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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Portugal tem 1,6 milhões de estrangeiros. Mais de um terço são brasileiros

Para quem grita apavorado que o Islão vai tomar conta da nossa Lusitânia...digamos que estão um pouco equivocados, não? Parece que em termos religiosos, o islão não é o problema, mas antes os evangélicos que em termos de retrocesso civilizacional, aparenta ser muito mais complicado. 


Dados do INE revelam também que há mais homens do que mulheres imigrantes

Dos 1,6 milhões de estrangeiros residentes em Portugal, 574 mil são brasileiros, uma contagem global que continua a indicar mais homens do que mulheres imigrantes, segundo dados divulgados pelo INE em 22 de junho deste ano.

De acordo com os dados das estimativas da população residente em 2025, hoje apresentadas pelo INE, a população residente de nacionalidade estrangeira em Portugal “foi estimada em 1.597.539 pessoas, das quais 913.249 (57,2%) homens e 684.290 (42,8%) mulheres, representando 14,0% do total da população residente”.

No que diz respeito às nacionalidades, o INE estima que residiam em 2025 um total de “574.195 cidadãos de nacionalidade brasileira, o que corresponde a 35,9% da população estrangeira residente”, mas do que duplicando o número em relação a 2021 (106,5%), com um acréscimo de 296.086 pessoas.

“A nacionalidade angolana era, em 2025, a segunda principal nacionalidade estrangeira, abrangendo 103.140 pessoas (6,5% do total de estrangeiros), o que representa igualmente um acentuado aumento em comparação com 2021 (33.099)”.

Seguem-se os indianos (93.683 pessoas, com 37.914 em 2021), cabo-verdianos (76.099), nepalês (56.866), cidadãos do Bangladesh (56.724) e guineenses (53.555).

A seguir a estas nacionalidades, seguem-se os ucranianos (53.555), são-tomenses (47.731), paquistaneses (39.638), cidadãos do Reino Unido (38.640), italianos (32.784), franceses (26.549), chineses (23.439) e alemães (21.635), na lista publicada pelo INE.

Numa comparação entre os dados de 2021 e 2025, segundo o INE, os são-tomenses constituem o grupo de imigrantes que mais aumentou em termos percentuais (mais 263%), seguindo-se os cidadãos do Bangladesh (230%), do Paquistão (215%) e angolanos (212%), as únicas nacionalidades que triplicaram o seu volume.

Numa análise a partir das regiões-plano (NUT2), o Norte é a região “onde reside o maior número de pessoas (3.790.554), concentrando 33,2% do total da população, seguida pela Grande Lisboa (2.415.261) e pelo Centro (1.771.259), onde residem, respetivamente, 21,1% e 15,5% da população total”.

“Em 2025, a região Grande Lisboa, onde residiam 546.419 pessoas de nacionalidade estrangeira, concentrava 34,2% do total de estrangeiros em Portugal, seguindo-se a região Norte, com 311.095 residentes de nacionalidade estrangeira e representando 19,5% do total”, pode ler-se nas conclusões do INE

Numa análise proporcional, os Açores são a região com menor número de população estrangeira (apenas 0,6% do total) enquanto “o Algarve, com 161.556 estrangeiros, destacou-se como a região com maior peso de população estrangeira no total de residentes na região, com 27,9%”, seguindo-se Lisboa (22,6%) e Península de Setúbal (18,3%).

A presença de imigrantes também contribuiu para um aumento da população ativa, contrariando a redução da população jovem.

“Entre 2021 e 2025, a proporção de jovens (população dos 0 aos 14 anos de idade) diminuiu de 13% para 12,4% da população total” e a ”percentagem de pessoas em idade ativa (população dos 15 aos 64 anos de idade) aumentou, de 63,7% para 64,3%, contributo dos fluxos migratórios recentes que tendem a concentrar-se nesta idade”, refere o INE.

Consultar ainda a AIMA : 2022- último relatório disponível

domingo, 18 de outubro de 2026

Tordo-comum aumentou o seu efectivo com o aumento dos parques urbanos em Portugal


Um verdadeiro cantor. Adoro o canto do tordo-músico (Turdus philomelos). Após tanto tempo a ser idealizado e construído, valeu bem a pena a luta pelo Parque da Cidade do Porto.
Idealizado inicialmente por Ezequiel de Campos entre 1916 e 1932, o parque teve os seus terrenos protegidos nos anos 60 pelo urbanista Robert Auzelle.

Após décadas de avanços e recuos, o projeto do arquiteto paisagista Sidónio Pardal começou a ganhar forma no terreno em 1990, culminando na inauguração da primeira fase em 1993 - concretizando assim um sonho com quase um século de história. É o maior parque urbano do país (84 ha).

Toda a sua história aqui

Referências

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Dia Internacional dos Resíduos Elétricos: Quase 18% dos portugueses inquiridos já deitaram pequenos equipamentos elétricos no lixo comum


Um estudo sobre comportamentos relacionados com a tecnologia de baixo custo e consumo rápido, realizado em 12 países europeus, revela que, em Portugal, um em cada seis compradores inquiridos (17,8%) já colocou pequenos equipamentos elétricos deste tipo no lixo comum ou em contentores inadequados.

Este estudo europeu, divulgado pelo Electrão, põe em evidência o destino de carregadores, cabos, auriculares, luzes LED e outros pequenos aparelhos do quotidiano que são muitas vezes adquiridos a baixo custo para satisfazer uma necessidade pontual ou assegurar um equipamento de reserva.

O estudo foi promovido pelo WEEE Forum, a associação internacional de entidades gestoras de resíduos elétricos da qual o Electrão faz parte. Os resultados são divulgados no âmbito da XIV edição do Dia Internacional dos Resíduos Elétricos, iniciativa criada pelo WEEE Forum em 2018, assinalada anualmente a 14 de outubro e que tem este ano como tema a tecnologia “fast tech”.

Em Portugal, oito em cada dez inquiridos (82,5% dos 503 participantes) compraram, pelo menos, um destes produtos no espaço de um ano (entre agosto de 2025 e julho de 2026). Entre quem já comprou estes equipamentos, um terço (33,6%) referiu ter guardado aparelhos que deixou de utilizar.

As papeleiras de rua e o ecoponto amarelo são indicados por 29,8% dos compradores como destinos inadequados onde já colocaram estes pequenos equipamentos elétricos. 41,9% dos inquiridos referem ter entregado estas tipologias de equipamentos num local de recolha ou instalação municipal (ecocentros). Em alguns casos, os comportamentos coexistem: há quem guarde em casa alguns equipamentos fora de uso, entregue outros para reciclagem em locais oficiais e descarte incorretamente outros aparelhos.

Dados globais do estudo
No conjunto dos 12 países, mais de um terço dos compradores (38,6%) afirma ter descartado pelo menos um destes equipamentos sem nunca o utilizar, depois de uma única utilização ou antes de completar um mês de uso.

Perante uma avaria, 59,1% escolheriam novamente o mesmo modelo ou outro equipamento barato. Apesar disso, 80,3% afirmam que, em algumas compras, teriam optado por pagar mais por alternativas mais duradouras.

“Os aparelhos de baixo custo e curta duração continuam a ser equipamentos elétricos. Devemos prolongar o seu uso até ser possível, nomeadamente através da reutilização, e quando deixam de servir é necessário encaminhá-los para reciclagem”, realça o Diretor-Geral de Elétricos e Pilhas do Electrão, Ricardo Furtado.

Recuperar materiais e tratar componentes perigosos
Estes aparelhos, mesmo de pequena dimensão, precisam de ser encaminhados para reciclagem para que os seus materiais sejam recuperados e os componentes, que exigem cuidados específicos, tenham tratamento adequado.

O encaminhamento para reciclagem permite recuperar metais e plásticos que podem voltar a ser usados no fabrico de produtos, reduzindo a necessidade de extrair novas matérias-primas.

O tratamento adequado inclui também a remoção e gestão dos componentes com substâncias perigosas, para proteger o ambiente e a saúde humana. Colocar estes aparelhos no lixo comum compromete esse encaminhamento.

A escala do desafio é mundial. Segundo o Global E-waste Monitor 2024, da UNITAR e da União Internacional das Telecomunicações, foram geradas 62 milhões de toneladas de resíduos elétricos e eletrónicos em 2022. Apenas 22,3% tiveram recolha e reciclagem formalmente documentadas.

Acresce que, no caso dos equipamentos que contêm baterias de iões de lítio, há ainda um risco de segurança. O WEEE Forum alerta que, quando estes aparelhos são descartados indevidamente, as baterias podem ser esmagadas ou perfuradas nos veículos de recolha ou nas instalações de triagem e tratamento e provocar incêndios. A entrega em canais próprios permite encaminhá-los para unidades dedicadas, reduzindo os riscos para trabalhadores e instalações.

