Mostrar mensagens com a etiqueta Museus. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Museus. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 15 de julho de 2026

O 'bicho-de-sete-cabeças' que não é: como uma loja online unificada salvaria os museus públicos

Pelo que conheço de e-commerce, pôr de pé uma loja online que junte o espólio de mais de 30 museus e monumentos nacionais não é bicho-de-sete-cabeças, mas exige dividir os custos em dois momentos: o arranque e o dia a dia.

Para começar, o desenvolvimento do site - que tem de ser robusto para cruzar os stocks de museus diferentes -, a fotografia profissional das réplicas e livros, e a integração com sistemas de pagamento (como o MB Way, ou melhor ainda um agregador, como a Stripe ou a Adyen) e faturação ficaria entre os 21.500 € e os 43.000 €. É um investimento feito apenas uma vez.

O verdadeiro desafio está no que vem a seguir. Manter a loja viva e a faturar custaria entre 30.000 € e 61.000 € por ano. Este valor serve para pagar os servidores, o marketing digital (essencial para que os turistas saibam que a loja existe) e, acima de tudo, a logística: alguém tem de estar num armazém central a embalar as peças com cuidado e a despachar as encomendas.

Pode parecer muito dinheiro para a realidade da nossa cultura, mas as contas fazem-se depressa. Se cada cliente gastar, em média, 40 € (o preço de um catálogo e de uma lembrança), a loja só precisa de fazer 6 ou 7 vendas por dia para pagar todas as suas despesas e começar a dar lucro. Para os milhões de visitantes que os museus portugueses recebem todos os anos, isto é uma gota no oceano.

Fica claro que o problema nunca foi o preço da tecnologia, mas sim a falta de vontade política para gerir a nossa Cultura com uma visão sustentável, estratégica e promoção da Língua Portuguesa 
(P.S. sem nacionalismos ou ideologias) 

Ironia: a pretensa loja até existe, mas actualmente é um cemitério, desde 2012! . O que aconteceu? O dinheiro público foi gasto, mas as plataformas exigem manutenção contínua, interação constante entre as autarquias e a logística e como concluí, não há uma visão estratégica da Cultura Portuguesa além-fronteiras.

Neste aspecto (lojas virtuais de museus) não somos Franceses, Alemães, Holandeses nem os Países Nórdicos.

De Serralves à Vista Alegre: O sucesso das lojas digitais que o setor público devia imitar
As fundações privadas em Portugal estão, na verdade, bastante mais avançadas na transição digital do que o setor público. Como têm maior autonomia de gestão, orçamentos focados na internacionalização e processos de decisão mais ágeis, conseguiram criar plataformas de comércio eletrónico muito completas e intuitivas, que funcionam quase como montras de design e cultura.

Um dos melhores exemplos nacionais é a Loja de Serralves, no Porto, que se posiciona hoje como uma verdadeira concept store de arte contemporânea. No seu site, além de uma vasta livraria especializada em arte e arquitetura, é possível adquirir edições limitadas e numeradas de artistas consagrados, peças de decoração exclusivas, acessórios de moda desenhados por criadores portugueses e brinquedos didáticos de design premiado. Na mesma linha de excelência, as Lojas da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, dividem-se entre o catálogo do museu clássico e o do recém-renovado Centro de Arte Moderna (CAM). O seu espaço online destaca-se pela impressionante oferta de catálogos de exposições e ensaios históricos, mas também por peças de joalharia fina inspiradas na famosa coleção de René Lalique e por reproduções de azulejaria artística desenvolvidas em parcerias com galerias nacionais.

Para quem procura um nicho mais histórico e aristocrático, a Fundação das Casas de Fronteira e Alorna disponibiliza na sua loja virtual os "Cadernos da Fundação" - que reúnem investigações sobre o património barroco e a literatura dos séculos XVII e XVIII - , além de peças de azulejaria e produtos exclusivos inspirados na iconografia do próprio Palácio Fronteira. Por fim, num cruzamento perfeito entre a arte, a indústria e a preservação histórica, a Fundação Vista Alegre desempenha um papel crucial ao disponibilizar online réplicas exatas de peças de porcelana do século XIX, retiradas diretamente do espólio do seu museu histórico, bem como edições limitadas produzidas em colaboração com artistas contemporâneos globais.

A grande vantagem destas plataformas, além da óbvia comodidade de receber as peças em casa, é que muitas oferecem descontos de liquidação em livros e catálogos antigos que já não se encontram no mercado comum. Acima de tudo, comprar nestes canais digitais é uma forma direta de apoiar a sustentabilidade da cultura em Portugal, uma vez que a receita destas vendas reverte inteiramente para a manutenção do património, restauro de peças e financiamento de novas exposições e bolsas artísticas. 

Sim, os bilhetes normais são caros e proibitivos para o dia a dia. Mas conhecendo os dias específicos, podemos usufruir do melhor que estas fundações privadas têm para oferecer com o mesmo custo do programa Acesso 52 dos museus públicos: zero euros.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Governo vai rever regime de gratuitidade dos museus e diz que são exigências da Comissão Europeia


No alinhamento da direita populista, a "infanta" Margarida Balseiro Lopes encontrou uma resposta genial: pagar para entrar em todos os museus. Deus nos livre de dar coisas de graça a este povo. A senhora Ministra da Cultura, com a lucidez que só os gabinetes bem iluminados do Palácio da Ajuda conseguem proporcionar, bateu no cerne da questão: os portugueses não gostam de arte; gostam é de borlas e  do ar refrigerado dos Museus. E se há coisa que desvaloriza uma pintura de Amadeo de Souza-Cardoso ou uma escultura renascentista é o ultrajante preço de zero euros. 

É uma questão de pura psicologia económica. Cientistas de algures já provaram que se não nos custar um rim a entrar num museu, os nossos olhos simplesmente recusam-se a focar o óleo sobre tela. O cérebro humano, esse órgão mercantilista, olha para um claustro manuelino gratuito e pensa: "Se não cobram por isto, de certeza que é gesso pintado ou as infiltrações são falsas".  

O plano é infalível. Em breve, os museus estarão vazios de gente, mas repletos de "valor". As obras de arte repousarão finalmente sozinhas, intocadas pelo olhar plebeu de quem não tem dez euros para gastar num domingo à tarde. E quando as salas estiverem perfeitamente desertas, a sustentabilidade estará alcançada: zero custos de manutenção com as pegadas do público.  As obras de arte repousarão finalmente sozinhas, intocadas pelo olhar plebeu de quem não tem dez euros para gastar num domingo à tarde. E quando as salas estiverem perfeitamente desertas, a sustentabilidade estará alcançada: zero custos com as pegadas do público.

A economista Clara Mattei explica isto na perfeição: a obsessão com a austeridade e com a mercantilização da vida não serve para equilibrar contas; serve para nos disciplinar. Para nos recordar que não temos direito à beleza ou ao lazer sem antes mostrarmos a carteira.

Quando a UE invoca o Artigo 56.º do TFUE para travar o "Acesso 52", ela está a demonstrar as suas prioridades, pois o direito de um cidadão é visto estritamente através da sua identidade enquanto consumidor ou destinatário de serviços num mercado globalizado, fazendo com que o acesso à cultura deixe de ser um direito social ou uma ferramenta de coesão nacional para a população local e passe a ser tratado como uma mercadoria que não pode sofrer distorções de concorrência.

