, recebemos não apenas um testemunho privilegiado de nossa época, mas também um grande ator do século XX. Edgar Morin é o pai do pensamento complexo, autor de uma obra transdisciplinar. Viveu todas as crises desses cem últimos anos, as consequências da gripe espanhola e, agora, da pandemia do novo coronavírus. Suas obras revelam indiscutivelmente um trabalho de resistência intelectual. Em colaboração com Sabah Abouessalam, acaba de publicar pela editora Denöel, Mudemos de vida, lições sobre o coronavirus que reflete sobre o mundo que surgirá depois da pandemia. Para retomar a juventude de ontem e de hoje nosso convidado é Edgar Morin. Bom dia. Não sei se é necessário dizer que o senhor é um sociólogo, mas mesmo assim ressalto que você é um twitteiro com mais de 100 mil seguidores. Como teve essa ideia?

Fui aconselhado e então encontrei a oportunidade de poder dizer as coisas que acredito, minhas ideias essenciais, por meio de um formato concentrado, porque o Twitter tem um número limitado de caracteres. Twittando eu me sinto um pouco como na Grécia Antiga, quando os filósofos discutiam em praça pública as questões levantadas pelas pessoas, e minha paixão é justamente fazer intervenções públicas. Mas minha adesão tem vários motivos. Por um lado, é uma forma de me expressar. Por outro, meu editor pretende publicar em breve essas pequenas reflexões.

O senhor sempre foi interessado pela juventude e uma de suas principais obras de sociologia foi uma pesquisa na Comuna de Plozévet, intitulada Metamorfose de Plozévet: uma comuna francesa, publicada em 1965. O livro focaliza como a juventude desse pequeno povoado da Bretanha e objetivo da pesquisa era descobrir como a juventude encarava o processo de modernização pelo qual passava a França.

O que me marcou bastante foi um fenômeno que revolucionou o mundo e que se passou em 1963, a Noite da Nação. Trata-se de um programa de rádio chamado Olá, companheiros!, mais voltado para a divulgação do rock americano e francês, que organizou um concerto na Place de la Nation, em Paris. Era um programa muito popular entre os adolescentes. E de repente o evento se transformou em um grande tumulto.

Nessa ocasião, o editor-chefe do jornal Le Monde me convidou para interpretar o fenômeno. Porque para os sociólogos da época a juventude não era uma categoria sociológica. Os sociólogos falavam mais em classes sociais, mas não em classe de idade. Como cinéfilo que sou, a juventude significava o aparecimento de heróis da adolescência que não existiam antes, como James Dean, Marlon Brando, além de rebeldes, revoltados, e também outras pessoas marcadas por extrema ternura.

O que eu constatava era o surgimento de uma classe de idade entre o isolamento da infância e a integração na vida adulta que descobriu uma própria forma de falar, de se vestir; surgiu então uma nova linguagem como forma de afirmação de uma classe que antes não existia e que exibia uma vontade de viver intensamente. Essa foi minha primeira interrogação acerca da juventude, que se prolongou em Plozévet, quando me defrontei com a formação dos primeiros comitês da juventude. Em 1968, havia uma revolta contra a domesticação da vida adulta, cronometrada, prosaica, etc.

Mas penso que naquela época havia uma dupla necessidade, contraditória e ao mesmo tempo complementar, de realizar não apenas suas aspirações, mas também fazer parte de uma comunidade, de uma fraternidade, de uma família. Embora seja esse o desejo geral da condição humana, acabamos por abandoná-lo à medida em que vamos sendo integrados à idade adulta.

Mas há uma grande diferença com os dias atuais, em virtude da precariedade da vida social e individual, assim como da incerteza da juventude em particular. Embora possa ser considerado como um fenômeno singular e único, ele se assemelha um pouco com minha própria juventude que foi marcada pela invasão nazista e pelo regime de Pétain, durante a Ocupação. Quando eu era estudante, chegava ao restaurante universitário morto de fome. Tínhamos que nos virar para nos alimentar, pois não havia alimentos suficientemente ricos em calorias. Hoje constato fenômeno semelhante e os jovens também têm igualmente necessidade de comer.