Mobilização mundial com arte e recolha no Parque Mayer
O Dia Internacional dos Resíduos Elétricos (Internacional E-Waste Day, na sigla original) pretende mobilizar consumidores, empresas e outras organizações a dar o destino correto a estes resíduos, através de campanhas de sensibilização e iniciativas de recolha. Em 2025 aderiram a esta iniciativa mais de 140 organizações de 50 países, nos seis continentes. Em 2026, a atenção centra-se nos pequenos equipamentos de tecnologia de consumo rápido.


Para assinalar esta efeméride Dia Internacional dos Resíduos Elétricos, o Electrão tem uma instalação no Parque Mayer, junto ao Teatro Variedades, em Lisboa. A associação apoiou também o espetáculo “Pigmalião”, uma ópera contemporânea portuguesa, adaptada a partir do clássico, que foi apresentada neste teatro de 17 a 20 de setembro. Com música de Gerson de Sousa Batista e encenação e conceção plástica de João Vieira Fino, o espetáculo reinterpreta o mito num futuro devastado. A cenografia integrou uma escultura construída com resíduos de equipamentos elétricos e eletrónicos fornecidos pelo Electrão.

O Electrão apela a que os consumidores verifiquem quais os equipamentos que ainda podem utilizar, reparar ou doar e entreguem os que chegaram ao fim de vida nos pontos de recolha adequados. Cabos, carregadores e pequenos aparelhos elétricos também precisam de recolha separada. Os locais de entrega podem ser consultados em Onde Reciclar.

Portugal recicla menos de metade da meta comunitária, salienta a associação ambientalista Zero
"As razões para este descalabro são múltiplas, mas têm sempre por base ações ou omissões das três entidades públicas que ao longo destes 20 anos deveriam ter zelado por garantir a boa gestão dos Resíduos dos Equipamentos Elétricos e Eletrónicos (REEE): o Ministério do Ambiente, a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e a Direção-Geral das Atividades Económicas (DGAE)", aponta a associação.

Recordando que neste ano se cumprem 20 anos da entrada em funcionamento do Sistema de Gestão dos REEE (SIGREEE), a Zero diz que são 20 anos de boicotes e ilegalidades e que as comemorações não podiam ser mais tristes.

Segundo os últimos dados oficiais da APA, em 2024 Portugal recolheu e tratou 32% dos REEE, menos de metade da meta comunitária que é de 65%.

Além dos números, no seu comunicado, a Zero traça ainda um percurso muito negativo de todo o processo, começando por recordar que nos primeiros 12 anos de funcionamento do sistema (até 2018) a APA autorizou que os REEE triturados em unidades de fragmentação de sucata contassem para as metas das entidades gestoras dos REEE (Electrão e ERP), sem que existisse qualquer evidência de que esses resíduos tivessem sido devidamente descontaminados.

Após 2018, esses resíduos deixaram de contar e por isso as entidades gestoras nunca mais cumpriram as metas das suas licenças, o que implicava o pagamento de uma Taxa de Gestão de Resíduos (TGR) de 10 euros por tonelada, tão baixa "que continuou a ser economicamente compensatória a má gestão dos REEE".

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Transição energética em Portugal pode impedir 34.000 mortes prematuras e poupar 8,5 mil milhões de euros

O estudo, da coligação “Plan4Climate” (um projeto europeu de ambiente) e da Rede de Ação Climática Europa (CAN Europe, maior rede de organizações não governamentais de ambiente), quantifica “os benefícios da ação climática que costumam faltar nos debates centrados no custo da transição”.

A transição energética na Europa pode salvar 34.000 vidas e gerar 826 mil milhões de euros por ano até 2030, 8,5 mil milhões só em Portugal, indica um estudo divulgado hoje.

Segundo o documento, com medidas de poupança de energia, os 826 mil milhões de euros até 2030 podem subir para quase dois biliões de euros anuais até 2050.

O estudo, da coligação “Plan4Climate” (um projeto europeu de ambiente) e da Rede de Ação Climática Europa (CAN Europe, maior rede de organizações não governamentais de ambiente), quantifica “os benefícios da ação climática que costumam faltar nos debates centrados no custo da transição”.

Menor despesa com energia, novos empregos, melhor saúde, menos dias de trabalho perdidos por doença e danos climáticos globais evitados são os benefícios, referidos num comunicado sobre o estudo e hoje divulgado pela associação ambientalista Zero, que faz parte das entidades responsáveis pelo relatório.

Segundo o documento, as medidas de poupança de energia podem trazer à Europa, até 2030, mais de 8,5 milhões de empregos a tempo integral, incluindo cerca de 6,5 milhões na construção e na renovação de edifícios.

E além de se impedirem 34.000 mortes prematuras, também são evitados cerca de 8.000 internamentos hospitalares em cada ano e 3,3 milhões de dias de baixa por doença, graças à redução da poluição atmosférica.

A análise, de mais de 60 páginas, inclui resultados por país, apontando que os 8,5 mil milhões que Portugal pode gerar em cobenefícios (impactos positivos adicionais que resultam de uma intervenção, além do benefício principal) até 2030 é um valor que equivale a 2,45% do PIB de 2025.

“Até 2050, os cobenefícios podem chegar a 28,6 mil milhões de euros anuais, ou seja, 8,25% da riqueza produzida em todo o ano passado”, diz-se no comunicado da Zero.

Citando o relatório, a associação destaca que o principal argumento para Portugal acelerar a transição energética é a redução do preço da energia, podendo a diminuição dos custos com energia atingir os 280 euros por pessoa em 2030 e 1.069 euros por pessoa em 2050.

“Isto torna a ação climática diretamente relevante para as famílias e para o combate à pobreza energética. A estes ganhos somam-se os danos climáticos globais evitados, estimados em 279 euros por pessoa em 2030 e 1.282 euros por pessoa em 2050”, acrescenta.

Aplicado a Portugal, o estudo indica outros benefícios da transição, explicando que até 2030 as medidas de poupança de energia podem evitar 678 mortes prematuras por ano, e pode evitar-se ainda a perda de cerca de 66 mil dias de trabalho por doença.

A Zero diz que o Orçamento do Estado de 2027, apresentado na semana passada, deverá ser melhorado nas próximas semanas, incorporando medidas com financiamento e metas quantificadas que acelerem uma transição energética justa no transporte pesado de mercadorias e de passageiros, na indústria e nos edifícios.

O relatório lembra que a dependência continuada dos combustíveis fósseis também tem custos elevados. Em 2025, diz, a União Europeia gastou cerca de 340 mil milhões de euros em importações de combustíveis fósseis, enquanto o défice de investimento climático foi de 344 mil milhões de euros.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Calor e poluição causam milhares de mortes em Portugal, indica relatório

Avaliação global do Relatório Saúde Ambiente 2025 alerta para milhares de mortes associadas a riscos ambientais e pede proteção dos mais vulneráveis, cuidados de saúde mais sustentáveis e preparação para catástrofes climáticas.

Portugal está a reduzir as emissões de gases com efeito de estufa e a melhorar alguns indicadores ambientais, mas continua a enfrentar perdas de saúde associadas ao calor, à poluição e à degradação dos ecossistemas. A avaliação global «Saúde e Ambiente 2025: Urgência para Ação», que integra o Relatório Saúde Ambiente 2025 do Observatório Português da Saúde e Ambiente (OPSA), defende uma mudança de prioridade: tratar a crise ambiental também como uma emergência de saúde.

Os números reunidos no documento tornam visível a dimensão do problema: estimam-se 2.009 mortes em excesso durante os episódios de calor considerados em 2025 e cerca de 4 710 mortes atribuíveis à poluição do ar em 2023, incluindo as componentes exterior e interior. O relatório cita ainda uma estimativa de 750 mortes prematuras anuais associadas à poluição sonora. Estes valores respeitam a metodologias e períodos distintos e não devem ser somados.

Os riscos agravam as desigualdades
As ondas de calor já não são apenas uma ameaça de verão. A avaliação regista seis episódios em 2025, distribuídos pela primavera, verão e outono, e destaca a pressão dos incêndios, da escassez de água e da perda de biodiversidade. A deteção do mosquito Aedes albopictus, que pode transmitir doenças como dengue e chikungunya, passou de 18 concelhos do continente em 2024 para 28 em 2025. A presença do mosquito não significa, por si só, transmissão local destas doenças.

