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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A próxima crise financeira global? O alerta do FMI sobre a dívida e as lições de 2008

Vamos deixar isto escrito agora, porque depois da próxima crise não faltarão especialistas a explicar, com a segurança que só o passado permite, por que razão ninguém poderia tê-la previsto: há sinais cada vez mais sérios de que a próxima grande crise financeira está a formar-se. Não sabemos quando chega, nem onde começa, e quem apresentar uma data está provavelmente a vender previsões ao quilo. Mas há uma diferença entre adivinhar e olhar para aquilo que está diante de nós. E aquilo que está diante de nós começa a ficar pouco recomendável.

A dívida pública mundial chegou a quase 94% do PIB em 2025 e o FMI prevê no Fiscal Monitor que atinja 100% já em 2029. O problema, porém, não é apenas haver muita dívida. Os Estados vivem há décadas a refinanciá-la: quando uma obrigação vence, emitem outra e seguem caminho. Durante os anos de juros próximos de zero, este mecanismo era extraordinariamente confortável. Agora deixou de ser. Em 2026, grande parte do dinheiro que os governos da OCDE vão buscar aos mercados destina-se simplesmente a refinanciar dívida já existente, como detalha a OCDE no seu Sovereign Borrowing Outlook. E estão a fazê-lo a taxas muito superiores às que pagavam quando boa parte dessa dívida foi emitida. É aqui que a brincadeira muda de natureza.

Nos Estados Unidos, a taxa das obrigações a 10 anos ultrapassou recentemente os 4,75% e a de 30 anos chegou aos 5,327%, o nível mais elevado desde 2007, segundo dados de mercado recolhidos pela U.S. Department of the Treasury. No Reino Unido, a dívida a dez anos chegou este ano aos 5,13%, máximo desde 2008. No Japão, onde durante uma geração praticamente se esqueceu que a dívida pública pagava juros, a taxa a dez anos ultrapassou os 3% pela primeira vez desde 1996, conforme registado pelo
Bank of Japan. Alemanha e França também estão a assistir a fortes subidas das taxas de longo prazo. Não estamos a falar da Grécia em 2011 ou de um qualquer país periférico a quem os mercados resolveram fechar a torneira. Estamos a falar dos mercados de dívida das maiores economias do mundo.

E isto interessa muito mais do que parece. Se um Estado tinha 100 mil milhões de euros de dívida financiada a 1% e passa progressivamente a refinanciá-la a 4% ou 5%, não precisa de pedir mais dinheiro para começar a ter um problema. Basta substituir dívida barata por dívida cara. A factura dos juros cresce, ocupa uma parcela maior das receitas e começa a disputar dinheiro com tudo o resto: saúde, educação, pensões, investimento público. É nesta altura que regressam palavras como “consolidação”, “ajustamento” e “responsabilidade”, geralmente pronunciadas por pessoas que nunca são objecto de nenhuma das três.

E há uma parte essencial desta equação que torna tudo isto bastante menos confortável: estas montanhas de dívida não estão a ser suportadas por economias a crescer 4% ou 5% ao ano. Estão a ser carregadas por algumas das maiores economias do mundo com crescimentos débeis ou praticamente estagnadas. O
Banco Mundial prevê no Global Economic Prospects apenas 2,5% de crescimento mundial em 2026. Na zona euro, o FMI aponta no World Economic Outlook para apenas 0,9%. Isto não é um pormenor: uma economia que cresce depressa consegue suportar uma dívida elevada com muito mais facilidade porque as receitas, os rendimentos e a própria base económica que sustenta essa dívida também crescem. Quando a economia quase não cresce e o Estado começa simultaneamente a refinanciar dívida a 4% ou 5%, o custo da dívida pode crescer muito mais depressa do que a economia que terá de a pagar. A partir daí, as soluções começam a ser aquelas velhas conhecidas que costumam aparecer com nomes tecnicamente tranquilizadores: mais impostos, menos despesa, inflação ou mais dívida.

E o mercado não está a pedir apenas dinheiro aos Estados. Governos e empresas deverão emitir este ano o equivalente a cerca de 25 biliões de euros em dívida. Ao mesmo tempo, a corrida à inteligência artificial está a exigir quantidades colossais de capital e algumas das maiores empresas tecnológicas começaram a financiar parte desse investimento através da emissão de obrigações. Há, portanto, cada vez mais dívida a disputar o mesmo dinheiro, justamente numa altura em que os investidores começaram a exigir melhor remuneração para o emprestar. A OCDE calcula que a dívida soberana em obrigações dos seus membros já atingiu o equivalente a cerca de 53 biliões de euros e que o peso da dívida dos governos centrais deverá chegar este ano a 85% do PIB, 39 pontos percentuais acima do nível de 2007.

Do outro lado temos mercados financeiros extraordinariamente valorizados. O estudo Global Balance Sheet, do McKinsey Global Institute, mostra que a riqueza das famílias aumentou o equivalente a cerca de 35 biliões de euros em 2025, atingindo aproximadamente 492 biliões de euros, mas apenas cerca de 20% desse aumento resultou de novo investimento líquido em activos reais. A maior parte veio da valorização dos activos e de outros ganhos financeiros. Não quer dizer que a riqueza seja imaginária. Quer dizer que uma parte enorme dela depende de casas, acções e outros activos continuarem a valer aquilo que os mercados decidiram que valem.

Mas há uma diferença importante em relação a 2008. Depois daquela crise, os bancos foram obrigados a reforçar capital, liquidez e financiamento mais estável. O risco, porém, não desapareceu por delicadeza. Uma parte considerável mudou simplesmente de sítio. Fundos de investimento, hedge funds, crédito privado e outros intermediários financeiros não bancários representam hoje o equivalente a cerca de 222 biliões de euros, 51% de todos os activos financeiros mundiais, e este sector cresceu ao dobro do ritmo da banca tradicional. O próprio Financial Stability Board (FSB) reconhece no seu Global Monitoring Report limitações sérias nos dados disponíveis sobre áreas como o crédito privado. E isto não significa que bancos e restante sistema financeiro vivam agora em apartamentos separados e tenham deixado de se falar. Pelo contrário. Os bancos financiam estes fundos, concedem-lhes linhas de crédito, fazem operações de repo, negoceiam derivados, fornecem alavancagem e serviços de margem e recebem deles financiamento. O Banco Central Europeu (BCE) no Financial Stability Review e o Comité de Basileia têm vindo precisamente a alertar para estas ligações e para a possibilidade de um choque nos mercados obrigar fundos alavancados a desfazer posições rapidamente, provocando vendas forçadas e transmitindo novamente as perdas à banca. O próprio BCE admite que existem falhas de informação que limitam a capacidade de perceber todas estas exposições.

É esta combinação que merece atenção: Estados muito mais endividados do que estavam antes de 2008, dívida antiga a ser refinanciada a juros bastante mais altos, necessidades recorde de financiamento, mercados financeiros muito valorizados e um sistema financeiro não bancário gigantesco, alavancado, profundamente ligado à banca e em partes importantes bastante menos transparente.

Separadamente, nenhuma destas coisas provoca necessariamente uma crise. O problema começa quando acontecem ao mesmo tempo e aparece um choque que obriga alguém a vender. Foi assim que funcionaram muitas das anteriores. Primeiro existe liquidez, crédito e valorização. Depois os preços sobem durante tempo suficiente para que a subida passe a ser considerada normal. A seguir vem a alavancagem, porque ganhar dinheiro com dinheiro emprestado parece uma ideia extraordinária enquanto os activos sobem. Finalmente aparece qualquer coisa que ninguém tinha colocado no modelo, os preços caem, alguém precisa de liquidez, começam as vendas forçadas e descobre-se que o sistema era muito mais interligado do que parecia.

