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sexta-feira, 3 de julho de 2026

A Rússia já perdeu mais soldados na Ucrânia do que os EUA em TODAS as guerras desde 1945. Multiplicado por quatro

O estudo é do CSIS (Center for Strategic and International Studies) , um dos centros de investigação de defesa mais respeitados do mundo. Os números batem certo com as estimativas de outros governos um pouco por todo o mundo.
A conta total: 2 milhões de baixas, somando mortos, feridos e desaparecidos de ambos os lados.
Só a Rússia perdeu 1,4 milhões de soldados: 1% da população inteira do país. Destes, 450 mil morreram. Tudo por decisão de um homem só.
Para perceber a dimensão disto:
A Rússia já perdeu 4 vezes mais soldados na Ucrânia do que os EUA perderam em TODAS as guerras desde a Segunda Guerra Mundial. Coreia, Vietname, Iraque, Afeganistão. Tudo somado.
E o fardo não é dividido de forma igual. Regiões pobres e minorias étnicas morrem muito mais. Nos meios de comunicação da oposição russa acumulam-se relatos de aldeias onde a população masculina simplesmente deixou de existir.
E a guerra está a ficar pior para Moscovo.
Durante anos, morriam 2 ou 3 russos por cada ucraniano fora de combate. No primeiro semestre deste ano, a proporção saltou para 8 por 1.
O motivo tem nome: drones. A Ucrânia alargou tanto o alcance deles que criou uma "zona de morte" ao redor da linha da frente. Uma faixa tão saturada de drones que um soldado russo praticamente não consegue sair dela vivo.
Mas o drone é apenas metade da explicação.
A outra metade é a própria Rússia: uma estratégia de desgaste que atira soldados em massa contra linhas defendidas, mau treino, corrupção, moral no chão. O exército trata as pessoas como munição descartável.
Resultado: pela primeira vez na guerra, a Rússia já não consegue recrutar soldados ao mesmo ritmo em que os perde. A conta deixou de fechar.
Mais assustador do que a razão destas mortes, é o tempo que elas demoram. Os soldados russos estão literalmente a viver menos do que as moscas.
As moscas vivem entre 15 e 30 dias. Já um militar russo, desde o momento em que chega ao campo de treino até à sua morte no campo de batalha, demora cerca de 10 a 21 dias.
Quando chega à linha da frente, a sua esperança de vida ronda os 20 a 35 minutos.
A Ucrânia também sangra: até 625 mil baixas, com até 150 mil mortos.
2 milhões de baixas somadas é mais do que em Estalinegrado, considerada até hoje a batalha mais sangrenta da história. Claro, Estalinegrado durou apenas 6 meses. A guerra na Ucrânia já dura há mais de 4 anos, mas ainda não tem data para acabar.
Fica a pergunta: Estalinegrado tornou-se o símbolo eterno do horror da guerra. Como é que a história se vai lembrar da Ucrânia?

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Toda a verdade sobre a Rússia, NATO, União Europeia, EUA e Ucrânia e, por fim, a China


1. A Ucrânia tem mesmo forças nazis? 
A Ucrânia não é um Estado nazi e Volodymyr Zelensky não lidera forças nazis. A narrativa de que o país está dominado por neonazis é uma das principais ferramentas de propaganda e desinformação utilizadas pelo governo russo para justificar a invasão perante a sua própria população e o mundo. Na verdade, o próprio presidente Zelensky é judeu e perdeu familiares no Holocausto, tendo sido eleito democraticamente em 2019 com mais de 73% dos votos, o que torna a acusação de liderar um regime nazi uma contradição óbvia. Além disso, embora existam grupos de extrema-direita na Ucrânia — assim como na Rússia e na maioria dos países europeus —, o seu peso político real é residual, visto que nas últimas eleições legislativas a coligação de partidos de extrema-direita obteve apenas cerca de 2% dos votos, não conseguindo sequer representação no Parlamento ucraniano.
O mito alimentado por Moscovo baseia-se sobretudo nas origens do Batalhão Azov. Em 2014, quando a Rússia anexou a Crimeia e fomentou a guerra no Donbass, o exército ucraniano estava desestruturado e surgiram milícias voluntárias para defender o território. O grupo Azov original foi de facto fundado por indivíduos com ligações a fações radicais de ultradireita e claques de futebol, utilizando símbolos visuais controversos. No entanto, ainda no final de 2014, o governo ucraniano integrou oficialmente o grupo na Guarda Nacional, iniciando um processo profundo de reestruturação. Ao longo dos anos, os líderes políticos radicais foram afastados, a unidade foi despolitizada e transformada numa força militar regular de defesa. Inclusive, o governo dos Estados Unidos levantou as restrições ao fornecimento de armas à brigada após confirmar que esta se tinha tornado uma unidade militar profissional padrão. Para a Rússia, o rótulo de "nazi" carrega um peso histórico e emocional gigantesco herdado da Segunda Guerra Mundial, sendo utilizado de forma estratégica para desumanizar o adversário e criar um falso pretexto moral para a agressão militar.

2. As eleições na Rússia não são consideradas democráticas, livres ou justas por analistas internacionais, pelas Nações Unidas, pela União Europeia e por organizações independentes de direitos humanos. 
O sistema político russo é classificado como um regime autoritário ou uma autocracia eleitoral, o que significa que o país mantém a aparência de uma democracia — com urnas, boletins de voto e campanhas —, mas todo o processo é rigidamente controlado pelo Kremlin para garantir a permanência de Vladimir Putin no poder. O principal pilar desta falta de democraticidade é a eliminação sistemática da oposição real, onde qualquer candidato que represente uma ameaça séria é impedido de concorrer, seja através do exílio, de desqualificações burocráticas por parte da Comissão Eleitoral Central ou da prisão sob acusações politizadas, como aconteceu emblematicamente com Alexei Navalny. Para simular uma pluralidade, o regime permite apenas a participação da chamada "oposição sistémica", composta por partidos minoritários que fingem competir, mas que na prática apoiam as diretrizes do governo e nunca criticam diretamente o presidente ou a guerra.
Além da ausência de adversários reais, o processo é profundamente distorcido pelo controlo total dos meios de comunicação social, uma vez que todas as grandes cadeias de televisão, jornais e rádios são estatais ou pertencem a aliados de Putin, enquanto a internet e a imprensa independente enfrentam uma censura feroz. Organizações independentes de monitorização eleitoral denunciam consistentemente fraudes massivas nas contagens de votos, incluindo o enchimento de urnas, a manipulação de sistemas de voto eletrónico que não permitem auditoria e a forte coação sobre funcionários públicos e trabalhadores de empresas estatais, que são obrigados a votar sob ameaça de demissão. Adicionalmente, as eleições russas carecem de observadores internacionais credíveis e incluem votações forçadas em territórios ucranianos ocupados militarmente, o que viola o direito internacional. Em suma, o objetivo destas eleições não é dar uma escolha ao povo, mas sim fazer uma demonstração de força, utilizando maiorias esmagadoras fabricadas para legitimar as políticas do regime perante o mundo e desanimar qualquer oposição interna.

3. E a historieta do Tio Sam e de Putin é também falsa. 
A "historieta do Tio Sam e de Putin" refere-se à narrativa de que a guerra na Ucrânia é apenas um conflito provocado exclusivamente pelo "Tio Sam" (os Estados Unidos) para encurralar o Putin, ou à ideia romântica de que a Rússia é uma vítima inocente que foi obrigada a atacar para se defender do expansionismo ocidental, sim, essa também é uma versão altamente distorcida e falsa da realidade.
Essa narrativa - muito repetida pela propaganda russa e por setores que adotam uma postura anti-EUA automática - ignora deliberadamente a história, a soberania da Ucrânia e as próprias ambições imperialistas de Vladimir Putin. A análise factual desmitifica essa história em bloco:
  • A Ucrânia é um país independente e soberano desde 1991. A decisão de se aproximar da União Europeia ou da NATO não foi uma "invasão disfarçada" dos Estados Unidos, mas sim uma escolha democrática do próprio povo ucraniano. 
  •  Histórica e economicamente, os ucranianos assistiram ao crescimento e à prosperidade de vizinhos ex-comunistas que se juntaram ao Ocidente (como a Polónia e os países bálticos), enquanto as nações que ficaram sob a órbita da Rússia (como a Bielorrússia) estagnaram em ditaduras. 
  • A aproximação ao Ocidente foi uma tentativa da Ucrânia de garantir a sua própria segurança e modernização, e não uma conspiração americana.
Além disso, a própria NATO nunca forçou a entrada de nenhum país. São os países da Europa de Leste que pedem desesperadamente para aderir à aliança porque têm, compreensivelmente, medo do histórico de agressão da Rússia. O argumento de Putin de que se sentiu "ameaçado" cai por terra quando olhamos para os factos: a NATO é uma aliança defensiva e nenhum país ocidental tinha planos ou intenções de invadir o território russo, que possui o maior arsenal nuclear do planeta e, portanto, uma capacidade de dissuasão total.
O erro central dessa "historieta" é retirar totalmente a culpa a Vladimir Putin e o direito de escolha à Ucrânia, tratando o conflito como se os ucranianos fossem meros peões sem vontade própria num tabuleiro de xadrez entre Washington e Moscovo. A verdade é que a invasão foi um ato de agressão deliberado, planeado pelo Kremlin com o objetivo de anexar territórios, travar a democratização de um país vizinho e restaurar a antiga esfera de influência da era soviética.

