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terça-feira, 10 de março de 2026

What are the world’s deadliest animals, and can we protect ourselves against them?

O artigo explica que, embora tenhamos medo de tubarões ou lobos, os animais que mais matam humanos são os mosquitos (cerca de 700.000 a 1 milhão de mortes/ano por doenças) e as cobras. O gráfico do Our World in Data mostra que o risco real está muito mais ligado à exposição a doenças e parasitas do que a ataques diretos de grandes animais.

One and a half million people are killed by animals every year. Almost one million by other animals, and more than half a million from direct conflict among ourselves.

Almost all of these deaths from other animals are caused by just two types: mosquitoes and snakes.

In the chart above, we’ve brought together estimates of the number of people killed by different animals.

These numbers are estimates, and some come with significant uncertainty. That’s why we’ve published a detailed methodology explaining our sources and how they compare. Despite this uncertainty, we feel confident about the relative orders of magnitude across different animals.1

The biggest killers, by far, are mosquitoes. They have been one of our biggest threats for millennia, and still kill approximately 760,000 people every year.2 Over 80% of those deaths are the result of malaria, which is transmitted and spread by the Anopheles mosquito. Malaria still kills close to half a million children every year.

Another 100,000 people die every year from other mosquito-borne diseases, including dengue fever and yellow fever (spread by the mosquito species Aedes aegypti) and Japanese encephalitis.

Almost all deaths from other animals are caused by just two types: mosquitoes and snakes.

Snakes are one of the most common phobias, and you can see why. They are the second largest killers. The death toll from venomous snakes is surprisingly uncertain, as many of these deaths occur in rural areas where death records are often poor.3 But the figure is likely to be around 100,000 deaths per year. That means snakes kill more than all animals below them on the list combined.4

Most of those remaining deaths are caused by dogs, the animals that humans have grown to love as domesticated pets. The majority are due to rabies, rather than direct wounds.

Near the bottom of the list, we reach the animals that dominate our nightmares — sharks and wolves. They make for gripping headlines and blockbuster films. But in reality, shark and wolf attacks are very rare.

Of course, they don’t kill fewer people because they’re less dangerous. We’d rather be locked in a room with a mosquito than a lion. The real difference is exposure: it’s much easier to avoid large predators than it is to avoid disease-carrying insects and parasites.5

The good news is that most deaths from animals — especially the largest killers — are preventable. We have bednets and insecticide sprays to reduce exposure to mosquitoes, and medication to treat malaria if someone does become infected. New techniques, such as the Wolbachia method, have been developed to stop the spread of dengue fever. Antivenoms can often save someone from a potentially fatal snakebite.6

The problem is that not everyone has access to these preventive and treatment methods when they need them.7 If these small killers received the same global attention as large predators, more effort might go into stopping them. That is one reason why these comparisons are useful: as a reminder of what people are actually dying from, and where the most lives could be saved.There are other diseases — in particular, neglected tropical diseases — that could also be dramatically reduced with better access to treatment.

In many regions, deaths from mosquitoes have decreased dramatically. Malaria was once prevalent in countries that are now free of it. If we could achieve this in all parts of the world, the number of deaths caused by other animals would be almost six times smaller.8

If we were to also eliminate deaths from snakes through the use of antivenoms and better diagnostics, the death toll would be again reduced by almost two-thirds.9


Methodology

terça-feira, 4 de junho de 2024

A coevolução é a força motriz da biodiversidade na Terra


A coevolução é a força motriz que gera a biodiversidade na Terra, explicando o facto de existirem milhões de espécies diferentes, de acordo com um novo estudo conduzido pela Universidade Nacional Australiana (ANU).

A coevolução ocorre quando espécies em estreita interação conduzem a mudanças evolutivas umas nas outras e pode levar à especiação – a evolução de novas espécies – mas até agora as provas eram escassas.

Uma equipa de investigadores da ANU, da CSIRO, da Universidade de Melbourne e da Universidade de Cambridge pôs esta ideia à prova ao estudar a corrida ao armamento evolutiva entre os cucos e as aves hospedeiras em cujos ninhos depositam os seus ovos.

Pouco depois de o pinto do cuco eclodir, ele empurra os ovos do hospedeiro para fora do ninho. O hospedeiro não só perde todos os seus próprios ovos, como passa várias semanas a criar o cuco, o que lhe consome um tempo precioso quando poderia estar a reproduzir-se.

Os cucos são muito dispendiosos para os seus hospedeiros, pelo que estes desenvolveram a capacidade de reconhecer e ejetar as crias de cuco dos seus ninhos”, afirmou a autora principal do estudo, a Professora Langmore da ANU.

“Apenas os cucos que mais se assemelham às crias do hospedeiro têm alguma hipótese de escapar à deteção, pelo que, ao longo de muitas gerações, as crias de cuco evoluíram para imitar as crias do hospedeiro”, acrescentou.

Cada espécie de cuco bronzeado tem uma aparência muito semelhante à das crias do seu hospedeiro, enganando os pais do hospedeiro para que aceitem o cuco.

O estudo mostra como estas interações podem provocar o aparecimento de novas espécies; quando uma espécie de cuco explora vários hospedeiros diferentes, diverge geneticamente em linhagens separadas, cada uma das quais imita as crias do seu hospedeiro preferido.

As diferenças marcantes entre as crias das diferentes linhagens de cucos-bronze correspondem a diferenças subtis na plumagem e nos chamamentos dos adultos, que ajudam os machos e as fêmeas especializados no mesmo hospedeiro a reconhecerem-se e a emparelharem-se.

O estudo revelou que a coevolução é mais suscetível de conduzir à especiação quando os cucos são muito onerosos para os seus hospedeiros, conduzindo a uma “corrida ao armamento coevolutiva” entre as defesas do hospedeiro e as contra-adaptações do cuco.

Uma análise em larga escala de todas as espécies de cucos revelou que as linhagens mais dispendiosas para os seus hospedeiros têm taxas de especiação mais elevadas do que as espécies de cucos menos dispendiosas e os seus parentes não parasitas.

“Esta descoberta é significativa para a biologia evolutiva, mostrando que a coevolução entre espécies que interagem aumenta a biodiversidade ao impulsionar a especiação”, afirmou Clare Holleley, bióloga evolutiva da CSIRO e coautora do estudo.

A capacidade de efetuar esta investigação demorou muitos anos a concretizar-se.

“Um passo fundamental foi o nosso avanço na extração de ADN de cascas de ovos em coleções históricas e a sua sequenciação para estudos genéticos”, acrescentou Holleley.

“Em seguida, combinámos duas décadas de trabalho de campo comportamental com a análise do ADN de espécimes de ovos e aves conservados em museus e coleções”, concluiu.

A investigação foi publicada na revista Science por uma equipa de autores da Universidade Nacional Australiana, CSIRO, Universidade de Melbourne e Universidade de Cambridge.

sábado, 12 de agosto de 2023

These animal interactions are risks for future pandemics


The analysis calls for tightening existing regulations and implementing new ones in order to prevent zoonotic-driven outbreaks.

The report is the first to comprehensively map networks of animal commerce that fuel zoonotic disease risk in the US. It analyzes 36 different animal industries, including fur-farming, the exotic pet trade, hunting and trapping, industrial animal agriculture, backyard chicken production, roadside zoos, and more, to assess the risks each poses of generating a large-scale disease outbreak.

The report states, far from being a problem that only exists elsewhere, many high-risk interactions between humans and animals that happen routinely and customarily inside the US could spark future pandemics. All of the animal industries the report examines are far less regulated than they should be and far less than the public believes they currently are. Today, wide regulatory gaps exist through which pathogens can spillover and spread, leaving the public constantly vulnerable to zoonotic disease.

“COVID has infected more than 100 million Americans and killed over a million of them. But the next pandemic may be far worse and might happen sooner than we think. The stakes are simply too high for the problem to be ignored,” says Ann Linder, one of the report’s lead authors and a research fellow with the Brooks McCormick Jr. Animal Law and Policy Program at Harvard Law School.

The immense and increasing scale of animal use in the United States makes the country uniquely vulnerable to zoonotic outbreaks. For example, the US is the largest importer of live wildlife in the world, importing more than 220 million wild animals a year, many without any health checks or disease testing.

The US also produces more livestock than almost any other nation. In 2022, the US processed more than 10 billion livestock, the largest number ever recorded. Yet, the USDA does not regulate on-farm production of livestock. At slaughterhouses inspections are cursory, with each inspector tasked with examining more than 600 animals per hour for signs of disease.

