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sábado, 18 de julho de 2026
O reflexo de uma geração cobaia: a vida sob o império do algoritmo
sábado, 13 de junho de 2026
Infocracia: Digitalização e a Crise da Democracia
A sua vida invulgar sempre despertou a minha curiosidade.
Para terem uma ideia, Han é um antigo metalúrgico que resolveu deixar a Coreia do Sul para estudar filosofia na Alemanha sem entender uma única palavra de alemão. Como não bastasse, debruçou-se sobre Heidegger e, pouco tempo depois, tornou-se uma espécie de celebridade.
A sua enorme popularidade não se deve à sua vocação para se expor; pelo contrário, Han vive afastado da turbulência gerada pelas redes sociais. Ainda assim, é popular. Creio que isso se deve ao facto de Han tratar-se, sobretudo, de um filósofo extremamente intuitivo e perspicaz. Os seus argumentos não se constroem em torno de uma linguagem técnico-filosófica fechada nos seus termos e conceitos, destinada apenas aos seus pares, mas antes a aforismos que deixam transparecer, com suavidade e leveza, a beleza do seu pensamento. Este pequeno ensaio é prova do seu brilhantismo.
Nesta obra o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han faz um diagnóstico cirúrgico - e bastante sombrio - de como a internet, as redes sociais e os algoritmos mudaram a estrutura do poder.
Se no passado o capitalismo dominava os corpos e as indústrias, hoje o poder é exercido através do controle e da manipulação dos fluxos de dados. O livro defende que não vivemos mais numa democracia tradicional, mas sim em uma infocracia.
Os pilares centrais do livro
1. O regime de informação e a falsa liberdade
Han explica que saímos do modelo disciplinar (onde o poder reprimia as pessoas e era visto como um "vigia" violento) e entramos no regime de informação.
A grande armadilha da infocracia é que ela não opera pela proibição, mas pela sedução: nós nos sentimos livres e consumimos/produzimos dados voluntariamente o tempo todo. Essa sensação de liberdade é o que garante a eficácia da dominação. O poder agora é psicopolítico: ele entra na mente do indivíduo e prevê seus comportamentos sem que ele perceba.
2. A destruição da esfera pública e do discurso racional
Para que a democracia funcione, é preciso haver debate, escuta e um discurso racional (a ideia da esfera pública de Habermas). Han argumenta que a digitalização destruiu isso:
- As redes sociais funcionam no modelo de "bolhas de filtro", onde os algoritmos nos mostram apenas o que já concordamos.
- O debate deu lugar à polarização e à criação de "tribos digitais" que não dialogam entre si, apenas atacam.
- A comunicação atual é rápida, fragmentada e guiada pelo like, o que impede a reflexão profunda e o amadurecimento das ideias políticas.
3. Da democracia à Pós-Democracia digital (Dataísmo)
O autor alerta para o perigo do "Dataísmo" — a crença cega de que os dados e a Inteligência Artificial podem resolver todos os problemas humanos. Na infocracia, a política perde a ideologia e a visão de futuro, transformando-se em uma mera gestão de sistemas baseada em Big Data. Os políticos correm o risco de serem substituídos por especialistas e cientistas de computação, esvaziando o verdadeiro sentido da ação política.
4. A crise da verdade e o novo niilismo
O último grande ponto do livro é o descolamento da informação em relação à realidade. Na era das fake news, dos exércitos de trolls e da desinformação em massa, a verdade factual perde a importância. O que importa é o impacto emocional e a velocidade com que a informação circula. Isso gera um niilismo contemporâneo: as pessoas perdem a crença na existência de uma verdade comum, fragmentando a base de confiança que sustenta a sociedade.
O grande aviso de Han: a informação, que teoricamente deveria nos libertar e nos manter informados, tornou-se a ferramenta mais sofisticada de vigilância, controle e deformação do processo democrático.
domingo, 17 de maio de 2026
Mensagem do Papa Leao XIV por ocasião do Dia Mundial das Comunicações Sociais
O rosto e a voz são traços únicos e distintivos de cada pessoa; manifestam a sua identidade irrepetível e são elemento constitutivo de cada encontro. Os antigos sabiam-no bem. Para definir o ser humano, os gregos usavam a palavra “rosto” (prósopon), que etimologicamente indica o que está diante do olhar, o lugar da presença e da relação. Por sua vez, o termo latino persona (de per-sonare) inclui o som: não um som qualquer, mas a voz inconfundível de alguém.