Na minha investigação, argumento que o Estado moderno foi reconfigurado para blindar a economia da vontade democrática, e a reação de Bruxelas ilustra isto perfeitamente: o governo português tentou implementar uma medida de redistribuição social para dar acesso gratuito à cultura a quem paga os impostos que mantêm esses museus, mas uma instituição tecnocrática e não eleita intervém para invalidar uma decisão soberana em nome de regras de livre mercado. O resultado prático é a austeridade por via indireta, pois, como Portugal dificilmente conseguirá comportar financeiramente a extensão da gratuitidade a dezenas de milhões de turistas estrangeiros, a pressão da UE vai forçar o país a recuar e a retirar o benefício aos seus próprios cidadãos, o que prova que o mercado nivela sempre por baixo e que, se não pode ser mercantilizado para todos, não pode ser gratuito para ninguém.

Os tecnocratas europeus justificam a sua ação com a neutralidade da lei e a justiça da não-discriminação, mas, como cidadão atento, eu diria que esta igualdade abstrata esconde uma profunda desigualdade material. Exigir que um cidadão português, com um salário médio significativamente mais baixo do que a média europeia, pague o mesmo que um turista de um país com maior poder de compra para aceder ao património do seu próprio país é, em si, uma forma de violência económica, pelo que a lei europeia acaba por proteger o poder de compra do turista consumidor enquanto sufoca a capacidade do trabalhador local de aceder aos bens públicos que ele próprio financia. Concluindo, como Clara Mattei, eu diria que este caso não é sobre regras jurídicas neutras, mas sim sobre como as instituições europeias utilizam o direito económico para impedir os Estados-membros de protegerem os seus cidadãos das forças do mercado, empurrando os bens públicos para a mercantilização total.

Obrigado, Senhora Ministra. Finalmente compreendemos que a cultura não serve para nos elevar o espírito; serve para sabermos quanto pesa a carteira.

domingo, 28 de junho de 2026

Esther Abrami - Transmission

“My grandmother was a violinist but stopped her career when she got married. I know she never imagined that her only granddaughter would take up the instrument she had left behind one day. This piece is my way of continuing her story, whilst also telling my own. ‘Transmission’ is about the passing of music through generations. This is the first time I’ve ever recorded one of my own compositions. Merci Mamie de m’avoir mis ton violon dans les mains.”

“Ma grand-mère était violoniste mais elle a arrêté sa carrière quand elle s’est mariée. Je sais qu’elle n’aurait jamais imaginé que sa seule petite fille, des années plus tard, reprenne l’instrument qu’elle avait elle-même délaissé. Cette pièce est ma manière de continuer son histoire, tout en inscrivant la mienne. Transmission parle de la passation de la musique entre les générations. C’est la première fois que j’enregistre l’une de mes compositions. Merci, Mamie, de m’avoir mis ton violon dans les mains.”


A avó de Esther, Françoise Abrami era uma violinista muito talentosa, mas, seguindo os costumes rígidos da sua época, abandonou totalmente a prática e a perspectiva de uma carreira musical assim que casou. A ligação entre as duas começou muito cedo: quando Esther tinha apenas três anos, a avó Françoise deu-lhe o seu próprio violino, que conservava com todo o carinho. Embora Esther só tenha começado a estudar o instrumento a sério por volta dos dez anos, o impacto de ter recebido aquele objeto tão cheio de história moldou o seu destino. 
Infelizmente, a avó Françoise já faleceu, mas a sua memória e o seu sonho continuam bem vivos a cada nota de "Transmission".

Biografia de Ilse Weber

Página Oficial

domingo, 24 de maio de 2026

Regina Spektor - All The Rowboats


[Verse 1]
All the rowboats in the paintings
They keep trying to row away
And the captains' worried faces
Stay contorted and staring at the waves


[Hook]
They'll keep hanging in their gold frames
For forever, forever and a day
All the rowboats in oil paintings
They keep trying to row away, row away

[Verse 2]
Hear them whispering French and German
Dutch, Italian, and Latin
When no one's looking, I touch a sculpture
Marble, cold, and soft as satin

[Pre-Hook]
But the most special are the most lonely
God, I pity the violins
In glass coffins they keep coughing
They've forgotten, forgotten how to sing, how to sing
La da da da da, la da da da da, la

[Instrumental]

[Verse 3]
First there's lights out, then there's lock up
Masterpieces serving maximum sentences
It's their own fault for being timeless
There's a price to pay and a consequence
All the galleries, the museums
Here's your ticket, welcome to the tombs
They're just public mausoleums
The living dead fill every room

[Pre-Hook]
But the most special are the most lonely
God, I pity the violins
In glass coffins they keep coughing
They've forgotten, forgotten how to sing

[Hook]
They will stay there in their gold frames
For forever, forever and a day
All the rowboats in oil paintings
They keep trying to row away, row away

[Instrumental]

[Verse 4]
First there's lights out, then there's lock up
Masterpieces serving maximum sentences
It's their own fault for being timeless
There's a price to pay and a consequence
All the galleries, the museums
They will stay there forever and a day

[Outro]
All the rowboats in oil paintings
They keep trying to row away, row away
All the rowboats in oil paintings
They keep trying to row away, row away

A música é uma metáfora brilhante sobre museus de arte interpretados como prisões de alta segurança.

Em vez de ver o museu como um lugar de celebração da beleza, Regina adota a perspetiva dos próprios objetos de arte. Ela canta sobre barcos a remo pintados em telas barrocas, estátuas e obras-primas que estão "vivas", mas trancadas, congeladas no tempo e vigiadas por câmaras e seguranças.

A arte foi feita para ser livre, para estar no mar (no caso dos barcos) ou exposta aos elementos, mas foi "capturada" pela humanidade para consumo público. Os barcos querem navegar, mas os seus "remos de tinta" não conseguem mover-se. É uma crítica poética à forma como tentamos possuir e domesticar a história e a criatividade.

Melhor som aqui

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O aquecimento dos oceanos causa uma redução anual de 20% no número de peixes

O aquecimento crónico e prolongado dos oceanos é o responsável pelo declínio anual de quase 20% na biomassa de peixes (o peso total dos peixes capturados vivos em redes de arrasto), segundo pesquisadores do Museu Nacional de Ciências Naturais da Espanha e da Universidade Nacional da Colômbia.

A pesquisa, desenvolvida nas águas do Mediterrâneo, do Atlântico Norte e do Pacífico Nordeste, baseia-se na análise de 702.037 estimativas de mudanças na biomassa de 33.990 populações de peixes registadas entre 1993 e 2021 no Hemisfério Norte.

Os dados coletados, segundo os pesquisadores, devem ser cruciais para aprimorar a gestão da pesca e a conservação dos ecossistemas marinhos, dos quais depende grande parte da segurança alimentar mundial; hoje, 25 de fevereiro, eles publicam os resultados do seu trabalho na revista Nature Ecology and Evolution.

