quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Associação Zero pede “esforço climático real” face a falha da meta para o aquecimento global

A associação ambientalista Zero pediu hoje um “esforço climático real” face a um relatório da ONU que concluiu que o mundo falhou a meta de manter o aquecimento global abaixo de 1,5ºC em relação aos níveis pré-industriais.

“Perdemos a oportunidade de evitar a ultrapassagem de 1,5°C. Não podemos perder a oportunidade de impedir um mundo de 2,8°C. Cada décima de grau conta”, salienta a Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável em comunicado.


O relatório anual do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) sobre as emissões de gases com efeito de estufa (GEE) divulgado hoje refere que o limite de 1,5 graus de aquecimento global já foi ultrapassado e que “com as políticas atuais, o mundo caminha para 2,8°C até 2100”.

A Zero adianta, no entanto, que tal “não significa desistir do Acordo de Paris”, assinado em 2015 na conferência da ONU sobre o clima, com o compromisso de os países do mundo de impedir que as temperaturas a nível global subissem além dos 2ºC em relação à época pré-industrial, e que de preferência esse aumento não ultrapassasse os 1,5ºC.

“Cada décima de grau evitada, e cada ano a menos acima desse limiar, reduzem riscos para a saúde, a água, a produção alimentar e os ecossistemas”, refere a Zero.

Considerando que “mitigação e adaptação são inseparáveis”, a associação defende que, no primeiro caso, “Portugal tem de acelerar a aplicação da Lei de Bases do Clima e do Plano Nacional de Energia e Clima, com metas, responsáveis, orçamentos e resultados verificáveis”.

Ao nível dos transportes, “responsáveis por cerca de 35% das emissões nacionais em 2024”, a associação exige “uma mudança estrutural: mais ferrovia e transportes públicos, menos dependência do automóvel e eletrificação prioritária das frotas de utilização intensiva e do transporte de mercadorias”.

Pede ainda que se combata a pobreza energética e se apoie uma indústria menos dependente dos combustíveis fósseis.

“Na energia, é essencial acelerar a implantação de renováveis bem localizadas e compatíveis com a biodiversidade, reforçar redes, interligações, armazenamento e gestão da procura, e avaliar o abandono do gás fóssil na produção elétrica até 2035”, acrescenta a Zero no comunicado.

Portugal precisa, ao mesmo tempo, “de se preparar para mais ondas de calor, secas, incêndios rurais, precipitação extrema e erosão costeira”, adianta a associação ambientalista, defendendo que “a Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas 2030 precisa de financiamento, prazos, metas e integração vinculativa no ordenamento do território”.

A “prioridade global e europeia deve ser a definição de um roteiro justo, calendarizado e financiado para o abandono do carvão, petróleo e gás fóssil, acompanhado pela rápida expansão da energia solar e eólica, da eficiência energética e da eletrificação”.

A Zero recomenda que a União Europeia reforce a execução das políticas climáticas e apoie os países mais vulneráveis, além de levar à 31.ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações sobre Alterações Climáticas (COP31), que decorre no próximo mês na Turquia, “resultados concretos, incluindo a concretização do compromisso de triplicar a capacidade renovável e duplicar o ritmo de melhoria da eficiência energética até 2030”.

Numa mensagem sobre o relatório do PNUMA, o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirma que “falhar a meta não significa desistir. Ainda podemos mantê-la o mais breve e curta possível - e trazer as temperaturas de volta para menos de 1,5 graus até ao final do século”.


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De Ortega y Gasset ao tecnofeudalismo: diagnósticos e alternativas


Quando José Ortega y Gasset publicou A Rebelião das Massas em 1930, o mundo assistia ao colapso das certezas liberais do século XIX e à ascensão fulminante de forças destrutivas que ameaçavam dissolver a civilização ocidental. O filósofo espanhol anteviu que o maior perigo da modernidade não residia apenas em divisões de classe ou em doutrinas económicas abstratas, mas na emergência de um tipo psíquico e social específico: o homem-massa. Incapaz de autoexigência, habituado a usufruir dos frutos da tecnologia e do progresso sem compreender a sua complexidade nem assumir deveres éticos, o homem-massa caracteriza-se pela recusa da razão, pela rejeição das minorias qualificadas e pela imposição do seu arbítrio através do que Ortega denominou "ação direta". Esta atitude desprovida de mediação institucional constituiu a matriz comportamental dos regimes totalitários do século XX.

Os acontecimentos trágicos que se seguiram às advertências do pensador espanhol confirmaram o vigor premonitório do seu diagnóstico. O Fascismo na Itália de Benito Mussolini e o Nazismo na Alemanha de Adolf Hitler instrumentalizaram a vertigem da massa atomizada, transformando o ressentimento coletivo em violência de Estado, na aniquilação de opositores, no Holocausto e numa guerra devastadora em solo europeu. Paralelamente, o totalitarismo soviético sob Joseph Estaline converteu a promessa de emancipação no horror dos gulags, na purga sistemática de intelectuais e na submissão absoluta do indivíduo ao aparelho estatal. Anos mais tarde, o primarismo ideológico e o desprezo pelo saber atingiram o paroxismo no Camboja sob o regime do Khmer Vermelho e Pol Pot. Entre 1975 e 1979, na tentativa de refundar a sociedade a partir do zero através de uma "ação direta" absoluta, a população urbana foi forçada a trabalhos agrícolas, as elites intelectuais foram sumariamente executadas e cerca de um quarto da população do país foi dizimada num dos genocídios mais brutais da história humana.

Embora Ortega y Gasset focalizasse a sua crítica na inflação do poder estatal e na brutalidade política, as dinâmicas sociopolíticas das últimas décadas reconfiguraram o homem-massa dentro de uma nova estrutura sistémica. A desregulação do capitalismo selvagem dos anos 1980 deu lugar, no século XXI, à emergência do tecnofeudalismo. O indivíduo satisfeito e descomprometido da época de Ortega metamorfoseou-se no "servo da nuvem" hiperconectado: um utilizador que gera valor e dados continuamente para grandes plataformas privadas sem dele ter consciência, enquanto o espaço público e os mercados abertos são substituídos por feudos digitais dominados por monopólios tecnológicos.

Perante esta mutação do capital, a financeirização acelerada, o controlo algorítmico e a degradação ecológica, diversos pensadores contemporâneos redefiniram a crítica social, rejeitando os modelos autoritários do passado e propondo alternativas baseadas na democracia, na soberania digital e nos bens comuns.

Na vertente da crítica à expansão territorial e financeira do capital, o geógrafo britânico David Harvey formula o conceito de "acumulação por espoliação". Harvey demonstra que a dinâmica contemporânea do mercado já não assenta unicamente na extração de mais-valia fabril, mas na privatização predatória de recursos essenciais como a habitação, a água, a saúde e os espaços urbanos. Como alternativa, o autor reivindica o "Direito à Cidade", defendendo a gestão comunitária dos bens comuns e a desmercantilização do solo e dos serviços básicos. No campo estritamente financeiro, o economista grego Costas Lapavitsas analisa como a financeirização penetrou a reprodução da vida quotidiana, convertendo salários, crédito e endividamento familiar num motor direto de extração de riqueza por parte do sistema bancário. Lapavitsas propõe a criação de controlos públicos estritos sobre o sistema financeiro, a socialização do crédito e a realização de auditorias cidadãs às dívidas.

No âmbito da crise climática, a rutura com o produtivismo tradicional levou ao surgimento do ecossocialismo e das teorias do decrescimento. O filósofo japonês Kohei Saito sustenta que a acumulação infinita de capital é estruturalmente incompatível com os limites biofísicos do planeta. Resgatando as pesquisas ecológicas da maturidade de Karl Marx, Saito propõe o "decrescimento ecossocialista", fundado na redução da produção desnecessária, na redistribuição da riqueza e no redirecionamento da economia para a satisfação das necessidades humanas reais. De forma complementar, o historiador norte-americano Jason W. Moore conceptualiza o capitalismo como uma organização da natureza baseada na apropriação continuada de "natureza barata" - trabalho, energia, alimentos e matérias-primas. Moore argumenta que a superação da crise ecológica exige a transição para modelos agroecológicos e a abolição da fronteira artificial entre a sociedade humana e o mundo natural.