4. A afirmação de que o Donbas e a região histórica da Novorossiya -  que engloba cidades como Odessa, Mykolaiv, Dnipro e Kharkiv - nunca foram da Ucrânia é historicamente falsa, tratando-se de um mito construído pelo nacionalismo russo para tentar legitimar as suas pretensões territoriais atuais. 
Muito antes de o Império Russo ou da Imperatriz Catarina, a Grande, terem conquistado estas terras no final do século XVIII, o território do sul e do leste da Ucrânia não era um vazio demográfico; a área era conhecida como os "Campos Selvagens" e estava sob o controlo e a profunda influência dos Cossacos Ucranianos, que ali estabeleceram povoações agrícolas, feitorias e rotas comerciais. O próprio termo Novorossiya ("Nova Rússia") foi apenas uma designação administrativa e colonial criada pelo Império Russo em 1764, funcionando exatamente da mesma forma que o Império Britânico criou a "Nova Inglaterra" na América do Norte. Além disso, os censos do próprio Império Russo (como o de 1897) comprovam que a esmagadora maioria dos camponeses que colonizaram e cultivaram o interior dessa região eram ucranianos, fixando-se os russos sobretudo como funcionários públicos e operários nas grandes cidades nascentes.
A propaganda russa costuma alegar que as grandes cidades da região foram fundadas do zero por russos, mas a verdade é que muitas foram erguidas sobre antigos colonatos ucranianos, tártaros ou fortalezas otomanas já existentes, como é o caso de Odessa, construída no local do antigo porto tártaro de Hadjibey. Com o colapso do Império Russo em 1917, o nome Novorossiya desapareceu dos mapas oficiais e os próprios habitantes escolheram o seu destino ao integrarem o Donbas, Kharkiv, Odessa e Mykolaiv na recém-declarada República Popular da Ucrânia, precisamente porque a maioria da população partilhava essa identidade. Mais tarde, quando os bolcheviques desenharam as fronteiras da União Soviética, incluíram estas regiões na Ucrânia Soviética pelo mesmo motivo demográfico. O teste definitivo de pertença ocorreu em dezembro de 1991, aquando do referendo para a independência da Ucrânia: mesmo nas zonas com maior presença da língua russa, a população votou massivamente a favor de fazer parte da Ucrânia independente, com aprovações que atingiram os 83,9% em Donetsk, 83,8% em Luhansk, 86,3% em Kharkiv e 85,3% em Odessa. Ignorar esta autodeterminação com base num rótulo colonial do século XVIII seria o equivalente a dizer que o Brasil pertence hoje a Portugal ou que os Estados Unidos são território britânico.

Por isso, sim. Portugal proibiu a equipa russa de trampolim de usar bandeira e hino na Taça do Mundo de Ginástica. É apenas um gesto simbólico, mas neste caso e pelo que atrás já referi, Portugal agiu bem.

P.S. A "grande" China, por exemplo, bane qualquer cantor/artista que exiba a bandeira de Taiwan, do Tibete, Hong Kong ou do povo Uigur. 
𝐎 𝐠𝐨𝐯𝐞𝐫𝐧𝐨 𝐝𝐚 𝐑𝐞𝐩𝐮́𝐛𝐥𝐢𝐜𝐚 𝐏𝐨𝐩𝐮𝐥𝐚𝐫 𝐝𝐚 𝐂𝐡𝐢𝐧𝐚 𝐚𝐝𝐨𝐭𝐚 𝐮𝐦𝐚 𝐩𝐨𝐥𝐢́𝐭𝐢𝐜𝐚 𝐝𝐞 𝐭𝐨𝐥𝐞𝐫𝐚̂𝐧𝐜𝐢𝐚 𝐳𝐞𝐫𝐨 𝐞𝐦 𝐫𝐞𝐥𝐚𝐜̧𝐚̃𝐨 𝐚 𝐪𝐮𝐚𝐥𝐪𝐮𝐞𝐫 𝐦𝐚𝐧𝐢𝐟𝐞𝐬𝐭𝐚𝐜̧𝐚̃𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐩𝐨𝐬𝐬𝐚 𝐬𝐞𝐫 𝐢𝐧𝐭𝐞𝐫𝐩𝐫𝐞𝐭𝐚𝐝𝐚 𝐜𝐨𝐦𝐨 𝐮𝐦 𝐪𝐮𝐞𝐬𝐭𝐢𝐨𝐧𝐚𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨 𝐝𝐚 𝐬𝐮𝐚 𝐬𝐨𝐛𝐞𝐫𝐚𝐧𝐢𝐚 𝐭𝐞𝐫𝐫𝐢𝐭𝐨𝐫𝐢𝐚𝐥, 𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐢𝐧𝐜𝐥𝐮𝐢 𝐬𝐢́𝐦𝐛𝐨𝐥𝐨𝐬 𝐥𝐢𝐠𝐚𝐝𝐨𝐬 𝐚 𝐓𝐚𝐢𝐰𝐚𝐧, 𝐚𝐨 𝐓𝐢𝐛𝐞𝐭𝐞, 𝐇𝐨𝐧𝐠 𝐊𝐨𝐧𝐠 𝐞 𝐚̀ 𝐫𝐞𝐠𝐢𝐚̃𝐨 𝐝𝐞 𝐗𝐢𝐧𝐣𝐢𝐚𝐧𝐠, 𝐥𝐚𝐫 𝐝𝐨 𝐩𝐨𝐯𝐨 𝐔𝐢𝐠𝐮𝐫. 
Na massiva e altamente regulada indústria do entretenimento chinesa, a exibição de bandeiras ou o apoio a estas causas resulta num banimento praticamente imediato e severo. Este processo de cancelamento cultural e económico envolve a rescisão instantânea de contratos publicitários, o cancelamento de digressões e a remoção completa do catálogo musical e audiovisual do artista das principais plataformas de streaming do país, como o Weibo e o NetEase. Em casos de produções televisivas ou cinematográficas já gravadas, o governo exige frequentemente que as cenas do artista sejam cortadas ou que o seu rosto seja desfocado digitalmente.
Ao longo dos anos, diversos nomes da cultura pop internacional e regional sofreram estas sanções. A cantora Lady Gaga e a banda Maroon 5, por exemplo, viram as suas músicas banidas e concertos cancelados após demonstrarem apoio ou se encontrarem com o Dalai Lama, líder espiritual tibetano. No cenário do K-pop, a cantora taiwanesa Chou Tzu-yu, integrante do grupo Twice, causou uma enorme polémica na China continental em 2015 após segurar a bandeira de Taiwan num programa de televisão sul-coreano, o que a pressionou a gravar um pedido de desculpas público afirmando que "só existe uma China". Para as autoridades de Pequim, o acesso ao gigantesco mercado de consumo chinês é tratado como um privilégio condicionado ao respeito absoluto pelas diretrizes políticas e pela integridade territorial defendida pelo Partido Comunista Chinês.
A situação aplica-se igualmente a Hong Kong, que se tornou outra das grandes linhas vermelhas para o governo chinês, especialmente após os protestos pró-democracia de 2014 e 2019. Qualquer artista, seja local ou internacional, que expresse a mínima simpatia ou apoio aos manifestantes enfrenta exatamente o mesmo mecanismo de retaliação e censura. Figuras de destaque do entretenimento da própria cidade, como a cantora de Cantopop Denise Ho e o conceituado ator Anthony Wong, viram as suas carreiras na China continental completamente destruídas por demonstrarem apoio ao movimento democrático, resultando na remoção das suas obras de todas as plataformas digitais, contratos rescindidos e um boicote total por parte da indústria, acabando mesmo por sofrer perseguição judicial no próprio território de Hong Kong ao abrigo da nova Lei de Segurança Nacional. No panorama internacional, partilhar uma simples mensagem de solidariedade para com Hong Kong nas redes sociais é o suficiente para desencadear o cancelamento de digressões e a fúria dos consumidores nacionalistas. Tudo isto reforça a mensagem inabalável de Pequim: para operar ou lucrar no mercado chinês, o alinhamento com a narrativa oficial sobre a soberania e a estabilidade de todos os seus territórios, incluindo as suas Regiões Administrativas Especiais, tem de ser absoluto

terça-feira, 9 de junho de 2026

Money and Machismo are Undermining America


Drones have rapidly transformed modern war. The U.S. military, the most sophisticated, best supplied force in history, has been humiliated by Iran, largely thanks to Iran’s effective use of inexpensive drones to menace shipping, energy production, and even U.S. bases. Meanwhile, Ukraine’s growing superiority in drone warfare is increasingly giving it the upper hand over Russia. Remember, not so long ago the American far right celebrated Putin’s macho posturing and his supposed military invincibility.

