sábado, 24 de outubro de 2026

Um Quadro Jurídico para a Natureza: A América Latina já tem uma Lei-Modelo sobre o Ecocídio


A América Latina alberga uma extraordinária parcela da biodiversidade do planeta - e, ao mesmo tempo, alguns dos mais graves conflitos socioambientais. Em resposta a esta realidade, foi desenvolvido um instrumento jurídico sem precedentes: uma Lei-Modelo sobre o Ecocídio, concebida especificamente para os sistemas jurídicos latino-americanos.

A iniciativa é liderada pela Stop Ecocide International, em conjunto com a Associação de Investigadores de Direito Penal Ambiental e Climático (AIDPAC), o Centro Mexicano de Direito Ambiental (CEMDA), a Universidade Iberoamericana da Cidade do México, o Centro Universitário Transdisciplinar para a Sustentabilidade (CENTRUS) e a Aliança de Clínicas de Direito Ambiental da América Latina e do Caribe.

Porquê uma lei modelo regional?
Em 2021, um Painel Independente de Peritos, convocado pela Fundação Stop Ecocide, desenvolveu uma definição jurídica de ecocídio como crime internacional. Esta definição fundamenta a proposta de alteração ao Estatuto de Roma, apresentada em 2024 por Vanuatu, Fiji e Samoa. No entanto, para que o ecocídio seja efetivamente incorporado na legislação nacional dos países da América Latina, que partilham uma tradição de direito civil, é necessário um processo de adaptação que tenha em conta o quadro constitucional de cada país, a legislação ambiental existente e as realidades socioambientais locais.

A Lei-Modelo não procura substituir os processos legislativos nacionais, mas sim fornecer um ponto de referência técnico e jurídico que possa fortalecer as futuras iniciativas legislativas em toda a região, combater a impunidade pelos actos mais graves de destruição dos ecossistemas e garantir que o ecocídio possa ser eficazmente dissuadido através da responsabilização penal individual.

Um processo participativo em três fases
A elaboração da Lei-Modelo foi um processo participativo e colaborativo dividido em três etapas principais, desde o contributo da sociedade civil até à consolidação técnica final:
  1. Consulta Pública Regional (Fase Um): Realizada entre junho e julho de 2026, reuniu cidadãos, académicos, povos indígenas, organizações da sociedade civil e especialistas de vários países da América Latina para estabelecer as bases conceptuais.
  2. Mesas-redondas virtuais de especialistas (Fase Dois): Uma fase de consulta técnica realizada entre julho e setembro, na qual juristas e especialistas abordaram os principais elementos do quadro legal da região.
  3. Congresso presencial de redação (Fase Três): Nos dias 29 e 30 de setembro de 2026, mais de trinta especialistas de toda a América Latina reuniram-se na Cidade do México para debater, sintetizar os contributos das fases anteriores e redigir o texto final da Lei Modelo do Ecocídio para a América Latina.
Descarregue e aceda ao texto da Lei-Modelo do Ecocídio.
Graças a um esforço regional colectivo, a Lei Modelo do Ecocídio para a América Latina está agora concluída e disponível como ferramenta de referência técnica para legisladores, juristas, ONG e defensores do ambiente em toda a região

Phosgosfore - Aggression Incarnate

Melhor som aqui
A canção "Aggression Incarnate" é uma criação do projeto de música eletrónica Phosgore, um projeto a solo de nacionalidade alemã liderado pelo produtor Florian Dietz. O tema insere-se no estilo musical
Aggrotech — um subgénero pesadíssimo da música industrial e do Dark Electro caracterizado por ritmos acelerados de dança, sintetizadores agressivos e samples vocais conceituais , tendo sido lançado formalmente no álbum Pestbringer em 2015.

O significado central da faixa explora o conflito entre o racional e o primitivo no comportamento humano, focando-se na neurobiologia da raiva incontrolável e do assassinato impulsivo. A música constrói esta narrativa através de samples narrados que detalham a forma como o córtex pré-frontal atua como um "freio" neurobiológico sobre a amígdala cerebral, a estrutura responsável pelo processamento de emoções brutas como o medo e a violência. Esta premissa tem forte respaldo científico: a neurociência moderna, demonstrada tanto por exames de ressonância magnética funcional como pelo histórico caso de Phineas Gage, comprova que disfunções no circuito entre o córtex pré-frontal e o sistema límbico reduzem o controle inibitório, algo frequentemente observado em indivíduos com Transtorno da Personalidade Antissocial e em episódios de agressão impulsiva.

No que diz respeito à violência, ao erotismo e à noção de "limite", a filosofia de Georges Bataille - expressa em obras emblemáticas como O Erotismo e A Parte Maldita- explora a atração humana pela transgressão, pelo excesso e pela perda da racionalidade ou da individualidade ao atingir estados extremos de transe ou loucura. Em perfeito diálogo conceitual, a canção "Aggression Incarnate" explora precisamente esse mesmo momento de rutura, no qual a contenção racional exercida pelo córtex pré-frontal falha e a raiva primitiva assume o controlo absoluto do indivíduo.

Esta intersecção reflete-se também no clássico debate entre a razão e o impulso primitivo. Enquanto Bataille analisava o conflito inevitável entre a vida "útil" e racional exigida pela sociedade e a força destrutiva e irracional que habita no ser humano, a faixa do Phosgore aborda este exato confronto através de um prisma médico e neurocientífico moderno - centrado na neurobiologia do impulso -, oferecendo uma leitura biológica para a mesma inquietação que o filósofo francês investigou no plano existencial e filosófico.

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

As assembleias populares - uma resposta adequada da Juventude Portuguesa enfrentando os lobistas da Habitação inacessível



Ricos a contar notas + falta de literacia + a crise habitacional = o pessoal com a corda no pescoço a votar em quem aperta o nó. O amor dos pobres pelo Chega devia dar um estudo sobre a Síndrome de Estocolmo.
Visto no centro da Maia.

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A canção "Marchem Connosco" do grupo Sindicato Sonoro, com produção de Mundo Segundo, foi lançada originalmente em 2011 no EP Não Há Crise, um período marcado pela intervenção da Troika  O tema central da faixa gira em torno da consciencialização social, da revolta contra a apatia e da necessidade urgente de luta e união perante as dificuldades políticas, económicas e sociais.

A obra abre com um sample de excertos de "Manifesto Anti-Dantas" de Mário Viegas (1978) uma crítica dura e direta a uma geração que aceita passivamente ser representada por líderes ineptos, preferindo refugiar-se no conforto da televisão e das distrações quotidianas em vez de agir. A partir daí, a letra faz um apelo constante para que as pessoas saiam do comodismo e vão para a rua, sublinhando que a palavra é uma arma legítima contra o poder instituído, a precariedade do sistema monetário e as imposições que limitam a liberdade. Através do refrão marcante que convida a sair do fundo do poço e a questionar tudo o que é imposto, a música promove a solidariedade, a honra, a dignidade e a união entre diferentes gerações, origens e classes. Paralelamente, os artistas afirmam o papel da sua identidade cultural e do rap feito na língua de Camões como ferramentas de resistência que mantêm a consciência desperta, provando que, mesmo em tempos de crise e adversidade, a arte e a ação coletiva são fundamentais para reivindicar justiça e mudança.

Relação e Atualidade com as Acampadas em Portugal
A profunda atualidade do tema com as acampadas em Portugal reside no facto de as suas reivindicações originais espelharem exatamente as crises atuais, em especial a emergência habitacional, o aumento do custo de vida e a perda do poder de compra que hoje mobilizam cidadãos a ocupar praças no Rossio e no Porto. Quando a música convoca "a luta está na rua, marchem connosco" e denuncia o "calvário desse sistema monetário e desse crédito bancário precário", ela traduz o sentimento de sufoco financeiro que leva as pessoas a usar as tendas no espaço público como última forma de protesto e visibilidade social. Além disso, ao criticar quem se resigna no comodismo doméstico em vez de exigir direitos, a canção continua a funcionar como um manifesto direto a favor do ativismo e da ocupação do espaço público, reforçando que a conquista de uma vida digna exige contestação ativa e presença física nas ruas.