A capacidade de proteção é desigual: 15,7% da população declarou não conseguir aquecer adequadamente a sua casa em 2024. Pessoas idosas, crianças, doentes crónicos e famílias com menos recursos estão entre os grupos mais vulneráveis. O relatório defende que a resposta comece onde as pessoas vivem, com melhores habitações, espaços verdes, redução da poluição e apoio às populações mais expostas.

Há progressos. Falta uma resposta nacional integrada
O balanço reconhece avanços: em 2024, as emissões nacionais de gases com efeito de estufa estavam 40,1% abaixo das de 2005. A proporção de dias com qualidade do ar classificada como «Fraco» ou «Mau» diminuiu de 16,8%, em 2005, para 1,1%, em 2023. Mas melhorar médias nacionais não elimina os riscos locais nem garante proteção a todos.

O setor da saúde enfrenta uma dupla responsabilidade: responder aos impactos ambientais e reduzir os danos associados à sua própria atividade. Segundo a estimativa citada no documento, é responsável por 4,8% das emissões nacionais de gases com efeito de estufa. A avaliação considera que a sustentabilidade ambiental ainda não assumiu a necessária prioridade política no Serviço Nacional de Saúde e que a implementação de medidas de adaptação permanece insuficiente.

Há exemplos que mostram capacidade de mudança. Na Unidade Local de Saúde de Santa Maria, o consumo de energia primária caiu cerca de 40% em 2023 face a 2019. Na ULS de Santo António, o Projeto ROSE reduziu os resíduos abrangidos pela intervenção de cerca de 106 para 57 toneladas entre 2022 e 2025. O desafio é passar destas experiências a uma política integrada, continuada e mensurável.

Prevenir, transformar os cuidados e preparar a resposta
Entre as prioridades recomendadas pelo Conselho Português para a Saúde e Ambiente (CPSA) estão uma estrutura de governação que articule diferentes ministérios, uma estratégia nacional de sustentabilidade ambiental na saúde e um Plano Nacional de Adaptação da Saúde, abrangendo os setores público e privado. Estas respostas devem ter metas explícitas, financiamento, responsáveis identificados e avaliação dos resultados.

No terreno, isso significa identificar e acompanhar pessoas vulneráveis, reforçar a vigilância e os alertas, proteger escolas e lares, criar espaços de arrefecimento acessíveis e garantir a continuidade dos cuidados durante ondas de calor, incêndios, cheias ou tempestades. Significa também investir na prevenção da doença, reduzir cuidados desnecessários e desperdícios, promover compras sustentáveis, melhorar a literacia do público, formar os profissionais e reforçar a investigação.

«A proteção da saúde não pode esperar que a degradação ambiental se traduza em mais episódios de doença, nem a proteção do ambiente pode permanecer exterior às decisões de saúde», conclui a avaliação.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta para 13 milhões de mortes anuais associadas a fatores ambientais.

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Oceanos têm aquecido a “ritmo alarmante”


O oceano está a aquecer a um ritmo “alarmante”, com consequências para os ecossistemas marinhos, as zonas costeiras e comunidades de todo o mundo, alerta o 10.º Relatório sobre o Estado do Oceano (OSR), divulgado esta quarta-feira pelo programa europeu Copernicus.

O relatório conta com a participação de 125 cientistas de todo o mundo e tem como foco principal o aquecimento dos oceanos, que acelerou desde 1960. Em 2025, o oceano absorveu um recorde de 23 zettajoules de energia, equivalente a cerca de 40 vezes o consumo energético mundial nesse ano.

O aquecimento das águas contribui para a ocorrência de ondas de calor marinhas, pode intensificar tempestades e afeta os ecossistemas, além de contribuir para a subida do nível do mar devido à expansão térmica da água e ao degelo terrestre.

“O oceano está a transformar-se diante dos nossos olhos: O aquecimento, a subida do nível do mar e a degradação dos ecossistemas são sinais interligados de mudanças significativas e de longo prazo. É nossa responsabilidade construir a capacidade permanente de antecipar esta transformação”, indica Pierre Bahurel, diretor-geral da Mercator Ocean International, que produziu o relatório, citado num comunicado do Copernicus, programa de observação da Terra da União Europeia (UE).

Na Europa, o Mediterrâneo apresenta diferenças significativas entre regiões. O Mediterrâneo Ocidental tem registado uma aceleração da subida do nível do mar desde o início dos anos 2000, enquanto a bacia Oriental apresenta uma aceleração acentuada desde 2018.

O relatório destaca ainda a vulnerabilidade dos pequenos Estados insulares em desenvolvimento, cujas economias e meios de subsistência dependem fortemente do oceano. Todas as suas Zonas Económicas Exclusivas (ZEE) são afetadas pelo aquecimento desde 1960 e 65% da área conjunta está exposta à aceleração da subida do nível do mar desde 1999.

As regiões polares também registam alterações profundas. No Ártico, o Grande Ecossistema Marinho do Mar de Barents perdeu 70% da sua extensão de gelo desde 1982. Na Antártida, a reduzida extensão do gelo marinho registada em 2022 coincidiu com uma falha reprodutiva sem precedentes entre os pinguins-imperador.

O nível médio global do mar aumentou entre 3,5 e 4,1 milímetros por ano entre 1999 e 2025, mas o ritmo acelerou para entre 3,9 e 4,5 milímetros anuais no período de 2012 a 2025. O relatório indica ainda que, entre 1985 e 2025, a acidez dos oceanos aumentou cerca de 17%.

Karina von Schuckmann, diretora do relatório, destaca que, além de fornecer um registo científico, o estudo tem mostrado “como a observação, a modelação e a previsão contínuas, bem como a colaboração científica, podem ajudar as sociedades a compreender o que está a mudar, onde e porquê, a antecipar os riscos futuros e a preparar-se para as suas consequências”.

Na Europa, os mares regionais estão sob intensa pressão, com algumas regiões a mudarem mais rapidamente do que outras.

Em março deste ano, o IPCC já tinha alertado aqui

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Evitar rastos de aviões atrasaria em 10 anos o seu impacto no aquecimento global

Evitar a formação de rastos de condensação, as linhas brancas deixadas pelos aviões no céu, numa pequena parcela dos voos poderia atrasar em cerca de dez anos o aquecimento global atribuível à aviação, segundo um estudo.

De acordo com um estudo elaborado pela Klima Consulting, por encomenda da organização ambientalista Transport & Environment (T&E) e assinado pelo ex-cientista do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) Olivier Boucher, esta medida permitiria reduzir até 0,025 graus o aumento de temperatura previsto para 2050.

O relatório divulgado na terça-feira calcula que, se o aquecimento gerado por estes rastos fosse reduzido para metade a partir de 2030, a contribuição da aviação para o aumento da temperatura global atingiria 0,08 graus em 2050, em vez de atingir esse nível uma década antes, em 2040.

Para 2070, a redução acumulada seria de cerca de 0,049 graus, segundo o estudo, que estima que evitar os rastos permitiria libertar entre 3 e 5 pontos percentuais da margem de aquecimento mundial disponível entre 2025 e 2050 para limitar o aumento da temperatura a 2 graus.

Os rastos formam-se quando o vapor de água emitido pelos motores condensa e congela sob determinadas condições de humidade e temperatura a grandes altitudes, podendo dar origem a nuvens que retêm calor na atmosfera.

Além disso, o seu efeito climático concentra-se num número reduzido de percursos.

Em 2019, apenas 3% dos voos foram responsáveis por 80% do aquecimento associado aos rastos, segundo pesquisas citadas pela T&E, com especial incidência nos voos noturnos e durante o inverno.

Por isso, os autores do relatório consideram que modificar ligeiramente as rotas ou os horários de determinados voos para evitar zonas atmosféricas propícias à sua formação pode ser uma das formas mais económicas de reduzir, a curto prazo, o impacto climático da aviação.

Aos níveis atuais de tráfego aéreo, reduzir para metade o aquecimento provocado pelos rastos de condensação equivaleria a evitar, a cada ano, entre 67 e 225 milhões de toneladas de CO2 equivalente - o que representa entre 7% e 23% das emissões globais de dióxido de carbono da aviação previstas para 2025.

“Desviar ou reprogramar apenas alguns voos poderia adiar em dez anos a contribuição da indústria da aviação para o aquecimento global”, salientou a diretora de Aviação da T&E, Diane Vitry, classificando os rastos de condensação como uma das oportunidades mais acessíveis para reduzir o impacto climático do setor.

A União Europeia começou, em 2025, a controlar as emissões da aviação que não sejam de CO2, tendo a Comissão Europeia proposto, no âmbito da revisão do mercado europeu de carbono, conceder licenças de emissão gratuitas às companhias aéreas que evitem com sucesso a formação destes rastos.