Given this radical turn of events, shouldn’t the United States be eager to make a drone deal with Ukraine, benefiting from its technology and expertise?

Apparently not. The Hill reports that Donald Trump has been dragging his feet on such a deal, quoting U.S. military analysts who say that they don’t understand the delay and that they are “mystified.” But I assume that they’re being disingenuous and prefer to avoid saying the obvious. In fact, Trump’s unwillingness to make a deal that would clearly benefit America’s national interest is no mystery at all.

I’ll get to the obvious in a moment. First, let me take a slight detour into something that seems unrelated but in fact helps explain drone aversion: this administration’s hostility to renewable energy and its desperate, doomed and wasteful effort to revive the coal industry.

There was a time when “drill, baby, drill” could be portrayed as a realistic, hard-headed position. Does anyone remember the Cheney Energy Task Force? However, in the past few years, radical declines in the cost of solar power, wind power, and batteries — which solve the problem that the sun doesn’t always shine and the wind doesn’t always blow — have made renewables the most cost-effective way to generate electricity. By contrast, coal is completely unviable. Here are the Federal Energy Regulatory Commission’s estimates for utility capacity additions in 2025:



Yet Trump is trying to block renewable energy projects any way he can and has just invoked wartime authority to spend $700 million subsidizing new power plants using “clean, beautiful” coal.

Why? Part of the answer is big money. Fossil fuel interests were huge supporters of Trump in 2024. In fact, the Trump presidency is itself the result of billions of dollars spent by the Koch Brothers and others to corrupt and undermine U.S. political institutions -- the Supreme Court very much included. Anti-renewable, pro-fossil fuel policy is their reward, along with the destruction of the Voting Rights Act and the adoption of Project 2025.

What’s the other part? Clean energy has become a bogeyman in the culture wars: mining and burning coal are considered “manly” activities, while renewable energy is portrayed as woke and effeminate. Real men don’t worry about black lung and airborne particulates, let alone climate change.

So a combination of big money and fragile male egos drives Green Derangement Syndrome. And the same is true for both the Iran debacle and the refusal to learn from the catastrophe by turning to Ukraine.

Why was the United States so unprepared for the Iranian drone threat, despite the obvious successes of Ukrainian drones against Russia? Well, as investigative reporters delve into the story, I would urge them to follow the money.

America has a huge, highly profitable defense industry, dedicated to a suite of technologies that are rapidly being rendered obsolete, as $4 million Patriot missiles, that take years to build, are being used to shoot down $35,000 Shahed drones that can be manufactured in months.

So it wouldn’t be surprising if defense-industry interests are playing a significant role in the Trump administration’s refusal to admit that the rules of war have changed — the same way that fossil fuel companies have campaigned against the new realities of energy technology. After all, a deal with drone-savvy Ukrainians would mean less money going to US defense contractors.

While this is speculative, we do know that recognition of the drone revolution in warfare by Trump and his inner circle would require that they abandon their fantasy of macho military power. Pete Hegseth has been purging the military of capable officers — especially Blacks and women — he considers insufficiently loyal to Donald Trump. Beyond loyalty tests, however, he has exalted the importance of “warrior ethos” and physical fitness, as if he were leading the 300 Spartans rather than a high-tech military in an age of drones and electronic warfare.

It’s true that Hegseth, perhaps chastened by his abject failure in Iran — why does he still have a job? — recently admitted that the U.S. has learned from Ukraine. But an admission that his entire conception of war was wrongheaded will be a step too far for him.

Likewise, Trump himself is in love with big, expensive weapons as symbols of virility and power. He’s still pushing for giant “Trump-class” battleships, even though they would be sitting ducks in a modern war. Just ask the Ukrainians, who have used missiles and naval drones to force Russia’s once-vaunted Black Sea Fleet to cower in a fortified refuge. But Trump doesn’t want to give up his fantasies.

And he’s especially unwilling to learn from Ukraine. After all, he cut off aid to Ukraine in a hissy fit over Zelenskyy’s well-deserved reputation for heroism, only to he humiliated by Ukraine’s refusal to lose its war. Admitting that he needs Ukrainian help would be a further humiliation.

As I said earlier, there is no mystery about why Trump refuses to make a drone deal with Ukraine. Never mind the national interest. In military strategy as in energy policy, Trump is betraying America in the service of money and machismo.

terça-feira, 17 de março de 2026

Rede social X, de Elon Musk, é o principal canal de desinformação contra a União Europeia e os políticos são o principal alvo


A rede social X é o principal canal utilizado para atividades de desinformação contra a União Europeia e os políticos são o principal alvo, refere um relatório hoje divulgado pelo serviço diplomático europeu.

Num relatório intitulado “Ameaças de ingerência externa e de manipulação de informação”, o Serviço Europeu de Ação Externa (SEAE) indica que, dos cerca de 43 mil conteúdos relacionados com desinformação que analisou em 2025, 88% passaram pela rede social X, detida pelo magnata norte-americano Elon Musk, muito acima da aplicação de mensagens Telegram (3%) ou do Facebook (2%).

“A presença de redes de comportamento inautêntico coordenado, a facilidade de criação de contas falsas, mas também o acesso mais fácil a dados explica esta concentração. A maioria das grandes plataformas de redes sociais restringe o acesso a dados que permitiriam avaliar a dimensão da manipulação de informação”, explica o SEAE.

Apesar da preponderância do X, o relatório refere que, na maioria das campanhas de desinformação, os protagonistas tendem a procurar operar ao mesmo tempo em várias plataformas, com diferentes contas, combinando publicações nas redes sociais e mensagens em aplicações como o WhatsApp ou Telegram.

“O objetivo é infiltrar-se no espaço de informação para aumentar a visibilidade e credibilidade do conteúdo, ao mesmo tempo que se visam públicos específicos com base em fatores sociodemográficos e geográficos”, refere-se.

De acordo com o relatório, o recurso à inteligência artificial (IA) está a tornar-se cada vez mais premente nas campanhas de desinformação dirigidas contra a UE, verificando-se um aumento de 259% quando comparado com 2024.

“Os atores russos e chineses implementaram totalmente ferramentas de IA para acelerar a produção de conteúdos e aumentar as atividades de ingerência com menos recursos”, lê-se no relatório, em linha com a análise de um responsável europeu que indicou que a IA está a tornar estas operações muito mais baratas.

Na análise que fez a estas campanhas, o SEAE que a maioria dos ataques (66%) é dirigido contra políticos, com destaque particular para os presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, e de França, Emmanuel Macron, o chanceler alemão, Friedrich Merz, ou a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

O SEAE aponta que, na maioria dos casos, as campanhas contra estas personalidades são sobretudo “ataques àquilo que um indivíduo representa (como valores democráticos ou princípios)” e uma tentativa de “instrumentalizar a plataforma que têm para alcançar públicos específicos”.

A nível de organizações visadas por estas campanhas, as entidades políticas voltam a estar em primeira linha, com 36% dos ataques, seguidas pelos órgãos de comunicação social (23%) e organizações militares ou de segurança (22%).

“Os setores políticos e de segurança foram especialmente visados, com o objetivo de minar a confiança nas capacidades de Defesa. Da mesma maneira, os protagonistas destas ameaças identificaram o setor dos media como sendo crucial para a democracia e, por isso, dirigiram-lhe narrativas depreciativas, tentativas de personificação e campanhas diretas de difamação”, explica-se no relatório.

Os períodos eleitorais são os contextos mais utilizados para campanhas de desinformação, assim como manifestações populares ou distúrbios, que são explorados para “alimentar perceções de caos, medo e desordem, geralmente contra administrações locais”.

