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domingo, 19 de julho de 2026

Plano verde em Madrid

Madrid transformou milhares de árvores numa das suas principais estratégias para enfrentar o calor urbano. Em vez de depender apenas de obras de concreto, a cidade expandiu sua cobertura vegetal e criou uma verdadeira floresta em meio às ruas.

Hoje, a capital espanhola reúne mais de 300 mil árvores espalhadas pelas vias públicas. Somando parques e áreas verdes administradas pelo município, esse número passa de 1,5 milhão.

O efeito aparece no dia a dia
Mais sombra, melhora da qualidade do ar e temperaturas mais amenas numa cidade que, assim como outras regiões da Europa, enfrenta verões cada vez mais intensos.

Esse planeamento de longo prazo também rendeu reconhecimento internacional. Madrid recebeu por sete anos consecutivos o título de "Cidade das Árvores do Mundo", concedido às cidades que se destacam pela gestão e preservação da arborização urbana.

Cada árvore plantada faz parte de um projeto maior: tornar a cidade mais agradável para viver, fortalecer a biodiversidade e preparar os espaços urbanos para um clima cada vez mais desafiador. No fim das contas, algumas das obras mais valiosas de uma grande cidade continuam crescendo silenciosamente, folha por folha.

Pois cá está. Portugal sempre em retrocesso. E a dendrofobia é estrutral. Encontra muita resistência. Só mesmo uam visão acodemocrática de um autarca visionário, como o que aconteceu em Guimarães. 

Guimarães foi distinguida recentemente com o prestigiado título de Capital Verde Europeia 2026, um galardão atribuído pela Comissão Europeia que reconhece o compromisso e o esforço da cidade na vanguarda da sustentabilidade ambiental. Para conquistar este prémio, a cidade minhota apresentou-se sob o lema "One Planet City" e superou na final as cidades de Heilbronn, na Alemanha, e Klagenfurt, na Áustria.

Além do prestígio internacional, a distinção garantiu a Guimarães um apoio financeiro de 600 mil euros destinado a impulsionar novos projetos ambientais e a acelerar a meta local de neutralidade climática. Este prémio junta-se a outros reconhecimentos recentes obtidos pelo município, como o prestigiado prémio internacional Green Flag Award, que distingue a excelência na gestão de espaços verdes como o Parque da Cidade e o Jardim do Monte Latito, e a presença entre os finalistas europeus na Semana Europeia da Prevenção de Resíduos, consolidando a cidade como uma referência em políticas de sustentabilidade e ecologia urbana.

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sábado, 18 de julho de 2026

Anatomia de um arboricídio: o sacrifício de um Pinheiro-Manso em Lisboa

A recente condenação de um pinheiro-manso histórico em Lisboa reabriu o debate sobre a forma leviana como o património natural urbano é gerido em Portugal. No centro da polémica, José Ribeiro e Castro alega que a decisão de abate foi tomada com base num parecer técnico contratado a privados, uma manobra que serviu para ignorar e contornar as indicações expressas em sentido contrário dadas pelos técnicos oficiais da Câmara Municipal de Lisboa. Para justificar o corte, a narrativa oficial recorreu ao clássico exagero mediático, empolando o perigo com expressões alarmistas como "dezenas de toneladas" em risco de queda, e invocando os habituais argumentos dos passeios levantados ou de tubagens danificadas. No entanto, não faltaram alertas legítimos da sociedade civil, com o Fórum Cidadania Lx a encabeçar os avisos de que estávamos perante um atentado ambiental desnecessário.

Este abate coloca Lisboa em total contraciclo com as grandes cidades europeias, que hoje competem para expandir as suas copas urbanas. Ao contrário do que a ignorância política faz crer, a ciência atual oferece inúmeras tecnologias que previnem o arboricídio, sem que seja necessário invocar o exemplo máximo da engenharia tradicional japonesa, o Nemawashi. O progresso tecnológico permite-nos, de facto, resolver estes conflitos sem recurso à motosserra. Para o problema das raízes e dos passeios, existem tecnologias subterrâneas como as células de solo modulares e as barreiras físicas, que direcionam o crescimento radicular para baixo e protegem o pavimento. Para a avaliação da saúde da árvore, o diagnóstico pode ser feito com o rigor de uma ecografia através de tomógrafos sonoros e resistógrafos, que revelam se o tronco está oco sem desferir um único golpe. Numa escala macro, as metrópoles usam sensores de inclinação IoT, drones e laser LiDAR por satélite para vigiar o stress hídrico, complementados por plataformas de cadastro aberto e QR Codes que dão a cada árvore um bilhete de identidade digital, permitindo ao cidadão fiscalizar a legalidade de qualquer intervenção e combater a impunidade.

O argumento do custo financeiro destas tecnologias também não colhe. O mercado oferece hoje soluções em vários patamares: se a monitorização contínua por sensores IoT exige orçamentos de grandes capitais, o desenvolvimento de aplicações de denúncia urbana e a instalação de barreiras de raiz são investimentos perfeitamente acessíveis a qualquer pequeno município. Os especialistas são unânimes: investir na preservação é altamente rentável, pois o custo de manter uma árvore adulta saudável é uma ínfima fração do prejuízo económico e ambiental que resulta da sua remoção, da reparação de infraestruturas e do agravamento das ilhas de calor urbanas. No fundo, este caso expõe uma crise de mentalidade. Confundir a gestão de árvores urbanas com o trabalho de um homem de motosserra é o mesmo que confundir um cirurgião com um carniceiro. Ambos usam ferramentas de corte e ambos alteram o corpo, mas enquanto o primeiro estuda anos para curar e preservar a vida, o segundo apenas quer despachar o trabalho, amputando cegamente o que lhe aparece à frente. Lisboa perdeu mais do que um pinheiro; perdeu a oportunidade de demonstrar maturidade e respeito pela ciência.

terça-feira, 14 de abril de 2026

Estudo revela que a ligação humana com a natureza diminuiu 60% em 200 anos


Estamos a perder a ligação à natureza e talvez nem estejamos a perceber.
Um estudo recente indica que a “ligação à natureza” terá diminuído mais de 60% desde o século XIX. Esta conclusão resulta de um modelo que combinou dados sobre urbanização, perda de biodiversidade e mudanças culturais entre gerações, mostrando uma redução progressiva no contacto direto com o mundo natural.
Curiosamente, a investigação de Miles Richardson, professor da Universidade de Derby, em Inglaterra, aponta também para um reflexo simbólico desta mudança: a presença de palavras relacionadas com a natureza — como “rio”, “musgo” ou “flor” — tem diminuído na literatura ao longo do tempo, sugerindo uma transformação na forma como a natureza ocupa o nosso imaginário coletivo.
Os investigadores descrevem este fenómeno como uma possível “extinção da experiência”: menos contacto quotidiano com ambientes naturais, menos transmissão desse vínculo entre gerações e, consequentemente, uma relação mais distante com a biodiversidade que nos rodeia.
O estudo publicado na revista Earth ainda sugere medidas político-sociais para reverter esta tendência, tal como a introdução das crianças na natureza desde tenra idade e o reflorestamento radical dos ambientes urbanos, as intervenções mais eficazes, por exemplo.

quinta-feira, 5 de março de 2026

The Cure - Push


This melody means a lot to me. Released on August 30, 1985, I was 19 years old. The moment I heard it, it clung to my soul and never let go. It’s been woven into the fabric of my life for forty years.