O Nó Cego da Habitação: A Ilusão da Poupança e a Cumplicidade Política em Portugal e na Europa

A narrativa moralista que aponta a falta de poupança dos jovens como causa da incapacidade de aceder a uma habitação própria ou arrendada desmorona-se perante o choque indiscutível dos factos. Em Portugal, onde o salário médio líquido mal permite cobrir as despesas básicas do dia a dia, exigir ao trabalhador jovem que "poupe" para comprar ou arrendar casa num mercado liberalizado é uma falácia que mascara um problema profundamente estrutural. O gráfico que coloca Lisboa no topo europeu da asfixia financeira - com impressionantes 72% do salário médio líquido canalizados unicamente para a renda de um T1 - é o sintoma mais agudo de um modelo económico desenhado não para garantir o direito à habitação, mas para rentabilizar o imobiliário como ativo financeiro e turístico.   

Esta realidade portuguesa é a expressão extrema de um fenómeno amplamente disseminado pela Europa. Após a crise financeira de 2008, impulsionados por anos de taxas de juro excecionalmente baixas e pela procura de rentabilidade rápida, grandes fundos de investimento e capitais internacionais varreram as metrópoles europeias. Cidades como Amesterdão, Milão ou Barcelona registam encargos com a renda que absorvem entre 65% e 68% do rendimento médio. 

A desregulamentação do Alojamento Local, a expansão de plataformas turísticas e a criação de regimes fiscais agressivos para atrair "capital estrangeiro" e nómadas digitais converteram os centros históricos de todo o Sul e Centro da Europa num parque temático para o turismo e numa bolsa de mercadorias para a especulação.   

No entanto, a razão pela qual Portugal lidera esta crise de acessibilidade prende-se com uma assimetria dramática: enquanto cidades do centro da Europa viram as suas rendas subir lado a lado com salários substancialmente mais elevados e parques habitacionais públicos consolidados (como acontece em Viena, onde a habitação pública mitiga a pressão do mercado e fixa o encargo nos 35%), Portugal permitiu que os preços do imobiliário convergissem com a média europeia mantendo os salários estagnados no patamar mais baixo do continente. 

Com uma taxa de habitação pública irrelevante - a rondar os 2%, em comparação com a média europeia de 9% -, o país entregou a totalidade do seu território à lei da oferta e da procura desregrada, isentando de impostos (como IRC e IMI) os fundos imobiliários e os proprietários em centros históricos e viabilizando o aumento vertiginoso dos preços através dos Vistos Dourados.   

É neste cenário que a acusação política interna ganha total legitimidade e urge ser apontada diretamente aos decisores políticos, designadamente ao PSD e ao Chega. Em vez de combaterem a causa da crise e imporem regras de controlo ou um choque de oferta pública, estas forças políticas persistem em defender uma agenda legislativa abertamente favorável aos grandes proprietários e aos interesses imobiliários. 

A recente concertação e aprovação parlamentar de medidas que facilitam os despejos, travam o controlo do preço das rendas e removem tetos de proteção aos inquilinos revela uma opção clara de classe: prefere-se garantir a rentabilidade dos senhorios e aprovar incentivos a empreendimentos com rendas e preços inalcançáveis para a larga maioria dos cidadãos do que proteger a população trabalhadora. 

A passividade e a cumplicidade ideológica do PSD e do Chega perante o negócio da especulação não só aprofundam a gentrificação e o esvaziamento das cidades, como legitimam uma gritante desigualdade de tratamento social - onde o direito ao lucro de uma minoria sobrepõe-se, impunemente, ao direito fundamental a uma casa decente para a maioria.

Finlândia fez um acordo de milhões com a Google para a construção de centros de dados. Agora, está a ver as suas florestas a desaparecerem


Cerca de 250 mil árvores foram abatidas na floresta perto da cidade de Muhos, na zona rural do norte da Finlândia, para permitir a construção de um centro de dados da Google. Em vez de uma floresta verdejante, o local é agora um extenso lamaçal, marcado pelos vestígios das máquina e os restos de raízes e ramos. O caso foi denunciado pela Associação Finlandesa para a Conservação da Natureza, que revela ainda que outras 150 mil árvores já tinham sido abatidas na região de Otanmäki. A associação está preocupada com as consequências desde desmatamento para a população e para o meio ambiente e afirma que estes abates são ilegais.

Com 145 novos centros de dados em várias fases de planeamento, a Finlândia encontra-se na vanguarda da mais recente onda de expansão das empresas tecnológicas. Para além da sua relativa estabilidade geopolítica e geológica e da abundância de terrenos, o clima frio torna o país especialmente atraente para este tipo de projetos devido aos custos energéticos mais baixos.

Os centros de dados previstos para Muhos e Otanmäki fazem parte de um investimento anunciado de 13 mil milhões de euros na Finlândia ao longo dos próximos dois anos - o maior investimento individual da gigante tecnológica norte-americana na Europa.

No mês passado, quando os planos da Google foram anunciados, o primeiro-ministro do país, Petteri Orpo, afirmou que atrair investimento era uma "prioridade máxima" e que "o valor da economia dos dados vai muito além do investimento direto". Afirmou ainda que o acordo com a Google iria "proporcionar benefícios duradouros para ambas as partes".

No entanto, no início deste mês, a Autoridade Finlandesa de Licenciamento e Supervisão (LVV) ordenou à Google que suspendesse temporariamente os trabalhos em Muhos e em Otanmäki, depois de a empresa não ter concluído as avaliações de impacto ambiental necessárias antes de proceder ao desmatamento total do terreno, explica o jornal The Guardian.

A notícia suscitou uma onda de indignação generalizada e uma reflexão a nível nacional sobre o papel que o país deve desempenhar na corrida global para construir centros de dados, de forma a acompanhar o rápido desenvolvimento da IA. Mais de 93 mil pessoas assinaram uma petição a exigir uma maior regulamentação dos centros de dados e uma taxa para compensar as comunidades locais pelos danos ambientais.

Na semana passada, o diretor nacional da Google na Finlândia, Antti Järvinen, pediu desculpa pelo desmatamento das florestas, mas afirmou que a empresa tinha agido "com base no melhor entendimento que tinha da legislação na altura".

Apesar de haver muitas pessoas que apoiam os investimentos, que vão trazer postos de trabalho e dinheiro de impostos, as revelações sobre a conduta indevida da Google suscitaram preocupação pública quanto ao impacto destes acordos nas comunidades vizinhas, nos preços da energia para as famílias finlandesas e no ambiente natural da Finlândia, motivo de orgulho nacional. A questão do centro de dados deverá tornar-se um tema-chave nas eleições, quando os finlandeses forem às urnas em abril.

O Manifesto da Continuidade: um Plano a 20 anos para Portugal

A nossa maior tragédia nacional não é a escassez de recursos, mas sim a ditadura da volatilidade política. Em Portugal, cada mudança de governo funciona como um terramoto institucional: alteram-se os nomes dos ministérios, reinventa-se a linguagem administrativa, anulam-se os projetos do executivo anterior e instala-se uma burocracia opaca assente em socialwashing e citizenwashing. Enquanto a partidocracia se perde no ruído e nos ciclos eleitorais de curto prazo, o país cristaliza as suas assimetrias. Com um parque público habitacional de escassos 2% e uma área florestal pública no mesmo patamar irrisório, assistimos a um litoral hiperconectado e sufocado e a um interior desértico, convertido em mero corredor de extração de recursos. Ao mesmo tempo, o facho da desigualdade amplia-se: a metade mais pobre das famílias retém apenas 6% da riqueza, enquanto os 10% mais ricos detêm quase 60%.

Fatia do imobiliário na mão dos 10% mais ricos subiu para 40%. 

