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terça-feira, 28 de julho de 2026

Nove em cada dez europeus ponderam emigrar: estes são os destinos preferidos

Como já tinha referido aqui, há uma mudança global nos passaportes e destinos.

Quase metade das pessoas que vivem em França, Alemanha, Itália e no Reino Unido espera vir a viver noutro país algures no futuro, revela um novo inquérito.

Realizado para a seguradora digital Feather, o estudo mostra que a crise do custo de vida é o principal motivo que leva as pessoas a ponderar uma vida no estrangeiro, apontado por 53% dos britânicos, 48% dos franceses, 43% dos alemães e 32% dos italianos.

Apenas um em cada dez europeus em cada um dos mercados analisados – com 500 adultos inquiridos em cada país – afirmou que, em caso algum, se mudaria para o estrangeiro.

Embora o destino preferido varie de país para país, Espanha surge como a escolha destacada.

Tanto britânicos como italianos identificam Espanha como a opção de eleição, com 24% e 20% a indicar o país, respetivamente, enquanto este ocupa o segundo lugar em França e Itália, com 16% e 12% a sugeri-lo como principal opção.

No caso de França, o destino número um é o Canadá, mencionado por 17% como um lugar onde gostariam de viver no futuro, à frente de Itália, assinalada por 14% dos inquiridos.

Os alemães não parecem querer afastar-se muito de casa: 17% escolhem a Áustria, seguida de Espanha e Suíça, ambas com 12%.

Já os britânicos mostram-se bastante disponíveis para mudar para destinos longínquos, com 19% a escolher a Austrália, 15% o Canadá e 10% a Nova Zelândia.

Embora o Dubai seja frequentemente referido como um dos principais destinos para expatriados, apenas 3% dos britânicos disseram estar a ponderar essa opção. Ainda assim, o inquérito foi realizado no final de junho, pelo que as respostas terão sido inevitavelmente influenciadas pelos ataques do Irão contra os Emirados Árabes Unidos nos últimos meses.

Ascensão dos ‘semi-pats’
Ao analisar o futuro dos expatriados, a Feather falou também com a especialista em viagens Holly Rubenstein.

A autora do podcast “The Travel Diaries” nota que a versão tradicional da vida de expatriado, em que se escolhe um único país e aí se constrói toda a vida, está a perder terreno.

“A versão que está a emergir é muito mais flexível: passar seis meses num lugar, trabalhar remotamente, experimentar um estilo de vida e criar ligações em vários sítios”, sublinha.

“A geração Alpha vai crescer com a ligação remota como norma. Para estas pessoas, carreira, amizades e identidade já não terão de estar concentradas num único lugar.”

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Meta-análise global revela os países menos racistas do mundo em 2026


Analisar a informação aqui
O racismo é a crença de que uma determinada raça é inferior ou superior a outra e de que as características biológicas de uma pessoa predeterminam os seus traços morais ou sociais. Quem perfilha crenças racistas pode encarar outras raças como menos dignas e, em casos extremos, até como subumanas. O racismo pode assumir muitas formas diferentes e manifestar-se de variadas maneiras, sendo tipicamente influenciado por diversos fatores culturais, religiosos, económicos ou históricos.

Ao longo da história da humanidade, o racismo sempre esteve presente, tendo influenciado guerras, a escravatura, códigos jurídicos, a ascensão e queda de nações e, talvez mais importante, o quotidiano de milhões — ou possivelmente milhares de milhões — de pessoas. O racismo demonstrado pelas potências ocidentais face a populações não ocidentais no século XX teve um impacto particularmente profundo na história, de forma mais notória na escravatura forçada de milhões de africanos. Nos Estados Unidos, a escravatura foi a principal causa da Guerra Civil. Além disso, o racismo continua a ecoar nos EUA modernos em eventos como o crescimento do movimento Black Lives Matter e os protestos de 2020-21 na sequência dos homicídios de George Floyd e Breonna Taylor.

Medir a tolerância racial de um país com precisão é um verdadeiro desafio. O racismo não é um número simples, como a população ou o rendimento médio; reveste-se de muitas formas, sendo perfeitamente possível que uma pessoa, grupo social, cultura ou país conviva pacificamente com uma raça ou situação, mas seja completamente intolerante em relação a outra. Por exemplo, uma pessoa de etnia caucasiana que não tenha qualquer problema em viver ao lado de um vizinho asiático pode opor-se firmemente a que uma pessoa negra se junte à sua família pelo casamento. Do mesmo modo, como a maioria dos respondentes em inquéritos tem consciência de que o racismo não é propriamente visto com bons olhos na sociedade atual, a veracidade e a honestidade das respostas podem ser difíceis de verificar. Devido a estas complicações, os investigadores recorrem habitualmente a sondagens para recolher informação sobre a consciência pública, combinando depois múltiplas perguntas, inquéritos ou estudos para determinar o verdadeiro nível de tolerância racial de um país.

O World Values Survey (WVS) é um programa de investigação internacional que estuda os valores sociais, políticos, económicos, religiosos e culturais, incluindo a tolerância racial e o racismo. Este inquérito coloca dezenas de perguntas a respondentes de mais de 80 países, incluindo uma que solicita a identificação de tipos de pessoas que não desejariam ter como vizinhos. Quanto maior for o número de pessoas de um determinado país a responder que ficaria satisfeita por ter um vizinho de uma raça diferente, mais tolerante do ponto de vista racial é considerado esse país. Já o relatório anual Best Countries, um esforço conjunto da U.S. News and World Report, do BAV Group e da Wharton School da Universidade da Pensilvânia, adicionou perguntas específicas sobre tolerância racial ao seu relatório de 2023 que, tal como o de 2024, inquiriu mais de 17.000 pessoas em 36 países.

De uma forma geral, os países mais tolerantes em ambos os estudos foram os países escandinavos, os países latinos, o Reino Unido e as suas antigas colónias (Austrália, Canadá e Nova Zelândia). Em contrapartida, os países menos tolerantes do ponto de vista racial (Catar, Sérvia, Arábia Saudita, Irão) tenderam a situar-se em África e na Ásia. Houve também exceções. Por exemplo, embora outras antigas colónias britânicas se tenham posicionado perto do topo da lista, os Estados Unidos ocuparam o 55.º lugar num total de 89 países em 2024, em grande parte devido àquilo que é frequentemente visto como racismo institucionalizado em áreas como o emprego, a educação e o sistema de justiça criminal. Por outro lado, o Paquistão apresenta vários fatores que costumam coincidir com a intolerância racial - tais como baixos índices económicos e humanos e uma violência sectária notória -, contudo, apenas 6,5% dos paquistaneses se opuseram a ter um vizinho de uma raça diferente.

Por fim, a Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (ICERD) é uma convenção das Nações Unidas comprometida com a erradicação da discriminação racial, exigindo que todas as partes signatárias proíbam o discurso de ódio e criminalizem a filiação em organizações racistas. 

Fontes

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Paul Krugman - Porque é que toda a gente odeia a IA


Muitos leitores estarão provavelmente parados na cena do vídeo acima: Eric Schmidt, o antigo CEO da Google, fez recentemente um discurso de formatura no qual anunciou a chegada da IA - e foi fortemente vaiado pelos estudantes. Isto não foi um caso isolado. Têm ocorrido vários incidentes semelhantes ultimamente, prova de que muita gente odeia agora genuinamente a IA.

Estaremos a falar de uma minoria barulhenta mas não representativa? Não. Uma sondagem recente do Pew Research Center revelou que os adultos americanos acreditam, por uma margem larga, que a IA será negativa para a sociedade e, por uma margem menor, que será má para eles a nível pessoal.


Mas não se sentirá o público sempre assim perante a inovação? A análise do Pew sobre as suas próprias conclusões deu a entender isso mesmo, declarando que:
"A nova tecnologia é frequentemente recebida com um certo grau de curiosidade, bem como de ceticismo. À medida que mais americanos incorporam a IA nas suas vidas, surgem preocupações generalizadas sobre o seu impacto, a sua velocidade e sobre se o governo a consegue regular adequadamente."
Contudo, as próprias sondagens passadas do Pew sugerem que, historicamente, a maioria dos americanos acolheu bem os avanços nas tecnologias de informação. Uma sondagem de 1999 sobre as atitudes face à internet (que ainda era uma novidade) revelou visões extremamente positivas sobre os computadores e a tecnologia, especialmente entre os utilizadores da internet.

E em 2015, quando as redes sociais eram ainda relativamente recentes, o Pew descobriu que 71% do público afirmava que as empresas tecnológicas "têm um impacto positivo na forma como as coisas estão a correr neste país", com apenas 17% a expressar uma opinião negativa.

O facto é que, no passado, os americanos geralmente recebiam as tecnologias emergentes com otimismo. O que explica, então, a atual hostilidade contra a IA? Permitam-me oferecer várias explicações que não se excluem mutuamente.

Primeiro, tememos que a IA faça coisas terríveis porque as empresas que a vendem nos disseram que ela faria coisas terríveis. No ano passado, por exemplo, o CEO da Anthropic, Dario Amodei, declarou numa entrevista à Axios que a IA poderia eliminar metade dos empregos administrativos de nível de entrada e elevar o desemprego geral para uns impressionantes 20% no espaço de 1 a 5 anos.

