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quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

O que John Clauser diz está errado. Travemos a desinformação climática e os negacionistas climáticos


Diz assim o texto no facebook
J𝐎𝐇𝐍 𝐂𝐋𝐀𝐔𝐒𝐄𝐑, 𝐕𝐄𝐍𝐂𝐄𝐃𝐎𝐑 𝐃𝐎 𝐏𝐑𝐄̂𝐌𝐈𝐎 𝐍𝐎𝐁𝐄𝐋 𝐃𝐄 𝐅𝐈́𝐒𝐈𝐂𝐀 𝐃𝐄 𝟐𝟎𝟐𝟐: 
“𝑃𝑜𝑠𝑠𝑜 𝑎𝑓𝑖𝑟𝑚𝑎𝑟 𝑐𝑜𝑚 𝑚𝑢𝑖𝑡𝑎 𝑐𝑜𝑛𝑓𝑖𝑎𝑛𝑐̧𝑎 𝑞𝑢𝑒 𝑁𝐴̃𝑂 𝑒𝑥𝑖𝑠𝑡𝑒 𝑒𝑚𝑒𝑟𝑔𝑒̂𝑛𝑐𝑖𝑎 𝑐𝑙𝑖𝑚𝑎́𝑡𝑖𝑐𝑎”.
“... 𝑃𝑜𝑟 𝑚𝑎𝑖𝑠 𝑞𝑢𝑒 𝑖𝑠𝑠𝑜 𝑝𝑜𝑠𝑠𝑎 𝑖𝑛𝑐𝑜𝑚𝑜𝑑𝑎𝑟 𝑚𝑢𝑖𝑡𝑎𝑠 𝑝𝑒𝑠𝑠𝑜𝑎𝑠, 𝑎 𝑚𝑖𝑛ℎ𝑎 𝑚𝑒𝑛𝑠𝑎𝑔𝑒𝑚 𝑒́ 𝑞𝑢𝑒 𝑜 𝑝𝑙𝑎𝑛𝑒𝑡𝑎 𝑁𝐴̃𝑂 𝑒𝑠𝑡𝑎́ 𝑒𝑚 𝑝𝑒𝑟𝑖𝑔𝑜. … 𝑂 𝐶𝑂2 𝑎𝑡𝑚𝑜𝑠𝑓𝑒́𝑟𝑖𝑐𝑜 𝑒 𝑜 𝑚𝑒𝑡𝑎𝑛𝑜 𝑡𝑒̂𝑚 𝑢𝑚 𝑒𝑓𝑒𝑖𝑡𝑜 𝑖𝑛𝑠𝑖𝑔𝑛𝑖𝑓𝑖𝑐𝑎𝑛𝑡𝑒 𝑛𝑜 𝑐𝑙𝑖𝑚𝑎.
𝐴𝑡𝑒́ 𝑎𝑔𝑜𝑟𝑎, 𝑖𝑑𝑒𝑛𝑡𝑖𝑓𝑖𝑐𝑎́𝑚𝑜𝑠 𝑡𝑜𝑡𝑎𝑙𝑚𝑒𝑛𝑡𝑒 𝑚𝑎𝑙 𝑞𝑢𝑎𝑙 𝑒́ 𝑜 𝑝𝑟𝑜𝑐𝑒𝑠𝑠𝑜 𝑑𝑜𝑚𝑖𝑛𝑎𝑛𝑡𝑒 𝑛𝑜 𝑐𝑜𝑛𝑡𝑟𝑜𝑙𝑜 𝑑𝑜 𝑐𝑙𝑖𝑚𝑎, 𝑒 𝑡𝑜𝑑𝑜𝑠 𝑜𝑠 𝑣𝑎́𝑟𝑖𝑜𝑠 𝑚𝑜𝑑𝑒𝑙𝑜𝑠 𝑏𝑎𝑠𝑒𝑖𝑎𝑚-𝑠𝑒 𝑒𝑚 𝑓𝑖́𝑠𝑖𝑐𝑎 𝑖𝑛𝑐𝑜𝑚𝑝𝑙𝑒𝑡𝑎 𝑒 𝑖𝑛𝑐𝑜𝑟𝑟𝑒𝑐𝑡𝑎.
𝑂 𝑝𝑟𝑜𝑐𝑒𝑠𝑠𝑜 𝑑𝑜𝑚𝑖𝑛𝑎𝑛𝑡𝑒 𝑒́ “𝑜 𝑚𝑒𝑐𝑎𝑛𝑖𝑠𝑚𝑜 𝑑𝑜 𝑡𝑒𝑟𝑚𝑜𝑠𝑡𝑎𝑡𝑜 𝑑𝑒 𝑟𝑒𝑓𝑙𝑒𝑥𝑖𝑣𝑖𝑑𝑎𝑑𝑒 𝑑𝑎 𝑛𝑢𝑣𝑒𝑚-𝑙𝑢𝑧 𝑠𝑜𝑙𝑎𝑟.
𝐴𝑠 𝑛𝑢𝑣𝑒𝑛𝑠 𝑠𝑎̃𝑜 𝑡𝑜𝑑𝑎𝑠 𝑏𝑟𝑎𝑛𝑐𝑎𝑠 𝑒 𝑏𝑟𝑖𝑙ℎ𝑎𝑛𝑡𝑒𝑠 𝑒 𝑟𝑒𝑓𝑙𝑒𝑡𝑒𝑚 90% 𝑑𝑎 𝑙𝑢𝑧 𝑠𝑜𝑙𝑎𝑟 𝑑𝑒 𝑣𝑜𝑙𝑡𝑎 𝑎𝑜 𝑒𝑠𝑝𝑎𝑐̧𝑜, 𝑡𝑜𝑟𝑛𝑎𝑛𝑑𝑜-𝑎𝑠 𝑜 𝑎𝑠𝑝𝑒𝑐𝑡𝑜 𝑚𝑎𝑖𝑠 𝑐𝑟𝑢𝑐𝑖𝑎𝑙, 𝑝𝑜𝑟𝑒́𝑚 𝑚𝑎𝑖𝑠 𝑛𝑒𝑔𝑙𝑖𝑔𝑒𝑛𝑐𝑖𝑎𝑑𝑜, 𝑑𝑜 𝑠𝑖𝑠𝑡𝑒𝑚𝑎 𝑐𝑙𝑖𝑚𝑎́𝑡𝑖𝑐𝑜.
𝐷𝑜𝑖𝑠 𝑡𝑒𝑟𝑐̧𝑜𝑠 𝑑𝑎 𝑇𝑒𝑟𝑟𝑎 𝑠𝑎̃𝑜 𝑜𝑐𝑒𝑎𝑛𝑜𝑠. 𝑆𝑜́ 𝑜 𝑂𝑐𝑒𝑎𝑛𝑜 𝑃𝑎𝑐𝑖́𝑓𝑖𝑐𝑜 𝑟𝑒𝑝𝑟𝑒𝑠𝑒𝑛𝑡𝑎 𝑚𝑒𝑡𝑎𝑑𝑒 𝑑𝑎 𝑇𝑒𝑟𝑟𝑎.
𝐴 𝑐𝑜𝑏𝑒𝑟𝑡𝑢𝑟𝑎 𝑚𝑒́𝑑𝑖𝑎 𝑑𝑒 𝑛𝑢𝑣𝑒𝑛𝑠 𝑛𝑎 𝑇𝑒𝑟𝑟𝑎 𝑒́ 𝑑𝑒 67%; 𝑐𝑒𝑟𝑐𝑎 𝑑𝑒 50% 𝑠𝑜𝑏𝑟𝑒 𝑎 𝑡𝑒𝑟𝑟𝑎 𝑒 75% 𝑠𝑜𝑏𝑟𝑒 𝑜𝑠 𝑜𝑐𝑒𝑎𝑛𝑜𝑠.
𝐴𝑓𝑖𝑟𝑚𝑜 𝑞𝑢𝑒 𝑎𝑠 𝑝𝑟𝑜𝑝𝑟𝑖𝑒𝑑𝑎𝑑𝑒𝑠 𝑐𝑜𝑛𝑠𝑝𝑖́𝑐𝑢𝑎𝑠 𝑑𝑎𝑠 𝑛𝑢𝑣𝑒𝑛𝑠 𝑠𝑎̃𝑜 𝑎 𝑝𝑎𝑟𝑡𝑒 𝑞𝑢𝑒 𝑓𝑎𝑙𝑡𝑎 𝑛𝑜 𝑞𝑢𝑒𝑏𝑟𝑎-𝑐𝑎𝑏𝑒𝑐̧𝑎.
𝑷𝒐𝒔𝒔𝒐 𝒂𝒇𝒊𝒓𝒎𝒂𝒓 𝒄𝒐𝒎 𝒎𝒖𝒊𝒕𝒂 𝒄𝒐𝒏𝒇𝒊𝒂𝒏𝒄̧𝒂 𝒒𝒖𝒆 𝒏𝒂̃𝒐 𝒉𝒂́ 𝒆𝒎𝒆𝒓𝒈𝒆̂𝒏𝒄𝒊𝒂 𝒄𝒍𝒊𝒎𝒂́𝒕𝒊𝒄𝒂”.