E como foi sua vida na Resistência Francesa durante a Segunda Guerra Mundial?

Naquele momento percebi que existe uma contradição entre viver e sobreviver. Sobreviver é fazer as coisas necessárias para se manter vivo. Viver a Resistência era perigoso, mas me sentia extremamente bem em ser um resistente. Para mim, a diferença hoje em dia está em que a juventude se encontra um tanto passiva, resignada em relação a muitas coisas. Se pensarmos que fazemos parte de uma mesma comunidade de destino, que somos corresponsáveis pela destruição do planeta, nossa casa comum, a juventude poderá tomar consciência do perigo que corremos e, certamente, as coisas podem mudar. Uma outra coisa: a pandemia nos mostra claramente que o sistema social, político, econômico tem muitos problemas e precisamos tomar consciência de que é preciso mudar de via. Se pensarmos bem, em todos os momentos de revolução, a juventude foi o grande agente histórico de transformação. E continua sendo. É ela que pode recuperar a força da solidariedade e da fraternidade em prol de um mundo melhor.

E como você encontrou essa força da juventude num momento como o da Segunda Guerra Mundial?

Durante a Guerra eu era ao mesmo tempo o jovem que lutava desesperadamente por um mundo melhor e o sociólogo iniciante que começava a se empenhar na observação dos fenômenos sociais. Mas as esperanças se abalaram durante a Guerra Fria. Eu, que acreditei no comunismo como a saída para um mundo melhor, me desconverti durante os processos de Moscou e minha geração acabou se dispersando. A esperança é algo que não se pode abandonar, mas que também não pode nos deixar demasiadamente eufóricos. Eu sempre esperei o inesperado. A resistência de Moscou e a entrada dos Estados Unidos na Guerra, fatos que mudaram o rumo da história, foram totalmente inesperados e improváveis. Muitas coisas inesperadas mudaram o rumo da história.

O momento de hoje é trágico mas sempre penso que algo de inesperado pode acontecer e mudar a sociedade. Cabe à juventude fortalecer o espírito de resistência. Aproveitei a minha para fortalecer minha formação, lendo Rousseau, Dostoievsky, Montaigne, Pascal, para ir ao cinema ver filmes admiráveis; a música, a poesia, a literatura, tudo isso me acompanhou durante a vida e me deu prazer de viver. É importante aproveitar este momento para se cultivar, cultivar a fraternidade, a amizade, o amor, etc. O mundo depende de que a juventude tenha ou não consciência do que está em jogo no presente e no futuro.

A humanidade hoje vive ao mesmo tempo um momento de tragédia inacreditável, mas também um momento de ultrapassá-la rumo a outra via. É preciso não permanecer cego diante das circunstâncias, mas também não professar um otimismo ingênuo. É preciso estar presente, porque é nossa vida que está em jogo. Nosso destino está ligado ao destino coletivo, e nesta pandemia também.

E essa pandemia nos revela a importância da solidariedade de todos os povos. Todas os povos foram afetados, ameaçados e, por isso, participamos da mesma aventura. Nos dias atuais, precisamos salvaguardar e defender nossas pátrias, mas jamais esquecer que somos integrantes da mesma Terra-Pátria. Somos seus filhos. Somos filhos da Terra, e devemos defende-la a qualquer custo.

GE: Muito obrigado, Edgar Morin.

Ted Talks: Carlos Moreno- Cidade dos 15 minutos

terça-feira, 2 de março de 2021

As minhas mãos


As minhas mãos durante 54 anos

As minhas mãos

Já abraçaram imensas árvores

Texturas e cascas

Teixos, castanheiros, figueiras, bétulas, faias, as sete palmeiras magníficas do Palácio de Cristal

Abraço ainda ao liquidâmbares e os castanheiros-da-Índia da Fundação de Serralves

Já abraçou imensos Alunos, amigos, familiares e doentes

Já acenderam velas por Tibete, Etiópia, Sudão, Síria, Sara Ocidental, Líbano

Sarajevo,  Guerra do Golfo Pérsico e vítimas do 11 de Setembro, Chile e EUA

E velas em memória das vítimas dos atentados bombistas em Paris, Bruxelas e Londres

