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quarta-feira, 8 de julho de 2026

Haaland versus Ronaldo


Haaland compra o livro mais caro da história da Noruega para doar a biblioteca pública

O avançado do Manchester City adquiriu uma obra rara de 1594 sobre as sagas dos reis nórdicos por cerca de 116 mil euros (1,3 milhões de coroas norueguesas). O jogador impôs apenas uma condição: que o livro fique exposto ao público.

Muita gente imaginou que Erling Haaland compraria um artigo histórico tão raro para o manter na sua coleção privada. Mas o jogador fez exatamente o oposto. Ao lado do pai, Alf-Inge Haaland, o avançado adquiriu a única cópia conhecida da edição de 1594 de "Heimskringla", uma das obras mais importantes da história da Noruega.

O livro reúne as famosas sagas dos reis noruegueses, escritas originalmente pelo historiador islandês Snorri Sturluson no século XIII. A obra foi arrematada num leilão por cerca de 1,3 milhões de coroas norueguesas — aproximadamente 116 mil euros —, tornando-se o livro mais caro alguma vez vendido na história do país.

Em vez de o guardar, Haaland decidiu doá-lo à biblioteca pública de Bryne, a cidade onde cresceu. A exigência foi apenas uma: que o livro permaneça exposto ao público para que qualquer pessoa possa conhecer essa parte da história da nação.

"Nunca fui um grande leitor, mas quero que o livro esteja sempre disponível para que as pessoas possam ler sobre aqueles que vieram da minha terra, de Bryne e Jæren. É mais fácil sentirmos atração pela leitura quando nos conseguimos rever nas pessoas e nos lugares sobre os quais se escreve", afirmou Haaland em comunicado.

Além da doação, a fundação do jogador criou um projeto de incentivo à leitura direcionado para as escolas do município. A partir do ano letivo de 2026/2027, os estudantes da região participarão numa competição de leitura, e as turmas vencedoras ganharão uma viagem a Oslo para assistir a um jogo da seleção da Noruega no estádio Ullevaal, com a oportunidade de conhecer o próprio Haaland.

O avançado explicou ainda a sua motivação por trás da iniciativa: "Tive a sorte de realizar o meu sonho através do futebol, e sei que nem todos têm essa oportunidade. Os livros dão a muito mais pessoas a oportunidade de sonhar em grande, ver novas possibilidades e encontrar o seu próprio caminho."

A iniciativa foi amplamente elogiada na Noruega por unir desporto, educação e preservação da história nacional, transformando um objeto de valor milionário num património acessível a toda a comunidade.

Notícia original

Um pouco sobre a  história do livro

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Dia Internacional da Língua Materna


Celebrado anualmente em 21 de fevereiro, o Dia Mundial da Língua Materna é muito mais do que uma data no calendário; é um lembrete de que o idioma que aprendemos no colo dos nossos pais é a base da nossa identidade, cultura e forma de ver o mundo.

A data foi proclamada pela UNESCO em 1999 e oficializada pela ONU em 2002.

Sabia que? O idioma Ubykh (Turquia), extinto em 1992, tinha um dos sistemas sonoros mais complexos do mundo. Com a sua morte, sons que o ser humano era capaz de produzir perderam-se para sempre na prática quotidiana.

O desaparecimento acelerado de idiomas no século XXI representa uma das maiores crises de património imaterial da humanidade. Segundo o relatório Ethnologue (2025/2026), aproximadamente 40% das 7.168 línguas catalogadas no mundo estão em risco de extinção, um fenómeno impulsionado pela globalização económica e pela hegemonia de idiomas transnacionais. O World Atlas of Languages da UNESCO (2025) reforça que esta perda não é meramente vocabular, mas sim a erosão de sistemas de conhecimento ecológico, histórico e espiritual únicos. No contexto da Década Internacional das Línguas Indígenas (2022-2032), o foco global deslocou-se da simples documentação passiva para a revitalização ativa, onde o uso da língua materna na educação básica é apontado como o fator determinante para a sobrevivência de uma cultura.
A tecnologia tem desempenhado um papel ambivalente neste cenário. Se, por um lado, o mundo digital exclui línguas sem representação escrita ou técnica, por outro, surgem ferramentas inovadoras de salvaguarda. Projetos como o Woolaroo, do Google Arts & Culture, utilizam inteligência artificial para identificar objetos através da câmara e traduzi-los instantaneamente para idiomas ameaçados, como o Ibibio ou o Maia, criando uma ponte visual para as novas gerações. Outras plataformas, como o Indigenous Languages Digital Archive (ILDA) e a aplicação FirstVoices, permitem que comunidades isoladas criem os seus próprios dicionários de áudio e jogos educativos, garantindo que a fonética correta seja preservada mesmo quando o número de falantes nativos é reduzido.
A nível bibliográfico, os estudos de Crystal (2000) em Language Death continuam a ser a base teórica para compreender porque é que as línguas morrem, mas são os relatórios anuais da UNESCO (2024, 2025) que traçam o mapa atualizado da urgência. Estes documentos sublinham que a "morte" de uma língua ocorre habitualmente em três gerações: quando os avós a falam, os pais a entendem mas não a praticam, e os filhos a desconhecem por completo. Portanto, as ferramentas de gamificação e os arquivos digitais de livre acesso tornam-se, em 2026, as principais armas contra o silenciamento cultural, transformando dispositivos móveis em veículos de resistência linguística.

Referências e Relatórios Consultados:
Crystal, D. (2000). Language Death. Cambridge University Press.
Eberhard, D. M., Simons, G. F., & Robinson, A. J. (Eds.). (2026). Ethnologue: Languages of the World (29th ed.). 
UNESCO (2025). World Atlas of Languages: Global Status Report on Linguistic Diversity. 
United Nations (2022). Global Action Plan of the International Decade of Indigenous Languages (2022–2032).

Como estamos em Portugal, a análise do nosso território revela um contraste fascinante e preocupante entre a homogeneidade do português padrão e a resistência de pequenos enclaves linguísticos que lutam pela sobrevivência em 2026.

O Caso do Noroeste e Nordeste de Portugal
No interior de Portugal, a erosão linguística está diretamente ligada à desertificação humana. O Mirandês, a única língua regional oficialmente reconhecida (Lei n.º 7/99), entrou num período crítico. Segundo os relatórios mais recentes de monitorização da Associação de Língua e Cultura Mirandesa (ALCM) e estudos da Universidade de Coimbra (2025), o número de falantes nativos fluentes desceu para menos de 5.000 pessoas. Embora o Mirandês seja ensinado nas escolas de Miranda do Douro, o desafio em 2026 é a "interrupção da transmissão geracional": os avós falam, mas os jovens, embora o entendam, optam pelo português no ambiente digital e social.