Mais recentemente, Amodei e Sam Altman, da OpenAI, tentaram recuar nas suas previsões de um "apocalipse do emprego". Mas por que razão estiveram eles tão dispostos a promover visões apocalípticas em primeiro lugar? A resposta é dinheiro. Eles promoveram a ideia de que tinham uma tecnologia que iria transformar rápida e radicalmente a economia, em parte para deslumbrar Wall Street e garantir financiamento, e em parte para assustar as empresas, levando-as a correr para a adoção da IA por medo de ficarem para trás.

Só tardiamente se deram conta de que declarar que a sua tecnologia iria causar devastação geraria uma reação pública adversa, e que essa reação seria um problema sério. Na verdade, não é apenas o público em geral que está a atacar as empresas que usam ameaças de um apocalipse como estratégia de marketing. Até as grandes corporações dizem que já basta. Satya Nadella, CEO da Microsoft, que se tem mostrado visivelmente relutante em alinhar no fanatismo da IA, disse recentemente ao Wall Street Journal:
"Não se pode dizer, 'olhem, todos os empregos administrativos desapareceram, isto pode até ser uma arma e vamos usar toda a energia disponível para construir centros de dados'."
Segundo, muitas pessoas comuns veem a IA de forma negativa porque sentem que esta lhes está a ser imposta.
É verdade que muitas pessoas utilizam voluntariamente grandes modelos de linguagem (LLMs) por conveniência pessoal ou como ferramenta de produtividade profissional. Mas uma parte significativa do uso da IA não é voluntária. Esta manchete do Wall Street Journal de fevereiro diz tudo: "Empresas obrigam trabalhadores a usar ferramentas de IA".

Porque estão as empresas a fazer isto? Presumivelmente, acreditam que a IA irá aumentar a produtividade. Mas, de igual modo, estão a responder à pressão dos mercados financeiros, que estão a recompensar as empresas que adotam rapidamente a IA, aparentemente sem olhar a resultados demonstrados.

E enquanto os trabalhadores americanos são coagidos a usar a IA, os consumidores americanos estão a ser alimentados à força com IA, queiram ou não. O caso mais dramático é o da Google, que substituiu o seu motor de busca pela IA, sem oferecer a opção de desativar essa função. É preciso recorrer a truques obscuros ou a sites de terceiros para obter os resultados de pesquisa tradicionais.

Portanto, muitas pessoas sentem, com razão, que não estão a ter a liberdade de escolher se querem ou não usar a IA — não usar IA tornou-se difícil, tanto como trabalhador quanto como consumidor.

Terceiro, os centros de dados (datacenters) são uma lembrança altamente visível dos custos da IA. Os centros de dados ocupam extensões enormes de terra — um local proposto no Utah terá o dobro do tamanho de Manhattan. Eles devoram eletricidade e água. Quando geram parte da sua própria energia, criam uma enorme poluição local. Como seria de esperar, há uma oposição intensa à construção de centros de dados. De acordo com uma sondagem da Reuters/Ipsos, 57% os americanos — dois terços dos democratas e metade dos republicanos — opor-se-iam a um centro de dados no seu bairro. Apenas 14% apoiariam.

Quarto, mesmo antes do advento da IA, as empresas tecnológicas já tinham perdido a confiança do público. Ao longo dos anos, o Pew tem questionado regularmente o público sobre as suas opiniões acerca das empresas de tecnologia, perguntando se estas têm um efeito positivo ou negativo "na forma como as coisas estão a correr". Em 2015, a opinião pública sobre as tecnológicas era esmagadoramente positiva. Em 2022, o ano em que o ChatGPT foi lançado, essa boa vontade tinha-se evaporado.


Porque é que os americanos se viraram contra as empresas tecnológicas? Embora isso reflita certamente uma crescente consciencialização dos danos psicológicos e sociais causados pelas redes sociais, muito deve-se também à "merdificação" (enshittification) dos produtos tecnológicos.

Finalmente, a IA está fortemente ligada, na mente do público, aos oligarcas tecnológicos que a estão a impulsionar. Há uma perceção generalizada da crescente concentração de riqueza e poder no topo, e de como isso está a distorcer a nossa política e a prejudicar a nossa sociedade. À exceção dos fiéis do movimento MAGA, os americanos apoiam esmagadoramente políticas governamentais para reduzir a desigualdade de riqueza.



E a IA é amplamente vista, com boas razões, como uma tecnologia que irá aumentar a concentração de riqueza no topo. De facto, como referi, as próprias empresas de IA já nos disseram que a tecnologia terá efeitos extremamente negativos nos trabalhadores.

Existem, portanto, múltiplas razões que se reforçam mutuamente para o público ver a IA de forma negativa. E não, isto não é o ceticismo normal diante da mudança. Esta reação adversa intensa é especial.

E esta reação já está a ter grandes consequências políticas. É verdade que a indústria da IA, fiel ao seu estilo, tem injetado dinheiro nas eleições num esforço para impulsionar políticos amigáveis e derrotar os críticos. Mas a maioria destes esforços falhou. Na verdade, aceitar dinheiro da IA ou estar associado à tecnologia em geral está a começar a parecer politicamente tóxico.

Há um forte elemento de justiça poética nesta reviravolta. A indústria da IA tornou-se deliberadamente ameaçadora como estratégia financeira, acreditando que os mercados recompensariam a aparência de estar na "vanguarda radical". Ao fazê-lo, no entanto, a tecnologia tornou-se altamente impopular. E mesmo numa era em que o dinheiro compra o poder demasiadas vezes, a opinião pública importa.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Economia verde alcança a marca de US$ 5 triliões


A COP30, realizada em novembro em Belém do Pará, no Brasil, terminou sem um resultado preciso. Houve avanços reais em alguns aspectos, sobretudo em relação à adaptação às mudanças climáticas, mas não foi possível chegar a um acordo em torno de aspectos básicos, como a eliminação do uso de combustíveis fósseis. O debate segue vivo até a próxima COP, que será sediada na Turquia, em 2026. Ainda assim, os temas ambientais continuam em alta no mundo e a agenda ESG (sigla em inglês para ambiental, social e governança), usada para avaliar práticas sustentáveis e responsáveis das empresas, ganha cada vez mais relevância.

Fórum Económico Mundial afirma que o dinamismo da economia verde só fica atrás do setor de tecnologia. Em relatório recém-divulgado, a instituição estima que a chamada green economy já chega a US$ 5 triliões por ano e deve alcançar US$ 7 triliões até 2030. Segundo o documento, em média, as receitas verdes crescem ao dobro da velocidade das receitas convencionais; as empresas que actuam no segmento têm acesso a recursos mais baratos e costumam ser mais bem avaliadas no mercado de capitais.

Investimento em títulos verdes
Nas finanças, o movimento é nítido. Antes vistos como um nicho, os fundos ESG se tornaram uma força importante no mundo financeiro global, atraindo triliões de dólares. Segundo a Fortune Business Insights, empresa de inteligência de mercado e consultoria, o mercado global de investimentos ESG foi avaliado em US$ 39 triliões em 2025 e deve atingir US$ 125,17 triliões até 2032, crescendo a uma taxa anual média composta de 18,1%.

O avanço é impulsionado pelo aumento da preocupação da sociedade com esses temas, o que leva empresas a adotar práticas sustentáveis e também a fazer emissões de títulos verdes, sociais e de sustentabilidade, que superaram US$ 160 biliões em 2023. Segundo a pesquisa global de investidores da PwC, 79% dos investidores consideram riscos e oportunidades ESG ao tomar decisões de investimento.

Investidores institucionais, como fundos de pensão, seguradoras e governos, dominam o mercado actualmente, mas a expectativa é que o segmento de pessoas físicas ganhe tração nos próximos anos.

A agenda ambiental abre um gigantesco horizonte econômico, que aparece nas finanças, mas também na economia real, com a necessidade, por exemplo, de contratação de profissionais com habilidades verdes. E a procura  por esses trabalhadores vem crescendo mais do que a oferta. De acordo com o relatório Global Green Skills Report 2023, do LinkedIn, entre 2023 e 2024, a procura por profissionais com habilidades sustentáveis aumentou 11,6%, enquanto o número de trabalhadores sem essas qualificações subiu apenas 5,6%.

Redução de Gases de Efeito Estufa
São empregos em áreas diversas, como agricultura regenerativa e sustentável, energia renovável, saneamento, reciclagem, entre outros. "O importante é que o trabalho desempenhado contribui para a redução de emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE), para a preservação dos recursos naturais e para o avanço da transição ecológica. Fonte: Global Energy Review 2025

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Portugueses reconhecem importância de cuidar do planeta mas pouco fazem por isso




Um estudo nacional realizado por investigadores da Universidade Aberta e do Centro de Ecologia Funcional (CFE) da Universidade de Coimbra revela que os portugueses estão conscientes de que é preciso proteger o planeta, mas poucos são os que realmente fazem alguma coisa para protegê-lo.

Intitulado “Os Portuguesas e a Natureza”, o inquérito revela, por exemplo, o que os cientistas chamam de “uma relação complexa e ambivalente dos portugueses com a natureza”.