The US is one of the world’s largest producers of pigs and poultry, two important carriers of influenza viruses—viruses that scientists believe are most likely to produce a large-scale human pandemic.The largest avian influenza outbreak in US history is currently ongoing and has left 58 million poultry dead since it began in 2022. The virus has spread to several species of mammals in the US and has infected a man in Colorado. Even a slight shift in the viruses’ composition could allow it to move rapidly through human populations.

The US also has recorded more “swine flu” infections than any other country since 2011. Most of these infections occurred in children exhibiting pigs at state and county fairs, which attract 150 million visitors each year and have given rise to multistate outbreaks of influenza. Despite this, animal fairs remain largely unregulated.

In addition, the people most vulnerable to zoonotic disease in the US are those who work hands-on with farmed animals. Such jobs tend to be disproportionately staffed by people of color and those in rural communities who may be the least likely and the least able to report disease or seek medical care.

Studies estimate that swine workers have a 30 times greater risk of zoonotic influenza infection than the general public, but these viruses have the potential to spread far beyond livestock workers. The CDC estimates the 2009 “swine flu” hospitalized over 900,000 Americans.

Live animal markets in the US (elsewhere called “wet markets“), where animals are stored alive and slaughtered onsite for customers, also pose serious disease risks. New York City alone is home to at least 84 live animal markets.A detailed study of pigs in two live animal food markets in Minneapolis found high rates of influenza viruses not only in and on the animals but also in the air and on surfaces throughout the market.

A shocking 65% of workers at the market tested positive for influenza during the 12-week study, as did a 12-year-old customer who became sick after touching the railings of a pig pen and one of the animals.

Wildlife also poses significant risk. Hundreds of millions of live wild animals are imported into the US each year, many without ever being looked at by anyone. Only scant and incomplete information exists about these animals, where they are originating, and where they go after they arrive. For example:The $15 billion US exotic pet trade brings high-risk species of wildlife into American homes, initiating close human-animal interactions that serve as potential flashpoints for spillover of zoonotic disease—with roughly 14% of American households owning one or more exotic animal from among hundreds of species that range from monkeys to monitor lizards.

Animals carrying zoonotic disease are sold through legal channels such as pet stores without health checks or veterinary oversight, as well as through the black market.
Some exotic animal dealers keep more than 25,000 wild animals together at a single facility, often in poor conditions that facilitate disease spread, before they are shipped off to customers across the country.

During a major mpox outbreak, which originated in one of these facilities after it received a shipment of exotic animals from overseas, CDC agents were not able to track down a large number of infected prairie dogs that had been sold through pet stores and swap meets.

Even lesser-known animal industries in the US pose serious risks to human health. Crocodile farms have facilitated the spread of West Nile Virus to humans and mink in fur farms have transmitted COVID-19 to humans.

Still, many industries that generate risk are loosely regulated or not regulated at all. Policy change is often reactive, the report explains, happening only after outbreaks occur. Rarely, it says, do agencies take proactive steps to address zoonotic risk, even when they are aware of the danger to the public. For many industries, the government lacks even basic data and has no system to screen animals for disease or to identify zoonotic threats proactively. In some industries, government action actually drives zoonotic risk and increases human exposure to pathogens.

“While zoonotic risks cannot be eliminated, they can be managed and reduced in ways that make all of us safer. But we need to look them in the eye. The risks that these markets present have been ignored or downplayed for far too long,” says Dale Jamieson, director of New York University’s Center for Environmental and Animal Protection.

This US report is being released ahead of a larger global policy report overseen by the same researchers from Harvard Law School’s Brooks McCormick Jr. Animal Law & Policy Program and New York University’s Center for Environmental and Animal Protection. The full report, which will be released later this year, examines global policy responses to live animal markets in 15 countries and the role these markets play in zoonotic disease transmission. The project aims to provide a comprehensive assessment that will assist global policymakers and increase public awareness of the dangers posed by zoonotic diseases.

Source: NYU

terça-feira, 4 de julho de 2023

Estrela de penas (Feather stars)

Estrela de penas - já os tinha visto? Estão por aí nos oceanos há cerca de 200 milhões de anos, tratando-se de um fóssil vivo. O movimento e as cores da estrela de penas são definitivamente espetaculares!


Investigação: aqui

sexta-feira, 12 de maio de 2023

O pensamento económico de Amartya Sen: a fome, a biologia e a política


Hoje, dei por mim a reler Amartya Sen: "Starvation is the characteristic of some people not having enough food to eat. It is not the characteristic of there being not enough food to eat". Recomendo vivamente a leitura do livro "Hunger and Public Action" (e-livro disponível aqui). Em especial, pp. 95-102.
A análise de Amartya Sen sobre a fome influenciou fundamentalmente a minha compreensão da justiça económica, ambiental e reprodutiva. As pessoas não passam fome porque não há comida suficiente para muitos pobres. É porque a sociedade está estruturada para privá-los de comida.
Ex: A fome da batata na Irlanda (A Grande Fome Irlandesa)

Daniel MacDonald (c.1847) - An Irish Peasant Family Discovering the Blight of their Store

A Grande Fome irlandesa de 1845-1849 foi um evento de suma importância para a formação da Irlanda moderna, assim como das classes trabalhadoras da Inglaterra e Estados Unidos. A fome que atingiu a ilha não foi somente uma recorrente crise de subsistência – tão comum em economias e sociedades pré-capitalistas -, mas, ao contrário, foi engendrada pela colonização inglesa e, além disso, foi parte essencial do processo de industrialização capitalista inglês. Nesse sentido, esse artigo busca defender a tese de que a causa estrutural da fome irlandesa pode ser encontrada no modelo colonial aplicado pela Inglaterra, que possuía três pilares principais: a transformação da economia irlandesa em exportadora de matérias-primas e alimentos, a existência de um mercado de terras via arrendamentos e a solidificação de uma economia interna de subsistência baseada na produção da batata.

Há um famoso ditado popular mexicano, atribuído ao ditador Porfirio Díaz, que sintetiza, de modo genial, a relação do país latino-americano com o seu vizinho do norte: “Pobre México, tan lejos de Dios y tan cerca de Estados Unidos”. Essa relação entre, de um lado, uma potência capitalista industrial e, do outro lado, os seus vizinhos empobrecidos e atrasados não foi nenhuma novidade do imperialismo norteamericano. A Inglaterra, muito antes, já havia posto os povos das Ilhas Britânicas para trabalhar em favor do seu próprio desenvolvimento capitalista, cabendo a maior parte do ônus desse processo para a rural, agrária e camponesa Irlanda. Nesse sentido, dentro desse contexto, uma das principais consequências do modelo colonial inglês aplicado na ilha foi a Grande Fome de 1845-1849 – segundo Eric Hobsbawm a “maior catástrofe humana da história europeia”[1] ocorrida durante a primeira metade do século XIX (1789-1848).

O modelo colonial inglês aplicado na Irlanda possuía três pilares principais: a) a transformação da economia irlandesa em exportadora de commodities (sobretudo grãos) para abastecer o mercado interno inglês, isto é, nesse sentido, produzir alimentos para uma crescente população urbana e matérias-primas para a emergente indústria inglesa – além da exportação de uma força de trabalho barata e numerosa; b) a existência de um mercado de terras (via arrendamentos) e o parcelamento da propriedade agrária; c) uma economia camponesa de subsistência voltada à produção da batata como alimento principal de consumo da maioria da população irlandesa – a economia da batata.

A revolução industrial inglesa teve como principal consequência para a Irlanda um reforçamento da ruralização[2] e a especialização na exportação de commodities, assim como a desurbanização e o declínio da produção manufatureira interna[3] (que possuía um importante e tradicional setor têxtil), ou seja, enquanto a Inglaterra se industrializava, a Irlanda passava por um processo de “desindustrialização”[4], que ocorria em favor do desenvolvimento econômico inglês. Evidentemente que o estabelecimento de uma economia primário-exportadora, como observam Marx e Engels, atendia aos interesses da burguesia industrial ingl­esa (mais interessados na mão de obra barata e numerosa) e sobretudo de uma parte dos landlords (grandes latifundiários ingleses) que possuíam terras na Irlanda. Nesse sentido, as Leis dos Cereais (Corn Laws) de 1815, que buscavam restringir a importação de grãos, uma importante vitória política dos landlords[5], significou para a Irlanda quase que uma situação de monopólio na exportação de cereais para a Inglaterra[6] – embora a maior parte dos lucros desse intercâmbio fossem para os próprios latifundiários ingleses.