A crítica direta às estruturas do tecnofeudalismo e ao controlo digital é desenvolvida por teóricos como Yanis Varoufakis e Shoshana Zuboff. Enquanto Varoufakis denuncia como os "feudos na nuvem" substituíram os mercados tradicionais por mecanismos de rentismo digital e modificação de comportamento, Zuboff identifica o surgimento do "Capitalismo de Vigilância". Como resposta a este poder privatizado sobre a informação, estes autores e investigadores como Nick Srnicek e Alex Williams advogam a criação de infraestruturas públicas digitais, a afirmação da soberania democrática sobre os monopólios tecnológicos e a apropriação social da automação para reduzir a jornada semanal de trabalho, garantindo a dignidade através de um Rendimento Básico Incondicional.

A reflexão sobre os sujeitos políticos, as estruturas do cuidado e a organização social encontra eco em perspetivas que articulam a política institucional com a autonomia de base. A filósofa belga Chantal Mouffe diagnostica o esvaziamento das democracias e propõe a construção de uma nova hegemonia através do populismo de esquerda, capaz de radicalizar as instituições por meio da agregação de lutas plurais -feministas, ecológicas, antirracistas e laborais. Numa perspetiva focada na reprodução da vida, a filósofa feminista Silvia Federici evidencia que o sistema depende intrinsecamente do trabalho invisibilizado e não pago de cuidados e tarefas domésticas, maioritariamente desempenhado por mulheres. Federici propõe a revalorização e a reorganização comunitária do trabalho de reprodução social, subtraindo os cuidados à lógica da rentabilidade e do extrativismo de dados.

Por sua vez, as correntes antiautoritárias e autonómicas propõem alternativas de base sem mediação estatal. O antropólogo norte-americano David Graeber desferiu duras críticas à burocracia corporativa e à proliferação de empregos desprovidos de sentido útil (bullshit jobs), propondo a ação direta, o cancelamento de dívidas abusivas e formas de organização horizontal. Essa mesma busca por autonomia encontra expressão prática no Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), em Chiapas, no México. Rejeitando a tomada do poder estatal e o autoritarismo ideológico do século passado, o movimento zapatista constrói no quotidiano um modelo de autogoverno comunitário assente no princípio de "mandar obedecendo", onde o rigor da responsabilidade coletiva substitui a dispersão do homem-massa e a submissão aos novos feudos económicos.

O itinerário do pensamento social que vai do diagnóstico inicial de Ortega y Gasset às teorias do tecnofeudalismo revela a constante necessidade de defender a autonomia humana perante as forças de massificação e alienação. Quer perante a barbárie totalitária impulsionada pelo homem-massa no século XX, quer perante a extração invisível promovida pelos feudos digitais no século XXI, a resposta assenta na reconstrução do vínculo comunitário, na democratização da tecnologia e na defesa dos bens comuns.

Referências Bibliográficas
  1. Durand, C. (2020). Technofeudalism: Critique of Digital Economy
  2. Federici, S. (2019). Calibã e a Bruxa: Mulheres, Corpo e Acumulação 
  3. Graeber, D. (2018). Bullshit Jobs: A Theory
  4. Harvey, D. (2004). O Novo Imperialismo. .
  5. Lapavitsas, C. (2013). Profiting Without Producing: How Finance Exploits Us All. 
  6. Moore, J. W. (2015). Capitalism in the Web of Life: Ecology and the Accumulation of Capital. 
  7. Mouffe, C. (2018). Por um Populismo de Esquerda. 
  8. Ortega y Gasset, J. (2019). A Rebelião das Massas. 
  9. Saito, K. (2024). O Capital no Antropoceno.
  10. Srnicek, N., & Williams, A. (2015). Inventing the Future: Postcapitalism and a World Without Work. 
  11. Varoufakis, Y. (2023). Technofeudalism: What Killed Capitalism. London: Bodley Head.
  12. Zuboff, S. (2021). A Era do Capitalismo de Vigilância: A Luta por um Futuro Humano na Nova Fronteira do Poder. 
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Corujas-do-mato: a Maia e o património natural

A Maia está de facto de parabéns. Ontem ao fim da tarde tive oportunidade de fotografar esta jovem coruja-do-mato (𝑆𝑡𝑟𝑖𝑥 𝑎𝑙𝑢𝑐𝑜), banhada pela última luz dourada do dia.   
É um privilégio enorme testemunhar que a vida selvagem continua a prosperar em silêncio nos nossos espaços verdes. 
As corujas-do-mato desempenham um papel fundamental no equilíbrio do ecossistema urbano e, ver um juvenil com esta plumagem penugenta e olhar curioso tão de perto, é a prova viva de que a natureza encontra espaço para nascer e crescer entre nós.   
Um daqueles momentos mágicos que nos lembram a importância de proteger e valorizar os refúgios naturais da nossa cidade.

Meu poema
As the sun went down, I spotted this juvenile, and I remember a few interesting things about it…

Long ago, when the forest was young, the Sun and Moon shared a quiet affection for the ancient woods. 

As twilight spilled liquid gold through the canopy each evening, a small tree spirit was born—clothed in down soft as morning mist and warmed by the embers of the fading day. They called this creature the Child of the Woods (Coruja-do-mato).
“Where light surrenders to the dark,
A gentle heart ignites a spark.
With eyes like night and down like flame,
The forest whispers out its name.”

Legend holds that catching a glimpse of this young guardian grants a rare blessing - a quiet moment of wonder, reminding us that beauty wakes as the light fades.

Corujas e a mitologia
Ao longo dos tempos, as corujas têm despertado fascínio e admiração nos seres humanos. Presentes em mitos e lendas, elas acabam reunindo crenças bastante variadas e contraditórias. Enquanto em algumas culturas, são admiradas e veneradas, em outras são temidas e até mesmo desprezadas. 

Frequentemente associadas à sabedoria, proteção espiritual e morte, as corujas também podem estar conectadas à feitiçaria, medicina, ao clima e até mesmo ao nascimento. O fato de serem animais encontrados em praticamente todas as regiões do planeta, fez com que elas aparecessem em diferentes narrativas mitológicas ao longo dos séculos. 

Animais fascinantes com incríveis habilidades de caça e hábitos noturnos, as corujas aparecem em pinturas rupestres que datam de 20 mil anos atrás. Da cultura egípcia, passando pela grega e pelos povos originários, elas reúnem diferentes significados e histórias. Conheça a seguir um pouco mais da presença das corujas na mitologia.

Mitologia egípcia, grega e romana
Para os egípcios, as corujas eram conectadas ao mundo dos mortos, aparecendo em hieróglifos e representações artísticas. Encaradas como guias espirituais capazes de transitar entre o mundo dos vivos e dos mortos, elas eram recorrentemente associadas a divindades funerárias, como Neite e Néftis. 

Já para os gregos, as corujas eram o símbolo de Atena, deusa da sabedoria, artesanato e estratégia militar. De acordo com a mitologia, Atena teria ficado tão impressionada pelos grandes olhos e aparência solene do pássaro, além de sua sabedoria e seriedade, que o adotou como seu fiel companheiro, substituindo o corvo. Conhecida como Athene Noctua, essa espécie de coruja era encontrada em grande número na cidade de Atenas e na Acrópole, acreditando-se que uma “luz interior” mágica fornecia sua visão noturna. 

Justamente por sua associação com Atena, a coruja se tornou um animal protetor para os gregos, acompanhando os exércitos à guerra como um símbolo de inspiração. Caso sobrevoasse os soldados antes de uma batalha, sua aparição era tida como um bom presságio e sinal de vitória. Além disso, o animal foi estampado nas moedas atenienses, as quais traziam o rosto de Atena de um lado e sua coruja do outro.  

Para os romanos, a coruja também era um símbolo de sabedoria. No entanto, ela também era associada a maus presságios, especialmente a morte. Na Roma antiga, ouvir o pio de uma coruja era um presságio desastroso, indicando uma morte iminente. Segundo as lendas, as mortes de Júlio César, Augusto, Aurélio e Agripa foram todas anunciadas por uma coruja. 

