Mostrar mensagens com a etiqueta Palestra. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Palestra. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 15 de maio de 2026

A História Milenar da Civilização Palestina

O termo Palestina não é uma invenção moderna nem uma criação arbitrária do Império Romano, mas sim o resultado de uma evolução linguística e geográfica que se estende por mais de três milénios. As suas raízes mais remotas encontram-se nos hieróglifos egípcios do século XII a.C., onde se menciona o povo Peleset, um dos "Povos do Mar" que se estabeleceu na costa sul do Levante. Esta denominação persistiu nos registos assírios do século VIII a.C. sob as formas Palashtu ou Pilistu, referindo-se inicialmente à região costeira da Filisteia. No entanto, foi a influência grega que começou a expandir o alcance do nome; no século V a.C., o historiador Heródoto utilizava o termo Palaistine não apenas para a costa, mas para descrever todo o distrito que se estendia para o interior, até ao vale do Jordão e à fronteira com o Egito.
Quando o imperador romano Adriano reorganizou a província após a revolta de Bar Kokhba em 135 d.C., renomeando-a como Syria Palaestina, não estava a cunhar um vocábulo novo, mas sim a oficializar uma terminologia que já era padrão no mundo helenístico e académico da época. O que começou como um marcador étnico para um grupo específico de colonos costeiros (os filisteus) acabou por se tornar, através dos séculos, numa designação administrativa e geográfica abrangente. Este processo reflete como as potências imperiais da antiguidade frequentemente adotavam e adaptavam nomes preexistentes para consolidar os seus próprios quadros territoriais, integrando tradições locais, gregas e romanas numa identidade cartográfica que perduraria no tempo.
Após séculos de domínio romano e otomano, passou pelo Mandato Britânico e culminou na partilha da ONU em 1947, resultando na criação de Israel e nos atuais conflitos pela soberania e reconhecimento estatal.

Análise do famoso historiador Escocês 
William Dalrymple tem sido crítico das ações de Israel durante a guerra em Gaza e do apoio do Reino Unido a Israel. Numa entrevista de 2024 ao The Times, fez uma analogia entre a resposta de Israel aos ataques de 7 de outubro e a resposta da Grã-Bretanha à Revolta dos Sipaios de 1857, dizendo: "A Revolta tem ecos contemporâneos. O mesmo sentimento de que mulheres e crianças inocentes foram atacadas e que, portanto, isso forneceu carta branca para vingança e represálias." Em maio de 2025, Dalrymple assinou uma carta aberta chamando a guerra em Gaza de genocídio. Num artigo de Setembro de 2025 para o New Statesman, Dalrymple argumentou que a Grã-Bretanha tinha uma responsabilidade histórica de ajudar a estabelecer um Estado palestiniano.

Saber mais:
A Place of Many Beginnings: Three Paths into the History of Palestine (Um Lugar de Muitos Começos: Três Caminhos para a História da Palestina) é um projecto interactivo de história da Palestina desenvolvido por Visualizing Palestine que foi apresentado no passado fim-de-semana no Festival de Literatura Palestine Writes, na Universidade da Pensilvânia e está disponível para o público interessado.


A história da Palestina... tem múltiplos 'começos' e a ideia da Palestina evoluiu ao longo do tempo a partir destes múltiplos 'começos' para um conceito geopolítico e uma política territorial distinta
Nur Masalha, Palestine: A Four Thousand Year History (pág. 8)

A Place of Many Beginnings foi apresentado no sábado, 23 de Setembro, durante um painel com os académicos palestinos Nur Masalha e Salman Abu Sitta, moderado pela autora e activista palestina Susan Abulhawa.


Com um visual muito apelativo e um conteúdo rico e inovador, esta apresentação aponta caminhos para conhecer a verdadeira história da Palestina.

Na secção Many Beginnings (Muitos Começos) pode conhecer a forma como a revolução agrícola, os berços de civilização, o comércio e o trânsito e a religião moldaram a Palestina e saber mais sobre a posição central da Palestina nas rotas comerciais antigas mais importantes.

Na secção Material Culture (Cultura Material) fala-se da arquitectura vernacular, da arquitectura monumental e muito mais.

Na secção Naming Palestine (Nomear a Palestina) ficamos a saber como os nomes palestinos dos lugares em árabe transmitiram a memória social e a história.

Com este ambicioso projecto, a Visualizing Palestine diz pretender lançar um debate sobre a forma como a história palestina tem sido obscurecida e distorcida por centenas de anos de abordagens e prioridades coloniais, incorporadas por estudos bíblicos e pela historiografia sionista.

«Os palestinos estão numa viagem intelectual inspiradora, rigorosa e de afirmação da vida, juntamente com outras comunidades indígenas que estão a escrever e a recuperar as suas histórias no meio de mitos dominantes e sancionados pelo Estado», diz Visualizing Palestine na apresentação do projecto. «Esperamos que o lançamento de hoje seja apenas um "começo" e que a plataforma evolua à medida que o diálogo progride.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Os sentimentos homeostáticos são os heróis silenciosos que deram “coragem” a António Damásio a publicar o seu novo livro



Os livros do neurocientista António Damásio nem sempre são feitos de páginas de fácil compreensão para o leitor, nada que não seja normal quando os temas de que tratam são do domínio de apenas uma ínfima minoria de especialistas em todo o mundo. No entanto, no seu mais recente ensaio, A Inteligência Natural & a Lógica da Consciência, há uma tentativa de seduzir o maior número de leitores para que estes caminhem junto dele e compreendam os desenvolvimentos que tem vindo a acrescentar à sua teoria sobre a consciência. Daí que desde o princípio do livro escreva: “É importante explicar aos leitores aquilo sobre o qual se pretende escrever”.

A justificação para Damásio ter este comportamento vem expresso logo de seguida: “O meu objetivo principal será explicar como se fabrica a consciência”. Adianta que para explicar a sua perspetiva sobre “como a natureza fez o seu trabalho”, precisa de “apresentar a ideia que tenho daquilo em que consiste a consciência”. Antes de continuar faz um alerta: “A maior parte das ideias que defendo neste livro assenta em dados científicos comprovados, alguns bens recentes, mas incluo também teorias e hipóteses que ainda não foram testadas”. Se o leitor ainda desconhecia o que poderia passar-se se aceitasse o convite do autor para a leitura deste ensaio, rapidamente entenderia o que estava em causa ao ler o que escreve um pouco mais à frente, sob o título O plano: “No início introduzimos o problema da consciência no contexto da Inteligência Natural. A reflexão filosófica é completada por descobertas nos campos da biologia geral, da neurologia clínica e da neurociência. O texto apresenta as minhas respostas a duas questões principais: como se fabrica a consciência e como é que a consciência afeta aqueles que a têm”.

Seis meses após lançar a edição portuguesa de A Inteligência Natural e a menos de cinco meses de ser editada a versão mundial em inglês (Natural Intelligence & the Logic of Consciousness), António Damásio não deixa de confessar que além do leitor tradicional este trabalho tem outros destinatários: “Quero fornecer a colegas por quem tenho apreço e que até podem ter entendimentos diferentes dos meus qual é a minha ideia sobre esta questão.” Considera que o livro poderá ser o melhor veículo pois “a comunicação de ideias é muitas vezes difícil quando é feita através de um artigo científico que tem um limite de páginas”.

Além de avisar o leitor sobre este duplo objetivo do livro, o estratagema que Damásio utiliza para encaminhar o leitor resume-se a uma frase de apenas nove palavras, em que é capaz de antecipar e aguçar a atenção para a revelação que vai dominar o ensaio: “Os sentimentos homeostáticos são os heróis silenciosos deste livro”. Acrescenta: “É esse o ponto que quero realçar neste livro e também dar ao leitor a ideia de que não só se pode ter a compreensão daquilo que é a consciência, como se está perante um primeiro vislumbrar da forma como a consciência pode ser construída através de sentimentos homeostáticos. Estes são verdadeiramente um avanço e é isso que quero deixar bem vincado”. Conclui: “Não é só um novo livro, não é só uma reflexão sobre aquilo que é o sistema nervoso, a vida e a consciência, mas antes uma reflexão e uma proposta muito concreta sobre a forma como tudo isto pode ser construído e realizado por seres vivos”.

Tal como no livro vai expondo gradualmente as descobertas, também nesta conversa as suas afirmações seguem os mesmos passos. É então que se ouve: “Hoje sou capaz de explicar como os sentimentos homeostáticos surgiram no nosso organismo”. Há logo uma necessidade de se esclarecer uma situação: é uma descoberta mais recente ou já a vinha cimentando? O cientista faz uma segunda confissão: “A coragem de explicar e descrever este novo estado de coisas é recente, no entanto alguns dos conhecimentos que levaram a essa coragem para o revelar já têm alguns anos. Por isso, podia descrever as conclusões deste livro da seguinte maneira: finalmente, tive a coragem de explicar e defender um mecanismo que há algum tempo tenho estado a investigar e a acumular os dados que permitam ter a noção de como tudo isto é construído e de como se chega ao sentimento homeostático e à consciência.”