Além disso, está previsto para este inverno, no Atlântico Norte, o primeiro teste à escala do espaço aéreo oceânico para reduzir este fenómeno, numa iniciativa que conta com a participação, entre outros, do governo britânico e dos serviços de controlo de tráfego aéreo.

Os autores do estudo sublinharam, no entanto, que o benefício para a temperatura perdura apenas enquanto se mantiverem as medidas para evitar os rastos, e que atuar sobre eles não substitui a redução das emissões de CO2 da aviação.

domingo, 20 de setembro de 2026

Ação climática e combate à poluição podem gerar 15 dólares por cada dólar investido

As alterações climáticas e a poluição atmosférica estão interligadas

O estudo, divulgado no Dia Internacional do Ar Limpo por um Céu Azul, é a primeira avaliação económica global abrangente dos benefícios de adotar medidas integradas para combater as alterações climáticas e melhorar a qualidade do ar.

Investir simultaneamente no combate às alterações climáticas e à poluição atmosférica poderá gerar cerca de 15 dólares (cerca de 12,8 euros) em benefícios económicos por cada dólar investido, segundo um novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA) e da Climate and Clean Air Coalition (CCAC).

Segundo o relatório, as 25 medidas analisadas poderão gerar benefícios económicos anuais equivalentes a 2,8% do PIB mundial em 2035, 4,5% em 2050 e 11,4% em 2100. Estes ganhos incluem a redução das despesas de saúde, o aumento da produtividade e a diminuição dos custos associados aos danos provocados pelas alterações climáticas.

Mesmo excluindo os benefícios relacionados com o bem-estar e outros ganhos não diretamente refletidos no mercado, as medidas analisadas deverão gerar cerca de quatro dólares por cada dólar investido.

“Durante demasiado tempo, tratámos a ação climática como um custo a gerir e a poluição atmosférica como o resultado infeliz do desenvolvimento. Este relatório mostra o contrário: o ar limpo é um motor fundamental do desenvolvimento, da saúde, da segurança alimentar e energética e da estabilidade climática – um ativo no qual temos de investir”, afirma Inger Andersen, diretora-executiva do PNUA.

A responsável sublinha que já existem soluções comprovadas, mas que falta “uma liderança decisiva por parte dos governos, das instituições financeiras e das empresas” para as implementar com a rapidez e coordenação necessárias.

Cada ano de atraso custa 1,5 biliões de dólares
O relatório estima que cada ano de atraso na implementação das medidas represente uma perda de mais de 1,5 biliões de dólares em benefícios económicos, equivalente a cerca de 0,5% do PIB mundial.

“Um rácio benefício-custo de 15 para 1 atrairia capital instantaneamente em praticamente qualquer outro sector”, considera Elliott Harris, copresidente independente da avaliação.

Segundo o especialista, uma das razões pelas quais este investimento ainda não acontece à escala necessária é o facto de os benefícios estarem distribuídos por diferentes áreas, como os sistemas de saúde, a produtividade e a redução dos danos climáticos.

“Cada ano de atraso custa ao mundo mais de 1,5 biliões de dólares em benefícios que não vamos recuperar”, alerta.

Poluição do ar provoca milhões de mortes prematuras
Os benefícios económicos identificados incluem a redução das despesas de saúde, ganhos de produtividade e a diminuição dos danos materiais, mas também o valor económico associado à redução das mortes prematuras e à melhoria da saúde.

Em 2025, a exposição à poluição atmosférica exterior provocada por atividades humanas, nomeadamente partículas PM2,5 e ozono, esteve associada a cerca de 6,4 milhões de mortes prematuras em todo o mundo. A poluição do ar dentro das habitações terá provocado mais dois milhões de mortes prematuras, incluindo cerca de 300 mil crianças.

O relatório contabiliza ainda os efeitos económicos das doenças relacionadas com a poluição atmosférica, incluindo a pressão sobre os sistemas de saúde, as perdas de produtividade e os impactos no bem-estar.

Só em 2025, a poluição exterior terá contribuído para 5,5 milhões de novos casos de asma infantil, dois milhões de novos casos de demência e milhões de casos de enfarte, doenças pulmonares, diabetes, acidente vascular cerebral e cancro do pulmão.

25 medidas em seis setores
As medidas analisadas abrangem seis grandes sectores: energia e sistemas associados aos combustíveis fósseis, indústria, transportes, agricultura e sistemas alimentares, cozinhar e aquecer as habitações e gestão de resíduos.

Entre as propostas estão o reforço das energias renováveis e da eficiência energética, a expansão de soluções de cozinha e aquecimento limpas, normas mais exigentes para as emissões e eficiência dos veículos, a promoção dos veículos elétricos e a utilização de combustíveis com baixo teor de enxofre no transporte marítimo.

O pacote inclui ainda medidas para reduzir as fugas de petróleo e gás, melhorar a gestão de gado e estrume, aumentar a eficiência na utilização de fertilizantes, adotar práticas agrícolas mais eficientes, reduzir a queima de resíduos agrícolas e melhorar a gestão de resíduos sólidos e águas residuais.

A redução progressiva dos hidrofluorocarbonetos (HFC) e o combate às emissões de metano e carbono negro fazem igualmente parte da estratégia.

Se forem plenamente implementadas, as 25 medidas poderão evitar cumulativamente 144 milhões de mortes prematuras relacionadas com a poluição atmosférica até 2050, incluindo 96 milhões associadas exclusivamente à poluição do ar exterior.

Menos emissões e menos aquecimento global
A implementação imediata das medidas permitiria reduzir para metade as emissões globais de dióxido de carbono até 2050, face ao cenário de referência utilizado no relatório. As emissões de metano poderiam diminuir 60% e os principais poluentes atmosféricos, incluindo carbono negro, dióxido de enxofre e óxidos de azoto, cerca de 70%.

As medidas permitiriam ainda evitar aproximadamente 0,34 ºC de aquecimento global até 2050 e 1,4 ºC até 2100. Em muitas regiões, onde as temperaturas terrestres aumentam mais rapidamente do que a média global, o aquecimento evitado poderá atingir entre 1,5 e 2 ºC até ao final do século.

“Este relatório apresenta a evidência mais rigorosa até à data de que tratar as alterações climáticas e a poluição atmosférica como problemas separados leva-nos a subestimar os benefícios de combater qualquer um deles”, afirma Simon Dietz, copresidente da avaliação e professor de Política Ambiental na London School of Economics.

Segundo o investigador, quando os dois problemas são analisados em conjunto, “os retornos foram maiores do que os que cada um poderia mostrar isoladamente”, uma vez que as mesmas fontes, sectores e políticas estão frequentemente na origem de ambos.

Barreiras podem atrasar implementação
Apesar dos benefícios identificados, o relatório aponta vários obstáculos à implementação das medidas, nomeadamente processos de decisão fragmentados, capacidade limitada de fiscalização e fraca coordenação entre governos.

No conjunto, estas barreiras poderão atrasar quase oito anos a implementação integral das medidas à escala mundial. O relatório defende, por isso, um planeamento integrado das políticas climáticas, de qualidade do ar, saúde e economia, instituições e mecanismos de fiscalização mais fortes e uma melhor articulação entre financiamento público e privado.

Segundo a avaliação, a adoção de incentivos fiscais e regulamentação que permitam ao sector privado implementar tecnologias simultaneamente rentáveis e capazes de reduzir emissões poderá acelerar a transição e desbloquear até 10 biliões de dólares em benefícios adicionais para a saúde até 2040.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Shalom e Salam vs. Extremismo: A Distinção Entre Religião, Política e a Indústria da Guerra

Judaísmo e Sionismo no Estado de Israel: o que são, o que os distingue e como moldam um país.[Fonte]

Sionismo e judaísmo são coisas bem diferentes. O judaísmo tem no seu cerne a busca pela paz. A palavra Shalom, no fundo, vai muito além de um simples "não haver guerra" - fala de plenitude, de harmonia, de estar bem com os outros e com o espiritual. Daí a saudação Shalom Aleichem ("A paz esteja convosco").

Se olharmos para a história, antes de Israel ser criado em 1948, já existiam grupos paramilitares de extrema-direita ligados ao sionismo revisionista - como o Irgun e o Lehi (a chamada Gangue de Stern). Eles usaram táticas de terror e violência tanto contra os britânicos como contra a população árabe local. Na altura, essas ações foram criticadas e condenadas até pela própria liderança sionista oficial (a Haganah) e por grandes intelectuais judeus pelo mundo fora. Hoje em dia, vemos fações do ultranacionalismo religioso a serem igualmente acusadas de extremismo e violência.