Rosto e voz são sagrados. Foram-nos dados por Deus, que nos criou à sua imagem e semelhança, chamando-nos à vida com a Palavra que Ele mesmo nos dirigiu. Uma Palavra que, ao longo dos séculos, ressoou na voz dos profetas e depois, na plenitude dos tempos, fez-se carne. Esta Palavra – esta comunicação que Deus faz de si mesmo – pudemos ainda escutá-la e vê-la diretamente (cf. 1 Jo 1, 1-3), porque se deixou conhecer na voz e no Rosto de Jesus, Filho de Deus.
Desde o momento da criação, Deus quis o ser humano como seu interlocutor e, como disse São Gregório de Nissa, [1] imprimiu no seu rosto um reflexo do amor divino, para que pudesse viver plenamente a sua humanidade através do amor. Preservar os rostos e as vozes humanas significa, portanto, preservar este selo, este reflexo indelével do amor de Deus. Não somos uma espécie feita de algoritmos bioquímicos predefinidos antecipadamente: cada pessoa possui uma vocação insubstituível e irrepetível, que emerge da vida e se manifesta precisamente na comunicação com os outros.
A tecnologia digital, no caso de falharmos nesta preservação, corre o risco de alterar radicalmente alguns dos pilares fundamentais da civilização humana, que por vezes temos como garantidos. Ao simular vozes e rostos humanos, sabedoria e conhecimento, consciência e responsabilidade, empatia e amizade, os sistemas conhecidos como inteligência artificial não só interferem nos ecossistemas informativos, como também invadem o nível mais profundo da comunicação, ou seja, o das relações entre as pessoas.
O desafio, por conseguinte, não é tecnológico, mas antropológico. Preservar os rostos e as vozes significa, em última análise, preservarmo-nos a nós próprios. Aceitar com coragem, determinação e discernimento as oportunidades oferecidas pela tecnologia digital e pela inteligência artificial não é sinónimo de esconder de nós mesmos os pontos críticos, a opacidade e os riscos.
Não renunciar ao próprio pensamento
Há muito tempo que existem múltiplas evidências de que os algoritmos concebidos para maximizar o envolvimento nas redes sociais – rentável para as plataformas – recompensam as emoções rápidas e, ao contrário, penalizam as expressões humanas que requerem mais tempo, como o esforço para compreender e a reflexão. Ao encerrar grupos de pessoas em bolhas de fácil consenso e indignação, estes algoritmos enfraquecem a capacidade de escuta e pensamento crítico, aumentando a polarização social.
Veio somar-se a isto uma confiança ingenuamente acrítica na inteligência artificial como “amiga” omnisciente, dispensadora de todas as informações, arquivo de todas as memórias, “oráculo” de todos os conselhos. Tudo isto pode enfraquecer ulteriormente a nossa capacidade de pensar de forma analítica e criativa, de compreender significados, de distinguir entre sintaxe e semântica.
Embora a IA possa dar apoio e assistência na gestão de tarefas comunicativas, ao abstermo-nos do esforço do próprio pensamento, contentando-nos com uma compilação estatística artificial, corremos o risco de deteriorar, a longo prazo, as nossas capacidades cognitivas, emocionais e comunicativas.
Nos últimos anos, os sistemas de inteligência artificial estão a assumir cada vez mais o controlo da produção de textos, música e vídeos. Grande parte da indústria criativa humana corre o risco de ser destruída e substituída pela etiqueta “Powered by AI”, transformando as pessoas em meros consumidores passivos de pensamentos não pensados, de produtos anónimos, sem autoria nem amor. Ao mesmo tempo, as obras-primas do génio humano no âmbito da música, da arte e da literatura vão sendo reduzidas a um mero campo de treino para as máquinas.