The song begins not with words, but with an instrumental preamble that feels like a sunrise over a desolate moor - a long, glittering hallway of sound where Gallup’s bass acts as a steady, subterranean pulse. The guitars, layered in chorus and reverb, spin like silver webs catching the light, suspending the listener for two minutes in the musical equivalent of holding one’s breath until the lungs burn. We wait for the push, or perhaps the fall, until Robert Smith’s voice finally breaks through. It isn’t a whisper; it’s a desperate, melodic cry painting a portrait of fractured intimacy.

"Push" lingers as a quintessential anthem because it finds beauty in the breaking—it is the electric, terrifying thrill of the moment just before the end, the sound of a heart beating too fast in a room that’s far too quiet.

It's not just about romantic relationships. Everyone interprets it in their own way. 

For me, it healed the loss of my first love. Also, when someone (a friend) is no longer with me, or the death of a friendship, or the physical separation from an animal, or when I did everything in my power to prevent the senseless slaughter of our native woods or our urban trees, I return to this hymn because it eases my pain.


Go go go!
Push him away
No no no!
Don't let him stay...

He gets inside to stare at her
The seeping mouth
The mouth that knows
The secret you
Always you
A smile to hide the fear away
Oh! smear this man across the walls
Like strawberries and cream
It's the only way to be

Exactly the same clean room
Exactly the same clean bed
But I've stayed away too long this time
And I've got too big to fit this time.

Conflito emocional e afastamento em "Push" de The Cure
Em "Push", do The Cure, a letra explora o conflito entre o desejo de proximidade e a necessidade de afastamento. A imagem marcante de "smear this man across the walls / Like strawberries and cream" (espalhar esse homem pelas paredes / como morangos com creme) revela um impulso quase obsessivo de apagar a presença de alguém, misturando sentimentos de repulsa e fascínio. Essa metáfora sugere não só o afastamento físico, mas também a tentativa de eliminar qualquer lembrança ou influência emocional da pessoa, reforçando o tema do distanciamento.

O desconforto do narrador se intensifica quando ele admite: "But I've stayed away too long this time / And I've got too big to fit this time" (mas fiquei longe por tempo demais desta vez / e fiquei grande demais para caber desta vez). Esses versos deixam claro o sentimento de não pertencimento e a percepção de que mudanças internas o afastaram de um espaço ou relação que antes era familiar. O contexto da música, frequentemente discutido por fãs e críticos, aponta para a luta em controlar a influência do outro e a necessidade de criar barreiras emocionais. Assim, "Push" se destaca como um retrato direto e honesto do embate entre o desejo de conexão e a autopreservação, traduzindo em palavras e sons a experiência do distanciamento emocional.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Chegou a hora de repor a permeabilidade do solo nas nossas cidades

Porquê?
1. Redução do risco de inundações e gestão das águas pluviais.
As superfícies impermeáveis ​​impedem que a água da chuva se infiltre no solo. Em vez disso, a água escoa rapidamente para o sistema de drenagem, muitas vezes sobrecarregando os sistemas durante chuvas intensas.

Repermeabilizar o solo:
- Diminui o escoamento superficial;
- Permite que a água se infiltre e recarregue o lençol freático;
- Reduz as inundações superficiais e o transbordo de esgotos, que infelizmente muitas vezes também recebem àguas pluviais.
Isto é cada vez mais crucial à medida que os eventos de chuva intensa se tornam mais frequentes, uma tendência destacada nas avaliações climáticas urbanas globais.

2. Arrefecimento das cidades e redução das ilhas de calor urbanas.
As superfícies impermeáveis ​​​​absorvem e irradiam calor, intensificando o efeito de ilha de calor urbana. Superfícies permeáveis ​​e com coberto vegetal:
- Retêm a humidade, permitindo o arrefecimento evaporativo;
- Reduzem as temperaturas da superfície e do ar ambiente;
- Melhoram o conforto térmico nas ruas e espaços públicos.

3. Recuperação do ciclo urbano da água e recarga dos aquíferos.
Quando as cidades estão totalmente impermeabilizadas:
- Os níveis das águas subterrâneas diminuem;
- A vegetação urbana torna-se dependente da rega;
- As cidades tornam-se mais vulneráveis ​​às secas.
Os solos permeáveis ​​ajudam a reconectar a água da chuva com os ciclos hidrológicos naturais, melhorando a segurança hídrica a longo prazo, o que é especialmente importante em cidades com escassez de água.

4. Apoio à biodiversidade urbana e à saúde do solo.
Solos saudáveis ​​abrigam microrganismos, insetos e raízes de plantas.
Permeabilizar o solo e design permeável:
- Melhoram a respiração e a fertilidade do solo;
- Permitem que as árvores urbanas desenvolvam raízes mais profundas e fortes, mais resistentes às intempéries;
- Apoiam polinizadores e habitats urbanos.

5. Equidade, habitabilidade e ordenamento do território
Em muitas cidades:
- Os antigos aglomerados urbanos estão localizados em zonas sujeitas a inundações e com deficiente drenagem;
- Soluções de engenharia são hoje fundamentais para resolver os problemas do passado, mas não se pode estar atualmente criar novos problemas resultantes de um mau planeamento.

As abordagens permeáveis ​​e baseadas na natureza (valas de infiltração, drenagem com vegetação, pátios permeáveis) são:
- Mais baratas e adaptáveis;
- Mais fáceis de serem concebidas em conjunto com as comunidades.

6. De que forma a permeabilização se parece na prática:
- Pavimentos e áreas de estacionamento permeáveis;
- Permeabilização de passeios, pátios escolares e espaços subutilizados;
- Jardins de chuva, valas de infiltração e trincheiras de infiltração;
- Árvores urbanas com solos estruturais;
- Recuperação de ribeiros naturais ou cursos de água sazonais.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Portugal tem de adaptar-se aos fenómenos extremos


As alterações climáticas vão trazer cada vez mais fenómenos extremos a Portugal, diz o físico da atmosfera Pedro Matos Soares, que avisa que Portugal tem de mudar radicalmente, começando nas infraestruturas e acabando nos alertas.

