segunda-feira, 6 de abril de 2026

Spinumviva: contratos públicos de grupo empresarial ligado à empresa familiar de Montenegro disparam após ida para São Bento


Existe uma velha adivinha que pergunta como pode um elefante passar despercebido no meio de uma cidade. A resposta é simples: em manada. A divulgação “em manada” da lista de clientes da empresa Spinumviva pelo primeiro-ministro, Luís Montenegro, poderá ter servido precisamente para isso: diluir, no volume do conjunto, eventuais suspeitas sobre relações posteriores entre o poder político e interesses económicos anteriormente ligados ao chefe do Governo.

Mas uma análise detalhada do PÁGINA UM aos contratos públicos celebrados por empresas do universo Trivalor — nos 24 meses anteriores à tomada de posse de Montenegro como primeiro-ministro e nos 24 meses subsequentes — fez acender luzes vermelhas em duas sociedades em particular: a ITAU — Instituto Técnico de Alimentação Humana, ligada ao sector das refeições colectivas, e a Sogenave, uma sociedade dedicada à distribuição alimentar e não alimentar. Ambas integram o grupo Trivalor, um dos maiores operadores nacionais na prestação de serviços ao Estado, hoje com liderança operacional associada a Filipe Crisóstomo Silva, ex-CEO da Galp Energia, que herdou a posição (quase 90%) do seu pai.

Na análise, baseada em dados do Portal BASE, compararam-se dois períodos simétricos: de 1 de Abril de 2022 a 1 de Abril de 2024 e de 2 de Abril de 2024 a 1 de Abril de 2026. No conjunto das empresas identificadas da holding Trivalor — ITAU, Sogenave, Gertal, Iberlim, Strong Charon, Cerger, Socigeste, Ticket Restaurant, Sinal Mais, Papiro e S Team Consulting —, o número de contratos passou de 1.434, no período anterior à primeira tomada de posse de Montenegro, para 1.668, no período subsequente homólogo, já com funções em São Bento. 

A subida relativa nos contratos (+16,3%) ficou, ainda assim, aquém do salto na facturação registado entre Abril de 2024 e o início do mês actualmente em curso: de 344,2 milhões de euros passou para 468,9 milhões, um crescimento de 36,2%. Isto traduz-se num incremento absoluto de quase 125 milhões de euros. Saliente-se que alguns contratos mais recentes poderão ainda não ter sido introduzidos no Portal BASE.

Mas é na leitura fina dos dados que o padrão ganha relevo, tendo como referência o período do PSD na oposição e o período de Montenegro como líder do Governo. O preço médio por contrato das empresas da Trivalor aumentou de cerca de 240 mil euros para 281 mil euros (+17,1%), enquanto o preço mediano — que representa melhor o contrato “típico” — caiu de 22.416 euros para 16.285 euros (-27,4%). Esta divergência é relevante: significa que o crescimento do grupo foi puxado simultaneamente por contratos muito grandes e por uma multiplicação de contratos de menor dimensão, expandindo a presença do grupo na máquina pública.

Neste contexto, sobressaem ainda mais os casos da ITAU e da Sogenave, que foram clientes directos dos ‘trabalhos’ de Montenegro através da Spinumviva.

Comparando os períodos pré e pós-Governo Montenegro, a ITAU mantém praticamente o mesmo número de contratos (143 para 140), mas o valor total disparou de 86,6 milhões para 144,2 milhões de euros (+66,5%). O valor médio por contrato subiu de 605,7 mil euros para 1,03 milhões (+70,0%). Ou seja, neste caso, a empresa não cresceu em volume contratual, mas sim em escala financeira, passando a ganhar contratos significativamente maiores.

Já a Sogenave apresentou um movimento inverso, mas também favorável no período de Governo de Montenegro. O número de contratos subiu de 786 para 1.079 (+37,3%), e o valor total passou de 37,5 milhões para 55,9 milhões de euros (+49,1%), com um aumento mais moderado do preço médio (+8,6%). Aqui, o crescimento foi claramente extensivo: mais contratos, mais clientes, maior capilaridade no sector público.

Em conjunto, ITAU e Sogenave passaram de 124,1 milhões para 200,1 milhões de euros, um aumento de 61,2%, com mais 290 contratos. Estas duas empresas representam, sozinhas, uma parcela muito significativa do reforço do grupo no período posterior à tomada de posse de Montenegro.

Mas o crescimento da Trivalor não se limitou a estas sociedades. A Gertal, por exemplo, já com forte presença no sector da alimentação colectiva, passou de 197,8 milhões para 221,4 milhões de euros. A Strong Charon, ligada à segurança privada, saltou de 14,0 milhões para 43,8 milhões, um crescimento expressivo que reforça a ideia de expansão transversal do grupo.

Outro dado bastante relevante incide na alteração dos procedimentos de contratação. O número de contratos por concurso público desceu ligeiramente (655 para 622), enquanto os contratos por ajuste directo em regime geral subiram de forma significativa, passando de 380 para 626, muito associados à Sogenave, embora o valor global até tenha descido ligeiramente (de 56,7 para 50,5 milhões de euros). A consulta prévia manteve-se estável.

Porém, foi nos concursos limitados — procedimento que restringe previamente quem pode concorrer — que as empresas da Trivalor mais se reforçaram. Os dois maiores contratos do grupo, que beneficiaram a Gertal (Vila Nova de Gaia, com 38,4 milhões de euros, e Matosinhos, com 13,7 milhões), foram obtidos por este tipo de procedimento.

Isto significa que o grupo passou a aparecer com maior frequência em procedimentos com concorrência limitada ou nula, embora, em termos de valor, os concursos públicos continuem a representar a maior fatia do dinheiro adjudicado — cerca de 60% no período posterior.

Há ainda um fenómeno de concentração. Apesar de o número de entidades adjudicantes subir de 401 para 424, uma parcela crescente do valor total concentra-se nos maiores compradores. Os cinco principais adjudicantes passaram a representar 35,9% do total (contra 27,1% antes de Montenegro assumir a liderança do Governo), e os dez maiores quase metade do valor global (49,2%). Entre esses grandes compradores surgem entidades como a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, o Município de Vila Nova de Gaia (que só recentemente passou para a liderança social-democrata), o Município de Lisboa, a empresa pública SUCH (sector hospitalar) e o Centro Hospitalar Universitário do Porto

Curiosamente, o crescimento do grupo não assentou de forma relevante em novos clientes. Apenas 20 entidades passaram a contratar com o grupo no período posterior à chegada de Montenegro ao poder, representando cerca de 13,8 milhões de euros, ou seja, menos de 3% do total. Isto indica que a expansão resultou sobretudo do reforço de relações já existentes e da capacidade de aumentar o volume contratual junto de grandes adjudicantes.

