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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

A ciência da quietude: nictinastia e ritmos naturais


A quietude que se sente no solo da floresta ao anoitecer não é uma ilusão provocada pela penumbra, mas sim um processo biológico ativo. Cenoura-brava (Daucus carota), prestes a despertar no matagal: rodeada por botões no meio de uma densa folhagem, uma única flor branca suspendeu o seu desabrochar até ao amanhecer, repousando lado a lado com pequenas flores roxas companheiras (talvez violetas) no sub-bosque húmido e sombreado.

Esta reação dinâmica à transição entre o dia e a noite ocorre através da nictinastia - um movimento funcional em resposta à ausência de luz e à descida de temperatura. As células das plantas da família Apiaceae alteram a sua pressão de turgor (a pressão da água no seu interior), fazendo com que a umbela e os seus botões imaturos se dobrem ou se fechem hermeticamente. Este mecanismo protege os delicados órgãos reprodutivos contra o frio e a humidade noturnos. Enquanto o mundo dorme, toda a flora parece descansar e desacelerar, respeitando em silêncio os ciclos ancestrais da Terra.

Entre o Sinal e o Silêncio
Enquanto a rede pulsa em cabos de luz,
e o ecrã consome o olhar distraído,
a terra, em segredo, a si se reduz,
num ritmo antigo, calmo e esquecido.

Procuramos o mundo num brilho irreal,
hiperconectados, em febre e desterro,
esquecidos do sopro do chão ancestral,
presos à ilusão do vidro e do ferro.

Mas lá fora, na sombra, a flor sabe esperar.
A cenoura-brava dobra o seu manto,
suspende o desabrochar até o sol voltar,
coberta de orvalho, de noite e de encanto.

Sem pressa, sem rede, sem código ou sinal,
a vida recolhe na sua quietude profunda.
O verdadeiro mistério do mundo real
é o silêncio da terra quando a noite o inunda.

Poema de João Soares, 03.08.2026

«A ilusão da falta de vida é apenas isso: uma ilusão. Em todo o lado há a garantia de que o ciclo se cumpriu, contendo em si os meios para a sua própria renovação.» - Rachel Carson in O Mar que Nos Cerca

segunda-feira, 13 de julho de 2026

RY X - Salt

Melhor som aqui

Letra
Under the lighting
Heavier breath
High by a mouth made
Knees to your chest

[refrão]
We let love be like water to wine
We let love be the higher design
We let love be a call in the night
We let love be the fire divine

Under the shadow
Heavy remains
Chemical ashes fall
Lips to my veins

[refrão]

But here we are turning our heads down
Here we are falling like lovers
We're falling like lovers and I turn my head
'Cause I know what shame you've done

[refrão] 2X

I know I started it all
I know I started to run
I won't let go of it all
I won't let go of the gun

Oh God, below
What have we done?

Abaixo, analiso os diferentes aspetos desta obra, desde as suas origens até às suas camadas mais profundas de significado.

RY X, nome artístico do cantor, compositor e produtor Ry Cuming, é um artista australiano cuja identidade musical foi profundamente moldada pelas suas origens em Angourie, uma isolada comunidade costeira em New South Wales. Essa ligação visceral com a natureza reflete-se num estilo musical único, frequentemente classificado como Indie Pop, Ambient Folk e Alt-Pop. A sua assinatura sonora assenta numa abordagem minimalista e despojada, onde guitarras acústicas dedilhadas e sintetizadores subtis servem de moldura para a sua voz de falsete etérea, criando uma atmosfera de intensa intimidade, melancolia e vulnerabilidade. A faixa "Salt", lançada no aclamado álbum Dawn, é um dos exemplos mais puros desta estética.

A canção funciona como uma meditação profunda sobre a dor, a impermanência e o processo de cura. O título "Salt" carrega uma dupla metáfora poética: evoca tanto o sal das lágrimas provocadas pelo sofrimento e pelo distanciamento emocional, quanto o sal do oceano, que atua como um elemento de purificação e renovação espiritual. Na sua essência, a letra explora a coragem de se manter vulnerável e a necessidade de sentir a dor por inteiro para que se possa, eventualmente, transcendê-la.

Essa mesma narrativa estende-se ao videoclipe da faixa, co-dirigido pelo próprio artista. Visualmente, o vídeo utiliza uma paleta de cores frias e um jogo expressivo de luz e sombra para construir uma atmosfera cinematográfica e crua. Através da dança contemporânea e expressionista, os corpos dos intérpretes contorcem-se, aproximam-se e repelem-se, traduzindo visualmente o conflito interno, o desejo de conexão e a angústia da separação. A presença constante de elementos naturais e a nudez parcial reforçam o desapego das máscaras sociais, expondo o ser humano no seu estado mais primitivo e honesto.