Apresentados na semana passada numa conferência da Fundação Serralves, os resultados mostram que mais de 90% dos inquiridos diz reconhecer a importância da Natureza para o bem-estar e saúde, mas menos de metade admite envolver-se em práticas regulares de cuidado ambiental.

A Natureza é, acima de tudo, vista como uma fonte de tranquilidade, beleza e equilíbrio emocional, e menos como um espaço de responsabilidade ética e política, diz o CFE em nota, e inspira uma forte componente emocional, uma vez que é amplamente equacionada com memórias de infância, liberdade e refúgio espiritual.

Os investigadores dizem que, de facto, se denota uma “elevada consciência ambiental” dos portugueses, mas isso não se traduz em ações concretas, havendo, por isso, contradições entre valores e comportamentos.

Segundo o estudo, a maioria dos inquiridos reconhece a urgência da crise climática, mas admite não alterar significativamente o seu estilo de vida para combatê-la.

Por outro lado, as práticas ambientais, como a redução do consumo, a reciclagem ou a preferência por uma mobilidade mais sustentável, são “fortemente condicionadas por fatores socioeconómicos e estruturais, mais do que por vontade individual”, dizem os autores.

No que toca a perceções e emoções associadas ao planeta, ao ambiente e à Natureza, percebeu-se que existe um “mal-estar difuso perante a degradação ambiental” e é cada vez maior a perceção de que o mundo natural está a ser perdido. Contudo, a isso liga-se um sentimento de impotência face a essa destruição.

Muitos dos inquiridos expressaram tristeza, ansiedade e nostalgia relativamente à perda de biodiversidade e à incessante expansão urbana que cada vez mais pressiona e degrada o mundo natural.

Paralelamente a tudo isso, os investigadores dizem que se verificou “um desejo de conexão”, ou seja, as pessoas procuram na Natureza um espaço de cura e de reencontro com o que consideram ser o essencial da vida.

O inquérito foi desenvolvido no âmbito da Cátedra UNESCO em Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável e do CFE, com financiamento da Cátedra UNESCO, do CFE e da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).

Foi coordenado por Fátima Alves (Investigadora Responsável), contando com a colaboração de Diogo Guedes Vidal, Rosário Rosa, Ana Mendonça, João Aldeia, Teresa Girão, Filipa Saraiva e Helena Freitas.

quinta-feira, 17 de julho de 2025

Desinformação aumentou 160% entre as eleições europeias de 2024 e legislativas de 2025



A desinformação aumentou 160% entre as eleições europeias de 2024 e legislativas de 2025, com o Chega a manter-se como um dos principais partidos desinformadores (81,3%), segundo um estudo.

O estudo “Desinformação nas Legislativas 2025: atividade dos partidos nas redes sociais”, da Entidade Reguladora para a Comunicação (ERC) e a Universidade da Beira Interior, concluiu que nas últimas eleições houve “um aumento percentual significativo das ocorrências em contexto eleitoral no país”.

Este aumento resultou num crescimento de 160% no número de casos de desinformação, em relação ao registado nas eleições europeias de 2024.

Das 4.514 publicações identificadas nas redes sociais entre 07 de abril e 19 de maio, o Instagram (30,0%) e o Facebook (28,9%) agregaram a maior parte do conteúdo gerado durante este período, seguidos pelo X (22,8%), TikTok (9,8%) e YouTube (8,5%).

Entre estas publicações verificaram-se 16 casos de desinformação nas páginas dos partidos, tendo sido abertos nove processos de averiguação junto da ERC.

Segundo o estudo, o Chega é o partido que mais divulgou conteúdos desinformativos nas redes sociais, sendo responsável por 81,3% dos casos, enquanto o PS, PSD e CDS tiveram uma ocorrência cada um, representando 18,7% das publicações.

“Os vídeos lideram no formato da desinformação (56,3%) seja com montagens, cortes ou edições de peças, à frente de um conjunto vasto de imagens estáticas (43,8%), especialmente utilizadas para divulgar resultados de inquéritos ou sondagens de intenção de voto”, lê-se no documento.

As sondagens falsas ou desenvolvidas por empresas não registadas na ERC foram o tipo de desinformação mais frequente, com 31,1% dos casos detetados, em segundo lugar surge a divulgação de textos produzidos por órgãos de comunicação social não registados na entidade reguladora (25,0%).

Dois tipos de desinformação surgem com a mesma percentagem no terceiro lugar, os vídeos informativos manipulados a diversos níveis e as publicações que descredibilizam a comunicação social ou o trabalho jornalístico (18,8%), enquanto as notícias alteradas para promover uma perceção enganosa dos factos surgem em último lugar (6,3%).

Além disso, a maioria dos casos detetados apresenta “um baixo nível potencial desinformativo (43,8%)”, tratando-se de conteúdos elaborados de forma amadora, facilmente verificáveis através de uma pesquisa na internet.

Já as publicações com potencial médio representam 37,5% da amostra em causa, estando associadas à descontextualização de factos ou à manipulação de dados, por isso mais difícil de verificar.

Apenas uma pequena parcela dos casos identificados pode ser classificada como de alto potencial desinformativo (18,8%), tratando-se de conteúdos sem qualquer relação com a realidade, podendo ter sido criados muitas vezes com recurso a Inteligência Artificial (IA).

As 16 publicações geraram um total de 197.471 interações da audiência, recebendo 20.633 comentários e 12.368 partilhas. “Estima-se que nove vídeos tenham sido vistos mais de 3,5 milhões de vezes, com especial destaque para o Instagram e o TikTok”, segundo o estudo.

“Os níveis de enviesamento tornam-se mais preocupantes quando se considera a dimensão do público alcançado. Estima-se que mais de seis milhões de utilizadores das redes sociais tenham sido expostos a conteúdos desinformativos difundidos pelos partidos portugueses (…) com especial destaque para o Chega”, lê-se no documento.

João Canavilhas, autor do estudo, concluiu refletindo sobre o problema das redes sociais fechadas, como os grupos no WhatsApp, onde "é impossível de controlar a desinformação [porque] são injetadas pílulas informativas falsas que surtem efeitos".

Este estudo foi realizado no seguimento do protocolo de cooperação celebrado entre a Entidade Reguladora para a Comunicação Social e o LabCom – Unidade de Investigação em Ciências da Comunicação da Universidade da Beira Interior, que procurou analisar a presença e os processos de desinformação no contexto das últimas eleições legislativas.

segunda-feira, 19 de maio de 2025

O discurso da infâmia

[num domingo à noite, febril, deitado de lado, com o coração aos gritos e a televisão ligada no volume errado]
Ontem à noite, o país sentou-se a ver o circo. Um circo de uma só figura, de um homem só, de um espectáculo monológico onde o palhaço também era domador, director, macaco amestrado, leão faminto e criança perdida que grita da plateia para que olhem para ele, só para ele, sempre para ele. André Ventura falou. Falou como quem cospe. Falou como quem bate. Falou como quem quer ser amado mas só sabe odiar. E parte do país, a parte do país fatigado de esperar por Deus, ouviu. Ouviu como se ouve o padre numa missa a que se vai por obrigação, como se ouve a mulher que já não se ama ou o pai que já não se respeita. Ouviu com raiva, com cansaço, com culpa.

Disse que acabara o bipartidarismo. Disse-o como quem anuncia a queda de Roma, o fim dos tempos, a libertação do povo escolhido. E ali estava ele, o Moisés do populismo, de microfone à frente e a azia no bolso como quem esconde a vergonha, prometendo terra prometida a quem nunca teve jardim. Disse que a história tinha mudado, que agora o país era outro, um país dele, feito por ele, para ele, com ele ao leme e os outros calados, de joelhos, em silêncio. Ventura quer o país em silêncio. O país de joelhos. O país em medo. Ventura não quer governar. Ventura quer mandar. E o que há de mais grave é que há quem deseje ser mandado. Há quem precise.

O Chega não é um partido. É uma carência. Um sintoma. É o vómito do país que nunca curou a sua tristeza. Que finge que é alegre no São João, no Santo António, nas bifanas do domingo, nos copos do sábado, nas sardinhas do Junho. Mas que sangra por dentro. Que odeia por dentro. Que tem raiva de si, de tudo, de todos. Ventura oferece isso: um inimigo. Um sentido. Um alvo. Se há um culpado, já não sou eu. Já não é o meu fracasso, o meu salário, a minha solidão. É o cigano, o negro, o comunista, o assistente social, o jornalista, o juiz, o reformado, o artista, o pobre, o estranho. Ventura dá um nome à frustração. E isso consola. E isso vicia. E isso mata.

O seu discurso foi uma lista de cadáveres simbólicos. “Matei o partido de Álvaro Cunhal”, disse, como se estivesse a caçar fantasmas no sótão. “Varreram o Bloco de Esquerda do mapa”, gritou, com o orgulho de quem limpa sangue do chão e chama a isso arrumação. Para Ventura, política é isso: uma limpeza. Uma desinfecção. Uma purga. Como se o país estivesse sujo e só ele, com a sua verdade puríssima, o pudesse lavar. E lavar com quê? Com insultos. Com medo. Com castigos. Com prisões perpétuas. Com castrações químicas. Com multas. Com violência.