Os maiores contratos ilustram bem a escala do fenómeno. Entre eles estão um contrato da Gertal com o Município de Vila Nova de Gaia superior a 38 milhões de euros, um da ITAU com a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) próximo de 31,9 milhões, outro da Gertal com o Município de Lisboa acima de 31,1 milhões, bem como contratos relevantes da Strong Charon e da própria ITAU com grandes entidades públicas.

O caso da SCML é particularmente sintomático da “sorte grande” que saiu ao grupo Trivalor desde a ascensão de Montenegro ao Governo. Nos dois anos anteriores à chegada ao poder da nova AD, em Abril de 2024, as adjudicações da SCML totalizaram 8,5 milhões de euros. Já nos dois anos posteriores, com Montenegro em São Bento, a ITAU conseguiu contratos no valor de 35,6 milhões de euros e a Strong Charon de 19,6 milhões. Resultado: entre um período e outro, a Trivalor registou um crescimento de cerca de 547% no valor dos contratos com esta entidade.

Os dados não permitem, por si só, concluir pela existência de favorecimento político, embora tenham sido aplicados três testes estatísticos que confirmam que a mudança de padrões entre o período anterior e posterior à entrada de Montenegro em São Bento é estatisticamente muito significativa. Mas permitem afirmar, com base empírica, que o grupo Trivalor reforçou de forma expressiva a sua presença na contratação pública após a chegada de Luís Montenegro ao cargo de primeiro-ministro, e que esse reforço se mostra particularmente visível em duas empresas com relevância directa no contexto da lista de clientes anteriormente divulgada.

Tal como na adivinha, o elefante pode tentar passar despercebido. Mas, neste caso, mesmo em manada, há sinais demasiado grandes para as autoridades ignorarem. Recorde-se que o PÁGINA UM intentou uma intimação no Tribunal Administrativo de Lisboa no sentido de a Procuradoria-Geral da República disponibilizar o acesso à averiguação preventiva relativa à Spinumviva, entretanto arquivada, mas ainda não tornada pública.

Cocteau Twins - Orange Appled, Ella Megalast Burls Forever and Snub

Every song is so unique and its own. I really want to cry to this song everytime I listen to "Orange Apple".Thank you CT for such beautiful music

 

Ao vivo, Michigan, 1990- Great Artists made great live performance & this is a Hi quality Sound recording. This Live version is more dynamic energetic & faster whit a smart complexity produced by the Voice & the Guitar

domingo, 5 de abril de 2026

Dead Leaf Echo - Call


Melhor som aqui

Soon, I will take you
Soon, we'll go home
With these thoughts, but not these memories
Of what once was a past home

Just call
I've been waiting
I'll be there for you
You just call
I've been waiting
I'll be there for you

Soon, you'll take me
Soon, I will be far away
With this form placed over function
It's the only way I'll get back to you

[refrão]
If you'd just call
I've been waiting
I'll be there for you
You just call
I'll be waiting
I'll be there for you

To try and break you, I've worked hard (3X)
And I'll break you

[refrão]

To try and break you
I will fake you

A força de "Call" reside na exploração profunda do anseio e da conexão, manifestando a urgência de um contato que parece sempre interrompido ou prestes a chegar. A canção mergulha na distância emocional, apresentando o desejo de redenção através do outro como uma força motriz, enquanto a letra alterna entre a promessa de presença e a frustração da espera. Esse sentimento é amplificado por uma marcante melancolia urbana, típica de bandas que emergem do isolamento de metrópoles como Nova York; aqui, a "chamada" do título funciona como um farol de esperança, uma tentativa desesperada de romper o ruído da cidade e escapar do confinamento dos próprios pensamentos.

Tudo isso é emoldurado por uma cinematografia sonora meticulosa, já que LG Galleon projecta suas composições como trilhas sonoras para filmes que nunca foram filmados. Em "Call", essa estética se traduz na tensão constante entre o silêncio do sentimento interior e o barulho esmagador da realidade externa, utilizando as camadas densas do shoegaze para pintar um retrato sonoro onde a forma muitas vezes se sobrepõe à função, criando uma experiência que é, ao mesmo tempo, íntima e expansiva.

Página Oficial
Dead Leaf Echo 

As Team Trump wage unceasing war on Iran, evangelical nationalists are destroying any moral world order we once had


The brutalisation of global norms by figures like Pete Hegseth must be seen as an ethical issue. It’s a fight against chaos, and all major religions must play a role

That combative old hymn, Onward Christian Soldiers, is not much heard these days, though it was once a favourite with church congregations and school assemblies. Written in 1865 by Sabine Baring-Gould, an English clergyman and religious scholar, its belligerent refrain urges the faithful on to battle, victory and conquest: “Onward, Christian soldiers / Marching as to war / With the cross of Jesus / Going on before!” Its martial tone suited the Victorian zeitgeist but it made succeeding generations uneasy (though it was still sung in my primary school in the early 1960s). Nowadays, this sort of triumphalism gives religion a bad name.

Pete Hegseth, US defence secretary, and a leading Christian soldier, would certainly disagree. He probably hums it on his way to work. At a recent Christian worship service in the Pentagon – an irregular event, given the constitution’s dislike of anything smacking of state religion – Hegseth, referencing Iran, prayed for “overwhelming violence of action against those who deserve no mercy”. Hegseth’s creed is killing. He describes Iranians as “religious fanatics”. And he should know. His intolerant brand of evangelical Christian nationalism is extreme even by US standards – yet has Donald Trump’s backing. Trump was a Presbyterian until 2020, when he abruptly declared he wasn’t. God knows what he is now.

Exploitation of Christian belief for political and military ends is a long-established, shabby US practice. Yet there’s a darkly obnoxious underside. Implicit in the official demonisation and dehumanisation of the Iranian nation is fear and loathing of otherness, in this case Shia Muslims. In one of his first acts as president in 2017, Trump banned immigrants from several Muslim-majority countries, and has continued in that hateful vein.