O que John Clauser diz está errado. Não tem um artigo de revisão entre pares em questões de alterações climáticas e ainda: Anton Zeilinger, que venceu o Nobel com ele, afirma categoricamente, que Clauser não é um perito em alterações climáticas. 

Robin Monotti não tem credibilidade! A desinformação tem que ser travada. E mais, este negacionismo radical existe entre os membros dos partidos Chega e Iniciativa Liberal.

Aqui as respostas ao texto de Clauser, por 2 cientistas do clima, que estudam há anos esta questão:

1. Michael Mann, cientista climático da Universidade da Pensilvânia, disse que o argumento é “puro lixo” e “pseudociência”.
A “melhor evidência disponível” mostra que as nuvens realmente têm um efeito líquido de aquecimento, disse Mann por e-mail. “Em física, chamamos isso de ‘erro de sinal’ – é o tipo de erro que um calouro tem vergonha de ser apanhado ao cometê-lo”, disse ele.

2. Andrew Dessler, professor de ciências atmosféricas na Texas A&M University, concorda.
“As nuvens amplificam o aquecimento”, disse Dessler num e-mail, acrescentando: “A comunidade científica passou o último século a estudar [as alterações climáticas] e, neste momento, praticamente tudo o que está a acontecer foi previsto. John Clauser e sua turma ignoram isso porque não estão apresentando críticas científicas sérias.”

Se seguirem o link do realizador italiano na rede X vão dar de caras com a rede Deposit of Faith Coalition, ultra-católica, extrema-direita norte-americana. 

Saber mais:

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

I wasn't worried about climate change. Now I am. ECS: Equilibrium Climate Sensitivity


In this video I explain what climate sensitivity is and why it is important. Climate sensitivity is a number that roughly speaking tells us how fast climate change will get worse. A few years ago, after various software improvements, a bunch of climate models began having a much higher climate sensitivity than previously. Climate scientists have come up with reasons for why to ignore this. I think it's a bad idea to ignore this. 
The quiz for this video is here

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

Steven Koonin on The Limitations of Climate Change Models


Steven Koonin reviews the state of climate science, focusing on data trends, climate models, and the uncertainties involved. He highlights issues with climate models, including their high sensitivity and inability to accurately reproduce historical temperature changes, cautioning against relying on inaccurate model projections.

To learn more about the Hoover Summer Policy Boot camp

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Extrativismo e soberania na América Latina. Uma conversa entre Eduardo Gudynas, Michael Löwy, Sabrina Fernandes e René Ramírez Gallegos


Uma conversa sobre progressismo e extrativismo, na América Latina, com Sabrina Fernandes, doutora em Sociologia pela Carleton University (Canadá) e editora da Jacobin Brasil, Eduardo Gudynas, pesquisador do Centro Latino-Americano de Ecologia Social (CLAES), Michael Löwy, diretor de pesquisa do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), e René Ramírez Gallegos, economista especializado em políticas públicas sociais, desigualdade, pobreza, que foi secretário de Educação, Ciência e Tecnologia do Equador, durante o governo de Rafael Correa.

A entrevista é de Thea Riofrancos, publicada originalmente por Jacobin América Latina e reproduzida por Observatorio de la crisis.

Eis a entrevista.

Governos progressistas, nas últimas décadas, fizeram alguns avanços importantes em termos de “políticas de soberania”: bancos, gastos públicos, política externa etc. No entanto, em questões socioambientais eles têm sido questionados sob vários ângulos. Talvez a questão mais espinhosa seja que tipo de soberania eles conseguiram —ou tentaram— promover com um modelo econômico centrado na extração e exportação de matérias-primas, ou seja, em uma base produtiva que, como foi apontado, leva mais ao aprofundamento da dependência do que à extensão da soberania. Qual é a sua leitura do tipo de desenvolvimento empreendido durante o chamado “ciclo progressista”?

Michael Löwy: A principal conquista dos governos progressistas girou em torno da redistribuição de renda, com medidas sociais em favor das camadas mais pobres da população. Aqui é preciso distinguir dois tipos de governos progressistas: os “social-liberais” (como Brasil e Uruguai), que desenvolveram uma importante política social, mas sem alterar o modelo neoliberal, e os anti-imperialistas (Venezuela e Bolívia), que enfrentaram a oligarquia e o imperialismo buscando alternativas soberanas. Em ambos os casos, porém, deparamo-nos com um modelo de desenvolvimento baseado na extração e exportação de matérias-primas, o que levou a uma nova forma de dependência do mercado internacional.

Além disso, o extrativismo é negativo sob outros pontos de vista: em primeiro lugar, é contraditório à soberania alimentar, que exige a produção de alimentos para o mercado interno e não produtos para exportação. Em segundo lugar, muitas vezes tem consequências ambientais extremamente negativas para as populações indígenas ou camponesas locais. E terceiro, no caso da extração de combustíveis fósseis – particularmente petróleo -, contribui para o catastrófico processo planetário de mudança climática.

Sem dúvida, os governos progressistas adotaram medidas sociais importantes em termos de redistribuição social. Mas eles não questionaram o modelo econômico capitalista de exportação. É verdade que é difícil para países como Equador, Venezuela ou Bolívia interromper a produção de petróleo ou gás de uma só vez. Mas há medidas intermediárias, como a proposta do Parque Nacional Yasuní promovida pelo governo de Rafael Correa no Equador (embora mais tarde o tenha abandonado): em uma região de florestas altamente biodiversas, deixar o petróleo no subsolo exigindo indenização dos países ricos.

Este projeto foi o símbolo de uma opção radical: preferir a natureza ao mercado, a vida ao lucro. Os países capitalistas industriais não se entusiasmaram com o projeto, não só porque não tem nada a ver com os “mecanismos de mercado” onde têm sua preferência, mas porque temiam o efeito estimulante dessa iniciativa: outros países poderiam apresentar propostas semelhantes.

Eduardo Gudynas: A avaliação das estratégias de desenvolvimento do progressismo está se mostrando não fácil. Dentro dos países são reivindicados, mas ao mesmo tempo são muitos os protagonistas desse ciclo que os atrapalham, seja por sua sincera convicção de ter feito a coisa certa, seja pela intenção de esconder erros. As recentes campanhas eleitorais, por exemplo, na Bolívia e no Equador, as condicionaram ainda mais, porque as energias estavam voltadas para conquistar novamente o governo. Mas a isso se sobrepõe uma rede de opiniões e analistas transnacionalizados, tanto de dentro quanto de fora da América Latina, que abusam de simplificações e slogans.

Por exemplo, você me diz que o progressismo alcançou “políticas de soberania” no setor bancário e noutros setores. Esses tipos de ditados são muito comuns, especialmente no Norte Global. Mas eles estão um pouco errados. Na realidade, sob o progressismo, o banco privado vivia num paraíso: a sua cobertura da população aumentava e a financeirização se diversificava. Isso aconteceu nos governos de Correa no Equador, Lula da Silva no Brasil ou da Frente Ampla no Uruguai, entre outros. Isso explica a bancarização obrigatória no Uruguai ou a expansão da financeirização para setores como consumo popular, educação ou saúde no Brasil.

Na realidade, os progressismos estavam cheios de claro-escuro. Tiveram avanços, estagnações e retrocessos dentro de cada setor. Devemos comemorar que reduziram a pobreza e a marginalidade, porque aliviou milhões de famílias; mas isso não quer dizer que não devamos deixar de reconhecer as limitações que tinham em sua acentuada dependência da ajuda monetária condicionada aos mais pobres ou do crédito para consumo popular. Devemos também parabenizar seus investimentos em infraestrutura, que por exemplo no Equador são evidentes em suas estradas e pontes. Mas, ao mesmo tempo, devemos entender que muito dinheiro foi perdido dentro dos labirintos do Estado, seja por meios legais, mas ineficientes, bem como por corrupção.