E depois, claro, o momento cómico, se a comédia ainda tivesse graça. Atacou as sondagens. Sempre as sondagens. Sempre o mesmo coro: que o queriam calar, que o queriam derrubar, que lhe mentem, que lhe fazem armadilhas. Ventura não percebe que as pessoas votaram no seu partido com vergonha de o fazer, de o dizer às sondagens. Ventura é o miúdo que jogava mal à bola e que ninguém quis na equipa e passou o resto da vida a sonhar ser capitão. E agora que lhe deram um apito, anda a expulsar todos os que correram mais depressa do que ele. Ventura não acredita em instituições. Acredita em si. Ventura não acredita em regras. Acredita no seu instinto. Ventura não acredita no país. Acredita no seu espelho.
E depois aquela frase. Aquela frase que soa a taverna com vinho barato e gritaria ao fundo. “A mama vai mesmo acabar.” Disse-o com o orgulho de quem faz justiça, mas com o tom de quem está habituado a mentir e a justificar-se com o cansaço. A mama vai acabar. A mama, quer dizer, o Estado. Os apoios. Os direitos. A solidariedade. Os serviços. A dignidade. Ventura quer um país onde só os fortes sobrevivem. Onde quem não consegue, morre. Onde quem chora, se cala. Onde quem precisa, se esconde. Porque, para ele, a vida é uma luta de cães. E ele é o dono da trela.

Mas Ventura não quer que a mama acabe. Ventura quer ser ele a mamar. Quer o lugar do outro. Quer mandar nos subsídios. Quer mandar na televisão. Quer mandar na escola. Ventura quer mandar. Ventura quer mandar. Ventura quer mandar. E o país, esse país magoado, esse país velho que já não acredita em ninguém, esse país que se esqueceu como é que se luta, esse país votou nele como quem diz: “toma, faz tu melhor.” E ele fará. Mas não será melhor. Será só mais triste. Mais cruel. Mais pequeno.

O que me espanta não é Ventura. Ventura é uma personagem de novela das seis: previsível, mal escrita, exagerada. O que me espanta é o silêncio. O silêncio dos outros. O silêncio dos bons. O silêncio dos sérios. Dos que deviam estar ali, naquele exacto momento, a dizer: basta. Mas estavam calados. Com medo de perder votos. Com medo de serem insultados. Com medo de não parecerem “populares”. E assim se mata uma democracia: não com balas. Com medos. Com cobardias. Com silêncios.

Este discurso, o de 18 de ontem, não foi um discurso. Foi uma bofetada. Foi uma noite de gritos num quarto fechado. Foi o início de qualquer coisa escura. E se não gritarmos agora, se não dissermos agora, alto e claro, que isto não é normal, que isto não é aceitável, que isto não é o país que queremos, amanhã já não poderemos falar. E depois? Depois virá o silêncio. O grande silêncio. O silêncio dos cemitérios. E Ventura sorrirá. Porque não há nada mais cómodo para quem quer mandar do que um povo sem voz. E nós estamos perigosamente perto disso. Perto de calar. Perto de baixar a cabeça. Perto de desistir.
E quando isso acontecer, será tarde. Será sempre tarde.
Maio 2025
Nuno Morna

P.S: Estarei sempre do outro lado da barricada. Com todos os que são, efectivamente, pessoas de bem, não os que se dizem, mas os que o demonstram, com os que amam a liberdade sem adjectivos e a democracia sem asteriscos. No combate a todos os radicalismos, venham eles mascarados de justiça ou de ordem, de povo ou de nação. No combate aos que aparecem para dividir, para semear o ódio, para apagar a pluralidade, para transformar o medo em política. No combate, sempre, à intolerância, a intolerância dos gritos e a dos silêncios cúmplices. 
Quero viver com a noção de que "Combati o bom combate", 2 Timóteo 4:7-8. 
Da minha parte, não esperem outra coisa. Nem agora, nem nunca.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

É "duvidoso", "injusto", "populista", "precipitado", "irracional": PSD proíbe que suspeitos de crimes integrem lista de deputados ("mas tem suspeitos entre os seus dirigentes")


Os critérios aprovados pela comissão política nacional do PSD para a elaboração das listas para as legislativas de 2024 ditam que estas não podem ter pessoas que tenham sido condenadas, presas preventivamente ou pronunciadas por crimes contra o Estado. Para Margarida Davim, comentadora da CNN Portugal, a medida é "duvidosa" e contempla "populismo".

"Não sei se isto não é uma cedência ao justicialismo e a uma forma de populismo. Isto também passa um bocadinho pelo marketing político. Ou seja, o PSD quer aqui uma diferença relativamente ao PS, que neste momento é o partido que está envolvido em casos mais mediáticos. Mas estas coisas não são exclusivas nem do PS, nem do PSD e ninguém está a propriamente a salvo deste tipo de situações", afirma a jornalista, explicando que "o estatuto de arguido é um estatuto que foi desenhado para conferir também direitos de defesa". "Portanto, não pode ser virado ao contrário e transformado numa presunção de culpabilidade."

Margarida Davim lembra ainda que "isto é uma tentativa do PSD de dar um sinal aos eleitores de diferença relativamente ao PS", mas que a "a eficácia disto é extraordinariamente reduzida e é até duvidoso que se deva estabelecer este tipo de regras".

A comentadora da CNN Portugal diz mesmo que. apesar de não existir uma "regra ideal", tem de "haver regra do bom senso" - que passa por "haver critérios da escolha do ponto de vista do percurso político", tendo sempre em conta que "não há coisas à prova de bala". "Não há forma de ter a certeza absoluta de que alguém que vai ser escolhido para um determinado cargo não seja envolvido, justa ou injustamente, num processo judicial. Isto é impossível. Isso não existe."

Lembrando ainda que esta não é a primeira vez que o PSD tenta implementar este tipo de regra - "quando Luís Marques Mendes era líder do PSD também tinha uma regra segundo a qual as pessoas que estavam constituídas arguidas não podiam estar em funções -, Margarida Davim afirma que os sociais-democratas têm "quase que um bocadinho de trauma disto" e que é difícil perceber como é que regressa esta regra que fez com que o PSD perdesse a Câmara de Lisboa em 2007 para António Costa.

"O PSD também tem suspeitos entre os seus dirigentes"

Também Pedro Tadeu, comentador da CNN Portugal, considera que "dada a experiência que temos tido", este tipo de regra que o PSD implementou "parece uma discriminação que pode ser injusta".

"Mas compreendo que os partidos se queiram defender, até por um instinto de sobrevivência, que é o que está aqui em causa, de parecerem cúmplices de criminosos. E tentam, com isto, restringir o impacto negativo na opinião pública, de terem, entre os seus quadros, alguém que é investigado. Aqui, no caso do PSD, parece-me que há também uma tentativa de aproveitamento de uma fragilidade que agora o PS tem, porque tem o primeiro-ministro a ser investigado, para mostrar que nós somos melhores que eles, até vamos fazer isto, coisa que eles não fizeram", afirma, lembrando que esta pode não ser "a atitude mais certa, até porque o próprio PSD tem problemas", uma vez que "há muito pouco tempo a sede do PSD foi sujeita a buscas".

Ou seja, o próprio partido que agora proíbe condenados ou suspeitos de crimes nas listas de deputados "também tem suspeitos entre os seus dirigentes" .

Para o comentador, mais do que implementar este tipo de regras, o problema pode ser resolvido ao "garantir que o Ministério Público consegue ter mecanismos para ter cada vez investigações mais sólidas e que depois não provoquem acusações graves sobre pessoas que depois acabam por ser dadas como inocentes".

Tal como Margarida Davim, Pedro Tadeu afirma não acreditar "que isto seja a medida mais eficaz" e que a regra ideal passaria pela "avaliação política de cada caso", lembrando que "há casos e casos" na justiça e na política.

"Uma coisa é alguém que é suspeito de desviar dinheiro do Estado, por exemplo. É evidente que tem de ser imediatamente afastado de qualquer função pública. Outra coisa é, por exemplo, uma pessoa que é suspeita de não ter pago um imposto, por exemplo. Há uma moderação que a própria política deve exercer em relação a isto. Depois, se as coisas chegam ao tribunal e depois as pessoas são realmente condenadas, então aí sim deve concretizar-se esse afastamento. Mas tenho medo de que este tipo de precipitações sejam mais uma ideia populista da política, uma ideia irracional", afirma, alertando que este tipo de regras pode trazer "mais problemas do que soluções".

sábado, 21 de outubro de 2023

Ansiedade climática: o síndrome das novas gerações

As alterações climáticas são cada vez mais uma questão de saúde mental, e a população mais afectada atualmente é a de faixa etária mais jovem.


É comum dizer-se que os jovens estão a ficar preocupados com o futuro do planeta e que isso lhes está a prejudicar o equilíbrio emocional e mental, mas na verdade este sintoma é comum a várias idades, com a diferença que os jovens se sentem mais inseguros e com menos poder de decisão.

Um estudo da revista Lancet, publicado em Dezembro 2021, revelou a primeira investigação com mais amplitude neste âmbito: foram entrevistadas 10 mil jovens (com idades entre 16 e 25 anos) em dez países (Austrália, Brasil, Finlândia, França, Índia, Nigéria, Filipinas, Portugal, Reino Unido e EUA). Mil participantes por país. Os jovens portugueses estavam entre aqueles que demonstravam mais ansiedade.