Mais a sul, na zona de Castelo Branco e Alentejo, temos casos de micro-línguas ou dialetos em estado terminal:

Minderico (Minde): Originalmente uma gíria de comerciantes (piação), evoluiu para uma língua complexa. Hoje, é classificada pela UNESCO como "criticamente em perigo", restando apenas algumas dezenas de falantes que dominam o léxico completo.

Barranquenho (Barrancos): Situado na fronteira, este idioma funde elementos do português e do espanhol (extremenho e andaluz). Em 2021, foi reconhecido como património cultural, mas a pressão dos meios de comunicação de massa em português padrão continua a diluir a sua pureza fonética.

O Contraste com a Amazónia (Brasil)
Se em Portugal o risco é a assimilação cultural, na Amazónia o risco é a extinção física e territorial. O Brasil abriga cerca de 180 línguas indígenas, mas o relatório "Línguas em Trânsito" (2025) indica que a maioria delas possui menos de 1.000 falantes.

Línguas Isoladas: Grupos como os Pirahã mantêm uma língua única, sem números ou cores abstratas, que desafia as teorias linguísticas de Noam Chomsky. Contudo, a pressão do garimpo ilegal e a desflorestação forçam o contacto, o que historicamente leva à rápida substituição da língua nativa pelo português por necessidade de sobrevivência.

Resistência Digital: Em 2026, assistimos a um fenómeno inverso: o uso de redes sociais (TikTok e Instagram) por jovens indígenas (como os das etnias Guajajara ou Puyanawa) para criar conteúdos nos seus idiomas originais. Esta "re-gramatização" digital está a despertar o interesse dos adolescentes pela língua dos avós, transformando o telemóvel numa ferramenta de orgulho identitário.


Bibliografia e Documentação Específica:
Ferreira, M. B. (2024). O Mirandês no Século XXI: Entre a Escola e a Rua. Coimbra: Almedina.
Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional - IPHAN (2025). Inventário Nacional da Diversidade Linguística: Foco Amazónia.
Relatório ALCM (2026). Estado da Língua Mirandesa: Censo e Vitalidade. 
UNESCO (2025). Interactive Atlas of the World's Languages in Danger (Edição Digital 2026).
Relatório ALCM (2026). Estado da Língua Mirandesa: Censo e Vitalidade.

sábado, 18 de outubro de 2025

As burcas e o nicabe - um não assunto, apenas mais uma vez o discurso de ódio do partido fascista Chega


As burcas, a islamofobia, o ataque ao "estrangeiro". 
1º - Não é permitido em Portugal, andar com a cara tapada. Esta lei do Chega, é apenas apontar dedos a muçulmanos.
2º -Em Portugal a Lei da Sharia não é reconhecida, logo o uso destas indumentárias não se admite, pois os nossos costumes assim não o obrigam.
3º-Não tem havido multas, nos casos de motards com lenços a ver-se só os olhos, ou gorros encapuzados (se calhar para fins de assalto, ou diversão, apenas)
4º - Ainda nos anos 60, do séc. XX, as mulheres portuguesas cobriam-se de véus: coca, capelo  e biocos. Enfim.
Sejamos claros e honestos!
Esta crise do ódio é insana e entramos em insegurança e medo do outro. 
Um livro muito bom que acabei de ler e aconselho.

A Primeira Biblioteca da Humanidade
Quando arqueólogos victorianos escavaram uma colina no Iraque, fizeram uma descoberta extraordinária: uma das mais antigas coleções de conhecimento alguma vez vistas — a biblioteca do rei assírio Assurbanípal, governante do império mesopotâmico no século VII a.C. Após a sua morte, rivais vingativos reduziram a biblioteca a cinzas; no entanto, os textos, gravados em tabuinhas de argila, foram cozidos e preservados pelo calor das chamas. Enterradas durante milénios, estas tabuinhas estavam cinzeladas em cuneiforme: a primeira linguagem escrita do mundo.
Mais de metade da História da Humanidade está redigida em cuneiforme, mas, actualmente, apenas algumas centenas de pessoas conseguem lê-lo. Neste livro fascinante, a assirióloga Selena Wisnom conduz-nos numa viagem por esta extraordinária biblioteca, dando vida à antiga Mesopotâmia e ao seu povo. Através dela, descobrimos a primeira grande civilização da Humanidade — o berço da matemática, da astronomia e dos primeiros sistemas bancários, do direito e da literatura. Foi uma cultura que influenciou os antigos gregos e cujos mitos foram precursores de histórias bíblicas — em suma, uma civilização sem a qual a nossa vida actual seria irreconhecível.

quinta-feira, 10 de julho de 2025

Suécia abandona educação digital: retorno aos livros impressos na escola


Gesto e política louvável: a Suécia, único país que, desde a década de 1990, buscou implementar a educação 100% digital nas escolas, voltou atrás e decidiu investir, ao longo de 2023, 45 milhões de euros na distribuição de livros didáticos impressos.

A leitura e os livros trazem uma série de vantagens para o desenvolvimento pessoal, intelectual e emocional. Aqui estão as principais:

1. Expansão do conhecimento
Livros são fontes ricas de informação e sabedoria.
Permitem aprender sobre qualquer tema: ciência, história, arte, psicologia, entre outros.

2. Estimulação mental
Ler exercita o cérebro, melhora a memória e previne o declínio cognitivo.
A leitura regular está associada a maior agilidade mental.

3. Redução do stress
Ler um bom livro pode funcionar como uma forma de escapismo saudável.
A imersão numa história ajuda a relaxar e a desligar-se das preocupações do dia a dia.

4. Melhoria do vocabulário e da comunicação
Quanto mais se lê, mais palavras se aprende.
A leitura melhora a capacidade de expressão oral e escrita.

5. Desenvolvimento do foco e da concentração
Ler exige atenção contínua, o que treina a capacidade de concentração num mundo cheio de distrações.

6. Abertura para novas perspectivas
Os livros permitem viver outras vidas, conhecer culturas e realidades diferentes.
Aumentam a empatia e a compreensão do mundo.

7. Estímulo à criatividade e imaginação
Especialmente em crianças, a leitura desenvolve a imaginação e incentiva a criação de novas ideias.

8. Uso produtivo do tempo
Em vez de gastar tempo com conteúdos superficiais, a leitura oferece crescimento pessoal e intelectual.