Há ainda uma razão adicional para levar a próxima crise particularmente a sério. Em 2008, quando o sistema financeiro começou a cair, foram os Estados que apareceram para o segurar. Garantiram bancos, injectaram capital, aumentaram despesa, assumiram riscos privados e deixaram os bancos centrais baixar os juros para níveis próximos de zero. Na próxima grande crise, muitos desses Estados entrarão em campo já carregados com dívidas muito superiores às de 2008 e a pagar bastante mais para as financiar. A capacidade de salvar novamente o sistema sem apresentar depois a factura à economia real será, por isso, bastante menos confortável. O Banco de Pagamentos Internacionais (BIS) analisa no seu Annual Economic Report precisamente este paradoxo: os bancos estão hoje mais capitalizados e líquidos do que antes da grande crise financeira, mas as ligações entretanto criadas com o sector não bancário abriram novos canais indirectos através dos quais o risco soberano e financeiro pode regressar aos bancos. Em algumas economias, as exposições dos bancos à própria dívida soberana continuam também enormes relativamente ao seu capital.

É por isso que há razões para recear que a próxima grande crise possa ser mais difícil de conter do que a de 2008. Não apenas porque existe mais dívida, mas porque o sistema que terá de absorver o choque é maior, mais interligado e tem uma parcela muito superior dos seus activos fora da banca tradicional. Os fundos de investimento, por exemplo, passaram do equivalente a cerca de 18 biliões de euros em activos em 2008 para aproximadamente 45 biliões de euros em 2023. Mudámos algumas regras depois da última crise, reforçámos os bancos e deslocámos uma quantidade considerável de risco para outros lugares. O risco teve a gentileza de acompanhar a mudança.

Há anos que vamos escrevendo sobre isto. Não porque saibamos prever o futuro, mas porque ainda nos lembramos do passado. E se há uma coisa que a História financeira ensina é que as crises nunca parecem iminentes enquanto os mercados estão a subir. Quando finalmente parecem óbvias, já começaram.

Países europeus têm retirado ouro dos Estados Unidos. A Alemanha, que detém a segunda maior reserva de ouro do mundo, concluiu uma grande repatriação parcial em 2017 (tendo trazido ouro de Nova Iorque e Paris para Frankfurt), mas ainda mantém cerca de 37% (mais de 1.200 toneladas) nos cofres da Reserva Federal em Nova Iorque.  Embora existam debates políticos e apelos de economistas para retirar o restante devido a tensões transatlânticas e imprevisibilidade política, o governo alemão não avançou com uma retirada total recente.

A França concluiu a repatriação total das suas reservas que ainda estavam guardadas no estrangeiro. O banco central francês (Banque de France) finalizou a substituição e transferência das últimas 129 toneladas de ouro que mantinha nos cofres da Reserva Federal de Nova Iorque. Com este movimento estratégico de arbitragem e conformidade regulatória, a totalidade das cerca de 2437 toneladas de ouro que compõem o tesouro soberano francês encontra-se agora centralizada a cem metros de profundidade, no cofre subterrâneo conhecido como La Souterraine, localizado na sede do banco em Paris. A evolução histórica detalhada e os contornos políticos destas movimentações podem ser consultados no artigo sobre a Repatriação de Ouro na Wikipédia

Por sua vez, a Itália adota um modelo de custódia mista e mantém o seu stock intocável há décadas, resistindo a pressões de venda mesmo em períodos de crise. O país possui a terceira maior reserva mundial, com cerca de 2452 toneladas de ouro. Deste total, aproximadamente metade (cerca de 1100 toneladas) está guardada localmente nos cofres fortificados do Palazzo Koch, a sede institucional do Banca d'Italia em Roma. A outra metade da reserva italiana permanece dispersa no estrangeiro por razões logísticas e de liquidez de mercado, dividida maioritariamente entre a Reserva Federal de Nova Iorque, o Banco de Inglaterra em Londres e o próprio Bundesbank em Frankfurt. Mais pormenores sobre o enquadramento económico destas reservas estão disponíveis nas estatísticas atualizadas de mercado da Trading Economics

Finalmente, Portugal destaca-se internacionalmente pela elevada proporção de ouro face ao total das suas reservas financeiras globais. O país detém 383 toneladas de ouro e posiciona-se no topo dos países com maior quantidade de metal precioso por habitante. A gestão da custódia do ouro português pelo Banco de Portugal assenta historicamente numa forte componente externa para facilitar operações financeiras internacionais, embora uma parte relevante continue salvaguardada em território nacional, dividida entre os cofres da sede em Lisboa e o cofre-forte do Complexo do Carregado.

No dia 2 deste mês os Países Baixos transferiram 86 toneladas de ouro dos EUA e Canadá para o Reino Unido

Por isso deixamos o aviso agora. As dívidas são maiores, os custos de financiamento estão a aumentar, os mercados estão extraordinariamente valorizados e uma parte crescente do risco financeiro encontra-se em estruturas sobre as quais os próprios reguladores reconhecem não possuir toda a informação necessária. Não sabemos qual será o detonador nem quando alguém acenderá o fósforo. Mas já existe combustível suficiente para que não seja particularmente sensato discutir se há perigo de incêndio.

Mas não se preocupem demasiado. Enquanto isto se passa, haverá certamente um dérbi, uma polémica nas redes sociais, a final de um reality show ou qualquer assunto suficientemente importante para ocupar três dias de televisão.

Quando chegar a factura, então falamos de economia. Considerem-se avisados.
Baseado no texto de Rise Up Portugal, com alguns ajustes.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Sem mais ambição, o Plano de Restauro da Natureza arrisca falhar a recuperação da biodiversidade



Na consulta pública do Plano Nacional de Restauro da Natureza, deixámos um alerta claro: tal como está, o plano não garante que a natureza em Portugal recupere ao ritmo e à escala de que precisa.

“O Plano Nacional de Restauro da Natureza é uma oportunidade única para travarmos a perda da biodiversidade em Portugal. Este é o momento para decidir se queremos apenas cumprir metas no papel ou recuperar verdadeiramente a natureza”, diz Joana Andrade, coordenadora do nosso Departamento de Conservação Marinha.

Na nossa participação na consulta pública que terminou a semana passada, reconhecemos o esforço feito para integrar diagnósticos, estratégias e medidas num único plano, mas consideramos que a versão final tem de ir mais longe. Restaurar a natureza não pode significar apenas contar hectares: é necessário avaliar se as espécies e ecossistemas estão efetivamente a recuperar. É necessário restaurar a conectividade, e não criar “ilhas” de natureza isolada.

Recompor números não chega, é preciso recuperar a vida selvagem
Sublinhamos a necessidade de reforçar a integração da biodiversidade e das espécies nos objetivos, metas e indicadores do plano, defendendo que aves e outros grupos devem ser utilizados como indicadores da eficácia do restauro. Sem isso, alerta, corre-se o risco de investir em medidas que não se traduzem em melhorias reais no estado da natureza.

Sublinhamos também a importância de olhar para os ecossistemas como um todo ligado: florestas, zonas húmidas, áreas agrícolas, mar e cidades estão interligados, tal como as espécies que deles dependem ao longo do seu ciclo de vida.

Outra falha preocupante é a resposta ainda insuficiente e fragmentada a pressões crescentes como a poluição luminosa, apesar dos seus impactos nas aves marinhas e noutros grupos - uma ameaça silenciosa, mas cada vez mais evidente.

O restauro deve chegar às cidades e aos edifícios
A natureza não está apenas nas áreas protegidas - está também onde vivemos. Defendemos que o Plano Nacional de Restauro da Natureza deve entender o ecossistema urbano como um contínuo, promovendo a biodiversidade não só nos espaços verdes, mas também nos espaços edificados. Isso implica proteger e criar condições para a nidificação de aves nos edifícios, restaurar vegetação em avenidas, reduzir a impermeabilização dos solos e adotar soluções que minimizem os impactos da urbanização, evitando que a biodiversidade fique confinada a pequenas ilhas verdes numa selva de asfalto.

Entre as propostas da organização estão a criação e proteção de locais de nidificação, instalação de caixas-ninho e outras estruturas em edifícios, prevenção de colisões com superfícies transparentes ou espelhadas e o reforço da conectividade ecológica nas cidades. Estas soluções mostram que todos podem fazer parte da recuperação da natureza, e que o plano não diz respeito apenas a grandes áreas naturais, mas também às nossas ruas, bairros e casas.

Sem financiamento estável, não há restauro duradouro
Alertamos que o plano assenta em bases financeiras frágeis e pouco claras. Falta ligar, de forma transparente, as medidas propostas aos custos reais e às fontes de financiamento, bem como garantir recursos nacionais estáveis e de longo prazo.