Shahar Chaikin, pesquisador do Museu Nacional de Ciências Naturais, explicou à EFE que calcularam essa perda de 'biomassa' analisando o peso total dos peixes vivos capturados em redes de arrasto de fundo durante o período abrangido pelos estudos científicos, que inclui espécies comerciais e não comerciais.

As ondas de calor marinhas, cada vez mais frequentes, não afetam todos os peixes da mesma forma, pois há populações que "perdem" e outras que "ganham", e o estudo mostra que tudo depende da zona de conforto térmico, a faixa de temperatura ideal na qual cada espécie cresce e se desenvolve melhor.

No final das contas, ninguém ganha.
Shahar Chaikin afirmou que, tanto globalmente quanto em nível populacional (em locais específicos), a tendência geral é de diminuição dessa biomassa à medida que os oceanos aquecem, e declarou que o resultado final do trabalho é que "ninguém ganha a longo prazo".

Quando uma onda de calor leva os peixes em águas já quentes além de sua zona de conforto térmico, a sua biomassa pode cair até 43,4%, mas as populações em áreas mais frias muitas vezes prosperam temporariamente com o aumento das temperaturas, aumentando a sua biomassa em até 176%.

“Embora esse aumento repentino na biomassa em águas frias possa parecer uma boa notícia para a pesca, trata-se de um aumento temporário. Se os gestores aumentarem as quotas de pesca com base no aumento da biomassa causado por uma onda de calor, correm o risco de provocar o colapso dos stocks quando as temperaturas voltarem ao normal ou quando o efeito do aquecimento global a longo prazo se consolidar, porque esses aumentos são pontuais”, alertou Chaikin.

“Ao contrário das flutuações climáticas de curto prazo, que podem variar drasticamente, o aquecimento crónico exerce uma pressão negativa constante sobre as populações de peixes no Mar Mediterrâneo, no Oceano Atlântico Norte e no nordeste do Oceano Pacífico”, disse Juan David González Trujillo, pesquisador da Universidade Nacional da Colômbia, num comunicado à imprensa divulgado na quarta-feira pelo MNCN.

Coordenação internacional para gerir recursos que não conhecem fronteiras.
A abordagem tradicional à gestão da pesca já não acompanha o ritmo das alterações climáticas e, para garantir o futuro dos recursos pesqueiros globais, os autores propõem uma estrutura de três níveis que combina resposta rápida, planeamento a longo prazo e cooperação internacional. Observaram que as espécies, na tentativa de se manterem dentro da sua zona de conforto térmico, inevitavelmente atravessam fronteiras internacionais, pelo que a conservação requer coordenação internacional e acordos conjuntos de gestão de recursos.

O pesquisador do MNCN-CSIC, Miguel Bastos Araújo, enfatizou a importância de equilibrar cuidadosamente os aumentos localizados com os declínios a longo prazo para evitar a sobre-exploração e afirmou que a única estratégia viável diante do aquecimento dos oceanos é priorizar a resiliência a longo prazo. "As medidas de gestão devem levar em conta o declínio esperado da biomassa num oceano cada vez mais quente."

A conclusão é que os recursos pesqueiros não podem ser regulamentados apenas considerando o aumento ou a diminuição ocasional da biomassa devido a uma onda de calor marinha, disse Chaikin à EFE, citando o exemplo do robalo do Mediterrâneo: quando confrontado com uma onda de calor marinha, é essencial reduzir a pressão da pesca, porque enfrenta perdas muito maiores do que as populações em costas mais frias da Galiza ou da Inglaterra.

Mas, embora as populações nessas "bordas frias" possam experimentar um aumento significativo durante uma onda de calor, esses ganhos são "transitórios" e desaparecem com o aquecimento oceânico a longo prazo , portanto, não representam uma oportunidade para a "captura sustentável".

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Papel ecológico das traças ou borboletas nocturnas


As traças são estudadas através de uma combinação de trabalho de campo, análise laboratorial e monitorização a longo prazo, uma vez que a sua diversidade e sensibilidade às alterações ambientais fazem delas sujeitos ideais para a investigação ecológica. 

Um dos métodos mais utilizados é a captura por luz, em que as luzes ultravioleta ou de vapor de mercúrio atraem as traças noturnas para que os investigadores possam registar a presença, a abundância e os padrões sazonais das espécies. Técnicas complementares, como armadilhas com isco, levantamentos diurnos de traças diurnas e amostragem de larvas em plantas hospedeiras, ajudam a capturar espécies que não são atraídas pela luz e fornecem informações sobre as relações planta-inseto. 

A identificação é tradicionalmente baseada na morfologia, incluindo padrões de asas e estruturas genitais, mas é cada vez mais apoiada pelo código de barras de ADN, que permite a identificação precisa e a deteção de espécies crípticas. As coleções de museus e os registos históricos são essenciais para comparar os dados atuais com as distribuições e abundâncias passadas, permitindo aos investigadores detectar tendências a longo prazo.

Para além de simples inventários, as traças são estudadas para compreender a sua ecologia, incluindo a especialização nas plantas hospedeiras, os ciclos de vida, as capacidades de dispersão e as respostas a factores como as alterações climáticas, a intensificação do uso da terra, os pesticidas e a luz artificial durante a noite. 

A ciência cidadã tornou-se particularmente importante na investigação sobre traças, com os voluntários a contribuírem com grandes quantidades de dados de jardins e levantamentos locais, expandindo consideravelmente a escala espacial e temporal dos esforços de monitorização.

O estudo das traças é altamente relevante para a conservação da natureza, pois são excelentes bioindicadoras da saúde do ecossistema. Muitas espécies têm requisitos de habitat específicos e respondem rapidamente a perturbações ambientais, o que significa que as alterações nas comunidades de traças sinalizam frequentemente uma degradação ecológica mais ampla. 

Diminuições na abundância e diversidade de traças foram documentadas em muitas regiões e estão intimamente ligadas à perda de habitat, à intensificação agrícola, à poluição e às alterações climáticas. As traças desempenham também papéis funcionais importantes nos ecossistemas: são importantes polinizadoras noturnas de plantas silvestres e culturas agrícolas, e as suas lagartas constituem um recurso alimentar crucial para as aves, morcegos e outros animais. Como resultado, o declínio das traças pode propagar-se através das teias alimentares e perturbar o funcionamento do ecossistema.

Do ponto de vista da conservação, os dados sobre traças são utilizados para identificar habitats prioritários, avaliar a conectividade da paisagem, avaliar práticas de gestão e orientar a restauração de habitats. Uma vez que as traças respondem de forma mensurável às alterações na estrutura da vegetação, na diversidade de plantas e nos regimes de luz, são particularmente úteis para avaliar a eficácia das ações de conservação. Desta forma, o estudo das traças não só ajuda a proteger um grupo diversificado e muitas vezes negligenciado de insectos, como também apoia a conservação da biodiversidade em geral e a resiliência a longo prazo dos ecossistemas.