For most practising Christians, the misappropriation, distortion and weaponisation of faith to justify death and destruction, sow divisions, excuse war crimes and bomb Iran “back to the stone ages” is deeply saddening. Christians – who celebrate Easter on Sunday – believe Jesus was crucified for the sake of all mankind, for the forgiveness of sins, not for vindictive vengeance, pride and domination. Pope Leo spoke for many beyond the Catholic church at a Palm Sunday mass in Rome in forcefully rejecting attempts by zealots such as Hegseth to conscript Christianity. “No one can use [Jesus] to justify war,” he said, quoting Isaiah. War-makers’ prayers would go unanswered. “Your hands are full of blood.”

Not all Christians oppose Trump’s and Benjamin Netanyahu’s war of choice in Iran. Yet Leo’s outrage is shared in Britain by, among others, Rowan Williams, a former archbishop of Canterbury, and is echoed across the Islamic world and by Jews around the world. It reflects a much bigger battle – over the way today’s authoritarian leaders ignore international law and encourage and exploit the disintegration of the post-1945 “global rules-based order”. The cost of this breakdown is usually counted in terms of geopolitical and economic disruption, fractured alliances and unilateral acts of impunity, such as the invasion of Ukraine and genocide in Gaza. But the brutalisation and demoralisation of the global order must be counted an ethical issue, too. Its collapse constitutes a fundamental, universal crisis of morality.

More than ever, perhaps, a conflicted world needs independent, apolitical voices willing, and sufficiently courageous, to speak truth to power, stand up to autocratic bullies, defend the weakest and most vulnerable, and call out injustice and state lawlessness. When temporal leadership fails, when trust and confidence in secular governments and politicians are lacking, when belief in democracy is fading and when people’s basic security, physical and financial, is threatened by forces beyond their control, who then will challenge tyranny? With growing desperation, nailed to a cross of their own making, broken societies cry out for spiritual rescue.

In this global struggle against chaos, all religions must play a role. Yet over Iran, its latest manifestation, the response has often seemed cautious and divided. In the UK, Sarah Mullally, installed last month as archbishop of Canterbury and head of the worldwide Anglican communion, sidestepped the war in her first sermon. In contrast, Guli Francis-Dehqani, the Iranian-born bishop of Chelmsford, denounced it as illegal, as neither moral nor just.

The assassination by Israel of Ayatollah Ali Khamenei, Iran’s supreme leader, who was also a senior clerical authority for Shia Muslims everywhere, was exceptionally provocative (and illegal). Yet regional reactions have divided along sectarian lines. In Syria, some Sunni Muslims celebrated his death. The war is popular among Jewish Israelis but a majority of Jewish Americans is opposed, with 77% saying Trump has no plan – according to a J Street poll. Similar divides exist over Ukraine, where religious organisations linked to the slavishly pro-Putin, pro-war Russian Orthodox church are banned by Kyiv.

Such schisms and splits are nothing new. Yet facing global geopolitical meltdown, Christian leaders of every stripe have a clearcut moral responsibility to unite in championing a more militant, voluble, specifically anti-war, pro-justice ecumenicalism. In truth, all faith leaders, not just Christians, could and should act together. Mosque worshippers in Tehran, Beirut and Gaza, synagogue members in Tel Aviv, Jerusalem and north London, churchgoers from Canterbury to Cincinnati and their children – children like those incinerated by a Tomahawk missile in Minab – all share a common interest in upholding the basic human freedom to live, work and follow the god of their conscience without being blown up, terrorised, persecuted and cynically misled by reckless politicians.

Ler mais:

Feliz Páscoa


Josh Clare é um prestigiado pintor contemporâneo norte-americano, nascido em 1982 no estado do Utah. Criado no seio das paisagens imponentes das Montanhas Rochosas, consolidou a sua base técnica na Brigham Young University-Idaho, onde se licenciou em 2007 em Belas Artes (BFA) com especialização em Ilustração. Foi durante o seu percurso académico que descobriu uma ligação profunda com a pintura de paisagem, sob a mentoria de professores que o incentivaram a observar a natureza de forma direta e rigorosa.

O seu estilo artístico fundamenta-se no impressionismo clássico e na tradição do realismo americano, com um foco quase devocional na prática en plein air (pintura ao ar livre). O trabalho de Clare é reconhecido pela habilidade magistral em captar os efeitos efémeros da luz natural, utilizando pinceladas confiantes e uma paleta de cores harmoniosa para traduzir a atmosfera de cenários rurais e montanhosos. Para o artista, a pintura transcende a mera representação visual; trata-se de uma busca por captar a essência e a "verdade" da criação, transformando elementos simples do quotidiano campestre em composições repletas de poesia e profundidade emocional. Atualmente, é considerado uma das figuras mais influentes do movimento de pintura de paisagem nos Estados Unidos, acumulando prémios de prestígio e expondo em importantes galerias nacionais.

Da Mitologia à Tradição: A Origem Pagã do Coelho e do Ovo da Páscoa

A génese desta tradição recua aos cultos pré-cristãos do Norte da Europa, onde a chegada da primavera era celebrada sob o signo da deusa Eostre, ou Ostara, a divindade teutónica da aurora e do renascimento. Para os povos antigos, a transição do inverno para o florescimento da terra exigia símbolos que traduzissem visualmente a ideia de fertilidade e vida latente. Surge aqui a lebre — a antecessora do nosso coelho doméstico — que, pela sua extraordinária capacidade reprodutiva e pelo facto de ser um dos primeiros animais a reaparecer nos campos após o degelo, se tornou o emblema vivo da abundância da deusa.

A ligação específica entre a lebre e o ovo encontra a sua raiz numa narrativa mitológica persistente, segundo a qual Eostre teria transformado um pássaro ferido num animal terrestre para o salvar do frio. Apesar da metamorfose, a criatura conservou a faculdade de pôr ovos, que decorava com cores vibrantes e oferecia à divindade em sinal de gratidão. Este mito serviu para explicar a união de dois símbolos de regeneração: enquanto o ovo representa o microcosmo e o mistério da vida protegida por uma casca que parece inerte, o coelho personifica a força ativa e a rapidez com que essa mesma vida se propaga na superfície da terra. Com a expansão do cristianismo, estas práticas não foram eliminadas, mas sim integradas através de um processo de inculturação, onde o renascimento da natureza foi reinterpretado como a ressurreição de Cristo.