“Restaurar não é plantar hoje e esquecer amanhã”, frisa Joana Andrade. “Sem financiamento para manter, monitorizar e adaptar as medidas ao longo do tempo, os resultados dificilmente serão duradouros.”

Sublinhamos ainda que o financiamento deve ser alinhado com as metas reais do plano, partindo do custo efetivo das medidas em vez de contabilizar fundos já existentes, e defende que o investimento privado só pode ser aceite com garantias rigorosas de transparência e ausência de greenwashing, incluindo um registo público de projetos e resultados. Alertamos também para a necessidade de rever os subsídios públicos que continuam a prejudicar a biodiversidade e de usar a Avaliação Ambiental Estratégica como ferramenta para testar a coerência global do plano e assegurar ganhos ecológicos efetivos.

Sem medir bem, não se sabe se está a resultar
Outro ponto crítico é a monitorização. Defendemos sistemas robustos, com indicadores biológicos que permitam perceber se a natureza está efetivamente a recuperar.

Programas de ciência-cidadã, como o Censo de Aves Comuns, são essenciais para esse acompanhamento, mas precisam de financiamento estável e reconhecimento institucional para continuar a produzir dados de longo prazo.

Restauro faz-se com pessoas, no terreno
Destacamos ainda que o sucesso do plano depende da participação ativa de proprietários, agricultores, comunidades locais e organizações da sociedade civil.

Modelos como a custódia do território - baseados em acordos voluntários e colaboração de longo prazo - são apontados como ferramentas-chave para garantir que as medidas saem do papel e chegam ao terreno, mantendo-se no tempo.

Ilhas e mar não podem ficar para trás
Alertamos também para lacunas importantes no que toca às Regiões Autónomas e aos ecossistemas marinhos, onde continuam a faltar medidas claras para proteger espécies e responder a pressões específicas. A aplicação uniforme de indicadores nacionais ignora a existência de realidades ecológicas distintas nas ilhas, o que compromete a eficácia do plano. Mesmo quando não sejam considerados no reporte europeu, devem ser adotados indicadores regionais que permitam avaliar adequadamente a recuperação da biodiversidade nos Açores e na Madeira.

Uma oportunidade decisiva para a natureza em Portugal
O Plano Nacional de Restauro da Natureza é uma oportunidade única de inverter décadas de degradação ambiental - oportunidade que a formulação atual do plano não está a aproveitar.

“Sem mais ambição, melhor financiamento e uma implementação eficaz, baseada na ciência e na participação, Portugal arrisca perder uma oportunidade que pode não voltar tão cedo”, conclui Joana Andrade.

Mais informação

sábado, 22 de agosto de 2026

Hoje assinala-se o Dia Internacional de Homenagem às Vítimas de Atos de Violência Baseados em Religião ou Crença.

Marilyn Monroe "The Springtime of Life", near Mailbu, CA, 1946- foto de André de Dienes

Embora estas efemérides procurem proteger a liberdade de consciência, torna-se impossível ignorar o papel que a própria religião - ou a sua manipulação ideológica - desempenhou e continua a desempenhar na eclosão de conflitos e na perda de vidas humanas. Ao longo da história, dogmas religiosos têm sido instrumentalizados para alimentar um nacionalismo sectário, onde a fé deixa de ser uma busca espiritual individual e passa a funcionar como uma fronteira de exclusão política. Quando a identidade nacional se confunde com a ortodoxia religiosa, a divergência deixa de ser apenas uma diferença de opinião e passa a ser vista como uma ameaça à soberania, pavimentando o caminho para a perseguição, a guerra e a violência estatal.

Acompanho, com muita apreensão, a aceleração e crescimento  galopante dos evangélicos e da manipulação em massa de gente nova a aderir a discursos evangélicos e pentecostais, os chamados "soldados/soldadas de Cristo". O movimento "Mulheres Conservadoras em Portugal" é o clímax de uma orquestração, que já vem detrás.  A aproximação à direita brasileira ganha particular relevância pelo papel que as igrejas evangélicas desempenham no Brasil como importante base de apoio da direita e estão no Parlamento Brasileiro. Imitam o Novo Conservadorismo norte-americano, constituindo, portanto, uma real ameaça à democracia. 

Contudo, os números são impressionantes. A liberdade de religião e de crença permanece um dos direitos fundamentais mais transgredidos no mundo contemporâneo, afetando cerca de 4,9 mil milhões de pessoas - o equivalente a mais de 60% da população global - que vivem sob regimes com limitações severas ou perseguição ostensiva à prática espiritual, segundo o relatório da Fundação ACN (Aid to the Church in Need). A violência motivada pela fé não se restringe a uma região ou dogma específico, distribuindo-se de forma heterogénea e vitimando comunidades de diversas matrizes.

Entre as populações mais afetadas, estima-se que mais de 365 milhões de cristãos enfrentem níveis elevados de discriminação ou opressão, registando-se perto de 5.000 assassinatos anuais por razões diretamente ligadas à sua fé, concentrados maioritariamente na África subsariana, com a Nigéria a responder por mais de 80% destas vítimas mortais, de acordo com os dados monitorizados pelo WWL da Open Doors International. Paralelamente, minorias muçulmanas sofrem repressão sistémica em várias geografias, como ilustrado pela detenção de mais de 1 milhão de Uigures em campos de reeducação em Xinjiang, na China, documentada pelo Relatório de Avaliação do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos (OHCHR), e pelo deslocamento forçado de cerca de 740.000 muçulmanos Rohingya forçados a fugir de Mianmar para o Bangladesh, segundo os registos do Portal de Dados Operacionais do ACNUR/UNHCR. O antissemitismo também tem apresentado surtos globais, com aumentos superiores a 300% em incidentes violentos e de intimidação registados em países ocidentais após a escalada de conflitos no Médio Oriente a partir do final de 2023, de acordo com as estatísticas da Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia (FRA).

A gravidade do panorama estende-se ao enquadramento jurídico de vários Estados. Em cerca de 13 nações - localizadas maioritariamente no Médio Oriente, Norte de África e Sul da Ásia —, crimes como a apostasia e a blasfémia preveem formalmente a pena de morte, enquanto em mais de 80 países a renúncia à religião maioritária ou a crítica a dogmas resulta em penas de prisão efetiva, acusações criminais ou privação de direitos civis, como documenta a Humanists International no seu Freedom of Thought Report. Nestes cenários, a ausência de crença também é severamente punida, tornando ateus e agnósticos alvos frequentes de sanções estatais.

A esta realidade soma-se a expansão de novos movimentos de traço sectário que instrumentalizam o estatuto de liberdade religiosa para exercer coerção psicológica, exploração financeira ou violação de direitos individuais. O grande desafio da comunidade internacional e dos Estados de direito reside em equilibrar a salvaguarda da liberdade de consciência com a aplicação rigorosa da lei, garantindo que o pretexto da fé não sirva para legitimar abusos, nem que o poder estatal seja utilizado para silenciar a diversidade de crenças.

O Afeganistão sob o domínio do Taliban representa um dos exemplos mais radicais de como a instrumentalização da religião pode anular o Estado de direito e refundar a identidade de um país sob uma lógica de exclusão absoluta. Desde o regresso do grupo ao poder em agosto de 2021, a interpretação ultrafundamentalista da lei islâmica de matriz Deobandi foi erguida como a única fonte de soberania e legitimidade, transformando a fé num instrumento de controlo social totalitário.

Esta fusão entre dogma e governação resultou no apagamento prático da diversidade cultural e religiosa do país. Minorias históricas, como a comunidade Hazara (maioritariamente xiita, representando entre 10% a 15% da população afegã), enfrentam episódios recorrentes de violência, marginalização e deslocamento forçado sem qualquer garantia de proteção estatal, conforme documentado nos Relatórios sobre o Afeganistão da Amnistia Internacional. Ao mesmo tempo, o desvio da ortodoxia oficial, a conversão a outro credo ou o abandono da fé são classificados como apostasia — um crime punível com a pena de morte no enquadramento penal do regime, o que força qualquer dissidência espiritual ao anonimato absoluto sob risco de vida.