O mesmo se aplica ao Islão, que é uma religião intrinsecamente ligada à paz. A própria palavra "Islão" vem da mesma raiz que Salam ("paz" em árabe), e a saudação As-salamu alaykum significa exatamente "A paz esteja convosco".

Quanto à Sharia (que significa "o caminho para a fonte de água"), ela é a estrutura ética e jurídica do Islão, mas não é um código penal rígido num livro único. É uma tradição viva de interpretação baseada em quatro pilares: o Alcorão, a Sunnah (os ensinamentos do profeta Maomé), o Ijma (o consenso dos sábios) e o Qiyas (o raciocínio por analogia). Grupos radicais e terroristas, como o Daesh, pegam numa versão completamente descontextualizada e brutal da Sharia, que é rejeitada pela esmagadora maioria dos juristas islâmicos no mundo inteiro. 

Aliás, a esmagadora maioria dos cerca de 1,9 mil milhões de muçulmanos condena estes radicais - até porque as próprias populações muçulmanas são, muitas vezes, as suas principais vítimas.


Olhando agora para os factos mais recentes: no dia 16 deste mês, a administração Trump aprovou um pacote de venda de armas a Israel no valor de 2,8 mil milhões de dólares, que inclui 40 mil bombas (20 mil Mk84 de 2000 libras e 20 mil BLU-117). O Congresso já foi notificado informalmente.[Fonte]

A questão essencial aqui é como isto é financiado: a maior parte do valor vem do programa de Financiamento Militar Estrangeiro dos EUA. Ou seja, no papel, os EUA dão subsídios ou empréstimos a países aliados, mas com uma regra fixa: o dinheiro dos contribuintes americanos doado a Israel tem obrigatoriamente de ser gasto a comprar armas a fabricantes norte-americanos. Na prática, o dinheiro sai dos impostos dos americanos, passa por Israel e volta diretamente para injetar capital na indústria de defesa dos próprios Estados Unidos.

Retirem as vossas conclusões.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Menos água nos rios, nos lagos e nos glaciares - Seca de rios globais em 2025 foi uma das piores em 35 anos


O ano de 2025 foi dos piores das últimas décadas para os caudais dos rios e o armazenamento de água na superfície terrestre também está a diminuir, tendo havido uma perda generalizada nos glaciares pelo quarto ano consecutivo.

Os dados fazem parte do último Relatório sobre o Estado dos Recursos Hídricos Globais em 2025, hoje divulgado pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), um organismo da ONU.

O documento indica que a Ásia e a África são as regiões mais afetadas por desastres relacionados com a água, responsáveis por pelo menos metade de todos os eventos extremos relacionados e por mais de 80% das mortes associadas nos últimos cinco anos.

Os autores do documento dizem que o ciclo da água no planeta se tornou mais errático e imprevisível, oscilando entre pouca água ou água a mais, que há uma continuidade no declínio de armazenamento de água doce na Terra, e que os rios no mundo tiveram no ano passado um dos anos mais secos das últimas três décadas.

O documento faz uma avaliação científica de todo o ciclo da água no planeta, desde as descargas dos rios às águas subterrâneas, o armazenamento, a evapotranspiração e a neve e o gelo, bem como de eventos com grande impacto.

Partes desse ciclo, como a chuva ou a humidade do solo, são rápidas e respondem ao clima, mas outras, como a água subterrânea ou os glaciares são lentas, tradicionalmente reservas que atuam como uma “conta poupança”, um amortecedor para os anos se seca, explica a OMM em comunicado sobre o relatório, citando a secretária-geral, Celeste Saulo.

“Estamos a esgotar essa conta poupança. O armazenamento terrestre global de água tem apresentado uma tendência de queda desde 2014–2016 - um sinal persistente que dura uma década. Pelo quarto ano consecutivo, todas as principais regiões de glaciares da Terra perderam massa de gelo”, disse, acrescentando que com a água subterrânea se passa o mesmo, com quase dois terços dos poços monitorizados a perderem água em 2025.

O relatório especifica que o ano passado foi dos mais secos dos últimos 35 anos no caudal de muitos rios, que pelo sétimo ano consecutivo o número de bacias hidrográficas consideradas normais baixou, atingindo valores entre 34 e 38%, e que o armazenamento terrestre de água (lençol freático, lagos e rios, humidade do solo, vegetação gelo e neve) está em declínio desde meados da década de 2010.

O ano passado foi também o quarto ano consecutivo com perda generalizada de glaciares em todas as regiões, “levando a riscos de curto prazo como enchentes e insegurança hídrica de longo prazo”.

Entre 2023 e 2025 houve uma perda de gelo equivalente a 1.400 gigatoneladas de água.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

PISA. Alunos portugueses pioram desempenho académico e recuam ao início do século

Nem precisávamos deste estudo. E cada vez estou mais convicto que vivemos mesmo uma época de citizenhashing, merdificação e slacktivism. Mas aí estão os dados.  

Portugal registou o pior resultado de sempre em Leitura no último relatório PISA, recuando a níveis inferiores aos do ano 2000. Segundo os dados oficiais que pode consultar diretamente no PISA 2025 Results Volume I da OCDE, os alunos portugueses obtiveram uma média de 462 pontos, o que representa uma quebra drástica de 30 pontos face ao pico alcançado em 2015 - o equivalente a perder quase ano e meio de aprendizagem.

Esta derrapagem na literacia e na interpretação de texto é um problema global, mas que em Portugal ganhou contornos mais graves devido a fatores internos específicos. 

Além do impacto prolongado dos confinamentos da pandemia e da distração digital constante dos telemóveis, a comunidade educativa aponta o dedo às constantes alterações nas políticas curriculares e ao recente desmantelamento da estrutura independente do Plano Nacional de Leitura e da Rede de Bibliotecas Escolares. 

Ao diluir estes projetos essenciais em megaestruturas burocráticas, o país perdeu foco e autonomia no combate ao desinteresse dos jovens pelos livros.

O cenário atual é um alerta vermelho que exige muito mais do que lamentações; exige devolver às escolas os meios e a estabilidade necessários para pôr os miúdos a ler outra vez.

Encontros Improváveis - Hannah Arendt e Arthur Rimbuad

Enquanto Arendt nos ensina a reconhecer o perigo do adormecimento da consciência e da aceitação passiva, a poesia de Rimbaud funciona como um chocalho de emergência - ela devolve ao horror da guerra a sua cor real (o vermelho, o sangue, a dor física) e expõe o cinismo daqueles que a alimentam.

Num momento de iminência ou escalada de um conflito, Arendt explica como as pessoas deixam a tragédia acontecer, mas Rimbaud dá o grito necessário para nos arrancar da indiferença antes que seja tarde demais.

A poesia não substitui a filosofia; ela dá-lhe a urgência humana que os relatórios e a burocracia tentam apagar.

O Mal
"Enquanto os jatos vermelhos das balas
Assobiam o dia inteiro pelo infinito do céu azul;
Enquanto, escarlates ou verdes, junto ao Rei que deles zomba,
Os batalhões desmoronam em massa no fogo;

Enquanto uma loucura terrível esmaga
E transforma centenas de milhares de homens num monte fumegante;
— Pobres mortos! No verão, na relva, na tua alegria,
Natureza! Ó tu que criaste estes homens com santidade!… 

— Há um Deus que ri perante as toalhas damascadas
Dos altares, perante o incenso, perante os grandes cálices de ouro;
Que adormece ao som dos hosanas,
E acorda quando as mães, encolhidas
Na angústia, e chorando sob o seu velho gorro preto,
Lhe dão uma moeda grande embrulhada no seu lenço!"

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Democracia portuguesa vive o pior momento desde o 25 de Abril, alerta Sampaio da Nóvoa


António Sampaio da Nóvoa reflete sobre relatório do Estado Global das Democracias. Segundo o antigo representante português na UNESCO, há sinais preocupantes para Portugal. Para António Sampaio da Nóvoa, no que diz respeito a Portugal, o relatório sobre o Estado Global das Democracias resume-se assim: é "um retrato claro do pior momento da democracia em Portugal, a seguir ao 25 de Abril". É um retrato que, segundo o professor catedrático, deve motivar uma "profundíssima reflexão" no país.

O documento, produzido pelo Instituto Internacional para a Democracia e a Assistência Eleitoral, avalia, há 51 anos, o desempenho democrático de 173 países, tendo em conta quatro categorias: representação, direitos, Estado de Direito e participação. Em todos eles, Portugal regrediu e, por isso, é hoje um dos países com mais retrocessos democráticos da Europa, atrás da Rússia e da Geórgia.