Do ponto de vista intelectual, a obra de RY X bebe de ricas fontes filosóficas, literárias e poéticas que valorizam o silêncio e a introspeção. Há uma clara ressonância com o pensamento oriental, particularmente com o Zen Budismo e o conceito do Wabi-Sabi, que prega a aceitação da imperfeição e da transitoriedade da vida. Em vez de evitar o sofrimento, o compositor abraça-o como parte fundamental da existência. Na literatura e na poesia, "Salt" aproxima-se do Romantismo Sombrio e do olhar transcendental de autores como Rainer Maria Rilke e Walt Whitman, que utilizavam as forças da natureza como um espelho para a alma. O mar e os elementos naturais surgem na canção como representações do inconsciente e das emoções avassaladoras, transformando o peso do sofrimento num ritual estético de desapego que converte a dor numa beleza quase sagrada.

domingo, 24 de maio de 2026

Homem, corço, prado: a mesma pele

Corço, fotografado em Groningen, Holanda
Entro nas canas altas e húmidas do mundo,
E sinto-me contido numa pele maior.
A terra húmida respira sob os meus pés,
Um pulmão antigo que exala verde, selvagem e vasto.

Este é o trabalho que reconecta -
Permanecer imóvel até que a fronteira entre o solo e o ser
Se dissolva como o nevoeiro da manhã.

Ali, no meio da planície vibrante,
Ergue-se uma sentinela silenciosa, um corço esculpido de sol e sombra.
Ele é um nativo desta hora, perfeitamente em casa,
Sem nada pedir ao Estado, sem pagar impostos ao vento,
Vivendo deliberadamente na erva profunda,
Um pequeno e silencioso templo de solidão com quatro patas e uma coroa de osso.

Ele olha para mim e, no seu olhar, os séculos sossegam.
Eu vejo-te, irmão! Celebro-te e canto-me a mim mesmo!
Não és uma coisa separada, nenhum estranho num campo distante,
Mas o próprio sangue do cosmos a saltar a vala.

Os mesmos átomos que moldam o teu olho firme e escuro
Vagueiam pela erva, pelos telhados de colmo, pelas nuvens cinzentas e pesadas,
E pelo coração que bate dentro do meu próprio peito.

Cada folha de erva é uma obra-prima das estrelas,
E tu és a sua obra de arte esta noite.

Permanecemos suspensos - o corço, o prado e eu -
Enraizados na grande teia em movimento de todas as nossas relações,
Vivos, despertos e infinitamente livres.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Future Islands - Ran

Melhor som aqui
Ingest, where it goes, nobody sees but me
So perfect and so sweet
But the rest, feels incomplete
Like the rabbit's foot I keep
In the locket, with no key

And I can't take it, I can't take this world without
This world without you
I can't take it, I can't take it on my own
On my own

[Refrão]
On these roads
Out of love, so it goes
How it feels when we fall, when we fold
How we lose control, on these roads
How it sings as it goes
Flight of field, driving snow
Knows the cold

Ran round the wailing world

And what's a song without you?
When every song I write is about you
When I can't hold myself without you
And I can't change the day I found you

[Refrão]

A dor da perda e a jornada solitária em 'Ran', lançada em 2017, presente no álbum  The Far Field
A música 'Ran' da banda Future Islands é uma profunda exploração da dor da perda e da solidão. A letra começa com uma reflexão sobre algo precioso e doce, mas que, sem a presença de uma pessoa amada, se torna incompleto. A metáfora do 'pé de coelho' guardado num medalhão sem chave sugere um talismã de sorte que perdeu seu significado, simbolizando a ausência de alguém essencial para a completude do eu lírico.

O refrão expressa a incapacidade de enfrentar o mundo sem essa pessoa, destacando a dependência emocional e a sensação de desamparo. A repetição de 'I can’t take it, I can’t take this world without you' reforça a intensidade do sentimento de perda e a dificuldade de seguir em frente sozinho. A música também aborda a jornada emocional em 'these roads', que pode ser interpretada como os caminhos da vida, onde o amor se perde e o controle é difícil de manter.

A letra também questiona o valor da arte sem a musa inspiradora, refletindo sobre a criação artística e a importância da pessoa amada como fonte de inspiração. A repetição de 'out of love, so it goes' sugere uma aceitação resignada da realidade dolorosa. A imagem do 'flight of field, driving snow' e 'knows the cold' evoca um cenário desolado e frio, simbolizando a solidão e a tristeza que acompanham a perda. 'Ran' é, portanto, uma canção que captura a essência da dor da perda, a luta para encontrar sentido e a jornada solitária que se segue.