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

Facistol


Na Biblioteca Palafoxiana de Puebla, México, é preservado um Facistol, que é uma ferramenta de biblioteca com 300 anos, que permitia aos pesquisadores manter abertos até sete livros simultaneamente, mantendo-os à mão e organizados. Este engenhoso dispositivo facilitou o estudo comparativo e a pesquisa extensiva, proporcionando acesso prático a vários textos ao mesmo tempo, refletindo um notável avanço na gestão de recursos bibliográficos no século XVIII.

terça-feira, 9 de abril de 2024

Petição Criação da Ordem dos Geólogos (2024)

Para: Ex.mo Sr. Presidente da Assembleia da República

Os geólogos são profissionais com formação superior específica no vasto domínio da geologia, debruçando-se, nomeadamente, no estudo do solo, do subsolo, dos processos geológicos ativos e daqueles que ocorreram ao longo da história da Terra. Atuam, igualmente, no âmbito do ordenamento e planeamento do território, na exploração e gestão sustentável dos recursos naturais, e na prevenção e mitigação dos riscos geológicos. O desempenho da profissão de geólogo está dependente do conhecimento geológico do território, sendo este de importância estratégica para o desenvolvimento socioeconómico do país. Estes profissionais contribuem para a obtenção de soluções sustentáveis para muitos dos grandes problemas sociais, económicos e ambientais que a Sociedade enfrenta, tais como as mudanças climáticas, a transição energética, a escassez hídrica e o declínio dos ecossistemas.

A profissão de geólogo tornou-se, nas últimas décadas, complexa e muito diversificada devido à sua ligação com outras profissões numa grande variedade de domínios de atividade, nomeadamente, nos sectores das indústrias de construção, extrativa e energética, do ordenamento do território, da gestão ambiental, bem como da prestação de serviços especializados ao Estado e às empresas. Atua, ainda, nos setores da proteção ambiental e societal. Ou seja, o geólogo é um especialista com um olhar único na proteção e gestão sustentável do nexo solo-água-energia-alimentos-património, tão destacado, por exemplo, pela ONU – Organização das Nações Unidas, FAO - Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, e UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. Tem, também, um papel determinante na dinamização da geologia espacial dos programas da AEP - Agência Espacial Portuguesa, ESA – Agência Espacial Europeia e NASA - Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço (Estados Unidos da América).

Neste quadro complexo, mas desafiante, os geólogos defendem a necessidade da criação de uma associação pública profissional, assentando esta aspiração em quatro pontos fundamentais:

1) A necessidade de uma cabal regulação da profissão, visando definir os requisitos e as qualificações profissionais, o âmbito da profissão e a exigência dos respetivos atos profissionais, levando à atribuição de uma certificação através de uma cédula profissional, elevando assim os mais exigentes padrões na prática do geólogo profissional englobando todos os princípios éticos e de probidade técnica que acarretam;

2) A necessidade de dispor de um código de princípios deontológicos e de dispositivos jurídico-disciplinares adequados à defesa da independência do julgamento profissional;

3) A necessidade de criar condições que permitam o reconhecimento das qualificações e requisitos profissionais em condições de reciprocidade com instituições homólogas nacionais e estrangeiras, visando garantir o exercício da atividade profissional dos geólogos portugueses dentro e fora do espaço europeu;

4) A verificação do cumprimento de requisitos profissionais deve ser confiada aos próprios geólogos constituídos em associação pública profissional, dado que, face à atual complexidade desta atividade profissional, estão mais bem apetrechados para a realizar, compatibilizando a liberdade de acesso e de exercício da profissão, e a ponderação do interesse público.

A estreita relação entre a natureza da profissão e o interesse público emerge com clareza do simples enunciado de algumas das áreas mais paradigmáticas da intervenção profissional dos geólogos:

a) Planeamento territorial e georrecursos: estudos de cartografia geológica sistemática do país, realizada a várias escalas, implementação e gestão de bases de dados digitais da cartografia geológica, dos recursos geológicos, hidrogeológicos e geotérmicos, entre outros. Apoio à execução de cartografia temática e com fins diversos que incluem uma perspetiva agronómica, agrícola, geotécnica, hidrológica, territorial e de risco natural/geológico. De facto, o território é um agente de transformação a ser conhecido e gerido de uma forma ambientalmente sustentável e de interligação com todos os agentes envolvidos, incluindo as comunidades e os ecossistemas;

b) Riscos naturais, segurança e proteção civil: previsão e prevenção de riscos naturais visando a minimização dos desastres, a proteção da vida humana e a limitação de danos (identificação das falhas sísmicas e zonamento do perigo sísmico das regiões e dos sítios, contribuição na engenharia sísmica geotécnica, monitorização da atividade vulcânica, controlo da erosão, da estabilidade de taludes, das encostas e das arribas de praia ou adjacentes a outros espaços públicos, entre outros);

c) Análise de riscos na construção e economia das grandes obras: estudo e avaliação das condições geológico-geotécnicas para o projeto e construção das grandes obras de engenharia e identificação dos riscos financeiros, bem como de problemas de desempenho induzidos por causas geológicas (a derrapagem do custo final das grandes obras está frequentemente relacionada com a falta ou com a insuficiência de estudos de geologia de engenharia);

d) Ambiente, água, território e adaptação às mudanças climáticas: prospeção, pesquisa, captação e proteção de águas subterrâneas; contributo para a avaliação, proteção e gestão sustentável dos recursos hídricos e recursos hidrominerais, a várias escalas; avaliação da radioatividade natural; estudos sobre o uso sustentável do solo; prevenção e mitigação de riscos naturais ou tecnológicos; remediação de solos e águas contaminadas, monitorização da erosão costeira, restauro da natureza, gestão da geodiversidade, entre outros;

e) Gestão sustentável e proteção dos recursos naturais: prospeção, avaliação e extração dos recursos minerais numa base eco-eficiente (metálicos estratégicos e não-metálicos); estudo, caracterização e gestão de geomateriais; colaboração na exploração e gestão dos recursos energéticos (como a geotermia); conservação do património geológico e valorização do geoturismo;

f) Saúde pública e geologia: prevenção dos riscos de contaminação dos solos e das águas subterrâneas, com base no estudo dos sistemas aquíferos, da sua vulnerabilidade e dos processos de propagação dos contaminantes; estudo da contaminação dos solos e dos métodos de descontaminação; avaliação do risco de exposição da radioatividade natural; estudos e o papel da geologia médica nos solos-alimentos-água; o papel terapêutico e de bem-estar dos recursos hidrominerais; contributos dos recursos hidrominerais em produtos farmacêuticos e dermocosméticos, entre outros temas;

g) Geologia marinha e reconhecimento dos fundos oceânicos da Zona Económica Exclusiva (ZEE) de Portugal: o nosso país detém a maior ZEE da Europa, revestindo-se esta de grande valor estratégico e potencial base de um novo paradigma do desenvolvimento económico do país ligado à Economia do Mar e Oceanografia Geológica. Os geólogos têm um papel preponderante no estudo da geologia dos fundos marinhos, e no estudo, exploração e gestão dos valiosos recursos naturais localizados na ZEE. A geologia costeira é, igualmente, importante na gestão, valorização da zona costeira continental e insular, bem como para a valorização deste fantástico e frágil território de interface com o oceano;

h) Investigação, ensino e cultura: os geólogos têm um papel extremamente relevante quer nas atividades de investigação, desenvolvimento e inovação em equipas inter, multi e transdisciplinares, quer no ensino básico, secundário e superior, bem como na formação de cidadãos cultos e informados. É, igualmente, relevante a sua participação em programas de astrogeologia para a difusão da geologia planetária, promovidos pela AEP e ESA. Os geólogos têm, também, um papel pertinente na difusão e disseminação de uma literacia e cultura geocientífica esclarecida direcionada aos cidadãos, através de programas e iniciativas de divulgação científica.