Diferente dos gregos, os romanos acreditavam que o avistamento de uma coruja antes da batalha era um aviso de desastre e derrota. Segundo a mitologia romana, Proserpina (nome romano de Perséfone) foi levada contra sua vontade para o submundo por Plutão, deus dos mortos, podendo retornar para sua mãe, a deusa da agricultura Ceres, desde que não ingerisse nada enquanto estivesse lá. Ascálafo, filho de Aqueronte e da ninfa Orfne, viu Proserpina colhendo uma romã e contou para todos o que havia acontecido, obrigando a jovem a permanecer no local por um número determinado de meses. Ceres ficou tão furiosa que o transformou em uma coruja, de forma que se tornou protegido de Minerva, correspondente romana de Atena. 

As corujas para os povos originários dos Estados Unidos e Canadá
As corujas aparecem em diversas narrativas de povos originários dos Estados Unidos e Canadá, frequentemente associadas a profecias e adivinhações. Os Hopi, por exemplo, acreditam que elas são sagradas e associadas ao deus dos mortos, atuando como protetoras do submundo e das coisas que crescem da terra subterrânea, como sementes. Já para os Apaches, sonhar com uma coruja indicava uma morte próxima, enquanto para os Lenapes sonhar com ela significava que o animal se tornaria seu guardião.

Por outro lado, os Cherokee valorizam as corujas como consultoras de seus xamãs, inclusive podendo trazer doenças como punição. Segundo os Cree, seus pios eram, na verdade, chamados de espíritos. Caso uma pessoa respondesse com um som semelhante e não ouvisse uma resposta era porque ela estava destinada a morrer em breve. Por outro lado, para os Kwakiutl, povos originários do Canadá, as corujas eram as almas das pessoas, não devendo ser prejudicadas, pois quando uma coruja era morta a pessoa a quem pertencia a alma também morria. 

Segundo os Menominee, por exemplo, o dia e a noite foram criados após uma competição entre uma coruja e um coelho. O coelho acabou ganhando e escolheu a luz do dia, permitindo a noite como um benefício para a coruja derrotada. Para os Navajo, o deus Nayenezgani criou a coruja e lhe designou o dom da profecia, de forma que quando os homens ouvissem seu som eles saberiam qual seria o seu futuro. 

Mitologia celta e hindu 
Na mitologia celta, as corujas são frequentemente associadas a Cailleach, uma deusa anciã ligada a criação da paisagem e ao clima, especialmente as tempestades e o inverno, representando os ciclos de vida, morte e renascimento. Por Cailleach ser uma divindade funerária, o chamado da coruja era interpretado como um presságio de morte. 

Em muitas narrativas, devido a sua visão noturna e habilidade de caça, o pássaro aparece como um guia para o submundo, simbolizando a intuição e proteção na escuridão. Além disso, para os galeses, as corujas têm íntima relação com a figura mitológica de Blodeuwedd, a qual foi transformada no animal pelo herói Gwydion após tentar assassinar seu marido. Segundo o Mabinogi, coletânea de manuscritos da mitologia celta, escritos em galês medieval, Blodeuwedd é transformada em coruja como uma punição, relegada a viver a noite longe dos outros animais.  

Enquanto isso, na mitologia hindu, as corujas são associadas a Lakshmi, deusa da fortuna e da prosperidade. O pássaro é um dos “vahanas” ou veículos de Lakshmi, simbolizando proteção contra a ignorância e ganância, assim como sabedoria e perspicácia. Neste caso, a associação da coruja com a divindade faz com que seja vista como um lembrete simbólico para ir além das atividades materiais, cultivando qualidades como paciência, inteligência e sabedoria. Isso acontece devido ao comportamento noturno do pássaro, o qual é interpretado como um esforço para observar e descobrir conhecimento quando cercado pela escuridão.  

Mergulhe na magia da Ornitografia

Quer saber mais sobre essas criaturas fascinantes? Calma que a Caveira tem o livro certo para você! Animais mágicos e cheios de simbolismo, as corujas são apenas um dos pássaros abordados por Jessica Roux em Ornitografia: A Linguagem Secreta das Aves. Um livro ilustrado que combina arte, mitologia e história, este lançamento encantado da Magicae, revela os significados ocultos por trás de cem aves, convidando o leitor a mergulhar na linguagem esquecida desses animais que nos fascinam há tanto tempo. 

Do astuto corvo passando pelo majestoso pavão até a sábia coruja, Ornitografia: A Linguagem Secreta das Aves traz um conteúdo rico que mergulha o leitor em presságios, contos de fadas e narrativas folclóricas, nos convidando a enxergar estas criaturas como representantes dos poderes arcanos da natureza. Mostrando que por trás de cada voo, gorjeio ou plumagem há uma história esperando para ser contada, Ornitografia: A Linguagem Secreta das Aves nos leva a redescobrir a presença desses animais em nosso cotidiano e a observar o céu com outros olhos. 

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terça-feira, 20 de outubro de 2026

Korine - Fate

Melhor som aqui
Os Korine são uma dupla musical de nacionalidade norte-americana, oriunda da cidade de Filadélfia, na Pensilvânia, e formada pelos músicos Morgy Ramone e Trey Frye. Pertencentes à Geração Y (Millennials), os membros do grupo trazem na sua bagagem cultural a experiência de terem crescido na transição do mundo analógico para o digital e uma formação musical enraizada nas cenas locais de punk, emo e indie dos anos 2000. Contudo, o impacto estético e o público-alvo do projeto abraçam fortemente a Geração Z, que redescobriu e recontextualizou o apelo visual retro, a estética analógica em VHS e a cultura dos sintetizadores através do consumo digital contemporâneo.

No plano estilístico, a sonoridade dos Korine assenta principalmente no synthpop, na darkwave, na new wave e no post-punk, caracterizando-se por linhas de baixo marcantes, batidas eletrónicas pulsantes e timbres nostálgicos de sintetizadores vintage. Em temas mais primordiais, como "Elegance & You" (lançado em 2017 no EP Corsage), a banda apresenta uma abordagem mais denso-escura e introspectiva, aliando uma produção caseira e sombria a uma narrativa sobre o isolamento urbano, a ansiedade social e o conforto melancólico de quem recusa a socialização superficial. Acompanhada por um videoclipe de tom noturno e contemplativo, a canção explora visualmente o contraste entre a decadência interior e uma certa "elegância" estética encontrada na própria solidão.

Com a evolução da sua discografia, visível em álbuns como The Night We Raise (2020) e Tear (2023), os Korine começaram a afastar-se da simples emulação retro e adotaram uma vincada sensibilidade pop moderna. Este amadurecimento é perfeitamente exemplificado no tema "Fate", onde a banda combina as suas bases sintéticas habituais com uma produção polida, limpa e luminosa, repleta de ganchos vocais contagiantes e um ritmo abertamente dançável, sem nunca abdicar da carga emotiva e confessional das suas letras. O videoclipe de "Fate" traduz esta transição ao utilizar uma paleta de cores saturadas, estética psicadélica e imagens de cemitérios, estátuas e metamorfoses da natureza para abordar a transitoriedade da vida e a beleza do renascimento.

Sob o ponto de vista das influências literárias e filosóficas, a escrita e o universo concetual dos Korine distanciam-se de tratados académicos frios para se ancorarem no romantismo obscuro do século XIX (evocando figuras como Edgar Allan Poe e Lord Byron) e na tradição do post-punk e emo dos anos 80 e 90 (como The Cure e Joy Division). A canção "Fate" explora a inevitabilidade emocional e o amor fatal, conceitos que encontram um paralelo direto no universo literário de Hermann Hesse - como em obras como Demian ou O Lobo da Estupefacção. A obra da banda reflete o dualismo entre a luz e as sombras, o alienamento do indivíduo perante o mundo moderno e a aceitação do próprio destino (Amor Fati), transformando o tédio existencial, a dor e a vulnerabilidade numa experiência artística e catártica.

Os 10% mais ricos de Portugal enriqueceram 73% em 15 anos

Neste Dia Europeu da Estatística, Banco de Portugal revela base de dados sobre distribuição da riqueza. Reforço patrimonial dos mais ricos acontece porque detêm cada vez mais imóveis.

Os 10% de famílias mais ricas em Portugal controlam quase 60% da riqueza líquida total do país (o valor do património depois de deduzidas as dívidas), tendo conseguido reforçar esta posição em termos relativos e absolutos, mostram as novas estatísticas sobre a evolução, composição e distribuição da riqueza das famílias portuguesas divulgadas pelo Banco de Portugal (BdP), esta terça-feira, 20 de outubro, Dia Europeu da Estatística.