Referências Bibliográficas

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Chen-Wen Cheng


Chen-Wen Cheng (aquarelista de Taiwan, nascido em 1964) - "Follow you", 2024   
O seu estilo é reconhecido por uma abordagem delicada e detalhada na pintura, com foco em capturar a essência das paisagens, da natureza e da vida quotidiana. Ele é amplamente admirado pelas suas habilidades técnicas excepcionais e pela capacidade de usar a aquarela de maneira inovadora, misturando realismo com toques de abstracção.
A obra de Chen-Wen Cheng costuma ser caracterizada pela fusão entre a precisão dos detalhes e uma sensibilidade expressiva, que são típicas da aquarela. Ele também utiliza um processo gradual de camadas finas de tinta, o que permite que a obra ganhe profundidade e luminosidade.
Além de ser um artista respeitado, Chen-Wen Cheng também é um professor e contribui activamente para a promoção e ensino da técnica de aquarela. Ele é frequentemente convidado para exposições internacionais e workshops, onde compartilha o seu conhecimento com outros artistas.
Prémios e reconhecimento
Chen-Wen Cheng conquistou vários prémios e reconhecimentos, entre os quais: Golden Prize (Medalha de Ouro) no World Watercolor Competition (França, 2014) pela obra “Loving Mother”. 
Prémios em várias exposições importantes em Taiwan. Espólio do autor encontra-se em alguns importantes museus de Arte (Nova Iorque, México, Seul,etc.)

domingo, 28 de setembro de 2025

Contra a vontade da direita, é aprovada a criação do Museu da Resistência do Porto


Com a abstenção do PSD/IL e os votos contra do Chega e CDS-PP, a Assembleia da República fez aprovar a proposta do PCP para a criação deste museu no edifício da Rua do Heroísmo, onde esteve instalada a delegação da PIDE.

Na delegação da PIDE/DGS no Porto (instalada na Rua do Heroísmo, ao lado do Cemitério do Prado do Repouso) estiveram presas, ao longo dos 40 anos em que esteve activa, mais de 7600 pessoas, mulheres e homens, que enfrentaram o fascismo. As torturas que eram reiteradamente praticadas no local provocaram a morte de dois resistentes antifascistas, ambos militantes do PCP: o barbeiro Joaquim Lemos de Oliveira, de Fafe, e o operário Manuel Fiúza da Silva Júnior, de Viana do Castelo, antigo editor d'A Voz dos Famintos (um quinzenário anarquista) que acabou por se juntar aos comunistas.

Ambos foram torturados até à morte em 1957, com 16 dias de diferença. Manuel Fiúza da Silva Júnior, de 69 anos, é preso pela PSP enquanto distribuía propaganda que denunciava o assassinato de Joaquim Lemos de Oliveira (de 48 anos) às mãos da PIDE. Depois do 25 de Abril, este edifício ficou sob a tutela do Ministério do Exército que, em 1977, e depois da demolição de parte das instalações prisionais, ali instalou o Museu Militar do Porto.

A proposta apresentada pelo PCP em 26 de Setembro, na Assembleia da República, pretende mudar as instalações do Museu Militar para outro local e criar o Museu da Resistência Antifascista no Porto, instituindo ao mesmo tempo a Rede Nacional de Museus da Resistência, permitindo a articulação entre o Museu do Aljube – Resistência e Liberdade, de Lisboa, o Museu Nacional da Resistência e da Liberdade, de Peniche, e este novo espaço. Em 2018, o Ministério da Defesa, em resposta aos deputados comunistas, assumiu a inteira disponibilidade para deslocalizar o seu museu, nomeando diversas infra-estruturas que poderiam receber o seu espólio.

O espaço é, desde 2015, partilhado pela URAP e o Museu Militar, estando patente uma exposição com o título Do Heroísmo à Firmeza - Percurso na memória da casa da Pide no Porto - 1934-1974, que não colide com o projecto do Museu Militar.

Direita continua com dificuldade em lidar com o seu passado
«Urge dar um novo passo na valorização deste espaço como local de memória e homenagem às vítimas do fascismo e à luta pela democracia», refere o documento apresentado pelo PCP. A proposta foi aprovada com o votos favoráveis do PS, BE, Livre e PCP, a abstenção do PSD e da Iniciativa Liberal, e os votos contra do Chega e do CDS-PP, incapazes de se libertarem das suas pesadas heranças.

«O edifício do Heroísmo é um símbolo do regime fascista e, como antiga sede da polícia política, é o local adequado e justo para documentar, musealizar e, dessa forma, homenagear a luta pela liberdade daqueles que lá estiveram detidos e ali resistiram para construir no nosso país o 25 de Abril e o seu projeto emancipador de liberdade, progresso e desenvolvimento social», afirmam os comunistas.

sexta-feira, 13 de junho de 2025

As mulheres que fizeram museus


Abra quase qualquer pesquisa histórica sobre a coleção e verá um catálogo dos homens que formaram grandes coleções ao longo dos séculos — com Catarina, a Grande, e Peggy Guggenheim entre as poucas exceções, talvez. Mas muitas das grandes colecções que conhecemos hoje foram criadas ou moldadas por mulheres cujo impacto na história do gosto e na evolução das colecções para se tornarem museus acessíveis ao público está finalmente a receber a devida atenção. Esta conversa explora as personagens e as coleções de três mulheres que se rodearam de arte – Alice de Rothschild, Marjorie Merriweather Post e Helene Kröller-Müller – e como os obstáculos e as oportunidades que encontraram podem ter influenciado as coleções que construíram. Explora a forma como os legados destas mulheres se refletem hoje em – respetivamente – Waddesdon Manor (Buckinghamshire), Hillwood Museum (Washington, D.C.) e no Kröller-Müller Museum (Otterlo). 

Moderado por Fatema Ahmed (revista Apollo) 

Palavra de boas-vindas de Hidde van Seggelen Com Tanja de Boer, Kate Markert e Pippa Shirley

sábado, 19 de abril de 2025

Coelho da Páscoa: porquê um coelho?


Uma das versões que tem sido disseminada ao longo dos séculos, é a de que Maria Madalena teria ido antes do amanhecer de domingo ao sepulcro de Jesus de Nazaré levando consigo material para ungir o corpo. Ao chegar ao local, teria visto a sepultura entreaberta. Um coelho, que teria ficado preso no túmulo aberto na rocha, seria o primeiro ser vivo a testemunhar a ressurreição de Jesus. Por essa razão, ganhou o privilégio de ser associado à data. Na imagem, um vaso esculpido com grande habilidade há cerca de 8.000 anos perto do rio Eufrates, actual Síria. Boa Páscoa!
A peça encontra-se no Museum of Fine Arts Boston, EUA.

terça-feira, 4 de junho de 2024

A coevolução é a força motriz da biodiversidade na Terra


A coevolução é a força motriz que gera a biodiversidade na Terra, explicando o facto de existirem milhões de espécies diferentes, de acordo com um novo estudo conduzido pela Universidade Nacional Australiana (ANU).

A coevolução ocorre quando espécies em estreita interação conduzem a mudanças evolutivas umas nas outras e pode levar à especiação – a evolução de novas espécies – mas até agora as provas eram escassas.

Uma equipa de investigadores da ANU, da CSIRO, da Universidade de Melbourne e da Universidade de Cambridge pôs esta ideia à prova ao estudar a corrida ao armamento evolutiva entre os cucos e as aves hospedeiras em cujos ninhos depositam os seus ovos.

Pouco depois de o pinto do cuco eclodir, ele empurra os ovos do hospedeiro para fora do ninho. O hospedeiro não só perde todos os seus próprios ovos, como passa várias semanas a criar o cuco, o que lhe consome um tempo precioso quando poderia estar a reproduzir-se.