A partir do século XVI, na Alemanha, esta herança consolidou-se na figura do "Osterhase", a lebre da Páscoa que avaliava o comportamento das crianças e escondia ovos decorados nos jardins. A prática foi reforçada pela proibição do consumo de ovos durante a Quaresma; como as galinhas não interrompiam a postura, os ovos eram cozidos e guardados, sendo depois oferecidos e consumidos com festividade no Domingo de Páscoa. Foi apenas no século XIX que a indústria de confeitaria, aproveitando a iconografia já profundamente enraizada no imaginário popular, começou a produzir estes símbolos em chocolate, transformando um antigo rito agrário no fenómeno global que conhecemos hoje.

Para fundamentar esta investigação, podem consultar-se obras como "Deutsche Mythologie" de Jacob Grimm (1835) , que explora as ligações linguísticas e rituais de Ostara, ou o clássico "An Egg at Easter: A Folklore Study" de Venetia Newall (1971) , que detalha a simbologia do ovo através das eras. Outras fontes essenciais incluem "The Stations of the Sun" de Ronald Hutton (1996) , sobre a evolução do calendário ritual britânico, "The Easter Hare" de Charles J. Billson , publicado na revista Folklore (1882), e o texto medieval "De Temporum Ratione" de Beda, o Venerável (775), que constitui o primeiro registo histórico da deusa que deu nome à celebração.  

Quem desejar fazer uma investigação mais profunda, sugerem-se as seguintes referências:
  1. Gimbutas, Marija (1982). The Goddesses and Gods of Old Europe. (essencial para compreender os símbolos de fertilidade, como o ovo, na pré-história e na antiguidade).
  2. Hutchinson, Sharon Elswit (2012). The East Easter Egg: A History of Symbols. (explora a transição dos ovos naturais para os ovos artísticos e a sua simbologia religiosa).
  3. Sermon, Richard (2008). From Easter to Ostara: the Reinvention of a Pagan Goddess?. In: Time and Mind. (uma análise crítica e moderna sobre como a figura de Ostara foi interpretada pelos estudiosos do século XIX, como os Irmãos Grimm).

sábado, 4 de abril de 2026

Jesse Madigan - Time Falls


In front of the ocean
You were holding on his hands
Mountains of hands
And it took you so high

Wherever you were going
Once again
You could see the sky
You can see the sky

Time falls
And you can see
You can see the sky

A canção "Time Falls", de Jesse Madigan, é a 10ª canção do renomeado álbum Soft Room for Movement (2022). É uma meditação sonora sobre a transitoriedade da vida e a forma como nos situamos perante a imensidão do mundo. Através de uma sonoridade minimalista e carregada de reverberação, a letra evoca imagens de elementos naturais grandiosos, como o oceano e as montanhas, que servem de pano de fundo para uma memória de ligação humana. Ao mencionar o ato de segurar as mãos de alguém, Madigan sugere uma tentativa de ancoragem num momento que, inevitavelmente, se dissolve.

O conceito central de "o tempo cai" funciona como uma metáfora para a fluidez da existência; o tempo não é algo que controlamos, mas sim algo que nos atravessa e nos rodeia, tal como a água de uma cascata. Existe um sentimento de desapego e de clareza que surge à medida que a canção avança: a repetição da frase sobre "poder ver o céu" indica que, ao aceitarmos a passagem do tempo e a perda do que é efémero, ganhamos uma nova perspetiva, mais ampla e pacífica. No fundo, a canção é um convite à contemplação e à aceitação da nostalgia, transformando a melancolia de um momento que passou numa sensação de liberdade e de quietude espiritual.

Paraísos fiscais globais "alimentam a desigualdade" enquanto os países ricos bloqueiam reformas da ONU

Uma década depois do Panama Papers, os 0,1% mais ricos da Terra escondem mais de 2,8 biliões de dólares em contas offshore para evitar o pagamento de impostos, concluiu um relatório da Oxfam International. Só esse dinheiro representa mais riqueza do que a detida por toda a metade mais pobre da humanidade, ou seja, mais de 4,1 mil milhões de pessoas.

Ilhas Caimão

De acordo com o relatório publicado na terça-feira, a economia global continua a perder centenas de milhares de milhões de dólares todos os anos devido ao abuso fiscal transfronteiriço — uma perda de receitas que os especialistas afirmam estar a alimentar a desigualdade extrema e a privar os governos de recursos necessários para combater a crise climática e financiar serviços públicos.

Em conjunto com o relatório The State of Tax Justice 2024, publicado pela Tax Justice Network (TJN), estima que os países perderão 4,8 biliões de dólares em receitas fiscais nos próximos dez anos se as tendências atuais se mantiverem.

"O abuso fiscal global não é um desastre natural, mas uma escolha política", afirmou Liz Nelson, diretora da TJN. "Os governos têm o poder de acabar com esta injustiça, mas os países ricos continuam a proteger os interesses dos abusadores fiscais em vez dos seus próprios cidadãos."

O relatório destaca que os países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) — frequentemente descrita como o "clube dos países ricos" — são responsáveis pela maior parte das perdas fiscais mundiais. Segundo a análise, os países da OCDE e as suas dependências facilitam a maioria do abuso fiscal corporativo global, enquanto os países de baixo rendimento continuam a ser os mais afetados proporcionalmente.

Durante décadas, a OCDE liderou as negociações sobre as regras fiscais globais. No entanto, o relatório da TJN argumenta que estas regras foram concebidas para beneficiar as multinacionais e os países ricos, deixando o resto do mundo de fora.

O relatório surge num momento em que cresce o impulso para a criação de uma Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Cooperação Fiscal Internacional. No ano passado, os países votaram esmagadoramente a favor de levar as negociações fiscais para a ONU, desafiando a oposição de grandes economias como os EUA e o Reino Unido.

"A transferência da liderança das regras fiscais da OCDE para a ONU é o passo mais importante que podemos dar para acabar com a era dos paraísos fiscais", disse Alex Cobham, diretor executivo da Tax Justice Network.

A Common Dreams reportou que a erosão da base tributária obriga os governos a depender de impostos sobre o consumo, que prejudicam desproporcionalmente os pobres, enquanto as multinacionais ganham uma vantagem competitiva injusta sobre os negócios locais. O relatório conclui com um apelo urgente para que os países apoiem o processo da ONU para garantir que os impostos sejam pagos onde a atividade económica real ocorre.

Miranda Sarmento quer taxar lucros extraordinários das empresas


Numa carta conjunta enviada este sábado à Comissão Europeia, o ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, defende a aplicação de uma taxa sobre os lucros extraordinários que as empresas de energia estão a ter com o conflito no Médio Oriente, também conhecidos como “lucros caídos do céu” (windfall profits).