Sites
Future Islands wikipedia

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Leonard Cohen - Democracy


A imagem do poderoso navio do Estado que deve passar pela tempestade do ódio, atravessar os recifes da ganância para chegar às praias da necessidade é a coisa mais linda que se pode ouvir numa canção!

"Democracy" é uma canção do Leonard Cohen com a participação de Jeff Fisher, originalmente lançada no álbum The Future, de Cohen, em 1992.  A letra aborda as falhas e as promessas da democracia nos Estados Unidos A canção foi escrita aproximadamente durante a queda do Muro de Berlim, o que levou Cohen a questionar a origem da democracia. Cohen afirmou que era "uma canção de profunda intimidade e afirmação da experiência democrática" nos Estados Unidos.

Democracy
Leonard Cohen

It's coming through a hole in the air
From those nights in Tiananmen Square
It's coming from the feel
That this ain't exactly real
Or it's real, but it ain't exactly there
From the wars against disorder
From the sirens night and day
From the fires of the homeless
From the ashes of the gay
Democracy is coming to the U.S.A

It's coming through a crack in the wall
On a visionary flood of alcohol
From the staggering account
Of the Sermon on the Mount
Which I don't pretend to understand at all
It's coming from the silence
On the dock of the bay
From the brave, the bold, the battered
Heart of Chevrolet
Democracy is coming to the U.S.A

It's coming from the sorrow in the street
The holy places where the races meet
From the homicidal bitchin'
That goes down in every kitchen
To determine who will serve and who will eat
From the wells of disappointment
Where the women kneel to pray
For the grace of God in the desert here
Snd the desert far away
Democracy is coming to the U.S.A

Sail on, sail on
O mighty Ship of State!
To the Shores of Need
Past the Reefs of Greed
Through the Squalls of Hate
Sail on, sail on, sail on, sail on

It's coming to America first
The cradle of the best and of the worst
It's here they got the range
And the machinery for change
And it's here they got the spiritual thirst
It's here the family's broken
And it's here the lonely say
That the heart has got to open
In a fundamental way
Democracy is coming to the U.S.A

It's coming from the women and the men
O baby, we'll be making love again
We'll be going down so deep
The river's going to weep
And the mountain's going to shout Amen!
It's coming like the tidal flood
Beneath the lunar sway
Imperial, mysterious
In amorous array
Democracy is coming to the U.S.A

Sail on, sail on

I'm sentimental, if you know what I mean
I love the country but I can't stand the scene
And I'm neither left or right
I'm just staying home tonight
Getting lost in that hopeless little screen
But I'm stubborn as those garbage bags
That Time cannot decay
I'm junk but I'm still holding up
This little wild bouquet
Democracy is coming to the U.S.A

Em "Democracy", Leonard Cohen apresenta uma análise irónica e crítica sobre o ideal democrático nos Estados Unidos. Ele deixa claro que a democracia não é um estado já alcançado, mas um processo contínuo, muitas vezes marcado por caos e sofrimento. Cohen faz referência a eventos como as "noites em Tiananmen Square" (noites na Praça da Paz Celestial) e menciona "as cinzas dos gays" e "os incêndios dos sem-teto", conectando lutas globais e marginalizações internas. Com isso, sugere que a verdadeira democracia nasce das experiências de dor, exclusão e resistência de grupos marginalizados. O verso "Democracy is coming to the U.S.A." (A democracia está chegando aos EUA) traz esperança, mas também ironia, indicando que, apesar do discurso oficial, a democracia plena ainda não foi alcançada no país.

A música foi composta durante a queda do Muro de Berlim, um momento de grandes mudanças políticas, o que reforça a visão de Cohen dos EUA como um laboratório imperfeito, onde a experiência democrática é testado entre extremos: "the cradle of the best and of the worst" (o berço do melhor e do pior). Ele também ironiza a espiritualidade e a busca por transformação, enquanto reconhece a solidão e a fragmentação social americana: "It's here the family's broken / And it's here the lonely say / That the heart has got to open / In a fundamental way" (É aqui que a família está desfeita / E é aqui que os solitários dizem / Que o coração precisa se abrir / De uma forma fundamental). O refrão, repetido como um mantra, funciona como desejo e alerta, mostrando que a democracia só se concretiza quando impulsionada "from the sorrow in the street" (a partir da dor nas ruas) e das vozes dos excluídos. No final, Cohen se mostra sentimental, mas desiludido, optando por observar à distância, mas mantendo uma esperança persistente, como "those garbage bags / That Time cannot decay" (aqueles sacos de lixo / Que o Tempo não consegue destruir). A canção segue atual ao abordar as contradições e desafios do sistema democrático, sem perder a fé em sua renovação.