Para travar este fosso estrutural sem cair no populismo nem na armadilha do discurso de ódio e da xenofobia interna contra os imigrantes, Portugal necessita de uma verdadeira síntese política. O modelo que falta ao país é uma terceira via de maturidade democrática inspirada na Finlândia: profunda no compromisso social como quer o socialismo, focada na eficiência, na previsibilidade e na criação de riqueza como exige o liberalismo, e intransigente na defesa do território, da equidade e das gerações futuras como defende o progressismo. A chave para esta transição não passa por revisões constitucionais complexas - a Constituição da República já nos dá as garantias de liberdade e democracia necessárias -, mas sim pela criação de um ecossistema de governação estratégica assente em leis-quadro ordinárias e num novo compromisso de regime.

A primeira pedra desta transformação é a arquitetura do planeamento continuado. À semelhança da Comissão do Futuro no parlamento finlandês, propõe-se a criação de uma comissão parlamentar permanente, supra-partidária e focada exclusivamente na análise de cenários a 15 e 20 anos - acompanhada pela obrigação de cada novo Governo apresentar um Relatório Prospetivo de longo prazo. Em simultâneo, o número de deputados deve ser ajustado para um patamar mais funcional entre os 180 e os 200 parlamentares, mas com uma condição democrática inegociável: a introdução de um Círculo Compensatório Nacional e círculos regionais/uninominais. Isto garante a eliminação das "gorduras" de disciplina partidária em Lisboa, ao mesmo tempo que resgata o valor do voto no interior e devolve representatividade real às populações locais.

Neste desenho territorial, o diálogo com Espanha deixa de ser pontual e passa a ser estrutural: a gestão conjunta de bacias hidrográficas, o transbordo energético e a alta velocidade ferroviária transfronteiriça têm de ser negociados a 20 anos, aproximando o Interior das redes ibéricas e europeias em vez de o deixar como uma fronteira esquecida.

O financiamento do país e a valorização salarial não podem assentar em ilusões. A Irlanda construiu um ecossistema de crescimento acelerado ao transformar-se num enclave de baixa tributação para multinacionais, mas a custos sociais e estruturais brutais: uma crise habitacional avassaladora, fragilidade de infraestruturas públicas e uma ilusão de PIB que não se traduz na qualidade de vida dos cidadãos. Por oposição, a Finlândia demonstra que a estabilidade económica e a prosperidade dependem de elevados níveis de investimento público em Investigação e Desenvolvimento, aliados a um tecido produtivo de alto valor. O caminho sustentável de atração de capital para pagar melhores salários no setor público e induzir a subida no privado em Portugal passa pela competitividade real e pela reestruturação fiscal: desonerar o trabalho e transferir a carga tributária para a renda especulativa imobiliária, para os lucros extraordinários do setor energético e para a sobre-estratificação financeira. Trata-se de um modelo liberal na exigência de transparência e eficiência, mas profundamente socialista na redistribuição da riqueza criada.

Na habitação e no território, a coesão faz-se com investimento direto e pragmatismo. O Estado tem de assumir o seu papel como promotor e gestor ativo de um parque habitacional público permanente fora da especulação financeira, financiado pela recalibração das verbas europeias do PRR e pelos impostos da imobiliária de luxo. A abolição integral das portagens - quer nos eixos estruturantes que ligam o Litoral ao Interior, quer nos troços urbanos e intermunicipais da própria faixa litoral - deixa de ser encarada como um simples alívio rodoviário e passa a ser uma medida de equidade territorial e coesão social. Portajar vias de circulação diária dentro e entre aglomerações urbanas penaliza quem foi empurrado para a periferia pela crise imobiliária, entupa as artérias locais e asfixia a mobilidade económica. Libertar estas vias é desonerar os trabalhadores, dar fluidez às empresas e integrar verdadeiramente os territórios urbanos e rurais num único país funcional.

No âmbito ambiental e agroflorestal, Portugal não pode continuar a ser gerido com a incúria de quem leva 26 anos para concluir os planos de gestão das Zonas Especiais de Conservação e mantém as Zonas de Proteção Especial praticamente todas por fazer, abandonadas no papel. Esta paralisia burocrática reflete um Estado que aprova intenções mas falha na execução, deixando o território desprotegido perante o modelo predatório que cobriu o Norte e Centro de monoculturas combustíveis de eucalipto e pinheiro-bravo, e o Sul de olival e amendoal superintensivo que secam os recursos hídricos e aceleram a perda de solo. A aplicação real da Lei de Bases do Clima exige sair da retórica e aplicar uma Estratégia Agroflorestal e de Conservação a 20 Anos:
  1. Efetivação Imediata da Rede Natura 2000: concluir de forma urgente e vinculativa os planos de gestão de todas as ZPE e finalmente as ZEC, garantindo monitorização no terreno, dotação orçamental direta e proteção efetiva contra a degradação e o fogo.
  2. No Norte e Centro: impõe-se a criação de mosaicos florestais obrigatórios com corredores de folhosas autóctones (carvalhos, castanheiros e sobreiros) como barreira natural contra incêndios, financiada pelo Pagamento por Serviços Ecossistémicos aos pequenos proprietários e custeada pelas indústrias de celulose e energia.
  3. No Sul: devem ser impostos limites e taxas progressivas sobre a rega intensiva do olival e fundos de investimento agroindustrial, reencaminhando verbas para a regeneração direta do Montado de sobreiro e azinheira e para a transição rumo à agricultura sustentável e biológica.
  4. No ICNF: é indispensável a separação clara e imediata entre a autoridade de Conservação da Natureza e Biodiversidade e a agência de Gestão Produtiva Florestal. Da mesma forma, não podemos aceitar que o Interior seja sacrificado para mega-centrais solares e data centers que servem interesses externos sem deixar retorno nem futuro às populações locais.
A soberania de Portugal mede-se também no seu Atlântico. Com a terceira maior Zona Económica Exclusiva (ZEE) da União Europeia e um processo em marcha para a extensão da Plataforma Continental, o país não pode continuar de costas voltadas para a água, tratando o mar como mero cenário turístico. O Oceano é a nossa maior infraestrutura económica, científica e geoestratégica:
  1. Na Economia Azul: é urgente criar uma estratégia a 20 anos focada no mapeamento e valorização do fundo do mar, na biotecnologia e farmacologia marinha, nas energias renováveis offshore, recuperação de stocks de pesca, na aquacultura sustentável de alta precisão e na robótica subaquática desenvolvida em consórcio entre as universidades e os estaleiros navais nacionais.
  2. Na segurança e combate ao narcotráfico: controlar quase quatro milhões de quilómetros quadrados de oceano exige tecnologia de ponta para travar a utilização da nossa ZEE como autoestrada do tráfico internacional de droga (cocaína e haxixe) para o continente europeu. Impõe-se o reforço da Marinha, da Polícia Judiciária e da Polícia Marítima através de uma rede integrada de vigilância por satélite, drones aéreos de longa autonomia e navios de patrulha oceânica, afirmando Lisboa e o MAOC-N como o verdadeiro centro internacional de inteligência marítima e combate ao crime organizado.
É precisamente no cruzamento destas crises de emergência - no ambiente, na degradação do património, nas falhas da Saúde e no estrangulamento da Habitação - que a Justiça tem de deixar de ser um obstáculo moroso e caríssimo. Garantir um acesso democratizado à Justiça significa criar custas proporcionais ao rendimento real dos cidadãos, mecanismos públicos de arbitragem rápida e juízos especializados capazes de aplicar coimas ambientais céleres, travar a degradação patrimonial e resolver contenciosos de insolvência ou contratação na Saúde. Sem uma Justiça célere que defenda o bem público e trave a impunidade ambiental e imobiliária, não há plano estratégico que resista na prática.

A soberania alimentar e a segurança do país garantem-se ao tratar a água e a terra agrícola como infraestruturas críticas de Estado. O apoio à agricultura de precisão, familiar e de média dimensão, articulado com circuitos curtos de comercialização, permite travar a margem sufocante da grande distribuição. Na balança comercial, Portugal deve abandonar a dependência de exportações de baixo valor acrescentado e do turismo de massa não qualificado. O futuro exportador passa pela agroindústria sustentável de alto valor, pelas tecnologias marinhas, pelos componentes industriais de elevada precisão e pela exportação de conhecimento e tecnologia aplicados à gestão hídrica e florestal.