Acendo ainda velas pela Palestina, pelo Tibete e pelos Refugiados

pedindo Paz

Já fizeram bolos, muitos, pão e cerveja

Já plantei árvores, carvalhos por Valongo, Serra da Freita e Marão

Na minha infância pegava na enxada e plantei morangos, batatas

Semeei favas e ervilhas

Lia e leio atentamente o Seringador

Trepei a árvores, era mais magro e subia a laranjeiras e figueiras

Colhi muitas vezes frutos

laranjas, tangerinas, morangos, uvas, dióspiros, castanhas

Faço as refeições com as mãos

Na minha infância, a minha mãe foi vítima de violência doméstica

O meu pai usava bengala e vergastava a minha mãe

Quantas vezes lhe tirei a bengala e o meu pai caía no chão

Terminando com o pesadelo e o horror

Parti pinhões, avelãs e nozes para fazer o bolo rei

Parti pinhões e nozes e pão de cacete para fazer os formigos

A minha mãe viu o jeito que tinha para desenhar e pedia-me para copiar

Os desenhos naturalistas de revistas de bordados

Quantas vezes enovelei resmas de cordões de lãs e

A minha mãe fazia camisolas

Aplauso vivamente em concertos de rock, indie e música do mundo ao vivo, em espaços abertos e nos Coliseus e na Casa da Música e Meo Arena

Aos vinte anos tocava teclados numa banda de garagem

Os Lilás Postes Mórbidos

Influenciados por The Cure, Joy Division, Bauhaus e Birthday Party

Tocamos em alguns espaços conhecidos no Porto

E bares em Gaia

Dancei e danço coreografias góticas imitando as aves da noite

O mocho-real, a coruja-das-torres

E sei dançar valsa e tango

Já fiz rádio

Na faculdade e no curso de Biologia colhi plantas silvestres para fazer um herbário

Fiz anilhagem de dois grifos e de um abutre-negro

Fiz castelos de areia e cidades medievais na praia com o meu filho

Com ele pegamos e tocamos e sentimos a pele das lagartixas, da cobra-de-água, das rãs

Das verrugas do sapo comum

Pegamos em tartarugas, aranhas, tarântulas e tocamos em golfinhos e focas

Pegamos em búzios e caranguejos-eremitas e devolvíamos ao mar

Ensinei-o a abraçar árvores

Fizemos pizzas caseiras, ensinamos a fazer folares da Páscoa e saladas diversas

Hoje uso ainda muito as minhas mãos

Para comunicar, gesticulo, para acentuar assuntos e ideias e conceitos

Quantas vezes escrevi no quadro escolar

Mapas de conceitos, diagramas, tabelas

Para os meus Alunos

Desenhei imensos acetatos quando só havia retroprojectores

Ensinei os meus alunos a fazer dobras, falhas e interior das células bacterianas,

Células animais e vegetais em plasticina

Depois vieram os computadores

E faço belos powerpoints com animações

E escrevo no computador e projecto no ecrã

As tabelas resumo da matéria leccionada e mais uma vez mapas de conceitos por preencher

Abracei prisioneiras quando dei aulas na prisão da secção feminina de Custóias

Conduzir também me dá prazer, seja de carro, seja de bicicleta

Nadei em vários rios e conheço o Atlântico de lés a lés do meu País e do Norte de Espanha

Nadei em Veneza

A poesia está em mim, mas vai-se embora durante alguns tempos

Escrevi imensos poemas para aniversários ou aniversários de casamentos dos meus amigos e familiares

Poemas e mensagens de Natal

Agora tenho vontade de escrever poemas

As minhas mãos cuidaram dos meus sobrinhos quando eram bebés

As minhas mãos afagaram e alimentaram cães e gatos ao longo destes anos

Recordo os meus cães e a sua alegria em passeá-los e correr no areal da praia

Sempre adoptei cães e gatos. Dois gatos recolhi-os da rua

Uma estava na roda de um pneu de carro

Outra perdida da sua mãe

Participei em manifestações contra os OGM

Empunhei cartazes pela valorização profissional dos Professores

Redigi algumas petições pela preservação do ambiente

Assinei imensas quer a nível local, regional, nacional e internacionais


João Soares, 15/01/2021

segunda-feira, 1 de março de 2021

17º Aniversário do blogue BioTerra




Um projecto educativo ambiental, que começou em 1 de Março de 2004. Acompanhou a concretização do Acordo de Paris, a Agenda 21 e agora a Agenda 2030. 