Assim, tendo em conta a defesa dos direitos fundamentais dos cidadãos, a salvaguarda do interesse público e a correlativa necessidade de autorregulação da profissão de Geólogo, assinamos esta petição solicitando à Assembleia da República a criação da Ordem dos Geólogos.

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Universitários leem mais nas redes sociais do que nos sites noticiosos


Uma equipa de investigadores levou a cabo um projeto que pretendia conhecer os "Hábitos de Leitura dos Estudantes do Ensino Superior", mas num universo de quase 180 mil alunos de universidades e institutos politécnicos portugueses, responderam apenas 1.982 estudantes de nove universidades.

"Estes resultados não são representativos dos hábitos de leitura", salientou Filomena Oliveira, sub-diretora geral da Direção-Geral de Estatísticas de Educação e Ciência (DGEEC), explicando que o estudo apresentado esta terça-feira na Fundação Calouste Gulbenkian acaba por ser apenas um "exercício piloto", apelando a "um maior envolvimento das Instituições de Ensino Superior" (IES) nos próximos estudos.

Apesar de não se poder extrapolar, mais de 90% dos inquiridos disseram ter hábitos de leitura sem fins académicos, lendo livros, jornais, revistas ou textos online.

"Entre as quatro modalidades de leitura possível, os textos online são os mais lidos (74%) e as revistas as menos escolhidas" (33%), contou Filomena Oliveira, acrescentando que os alunos usam sobretudo meios digitais (mais de 70%), sendo o papel a opção mais apontada para querem ler um livro.

É nas redes sociais que os alunos mais procuram textos online para ler (81%) mas também procuram informação em sites noticiosos (78%).

Entre as redes sociais, o estudo aponta o Instagram como a mais procurada (82%), seguindo-se o X (ex-Twitter) e o Facebook, acrescentou a diretora-geral da DGEEC.

Metade dos alunos disse ler jornais, mas os sinais dos tempos mostram que a maioria (61%) já prefere o formato digital e apenas 7% ainda prefere o papel.

O inquérito quis saber também se os alunos liam as bibliografias académicas e concluiu que 29% leva as recomendações a sério, mas muitos (23%) ignoram as sugestões dos professores e nunca leram qualquer bibliografia.

Entre os obstáculos à leitura das bibliografias, aparece a falta de tempo mas também "o nível de dificuldade dos textos", sublinhou Filomena Oliveira.

As bibliotecas das instituições são espaços poucos usados, com menos de 30% dos alunos a usá-las e, na maioria dos casos, apenas para fazer trabalhos ou estudar ".

A apresentação do estudo contou com a presença da comissária do Plano Nacional de Leitura, Regina Duarte, do secretário de Estado do Ensino Superior, Pedro Nuno Teixeira, e da coordenadora do estudo e professora da Universidade de Coimbra, Cristina Robalo, que também criticou a dedicação das IES neste projeto, salientando apenas "honrosas exceções".

Além do pouco interesse mostrado pelas IES, Cristina Robalo apontou também os efeitos da pandemia e o tema do inquérito - focado nos "hábitos de leitura" - como motivos para dificultar a recolha de dados.

Saber mais:

domingo, 31 de dezembro de 2023

Livro para o último dia do ano: Jojo Meyes - As Mensageiras da Esperança

Determinação, coragem, alfabetizar os mais pobres e abrir os horizontes através dos livros e do gosto pela leitura é a conclusão geral quando terminei a leitura deste livro. Kentucky, à época da Grande Depressão, não era um estado fácil.

Esta leitura fez-me lembrar especialmente a série netflix «When Calls the Heart», a crise mineira, os inícios do século XX, as mulheres corajosas que têm de enfrentar tudo no mundo, muitas sozinhas, viúvas, cheias de filhos, fome e pobreza, solteironas e mulheres "diferentes", párias da sociedade.
Empregos, vidas, situações que é simples para um homem e tido como garantido, é extremamente difícil para uma mulher conseguir, que é tida como pertença do homem, mera máquina de ter filhos, de arrumar e lavar, e ai da mulher que se atreva a ser diferente ou a desafiar as pressões sociais, tais como a obrigatoriedade de ser casada e de ter filhos, caso contrário, se não se casar é uma rejeitada da sociedade, ou mesmo galdéria, e se não tem filhos não vale nada como mulher...

E o que mais me deliciou nesta leitura foi a irmandade das bibliotecárias a cavalo, amizade verdadeira, com as respectivas discussões, alegrias e tristezas, sem falsidades, os livros mencionados e o drama destas pequenas comunidades, pobres, incultas e muitos analfabetos, extremamente religiosos - a roçar o fanático - que olhavam para todos os livros que não fossem a Bíblia com desconfiança. Também me encantou a coragem destas mulheres de não só a percorrerem quilómetros sem fim, fizesse chuva ou sol, a cavalo, por trilhos muito perigosos, para irem aos locais remotos onde vivam os mais pobres para lhes levar livros, muitas vezes sendo maltratadas, ofendidas, mal recebidas, lidarem com a desconfiança e conseguirem dar a volta a estas pessoas para darem uma oportunidade à literatura, especialmente conseguirem a autorização dos pais para que os seus filhos pudessem ler livros, aprenderem a ler e incentivar a deixar os filhos irem à escola, é fabuloso, verdadeiramente mulheres com M grande!
Conheça a história verdadeira do Pack Horse Library Project
E uma inspiração para o novo ano.

sábado, 23 de dezembro de 2023

Livro do mês: "Aqualtune - A Princesa do Kongo" de Manuela Gonzaga


Livro impressionante! Muito bem escrito. Urgente lê-lo para nos pacificarmos com África, Imigrantes. Não mais racismo. Não mais levantar ódios e escrever a História com dignidade e justiça. 
Princesa guerreira. Um dos maiores símbolos de resistência e luta pela liberdade negra.