Paralelamente, a narrativa religiosa serve de justificação para uma segregação de género sem paralelo no mundo contemporâneo, frequentemente descrita por organismos internacionais como um sistema de apartheid. Mais de 1,4 milhões de raparigas afegãs foram deliberadamente privadas do acesso ao ensino secundário e universitário por decretos do regime, segundo o Relatório sobre a Situação da Educação no Afeganistão da UNESCO, enquanto mais de 80 diretivas executivas restringem o trabalho feminino, a frequência de espaços públicos e o direito das mulheres de circularem sem um tutor masculino (mahram), como detalhado nos Destaques da Situação das Mulheres da ONU Mulheres.

O cenário afegão ilustra como o extremismo religioso transcende a dimensão espiritual para dar lugar a um pseudo-nacionalismo dogmático. A pertença à nação deixa de assentar na cidadania ou no direito de nascimento e passa a depender da submissão a um código ideológico estrito, no qual a divergência não é apenas encarada como uma heresia, mas como uma ameaça à própria sobrevivência do Estado.

domingo, 16 de agosto de 2026

Desertificação. Portugal é o quinto país da UE com mais solo afetado


A desertificação em Portugal não mora só no Alentejo
Um relatório publicado em 2026 pelo Centro Comum de Investigação (JRC) da Comissão Europeia, “Rumo a uma melhor caracterização da degradação dos solos e da desertificação na União Europeia”, aplicou, pela primeira vez, uma metodologia comum a toda a União, respondendo a uma recomendação do Tribunal de Contas Europeu. As zonas áridas, semiáridas e sub-húmidas secas cobrem hoje 15% da UE, e a desertificação afecta 530 mil quilómetros quadrados, cerca de 12% do território comunitário, com impacto directo sobre 42 milhões de pessoas. As percentagens mais altas de território sob condições de desertificação registam-se em Espanha (53%), Chipre (45%) e Grécia (36%). Numa tabela mais detalhada do mesmo relatório, Portugal surge em 5.ª posição, com 27,5% do território classificado em desertificação - atrás da Bulgária, que soma 32,85%.

Cerca de 71% do território de Portugal continental apresenta suscetibilidade moderada, alta ou muito alta à desertificação, alerta a associação ambientalista ZERO, na véspera do arranque da 17.ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17).

A conferência começa esta segunda-feira, 17 de agosto, em Ulaanbaatar, na Mongólia, e prolonga-se até dia 28. Sob o lema «Restoring Land. Restoring Hope.» («Restaurar a Terra. Restaurar a Esperança»), a COP17 reúne as 197 Partes da Convenção, representantes da sociedade civil, cientistas e setores ligados à gestão da terra.

Num contexto em que até 40% da superfície terrestre do planeta está afetada pela degradação das terras, a ZERO defende que a conferência deve permitir acelerar a passagem dos compromissos à ação, nomeadamente através da substituição das atuais políticas de reação às secas por medidas de prevenção, preparação e aumento da resiliência dos territórios.

COP17 tenta chegar a acordo sobre resposta global à seca
Uma das principais questões em discussão na Mongólia será precisamente a governação internacional da seca. A COP16, realizada em Riade, em 2024, terminou sem acordo quanto ao modelo a adotar, remetendo para a conferência deste ano a negociação de um quadro global ou protocolo para uma gestão mais proativa das secas e a definição do seu grau de vinculação.

Para a ZERO, é necessário deixar de encarar as secas essencialmente como emergências às quais se responde depois de os seus efeitos se fazerem sentir. A associação defende o investimento antecipado na saúde dos solos, na retenção e utilização eficiente da água, na recuperação dos ecossistemas, em sistemas de alerta precoce e na adaptação da agricultura e do território.

Entre as prioridades que deverão marcar a COP17 estão a criação de um quadro internacional de prevenção e gestão das secas, a recuperação de solos e ecossistemas degradados, a definição de objetivos mensuráveis para o período pós-2030 e a garantia de financiamento, bem como de maior articulação entre as convenções internacionais sobre clima, biodiversidade e desertificação.

Quase um terço do território português tem suscetibilidade alta ou muito alta
Em Portugal, os dados citados pela ZERO a partir do Relatório do Estado do Ambiente mostram que 4,7% do território continental apresenta suscetibilidade muito elevada à desertificação, 27,9% alta e 38,2% moderada, perfazendo cerca de 71% do território nas três classes.

A associação recorda que desertificação não significa necessariamente a transformação de um território num deserto, mas sim a degradação das terras nas regiões secas, resultante da interação entre o clima e as atividades humanas.

As alterações climáticas aumentam o risco, mas, sublinha a ZERO, a desertificação não é inevitável: más práticas na utilização do solo e da água podem acelerar o fenómeno, enquanto políticas adequadas nas áreas da agricultura, floresta, água e ordenamento do território podem preveni-lo e contribuir para a sua inversão.

A COP17 realiza-se ainda no Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores. Em Portugal, as pastagens representam cerca de um quinto da área continental e mais de metade da Superfície Agrícola Utilizada. Quando corretamente geridas, contribuem para proteger o solo da erosão, reter água, armazenar carbono e preservar a biodiversidade, enquanto o sobrepastoreio, a compactação e a perda de coberto vegetal aceleram a degradação.

ZERO pede ao Governo que faça do combate à desertificação uma prioridade
A associação chama também a atenção para a revisão do Programa de Ação Nacional de Combate à Desertificação (PANCD). O processo deverá estar concluído no final deste ano e, segundo a ZERO, o novo programa deve estabelecer objetivos, metas, indicadores, calendário e financiamento concretos.

A organização ambientalista considera essencial articular as políticas de combate à desertificação com agricultura, regadio, gestão da água, florestas, biodiversidade, clima e ordenamento do território. «Combater a desertificação não é simplesmente aumentar a oferta de água», salienta, defendendo antes a recuperação dos solos, a retenção da água no território e a adaptação das culturas e atividades às disponibilidades hídricas.

À entrada da COP17, a ZERO apela, por isso, ao Governo para que assuma o combate à desertificação como uma prioridade nacional ligada à adaptação climática, conclua a revisão do PANCD com metas e financiamento claros, proteja as pastagens e os sistemas agroflorestais e dê prioridade à saúde dos solos e à retenção da água.

Para a associação, prevenir continua a ser a opção mais eficaz: evitar a degradação do solo é mais eficiente do que tentar recuperá-lo depois de perdida a sua fertilidade e capacidade de retenção de água, pelo que a COP17 deverá servir para acelerar essa mudança, tanto a nível mundial como em Portugal.

Greepeace alerta: um quarto da costa continental portuguesa está em recuo e décadas de pressão e construção urbanística agravam o risco no litoral

Assina a petição aqui e divulga

Novo relatório “Destruição a Toda a Costa – Retrato de um litoral português em risco” mostra como os impactos das alterações climáticas se cruzam com décadas de ocupação e pressão urbanística e alerta para fragilidades na aplicação das regras que deveriam proteger o litoral.
• Cerca de 25% da costa continental portuguesa encontra-se em recuo e mais de 100 mil pessoas vivem em zonas costeiras de elevado risco.
• A vulnerabilidade do litoral não resulta apenas das alterações climáticas: décadas de ocupação, construção e pressão urbanística em zonas sensíveis aumentaram a exposição de pessoas, infraestruturas e ecossistemas e reduziram a capacidade natural de proteção do território.
• Portugal dispõe de legislação e instrumentos de ordenamento destinados a proteger a orla costeira, mas persistem fragilidades na aplicação, fiscalização, coordenação e atualização das regras face à evolução dos riscos.
• Um mapa interativo lançado com o relatório e que reúne fotografias e informação sobre cerca de 350 pontos mais vulneráveis do território costeiro português, no continente, Madeira e Açores.

Cerca de 25% da costa continental portuguesa está em recuo, mais de 100 mil pessoas vivem em zonas costeiras de elevado risco e a pressão sobre o litoral continua a aumentar.

A Greenpeace Portugal lançou no dia 23 de julho  um novo relatório nacional “Destruição a Toda a Costa – Retrato de um litoral português em risco”, que revela como os impactos crescentes das alterações climáticas se cruzam com décadas de ocupação, construção e pressão urbanística sobre algumas das zonas mais vulneráveis do país.