Criei vários dossiers da temática ambiental, cada um disponibilizando instituições, centros de pesquisa, documentários, investigadores principais, e-livros e concluindo com uma listagem de blogues específicos para cada dossier.

Criei um calendário ecológico, com os dias mundiais e nacionais de conservação da Natureza, fim dos conflitos e pelos Direitos Humanos e Direitos da Natureza. Nele tem ideias para dinamizar cada dia do ano.

Partilho notícias, prémios, inovação tecnológica, curiosidades biológicas, ciclos biogeoquímicos, interferência do Homem nesses ciclos e exemplos de intervenção da justiça em coimas e multas às empresas poluidoras.

Blogue contra os OGM, contra as touradas, contra o nuclear, contra o glifosato, contra os neocotinóides, contra as podas camarárias radicais (arboricídio) e a favor da renaturalização dos ecossistemas terrestres com árvores autóctones. Sou contra a eucaliptização e olival intensivo.

Blogue dinamizador de práticas sustentáveis: coexistência pacífica de animais selvagens em sistemas agropastoris, apoia a permacultura, apoia a economia circular, apoia sistemas agroflorestais, hortas urbanas, telhados verdes, árvores de fruto nas cidades e bioconstrução.

Muito activista divulgo petições, iniciativas cidadãs e comunicados de ONG ambientalistas.

Divulgo através de entrevistas e de debates grandes pensadores da ecologia e das alterações climáticas.

Criei os "Econtros Improváveis" onde um poeta dialoga com um pintor, ou um poeta dialoga com um fotógrafo, ou um poeta que dialoga com uma música ou bailado.

Partilho a minha paixão pela Lusofonia, como elemento em rede de trabalharmos o Ambiente com a CPLP e sou contra o acordo ortográfico.
Neste contexto da Lusofonia, recentemente e no combate à desinformação e apoio às evidências da Ciência, criou-se o GPS - Global Portuguese Scientists.


Um europeísta convicto e preocupado com o mundo. Do mundo retiro as boas práticas sustentáveis, que com elas podem ser adequadas à realidade do nosso País. E têm sido muitos exemplos. E vice-versa também acontece. Os nossos investigadores transportam a sua sabedoria para ensinar o mundo e torná-lo sustentável. 

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Fidel Castro advierte del desastre ecológico de Brasil en 1992

Filme - "Viagem ao Princípio do Mundo" de Manoel de Oliveira, 1997


O filme gira em torno de um realizador (Marcello Mastroianni), “duplo” de Manoel de Oliveira, numa autobiografia da obra do cineasta português. É um reencontro com as raízes (em duplo sentido literal e metafórico), onde uma velha camponesa (Isabel de Castro) é incapaz de entender a língua francesa falada pelo seu neto criado em França. 
Grande parte do filme é rodado em Melgaço, sobretudo no Peso e em Castro Laboreiro...

sábado, 27 de fevereiro de 2021

Ricardo Rocha: “Atormenta-me o rápido declínio de muitas espécies que consideramos ‘comuns’”

Fonte: Wilder


Ricardo Rocha é investigador de pós-doutoramento do CIBIO-InBIO – Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos, associado à Universidade do Porto e ao Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa.

WILDER: O que espera de 2021 para a Conservação da Natureza em Portugal e no mundo?