Portugal Continental foi atingido, entre 22 e 28 de janeiro, por três tempestades consecutivas, Ingrid, Joseph e Kristin, a última das quais deixou pelo menos dez mortos e um rasto de destruição sobretudo nos distritos de Leiria, Coimbra e Santarém.

Em entrevista à Lusa sobre este “comboio de depressões”, o especialista explicou o fenómeno, mas não o relacionou com as alterações climáticas, salientando que estas estão e vão provocar no país cada vez mais fenómenos climáticos extremos, seja por exemplo episódios de chuva intensa seja de secas.

Devem os portugueses ter medo? Pedro Matos Soares diz que não. Mas acrescenta que devem lembrar-se de que a mudança no clima tem impactos diretos sobre as pessoas, as atividades económicas e os ecossistemas.

São as ondas de calor, os incêndios, as tempestades mais severas, recorda, afirmando: Em vez de paralisarmos com medo, temos é de fazer uma coisa mais inteligente, perceber que temos de dimensionar a nossa sociedade, no ordenamento do território, para salvaguardar as pessoas e a economia.

Pedro Matos Soares, professor e investigador principal do Instituto Dom Luiz, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, responsável da PHAIR-EARTH, uma “start-up” que faz projeções climáticas de alta resolução, identifica perigos e faz avaliações de risco, alerta que perante “mais extremos” climáticos é preciso “preparar a sociedade de uma forma diferente”.

Por exemplo nas estruturas, que têm de ser repensadas, que quer sejam novas ou reabilitadas terão de estar preparadas para um novo clima, de hoje ou dos próximos 20 anos e não do século XX.

“Quer dizer que nós temos que aumentar a resiliência das nossas estruturas”, com novos códigos de construção mais resistentes a precipitação extrema, telhados que resistam a vento extremo.

Nas palavras do especialista, isso aplica-se especialmente a “estruturas críticas”, da rede elétrica às escolas, a estradas ou pontes, bibliotecas ou mesmo igrejas e outros locais de encontro, que se forem bem reabilitadas, se forem resilientes podem ser “refúgios climáticos”.

Pedro Matos Soares defende planos locais de resposta acelerada para eventos extremos, que hoje não existem, porque a solução não é as pessoas receberem um SMS e “que se desenrasquem”.

As pessoas, quando recebem o SMS da Proteção Civil, deviam receber “imediatamente quais as recomendações para se protegerem, para protegerem os seus bens e, em última instância, onde é que se devem dirigir para estarem protegidas”.

“Para isso precisamos ter estruturas públicas, ou privadas, que tenham uma grande resistência a fenómenos extremos e que possam servir de refúgios”, diz.

Defendeu também mais educação e literacia, porque há pessoas a viver em leito de cheias sem o saberem. “Hoje temos tanta tecnologia e a informação não flui para as pessoas”, lamenta.

Aponta ainda que em Portugal não se percebeu o risco climático, não está mapeado o que é o risco climático destes diferentes extremos para os próximos 10 anos, 20 anos, 30 anos, apesar de toda a gente saber esse risco está a aumentar.

E isso impede o país de perceber como priorizar investimentos ou aumentar a resiliência de estruturas.

Diz ainda que também não há no país um “plano de recuperação pós-catástrofe”.

“Ficamos todos à nora, o Governo fica paralisado”, considera, enfatizando a necessidade de um sistema de alerta precoce, que avise por exemplo para uma onda de calor e explique o que as pessoas devem fazer e para onde ir.

É preciso uma sociedade mais preparada, ancorada no conhecimento e não apenas um SMS que não explica o que fazer em resultado dele.

sábado, 31 de janeiro de 2026

Porque caem tantas árvores durante as tempestades?


Nos últimos anos Portugal tem assistido a um aumento significativo da queda de árvores durante tempestades intensas. Embora estes episódios sejam muitas vezes percecionados como acontecimentos súbitos ou inevitáveis, a ciência mostra que não se trata de fenómenos aleatórios. Pelo contrário, a queda de árvores resulta da combinação previsível entre condições do solo, características das próprias árvores, contextos urbanos e florestais, e eventos meteorológicos cada vez mais extremos.

Um dos fatores críticos é o estado do solo. Durante períodos de chuva intensa ou cheias, os solos ficam saturados de água e perdem grande parte da sua resistência. A água acumulada nos poros do solo reduz o atrito e a coesão que mantêm as raízes firmemente ancoradas. Nessas circunstâncias, árvores que permaneceriam estáveis em solos secos podem tombar mesmo sob ventos moderados. Este mecanismo é uma das explicações mais bem documentadas para a queda de árvores associada a tempestades.

A idade das árvores e o tipo de povoamento também desempenham um papel decisivo. Árvores jovens, comuns em plantações recentes, ainda não desenvolveram sistemas radiculares profundos e extensos. Em florestas mais maduras, as raízes entrelaçam-se e criam uma estabilidade coletiva que ajuda a dissipar a força do vento. Em contraste, povoamentos jovens e homogéneos – muitas vezes compostos por árvores da mesma idade e espécie – são estruturalmente mais frágeis, o que explica porque grandes áreas podem ser afetadas de forma simultânea durante eventos extremos.

Nas cidades, o problema tende a ser ainda mais grave. As árvores urbanas vivem sob múltiplos fatores de stress: solos compactados, pouco espaço para enraizar, impermeabilização do terreno, poluição, temperaturas elevadas e podas excessivas ou mal executadas. Ao longo do tempo, estas condições enfraquecem as árvores, favorecem o desenvolvimento de podridões internas e reduzem a sua capacidade de resistir ao vento. Como resultado, as árvores urbanas têm maior probabilidade de falhar, seja pelo arranque da raiz, seja pela quebra do tronco ou dos ramos.

As próprias tempestades amplificam estes riscos. A força exercida pelo vento aumenta rapidamente com a sua velocidade, e as copas molhadas pela chuva tornam-se mais pesadas e oferecem maior resistência ao ar. As rajadas provocam movimentos repetidos que “cansam” o tronco e o sistema radicular, acelerando a falha estrutural, sobretudo quando o solo já se encontra saturado.

Este cenário é agravado pelo contexto das alterações climáticas. Em Portugal, é cada vez mais comum a sucessão de longos períodos de seca – que debilitam as árvores – seguidos de episódios de chuva intensa e tempestades severas. Estes eventos combinados aumentam significativamente o risco de queda, uma vez que as árvores não têm tempo suficiente para recuperar nem para adaptar a sua estrutura às novas condições.