Aqualtune da Casa de Kinlaza foi uma princesa africana, filha do rei do Congo. No final do século XVI, a sua nação foi invadida por um grupo de mercenários e, apesar de Aqualtune comandar um grupo de cerca de 10 mil homens e mulheres contra os invasores, o seu povo foi derrotado.

Com a derrota, a princesa foi presa e levada para um mercado de escravos e, de lá, foi enviada para o Brasil.

Chegou ao Recife em 1597, mesmo ano em que um grupo de 40 negros fugidos chegou à Serra da Barriga, formando o primeiro núcleo do que seria o Quilombo dos Palmares.

Aqualtune foi vendida como escrava reprodutora e seguiu, já grávida, para uma fazenda na região de Porto Calvo. Foi nessa região que ouviu os primeiros relatos sobre um reduto de africanos livres e decidiu comandar uma fuga com destino a esse quilombo.

Com ascendência nobre e um histórico de comandar batalhas em sua terra natal, Aqualtune recebeu uma aldeia para comandar e ajudou a erguer o que seria “um império em meio à selva”, como definiu a jornalista Sandra Regina do Nascimento Santos, doutora em Ciências da Comunicação pela ECA-USP e autora do livro Brincando e ouvindo histórias, parte de uma coleção do Núcleo de Apoio à Pesquisa em Estudos Interdisciplinares sobre o Negro Brasileiro (NEINB), da USP.

Entre os filhos de Aqualtune estão os guerreiros Gamba Zumba e Gana Zona, e Sabina, mãe de Zumbi, o último líder do Quilombo dos Palmares.

A líder quilombola e avó de Zumbi dos Palmares desapareceu dos registros históricos em 21 de setembro de 1677, quando sua cidadela foi atacada, e não se sabe quando exatamente ela morreu. Na época do ataque, ela já era idosa.

Apesar de ser pouco lembrada pelos livros de História, Aqualtune foi uma figura muito importante para a história da população negra durante o período colonial. Ela simbolizou liderança e luta dentro do sistema escravocrata e passou isso adiante através de seus herdeiros e de seu comando no quilombo.

Os  membros do Partido Chega são  responsáveis por toda a violência mantendo sempre o discurso do medo aos imigrantes, ao afro-descendentes portugueses . Um estudo publicado na revista "Nature Human Behaviour" descobriu que as pessoas que foram expostas a discursos de ódio eram mais propensas a se envolver em comportamentos violentos, mesmo que não concordassem com o discurso.

Saber mais:

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

Saudades do Pedro Baptista

«O Oriente!
Haverá nome que melhor tenha soado aos ouvidos dos portugueses?
Não há, e com razão». Jaime do Inso (1932)

Hoje deu-me saudades do grande amigo meu, Pedro Baptista. Conhecemo-nos como colegas na Escola Secundária Garcia de Orta, no Porto. A empatia foi natural. Professor e doutorado em filosofia, cedo me contou a sua juventude. Antigo militante da extrema-esquerda, foi dirigente estudantil no Porto entre 1968 e 1971, cofundador do jornal “Grito do Povo” de oposição ao Estado Novo, preso político em 1973 e deportado para Angola, regressando a 1 de maio de 1974.
o Pedro fundou o único partido político que a cidade do Porto viu nascer até hoje. Chamou-o O Grito do Povo, marca que gravava em título de jornal a indignação de milhões de portugueses, esgotados de um regime ditatorial que esmagou o país.
Além de autor de obras como "Pessoas, Animais e Outros que Tais", "O Cavaleiro Azul" e "Ao Encontro do Halley", foi sempre politicamente ativo. Foi deputado à Assembleia da República, eleito pelo Porto, entre 1995 e 1999, pelo PS. Foi candidato do Partido Democrático do Atlântico (PDA), em 2011, pelo círculo do Porto. Ultimamente era deputado da Assembleia Municipal, eleito pelo movimento independente do presidente Rui Moreira.
Estudou profundamente um filósofo português antifascista e que se exilou no Brasil: Lúcio Alberto Pinheiro dos Santos (1889-1950), apresentado à Europa pelo filósofo e epistemólogo francês Gaston Bachelard (1884-1962). Foi o fundador da ritmanálise. O ritmo é a própria energia de existência em todas as escalas e assim o princípio unificador da física, da biologia e da psicologia. Tanto o universo como a própria vida assentam em sistemas rítmicos interactivos, desde as frequências regulares da radiação, passando pelo pulsar vital, até às oscilações do psiquismo humano, que esta nova forma de actividade criadora procura compreender e orientar. Entre 1923-26 Luís Pinheiro foi o Chefe dos Serviços de Educação da Índia Portuguesa. 
Amava a China. Muito falava da sua paixão por este País. Longas conversas tivemos sobre o orientalismo Português: Luís de Camões, Fernão Mendes Pinto, Camilo Pessanha, Marina Ondina Braga, os Jesuítas e o Japão. Creio que viveu um ou dois anos em Macau. Felizmente em vida concretizou o seu sonho de visitar a China. Fiquei muito feliz, por ele. Era um prazer estar com ele. Muito reservado em sua vida privada, não sei se deixou filhos.
Admirava-o muito também em como ele era um defensor acérrimo do património urbanístico e paisagístico onde (quase) sempre viveu, Nevogilde. Caramba, fazes falta!

sábado, 9 de dezembro de 2023

Bob Dylan


Bod Dylan tem muito mais poemas, assim, quase aforismos. Cada estrofe um tratado filosófico. Um letrista e poeta como poucos. E ainda por cima talentoso na voz e guitarra.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

Sobre a Literatura


Ler um livro não é só passar um tempo lúdico e prazeroso. Se é verdade que muitas vezes, como diz Pessoa, acabo de viver outra vida dentro de minha vida, a literatura vai mais além. A literatura, os romances, os livros modificam-nos mesmo. As escolhas que tomámos, dão-nos um novo olhar, mais tolerância, mais abertura de mundos, novas e intrigantes personalidades, que nos agitam, confrontam os nosso preconceitos. A literatura (a boa literatura) ajuda-nos a amar mais!

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

Livro - Cervantes Libertário


Este livro de Emilio Sola redescobre um Cervantes crítico do sistema social vigente à época, e amante da liberdade. Uma razão bastante para encontrarmos um Cervantes libertário que explica porque é que os anarquistas amam Cervantes

«A liberdade, Sancho, é um dos dons mais preciosos, que aos homens deram os céus: não se lhe podem igualar os tesouros que há na terra, nem os que o mar encobre; pela liberdade, da mesma forma que pela honra, se deve arriscar a vida, e, pelo contrário, o cativeiro é o maior mal que pode acudir aos homens.»