Ricardo Rocha: Espero que se faça mais e melhor. No meu ver, o ano anterior acabou por trazer ao de cima – de forma bem dolorosa – três coisas extremamente importantes: i) que a saúde humana e a saúde dos ecossistemas e das espécies selvagens estão interligadas; ii) enfatizou a importância da ciência, tanto fundamental como aplicada, na resolução de problemas locais e globais; e, iii) mostrou-nos a importância de assentarmos as nossas decisões em dados viáveis e de revermos as nossas ações com base em informação rigorosa e actualizada. Em 2021, espero que os decisores políticos tenham a capacidade de incorporar estes ensinamentos numa estratégia concertada de conservação da natureza, que esteja assente em dados científicos sólidos, de acordo com prioridades bem delineadas e em colaboração próxima com investigadores sérios. Estou ciente que dito desta forma, parece um pouco abstrato, mas na prática o que espero para 2021 é que as políticas de conservação de natureza se assentem na filosofia de conservação com base na evidência (do inglês “Evidence-based Conservation”), na qual – com base em ciência – fazemos mais do que funciona, e menos do que não funciona. Aconselho os leitores a explorarem este site https://www.conservationevidence.com/, caso queiram conhecer mais sobre esta forma de fazer conservação. 

W: No seu entender, quais devem ser as prioridades para este ano em prol da natureza em Portugal? E mais concretamente, para a presidência portuguesa da União Europeia?

Ricardo Rocha: A Organização das Nações Unidas designou 2021-2030 como a década do restauro de ecossistemas. Em Portugal temos excelentes exemplos de projectos de restauro de ecossistemas, em particular no que toca ao restauro de sistemas insulares. Veja-se, por exemplo, o trabalho pela SPEA e pelas autoridades açorianas na recuperação da floresta laurissilva da Ilha de São Miguel, lar do Priolo (Pyrrhula murina) ou, mais recentemente, o projecto LIFE Berlengas, finalistas do Prémio Europeu Natura 2000 no ano anterior, na categoria “Conservação”. Eu acho que as prioridades em Portugal devem seguir o mote da década do restauro de ecossistemas, nomeadamente “prevenir, abrandar e reverter a degradação dos ecossistemas” e, mesmo que se usem espécies bandeira – espécies apelativas e capazes de mobilizar um maior apoio para ações de conservação – a estratégia deverá passar por uma visão de ecossistema, que vise repor funções ecológicas importantes (ex. controle de pragas florestais/agrícolas por vertebrados insectívoros) e conservar processos naturais (ex. reciclagem de nutrientes).

No último ano tivemos o anúncio do Pacto Ecológico Europeu que mostra um compromisso grande da União Europeia (UE) com políticas de conservação da natureza. Com a liderança da UE Portugal tem uma oportunidade única para assumir um papel de líder na transição para um mundo mais verde, menos poluído e no qual a nossa espécie vive em maior harmonia com as demais. Espero que Portugal lidere pelo exemplo, começando por projectos e políticas nacionais em linha com o Pacto Ecológico, e ações a nível internacional que desincentivem a destruição de ecossistemas naturais e promovam actividades sustentáveis do ponto de vista ambiental e social. Relativamente ao último ponto, é fundamental que a UE use o seu poderio económico e diplomático, de forma a pressionar os seus parceiros a optarem por políticas que se alinhem com os princípios europeus de defesa ambiental e dos direitos humanos. Em 2019 fiz parte de um grupo de mais de 600 investigadores e ambientalistas que escreveu uma carta na revista Science, na qual apresentavamos um exemplo concreto do que a UE pode fazer neste sentido, na sua relação com o Brasil. Tendo em conta os números assombrosos relativos à desflorestação na Amazónia em 2019 e 2020 (nos últimos dois anos perdeu-se uma área de Amazónia 20 vezes superior à área da Ilha da Madeira), o que escrevemos nessa carta é hoje particularmente relevante. 

W: Quais as espécies ameaçadas que, na sua opinião, precisam de ajuda premente em 2021?