Na reestruturação da divisão internacional do trabalho que ocorreu com o advento da revolução industrial, a Irlanda posicionou-se como uma economia subalterna: exportadora de alimentos, matérias-primas e trabalhadores e importadora de produtos industriais. Assim, de um lado, enquanto, ao mesmo tempo, a Irlanda teve um papel fundamental no desenvolvimento industrial inglês (não somente por ter sido o celeiro da Inglaterra, mas sobretudo devido à exportação de mão de obra barata[7]), em outras termos, na acumulação capitalista inglesa, de outro lado, ocorria o seu processo de desacumulação de capitais e perpetuação do seu subdesenvolvimento e periferização ou, como prefiro, do atraso econômico. Esse era, afinal, o sentido da colonização inglesa[8]. Segundo Engels:

A Inglaterra havia de tornar-se a ‘oficina do mundo’; todos os outros países haviam de tornar-se para a Inglaterra aquilo que a Irlanda já era: mercados para os seus bens manufacturados, fornecendo-lhe em troca matérias-primas e alimentos. A Inglaterra, o grande centro manufactureiro de um mundo agrícola, com um número sempre crescente de Irlandas cerealíferas e algodoeiras girando à volta dela, o Sol industrial[9]

Uma peculiaridade do modelo colonial inglês em relação à outras formas de colonização reside no fato de que havia um mercado de terras e o predomínio do parcelamento rural. Os landlords possuíam a propriedade das terras e as alugavam à arrendatários irlandeses que, por sua vez, subarrendavam para arrendatários ainda menores que faziam o mesmo[10], assim o parcelamento da terra e o predomínio de pequeníssimos lotes (cerca de menos de 5 acres) eram a norma do regime agrário. Como consequência, a concorrência entre esses pequenos arrendatários fazia com que os preços das rendas fossem muito altos[11], diminuindo, assim, o investimento em cultivos agrários e rebaixando o padrão de vida dos irlandeses.

Mas por trás desse regime agrário e do aumento populacional – ocorrido desde o início do século XIX –, estava o desenvolvimento de uma economia de subsistência voltada à produção da batata (a economia da batata)[12]. A batata havia sido introduzida na Irlanda em 1586, mas somente no final do século XVIII havia se generalizado na economia irlandesa. O cultivo da batata era relativamente simples, requeria pouca força de trabalho e bastava uma pequena superfície para produzir uma boa quantidade, além disso o seu consumo diário, aliado ao leite, era o suficiente para manter um estado de saúde tolerável[13].

Os ingleses haviam imposto aos irlandeses o abandono dos antigos métodos e cultivos tradicionais e a utilização de métodos modernos de cultivo agrário baseado na fertilização através do guano peruano – que aumentaram a produtividade, embora enfraquecessem imunologicamente as batatas[14]. Além disso, a produção da batata era favorável aos interesses dos ingleses na medida que “não exauria o solo e ainda permitia que uma grande porcentagem da terra fosse voltada para o plantio de grãos que seriam exportados para a Inglaterra”[15]. Nesse sentido, a unidade produtiva camponesa padrão (pequenos lotes) era dividida em dois setores principais: um setor destinado à subsistência, com predomínio ou totalidade do cultivo da batata, e outro setor destinado à produção de commodities para a Inglaterra. A adoção da batata e a maior produtividade agrária teve como consequência o aumento demográfico (em 1791, um pouco mais de 4 milhões; em 1821, entorno de 7 milhões; em 1845, mais de 8 milhões[16]) que, por sua vez, estimulava os landlords a concederem mais arrendamentos cada vez menores, visando os lucros de exportação e das rendas.

A consequência do modelo colonial inglês na Irlanda (economia primário-exportadora, mercado de terras e economia da batata) era a perpetuação e o reforçamento do atraso económico e o pauperismo camponês generalizado[17]. Em 1845, a batata havia se tornado o único alimento sólido de 4 entre 10 habitantes da ilha, e cerca de 1/3 de toda a população apenas consumia batata[18]. Nesse contexto, “as más colheitas e as doenças das plantações na metade da década de 1840 forneceram apenas o pelotão de fuzilamento para um povo já condenado”[19]!

A Grande Fome irlandesa de 1845-1849 foi, antes de mais nada, uma crise de subprodução alimentícia, algo que era crónico no país, ocorrendo constantemente desde o século XVIII[20], isto é, a fome era sistémica na Irlanda. Sendo assim, a fome da década de 1840 foi apenas a intensificação de um fenómeno recorrente na história da Irlanda colonizada, embora dessa vez tenha atingido o país em sua totalidade e com um “custo humano” muito maior. A causa imediata, além das más colheitas de 1845 e anos subsequentes, foi o fungo Phytophthora infestans – que havia surgido na América do Norte e se espalhado na Europa continental[21] –, responsável pelo apodrecimento precoce das batatas, mais fracas imunologicamente e com baixa variação genética[22]. Em 1845, talvez se tenha plantado cerca de 2,1 milhões acres de batata, do qual cerca de metade ou ¾ foram destruídos pelo fungo[23].

Por outro lado, a principal causa da catástrofe foi a colonização inglesa[24] que, além de explorar a população a partir da dinâmica das rendas e da exportação de commodities e material humano, forçava a economia irlandesa à monocultura – tanto internamente (economia da batata), quanto externamente (economia primário-exportadora) –, além disso atuava contra o desenvolvimento econômico do país na medida que acabava com qualquer alternativa industrial da Irlanda, inclusive destruindo com a sua tradicional produção têxtil. A lógica do sistema colonial se atesta se levarmos em consideração que durante quase todo o período da Grande Fome a exportação de alimentos para a Inglaterra permaneceu, com preços em média de 100.000 libras esterlinas mensais[25]. A colonização inglesa foi, pelo menos nesse período, a verdadeira responsável pelo pauperismo irlandês!

As consequências da Grande Fome de 1845-1849 foram de suma importância para a posterior história irlandesa. Em primeiro lugar, a população da ilha, que em 1845 era maior que 8 milhões, diminuiu para cerca de 6 milhões. Tradicionalmente, a partir de fontes “grosseiras”, se há afirmando que 1 milhão de pessoas morreu diretamente como decorrência da fome (doenças e desnutrição), enquanto outro milhão emigrou para outros países, majoritariamente de tradição anglófona – somando, assim, um descenso de dois milhões de pessoas. Esses dados são muito questionáveis e se baseiam sobretudo nos censos de 1841 (que indicava uma população de 8,2 milhões) e 1851 (que indicava entorno de 6,5 milhões), em contrapartida o “custo humano” e, como consequência, os prejuízos para o desenvolvimento econômico-social são irrefutáveis – a população persistira diminuindo e só voltaria a crescer novamente em meados do século XX, nunca mais atingindo 8 milhões.

Em relação à emigração, muitos irlandeses – essa força de trabalho fundamental para a industrialização inglesa – se dirigiram à tradicional emigração para Inglaterra (cerca de 750 mil, entre 1845-1855[26]), contudo outros irlandeses preferiram principalmente os demais países de tradição anglófona: entre 1841-1850 (sem contar a Grã-Bretanha), 70% emigrou para os Estados Unidos, 27.9% para o Canadá, 1.8% para a Australásia (sobretudo Austrália e Nova Zelândia); na década seguinte, 1851-60, 81% para os EUA, 9.7% para o Canadá, 8.3% para a Australásia. A emigração para os EUA foi significativa: entre 1841-1850, 908,292 irlandeses; 1851-60, 989,880; 1861–70, 690,845; 1871–80, 449,549; 1881–90, 626,604; 1891–1900, 427,301. Enquanto que, na década de 1841-1850, o Canadá atingiu o seu ápice com 362,738 emigrantes e a Australásia, na década 1851-1860, com 101,541[27]. Assim como na Inglaterra, nos Estados Unidos os irlandeses desempenharam um papel fundamental na emergente indústria norte-americana: serviram como mão de obra não-qualificada, ao mesmo tempo que rebaixavam os salários e competiam com os trabalhadores negros[28]. Pode-se dizer, sem exageros, que pauperismo irlandês foi um dos pilares fundamentais do desenvolvimento económico inglês e norte-americano.