É essa a razão, pergunta-se a António Damásio, pela qual a questão dos sentimentos homeostáticos domina a maior parte deste novo livro. Responde afirmativamente: “Sim. Dominam o livro não só por aquilo que os sentimentos homeostáticos são capazes de introduzir na vida humana, mas pela maneira como são absolutamente necessários para essa vida e para que haja uma regulação dessa vida. Também pelas consequências que esses sentimentos homeostáticos têm para a vida de uma forma mais ampla, até do ponto de vista cultural.”

Mas Damásio tem mais para anunciar sobre o assunto em causa, que tem vindo a adiantar no último ano em artigos em revistas científicas e avançava em parte no anterior livro, Sentir & Saber (2020): “Não se pode ignorar uma 'novidade' que está neste livro e que é muito importante para a minha investigação: a de que não só digo que a consciência provém dos sentimentos homeostáticos como tenho uma solução para explicar a forma como esses sentimentos homeostáticos se desenvolveram. Afinal, embora venha a afirmar desde há muito tempo que os sentimentos homeostáticos são uma raiz da consciência, só neste livro e nos trabalhos mais recentes é que encontrei e descrevo uma solução para explicar como esses sentimentos homeostáticos são construídos. Ou seja, é uma situação extremamente importante, o que faz com que este novo livro não só deixe bem registada a importância dos sentimentos homeostáticos, como seja capaz de explicar a forma como esses sentimentos homeostáticos podem ser criados em seres como nós, seres vivos e humanos.”

Após esta explicação, Damásio remata assim: “Isto é novo cientificamente e é muito importante”. Faz questão de acrescentar uma nota: “Há quem após uma leitura superficial deste livro possa dizer que esta será apenas mais uma afirmação que António Damásio está a fazer, até que já o disse anteriormente - de que os sentimentos homeostáticos têm um papel na consciência -, contudo, a importância deste livro é estar a propor a existência de um mecanismo que permite aos seres vivos criar consciência através desses sentimentos homeostáticos.”

Um componente moderno
O que pode António Damásio explicar sobre esse mecanismo é a interrogação que se segue e a que o neurocientista responde, com todos os detalhes possíveis usando como exemplo a conversa transatlântica em curso sobre este seu novo livro: “Este mecanismo tem como base o facto de termos no nosso sistema nervoso dois componentes extraordinariamente importantes e muito distintos. Um é um componente moderno, do ponto de vista da evolução, e é aquele que permite que duas pessoas possam ter um diálogo via Internet devido às enormes capacidades cognitivas que possuímos e que nos conferem uma capacidade de ter perceção daquilo que se escuta enquanto convivemos com o que se está a passar à nossa volta; também de pensar sobre o que estamos a ver e a ouvir, a que acresce a nossa capacidade de transformar tudo isso em linguagem - pode-se dar o exemplo desta entrevista telefónica. Vamos ao segundo componente, aquele que permite toda esta maravilha: é um sistema nervoso em que as células nervosas são mielinizadas, ou seja, células nervosas modernas do ponto de vista evolucionário, que estão rodeadas de mielina e por isso funcionam como cabos elétricos em que não se perde corrente desde o princípio do corpo celular até à sinapse. Esses sentimentos permitem uma ligação (resonation) aos nossos afetos e são produzidos por neurónios completamente diferentes. Neurónios que, do ponto de vista evolutivo, são muito mais velhos, muito mais do princípio do desenvolvimento dos sistemas nervosos, e em que os axónios em vez de terem mielina e estarem isolados, pelo contrário, estão expostos àquilo que se passa no meio químico que os rodeia. É exatamente nessa ligação entre aquilo que se passa no meio químico que rodeia os neurónios e os neurónios propriamente ditos, aquilo que descreveria em inglês como co-mingling [mingle = misturar], ou seja, que se dá a possibilidade de fazer uma mistura. Portanto, aquilo que se está a passar no sistema nervoso que permite os sentimentos homeostáticos é, de facto, uma mistura entre aquilo que se está a passar no corpo e aquilo que se está a passar na nossa vida direta; nas células que constroem o nosso corpo e que têm os intercâmbios com a vida propriamente dita, e naquilo que se está a passar no sistema nervoso cognitivo. Dessa situação de co-mingling entre os componentes, a mistura do que está no corpo propriamente dito e aquilo que está no sistema nervoso, é que emergem os sentimentos homeostáticos. Daí que tenhamos sentimentos homeostáticos agradáveis e desagradáveis, pois quando a vida está a correr bem o sistema nervoso apanha no nosso corpo a ideia de que a vida está boa, que a vida é possível e que não há barreiras à continuação dessa vida; se temos qualquer coisa que não está a funcionar bem no corpo, nessa altura temos sentimentos de desagrado ou de dor, e esses sentimentos são aqueles que nos estão a dar a ideia de que qualquer coisa se passa de mal no nosso corpo.”

Aniquilar uma civilização
A dado momento do livro, Damásio regista que “talvez seja possível reorientar parte das notáveis conquistas das inteligências naturais, de modo a salvar a humanidade da beira do abismo ao qual chegou”. Até que ponto se pode fazer uma leitura de que as sociedades contemporâneas não estão a preservar o melhor da vida, ou seja, a consciência não está a conseguir ter o papel necessário de harmonização da sociedade? Para António Damásio é possível fazer esta leitura, mas coloca condições: “É preciso vincar o facto de que a consciência não é uma forma de regular a nossa vida social, mas, basicamente, ser uma forma de regular a vida individual. A ideia de consciência, tal como explico neste livro, é de que ela é um sistema de regulação da vida individual, um sistema que vem através do desenvolvimento dos sentimentos homeostáticos e que nos permite ter conhecimento direto e imediato de se a vida está a decorrer de uma forma normal ou se existem riscos para essa própria vida. Essa é a grande beleza e a enorme importância da consciência, por ter consequências extremamente importantes na regulação da vida.”

Aproveitando o cenário geopolítico de acontecimentos mundiais em curso nas últimas semanas, questiona-se o cientista sobre o papel da Inteligência Natural; que tão bem protegeu e promoveu a vida ao longo da história humana e que recentemente se encontrou perante a perplexidade de uma ameaça do presidente Trump em aniquilar uma civilização em poucas horas. Estaremos a viver num tempo de destruição da Inteligência Natural? Damásio considera que é uma pergunta interessante, mas passível de diversas respostas: “Não tenho grandes dúvidas que a nossa Inteligência Natural está, de certo modo, ameaçada por tudo aquilo que se passa com a Inteligência Artificial porque, de certo modo, a Inteligência Artificial tem-nos separado daquilo que é a realidade da vida e a realidade humana. Não é a primeira vez que tal situação se dá, pois existem diversos aspetos da cultura que, historicamente, têm contribuído para essa separação, no entanto é mais evidente agora. Porquê? Quando um grande número de pessoas - quase que a totalidade da humanidade - utiliza sistemas de Inteligência Artificial para comunicar e prefere esses sistemas à comunicação humana direta, não duvido que aquilo que constituiu a realidade da vida tornou-se mais longínqua da nossa perceção do dia-a-dia e estamos a interpor um outro sistema de comunicação que torna as coisas um pouco menos nítidas. Pode até dizer-se que há qualquer coisa que se está a passar na cultura humana em geral que remove a importância da Inteligência Natural do que seria o seu papel central e que nos torna mais distantes daquilo que é a vida ou o sofrimento e que, por essa razão, nos deixa mais capazes de tolerar o sofrimento. Portanto, a resposta à pergunta feita lá atrás é afirmativa.”

No que respeita à Inteligência Artificial, este novo livro de António Damásio é mais seletivo do que se poderia esperar e soma muito poucas dezenas de páginas em referências soltas e apenas lhe é dedicado um único capítulo de forma específica. Questiona-se Damásio sobre se considera que a Inteligência Artificial está a desviar o foco da ciência além das alterações no comportamento humano? O cientista responde: “Sim, dada a importância extraordinária e cada vez maior dessa tecnologia na nossa rotina diária. O nosso dia-a-dia está ligado a capacidades de comunicação que vêm desse mundo artificial e o que se está a passar é que as pessoas estão a utilizar a Inteligência Artificial quando poderiam muito bem usar o contacto direto humano. Eu vejo isso nas ruas dos Estados Unidos da América, e também no campus da universidade, em que a maior parte das pessoas, especialmente os jovens, estão a caminhar e a olhar para os seus aparelhos em simultâneo, por vezes a ler o que está no visor ou a ter uma conversa, até a falar com outras enquanto circulam de bicicleta ou trotinetas elétricas. Ou seja, é um entrar na nossa vida diária de uma forma estranhamente potente e que nos afasta daquilo que é a humanidade e era a sua vida corrente.”