Nas conclusões do estudo face às alterações climáticas, 59% dos inquiridos “estavam muito ou extremamente preocupados e 84% estavam pelo menos moderadamente preocupados. Mais de 50% relataram cada uma das seguintes emoções: tristeza, ansiedade, raiva, impotência e culpa.

Mais de 45% dos entrevistados disseram que os seus sentimentos sobre as alterações climáticas afetaram negativamente a sua vida quotidiana e funcionamento, e muitos relataram um elevado número de pensamentos negativos sobre as alterações climáticas (por exemplo, 75% disseram que pensam que o futuro é assustador e 83% disseram que eles acham que as pessoas falharam em cuidar do planeta)”.

Perante uma amostra bastante representativa do que pensam os jovens sobre o impacto das alterações climáticas, uma das conclusões do estudo é que “essa angústia estava associada a crenças sobre resposta governamental inadequada e sentimentos de traição”, e que para eles “o futuro é assustador, a humanidade está condenada”, pois “não terão acesso às mesmas oportunidades que os seus pais tiveram”. Além disso, “consideram que tudo o que valorizam será destruído, a segurança está ameaçada e estão hesitantes em ter filhos”.

A pesquisa mostrou como a ansiedade climática pode ser uma experiência coletiva, mesmo que vivida com maior ou menor intensidade. Estamos quase em Dezembro de 2023 – dois anos depois do estudo referido – e as notícias sobre a crescente ansiedade e sentimento de impotência dos jovens continuam a dar sinais de alerta, como é referido nesta notícia da CBS do Canadá, publicada em agosto, na altura em que os fogos devastaram parte do país.

No dia 10 de Outubro – o Dia Mundial da Saúde Mental – a publicação Euro News sugeriu algumas ideias para evitar estados de eco-ansiedade. Uma delas referia-se à inércia causada pela quantidade de informação científica: “Não demore a fazer mudanças na sua vida ou a tornar-se um ativista enquanto lê o relatório do IPCC. Afinal, tem 1.800 páginas. Pode demorar um pouco.”

As alterações climáticas são assim e cada vez mais, também uma questão de saúde mental, e a população mais afectada atualmente é a de faixa etária mais jovem – porque se por um lado sentem que as decisões governamentais não são suficientes, por outro sentem uma grande pressão com a sua responsabilidade para com o futuro.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Sondagem da Católica. Maioria dos portugueses culpa Putin e Rússia pela guerra na Ucrânia


Nesta sondagem, 85% dos inquiridos responderam que “o principal responsável pela guerra na Ucrânia” é Putin/Rússia, enquanto apenas 1% considera que é o presidente Volodymyr Zelensky/Ucrânia.


A conclusão é de uma sondagem realizada pelo CESOP - Universidade Católica Portuguesa para a RTP, Antena 1 e Público, segundo a qual os inquiridos estão divididos sobre a atribuição de mais apoio financeiro a Kiev.

Dois por cento dos participantes acreditam que a culpa é dos Estados Unidos, 1% diz ser da NATO e outro 1% crê que os responsáveis são os países europeus/União Europeia. Sete por cento não sabem ou não quiseram responder, enquanto 3% responderam “outro”.

Questionados sobre como avaliam a atuação da NATO e dos seus países-membros até ao momento, no que diz respeito à guerra entre a Rússia e a Ucrânia, 51% disseram que “estão a envolver-se o necessário”, 30% considerou que “estão a envolver-se menos do que deviam” e 12% pensam que “estão a envolver-se mais do que deviam”. Sete por cento não responderam.

Já sobre a atuação de Portugal, em concreto, quanto à guerra na Ucrânia, as respostas foram mais uniformes. Setenta e dois por cento dos inquiridos responderam que o país está a “envolver-se o necessário”, 12% disseram que está “a envolver-se menos do que devia” e 10% “mais do que devia”. Apenas 6% não responderam.

Portugueses divididos sobre apoio financeiro

Esta amostra da população portuguesa foi também questionada sobre se Portugal deve conceder mais apoio financeiro à Ucrânia, ao que a resposta foi equilibrada: 38% disseram discordar e 38% disseram concordar.

Catorze por cento “discordam completamente”, enquanto 6% “concordam completamente”.

Sobre o envio de mais material e equipamento militar de Lisboa para Kiev, as respostas foram mais díspares. Cinquenta e um por cento concordaram; 12% concordaram completamente; 24% discordaram; e 9% discordaram completamente.

Notou-se mais consenso no que diz respeito ao acolhimento de mais refugiados ucranianos por parte de Portugal. Cinquenta e oito por cento concordaram que o país deve receber mais destes refugiados e 21% “concordaram completamente”.

Do lado aposto, 15% discordaram e apenas 3% “discordaram completamente”.

Ucrânia vista como país “que mais perde com a guerra”

Foi também perguntado aos portugueses quanto consideram que cada país ganha ou perde com a guerra. Neste ponto, a sondagem da Católica concluiu que a Ucrânia é vista como o país que mais perde com o conflito, sendo que a Rússia e a União Europeia (incluindo Portugal) “também têm mais a perder do que a ganhar”.

Na coluna do “perde muito”, a Ucrânia sobressai, com 63% a responderem nesse sentido. Em segundo lugar, para os inquiridos, surge a Rússia, com 26% de respostas. Segue-se a União Europeia (18%), Portugal (12%), EUA (4%) e China (3%).

Já na coluna do “perde”, quem se destaca é Portugal. Sessenta por cento dos portugueses acreditam que o país perde com a guerra, seguindo-se a UE (55%), Rússia (41%), Ucrânia e EUA (ambos com 24%) e, por último, a China (15%).

Por outro lado, os participantes consideram que os Estados Unidos e, principalmente, a China, “são os países que menos têm a perder e mais poderão ganhar com esta guerra”. Pequim reuniu 39% das respostas na coluna do “ganha”, os EUA 30%, a Rússia 12%, UE 8%, Ucrânia 5% e Portugal 2%.

Na resposta “ganha muito” os resultados foram mais residuais, destacando-se a China (com 12%) e os Estados Unidos (11%).

Maioria acredita que guerra não sairá da Ucrânia

Sobre o futuro do conflito, 39% dos participantes consideraram mais provável que a guerra ainda vá demorar, mas que ficará circunscrita ao território ucraniano.

Já 26% acreditam que “o conflito vai tornar-se num conflito global”, enquanto 14% pensam que irá “alargar-se a outros países vizinhos que não sejam membros da NATO”.

Sete por cento creem que o mais provável é a guerra “alargar-se aos países vizinhos membros da NATO” e apenas 4% acreditam que “o conflito está a caminho de uma resolução”.

Dez por cento não sabem ou não quiseram responder.

Ficha Técnica

Este inquérito foi realizado pelo CESOP - Universidade Católica Portuguesa para a RTP, Antena1 e Público entre os dias 9 e 17 de fevereiro de 2023. O universo alvo é composto pelos eleitores residentes em Portugal. Os inquiridos foram selecionados aleatoriamente a partir duma lista de números de telemóvel, também ela gerada de forma aleatória. Todas as entrevistas foram efetuadas por telefone (CATI). Os inquiridos foram informados do objetivo do estudo e demonstraram vontade de participar. Foram obtidos 1002 inquéritos válidos, sendo 46% dos inquiridos mulheres. Distribuição geográfica: 29% da região Norte, 20% do Centro, 37% da A.M. de Lisboa, 7% do Alentejo, 4% do Algarve, 2% da Madeira e 2% dos Açores. Todos os resultados obtidos foram depois ponderados de acordo com a distribuição da população por sexo, escalões etários e região com base no recenseamento eleitoral e nas estimativas do INE. A taxa de resposta foi de 26%. A margem de erro máximo associado a uma amostra aleatória de 1002 inquiridos é de 3,1%, com um nível de confiança de 95%.

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

A Future with AI: Voices of Global Youth Report Launched


Artificial Intelligence (AI) is developing at an exceedingly rapid pace, and it is important that we adopt AI intentionally. Young people today will likely live in a future world in which AI will be pervasive. They deserve a say in what this future will look like.

A Future with AI: Voices of Global Youth report is based on a study conducted between January-March 2022 that included a questionnaire asking youth (10-24) from around the world to share their thoughts on the future of artificial intelligence, as well as an “Imagination Challenge” in which participants submitted a free-form essay about the future of AI.

Two hundred fifty-four youth from 36 countries completed the survey. Forty-seven of the respondents also contributed essays on the future of AI.

Among the report's key findings:
  • the perception of AI and robots among youth is positive (93.2 percent), with slightly more than two-thirds (68 percent) stating they trust AI.
  • about 80 percent said they interact with AI multiple times a day
  • a majority (76.3 percent) thinks that the risks of AI technology are serious, but they can be controlled
  • top concerns mentioned included “unemployment as a result of AI” (75 percent) and “military uses of AI” (74.3 percent)
  • ninety-three percent expressed interest in “discussing AI use and regulation”, while 86 percent “want to collaborate with AI” in the future
The report’s authors conclude that: “To create a future with AI where human wellbeing and happiness take center stage, we must collaborate internationally with young people because they will be the main users of AI in 2050”.