Uma das principais consequências da Grande Fome, que possui relações com a própria história da Inglaterra, foi a revogação das Leis dos Cereais, em 1846[29]. A revolução burguesa na Inglaterra, ocorrido em meados do século XVII, havia estabelecido a dominação conjunta de classe dos landlords junto à emergente burguesia inglesa[30] – primeiro, dos setores mercantis, mais tarde, dos setores manufatureiros-industriais. Com o advento da revolução industrial e da sociedade burguesa, a burguesia dominava cada vez mais a sociedade, e a preponderância política dos landlords ia enfraquecendo. Nesse contexto, as Leis dos Cereais de 1815 significaram uma importante vitória política para aristocracia rural, na medida que lhe dava uma parte dos lucros do gigantesco desenvolvimento econômico inglês, decorrente da transformação industrial. Contudo, durante o século XIX, o enfraquecimento dos landlords era notório: a reforma eleitoral de 1832 foi um dos aspectos mais sintomáticos desse processo.

A burguesia industrial buscava impor completamente uma política económica livre-cambista, mas dentro se seu próprio país havia um grande empecilho: as Leis dos Cereais. Nesse sentido, essa legislação protecionista que já era muito criticada pelos setores burgueses, ganhou uma forte oposição durante a crise agrícola de 1845-46, já que a imposição da economia primário-exportadora havia levado a Irlanda a uma catástrofe alimentícia. Evidentemente que a burguesia industrial inglesa não pretendia, em nenhum sentido, acabar com a fome na Irlanda[31] – visto que lhe beneficiava em relação à mão de obra irlandesa –, mas sim acabar com o monopólio dos landlords na produção de commodities, já que eram praticamente obrigados a comprar os grãos encarecidos da Irlanda e Grã-Bretanha, e, com isso, tinham seus lucros diminuídos – tanto por pagarem maiores salários, quanto pela compra das matérias-primas. Assim, a revogação das Leis dos Cereais, em 1846, significou a vitória da burguesia industrial inglesa e da sua política livre-cambista e a derrota dos landlords, dos setores burgueses ligados à especulação e do protecionismo[32].

Para a Irlanda, as consequências do fim do monopólio das commodities também foram importantes. Num primeiro momento, a perda do mercado inglês fez com que aqueles camponeses que ainda não haviam caído totalmente no pauperismo ficassem impossibilitados de pagar as rendas, assim sendo expulsos de seus arrendamentos. A fome irlandesa que havia acelerado o processo de revogação do Corn Laws, dialeticamente, foi intensificada pelo fim do monopólio irlandês. A consequência estrutural para a economia irlandesa foi o fim da economia da batata e uma mudança de direcionamento na economia primário-exportadora, cada vez mais especializada na bovinocultura, ovinocultura[33] e exportação de aveia. Com o descenso populacional e com as mudanças produtivas (os novos cultivos eram menos produtivos e requeriam mais força de trabalho que a batata), o parcelamento da terra diminuiu e ocorreu o processo de concentração dos arrendamentos e propriedades rurais[34].

O estado inglês, de fato, buscou apaziguar o problema da fome a partir do assistencialismo público (a ampliação da Lei dos Pobres, Irish Poor Laws, para a Irlanda já havia ocorrido em 1838) e de um programa de obras públicas, principalmente de construção de estradas. Embora a Irlanda tenha se beneficiado mais tarde da infraestrutura criada nesse período, não houve imediatamente um avanço econômico e o ônus decaiu totalmente sobre os empobrecidos camponeses, que eram obrigados a pagarem impostos maiores. Além disso, os salários pagos aos trabalhadores eram extremamente baixos, inclusive abaixo do gasto calórico necessário para esse tipo de atividade. Em 1847, essas obras contavam com cerca de 735 mil operários e havia cerca de dois mil comitês de assistência pública pelo país[35].

A Grande Fome foi a consequência da imposição à Irlanda, pela colonização inglesa, de uma economia voltada para o mercado externo e, ao mesmo tempo, dependente internamente da monocultura da batata. A Irlanda, que como vimos, desempenhou um importante papel na acumulação de capitais inglesa, não passou despercebida por Marx e Engels. Em várias de suas obras[36], os fundadores do materialismo histórico dedicaram-se a estudar tanto o papel subalterno da economia irlandesa, quanto à importância, supracitada nesse trabalho, da força de trabalho dos irlandeses no desenvolvimento industrial inglês. Além disso, os acontecimentos na Irlanda também fizeram parte da desenfreada luta de classes entre a burguesia liberal e os landlords e a consequente vitória, como afirmou Marx, do partido do livre comércio inglês.

Notas

[1] HOBSBAWM, E. A Era das Revoluções 1789–1848. São Paulo: Paz e Terra, 2015 [1962]. p. 170.

[2] SPECK, W. A. História Concisa da Grã-Bretanha. São Paulo: EDIPRO, 2013. p 67.

[3] “Sob Guilherme III, chegou ao poder uma classe que tinha como único objetivo o lucro, e a indústria irlandesa foi suprimida com o objetivo de forçar a Irlanda a vender suas matérias-primas para a Inglaterra a qualquer preço […] A União deu o tiro de misericórdia nas possibilidades de renascimento da indústria irlandesa […] toda vez que a Irlanda estava prestes a desenvolver sua indústria, ela foi esmagada e reconvertida em uma terra meramente agrícola” In: MARX, K. Proyecto de una conferencia sobre el problema irlandés. Dictada el 16 de diciembre de 1867 en la asociación cultural de trabajadores alemanes en Londres [1867]. In: MARX, K.; ENGELS, F. Imperio y colonia. Escritos sobre Irlanda. Ciudad de México: Siglo XXI Editores, 1979. p. 154-170.

[4] “Exceto no nordeste (Ulster), o país tinha de há muito sido desindustrializado pela política mercantilista do governo britânico colonialista e, mais tarde, pela competição da indústria britânica” In: HOBSBAWN, 1962, op. cit., p. 170. O termo “desindustrialização” deve ser usado com cuidado nesse caso, já que na Irlanda o que existia era a produção manufatureira e artesanal e não, de fato, uma indústria moderna com a utilização do maquinário movido a carvão.

[5] ENGELS, F. Prefácio à Edição Inglesa de 1892 de «A Condição da Classe Operária em Inglaterra». Marxist.org, 1892. 

[6] MARX, 1867, op. cit., p. 164.

[7] “O rápido desenvolvimento da indústria britânica não teria sido possível se a Inglaterra não dispusesse de uma reserva – a numerosa e pobre população da Irlanda” In: ENGELS, F. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. São Paulo: Boitempo, 2010 [1845]. p. 131.

[8] Ver: PAULA, P. G. Marx e a formação da periferia do mercado mundial capitalista: o caso irlandês. Esquerda Online, 06 de agosto de 2015. 

[9] ENGELS, 1892, op. cit., s/p.

[10] ENGELS, 1845, op. cit., p. 304; MARX, 1867, op. cit., p. 163; HOBSBAWM, 1962, op. cit., p. 170; SPECK, 2013, op. cit., p. 68.

[11] “Os aluguéis aos proprietários no início da década de 1840 representavam algo na ordem de 25-30 por cento da produção agrícola” In: BIELENBERG, A. The Irish Economy, 1815–1880. In: KELLY, J (org.). The Cambridge History of Ireland. Cambridge: Cambridge University Press, 2018. Volume 3: 1730–1880. p. 316.

[12] Marx, em 1861, escreveu: “O que a batata foi para a agricultura irlandesa, o algodão é para o ramo dominante da indústria da Grã-Bretanha” In: MARX, K. From The Crisis in England. Marxist.org, 1861. 

[13] RANELAGH, J. O. Historia de Irlanda. Madrid: Ediciones Akal, 2014. p. 162.; STATE, P. A Brief History of Ireland. New York: Facts On File, 2008. p. 184-185.

[14] GUIMARÃES, E. A. M. Agricultura industrial, commodities, cacau, mandioca e batatas. In: Scientiarum Historia IX, 2016, Rio de Janeiro. Livro de Anais do Scientiarum Historia IX. Rio de Janeiro: UFRJ, 2016.; MANN, C. C. 1493: uncovering the new world Columbus created. New York: Alfred A. Knoff, 2011.

[15] “O povo irlandês conseguia cultivar grandes quantias de batatas nutritivas com as quais alimentavam suas famílias e seus animais. Já os latifundiários ingleses se beneficiavam do fato de que o plantio de batatas não exauria o solo e ainda permitia que uma grande porcentagem da terra fosse voltada para o plantio de grãos que seriam exportados para a Inglaterra” In: THORNTON, M. O que causou a grande fome da Irlanda? Mises Brasil, 2014 [1998]. 

[16] Ver: GURRIN, B. Population and Emigration, 1730–1845. In: KELLY, J (org.). The Cambridge History of Ireland. Cambridge: Cambridge University Press, 2018. Volume 3: 1730–1880.