Essas contradições se deviam ao fato de que os progressismos —em termos gerais e muito esquemáticos— estavam orientados para uma variedade de capitalismo que buscava capturar uma proporção maior do excedente para tentar a redistribuição económica. Mas ele recorreu a práticas específicas que, como o extrativismo e o consumo de massa, exigiam sua subordinação ao capital. E isso aconteceu de várias formas: blindaram o setor financeiro, aprofundaram a exportação de matérias-primas, atraíram investimentos estrangeiros e aderiram plenamente a instituições globais (como a Organização Mundial do Comércio).

Tal operação se dava por meio de tênues balanças em que os Estados progressistas procuravam, por um lado, regular o capital e, por outro, tinham que ceder a ele. Esses equilíbrios eram instáveis, mas enquanto os preços das commodities eram altos, o excedente apropriado era capaz de sustentar as medidas de compensação e de amortecimento. Quando os preços das commodities caíram, tal coisa deixou de ser possível. E, pior ainda, isso ocorreu ao mesmo tempo em que se exauriu a capacidade de renovação política do progressismo.

René Ramírez Gallegos: A superação do modelo extrativista, e com ele da acumulação como tal, sempre foi o horizonte. Mas o fundamental é não perder a noção de temporalidade: primeiro, porque é um debate que não pode deixar de lado a subjetividade; segundo, porque há reformas do presente e reformas transitórias que apontam para uma mudança quantitativa (como a satisfação de necessidades) e para um salto qualitativo (como a transformação para uma sociedade do «bem viver»).

Nessa perspectiva, é preciso destacar que “outra acumulação” (que inclui a “não acumulação” como horizonte) implica e exige que haja muita acumulação hoje (obviamente, para fins ecossociais). Isso não é algo que uma certa esquerda gosta de ouvir. Mas vivemos dentro do capitalismo e, embora o horizonte seja superá-lo, devemos pensar na “grande transição” para essa “grande transformação estrutural”. Não pensar na ponte temporária é escrever ficção científica.

A opção de transformação social deve ser sustentável ao longo do tempo, pois acumular para benefício social em larga escala leva décadas, mas esbanjar acumulação em benefício de poucos é muito fácil (e assim foi visto ou é visto nos governos neoliberais de Bolsonaro, Macri ou Moreno). A opção que os governos progressistas tinham para essa acumulação eram os recursos naturais. E aqui devemos nos perguntar pelo menos duas coisas: a acumulação obtida com a exploração dos recursos naturais serviu para redistribuição de renda e democratização de direitos? Claramente sim.

Segundo a CEPAL, sob governos progressistas houve uma clara redução da pobreza, da desigualdade e da cobertura dos direitos sociais. Em segundo lugar, cabe perguntar se os recursos obtidos foram utilizados para uma mudança na matriz produtiva (o modo de produção). Do meu ponto de vista, não é suficiente. Em alguns países, a necessidade de tal transformação nem sequer foi discutida.

Independentemente da situação política, todas as economias latino-americanas continuam partilhando certas características centrais: os setores econômicos predominantes são baseados na extração de recursos, agricultura de monocultura e indústria de baixos salários; em termos de emprego, a região é marcada por um grande setor informal, bem como pela prática enraizada de precarização e terceirização, resultando numa classe trabalhadora que trabalha em extrema precariedade sem rede de proteção social; e em termos de inserção no sistema mundial, a região encontra-se em um lugar de dependência caracterizado por exportações de baixo valor agregado, plena integração aos mercados globais e altos níveis de dívida soberana. O que a pandemia e a crise económica revelaram sobre o modelo de acumulação na região? Que abordagem deve orientar a recuperação latino-americana e em que escala ela deve ser concebida e implementada?

Sabrina Fernandes: A pandemia revelou que as classes capitalistas do continente não têm vergonha em seu espírito de maximizar seus lucros quando a população mais pobre vive o risco diário de morrer, seja de fome ou de COVID. Com o aumento da informalidade do emprego e da pobreza, esperamos que as organizações de esquerda em todos os continentes percebam de uma vez por todas que o atual modelo de desenvolvimento nos mantém vulneráveis e que não é possível derrotar a direita sem políticas mais radicais.

Nossa história é uma história de golpes e intervenções imperialistas. A memória do atentado a Salvador Allende, por exemplo, vive como um aviso melancólico de que “não podemos pedir muito”. Esse é um caminho perigoso de aceitação do sistema capitalista. Mas então o que fazer? Primeiro, entenda que a burguesia se fortalece quando pode governar tanto com a direita quanto com a esquerda. O golpe contra o governo de Dilma Rousseff, nesse sentido, foi um golpe duplo: veio de fora (como sabemos, pela influência dos Estados Unidos), mas também de dentro, dos mesmos grupos aliados dos governos de Dilma e de Lula um pouco antes.

Por outro lado, é preciso nos convencer de que os governos de esquerda devem investir muito mais num projeto de mudança ecológica como força de criação de novos empregos, numa rede energética o máximo autónoma possível, bem como em caminhos para uma agricultura agroecológica reformada. Os investimentos devem ser públicos, estaduais ou comunitários: bem diferente dos acordos de fomento, que estimulavam projetos de 20 ou 30 anos de lucro para corporações que nem sequer garantem um bom serviço.

Para que a recuperação nada mais seja do que um novo pacote de estímulos econômicos no capitalismo, as organizações sindicais devem ser incluídas no processo de planejamento, assim como a comunidade de professores e pesquisadores deve opinar sobre mudanças importantes nos conteúdos das universidades e da direção de pesquisa e desenvolvimento tecnológico. E esse investimento com dinheiro público deve incluir também as comunidades, pois elas estão mais aptas a saber se o problema local da fome é melhor resolvido com hortas comunitárias ou com mais comida na escola das crianças.

A crise atual se sobrepõe a várias crises que já estavam em andamento em 2019 e antes. Por sua vez, embora existam semelhanças, as diferenças entre os países também são muito importantes. O que acontece, por exemplo, no Brasil não é o mesmo que acontece no Chile, México ou Colômbia. Após esse alerta, pode-se dizer que diferentes graus de colapso, colapso ou miséria são observados na política e no papel dos governos. Em alguns casos, isso é extremo, como pode ser visto com a inação e o autoritarismo de Jair Bolsonaro no Brasil. Sem atingir esse nível, outras situações também são dramáticas. É o caso, por exemplo, do Peru, onde enquanto os contágios avançavam, a política partidária desmoronava.

Nesse desespero, os governos recorrem novamente ao extrativismo como forma de aliviar a crise econômica. Todos os países sul-americanos, sem exceção, tentam aumentar suas exportações de matérias-primas e ao mesmo tempo agregar novos setores (como a mineração de lítio ou a expansão das monoculturas transgênicas).

René Ramírez Gallegos: A pandemia de COVID-19 exigiu uma mudança radical nos sistemas agroindustriais de alimentos, única forma de reduzir ou eliminar a possibilidade de novas zoonoses. Isso foi alertado há muito tempo pelos movimentos ambientalistas. Da mesma forma, a importância do papel da mulher na reprodução da vida tem feito parte das lutas dos movimentos feministas. Mais ainda: todo o modelo de relação entre o ser humano e a natureza deve ser transformado, pois é o imperativo da acumulação que tem levado à depredação do meio ambiente e aos desequilíbrios ecológicos que permitem a atual pandemia.

Embora a região tenha que consolidar um estado de bem-estar social que coloque o público e o comum antes do privado ou do comercial, conseguir isso não leva à superação dos problemas colocados pela pandemia. Deixar de ser “periferia” e passar a fazer parte do “centro” não é a solução para os países da nossa região. A Europa, sendo o continente com os maiores níveis de bem-estar do mundo, não escapou dos impactos da pandemia. O objetivo deve ser construir alternativas ao desenvolvimento. Porque o desenvolvimento como o conhecemos nos leva a aprofundar a crise sanitária, e esse tipo de ameaça se tornará cada vez mais frequente no mundo.