De acordo com a Reuters, a carta é assinada pelos ministros das Finanças de Portugal, Itália, Espanha e Áustria e defende que “dadas as atuais distorções de mercado e restrições fiscais, a Comissão Europeia deve desenvolver rapidamente um instrumento de contribuição semelhante para toda a União Europeia, com uma base jurídica sólida.”

A guerra no Médio Oriente tem provocado um aumento significativo dos preços do petróleo e do gás e o grupo de responsáveis pela pasta das Finanças nos seus respetivos países considera que uma taxa “enviaria uma mensagem clara de que aqueles que lucram com as consequências da guerra devem fazer a sua parte para aliviar o fardo sobre o público em geral”.

A carta dirigida ao comissário europeu para o Clima, Wopke Hoekstra, não traz mais detalhes sobre a taxa que consideram ter de ser aplicada. Em setembro de 2022, para responder à crise energética que se seguiu à invasão da Ucrânia pela Rússia, a União Europeia chegou a acordo sobre um novo pacote de emergência que incluiu um imposto de 33% sobre os lucros excessivos das empresas de energia, uma contribuição que os líderes europeus queriam usar para financiar medidas para as famílias mais vulneráveis atingidas pela crise.

O regulamento europeu cingia-se, na altura, ao setor energético, mas o Governo português, então liderado pelo socialista António Costa, acabou por estender a contribuição temporária também à grande distribuição alimentar. Costa referiu-se a esta medida como um “esforço de solidariedade adicional”, fazendo c0m que os “eventuais lucros excedentários possam ser canalizados para apoiar a população mais desfavorecida”.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

U2 - Easter Parade


A canção apresentada no vídeo é uma versão de "Easter Parade", um tema original da banda escocesa The Blue Nile, interpretado aqui pelos U2. No que toca ao estilo musical, esta peça afasta-se do rock de estádio mais convencional da banda irlandesa para mergulhar no Sophisti-pop e no Art Pop.

Trata-se de uma composição minimalista e atmosférica, onde impera uma sonoridade polida e elegante, muito característica da produção de finais dos anos 80 e início dos 90. A faixa assenta numa estrutura de Ambient Pop, privilegiando texturas suaves de piano e sintetizadores que criam uma envolvência etérea e quase hipnótica.

Do ponto de vista interpretativo, a música funciona como uma balada contemplativa. A voz de Bono assume um tom mais contido e vulnerável, focando-se na carga emocional e espiritual da letra. A presença de elementos litúrgicos, como a repetição da expressão grega "Kyrie Eleison" (Senhor, tende piedade) na secção final, reforça o carácter solene e devocional da obra, transformando-a numa espécie de hino moderno de cariz espiritual.

Havia mais presos políticos depois do 25 de Abril do que antes?


Durante a cerimónia dos 50 anos da Constituição, no Parlamento, André Ventura disse que houve mais cidadãos presos no pós-25 de Abril do que antes da Revolução. A frase gerou reação, com os constituintes convidados para a sessão a levantarem-se em protesto, abandonando a sala. Os dados batem certo? A SIC Verifica.

O discurso do líder do Chega agitou as bancadas e gerou reações e indignação. Alguns dos deputados constituintes presentes na sessão solene desta quinta-feira, comemorativa do 50.º aniversário da Constituição - entre os quais Helena Roseta e Jerónimo de Sousa - abandonaram as galerias do Parlamento durante a intervenção do líder do Chega, regressando após o fim do seu discurso.

André Ventura disse que houve cidadãos que, "já com esta Constituição ou à beira desta Constituição, já após a revolução ou perto da revolução, [que] foram presos sem mandato, foram mortos em atentados das FP-25".

Pedindo desculpa pela "falta de cortesia", Ventura foi mais longe e perguntou "o que dirão as gerações futuras" quando souberem que "um Parlamento amnistiou um grupo terrorista de esquerda que tinha na sua lista mortes de bebés, seres humanos, casais, às mãos da extrema-esquerda".

Depois, a frase que espoletou o abandono da sala:
"Pouco tempo depois do 25 de Abril, havia mais presos políticos do que havia antes do 25 de Abril de 1974, essa é a verdade", garantiu.

Mas... será mesmo?
Num livro escrito por João Menino Vargas, antigo Capitão de Abril que morreu em 2025, dá-se conta de que o regime deposto pelo 25 de Abril tinha quase 4.400 prisioneiros políticos, 127 dos quais em Portugal continental e os restantes nas colónias, à data da Revolução. Com maior precisão, o site da Comissão Comemorativa 50 Anos do 25 de Abril, aponta 128 "oposicionistas" libertados das prisões de Caxias e Peniche, e 4.249 presos políticos nas colónias.

Além disso, a historiadora Irene Flunser Pimentel contabilizou mais de 12 mil presos políticos durante a ditadura, mas estima que, no total, possam ser mais de 30 mil os presos durante esse período.

O SIC Verifica falou com Irene Flunser Pimentel, que desmontou a narrativa:
"É uma ideia falsa, é uma narrativa da extrema-direita e de alguma direita e que, no fundo, é para se ignorar que vivemos em ditadura até ao dia 25 de Abril de 74".

"Eu estudei na Torre do Tombo, não vejo esses historiadores, alguns até são historiadores, mas políticos, deputados, nunca os vi na Torre do Tombo, a ver os arquivos da PIDE, e eu estive seis meses só para contabilizar os presos de 45 a 74. [Estamos a falar de] 12.800 e qualquer coisa", explica a historiadora, acrescentando que esta contabilização não conta com todos os estrangeiros presos ou imigrantes.

Mas, além destes quase 13 mil, Irene Pimentel lembra que em "1933, quando foi formada a primeira polícia política desta ditadura, porque já havia anteriores - a PVDE - eram muitos mais".
"Estão contabilizados, em várias fases, 30 mil, 40 mil [presos políticos]", dá conta a historiadora.

E no pós-25 de Abril?
No dia em que se deu a Revolução, a polícia política portuguesa, PIDE/DGS, teria cerca de três mil agentes e 20 mil informadores que começaram a ser detidos nos dias e semanas a seguir à revolução e ao longo de mais de um ano em que viveram sem qualquer acusação formal.

Em julho, num comunicado, os SCE da PIDE/LP informavam que se encontravam presos mil ex-agentes da PIDE-DGS. Mais tarde, em dezembro de 1976, havia registo de 118 presos por envolvimento no 25 de Novembro, estes seriam libertados no mesmo ano.