Lembra-se António Damásio de que esteve há pouco mais de um ano em Lisboa e que participou num debate na Fundação Champalimaud com o professor Arlindo Oliveira, no qual estava muito reticente sobre os avanços da Inteligência Artificial. No entanto, aquando da apresentação deste livro, em novembro, parecia ter mudado de perceção. Questiona-se sobre qual é a sua opinião atual sobre a Inteligência Artificial? Refere a mudança: “Não é tanto mudar de opinião, antes de corrigir a opinião. Continuo a achar que a Inteligência Artificial tem diferenças fundamentais em comparação com a Inteligência Natural, mas não tem neste momento a capacidade de, por exemplo, ter uma consciência. Este é um dos pontos que sublinho neste novo livro e em novos artigos, o de que não é possível à Inteligência Artificial, tal como funciona neste momento, aceder a um estágio como o dos seres vivos, especialmente, o dos seres humanos. No entanto, não há qualquer dúvida que o poder do sistema ao nível técnico é tal que avançou muito além daquilo que eu pensava ser possível e que iria alcançar. Ou seja, repito, não é tanto mudar de opinião mas corrigir e continuar a afirmar que é difícil à Inteligência Artificial conseguir copiar inteiramente aquilo que é a Inteligência Natural e, sobretudo, sensibilizar sobre o facto de não existirem dúvidas sobre o quanto está a dominar a nossa vida diária de uma forma que tem impacto sobre aquilo que podemos ser como seres humanos e também no que respeita à nossa relação uns com os outros.”

Ao iniciar o título do novo livro com a expressão Inteligência Natural existiria uma intenção de António Damásio em rivalizar com o conceito de Inteligência Artificial? É a pergunta que se faz e a que o cientista responde desta forma: “Era o título que pretendia usar desde o início, de modo a forçar a distinção entre aquele que é um processo natural nos seres humanos e o que é um processo de inteligência que veio através do desenvolvimento desses seres humanos. A Inteligência Artificial é um dos diversos produtos da criação humana, que é extraordinariamente importante e há que reconhecer a sua extraordinária importância e potência na maneira como ajuda as nossas vidas em diversos aspetos e com resultados positivos. No entanto, também é preciso reconhecer que tem limitações, graves riscos e, entre as limitações, o que mais me interessa é o facto de lhe faltar a lógica da consciência que a Inteligência Natural tem à sua disposição.

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Aquecimento acelera, enquanto resiliência do sistema terrestre diminui, indica relatório lançado na COP30



Os cientistas do clima estão mais preocupados do que nunca, afirma Johan Rockström, diretor do Instituto Potsdam para Pesquisa sobre Impacto Climático, da Alemanha. O cientista sueco, que propôs o conceito de limites planetários para definir as margens seguras para a pressão humana sobre processos ambientais essenciais para a estabilidade do planeta, tem chamado a atenção, com diversos outros pesquisadores, para novas evidências científicas que indicam que o aquecimento global está acelerando, enquanto a resiliência do sistema terrestre diminui.

“Estamos em apuros. O planeta está mostrando os primeiros sinais de redução da capacidade de amortecer e resfriar o estresse que estamos causando por meio de nossas emissões de gases de efeito estufa. Estamos nos aproximando rapidamente do ponto de inflexão e precisamos agir mais rápido do que temos feito até agora”, disse Rockström em palestra de inauguração do Pavilhão da Ciência Planetária, no primeiro dia da COP30.

Um relatório coordenado pelo pesquisador, lançado em setembro, indicou que sete de nove limites da segurança planetária já foram ultrapassados. Entre eles, as mudanças climáticas, a integridade da biosfera, o uso do solo, o uso de água doce, os ciclos biogeoquímicos (nitrogénio e fósforo) e a introdução de novas entidades (como produtos químicos e plásticos).

Agora, um novo relatório elaborado por 70 renomados cientistas de 21 países – entre eles do Brasil –, que foi lançado oficialmente durante a COP30, aponta que os sumidouros naturais de carbono do planeta – entre eles as florestas tropicais – estão atingindo limites críticos, absorvendo menos emissões que as esperadas, enquanto décadas de mudança climática têm debilitado sua capacidade.

Até o oceano, outro sumidouro vital de carbono e calor, está absorvendo menos dióxido de carbono (CO2), enquanto intensas ondas de calor marinhas devastam os ecossistemas e os meios de subsistência costeiros.

“O planeta inteiro está apresentando sinais de diminuição na capacidade de absorção de carbono”, disse Rockström, que é membro do conselho editorial do relatório. “A maior preocupação, com base nos dados atuais, reside nas regiões temperada e boreal e na zona do permafrost [solo congelado em regiões muito frias que retém gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono]”, disse Rockström.

De acordo com dados compilados para o relatório, os ecossistemas do hemisfério Norte começaram a indicar, a partir de 2016, uma redução na capacidade de absorção de carbono.

“Isso está a ficar muito preocupante porque sabemos que muitas áreas da parte brasileira da floresta amazônica já deixaram de ser sumidouros e se tornaram fontes de carbono, mas a mesma coisa está acontecendo com as florestas temperadas e boreais”, ponderou.

Remoção de dióxido de carbono
A ampliação da remoção de dióxido de carbono (CDR, na sigla em inglês) é necessária para complementar – e não substituir – cortes rápidos nas emissões, ponderam os autores do relatório.

O desenvolvimento de diretrizes internacionais robustas e o apoio à pesquisa e à inovação são essenciais para preencher a lacuna de CDR e apoiar tanto as metas de curto prazo quanto a estabilidade climática de longo prazo, garantindo, ao mesmo tempo, salvaguardas ambientais e sociais, apontam.

“As políticas climáticas mais ambiciosas discutidas hoje visam reduzir as emissões em 45% até 2030 e ter uma economia mundial com emissões líquidas zero até 2050, mas ninguém está cumprindo essa meta. Se não ampliarmos a CDR, teremos que descarbonizar a economia global até 2040”, apontou Rockström.

Segundo o cientista, mesmo com as melhores atualizações das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs, na sigla em inglês) pelos países, será possível conseguir reduzir as emissões globais em 5% até 2035. Mas as evidências científicas mostram que esse ritmo não será suficiente, ponderou.

“Na verdade, precisamos reduzir as emissões em 5% por ano, e não por década. É isso que a ciência nos diz para, no mínimo, desviar do perigo”, sublinhou.

Subsídio para as negociações
O relatório é fruto de uma iniciativa da Future Earth, da Earth League e do Programa Mundial de Pesquisa Climática, que todos os anos reúnem alguns dos principais cientistas do clima de todo o mundo para analisar as descobertas mais urgentes na pesquisa sobre mudanças climáticas. Os resultados são apresentados num artigo acadêmico revisado por pares e um relatório de ciência e política para oferecer uma síntese aos formuladores de políticas e à sociedade em geral para subsidiar as negociações das COPs.

“Espero que as conclusões do relatório estimulem o senso de urgência nos formuladores de políticas para que comecem a agir com base nas descobertas científicas”, disse Deliang Chen, professor da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, e um dos autores da síntese.

O relatório é complementar aos publicados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), mas com algumas diferenças, comparam os autores.

“Analisamos, todos os anos, os dados científicos do ano anterior que mostram evidências relacionadas às mudanças climáticas e sintetizamos isso em uma mensagem muito clara e direta. Esperamos que isso funcione de forma muito mais eficiente para a formulação de políticas e, de fato, subsidie as ações que serão tomadas e as negociações”, disse Regina Rodrigues, pesquisadora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e uma das autoras da publicação.

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

E.O.Wison e a renaturalização

"There can be no purpose more enspiriting than to begin the age of restoration, reweaving the wondrous diversity of life that still surrounds us." We have ancient and new born trees, according to old registrations.
A walk in our preserved forest makes us feel quite proud, and it's all thanks to nature. Finally : the true meaning of life is to plant native trees, under whose shade you do not expect to sit. Hope our legacy will continue for next generations!