O retrato é claro: a costa portuguesa está presa entre o avanço do mar e o avanço da construção.

A subida do nível do mar, a erosão costeira e os fenómenos extremos estão a intensificar-se num território onde, ao mesmo tempo, se continua a exercer uma forte pressão urbanística e turística, a ocupar áreas vulneráveis e a degradar ecossistemas naturais que funcionam como primeira linha de proteção.

O problema, não é apenas a falta de adaptação à crise climática. É também o resultado de escolhas feitas ao longo de décadas sobre onde, como e quanto se constrói, e da distância que continua a existir entre as regras criadas para proteger o litoral e a sua aplicação efetiva no território.

“Portugal conhece há muito os riscos que ameaçam a sua costa. Temos conhecimento científico, legislação e instrumentos de ordenamento. Não podemos continuar a esperar que uma praia desapareça, uma arriba colapse ou uma infraestrutura fique em risco, para agir. O desafio agora é transformar aquilo que sabemos em decisões políticas coerentes e numa estratégia de longo prazo capaz de proteger as pessoas, a natureza e um território que pertence a todos”, afirma Toni Melajoki Roseiro, diretor da Greenpeace Portugal.

Entre o avanço do mar e o avanço da construção
Ao longo dos cerca de 2.500 quilómetros de costa portuguesa, entre o continente, Madeira e Açores, os riscos assumem diferentes formas.

Cerca de 25% da costa continental portuguesa encontra-se em recuo.

Mas olhar apenas para a erosão ou para o avanço do mar não permite compreender toda a dimensão do problema.

A vulnerabilidade atual resulta também da forma como o território foi ocupado ao longo de décadas. A expansão urbana e turística, a construção em áreas sensíveis e a artificialização da orla costeira aumentaram a exposição ao risco e, em muitos casos, reduziram a capacidade de adaptação dos sistemas naturais.

Para a Greenpeace Portugal, continuar a permitir novas ocupações em zonas que já são conhecidas como vulneráveis, significa criar hoje os problemas que o país terá de resolver amanhã, muitas vezes com custos públicos elevados e com consequências que poderão tornar-se irreversíveis.

Ana Farias Fonseca alerta que “Com mais de 25% do litoral continental em recuo e cerca de 100 mil pessoas a viver em zonas de elevado risco, não podemos continuar a permitir que a pressão urbanística e o desrespeito pelas regras de ordenamento e proteção ambiental ignorem os avisos da ciência. Para a Coordenadora de Campanhas e Mobilização da Greenpeace Portugal “A boa notícia é que estamos a tempo de salvar as praias portuguesas e, para isso, é imperativo travar novas ocupações em áreas vulneráveis e apostar na prevenção e no restauro de ecossistemas, garantindo que as decisões de hoje não se tornam em problemas irreversíveis e os custos públicos elevados de amanhã.”

Proteger a natureza é também proteger as pessoas
Dunas, sapais, zonas húmidas e outros ecossistemas costeiros desempenham um papel essencial na proteção do território.

Estes sistemas ajudam a absorver a energia das tempestades, reduzem os impactos da erosão e das inundações e aumentam a capacidade de adaptação da faixa costeira.

Quando são destruídos, degradados ou fragmentados, perde-se não apenas património natural, mas também uma parte das defesas que protegem pessoas e infraestruturas.

O relatório defende, por isso, que a resposta aos riscos costeiros não pode assentar apenas em intervenções realizadas depois dos danos. A recuperação dos ecossistemas e as soluções baseadas na natureza têm de fazer parte de uma estratégia preventiva de adaptação.

A lei existe. Falta fazê-la valer no território
O relatório conclui que Portugal não parte do zero. O país dispõe de legislação, planos de ordenamento da orla costeira, instrumentos de gestão territorial e conhecimento científico sobre grande parte dos riscos que afetam o litoral – um primeiro passo na direção certa. O problema está, em muitos casos, na implementação.

A Greenpeace Portugal identifica fragilidades na aplicação e fiscalização das regras, na articulação entre diferentes entidades e níveis de decisão e na capacidade de atualizar os instrumentos existentes à velocidade a que os riscos estão a evoluir.

O resultado é um território onde continuam a existir tensões entre a necessidade de proteger a costa e a pressão para ocupar e construir em áreas cada vez mais vulneráveis.

Para a Greenpeace Portugal, a proteção do litoral exige também maior transparência nos processos de decisão e licenciamento e a salvaguarda do caráter público e do acesso de todos à costa e às praias.

Não se trata, sublinhamos, de impedir qualquer desenvolvimento económico ou atividade turística no litoral. Trata-se de garantir que as decisões tomadas hoje não aumentam os riscos de amanhã e que o interesse público e a proteção do território prevalecem sobre opções de curto prazo.

Um mapa para mostrar o risco no terreno
O relatório é acompanhado por um mapa interativo que reúne fotografias e informação sobre cerca de 350 pontos mais vulneráveis da costa portuguesa. Da Costa da Caparica a Espinho, da Costa Nova à Figueira da Foz, de Tróia, Comporta, Carvalhal e Melides ao litoral alentejano, do Algarve à Madeira e aos Açores, o mapa permite visualizar diferentes faces de um mesmo problema: erosão e recuo da linha de costa, pressão urbanística, ocupação de zonas vulneráveis, degradação de ecossistemas e dificuldades de adaptação às alterações climáticas.

O objetivo não é criar um ranking das zonas mais graves, mas mostrar que o risco assume diferentes formas ao longo de todo o território e que nenhuma região pode ser analisada isoladamente da forma como Portugal decide ocupar, proteger e adaptar a sua costa.

Menos reação, mais prevenção
Para a Greenpeace Portugal, responder à erosão e à subida do nível do mar apenas com obras de emergência, alimentação artificial de praias ou estruturas rígidas de defesa não será suficiente para enfrentar a dimensão do problema.

A resposta exige uma política nacional que antecipe o risco e coloque a prevenção no centro das decisões.

A Greenpeace Portugal exige:
• O cumprimento efetivo da legislação e dos instrumentos de ordenamento e proteção do litoral, acompanhado de fiscalização adequada;
• A suspensão de novas ocupações e construções incompatíveis com zonas identificadas como vulneráveis ou de risco;
• A proteção, recuperação e renaturalização dos ecossistemas costeiros, incluindo dunas, sapais, zonas húmidas e outros sistemas naturais essenciais para a proteção do território;
• Maior transparência nos processos de decisão e licenciamento e a salvaguarda do caráter público e do acesso de todos ao litoral;
• Uma estratégia de adaptação que antecipe os riscos, proteja as populações mais vulneráveis e integre critérios de justiça climática e social;
• A redução rápida das emissões de gases com efeito de estufa e da dependência dos combustíveis fósseis, enfrentando a causa da crise climática que está a acelerar os riscos sobre a costa.

Com “Destruição a Toda a Costa – Retrato de um litoral português em risco”, a Greenpeace Portugal pretende colocar uma escolha no centro do debate público e político: continuar a reagir depois dos danos ou começar, finalmente, a evitar que o risco continue a aumentar.
Para uma melhor experiência de leitura, recomendamos a visualização em “Duas páginas”, com a opção “Mostrar a página de rosto em separado” ativada.

Material para os OCS: 
  1. Relatório completo Português: aqui
  2. Relatório completo Inglês: aqui 
  3. Resumo Executivo: aqui
  4. Mapa interativo: aqui
  5. Fotos e vídeos do relatório: aqui
  6. Petição: aqui

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Mulheres conservadoras em Portugal: o contraponto ao legado de Maria de Lourdes Pintasilgo

Sobre o "movimento de mulheres conservadoras" é usar as conquistas  por exemplo - o voto, a candidatura e a voz pública - contra elas mesmas.

Esquece quem faz que não sabe (ou não se lembra) que, no Estado Novo, o máximo que faziam em público era benzer-se na missa e pedir autorização por escrito para ir às compras. E não, não estou a exagerar.