"Na representação, nos direitos, no Estado de Direito e na participação - em todos eles recuamos. E recuamos, particularmente no critério em que já estávamos pior, que era o da participação. Há uma certa debilidade, uma fragilidade imensa da nossa vida cívica, da nossa responsabilidade cívica, da nossa capacidade de nos envolvermos, como cidadãos, nas nossas decisões, de pensarmos e decidirmos coletivamente. Eu creio que é, talvez, a área que nos deve mais preocupar em termos do recuo que é traduzido neste relatório", considerou o antigo representante de Portugal na UNESCO.

Sampaio da Nóvoa está particularmente preocupado com a falta de participação democrática dos mais jovens, uma lacuna que descreve como "o maior problema na Europa e em Portugal" e que está relacionado, na sua perspetiva, com a falta de esperança no futuro.

"Sem uma promessa de futuro não há democracia, sem a capacidade de podermos aspirar a alguma coisa diferente... E parece que só anunciamos um futuro pior em todas as áreas: nas áreas climáticas, nas áreas da segurança, nas áreas das pensões.. Em todas as áreas anunciamos um futuro pior. É muito difícil construir um caminho democrático sem ser uma promessa de futuro", sublinhou.

Para o professor, antigo candidato à Presidência da República, importa não desistir dos mais novos. "O lugar dos jovens deve ser objeto de uma grande reflexão da nossa parte, para lhes darmos a capacidade de se inscreverem numa dinâmica democrática e de poderem ter uma voz e uma presença forte. Essa voz e pertença forte implicam o direito de construir o futuro, de pensar o futuro, de dar uma voz ao futuro que está nos jovens. Creio que este relatório é muito claro sobre essa debilidade, sobre essa fragilidade que atravessa o mundo inteiro, mas que atravessa também o nosso país", afirmou.

Destaca-se, nesse caminho, o papel das escolas e das universidades, mas António Sampaio da Nóvoa lembra que também elas, as instituições, estão fragilizadas em Portugal.

"Nós temos instituições muito frágeis, na área da educação, na área da saúde, na área da justiça, em várias áreas da segurança e do Estado, nas universidades - que são instituições hoje muito frágeis. E com esta fragilidade é muito difícil construir uma vida democrática, sólida, forte, participativa. A educação tem aqui um papel muito importante e as universidades têm de fazer uma reflexão profundíssima sobre o que é a sua vida, o que é a sua cultura, o que é o seu dia a dia, a maneira como se organizam, a maneira como inscrevem os jovens nas suas decisões. Precisamos muito da escola pública, esperamos muito da educação, precisamos muito das universidades neste tentar, ainda, ir a tempo de reconstruirmos uma vida democrática neste país", disse.

Deterioração da democracia "não é conjuntural"
Entrevistado esta manhã na rubrica Ponto Central, da Antena 1, António Sampaio da Nóvoa considerou que a crise global na democracia não parece ser passageira - ela é estrutural, está relacionada com o fim dos consensos estabelecidos depois da II Guerra Mundial e com uma "banalização do mal".

"Estamos a ser coniventes com a mentira, com a fraude, com a corrupção, estamos a banalizar coisas que são absolutamente insustentáveis e insuportáveis. O relatório fala muito da influência do Trump, nesta situação do mundo. Estamos num processo de banalização de coisas que nos deviam indignar profundamente", explicou.

Aumento da temperatura global vai atingir pelo menos 1,8°C, avisa ONU, e 'não há bons resultados'

  • Relatório aponta pico de aumento de temperatura no melhor cenário para os 1,8°C; outros sugerem mais de 2°C
  • Acima dos 1,5°C, os impactos climáticos e os riscos de pontos de rutura intensificam-se a cada fração de grau
  • Trajetória de 'ultrapassagem, pico e declínio' é a melhor opção restante para ajudar nações e comunidades vulneráveis a responder e a regressar a valores abaixo dos 1,5°C
Nairóbi, 2 de setembro de 2026 - O aumento da temperatura global está prestes a cruzar a barreira dos 1,5°C, provavelmente dentro dos próximos anos, elevando os riscos e impactos climáticos a níveis cada vez mais perigosos. Contudo, ainda é possível reduzir as temperaturas e alcançar as metas globais do Acordo de Paris, segundo um novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA).

O relatório, Limiting Overshoot, identifica a trajetória de 'ultrapassagem, pico e declínio' como a melhor opção restante para minimizar a magnitude e a duração desta ultrapassagem, tentando regressar a valores inferiores a 1,5°C o mais depressa possível.

“O calor escaldante, os incêndios devastadores e as inundações mortais deste verão são um aviso do que nos espera. Temos de fazer com que a ultrapassagem acima dos 1,5 graus seja o menor e mais curta possível. Isso exige uma ultrapassagem de ambição”, afirmou o Secretário-Geral da ONU, António Guterres.

Esta trajetória minimizaria o pico de aumento da temperatura através de cortes imediatos e sustentados nas emissões de gases com efeito de estufa, incluindo o metano, a caminho do zero líquido (net-zero). Posteriormente, baixaria as temperaturas através de emissões líquidas negativas a longo prazo, com a Remoção de Dióxido de Carbono (CDR) devidamente governada - o processo de retirar carbono do ar e armazená-lo através de reflorestação ou outros meios - a assumir-se como parte essencial da solução.

Ao mesmo tempo, seguir este caminho envolveria ações de adaptação que reduzem a vulnerabilidade aos impactos atuais, esperados e inesperados das alterações climáticas nas sociedades, comunidades e economias - embora existam prováveis limites à adaptação e impactos irreversíveis, especialmente se os picos de temperatura não forem minimizados. O relatório reforça que tal trajetória reduziria riscos e impactos, tornaria a adaptação menos difícil e dispendiosa, e aumentaria as hipóteses de baixar as temperaturas.

“Não há bons resultados se permanecermos acima dos 1,5°C. Em todo o mundo, as ondas de calor extremo já provam que os impactos climáticos vão atingir-nos mais rápido, com mais força e durar mais tempo - custando mais vidas e causando perturbações mais profundas”, disse Inger Andersen, Diretora Executiva do PNUA. “Agora é o momento de duplicar os esforços na ação climática. Podemos - e devemos - entrar no caminho certo. Cortando emissões de gases com efeito de estufa, reforçando a resiliência e a adaptação, e garantindo que a ultrapassagem dos 1,5°C seja o mais reduzida e curta possível.”

Impactos devastadores
O cenário mais otimista prevê que o pico do aumento de temperatura atinja os 1,8°C acima dos níveis pré-industriais, superando a meta de limitar o aquecimento a 1,5°C definida pelo Acordo de Paris. A maioria dos restantes cenários prevê picos ainda mais elevados.

Acima dos 1,5°C, os riscos e impactos intensificar-se-ão a cada fração extra de grau e a cada ano. Os impactos previstos incluem eventos meteorológicos extremos mais intensos, perda de ecossistemas e a submersão de Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento e cidades costeiras de baixa altitude. Esperam-se danos graves na saúde humana, segurança alimentar, abastecimento de água, natureza, cidades, infraestruturas e economias.

O relatório avisa que a probabilidade de cruzar pontos de rutura irreversíveis aumenta com a magnitude e duração de temperaturas mais elevadas. Estes incluem a desestabilização de grandes calotas polares, a degradação da floresta amazónica e a perturbação da Circulação Meridional do Atlântico (o sistema de correntes que move água quente de superfície para norte e água fria profunda para sul, desempenhando um papel fundamental na regulação do clima). Alguns impactos podem surgir abruptamente, enquanto outros se acumularão ao longo do tempo.

Tendo em conta a dimensão dos riscos e os benefícios paralelos das intervenções climáticas - como a transição rápida dos combustíveis fósseis para as energias renováveis, melhorando a qualidade do ar e a saúde pública, reduzindo os custos de energia e aumentando o acesso à eletricidade -, o relatório apela a uma ação global, coletiva e acelerada para entrar na trajetória de ultrapassagem, pico e declínio. A rapidez e a força desta ação definirão a forma e a trajetória desse caminho.

Condições para o sucesso
Vontade política forte, multilateralismo, políticas eficazes, governação inclusiva e financiamento são condições essenciais para a ação - e a equidade e a justiça devem fundamentar todas as respostas. Os países com maior responsabilidade pelas alterações climáticas devem agir mais depressa e com maior ambição.

O relatório também conclui que a mitigação e a adaptação, que se reforçam mutuamente, têm de avançar juntas, mantendo-se responsivas a riscos emergentes. Intervenções que atinjam em simultâneo metas de mitigação e adaptação - como o arrefecimento baseado na natureza - devem ser priorizadas.

A adaptação implementada agora forma a base para os esforços futuros, mas tem de se tornar transformacional e capaz de responder a riscos não lineares e abruptos - incluindo aqueles que prejudicarão os esforços de mitigação.