Os cucos são muito dispendiosos para os seus hospedeiros, pelo que estes desenvolveram a capacidade de reconhecer e ejetar as crias de cuco dos seus ninhos”, afirmou a autora principal do estudo, a Professora Langmore da ANU.

“Apenas os cucos que mais se assemelham às crias do hospedeiro têm alguma hipótese de escapar à deteção, pelo que, ao longo de muitas gerações, as crias de cuco evoluíram para imitar as crias do hospedeiro”, acrescentou.

Cada espécie de cuco bronzeado tem uma aparência muito semelhante à das crias do seu hospedeiro, enganando os pais do hospedeiro para que aceitem o cuco.

O estudo mostra como estas interações podem provocar o aparecimento de novas espécies; quando uma espécie de cuco explora vários hospedeiros diferentes, diverge geneticamente em linhagens separadas, cada uma das quais imita as crias do seu hospedeiro preferido.

As diferenças marcantes entre as crias das diferentes linhagens de cucos-bronze correspondem a diferenças subtis na plumagem e nos chamamentos dos adultos, que ajudam os machos e as fêmeas especializados no mesmo hospedeiro a reconhecerem-se e a emparelharem-se.

O estudo revelou que a coevolução é mais suscetível de conduzir à especiação quando os cucos são muito onerosos para os seus hospedeiros, conduzindo a uma “corrida ao armamento coevolutiva” entre as defesas do hospedeiro e as contra-adaptações do cuco.

Uma análise em larga escala de todas as espécies de cucos revelou que as linhagens mais dispendiosas para os seus hospedeiros têm taxas de especiação mais elevadas do que as espécies de cucos menos dispendiosas e os seus parentes não parasitas.

“Esta descoberta é significativa para a biologia evolutiva, mostrando que a coevolução entre espécies que interagem aumenta a biodiversidade ao impulsionar a especiação”, afirmou Clare Holleley, bióloga evolutiva da CSIRO e coautora do estudo.

A capacidade de efetuar esta investigação demorou muitos anos a concretizar-se.

“Um passo fundamental foi o nosso avanço na extração de ADN de cascas de ovos em coleções históricas e a sua sequenciação para estudos genéticos”, acrescentou Holleley.

“Em seguida, combinámos duas décadas de trabalho de campo comportamental com a análise do ADN de espécimes de ovos e aves conservados em museus e coleções”, concluiu.

A investigação foi publicada na revista Science por uma equipa de autores da Universidade Nacional Australiana, CSIRO, Universidade de Melbourne e Universidade de Cambridge.

quinta-feira, 30 de maio de 2024

30 de Maio - Dia Internacional da Batata


O Dia Internacional da Batata vai passar a ser comemorado anualmente no dia 30 de Maio, por decisão da Organização das Nações Unidas (ONU). A decisão da Assembleia Geral da ONU resultou de uma proposta do Peru, com base na celebração do Ano Internacional da Batata em 2008 e na «necessidade de destacar o papel relevante da batata em enfrentar assuntos globais prevalentes, tais como a insegurança alimentar, a pobreza e as ameaças ambientais», explica a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

A FAO considera esta iniciativa como «uma oportunidade de aumentar o reconhecimento de uma cultura que é consumida regularmente por milhares de milhões de pessoas e de importância global para a segurança alimentar e a nutrição». A Porbatata – Associação da Batata de Portugal já manifestou o seu entusiasmo com esta decisão da ONU, afirmando que «esta iniciativa global reconhece a batata como um pilar fundamental na alimentação e segurança alimentar, enfatizando o seu papel vital no combate à fome e na promoção de um desenvolvimento sustentável».

segunda-feira, 22 de abril de 2024

Ode a Gaia - Tão lindo este poema para o Dia da Terra

Releif from the Ara Pacis Augustae (Altar of Augustan Peace), 9 BC, Ara Pacis Museum in Rome.

Orphic Hymn to Gaia
Divine Gaia, mother of men and of the blessed gods,
you nourish all, you give all, you bring all to fruition, and you destroy all.
When the season is fair you are heavy with fruits and growing blossoms;
and, O multiform maiden, you are the seat of the immortal cosmos,
and in the pains of labor you bring forth fruit of all kinds.
Eternal, reverend, deep-bosomed, and blessed,
you delight in the sweet breath of grass, O goddess bedecked with flowers.
Yours is the joy of the rain, and round you the intricate realm of the stars
revolves in endless and awesome flow.
But, O blessed goddess, may you multiply the gladsome fruits
and, together with the beautiful seasons, grant me favor.

A imagem mostra um relevo do Ara Pacis Augustae (Altar da Paz Augusta), 9 aC, Museu Ara Pacis em Roma.
"O painel mais bem preservado da parede leste retrata uma figura feminina sentada (acima) que foi interpretada de várias maneiras como Tellus (a Terra), Italia (Itália), Pax (Paz), bem como Vénus. O painel retrata uma cena de fertilidade humana e abundância natural Dois bebés sentam-se no colo da fêmea sentada, puxando sua roupagem. Ao redor da fêmea central está a abundância natural das terras e flanqueando-a estão as personificações da brisa terrestre e marítima. A deusa é considerada Tellus ou Pax, o tema enfatizado é a harmonia e abundância da Itália, um tema central para a mensagem de Augusto de um estado de paz restaurado para o povo romano - a Pax Romana. 

No Dia Mundial da Terra, não esquecer a deusa mitológica de Gaia. Os gregos já eram ambientalistas antes de nós. A civilização grega teve o seu desenvolvimento entre 800 e 140 a.C. Entre as civilizações europeias nascidas na Antiguidade a civilização grega foi aquela que legou ao mundo ocidental elementos essenciais para a sua constituição.

terça-feira, 9 de abril de 2024

Petição Criação da Ordem dos Geólogos (2024)

Para: Ex.mo Sr. Presidente da Assembleia da República

Os geólogos são profissionais com formação superior específica no vasto domínio da geologia, debruçando-se, nomeadamente, no estudo do solo, do subsolo, dos processos geológicos ativos e daqueles que ocorreram ao longo da história da Terra. Atuam, igualmente, no âmbito do ordenamento e planeamento do território, na exploração e gestão sustentável dos recursos naturais, e na prevenção e mitigação dos riscos geológicos. O desempenho da profissão de geólogo está dependente do conhecimento geológico do território, sendo este de importância estratégica para o desenvolvimento socioeconómico do país. Estes profissionais contribuem para a obtenção de soluções sustentáveis para muitos dos grandes problemas sociais, económicos e ambientais que a Sociedade enfrenta, tais como as mudanças climáticas, a transição energética, a escassez hídrica e o declínio dos ecossistemas.

A profissão de geólogo tornou-se, nas últimas décadas, complexa e muito diversificada devido à sua ligação com outras profissões numa grande variedade de domínios de atividade, nomeadamente, nos sectores das indústrias de construção, extrativa e energética, do ordenamento do território, da gestão ambiental, bem como da prestação de serviços especializados ao Estado e às empresas. Atua, ainda, nos setores da proteção ambiental e societal. Ou seja, o geólogo é um especialista com um olhar único na proteção e gestão sustentável do nexo solo-água-energia-alimentos-património, tão destacado, por exemplo, pela ONU – Organização das Nações Unidas, FAO - Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, e UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. Tem, também, um papel determinante na dinamização da geologia espacial dos programas da AEP - Agência Espacial Portuguesa, ESA – Agência Espacial Europeia e NASA - Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço (Estados Unidos da América).