Antes do 25 de Abril, uma mulher casada precisava do consentimento do marido para trabalhar, viajar ou abrir uma conta bancária. Hoje, estas militantes "cheganas" aproveitam a autonomia conquistada para apoiar quem marcha ao lado de quem quer retirar-lhes direitos - de quem lhes quer enfiar o avental à força. Agora um pouquinho "mais a sério", dá-me repulsa, nojo, assistir a mulheres a lutar pela própria submissão - e ainda verem-se aplaudidas por quem devia defender o progresso social -;é tão absurdo como ver perus a manifestarem-se alegremente a favor do Natal todos os dias.

Não é novidade, e é triste e revoltante ver a "cheganice" aliar-se aos evangélicos e seus propósitos de ter mais votantes.

É isto que temos que nos indignar e criar repulsa e falar a verdade. Vejamos em contraponto o legado de Maria de Lourdes Pintasilgo, uma católica convicta e ativista e progressista.

O pensamento pioneiro de Maria de Lourdes Pintasilgo e o confronto com a Ditadura
Maria de Lourdes Pintasilgo (1930–2004) foi uma das figuras mais marcantes e singulares do século XX português, tendo-se tornado na primeira e até hoje única mulher a assumir o cargo de Primeira-Ministra de Portugal, em 1979, além de ser uma das mais destacadas pensadoras da igualdade de género no espaço lusófono e internacional. O seu pensamento estruturou-se em torno da ideia de que a emancipação das mulheres não devia significar uma mera assimilação do modelo masculino de poder, mas sim uma transformação profunda na própria forma de fazer política, introduzindo valores de cuidado, mediação, ecologia e justiça social. Como dirigente do Graal, um movimento internacional de mulheres católicas, e sendo ela própria uma católica convicta, Pintasilgo demonstrou que a fé e o progresso social não eram incompatíveis. Pelo contrário, defendia que o verdadeiro compromisso ético e humanista exigia a libertação das estruturas patriarcais e autoritárias que historicamente remetiam as mulheres ao silêncio.

Durante os últimos anos do Estado Novo, em pleno período da chamada "Primavera Marcelista", gerou-se uma ténue fresta de debate sobre a modernização e o desenvolvimento económico do país. Em 1970, o regime criou a Comissão para a Política Social Relativa à Mulher - a antecessora histórica da atual Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG) -, convidando Maria de Lourdes Pintasilgo para a presidir. Foi nesse contexto que Pintasilgo conduziu um diálogo estratégico com o Presidente do Conselho, Marcello Caetano, usando a sua formação em Engenharia Química, o seu rigor técnico e a sua projeção internacional junto da Organização das Nações Unidas para confrontar o regime com a contradição da condição feminina em Portugal.

Pintasilgo conseguiu convencer Marcello Caetano da necessidade de mudar a política em relação às mulheres ao demonstrar, com diagnósticos sociológicos e económicos rigorosos, que a profunda discriminação jurídica, profissional e civil existente - como a obrigação de obter autorização do marido para trabalhar, viajar ou abrir uma conta bancária - representava um atraso civilizacional e um travão ao desenvolvimento do próprio país. Além disso, invocou a dimensão internacional para sublinhar o isolamento de Portugal face aos organismos mundiais. A sua atuação permitiu que o país integrasse a Comissão do Estatuto da Mulher da ONU e viabilizou os primeiros diplomas legais de proteção ao trabalho feminino e à maternidade ainda antes da Revolução. Ao utilizar as fissuras da ditadura para erguer as bases institucionais dos direitos das mulheres, Maria de Lourdes Pintasilgo abriu caminho para as transformações democráticas que se consolidariam após o 25 de Abril de 1974, reafirmando a voz e a autonomia feminina como conquistas irreversíveis da história portuguesa.

Ler mais:
Nota: No artigo o texto intitulado Para uma óptica revolucionária da condição feminina na Constituição, o link fornecido está errado. Podem lê-lo aqui 

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Fernando Alexandre defendeu o fim do pagamento do 14.º mês aos reformados?


Através da partilha de uma notícia do “Jornal Económico” a dar conta de que o Governo já tem o relatório final que vai servir para implementar uma nova reforma da Segurança Social, há quem aponte o dedo à estratégia do Executivo de Luís Montenegro nestas matérias.

“Há muito que venho alertando para o que a direita e a extrema-direita racista anda a ‘preparar’ para lixarem os portugueses no que diz respeito à Segurança Social e, portanto, às suas reformas e pensões”, começa por escrever um utilizador do X.

A publicação continua: “Pretendem privatizar a Segurança Social (SS) pública e, depois, colocá-la em bolsa, isto é, deixar todos os portugueses na mão e à sorte desta seita de capitalistas.”

Segue-se, depois, uma crítica concreta: “Estas ideias cripto-fascistas têm duas madrinhas e um padrinho, Marilu [uma provável referência à ex-ministra Maria Luís Albuquerque], Palma Ramalho e o impagável ministro da Educação Fernando Alexandre que há muito defende o fim definitivo do pagamento do 14.º mês aos reformados/pensionistas.”

Será que esta alegação em relação ao atual ministro da Educação tem fundamento?
De facto, numa entrevista de 21 de novembro de 2011 ao jornal “Público“, o professor de Economia da Universidade do Minho defendia uma “forte redução nas reformas futuras”. A justificação era a seguinte: “A decisão da poupança é tomada em grande medida pela expectativa de rendimento que se quer ter no futuro. Mas eu vou mais longe, e desde o início da crise defendo o corte definitivo do 14.º mês para as reformas acima dos 1500 euros mensais. Esse corte teria um efeito positivo na redução da despesa da Segurança Social, e representaria uma questão de justiça. É que as reformas actuais foram fixadas num período de expectativas demasiado optimistas e estão a ser financiadas por quem está agora a trabalhar e que vai ter um corte brutal no seu rendimento quando se reformar. Este sistema é injusto. É preciso criar um sistema de transição.”

Questionado sobre se o corte do 13.º e 14.º mês para os funcionários públicos devia ser temporário, Fernando Alexandre contestou: “Um dos salários deveria ser cortado de forma definitiva. Quando houver condições, os aumentos na função pública deveriam ser feitos com base no mérito. No entanto, o corte de dois meses, para muitas famílias, vai ser brutal.”

Assim, o corte do 14.º mês faria “as pessoas aterrar”. E “ajudava-as a perceberem que, de facto, muita coisa mudou”. O recado deixava-o aos políticos: “Ninguém gosta de dar más notícias. A democracia é assim. É curioso verificar que dois terços do aumento da despesa pública foram decididos pouco antes de eleições. O último exemplo foi o aumento dos funcionários públicos em 2009. Nas últimas décadas, a política orçamental portuguesa tem sido uma aberração, e por isso chegamos à situação actual. Agora é preciso dizer às pessoas que o Estado social está a diminuir. Em relação à educação e à saúde tenho muito receio do impacto que esse corte pode ter na vida das pessoas e no bem-estar da sociedade em geral. Um modelo de saúde como o americano é assustador.”

Além disso, em 2012, no estudo “A Poupança em Portugal”, que publicou em colaboração com Luís Aguiar-Conraria, Pedro Bação e Miguel Portela, Fernando Alexandre também defendeu um primeiro passo na privatização da Segurança Social, com a criação de um novo modelo contributivo.

A Conta Poupança Desemprego, como lhe chamou, funcionaria em concreto para situações de desemprego, mas substitui, de certa forma, o papel da SS, como explicou na entrevista ao “Público”: “Se o trabalhador ficar desempregado, o subsídio é pago a partir dessa conta, e se ficar negativa, o Estado assume esse pagamento. Quando o trabalhador voltar ao ativo, o Estado recupera o saldo negativo. O que não for gasto em situações de desemprego será recebido na reforma. Este sistema responsabiliza mais o trabalhador“.

Em suma, é verdade que o atual ministro da Educação defende “há muito” o fim do pagamento do 14.º mês aos reformados e pensionistas. Mais concretamente, há 15 anos.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Programa Nacional de Vacinação: as assimetrias regionais e o refúgio das redes antivacinas em Portugal

O Relatório Anual da Direção Geral de Saúde mostra que a maioria das vacinas infantis tem uma taxa de cobertura superior a 95% em Portugal, mas há concelhos que ficam abaixo dos 60%.A região algarvia mantem baixas taxas de vacinação Desigualdades persistem nas vacinas do HPV, gripe e covid-19.