Ricardo Rocha: Infelizmente há toda uma imensidão de espécies em perigo crítico de desaparecer do planeta e que precisam de auxílio urgente – veja-se por exemplo a situação da vaquita Phocoena sinus, um pequeno golfinho endémico do Golfo da Califórnia cujo efectivo populacional poderá ser inferior a uma dezena de indivíduos. No entanto, algo que me atormenta e que recebe menos atenção é o rápido declínio – em termos de abundância e área de distribuição – de muitas espécies que consideramos “comuns”. Por exemplo, a população de rola-brava Streptopelia turtur teve um declínio de 80% nos últimos 15 anos em Portugal. Embora não esteja em perigo crítico de desaparecer, os sinais de alarme estão a tocar e a hora de actuar é agora. O problema é ainda maior para espécies e subespécies que apenas ocorrem num determinado território e para as quais não temos dados populacionais. Veja-se, por exemplo, a situação do Pardal da terra da Madeira Petronia petronia madeirensis, uma subespécie endémica do arquipélago. Qual o seu tamanho populacional? Qual a sua área de distribuição? Está em declínio? É extremamente importante que tenhamos respostas para estas perguntas, antes que estas espécies/subespécies desapareçam debaixo da cortina de fumo de serem comuns. A situação é ainda pior para muitas espécies de plantas e invertebrados.

W: Se coubesse a si decidir, qual seria a principal medida que tomaria este ano para tentar travar a extinção das espécies?

Ricardo Rocha: Promover uma dieta com menos carne. O consumo excessivo de carne é, directa e indirectamente, uma das maiores ameaças à biodiversidade. Isto materializa-se através da destruição de habitats naturais para pasto e produção de rações que são utilizadas para alimentar animais que acabamos por consumir, ou através de um agravamento do aquecimento global através da libertação de gases produzida pelas atividades pecuárias. 

W: Qual, ou quais, os projectos na área da Biodiversidade em que estará a trabalhar em 2021 que mais o entusiasmam?

Ricardo Rocha: Ao longo dos últimos anos tenho estado a trabalhar principalmente em ecossistemas tropicais. No entanto, agora estou a centrar os meus projectos um pouco mais perto de casa, na Macaronésia, com um ênfase particular na Madeira, de onde sou natural. Durante a maior parte de 2021 estarei a fazer trabalho de campo no arquipélago da Madeira, principalmente com morcegos, com vista a conhecer mais sobre a sua ecologia, potenciais contributos ao nível de serviços de ecossistema e necessidades de conservação. Em paralelo conto também trabalhar com outros grupos de vertebrados terrestres do arquipélago, nomeadamente com aves e répteis, sobre os quais sabemos muito pouco.   

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Pressão mineira no Parque Natural de Montesinho

"Vou falar-lhes dum Reino Maravilhoso. Embora muitas pessoas digam que não,
sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo.
O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original
diante da realidade, e o coração, depois, não hesite…
Começa logo porque fica no cimo de Portugal,
como os ninhos ficam no cimo das árvores
para que a distância os torne mais impossíveis e apetecidos.”
(Miguel Torga)
Fonte: 7 Margens

O projeto Valtreixal da empresa canadiana Almonthy pretende abrir uma mina a céu aberto numa área de 247 hectares (cerca de 500 campos de futebol), em território espanhol, mas a 5 km da fronteira com o Parque Natural de Montesinho, para explorar volfrâmio e estanho. A exploração situa-se na Reserva da Biosfera Transfronteiriça Meseta Ibérica, que abrange territórios de Trás-os-Montes e de Castela Leão, numa área total de 1.132.606 hectares. Esta região de montanha abriga espécies selvagens, ameaçadas, e de rara beleza, tais como o lobo ibérico, a cegonha preta, o veado e o corso.

“Este tipo de explorações mineiras a céu aberto é uma enorme agressão à paisagem. A perturbação do meio vai muito para além da enorme ferida que se abrirá naquelas encostas forradas a urzes, giestas e carquejas. As explosões ouvir-se-ão a quilómetros e afastarão a fauna” diz António Sá, fotógrafo da natureza e empresário turístico, habitante do Parque Natural de Montesinho.