O relatório enfatiza que o zero líquido é apenas um marco a caminho do líquido negativo, sendo a remoção de carbono (CDR) necessária além de - e não em substituição de - reduções sustentadas nas emissões. Contudo, a CDR só pode contribuir de forma credível para o regresso a valores abaixo de 1,5°C se o pico de aquecimento se mantiver bem abaixo dos 2°C e todas as emissões residuais forem reduzidas. Quadros de governação sólidos para a CDR serão críticos para permitir uma implementação responsável e gerir as implicações na integridade ambiental, equidade e escala.

Responder a um futuro alterado
Anos de inação significam que, mesmo que se assegure o regresso a valores inferiores a 1,5°C, perdas irreversíveis e condições permanentemente alteradas são certas. Muitas comunidades podem ser forçadas a relocalizar-se ou a mudar de meios de subsistência, enquanto as sociedades enfrentarão o desafio da readequação. Isto levanta questões de justiça, poder e legitimidade política, que exigirão novos acordos de governação inclusiva para resolver problemas complexos.

Este relatório é um lembrete de que a trajetória de ultrapassagem, pico e declínio é a próxima fronteira climática, mas que não pode ser deixada ao abandono para as próximas gerações resolverem. É necessária ação imediata para que tal caminho continue a ser possível.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

O tempo despendido no consumo de conteúdos digitais e as suas implicações sociológicas: atomização social, alienação e o declínio da intervenção cívica

O ecossistema digital consolidou-se como o eixo central da vida quotidiana, com os utilizadores de internet em Portugal a demonstrarem uma ligação cada vez mais profunda às plataformas online. Os dados do relatório Digital 2026, elaborado pela We Are Social em parceria com a Meltwater, revelam que mais de 7,5 milhões de portugueses utilizam redes sociais, representando cerca de 8 em cada 10 internautas no país. Em média, o tempo despendido nas redes sociais situa-se nas 2 horas e 10 minutos por dia, com o TikTok a liderar no tempo médio de utilização (1 hora e 23 minutos diários por utilizador ativo) e o YouTube a destacar-se pelo alcance massivo. No entanto, o consumo apresenta uma forte assimetria geracional: os jovens dos 15 aos 24 anos lideram o tempo de ecrã com 2 horas e 25 minutos diários, ao passo que a faixa dos 25 aos 44 anos regista 1 hora e 45 minutos e os utilizadores com mais de 45 anos fixam-se em 1 hora e 15 minutos. Este comportamento mobile-first - impulsionado por 95,9% dos utilizadores que acedem à rede via smartphone - estende-se ao processo de compra, onde 65% dos jovens dos 16 aos 24 anos usam as redes para pesquisar marcas, e à integração massiva da Inteligência Artificial generativa, utilizada diariamente por mais de 40% dos internautas portugueses. 

À escala global, o estudo aponta para 6 mil milhões de utilizadores de internet e 5,66 mil milhões nas redes sociais (68,7% da população mundial), num cenário onde a publicidade social já ultrapassa a televisão e os motores de busca como principal meio de descoberta de marcas entre os 16 e os 34 anos.

A transição massiva para este ecossistema digital contínuo traz consigo profundas implicações sociológicas. A submersão em formatos de vídeo vertical e a personalização extrema por algoritmos favorecem a atomização social, um fenómeno em que os indivíduos se isolam em bolhas informacionais e de entretenimento hiperpersonalizado, fragilizando o tecido comunitário e as interações no espaço público físico.

Este consumo compulsivo acarreta igualmente riscos de alienação social, na medida em que a mediação do mundo real por ecrãs substitui a experiência interpessoal direta por laços parassociais e validação digital. Por sua vez, a saturação de estímulos rápidos e efémeros correlaciona-se com uma diminuição do escrutínio crítico e com uma baixa intervenção cívica, transformando o debate democrático num espetáculo de consumo individual e imediato, onde o ativismo muitas vezes se reduz ao slacktivism de redes sociais, distanciando os cidadãos do envolvimento comunitário tradicional e da ação política participativa.

Fontes e Hiperligações dos Estudos

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A próxima crise financeira global? O alerta do FMI sobre a dívida e as lições de 2008

Vamos deixar isto escrito agora, porque depois da próxima crise não faltarão especialistas a explicar, com a segurança que só o passado permite, por que razão ninguém poderia tê-la previsto: há sinais cada vez mais sérios de que a próxima grande crise financeira está a formar-se. Não sabemos quando chega, nem onde começa, e quem apresentar uma data está provavelmente a vender previsões ao quilo. Mas há uma diferença entre adivinhar e olhar para aquilo que está diante de nós. E aquilo que está diante de nós começa a ficar pouco recomendável.

A dívida pública mundial chegou a quase 94% do PIB em 2025 e o FMI prevê no Fiscal Monitor que atinja 100% já em 2029. O problema, porém, não é apenas haver muita dívida. Os Estados vivem há décadas a refinanciá-la: quando uma obrigação vence, emitem outra e seguem caminho. Durante os anos de juros próximos de zero, este mecanismo era extraordinariamente confortável. Agora deixou de ser. Em 2026, grande parte do dinheiro que os governos da OCDE vão buscar aos mercados destina-se simplesmente a refinanciar dívida já existente, como detalha a OCDE no seu Sovereign Borrowing Outlook. E estão a fazê-lo a taxas muito superiores às que pagavam quando boa parte dessa dívida foi emitida. É aqui que a brincadeira muda de natureza.

Nos Estados Unidos, a taxa das obrigações a 10 anos ultrapassou recentemente os 4,75% e a de 30 anos chegou aos 5,327%, o nível mais elevado desde 2007, segundo dados de mercado recolhidos pela U.S. Department of the Treasury. No Reino Unido, a dívida a dez anos chegou este ano aos 5,13%, máximo desde 2008. No Japão, onde durante uma geração praticamente se esqueceu que a dívida pública pagava juros, a taxa a dez anos ultrapassou os 3% pela primeira vez desde 1996, conforme registado pelo
Bank of Japan. Alemanha e França também estão a assistir a fortes subidas das taxas de longo prazo. Não estamos a falar da Grécia em 2011 ou de um qualquer país periférico a quem os mercados resolveram fechar a torneira. Estamos a falar dos mercados de dívida das maiores economias do mundo.

E isto interessa muito mais do que parece. Se um Estado tinha 100 mil milhões de euros de dívida financiada a 1% e passa progressivamente a refinanciá-la a 4% ou 5%, não precisa de pedir mais dinheiro para começar a ter um problema. Basta substituir dívida barata por dívida cara. A factura dos juros cresce, ocupa uma parcela maior das receitas e começa a disputar dinheiro com tudo o resto: saúde, educação, pensões, investimento público. É nesta altura que regressam palavras como “consolidação”, “ajustamento” e “responsabilidade”, geralmente pronunciadas por pessoas que nunca são objecto de nenhuma das três.

E há uma parte essencial desta equação que torna tudo isto bastante menos confortável: estas montanhas de dívida não estão a ser suportadas por economias a crescer 4% ou 5% ao ano. Estão a ser carregadas por algumas das maiores economias do mundo com crescimentos débeis ou praticamente estagnadas. O
Banco Mundial prevê no Global Economic Prospects apenas 2,5% de crescimento mundial em 2026. Na zona euro, o FMI aponta no World Economic Outlook para apenas 0,9%. Isto não é um pormenor: uma economia que cresce depressa consegue suportar uma dívida elevada com muito mais facilidade porque as receitas, os rendimentos e a própria base económica que sustenta essa dívida também crescem. Quando a economia quase não cresce e o Estado começa simultaneamente a refinanciar dívida a 4% ou 5%, o custo da dívida pode crescer muito mais depressa do que a economia que terá de a pagar. A partir daí, as soluções começam a ser aquelas velhas conhecidas que costumam aparecer com nomes tecnicamente tranquilizadores: mais impostos, menos despesa, inflação ou mais dívida.

E o mercado não está a pedir apenas dinheiro aos Estados. Governos e empresas deverão emitir este ano o equivalente a cerca de 25 biliões de euros em dívida. Ao mesmo tempo, a corrida à inteligência artificial está a exigir quantidades colossais de capital e algumas das maiores empresas tecnológicas começaram a financiar parte desse investimento através da emissão de obrigações. Há, portanto, cada vez mais dívida a disputar o mesmo dinheiro, justamente numa altura em que os investidores começaram a exigir melhor remuneração para o emprestar. A OCDE calcula que a dívida soberana em obrigações dos seus membros já atingiu o equivalente a cerca de 53 biliões de euros e que o peso da dívida dos governos centrais deverá chegar este ano a 85% do PIB, 39 pontos percentuais acima do nível de 2007.