Últimas Novidades

terça-feira, 7 de outubro de 2025

Optimizing mRNA Manufacturing: Advanced Purification for High Purity and Yield


This presentation focuses on a streamlined approach to mRNA manufacturing, including the preparation of high-quality DNA templates needed to achieve high RNA purity. We introduce a scalable purification workflow featuring continuous in-line lysis and selective hydrophobic interaction chromatography (SHIC) for purification of supercoiled (sc) DNA. The process includes efficient sc pDNA linearization monitored by the PATfix analytical system. In vitro transcription (IVT) reaction, used to produce mRNA from DNA template, is monitored with rapid PATfix at-line monitoring which also tracks nucleoside triphosphate (NTP) consumption. Using a data-driven design-of-experiment (DOE) approach, we achieve a reaction yield of 25 g/L, and can transform the reaction from batch to fed-batch mode. mRNA is purified with Oligo dT affinity chromatography which is selective for polyadenylated mRNA. Residual dsRNA is removed either with reverse-phase chromatography or with aqueous denaturing chromatography also based on Oligo dT. The process is scalable from ug to multi-gram scale and suitable for clinical manufacturing.

sábado, 12 de julho de 2025

Marci Shore saiu dos EUA e agora deixa o aviso: "A Europa não deve absolutamente confiar em nós"



A grande questão neste momento, defende Marci Shore, "é saber quem vai forçar quem" na "situação sem precedentes" em que os Estados Unidos se encontram. "Trump e Vance não são omnipotentes nem imortais, são habilitados por muitas outras pessoas, incluindo quase todos os republicanos".

Isso é notório, por exemplo, na recente aprovação da "lei grande e bela" que vai enriquecer os mais ricos e empobrecer os mais pobres, num país que está a resvalar para o autoritarismo. "O terror atomiza-nos, e os regimes tirânicos alimentam-se dessa atomização – e o único antídoto é a solidariedade ", ressalta a historiadora especializada em fascismo.

Aos que dizem que a América será salva pelos "pesos e contrapesos" que sempre orientaram a política norte-americana, Shore deixa um aviso. "As estruturas e instituições não são proteções mágicas e sobrenaturais, são criadas e geridas por pessoas" – e se a História nos mostra algo, é a facilidade com que coisas impensáveis são normalizadas. "Os seres humanos têm uma capacidade extraordinária de normalizar o anormal; o que parecia inconcebível num dado momento pode tornar-se o novo normal alguns meses mais tarde, e mal nos apercebemos de como as fronteiras recuaram."

Com uma carreira de décadas dedicada à cultura eslava e à Europa Central e de Leste, Shore trocou a Universidade de Yale, nos EUA, pela Universidade de Toronto, no Canadá, uma decisão que, garante, foi tomada após muita ponderação em família. Se dependesse do marido, o historiador e escritor Timothy Snyder, é possível que a mudança nunca tivesse acontecido. "O meu marido não é uma pessoa ansiosa por natureza. Se estivesse sozinho, teria regressado a New Haven, não apesar, mas precisamente por causa da vitória de Trump, para lutar pela democracia dos Estados Unidos."

Ao ver o vídeo que o NYT fez consigo e com outros dois especialistas em Fascismo da Universidade de Yale, Jason Stanley e o seu marido, Timothy Snyder, achei muito marcante a analogia que faz com o Titanic, em relação a esta ideia do ‘excecionalismo americano’. Continua a haver muita gente, dentro e fora dos Estados Unidos, a acreditar que os pesos e contrapesos vão impedir o navio de se afundar, apesar de a realidade apontar na direção oposta. Vislumbra alguma forma de esses pesos e contrapesos prevalecerem, por exemplo, por via das eleições intercalares no próximo ano ou do ramo judiciário? Ou estamos destinados a ver o navio afundar-se?
Não existe nada “destinado”. Os “pesos e contrapesos” referem-se a estruturas e instituições – não são proteções mágicas e sobrenaturais, são criadas e geridas por pessoas. Há certamente juízes que estão a recuar e a dizer ‘não’ – e a administração Trump está, muitas vezes, a recusar-se a honrar essas decisões judiciais. Torna-se então uma questão de saber quem vai forçar quem. Esta é, de certa forma, uma situação sem precedentes nos Estados Unidos.

E como se sai dessa situação?
Tudo depende das pessoas. Trump não é omnipotente nem imortal – e JD Vance também não. Eles são habilitados por muitas outras pessoas – incluindo quase todos os membros republicanos do Congresso, que fizeram barganhas faustianas. Esta “Lei Grande e Bela”, que priva milhões de americanos de cuidados de saúde e milhões de crianças de comida, não teria sido aprovada se o Partido Republicano não tivesse alinhado com Trump. Eles podiam dizer ‘não’.

A votação no Senado estava a 50-50 antes de JD Vance ter dado o voto de desempate na sua qualidade de vice-presidente. Juntamente com todos os democratas, três senadores republicanos votaram contra. Se mais um senador republicano tivesse votado contra, o projeto de lei não teria sido aprovado.

Logo após o voto, o meu irmão, que é compositor de ópera, publicou este vídeo [uma música chamada “Na noite passada sonhei que vi Jesus”, que termina com o verso “E ele disse-me que eu podia ir para o inferno” e com a adenda: “Mantenham-se seguros, amigos – e não fiquem doentes”. Desde a eleição de Trump, Dan Shore tem usado os seus dotes musicais para compor sátiras políticas de protesto contra as políticas da administração.]

Em tempos como estes, as pessoas tentam encontrar esperança onde quer que seja e muitas estão algo esperançosas perante notícias recentes como a libertação de Mahmoud Khalil, ativista da Universidade de Columbia, e a vitória de Zohran Mamdani nas primárias democratas à Câmara Municipal de Nova Iorque. O que podem estes eventos indiciar no contexto da busca por um caminho alternativo para os EUA?
Os Estados Unidos são um país profundamente dividido, é por isso que todas as eleições presidenciais são uma competição por um grupo demográfico relativamente mínimo, os chamados “swing voters”, ou eleitores indecisos. Há uma verdadeira resistência, há momentos de esperança, e é importante estar ciente e reconhecer esses momentos.

Estou a participar numa iniciativa do Seminário de Democracia da New School para documentar “pequenos atos de resistência democrática”. Este site pretende ser uma plataforma de solidariedade, reconhecimento e apoio moral, mas também um recurso para jornalistas, especialmente jornalistas fora dos Estados Unidos.

Recentemente, deu uma palestra na Universidade Metropolitana de Toronto onde avisou os canadianos – numa mensagem também dirigida, presumo, aos europeus e a outras sociedades – que “não podem confiar” no atual governo americano e que, por conseguinte, não podem confiar nos Estados Unidos. A verdade, porém, é que a arquitetura da relação transatlântica assenta nesta dependência europeia dos EUA, por exemplo, em matéria de defesa e segurança. Quão exequível seria “sair” desta relação? Ou existe outra forma de negociar (e fazer acordos) com os EUA, reduzindo essa dependência?

Eu nem sequer o descreveria como uma mudança de paradigma, mas sim como um salto para o niilismo. Para Trump, não existe a verdade versus a mentira ou o bem versus o mal; existe apenas o que é vantajoso ou desvantajoso para si próprio num dado momento. Todas as relações são puramente transacionais. Não existem valores ou princípios.

Estamos a olhar para um abismo. Pode acontecer, claro, que algo que Trump entenda como sendo do seu interesse num determinado momento tenha, por acaso, efeitos positivos – mas isso não deve ser mal interpretado como uma política coerente ou um paradigma que reflita qualquer tipo de valores consistentes.

A Europa não deve absolutamente confiar em nós. É isto mesmo: o fim do namoro.

Num artigo que escreveu em maio, afirmava que se deve “evitar fetichizar” conceitos como autocracia, fascismo, autoritarismo, etc., porque “nenhuma situação histórica é exatamente igual a outra”. Ainda assim, impõe-se a pergunta: que lições é que o passado pode ensinar-nos no que toca a lutar contra este sentimento de paralisia da sociedade?
Conceitos como o fascismo são muito úteis, só não devem ser fetichizados. Quanto às lições: os seres humanos têm uma capacidade extraordinária de normalizar o anormal. O que parecia inconcebível num dado momento pode tornar-se o novo normal alguns meses mais tarde, e mal nos apercebemos de como as fronteiras recuaram. Habituamo-nos a uma nova realidade e depois não conseguimos ver verdadeiramente o que está a acontecer à nossa volta.

Após as eleições de novembro de 2016, o comediante John Oliver disse ao seu público televisivo: "Vai ser demasiado fácil as coisas começarem a parecer normais – especialmente se se for alguém que não é diretamente afetado pelas ações [da administração Trump]. Por isso, lembrem-se: isto não é normal. Escreva-o num post-it e cole-o no seu frigorífico." O contexto era um programa de comédia política, mas isto não era uma piada, e o conselho de John Oliver foi absolutamente correto.

Há aqui dois desafios: abanar a sociedade, para que reconheça as implicações aterradoras da livre expressão da violência e da crueldade, e encontrar métodos para fundamentar o nosso discurso na verdade empírica"

É essencial não normalizar o anormal. É também essencial insistir na verdade – procurando-a, dizendo-a em voz alta. O terror atomiza-nos, e os regimes tirânicos alimentam-se dessa atomização. O único antídoto para isso é a solidariedade. Conhecemos a famosa citação de Martin Niemöller, o simpatizante da direita alemã que se tornou prisioneiro político dos nazis: "Primeiro vieram atrás dos socialistas, e eu não me pronunciei – porque não era socialista. Depois vieram atrás dos sindicalistas, e eu não falei – porque não era sindicalista. Depois vieram buscar os judeus, e eu não falei – porque não era judeu. Depois vieram atrás de mim – e já não havia ninguém para falar por mim".