[17] Eric Hobsbawm enxergou a causa estrutural da Grande Fome na contradição entre o aumento populacional (consequência direta da economia da batata) e o atraso econômico: “Uma simples inovação técnica — a substituição pela batata dos tipos anteriormente prevalecentes de agricultura — tornara possível um grande aumento da população, pois um acre de terra plantado com batatas pode alimentar muito mais gente do que um acre dedicado a pasto ou outros tipos de cultura. A demanda dos proprietários de terra por um número máximo de rendeiros que lhes proporcionassem dividendos e também, mais tarde, por uma força de trabalho para cultivar as novas fazendas que exportavam alimentos para o crescente mercado britânico encorajou a multiplicação de minúsculas propriedades. […] durante o século XVIII e princípios do século XIX, a população se multiplicou nestas faixas de terra, vivendo à base de 10-12 libras peso de batata por dia para cada pessoa e — pelo menos até a década de 1820 — à base de leite e de um pedaço ocasional de peixe; uma população cuja pobreza não tinha paralelo na Europa Ocidental. Visto que não havia emprego alternativo — pois a industrialização estava excluída — o resultado dessa evolução era matematicamente previsível. Quando a população tivesse crescido até os limites do último pedacinho de terra plantado de batatas haveria uma catástrofe” In: HOBSBAWM, 1962, op. cit., p. 170.

[18] MANN, 2011, op. cit., p. 302.; RANELAGH, 2014, op. cit. p. 162.

[19] HOBSBAWM, 1962, op. cit., p. 170.

[20] “A fome já havia atingido a Irlanda muitas vezes. Em 1740-1741, estima-se que 400.000 a 500.000 morreram por causa da praga da batata (uma taxa quase tão alta quanto em 1845-1849). Durante o século XIX, antes de 1845, houve fomes em 1807, 1817, 1821-1822, 1830-1834, 1836 e 1839. No entanto, embora sempre tenha sido acompanhada de morte e emigração, a perda da safra de batata e a fome sempre foi localizado” In: RANELAGH, 2014, op. cit., p. 163. “A Irlanda conheceu falhas de batata (Potato Failure) antes – houve 14 pragas parciais ou completas de 1816 a 1842 e várias no século XVIII, notadamente o Bliain an áir (o ano do abate) em 1740-41” In: STATE, 2008, op. cit., p. 185. “Escassez de alimentos atribuível ao fracasso da safra de batata ocorreu em 1817, 1822, 1831,1835-7, 1839 e 1842, com muito pior para vir entre 1845 e 1849, quando a fome se alastrou por vários anos com consequências devastadoras” In: BIELENBERG, 2018, op. cit., p. 337.

[21] STATE, 2008, op. cit., p. 185.

[22] Ver: A Monocultura e a Grande Fome Irlandesa da Batata: Casos de falta de variação genética. USP, s/d. In: https://evosite.ib.usp.br/relevance/IIAmonoculture.shtml.

[23] MANN, 2011, op. cit., p. 301-302.

[24] Mesmo um economista liberal, ligado à escola austríaca, salienta a importância da colonização inglesa na Grande Fome irlandesa: “A Irlanda foi devastada pelas forças económicas originadas por um dos mais poderosos e agressivos estados que o mundo já conheceu. A sua população sofreu não por causa de um fungo (cujos cientistas ingleses insistiam ser apenas humidade excessiva), mas sim por causa da colonização, da espoliação, da servidão, do protecionismo, dos preços artificialmente altos sustentados pelo governo, do assistencialismo estatal e de insensatos programas de obras públicas” In: THORNTON, 1998, op. cit., s/p.

[25] RANELAGH, 2014, op. cit. p. 168.

[26] RANELAGH, 2014, op. cit. p. 171.

[27] KENNY, K. Irish Emigration, 1845–1900. In: KELLY, J (org.). The Cambridge History of Ireland. Cambridge: Cambridge University Press, 2018. Volume 3: 1730–1880. p. 1062-1063.

[28] “O papel dos imigrantes irlandeses, que desenvolveram rapidamente um novo monopólio sobre a mão-de-bra não-qualificada na indústria da construção e do emprego fabril, nesse período, em renhida competição com os negros americanos, revelou-se especialmente importante nesse aspecto” In: WOLF, E. A Europa e os Povos sem História. São Paulo: Editora da USP, 2005 [1982]. p. 435.

[29] MARX, 1867, op. cit., p. 165; NÉRÉ, J. A Inglaterra das grandes reformas (1815-1867). In: IDEM. História Contemporânea. DIFEL: São Paulo, 1981. p. 126.; SPECK, 2013, op. cit., p. 72-73.; MARX, 1861, op. cit., s/p.

[30] Ver: MARX, K.; ENGELS, F. Revolução do século XVII na Inglaterra: “Por que a Revolução na Inglaterra teve sucesso?”: uma crítica do panfleto de Guizot. Marxist.org, 1850.

[31] Engels foi bem “objetivo” ao classificar a atuação dessa classe social: “desconheço uma classe tão profundamente imoral, tão incuravelmente corrupta, tão incapaz de avançar para além do seu medular egoísmo como a burguesia inglesa – e penso aqui na burguesia propriamente dita, em particular a liberal, empenhada na revogação das leis sobre os cereais. Para ela, o mundo (inclusive ela mesma) só existe em função do dinheiro; sua vida se reduz a conseguir dinheiro; a única felicidade de que desfruta é ganhar dinheiro rapidamente e o único sofrimento que pode experimentar é perdê-lo” In: ENGELS, 1845, op. cit., p. 307.

[32] “A revogação das Corn Laws foi uma vitória do capitalista manufactureiro, não apenas sobre a aristocracia fundiária, mas também sobre aquelas secções de capitalistas cujos interesses estavam mais ou menos ligados com o interesse fundiário — banqueiros, especuladores com acções [stock-jobbers], detentores de fundos [fund-holders], etc. Livre-Câmbio significava o reajustamente de toda a política interna e externa, comercial e financeira, da Inglaterra em consonância com os interesses dos capitalistas manufactureiros — a classe que agora representava a nação” In: ENGELS, 1892, op. cit., s/p.

[33] “Entre 1855 e 1866: 996,877 cabeças de gado (bovino, ovino e suíno) substituíram a 1,032,694 de irlandeses” In: MARX, 1867, op. cit., p. 169. Os dados quantitativos utilizados por Marx são questionáveis (baseados em relatórios oficiais da época), mas a interpretação é correta.

[34] RANELAGH, 2014, op. cit., p. 171.; MARX, 1867, op. cit., p. 165-169.

[35] THORNTON, 1998, op. cit., s/p.; RANELAGH, 2014, op. cit. p. 168.; STATE, 2008, op. cit., p. 183-185.

[36] Ver: MARX, K.; ENGELS, F. Imperio y colonia. Escritos sobre Irlanda. Ciudad de México: Siglo XXI Editores, 1979.

domingo, 12 de fevereiro de 2023

'Uma ameaça crescente para a saúde humana': estamos mal equipados para os perigos das infecções fúngicas

Cerca de 2 milhões de pessoas morrem por ano como resultado de um grupo central de fungos, e a OMS está preocupada por não estarmos preparados para o futuro.


O ano é 2003, e uma espécie de fungo Cordyceps passou de formigas para humanos, transformando seus hospedeiros em zumbis frenéticos e sedentos de sangue que espalham a infecção para todos que mordem. A solução proposta por uma importante micologista em Jacarta, na Indonésia, onde foram detectados os primeiros casos, é radical, mas, a seu ver, essencial: bombardear a cidade inteira e todos os que estão nela para interromper o contágio. , comumente conhecido como “fungo formiga-zumbi”, a se adaptar para sobreviver em temperaturas mais altas, tornando os humanos um hospedeiro alternativo.

O roteirista e produtor Craig Mazin – que também nos deu a minissérie de Chernobyl – defendeu a premissa do programa, explicando que tudo o que sugere que os fungos fazem, eles já fazem e vêm fazendo desde sempre – incluindo sequestrar o cérebro das formigas e obrigá-las a propagar seus esporos dos assassinos. Outros fungos já podem produzir efeitos que alteram a mente em humanos (pense em cogumelos mágicos).