Neste quadro complexo, mas desafiante, os geólogos defendem a necessidade da criação de uma associação pública profissional, assentando esta aspiração em quatro pontos fundamentais:

1) A necessidade de uma cabal regulação da profissão, visando definir os requisitos e as qualificações profissionais, o âmbito da profissão e a exigência dos respetivos atos profissionais, levando à atribuição de uma certificação através de uma cédula profissional, elevando assim os mais exigentes padrões na prática do geólogo profissional englobando todos os princípios éticos e de probidade técnica que acarretam;

2) A necessidade de dispor de um código de princípios deontológicos e de dispositivos jurídico-disciplinares adequados à defesa da independência do julgamento profissional;

3) A necessidade de criar condições que permitam o reconhecimento das qualificações e requisitos profissionais em condições de reciprocidade com instituições homólogas nacionais e estrangeiras, visando garantir o exercício da atividade profissional dos geólogos portugueses dentro e fora do espaço europeu;

4) A verificação do cumprimento de requisitos profissionais deve ser confiada aos próprios geólogos constituídos em associação pública profissional, dado que, face à atual complexidade desta atividade profissional, estão mais bem apetrechados para a realizar, compatibilizando a liberdade de acesso e de exercício da profissão, e a ponderação do interesse público.

A estreita relação entre a natureza da profissão e o interesse público emerge com clareza do simples enunciado de algumas das áreas mais paradigmáticas da intervenção profissional dos geólogos:

a) Planeamento territorial e georrecursos: estudos de cartografia geológica sistemática do país, realizada a várias escalas, implementação e gestão de bases de dados digitais da cartografia geológica, dos recursos geológicos, hidrogeológicos e geotérmicos, entre outros. Apoio à execução de cartografia temática e com fins diversos que incluem uma perspetiva agronómica, agrícola, geotécnica, hidrológica, territorial e de risco natural/geológico. De facto, o território é um agente de transformação a ser conhecido e gerido de uma forma ambientalmente sustentável e de interligação com todos os agentes envolvidos, incluindo as comunidades e os ecossistemas;

b) Riscos naturais, segurança e proteção civil: previsão e prevenção de riscos naturais visando a minimização dos desastres, a proteção da vida humana e a limitação de danos (identificação das falhas sísmicas e zonamento do perigo sísmico das regiões e dos sítios, contribuição na engenharia sísmica geotécnica, monitorização da atividade vulcânica, controlo da erosão, da estabilidade de taludes, das encostas e das arribas de praia ou adjacentes a outros espaços públicos, entre outros);

c) Análise de riscos na construção e economia das grandes obras: estudo e avaliação das condições geológico-geotécnicas para o projeto e construção das grandes obras de engenharia e identificação dos riscos financeiros, bem como de problemas de desempenho induzidos por causas geológicas (a derrapagem do custo final das grandes obras está frequentemente relacionada com a falta ou com a insuficiência de estudos de geologia de engenharia);

d) Ambiente, água, território e adaptação às mudanças climáticas: prospeção, pesquisa, captação e proteção de águas subterrâneas; contributo para a avaliação, proteção e gestão sustentável dos recursos hídricos e recursos hidrominerais, a várias escalas; avaliação da radioatividade natural; estudos sobre o uso sustentável do solo; prevenção e mitigação de riscos naturais ou tecnológicos; remediação de solos e águas contaminadas, monitorização da erosão costeira, restauro da natureza, gestão da geodiversidade, entre outros;

e) Gestão sustentável e proteção dos recursos naturais: prospeção, avaliação e extração dos recursos minerais numa base eco-eficiente (metálicos estratégicos e não-metálicos); estudo, caracterização e gestão de geomateriais; colaboração na exploração e gestão dos recursos energéticos (como a geotermia); conservação do património geológico e valorização do geoturismo;

f) Saúde pública e geologia: prevenção dos riscos de contaminação dos solos e das águas subterrâneas, com base no estudo dos sistemas aquíferos, da sua vulnerabilidade e dos processos de propagação dos contaminantes; estudo da contaminação dos solos e dos métodos de descontaminação; avaliação do risco de exposição da radioatividade natural; estudos e o papel da geologia médica nos solos-alimentos-água; o papel terapêutico e de bem-estar dos recursos hidrominerais; contributos dos recursos hidrominerais em produtos farmacêuticos e dermocosméticos, entre outros temas;

g) Geologia marinha e reconhecimento dos fundos oceânicos da Zona Económica Exclusiva (ZEE) de Portugal: o nosso país detém a maior ZEE da Europa, revestindo-se esta de grande valor estratégico e potencial base de um novo paradigma do desenvolvimento económico do país ligado à Economia do Mar e Oceanografia Geológica. Os geólogos têm um papel preponderante no estudo da geologia dos fundos marinhos, e no estudo, exploração e gestão dos valiosos recursos naturais localizados na ZEE. A geologia costeira é, igualmente, importante na gestão, valorização da zona costeira continental e insular, bem como para a valorização deste fantástico e frágil território de interface com o oceano;

h) Investigação, ensino e cultura: os geólogos têm um papel extremamente relevante quer nas atividades de investigação, desenvolvimento e inovação em equipas inter, multi e transdisciplinares, quer no ensino básico, secundário e superior, bem como na formação de cidadãos cultos e informados. É, igualmente, relevante a sua participação em programas de astrogeologia para a difusão da geologia planetária, promovidos pela AEP e ESA. Os geólogos têm, também, um papel pertinente na difusão e disseminação de uma literacia e cultura geocientífica esclarecida direcionada aos cidadãos, através de programas e iniciativas de divulgação científica.

Assim, tendo em conta a defesa dos direitos fundamentais dos cidadãos, a salvaguarda do interesse público e a correlativa necessidade de autorregulação da profissão de Geólogo, assinamos esta petição solicitando à Assembleia da República a criação da Ordem dos Geólogos.

sexta-feira, 1 de março de 2024

Verdadeiro, Mariana - houve prisão perpétua no Estado Novo e alguns morreram


A PIDE prendia qualquer pessoa que suspeitasse ser contra o regime. Apesar da pena perpétua estar abolida, os presos eram sujeitos a "medidas de segurança" que prolongavam indefinidamente a sua pena, tornando-se equivalente a perpétua.