“Momentos de elevada tensão e carga emocional são vistos pelos atores destas ameaças como vulnerabilidades que lhes permitem atingir os seus públicos-alvo, influenciar o seu raciocínio e amplificar preconceitos cognitivos existentes”, refere-se.

O SEAE ressalva que o relatório não deve ser “interpretado como exaustivo” em termos de ameaças de desinformação, uma vez que deriva de uma monitorização que não cobre “todas as regiões e línguas” e “só representa uma porção pequena das atividades destes atores”.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Rússia, Ucrânia e a Europa

Putin tem de compreender que não é a reencarnação de Alexandre Nevsky, nem o guardião mítico de uma fortaleza sitiada por inimigos medievais. A história não se repete sob a forma de epopeia defensiva permanente, e o século XXI não é um campo de batalha contra mongóis, suecos ou hordas napoleónicas. O terror nazi pertence ao passado histórico europeu, por mais traumático que tenha sido, e a Pátria russa não está hoje sob ameaça existencial.
Os russos têm de reconhecer que existe algo chamado direito internacional, construído precisamente para impedir que os traumas históricos se transformem em guerras preventivas. As fronteiras reconhecidas dos Estados não são sugestões geográficas: são garantias jurídicas da estabilidade global. A sua violação não é acto defensivo; é ruptura da ordem internacional.
Mas também os europeus têm responsabilidades. Devem compreender que os povos da grande mãe Rússia carregam traumas históricos profundos — invasões, cercos, devastação — que moldaram uma cultura estratégica de suspeita e defesa. Ignorar essa memória colectiva é um erro político. A estabilidade exige não apenas firmeza jurídica, mas também inteligência estratégica e capacidade de reduzir percepções de ameaça.
Nesse sentido, a Europa deve agir com prudência, evitando transformar a segurança do continente numa escalada permanente de blocos militares. Segurança não se constrói apenas com expansão de alianças, mas com arquitectura de confiança e previsibilidade.
Por fim, importa sublinhar que eventuais problemas internos da Ucrânia — incluindo fenómenos políticos extremistas — pertencem à esfera soberana dos ucranianos. Nenhum país pode invocar fragilidades internas de outro como pretexto para intervenção armada. A autodeterminação não é selectiva.
Seria tão simples — se a história não fosse permanentemente instrumentalizada, e se o medo deixasse de ser argumento.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

“Chega de mortes. Chega de destruição”: ONU diz que guerra na Ucrânia é “uma mancha na nossa consciência coletiva”



A subsecretária-geral da ONU, Rosemary DiCarlo, apelou, no Conselho de Segurança das Nações Unidas, ao fim da guerra na Ucrânia, num momento em que os esforços diplomáticos permanecem bloqueados e o número de vítimas pode aproximar-se dos dois milhões.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Guess how many times world leaders mentioned climate change in Davos?

Zero.
This is not an opinion. It is a fact.
Across the 2026 World Economic Forum, the main special addresses from Trump, Carney, Merz, von der Leyen, Zelenski, and Macron amounted to almost four hours of speaking time.
In those four hours:
Not once was climate change or global warming mentioned.

Let that sink in.
These speeches are revealing. Not because of what was said, but because of what was carefully avoided. They show, in plain sight, what currently ranks as urgent for the political elite and what does not

This is exactly why We Don’t Have Time was present in Davos
While climate disappeared from the main stage, we did the opposite. Together with our partners GreenUp and the Davos Climate Hub, we broadcast more than 40 hours of live climate content, reaching over 15 million people worldwide.

At a time when many leaders and companies are actively avoiding the word climate, our role becomes even more critical. The climate crisis will not disappear just because the political climate has hardened.

Standing up for facts, science, and what is right now takes more courage than ever.
The Alternative WEF speech

From left: Carlos Nobre – Climate scientist, former President of CAPES (Brazil), leading expert on Amazon tipping points | Paul Polman – Former CEO of Unilever | Sandrine Dixson-Declève – Honorary Co-Chair, Club of Rome | Johan Rockström – Director, Potsdam Institute for Climate Impact Research. 

That silence did not go unanswered.
Just before President Trump’s address, an alternative WEF speech was delivered in Davos by some of the world’s leading scientists and systems thinkers. The speech was not on the official agenda of the World Economic Forum. It was not permitted on the public square either.

So we found another place. Quite literally, the only available space was a pile of snow.

From there, climate reality was addressed head-on.

While much of Davos had President Trump’s speech top of mind, this moment may prove to be the one history remembers: scientists standing up for facts, for evidence, and for what is right, even when it was inconvenient, even when there was no official stage.

Broadcast globally on We Don’t Have Time, Sandrine Dixson-Declève, Johan Rockström, Carlos Nobre, and Paul Polman presented a clear alternative to the economic and political model on display in Davos.

Their message was unambiguous: the old system is a dead end.

Every year, trillions are lost to climate and ecological breakdown. This is not the cost of progress, but the cost of delay. Their “giant leap” scenario shows that investing just 1–2 percent of global GDP in climate action and nature restoration can generate tenfold returns in economic, social, and environmental value.

They challenged the idea that prosperity can be measured by GDP alone. A viable economy must ensure that every child has enough to eat, every worker can live without fear, and every society can thrive within planetary boundaries. Continued fossil-fuel expansion offers no path forward.

This was not a protest. It was not theatre. It was a science-based intervention, delivered from the margins at a moment when silence had become the norm.

Everyone at We Don’t Have Time who helped make this possible is proud to have stood up for science when it mattered.

If this speech matters to you too, help it travel.
Download the video and share it on your own social media so more people can see what science actually says about our future.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

A riqueza dos 12 mais ricos já ultrapassa a de metade da humanidade


Um novo recorde de desigualdade: 12 pessoas concentram mais riqueza do que metade da humanidade



A concentração extrema de riqueza voltou a atingir um novo máximo. As 12 pessoas mais ricas do mundo detêm hoje mais dinheiro do que a metade mais pobre da humanidade — cerca de quatro mil milhões de pessoas — segundo um relatório divulgado este domingo pela Oxfam, no arranque do Fórum Económico Mundial, em Davos.

Em 2025, a riqueza dos multimilionários cresceu mais de 16%, um ritmo três vezes superior à média dos últimos cinco anos, atingindo um total de 15,7 biliões de euros, o valor mais elevado alguma vez registado. Só no último ano, a riqueza conjunta deste grupo aumentou 2,1 biliões de euros — um montante que, segundo a organização, seria suficiente para erradicar a pobreza extrema 26 vezes.

O número de multimilionários ultrapassou pela primeira vez a fasquia dos 3.000. No topo da hierarquia surge o empresário norte-americano Elon Musk, que se tornou o primeiro indivíduo a acumular uma fortuna pessoal superior a meio bilião de dólares (cerca de 430 biliões de euros).

A dimensão do desequilíbrio é ilustrada por outro dado: a riqueza acumulada pelos multimilionários no último ano permitiria entregar 250 dólares a cada habitante do planeta, mantendo ainda assim intacto um património conjunto de 430 mil milhões de euros entre os mais ricos.

“A riqueza dos multimilionários aumentou 81% desde 2020”, sublinha a Oxfam, num contexto em que “uma em cada quatro pessoas no mundo não tem o suficiente para comer regularmente” e quase metade da população vive em situação de pobreza.

Intitulado "Resistir ao Domínio dos Ricos: Proteger a Liberdade do Poder dos Bilionários", o relatório analisa a crescente influência política dos super-ricos e o modo como moldam regras económicas e institucionais em benefício próprio. Os Estados Unidos surgem como um dos exemplos centrais desta dinâmica.

A Oxfam associa a aceleração da concentração de riqueza à administração de Donald Trump, apontando uma agenda favorável aos bilionários: cortes fiscais para grandes fortunas, recuo nos esforços internacionais de tributação das multinacionais, enfraquecimento do combate ao poder monopolista e um forte impulso aos mercados ligados à inteligência artificial, que beneficiaram sobretudo os grandes investidores.

Ainda assim, a organização sublinha que o fenómeno não é exclusivo dos Estados Unidos. O relatório identifica sinais semelhantes noutras geografias, alertando para o risco de as oligarquias económicas estarem a corroer as democracias e a ampliar desigualdades sociais à escala global.

Perante este cenário, a Oxfam defende que os governos avancem com planos nacionais para reduzir as disparidades entre ricos e pobres, incluindo impostos sobre grandes fortunas, medidas para limitar o poder económico excessivo e regulamentação que proteja a independência dos meios de comunicação social.