Em suma, a queda de árvores durante tempestades é um fenómeno explicável e, até certo ponto, previsível. Resulta da interação entre solos encharcados, sistemas radiculares pouco desenvolvidos, stress fisiológico (particularmente em ambientes urbanos) e eventos meteorológicos extremos cada vez mais frequentes.

Se queremos continuar a viver com árvores, e a beneficiar dos múltiplos serviços ecológicos, climáticos e sociais que prestam, é imperativo preparar não apenas as infraestruturas físicas, mas também as infraestruturas naturais. Isso implica reconhecer que árvores não são elementos decorativos nem obstáculos urbanos, mas organismos vivos que dependem de solos funcionais, espaço para enraizar, diversidade estrutural e tempo para se adaptarem. A gestão do risco associado às tempestades futuras passa, portanto, por investir na qualidade dos solos, no desenho ecológico das cidades e das florestas, e numa abordagem preventiva baseada no conhecimento científico. Sem esta preparação sistémica, a coexistência com árvores tornar-se-á cada vez mais frágil num clima em rápida mudança.

domingo, 30 de novembro de 2025

Creches e contacto com a Natureza - só vantagens


Uma creche na Finlândia revitalizou o seu pátio com elementos naturais e as crianças ficaram mais saudáveis: agora todo país está a replicar o mesmo. As crianças podem evitar doenças e alergias ao longo da vida se tiverem permissão para brincar na natureza. Dezenas de estudos comparativos já haviam constatado que crianças que vivem em áreas rurais e têm contato com a natureza apresentam menor probabilidade de contrair doenças resultantes de distúrbios do sistema imunológico e menor risco de desenvolver doença celíaca, alergias, atopia e até diabetes. O contato repetido com elementos naturais cinco vezes por semana diversifica a microbiota intestinal, oferecendo proteção contra doenças transmitidas pelo sistema imunológico. Cada indivíduo humano é, na verdade, um ambiente em si: um hospedeiro de trilhões de microrganismos, incluindo bactérias, vírus e fungos. Estes, coletivamente, superam as nossas próprias células numa proporção de 4 para 1 e estão emergindo como uma das forças mais influentes, senão a mais importante, na saúde e no funcionamento humanos.

Artigos cientifícos 

Saber mais:

sábado, 15 de novembro de 2025

Foto e poema sobre as Árvores

Árvore
"Ficas ali, inteira,
como se soubesses algo que nós esquecemos.
O vento passa por ti
e tu respondes sem pressa,
um aceno leve, um sussurro de folhas
que não precisa traduzir-se.
A luz pousa nos teus ramos
como quem encontra casa.
Os pássaros chegam, partem,
e tu permaneces —
um gesto de permanência
num mundo que corre demasiado depressa.
Às vezes abraço-me ao teu tronco
e sinto qualquer coisa antiga,
quase uma respiração,
como se a tua vida entrasse um pouco na minha.
E penso:
talvez crescer seja isto —
abrir espaço no peito
para o que chega
sem medo do que fica."
Joao Soares, 15.11.2025

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Tree

"I Love a Tree
by Samuel N. Baxter

When I pass on to my reward,
Whatever that may be,
I’d like my friends to think of me
As one who loved a tree.

I may not have a statesman’s poise,
Nor thrill a crowd with speech,
But I can benefit mankind
If I set out a beech.

If I transport a sapling oak
To rear its mighty head,
’Twill shade and shelter those who come
Long after I am dead.

If in the park I plant an elm,
Where children come to play,
To them ’twill be a childhood shrine
That will not soon decay.

Of if I plant a tree with fruit,
On which the birds may feed,
I’ve helped to foster feathered friends,
And that’s a worthy deed.

For winter, when the days grow short
And spirits may run low,
I’d plant a pine upon the ‘scape;
’Twould lend a cheering glow.

I’d like a tree to mark the spot
Where I am laid to rest,
To me ‘twould be an epitaph
That I would love the best.

And though not carved upon a stone
For those who come to see,
My friends would know that resting here
Is one who loved a tree."

domingo, 28 de setembro de 2025

O papel ecológico dos fungos e cogumelos


"...Os fungos são especialistas em reciclagem. Como saprófitas — o termo técnico para organismos que se alimentam de matéria orgânica morta ou em decomposição —, são capazes de decompor matéria orgânica, decompondo moléculas orgânicas complexas em formas mais simples que podem ser reutilizadas por plantas e outros organismos fotossintéticos. Através da ação dos fungos, a morte torna-se a base de uma nova vida: o ciclo mais fundamental da vida. Este é o papel ecológico fundamental dos fungos e a razão pela qual são a pedra basilar de qualquer ecossistema próspero.

Mas em breve o outono estará entre nós aqui no hemisfério norte, e com ele os fungos darão um espetáculo que vai muito para além do seu importante papel ecológico. Um passeio na floresta durante o outono traz as cores quentes das folhas caídas e o cheiro húmido e vagamente adocicado da decomposição. Todo o verde glorioso do verão que passou deve agora ser reciclado. É uma época de festa para os fungos, por isso, qual a melhor altura para cuidar da reprodução? 

Por toda a floresta, os cogumelos começam a brotar numa variedade de formas e cores que rivalizam com as das flores da primavera. Tal como as flores para as plantas, os cogumelos são os órgãos reprodutores dos fungos, e muitas vezes a única parte visível dos organismos, compostos principalmente por redes complexas de filamentos longos e semitransparentes chamados hifas.  

Não se espalham apenas pelo solo da floresta. Se apontar um pouco mais alto, em direção aos troncos das árvores, também poderá avistar alguns dos fungos especializados em cascas de árvores, como o bonito galeirão-do-mato (Laetiporus sulphureus) na foto acima..."
Ler o texto completo aqui

domingo, 8 de junho de 2025

6 Ways Trees Benefit All of Us




Trees have been with us throughout our whole lives. They’re the background of a favorite memory and that welcome patch of green our eyes seek as we gaze out our windows.

While they are silent and stationary, trees hold tremendous powers, including the power to make all our lives better and healthier.

1: Trees help fight climate change.
Through photosynthesis, trees absorb carbon dioxide from the air and store it in its wood. Trees and plants will store this carbon dioxide throughout their lives, helping slow the gas’s buildup in our atmosphere that has been rapidly warming our planet.

In the U.S., forests are one of the most promising natural climate solutions—that is actions to protect, better manage or restore nature to store more carbon. Trees are looking out for us, so we have to look out for them. Older, larger trees store a lot more carbon than young trees, so it’s important that in addition to planting new trees, we conserve and protect ancient giants of old growth forests.