domingo, 25 de fevereiro de 2024

Walt Whitman e o melro


“Creio que uma folha de erva não vale menos que a jornada das estrelas | E que a formiga não é menos perfeita, nem um grão de areia, nem um ovo de carriça | E que o sapo é uma obra prima para o mais exigente | E que as amoras silvestres adornariam os salões do Céu | E que a mínima articulação da minha mão escarnece de toda a maquinaria | E que a vaca ruminando com a cabeça baixa supera a estátua | E que um rato é milagre suficiente para fazer vacilar milhões de infiéis.
Descubro que trago em mim gnaisse, carvão, filamentos de musgo, frutos, cereais, raízes comestíveis E que fui estucado com quadrúpedes e pássaros | E que me distanciei, por boas razões, do que está por detrás de mim | Mas quando quero faço regressar seja o que for ....... ”
Walt Whitman, Folhas de Erva

sábado, 3 de junho de 2023

Texto da Semana - Sweet, sane, still nakedness in Nature


"Sweet, sane, still nakedness in Nature! — ah if poor, sick, prurient humanity in cities might really know you once more! Is not nakedness then indecent? No, not inherently. It is your thought, your sophistication, your fear, your respectability that is indecent. There come moods when these clothes of ours are not only too irksome to wear, but are themselves indecent. Perhaps indeed he or she to whom the free exhilarating ecstasy of nakedness in Nature has never been eligible (and how many thousands there are!) has not really known what purity is - nor what faith or art or health really is."

Biografia

Walt Whitman Birthplace Association

Instituições

terça-feira, 5 de abril de 2022

Memórias: Allen Ginsberg



No dia 5 de abril de 1997, morreu Allen Ginsberg. Foi um escritor, filósofo e ativista norte-americano. Fez parte do núcleo duro da Beat Generation: movimento que rejeitava os valores tradicionais e contribuiu para uma revolução cultural, nos anos 1950 e 1960.

Allen Ginsberg nasceu a 3 de junho de 1926, em New Jersey (EUA). O pai era professor, poeta e socialista. A mãe era comunista radical. Em criança, viveu episódios paranóicos da mãe e descobriu que gostava de meninos.

Na Escola Secundária, Ginsberg encantou-se com a obra de Walt Whitman. Depois de findar o secundário, inscreveu-se na Universidade de Columbia (Nova Iorque) graças a uma bolsa da associação Young Men’s Hebrew.

Naquela cidade, tornou-se amigo dalguns jovens (Lucien Carr, Jack Kerouac, William Burroughs e Neal Cassady) interessados em drogas, literatura e sexo. Ginsberg e os seus companheiros foram expulsos da Universidade.

Ginsberg acreditava que aquele grupo se dirigia para uma nova visão poética. Experimentou anfetaminas e marijuana. Frequentou bares gays. E começou uma relação amorosa com Neal Cassady.

Em 1954, Ginsberg mudou-se para São Francisco, cidade onde a Beat Generation estava a ganhar força graças à atividade dos poetas, Kenneth Rexroth e Lawrence Ferlinghetti, fundadores da editora e livraria "City Lights".

Ginsberg tinha escrito muita poesia, mas quase nada tinha publicado. Em 1956, a City Lights Books publicou, "Howl and Other Poems" ("Uivo e Outros Poemas"). Considerado “obsceno”, foi apreendido pelos serviços alfandegários e pela polícia, sendo alvo dum longo processo judicial.

Os argumentos de vários poetas, críticos e professores universitários (Kenneth Rexroth, Walter V. T. Clark e Mark Schorer) convenceram o juiz. Terminado o processo, tornou-se o livro de poesia mais vendido nos EUA.

Allen Ginsberg, Jack Kerouac e William Burroughs foram o núcleo duro da Beat Generation: movimento que rejeitava os valores tradicionais e contribuiu para uma revolução cultural nos anos 50 e 60.

Ginsberg viajou pelo mundo. Descobriu o budismo. Apaixonou-se por Peter Orlovsky: seu companheiro para o resto da vida. Nos anos 1960, ajudou Timothy Leary a divulgar o LSD. Em 1968, foi um ativista importante contra a Guerra do Vietname.

Ativista durante toda a vida, Ginsberg falava abertamente sobre drogas, homossexualidade e liberdade. 

Manteve uma publicação regular ao longo da vida. Os seus livros constituíam um apelo à paz e à defesa dos mais desfavorecidos.

Ginsberg manteve a sua agenda social ativa até 5 de abril de 1997: dia em que morreu, na sequência de cancro do fígado. Tinha 70 anos. Antes de morrer, ligou aos amigos e familiares dizendo o seu último poema.

Datado de 30 de março, “Things I’ll Not Do" (Nostalgias) era uma lista de coisas que gostaria de fazer: visitar a Bulgária; beber chá de menta em Marrocos; olhar para a Esfinge, enquanto o sol se pusesse no deserto.