O relatório é divulgado no mesmo dia em que arranca o Fórum Económico Mundial, que decorre até sexta-feira sob o lema “O espírito do diálogo” e reúne líderes políticos, empresariais e institucionais num contexto marcado por tensões geopolíticas e incerteza económica.

Entre os participantes confirmados estão o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump — que regressa presencialmente a Davos pela primeira vez desde 2020 —, o Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, seis dos sete líderes do G7, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, a presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, e cerca de 850 líderes empresariais de todo o mundo.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Conselho Europeu chega a acordo para apoio de 90 mil milhões à Ucrânia



90 mil milhões para mais guerra. Uma loucura de dinheiro que vai sair do sangue dos cidadãos contribuintes europeus. O que se contará no final será mais destruição e morte de inocentes.

Este «postal de Natal» em forma de caricatura denuncia o pior de nós humanidade. Mais uma vez enfeitamos o presépio de hipocrisia e de malvadez como se fossem valores ou gestos humanizados e humanizantes.

Dizem-nos que não há dinheiro para a saúde, para a educação, para vencer a pobreza e a fome que ainda há neste mundo, mas na hora da verdade, como que por obra de um milagre, passa a haver dinheiro para armas, guerras e outras malvadezes de seres humanos contra seres humanos.

Eu deixei de gostar menos do natal não por aquilo que dele recebo, renovação da vida e da criação inteira, mas pelo que a rama que o Natal suscita de vazio quer em palavras quer em gestos para a ocasião só para ficar bem na imagem e no contexto folclórico que nos rodeia.

Eu queria ser otimista, mas a realidade não me permite, só apenas o sonho ideal do Natal me oferece alguma esperança.

Enfim, pensemos no quanto nos vai custar este valor astronómico que os líderes europeus «pariram» neste Natal, 90 mil milhões para armas e mais guerra.


quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Segurança energética: soluções para os desafios atuais


A energia é fundamental no nosso quotidiano, permitindo o funcionamento da sociedade e da economia. Mas o acesso à energia não é algo garantido.

A Europa tem reduzido a sua dependência dos combustíveis fósseis russos desde a invasão em grande escala da Rússia na Ucrânia em 2022, estando agora a tratar de a eliminar completamente. Outros desafios incluem a transição progressiva para as fontes de energia renovável e a necessidade de conectar e proteger as infraestruturas energéticas.

Reduzir a dependência energética, principalmente da Rússia
Em 2025, a UE ainda importa 60% da sua energia, incluindo 90% do seu gás e 97% do seu petróleo, bem como combustível nuclear. Uma situação que pode vir a implicar riscos de interrupções no abastecimento e pressão externa, especialmente por parte da Rússia.

É por isso que a UE está a esforçar-se para retirar os combustíveis fósseis russos do seu cabaz energético. Uma nova lei aprovada pelo Parlamento em dezembro de 2025 proíbe as compras de gás natural liquefeito russo para entrega imediata na UE e será diretamente aplicável assim que o regulamento entrar em vigor no início de 2026, enquanto as importações de gás por dutos deverão ser progressivamente eliminadas até 30 de setembro de 2027.

Durante as negociações com o Conselho, o Parlamento também garantiu um compromisso da Comissão Europeia de apresentar legislação no início de 2026 para proibir todas as importações de petróleo russo, de modo a que uma proibição efetiva possa entrar em vigor antes do final de 2027.

As importações de gás da Rússia (gás canalizado e gás natural liquefeito combinados) diminuíram de mais de 40% do total das importações da UE em 2021 para menos de 19% em 2024. Estas importações foram substituídas por fornecimentos provenientes de fontes mais fiáveis, por energia produzida internamente, ou tornaram-se desnecessárias devido à redução do consumo. A quota das importações de petróleo russo também encolheu de 27% no início de 2022 para 3% em 2024.

Aumentar a energia renovável gerada na UE
Desde 2014, o uso da energia eólica quase duplicou e o da energia solar mais do que triplicou na UE. As renováveis forneceram 45% da eletricidade consumida no bloco em 2023.

No entanto, problemas na rede elétrica levaram ao desperdício de 12 terawatts-hora de energia renovável (o equivalente ao consumo médio de eletricidade de aproximadamente 3,3 milhões de famílias da UE durante um ano). É por isso que os eurodeputados insistem no aumento dos investimentos para expandir e modernizar as redes elétricas.

O Parlamento pede também apoio a tecnologias emergentes, como a energia geotérmica e o biometano.
A UE tem como objetivo atingir uma quota de energia renovável de pelo menos 42,5% no consumo total de energia até 2030. O Parlamento apelou a uma cooperação mais estreita e a uma implementação mais rápida dos projetos renováveis para cumprir estas metas.

Melhorar a eficiência energética
Poupar energia é uma das melhores formas de reduzir a dependência de abastecimentos energéticos externos. A resolução do Parlamento salientou que a procura de energia na UE caiu 20% entre 2006 e 2023, graças aos esforços de eficiência.

No entanto, o consumo energético proveniente de centros de dados e tecnologias digitais aumentou de forma acentuada. O Parlamento apelou a políticas mais claras e apoio para reduzir este crescimento. Também pediu melhores medidas de poupança de energia em casas e indústrias para diminuir a procura e evitar sobrecargas na rede.

Prevenir falhas no abastecimento de energia
A resolução alertou que, se não houver energia de reserva suficiente, picos súbitos na procura ou interrupções no fornecimento poderão causar grandes apagões e prejudicar a economia.

O Parlamento referiu que poderá ser necessária uma capacidade extra de 100 GW até 2035 para garantir fiabilidade, segurança energética e redução de custos, e ressaltou que esta capacidade deverá provir de fontes energéticas diversificadas.

Proteger a infraestrutura energética contra ataques
O Parlamento manifestou preocupação com o aumento dos ciberataques e dos incidentes de sabotagem física que ameaçam a infraestrutura energética, especialmente as linhas transfronteiriças, cabos submarinos e ligações a parques eólicos offshore.

Foi pedido um reforço da proteção e uma cooperação mais estreita entre os países da UE, a Comissão Europeia e as agências da UE. As autoridades devem também trabalhar em conjunto com as empresas privadas para garantir o fornecimento de eletricidade e apoiar a segurança nacional.

A resolução destacou a necessidade de controlos obrigatórios de cibersegurança em pequenos dispositivos energéticos ligados à internet, pois podem ser vulneráveis a ciberataques.

Reforçar a solidariedade entre os países da UE
O Parlamento sublinhou que a segurança energética exige solidariedade, pois ações nacionais unilaterais podem desestabilizar o sistema mais amplo. Com base nisso, apelou aos países da UE para coordenarem projetos de infraestruturas e respostas a emergências.


Armazenar gás suficiente para enfrentar interrupções
Em julho de 2025, o Parlamento aprovou também um regulamento sobre o armazenamento flexível de gás, que visa garantir que os países da UE armazenem gás a preços acessíveis para cobrir períodos frios ou interrupções no abastecimento.

A legislação foi inicialmente adotada em 2022, na sequência da invasão em grande escala da Rússia na Ucrânia, em meio a preocupações de que a Rússia poderia usar o fornecimento de gás como instrumento de pressão sobre a UE.

As alterações de 2025 na legislação introduzem maior flexibilidade na forma como os países da UE podem cumprir as regras. Em vez de terem que atingir uma meta de enchimento dos armazéns de gás de 90% até 1 de novembro de cada ano, os países podem atingir o mesmo objetivo de 90% em qualquer momento entre 1 de outubro e 1 de dezembro. Isto deverá resultar em menos especulação e preços mais baixos nos mercados do gás.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Transportna - Mariupol


Inside Mariupol: The Ruins of Putin's Fury

20 days in Mariupol - realizado pelo prestigiado jornalista Mstyslav Chernov

Mariupol, cidade portuária no sudeste da Ucrânia, tornou-se um dos casos mais devastadores da invasão russa iniciada em fevereiro de 2022. Logo nos primeiros dias do conflito, a cidade foi cercada e submetida a bombardeamentos constantes que destruíram grande parte das suas infraestruturas, incluindo hospitais, escolas e bairros residenciais. A população civil ficou sem acesso a água potável, eletricidade, alimentos e cuidados médicos, vivendo durante semanas em condições humanitárias extremas. Estima-se que dezenas de milhares de civis tenham morrido, embora os números exatos permaneçam incertos devido ao bloqueio e à destruição generalizada. Durante o cerco, um dos episódios mais marcantes foi o bombardeamento do Teatro Dramático de Mariupol, que servia de abrigo para centenas de pessoas e estava claramente sinalizado como contendo crianças. Os últimos defensores ucranianos, incluindo combatentes do Regimento Azov, refugiaram-se na vasta siderúrgica Azovstal, onde resistiram em túneis e instalações subterrâneas durante semanas até serem finalmente cercados e obrigados a render-se em maio de 2022. Desde então, Mariupol permanece sob controlo russo, embora continue a ser reconhecida internacionalmente como território ucraniano ocupado. A cidade, agora profundamente marcada pela destruição e pela perda de vidas, tornou-se símbolo do enorme impacto humano e material da guerra.