Entre o final de 2010 e o primeiro trimestre deste ano, os 10% mais ricos reforçaram a respetiva riqueza líquida (valor do património depois de deduzidas as dívidas, segundo o BdP) em 73%, de 413 milhões de euros para 714 milhões de euros.

Em proporção da riqueza total das famílias (1,2 mil milhões de euros no início de 2026), os mais ricos conseguiram subir o respetivo peso, controlando agora 59% do património familiar declarado em Portugal.

Neste período de 15 anos, o maior impulso ao enriquecimento dos mais ricos vem do valor crescente em imóveis.

Segundo o BdP, atualmente, cerca de 40% do valor total em imobiliário na posse das famílias em Portugal pertence às 10% mais ricas.

Os menos abonados (50% das famílias) controlam apenas 15% do referido valor total em património imobiliário.

Este fosso de desigualdades tem vindo a ficar cada vez mais cavado desde a pandemia.

Há quinze anos, aquele grupo dos mais ricos controlava 34% do valor em imóveis (compara com 40% agora); os 50% mais pobres detinham quase 20% do património imobiliário (compara com 15% atualmente).

As grandes componentes do património são, em termos médios e gerais: imóveis (média de 52% do total da riqueza), depósitos bancários (cerca de 19%) e participações em capital (como fundos de investimento), cujo valor agregado rondará 16%, segundo o novo estudo do banco central.

Esta expansão da riqueza entre os mais ricos contrasta com a progressão mais lenta no grupo de famílias que cai "abaixo da mediana", ou seja, os 50% menos ricos, onde está o grosso da população, que detém uma fração muito reduzida da riqueza total.

Neste caso, nestes 15 anos, segundo cálculos do DN a partir dos dados preliminares do BdP, a riqueza do grupo de famílias menos abonadas aumentou 51% (comparando com a progressão superior a 70% dos mais ricos), perdendo peso no total, ao deslizar de 6,7% no final de 2010 para 5,9% no primeiro trimestre deste ano.

O Banco de Portugal explica que "nos últimos 15 anos, a riqueza líquida das famílias portuguesas, ou seja, o valor do seu património depois de deduzidas as dívidas, aumentou, sobretudo devido aos imóveis e aos ativos financeiros".

"Os imóveis residenciais continuaram a representar a maior parte do património das famílias, seguidos dos depósitos e das participações em capital, que ganharam peso ao longo deste período. Contudo, a composição do património varia consoante o nível de riqueza, sendo as participações em capital mais relevantes entre as famílias com maior património."

Desigualdade persiste
Nos 15 anos em análise (até final de 2026), "a riqueza líquida manteve-se distribuída de forma desigual entre as famílias portuguesas".

Segundo o BdP, "a riqueza mediana, isto é, o valor que divide as famílias em duas metades, uma com mais riqueza e outra com menos, aumentou, mas permaneceu abaixo da observada na área do euro".

Os indicadores relativos à forma como a riqueza total se distribuía entre as famílias "apontam para níveis de desigualdade próximos em Portugal e na área do euro".

Como referido, o Banco confirma que "entre 2010 e 2025, os 10% de famílias com maior riqueza concentravam 59% da riqueza líquida total, enquanto os 50% com menor riqueza líquida detinham 6%".

Estes resultados "evidenciam uma distribuição da riqueza que se manteve desigual e relativamente estável ao longo do período em análise".

A situação só não é pior porque, diz o BdP, o património imobiliário dos menos ricos (as casas compradas com empréstimos bancários ao longo de décadas) valorizou bastante, o suficiente para que hoje essa parcela seja mais importante em Portugal do que no conjunto da zona euro.

"A parcela da riqueza detida pelas famílias com menor riqueza líquida era maior em Portugal. Entre 2010 e 2025, as famílias abaixo da mediana detinham, em média, 6,1% da riqueza total em Portugal, comparado com 4,5% na área do euro. Esta diferença está associada ao peso elevado dos imóveis no património das famílias portuguesas com menor riqueza", indica a equipa de economistas do banco central.

Mais ricos, mais diversificados
Os dados permitem ver também que "as famílias com maior nível de riqueza líquida têm um património mais diversificado".

"A composição do património das famílias varia consoante o seu nível de riqueza. Do lado dos ativos, os imóveis predominam em todos os grupos, mas o seu peso é menor nos grupos com maior riqueza".

Pelas contas do BdP, "em 2025, representavam cerca de 74% dos ativos das famílias com riqueza líquida abaixo da mediana e menos de 40% dos ativos dos 10% de famílias com maior riqueza líquida", sendo que, "neste grupo, as participações em capital representavam 28% do total" dos ativos.

Já os depósitos mantêm "uma importância relevante em todos os grupos, representando entre 17% e 21% dos ativos das famílias em 2025".

"Ainda assim, entre os 10% de famílias com maior riqueza líquida, as participações em capital tinham um peso superior ao dos depósitos, refletindo uma maior diversificação do seu património financeiro. Este grupo concentrava também a maior parte dos outros ativos detidos pelas famílias", indica o Banco.

Do lado dos passivos, sem surpresa, "os empréstimos à habitação constituíam a principal componente da dívida em todos os grupos".

Página Oficial do Dia Europeu da Estatística

A ilusão do todo: a metamorfose do território Português e a abissal macrocefalia litoral


A representação tridimensional da densidade populacional elaborada pela Kontur - uma prestigiada empresa norte-americana de análise e processamento de dados geoespaciais sediada em Reston, Virgínia, reconhecida globalmente pelo seu trabalho na criação de mapas de densidade populacional de alta resolução e análise de risco para gestão de catástrofes - revela com clareza visual uma fratura que define a geografia humana e económica de Portugal. Através do trabalho visual desenvolvido por Alikhan Beisenbayev para a empresa, o mapa evidencia a hiperconcentração demográfica ao longo do litoral ocidental - com foco vertiginoso na Área Metropolitana de Lisboa e no eixo contínuo Porto-Braga - em contraste com um interior desértico, pontuado apenas por picos isolados como Coimbra ou Évora. O fenómeno retratado no mapa não é acidental nem recente; é o resultado de um processo histórico, social e económico de litoralização, bipolarização e macrocefalia territorial consolidado ao longo da segunda metade do século XX e aprofundado no século XXI.

A génese da assimetria territorial portuguesa assenta na transição de uma economia maioritariamente agrária para uma economia industrial e de serviços. A partir de meados do século XX, o setor primário do interior revelou-se incapaz de absorver a força de trabalho local devido à reduzida produtividade e à falta de modernização. Este cenário impulsionou dois movimentos migratórios paralelos: por um lado, a emigração internacional destinada à Europa Central (França, Alemanha, Suíça), que esvaziou concelhos inteiros de Trás-os-Montes, Beira Interior e Alentejo; por outro, o êxodo rural interno, caracterizado pela migração das populações jovens das zonas rurais agrícolas para as áreas onde a industrialização florescia, designadamente a faixa litoral ocidental. Além disso, o modelo de desenvolvimento adotado ao longo das últimas décadas priorizou a infraestruturação das regiões com maior densidade de procura. A construção de eixos de transporte, como autoestradas, redes ferroviárias, infraestruturas portuárias e aeroportuárias, concentrou-se no eixo Litoral. Este investimento gerou um efeito de retroalimentação, onde o investimento em infraestruturas atraiu mais empresas, criando mais emprego e resultando numa maior concentração populacional.

O fosso entre o Litoral e o Interior é evidente em múltiplos setores socioeconómicos e académicos. No âmbito demográfico, de acordo com os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE), mais de 80% da população residente em Portugal habita numa faixa costeira que representa menos de um terço do território nacional. Setores urbanos como as Áreas Metropolitanas de Lisboa e do Porto albergam quase metade da população total do país. Em paralelo, observa-se um envelhecimento populacional acentuado: enquanto em regiões rurais e do interior (como Trás-os-Montes ou o interior do Alentejo) o índice de envelhecimento ultrapassa frequentemente os 200 a 300 idosos por cada 100 jovens, a capacidade de renovação da população nestes territórios é practically nula, tendo concelhos do interior profundo perdido entre 20% e 45% da sua população nas últimas quatro décadas.