Cervantes, M. D. Quixote de La Mancha

“Alcançar a liberdade nesta vida” é um verso de Cervantes que contém em si todo um programa de vida e de ação para uma pessoa do seu tempo e de todos os tempos. Porque a riqueza de Cervantes reside precisamente na descoberta que cada geração dele faz à medida que evoluem novas sensibilidades, para além da mera erudição crítica dos Cervantes, sempre transbordando delas. Quatro dias antes de morrer, o próprio Cervantes disse: “os tempos não são os mesmos”, e que chegará um tempo em que as pessoas, amarrando os fios soltos e quebrados de suas histórias, verão o que ele quis dizer e, mais ainda, o que ele quis dizer, o que era apropriado dizer.

Este livro de Emilio Sola – historiador com obras fundamentais sobre questões fronteiriças e de informação na época de Cervantes, tanto no Mediterrâneo como no Extremo Oriente – é um convite precisamente a essa interpretação mais livre das obras de Cervantes, a uma leitura libertária. ou libertar que no seu tempo histórico - “os tempos não são os mesmos” - era inviável.

Para horror do sistema, dos casticistas, dos bem pensantes e politicamente corretos, a suspeita de um Cervantes anti-sistema, um cortesão impossível, caluniador de “trocas injustas e de lidar com emaranhados” (a mais básica corrupção econômica) , um Cervantes não-denominacional e até uma feminista de quem não se fala na pompa dos centenários, e cuja mensagem principal ele se esforçou conscientemente para construir ao longo de sua vida. Por esta razão, Cervantes, o libertário são ou lúcido, tem que inventar Dom Quixote, o libertário louco, para dizer o que queria dizer, uma pura busca pela liberdade de expressão para “alcançar a liberdade nesta vida”.

Inúmeras e sempre novas leituras de Cervantes, renováveis ​​mesmo com a mudança dos tempos, fundamentais para compreender, por exemplo, Cervantes quando diz que não é adequado como cortesão porque não sabe lisonjear, e cujas queixas sobre a justiça são radicais, sem costura, claramente antissistémica., como aparece no primeiro discurso da Idade de Ouro, pela boca de Quixote; ou o Cervantes que, numa análise magistral da modernidade que se aproximava, compara a empresa económica moderna com a galera corsária, e lamenta que o novo deus dos novos tempos seja o “juros”, o dinheiro, para que “as mudanças injustas e tratamento emaranhado" seja a nova lei desses novos tempos bárbaros; ou a feminista Cervantes que numa sociedade patriarcal e machista faz Marcela dizer que nasceu livre e o que acontece é que seu amante não correspondido, Crisóstomo, suicidou-se, porque era um perseguidor; ou o Cervantes que, numa sociedade confessional fundamentalista como a monarquia católica, faz despedir-se um mouro e um cristão numa peça teatral como esta: “O teu Cristo vai contigo”, diz o mouro Ali; “Seu Muhammad, Ali, fique com você”, diz o cristão; formulação sem paralelo na literatura europeia de então e quase hoje, no curso das coisas.

Esse é o Cervantes que as elites culturais e os especialistas não parecem ter interesse em encobrir para que todos o compreendam. Aquele que não consegue digerir uma sociedade formal que, no fundo, não entra plenamente nele porque, como lhe aconteceu na vida, a despreza e esconde, a confunde ou a ignora, e só consegue rir dela graças ao louco que fala besteiras, e que inventou por pura necessidade de liberdade de expressão, num artifício literário que cria o romance moderno.

Esse é, sem dúvida, o personagem histórico de Cervantes que deslumbra os anarquistas, os libertários, e por isso são radicalmente Cervantes, mais que quixotistas, porque apaixonados por Dom Quixote, centram seu interesse naquele homem que está por trás do a própria obra literária., que lhe dá vida, que a torna possível.

Que Dom Quixote de Alcalá de Henares, como José María Puyol Albéniz, puro emblema, resume no título de um livro que publicou em 1947 e que simplesmente assina Puyol: um exilado libertário que chegou à Argélia no navio Stanbrook fugindo da repressão de Franco, cuja paixão por Cervantes também é narrada em "Por que os anarquistas amam Cervantes". O livro termina com uma revisão das afinidades do movimento libertário com Dom Quixote e seu autor.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Rádio Comercial: Homenagem Sérgio Godinho - O Primeiro Dia


“Sem palavras
Dizem-me várias vezes: tu és um homem das palavras, e eu sei que sim, como muitos são de outras formas. Sim, porque tenho uma paixão pelas palavras, e nomeadamente na sua concubinagem com a música. Mas tudo isto para dizer que agora fiquei mesmo sem palavras, perante este vídeo que me é oferecido pela Rádio Comercial, agregando as vozes de tantos músicos cantores, cada um e cada uma com a sua razão própria e generosa de me agradecer, cantando-me. E aí teria uma palavra, sim – obrigado. Que diz tudo. Nessa palavra cabe toda a força desta irmandade musical, que se estende a tantas praias e tantos horizontes. Cada um mergulhou no seu mar, nadou à sua maneira, flutuou, soube ir ao fundo e voltar. ‘Eu fui ao fim do mundo, vou ao fundo de mim...’ Obrigado por terem ido ao fundo de mim. Os tesouros e os despojos que talvez encontrem são vossos, todos vossos.”

Poema:

quarta-feira, 19 de julho de 2023

António Aleixo


A obra do poeta popular algarvio é impactante, no que respeita à renovação de mentalidades de todo um país. A sua mordaz crítica social está longe de se esgotar no seu tempo.

Cauteleiro, guardador de caprinos, tecelão, guarda, servente, cantor popular em tempo de feira, homem de mil ofícios e de improvisos… esperançoso emigrante.

António Aleixo, revela-nos a dimensão do sábio longe da erudição. Como quem esgravata invulgarmente a terra, e sabe, de forma rigorosa, condensar a complexa vida em redor.

Viveu inúmeras misérias e desgraças.

Simultaneamente conhecedor e humilde, resistiu, cultivando forte personalidade.

Poderia ser mais um entre tantos outros injustiçados

É especialmente a visão da vida em epítome que o eleva à paridade com reconhecidos génios literários.

No seu legado, a simplicidade do homem confunde-se com as interrogações. Talvez devido aos inúmeros absurdos de amarguradas batalhas, umas vezes de forma algo merencória, outras emprestando mordacidade chistosa que tão bem o define.

Por vezes caricaturado, sempre ciente do quão abrangente é a caricatura.