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

A peste negra


Vai-me custar muito não voltar a ver Nova Iorque, o Inverno em Nova Iorque, o Thanks Giving, a árvore de Natal do Rockefeller Center, o Calatrava no Ground Zero, as iluminações e as montras de Natal na 5ª Avenida, os almoços na varanda interior da Central Station, os jantares no Village, ou a Frick Collection, um museu à dimensão de que eu gosto. Mas é assim a vida, estou velho para visitar ditaduras ou ver apodrecer por dentro a civilização em que fui baptizado, não me apetece ser recebido numa fronteira de aeroporto por um polícia de fuzil de guerra apontado, como se turista fosse igual a terrorista, e menos ainda acabar deportado para El Salvador ou Guantánamo, onde podem acabar todos os estrangeiros ilegais ou desalinhados com a loucura MAGA. Trump acaba de declarar os antifascistas terroristas e tornou claro, no funeral de Charlie Kirk, que, “ao contrário dele, eu odeio os meus adversários”. J. D. Vance, esse crânio da intelectualidade de direita, convidou os empregadores, os colegas e os vizinhos a denuncia­rem esses antipatriotas, para que o FBI e o desemprego se ocupem deles. O Supremo Tribunal Federal cauciona o despedimento de funcionários públicos por estritas razões políticas e inventou a teoria de que a Justiça não pode, invocando o desrespeito pela Constituição, contrariar o programa político de um Presidente eleito — o que significa o fim da separação de poderes, a morte da Justiça e a inutilidade da Constituição. Tudo substituído por uma ditadura unipessoal de um ser, talvez humano, mas doentiamente perturbado, que fez das suas características conhecidas — soberba, ganância material e crueldade — todo um programa político para consumo interno e exportação planetária. A História já viu semelhante e não foi assim há tanto tempo.

Em tempos normais, num mundo regulado pelos valores em que fomos educados, era impensável o que está a acontecer à América. E também era impensável ver a Europa ser humilhada sistematicamente, com o discurso ofensivo de J. D. Vance em Munique, a Dinamarca a ser ameaçada com uma invasão da Gronelândia, Von der Leyen a ser destratada nos domínios escoceses de Trump e depois a assinar a capitulação total da Europa na guerra comercial desencadeada por ele (o descaramento com que o homem nos manda comprar armas e petróleo aos seus amigos americanos em troca de nada) — e, no fim de tudo isto, ver os nossos líderes a rastejar aos pés do “aliado” americano. Zelensky, humilhado em directo por Trump e o seu acólito presidencial, engoliu tudo e respondeu com elogios, súplicas e agradecimentos; Mark Rutte, o secretário-geral da NATO, encaixou a suprema vergonha de ver Trump revelar o conteúdo de uma missiva privada onde o elogiava ao melhor estilo dos subordinados de Estaline; ou o “grupo das boas vontades”, ou lá como se chama, ostensivamente ignorado por Trump nos seus diálogos com Putin, ir em excursão a Washington pedir para serem escutados sobre a guerra na Europa.

Mas a maior humilhação auto-infligida por alguma nação europeia aos pés do ditador americano foi, para mim, a recepção que a Corte e o Governo inglês reservaram ao rei Donald. Duvido que em vida de Isabel II tivesse sido possível assistir aos dois dias em que a velha Inglaterra, pátria da democracia e dos direitos do Homem, se ajoelhou, com pompa nunca antes vista, perante o homem que está a matar a democracia americana e a exportar para o mundo inteiro uma peste negra que aqui costuma ter o nome de fascismo. A Inglaterra que, após sucessivos desastres na escolha de um PM capaz — incluindo o actual Keir Starmer, uma espécie de amiga política —, se prepara para ver chegar ao poder Nigel Farage, o amigo e admirador de Trump, a quem os ingleses devem a saída da União Europeia. E mesmo este ‘aristo-fascista’ é desafiado ainda mais à direita por um ‘hooligan-fascista’, Tommy Robinson, capaz de levar 100 mil pessoas a manifestarem-se contra os imigrantes na cidade de Londres, que Trump descreveu como “irreconhecível” (apesar de cautelosamente a ter evitado na sua visita real). Desgraçadamente, os líderes europeus, que parecem entusiasmados com a eventualidade de uma guerra com a Rússia e que se dão ao luxo de desprezar a China, ainda não perceberam que o maior inimigo da Europa actualmente são os Estados Unidos da América de Donald Trump e J. D. Vance. E o perigo não é apenas a chantagem a que Trump submete a Europa a vários níveis: é o contágio, cada vez mais amplo, que aqui encontra a sua pregação, assente na prevalência dos interesses dos brancos, ricos e poderosos. Quanto mais tempo a Europa demorar a preparar-se para enfrentar o verdadeiro perigo — no comércio, na energia, na ciência, no clima, nos oceanos, na cultura e na ideologia — mais irreversível será a caminhada para o desaparecimento do mundo e do modo de vida em que fomos criados e educados.

A receita de Trump para a liquidação das democracias e do Estado de Direito é hoje uma espécie de manual de conduta de toda a extrema-direita mundial: dos nostálgicos do fascismo ou do nazismo, dos que gostam de ser mandados por “homens fortes”, ou dos que simplesmente não têm nada mais em que acreditar nem descortinam outro canto mais adequado onde se abrigarem. Todos acreditam na expulsão dos imigrantes das suas terras como solução única para a economia e a sociedade, todos consideram a esquerda como um inimigo a exterminar, todos já decidiram que os políticos das democracias são corruptos sem remissão, todos assimilam as “verdades” prontas-a-vestir que lhes servem e que os dispensam de uma alternativa que lhes daria muito mais trabalho: cultivar-se, informar-se, ouvir os outros (não é por acaso que só 12% dos votantes do Chega têm estudos superiores e 56% não concluíram o ensino secundário). E, consequentemente, todos dispensam o trabalho de procurar a verdade, assim como pouco lhes importam as mentiras constantes dos seus profetas, por mais obtusas que sejam (como as mais de 1500 viagens presidenciais de Marcelo, contabilizadas por André Ventura).

Alguns espíritos mais compreensivos ou modernos sustentam que a responsabilidade por esta onda galopante do populismo de extrema-direita é da esquerda e dos erros da esquerda. Sem dúvida que a esquerda cometeu e continua a cometer erros imperdoáveis, como a suprema imbecilidade do movimento woke, a defesa da autoflagelação histórica das nações com História ou as propostas económicas congeladas na análise marxista de há 150 anos. Mas nada disso seria suficiente para derrubar as democracias. O que derruba as democracias é a sua fragilidade natural — e a esquerda não é responsável por isso. A democracia é o mais frágil dos sistemas políticos, porque exige informação, formação, cultura, debate e capacidade de ouvir e dar razão ao outro, alternância de poder. E, sobretudo isto, um grande consenso social acerca da crença nestes valores e o amor à liberdade como valor primeiro. Mas assim como não é certo que o homem seja por natureza um animal bom, também não é certo que ele aspire por natureza a ser livre. A peste negra explora em proveito próprio o pior do ser humano, individual e socialmente considerado. A missão daqueles que querem continuar a ser livres é fazer-lhe frente. Nada mais.

"A peste negra" - Miguel Sousa Tavares in "Expresso" de 25/09/2025

segunda-feira, 12 de maio de 2025

Paz efémera: um histórico dos cessar-fogos Rússia-Ucrânia



Desde a anexação ilegal da península ucraniana da Crimeia, em 2014, tem havido várias tentativas de dar um fim definitivo à guerra na Ucrânia, envolvendo tanto os apoiadores europeus do país quanto os Estados Unidos – sem qualquer sucesso.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, propôs uma nova rodada de negociações de cessar-fogo em Istambul nesta quinta-feira (15/05). O anúncio coincidiu com um novo ataque com drones a Kiev, dando fim à "trégua" de três dias declarada unilateralmente por Moscou.

Os líderes europeus recusaram a proposta de conversações diretas, enquanto ambas as partes do conflito não declarassem cessar-fogo incondicional. O presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, iniciamente apoiou essa proposta, mas decidiu participar das conversas em Istambul após o presidente dos EUA, Donald Trump, insistir que ele deveria fazer isso. Não está claro ainda se Putin irá ou se enviará um representante.