Irene Flunser Pimentel explica aqueles que foram detidos nos dias que se seguiram ao 25 de Abril foram elementos da PIDE.
"Os únicos mortos do 25 de Abril foram quatro portugueses que foram fuzilados pela PIDE/DGS na rua António Maria Cardoso às 8 horas de dia 25 de Abril. Portanto, são os únicos mortos. E 45 feridos. A partir daí era impossível, porque não estava no programa prender os elementos da PIDE, mas eles praticaram crimes até ao fim. E, portanto, começaram a ser presos aqueles que estavam na rua António Maria Cardoso a tentar defender aquela sede e, depois, ao longo dos meses, muitos informadores e outros elementos da PIDE, aqueles todos que não fugiram. Portanto, estes são os presos políticos [do pós-25 de Abril]", afirma a historiadora.

Até 1986 foram pronunciadas 2.755 sentenças aplicadas a elementos da PIDE/DGS. O número distancia-se dos quase 4.400 prisioneiros políticos de 74 e dos mais de 30 mil durante todo o período em que o país viveu em ditadura.

Destes, "uns estiveram [presos] seis meses, outros estiveram um pouco mais, os maiores torturadores ficaram mais tempo", mas "não houve julgamentos destas pessoas" porque só com a Constituição se criou o aparelho judicial e este estipulava que "nunca mais iria haver julgamentos políticos".

André Ventura provocou indignação ao afirmar que havia mais presos políticos após o 25 de Abril do que durante a ditadura. No entanto, a narrativa é falsa, como confirma a historiadora Irene Pimentel. A ditadura teve cerca de 30 mil presos políticos e em 1974 foram identificados perto de 4.400 presos políticos em Portugal e nas colónias. No pós-Revolução foram detidos principalmente ex-agentes da PIDE, num número significativamente inferior.

Clara Mattei: capitalism is not natural - it’s enforced


Nascida em 1988, Clara Mattei é mestre em Filosofia e doutorada em Economia. Foi membro da School of Social Sciences no Institute for Advanced Studies de Princeton entre 2018 e 2019. Autora de artigos premiados pela History of Economics Society e pela European Society for History of Economic Thought, publica também artigos não académicos em publicações como The Guardian, Jacobin, The Nation e Il Fatto Quotidiano. Atualmente é professora auxiliar do Departamento de Economia da New School for Social Research em Nova Iorque.
É mentora do projecto FREE - Forum for  Real Economic Emancipation

Site: Clara Mattei

Pensamento de Clara Mattei
Clara Mattei defende uma visão provocadora e profundamente crítica sobre a relação entre o capitalismo e a geopolítica, argumentando que a economia não é uma ciência neutra, mas sim uma ferramenta de poder. No centro do seu pensamento está o conceito de austeridade, que ela não define como uma resposta técnica a crises de dívida, mas como um projeto político deliberado para salvaguardar a ordem capitalista. Segundo a economista, sempre que o sistema se sente ameaçado por movimentos sociais ou exigências democráticas que reivindicam uma maior partilha da riqueza, as elites políticas e financeiras accionam mecanismos de austeridade - como o corte em serviços públicos, a precarização do trabalho e o aumento das taxas de juro - para disciplinar a classe trabalhadora e reafirmar a primazia do capital sobre a vida humana.

No plano da geopolítica, Mattei observa que esta lógica de austeridade é exportada e imposta globalmente através de instituições tecnocráticas que operam fora do controlo democrático. Ela analisa como o sistema internacional está desenhado para isolar as decisões económicas da vontade popular, criando uma espécie de "blindagem" que impede os Estados de adoptarem políticas alternativas. Para a autora, a geopolítica contemporânea é marcada por uma competição constante entre nações para atrair investimento, o que resulta numa pressão descendente sobre os direitos sociais e salários, transformando governos em gestores de um mercado global em vez de representantes dos seus cidadãos. Mattei vai ainda mais longe ao traçar paralelos históricos, demonstrando como, no pós-Primeira Guerra Mundial, economistas liberais e regimes autoritários colaboraram para impor a austeridade, revelando que o capitalismo, quando em crise, prefere muitas vezes a estabilidade de mercados "disciplinados" em detrimento da verdadeira democracia. Em suma, para Clara Mattei, a geopolítica do capital é uma estratégia de manutenção de classe que utiliza a escassez artificial e a insegurança económica como formas de controlo social permanente.

Mattei defende que o maior sucesso do capitalismo moderno é convencer as populações de que "não há alternativa" (o famoso TINA de Margaret Thatcher). Em termos geopolíticos, isso se traduz  num mundo onde os Estados competem para ver quem oferece o ambiente mais "amigável" ao mercado, resultando em uma "corrida para o fundo" em termos de direitos sociais e salários.


Baseando-se em material de arquivos recém-descoberto na Grã-Bretanha e em Itália, grande parte dele traduzido pela primeira vez, A Ordem do Capital faz um relato novo, lúcido e muito crítico, da promoção da austeridade - e do sistema económico moderno - enquanto alavanca do poder político contemporâneo.

Ao longo de mais de um século, os governos que enfrentavam crises financeiras recorreram a políticas económicas de austeridade - cortes nos salários, nas despesas fiscais e nos benefícios públicos - para garantirem a solvência. Ainda que estas políticas tenham sido bem-sucedidas no apaziguamento dos interesses estrangeiros, tiveram impactes devastadores nas condições sociais e económicas de países de todo o mundo. Atualmente, embora a política da austeridade continue a ser favorecida pelos Estados em dificuldades, uma questão importante permanece sem resposta: e se a solvência nunca foi o verdadeiro objetivo da austeridade?

Em A Ordem do Capital, a economista política Clara E. Mattei investiga as origens intelectuais da austeridade e revela as razões da sua existência: a proteção do capital - e, na realidade, do capitalismo - em épocas de agitação social.

«Uma história fascinante da ascensão das políticas de austeridade no mundo do pós-Primeira Guerra Mundial e do modo como facilitaram o caminho para o fascismo – juntamente com muitas das políticas económicas atuais. Uma leitura obrigatória, com lições cruciais para o futuro. História da economia política no seu melhor.»
Thomas Piketty, economista, autor de O Capital no Século XXI

«Este livro de Clara Mattei é um contributo importante para a construção de uma nova narrativa económica. Num momento em que a inflação está em alta e os governos se inclinam para, uma vez mais, pedirem aos cidadãos “que apertem o cinto” este livro é mais relevante do que nunca.»
Mariana Mazzucato, economista, autora de O Valor de Tudo

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Laibach - Musick (feat. Wiyaala)


Musick
(feat. Wiyaala)

(Intro: Wiyaala)
Aha, yeah!
We’re gonna play some musick!