Líderes como Donald Trump são regularmente aplaudidos pela sua “honestidade”, mas essa honestidade não corresponde à ideia de falar verdade no sentido do que se pode empiricamente provar como verdadeiro – corresponde, antes, a falar sem qualquer filtro, mesmo quando o que se está a dizer é o oposto do que é verdadeiro. Isto coloca um desafio aos cidadãos em geral, e aos jornalistas em particular, tornando ainda mais difícil navegar a realidade e reportá-la nos dias que correm. Desde que Trump anunciou a sua primeira candidatura à presidência, há uma década, os jornalistas têm tentado combater a desinformação com factos, mas isso não parece ser suficiente, nem nos EUA, nem na Europa. Qual é o caminho?
O que os apoiantes de Trump entendem como “honestidade” é o tipo de libertação da repressão que Freud descreveu em “A Civilização e os seus Descontentamentos: a livre expressão de Eros e Thanatos”. Hoje, se virmos uma mulher a andar na rua e desejarmos violá-la, é perfeitamente admissível expressá-lo em voz alta. Freud dir-nos-ia que a civilização se baseia na repressão. A libertação dessa repressão é a verdadeira libertação – pela qual pagamos o pequeno preço da destruição da civilização. E estamos a pagar esse preço.

As possibilidades tecnológicas de disseminação e consumo de informação – e desinformação – não têm precedentes. É um alvo em movimento: a tecnologia acelera mais rapidamente do que conseguimos compreender o problema e formular soluções. Em 2016, os jornalistas americanos ficaram sem saber o que fazer. Estavam habituados a verificar factos individuais – não estavam habituados a um completo afastamento da realidade empírica. E ninguém conseguia verificar os factos tão rapidamente quanto Trump conseguia mentir.

Portanto, há aqui dois desafios. Um é abanar a sociedade, para que reconheça as implicações aterradoras da livre expressão da violência e da crueldade. O outro é encontrar métodos para fundamentar o nosso discurso na verdade empírica.

Diz que “a grande lição de 1933 é que se deve sair mais cedo do que tarde”, num paralelismo entre o que aconteceu na Alemanha, com a ascensão de Adolf Hitler ao poder, e o que está a acontecer agora nos EUA. Porque é que decidiu abandonar o seu país-natal?
Receio que a mudança da minha família para Toronto tenha sido um pouco dramatizada de forma absurda. Na verdade, não é assim tão dramática. Foi uma decisão familiar muito gradual e complexa, que começou muito antes das eleições. Por um lado, Yale é uma instituição excecional; adorei ensinar em Yale, tenho lá amigos e colegas de quem sentirei muitas saudades. Por outro lado, nunca pensei ficar tanto tempo na mesma cidade ou na mesma instituição; parecia que estava na altura de mudar a meio da carreira.

Há muito que queria criar os meus filhos num lugar onde não houvesse tanta violência armada – mesmo em tempos muito melhores politicamente, a quantidade de violência armada nos Estados Unidos é horrível. New Haven [a cidade do Connecticut que alberga a Universidade de Yale] fica a menos de uma hora de Sandy Hook, onde uma turma inteira de alunos do primeiro ano foi assassinada por um atirador numa escola primária há pouco mais de 12 anos. Na altura, um dos meus alunos de licenciatura trabalhava como paramédico a tempo parcial e foi um dos primeiros a responder. Chegou ao local e não havia nada a fazer – estavam todos mortos.

A posse de armas per capita é mais elevada nos Estados Unidos do que em qualquer outra parte do mundo. Sou eslava e sabe o que Anton Chekhov disse sobre as armas? "Quando a arma está em cena, tem de disparar até ao fim do último ato." Receio que isso seja verdade tanto na vida quanto no teatro. Em qualquer sábado à noite em New Haven, as urgências estão cheias de vítimas de ferimentos provocados por armas de fogo.

Foi por isso que decidiu ir dar aulas na Universidade de Toronto?
A Munk School for Global Affairs começou a recrutar-me a mim e ao meu marido, Tim Snyder, há cerca de três anos. E há muitas razões pelas quais não só Toronto em geral, mas também a Munk School da Universidade de Toronto em particular, eram especialmente atrativas. Estudei na Universidade de Toronto nos anos 90 e adorei tanto a cidade como a universidade. A Munk foi concebida para promover e apoiar a interdisciplinaridade, o envolvimento, tanto académico como público. Há lá um grupo fantástico de académicos, liderado pela extraordinária cientista política Janice Stein, muito inspiradora para mim.

O Tim e eu viemos para Toronto em agosto de 2024 com os nossos filhos, num ano sabático de Yale. Por isso, já estávamos a viver aqui durante as eleições de novembro. E é muito provável que tivéssemos ficado em Toronto e aceitado as ofertas da Munk mesmo que Kamala Harris tivesse vencido. O meu marido não é uma pessoa ansiosa por natureza; se estivesse sozinho, teria regressado a New Haven, não apesar, mas precisamente por causa da vitória de Trump, para lutar pela democracia dos Estados Unidos.

Mas aceitou mudar-se pela família?
Sim, concordou em ficar em Toronto por mim e pelos nossos filhos. Estou muito disposta a assumir a minha própria ansiedade, mas encolho-me quando vejo a imprensa infligir-lhe a minha ansiedade e cobardia. “Fugir” é o tipo de palavra que quer Jason Stanley quer eu, enquanto judeus neuróticos, usaríamos – mas o Tim não foge.

A minha posição é influenciada pelo facto de, apesar de ser americana, não ser uma americanista – ou seja, o meu trabalho intelectual sempre se centrou na Europa Central e de Leste. Há muito que estou mais empenhada na Ucrânia do que nos Estados Unidos, e muito do que faço é desempenhar o papel de mediadora cultural, ajudando os americanos a compreender a Europa de Leste.

A minha vida intelectual nunca esteve centrada no meu próprio país, o que talvez contribua para o meu sentimento geral de que é possível trabalhar em prol do bem a partir de onde quer que seja – ainda que de formas diferentes. Além disso, tendo saído dos Estados Unidos, sinto-me ainda mais obrigada a falar sobre o que se está a passar lá, em nome dos meus amigos e colegas que se encontram em posições mais vulneráveis.

sábado, 24 de maio de 2025

O que é ser Woke, afinal?


Hoje, uma amiga contou-me que foi chamada de woke, com um tom pejorativo. Não sabia se se devia sentir ofendida, porque, na verdade, não compreendia bem o que essa palavra significava. Então, expliquei-lhe.

A expressão woke tem origem nas lutas políticas das comunidades negras nos Estados Unidos, particularmente no contexto da resistência ao racismo, à violência policial e à exclusão sistémica. Surgiu como parte da linguagem popular afro-americana, onde a frase stay woke “mantém-te desperta” ou “alerta” era um apelo à vigilância constante face à injustiça. Ser woke significava estar consciente, atenta e recusar a normalização da opressão.

Com o tempo, a palavra ultrapassou o seu uso original e passou a ser adoptada por outros movimentos sociais comprometidos com a justiça. Woke passou a designar uma consciência crítica perante o racismo, o sexismo, a homofobia, a desigualdade económica, entre outras formas de opressão. Ser woke tornou-se sinónimo de uma postura activa e informada na defesa da dignidade humana.

Nos últimos anos, no entanto, o termo foi distorcido. Certos discursos políticos e mediáticos esvaziaram o seu conteúdo transformador e passaram a usá-lo como insulto. E sim, de forma intencional. Ridicularizam-se, assim, propostas de equidade e justiça, associando-as a exagero ou a uma suposta radicalização ideológica.

Ao ridicularizar woke, pretende-se não apenas desacreditar quem luta, mas também desmotivar quem poderia juntar-se à luta. Hoje, muitas pessoas hesitam em defender causas justas com receio de parecer “demasiado woke”. Este ambiente de caricatura constante acaba por silenciar consciências, enfraquecer alianças e gerar um medo difuso de se posicionar. E é precisamente esse o objectivo: desmobilizar.

Neste vazio criado pelo medo do ridículo e pelo desgaste do compromisso político, ganharam espaço discursos individualistas e narrativas de extrema-direita, muitas vezes mascaradas de “liberdade de expressão” ou “pensamento crítico”. A rejeição cínica de tudo o que se relaciona com justiça social tornou-se, para alguns, uma forma de afirmação pessoal especialmente entre alguns jovens. Mas esse caminho não é emancipador, é uma armadilha ideológica que transforma frustração em apatia e medo em ressentimento.