Nos últimos meses, os EUA vêm promovendo prolongadas negociações separadas com a Ucrânia e com a Rússia. Antes de ser eleito, Trump prometera dar fim ao conflito já em seu primeiro dia de presidência. Além de a promessa não ter se cumprido, as repetidas intervenções de Washington denotam um favorecimento dos interesses de Putin.

Apesar do insucesso em alcançar um cessar-fogo duradouro, desde o início da invasão russa da Ucrânia em larga escala em 2022 houve diversos acordos de curto prazo. Kiev e Moscou têm-se acusado mutuamente de violar tanto esses pactos quanto os cessar-fogos declarados unilateralmente.

Desde 1994, a Rússia já rompeu diversos pactos visando assegurar a existência da Ucrânia após a queda da União Soviética (URSS).

Memorando de Budapeste e Tratado de Amizade Russo-Ucraniano
O Memorando de Budapeste foi um acordo entre a Ucrânia e a Rússia, coassinado pelos EUA e o Reino Unido em 5 de dezembro de 1994. A condição fora Kiev concordar em entregar as armas nucleares que a Rússia herdara da URSS. Em troca, Moscou, Washington e Londres se comprometiam a "respeitar a independência e soberania e as fronteiras existentes" e "abster-se de ameaçar ou empregar força contra a integridade territorial e a independência política da Ucrânia".

Além disso, em 1997, o Tratado de Amizade, Cooperação e Parceria comprometia ambas as partes ao "respeito e confiança mútuos" e "respeitar a respectiva integridade territorial".

Ambos os pactos visavam prevenir um conflito entre as duas nações do Leste Europeu. Ao invadir e anexar a Crimeia, no Mar Negro, em fevereiro de 2014, e prosseguir invadindo e atacando território ucraniano, os russos violaram repetidamente seus compromissos sob o Memorando e o Tratado.

Acordos de Minsk
Dois acordos assinados em Bielorussia – país aliado da Rússia – e apoiado por potências europeias, que receberam o nome de sua capital, não bastaram para garantir a paz russo-ucraniana. Firmado em 5 de setembro de 2014, o Protocolo de Minsk (também denominado "Minsk I") continha 12 tópicos relativos à desescalada do recente conflito no leste da Ucrânia, mas fracassou dentro de alguns dias.

Em 12 de fevereiro de 2015 seguiu-se "Minsk II", em que as duas nações em conflito, as forças separatistas pró-russas das regiões ucranianas de Donetsk e Luhansk, e a Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) acordaram sobre 13 pontos. Seguiu-se um cessar-fogo imediato, porém poucas horas antes de a trégua entrar em vigor, russos e ucranianos já se acusavam mutuamente de violações.

Escalada em 2022 e cessar-fogos rompidos
Desde a invasão em larga escala pela Rússia, em 24 de fevereiro de 2022, diversos cessar-fogos de prazo curto foram instaurados e rompidos:
  • 6 de março de 2022: Breve cessar-fogo humanitário é cancelado em meio a notícias de bombardeio da cidade de Mariupol, no Mar de Azov.
  • 8 de março de 2022: Tentativas repetidas de formar corredores de evacuação humanitária redundam em acusações de que a Rússia estaria impedindo a passagem dos civis.
  • 7 de janeiro de 2023: Rússia decreta cessar-fogo unilateral para celebração do Natal ortodoxo. Poucas horas mais tarde, líderes ucranianos relatam a retomada dos bombardeios inimigos. Por sua vez, a imprensa estatal russa acusa a Ucrânia de ataques com drones contra posições militares.
  • 18 de março de 2025: Negociações entre EUA e Rússia na Arábia Saudita, em seguida a telefonema entre Trump e Putin, resultam em acordo de cessar-fogo de 30 dias para "energia e infraestrutura". Zelenski concorda com um cessar-fogo parcial alinhado com essas conversas.
  • 25 de março de 2025: No contexto de negociações lideradas pelos EUA, Ucrânia e Rússia concordam em suspender ofensivas no Mar Negro, uma rota de navegação vital.
  • 27 de março de 2025: Kiev e Moscou acusam-se mutuamente de violar, com ataques à infraestrutura, a trégua temporária de 18 de março.
  • 19 de abril de 2025: Supostamente por razões humanitárias, Putin declara "trégua de Páscoa" das 18h00 (12h00 em Brasília) de 19 de abril à meia-noite de 21 de abril. Ucrânia expressa cepticismo, o presidente Zelenski afirma que ataques com drones continuam. Mais tarde, ele alega que Rússia cometera milhares de violações ao longo do front.
  • 10 de maio de 2025: Rússia declara cessar-fogo unilateral em comemoração aos 80 anos da derrota da Alemanha nazi na Segunda Guerra Mundial. Contudo, a Ucrânia acusa o país de violar sua própria trégua 734 vezes.

quarta-feira, 5 de março de 2025

Portugal à deriva na tempestade


Os EUA nunca acreditaram, ao contrário da ignara arrogância de Bruxelas, que a máquina de guerra russa poderia ser derrotada no plano convencional. Como o secretário da Defesa L. Austin afirmou, logo em maio de 2022, o objetivo dos EUA era o de fazer “sangrar a Rússia”, enquanto Kiev tivesse capacidade para o fazer.
As grandes crises revelam os grandes líderes. Contudo, apenas quando os povos têm a sorte e a capacidade de os produzirem. A guerra da Ucrânia, que já entrou no seu quarto ano é, sem dúvida, a maior crise existencial de toda a história portuguesa, pois é a primeira vez que Portugal tem um governo que se deixou, com entusiástica estultícia, enrolar num confronto com a Rússia, totalmente contrário ao interesse nacional mais elementar, o salus populi suprema lex esto (seja a salvação do povo a lei suprema), imortalizado no De Legibus, de Cícero. Nem os fanáticos que queriam declarar guerra ao império britânico, na sequência do Ultimato de 1890, nem o furioso Afonso Costa, colocando Lisboa a ferro e fogo em maio de 1915 para enviar, por decisão unilateral, milhares de soldados analfabetos para a Flandres, se comparam à façanha do mesquinho consenso nacional que vai de António Costa a Rui Tavares, numa contemporânea demonstração da veracidade da tese de Unamuno que considerava ser Portugal um país de suicidas. O que continua em causa é a possibilidade de Portugal ser destruído num conflito total com a Rússia, o país com o mais poderoso e moderno arsenal nuclear do planeta.
Estamos a falar de acontecimentos vertiginosos, desde a chegada de Trump à Casa Branca. Vejamos, apenas, alguns das dimensões mais permanentes, neste quadro de incerta mudança.
Primeira. As negociações de paz, iniciadas por Trump com a Rússia, são boas notícias para os povos da Europa e do mundo. Afastam, pelo menos provisoriamente, o pior cenário, para onde estaríamos a rumar caso a linha de escalada bélica seguida por Biden tivesse prosseguido. Essas negociações, onde nem Zelensky nem a UE contam, revelam a justeza dos analistas, entre os quais me encontro desde sempre, que consideraram esta guerra como uma guerra de procuração (proxy war) dos EUA contra a Rússia, usando o território e o sangue ucranianos como instrumentos. Bruxelas protesta, porque Trump deixou cair o véu de Maia, a cortina ilusória, que fazia do apoio da UE à Ucrânia um assunto de direito internacional. Na verdade, tratava-se da prova de que os nossos governantes europeus não hesitam em sacrificar a qualidade de vida e a segurança dos seus povos, para servirem o império americano, e o seu desígnio persistente de fragmentar a Rússia.
O caso mais aberrante de autoflagelação europeia é o da Alemanha, quando o governo de Scholz tudo fez para manter a lealdade canina com Washington, imolando para isso a qualidade de vida e a saúde económica do seu próprio país.
Segunda. As perspetivas de “paz imperfeita”, mil vezes melhor do que a continuação do conflito, só foram possíveis, para além das mudanças em Washington, pela clara superioridade militar das forças convencionais russas, apesar da valentia das tropas ucranianas e das correntes inesgotáveis de material bélico recebido dos países da NATO ao longo destes três anos. Os EUA nunca acreditaram, ao contrário da ignara arrogância de Bruxelas, que a máquina de guerra russa poderia ser derrotada no plano convencional. Como o secretário da Defesa L. Austin afirmou, logo em maio de 2022, o objetivo dos EUA era o de fazer “sangrar a Rússia”, enquanto Kiev tivesse capacidade para o fazer. No cenário, altamente improvável, de as tropas de Kiev com o apoio de “voluntários” ocidentais se aproximarem de uma derrota das forças convencionais russas, Moscovo não se renderia. Faria o que a sua doutrina há décadas promulga: escalaria ao uso limitado do nuclear, para obrigar o inimigo a pensar duas vezes antes de prosseguir até à guerra total. Por outras palavras, a vitória convencional e limitada da Rússia, parece ter salvo os povos da Europa de serem vítimas da irresponsabilidade estratégica dos seus dirigentes.
Terceira. A paz que está a ser negociada só poderá ser duradoura se se traduzir num tratado que defina as regras do jogo no sistema internacional europeu, pretensão que a Rússia sempre perseguiu, mesmo desde os tempos de Gorbachev. Há, contudo, dois obstáculos no caminho. Por um lado, aquilo que prevalece no discurso europeu (com apoio da administração Trump) é a ideia de a UE fazer da corrida armamentista o novo objetivo estratégico (rasgando e substituindo o famoso Pacto Ecológico, onde a minha derradeira credulidade se esgotou). A Rússia jamais permitirá que uma nova guerra seja preparada à sua vista, sem nada fazer. Por outro lado, Trump está a jogar perigosamente não só com os seus aliados, mas também com o próprio aparelho de Estado federal e com alguns dos poderosos interesses nele instalados. Considero bastante provável que um atentado contra Trump, desta vez bem-sucedido, possa desencadear uma segunda guerra civil americana, cujas consequências são totalmente imprevisíveis.
Quarta. Só um milagre poderia impedir as forças centrífugas dentro da UE de prevalecer. Não sei quanto tempo ainda teremos antes de este edifício, cheio de fissuras, nos tombar sobre a cabeça. A zona Euro, totalmente dependente de Wall Street e da Reserva Federal, irá contribuir para que governos e povos fiquem paralisados à espera do pior. Curiosamente, os furiosos governos anti-russos do Leste da Europa, darão, provavelmente, lugar a novos governos favoráveis à colaboração com Moscovo. A UE será a grande vítima da guerra da Ucrânia. Os insensatos que em Bruxelas abraçaram uma política totalmente oposta às realidades históricas e geopolíticas da Europa, serão, pelo menos, testemunhas do imperdoável caos em que nos fizeram mergulhar. 
(In Jornal de Letras, 5.3.2025)