To that end, a virtual conference (invite only) with youth and representatives from industry, academia, governments and the UN will be held in November to discuss how to turn recommendations from youth into action.


This project was a collaboration between the United Nations and Waseda University, with support from Open Social.

domingo, 23 de outubro de 2022

LGBTfobia e o desenvolvimento sustentável


A invisibilidade é um dos maiores desafios para a comunidade LGBT+ em seu ser/estar no mundo. Assim como não é possível desenhar boas estratégias de conservação ambiental sem considerar adequadamente o bioma, as comunidades e as culturas locais, dificilmente conseguiremos prosperar como sociedade enquanto parte de nós estiver invisibilizada frente às diversas instituições, às políticas públicas, à economia e ao Estado. Assim como a padronização e a homogeneização da natureza vem adoecendo o mundo, a padronização e a homogeneização da sociedade adoece a humanidade e gera conflito e desigualdade estrutural.

É importante entendermos que as lógicas que buscam padronizar e homogeneizar corpos, experiências e desejos conflitam com as lógicas de povos, comunidades e grupos sociais que se organizam e se fortalecem a partir de práticas de diversidade. Em ‘Gay Indians in Brazil’ (2017), Estevão Fernandes e Barbara Arisi discutem a colonização da sexualidade e como a heteronormatividade, ou seja, a visão de que apenas a heterossexualidade é normal ou correta, estabeleceu padrões de sexualidade para a experiência sexual dos povos indígenas.

Ante o poder da heteronormatividade a diversidade buscou novas estratégias de enfrentar a violência da invisibilidade. A LGBTfobia e suas muitas formas de manifestação, individuais e estruturais, contribuem para o apagamento da diversidade de gentes que povoam cada espaço social imaginável, para muito além da multidão que se agita sob a bandeira do arco-íris pelas ruas do mundo neste mês, simbolizado pelo orgulho e enfrentamento da invisibilidade.

Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019, cerca de 1,9% da população brasileira se identifica como homossexual ou bissexual, o que corresponde a 2,9 milhões de pessoas com 18 anos completos ou mais. Entretanto, 1,1% da população (1,7 milhão de pessoas) disse não saber responder à questão e 2,3% (3,6 milhões) se recusaram a responder. Embora estes dados já pareçam expressivos, ainda não refletem o que uma pesquisa, como o recenseamento previsto para 2022, pode alcançar. Incluir no censo questões relativas à comunidade LGBT+ nos permitiria ter dados que forneçam uma maior diversidade de análises, assim como problematizar a invisibilidade.

Embora a coleta de dados oficiais seja imprescindível para o desenho e direcionamento adequado de políticas públicas, todos nós, nos espaços pessoais e profissionais, temos oportunidades diárias de promover o reconhecimento e a visibilidade de pessoas da comunidade LGBT+. Estas ações são de extrema importância para enfrentar o silenciamento e invisibilidade da diversidade.

Um exemplo famoso de silenciamento institucional foi a lei estadunidense conhecida como “Don’t Ask, Don’t Tell” (Não Pergunte, Não Conte, em tradução livre para o português). Instituída em 1993, a lei obrigava membros das forças armadas dos EUA a esconderem sua orientação sexual sob risco de expulsão. Poderiam, assim, lutar ou morrer pela pátria desde que seus armários de aço permanecessem devidamente trancados. A medida vigorou até 20 de setembro de 2011, quando foi revogada.

No Brasil, a Portaria 158/2016 do Ministério da Saúde e a resolução da diretoria colegiada – RDC 34/2014 da Anvisa, estabelecem critérios de seleção para potenciais doadores de sangue, considerando inaptos, dentre outros, homens que tiveram relações sexuais com outros homens e suas parceiras sexuais. Estas medidas reforçam o preconceito contra a população LGBT+, afastam, sem fundamentação jurídica ou científica, milhares de pessoas dos já esvaziados bancos de sangue do Brasil, ou impõe um silenciamento velado a doadores regulares. A discriminação imposta por estas medidas foi reconhecida pela maioria dos ministros do Supremo Tribunal Federal na Ação Direta de Inconstitucionalidade – ADI 5.543, julgada pelo STF em 2020.

Os dados da PNS 2019, que apresentamos antes, chamam nossa atenção tanto pelos resultados dos respondentes, quanto dos não respondentes, lembrando-nos que ausência de resposta também é um dado importante a ser analisado. A não-resposta pode nos levar a pensar sobre o porquê pessoas seguem preferindo não responder a questões que foram preparadas para reconhecer suas identidades. Será que as condições pessoais e coletivas permitiam que elas respondessem às questões, ou, então, quão acolhidas se sentiram diante de quem lhes perguntava.

A sociedade brasileira é extremamente desigual, e esta desigualdade apoia-se no preconceito tornando difícil avaliar com segurança de que lado da tomada de dados se encontram as maiores barreiras. É fato que quem não pergunta não tem respostas. As intersecções entre sexo, género e sexualidade podem tornar complexos os caminhos do diálogo num mundo mentalmente ‘binarizado’ entre meninas de rosa e meninos de azul. Assim, é fundamental que todes nós estejamos fortemente engajades e abertes pra pluralizar nossas mentes, corações e organizações.

A invisibilidade apoia-se no silêncio, no apagamento e na negação das experiências. Aqui, especificamente, quando discutimos a comunidade LGBT+, falamos da censura às expressões dos desejos relativos ao modo como cada um compreende seu corpo, identidade e afetos no mundo. Enfrentar o silêncio passa pelo reconhecimento, pela afirmação, pelo orgulho.

Institucionalmente, podemos pensar que passa pelo compromisso de produzir dados que nos permitam afirmar a diversidade de nossas equipes, assim como daquelas e daqueles com quem interagimos para construir um futuro possível em que todes, pessoas e natureza, prosperem. Aqui podemos pensar desde as medidas mais complexas, como grandes projetos de investigação ou ação em torno de políticas públicas afirmativas apoiadas em justiça ambiental, até instrumentos do cotidiano, como uma lista de presença.

Recentemente temos utilizado listas de presença em nossas atividades que buscam dar importância às identidades de gênero, buscando oportunizar as identidades ‘cis’, ‘trans’, ‘não binária’ e possibilitando a resposta ‘outres’. Qual não foi nossa surpresa quando percebemos que a inclusão da identidade ‘trans’ causou profundo desconforto entre pessoas ‘cis’, e mesmo a identificação ‘cis’ foi motivo de questionamento por pessoas cisgénero. Esta percepção nos levou a abrir nossas atividades com uma breve fala sobre identidades de gênero – assim vamos aprendendo e construindo juntes.

Enfrentar o silêncio não é uma tarefa fácil, são mais de 500 anos de colonização de experiências, saberes e sexualidades. Mas precisamos aprender como inventar novas formas de reconhecimento. O silêncio, como falamos, é violento, marca corpos, subjetividades, grupos, instituições e estados. Produzir dados, estabelecer diálogos e atuar na transformação nos permite contribuir de forma efetiva no compromisso por equidade e respeito às identidades.

*Teresa Moreira é especialista de governança ambiental, e Mônica Vilaça, é socióloga, ambas na nossa equipe da The Nature Conservancy (TNC) Brasil

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Sobre sondagens - A dura verdade sobre o chocolate

Fazer uma tracking poll com estas características não é dar notícias, é criar notícias, fazendo uma festa com os comentadores de serviço.




Há uns anos, foi notícia um estudo fantástico: o chocolate preto ajudava a emagrecer. A notícia era verdadeira, o estudo era real e feito por um médico. E, no entanto, era tudo mentira. Confuso?

John Bohannon, jornalista, contratou um médico para fazer um estudo sobre os efeitos do chocolate preto. Recrutou 15 pessoas, que dividiu em três grupos. Um de controlo, outro que seguiu uma dieta baixa em hidratos de carbono e, finalmente, um outro que, além de seguir a dieta low carb, comia todos os dias 40 gramas de chocolate preto. Avaliaram a evolução de 18 parâmetros de saúde (peso, colesterol, gordura no corpo, etc.) à terceira semana e descobriram que o grupo do chocolate preto fora o que perdera mais gordura. Conclusão? O chocolate preto ajuda a perder peso.

O que há de errado no referido estudo? Com apenas cinco pessoas por grupo e medindo 18 parâmetros, era garantido que, por pura sorte, o grupo do chocolate preto teria melhor performance num deles. Há muitos fatores que influenciam o nosso corpo: stresse, exercício, sono, meteorologia, etc. Com 18 indicadores, só por muito azar não se encontraria um que tivesse melhorado no grupo do chocolate. Trata-se, pois, de um estudo sem poder estatístico: não é capaz de distinguir efeitos reais de pura sorte. Depois de publicadas as notícias, John Bohannon veio a público explicar o esquema e mostrar como era fácil enganar jornalistas ávidos por ter o que escrever.

As tracking polls da CNN são similares. Nestas sondagens, a Pitagórica inquire diariamente 152 pessoas e reporta os resultados ao fim de quatro dias, quando tem uma amostra de 608 respostas. Não é enorme, mas é aceitável. Depois, a cada dia que passa, exclui as 152 entrevistas mais antigas e acrescenta 152 novas e reporta os valores da sondagem assim obtida. O que há de errado nisto? A variação em cada dia é causada precisamente por 152 entrevistas, uma amostra minúscula. Tal como com o chocolate, vai haver, garantidamente, variações aparentemente dignas de notícia, mesmo que não haja nenhuma notícia para dar.