Esta transição exige fechar o histórico fosso entre a academia e o tecido produtivo. O divórcio entre as universidades e as empresas deve ser superado através de uma reforma profunda nos incentivos: a atribuição de fundos públicos de investigação e os apoios comunitários passam a ser condicionados à constituição de consórcios obrigatórios entre centros de investigação e a indústria nacional, com metas vinculativas de patentes, industrialização e criação de emprego qualificado. A carreira docente tem de passar a valorizar a transferência de tecnologia e a criação de spin-offs, acabando com a lógica endogâmica do paper publicado sem aplicação na vida real das pessoas.

Também no pilar da Saúde, a estabilidade e a continuidade são urgentes. O Serviço Nacional de Saúde não pode continuar a ser gerido de urgência em urgência, mudando de rumo a cada ciclo político. Exige-se um pacto de Estado a 20 anos que blinde o SNS, centrando a sua atuação nos cuidados de saúde primários e preventivos. Fixar médicos, enfermeiros e técnicos no setor público e em particular no interior desfavorecido - exige carreiras valorizadas com dedicação exclusiva, incentivos fiscais e habitação dedicada, evitando a subsidiação passiva do setor privado às custas do esvaziamento dos serviços públicos essenciais.

No fundo, nada disto se constrói sem uma cultura real de concertação social, como sucede no modelo finlandês. Reerguer a negociação coletiva e dar força aos sindicatos não é um fator de paralisia, mas um compromisso de corresponsabilidade: as grandes reformas do trabalho, das pensões e das qualificações têm de ser desenhadas a três mãos, unindo Governo, trabalhadores e tecido empresarial.

Por outro lado, a nossa projeção externa deve encontrar no espaço da CPLP uma prioridade estratégica renovada. Mais do que declarações de intenções, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa representa a nossa verdadeira profundidade geopolítica, económica e cultural. Uma aposta firme na CPLP - através da mobilidade académica, da cooperação na transição energética, da segurança marítima e de parcerias económicas bilaterais sustentáveis - transforma a nossa condição atlântica num ativo de valor incalculável.

Ao juntar este ecossistema cívico interno, a coesão territorial com Espanha e a ponte estratégica com o mundo lusófono, Portugal alcança finalmente a estabilidade e a escala necessárias. É assim, com peso próprio e autonomia, que nos apresentamos perante a União Europeia e nos palcos internacionais: não como um país de pedintes ou dependente de conjunturas, mas como uma nação coesa, soberana e capaz de negociar em pé de igualdade no mundo.

É preciso grande lata de culparem António Costa pelos baixos níveis de construção em Portugal

Não vale fugir à realidade a troika foi um momento de assassinato da lusa economia empresarial 

Vejamos a evolução Histórica (2005 - 2024) da construção de fogos
2005 - 2007 (tempo Socrates)

O período começou com volumes ainda elevados. Em janeiro de 2007, registou-se o máximo histórico com mais de 4.800 edifícios licenciados num único mês. O país construía a ritmos elevados antes do embate financeiro.

2008 - 2015 (A Crise e o Mínimo Histórico em tempo que caiu de Sócrates para o passosportismo)

Com a crise do subprime e a intervenção da Troika, o setor colapsou. O mínimo histórico absoluto ocorreu em agosto de 2015, (a PAF passospórtista lembram-se?) com apenas 1.084 unidades licenciadas a nível nacional.

2016 - 2024 (tempo António Costa e inicio Montenegro)

O setor iniciou uma retoma sólida alavancada pelo turismo, reabilitação urbana e nova procura. O licenciamento de fogos (habitações) subiu consistentemente dos cerca de 10.000/ano na crise para 39.096 fogos em 2023 e 42.612 fogos em 2024.

Vejamos a evolução
Ano Fogos
2016 15.500
2017 21.300
2018 25.000
2019 36.000
2020 34.800
2021 39.000
2022 37.930
2023 39.096
2024 42.612
2025 48.844
2026 26.000 até julho
Mas entretanto lembremos outra realidade: a dos fogos devolutos.

Censo Fogos devolutos
2011 735.000
2021 723.215
Isto é a apropriaçao privatista retira do Mercado para travar a Oferta: algo entre 723.216 e 735.000 fogos de 2011 a 2021!

Ora estes fogos devolutos de aocupados resolveriam 50,8% das necessidades de habitaçoes em Portugal!

Assumamos de qualquer forma que o ano de 2025 consolidou a maior atividade do setor desde a crise financeira:

Edifícios Licenciados: 26.227 edifícios (+1,4% face a 2024).

Fogos (Habitações) Licenciados: 48.844 fogos, um salto expressivo de +14,6% face ao ano anterior, marcando o valor mais elevado desde 2011. Deste total, 42.066 foram destinados a construções totalmente novas.

O Cenário Atual em 2026 (Sinais Mistos)
Os dados acumulados até ao segundo e terceiro trimestre de 2026 mostram uma mudança de dinâmica: há menos projetos aprovados (edifícios), mas cada projeto inclui mais habitações (fogos):

Queda nos Edifícios: No primeiro semestre de 2026, as licenças totais de construção e reabilitação caíram cerca de 6,9% a 7,1% em termos homólogos. No 2.º trimestre de 2026 foram licenciados 6,2 mil edifícios (recuo de 5,6% nas construções novas e queda de 11,9% na reabilitação).

Crescimento nos Fogos Habitacionais: Apesar de haver menos edifícios a avançar, o número total de fogos licenciados em construções novas subiu 4,5% no acumulado até julho. Só no 2.º trimestre de 2026, o licenciamento de habitações familiares novas acelerou 10,8% face ao ano anterior. Até setembro de 2026, a AICCOPN registava 25.854 fogos licenciados em construções novas no acumulado do ano.

A capacidade de construção
Mas vejamos um outro contexto desta atividade: a da capacidade de construção!

Desde 2010, encerram atividade 39.641 empresas de construção e imobiliário em Portugal.

Em 2014, as falências caíram 17,3% mas ainda representam mais de um quarto do total nacional, diz a CPCI.


E mais:

“Em novembro bateram-se recordes negativos no que diz respeito ao lançamento de concursos de obras públicas, já que apenas foram promovidos 56,4 milhões de euros, menos 28% que em setembro, é o valor mais baixo desde janeiro de 2010. Segundo a Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas (AICCOPN), é possível concluir que 2015 é ‘o pior ano de sempre em termos de investimento público em Portugal’.” (idealista)

Portugal sobreviveu apesar de ter perdido o império colonial mais duradouro de todos (por inflexibilidade salazarenta e do caetano padrinho de Marcelo Rebelo de Sousa) mas vive desde então em sistemática fragilidade que não se vê somente na habitação.

A cultura privatista portuguesa talvez a sua maior limitação passou da micro propriedade rural (hoje ainda existente e criadora da maioria dos incêndios florestais) para a “casinha portuguesa concerteza” que está por detrás da especulação feita a partir da retirada do mercado dos tais 700 mil fogos!

E lembremos a mais atenta Cidadã, de sempre, no risco da especulação imobiliária, “Conselhos a uma ministra jovem”:

"Em 1974 havia no nosso país mais famílias do que casas, estimando-se na altura a falta de mais de meio milhão de fogos. Hoje a situação inverteu-se, há muito mais casas do que famílias. O excedente em casas vazias, excluindo naturalmente as residências secundárias, é superior a 700.000 alojamentos. A mobilização de uma pequena parte deste excedente, em condições devidamente reguladas, permitiria multiplicar a habitação disponível. É altura de pedir à academia e aos poderes públicos que promovam o estudo aprofundado das razões para um tão grande e inaceitável desperdício de recursos habitacionais."

Conselhos a uma ministra jovem, Helena Roseta, in publico.

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Basta!

Portugal distópico: parque público habitacional de apenas 2%; área florestal pública de apenas 2%; assimetria demográfica gritante em plano inclinado, com elevada concentração populacional no Litoral e o Interior quase vazio. E, no meio disto, uma partidocracia a bater sistematicamente na mesma tecla, em vez de assumir uma governança de efetiva coesão social e territorial.