2: Trees boost our mental and physical health.
A healthy tree can lead to a healthy you and me. A study by a TNC scientist shows that time in nature—like a walk among the trees in a city park—correlates with a drop in anxiety and depression. In Louisville, Kentucky, researchers have found that planting 9,000 trees improved neighbors' health conditions that are linked to heart disease, stroke and some types of cancer.

The good news: it doesn’t take a lot of time in nature for these soothing powers to kick in. You may have felt the benefits from a short walk or hike in your neighborhood. We’re drawn to green spaces, and for good reason.

Access to nearby green space also contributes to better physical health by encouraging us to move around and exercise. Because we move around more when we have access to trees and parks, nature can help lower rates of obesity.

How does nature improve your health? (2:04) Spending more time around nature can do amazing things for your health. In fact, taking care of the planet is one of the best things we can do to take care of ourselves.

3: Trees clean the air so we can breathe more easily.
Leave it to leaves. Trees remove the kind of air pollution that is most dangerous to our lungs: particulate matter. This pollution arises from the burning of fossil fuels and can reach dangerous concentrations in the largest cities as well as in neighborhoods near highways and factories.

Trees’ leaves will filter this dangerous pollution, but only if they’re planted near the people who need them; most of the filtration occurs within 100 feet of a tree. More trees in cities, especially in lower-income neighborhoods close to highways and factories, can reduce ailments like asthma and heart disease that cause 5% of deaths worldwide.

4: Trees and forests provide habitat for a diversity of life.
A forest is more than a collection of trees. It is a complex ecosystem of diverse plants and animals. And this interconnected relationship of all forest species ensures the whole forest thrives—from soil to canopy. Old-growth forests, the forests that we need to protect most urgently, create habitats at the ground level, at the top of their tree canopies, and everywhere in between. All of these different habitats in a single area allow so many diverse species to thrive.

5: Trees cool down your life, and could even save it.
Trees give us all shade—and that’s a good thing! Temperatures are rising and heatwaves are getting longer due to climate change. Some places feel the heat more than others. Neighborhoods with lots of pavement absorb more heat and can be five to eight degrees hotter than surrounding areas. These areas also stay hotter later into the night, which is detrimental to our health.

Enter our branchy, leafy neighbors. A tree’s shade acts like a natural air conditioning and can even keep down the energy costs of our actual air conditioning systems, which are increasingly working overtime.

6: Trees and forests filter your water, making your drinking supply cleaner and more reliable.
Raise a glass to a tree near you! Actually, raise your glass to trees far from you, as your water has traveled on a long journey to your faucet. Trees store and filter more than half of the water supply in the United States.

Forests do this by removing pollutants and sediments from rainfall and then slowly releasing the water back into waterways and underground aquifers. Thanks to trees, this naturally cleaner water is easier and cheaper to treat before it ends up in your tap. The water supply is also steadier because all of the rainwater didn’t end up in a river right away; it seeped through these natural filters over time.

sexta-feira, 16 de maio de 2025

Prioridades ambientais para as Legislativas 2025

Os efeitos das alterações climáticas já são sentidos em todo o mundo e constituem ameaças reais à segurança e bem-estar das pessoas. A perda de biodiversidade e a degradação ambiental, que seguem a um ritmo acelerado, agravam ainda mais esta realidade. Para garantir que os líderes que estarão à frente das decisões em Portugal estejam comprometidos em reverter este cenário, a Coligação C7 destaca as seguintes medidas prioritárias que devem ser incluídas nos programas das Eleições Legislativas que se aproximam:

Conservação e Restauro da Natureza, dentro e fora de Áreas Classificadas:
  1. Retorno da Secretaria de Estado de Conservação da Natureza, e da pasta das Florestas ao Ministério do Ambiente.
  2. Reverter a alteração à lei dos solos que veio permitir construção em solos rústicos.
  3. Garantir o cumprimento da meta de proteção de 30% do território terrestre e marinho até 2030, incluindo os 10% de proteção estrita, através de uma rede eficaz de Áreas Protegidas ecologicamente representativas, conectadas e bem geridas - necessidade de cumprir as metas definidas na Lei do Restauro;
  4. Garantir a implementação da Rede Natura 2000 (nomeadamente, a conclusão da elaboração dos planos de gestão e a ampliação desta rede ecológica em Portugal) e a efetiva aplicação da legislação, da regulamentação e de iniciativas de conservação, monitorização e fiscalização em todo o Sistema Nacional de Áreas Classificadas;
  5. Garantir financiamento para a elaboração e implementação do Plano Nacional de Restauro, para promover o restauro ecológico à escala da paisagem e dos ecossistemas degradados, reabilitar o equilíbrio ecossistémico e reverter a perda de biodiversidade;
  6. Promover o restauro dos rios através da remoção de barreiras fluviais obsoletas, em linha com o Regulamento do Restauro da Natureza e o objetivo do Pacto Ecológico Europeu de libertar 25 mil km de rios;
  7. Repensar a estratégia nacional para a gestão da água apostando em soluções baseadas na natureza, enquanto alternativas mais sustentáveis e de baixo custo, como o restauro de zonas húmidas, proteção de aquíferos e o uso de tecnologias de armazenamento alternativas, como reservatórios naturais ou infiltração de água no solo, em detrimento da construção de novas grandes barragens e transvases;
  8. Aumentar em pelo menos 50% o financiamento disponível (quer em Orçamento de Estado, quer no Fundo Ambiental quer no Fundo Azul) para ações de conservação da natureza, que deverá ser plurianual, de forma a garantir o cumprimento dos compromissos internacionais assumidos, nomeadamente o Global Biodiversity Framework da Convenção da Diversidade Biológica;
  9. Reforçar a proteção do lobo ibérico ao nível nacional e estimular ativamente a adoção de medidas que promovam a coexistência harmónica, tendo em consideração que a proteção desta espécie será severamente reduzida ao nível europeu;
  10. Criar legislação para a conservação das árvores junto das estradas nacionais e municipais, obrigando as entidades gestoras a fundamentarem publicamente as decisões sobre abates.
Clima e energia:
  1. Garantir a implementação imediata do disposto na Lei de Bases do Clima, atendendo a que o seu calendário de implementação se encontra manifestamente atrasado;
  2. Concretizar a revisão do Roteiro Nacional de Baixo Carbono e a Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas, previstos para 2025, garantindo a participação efetiva das ONGAs e tendo como ponto de partida uma avaliação completa dos resultados das estratégias anteriormente em vigor;
  3. Garantir a efetiva implementação do Plano Nacional de Energia e Clima 2030, tendo em consideração a necessidade de compatibilizar as suas ambições com outros objetivos ambientais, como a proteção da biodiversidade, e com a racionalidade económica;
  4. Promover a transição para uma economia de baixo carbono, incluindo a eliminação de todos os subsídios e apoios públicos aos combustíveis fósseis;
  5. Promover a eficiência energética, nomeadamente garantindo recursos para a implementação da Estratégia de Longo-Prazo para a Renovação dos Edifícios e da Estratégia Nacional de Longo Prazo para o Combate à Pobreza Energética 2023-2050, e apostar prioritariamente na descentralização e democratização da produção renovável, nomeadamente através do autoconsumo e das comunidades de energia;
  6. Concretizar o processo de seleção de áreas de aceleração de energias renováveis, através de uma Avaliação Ambiental Estratégica, e definir mecanismos para encorajar a localização de projetos de energias renováveis em áreas de menor sensibilidade ambiental (por exemplo, limitar a aplicação do princípio do “interesse público prevalecente” dos projetos de energias renováveis, previsto na REDIII, a estas áreas de aceleração);
  7. Incorporar critérios ecológicos e sociais (critérios não-preço) nos futuros leilões de renováveis (incluindo os leilões para a energia eólica offshore), bem como realizar um planeamento cuidadoso da instalação das infraestruturas de produção e de rede e uma monitorização rigorosa e contínua dos impactos ambientais e sociais dos mesmos;
  8. Maior integração dos aspetos da transição justa, nomeadamente com a elaboração participada do Plano Social Climático de Portugal;
  9. Garantir recursos para apoiar o desenvolvimento e implementação dos planos municipais e regionais de ação climática.
Agricultura e alimentação:
  1. Criar o Plano Nacional de Alimentação Sustentável, que defina de forma participada e transparente os princípios para a alimentação sustentável e os integre de forma sistémica nas políticas de produção, consumo e combate ao desperdício e perdas de alimentos, bem como nas políticas de saúde;
  2. Elaborar a Estratégia Nacional de Promoção do Consumo de Proteínas Vegetais, conforme disposto no PNEC 2030;
  3. Investir na agricultura de baixo impacto, que realiza práticas sustentáveis de uso do solo e da água, com reduzida emissão de gases de efeito de estufa e que beneficia a biodiversidade e que reduz o desperdício agro-alimentar, através de práticas agro-ecológicas;
  4. Promover o uso eficiente e contido da água na agricultura, diversificação e complementaridade entre origens de água nos diversos sistemas de abastecimento, e a regulação do uso de água em todos os sistemas, respeitando sempre os ecossistemas; Promover instrumentos que permitam acabar com a subsidiação pública da água na agricultura de forma a que os agricultores paguem o real custo da água.
  5. Inserir critérios ambientais obrigatórios para as compras públicas de alimentação escolar, garantindo uma alimentação saudável e sustentável nas cantinas, privilegiando cadeias de abastecimento mais sustentáveis e dando escala à implementação da Estratégia Nacional para as Compras Públicas Ecológicas;
Oceanos e Pescas:
  1. Garantir financiamento estrutural que permita o adequado funcionamento dos comités de cogestão das pescarias e a realização de todas as suas funções, de maneira contínua e que dê resposta às singularidades deste modelo de gestão;
  2. Desenvolver de maneira colaborativa e implementar o Plano de Ação Nacional para a Gestão e Conservação de Tubarões e Raias, bem como o Plano de Ação para a Mitigação dos Impactos da Pesca sobre Cetáceos, Aves e Tartarugas;
  3. Criar o Fórum de Carbono Azul em Portugal;
  4. Apoiar a transição para práticas pesqueiras de baixo impacto, direcionando fundos públicos para avaliações que comprovem os impactos das pescarias e eliminando gradualmente os subsídios prejudiciais aos recursos pesqueiros;
  5. Assegurar a implementação eficaz da Diretiva-Quadro da Estratégia Marinha por meio de planos de monitorização assentes na ciência, com financiamento adequado;
  6. Garantir a implementação correta da Política Comum de Pescas, com destaque para o novo Regulamento de Controlo e o Plano de Ação Marinha.
  7. Assegurar a ratificação do Tratado de Alto Mar, para proteção da biodiversidade em áreas para além da jurisdição nacional.
Para além das prioridades temáticas mencionadas, é fundamental assegurar mais espaços formais de participação da sociedade civil no desenvolvimento das políticas públicas, abrangendo todas as suas fases, desde a concepção inicial até a implementação e monitorização. As consultas públicas podem ser agilizadas através da criação de uma plataforma única (semelhante à utilizada pela Comissão Europeia), seguindo enquanto padrão mínimo o disposto na legislação de Avaliação de Impacte Ambiental e garantindo o cumprimento da Convenção de Aarhus sobre o direito à participação. É essencial também salvaguardar e apoiar a ação das organizações da sociedade civil, pela sua importância democrática e papel na defesa da natureza e do bem-estar das pessoas, incluindo através da garantia da continuidade de instrumentos de financiamento centrais, como o programa LIFE.

A C7 considera que estas medidas representam o mínimo necessário para que Portugal possa enfrentar os desafios ambientais globais, cumprir os compromissos internacionais assumidos, e garantir a manutenção dos ecossistemas e a construção de uma sociedade resiliente.

A Coligação C7 é composta pelas seguintes organizações:
FAPAS – Associação Portuguesa para a Conservação da Biodiversidade
GEOTA – Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente
LPN – Liga para a Protecção da Natureza
Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza
SPEA – Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves
WWF Portugal
ZERO - Associação Sistema Terrestre Sustentável

segunda-feira, 14 de abril de 2025

Place de Catalogne


A  Place de Catalogne , localizada no 14º arrondissement de Paris, sofreu uma transformação impressionante. Outrora uma praça circular pavimentada em pedras, projetada pelo arquiteto catalão Ricardo Bofill na década de 1980, foi reinventada como uma exuberante floresta urbana. Até 2024, mais de 470 árvores transformaram o espaço num próspero oásis verde no coração da cidade.

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Polónia: florestas sociais vão cercar 14 cidades


O Ministério do Clima polaco anunciou planos para criar "florestas sociais" em torno de algumas das 14 maiores cidades do país. O objetivo deste esforço de reflorestação será proporcionar um acesso fácil à vegetação a mais de um terço de todos os residentes polacos, juntamente com o impacto climático e ambiental positivo esperado da criação de uma bio-infraestrutura tão grande. As florestas sociais, na sua essência, representarão anéis verdes em torno das cidades. As metrópoles em causa são Varsóvia, Cracóvia, Gdańsk, Sopot, Gdynia, Wrocław, Łodź, Poznań, Katowice, Bydgoszcz, Toruń, Szczecin, Kielce e Bielsko-Biała. No total, são habitadas por 13 milhões de pessoas, o que representa cerca de 36% da população do país.