O maior poeta popular, senão vejamos...
Aleixo tinha sido convidado para cerimónia de gala, mas como não tinha roupa apropriada para esse momento solene, foi-lhe emprestado por um amigo um bonito fraque de cerimónias, as respectivas calças e camisa, e os sapatos riscados de branco e preto.
Terminada a cerimónia de gala, António Aleixo foi devolver a roupa emprestada ao seu velho amigo, e de improviso saiu-lhe este desabafo em forma de quadra:

Ontem Rei, hoje sem trono,
Cá ando outra vez na rua;
Entreguei a roupa ao dono
E a miséria continua.
António Aleixo

terça-feira, 11 de julho de 2023

Eduardo Lourenço - O Labirinto da Saudade


Um dos livros que faz parte da minha biblioteca de leitura, data de 1980. Quando o li lembro-me das frases longas, com poucos pontos finais, e cheias de ideias e de referências literárias. Poderia ter 2 a 3 menções a obra e autores diferentes numa só frase. Aliás, há parágrafos do tamanho de páginas. Na altura, não foi fácil compreendê-lo, mas ficou. Como os grandes livros e pensadores livres, eles ficam. Não se decoram, nem se deixam citar com facilidade. Um livro obrigatório para todos, em particular os que assumem o poder: governantes e altos burocratas portugueses, para perceber os mitos, medos e preconceitos do país e do seu povo. 
Eduardo Lourenço é este livro, mas poderia falar também no "Heterodoxia", que livro tão marcante para mim também, ou o "O Complexo de Marx", recomendo ambos para quem pretende compreender a relevância das perguntas e das ideias e os malefícios dos "cultos" humanos e tecnosociais.
Manifesto a importância que a voz de Eduardo Lourenço tem, que não se perca e que a estudemos detalhadamente, sendo que as representações e definições que este autor demonstrou sobre Portugal são eternas, imateriais e omnipresentes. 

Ver:

sábado, 25 de março de 2023

Isabel Alçada - Esconder ou alterar livros de Enid Blyton é "absurdo"

As versões originais de algumas das obras da autora dos famosos livros “Os Cinco” estão a ser armazenadas e substituídas por versões reescritas mais "atuais".


Isabel Alçada, autora de literatura infanto-juvenil que foi ministra da Educação, considera "absurda" a decisão tomada por bibliotecas britânicas de esconder livros de Enid Blyton por se considerar que a linguagem utilizada é "ofensiva" para os leitores e está “desatualizada”.

“Eu fiquei muito surpreendida, porque Inglaterra é um país que, geralmente, vemos como um país da liberdade e da aceitação", diz Isabel Alçada à Renascença.

Aludindo a "ideias novas que afetam, de facto, as mentes das pessoas e que levam a atitudes absurdas”, a co-autora da coleção “Uma Aventura” não deixa de “ter em conta que a linguagem muda, que a forma de tratamento das pessoas muda e que há um certo jargão numa época que acaba por cair em desuso”.
“Nós hoje temos dificuldade em aceitar que, no passado, as coisas eram diferentes e reconhecê-las como diferentes.”

Em Devon, em Inglaterra, as bibliotecas públicas estão a ocultar os livros Blyton, autora, entre outras, da coleção “Os Cinco”.

Em contrapartida, as bibliotecas estão agora a apresentar versões “atuais”, reescritas com linguagem intemporal e onde são substituídas diversas expressões da autora. Um dos exemplos é a troca da palavra “moreno”, escrito pela autora num dos livros, pela palavra “bronzeado”.

Segundo o jornal Daily Mail, a escritora, que nasceu em 1897, recorreu a termos como “queer” e “gay”, e também à palavra “castanho” em referência à cor da pele de uma personagem, para além de usar a expressão “cala a boca”.

Estas alterações foram reveladas nos documentos do conselho do condado de Devon. A Library Unlimited, que administra o serviço de bibliotecas do condado, audita regularmente os livros e posteriormente substitui-os por versões mais “atuais”.

As versões originais dos livros de Enid Blyton não foram removidas das biliotecas, mas estão agora armazenadas em espaços que não são acessíveis ao público.

Se os leitores quiserem ter acesso às versões originais terão de as solicitar especificamente aos bibliotecários -que, segundo o The Telegraph, vêm com um aviso a recordá-los da linguagem contida na versão original.

Estas decisões têm levantado uma onda de indignação entre fãs da escritora e também de algumas livrarias, como a Belfast Books, em Inglaterra, que publicou no Twitter uma imagem de vários livros da autora sob a legenda: “A maioria são originais de um tempo antes de os ‘leitores sensíveis’ nos dizerem o que podíamos ou não podíamos ler.”

“Versões alteradas nunca"
Isabel Alçada não concorda com a aposta em versões alteradas. “Versões alteradas nunca apoio. Acho que cada autor escreveu com a linguagem que achou que era adequada para a sua intenção. Há sempre escritores novos e não me parece correto estar a alterar livros antigos”, confessa à Renascença.

Já em 2021, segundo o The Washington Post, a instituição de caridade English Heritage, que desenvolveu um plano que visa instalar placas azuis em edifícios que já foram habitados ou local de trabalho de pessoas famosas, atualizou as informações associadas à placa icónica de Blyton, que está posicionada em frente da casa em que viveu entre 1920-1924.

“Tanto durante sua vida quanto depois, o trabalho de Blyton foi criticado por vários aspectos de seu conteúdo (…) Há um 'snobismo social', racismo e sexismo embutido nas histórias de Blyton”, pode-se ler no site.

As decisões sobre a alteração de expressões nos livros de Blyton fez ressurgir o tema da censura literária e da liberdade em contexto cultural.

Enid Blyton escreveu mais de 700 livros, incluindo títulos como a coleção “Os Cinco” e “Noddy”, desde o final dos anos 1930 até à sua morte, em 1968.

Saber mais:

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Zaha Hadid: o nome mais procurado de arquitetura no Google


O arquiteto mais procurado do mundo é uma mulher árabe: Zaha Hadid. A arquiteta iraquiana naturalizada britânica apareceu em primeiro lugar nas pesquisas do Google de 84 países, 61% dos 130 países monitorados pela Money (GB). O levantamento feito pela consultoria britânica traz uma oportunidade para falar sobre o trabalho da primeira mulher a receber o Prémio Pritzer, o “Nobel da Arquitetura”. 
A arquitetura não é mais um mundo só de homens. Essa ideia de que mulheres não podem pensar em três dimensões é ridícula”, disse Zaha em um discurso ao aceitar um prêmio de liderança feminina em 2013. A frase ganhou fama por si só ao mostrar que, mesmo no século 21, a construção ainda é um meio dominado pelos homens. Tanto que Zaha só venceu o Pritzer, a maior honraria da arquitetura internacional, em 2004. Até então, nenhuma mulher havia sido premiada.  Na época, a artista tinha 56 anos. Em 2012, ela foi nomeada dama pelos seus serviços em arquitetura. E, em 2016, um mês antes de sua morte, ela se tornou a primeira mulher a receber a medalha de ouro do Royal Institute of British Architects. 