A justiça social não pode ser travada pelo escárnio e é precisamente por isso que importa afirmar, sem hesitação, o valor do compromisso com a dignidade de todas as pessoas.

Woke tornou-se muito mais do que uma palavra. O ataque ao termo é também o ataque a tudo o que ele representa: um corpo insurgente, uma voz que recusa o silenciamento, uma vida que exige ser vivida com dignidade.

Por isso, é fundamental resgatar o sentido político de woke. Não é uma moda, nem um excesso. É um compromisso com os direitos humanos, com a igualdade, com o respeito pela diversidade e com a construção de uma sociedade mais justa.

Porque, quando a linguagem é manipulada para dividir, silenciar e ridicularizar, é precisamente aí que devemos stay woke!

Remaking the left

sábado, 10 de maio de 2025

O testemunho de Abel Rodríguez


Abel Rodborn Mogaje Guihu, do departamento de Putumayo, na Colômbia, foi formado como especialista botânico entre os Nonuya, um dos vários grupos étnicos da Amazónia. As suas composições retratam frequentemente a flora específica coexistindo com aves, animais e elementos da paisagem.
Ela fala sobre a forma como as árvores e as plantas, a especialidade do artista, se entrelaçam tanto biológica como cosmologicamente na compreensão da natureza e da vida e como uma não pode existir sem a outra. O seu trabalho mostra a beleza do mundo na sua maravilha intocada e na alegria da diversidade.

Fundação Tropendos

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Historian Timothy Snyder on the future of American Democracy & the Rule of Law


O historiador Timothy Snyder e autor dos livros "Sobre a Tirania" e "Sobre a Liberdade" é um dos principais especialistas em fascismo e na ameaça que os autoritários representam para o futuro da democracia americana e do Estado de Direito. Neste vídeo, discute o futuro da democracia americana e a ascensão alarmante do autoritarismo.

O que precede a política, fundamenta a nossa constituição e nos dá a hipótese de sermos prósperos e livres? O Estado de Direito. Podemos compreender melhor as ameaças contemporâneas a esta liberdade e prosperidade ao recordarmos os fundamentos morais e intelectuais da nossa ordem política.

Timothy Snyder é historiador na Universidade de Yale, especializado em Europa de Leste, totalitarismo e Holocausto. Os seus livros receberam ampla aclamação. O seu mais recente livro, "The Road to Unfreedom: Russia, Europe, America" ​​​​(O Caminho para a Não-Liberdade: Rússia, Europa, América), conta toda a história da Rússia, do início ao fim, de uma forma coerente e que revela o panorama geral. É também autor de "On Tyranny: Twenty Lessons from the Twentieth Century" (Sobre a Tirania: Vinte Lições do Século XX), que explora as formas quotidianas como um cidadão pode resistir ao autoritarismo atual. As suas outras obras incluem "Black Earth: The Holocaust as History and Warning" (Terra Negra: O Holocausto como História e Advertência) e "Bloodlands: Europe Between Hitler and Stalin" (Terras de Sangue: A Europa entre Hitler e Estaline)

terça-feira, 1 de outubro de 2024

Corinne Le Quéré: Carbon Storage by the Natural Land and Ocean Reservoirs in a Changing Climate


A palestra de Corinne Le Quéré, intitulada “Carbon Storage by the Natural Land and Ocean Reservoirs in a Changing Climate”, explica como o ciclo global do carbono e o clima estão profundamente ligados e como as atividades humanas estão a alterar esse equilíbrio. Ela começa por recordar que, ao longo de milhões de anos, o CO₂ atmosférico e a temperatura variam em conjunto, de modo que perturbações grandes no ciclo do carbono amplificam o aquecimento ou o arrefecimento do planeta. O aquecimento atual, de cerca de 1,2 °C, é causado principalmente pelas emissões antropogénicas de CO₂ provenientes da queima de combustíveis fósseis e da mudança de uso do solo, e não por variabilidade natural.

Para estabilizar a temperatura, é necessário que as emissões de CO₂ atinjam um pico e depois caiam até zero líquido; quanto mais baixo for o nível de aquecimento que se aceita, mais rápido e mais profundo terá de ser esse corte. Os cenários do IPCC indicam que, com as políticas atuais, o aquecimento provável ficará perto de cerca de 3 °C, muito acima da meta de “bem abaixo de 2 °C” do Acordo de Paris. Apesar disso, há progresso real: em vários países, como os Estados Unidos, muitos países europeus, o Reino Unido, a França e, mais recentemente, o Japão, o Brasil e a África do Sul, as emissões fósseis caíram durante pelo menos uma década, mesmo com as economias a crescer, graças a mais eficiência energética, à substituição de combustíveis fósseis por renováveis e ao reforço de políticas climáticas. A mensagem central é que “muita coisa já está a acontecer”, mas é preciso fazer mais, mais rápido e em maior escala.

Atualmente, os sumidouros naturais - terra e oceano - absorvem em média cerca de 55% das emissões anuais de CO₂, travando consideravelmente o aquecimento. No entanto, as mudanças climáticas já estão a reduzir a eficiência desses sumidouros: estimativas indicam retroalimentações que diminuem o sumidouro terrestre em cerca de 20% e o oceânico em cerca de 7% na última década. Modelos projetam que, ao longo deste século, essas retroalimentações positivas, que amplificam o aquecimento, podem reduzir a capacidade de absorção em cerca de 30 a 40% em relação ao que seria sem mudanças climáticas.

A palestrante dedica atenção especial a dois tópicos: o Oceano Austral e os incêndios florestais. No caso do Oceano Austral, apresenta resultados de modelação que separam os efeitos dos gases com efeito de estufa e do ozono estratosférico sobre os ventos, a mistura e a circulação. No passado recente, a depleção do ozono dominou as mudanças nos ventos e na dinâmica do carbono; no futuro, os gases com efeito de estufa dominarão. O efeito direto do aquecimento da superfície tende a dominar a resposta do carbono oceânico, enquanto mudanças na mistura e na circulação têm efeitos opostos no carbono “natural” e no carbono antropogénico, parcialmente compensando-se. Quanto aos incêndios florestais, descreve um estudo que usa machine learning para separar influências climáticas, de raios e humanas. Nas últimas duas décadas, houve um aumento de cerca de 60% nas emissões de CO₂ de incêndios florestais a nível global, com uma anomalia particularmente grande em 2023, como no Canadá. Embora as florestas possam regenerar-se e reabsorver parte desse carbono, o atraso entre a emissão e o regrowth deixa mais CO₂ na atmosfera, criando uma retroalimentação positiva.

Por fim, Corinne Le Quéré aborda o que pode acontecer depois de 2100. Para este século, não há evidência forte de mudanças abruptas nos feedbacks do carbono, mas além de 2100 a situação é mais incerta: em cenários extremos, terra e oceano podem até começar a libertar carbono em vez de o absorver. Ela conclui que é crucial manter e reforçar políticas climáticas ambiciosas e estáveis, desenvolver e escalar a remoção deliberada de CO₂ (como BECCS e DACCS), melhorar a monitorização do ciclo do carbono e preparar estratégias de adaptação que incluam a gestão de perturbações como incêndios e pragas.

segunda-feira, 25 de março de 2024

Música do BioTerra: Flesh - Schwarze Sonne (Sol Negro)


"Sometimes the best map will not guide you, you can’t see what’s round the bend. Sometimes the road leads through dark places, sometimes the darkness is your friend." ~ Bruce Cockburn, 1996

História do Sol Negro
Explicação pelo Antropólogo Arith Härger

quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

O que John Clauser diz está errado. Travemos a desinformação climática e os negacionistas climáticos