Esta espiral de despovoamento do interior inicia-se com a saída de jovens para o ensino superior ou emprego, levando à queda da taxa de natalidade e ao envelhecimento acentuado, o que motiva o encerramento de serviços básicos como escolas, centros de saúde e correios. Este encerramento resulta na perda de atratividade económica e investimento privado, desencadeando novas vagas de emigração ou êxodo rural. Do ponto de vista económico e de serviços, a Área Metropolitana de Lisboa e a Região Norte geram a grande maioria do Produto Interno Bruto (PIB) português, visto que o tecido empresarial de alto valor acrescentado, focado nos serviços avançados e na tecnologia, se instala predominantemente nos grandes centros urbanos. Por sua vez, o fecho progressivo de serviços públicos e privados de proximidade acelerou a desertificação humana, transformando a ausência de infraestruturas num fator de repulsão.

As consequências deste desequilíbrio para a coesão territorial e para o ambiente são profundas. Em primeiro lugar, verifica-se uma acrescida vulnerabilidade aos riscos naturais, pois a perda de população e o abandono das atividades agrícolas e pastoris tradicionais resultaram no desordenamento florestal, aumentando a escala e a gravidade dos grandes incêndios rurais. Em segundo lugar, gera-se uma enorme pressão urbanística e imobiliária no litoral, onde a hiperconcentração populacional nas grandes áreas metropolitanas inflaciona o mercado imobiliário, cria estrangulamentos na mobilidade e sobrecarrega os serviços públicos e de habitação. Por fim, consolida-se uma assimetria de oportunidades, em que o local de nascimento ou residência condiciona diretamente o acesso à saúde especializada, ao ensino de topo e ao mercado de trabalho qualificado.

Estudo de caso: Lisboa
A evolução demográfica de Lisboa reflete uma profunda transformação urbana, marcada por décadas de perda populacional seguidas por uma recuperação assinalável impulsionada pelas migrações. Entre o censo de 1981 e o de 2021, o concelho registou um decréscimo drástico de cerca de 250 mil habitantes, motivado essencialmente pelo fenómeno de suburbanização que levou milhares de famílias a fixarem-se nos concelhos da Área Metropolitana de Lisboa em busca de habitação mais acessível. No entanto, quando alargamos a análise até 2025, a perda líquida fixa-se na fasquia dos 150 mil habitantes, revelando uma forte inversão da tendência nos últimos quatro anos. Entre 2021 e 2025, a capital portuguesa ganhou mais de 52 mil residentes, atingindo uma população estimada de 658.236 pessoas. Esta dinâmica de crescimento recente deveu-se exclusivamente a um saldo migratório altamente positivo de +57.129 pessoas, o qual foi robusto o suficiente para anular o saldo natural negativo de -4.340 pessoas registado no mesmo período. [análise completa aqui]

Referências Bibliográficas
  • Ferrão, J. (2014). O Ordenamento do Território como Política Pública. Fundação Calouste Gulbenkian.
  • Instituto Nacional de Estatística (INE). (2021). Censos 2021: Resultados Definitivos sobre a População e Habitação. Lisboa: INE.
  • Instituto Nacional de Estatística (INE). (2023). Estatísticas Demográficas e Retrato Territorial de Portugal. Lisboa: INE.
  • Kontur Inc. (2023). Portugal's Population Distribution (Visualização por Alikhan Beisenbayev). Reston, Virginia, EUA. 
  • Medeiros, E. (2017). Coesão Territorial e Desenvolvimento Regional em Portugal. Centro de Estudos Geográficos, Universidade de Lisboa.
  • Rodrigues, M. L., & Silva, A. U. (2019). Despovoamento e Envelhecimento no Interior de Portugal: Dinâmicas e Políticas de Coesão. Revista Portuguesa de Estudos Regionais.
Saber mais:

Onde te mandam viver quando dizes que não consegues pagar 1.200€ de renda nos arredores de Lisboa

Anúncio de Imóvel para reabilitação, em Amareleja, Moura. Baixo Alentejo.

Uma ruína assim pode ir para 300 mil no Algarve. mais de 40% das casas no Algarve são segunda habitação, toda a região é um «resort». O «modelo» está em expansão para o Alentejo, Grande Lisboa e Grande Porto. Portugal é dos poucos países da Europa Ocidental que não taxa a segunda habitação, logo a procura é enorme, o que inflaciona de modo brutal os preços. No Reino-Unido , uma moradia de segunda habitação, fora do mercado de arrendamento, paga facilmente 5 a 6 mil libras de imposto anual, ou mais. O FMI e outras entidades têm alertado que Portugal taxa mal a propriedade e em excesso os trabalhadores.
felizmente nem todo o interior está assim. No distrito da Guarda conseguem-se casas prontas a habitar a menos de 60 000€, mas a questão é, quem é que quer viver no interior, longe de tudo? Com falta de oportunidades e serviços? Sujeitar-se aos extremos das temperaturas de cada estação... não é para todos infelizmente.
Possivelmente já foi casa de gente! Talvez em herança indivisa, à espera que um estrangeiro «rico» compre por uma pequena fortuna. Por alguns casos práticos reconheço que nem sempre é fácil: propriedades de alguns hectares que, ao serem partidas/divididas, geram "partes " sem qualquer interesse
De facto o braço-de-ferro fiscal entre a Autoridade Tributária (AT) e os tribunais superiores sobre as mais-valias em heranças indivisas introduz uma enorme instabilidade no mercado e penaliza severamente os contribuintes. De um lado, o Supremo Tribunal Administrativo (STA) estabeleceu que a alienação de um quinhão hereditário ou a venda de imóveis no âmbito de uma herança indivisa não deve ser sujeita a IRS. O entendimento assenta no princípio de que o que está a ser transmitido é um direito abstrato à herança e não a propriedade plena de um bem concreto. Do outro lado, o Fisco recusa-se a aplicar de forma automática esta jurisprudência geral. A AT argumenta que, se a escritura configurar a venda direta de um imóvel específico e não apenas a cessão de uma quota-parte ideal, há lugar ao pagamento de imposto. Esta divergência força os contribuintes a recorrer à justiça e a suportar custos de litigância para fazer valer os seus direitos, servindo também como um forte entrave à habitação ao travar a venda de imóveis parados em heranças. Perante este cenário, a Ordem dos Contabilistas Certificados (OCC) tem manifestado o seu forte desacordo com a AT e aconselha os cidadãos a contestarem legalmente todas as liquidações deste tipo.

Como o tordo-músico ajuda no controlo de caracóis sem pesticidas

Maravilha! Consegui fotografar mais um tordo-músico e desta vez em plena ação!

Acordo habitualmente muito cedo, como as aves . Ouvi o seu canto e avistei-o. Esperei um pouco a observá-lo, mesmo aqui, no Ecocaminho da Maia, e fiz o click no momento exato em que ele fazia o seu repasto matinal!

Sendo uma ave omnívora, esta espécie é uma verdadeira mestra no controlo de caracóis, usando pedras como autênticas bigornas para partir as conchas com uma eficácia incrível.

É verdade que os caracóis costumam ser os grandes tramados das nossas hortas e das couves, mas nada contra eles, atenção! Tudo faz parte de um equilíbrio ecossistémico fascinante, livre de pesticidas. A verdade é que os caracóis também desempenham um papel essencial na natureza. Ao alimentarem-se de matéria em decomposição, enriquecem o solo e ajudam a dispersar sementes. Além disso, a sua concha é uma fonte vital de cálcio para as próprias aves produzirem as cascas dos seus ovos, sem esquecer que servem de alimento a ouriços, anfíbios e até larvas de pirilampo.

Quando os predadores naturais têm espaço para agir, aquilo que parecia uma praga transforma-se simplesmente na vida a fluir em harmonia. Dá mesmo que pensar... Mais uma vez, fica provada a enorme importância de termos e preservarmos mais espaços verdes para todos, como hortas urbanas, parques urbanos e corredores ecológicos! 