Allen Ginsberg and Peter Orlovsky in San Francisco, 1955


domingo, 3 de janeiro de 2021

Descobri Fernando Pessoa, pela voz de Luís Cília- "O Menino de Sua Mãe"




Tinha 14 anos. Fiquei encantado e curioso. A partir daí explorei com profundidade toda a obra de Fernando Pessoa. E, sem dúvida, é o poeta, pensador que melhor descreve todos os momentos de tragédia e de felicidade individual e colectiva. Encontro paralelismos em obras de Malraux, Albert Camus e Sarte. Recuando um pouco atrás Antero de Quental e Vitor Hugo.

Poema de Fernando Pessoa, "A realidade é um bocado de Sol simples". Tão actual.

"É preciso criar abismos, para a humanidade que os não sabe saltar se engolfar neles para sempre.
Criar todos os prazeres, os mais artificiais possível, os mais estúpidos possível, para que a chama atraia e queime.
O problema da sobrepovoação, o problema da sobreprodução eliminam-se criando-se focos de eliminação humana (por meio de todos os vícios), criando focos de inércia humana (por meio de todas as seduções). Fazer suicidas, eis a grande solução sociológica.
É facil ouvir de qualquer megera limpa que «não crê na Lei de Cristo», é animá-la em seguir a não-lei de Cristo. Em três anos está gasta e finda, e então descobre que o pior de não seguir a lei de Cristo é que os outros a não seguem também. E o caixote do lixo recebe-a como às teorias dos mestres a quem ela ensinou.
É nosso dever de sociólogos untar o chão, ainda que seja com lágrimas, para que escorreguem nele os que dançam.
E comunistas, batonnières dos beiços, humanitários, cultos do internacionalismo - tudo isso colabora ardentemente na eliminação deles mesmos que se precisa. Depois, dos recantos das províncias, onde tomam chá com a família, ou lavram as terras sem teorias nem desejos, os fortes surgem e a civilização continua.
Porque sempre a Realidade é um bocado de sol simples, um quintal herdado e a certeza de ser um indivíduo."

terça-feira, 21 de julho de 2020

The Cosmic Miracle of Trees: Astronaut Leland Melvin Reads Pablo Neruda’s Love Letter to Earth’s Forests

“Today, for some, a universe will vanish,” Jane Hirshfield writes in her stunning poem about the death of a tree a quarter millennium after William Blake observed in his most passionate letter that how we see a tree is how we see the world, and in the act of seeing we reveal what we are: “The tree which moves some to tears of joy is in the eyes of others only a green thing which stands in the way,” he wrote. “As a man is, so he sees.”

If a single tree is home to a miniature universe of life, and if we are learning with wide-eyed wonder that a tree is not a self-contained world but a synaptic node in a complex cosmos of relationships in constant and astonishing communication with other nodes, relationships that weave the fabric of earthly life, what does it make us — what does it reveal about our character, as a planetary people and a civilization — to watch the world’s forests vanish in flames before our eyes, in wildfires so ferocious as to be visible from space?


A century after Walt Whitman turned to trees as our wisest moral teachers and a generation before Wangari Maathai defended them with her life in a movement of moral courage that won her the Nobel Peace Prize, the Nobel-winning Chilean poet Pablo Neruda (July 12, 1904–September 23, 1973) — one of humanity’s furthest-seeing and lushest-minded artists — shone a gorgeous sidewise gleam at an answer by way of celebration rather than lamentation in a passage from his Memoirs ("Confesso que Vivi"), posthumously published in English the year the Voyager spacecraft captured that poetry-fomenting first glimpse of our Pale Blue Dot seen from far away. 

At the 2020 Universe in Verse, celebrating fifty years of Earth Day, astronaut and poetry-lover Leland Melvin — one of a fraction of a fraction of a percentage of humans in the history of our species to have left this rare planet, to have seen its forests and its intricate living web of relationships from the cosmic perspective, and to have returned loving it all the more passionately — breathed new life into Neruda’s forgotten words with a soulful reading of that passage:

Astronaut Leland Melvin reads “The Chilean Forest” by Pablo Neruda

“Under the volcanoes, beside the snow-capped mountains, among the huge lakes, the fragrant, the silent, the tangled Chilean forest… My feet sink down into the dead leaves, a fragile twig crackles, the giant rauli trees rise in all their bristling height, a bird from the cold jungle passes over, flaps its wings, and stops in the sunless branches. And then, from its hideaway, it sings like an oboe… The wild scent of the laurel, the dark scent of the boldo herb, enter my nostrils and flood my whole being… The cypress of the Guaitecas blocks my way… This is a vertical world: a nation of birds, a plenitude of leaves…