Diz assim o texto no facebook
J𝐎𝐇𝐍 𝐂𝐋𝐀𝐔𝐒𝐄𝐑, 𝐕𝐄𝐍𝐂𝐄𝐃𝐎𝐑 𝐃𝐎 𝐏𝐑𝐄̂𝐌𝐈𝐎 𝐍𝐎𝐁𝐄𝐋 𝐃𝐄 𝐅𝐈́𝐒𝐈𝐂𝐀 𝐃𝐄 𝟐𝟎𝟐𝟐: 
“𝑃𝑜𝑠𝑠𝑜 𝑎𝑓𝑖𝑟𝑚𝑎𝑟 𝑐𝑜𝑚 𝑚𝑢𝑖𝑡𝑎 𝑐𝑜𝑛𝑓𝑖𝑎𝑛𝑐̧𝑎 𝑞𝑢𝑒 𝑁𝐴̃𝑂 𝑒𝑥𝑖𝑠𝑡𝑒 𝑒𝑚𝑒𝑟𝑔𝑒̂𝑛𝑐𝑖𝑎 𝑐𝑙𝑖𝑚𝑎́𝑡𝑖𝑐𝑎”.
“... 𝑃𝑜𝑟 𝑚𝑎𝑖𝑠 𝑞𝑢𝑒 𝑖𝑠𝑠𝑜 𝑝𝑜𝑠𝑠𝑎 𝑖𝑛𝑐𝑜𝑚𝑜𝑑𝑎𝑟 𝑚𝑢𝑖𝑡𝑎𝑠 𝑝𝑒𝑠𝑠𝑜𝑎𝑠, 𝑎 𝑚𝑖𝑛ℎ𝑎 𝑚𝑒𝑛𝑠𝑎𝑔𝑒𝑚 𝑒́ 𝑞𝑢𝑒 𝑜 𝑝𝑙𝑎𝑛𝑒𝑡𝑎 𝑁𝐴̃𝑂 𝑒𝑠𝑡𝑎́ 𝑒𝑚 𝑝𝑒𝑟𝑖𝑔𝑜. … 𝑂 𝐶𝑂2 𝑎𝑡𝑚𝑜𝑠𝑓𝑒́𝑟𝑖𝑐𝑜 𝑒 𝑜 𝑚𝑒𝑡𝑎𝑛𝑜 𝑡𝑒̂𝑚 𝑢𝑚 𝑒𝑓𝑒𝑖𝑡𝑜 𝑖𝑛𝑠𝑖𝑔𝑛𝑖𝑓𝑖𝑐𝑎𝑛𝑡𝑒 𝑛𝑜 𝑐𝑙𝑖𝑚𝑎.
𝐴𝑡𝑒́ 𝑎𝑔𝑜𝑟𝑎, 𝑖𝑑𝑒𝑛𝑡𝑖𝑓𝑖𝑐𝑎́𝑚𝑜𝑠 𝑡𝑜𝑡𝑎𝑙𝑚𝑒𝑛𝑡𝑒 𝑚𝑎𝑙 𝑞𝑢𝑎𝑙 𝑒́ 𝑜 𝑝𝑟𝑜𝑐𝑒𝑠𝑠𝑜 𝑑𝑜𝑚𝑖𝑛𝑎𝑛𝑡𝑒 𝑛𝑜 𝑐𝑜𝑛𝑡𝑟𝑜𝑙𝑜 𝑑𝑜 𝑐𝑙𝑖𝑚𝑎, 𝑒 𝑡𝑜𝑑𝑜𝑠 𝑜𝑠 𝑣𝑎́𝑟𝑖𝑜𝑠 𝑚𝑜𝑑𝑒𝑙𝑜𝑠 𝑏𝑎𝑠𝑒𝑖𝑎𝑚-𝑠𝑒 𝑒𝑚 𝑓𝑖́𝑠𝑖𝑐𝑎 𝑖𝑛𝑐𝑜𝑚𝑝𝑙𝑒𝑡𝑎 𝑒 𝑖𝑛𝑐𝑜𝑟𝑟𝑒𝑐𝑡𝑎.
𝑂 𝑝𝑟𝑜𝑐𝑒𝑠𝑠𝑜 𝑑𝑜𝑚𝑖𝑛𝑎𝑛𝑡𝑒 𝑒́ “𝑜 𝑚𝑒𝑐𝑎𝑛𝑖𝑠𝑚𝑜 𝑑𝑜 𝑡𝑒𝑟𝑚𝑜𝑠𝑡𝑎𝑡𝑜 𝑑𝑒 𝑟𝑒𝑓𝑙𝑒𝑥𝑖𝑣𝑖𝑑𝑎𝑑𝑒 𝑑𝑎 𝑛𝑢𝑣𝑒𝑚-𝑙𝑢𝑧 𝑠𝑜𝑙𝑎𝑟.
𝐴𝑠 𝑛𝑢𝑣𝑒𝑛𝑠 𝑠𝑎̃𝑜 𝑡𝑜𝑑𝑎𝑠 𝑏𝑟𝑎𝑛𝑐𝑎𝑠 𝑒 𝑏𝑟𝑖𝑙ℎ𝑎𝑛𝑡𝑒𝑠 𝑒 𝑟𝑒𝑓𝑙𝑒𝑡𝑒𝑚 90% 𝑑𝑎 𝑙𝑢𝑧 𝑠𝑜𝑙𝑎𝑟 𝑑𝑒 𝑣𝑜𝑙𝑡𝑎 𝑎𝑜 𝑒𝑠𝑝𝑎𝑐̧𝑜, 𝑡𝑜𝑟𝑛𝑎𝑛𝑑𝑜-𝑎𝑠 𝑜 𝑎𝑠𝑝𝑒𝑐𝑡𝑜 𝑚𝑎𝑖𝑠 𝑐𝑟𝑢𝑐𝑖𝑎𝑙, 𝑝𝑜𝑟𝑒́𝑚 𝑚𝑎𝑖𝑠 𝑛𝑒𝑔𝑙𝑖𝑔𝑒𝑛𝑐𝑖𝑎𝑑𝑜, 𝑑𝑜 𝑠𝑖𝑠𝑡𝑒𝑚𝑎 𝑐𝑙𝑖𝑚𝑎́𝑡𝑖𝑐𝑜.
𝐷𝑜𝑖𝑠 𝑡𝑒𝑟𝑐̧𝑜𝑠 𝑑𝑎 𝑇𝑒𝑟𝑟𝑎 𝑠𝑎̃𝑜 𝑜𝑐𝑒𝑎𝑛𝑜𝑠. 𝑆𝑜́ 𝑜 𝑂𝑐𝑒𝑎𝑛𝑜 𝑃𝑎𝑐𝑖́𝑓𝑖𝑐𝑜 𝑟𝑒𝑝𝑟𝑒𝑠𝑒𝑛𝑡𝑎 𝑚𝑒𝑡𝑎𝑑𝑒 𝑑𝑎 𝑇𝑒𝑟𝑟𝑎.
𝐴 𝑐𝑜𝑏𝑒𝑟𝑡𝑢𝑟𝑎 𝑚𝑒́𝑑𝑖𝑎 𝑑𝑒 𝑛𝑢𝑣𝑒𝑛𝑠 𝑛𝑎 𝑇𝑒𝑟𝑟𝑎 𝑒́ 𝑑𝑒 67%; 𝑐𝑒𝑟𝑐𝑎 𝑑𝑒 50% 𝑠𝑜𝑏𝑟𝑒 𝑎 𝑡𝑒𝑟𝑟𝑎 𝑒 75% 𝑠𝑜𝑏𝑟𝑒 𝑜𝑠 𝑜𝑐𝑒𝑎𝑛𝑜𝑠.
𝐴𝑓𝑖𝑟𝑚𝑜 𝑞𝑢𝑒 𝑎𝑠 𝑝𝑟𝑜𝑝𝑟𝑖𝑒𝑑𝑎𝑑𝑒𝑠 𝑐𝑜𝑛𝑠𝑝𝑖́𝑐𝑢𝑎𝑠 𝑑𝑎𝑠 𝑛𝑢𝑣𝑒𝑛𝑠 𝑠𝑎̃𝑜 𝑎 𝑝𝑎𝑟𝑡𝑒 𝑞𝑢𝑒 𝑓𝑎𝑙𝑡𝑎 𝑛𝑜 𝑞𝑢𝑒𝑏𝑟𝑎-𝑐𝑎𝑏𝑒𝑐̧𝑎.
𝑷𝒐𝒔𝒔𝒐 𝒂𝒇𝒊𝒓𝒎𝒂𝒓 𝒄𝒐𝒎 𝒎𝒖𝒊𝒕𝒂 𝒄𝒐𝒏𝒇𝒊𝒂𝒏𝒄̧𝒂 𝒒𝒖𝒆 𝒏𝒂̃𝒐 𝒉𝒂́ 𝒆𝒎𝒆𝒓𝒈𝒆̂𝒏𝒄𝒊𝒂 𝒄𝒍𝒊𝒎𝒂́𝒕𝒊𝒄𝒂”.

O que John Clauser diz está errado. Não tem um artigo de revisão entre pares em questões de alterações climáticas e ainda: Anton Zeilinger, que venceu o Nobel com ele, afirma categoricamente, que Clauser não é um perito em alterações climáticas. 

Robin Monotti não tem credibilidade! A desinformação tem que ser travada. E mais, este negacionismo radical existe entre os membros dos partidos Chega e Iniciativa Liberal.

Aqui as respostas ao texto de Clauser, por 2 cientistas do clima, que estudam há anos esta questão:

1. Michael Mann, cientista climático da Universidade da Pensilvânia, disse que o argumento é “puro lixo” e “pseudociência”.
A “melhor evidência disponível” mostra que as nuvens realmente têm um efeito líquido de aquecimento, disse Mann por e-mail. “Em física, chamamos isso de ‘erro de sinal’ – é o tipo de erro que um calouro tem vergonha de ser apanhado ao cometê-lo”, disse ele.