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Zanias - Through This Collapse


Zanias é o projeto a solo da artista, produtora e DJ australiana Alison Lewis. Nascida em Melbourne e com uma infância passada entre a Indonésia, a Malásia e a Austrália, estabeleceu-se mais tarde no coração da cena eletrónica e underground de Berlim, após ter deixado a sua marca em Londres à frente de projetos como os Linea Aspera.

A sua sonoridade transita harmoniosamente entre o Darkwave, o Ethereal Wave, a Minimal Wave e a música eletrónica industrial ou EBM. A comparação com os Dead Can Dance é extremamente precisa e recorrente. Tal como Lisa Gerrard, Zanias aborda a voz como um instrumento sacro e vocalização de foro ritualístico sobre fundos eletrónicos densos e pulsantes. Faz um uso abundante e expressivo de melismas - a técnica de cantar várias notas musicais encadeadas sobre uma única sílaba -, o que confere às suas canções uma tonalidade ancestral, xamânica e quase mística, criando um contraste fascinante com a austeridade dos sintetizadores.

Na faixa Through This Collapse, a artista explora a transformação interior através da adversidade, da dor e do desapego. O colapso aqui evocado não representa um fim trágico ou uma destruição passiva, mas antes uma rutura necessária: a dissolução do ego, das ilusões e de velhas estruturas da vida para dar lugar ao renascimento. É uma viagem de catarse onde a dor é atravessada consciente e corajosamente para alcançar a libertação e uma nova forma de perceção.

A escolha da dupla artística OUROBOROS (constituída por Jeremy Carne e Nikolas Kasinos) para a realização, produção e edição do videoclipe de «Through This Collapse» revela uma cumplicidade concetual perfeita com a faixa. O próprio nome da dupla remete para o símbolo mitológico da serpente que devora a sua própria cauda - uma alegoria clássica dos ciclos de destruição, renovação e renascimento. Esta simbiose visual reflete de forma magistral o tema do colapso e da metamorfose espiritual abordado por Zanias. Através de paisagens austeras, jogos marcantes de luz e sombra e uma corporalidade expressiva, o vídeo desenrola-se como um ritual de passagem: a figura central atravessa ambientes de densidade e isolamento até emergir num estado de aceitação e transcendência, espelhando com precisão a travessia do caos interior rumo à clareza.

Do ponto de vista percetivo, a criação de Zanias é profundamente influenciada pela sua formação académica em Arqueologia e Antropologia, assim como por correntes filosóficas e literárias marcantes. Nota-se uma forte ressonância com o Existencialismo e o Niilismo de perspetiva afirmativa, remetendo para Nietzsche e Camus na ideia do Amor Fati - a aceitação plena da dor e da mudança para a construção do próprio sentido vital a partir do caos. Paralelamente, a obra dialoga com a Psicologia Junguiana na exploração da "Sombra" e no processo de individuação, bem como com o estudo dos ritos de passagem, do transe e do fascínio antropológico pela ligação entre o ser humano, o ritual e o cosmos.

Fernando Almeida - O ICNF devia ser o ponta de lança da proteção da natureza em Portugal, mas não é

«O ICNF é mais um órgão policial-sancionatório do que educativo, e eu acho que as coisas em termos de futuro se resolvem com educação.»

«Do ponto de vista da ecologia científica, não me revejo na forma de proceder do ICNF e isso passa para os regulamentos e, sobretudo, para a interpretação dos regulamentos. Nada de verdadeiramente sólido se pode fazer em prol do ambiente sem as pessoas que vivem nos nossos campos e serras…»

«Acho que a proteção da natureza e seus recursos tem que ser feita para eles e com eles, e nunca contra eles. E por vezes parece que o Instituto tem uma lógica de imposição de padrões urbanos aos habitantes do mundo rural, e muito pouco respeito pela sua cultura, e pelos seus interesses.»

«A reserva da Malcata, por exemplo, foi criada para proteger o lince em Portugal, e julgo que acabou por provocar a extinção do lince. Proibiram-se as queimadas tradicionais, as arroteias, porque supostamente iria assustar o lince, e isso, evidentemente, criou matos altos, matos altos acabaram com as perdizes e os coelhos, e o lince não tinha onde comer e foi embora – passou a ser atropelado na periferia da serra. A história do ambiente em Portugal está cheia deste tipo de situações. Como fundei a Quercus tenho conhecimento destas coisas. (..) O lince da Malcata é um clássico. Se havia lince da Malcata no final dos anos 70 e anos 80, era porque haviam queimadas e porque as práticas tradicionais eram suficientemente adaptadas para que houvesse lince. »

«Em Portugal, primeiro a nobreza e, mais tarde, a burguesia rural endinheirada, foram-se apropriando das terras públicas e das terras comuns, como dunas, serras e tudo o mais que alguém com poder de bons contactos conseguisse escriturar em seu nome. E resulta daí que realmente o nosso país quase não tem terras públicas, o que complica muito a gestão do território, em especial a floresta e a própria proteção da natureza.»

«Depois, muitas vezes, o que se faz para proteger uma região é fazer dela uma reserva, um parque natural, fazem-se uns riscos no mapa e criam-se áreas protegidas onde as atividades humanas são muito limitadas, mas fora delas usam-se todo o tipo de desmandos como agroquímicos e monoculturas, permite-se a erosão de solos sem controlo, e por aí adiante.»

«A relação que o ICNF tem na vertente da conservação da natureza com as comunidades locais é altamente autoritária e nada cooperante. Tem uma lógica quase colonial do urbano sobre o rural, ou do intelectual sobre o menos escolarizado. Não se pode fazer conservação da natureza contra as pessoas, tem de ser sempre com as pessoas. Ou seja, tem de existir uma atitude pedagógica.»

«Um exemplo, e um problema mais grave que passa despercebido, é que nós somos produtores de pasta de papel para a Europa, e isso tem custos elevadíssimos em termos ambientais, em termos de água. Temos mais de um milhão de hectares de eucalipto em Portugal. Em França, a utilização de eucalipto globulus só é autorizada para secar pântanos e é altamente controlada, porque tem impactos.»

«Por cá, não vejo quase ninguém protestar. Protestamos contra 400 hectares de painéis solares, mas não protestamos contra um milhão de hectares de eucalipto. E estraga mais um hectare de eucalipto do que um hectare de painéis solares. Andámos no passado a subsidiar, a dar rios de dinheiro às pessoas para plantar eucaliptos. Isto, para mim, deveria ter sido um escândalo, não foi, e continua a não ser.»

«O movimento ambientalista em Portugal parece estar relativamente adormecido, como se o facto de aquilo ser verde fosse uma coisa aceitável ou menos má do que outras ocupações de solo, como por exemplo os painéis solares. O eucalipto tem um impacto enorme sobre os recursos hídricos, sobre o solo, e sobre os incêndios. Quanto é que nós pagamos anualmente no combate a incêndios? São centenas de milhões, e sobretudo porque temos uma floresta mal gerida. São muitas centenas de milhões de euros que nós pagamos a mais por bombeiros, meios aéreos, por prejuízo, dióxido de carbono para a atmosfera que não contabilizamos.»

«É evidente que o mau ordenamento e a má gestão da floresta estão na base da gravidade dos incêndios que nós temos. Se conseguiram que fossemos o fornecedor de papel à Europa à custa dos nossos campos, conseguem montar cá os centros de dados…»

Entrevista completa aqui

Habitação? Políticos a mexer na lei são proprietários (vários, senhorios)



Mais de 200 políticos que compõem o Governo e os grupos parlamentares do PSD, Chega, Iniciativa Liberal e CDS-PP, possuem património imobiliário, sendo 41 deles senhorios e 31 investidores do setor imobiliário. Ao todo, terão um valor patrimonial conjunto superior a 55 milhões de euros. 

As contas são do jornal Público, que esta segunda-feira apresenta os resultados de uma análise às declarações de rendimentos e de património de cada um destes 220 governantes e deputados - que são públicas e podem ser consultadas na Plataforma Eletrónica da Entidade para a Transparência. Recorda também o mesmo jornal que são estes os mesmos governantes que estão aprovar uma série de medidas que beneficiam proprietários e que, nos últimos dias, têm levado milhares de pessoas à rua para se manifestarem contra a crise na habitação.