I stumble over a rock, dig up the uncovered hollow, an enormous spider covered with red hair stares up at me, motionless, as huge as a crab… A golden carabus beetle blows its mephitic breath at me, as its brilliant rainbow disappears like lightning… Going on, I pass through a forest of ferns much taller than I am: from their cold green eyes sixty tears splash down on my face and, behind me, their fans go on quivering for a long time… A decaying tree trunk: what a treasure!… Black and blue mushrooms have given it ears, red parasite plants have covered it with rubies, other lazy plants have let it borrow their beards, and a snake springs out of the rotted body like a sudden breath, as if the spirit of the dead trunk were slipping away from it…

Farther along, each tree stands away from its fellows… They soar up over the carpet of the secretive forest, and the foliage of each has its own style, linear, bristling, ramulose, lanceolate, as if cut by shears moving in infinite ways… A gorge; below, the crystal water slides over granite and jasper… A butterfly goes past, bright as a lemon, dancing between the water and the sunlight… Close by, innumerable calceolarias nod their little yellow heads in greeting… High up, red copihues (Lapageria rosea) dangle like drops from the magic forest’s arteries… A fox cuts through the silence like a flash, sending a shiver through the leaves, but silence is the law of the plant kingdom… The barely audible cry of some bewildered animal far off… The piercing interruption of a hidden bird… The vegetable world keeps up its low rustle until a storm chums up all the music of the earth.

Anyone who hasn’t been in the Chilean forest doesn’t know this planet. I have come out of that landscape, that mud, that silence, to roam, to go singing through the world."

sábado, 13 de julho de 2019

Dia Internacional do Mergulho Naturista


International Skinny Dip Day on the second Saturday in July celebrates the natural experience of a clothing-free swim. The day wraps up National Nude Recreation Week.

While many may turn their noses up at a skinny dip, organizers of the day say it’s a long-time tradition. Even famous American patriots such as Benjamin Franklin and John Quincy Adams enjoyed skinny dipping. Add to the list literary geniuses, Henry David Thoreau and Walt Whitman, too.

Interestingly, despite name dropping among skinny dipping’s fashionable founding fathers, the name lacked documentation until the 21st century. According to the Oxford English Dictionary, the first recording of the phrase “skinny-dip” in English is in 1947. The phrase seems as shy as some people are about the act.

In 2018, Ireland hosted the largest skinny dipping event. At the benefit, 2505 women swam naked raising funds for an anti-cancer charity.

You might even find out some benefits to skinny dipping. Reported health benefits to skinny dipping or swimming nude:
  • More skin is exposed to sunlight and therefore, more Vitamin D.
  • When you swim naked, there is no soggy, scratchy, or cold material sticking to your skin.
  • Your naked skin also dries much quicker.
How to Observe International Skinny Dip Day
While skinny dipping may not be for everyone, the event suggests the “Try it you might like it” attitude. If you do, here are some tips:
  • Choose an area that’s either A. designated for clothing-optional, or B. completely private.
  • It’s a good idea to know the local regulations.
  • Don’t forget sunscreen and insect repellent.
  • Don’t be drink too much – personally dangerous, and puts others at risk
  • Go at night for a sense of adventure and to help the self-conscious person.
  • Learn more about the event from the American Association for Nude Recreation.
  • Use Skinny Dipping or International Skinny Dip Day to join the conversation on social media.
International Skinny Dip Day History [aqui]
The American Association for Nude Recreation first celebrated the event in 2018. The sponsor, American Association for Nude Recreation, says the activity and the awareness day are so popular it continues to grow. Different international groups challenge each other to host world-record skinny dip events.

Mais informações aqui e aqui

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Poema da Semana - Walt Whitman


"Não permitas que alguém retire o direito de te expressares,
que é quase um dever.
Não abandones as ânsias de fazer da tua vida algo extraordinário.
Não deixes de acreditar que as palavras e a poesia podem mudar o mundo.
Aconteça o que acontecer a nossa essência ficará intacta.
Somos seres cheios de paixão.
A vida é deserto e oásis.
Derruba-nos, ensina-nos, converte-nos em protagonistas de nossa própria história.
Ainda que o vento sopre contra, a poderosa obra continua:
tu podes tocar uma estrofe.
Não deixes nunca de sonhar, porque os sonhos tornam o homem livre." - Walt Whitman

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Canto a mim mesmo, por Walt Whitman



Acho que poderia voltar e viver com os animais, são tão doces e autónomos.
Paro e observo muito.
Eles não se impacientam, nem se lamentam da sua situação.
Não choram os seus pecados na escuridão do quarto.
Não ficam chateados com as discussões sobre os seus deveres para com Deus....
Nenhum está descontente. Nenhum tem a mania de possuir objectos.
Nenhum se ajoelha perante o outro nem perante os antepassados que viveram há milénios.
Nenhum deles é respeitável ou infeliz em toda a face da Terra.
É assim que me mostram a sua relação comigo e eu aceito.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Encontros Improváveis: Walt Whitman e Klangstabil - Push Yourself