O que é uma floresta social? O Ministério do Clima usou os termos "floresta social" ou "floresta comunitária" para descrever a iniciativa em grande escala. De acordo com a lei polaca, as florestas devem desempenhar funções "económicas, ambientais e sociais". E nestes tempos modernos, muitos residentes urbanos perderam o contacto com os dois últimos aspetos da natureza selvagem. A função económica está muito desenvolvida. A função ambiental é largamente cumprida pelos parques nacionais. No que diz respeito à função social, ainda há muito para melhorar.

Nesse sentido, são necessárias florestas comunitárias nas cidades, para que os residentes urbanos possam beneficiar delas de múltiplas formas. Por exemplo, seriam bons locais para as pessoas apanharem cogumelos ou bagas e andarem de bicicleta. Mais importante ainda, estas florestas não devem existir apenas como espaços geridos artificialmente, mas sim como ecossistemas orgânicos verdadeiramente viáveis que proporcionam uma realidade alternativa à vida urbana organizada.

A conclusão dos trabalhos sobre a nova forma de proteção das florestas está prevista para o fim de outubro de 2024. O governo está a trabalhar na implementação do compromisso do acordo de coligação, que estabelece que "20% das áreas florestais mais valiosas serão excluídas do abate de árvores".

Fonte.

terça-feira, 21 de maio de 2024

Como conter enchentes, segundo criador das 'cidades-esponja': 'Barragens estão fadadas ao fracasso'

Eventos atmosféricos extremos com períodos prolongados de fortes chuvas e inundações, como as ocorridas no Rio Grande do Sul nas últimas semanas, se tornarão cada vez mais comuns e intensos, segundo os cientistas.

Mas o que as cidades podem fazer para evitar ou mitigar esse tipo de tragédia?

Para o criador do conceito de cidades-esponja, o arquiteto chinês Kongjian Yu, a resposta está em parar de "lutar contra a água" e investir em soluções duradouras e baseadas na natureza.

"Temos uma escolha a fazer: investir em grandes barragens e diques que estão fadados a fracassar ou apostar em algo que é duradouro, sustentável e ainda bonito e produtivo", questionou o decano da faculdade de Arquitetura e Paisagismo da Universidade de Pequim em entrevista à BBC News Brasil.

Para Yu, as soluções tradicionais baseadas em barragens de cimento e tubulações impermeáveis já se mostraram incapazes de acompanhar os efeitos das mudanças climáticas, já que as chuvas são cada vez mais intensas e o nível da água de rios e mares não para de subir.

Como alternativa, o arquiteto propõe adotar uma infraestrutura verde, baseada em um balanço hídrico artificial que seja o mais parecido possível com o natural e dê espaço e tempo para que a água seja absorvida pelo solo.

Em outras palavras, criar espaços e infraestruturas capazes de absorver, reter e liberar a chuva de forma que ela retorne ao ciclo natural da água sem causar estragos.

O conceito já foi aplicado pela equipe de Yu em diversas cidades na China e também na Tailândia, Indonésia e Rússia — e por outros arquitetos em todo o mundo.

Segundo o chinês, ele pode ser reproduzido em qualquer lugar, inclusive no Brasil.

"Funciona em qualquer lugar. As cidades-esponja são uma solução para climas extremos, onde quer que eles estejam", diz.

"E o Brasil pode se dar muito bem com elas, porque tem muitas áreas naturais, o que dá mais espaço para a água escoar."

De acordo com o arquiteto, além de impedir inundações, o modelo também pode ser útil durante os períodos de seca, já que a água armazenada pode ser utilizada para irrigação e para manter as árvores e plantas da cidade em boas condições.

Além das fortes chuvas, períodos mais prolongados de seca também são efeitos das mudanças climáticas.

Antes de sofrerem com as inundações, muitos produtores gaúchos já haviam sido castigados pela falta de água no ano safra de 2021/22.

Mas para que o conceito das cidades-esponja funcione, ele deve se basear em três grandes estratégias, segundo Kongjian Yu.

1. Contenção da água
O primeiro princípio adotado nos projetos do chinês é reter a água assim que ela toca o solo. Segundo Yu, isso pode ser alcançado por meio de grandes áreas permeáveis e porosas, não pavimentadas.

Da mesma forma que uma esponja com muitos orifícios, a cidade deve conter a chuva com lagos artificiais e áreas de açude alimentados naturalmente ou por canos que ajudam a escoar a água de rios e represas.

Telhados e fachadas verdes, assim como valas com áreas verdes com camadas de solo permeáveis ​​por baixo também são usadas para esse propósito.

Kongjian Yu explica que, em áreas cultiváveis, reservar 20% do terreno para operar como um sistema de açude é suficiente para impedir que o restante do lote seja inundado. Essa área pode ainda ser adaptada para colheitas resistentes à umidade e para posteriormente abastecer o restante das plantações em épocas de seca.

Apesar de ser algo recente, a base teórica na qual as cidades-esponja resgata as antigas tradições chinesas da agricultura e da gestão da água.

"Temos que aprender com a aquacultura como fazer essa terra fértil, quais culturas podem sobreviver e usar essas áreas para isso", diz. "O arroz é um exemplo de uma plantação que pode funcionar."

2. Redução da velocidade
Em seguida, o arquiteto aconselha pensar no manejo da água coletada. Isto é, desacelerar o fluxo d'água.

Em vez de tentar canalizar a água rapidamente para longe em linhas retas, rios tortuosos com vegetação ou várzeas reduzem a velocidade da água.

Eles oferecem mais um benefício, que é a criação de áreas verdes, parques e habitats para animais, purificando a água escoada na superfície com plantas que removem toxinas poluentes e nutrientes.

Yu conta que se interessou pelo tema da urbanização e da contenção das águas após vivenciar uma experiência com inundações durante a infância.

Na época com apenas 10 anos, o chinês vivia em uma fazenda na Província de Zhejiang, perto de Hangzhou. Durante um período de fortes chuvas, o córrego da região inundou os campos de arroz da comunidade agrícola e Yu foi pego pelas águas, carregado pela enchente.

Mas as plantas, troncos e salgueiros ao longo do córrego reduziram a velocidade do fluxo do rio, permitindo que ele se agarrasse à vegetação e saísse das águas.

"Se o rio fosse como muitos são hoje, nivelados com paredes de concreto, certamente eu teria me afogado", contou Yu à BBC.

As técnicas usadas pelo arquiteto em seus projetos atuam da mesma forma que a vegetação no córrego na fazenda de Yu, desacelerando a água.

3. Escoamento e absorção
A terceira estratégia é adaptar as cidades para que elas tenham áreas alagáveis, para onde a água possa escorrer sem causar destruição.