António Sá em Montesinho: “Este tipo de explorações mineiras a céu aberto é uma enorme agressão à paisagem.” Foto © António Sá

O projeto prevê fazer explodir 1,7 mil toneladas de dinamite durante 19 anos para extrair o minério, criando uma cratera estéril de quase 2 quilómetros de comprimento e centenas de metros de profundidade. A legislação atual obriga o promotor a fazer um plano de recuperação da paisagem, de plantação de árvores e a realizar o enchimento parcial da zona explorada com os resíduos inertes provenientes da extração. Contudo, o ruído proveniente das explosões continuadas, da utilização de maquinaria pesada na extração e do tráfego de várias dezenas de camiões por dia é inevitável. Mais de 23 milhões de metros cúbicos de resíduos mineiros serão gerados, alguns dos quais perigosos para a saúde e que serão aterrados in situ.

A paisagem descrita por António Sá perderá definitivamente o seu encanto e valor, pois no fim de vida da mina ficará uma escombreira visível de Bragança, apesar de a cidade se situar a quase 20 quilómetros de distância. “Para mim, é como se apagássemos aquela zona do mapa”, conclui António Sá.

O ZASNET, entidade gestora desta área, obteve a classificação de reserva da biosfera da UNESCO, selo que lhe tem valido o reconhecimento mundial e uma nova capacidade para atrair turistas da natureza, bem como novos moradores. “O reconhecimento emitido pela UNESCO serve para destacar e recompensar” os esforços locais “e para ajudar a atrair fundos. São territórios destinados a promover o desenvolvimento sustentável, a conservação da natureza, ao mesmo tempo que promovem o desenvolvimento social e apoiam a educação e a investigação científica” – refere a exposição do ZASNET em que este contesta a instalação da mina, exposição também assinada pelo presidente da Câmara de Bragança.



Passeio em bosque misto – carvalho e castanheiro-bravo, em Carrazedo (Bragança): desvalorizar este património terá consequências diretas para a economia local. Foto © António Sá.

Conflito entre indústria e património natural

A estratégia de desenvolvimento da região assenta na qualidade de vida e no património natural. O combate à desertificação humana aposta fortemente na qualidade do ambiente, e em produtos endógenos, tais como o mel e as castanhas de Montesinho, o cabrito e os cogumelos. Desvalorizar este património terá consequências diretas para a economia local, nomeadamente ao nível do alojamento e da restauração e também na produção e consumo destes produtos.

“Tudo aqui anda à volta da qualidade do ambiente. Os lameiros são tão importantes para as ovelhas como para as espécies silvestres, como o corço. Estes prados seminaturais abrigam uma flora quase exclusiva. É um tipo de paisagem onde a ação do homem é crucial. As bolotas dos bosques de carvalho e de azinheira alimentam javalis e corços (presas naturais do lobo) e também os rebanhos” – sintetiza o fotógrafo António Sá, sem disfarçar a sua paixão por esta paisagem viva.

Porém, o conflito entre as possíveis utilizações do solo não tem vencedor à partida. A União Europeia mantém, por um lado, uma política de ordenamento territorial que cria zonas protegidas. Mas por outro lado, quando nessas zonas jazem minérios necessários para alimentar a indústria e promover a autonomia da União, a proteção é frágil.

A iniciativa “Matérias-Primas” (novembro de 2008) da Comissão Europeia refere: “O bom funcionamento da economia da UE depende fortemente do acesso a preços módicos às matérias-primas minerais…uma concorrência crescente, devida à utilização dos solos para outros fins, e um ambiente altamente regulado…são necessárias estratégias para proteger o acesso a estes depósitos para utilização futura.”

Tais estratégias passam, como se pode ler na mesma comunicação, por colocar os interesses da indústria acima de que quaisquer outros: “A indústria suscitou preocupações quanto aos objetivos por vezes contraditórios de proteção das zonas de Natura 2000 e de desenvolvimento das atividades extrativas na Europa. A Comissão sublinha que não está prevista qualquer exclusão absoluta de operações extrativas no quadro jurídico de Natura 2000”.


As organizações ambientalistas não entendem como compatibilizar o projeto de exploração mineira com o desenvolvimento baseado na conservação da natureza. Foto © António Sá.