O Governo tem a maior percentagem de proprietários entre os grupos de políticos analisados, num total de 436 imóveis, distribuídos pelos 60 governantes. Só Miguel Pinto Luz, ministro das Infraestruturas e da Habitação, e Gonçalo Matias, ministro Adjunto e da Reforma do Estado, não têm qualquer imóvel em seu nome. 

Entre a lista de proprietários consta como já é sabido, o nome do primeiro-ministro Luís Montenegro. O chefe do Governo é o segundo maior proprietário com um total de 55 imóveis, dos quais 49 são rurais, com um valor patrimonial total de cerca de 796 mil euros.

À sua frente, só está Maria Garrido, secretária de Estado da Administração Pública, com 62 imóveis, a maioria dos quais herdados da avó materna.

Por sua vez, nomes como Paulo Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros; Carlos Abreu Amorim, ministro dos Assuntos Parlamentares; Rita Alarcão Júdice, ministra da Justiça; Maria do Rosário Palma Ramalho, ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social; Maria da Graça Carvalho, ministra do Ambiente e da Energia; José Manuel Fernandes, ministro da Agricultura e do Mar; José Maria Brandão de Brito, secretário de Estado adjunto e do Orçamento; João Silva Lopes, secretário de Estado do Tesouro e das Finanças; Marisa Garrido, secretária de Estado da Administração Pública; Hugo Espírito Santo, secretário de Estado das Infraestruturas; Patrícia Gonçalves Costa, secretária de Estado da Habitação; Ana Luísa Machado, secretária de Estado da Justiça; Paulo Simões Ribeiro, secretário de Estado adjunto e da Administração Interna; Cláudia Sarrico, secretária de Estado do Ensino Superior; Francisco Catalão, secretário de Estado da Gestão da Saúde; Jean Barroca, secretário de Estado adjunto e da Energia; e João Moura, secretário de Estado da Agricultura, declaram rendimentos prediais, num montante total superior a 353 mil euros

Os dados a que o Público teve acesso resultam das declarações de rendimentos e de património dos 220 governantes e deputados, cuja apresentação é obrigatória ao Tribunal Constitucional, no prazo de 60 dias a partir do início do exercício das funções. 

Os manifestantes do Movimento pela Habitação, escusam de referir os seis pontos, basta referir que acusam o incumprimento da  Lei de Bases da Habitação (aprovada pela Lei n.º 83/2019, de 3 de setembro) é o diploma estruturante em Portugal que define as bases do direito à habitação e as incumbências do Estado para o garantir efetivamente a todos os cidadãos, nos termos da Constituição.

Falta Luís Neves que não cumpriu obrigações declarativas desde 2018 no TC e só entregou em julho deste ano, ficando fora da investigação do Público. Em agosto foi novamente obrigado a  corrigir (de novo) declaração de património, tendo sido registado uma firma da sua mulher, uma empresa que desnvolve actividades de turismo e alojamento curta duração, no valor de 500.000 euros

Saber mais:
  1. A fuga de talento jovem continua, apesar da narrativa ‘cor-de-rosa’

Jovens "Nem-Nem": Portugal no Top 4 da UE, mas a precariedade persiste


O Contexto Geral na União Europeia (O Panorama dos NEET)
O acrónimo NEET refere-se aos jovens (habitualmente entre os 15 e os 29 anos) que se encontram totalmente arredados do mercado de trabalho e dos sistemas de ensino ou formação profissional.

Média Europeia - a taxa de NEET na União Europeia tem rondado os 9% a 11%, registando uma descida gradual na última década na maioria dos Estados-membros.

Os extremos geográficos - os países do norte e centro da Europa (como os Países Baixos, Suécia ou Irlanda) registam consistentemente as taxas mais baixas (frequentemente abaixo dos 5-6%). Em contrapartida, países do sul e leste da Europa (como Roménia, Itália ou Espanha) enfrentam maiores dificuldades, com taxas significativamente mais elevadas.

Fatores determinantes - os estudos do Eurostat mostram que o nível de escolaridade é o fator mais crítico. Jovens com baixas qualificações correm um risco consideravelmente maior de cair na inatividade prolongada. Além disso, a partir dos 22-24 anos, as mulheres tendem a registar taxas de NEET superiores aos homens, muitas vezes associadas a responsabilidades familiares e de prestação de cuidados.

Análise a fundo: A realidade de Portugal
Analisar a situação dos jovens em Portugal no contexto dos indicadores europeus exige olhar para duas faces da mesma moeda: os avanços significativos na educação e os persistentes desafios estruturais na empregabilidade e salários.

1. A forte retenção escolar e a qualificação
Portugal tem feito um caminho notável na redução do abandono escolar precoce nas últimas duas décadas. A esmagadora maioria dos jovens mantém-se nos ensinos secundário e superior por mais tempo. Contudo, o desafio desloca-se para a transição entre o fim dos estudos e a entrada num mercado de trabalho estável.

2. O fenómeno da precariedade e do subemprego
Muitos jovens portugueses que não entram estatisticamente na categoria estrita de desempregados acabam por enfrentar dinâmicas de precariedade severa:
  1. Contratos de estágio sucessivos ou falsos recibos verdes.
  2. Salários médios de entrada que não acompanham o custo de vida (especialmente o mercado imobiliário nos grandes centros urbanos como Lisboa e Porto).
3. O "Brain Drain" (Fuga de Cérebros)
Um aspeto particular da realidade portuguesa que afeta os dados de integração dos jovens é a emigração qualificada. Muitos recém-licenciados, confrontados com a falta de oportunidades bem remuneradas no país, optam por emigrar logo após concluírem os estudos. Isto mascara parcialmente as taxas brutas de desemprego jovem, mas representa uma perda estrutural de capital humano para a economia nacional.

4. O impacto territorial
As assimetrias regionais em Portugal são profundas. Enquanto nos grandes centros urbanos a oferta de emprego qualificado (nomeadamente nos setores tecnológico, de serviços partilhados e turismo) é mais dinâmico, as regiões do interior enfrentam um duplo problema: falta de oportunidades de emprego e desertificação demográfica jovem.

domingo, 18 de outubro de 2026

Rowland Dark - Dead Radio (starring Vox Sinistra)


"Dead Radio" é uma obra-prima da autoria do icónico músico australiano Rowland S. Howard - guitarrista de culto conhecido pelo seu papel fundamental nos The Birthday Party e Crime and the City Solution -, lançada no seu aclamado álbum a solo Teenage Snuff Film (1999) e cuja carreira foi interrompida com a sua morte precoce em 2009. A canção representa uma perfeita homenagem ao estilo musical do artista, ancorado num pós-punk visceral, gothic rock e num blues niilista e desconstruído, onde sobressai o seu timbre de guitarra inconfundível, repleto de feedback abrasivo, reverb cavernoso e um dedilhar melancólico e cortante.

Em termos de significado, a composição explora a anatomia de uma paixão tóxica e autodestrutiva, onde a obsessão se confunde com o vício através de metáforas viscerais ("bad for me like cigarettes", "good for me like Coca-Cola") e de uma sensação contínua de febre, paralisia e isolamento emocional. Esta estética reflete-se no videoclipe através de uma atmosfera cinemática soturna, minimalista e marcada pelo noir subterrâneo, focando o olhar hipnótico e debilitado do artista envolvido em sombras, fumo e luzes estroboscópicas que evocam uma claustrofobia quase hipnagógica.

Nas suas influências literárias e filosóficas, a obra bebe profundamente do romantismo sombrio e do decadentismo do século XIX, invocando a poesia mística e visionária de William Blake na dissolução dos limites morais ("nothing is sacred, nothing is true"), a lírica maldita e febril de Charles Baudelaire em As Flores do Mal, e o pessimismo estético de Arthur Rimbaud. No plano filosófico, a canção manifesta um existencialismo niilista de matriz nietzschiana - onde o indivíduo se encontra num vazio de valores e à margem do mundo real ("no one that's nowhere") -, entrelaçado com a angústia e a perda do poder de escolha conceptualizadas por Jean-Paul Sartre, evidentes na incapacidade do narrador em distinguir "o que acender do que extinguir".