Para travar esta enorme desestruturação, Portugal tem de vestir a camisola e dizer, em alto e bom som: BASTA! Queremos um plano estratégico a 15 até 20 anos e BASTA de mudar tudo (Ministério da Educação, Ministério da Administração Interna, Ministério do Ambiente, etc.) de 4 em 4 anos ou pior, de 2 em 2 anos. O que fazem? Recomeçam TUDO do ZERO, com novos nomes, novas meta-línguas, mais burocracia, e cada vez mais merdificação, socialwashing e - ainda mais grave - citizenwashing. E a riqueza de poucos sempre a subir e a concentrar-se. Em Portugal, os dados mais recentes do Banco de Portugal mostram que quase 60% da riqueza nacional está concentrada nos 10% mais ricos, enquanto para a metade mais pobre das famílias sobra apenas cerca de 6%.

Se desejamos realmente um País progressista, inclusivo e democrático, é imperativo que cada novo Governo respeite os pactos da  República  e os planos de longo prazo, aperfeiçoando-os em vez de os destruir. Caso contrário, continuaremos sem sair do fosso estrutural. BASTA!

𝐏𝐨𝐫𝐭𝐮𝐠𝐚𝐥, 𝐚𝐨 𝐟𝐢𝐦 𝐝𝐞 𝟓𝟎 𝐚𝐧𝐨𝐬: 𝐅𝐚𝐝𝐨, 𝐅𝐚́𝐭𝐢𝐦𝐚, 𝐅𝐮𝐭𝐞𝐛𝐨𝐥, 𝐅𝐨𝐥𝐢́𝐭𝐢𝐜𝐚, 𝐑𝐞𝐝𝐞𝐬 𝐒𝐨𝐜𝐢𝐚𝐢𝐬 𝐞 𝐑𝐞𝐚𝐥𝐢𝐭𝐲 𝐒𝐡𝐨𝐰
1. Sugestão de leitura. Livro muito actual. Publicado em 2014



𝐏𝐨𝐫𝐭𝐮𝐠𝐚𝐥, 𝐚𝐨 𝐟𝐢𝐦 𝐝𝐞 𝟓𝟎 𝐚𝐧𝐨𝐬: 𝐅𝐚𝐝𝐨, 𝐅𝐚́𝐭𝐢𝐦𝐚, 𝐅𝐮𝐭𝐞𝐛𝐨𝐥, 𝐅𝐨𝐥𝐢́𝐭𝐢𝐜𝐚, 𝐑𝐞𝐝𝐞𝐬 𝐒𝐨𝐜𝐢𝐚𝐢𝐬 𝐞 𝐑𝐞𝐚𝐥𝐢𝐭𝐲 𝐒𝐡𝐨𝐰
2. Sugestão musical- Valete: Anti Herói . Lançada em 2007

Crise da habitação: o imigrante tem as costas largas

A crise da habitação em Portugal transformou-se num dos debates mais acesos e fraturantes dos últimos anos, e a frase “o imigrante tem as costas largas” sintetiza com precisão a forma como a população estrangeira tem sido transformada num bode expiatório conveniente para um problema socioeconómico profundo. Em crónicas e intervenções públicas, analistas como o jornalista Daniel Oliveira têm vindo a desconstruir essa narrativa, demonstrando que atribuir a subida vertiginosa das rendas e a escassez de casas a quem chega de fora serve apenas para desviar as atenções de décadas de falhas graves no planeamento urbano, na intervenção pública e na regulação do mercado imobiliário.

Os dados do setor mostram claramente que a escassez de habitação não começou com os fluxos migratórios recentes de baixos rendimentos. O país arrasta um défice estrutural de oferta desde a crise financeira de 2008, altura em que a construção nova praticamente parou. A somar a este bloqueio, Portugal manteve ao longo de décadas um parque habitacional público irrisório - que representa apenas cerca de 2% do total nacional, muito abaixo da média europeia -, deixando o acesso à casa totalmente entregue ao mercado privado. Ao mesmo tempo, as políticas públicas focaram-se em atrair capital estrangeiro de elevado rendimento e investir no turismo de massas, promovendo instrumentos como os Vistos Gold, o regime para Residentes Não Habituais e a expansão desregulada do Alojamento Local. Foram estas escolhas, aliadas à lentidão crónica dos licenciamentos autárquicos e à existência de centenas de milhares de imóveis devolutos, que verdadeiramente inflacionaram o valor do metro quadrado nas áreas metropolitanas.

Naturalmente, um aumento populacional célere num mercado habitacional já sufocado gera uma pressão imediata sobre a procura, como têm assinalado relatórios de várias instituições financeiras. Contudo, o problema não reside no ato de imigrar em si, mas sim na ausência de um planeamento infraestrutural por parte do Estado, que falhou em prever e acompanhar o crescimento demográfico nos setores da habitação, da saúde e dos transportes. Além disso, existe uma clara segmentação do mercado: enquanto os estrangeiros de altos rendimentos e os investidores pressionam os preços da habitação média-alta, a grande maioria dos trabalhadores imigrantes não tem capacidade financeira para disputar casas no mercado formal, sendo empurrada para cenários graves de sobrelotação, precariedade e exploração no mercado informal.

A maior ironia deste debate reside no facto de a população imigrante ser, em simultâneo, a principal vítima da especulação e o pilar que sustenta a própria solução do problema. Com o setor da construção civil a enfrentar uma escassez histórica de mão de obra nacional, são hoje os trabalhadores imigrantes que edificam, reabilitam e colocam de pé as infraestruturas de que o país necessita desesperadamente. Culpar os imigrantes pela crise da habitação pode ser uma estratégia politicamente rentável e de assimilação fácil, mas é uma simplificação que ignora a realidade económica: não destrava licenciamentos, não combate a especulação e não constrói uma única habitação pública.

Para acompanhar esta perspetiva comentada em detalhe, vale a pena ver este debate com Daniel Oliveira sobre Habitação e Imigração, no qual o jornalista analisa as causas estruturais da crise imobiliária e desmonta os mitos em redor do impacto da imigração em Portugal.

Quebrar de vez com mito urbano que o PCP é o maior proprietário de Portugal

A velha questão do PCP, resolve-se num instante. O PCP não faz especulação imobiliária. Nunca o fez.  PCP já não detém o maior valor de ativos fixos tangíveis, tendo sido ultrapassado pelo PSD, que lidera essa lista com um valor contabilístico superior. O chamado mito do património imobiliário do PCP assenta numa mistura complexa entre factos reais e narrativas políticas inflacionadas. Historicamente, o Partido Comunista Português construiu um vasto património composto por dezenas de terrenos e centenas de prédios e frações urbanas espalhados pelo país, sendo o exemplo mais mediático a Quinta da Atalaia, no Seixal, onde se realiza anualmente a Festa do Avante!. A acumulação destes bens resultou, ao longo de décadas, de campanhas de fundos, quotas de militantes, doações e legados de apoiantes, servindo maioritariamente para fixar centros de trabalho locais e apoiar a atividade do partido, e não para fins de especulação comercial. Durante muito tempo, esta realidade colocou o PCP no topo das forças políticas nacionais com maior património declarado,, estávamos em 2014  o que alimentou o mito de que o partido seria o maior proprietário de Portugal ou que viveria numa contradição ideológica através do imobiliário.

No entanto, o cenário atual e o enquadramento legal desmentem os exageros frequentemente repetidos no debate público. 

Em primeiro lugar, os dados mais recentes submetidos ao Tribunal Constitucional demonstram que o PCP já não detém o maior valor de ativos fixos tangíveis, tendo sido ultrapassado pelo PSD, que lidera essa lista com um valor contabilístico superior.  Em valor contabilístico, o PSD ultrapassou o PCP após uma reavaliação em 2019. Nas contas de 2023, declarou cerca de 30 milhões de euros em ativos fixos tangíveis, contra 15 milhões do PCP. Esta rubrica inclui sobretudo imóveis, mas também viaturas e outros bens. Podes consultar mais detalhes sobre a verificação destes dados através do Polígrafo SIC/Sapo.