Além do momento da recuperação, qual é o horizonte político da esquerda? Se entendermos a pandemia do COVID-19 como a primeira grande crise ecológica global, é hora de um paradigma que aborde mais explicitamente as questões entrelaçadas de extração de recursos, danos ecológicos e mudanças climáticas? Em outras palavras, é hora de passar do “socialismo do século 21” para a discussão do ecossocialismo, um novo pacto ecossocial, uma economia democrática verde ou alguma outra formulação? Como você define sua visão de uma alternativa radical ao modelo econômico predominante e como você acha que as conexões fundamentais entre a economia e a natureza poderiam ser articuladas?

Sabrina Fernandes: Vivemos um momento frágil para a esquerda revolucionária, e a direita continua avançando em nosso continente. Não podemos simplesmente esperar o momento da revolução, porque o risco de chegarmos tarde é grande. Um grande pacto ecossocial ou um green new deal, qualquer que seja o nome de um sério projeto de descarbonização enraizado na justiça social, deve fazer parte da construção do ecossocialismo na América Latina.

Mas um pacto não será suficiente, e os ecocapitalistas sabem disso e tentam sequestrar as discussões sobre investimento e as políticas em torno dele. Assim, a tarefa é impulsionar ,medidas de descarbonização focadas no setor público, juntamente com um projeto de autonomia energética e investimento tecnológico. Um novo ciclo progressivo pode ser capaz de fazê-lo. A esquerda mais radical deve partir dessa base para trabalhar a consciência da classe trabalhadora em direção a uma ruptura secular. E só o ecossocialismo apresenta a possibilidade de uma síntese entre os debates do pós-extrativismo, descarbonização, direito à cidade, bem viver, ecofeminismo, soberania e internacionalismo, antirracismo e decrescimento.

René Ramírez Gallegos: Os paradigmas não nascem de grandes think tanks, mas de lutas históricas, de processos democráticos, de resistências criativas. Mas são necessários quadros analíticos para acompanhar e fornecer ferramentas para essas grandes disputas civilizatórias. No Equador, em um movimento constituinte entre 2007 e 2008, surgiu do intelecto social coletivo o pacto social que se denominou “bem viver” ou Sumak Kawsay. Do meu ponto de vista, essa proposta vai além do chamado “socialismo do século XXI” e até do ecossocialismo: é uma proposta nascida de um amplo processo constituinte.

É uma proposta de mudança social epistêmica e é, voltando ao exposto, uma alternativa social ao desenvolvimento. Não veio de nenhuma cabeça, de nenhum think tank. Tem suas raízes em uma frente social antineoliberal que foi canalizada para um processo constituinte, que se nutriu dos saberes ancestrais dos povos indígenas, do feminismo, da economia social e solidária, do ambientalismo, das lutas estudantis, das classes médias, dos pobres, etc. Esse quadro analítico propõe que o conceito de “bem viver” deve ser lido a partir do que está consagrado no pacto de convivência assinado pelos equatorianos na Constituição de 2008. Algo semelhante aconteceu na Bolívia, enquanto se construía um processo constituinte com paradigmas alternativos.

As políticas públicas, é claro, não surgem no vácuo ou são concedidas livremente pelas elites políticas. Os Estados são condensações da luta de classes, e as políticas que decretam refletem o equilíbrio de poder predominante na sociedade em geral. Dadas suas respostas acima, como essa mudança de paradigma poderia ocorrer? Que atores coletivos, forças de classe e movimentos sociais estão preparados para atuar como protagonistas na próxima batalha pelo modelo de recuperação econômica e social, e além? Que alianças e blocos poderiam reunir diferentes grupos em uma força com potencial hegemônico, capaz de transformar o modelo de acumulação vigente?

René Ramírez Gallegos: Um problema grave nessas duas décadas do século XXI é que na América Latina tem havido um processo de desindustrialização com a transição para uma sociedade centrada no setor de serviços, muitas vezes deslocalizada (isso no quadro de uma sociedade heterogênea, informal, com alta níveis de subemprego). Isso torna muito mais complexa a lógica da ação coletiva em torno das lutas pelo trabalho decente.

Há algumas semanas, li um tuíte que, seguindo Chico Mendes, dizia: «ambientalismo sem luta de classes é jardinagem; o feminismo sem luta de classes é a guerra dos sexos; anticolonialismo sem luta de classes é (potencial) fascismo». É claro que a lógica também deve ser lida de trás para frente; ou seja, não se deve pensar em luta social sem luta feminista, ambientalista ou pós-colonial, nem ambientalismo sem luta feminista etc. O que é preciso é a convergência de todas essas lutas sociais. A forma que a convergência assume depende de cada contexto: na Argentina, por exemplo, é liderada por trabalhadores e mulheres; no Equador, agora, pelo movimento indígena. E esses setores terão que se articular com os movimentos políticos que disputam eleitoralmente o Estado.

Michael Löwy: Atualmente, acho que as forças mais ativas na luta por uma mudança de paradigma na América Latina são os jovens, as mulheres, os camponeses e as comunidades indígenas. Movimentos como a Via Campesina têm um papel muito importante, pois procuram associar a luta camponesa pela terra com uma perspectiva ecológica. E as comunidades indígenas estão na linha de frente da luta contra o extrativismo, em defesa das florestas e dos rios. “Água sim, ouro não!” é a palavra de ordem dos camponeses e indígenas do Peru contra a mineração de ouro que envenena os rios. Muitas vezes as mulheres são as mais ativas nessas mobilizações, mesmo à custa de suas próprias vidas, como Berta Cáceres em Honduras.

No entanto, não conseguiremos criar uma força hegemônica capaz de romper com o modelo dominante sem o apoio da classe trabalhadora, do proletariado rural e urbano. Também precisamos incluir intelectuais, artistas, cristãos da libertação e a massa do “pobretariado”, os excluídos do sistema. A tarefa fundamental da esquerda socialista é organizar esse bloco de classes e camadas sociais. E fazendo isso de baixo: nos bairros, nas fábricas, nas escolas, no campo, nas florestas. A partir de demandas concretas e imediatas, como não pagar a dívida externa, reforma agrária, etc., mas tentar impulsionar, no mesmo movimento, uma dinâmica antissistêmica, anticapitalista.

Por fim, diante da possibilidade de um novo superciclo de commodities e com o retorno de vários governos progressistas, que conselho você daria aos governos de esquerda ou centro-esquerda —atuais e futuros— na região? Como devem se orientar em um contexto de crise multidimensional, em que outro boom de commodities pode trazer maior pressão para expandir a fronteira agrícola e extrativista? Como suas economias nacionais poderiam mudar para a transição para energia renovável, maior proteção social, agricultura regenerativa e outras alternativas econômicas ao extrativismo? Essa transição poderia ser financiada? É possível traçar um caminho nessa direção sem a coordenação dos governos do Sul Global para acabar com o regime de dívida e austeridade imposto pelas instituições financeiras?

Sabrina Fernandes: Se não há socialismo em um único país, também não pode haver ecossocialismo, pois reconhece que para a natureza não há fronteiras. Por outro lado, é perigoso para o progressismo ver um novo superciclo de mercadorias como uma janela de possibilidade para mais investimentos nos setores extrativistas, em colaboração com os grandes capitalistas.

Nunca devemos abandonar a luta pela distribuição justa da propriedade da terra e dos direitos originários e tradicionais aos territórios. Os governos de esquerda devem começar corrigindo a enorme desigualdade no acesso à terra se quiserem realmente evitar que o superciclo resulte em maior concentração de riqueza e ativos. E isso também está relacionado à discussão sobre o mercado financeiro e o papel que ele desempenha na garantia de lucros com commodities, quando diferenças de preços e barreiras de concorrência colocam em risco o trabalhador rural.

Mas há outra coisa que precisamos discutir: por que a transição para energia renovável é tão importante. Toda produção de energia em larga escala tem impactos ambientais e sociais. Nossa tarefa é minimizar os impactos atendendo às demandas das comunidades ameaçadas. Não é possível pensar – como algumas das grandes potências econômicas acreditam hoje – que se trata apenas de crescimento e desenvolvimento econômico, mas agora com energias renováveis. Dessa forma, os impactos que o sistema industrial extrativista tem são esquecidos, mesmo quando se trata de investimentos em tecnologia verde.

Para alguns desses governos, a busca por lítio e outros minerais já é vista como uma nova oportunidade de crescimento. Na Bolívia, Luis Arce disse desde sua campanha que aspira fazer do país uma grande energia solar com seu próprio lítio. Declarações como essas não levam em conta os limites do lítio boliviano, as exigências de proteção ambiental na área e o grande desafio da transferência de tecnologia. Explorar o lítio e exportá-lo sem acesso direto à tecnologia não resulta no desenvolvimento verde da Bolívia, mas de outros, seja da União Europeia ou da China.