Para não maçar o leitor com explicações técnicas, vou fazer uma sondagem tecnicamente perfeita e totalmente controlada por mim. Pode replicá-la em casa, bastando-lhe para isso o Excel.

Imagine que há dois partidos que têm 35% das intenções de voto cada um. Pode chamar-lhes Partido Rosa (PR) e Partido Laranja (PL). Numa sondagem bem conduzida, cada pessoa entrevistada terá 35% de probabilidade de ser do PR, 35% de ser do PL e 30% de outro qualquer. Como represento esta realidade política no Excel? Com as suas ferramentas estatísticas, consigo gerar um número aleatório entre 0 e 100. Se este estiver entre 0 e 35, declaro que é eleitor do PR; se estiver entre 65 e 100, que é do PL; e se estiver entre 35 e 65, é de outro qualquer. Faço isto 152 vezes, tal como a Pitagórica faz para a CNN, e tenho um dia de sondagens feito. Repito o procedimento uma segunda, terceira e quarta vez e tenho uma sondagem feita a 608 pessoas. Depois acrescento mais um dia, retirando-lhe o mais antigo e vou por aí fora, criando uma tracking poll diária, sempre com 608 observações. Mas, lembre-se, os verdadeiros parâmetros são sempre os mesmos: 35% para o Partido Rosa e 35% para o Partido Laranja, quaisquer variações são pura sorte e não têm qualquer significado.

Pode ver a minha tracking poll de 17 dias no gráfico. Variações interessantes e a exigir comentário político: no dia 4, o PL tem uma vantagem de 11 pontos percentuais, que se vai desvanecendo, até que, no dia 8, o PR passa para a frente, mantendo-se um empate técnico por alguns dias até que, a partir do dia 13, o PL volta a descolar.

Imagine as notícias e os comentadores. No dia 4, o líder do PL era um génio e almejava uma maioria absoluta. Entre o dia 4 e 8, os debates correram-lhe mal e cometeu umas gafes de campanha, perdendo a vantagem. Com o aproximar da eleição, os indecisos deixam de estar indecisos e o voto útil favorecerá o PL e, por isso, a partir do dia 13, retoma alguma da vantagem que tinha no início.

Mas, claro, é tudo treta. Na verdade, nesta população, o PR e PL tiveram sempre as mesmas intenções de voto: 35%.

Moral da história? Fazer uma tracking poll com estas características não é dar notícias, é criar notícias, fazendo uma festa com os comentadores de serviço.

P.S. — Se quiser o ficheiro Excel com estes cálculos para fazer as suas experiências, é só pedir-me por e-mail. Poderá repetir as vezes que quiser. O gráfico que usei para ilustrar este artigo foi obtido à terceira tentativa.

Professor de Economia da Universidade do Minho
lfaguiar@eeg.uminho.pt

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Touradas: Perguntas frequentes



Desmistificamos as maiores mentiras sobre as touradas
Existem muitos mitos associados às touradas, por isso apresentamos a resposta para algumas perguntas frequentes nos debates sobre este polémico assunto.
Tudo o que precisa de saber sobre as touradas e o que está escondido dos olhares do público.

Atenção: Algumas imagens podem ferir a susceptibilidade dos leitores.

1. Nas touradas os touros sofrem?

A ciência diz-nos que sim, que os animais sofrem muito nas touradas, antes, durante e após os espetáculos. No caso dos touros, os animais são sujeitos a intenso stress quando são afastados da sua manada, colocados em camiões e transportados para a praça de touros. Aí são descarregados para os curros, onde são “embolados”, ou seja, são imobilizados e os seus cornos são serrados pelo embolador que lhes coloca as “embolas”1.

Durante o espetáculo, os touros sofrem diversas agressões com bandarilhas de vários tipos: “ferros compridos”, com arpões até 4 cm de comprimento e 2 cm de largura e ferro até 140 cm, “ferros curtos” e “ferros de palmo”, com ferro de 90 cm e 35 cm de comprimento, respetivamente, enfeitados com papel de seda de variadas cores e rematados com um ferro até 8 cm de comprimento com um ou dois arpões até 4 cm de comprimento e 2 cm de largura. Estas armas letais, penetram a pele e músculos dos animais, provocam ferimentos consideráveis.

A lide com o capote, tem por função cansar o animal e aumentar o grau de lesão dos “ferros”, uma vez que os “passes de capote” fazem o animal rodar a cabeça, rasgando ainda mais os músculos para que o touro baixe a cabeça, permitindo assim a realização da “pega” no final da lide.

Além disso estes animais estão habituados à pastar em manada, e não estão preparados para o intenso esforço físico e a sobrecarga de estimulação a que são sujeitos na arena. Ao fim de poucos minutos, o desgaste físico é perfeitamente visível nos animais, que além de sangrarem também se urinam descontroladamente.

Protecção de couro e ferro que protege os artistas e cavalos das investidas do animal.

2. Os cavalos sofrem?

Muitas vezes esquecidos, os cavalos são outra das vítimas das touradas, sendo forçados a enfrentar o touro na arena, servindo de “escudo” aos cavaleiros tauromáquicos que, sendo necessariamente muito bons cavaleiros, não correm grande perigo. Já os cavalos sofrem lesões, muitas vezes visíveis no dorso dos animais, devido à utilização de esporas que provocam ferimentos na zona lombar. O Regulamento do Espectáculo Tauromáquico não se refere aos cavalos, apesar de serem um dos principais intervenientes na “tourada à portuguesa“, por isso não existem regras para proteger o bem-estar destes animais. Alguns cavaleiros utilizam serretas2 e outros utensílios cruéis que aumentam o grau de lesão nestes animais. Não existem regras para o alojamento destes animais antes e depois da sua participação nas touradas e há registo de muitos casos de cavalos que morrem durante ou após as corridas.

2 Instrumento em forma de arco com picos colocado no nariz dos cavalos.

3. Os touros têm uma vida tranquila no campo?

Todos já ouvimos dizer que os touros têm uma vida tranquila e de grande bem estar nos seus primeiros 4 anos de vida, antes de serem lidados na arena. Esta afirmação é falsa. Desde logo porque após o desmame, ou seja entre os 7 e os 12 meses de idade, os animais são sujeitos ao que se chama “ferra” que consiste em imobilizar os touros e, com um ferro em brasa ou com um dispositivo elétrico, queimar a coxa e o costado dos animais com o símbolo da ganadaria a que pertence, o número de ordem do animal e o algarismo do ano de nascimento.

Este procedimento cruel é extremamente doloroso para os animais. Mas não é tudo. Todos os cavaleiros tauromáquicos e restantes “artistas” têm que efetuar vários treinos ao longo do ano. Esses treinos, com recurso a bandarilhas, são realizados recorrendo a animais muito jovens, normalmente bezerros e vacas. Acrescenta-se ainda as chamadas “tentas” que são processos extremamente sangrentos e que consistem em provas práticas para aferir o grau de bravura dos animais e determinar se as vacas têm condições para gerar touros aptos para as touradas.

As “tentas” são geralmente realizadas nas herdades privadas das ganadarias, de forma ilegal e com recurso a “picadores“, que em cima de um cavalo com os olhos vendados e uma proteção acolchoada à volta do corpo, espetam repetidamente a vara afiada no dorso dos animais para aferir a sua bravura (sorte de varas). Perante esta realidade é falso afirmar que estes animais têm uma vida tranquila e saudável nos seus primeiros anos de vida. Pelo contrário.

Desde que nascem que estes animais são sujeitos a várias práticas que nada têm a ver com bem estar animal ou com respeito pela sua existência. Resta acrescentar que os touros de lide podiam viver cerca de 20 anos, sendo lidados por volta dos 4 anos de idade, ou seja, ainda muito jovens.

4. Os animais são assistidos por um Médico Veterinário?

Não é totalmente verdade que os animais utilizados nas touradas tenham assistência veterinária. Em cada espetáculo tauromáquico é obrigatória a presença de um Diretor de Corrida e um Médico Veterinário, que fazem parte do corpo de Delegados Técnicos Tauromáquicos designados pela IGAC. O Veterinário deveria inspecionar os touros antes do espetáculo e tem por obrigação garantir que são cumpridas algumas regras de bem-estar animal.

Muitas vezes entram na arena touros lesionados ou com problemas de visão, o que indica que não foram devidamente inspecionados. Durante a tourada, o Médico Veterinário está sentado ao lado do Diretor de Corrida nas bancadas, mantendo-se no seu lugar até ao final do espetáculo. Não intervêm na recolha dos animais da arena, nem durante o processo de retirada das bandarilhas. Ao arrepio do Regulamento e da mais elementar deontologia médico-veterinária, é uma vergonhosa “figura de corpo presente”.

5. O que acontece aos touros após a tourada?

No final da “lide” (depois de cravados um número indeterminado de bandarilhas) os touros são recolhidos aos curros da praça. Nas praças de touros fixas, a recolha é feita com o auxílio de vacas que conduzem o animal para a saída. Nas praças portáteis, é necessário laçar uma corda na cabeça do animal, que é puxado no exterior por um tractor (ou outro veículo) arrastando o touro até ao interior dos curros ou, geralmente, logo para o camião de transporte.