Vida 
Sempre a indesencorajada alma do homem
resoluta indo à luta.
(Os contingentes anteriores falharam?
Pois mandaremos novos contingentes
e outros mais novos.)
Sempre o cerrado mistério
de todas as idades deste mundo
antigas ou recentes;
sempre os ávidos olhos, hurras, palmas
de boas-vindas, o ruidoso aplauso;
sempre a alma insatisfeita,
curiosa e por fim não convencida,
lutando hoje como sempre,
batalhando como sempre.
- Walt Whitman

The Mysterious Geographic Explorations Of Jasper Morello

Mais informações sobre a curta-metragem premiada aqui

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Poema da Semana- Não deixes que termine o dia sem teres crescido um pouco, por Walt Whitman



Não deixes que termine o dia sem teres crescido um pouco,
sem teres sido feliz, sem teres aumentado os teus sonhos.
Não te deixes vencer pelo desalento.
Não permitas que alguém retire o direito de te expressares,
que é quase um dever.
Não abandones as ânsias de fazer da tua vida algo extraordinário.
Não deixes de acreditar que as palavras e a poesia podem mudar o mundo.
Aconteça o que acontecer a nossa essência ficará intacta.
Somos seres cheios de paixão.
A vida é deserto e oásis.
Derruba-nos, ensina-nos, converte-nos em protagonistas de nossa própria história.
Ainda que o vento sopre contra, a poderosa obra continua:
tu podes tocar uma estrofe.
Não deixes nunca de sonhar, porque os sonhos tornam o homem livre.


Walt Whitman

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Of Books and the Stars ~ Walt Whitman


This is thy hour 
O Soul, thy free flight into the wordless, 
Away from books, away from art, the day erased, the lesson done, 
Thee fully forth emerging, silent, gazing, pondering the themes thou lovest best, 
Night, sleep, death and the stars 

~ Walt Whitman

domingo, 23 de junho de 2013

Encontros Improváveis: Walt Wittman e Cecília Meireles


Vou pelo braço da noite,
levando tudo que é meu:
— a dor que os homens me deram,
e a canção que Deus me deu.

Cecília Meireles, in 'Viagem'

"Cada momento de luz e escuridão é um milagre"- Walt Wittman

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Melhor som aqui

Letra

I'm in a spin
I won't let this darkness in
Turning around
Grinning as I leave the ground
Wanting it all
I'm tearing right through that wall
Once and for all
I'm tearing through that wall
Taking it out

A little rain's going to keep on falling on me
I'm going to keep on calling to you

I'm in a spin
Spinning at the speed of sound
I'm in a spin
Hanging with the lost and found
I'm on fire
Rushing on my way to you
I'm on fire
Rushing on my way to you
Checking it out

A little rain's going to keep on falling on me
I'm going to keep on calling to you

I'm on fire
Beside you
I'm on fire

A canção "Lufthansa", lançada pelo The Chameleons no álbum Why Call It Anything (2001), utiliza a imagem da famosa companhia aérea alemã não como uma ode às viagens, mas como um símbolo de distanciamento, alienação e saudade. Numa análise contínua, podemos interpretar a obra como um mergulho na melancolia de quem vive em trânsito, onde a tecnologia e os meios de transporte, embora liguem o mundo, acabam por evidenciar o abismo emocional entre as pessoas.

A letra de Mark Burgess explora a fragilidade das ligações humanas mantidas através de fios de telefone e sinais de satélite. O eu lírico parece preso num estado de suspensão, onde a presença física de alguém amado é substituída por uma voz distante, transformando o outro numa espécie de "fantasma" tecnológico. Existe uma sensação de cansaço existencial, típica da maturidade da banda, que reflete sobre o custo das partidas e a solidão que preenche os quartos de hotel e as salas de embarque.

Musicalmente, a faixa sustenta esta narrativa com as guitarras atmosféricas características do grupo, que criam uma sonoridade etérea e levemente espacial. Isto reforça a ideia de flutuar acima do mundo, mas sem um lugar para aterrar emocionalmente. No fundo, "Lufthansa" é um lamento sobre a desconexão na era da hiperconectividade: o veículo que permite cruzar continentes em horas é o mesmo que consagra a separação, deixando para trás o arrependimento e o desejo silencioso de estar em casa.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Encontros Improváveis- Hans Werner Henze e Walt Whitman


Darest Thou Now O Soul

Darest thou now O soul,
Walk out with me toward the unknown region,
Where neither ground is for the feet nor any path to follow?