Zaha Hadid: rainha das linhas curvas
Entre os seus trabalhos mais reconhecidos estão o Centro Aquático de Londres, para as Olimpíadas de 2012; a casa de Ópera de Guanzhou, na China; e o Centro Heydar Aliyev, em Baku, no Azerbaijão. Suas obras são marcadas por um estilo contemporâneo e pós-moderno, com muitas linhas curvas e formas surpreendentes.  Sua regra principal era: “não pode ter ângulos de 90 graus. No início, tudo era diagonal”. 

A escolha por formas pouco convencionais deu a ela o apelido de “rainha da curva”. Formada em matemática no Líbano, Zaha entrou no mundo da arquitetura quando tinha 22 anos e foi estudar na prestigiada Architectural Association School of Architecture. A arquiteta inovou na forma de criar suas obras: no lugar do desenho técnico, ela pintava quadros e papéis de seus projetos. Mesmo depois dos computadores, com seus softwares de criação técnica, ela permaneceu com este hábito.

Fortemente inspirada pela arte “geométrica” dos suprematistas russos, como Malevich, e pelas vanguardas soviéticas dos anos 1920, Zaha buscou no abstrato e no design uma visão de fora para suas construções. Apesar de não seguir uma única categoria, suas obras são vistas como parte do desconstrutivismo, movimento que reinterpretou o modernismo nos anos 1980 e 1990. Alguns, no entanto, a descrevem como neo-futurista.


“Não fazemos prédios bonitos. As pessoas pensam que o prédio mais apropriado é um retângulo, porque normalmente é a melhor maneira de usar o espaço. Mas isso quer dizer que a paisagem é um desperdício do espaço? O mundo não é um retângulo. Você não vai a um parque e diz: ‘Meu Deus, não temos cantos retos aqui”, disse Zaha em entrevista ao The Guardian, em 2012.  

Ela insistia que todos os seus prédios são inteiramente práticos, construídos em torno de diferentes padrões organizacionais. “É como dizer que todo mundo tem que escrever exatamente da mesma maneira. E simplesmente não é o caso.”

Arquitetura com função 
“Eu não acho que a arquitetura é apenas para criar abrigos, não é apenas sobre criar espaços. A arquitetura deveria ser capaz de te animar, de te acalmar, de te fazer pensar”,  afirmou Zaha para a revista Newsweek, em 2011. 

A carreira de Zaha foi marcada por desenhos e obras de prédios públicos, voltados para grandes grupos de pessoas, como bibliotecas, teatros e museus.

Durante a  sua trajetória, o seu nome também esteve envolto em polémica, por trabalhar para países como a China. Em entrevista ao The Guardian, dada em 2013, ela falou sobre o caso: “Independentemente do regime, é importante construir uma instalação cívica para a população. Se alguém me pedir para fazer uma biblioteca, eu não diria que não quero fazer isso por conta de onde está. É importante se envolver com esses países porque os conecta ao resto do mundo. Se eu disser que não vou construir em certos lugares, há muitos outros lugares que eu também não iria. Eu não estaria fazendo nada em nenhum lugar. Eu simplesmente não construiria”.

Mesmo assim, Zaha viu limites para o que faria ou não: “ mas se alguém me pedir para construir uma prisão, eu não faria. Não construiria uma prisão, independentemente de onde esteja, mesmo que fosse muito luxuosa”. A arquitetura, no final das contas, tem um propósito no mundo. 

Sites:

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

Thomas Mann e Política


Thomas Mann (6 de junho de 1875 - 12 de agosto de 1955). Escritor, romancista, ensaísta, contista e crítico social. Recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1929.

"Sei que, frequentemente, os sinais e os símbolos exteriores, visíveis e tangíveis da sorte e da ascensão, só aparecem quando, na realidade, tudo já se põe de novo a declinar."

E-livros
Cinco Livros: A Montanha Mágica; Doutor Fausto; Morte Em Veneza; Sua Alteza Real e Discursos Contra Hitler

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

American historian Timothy Snyder becomes an ambassador for the United24 platform, launching the ‘Shahed Hunter’ fundraiser


Professor of History at Yale University, Timothy Snyder, has joined the United24 team, becoming the second ambassador after actor Mark Hamill who will focus his efforts on fundraising for Defence and Demining.

Recently, the famous historian made his course of Yale University lectures, "The Making of Modern Ukraine," available for everyone. The lectures have already gained almost three million views. Now he will be supporting Ukraine in his new role as United24 ambassador. Snyder will raise funds for an anti-drone system to counter the UAVs constantly used by Russia to attack Ukraine's critical infrastructure 

Timothy Snyder met with the President of Ukraine, Volodymyr Zelenskyy, in person, during his September visit to Kyiv.

"Timothy Snyder is an outstanding historian and a true friend of Ukraine, who tells the whole world about the importance of Ukraine, its true history, values, the way they were shaped, and why we need to protect them, in his works. I am also grateful that more people will understand, not only about the reasons and preconditions of our fight, but also learn about how they can help us," said Zelenskyy.

"I'm supporting Ukraine because Ukraine must win this war. Ukraine must win to lead the way into a better century. Ukrainian victory will open the region and the world to democracy and give us all hope. But for now, Ukraine is threatened. Much of Ukraine is under occupation. Ukraine's attackers, breaking all the laws of war, seek to kill civilians and to deprive them of the basic means of existence such as food, water, and electricity. To protect Ukrainians, to protect Ukraine, and thereby to defend all these values, we must be able to stop these attacks. I'm a historian and a scholar and in the long run I want to be raising money to rebuild libraries, schools, and universities. But right now, we have to do what is more urgent, which is to raise money to help Ukraine to defend itself from murderous drones. That is why I have set my goal as raising 1.25 million dollars for anti-drone defense," said Snyder.

United24 is a fundraising platform, initiated by the President of Ukraine. It is the central venue for charitable donations in support of Ukraine. During the first six months of operation, United24 collected $213 million from citizens of 110 countries worldwide. Among United24 ambassadors are famous athletes – Andriy Shevchenko, Elina Svitolina and Oleksandr Usyk, creative director of Balenciaga – Demna, American actors – Liev Schreiber and Mark Hamill, music band Imagine Dragons, singer and actress Barbra Streisand, astronaut Scott Kelly.

What is the «Shahed Hunter»?

It is an anti-drone system that will:

  • help detect and intercept enemy drones;
  • jam enemy drones GPS signals when they approach infrastructure or cities;
  • release ultra-fast drones that will follow and destroy enemy UAVs in the sky;
  • increase the overall effectiveness of the Ukrainian Air Force.