Perante esta ameaça o ZASNET não percebe como poderá compatibilizar a atividade do projeto Valtreixal com a estratégia de desenvolvimento que tem seguido, baseada na conservação da natureza, na qual tem investido e que começa a dar frutos. No documento em que contesta a instalação do projeto Valtreixal argumenta: “São amplamente conhecidas as consequências bem como os impactos negativos resultantes da exploração de uma Mina de Volfrâmio e Estanho (…) afeta gravemente a população residente (…), os ecossistemas (…) dado que põe em causa os princípios e fundamentos de uma Reserva da Biosfera, com todos os seus preceitos, aprovada e reconhecida pela UNESCO, em 2015.”

Vários grupos de cidadãos, como o Uivo – Por uma Reserva da Biosfera Meseta Ibérica Livre de Minas e o Stop Mina Sanabria, têm surgido nos últimos meses para organizar iniciativas de contestação à instalação da mina.

'PIB cresce, mas destrói biodiversidade': economista ecológico propõe mudar forma como medimos nossa produção de riqueza

Fumaça saindo de chaminés
Existem muitos economistas no mundo, mas são raros os economistas ecológicos — e o espanhol Joan Martínez Alier é um deles.

Um dos fundadores da Sociedade Internacional de Economia Ecológica e seu ex-presidente, ele é um dos mais conceituados especialistas da área. Dedicou toda sua vida acadêmica ao estudo da relação entre os desafios ambientais e a economia, contribuindo ativamente para a promoção do conceito de justiça ambiental.


Professor emérito e pesquisador do Instituto de Ciência e Tecnologia Ambiental da Universidade Autônoma de Barcelona (ICTA-UAB) desde 2010, Martínez Alier teve seu trabalho aclamado recentemente ao conquistar o Prêmio Balzan.

A honraria, concedida desde 1961, é considerada por muitos como o primeiro passo para obter na sequência o reconhecimento da Academia Sueca. A prova disso é que vários vencedores do Prêmio Balzan posteriormente ganharam o Nobel.

Martínez Alier conquistou o Balzan pela "excepcional qualidade das suas contribuições para a criação da economia ecológica", entre outras razões.

Leia a seguir a entrevista realizada pela BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC, feita com ele.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Gil e o premiado fotógrafo Sebastião Salgado se unem para plantar 1 milhão de árvores

O cantor e compositor Gilberto Gil, em parceria com o fotógrafo Sebastião Salgado e Lélia Deluiz Wanick Salgado, estão reunidos com a incrível missão para plantação de 1 milhão de árvores por ano no país. Tudo isso por meio do Instituto Terra.

O cantor e compositor Gilberto Gil, em parceria com o fotógrafo Sebastião Salgado e Lélia Deluiz Wanick Salgado, estão reunidos com a incrível missão para plantação de 1 milhão de árvores por ano no país. Tudo isso por meio do Instituto Terra.

Com o objetivo de incentivar a luta pelo meio-ambiente, Gil também lançou o videoclipe da música “Refloresta”, sua nova composição criada exclusivamente para a campanha de reflorestamento do instituto.

A ideia da entidade é expandir o reflorestamento no Brasil e produzir 1 milhão de mudas de espécies nativas da Mata Atlântica, contando com o auxílio do grupo segurador Zurich, na Fazenda Bulcão, que já possui 120 espécies.

A ação busca falar sobre a importância da recuperação de áreas de floresta degradadas pelo homem e foi oficialmente lançada na noite do último domingo, dia 21.

A sede do instituto de Sebastião Salgado, um dos fotógrafo mais renomados do mundo, acompanha a situação ambiental do país há tempos, sendo um exemplo vivo de iniciativa de recuperação de áreas desmatadas em nosso território.

De acordo com o instituto, 100 mil mudas já estão sendo plantadas desde novembro do ano passado.

E entre novembro de 2021 e fevereiro de 2022, o planejamento é plantar 140 mil árvores de 69 espécies.

A Década da Restauração de Ecossistemas como chama a ONU, que ocorre entre 2021 e 2030 é fundamental para o nosso futuro em todo o planeta.

E como diz a música de Gil, “manter em pé o que resta não basta”, seguido pelo verso “o jeito é convencer quem devasta a respeitar a floresta”.

Veja o clipe da canção abaixo:


Fonte: A Soma de Todos os Afectos