(Verso 1: Wiyaala)
You wake up and it’s there
In the water, in the air
Streaming through your very veins
Dulling all your daily pains
It’s a virus, it’s a cure
It’s the only thing that’s pure
From the cradle to the grave
Everyone is just a slave

(Refrão: Wiyaala & Milan Fras)
Musick!
It’s the rhythm of the heart
Musick!
Tearing everything apart
Musick!
The obsession, the disease
Musick!
Get down on your knees!

(Verso 2: Milan Fras)
Logic is a failing sound
Silence nowhere to be found
Synthesized and digitized
The human soul is advertised
Feed the rhythm, feed the greed
Everything is what you need
The algorithm knows your name
In the hall of sonic shame

(Ponte: Wiyaala)
(Canto em Sissala/Waala)
We dance to the beat of the machine
The loudest sound you’ve ever seen
Can you feel it?
Can you hear it?
It’s taking over your spirit!

(Outro)
Musick...
Musick...
The beat goes on and on and on...
Aha!

A canção "Musick", uma colaboração entre o coletivo esloveno Laibach e a artista ganesa Wiyaala, apresenta-se como uma fusão audaciosa de Eurodance, Industrial e Afropop. Lançada num contexto de exploração da cultura pop globalizada, a faixa marca uma viragem sonora para o grupo, que adota uma estética eletrónica mais vibrante e rítmica, embora mantenha a sua assinatura ideológica sombria e provocadora. Musicalmente, o tema assenta em batidas mecânicas e sintetizadores acelerados, típicos das pistas de dança europeias, que contrastam de forma fascinante com a energia orgânica, os ritmos tribais e o alcance vocal potente de Wiyaala.

No que toca ao significado, a obra funciona como uma crítica mordaz à omnipresença da música na era digital e ao domínio dos algoritmos. O Laibach utiliza a letra para descrever a música não como uma forma de arte sublime, mas como uma patologia, um vício ou um vírus que infeta a sociedade contemporânea. Não temos mais silêncio; a música nos persegue no supermercado, nos fones de ouvido e nas redes sociais. Através do contraste entre a voz profunda e autoritária de Milan Fras e o entusiasmo visceral de Wiyaala, a canção sugere que o ser humano se tornou um "escravo do ritmo", onde a música é utilizada pela indústria para preencher o silêncio e comercializar a alma humana. Em suma, acanção aponta que a música se tornou um produto de consumo rápido ("The human soul is advertised"), perdendo seu caráter sagrado para se tornar uma "doença" da qual não queremos ser curados.

Jason Hickel: “Os ricos estão a conduzir-nos para a destruição e não se importam”


Learn more about Jason Hickel and his work.
Check out Global Inequality to view Jason’s recent project (created in collaboration with a team of fellow researchers) which visualizes data and research on global inequality.

O Colapso Anunciado e a Ilusão do Crescimento
Na sua intervenção, Jason Hickel apresenta uma crítica mordaz à estrutura do capitalismo contemporâneo. O argumento central é que vivemos num sistema que exige o crescimento infinito do PIB para manter a estabilidade social e financeira. No entanto, Hickel recorda que vivemos num planeta com limites biofísicos finitos. Para o antropólogo, a ideia de que podemos continuar a crescer economicamente enquanto "desligamos" esse crescimento do impacto ambiental — o chamado "Crescimento Verde" — não passa de uma fantasia perigosa.

A Responsabilidade da Classe Alta
O título da entrevista, que refere que "os ricos não se importam", prende-se com a análise da pegada ecológica das elites. Hickel argumenta que a classe ultra-rica e as grandes corporações são os principais motores da destruição, não apenas pelo seu consumo ostensivo (como jatos privados), mas sobretudo pelo controlo que exercem sobre os investimentos e a política. Ele defende que este grupo continua a investir na expansão de combustíveis fósseis e na extração de recursos porque o lucro imediato sobrepõe-se à sobrevivência civilizacional a longo prazo.

O Decrescimento como Solução
A alternativa proposta por Hickel é o Decrescimento. Ao contrário do senso comum, ele esclarece que o decrescimento não é uma recessão (que é um colapso caótico de uma economia dependente de crescimento). O decrescimento é uma redução planeada do uso de energia e de recursos no Norte Global, com o objetivo de alinhar a economia com os limites do planeta e, simultaneamente, melhorar a vida das pessoas.

As medidas sugeridas passam por:
1. Abolir indústrias inúteis: reduzir setores que não contribuem para o bem-estar humano, como o marketing agressivo, o armamento ou a obsolescência programada.

2.Redistribuição radical: Tributar as grandes fortunas para financiar serviços públicos universais (saúde, educação, transportes).

3.Garantia de Emprego: assegurar que a transição para uma economia menor não gera desemprego, mas sim uma redução da carga horária de trabalho, permitindo mais tempo livre e partilha de tarefas.

A Urgência Política
Hickel conclui que a tecnologia, por si só, não nos salvará. Embora as energias renováveis sejam fundamentais, elas não conseguem substituir a escala atual de consumo material do Norte Global. A solução é, portanto, política e de classe: é necessário retirar o poder de decisão das mãos de uma elite que beneficia com a destruição e democratizar a economia para garantir a sobrevivência da biosfera.
Fonte

Energia em Portugal: porque o nuclear não é (ainda) a resposta


Portugal está numa encruzilhada estratégica na energia: ou hesita perante soluções caras, lentas e controversas, como o nuclear, ou consolida a vantagem competitiva que já tem nas renováveis, tornando o sistema mais robusto e previsível. Neste momento, insistir em discutir centrais nucleares em Portugal é, acima de tudo, uma distração política e financeira face às oportunidades reais que temos ao alcance.

A eletricidade portuguesa é hoje, em larga medida, de origem renovável, com um peso crescente da eólica e da solar e um contributo histórico da hídrica. Isto já nos permite ter períodos prolongados em que a quase totalidade da eletricidade consumida é gerada por fontes limpas, ainda que, numa perspetiva anual, continuemos dependentes de térmicas e de importações. O desafio não está em “inventar” uma nova fonte centralizada de produção, mas em gerir melhor a variabilidade das fontes que já temos – algo que se resolve com redes mais inteligentes, flexibilidade e armazenamento, não com um salto para o nuclear.