The Last of Us se passa 20 anos após a civilização moderna ter sido destruída por uma infecção fúngica. Fotografia: HBO/Warner Media

The Last of Us ainda é muito ficção científica, mas há muitos outros motivos para se preocupar com fungos. As infecções fúngicas já matam cerca de 2 milhões de pessoas por ano – mais do que a tuberculose ou a malária – e o número está crescendo. Os fungos também estão se tornando cada vez mais resistentes ao pequeno número de tratamentos disponíveis, e há muito poucas alternativas em andamento. O mundo estava relativamente despreparado para uma pandemia viral quando a Covid atingiu, mas pelo menos os cientistas já estavam desenvolvendo vacinas contra o coronavírus. Não existem vacinas humanas contra fungos.Em outubro, a Organização Mundial da Saúde divulgou sua lista de patógenos fúngicos prioritários, o primeiro esforço global para criar uma lista micológica “mais procurada” dos 19 fungos mais perigosos para os seres humanos. “Apesar de representar uma ameaça crescente à saúde humana, as infecções fúngicas recebem muito pouca atenção e recursos globalmente”, disse o relatório. “Tudo isso torna impossível estimar a carga exata de infecções fúngicas e, consequentemente, dificulta a galvanização de políticas e ações programáticas”.

Os fungos são a forma de vida mais populosa do planeta, com cerca de 12 milhões de espécies existentes em todo o mundo. A maioria nunca foi categorizada. Apenas uma fração dessas espécies infecta humanos, mas são responsáveis ​​por cerca de um bilhão de infecções a cada ano. “A maioria são coisas superficiais, como pé de atleta, com as quais ninguém se preocupa particularmente, mas há um grupo principal que causa infecções com risco de vida, principalmente em populações suscetíveis, como os muito velhos ou jovens, e aqueles com sistemas imunológicos que não funcionam adequadamente”, diz Mark Ramsdale, professor associado de micologia no Centro MRC de Micologia Médica em Exeter.

Cerca de 1,5 milhão de pessoas morrem por ano como resultado dessas infecções, diz Ramsdale – embora isso possa ser uma subestimação, porque os fungos infectam predominantemente pessoas que já têm grandes problemas de saúde. “A principal causa de morte provavelmente será leucemia ou transplante de coração, ou qualquer outra coisa”, diz ele. “Mas o que realmente mata o paciente é uma infecção fúngica, então há um forte elemento de subnotificação acontecendo.”

No topo da lista da OMS estão três formas de levedura patogénica, além do Aspergillus fumigatus, um fungo comum encontrado no solo e na vegetação em decomposição que pode causar uma infecção com risco de vida chamada aspergilose em pessoas com imunidade comprometida, como aquelas com HIV, doença pulmonar crónica, ou receptores de transplante de órgãos.

Alguns dos fungos da lista da OMS também podem afetar pessoas saudáveis. Coccidioides , conhecidos coloquialmente como “Cocci”, são fungos que vivem no solo encontrados no sudoeste dos EUA, México e partes da América do Sul que causam uma doença semelhante à gripe chamada febre do vale em um subconjunto de pessoas que os respiram. a 10% dos indivíduos infectados desenvolverão problemas pulmonares graves ou de longo prazo, enquanto em cerca de 1% dos casos a infecção se espalha para outras partes do corpo, incluindo o cérebro, onde pode ser fatal. Cerca de 150.000 pessoas nos EUA são infectadas a cada ano e cerca de 75 morrem por causa disso.

O alcance de algumas dessas infecções também está aumentando. Casos de febre do vale foram recentemente detectados no norte do estado de Washington. O número de infecções relatadas também aumentou 400% entre 1998 e 2015, possivelmente devido às mudanças climáticas.

Outras infecções fúngicas parecem ter aumentado como resultado da Covid, incluindo aspergilose e mucormicose, ou “síndrome do fungo preto”, uma infecção rara, mas perigosa, que pode fazer com que o tecido infectado morra e fique preto. Como essas infecções são mais comuns em pessoas com imunidade suprimida ou danos pulmonares, os médicos suspeitam que estejam capitalizando os danos físicos causados ​​pela Covid.

Um médico se prepara para realizar uma cirurgia em um paciente com mucormicose em Allahabad, na Índia. A mucormicose apresenta elevada prevalência no país. Fotografia: Ritesh Shukla/Getty Images

Os sintomas da mucormicose podem ser terríveis. Frequentemente começando nos seios da face, a infecção pode se espalhar para tecidos e órgãos vizinhos, incluindo olhos e cérebro, resultando em pele enegrecida, inchaço facial, visão turva, consciência alterada ou coma. Alguns pacientes perderam a visão em ambos os olhos ou tiveram que fazer uma cirurgia para remover ossos e tecidos mortos ou infectados.

Por mais horríveis que sejam essas doenças, uma graça salvadora é que a maioria das doenças fúngicas não é transmitida de pessoa para pessoa. Em vez disso, eles geralmente são retirados do meio ambiente, o que tende a limitar sua propagação. A mucormicose, por exemplo, é 70 a 80 vezes mais prevalente na Índia do que no resto do mundo.

No entanto, existem excepções a esta regra. Uma delas é Candida auris , um parente mortal da levedura que causa aftas. Está na lista “crítica” da OMS, pois está superando rapidamente nossos melhores tratamentos antifúngicos. Como muitos patógenos fúngicos, Candida auris ataca predominantemente pessoas com sistema imunológico enfraquecido; se entrar no sangue ou invadir outros órgãos e tecidos, suas hipóteses de sobrevivência são de aproximadamente 50-50.

Semelhante ao fungo em The Last of Us, Candida auris veio até nós do nada. Era desconhecido da ciência até que foi encontrado no canal auditivo de uma japonesa de 70 anos em Tóquio em 2009. Em alguns anos, infecções foram relatadas na Ásia, África e Oriente Médio.

“Agora está em todo o mundo e é um pesadelo absoluto nos hospitais porque é resistente a muitos dos medicamentos antifúngicos da linha de frente”, diz o professor Matthew Fisher , do Centro MRC para Análise Global de Doenças Infecciosas do Imperial College London. Também é parcialmente resistente a desinfetantes e ao calor, o que o torna extremamente difícil de erradicar. Sua detecção pode desencadear o fechamento temporário de enfermarias hospitalares inteiras.

De onde veio Candida auris é incerto. “Estamos supondo que, na profunda biodiversidade de fungos que existe, essa espécie em particular teve sorte”, diz Fisher. Alguns fatores podem ter contribuído. A mudança climática pode ter promovido a mudança desse organismo de um hospedeiro desconhecido para nós, e é até possível que, como em The Last of Us, temperaturas mais altas tenham selecionado variantes que podem crescer na temperatura do corpo humano.

Outra possibilidade é que o uso excessivo de medicamentos antifúngicos na medicina ou na agricultura tenha suprimido o crescimento de organismos concorrentes, abrindo nichos nos quais cepas de Candida auris resistentes a medicamentos e outros fungos potencialmente nocivos podem prosperar. Para agravar o problema, existem apenas quatro classes de drogas antifúngicas, e há muito poucas em andamento.

Fungo Cordyceps atacando uma mosca. Fotografia: Nature Picture Library/Alamy

O desenvolvimento de novos medicamentos será um desafio. “Como os fungos estão realmente intimamente relacionados aos animais, quaisquer drogas que possam interferir no crescimento e desenvolvimento de um fungo são frequentemente tóxicas para nós”, diz Ramsdale. Apesar dessas preocupações, os fungos atualmente recebem menos de 1,5% de todo o financiamento de pesquisa de doenças infecciosas. O relatório da OMS pede maior vigilância e desenvolvimento de antifúngicos, bem como melhores ferramentas de diagnóstico, para garantir que os pacientes sejam tratados prontamente com os medicamentos corretos. A educação também é crítica, diz Ramsdale: “Muitos médicos recebem apenas uma ou duas palestras [sobre patógenos fúngicos] durante todo o treinamento na faculdade de medicina”.

A OMS disse que era importante não sensacionalizar a ameaça representada pelos fungos. Bactérias resistentes a antibióticos apresentam uma ameaça mais imediata e quantificável. “Este é um apelo para aumentar a conscientização, gerar evidências e gerar ciência – não apenas a pesquisa e desenvolvimento de novos produtos, mas também a ciência básica para entender a dinâmica da doença, epidemiologia, ecologia e distribuição global de infecções fúngicas, ” diz o Dr. Hatim Sati, da divisão de resistência antimicrobiana da OMS, que ajudou a escrever o relatório.

No entanto, a ameaça representada pelos fungos não se limita necessariamente às espécies que desenvolveram a capacidade de nos infectar. Cerca de 6.000 espécies de fungos são conhecidas por causar doenças em plantas comerciais e, a cada ano, 40% das safras de arroz do mundo são perdidas para uma doença fúngica chamada brusone do arroz. “Esse é um grande problema de segurança alimentar”, diz Ramsdale.