Michael Löwy: Não existe “receita milagrosa” para sair dos impasses da crise atual. Mas uma coisa é certa: os governos progressistas não tomarão o caminho de uma mudança de paradigma se não houver pressão social e política “de baixo” que os leve a fazê-lo. É por isso que a tarefa prioritária dos ecossocialistas passa pela organização do movimento, pela aliança de classes e grupos sociais interessados em uma mudança radical.

Mas para isso não podemos sentar e esperar que todos os governos do Sul Global se juntem. Com mais um ou dois governos avançados, que servem de exemplo e estimulam outras experiências, já teremos dado um grande passo em direção ao objetivo final: uma agenda latino-americana para uma mudança de paradigma, capaz de criar uma relação de forças no continente nível.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Greve pelo Clima: seis lições de Greta Thunberg



1ª lição - Por cima de qualquer compromisso: Greta Thunberg, de 16 anos, foi diagnosticada com Síndroma de Asperger o que, para a mesma, “foi uma ajuda” para o combate às alterações climáticas. Uma pessoa com 16 anos e Asperger do tipo que tem Greta, exibe ausência de filtros sociais e políticos, que lhe permite ser totalmente exacta e dizer aquilo que é totalmente evidente segundo a Ciência: a economia mundial, subjugando a sociedade global, está a destruir a viabilidade da civilização humana no planeta Terra. Perante este diagnóstico - que é aquele que a Ciência nos dá, não só no último ano, como pelo menos nas últimas duas décadas - a única solução é reagir na medida adequada a um desafio tão radical. Os activistas climáticos durante as últimas décadas estiveram envolvidos em duros combates políticos e sabem da enorme dificuldade que é fazer passar simplesmente aquilo que a Ciência diz, esse diagnóstico radical que é permanente enterrado debaixo da narrativa global do capitalismo fóssil. No final do ano passado o IPCC disse o que era preciso fazer para evitar ultrapassar os 1,5ºC até 2100: cortar as emissões globais de gases com efeito de estufa até 2030. Não há nenhum compromisso possível com capitalismo, pinte-se este de verde ou qualquer outra cor e as soluções transitórias são apenas a garantia do colapso.

2ª Lição - "Keep it in the Ground" e Justiça Climática: a conclusão da primeira lição é a necessidade de mudar a forma como funciona a economia, nomeadamente o facto da mesma ter sido viciada em combustíveis fósseis (incentivando-se todas as economias locais e ligando-se todo a produção e comércio internacional para dependerem de petróleo, gás e carvão) como forma de concentrar dominação e poder. Sabemos pelo menos desde o Acordo de Paris em 2015 que não pode haver quaisquer novos combustíveis fósseis e, apesar disso, ainda temos de andar por todo o mundo - incluindo em Portugal - a lutar contra projectos para exploração de petróleo, gás e carvão, contra infraestruturas para manter esse vício durante mais décadas e contra o resgate da indústria petrolífera à conta da nossa destruição. Como refere Greta, precisamos de “Keep It In The Ground” (mantê-lo debaixo do solo) e de garantir que a transição para um novo sistema de produção tem de ter como prioridade máxima a equidade social e a justiça social. A alternativa a isto é só criar novas áreas de negócio, talvez cortar ligeiramente as emissões para a fotografia, ignorar o mar de sofrimento humano que se vai transformando em tsunami e não travar o colapso climático.

3ª Lição - Isto é uma crise: E não sairemos de nenhuma crise sem a tratarmos como uma crise. A emergência climática é a maior crise que a Humanidade já enfrentou. Pela primeira vez, enquanto espécie, vemos um horizonte claro não só de degradação social e ambiental extrema, mas de agravamento da degradação social e ambiental extrema em que já vivemos, ameaçando irreversivelmente as bases materiais que permitiram a existência de agricultura, de escrita, de civilização. São urgentes acções e consequentes para resolver esta crise, e isso implicará a reconfiguração da nossa relação uns com os outros e com o meio que nos sustenta ou, mantendo-se a actual tendência, o nosso colapso colectivo. A emergência é assumida até por negacionistas climáticos e oportunistas de toda a espécie: o estado de excepção está cada vez mais presente na maneira como se governam as nações e as ameaças autoritárias só se agravam com o aumento de frequência de fenómenos climáticos extremos, catástrofes naturais, migrações em massa e escassez crescente de bens totalmente básicos como a água e os alimentos. Se não tratarmos as alterações climáticas como uma emergência para salvar as pessoas, outros tratá-las-ão como uma excepção para destruir pessoas e comunidades.

4ª Lição - Os 99% estão a ser sacrificados: o capitalismo, o sistema mais plástico e adaptável que já conhecemos, atingiu os seus limites físicos, pelo que para manter o processo de concentração de riqueza depende da destruição do meio ambiente, cujo sintoma mais evidente (mas não único) são as alterações climáticas. Assim, as civilizações humanas estão a ser sacrificadas “pela possibilidade de um número muito pequeno de pessoas poder continuar a ganhar enormes quantidades de dinheiro. A biosfera está a ser sacrificada para que as pessoas ricas possam viver no luxo”. Neste momento de crise climática, a crise da desigualdade produziu a maior concentração de riqueza alguma vez vista. Apesar dos mega-ricos se acharem imunes ao colapso climático e alimentarem ficções científicas acerca de Marte e outras bolhas de protecção, estão totalmente expostos a um novo clima com pouca atenção a distinções sociais. A resposta tem de vir de baixo, dos que estão a ser conscientemente sacrificados.

5ª Lição - Mudar o sistema: “Se as soluções dentro deste sistema são tão impossíveis de encontrar, então talvez tenhamos que mudar o próprio sistema” disse Greta. Nas últimas três décadas, e porque vivemos dentro de uma narrativa capitalista fóssil e de uma hegemonia tecnopositivista, muita gente andou à procura de quadraturas do círculo, de soluções de mercado, de comércios de emissões de gases com efeito de estufa, de taxas de carbono, de emissões negativas, de capturas e armazenamento de carbono, de créditos de offset de carbono, de frotas de carros eléctricos, de Protocolos de Kyoto e, no fim, 2018 foi o ano com maior nível de emissões de gases com efeito de estufa de sempre. O sistema não está desenhado para produzir bens e serviços, muito menos bens e serviços colectivos, não está desenhado para distribuir, mas sim para concentrar. Qualquer boa ideia a que seja aplicada uma ideia de lucro, rentabilidade, mercado e escala, arrisca-se a tornar-se apenas mais um problema - e foi o que vimos com os biocombustíveis, com as barragens, com a biomassa. Em nome do combate às alterações climáticas o capitalismo produziu mais dezenas de novas áreas de negócios - na energia, nos transportes, na agricultura, na floresta, na engenharia financeira - e não produziu nada daquilo precisava produzir, as emissões de gases com efeito de estufa não só não desceram, mas subiram, rumo ao colapso climático. O sistema também produziu a crise climática baseando-se na ideia de crescimento infinito num espaço finito: até hoje a Economia ortodoxa ainda não entendeu a Física e por isso mesmo a hegemonia “só fala de continuar com as mesmas más ideias que nos colocaram neste desastre, mesmo quando a única coisa razoável a fazer é puxar o travão de emergência”. Não existem soluções para as alterações climáticas dentro do quadro do sistema económico actual, pelo que a solução para as alterações climáticas passa por mudar este sistema.