"Em vez de construir barragens e ir acumulando a água em áreas de cimento, precisamos nos adaptar à água, deixa a cidade lidar com a água de forma saudável", diz Yu.

A principal forma de fazer isso é criar grandes estruturas naturais alagáveis para que a água possa ser contida por um tempo e, depois, absorvida pelo lençol freático.

Yu defende que essas áreas alagáveis permaneçam desocupadas, evitando-se construções nas áreas baixas.

Nos casos de infiltração, podem ser feitas caixas infiltrantes, que facilitam a entrada da água no solo.

Algumas cidades usam "jardins de chuva" que armazenam o excesso de chuva em tanques subterrâneos e túneis. A água só é descartada nos rios depois que os níveis diminuem.

Plantas que absorvem água também podem ser usadas para dar conta do alto volume de chuvas.

"A natureza se adapta. O conceito de cidade-esponja é baseado no princípio de que a natureza regula a água", diz o arquiteto. "Não é apenas a natureza em si. Sistemas feitos pelo homem devem ser certamente usados, mas a natureza deve ser dominante."

Yu afirma ainda que, para conter as grandes inundações previstas para os próximos anos, é preciso expandir essa estratégia por várias regiões e criar um "planeta-esponja" onde a força das águas possa ser dissipada e desacelerada aos poucos.

Ainda na visão do chinês, além de parques adaptados e áreas cultiváveis capazes de absorver mais água, lagoas e pântanos podem coexistir com rodovias e arranha-céus.

quinta-feira, 25 de abril de 2024

Música do BioTerra: Moby feat. Sinead O'Connor - Harbour


The street bears no release
When everybody's fighting
The street bears no release
With life so hard and biting

I run the stairs away
And walk into the night-time
The sadness flows like water
And washes down the heartache
And washes down the heartache

[Refrão]
My heart is full
My heart is wide
The saddest songs are played
On the strings of my heart

The heat is on its own
The roof seems so inviting
A vantage point is gained
To watch the children fighting

So lead me to the harbor
And float me on the waves
Sink me in the ocean
To sleep in a sailor's grace
To sleep in a sailor's grace

[Refrão]

domingo, 17 de dezembro de 2023

Como e porquê instalar caixas-ninho para as aves?


Os meses de Novembro a Janeiro são a melhor altura do ano para a colocação de caixas-ninho para aves como chapins, carriças, trepadeiras ou pica-paus. Filipa Coelho e João Pires, da associação 30Por1Linha dizem-lhe o que precisa saber.

Porque é esta a melhor altura do ano para a colocação de caixas-ninho?
A colocação de caixas-ninho deve ser realizada, preferencialmente, entre os meses de Novembro e Janeiro, porque desta forma as aves têm tempo de se habituarem a elas e estas deixarem de ser um elemento estranho no habitat. Desta forma, na época de escolha do local para fazer o ninho, normalmente fim do inverno, início da primavera, as aves já estarão familiarizadas com estas estruturas e poderão aproveitá-las. 

Que espécies de aves podem aproveitar estas caixas-ninho?
As caixas-ninho poderão ser ocupadas por diferentes espécies de aves dependendo da sua forma, tamanho e diâmetro de entrada. Por exemplo, no que diz respeito ao orifício de entrada, as caixas-ninho com orifício circular com 25mm ou 28mm de diâmetro, poderão ter como “inquilinos” o chapim azul, o chapim real, a carriça, a trepadeira comum ou a trepadeira azul.  As caixas-ninho com diâmetros superiores poderão receber o pardal comum, o estorninho ou mesmo os pica-paus.

As caixas-ninho com um género de “janela” (em vez do orifício redondo) poderão ser utilizadas por piscos de peito ruivo, rabirruivo, melros ou tordos. 

Porque é importante colocar caixas-ninho?
Algumas espécies de aves aproveitam buracos de árvores antigas para fazerem os seus ninhos. No entanto, nos ambientes urbanos, as árvores mortas ou doentes são removidas por razões de segurança, diminuindo desta forma a disponibilidade de cavidades para as aves que têm assim dificuldades em encontrar locais disponíveis para a construção de ninhos e se conseguirem reproduzir. Também os edifícios antigos vão sendo recuperados, e a existência de fissuras disponíveis para as aves vão diminuindo. Nesse sentido, as caixas-ninho são consideradas uma boa solução para tentar reduzir o problema da falta de locais disponíveis ao abrigo e nidificação.

Onde podemos adquirir caixas-ninho? Ou podemos fazê-las nós próprios?
As pessoas poderão construir as suas próprias caixas-ninho, reaproveitando/reutilizando madeiras (ex: paletes), ou no caso de não serem muito habilidosos ou não terem tempo de as fazer, podem adquiri-las junto da 30Por1Linha, outras associações ou entidades que se dediquem a esta causa. Desta forma, estarão também a contribuir para que essas associações possam continuar a sua missão no que toca à conservação da natureza.

Importa frisar que as caixas-ninho não devem levar qualquer tipo de tratamento na madeira. A presença de cheiros fortes pode inviabilizar a ocupação do ninho e em alguns casos ser tóxico para as aves. Outra nota importante é que não deve ser colocado qualquer material sintético ou vegetal no interior, pois as próprias aves transportam o material que encontram disponível em meio natural para forrar o interior do ninho. No final da época de reprodução, em meados de Agosto ou Setembro, é importante limpar a caixa-ninho e voltar a colocá-la no local para que esteja disponível na próxima época de reprodução.

Quais os melhores locais para colocar as caixas-ninho?
As caixas-ninho podem ser colocadas em árvores, postes ou edifícios, se possível a mais de dois metros de altura do chão, de modo a evitar predadores. Devem ficar viradas a sul e a leste, de forma a estarem protegidas dos ventos dominantes de norte ou oeste. Ter atenção para não colocar em locais com exposição prolongada à luz solar directa para que não aqueçam muito. Colocar o mais protegidas da chuva possível para aumentar a sua durabilidade. 

O que podem as pessoas fazer para ajudar as aves no Inverno?
Para além da colocação de caixas-ninho, no Inverno também poderemos construir comedouros para disponibilizar alimento às aves, uma vez que esta época do ano, devido às baixas temperaturas, há uma disponibilidade alimentar mais baixa como por exemplo de sementes e insectos. Nos comedouros poderemos colocar uma mistura de sementes como girassol, sésamo, trigo, milho e amendoins (sem sal e sem serem tostados). Não colocar alimento em excesso para não atrair predadores. O comedouro deverá ser colocado num local seguro de predadores e ter uma protecção para a chuva e assim o alimento não se molhar.

Quem tiver quintal com jardim poderá optar por espécies arbustivas que dão bagas no outono/inverno – como o pilriteiro, a murta ou a aroeira – para as aves se alimentarem.