No map there, nor guide,
Nor voice sounding, nor touch of human hand,
Nor face with blooming flesh, nor lips, nor eyes, are in that land.

I know it not O soul,
Nor dost thou, all is a blank before us,
All waits undream'd of in that region, that inaccessible land.

Till when the ties loosen,
All but the ties eternal, Time and Space,
Nor darkness, gravitation, sense, nor any bounds bounding us.

Then we burst forth, we float,
In Time and Space O soul, prepared for them,
Equal, equipt at last, (O joy! O fruit of all!) them to fulfil O
soul.

Whispers of heavenly death

Whispers of heavenly death murmur'd I hear,
Labial gossip of night, sibilant chorals,
Footsteps gently ascending, mystical breezes wafted soft and low,
Ripples of unseen rivers, tides of a current flowing, forever flowing,
(Or is it the plashing of tears? the measureless waters of human
tears?)

I see, just see skyward, great cloud-masses,
Mournfully slowly they roll, silently swelling and mixing,
With at times a half-dimm'd sadden'd far-off star,
Appearing and disappearing.

(Some parturition rather, some solemn immortal birth;
On the frontiers to eyes impenetrable,
Some soul is passing over.)

Estes dois poemas de Walt Whitman, integrados na secção Whispers of Heavenly Death de "Folhas de Erva", representam uma das explorações mais sublimes e metafísicas da transição entre a vida e o que lhe sucede. Para Whitman, a morte não é um evento lúgubre ou um fim absoluto, mas sim uma expansão da consciência e uma libertação definitiva das amarras materiais.

No primeiro poema, "Darest Thou Now O Soul", o poeta estabelece um diálogo íntimo com a sua própria alma, desafiando-a a caminhar em direção ao "desconhecido". Esta região é descrita pela ausência de tudo o que nos é familiar: não há solo, nem guias, nem sentidos físicos como o toque ou a visão. Whitman utiliza a metáfora do "afrouxar dos laços" para descrever o momento em que as limitações humanas — a gravidade, o tempo linear e o espaço físico — deixam de exercer força sobre o indivíduo. O poema culmina numa nota de triunfo e alegria absoluta, sugerindo que, ao morrer, a alma atinge finalmente o seu estado pleno, tornando-se igual ao Universo e pronta para o preencher.

Já em "Whispers of Heavenly Death", o tom torna-se mais atmosférico e sensorial. O poeta escuta a morte como se fosse um murmúrio, uma "fofoca labial da noite" ou brisas místicas. Ele utiliza elementos da natureza, como rios invisíveis e massas de nuvens, para pintar o cenário desta fronteira espiritual. Há um momento de profunda humanidade quando ele questiona se o som que ouve é o fluxo da eternidade ou o "respingar de lágrimas humanas", reconhecendo o luto que acompanha a partida. No entanto, a conclusão é reveladora: Whitman descreve a morte como uma "parturition" (um parto). Para o autor, o que parece ser o fim de uma vida é, na verdade, um nascimento solene e imortal; a alma não está a desaparecer, mas sim a atravessar uma fronteira em direção a uma existência superior.

Em conjunto, estes textos refletem a crença transcendentalista de que a alma é eterna e que a morte é apenas a última grande aventura do ser humano — um passo necessário para que o "eu" se liberte da sua casca finita e se funda com o infinito.

Biografia: Hans Werner Henze

sexta-feira, 29 de setembro de 2006

Apenas há uma estrada....a menos viajada!!

1. Um olhar de Walt Whitman (poemas bilingues retirados do artigo Natureza e Poesia-Naturlink)
1.1. I believe a leaf of grass is no less than the journey-work of the stars,And the pismire is equally perfect, and a grain of sand, and the egg of the wren,And the tree-toad is a chef-d’oeuvre for the highest
Creio que uma folha de erva não vale menos que a jornada das estrelas / E que a formiga não é menos perfeita, nem um grão de areia, nem um ovo de carriça / E que o sapo é uma obra-prima para o mais exigente.

1.2. wonder about the trees:Why do we wish to bear Forever the noise of this (…)
Questiono-me acerca das árvores / Porque pretendemos nós preservar para sempre o seu som?

1.3. Two roads diverged on a yellow wood,I took the one less travelled by,And that made all the difference.
Numa estrada amarela, duas estradas divergem / Segui a menos viajada / E isso fez toda a diferença.

2. Novos Portais do GEA (com imensa informação disponível e actualizada)
Portais Agenda 21 Local, Zero Resíduos, Fórum do Urbanismo e Portal do Ambiente e do Cidadadão da Maia (Setembro de 2006)
3. Estou mais feliz: o Vulgar de Lineu regressou à blogosfera!!