Consultando os arquivos da PIDE, comecem por escolher Tarrafal. Alguns não era prisão perpétua, era prisão até morrerem. 37 ali morreram. O Campo de Concentração do Tarrafal situava-se no extremo norte da ilha de Santiago, Cabo Verde, num lugar ironicamente chamado de Chão Bom.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Um baixo-relevo para Frida Kahlo


Baixo-relevo lembra as civilizações antigas: gregas, assírios, persas, incas, maias, astecas, etc. 
Kahlo brilhou-nos com a sua arte colorida, o seu fogo interior, autorretratos plenos de simbologia e surrealistas. Única, irrepetível. Nascida em Coyoacán, bairro da Cidade do México, Frida era filha de um fotógrafo húngaro-judeu e de uma mãe mexicana descendente de indígenas e espanhóis. Essa mistura de culturas e origens étnicas teve um impacto significativo na sua identidade e na maneira como ela se expressou artisticamente. Embora os seus autorretratos sejam altamente pessoais, eles também têm uma qualidade universal. As emoções, as lutas e as questões que ela retratou nas suas pinturas ressoam em muitas pessoas. O seu trabalho tornou-se uma forma de comunicação que transcende culturas e gerações, tornando-a uma artista verdadeiramente global. 
Acho que este baixo-relevo é a minha singela homenagem a uma Pintora também activista pelos direitos dos povos indígenas e pelo empoderamento das mulheres. 
Se vivesse na nossa época certamente seria uma notável antifascita!

Saber mais:

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

Fivelas de cinto revelam culto pagão medieval desconhecido na República Checa





Uma fivela de cinto medieval com a imagem de uma cobra ou um dragão devorando um sapo foi descoberta com a ajuda de detectores de metal perto da vila de Lány, na República Bcheca.


Para arqueólogos da Universidade de Masaryk, a representação pode ser um símbolo de um culto pagão desconhecido. Um estudo sobre a descoberta foi publicado na edição de janeiro do periódico Journal of Archaeological Science.

"Lutar contra um dragão ou uma cobra é um dos motivos básicos nos mitos cosmogônicos de criação do mundo de muitas culturas diferentes, enquanto a interação entre o sapo e a cobra pode ser vinculada às práticas cultuais de fertilidade", afirma comunicado da Universidade de Masaryk.

Inicialmente, os pesquisadores pensaram que a descoberta da fivela era rara, com uma decoração única. "No entanto, mais tarde descobrimos que outros artefatos quase idênticos também foram desenterrados na Alemanha, Hungria e Boémia", conta Jiří Macháček, chefe do Departamento de Arqueologia e Museologia da Faculdade de Artes de Masaryk.

Após encontrar os itens, Macháček se deu conta de que estava "diante de um culto pagão previamente desconhecido que ligava diferentes regiões da Europa Central no início da Idade Média, antes da chegada do Cristianismo".

Investigando as fivelas
Uma equipa internacional de pesquisa foi formada para estudar os artefatos no sítio arqueológico, que já havia chamado a atenção pela descoberta de uma costela de animal com inscrições em runas germânicas antigas.

A pesquisa revela que o cinto medieval de Lány pertence a um grupo de artefatos chamado "Avar belt fittings", que foram produzidos na Europa Central nos séculos 7 e 8 d.C.. Tais itens eram parte do traje dos ávaros, um povo nômade que se estabeleceu na Bacia dos Cárpatos, atual Hungria.

A moda ávara costumava ser adotada por povos vizinhos, como os eslavos. "O motivo de uma serpente ou cobra devorando sua vítima aparece na mitologia germânica, ávara e eslava", diz Macháček. "Era um ideograma universalmente compreensível e importante. Hoje, só podemos especular sobre o seu significado exato, mas, no início da Idade Média, conectava os diversos povos que viviam na Europa Central em um nível espiritual."

Para estudar os itens de Lány e outros semelhantes, os pesquisadores utilizaram métodos de ponta, como análise por fluorescência de raios-X e microscopia eletrónica de varredura. Stefan Eichert, do Museu de História Natural de Viena, na Áustria, realizou uma análise material e tecnológica que revelou que a maioria dos acessórios de bronze originalmente era dourada.

Já Ernst Pernicka, da Universidade de Tubinga, na Alemanha, utilizou uma análise química dos isótopos de chumbo contidos nas ligas de bronze, identificando uma fonte comum do cobre a partir do qual todos os acessórios descobertos foram feitos: as Montanhas de Minério da Eslováquia.

Uma análise morfométrica com base em modelos digitais 3D, realizada por Vojtěch Nosek da Universidade Masaryk, reforçou essa conclusão, sugerindo que alguns dos acessórios vieram da mesma oficina ou foram derivados de um modelo comum.

"Todas estas conclusões lançam uma nova luz sobre o desenvolvimento social, cultural e político da Europa Central no início da Idade Média", conclui o estudo.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

Escrito na pedra - Largo da Ramada Alta, Porto


Judeus e Palestinianos- vamos aos factos
A origem dos judeus é de uma região árabe do Iraque.
Judeus e árabes têm a mesma origem e tanto uns como outros são caraterizados por serem povos semitas, por terem a mesma origem linguística.
A Terra Prometida é o termo utilizado na Bíblia hebraica para descrever a terra dada por Deus aos israelitas
A promessa está contida em vários versículos de Génesis na Torá. Em Génesis 12:1 é dito:
Então o Senhor disse a Abrão: "Saia da sua terra, do meio dos seus parentes e da casa de seu pai, e vá para a terra que eu lhe mostrarei."
e em Gênesis 12:7:
E Abraão, o patriarca dos judeus, saiu da terra de onde os judeus são originários (Iraque) e foi com o seu povo para Canãa que corresponde hoje ao território da Palestina que é ocupado pelo Estado de Israel desde 1948.

Quem não quer a criação dos 2 Estados: Israel e Palestina?
Israel.O conflito no Médio Orente envolvendo palestinianos e israelitas tem entre as suas raízes a criação do Estado de Israel que - para os palestininanos – causou o que eles chamam de Nakba, que em árabe significa “catástrofe” ou “desastre”. Por isso, para compreender a guerra travada na região é preciso entender esse episódio que segue vivo na memória do povo palestino.  

A Nakba é lembrada todo 15 de maio, dia seguinte ao da Independência de Israel. O Estado de Israel foi declarado em 1948, a partir da Resolução 181 das Nações Unidas, que recomendou a partilha da Palestina entre árabes e judeus.

Em consequência, eclodiu o que ficou conhecida como a 1ª guerra “árabe-israelita”, quando Síria, Jordânia, Egito, Líbano e Iraque iniciaram uma ofensiva contra o novo país. Como resultado desse conflito, estima-se que de 700 mil a 800 mil palestinianos foram expulsos das suas terras e entre 400 e 500 vilas palestinianas foram destruídas, êxodo forçado que passou a ser conhecido como Nakba.

Por isso, seis meses depois, em dezembro de 1948, a Assembleia Geral da ONU aprovou a Resolução 194, dando direito aos palestinianos refugiados voltarem paras suas terras se assim desejassem. Porém, essa resolução nunca foi cumprida.

Colonatos - um apartheid nazi e racista de Israel
Israel começou a ter colonatos em território ocupado depois da guerra dos Seis Dias (1967). 
Os colonatos judaicos são locais onde vivem civis israelitas em território ocupado (e alguns casos anexado). São ilegais à luz da lei internacional, mas Israel contesta e invoca laços históricos e bíblicos com a terra. Os colonatos israelitas são muito diferentes entre si. Israel distingue no entanto entre colonatos regulares (que a lei israelita permite) e “selvagens” (proibidos mesmo por Israel). Os colonatos podem ir desde um par de caravanas ou pré-fabricados no cimo de um monte (no caso dos “selvagens”) até autênticas cidades estabelecidas.