6ª Lição - Não pedir licença: “Não viemos pedir aos líderes que se preocupem. Ignoraram-nos no passado e ignorar-nos-ão de novo”. As elites políticas e económicas já demonstraram amplamente que a realidade lhes é tão-somente mais um artifício para manobrar no exercício do poder, e exaltam a ignorância como virtude sempre que lhes é conveniente, em acções e discursos. Greta colocou a acção muito além do campo formal, não apenas apelando à realização da greve climática como indo aos centros de poder e, mesmo nesse contextos tão intimidatórios, falando a verdade sem filtros. Depois da Cimeira do Clima na Polónia, foi convidada a ir a Davos ao Fórum Económico Mundial e à Comissão Europeia. Ao lado dos homens mais ricos e poderosos do mundo, Greta disse exactamente o mesmo. A sua 1ª lição e a sua condição inflexível são a sua arma poderosa, e uma das armas mais poderosas do movimento pela justiça climática. Naturalmente esta arma será testada em outras geografias: por todo o mundo, políticos e empresários tentarão neutralizar os mais recentes movimentos apresentando-lhes a moderação, a ponderação e o realismo, denunciando a consequência claríssima do que nos diz a Ciência como “radicalismo”. A acção destes políticos e empresários só é decidida e forte quando serve para tentar travar a tempestade política que é a luta pela justiça climática: são agentes do caos climático e civilizacional. As próprias instituições hoje existentes, desde a justiça às grandes estruturas de poder internacionais, como a Organização Mundial de Comércio, o Banco Mundial ou o FMI, passando por parlamentos nacionais e regionais, representam por enquanto muito pouco além da manutenção de uma ordem que está a acabar. “A mudança está a chegar, quer queiram quer não”, e as instituições que não servirem para resgatar a civilização não são só inúteis, são um obstáculo ao resgate da civilização humana. Não há ninguém a quem pedir autorização: nós somos aquelas e aqueles de quem estávamos à espera.

Damos, enquanto civilização, um novo passo em frente com a greve climática estudantil, mas não nos podemos acomodar, por mais retumbante que seja o seu sucesso. É mais um pequeno grande passo, e a tarefa que nos calhou viver enquanto gerações vivas, é modificar tudo na sociedade na economia. Que aprendamos com as lições de Greta que a pulsão para a conformidade é hoje o maior obstáculo ao nosso futuro colectivo e que a desobediência é a arma do futuro.

Fonte: Expresso

terça-feira, 19 de junho de 2018

How scientists estimate ‘climate sensitivity’?


The sensitivity of the Earth’s climate to increases in atmospheric CO2 concentration is a question that sits at the heart of climate science.

Essentially, it dictates how much global temperatures will rise in response to human-caused CO2 emissions, but it is a question that does not yet have a clear answer.

For many years, estimates have put climate sensitivity somewhere between 1.5C and 4.5C of warming for a doubling of pre-industrial CO2 levels. This range has remained stubbornly wide, despite many individual studies claiming to narrow it. However, recent work combining multiple lines of evidence may have helped modestly narrow this range.

Here, Carbon Brief examines studies of climate sensitivity published over the past two decades. These studies use climate models, recent observations and palaeoclimate data from the Earth’s more distant past to estimate climate sensitivity.

While narrowing the range of sensitivity will not change the need for rapid decarbonisation, it may help policymakers fine-tune their plans for the future.

Different types of sensitivity
Climate sensitivity refers to the amount of global surface warming that will occur in response to a doubling of atmospheric CO2 concentrations compared to pre-industrial levels.

CO2 has increased from its pre-industrial level of 280 parts per million (ppm) to around 408 ppm today. Without actions to reduce emissions concentrations are likely to reach 560 ppm – double pre-industrial levels – around the year 2060.

There are three main measures of climate sensitivity that scientists use. The first is equilibrium climate sensitivity (ECS). The Earth’s climate takes time to adjust to changes in CO2 concentration. For example, the extra heat trapped by a doubling of CO2 will take decades to disperse down through the deep ocean. ECS is the amount of warming that will occur once all these processes have reached equilibrium.

The second is transient climate response (TCR). This is the amount of warming that might occur at the time when CO2 doubles, having increased gradually by 1% each year. TCR more closely matches the way the CO2 concentration has changed in the past. It differs from ECS because the distribution of heat between the atmosphere and oceans will not yet have reached equilibrium.

A third way of looking at climate sensitivity, Earth system sensitivity (ESS), includes very long-term Earth system feedbacks, such as changes in ice sheets or changes in the distribution of vegetative cover.

TCR tends to be notably lower than ECS. The Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) fifth assessment report, completed in 2014, gave a likely ECS range of 1.5C to 4.5C of warming for a doubling of atmospheric CO2 concentrations, but a likely TCR of only 1C to 2.5C.
Feedbacks drive uncertainty

The wide range of estimates of climate sensitivity is driven by uncertainties in climate feedbacks, including how water vapour, clouds, surface reflectivity and other factors will change as the Earth warms. Climate feedbacks are processes that may amplify (positive feedbacks) or diminish (negative feedbacks) the effect of warming from increased CO2 concentrations or other climate forcings – factors that initially drive changes in the climate.

Simple physics shows the world will warm by a bit more than 1C once CO2 doubles, if feedbacks are not taken into account. However, there is extremely strong evidence that feedbacks will amplify this warming, based on the Earth’s past and the physical processes involved.

Water vapour – itself a powerful greenhouse gas – is the single largest and one of the best-understood climate feedbacks. As the world warms, the amount of water vapour in the atmosphere is expected to increase and, therefore, so too will the greenhouse effect.

Measurements from satellites confirm that water vapour concentrations have been increasing in step with temperatures in the atmosphere over the past few decades.

A warmer and wetter atmosphere will also affect cloud cover. However, it is much more uncertain how changes in cloud cover will influence climate sensitivity.

An increase in low-altitude clouds would tend to offset some warming by reflecting more sunlight back to space, whereas an increase in the height of high-altitude clouds would trap extra heat. Meanwhile a shift in sun-blocking clouds from the tropics towards the poles, where the incoming sunlight is less intense, would decrease their power to block sunlight.

Changes in the composition of clouds also matter: clouds that contain more water droplets are “optically thicker” and more effective at blocking sunlight than those composed mainly of ice crystals. All this means the global net effect of cloud feedbacks is complex and hard for scientists to model precisely.

A warming world will also have less ice and snow cover. With less ice and snow reflecting the sun’s rays, melting will decrease Earth’s albedo and amplify warming.

The combination of these and other feedbacks converts the ~1C warming from doubled CO2 alone into an uncertain range of possible warming, from around 1.5C to 4.5C.

A remarkably stable range
In 1979, the Charney Report from the US National Academy of Sciences suggested that ECS was likely somewhere between 1.5C and 4.5C per doubling of CO2. Nearly 40 years later, the best estimate of sensitivity is largely the same. This has led some to question why there has been so little progress on estimating climate sensitivity.

However, Prof Andrew Dessler at Texas A&M University pushes back on this suggestion. He tells Carbon Brief:

"I think that the idea that ‘uncertainty has remained the same since the late 1970s’ is wrong. If you look at the Charney report, it’s clear that there were a lot of things they didn’t know about the climate. So their estimate of uncertainty was, in my opinion, way, way too small

Over time, we have learned a lot more about the climate and the expert judgement about how to evaluate uncertainty has also improved. So while it may appear that the uncertainty has remained the same, this reflects that the improvements in our understanding of climate sensitivity have been largely masked by improvements in our understanding of the uncertainty. In fact, I think I could argue that today’s range overestimates the actual uncertainty."

Back in 1979, climate science was much less well understood than today. There were far fewer lines of evidence to use in assessing climate sensitivity. The Charney report range was based on physical intuition and results from only two early climate models.

In contrast, modern sensitivity estimates are based on evidence from many different sources, including models, observations and palaeoclimate estimates. As Dessler suggests, one of the main advances in understanding of climate sensitivity over the past few decades is scientists’ ability to more confidently rule out very high or very low climate sensitivities.

Different ways of estimating sensitivity
So, what are these different lines of evidence that climate scientists use to assess climate sensitivity?

Physics-based climate models of the Earth can be used to run simulations of how much warming will occur once CO2 concentrations have doubled. Climate sensitivity represents an “emergent property” of climate models, rather than something that has been programmed in ahead of time.

Climate models give a wide range of sensitivity estimates, so researchers often examine subsets of climate models – selected based on how well they match different present-day observations of the climate. These are referred to here as “constrained models”.

Sensitivity can also be estimated from instrumental records of surface temperatures and ocean heat content, combined with models of how climate forcings have changed in the past.

Scientists can also look at the more distant past to evaluate the sensitivity of the climate, by comparing palaeoclimate changes in the Earth’s past to estimates of changes in forcings.

Finally, scientists can combine multiple different approaches to try and get a more comprehensive picture.

The figure below, created by Carbon Brief, shows an assessment of climate sensitivity estimates published since the year 2000. It is based on data from a 2017 Nature Geoscience paper by Prof Reto Knutti and colleagues at ETH Zurich and updated through to the present day.

Each dot shows the best estimate of climate sensitivity from an individual study, while the bars show the range of possible sensitivity values assessed by that study. The colour indicates the type of study.