segunda-feira, 10 de junho de 2024

Europa: Reinvenção ou subjugação

«Leituras para compreender a Europa em perigo» é o titulo de um artigo na Babelia, o suplemento cultural do El País (nenhum jornal português tem um suplemento cultural) — e começa com uma declaração do escritor Jean-Baptiste Andre, vencedor do último prémio Goncourt (em Portugal nenhum escritor, premiado ou não, é ouvido sobre o mundo que o cerca e que é matéria de reflexão nos seus romances) — diz o escritor: Estamos à beira de um regresso da extrema direita. Não deveria surpreendermos neste tempo que a História tende a repetir-se . A pergunta é, portanto, a de sabermos se é possível detê-la ou não.

A cerimónia dos 80 anos do desembarque na Normandia diz-nos que já estamos no reino da extrema-direita. Quer o nazismo quer o fascismo são interpretações do mundo que justificam o poder de um dado grupo. Assentam sempre numa interpretação da História, isto é, na reescrita da História de um povo ou de um grupo para o tornar virtuoso e com direito a impor a sua virtude a todos os outros. A extrema-direita assume-se senhora dos Valores, do Bem, da Verdade, da Superioridade. As Cruzadas, a Colonização, o Colonialismo são a materialização dessa mistificação que tem origem no conceito de Povo Eleito. O discurso do presidente americano Joe Biden, em 2024, em França, repete o discurso de Ronald Reagen há quarenta anos a 6 de Julho de 1984: A América a terra da Liberdade, da defesa da Liberdade contra a tirania. O direito da América intervir em qualquer parte e contra quem quer que seja para impor a Liberdade. A afirmação de que a América é a herdeira da Terra Prometida, que o modo de vida americano é a suprema aspiração dos povos. O Fim da História. Os Superiores têm o direito de impor os seus valores!

O novo machartismo
A “mensagem” da América como paraíso final justifica todas as intervenções. Mesmo que os “pastores” da religião americana levantem muralhas contra os que ali querem entrar. Quem não acreditar na “mensagem” é herege e está fora da ordem, da Igreja, do Povo Eleito. O sociedade da exclusão e do totalitarismo, que é a dos Estados Unidos, teve o seu ponto alto com a doutrina do Macarthismo — a prática de acusar alguém de subversão ou de traição. Um termo originalmente cunhado para descrever a campanha anticomunista promovida pelo senador republicano Joseph McCarthy, nos anos 50. O macarthismo serviu para acusar milhares de americanos de serem comunistas ou simpatizantes, que foram objetos de agressivas investigações e de inquéritos abertos pelo governo ou por indústrias privadas baseados em evidências inconclusivas e questionáveis. Muitos perderam os empregos e/ou tiveram as carreiras destruídas; alguns foram presos.

O machartismo teve a cumplicidade ativa de muitos fazedores de opinião, artistas e jornalistas — incluindo Reagan, um denunciante que chegou a Presidente! — que promoveram a histeria da verdade única e denunciaram aqueles que não seguiam os mandamentos, que não se incorporavam no rebanho. (Hoje basta abrir as Tvs e ver os macthartistas militantes).

Quarenta anos passados estamos de regresso ao machartismo. A Normandia foi um festival de radicalismo: nós e eles. O perigo está do lado de lá. Denunciemos e ataquemos. Não pensemos. Principalmente: não pensem, Não pensem que a Liberdade que o Ocidente — a Terra do Bem — defende é a Liberdade que só no século passado, em nome da Liberdade, manteve a segregação racial mesmo nos exércitos: nos Estados Unidos havia unidades brancas e negras e se as negras sofreram muito mais baixas, ainda assim foram impedidas de desfilar no dia da vitória em Paris, assim como as tropas africanas ao serviço da França, que ocuparam o sul, e que também não desfilaram. O racismo em nome da Liberdade. Os negros eram inferiores. Nos Estados Unidos as leis de segregação racial mantiveram-se até aos anos 60. Também em nome da Liberdade. E, em nome da Liberdade, os Estados Unidos apoiaram as ditaduras sul-americanas, no Brasil, na Argentina, na Bolívia, na Republica Dominicana, na Nicarágua, no Uruguai, no Chile, isto até aos anos 80. E também em nome da Liberdade dos povos e da democracia, os Estados Unidos e a Inglaterra derrubaram um presidente eleito na Pérsia e substituíram-no por um títere seu vassalo, o Xá Rheza Phalevi, e invadiram o Iraque e o Afeganistão e destruíram a Sérvia.

São estes conceitos de Liberdade e Democracia que fizeram de Zelensky a figura principal das celebrações do Dia D de 2024! O exemplo a seguir de marioneta que tem conseguido encobrir os neonazis verdadeiros executores da política da Ucrânia e da guerra em nome da Liberdade americana.

A Democracia e a Liberdade de Salazar para os americanos
A opção dos Estados Unidos por “democratas convenientes e talhados à medida”, de que Pinochet será o exemplo mais evidente, é antiga e tem sido continuada. Nós, os portugueses, quando ouvimos falar na defesa da Liberdade e Democracia devíamos ter alguém que nos recordasse a História. Após o final da Segunda Guerra, em 1947 ocorreu em Portugal a mais séria tentativa de implantação de uma democracia europeia com o golpe que ficou conhecido pela «Abrilada de 47», conduzida pelo general Marques Godinho e pelo doutor João Soares. O golpe abortou, o general acabou por morrer na prisão, porque os ingleses preferiram manter Salazar no poder do que correr o risco de, num futuro governo democrático puderem fazer parte comunistas, ou aparentados, mesmo que eleitos. E a defesa da liberdade e da democracia em Portugal, por parte dos ingleses e dos americanos também foi uma bela falácia com a entrada de Portugal como membro fundador da NATO ( a Aliança do Mundo Livre), apenas porque os Açores eram bases importantes para os democratas.

Os 80 anos do desembarque da Normandia mostraram a face mais hipócrita e radical dos que se assumem pastores universais e aspergem os povos com juras de Liberdade, como qualquer demagogo atiram confétis e rebuçados às crianças miseráveis. Sobre a Liberdade da Palestina é que nem uma palavra. Israel é um campeão desta Liberdade que foi aviltada na Normandia. A extrema direita estava lá. A questão não é detê-la, mas extirpá-la.