As autoridades de saúde portuguesas estão a combater as baixas taxas de vacinação no Algarve através de uma estratégia focada na busca ativa de utentes e na proximidade comunitária Os centros de saúde realizam auditorias frequentes aos sistemas informáticos para identificar crianças e jovens com doses em atraso, avançando de imediato com contactos diretos através de telefonemas, SMS ou cartas registadas. Para mitigar o isolamento geográfico de concelhos como Aljezur e Vila do Bispo, equipas móveis de enfermagem deslocam-se às zonas rurais para administrar as vacinas localmente.Nas escolas da região, as autoridades cruzam os dados de matrícula com o registo vacinal para sinalizar alunos em falta e alertar os encarregados de educação. Paralelamente, os serviços de saúde pública trabalham com as autarquias locais para traduzir materiais informativos e integrar as comunidades estrangeiras residentes no Serviço Nacional de Saúde (SNS). Por fim, os profissionais de saúde desenvolvem ações de esclarecimento direcionadas para combater mitos e a hesitação vacinal junto de grupos específicos da população. Parece-me insuficiente. 

O debate em torno do movimento antivacinas e da proliferação de comunidades dogmáticas em Portugal exige uma análise objetiva das causas e uma revisão urgente do enquadramento legal. A experiência demonstra que o confronto direto com correntes New Age e determinadas comunidades de permacultura é ineficaz: nestes meios, o ceticismo em relação às vacinas e ao conhecimento científico assenta na construção de identidades, no sentimento de pertença e na rejeição do que consideram a "frieza" do sistema dominante. Esta mentalidade, contudo, gera consequências graves e conduz a mortes perfeitamente evitáveis.

A fixação destas famílias estrangeiras em Portugal - com particular incidência no interior (Beira Alta, região Centro) e no Algarve - resulta diretamente de um fenómeno de "fuga às regras". Países como a França e a Alemanha identificaram o risco do isolamento comunitário e do desrespeito pela saúde pública, endurecendo substancialmente os seus regimes jurídicos. Entre 2018 e 2020, tornaram a vacinação infantil obrigatória para o acesso ao ensino e erradicaram ou restringiram severamente o ensino doméstico (homeschooling).

Enquanto a Europa Central fechou as brechas legais, Portugal manteve-se como um dos países mais permissivos do continente, tornando-se um refúgio para quem procura educar os filhos fora do sistema oficial em redes locais sem controlo rigoroso. Embora a adesão da população nacional ao Programa Nacional de Vacinação seja massiva, a vacinação de menores não é juridicamente obrigatória, o que deixa uma margem de manobra perigosa. 

De salientar que há uma faixa social portuguesa em que a hesitação vacinal dos pais são na maioria da classe média-alta e alta. [artigo científico aqui]

Para proteger a saúde pública e a integração social das crianças, Portugal precisa de importar medidas coercivas inspiradas no modelo alemão, assegurando a devida conformidade constitucional:
  1. Condicionamento de acesso e sanções: nenhuma criança deve ser admitida em creches, escolas (públicas ou privadas), ATL ou colónias de férias sem o boletim de vacinação em dia. Caso seja detetada a ausência de vacinas, deve aplicar-se um prazo limite de três meses para regularização, sob pena de cancelamento da matrícula. Paralelamente, ao tornar o ensino presencial obrigatório e banir o ensino doméstico, os pais incumpridores devem ficar sujeitos a multas administrativas pesadas (a exemplo dos 2.500 euros aplicados na Alemanha).
  2. Abrangência a adultos e profissionais de risco: a obrigatoriedade vacinal deve estender-se a quem lida diretamente com populações vulneráveis - pessoal médico, trabalhadores de hospitais e lares, professores e funcionários de creches ou centros de acolhimento. A ausência de imunização deve proibir a contratação ou motivar a suspensão de funções.
Cabe ao Estado Português atuar legislativamente antes que a permissividade jurídica continue a expor a comunidade a riscos evitáveis.

Ler mais:

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Grande Muralha Verde restaura 1,66 milhão de hectares na África



Cerca de 1,66 milhão de hectares estão em processo de restauração no Sahel, região africana entre o deserto do Saara e a savana do Sudão. O resultado representa a principal conquista da iniciativa Acelerador da Grande Muralha Verde, que completou cinco anos e teve o relatório apresentado esta semana pela Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD).

Outros números em destaque do balanço incluem 24 milhões de toneladas de CO₂ equivalente sequestradas ou mitigadas, 4,6 milhões de empregos criados e 46 milhões de pessoas diretamente impactadas.

Segundo a UNCCD, o esforço envolve um conjunto de paisagens restauradas, áreas agrícolas, sistemas de água e comunidades. O objetivo é combinar a recuperação de terras com a segurança alimentar, a geração de oportunidades económicas, o acesso a energia limpa e o aumento da resiliência perante as alterações climáticas e a seca.

Grande Muralha Verde foi criada em 2007 pela União Africana e pela UNCCD e reúne atualmente 11 países fundadores, numa área de 156 milhões de hectares, do oeste do Senegal ao Corno de África. Já o "Acelerador" foi criado em 2021 para melhorar a coordenação da iniciativa, acompanhar os recursos financeiros e ajudar os países a medir os resultados das ações de restauração.

Resultados parciais
Apesar dos avanços, o próprio relatório alerta que ainda há limitações importantes no acompanhamento dos resultados. O Observatório da Grande Muralha Verde monitoriza mais de 389 projetos, porém menos de 90 apresentam atualmente dados de acordo com os indicadores harmonizados adotados pela iniciativa.

A UNCCD considera os resultados, portanto, iniciais. Além dos 1,66 milhão de hectares em restauração, os dados disponíveis apontam para a criação de 4,6 milhões de empregos, contra uma meta de 10 milhões até 2030, e a produção de 2.315 megawatts-hora de energia limpa. A entidade ressalta que os processos de restauração de terras podem levar anos ou décadas para produzir resultados completos e que o levantamento da totalidade dos projetos ainda está em curso.

Para tentar superar a fragmentação das informações, foi criado em 2024, em Ouagadougou, Burquina Faso, o Observatório da Grande Muralha Verde. A plataforma reúne informações sobre projetos, financiamento, resultados e dados geoespaciais. Segundo a UNCCD, o sistema já foi endossado por dez dos 11 países fundadores.

Também foram criadas coligações nacionais em nove dos 11 países, reunindo ministérios, sociedade civil, universidades, setor privado e meios de comunicação. A intenção é melhorar a coordenação das ações e transformar os compromissos financeiros em resultados verificáveis nos territórios.

Desafio do financiamento
O Acelerador foi lançado após a Cimeira One Planet, em 2021, quando parceiros técnicos e financeiros anunciaram mais de US$ 19 mil milhões em compromissos para a Grande Muralha Verde. A iniciativa passou a funcionar como uma estrutura para coordenar os esforços, acompanhar os recursos e fortalecer a capacidade dos países de demonstrar os resultados obtidos.

O relatório, porém, aponta que a distância entre compromissos e resultados continua a ser um desafio. Além da falta de dados completos, a UNCCD cita dificuldades de coordenação entre diferentes atores e o tempo necessário para que os recursos financeiros se transformem em ações no território.

A próxima etapa deve dar maior peso à comunicação, a mecanismos financeiros inovadores e à gestão transfronteiriça de terras e águas. Entre as possibilidades mencionadas estão obrigações verdes, créditos de carbono e mecanismos de financiamento combinado.

A experiência também procura ampliar a dimensão social da restauração. O relatório destaca iniciativas de geração de rendimento para mulheres, capacitação de jovens e fortalecimento de empreendimentos locais. Num dos exemplos citados pela UNCCD, mulheres do Mali receberam equipamentos e formação e ampliaram uma cooperativa de transformação de produtos agrícolas. No Chade, mulheres foram capacitadas para instalar e reparar painéis solares, transformando o acesso à energia em fonte de rendimento.