Doença fúngica da podridão parda em maçãs. Fotografia: Sabena Jane Blackbird/Alamy

O relatório da OMS também não lida com ameaças fúngicas desconhecidas – aquelas que ainda não chegaram aos humanos. Desde a década de 1990, os biólogos conservacionistas observam horrorizados espécies após espécies de anfíbios sucumbirem a uma doença causada por fungos quitrídios que tem sido associada ao declínio de pelo menos 500 espécies de anfíbios e à extinção de 90. Semelhante ao cenário imaginado em The Last of Us, não há nenhuma medida eficaz conhecida para controlar a doença.

Com tantas espécies de fungos por aí, ficar atento a ameaças emergentes é uma tarefa assustadora. “Não há micologistas suficientes no mundo para acompanhar tudo isso”, diz Ramsdale. Treinar mais deles seria um bom lugar para começar. Mas tanto quanto os fungos representam um perigo para nós, eles também apresentam oportunidades. O primeiro antibiótico do mundo, a penicilina, foi descoberto em um molde. Quem sabe que outros truques químicos eles têm em seus micélios? “Como bactérias ou vírus, os fungos são antigos e estão por toda parte”, diz Fisher.

Subestimá-los seria um erro.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Um quarto de todas as espécies conhecidas de abelhas não é visto desde 1990


Os nossos polinizadores estão em crescente declínio. Cerca de um quarto das populações de abelhas desapareceram. Em algumas populações o declínio foi de 40% ou superior. As causas associadas ao seu desaparecimento são sobretudo duas: alguns parasitas, entre eles alguns vírus. Mas, sobretudo, a utilização indiscriminada de pesticidas na agricultura, entre eles os neonicotinóides e o glifosato. Já escrevi sobre assunto. Os herbicidas à base de glifosato actuam como antimicrobianos no tracto digestivo dos insectos, destruindo a sua população microbiana e provocando-lhes a morte. Contudo, em muitos municípios portugueses, Matosinhos incluído, usam o ácido pelargónico (herbicida) com a etiqueta de "ecológico" (como se algum herbicida sintético pudesse ser ecológico) sabendo que este herbicida é também insecticida, fundamentalmente porque está comprovado que mata as abelhas. Por favor, fiquem atentos aos herbicidas aplicados nas vossas áreas, e, se quiserem ter uma cidadania activa e lutarem para que sejam abolidos, podem pedir ajuda por aqui.

domingo, 29 de janeiro de 2023

Documentário: Amazônia Sociedade Anônima (2019)


‘Amazônia Sociedade Anônima’ surgiu após a série homônima desenvolvida pelo diretor Estêvão Ciavatta para o programa Fantástico, da TV Globo, entre 2014 e 2015, que teve um dos episódios dedicado à grilagem e ao comércio ilegal de madeira. Ao longo de cinco anos, a narrativa do documentário foi se desenvolvendo a medida que os acontecimentos históricos se davam. A fotografia é um dos destaques de ‘Amazônia Sociedade Anônima’, que ora revela a harmonia dos povos indígenas com a floresta, ora surpreende com imagens desconcertantes do desmatamento ilegal.

De 2014 a 2018, o diretor e sua produção acompanharam ações de órgãos oficiais federais no combate ao roubo de terras públicas. Nesse período eles presenciaram as duas maiores ações do IBAMA junto ao Ministério Público e a Polícia Federal para combater o roubo de terras públicas no Sudoeste do Pará: as operações Castanheira e Rios Voadores. Ignorando os limites da lei, essas organizações criminosas começaram a avançar sobre regiões de florestas intocadas, chegando cada vez mais perto das terras dos Munduruku. Com o passar dos anos, a produção notou que as ações do IBAMA não estavam sendo suficientes para combater essas máfias de extração ilegal de madeira e roubo de terras.

A proximidade com a comunidade indígena Munduruku surgiu junto com a auto-demarcação, e com as primeiras filmagens que fizeram com o grupo indígena em 2014. Já em 2017, o diretor doou uma câmera, um tripé e um microfone ao Coletivo Audiovisual Munduruku, composto em sua maioria por mulheres, para que elas continuassem registando seus desafios na defesa de suas terras. Quando a produção recebeu as filmagens e o acervo do coletivo passou a fazer parte do filme, o diretor decidiu colocar a entidade como coprodutora do documentário.

Para Estêvão, uma câmera nas mãos dessas mulheres é a melhor forma de defesa das terras. “Nos dias de hoje o audiovisual é uma forma delas contarem sua própria história e ao empunharem as câmeras nos momentos de monitoramento e vigilância do território, elas se tornam guerreiras tão ou mais importantes que os outros guerreiros. A câmera de filmar se tornou, então, um poderoso instrumento de defesa de suas vidas e da floresta. Tudo o que acontece está sendo registrado. O filme se torna, então, estratégico para que esta realidade seja conhecida e dialogue com o mundo, abrindo novas perspectivas para o futuro da Amazônia. ”, pondera ele.

Estêvão Ciavatta reforça a relevância desse tema ser discutido através do documentário nos tempos atuais.

“Quando falamos a primeira vez sobre o assunto, em 2015, estava claro para mim a importância do tema para o futuro da Amazônia e do Brasil. Ainda em 2017, quando aprofundei o tema com entrevistas para o filme, vi que o assunto das terras públicas desprotegidas ainda estava invisível. Isso me deu mais certeza de que estava no caminho certo. Hoje, apesar da triste realidade, vejo que fiz a escolha certa. Nós temos que conhecer a realidade amazônica e respeitar 14 mil anos de história dos povos indígenas na região”.

Sobre filmar na Amazônia, o diretor destaca as dificuldades enfrentadas. “Qualquer trabalho na Amazônia é um desafio, seja por suas dimensões continentais, seja pelos contratempos de produção. Mas a disposição e a vontade venceram todas as barreiras. Posso dizer que a maior dificuldade foi a convivência com os micuins, carrapatos minúsculos que vivem na floresta”, finaliza Estêvão.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Nanoplásticos podem viajar da alface para larvas e peixes



É sabido que os microplásticos transportados pela água podem se acumular nos tecidos dos peixes e eventualmente ser engolidos pelas pessoas. No entanto, há outra maneira de essas minúsculas partículas acabarem na cadeia alimentar: da terra à vegetação, dos insetos aos peixes.

Em um novo estudo da University of Eastern Finland , os pesquisadores aplicaram a técnica a um modelo de cadeia alimentar contendo três níveis tróficos (posições na cadeia alimentar) alface cultivada em solo contendo poliestireno e partículas de PVC (policloreto de vinila) de 250 nanómetros de largura. Esses materiais foram selecionados porque representam uma parcela considerável da poluição plástica atualmente presente no ambiente marinho.

As plantas foram colhidas após quatorze dias e alimentadas com larvas de mosca-soldado-negra, frequentemente utilizadas como fonte de proteína na alimentação animal. Após cinco dias comendo alface, as larvas foram alimentadas pelos peixes-barata (peixes insetívoros) por mais cinco dias. Em seguida, os peixes, larvas e plantas de alface foram dissecados e analisados ​​por microscopia electrónica de varredura.

Foi descoberto que as raízes das plantas primeiro absorveram ambos os tipos de nanopartículas antes de se acumularem nas folhas. Algumas das partículas dessas folhas entraram na boca e nas entranhas das larvas quando elas as comeram. As partículas persistiram mesmo depois que as larvas tiveram 24 horas para esvaziar o estômago.

As nanopartículas então se moveram das larvas para os peixes, onde foram encontradas predominantemente no fígado, mas também nos tecidos do intestino e brânquias. Nenhuma partícula foi encontrada no tecido cerebral.

Vale a pena notar que nenhum dos organismos – alface, larvas, peixes – apresentou efeitos adversos ao absorver as nanopartículas. No entanto, algumas investigações levantaram a hipótese de que as nanopartículas de plástico podem, no mínimo, acumular patógenos de ambientes contaminados e, posteriormente, transmitir esses patógenos a animais ou plantas.

O Dr. Fazel Monikh, principal autor do estudo, concluiu:

“Os nossos resultados mostram que a alface pode absorver nanoplásticos do solo e transferi-los para a cadeia alimentar. Isso indica que a presença de minúsculas partículas de plástico no solo pode estar associada a um risco potencial à saúde de herbívoros e humanos, se esses achados forem generalizáveis ​​para outras plantas e culturas e para ambientes de campo. No entanto, mais pesquisas sobre o tema ainda são necessárias com urgência.”