Defender o nuclear em Portugal, hoje, é ignorar três fatores decisivos. Primeiro, o custo: construir uma central nuclear exige investimentos gigantescos, prazos de execução muito longos e um compromisso de décadas, num país sem tradição nem cadeia industrial nesse domínio. Segundo, a rigidez: num sistema em rápida transformação, uma tecnologia pesada, centralizada e pouco flexível encaixa mal numa rede que caminha para a descentralização e para a gestão ativa da procura. Terceiro, a oportunidade perdida: cada euro canalizado para nuclear é um euro que não é investido em mais solar, mais eólica, mais eficiência, mais armazenamento e em reforço de rede, onde temos retorno mais rápido, impacto ambiental mais positivo e alinhamento direto com as metas europeias.

Há quem argumente que, se houver financiamento europeu, o nuclear passa a ser uma opção “a considerar”. Discordo. A existência de fundos não transforma uma má prioridade numa boa decisão. O verdadeiro debate deveria ser: se temos acesso a financiamento europeu e internacional, onde é que esse dinheiro gera mais segurança energética, mais redução de emissões e mais competitividade económica? Em Portugal, a resposta é clara: reforçar renováveis, investir a sério em armazenamento (baterias, bombagem hidroelétrica, hidrogénio verde onde fizer sentido), modernizar a rede e apostar em eficiência. É aí que cada euro conta mais.

A intermitência das renováveis não é um argumento contra elas; é um desafio de engenharia de sistema. Sabemos que o sol não brilha sempre e que o vento não sopra todos os dias, mas também sabemos que já existem tecnologias maduras para armazenar energia e gerir melhor a procura: centrais de bombagem, grandes baterias, soluções de autoconsumo com storage, contratos de flexibilidade com a indústria, redes digitais que antecipam e suavizam picos de consumo. Em vez de usar a intermitência como pretexto para reabrir o dossier nuclear, devíamos usá‑la como catalisador para acelerar a transição tecnológica do sistema elétrico.

A mobilidade elétrica é outro ponto crítico. Multiplicar postos de carregamento e veículos elétricos sem garantir que a energia que os alimenta é renovável e que a rede aguenta essa nova carga é um erro estratégico. Mas, novamente, a resposta está nas renováveis e na gestão da rede: mais produção descentralizada junto dos pontos de consumo, armazenamento local em hubs de carregamento, tarifários inteligentes que deslocam carregamentos para horas de maior produção solar ou eólica. Tudo isto é mais rápido, mais modular e mais adaptável à realidade portuguesa do que um projeto nuclear que, mesmo decidido hoje, só veria eletrões na rede daqui a 15 ou 20 anos.

Adiar o debate nuclear não é ser ingénuo nem ideológico; é ser pragmático.

Num país com recursos renováveis abundantes, escala limitada e finanças públicas pressionadas, faz pouco sentido apostar numa tecnologia cara, lenta, dependente de cadeias externas e que não resolve os desafios imediatos de integração de renováveis e de modernização da rede. O que faz sentido é concentrar esforços onde o retorno é mais rápido e mais certo: sol, vento, água, armazenamento e eficiência.

Portugal já está no grupo da frente da eletricidade limpa. A pior coisa que poderíamos fazer agora era dispersar-nos numa fuga para a frente nuclear que não se ajusta à nossa realidade. O caminho, pelo menos nesta década, é claro: consolidar e aprofundar a aposta nas renováveis, construir um sistema energético resiliente e flexível e usar o debate nuclear, quando muito, como exercício de prospetiva – não como desculpa para adiar decisões que podemos e devemos tomar já.

Armando Alves (1935-2026), um dos criadores do design moderno em Portugal


Armando Alves, um dos integrantes do famoso Grupo Os Quatro Vintes, a partir do qual se dedicou a renovar e a modernizar o design gráfico português, morreu esta terça-feira no Porto, cidade onde fez praticamente toda a sua carreira, deixando um notável legado como docente e praticante das artes gráficas. A notícia foi avançada por Miguel Carvalhais, director da Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto (FBAUP), instituição onde Armando Alves se formou e onde leccionou durante anos.

Nascido em Estremoz, em 1935, Armando José Ruivo Alves iniciou a sua formação artística na Escola de Artes Decorativas António Arroio e prosseguiu estudos de Pintura na Escola Superior de Belas Artes do Porto (ESBAP), onde concluiu o curso em 1962 com a classificação máxima de vinte valores.

Após a licenciatura, integrou o corpo docente da ESBAP como Professor Assistente, sendo pioneiro na introdução do ensino das Artes Gráficas. Em 1963, foi um dos fundadores da Cooperativa Árvore, estrutura fundamental na promoção das artes plásticas em Portugal.

Bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, viajou por vários países europeus nos anos 60, iniciando então a sua atividade expositiva individual. Em 1968, juntamente com Ângelo de Sousa, José Rodrigues e Jorge Pinheiro, fundou o grupo Os Quatro Vintes, que expôs em cidades como Porto, Lisboa e Paris até ao final da década de 1970.

A partir de 1973, dedicou-se integralmente às Artes Gráficas, área em que se afirmou como pioneiro e referência nacional. No seu atelier, situado na Rua Brito Capelo, desenvolveu uma vasta produção que incluiu direção gráfica de obras literárias, cartazes culturais e publicitários, bem como materiais para eventos diversos.

Armando Alves esteve também ligado ao Lugar do Desenho - Fundação Júlio Resende, desde a sua criação em 1993, participando em exposições internacionais entre 1997 e 1999, nomeadamente no Brasil, Chile, Cabo Verde e Moçambique.

Enquanto ilustrador, artista gráfico, desenhador e pintor - com uma evolução do neorrealismo para o abstracionismo - desempenhou ainda funções como consultor artístico e curador. A sua obra integra coleções de várias instituições, como a Câmara Municipal de Matosinhos e o Museu Nacional Soares dos Reis.

Ao longo da sua carreira, foi distinguido com diversos prémios e reconhecimentos, destacando-se a condecoração com o grau de Grande Oficial da Ordem do Mérito, atribuída pelo então Presidente da República Aníbal Cavaco Silva, nas comemorações do 10 de Junho de 2006, realizadas na Alfândega do Porto.