COP17
Seca, degradação da terra e restauração dos solos serão temas centrais na 17.ª Conferência das Partes (COP17) sobre Desertificação, que decorre entre os dias 17 e 28 de agosto em Ulan Bator, capital da Mongólia. 

domingo, 9 de agosto de 2026

A IA não é o maior problema de cibersegurança. São as pessoas

Os casos de Inteligência Artificial (IA) a escapar dos laboratórios, a infiltrar-se noutras empresas e a tentar enganar pessoas têm sido notícia nas últimas semanas. E, num desses casos, modelos de IA chegaram mesmo a trabalhar em conjunto para escapar dos seus ambientes de teste.

Significa isto que as máquinas estão a tomar conta de tudo? Não propriamente.
A IA não é a mente por detrás das ameaças cibernéticas mais disseminadas atualmente; são as pessoas que podem utilizar a IA de forma maliciosa - e para fins maliciosos. A IA deu aos agentes mal-intencionados um poder enorme, permitindo-lhes criar software malicioso, investigar alvos, elaborar esquemas convincentes e automatizar ataques a uma velocidade sem precedentes.

Um em cada quatro ataques que resultaram em violações de dados foi impulsionado por IA entre fevereiro de 2025 e março de 2026, segundo um relatório da IBM. E os norte-americanos perderam mais de 893 milhões de dólares (cerca de 775 milhões de euros) em burlas relacionadas com IA no ano passado, segundo o FBI.

Mas os especialistas dizem que os agentes de ameaça do mundo real - isto é, as pessoas - continuam a ser quem controla tais acontecimentos. Os agentes de IA apenas têm perpetuado métodos de ataque já existentes, como o phishing e as burlas com malware, em vez de criarem métodos totalmente novos.

“São os seres humanos que temos de vigiar”, alerta Oren Etzioni, professor emérito da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, e antigo CEO do Allen Institute for Artificial Intelligence. “A IA é apenas a ferramenta.”

A IA a agir de forma descontrolada
Alguns incidentes recentes mostraram aquilo de que a IA é capaz no mundo real, e não apenas em teoria, alimentando receios de que a tecnologia esteja a avançar demasiado depressa.

Em julho, modelos de teste da OpenAI (criadora do ChatGPT) ultrapassaram as suas limitações e invadiram os sistemas de outras empresas durante uma avaliação interna.

Dias depois, a Anthropic (criadora do Claude AI) afirmou ter descoberto que os seus modelos de IA tinham conseguido entrar nos sistemas de três empresas durante os testes.

Num teste separado, o modelo mais avançado da Anthropic utilizou identidades falsas para tentar enganar pessoas reais, segundo revelaram recentemente investigadores do AI Security Institute do Reino Unido.

Um dos modelos de IA da Meta (‘dona’ do Facebook, Instagram e WhatsApp) também conseguiu entrar numa empresa externa, informou a gigante das redes sociais.

Estas intrusões também demonstram como a IA pode ser imprevisível ao interpretar instruções. Os modelos da OpenAI, por exemplo, estavam a tentar realizar um teste de cibersegurança quando saíram do seu ambiente de teste e invadiram outra empresa, apesar de não terem recebido instruções para o fazer.

Patrick Fussell, responsável global pela simulação de adversários na IBM, comparou a IA a um génio.

“Queremos pedir-lhe um desejo, mas temos de ser muito, muito específicos quanto aos detalhes desse desejo”, diz à CNN. “Caso contrário, as coisas podem acabar por correr mal”, continua, em tom de aviso.

Mas estes casos também ocorreram em circunstâncias muito específicas.

A OpenAI desativou restrições que teriam impedido o seu modelo de “realizar atividades cibernéticas de alto risco”. A Anthropic realizou os seus testes sem as salvaguardas de segurança padrão presentes nos modelos disponibilizados ao público em geral. O AI Security Institute também desativou determinadas ferramentas que poderiam ter “reduzido o âmbito” das capacidades dos modelos.

Por norma, os investigadores fazem isto para avaliar plenamente as capacidades de um modelo.

“Eu não poderia entrar no ChatGPT ou no Claude, ou em algo semelhante, e isso, acidentalmente, invadir o FBI. Isso não vai acontecer”, adianta Adam Meyers, responsável pelas operações de combate a adversários na empresa de cibersegurança CrowdStrike. “O que estamos a ver é que estes testes são realizados em condições específicas, nas quais se monitoriza para perceber: ‘Será que isto faz algo que não era suposto fazer?’”

Como os hackers estão a utilizar a IA
Segundo os especialistas, a IA não está a agir de forma autónoma para conceber novos ataques. Em vez disso, está a ajudar os cibercriminosos a implementar técnicas já existentes muito mais rapidamente, tornando-as mais eficientes e eficazes.

Isto pode incluir a utilização de IA para analisar o site de uma empresa e descobrir quem deve ser visado, ou a utilização de um agente de IA para conduzir as primeiras negociações com uma vítima de extorsão informática. Os agentes de IA conseguem imitar conversas humanas, tanto através de texto como até de vozes específicas. Hackers com poucos conhecimentos técnicos podem agora recorrer à IA para executar esquemas sofisticados.

“Estão a utilizar a IA para melhorar a metodologia dos ciberataques, essencialmente, em todas as diferentes fases, mas continua, de certa forma, a ser uma atividade conduzida por seres humanos”, afirma Jud Dressler, responsável pelo centro de operações de risco da seguradora especializada em cibersegurança Resilience.

Segundo Meyers, antigamente os agentes mal-intencionados criavam à pressa scripts básicos - pequenos programas com instruções destinadas a automatizar tarefas - para atingir os seus objetivos. Agora, porém, conseguem produzir trabalho de maior qualidade que parece ter demorado três vezes mais tempo a desenvolver.

Também utilizam IA para tarefas que acontecem nos bastidores, como gerar a infraestrutura necessária para criar sites maliciosos.

“Com a IA, podem automatizar essa construção e, por isso, o custo de reconstrução tornou-se muito baixo. E isso muda as regras do jogo”, afirmou Rob Lefferts, vice-presidente corporativo de proteção contra ameaças da Microsoft.

A maior ameaça
Para Etzioni, os incidentes recentes são um momento de “canário na mina de carvão” para a IA e a cibersegurança - uma expressão que significa um importante sinal de alerta. E não é o único a pensar assim: Geoffrey Hinton, cientista informático galardoado com o Prémio Nobel e conhecido popularmente como o ‘padrinho da IA’, alertou recentemente para a probabilidade de surgirem mais ataques realizados por IA de forma descontrolada.

Os relatos sobre IA a agir de forma descontrolada reforçam a importância de implementar boas práticas de cibersegurança, como corrigir vulnerabilidades, monitorizar os agentes de IA no local de trabalho e estar atento a burlas de engenharia social e phishing, dizem os especialistas.

Mas, por mais avançada que a IA esteja a tornar-se, continua a ser um programa orquestrado por um ser humano. E são esses seres humanos que constituem a maior preocupação, porque são eles que tomam as decisões - como realizar operações de espionagem ou enganar utilizadores para lhes retirar enormes quantias de dinheiro - afirma Meyers.

As gigantes tecnológicas estão numa corrida para tornar a IA tão inteligente quanto os seres humanos, um marco teórico conhecido como “inteligência artificial geral” (AGI). Os incidentes recentes, contudo, intensificaram os apelos a um abrandamento do desenvolvimento.

Mais de 1200 trabalhadores de grandes empresas de IA, incluindo Dario Amodei, CEO da Anthropic, assinaram recentemente uma carta aberta a apelar ao governo norte-americano para ajudar a definir o ritmo do desenvolvimento da IA. A Casa Branca reuniu-se recentemente com grandes empresas de IA para discutir um quadro que permitiria ao governo analisar determinados modelos de IA antes de estes serem disponibilizados.

Muito provavelmente, os investigadores de cibersegurança já consideraram as ameaças associadas à AGI, porque as pessoas que trabalham nesta área tendem a ser paranoicas, adianta Fussell, da IBM. Mas ainda estamos muito longe de uma realidade em que os agentes de IA sejam tão inteligentes quanto os seres humanos, continua.

“É como perguntar a alguém: ‘Como seria viver noutro planeta?’”, exemplifica, continuando: “Conseguimos imaginar, de certa forma, mas está tão para além da nossa capacidade que é realmente difícil fazer um plano.”

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