Em segundo lugar, a ideia de que o partido beneficia de uma isenção total e discricionária de impostos é incorreta. À semelhança do que a lei prevê para todas as forças políticas e para outras instituições de utilidade pública, o PCP goza de isenção de Imposto Municipal sobre Imóveis apenas nos bens estritamente afetos à sua atividade partidária regular, sendo obrigado por lei a pagar o respetivo imposto sobre todos os restantes imóveis e terrenos que não tenham essa finalidade direta.

Portugal tem 1,6 milhões de estrangeiros. Mais de um terço são brasileiros

Para quem grita apavorado que o Islão vai tomar conta da nossa Lusitânia...digamos que estão um pouco equivocados, não? Parece que em termos religiosos, o islão não é o problema, mas antes os evangélicos que em termos de retrocesso civilizacional, aparenta ser muito mais complicado. 


Dados do INE revelam também que há mais homens do que mulheres imigrantes

Dos 1,6 milhões de estrangeiros residentes em Portugal, 574 mil são brasileiros, uma contagem global que continua a indicar mais homens do que mulheres imigrantes, segundo dados divulgados pelo INE em 22 de junho deste ano.

De acordo com os dados das estimativas da população residente em 2025, hoje apresentadas pelo INE, a população residente de nacionalidade estrangeira em Portugal “foi estimada em 1.597.539 pessoas, das quais 913.249 (57,2%) homens e 684.290 (42,8%) mulheres, representando 14,0% do total da população residente”.

No que diz respeito às nacionalidades, o INE estima que residiam em 2025 um total de “574.195 cidadãos de nacionalidade brasileira, o que corresponde a 35,9% da população estrangeira residente”, mas do que duplicando o número em relação a 2021 (106,5%), com um acréscimo de 296.086 pessoas.

“A nacionalidade angolana era, em 2025, a segunda principal nacionalidade estrangeira, abrangendo 103.140 pessoas (6,5% do total de estrangeiros), o que representa igualmente um acentuado aumento em comparação com 2021 (33.099)”.

Seguem-se os indianos (93.683 pessoas, com 37.914 em 2021), cabo-verdianos (76.099), nepalês (56.866), cidadãos do Bangladesh (56.724) e guineenses (53.555).

A seguir a estas nacionalidades, seguem-se os ucranianos (53.555), são-tomenses (47.731), paquistaneses (39.638), cidadãos do Reino Unido (38.640), italianos (32.784), franceses (26.549), chineses (23.439) e alemães (21.635), na lista publicada pelo INE.

Numa comparação entre os dados de 2021 e 2025, segundo o INE, os são-tomenses constituem o grupo de imigrantes que mais aumentou em termos percentuais (mais 263%), seguindo-se os cidadãos do Bangladesh (230%), do Paquistão (215%) e angolanos (212%), as únicas nacionalidades que triplicaram o seu volume.

Numa análise a partir das regiões-plano (NUT2), o Norte é a região “onde reside o maior número de pessoas (3.790.554), concentrando 33,2% do total da população, seguida pela Grande Lisboa (2.415.261) e pelo Centro (1.771.259), onde residem, respetivamente, 21,1% e 15,5% da população total”.

“Em 2025, a região Grande Lisboa, onde residiam 546.419 pessoas de nacionalidade estrangeira, concentrava 34,2% do total de estrangeiros em Portugal, seguindo-se a região Norte, com 311.095 residentes de nacionalidade estrangeira e representando 19,5% do total”, pode ler-se nas conclusões do INE

Numa análise proporcional, os Açores são a região com menor número de população estrangeira (apenas 0,6% do total) enquanto “o Algarve, com 161.556 estrangeiros, destacou-se como a região com maior peso de população estrangeira no total de residentes na região, com 27,9%”, seguindo-se Lisboa (22,6%) e Península de Setúbal (18,3%).

A presença de imigrantes também contribuiu para um aumento da população ativa, contrariando a redução da população jovem.

“Entre 2021 e 2025, a proporção de jovens (população dos 0 aos 14 anos de idade) diminuiu de 13% para 12,4% da população total” e a ”percentagem de pessoas em idade ativa (população dos 15 aos 64 anos de idade) aumentou, de 63,7% para 64,3%, contributo dos fluxos migratórios recentes que tendem a concentrar-se nesta idade”, refere o INE.

Consultar ainda a AIMA : 2022- último relatório disponível

Hocico: Tiempos de Furia

Melhor som: aqui

A origem do Hocico na Cidade do México desempenha um papel determinante na génese desta narrativa musical. Versos como "Sangre hirviendo en las calles" e "Puños cerrados al mirar" traduzem vividamente a vivência diária num ecossistema marcado pela violência urbana sistémica, corrupção e degradação social. Longe de adotar uma postura passiva de vitimização, o discurso lírico converte o medo e a vulnerabilidade num impulso agressivo de confronto, onde a fúria deixa de ser uma mera reação emocional secundária para se transformar no principal mecanismo de sobrevivência num mundo onde a compaixão foi erradicada.

Neste cenário de devastação, a raiva assume igualmente o papel de anestesia e vício psicológico, substituindo as emoções humanas convencionais. Expressões como "Furia inyectando el placer" e "Violencia para reírme" desenham um estado de catarse masoquista, no qual a dor e a fúria passam a figurar como os únicos estímulos capazes de contrariar a dormência do espírito e certificar ao indivíduo que este ainda se encontra vivo, atuando como um entorpecente que blinda a mente contra o desespero e a desesperança.

Essa desilusão estende-se ao plano metafísico através do questionamento direto das estruturas religiosas e do consolo espiritual. O verso "En el silencio de la fe, se alimenta el poder" denúncia a passividade e a cumplicidade das instituições religiosas perante a injustiça contínua, sugerindo que o silêncio da crença tradicional apenas serve para nutrir e fortificar os mecanismos opressores. Consuma-se, assim, uma ruptura definitiva com a esperança de salvação divina, determinando que no horizonte de "Tiempos de Furia" a moralidade tradicional ruiu sem deixar redenção, restando apenas o embate cru na esfera material.

Por último, o refrão "Muere un instante, muere sin sentir, ahora!" sintetiza a alienação e a morte emocional indispensáveis à preservação pessoal. Para conseguir suportar a agressividade do meio, a psique recorre ao bloqueio deliberado da sensibilidade e da vulnerabilidade, operando uma desumanização progressiva na qual o indivíduo se vê forçado a desativar temporariamente a sua própria humanidade para se converter num agente frio e puramente instintivo.

Do ponto de vista das influências literárias e filosóficas que moldam o imaginário estético e conceptual de projetos como o Hocico e a sua atmosfera industrial e dark electro, encontram-se referências ao niilismo de Friedrich Nietzsche, ao pessimismo e à filosofia existencialista de Arthur Schopenhauer, às visões distópicas e kafkianas da opressão burocrática e tecnológica de Franz Kafka, às atmosferas de terror psicológico e surrealismo gótico de Edgar Allan Poe e H.P. Lovecraft, ao decadentismo literário do século XIX (como Charles Baudelaire e o culto do mal), às teorias da desumanização tecnológica da Escola de Frankfurt (particularmente de Theodor Adorno e Walter Benjamin no que tange à mecanização da vida e à alienação industrial), ao ceticismo e ao desespero metafísico de Emil Cioran, bem como a elementos de transumanismo sombrio, cibercultura extrema e correntes de filosofia pós-moderna focadas no colapso do sujeito e na fragmentação da identidade face às megastruturas urbanas e tecnológicas.

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Fontaines D.C. - I Love You

Lançada em fevereiro de 2022 como o segundo single do aclamado álbum Skinty Fia, "I Love You" é uma das composições mais profundas, intensas e politicamente carregadas da banda irlandesa Fontaines D.C. Musicalmente, a faixa enquadra-se no Post-Punk moderno com marcantes nuances de Gothic Rock, Jangle Pop e influências estruturais de Krautrock. A sua sonoridade constrói-se sobre um contínuo e hipnótico crescendo impulsionado por um ritmo contínuo e obsessivo de inspiração Motorik - marca do rock experimental alemão -, no qual a linha de baixo melancólica, as guitarras atmosféricas e o pulso mecânico da bateria criam uma tensão progressiva. A partir desta base rítmica implacável, a instrumentação evolui para uma mancha sonora densa e caótica, acompanhando a transformação da voz do vocalista Grian Chatten de um tom suave e percetivo para uma entrega vocal febril, entre o spoken word e o grito desesperado.