It is worth noting that different studies sometimes use different measures for a “best estimate” as well as for the range of sensitivity and, therefore, are not always directly comparable. As a result, the smoothed average of the best estimates (black line) and range (shaded grey area) should be seen only as illustrative of the spread of uncertainty.

While a number of studies were published in earlier decades, the chart highlights the flurry of research since the early 2000s. Most studies have a best estimate of sensitivity between 1.5C and 4.5C, but there are a few very-high or very-low sensitivity studies as well.

The range of sensitivity across all of these studies has likely narrowed slightly over time, though the average has remained fairly close to 3C. Contrary to claims on a number of climate sceptic websites, there is no evidence of any downward trend in sensitivity in recent years when all studies are considered.

There has, however, been some disagreement in recent years on the lower end of the sensitivity range. Model and palaeoclimate-based approaches (blue and purple lines and dots) rarely provide sensitivity estimates below 2C, whereas approaches that use instrumental data (orange) often have. This contributed to the IPCC broadening its sensitivity range from 2C to 4.5C in its fourth assessment report, published in 2007, to 1.5C to 4.5C in its fifth assessment.

Different methods produce different estimates in part because they are measuring different properties of the climate system. The timescales over which climate sensitivity is inferred – since it cannot be directly measured – matter a lot, so different methods can be expected to give different estimates even if each is accurate.

The figure below illustrates the range of sensitivities found by different types of studies. The coloured bars show the median of high and low estimates of sensitivity for all studies published since the year 2000, with the median of best estimates shown by black dots.

Overall, most approaches generally show sensitivity of around 3C per doubling of CO2. Studies based on instrumental data are something of an outlier, tending to show a considerably lower estimate of around 2C. Palaeoclimate studies show a best estimate of around 3C, but tend to have a larger high-end uncertainty than other approaches. This is because they include some studies that reflect longer-term feedbacks associated with ESS.

Low sensitivity from instrumental records
So, why do some approaches tend to produce higher or lower sensitivity estimates than others?

As noted above, estimates based on instrumental climate records tend to show lower climate sensitivity. There has been intense focus on this apparent anomaly since the publication of an influential 2013 paper by Dr Alexander Otto of the University of Oxford and 16 others, which put ECS at between 1.2C and 3.9C, with a best estimate of 2C.

Some commentators have argued the instrumental approach is preferable as it is based on physical observations. However, estimates from instrumental records still require a conceptual or physical mode of the climate to work.

As Knutti and colleagues suggest: “These methods do rely on models: both to provide forcing estimates, such as aerosol forcing, and to link forcing to climate response through energy balance models. Hence, observational estimates are complementary to methods using comprehensive models, but have their own uncertainties.”

There are several reasons why estimates based on instrumental studies may be lower than other methods.

Substantial uncertainties exist in estimates of forcing from aerosols, as well as estimates of ocean heat content. The choice of instrumental record used in assessing changes in surface temperatures can also have a large impact on the result.

Some instrumental surface temperature records have poor coverage over the fast-warming Arctic and other regions of the world. Relying on incomplete observations misses some of the temperature rise. Surface temperature records also combine sea surface temperatures over the oceans with surface air temperatures over land, while climate sensitivity from models refers to global air temperatures over the land and ocean.

Dr Mark Richardson at NASA’s Jet Propulsion Laboratory and colleagues published a paper in 2016 estimating climate sensitivity in models matching the same things that instrumental records are actually measuring. They found that this results in sensitivity estimates similar to those obtained from instrumental approaches.

The figure below shows the TCR estimate in Otto et al to the left (yellow), that from CMIP5 climate models in the middle (blue), and TCR estimates from CMIP5 climate models that match what instrumental records are measuring to the right (red).

While comparing like with like can reconcile much of the difference in TCR, larger differences remain between instrumental estimates of ECS and model and palaeoclimate approaches.

Researchers have tried to understand these differences in a number of recent papers exploring why instrumental approaches result in notably lower ECS estimates than other lines of evidence.

Instrumental approaches are complicated by the fact that climate forcing over the past century is not purely from CO2 and, thus, the warming has been partly masked by the cooling effect of aerosols.

One important insight is that the strength of climate feedbacks is expected to change over time, with stronger feedbacks taking longer to emerge.

A 2017 paper by Dr Cristian Proistosescu and Prof Peter Huybers at Harvard University found that amplifying feedbacks that play a large role in ECS in climate models have not fully kicked in for current climate conditions. A similar paper by Prof Kyle Armour of the University of Washington suggests feedbacks will increase by about 25% from today’s transient warming as the Earth moves towards equilibrium.

This means that sensitivity estimates based on instrumental warming to date would be on the low side, as they would not capture the larger role of feedbacks in future warming. The authors suggest that “accounting for these…brings historical records into agreement with model-derived ECS estimates”.

This is in part because feedbacks depend strongly on the spatial pattern of warming. Prof Armour elaborates in a discussion on the Climate Lab Book website:

“Nearly all GCMs [global climate models] show global radiative feedbacks changing over time under forcing, with effective climate sensitivity increasing as equilibrium is approached. As a result, climate sensitivity estimated from transient warming appears smaller than the true value of ECS…

As far as we can tell, the physical reason for this effect is that the global feedback depends on the spatial pattern of surface warming, which changes over time…One nice example is the sea-ice albedo feedback in the Southern Ocean: because warming has yet to emerge there, that positive (destabilising) feedback has yet to be activated.

This means that even perfect knowledge of global quantities (surface warming, radiative forcing, heat uptake) is insufficient to accurately estimate ECS; you also have to predict how radiative feedbacks will change in the future.”

Prof Andrew Dessler agrees, telling Carbon Brief that an understanding of how the pattern of surface warming influences sensitivity is one of the major advances in our understanding of climate sensitivity in recent years. He suggest that it “allows us to resolve the discrepancy between the 20th century [instrumental] estimates and other estimates that give higher values”.

A recent paper by NASA’s Dr Kate Marvel and colleagues uses another approach to explore the discrepancy between instrumental and model-based sensitivity estimates. Their results suggest that natural climate variability over the past few decades may have lined up, by pure coincidence, in a way that results in low ECS estimates.

They examine the results obtained from instrumental approaches using data from climate models. Because individual climate models have a climate sensitivity that can be directly measured, this provides a test of how well the historical record can accurately assess ECS. They find that the average ECS inferred from historical simulations is only 2.3C, notably lower than the actual average ECS of 3.1C across all the models.

They find an even lower implied ECS of 1.8C when using variants of the models constrained by actual observed sea surface temperatures. They suggest this means that “the specific…internal variability experienced in recent decades provides an unusually low estimate of ECS”. They point out that this appears to be mostly driven by decadal variations in cloud cover in the tropics. However, cloud cover in the tropics is not necessarily predictive of future climate change and the patterns resulting in low instrumentally-based ECS estimates may have been driven by natural variability.

Challenge of constraining models
Climate models provide a wide range of climate sensitivity estimates. The CMIP5 models featured in the most recent IPCC report have ECS values ranging from 2.1C to 4.7C per doubling, with an average sensitivity of 3.1C.

However, not all models are created equal. Some perform better than others at matching historical temperatures and other climate variables. One idea, called “emergent constraints”, aims to narrow down (“constrain”) model sensitivity estimates using only the best-performing models.

This has been done in a number of different ways. For example, low-altitude cloud cover is strongly related to climate sensitivity. Models with clouds that more closely match observations show an ECS of between 3C and 4.8C – on the high end of the model range – according to a 2014 paper in Nature by Prof Steve Sherwood and colleagues.

Similarly, a second high-profile Nature paper used satellite observations of how much energy is emitted by Earth to space as their “emergent constraint”. They found that models best matching observations showed an ECS of 3C to 4.2C.

Conversely, models that best reproduce observed temperature variability show a lower ECS of 2.2C to 3.4C, according to a 2018 paper, also in Nature, by Prof Peter Cox and colleagues.

This lack of consistency means that across all the studies that Carbon Brief examined, those using constrained models had nearly the same range of sensitivity as estimates using all climate models. One reason is that different models are good at matching different types of observations. For example, those best modelling clouds are not the same as those that are good at reproducing temperature variability.

It is possible to argue that some of these studies or constraints are more compelling or physically realistic than others. This is an area of very active research. For now, it is probably premature to suggest that emergent constraints decisively show sensitivity to be lower or higher than previously thought.