O estudo foi publicado no Nano Today em 9 de setembro de 2022.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Os Riscos e Perigos da Extinção das Abelhas

1,8 milhões de seguidores de Jordan Peterson. Um céptico climático, polemista.
"O aquecimento global também desempenha um grande papel no perigo da população de abelhas. O aumento das temperaturas, o aumento das inundações, as secas e as mudanças nas estações de floração das plantas com flores afetam os ecossistemas das abelhas, reduzindo sua adequação ao meio ambiente e ameaçando sua sobrevivência." [Fairplanet- 21.05.2022]
Eu penso nos polinizadores. Estão em extinção.

Alina Ciuciu [site oficial]

O céu azul e as flores desabrochando da primavera também trazem consigo o zumbido das abelhas, que saem de suas colmeias em busca de pólen. Embora pequenas em tamanho, as suas contribuições para os nossos ecossistemas são importantes; Simplificando, a vida na Terra como é hoje não existiria sem as abelhas. Ao longo de milhões de anos, as abelhas evoluíram para ajudá-las a polinizar as flores, ganhando até mesmo pequenas bolsas de pólen para transportar cargas maiores; as flores também evoluíram para atrair abelhas e outros polinizadores e dependem em grande parte deles para reprodução. É por isso que seu desaparecimento é preocupante: ao longo do século passado, as populações de abelhas caíram a pique e algumas até foram rotuladas como ameaçadas de extinção, deixando seus ecossistemas - e nossas cadeias alimentares - em risco de colapso.

Porque é que as abelhas estão em perigo de extinção?
As abelhas estão em risco de extinção em grande parte devido às atividades humanas: mudanças em larga escala no uso da terra, práticas agrícolas industrializadas , como monoculturas, e o uso prejudicial de pesticidas contribuíram para destruir seus habitats e reduzir suas fontes de alimento disponíveis. A globalização também facilitou a transmissão de parasitas e outras espécies invasoras que atacam as abelhas, como a vespa asiática, que pode dizimar colmeias inteiras em horas.

O aquecimento global também desempenha um grande papel na ameaça da população de abelhas. O aumento das temperaturas, o aumento das inundações, as secas e as mudanças nas estações de floração das plantas com flores afetam os ecossistemas das abelhas, reduzindo sua adequação ao meio ambiente e ameaçando sua sobrevivência.

Quais  são as abelhas  que estão em risco de extinção?
Embora a maioria das espécies de abelhas tenha sofrido uma perda populacional em larga escala nos últimos 300 anos e 40% das espécies de polinizadores invertebrados estejam em extinção, oito espécies de abelhas foram oficialmente declaradas como ameaçadas de extinção.

Sete das oito são espécies da abelha havaiana de face amarela , que estão em risco devido à ameaça de espécies não nativas de formigas que se alimentam dos ovos, bem como da destruição do habitat.

O abelhão enferrujado (Bombus affinis) também está listado como uma espécie em extinção e corre risco de extinção, provavelmente devido à exposição a pesticidas e perda de habitat devido à urbanização. A população do abelhão enferrujado, endêmica da América do Norte, diminuiu para apenas 0,1% de seus níveis históricos.

Felizmente, nem todas as abelhas estão ameaçadas de extinção, embora todas enfrentem um sério declínio populacional devido à atividade humana e às mudanças climáticas.

Porque é que as abelhas são importantes?
As abelhas são um dos polinizadores mais eficientes e prevalentes. Têm uma relação simbiótica mutualística com flores e outras plantas, pelo que tanto a planta como a abelha beneficiam da sua interação: as abelhas polinizam as plantas, espalhando o pólen (que apanham nos seus minúsculos pelos) de flor em flor, ajudando assim a as plantas se reproduzem; em troca, as abelhas também comem o pólen, que é um componente crítico de suas dietas. A evolução de muitas flores foi amplamente adaptada para aumentar sua atratividade para as abelhas, favorecendo flores que estão no espectro de cores que as abelhas podem ver (ultravioleta em vez de vermelho) e que liberam um cheiro forte e doce quando seu pólen está pronto para leva.

No entanto, as abelhas polinizam mais do que apenas flores - muitas de nossas frutas e vegetais favoritos requerem a ajuda de abelhas para polinizá-los. De tomates, abóboras, pepinos e berinjelas a nozes, sementes e até algodão. Estima-se que cerca de 80 por cento da polinização de plantas com flores usa a ajuda de polinizadores como as abelhas para se reproduzir. As abelhas são essenciais para a estabilidade de nossos sistemas alimentares, sustentando mais de 35% das terras agrícolas globais - e é por isso que seu desaparecimento é preocupante para os humanos.

O que aconteceria se as abelhas forem extintas?
A questão ecológica da possível extinção das abelhas também é uma questão humanitária, pois a estabilidade das populações humanas depende em grande parte da estabilidade das populações das abelhas. Considerando o papel crucial das atividades de polinização das abelhas no apoio aos nossos sistemas agrícolas , seu desaparecimento provavelmente resultaria em uma crise alimentar para a humanidade. A oferta de alimentos como maçãs, bagas, abacates, café e cebolas cairia drasticamente, uma vez que requerem a ajuda de polinizadores para se reproduzirem. Com a queda na oferta, os preços desses alimentos disparariam, tornando-os raros e inacessíveis para a maioria das pessoas.

A dizimação dessas plantas teria efeitos secundários em outros animais além dos humanos, que também dependem delas como fonte de alimento, resultando em maior perda de biodiversidade. Para nos ajudar a atender à procura de alimentos para a crescente população humana mundial e alcançar o ODS 2, devemos proteger e promover ativamente as populações de abelhas e outros polinizadores.

Como podemos ajudar as abelhas?
Assim como as flores e as abelhas fornecem trocas mutuamente benéficas, os seres humanos - todos os quais se beneficiam das atividades polinizadoras das abelhas - devem ajudar a promover a saúde das abelhas. 

  • Proibição de pesticidas perigosos: O Comitê Europeu de Segurança Alimentar (EFSA) afirmou que três pesticidas importantes representam um “risco agudo elevado” para as espécies de abelhas e foram encontrados em níveis perigosos dentro de suas colmeias. Os governos devem garantir que os pesticidas aprovados não sejam prejudiciais às populações de polinizadores, o que, a longo prazo, ajudará a aumentar o rendimento das colheitas e promover a agricultura sustentável .
  • Prevenir e reverter a perda de habitat : Sem ambientes adequados para as abelhas construírem casas e terem fontes de alimento abundantes, suas populações continuarão diminuindo. Prevenir o desmatamento pode, portanto, também prevenir a extinção das abelhas e, como efeito colateral, promover maiores rendimentos das colheitas.
  • Compre produtos orgânicos: Os produtos orgânicos são cultivados sem o uso de pesticidas e, portanto, não possuem produtos químicos que possam matar as abelhas.
  • Plante flores e plantas que as abelhas polinizam: Se você tem um jardim, pode plantar certas plantas que atraem abelhas e outros polinizadores. Certifique-se de plantar usando sementes orgânicas e evite o uso de fungicidas ou pesticidas.
  • Compre mel local: os produtores locais de mel sustentam as populações de abelhas, mas precisam de renda para sustentar suas fazendas e a si mesmos. Comprar localmente ajudará os pequenos agricultores a sobreviver, além de ajudar a biodiversidade das plantas e as comunidades de abelhas em sua área.
  • Não mate colmeias de abelhas: embora muitas pessoas tenham medo de abelhas, é importante entender que elas são inofensivas, a menos que sejam provocadas. Na verdade, nem todas as abelhas picam - algumas espécies não possuem habilidades de picar, e os machos não picam. Mesmo as abelhas fêmeas que picam só picam se forem diretamente ameaçadas ou atacadas. Se você não se sentir confortável com as abelhas por perto, entre em contato com uma associação de apicultores local que irá realocar as abelhas para um novo lar.
Considerações finais

No Dia Mundial das Abelhas (20 de maio), reconhecemos a importância dessas belas e pequenas criaturas, cujas atividades ajudam a preservar e perpetuar a vida na Terra. A dizimação das suas populações deve-nos lembrar o caráter desestabilizador da atividade humana, que é possível prevenir e corrigir. Nossas perspectivas de nossos ambientes e nossas cadeias alimentares devem mudar de foco apenas nas plantas que comemos para incluir os outros organismos que sustentam a vida das plantas - e, por extensão, nossas vidas também.