O assassinato pela extrema-direita de Israel de Yitzhak Rabin
Yitzhak Rabin foi um general e 1º ministro de Israel que queria a paz e preparava-se para assinar os Acordos de paz com os Palestinianos
Em 1995 numa manifestação pela Paz em Telavive foi assassinado por um obscuro membro da extrema-direita israelita que entretanto veio a tornar-se governo e hoje governa o Estado racista de Israel, um Estado que provavelmente mais violou todas as resoluções e decisões da ONU.

"Terrorismo" vs. Exército Israelita nazi bem organizado e financiado pelos EUA
O Hamas é uma ideia antes de ser uma organização. As ideias não se matam enquanto a injustiça se mantiver.

Saber mais:
1. The Jewish Museum of the Palestinian Experience was founded to provide a Jewish perspective on the Israel/Palestine conflict

2. Faixa de Gaza- antes e depois da Invasão (NY Times, 12.12.3023)

3. ACRI - Association for Civil Rights in Israel is the oldest and most influential civil and human rights organization in Israel. Founded in 1972, ACRI is the only NGO in Israel advocating across the broad spectrum of human rights and civil liberties for everyone living in Israel and in the Occupied Palestinian Territories.

4. Breaking the Silence is an organization of veteran soldiers who have served in the Israeli military since the start of the Second Intifada and have taken it upon themselves to expose the public to the reality of everyday life in the Occupied Territories

segunda-feira, 27 de novembro de 2023

Os pretos que há em nós

Uma lição exemplar sobre as nossas origens e mais uma machadada nos preconceitos racistas…

Uma reconstrução da aparência do primeiro ser humano moderno do mundo, de cerca de 160 mil anos atrás (Museu Moesgaard, Dinamarca)
Os primeiros humanos modernos eram pretos, não muito diferentes de algumas etnias africanas actuais, e assim continuaram durante milénios enquanto alguns saiam de África. Chegados à Europa, Ásia e mais tarde América, depararam-se com climas diversos e foram-se adaptando para sobreviver. Alguns chegaram cedo à  Austrália, por volta de 60.000 anos atrás - os aborígenes -, e não mudaram muito. Outros, foram para norte e ocuparam a Eurásia - cro-magnons e denisovianos -, e ficaram mais claros porque a pele clara absorve mais raios UV, essenciais para produzir a vitamina D. A pele escura, surgida nos trópicos para precisamente proteger a pele contra o excesso de radiação solar, tornou-se num problema para as sociedades de caçadores-recolectores eurasiáticos que baseavam essencialmente a sua dieta em carne de mamute e outros animais de grande porte, pobre em vitamina D. Além disso, para se protegerem do frio vestiam roupas de peles dos animais que caçavam e mais tarde de tecido, pelo que a protecção solar contra um sol menos inclemente que nos trópicos tornou-se obsoleta e até contraproducente. Os primeiros habitantes europeus, por exemplo, que conviveram com os neanderthais, eram pretos e só há uns 30.000 anos começaram a mudar a cor da pele, tornando-se uns mais brancos que outros, consoante o clima. Os mais extremos foram os escandinavos, que ficaram mais brancos que a cal. Mas os esquimós, que vivem ainda mais a norte, são um pouco mais escuros que estes, o que parece um contra-senso, mas isso acontece porque vêm de uma linhagem diferente dos escandinavos, provavelmente dos denisovianos, e seguiram a sua própria evolução paralela. Portanto, este micro-promenor da cor da pele, que tem uma importância genética como outro qualquer, mas que serviu para todo o tipo de discriminações e atrocidades, baseia-se apenas numa adaptação climática dos euroasiáticos, que mais tarde também migrariam para as américas. E os europeus e norte-americanos, que tanto gostam (agora menos, felizmente) de apregoar a sua superioridade evolutiva, são uns inadaptados quando vão para os trópicos. Basta ver os camarões escandinavos que assam nas nossas praias - são uns bichos fora do seu habitat. Não fossem as roupas e morreriam das maleitas de pele mais atrozes...

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Dia de Todos os Santos - Maman


O Dia de Todos os Santos é comemorado anualmente a 1 de novembro em honra aos santos conhecidos e desconhecidos, mártires e cristãos heroicos celebrados ao longo do ano.

Em 610 d.C., o Papa Bonifácio IV decidiu introduzir a comemoração regular dos santos a 13 de maio. Só pouco mais de um século depois é que o dia 1 de novembro foi finalmente escolhido como data para a comemoração dos santos. Foi o Papa Gregório III que oficializou esta mudança. Por volta de 835, o Papa Gregório IV chegou mesmo a torná-lo numa festa mundial. No século XX, quando Pio X estava à frente do papado, o Dia de Todos os Santos foi definitivamente acrescentado à lista das oito festas cristãs. Ao mesmo tempo, tornou-se feriado.

Neste dia é também celebrado (por antecipação) o dia dos Fiéis Defuntos, que se celebra a 2 de novembro. Por isso neste dia há missas e os católicos - crentes e ateus - têm o hábito de ir colocar flores nos túmulos dos entes queridos que já faleceram.

Hoje dedico-o às nossas mães que já partiram.

Mãe, de Louise Bourgeois
1999
Bronze, mármore e aço inoxidável
927 x 891 x 1023 centímetros

Com quase 9 metros de altura, Maman é uma das mais ambiciosas de uma série de esculturas de Bourgeois que têm como tema a aranha, motivo que apareceu pela primeira vez em vários desenhos da artista na década de 1940 e que passou a assumir um lugar central na sua obra durante a década de 1990. Pretendidas como uma homenagem à sua mãe, que era tecelã, as aranhas de Bourgeois são altamente contraditórias como emblemas de maternidade: elas sugerem tanto o carácter protetor quanto predador – a seda de uma aranha é usada tanto para construir casulos quanto para amarrar presas – e incorporam a força e fragilidade. Tais ambiguidades são poderosamente representadas no mamute Maman, que paira ameaçadoramente sobre pernas como arcos góticos que funcionam ao mesmo tempo como uma gaiola e como um covil protetor para um saco cheio de ovos perigosamente presos ao seu chassi. A aranha provoca admiração e medo, mas a sua enorme altura, improvavelmente equilibrada sobre pernas delgadas, transmite uma vulnerabilidade quase comovente.


Maman, by Louise Bourgeois
1999
Bronze, marble, and stainless steel
927 x 891 x 1023 cm

Almost 9 meters tall, Maman is one of the most ambitious of a series of sculptures by Bourgeois that take as their subject the spider, a motif that first appeared in several of the artist's drawings in the 1940s and came to assume a central place in her work during the 1990s. Intended as a tribute to her mother, who was a weaver, Bourgeois's spiders are highly contradictory as emblems of maternity: they suggest both protector and predator - the silk of a spider is used both to construct cocoons and to bind prey - and embody both strength and fragility. Such ambiguities are powerfully figured in the mammoth Maman, which hovers ominously on legs like Gothic arches that act at once as a cage and as a protective lair to a sac full of eggs perilously attached to her undercarriage. The spider provokes awe and fear, yet her massive height, improbably balanced on slender legs, conveys an almost poignant vulnerability.