These studies do have one consistent finding, however, which is that a climate sensitivity of less than 2C is very unlikely.

Narrowing the range?
While the best estimate of equilibrium climate sensitivity has stubbornly remained between 1.5C and 4.5C per doubling for nearly three decades, a lot has happened in the last two years to better inform our understanding of likely ECS values.

First, the new generation of climate models – CMIP6 – featured a number of models whose sensitivity was on the high end of the canonical IPCC range. Around 35% of the new models reported ECS values above 4.5C, with 18% of the models having an ECS above 5C. However, some recent studies have suggested that the subset of very-high sensitivity models tend to relatively poorly reproduce historical temperatures – suggesting that the models more consistent with the 1.5C to 4.5C range might be more reliable projections of future warming.

At the same time, a massive multi-year project to produce a better estimate of climate sensitivity was recently completed. It combined independent lines of evidence from physical processes, historical temperatures, and paleoclimate data to narrow the likely range of ECS down to between 2.6C and 4.1C. They found that even if one of the three lines of evidence is completely excluded, the range only expands to 2.3C to 4.5C.

The chart below shows how the likely ECS range from this new study (black box), compares with AR5 (grey) and the full range of estimates from the fifth (blue) and sixth (orange) coupled model intercomparison projects (CMIP). (The CMIP5 model projections fed into AR5, while CMIP6 will underpin the forthcoming sixth assessment report, AR6.)

These conflicting sets of ECS estimates pose a bit of a dilemma for the authors of the upcoming IPCC 6th Assessment Report. While past reports have generally had climate models with ECS values well within the IPCC’s likely ECS uncertainty range, the same may not be true this time around.

Does sensitivity matter?
Climate sensitivity is an important scientific uncertainty, and narrowing the range could have significant consequences. One economic study by Dr Chris Hope at the University of Cambridge suggests that the value of halving the uncertainty may be in the trillions of dollars, as it would allow the amount and speed of emissions reductions needed to be better determined.

Yet the world would still need to decarbonise to meet the goals of the Paris Agreement, even if sensitivity is better understood or even at the low end of current estimates. An ECS of closer to 2C would only extend the deadline for reaching net-zero emissions by a decade or so, according to a study by IIASA’s Dr Joeri Rogelj and colleagues.

The uncertainty also cuts both ways; there are just as many new studies being published today suggesting that sensitivity might be on the high end of the 1.5C to 4.5C range as there on the low end. Knutti and colleagues suggest that the uncertainty in climate sensitivity should not be seen as a roadblock for action today. Dessler tells Carbon Brief:

“Unless climate sensitivity falls outside the IPCC’s range, I don’t see that refinements to the range have a huge impact on what we should be doing from a policy perspective. We should be trying to reduce emissions as fast as we can – but slow enough not to be too disruptive to the economy.”

Ultimately, just how warm the world will be in 2100 depends as much or more on the amount of CO2 and other greenhouse gases emitted into the atmosphere than on the precise value for climate sensitivity.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Why Amartya Sen remains the century’s great critic of capitalism



Critiques of capitalism come in two varieties. First, there is the moral or spiritual critique. This critique rejects Homo economicus as the organising heuristic of human affairs. Human beings, it says, need more than material things to prosper. Calculating power is only a small part of what makes us who we are. Moral and spiritual relationships are first-order concerns. Material fixes such as a universal basic income will make no difference to societies in which the basic relationships are felt to be unjust.

Then there is the material critique of capitalism. The economists who lead discussions of inequality now are its leading exponents. Homo economicus is the right starting point for social thought. We are poor calculators and single-minded, failing to see our advantage in the rational distribution of prosperity across societies. Hence inequality, the wages of ungoverned growth. But we are calculators all the same, and what we need above all is material plenty, thus the focus on the redress of material inequality. From good material outcomes, the rest follows.

The first kind of argument for capitalism’s reform seems recessive now. The material critique predominates. Ideas emerge in numbers and figures. Talk of non-material values in political economy is muted. The Christians and Marxists who once made the moral critique of capitalism their own are marginal. Utilitarianism grows ubiquitous and compulsory.

But then there is Amartya Sen.
Every major work on material inequality in the 21st century owes a debt to Sen. But his own writings treat material inequality as though the moral frameworks and social relationships that mediate economic exchanges matter. Famine is the nadir of material deprivation. But it seldom occurs – Sen argues – for lack of food. To understand why a people goes hungry, look not for catastrophic crop failure; look rather for malfunctions of the moral economy that moderates competing demands upon a scarce commodity. Material inequality of the most egregious kind is the problem here. But piecemeal modifications to the machinery of production and distribution will not solve it. The relationships between different members of the economy must be put right. Only then will there be enough to go around.

In Sen’s work, the two critiques of capitalism cooperate. We move from moral concerns to material outcomes and back again with no sense of a threshold separating the two. Sen disentangles moral and material issues without favouring one or the other, keeping both in focus. The separation between the two critiques of capitalism is real, but transcending the divide is possible, and not only at some esoteric remove. Sen’s is a singular mind, but his work has a widespread following, not least in provinces of modern life where the predominance of utilitarian thinking is most pronounced. In economics curricula and in the schools of public policy, in internationalist secretariats and in humanitarian NGOs, there too Sen has created a niche for thinking that crosses boundaries otherwise rigidly observed.

This was no feat of lonely genius or freakish charisma. It was an effort of ordinary human innovation, putting old ideas together in new combinations to tackle emerging problems. Formal training in economics, mathematics and moral philosophy supplied the tools Sen has used to construct his critical system. But the influence of Rabindranath Tagore sensitised Sen to the subtle interrelation between our moral lives and our material needs. And a profound historical sensibility has enabled him to see the sharp separation of the two domains as transient.

Tagore’s school at Santiniketan in West Bengal was Sen’s birthplace. Tagore’s pedagogy emphasised articulate relations between a person’s material and spiritual existences. Both were essential – biological necessity, self-creating freedom – but modern societies tended to confuse the proper relation between them. In Santiniketan, pupils played at unstructured exploration of the natural world between brief forays into the arts, learning to understand their sensory and spiritual selves as at once distinct and unified.

Sen left Santiniketan in the late 1940s as a young adult to study economics in Calcutta and Cambridge. The major contemporary controversy in economics was the theory of welfare, and debate was affected by Cold War contention between market- and state-based models of economic order. Sen’s sympathies were social democratic but anti-authoritarian. Welfare economists of the 1930s and 1940s sought to split the difference, insisting that states could legitimate programmes of redistribution by appeal to rigid utilitarian principles: a pound in a poor man’s pocket adds more to overall utility than the same pound in the rich man’s pile. Here was the material critique of capitalism in its infancy, and here is Sen’s response: maximising utility is not everyone’s abiding concern – saying so and then making policy accordingly is a form of tyranny – and in any case using government to move money around in pursuit of some notional optimum is a flawed means to that end.

Economic rationality harbours a hidden politics whose implementation damaged the moral economies that groups of people built up to govern their own lives, frustrating the achievement of its stated aims. In commercial societies, individuals pursue economic ends within agreed social and moral frameworks. The social and moral frameworks are neither superfluous nor inhibiting. They are the coefficients of durable growth.

Moral economies are not neutral, given, unvarying or universal. They are contested and evolving. Each person is more than a cold calculator of rational utility. Societies aren’t just engines of prosperity. The challenge is to make non-economic norms affecting market conduct legible, to bring the moral economies amid which market economies and administrative states function into focus. Thinking that bifurcates moral on the one hand and material on the other is inhibiting. But such thinking is not natural and inevitable, it is mutable and contingent – learned and apt to be unlearned.

Sen was not alone in seeing this. The American economist Kenneth Arrow was his most important interlocutor, connecting Sen in turn with the tradition of moral critique associated with R H Tawney and Karl Polanyi. Each was determined to re-integrate economics into frameworks of moral relationship and social choice. But Sen saw more clearly than any of them how this could be achieved. He realised that at earlier moments in modern political economy this separation of our moral lives from our material concerns had been inconceivable. Utilitarianism had blown in like a weather front around 1800, trailing extremes of moral fervour and calculating zeal in its wake. Sen sensed this climate of opinion changing, and set about cultivating ameliorative ideas and approaches eradicated by its onset once again.

There have been two critiques of capitalism, but there should be only one. Amartya Sen is the new century’s first great critic of capitalism because he has made that clear.