Apesar de ostentar um título que sugere uma tradicional canção de amor, a letra é, na verdade, uma complexa, dolorosa e culpada carta de amor direcionada à Irlanda. Escrita num período em que os membros da banda se mudaram para o Reino Unido, a canção explora a culpa do artista que abandona o seu país de origem e lucra criativamente com a sua identidade, enquanto observa à distância a degradação social da sua terra natal. A lírica funciona como uma denúncia feroz contra a corrupção política, a crise imobiliária que assola a juventude e os traumas históricos do país, como o chocante escândalo das Mother and Baby Homes, onde os corpos de centenas de bebés foram descobertos em fossas sépticas na localidade de Tuam.

A dimensão visual da obra ganha força através do videoclipe oficial, realizado por Sam Taylor. Ambientado no interior de uma igreja gótica iluminada apenas pela luz de centenas de velas, o cenário evoca o peso sufocante da tradição, da religião e dos traumas históricos irlandeses. A presença ostensiva e esmagadora das velas carrega um simbolismo polifacetado: funciona simultaneamente como um memorial de vigília e luto pelas vítimas dos abusos históricos e pela juventude sem perspetivas, e como uma crítica à hipocrisia de uma santidade institucional que tentou encobrir crimes sob o manto do sagrado. Além disso, a vela surge como a metáfora de uma paixão que se consome a si própria - uma esperança e um amor pela pátria tão intensos que devoram quem os sente. Ao longo do vídeo, Chatten caminha inicialmente como um observador passivo por este cenário ritualístico, mas a meio da narrativa vira-se diretamente para a câmara, quebrando a quarta parede no mesmo instante em que a música explode em fúria e denúncia social. No clímax emocional da narrativa visual, o peito do vocalista aparece a sangrar, servindo como uma representação literal do custo de entregar a própria alma e o coração a uma pátria em desagregação.

Apesar de ter sido escrita no contexto de 2022, a canção permanece incrivelmente atual por traduzir sentimentos universais e contemporâneos. Ela dá voz à desilusão da geração jovem perante a crise socioeconómica global, a impossibilidade de acesso à habitação e o sentimento de falta de perspetivas de futuro. Além disso, retrata com precisão o fenómeno da emigração forçada e o desencanto com a classe política, questões que continuam a ressoar profundamente em vários países do mundo.

Por fim, a densidade de "I Love You" nutre-se de ricas influências literárias e filosóficas. A lírica dialoga diretamente com a tradição poética irlandesa de W.B. Yeats e o seu conceito de "terrible beauty" - a beleza trágica que nasce do conflito -, bem como com a paralisia social retratada por James Joyce. No plano filosófico, a faixa é atravessada por um profundo existencialismo sartreano e camusiano, focado no sentimento de alienação, na culpa da diáspora e na angústia do indivíduo perante o absurdo moral e a responsabilidade individual. Ressoa também com a crítica da Teoria Crítica à mercantificação da identidade e ao desespero de classe, além de se aproximar da filosofia da história de Walter Benjamin, ao encarar os traumas do passado não como eventos mortos, mas como feridas não cicatrizadas que assombram o presente. Por sua vez, a métrica acelerada do spoken word bebe na fonte da Beat Generation e de poetas como Allen Ginsberg, utilizando a palavra falada como uma poderosa ferramenta de contestação e apelo moral.. Por sua vez, a métrica acelerada do spoken word bebe na fonte da Beat Generation e de poetas como Allen Ginsberg, utilizando a palavra falada como uma poderosa ferramenta de contestação e apelo moral.

Toda a história da Mother and Baby Home

Associação Zero pede “esforço climático real” face a falha da meta para o aquecimento global

A associação ambientalista Zero pediu hoje um “esforço climático real” face a um relatório da ONU que concluiu que o mundo falhou a meta de manter o aquecimento global abaixo de 1,5ºC em relação aos níveis pré-industriais.

“Perdemos a oportunidade de evitar a ultrapassagem de 1,5°C. Não podemos perder a oportunidade de impedir um mundo de 2,8°C. Cada décima de grau conta”, salienta a Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável em comunicado.


O relatório anual do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) sobre as emissões de gases com efeito de estufa (GEE) divulgado hoje refere que o limite de 1,5 graus de aquecimento global já foi ultrapassado e que “com as políticas atuais, o mundo caminha para 2,8°C até 2100”.

A Zero adianta, no entanto, que tal “não significa desistir do Acordo de Paris”, assinado em 2015 na conferência da ONU sobre o clima, com o compromisso de os países do mundo de impedir que as temperaturas a nível global subissem além dos 2ºC em relação à época pré-industrial, e que de preferência esse aumento não ultrapassasse os 1,5ºC.

“Cada décima de grau evitada, e cada ano a menos acima desse limiar, reduzem riscos para a saúde, a água, a produção alimentar e os ecossistemas”, refere a Zero.

Considerando que “mitigação e adaptação são inseparáveis”, a associação defende que, no primeiro caso, “Portugal tem de acelerar a aplicação da Lei de Bases do Clima e do Plano Nacional de Energia e Clima, com metas, responsáveis, orçamentos e resultados verificáveis”.

Ao nível dos transportes, “responsáveis por cerca de 35% das emissões nacionais em 2024”, a associação exige “uma mudança estrutural: mais ferrovia e transportes públicos, menos dependência do automóvel e eletrificação prioritária das frotas de utilização intensiva e do transporte de mercadorias”.

Pede ainda que se combata a pobreza energética e se apoie uma indústria menos dependente dos combustíveis fósseis.

“Na energia, é essencial acelerar a implantação de renováveis bem localizadas e compatíveis com a biodiversidade, reforçar redes, interligações, armazenamento e gestão da procura, e avaliar o abandono do gás fóssil na produção elétrica até 2035”, acrescenta a Zero no comunicado.

Portugal precisa, ao mesmo tempo, “de se preparar para mais ondas de calor, secas, incêndios rurais, precipitação extrema e erosão costeira”, adianta a associação ambientalista, defendendo que “a Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas 2030 precisa de financiamento, prazos, metas e integração vinculativa no ordenamento do território”.

A “prioridade global e europeia deve ser a definição de um roteiro justo, calendarizado e financiado para o abandono do carvão, petróleo e gás fóssil, acompanhado pela rápida expansão da energia solar e eólica, da eficiência energética e da eletrificação”.

A Zero recomenda que a União Europeia reforce a execução das políticas climáticas e apoie os países mais vulneráveis, além de levar à 31.ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações sobre Alterações Climáticas (COP31), que decorre no próximo mês na Turquia, “resultados concretos, incluindo a concretização do compromisso de triplicar a capacidade renovável e duplicar o ritmo de melhoria da eficiência energética até 2030”.

Numa mensagem sobre o relatório do PNUMA, o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirma que “falhar a meta não significa desistir. Ainda podemos mantê-la o mais breve e curta possível - e trazer as temperaturas de volta para menos de 1,5 graus até ao final do século”.


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De Ortega y Gasset ao tecnofeudalismo: diagnósticos e alternativas


Quando José Ortega y Gasset publicou A Rebelião das Massas em 1930, o mundo assistia ao colapso das certezas liberais do século XIX e à ascensão fulminante de forças destrutivas que ameaçavam dissolver a civilização ocidental. O filósofo espanhol anteviu que o maior perigo da modernidade não residia apenas em divisões de classe ou em doutrinas económicas abstratas, mas na emergência de um tipo psíquico e social específico: o homem-massa. Incapaz de autoexigência, habituado a usufruir dos frutos da tecnologia e do progresso sem compreender a sua complexidade nem assumir deveres éticos, o homem-massa caracteriza-se pela recusa da razão, pela rejeição das minorias qualificadas e pela imposição do seu arbítrio através do que Ortega denominou "ação direta". Esta atitude desprovida de mediação institucional constituiu a matriz comportamental dos regimes totalitários do século XX.