2. Andrew Dessler, professor de ciências atmosféricas na Texas A&M University, concorda.
“As nuvens amplificam o aquecimento”, disse Dessler num e-mail, acrescentando: “A comunidade científica passou o último século a estudar [as alterações climáticas] e, neste momento, praticamente tudo o que está a acontecer foi previsto. John Clauser e sua turma ignoram isso porque não estão apresentando críticas científicas sérias.”

Se seguirem o link do realizador italiano na rede X vão dar de caras com a rede Deposit of Faith Coalition, ultra-católica, extrema-direita norte-americana. 

Saber mais:

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

I wasn't worried about climate change. Now I am. ECS: Equilibrium Climate Sensitivity


In this video I explain what climate sensitivity is and why it is important. Climate sensitivity is a number that roughly speaking tells us how fast climate change will get worse. A few years ago, after various software improvements, a bunch of climate models began having a much higher climate sensitivity than previously. Climate scientists have come up with reasons for why to ignore this. I think it's a bad idea to ignore this. 
The quiz for this video is here

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Documentário - Os Doze (The Twelve, por Le Ciel Foundation, 2019)


Versão Original (English version) here aqui


Doze líderes espirituais de povos indígenas de várias partes do mundo e de sabedorias ancestrais juntaram-se em novembro de 2017 na sede da ONU em Nova Iorque. Este filme dá-lhes a oportunidade de dizerem a sua verdade e de deixar o mundo saber, para o benefício de todos. É também um filme marcante porque salienta como as tradições de sabedoria podem ser uma fonte incrível de inspiração e soluções para nós e para a nossa sociedade moderna. 

Cada um dos doze anciãos partilha uma sabedoria e um conhecimento há muito esquecidos da nossa ligação eterna e complexa com a Natureza e com toda a humanidade, lembrando-nos o que significa ser humano e como viver em harmonia uns com os outros e com a Natureza.

Este filme traz-nos muitas informações importantes. Que no fundo, se condensam numa única e mesma mensagem, profunda e simples; apenas a forma de expressão é diferente - Fazer a Paz com a Mãe Natureza.

Também é interessante a palestra de Perguntas e Respostas aos realizadores deste bonito documentário.

Um guião de entrevista também está disponível em Português.

Na poeira da politiquice da IKEA, dos Andrés Venturas desta vida, do António Costa, do Marcelo R. Sousa, do Miguel Albuquerque, Tranquada Gomes, Paulo Cafôfo, etc...não me dizem nada. O respeito pela Mãe Terra e a sabedoria dos anciãos é o meu enfoque.

Visite o site Le Ciel Foundation e inspire-se. 

domingo, 22 de outubro de 2023

Os eco-eventos e o plástico


Os ecoeventos estão na moda, mas será que são efetivamente eventos sustentáveis?!
No caso desta fotografia que foi partilhada nas redes sociais, vemos dezenas de copos que supostamente deveriam ser entregues e devolvida a sua taxa de uso.
Mas isso não aconteceu, foram descartados sem qualquer triagem! Um resíduo que se transformaria num novo recurso foi desperdiçado e deixado à deriva.
É nestes momentos que me pergunto, porquê? Porque é que o ser humano não entende a importância de um simples gesto

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

E se a crise Hamas-Israel ganhasse outra dimensão geográfica? O impacto na economia mundial poderia ser catastrófico


Com o conflito militar em curso na Ucrânia, e depois da pandemia de covid-19, desponta mais uma tragédia mundial: a guerra Hamas-Israel.
Nesta fase, como consequência do ataque inicial do Hamas e da resposta de Israel, são já milhares de vidas perdidas.
No plano económico, ainda antes do conflito Hamas-Israel, o contexto global era já de muita imprevisibilidade e apreensão. Ao contrário do que podia parecer, a economia mundial mantinha-se em suspenso e submetida a um elevado grau de instabilidade. O atual corte na produção de petróleo, estrategicamente levado a cabo pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo e seus aliados, é um importante impulsionador da inflação. Por outro lado, a suspensão do acordo do Mar Negro, que impacta muito negativamente nos mercados de cereais, também configura um problema central à escala mundial. Com os preços dos combustíveis e dos cereais sob stress permanente, o ressurgimento da inflação manter-se-á latente. As partes que dominam petróleo, gás e cereais têm o poder de regular a estabilidade global.
Com a guerra Hamas-Israel, o enquadramento económico global agrava-se ainda mais. A agência de notícias financeiras norte-americana Bloomberg coloca em equação três cenários possíveis.
No caso de conflito permanecer confinado ao território palestiniano, o impacto nos preços do petróleo e na economia mundial será “reduzido”. Recorda-se que o recente desagravamento das relações entre EUA e Irão permitiu a este último aumentar significativamente a produção diária de petróleo. No entanto, como Teerão tem apoiado declaradamente grupos islâmicos que se opõem a Israel, qualquer envolvimento iraniano no ataque do Hamas a Israel poderia desencadear um confronto bélico de escala muito superior. Neste caso, o reforço das sanções dos EUA ao petróleo do Irão poderia penalizar os mercados mundiais em cerca de 700 mil barris desta matéria-prima por dia. Se assim fosse, segundo a Bloomberg, registar-se-ia um aumento estimado de três a quatro dólares nos preços do petróleo. O PIB mundial diminuiria 0,1 pontos percentuais. O impacto na inflação seria de 0,1 p.p.
Já se o conflito alastrasse ao Líbano e à Síria, o choque económico seria bastante mais significativo. O Irão apoia alguns grupos importantes nestes dois países. Um destes grupos é a organização política e paramilitar fundamentalista islâmica Hezbollah. O Hezbollah tem um papel central no Líbano. Com Líbano e Síria geograficamente envolvidos no atual confronto, as estimativas da Bloomberg apontam para uma subida de oito dólares no preço do barril de petróleo. O PIB mundial cairia 0,3 p.p. e a inflação registaria um aumento de 0,2 pontos percentuais.
Já um cenário ainda mais grave, de confronto militar direto entre Irão e Israel, poderia originar uma recessão global. A ameaça nuclear e a proximidade política e estratégica entre Irão e Rússia são dois pressupostos alarmantes. Por outro lado, a desestabilização efetiva de todo o Médio Oriente seria um acontecimento de consequências imprevisíveis e potencialmente catastróficas. Neste caso, segundo a Bloomberg, assistir-se-ia a um aumento de sessenta e quatro dólares no preço do barril de petróleo, a uma queda de 1,0 p.p. no PIB mundial e a um acréscimo de 1,2 pontos percentuais na inflação à escala global.
Independentemente dos três cenários traçados pela Bloomberg, o confronto Hamas-Israel é mais um acontecimento mundial que impulsiona a incerteza económica e financeira. Por esta razão, a volatilidade dos mercados começou já a fazer-se sentir.

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

Steven Koonin on The Limitations of Climate Change Models


Steven Koonin reviews the state of climate science, focusing on data trends, climate models, and the uncertainties involved. He highlights issues with climate models, including their high sensitivity and inability to accurately reproduce historical temperature changes, cautioning against relying on inaccurate model projections.

To learn more about the Hoover Summer Policy Boot camp

sábado, 7 de outubro de 2023

O calor pode não matar você, mas a crise alimentar global pode!

Quando as marretas chegarem aos nossos pratos vamos perceber. As pedras passam a constar nas ementas dos restaurantes Michelin que é um mimo!

Uma conversa com Kongjian Yu, vencedor do prémio de Arquitetura Paisagista


Vencedor do Prémio Nacional de Design de Arquitetura Paisagista 2023, Kongjian Yu é um paisagista reconhecido mundialmente, fundador da Turenscape e da Faculdade de Arquitetura e Paisagismo da Universidade de Pequim. Várias das ideias centrais de Yu para as adaptações climáticas baseadas na natureza, incluindo o conceito de cidade-esponja, foram implementadas em toda a China. Nesta palestra ilustrada, Yu irá discutir o seu trabalho e como os seus métodos e ideias de arquitetura paisagista podem ajudar a mitigar eventos climáticos como inundações repentinas, supertempestades e marés altas

quarta-feira, 23 de agosto de 2023

What the Fossil Fuel Industry Doesn't Want You To Know


Numa palestra emocionante, o Prémio Nobel Al Gore analisa os dois principais obstáculos às soluções climáticas e dá a sua opinião sobre como poderemos realmente resolver a crise ambiental a tempo. Não vai querer perder a sua dura acusação às empresas de combustíveis fósseis por retrocederem nos seus compromissos climáticos - e o seu apelo a uma repensação global dos papéis das indústrias poluentes na política e nas finanças.

Countdown é a iniciativa global do TED para acelerar soluções para a crise climática. O objetivo: construir um futuro melhor, reduzindo para metade as emissões de gases com efeito de estufa até 2030, na corrida para um mundo com zero emissões de carbono. Envolva-se em  Countdown