Do outro lado temos mercados financeiros extraordinariamente valorizados. O estudo Global Balance Sheet, do McKinsey Global Institute, mostra que a riqueza das famílias aumentou o equivalente a cerca de 35 biliões de euros em 2025, atingindo aproximadamente 492 biliões de euros, mas apenas cerca de 20% desse aumento resultou de novo investimento líquido em activos reais. A maior parte veio da valorização dos activos e de outros ganhos financeiros. Não quer dizer que a riqueza seja imaginária. Quer dizer que uma parte enorme dela depende de casas, acções e outros activos continuarem a valer aquilo que os mercados decidiram que valem.

Mas há uma diferença importante em relação a 2008. Depois daquela crise, os bancos foram obrigados a reforçar capital, liquidez e financiamento mais estável. O risco, porém, não desapareceu por delicadeza. Uma parte considerável mudou simplesmente de sítio. Fundos de investimento, hedge funds, crédito privado e outros intermediários financeiros não bancários representam hoje o equivalente a cerca de 222 biliões de euros, 51% de todos os activos financeiros mundiais, e este sector cresceu ao dobro do ritmo da banca tradicional. O próprio Financial Stability Board (FSB) reconhece no seu Global Monitoring Report limitações sérias nos dados disponíveis sobre áreas como o crédito privado. E isto não significa que bancos e restante sistema financeiro vivam agora em apartamentos separados e tenham deixado de se falar. Pelo contrário. Os bancos financiam estes fundos, concedem-lhes linhas de crédito, fazem operações de repo, negoceiam derivados, fornecem alavancagem e serviços de margem e recebem deles financiamento. O Banco Central Europeu (BCE) no Financial Stability Review e o Comité de Basileia têm vindo precisamente a alertar para estas ligações e para a possibilidade de um choque nos mercados obrigar fundos alavancados a desfazer posições rapidamente, provocando vendas forçadas e transmitindo novamente as perdas à banca. O próprio BCE admite que existem falhas de informação que limitam a capacidade de perceber todas estas exposições.

É esta combinação que merece atenção: Estados muito mais endividados do que estavam antes de 2008, dívida antiga a ser refinanciada a juros bastante mais altos, necessidades recorde de financiamento, mercados financeiros muito valorizados e um sistema financeiro não bancário gigantesco, alavancado, profundamente ligado à banca e em partes importantes bastante menos transparente.

Separadamente, nenhuma destas coisas provoca necessariamente uma crise. O problema começa quando acontecem ao mesmo tempo e aparece um choque que obriga alguém a vender. Foi assim que funcionaram muitas das anteriores. Primeiro existe liquidez, crédito e valorização. Depois os preços sobem durante tempo suficiente para que a subida passe a ser considerada normal. A seguir vem a alavancagem, porque ganhar dinheiro com dinheiro emprestado parece uma ideia extraordinária enquanto os activos sobem. Finalmente aparece qualquer coisa que ninguém tinha colocado no modelo, os preços caem, alguém precisa de liquidez, começam as vendas forçadas e descobre-se que o sistema era muito mais interligado do que parecia.

Há ainda uma razão adicional para levar a próxima crise particularmente a sério. Em 2008, quando o sistema financeiro começou a cair, foram os Estados que apareceram para o segurar. Garantiram bancos, injectaram capital, aumentaram despesa, assumiram riscos privados e deixaram os bancos centrais baixar os juros para níveis próximos de zero. Na próxima grande crise, muitos desses Estados entrarão em campo já carregados com dívidas muito superiores às de 2008 e a pagar bastante mais para as financiar. A capacidade de salvar novamente o sistema sem apresentar depois a factura à economia real será, por isso, bastante menos confortável. O Banco de Pagamentos Internacionais (BIS) analisa no seu Annual Economic Report precisamente este paradoxo: os bancos estão hoje mais capitalizados e líquidos do que antes da grande crise financeira, mas as ligações entretanto criadas com o sector não bancário abriram novos canais indirectos através dos quais o risco soberano e financeiro pode regressar aos bancos. Em algumas economias, as exposições dos bancos à própria dívida soberana continuam também enormes relativamente ao seu capital.

É por isso que há razões para recear que a próxima grande crise possa ser mais difícil de conter do que a de 2008. Não apenas porque existe mais dívida, mas porque o sistema que terá de absorver o choque é maior, mais interligado e tem uma parcela muito superior dos seus activos fora da banca tradicional. Os fundos de investimento, por exemplo, passaram do equivalente a cerca de 18 biliões de euros em activos em 2008 para aproximadamente 45 biliões de euros em 2023. Mudámos algumas regras depois da última crise, reforçámos os bancos e deslocámos uma quantidade considerável de risco para outros lugares. O risco teve a gentileza de acompanhar a mudança.

Há anos que vamos escrevendo sobre isto. Não porque saibamos prever o futuro, mas porque ainda nos lembramos do passado. E se há uma coisa que a História financeira ensina é que as crises nunca parecem iminentes enquanto os mercados estão a subir. Quando finalmente parecem óbvias, já começaram.

Países europeus têm retirado ouro dos Estados Unidos. A Alemanha, que detém a segunda maior reserva de ouro do mundo, concluiu uma grande repatriação parcial em 2017 (tendo trazido ouro de Nova Iorque e Paris para Frankfurt), mas ainda mantém cerca de 37% (mais de 1.200 toneladas) nos cofres da Reserva Federal em Nova Iorque.  Embora existam debates políticos e apelos de economistas para retirar o restante devido a tensões transatlânticas e imprevisibilidade política, o governo alemão não avançou com uma retirada total recente.

A França concluiu a repatriação total das suas reservas que ainda estavam guardadas no estrangeiro. O banco central francês (Banque de France) finalizou a substituição e transferência das últimas 129 toneladas de ouro que mantinha nos cofres da Reserva Federal de Nova Iorque. Com este movimento estratégico de arbitragem e conformidade regulatória, a totalidade das cerca de 2437 toneladas de ouro que compõem o tesouro soberano francês encontra-se agora centralizada a cem metros de profundidade, no cofre subterrâneo conhecido como La Souterraine, localizado na sede do banco em Paris. A evolução histórica detalhada e os contornos políticos destas movimentações podem ser consultados no artigo sobre a Repatriação de Ouro na Wikipédia. 

Por sua vez, a Itália adota um modelo de custódia mista e mantém o seu stock intocável há décadas, resistindo a pressões de venda mesmo em períodos de crise. O país possui a terceira maior reserva mundial, com cerca de 2452 toneladas de ouro. Deste total, aproximadamente metade (cerca de 1100 toneladas) está guardada localmente nos cofres fortificados do Palazzo Koch, a sede institucional do Banca d'Italia em Roma. A outra metade da reserva italiana permanece dispersa no estrangeiro por razões logísticas e de liquidez de mercado, dividida maioritariamente entre a Reserva Federal de Nova Iorque, o Banco de Inglaterra em Londres e o próprio Bundesbank em Frankfurt. Mais pormenores sobre o enquadramento económico destas reservas estão disponíveis nas estatísticas atualizadas de mercado da Trading Economics. 

Finalmente, Portugal destaca-se internacionalmente pela elevada proporção de ouro face ao total das suas reservas financeiras globais. O país detém 383 toneladas de ouro e posiciona-se no topo dos países com maior quantidade de metal precioso por habitante. A gestão da custódia do ouro português pelo Banco de Portugal assenta historicamente numa forte componente externa para facilitar operações financeiras internacionais, embora uma parte relevante continue salvaguardada em território nacional, dividida entre os cofres da sede em Lisboa e o cofre-forte do Complexo do Carregado.

No dia 2 deste mês os Países Baixos transferiram 86 toneladas de ouro dos EUA e Canadá para o Reino Unido

Por isso deixamos o aviso agora. As dívidas são maiores, os custos de financiamento estão a aumentar, os mercados estão extraordinariamente valorizados e uma parte crescente do risco financeiro encontra-se em estruturas sobre as quais os próprios reguladores reconhecem não possuir toda a informação necessária. Não sabemos qual será o detonador nem quando alguém acenderá o fósforo. Mas já existe combustível suficiente para que não seja particularmente sensato discutir se há perigo de incêndio.

Mas não se preocupem demasiado. Enquanto isto se passa, haverá certamente um dérbi, uma polémica nas redes sociais, a final de um reality show ou qualquer assunto suficientemente importante para ocupar três dias de televisão.

Quando chegar a factura, então falamos de economia. Considerem-se avisados.
Baseado no texto de Rise Up Portugal, com alguns ajustes.