Os acontecimentos trágicos que se seguiram às advertências do pensador espanhol confirmaram o vigor premonitório do seu diagnóstico. O Fascismo na Itália de Benito Mussolini e o Nazismo na Alemanha de Adolf Hitler instrumentalizaram a vertigem da massa atomizada, transformando o ressentimento coletivo em violência de Estado, na aniquilação de opositores, no Holocausto e numa guerra devastadora em solo europeu. Paralelamente, o totalitarismo soviético sob Joseph Estaline converteu a promessa de emancipação no horror dos gulags, na purga sistemática de intelectuais e na submissão absoluta do indivíduo ao aparelho estatal. Anos mais tarde, o primarismo ideológico e o desprezo pelo saber atingiram o paroxismo no Camboja sob o regime do Khmer Vermelho e Pol Pot. Entre 1975 e 1979, na tentativa de refundar a sociedade a partir do zero através de uma "ação direta" absoluta, a população urbana foi forçada a trabalhos agrícolas, as elites intelectuais foram sumariamente executadas e cerca de um quarto da população do país foi dizimada num dos genocídios mais brutais da história humana.

Embora Ortega y Gasset focalizasse a sua crítica na inflação do poder estatal e na brutalidade política, as dinâmicas sociopolíticas das últimas décadas reconfiguraram o homem-massa dentro de uma nova estrutura sistémica. A desregulação do capitalismo selvagem dos anos 1980 deu lugar, no século XXI, à emergência do tecnofeudalismo. O indivíduo satisfeito e descomprometido da época de Ortega metamorfoseou-se no "servo da nuvem" hiperconectado: um utilizador que gera valor e dados continuamente para grandes plataformas privadas sem dele ter consciência, enquanto o espaço público e os mercados abertos são substituídos por feudos digitais dominados por monopólios tecnológicos.

Perante esta mutação do capital, a financeirização acelerada, o controlo algorítmico e a degradação ecológica, diversos pensadores contemporâneos redefiniram a crítica social, rejeitando os modelos autoritários do passado e propondo alternativas baseadas na democracia, na soberania digital e nos bens comuns.

Na vertente da crítica à expansão territorial e financeira do capital, o geógrafo britânico David Harvey formula o conceito de "acumulação por espoliação". Harvey demonstra que a dinâmica contemporânea do mercado já não assenta unicamente na extração de mais-valia fabril, mas na privatização predatória de recursos essenciais como a habitação, a água, a saúde e os espaços urbanos. Como alternativa, o autor reivindica o "Direito à Cidade", defendendo a gestão comunitária dos bens comuns e a desmercantilização do solo e dos serviços básicos. No campo estritamente financeiro, o economista grego Costas Lapavitsas analisa como a financeirização penetrou a reprodução da vida quotidiana, convertendo salários, crédito e endividamento familiar num motor direto de extração de riqueza por parte do sistema bancário. Lapavitsas propõe a criação de controlos públicos estritos sobre o sistema financeiro, a socialização do crédito e a realização de auditorias cidadãs às dívidas.

No âmbito da crise climática, a rutura com o produtivismo tradicional levou ao surgimento do ecossocialismo e das teorias do decrescimento. O filósofo japonês Kohei Saito sustenta que a acumulação infinita de capital é estruturalmente incompatível com os limites biofísicos do planeta. Resgatando as pesquisas ecológicas da maturidade de Karl Marx, Saito propõe o "decrescimento ecossocialista", fundado na redução da produção desnecessária, na redistribuição da riqueza e no redirecionamento da economia para a satisfação das necessidades humanas reais. De forma complementar, o historiador norte-americano Jason W. Moore conceptualiza o capitalismo como uma organização da natureza baseada na apropriação continuada de "natureza barata" - trabalho, energia, alimentos e matérias-primas. Moore argumenta que a superação da crise ecológica exige a transição para modelos agroecológicos e a abolição da fronteira artificial entre a sociedade humana e o mundo natural.

A crítica direta às estruturas do tecnofeudalismo e ao controlo digital é desenvolvida por teóricos como Yanis Varoufakis e Shoshana Zuboff. Enquanto Varoufakis denuncia como os "feudos na nuvem" substituíram os mercados tradicionais por mecanismos de rentismo digital e modificação de comportamento, Zuboff identifica o surgimento do "Capitalismo de Vigilância". Como resposta a este poder privatizado sobre a informação, estes autores e investigadores como Nick Srnicek e Alex Williams advogam a criação de infraestruturas públicas digitais, a afirmação da soberania democrática sobre os monopólios tecnológicos e a apropriação social da automação para reduzir a jornada semanal de trabalho, garantindo a dignidade através de um Rendimento Básico Incondicional.

A reflexão sobre os sujeitos políticos, as estruturas do cuidado e a organização social encontra eco em perspetivas que articulam a política institucional com a autonomia de base. A filósofa belga Chantal Mouffe diagnostica o esvaziamento das democracias e propõe a construção de uma nova hegemonia através do populismo de esquerda, capaz de radicalizar as instituições por meio da agregação de lutas plurais -feministas, ecológicas, antirracistas e laborais. Numa perspetiva focada na reprodução da vida, a filósofa feminista Silvia Federici evidencia que o sistema depende intrinsecamente do trabalho invisibilizado e não pago de cuidados e tarefas domésticas, maioritariamente desempenhado por mulheres. Federici propõe a revalorização e a reorganização comunitária do trabalho de reprodução social, subtraindo os cuidados à lógica da rentabilidade e do extrativismo de dados.

Por sua vez, as correntes antiautoritárias e autonómicas propõem alternativas de base sem mediação estatal. O antropólogo norte-americano David Graeber desferiu duras críticas à burocracia corporativa e à proliferação de empregos desprovidos de sentido útil (bullshit jobs), propondo a ação direta, o cancelamento de dívidas abusivas e formas de organização horizontal. Essa mesma busca por autonomia encontra expressão prática no Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), em Chiapas, no México. Rejeitando a tomada do poder estatal e o autoritarismo ideológico do século passado, o movimento zapatista constrói no quotidiano um modelo de autogoverno comunitário assente no princípio de "mandar obedecendo", onde o rigor da responsabilidade coletiva substitui a dispersão do homem-massa e a submissão aos novos feudos económicos.

O itinerário do pensamento social que vai do diagnóstico inicial de Ortega y Gasset às teorias do tecnofeudalismo revela a constante necessidade de defender a autonomia humana perante as forças de massificação e alienação. Quer perante a barbárie totalitária impulsionada pelo homem-massa no século XX, quer perante a extração invisível promovida pelos feudos digitais no século XXI, a resposta assenta na reconstrução do vínculo comunitário, na democratização da tecnologia e na defesa dos bens comuns.

Referências Bibliográficas
  1. Durand, C. (2020). Technofeudalism: Critique of Digital Economy
  2. Federici, S. (2019). Calibã e a Bruxa: Mulheres, Corpo e Acumulação 
  3. Graeber, D. (2018). Bullshit Jobs: A Theory
  4. Harvey, D. (2004). O Novo Imperialismo. .
  5. Lapavitsas, C. (2013). Profiting Without Producing: How Finance Exploits Us All. 
  6. Moore, J. W. (2015). Capitalism in the Web of Life: Ecology and the Accumulation of Capital. 
  7. Mouffe, C. (2018). Por um Populismo de Esquerda. 
  8. Ortega y Gasset, J. (2019). A Rebelião das Massas. 
  9. Saito, K. (2024). O Capital no Antropoceno.
  10. Srnicek, N., & Williams, A. (2015). Inventing the Future: Postcapitalism and a World Without Work. 
  11. Varoufakis, Y. (2023). Technofeudalism: What Killed Capitalism. London: Bodley Head.
  12. Zuboff, S. (2021). A Era do Capitalismo de Vigilância: A Luta por um Futuro Humano na Nova Fronteira do Poder. 
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