Entre a Razão Vital e a Luta de Classes: Os Limites de Ortega y Gasset


José Ortega y Gasset, filósofo, ensaísta, jornalista e ativista político espanhol, faleceu em Madrid a 18 de outubro de 1955, consolidando-se como um dos pensadores mais importantes do século XX e exercendo uma influência duradoura sobre os seus contemporâneos. Tido frequentemente como o "pai do existencialismo espanhol", o seu pensamento ganha verdadeira vida quando percebemos que nunca quis ser um filósofo de torre de marfim. Ortega escrevia para os jornais, falava para a rua e nutria uma obsessão clara: entender a vida tal como ela é vivida no dia a dia, com toda a sua confusão, urgência e imperfeição. Para ele, vivemos sempre numa circunstância, e a vida - a vida autêntica de cada um - consiste precisamente em saber o que fazer com ela, descobrindo o que tem de ser feito para não permitir que o "rebanho" cresça na sua ignorância, orgulhosa da sua própria estupidez.

A grande viragem do seu pensamento começa no modo como olhamos para a nossa existência. Durante séculos, a filosofia dividiu-se entre os idealistas, que juravam que tudo começava na mente, e os realistas, que priorizavam o mundo exterior. Ortega considerava essa discussão estéril, defendendo que a única realidade primordial e indiscutível é a vida humana de cada indivíduo. Esta "vida" não é um mero conceito biológico nem uma abstração teórica; é o drama de nos encontrarmos subitamente atirados para o mundo, sem termos pedido, e sermos forçados a decidir constantemente o que vamos fazer a seguir. Daí nasce a sua célebre máxima: "Eu sou eu e a minha circunstância, e se não a salvo a ela, não me salvo a mim".

Na prática, isto significa que ninguém existe num vácuo. O ser humano não é apenas a sua vontade, o seu caráter ou os seus sonhos, mas também o país onde nasceu, a língua que fala, a sua classe social, o seu momento histórico e até as pequenas contrariedades do quotidiano. Essa é a "circunstância" - o cenário e as cartas atribuídas pela vida. Não é possível simplesmente ignorar o mundo e viver isolado na própria mente; para realizar o seu potencial, o indivíduo tem de agir sobre esse cenário, transformando-o e dando-lhe sentido, numa conversa dramática e ininterrupta entre o "eu" e o meio que o cerca.

Por esta razão, Ortega criticava duramente a "razão pura" - uma razão fria, puramente matemática ou lógica, distante da realidade. A razão humana não serve para construir teorias abstratas e perfeitas que em nada alteram a existência quotidiana; serve, sim, para nos ajudar a navegar no mundo. Trata-se da "razão vital": pensamos porque precisamos de resolver problemas concretos e de nos orientar na selva da vida real. Desta perspetiva surge também o seu perspectivismo. Como a vida de cada pessoa está ancorada numa circunstância única, cada indivíduo ocupa um ponto de vista singular sobre o mundo. Se imaginarmos uma montanha, quem a observa do Norte vê uma paisagem coberta de neve, enquanto quem a olha do Sul contempla vegetação e sol. Ambos têm a verdade, pois a realidade não é uma imagem estática observável de um único ângulo absoluto, mas sim a soma de todas as perspetivas possíveis. O erro surge quando alguém julga que a sua visão individual é a única correta e tenta impô-la aos demais, ou quando se desagua num relativismo em que nenhuma perspetiva parece ter valor.

No entanto, a faceta de Ortega que talvez mais ressoe na atualidade é a sua crítica social, sintetizada na obra A Rebelião das Massas. Ao observar a Europa do início do século XX, o autor identificou a emergência do "homem-massa" - um termo que não designava as classes trabalhadoras ou os mais pobres no sentido económico, mas sim um perfil psicológico e uma atitude mental transversal a operários, académicos ou multimilionários. O homem-massa é o indivíduo que não exige nada de si mesmo, que não busca a excelência nem possui curiosidade intelectual, sentindo-se perfeitamente confortável por ser "igual a todo o mundo". Usufrui dos benefícios imensos da civilização moderna - a tecnologia, a medicina, os direitos políticos e o conforto material -, mas toma-os como garantidos, como se fossem frutos espontâneos da natureza, ignorando o esforço monumental, a disciplina e a cultura necessários ao longo de séculos para construir esses privilégios.

O grande perigo antevisto por Ortega residia na tirania deste conformismo. Ao sentir-se em maioria, o homem-massa perde o respeito pelo pensamento crítico, pelas minorias, pelo debate de ideias e pelas instituições. Em vez de argumentar, recorre à "ação direta" - à força bruta, ao linchamento moral ou à coerção do Estado - para esmagar tudo o que seja diferente ou exigente. Ao abdicar-se da responsabilidade individual, a democracia corre o risco de degenerar e abrir caminho a regimes autoritários, nos quais a multidão entrega o controlo a demagogos que prometem facilidades sem exigir esforço a ninguém.

Para compreender a evolução das sociedades, Ortega introduz ainda o conceito de geração. A história não avança por heróis isolados nem por impulsos cegos da multidão, mas através da sucessão de gerações - grupos de contemporâneos que partilham a mesma época, enfrentam os mesmos problemas e possuem uma "sensibilidade vital" semelhante. O papel de cada nova geração passa por receber a herança da anterior, criticá-la, adaptá-la ao seu tempo e dar o passo seguinte; quando uma geração se recusa a fazer esse trabalho ou se acomoda, a sociedade estagna. No fundo, o pensamento de José Ortega y Gasset configura-se como um apelo urgente à responsabilidade pessoal, lembrando que a liberdade não é um estado passivo, mas um compromisso diário de pensar pela própria cabeça, recusar o comportamento de rebanho e assumir o comando da própria vida dentro das circunstâncias dadas.

Porém, a grande limitação de Ortega reside precisamente na ausência de uma crítica estrutural ao capitalismo. O filósofo espanhol concentrou quase toda a sua análise nos domínios da cultura, da psicologia e da política, ignorando em grande medida a economia política. Embora criticasse o "homem-massa" pelo seu consumismo voraz e pela ilusão de abundância, não chegou a analisar quem lucra com essa alienação, nem a forma como o próprio sistema capitalista produz ativamente essa passividade para perpetuar a exploração. Para os pensadores críticos do capitalismo, como Karl Marx, Antonio Gramsci ou os teóricos da Escola de Frankfurt, não é possível culpar o indivíduo comum por ser "conformista" quando existe todo um aparelho económico, produtivo e publicitário minuciosamente desenhado para o manter submisso e alienado.

Para quem procura uma resposta direta à urgência de romper com a servidão e destruir o capitalismo selvagem através da ação coletiva e popular, a tradição crítica oferece perspetivas diametralmente opostas às de Ortega. Pensadores como Karl Marx e Rosa Luxemburg defenderam rigorosamente que a verdadeira libertação nunca viria de "elites esclarecidas", mas sim da auto-organização e da consciência da própria classe trabalhadora, partindo do princípio de que a emancipação dos trabalhadores terá de ser obra dos próprios trabalhadores. Na mesma linha, Antonio Gramsci analisou de que modo a classe dominante constrói uma "hegemonia cultural" para fazer o povo aceitar a exploração como algo natural e inevitável, sublinhando a necessidade premente de criar uma consciência de classe revolucionária a partir da base. Já no campo pedagógico e social, Paulo Freire contrapôs a visão elitista com a sua pedagogia do oprimido, argumentando que a consciencialização e a libertação têm de ser feitas pelo próprio povo, rejeitando radicalmente a premissa de que a massa é ignorante ou incapaz por natureza.

Ainda assim, mesmo para quem defende a revolução popular, a leitura de pensadores como Ortega y Gasset pode revestir-se de um importante valor estratégico. Conhecer a crítica que o autor faz à dinamização das massas ajuda a antecipar os riscos e desvios que qualquer movimento revolucionário enfrenta no terreno: o perigo de uma revolta legítima ser capturada por demagogos, a facilidade com que o dogmatismo sufoca a crítica interna ou a tragédia de a força da mudança se degenerar numa nova forma de autoritarismo. Como sustentava o filósofo Baruch Spinoza, o objetivo supremo de estudar as ideias dos outros não é "chorar nem rir, mas compreender". Rejeitar a visão de mundo de Ortega é uma posição perfeitamente legítima, pois ela parte de premissas sobre a natureza humana e a organização social que são fundamentalmente incompatíveis com o ideal de uma transformação popular e anticapitalista. Falarei disso numa próxima postagem.