As bandarilhas são arrancadas pelo embolador ou por qualquer colaborador, ainda durante a corrida de touros, sendo necessário cortar a carne do touro com uma navalha para que se consiga puxar a bandarilha e arranca-la do dorso do animal. Muitas vezes os ferros são retirados por um indivíduo que se deita no topo do camião de transporte e simplesmente os arranca do dorso do touro com puxões.

Os animais são mantidos vivos no veículo de transporte, num compartimento fechado, sem espaço para se mexer ou deitar, sem água nem alimento. Os animais são, desta forma, transportados para o matadouro, devendo ser abatidos no prazo máximo de 5 horas. Em alguns casos, muito raros, alguns animais são poupados ao sacrifício e são escolhidos para voltar à ganadaria de origem para reprodução, mas a esmagadora maioria dos touros tem por destino o matadouro para entrar na cadeia alimentar. Alguns morrem durante o transporte, antes de chegar ao matadouro.

6. Quando as touradas acabarem, extingue-se a espécie de touro bravo?

Esse é um dos maiores mitos e mentiras da indústria das touradas.

O touro bravo não é uma espécie biológica, é uma variedade entre milhares que estão registadas. A “raça brava” ou “de lide” é apenas uma das muitas raças de bovinos existentes em Portugal. Na verdade, estes animais foram selecionados artificialmente para se obter um determinado comportamento e fisionomia. Ou seja, são uma produção humana e são animais domesticados, não são touros selvagens.

Todos os bovinos domésticos descendem do “Auroque”, bovino selvagem que chegava quase aos 2 metros de altura e que foi extinto no século XVII. A raça brava é uma criação dos ganadeiros, e a sua continuidade depende da vontade dos seus criadores.

Não existe a espécie “touro de lide”, mas sim uma raça de bovinos criados artificialmente pelos humanos. É possível abolir as touradas mantendo a criação desta raça para fins turísticos, como já fazem alguns criadores.

7. As touradas são uma herança cultural importante na cultura portuguesa?

As touradas desenvolveram-se a partir das lutas com animais bravos e selvagens que foram muito populares em toda a Europa durante a Idade Média e até aos séculos XVII e XVIII. As touradas derivam das lutas que serviam de treino aos cavaleiros, que caíram em desuso com o surgimento da pólvora e evoluíram para uma “luta artística” que se foi transformando num negócio.

As lutas com touros ocorreram um pouco por toda a Europa medieval. A maioria dos países abandonou ou aboliu este tipo de divertimentos sangrentos por volta do século XVI por se tratar de eventos cruéis e impróprios de nações civilizadas. Atualmente as touradas são proibidas em diversas nações europeias como a Dinamarca, Alemanha, Itália ou Inglaterra, onde já existiram.

O Iluminismo encarregou-se de banir este tipo de espetáculos da Europa. A existência de touradas em Portugal e Espanha é a triste demonstração de que esta corrente progressista teve pouca expressão na Península Ibérica. Existem também touradas em algumas cidades do sul de França, por influência espanhola.

8. Porque é que em Portugal se toureia a cavalo?

A explicação é simples. Numa altura em que o espetáculo tauromáquico ainda se estava a desenvolver (século XVIII), para se transformar no que é hoje, o Rei Filipe V de Espanha, que considerava estes divertimentos como “bárbaros e cruéis” e um péssimo exemplo para o povo pelo seu caráter grosseiro e pouco civilizado, proibiu os nobres de as praticar. Este facto levou ao afastamento da figura do nobre cavaleiro e ao aparecimento do matador a pé nas arenas de Espanha.

Impedidos de tourear no país vizinho, os aristocratas espanhóis dedicaram-se em exclusivo à seleção e criação de touros, desenvolvendo fortemente esta atividade, e atravessaram a fronteira desenvolvendo o toureio a cavalo em Portugal. O mesmo aconteceu em 1806, quando Carlos IV de Espanha proibiu as touradas e os matadores espanhóis vieram para Portugal matar touros na praça do Salitre (antiga praça de touros de Lisboa).

9. Os forcados são uma tradição genuinamente portuguesa?

Não. Os forcados, antes de intervir no espetáculo, faziam a guarda ao rei nas touradas reais. Mais tarde, com a proibição da morte do touro na arena, era necessário encontrar uma forma de terminar a lide dominando a “fera”. Foi aí que se introduziu a “pega” para simbolizar o domínio do homem sobre a “besta” no final da lide, inicialmente feita por “forcados profissionais”, compostos por jovens de classes baixas e trabalhadores rurais.

Ao contrário do que a generalidade das pessoas pensa, a “pega” de touros surgiu inicialmente em Espanha onde tinha o nome de “suerte de mancornar“. Foi uma prática popular no país vizinho no século XIX, mas que acabou por cair em desuso. Em Portugal, foi durante o Estado Novo com a aprovação do Regulamento do Espetáculo Tauromáquico (1953) que os forcados começaram a ser presença assídua nas touradas.

Como se tornou numa prática que agradava ao público, jovens de classes altas começaram a organizar-se em grupos de “forcados amadores” que não cobravam dinheiro. Rapidamente fizeram desaparecer os humildes forcados profissionais que desapareceram nos anos 50/60. Inicialmente a presença dos forcados foi muito criticada pelos aficionados que os consideravam uma aberração que nada tinha a ver com a tradicional lide de touros. Só a partir dos anos 80 é que os forcados começaram a ser aceites pelos aficionados, como um mal menor no espetáculo. 

10. As touradas geram muito dinheiro?

Não. O ponto alto do negócio tauromáquico foi nos anos 80. Atualmente já existem cavaleiros e grupos de forcados que pagam para participar em touradas, e vários “agentes” da festa brava admitem publicamente que apenas se dedicam a este negócio por “paixão” porque ele não gera lucro.

Se as touradas fossem um negócio muito lucrativo não precisavam do apoio e dos subsídios atribuídos pela Câmaras Municipais que, em alguns casos, compram milhares de bilhetes para oferecer à população, como forma de garantir a presença de público nas praças e a viabilidade do espetáculo.

11. As touradas geram postos de trabalho?

O número de pessoas que têm nas touradas a sua ocupação principal é insignificante, se é que alguém vive exclusivamente desta atividade em Portugal. Os artistas têm outras atividades profissionais, dedicando-se ao toureio apenas por razões emocionais. Alguns cavaleiros tauromáquicos e grupos de forcados admitem publicamente que pagam para tourear.

Os criadores de touros não têm rendimento suficiente para sobreviver e a criação de gado bravo não é a sua produção principal. Os maiorais e campinos dedicam-se a outro tipo de atividades nas explorações pecuárias e não, exclusivamente, aos touros. Os forcados são amadores e têm outras atividades profissionais. Os empresários tauromáquicos não organizam corridas suficientes para conseguir viver exclusivamente das touradas. Os emboladores serão os mais afetados, mas o seu número é cada vez mais reduzido em Portugal.

Os recentes casos de Viana do Castelo e Póvoa de Varzim, que baniram as touradas do seu território, são o exemplo claro de que as touradas não geram emprego. O fim das touradas nestes dois concelhos não extinguiu um único posto de trabalho, e a requalificação das praças de touros (que só abriam duas vezes por ano para receber touradas) vai criar dezenas de postos de trabalho nestas cidades.

12. A maioria dos portugueses gosta de touradas?

Não. Muitos portugueses, por não terem qualquer ligação com a tradição tauromáquica são indiferentes ao tema. Dados recentes demonstram que a maioria dos portugueses não gostam de touradas. Uma sondagem da Universidade Católica realizada em Lisboa em 2018, revelou que:

  • 89% da população nunca assistiu a touradas no Campo Pequeno desde a sua reabertura;
  • 75% da população não concorda com a utilização de fundos públicos para financiar as touradas;
  • 69% não concorda com a promoção de touradas em Lisboa pela Casa Pia;
  • 96% Concorda com a realização de outro tipo de espetáculos (que não touradas) na praça de Lisboa.

Existe uma sondagem realizada pela Eurosondagem em 2011 que, supostamente, diz que muitos portugueses são a favor das touradas, no entanto, a sondagem não é muito clara. É importante esclarecer que a referida sondagem se refere a “actividades com toiros” tendo sido respondida na sua maioria por pessoas favoráveis à questão tauromáquica. Os que se opõe foram excluídos na primeira pergunta.

13. Há cada vez mais portugueses contra as touradas?

Sim. As touradas estão a perder cada vez mais terreno em Portugal. É evidente o decréscimo de espectadores que assistem a touradas nos últimos 10 anos. As próprias estimativas da IGAC (que, escandalosamente, confia nos números enviados pelos próprios aficionados) indicam que as touradas perderam quase 50% do público entre 2008 e 2018 (698.142 espectadores em 2008 e 379.000 em 2018) e atingiram o recorde mínimo de touradas realizadas em Portugal no ano de 2018 (173 touradas). O declínio da tauromaquia é o reflexo de uma sociedade onde ganha cada vez mais importância o respeito e a afinidade pelos animais, valores que são acompanhados de medidas legislativas que colocam a tauromaquia num plano cada vez mais marginal à evolução civilizacional.