No entanto, a questão que realmente nos interessa não é o que a máquina consegue ou conseguirá fazer, mas o que nós podemos e poderíamos fazer, crescendo em humanidade e conhecimento, com uma inteligente utilização de ferramentas tão poderosas ao nosso serviço. Desde sempre, o ser humano tem sido tentado a apropriar-se do fruto do conhecimento sem o esforço do envolvimento, da pesquisa e da responsabilidade pessoal. Contudo, renunciar ao processo criativo e entregar às máquinas as próprias funções mentais e a própria imaginação significa enterrar os talentos recebidos para crescer como pessoas em relação a Deus e aos outros. Significa esconder o nosso rosto e silenciar a nossa voz.
Ser ou fingir: simulação de relações e da realidade
À medida que navegamos pelos nossos fluxos de informação (feeds), torna-se cada vez mais difícil compreender se estamos a interagir com outros seres humanos ou com “bots” ou influenciadores virtuais. As intervenções não transparentes destes agentes automatizados influenciam os debates públicos e as escolhas das pessoas. Especialmente os chatbots, baseados em grandes modelos linguísticos (LLM), estão a revelar-se surpreendentemente eficazes na persuasão oculta, através de uma contínua otimização da interação personalizada. A estrutura dialógica e adaptativa, mimética, destes modelos linguísticos é capaz de imitar os sentimentos humanos e, assim, simular uma relação. Esta antropomorfização, que pode até ser divertida, é ao mesmo tempo enganadora, especialmente para as pessoas mais vulneráveis. Porque os chatbots tornados excessivamente “afetuosos”, além de estarem sempre presentes e disponíveis, podem tornar-se arquitetos ocultos dos nossos estados emocionais e, desta forma, invadir e ocupar a esfera da intimidade das pessoas.
A tecnologia que explora a nossa necessidade de relacionamento pode não só ter consequências dolorosas para o destino dos indivíduos, mas também prejudicar o tecido social, cultural e político das sociedades. Isso acontece quando substituímos as relações com os outros pelas relações com a IA treinada para catalogar os nossos pensamentos e, portanto, construir à nossa volta um mundo de espelhos, onde tudo é feito “à nossa imagem e semelhança”. Desta forma, deixamo-nos roubar a possibilidade de encontrar o outro, que é sempre diferente de nós e com o qual podemos e devemos aprender a confrontar-nos. Sem aceitar a alteridade, não pode haver nem relação nem amizade.
Outro grande desafio que estes sistemas emergentes colocam é o da distorção (bias, em inglês), que leva a adquirir e transmitir uma perceção alterada da realidade. Os modelos de IA estão moldados pela visão do mundo de quem os constrói e podem, por sua vez, impor modos de pensar, replicando estereótipos e preconceitos presentes nos dados a que acedem. A falta de transparência na construção dos algoritmos, a par da inadequada representação social dos dados tendem a manter-nos presos em redes que manipulam os nossos pensamentos, perpetuando e aprofundando as desigualdades e injustiças sociais existentes.
O risco é grande! O poder da simulação é tal que a IA pode também iludir-nos com a construção de “realidades” paralelas, apropriando-se dos nossos rostos e das nossas vozes. Estamos imersos numa multidimensionalidade, onde se torna cada vez mais difícil distinguir a realidade da ficção.
A isto acrescenta-se o problema da falta de precisão. Os sistemas que apresentam como conhecimento uma probabilidade estatística, na realidade, oferecem-nos, quando muito, aproximações da verdade, que por vezes são verdadeiras “alucinações”. A falta de verificação das fontes, com a crise do jornalismo no terreno, que implica um trabalho contínuo de recolha e verificação de informações nos locais onde os eventos ocorrem, pode favorecer um solo ainda mais fértil para a desinformação, provocando uma crescente sensação de desconfiança, desorientação e insegurança.
Uma possível aliança
Por trás desta enorme força invisível que a todos envolve, está apenas um pequeno grupo de empresas, cujos fundadores foram recentemente apresentados como os criadores da “pessoa do ano de 2025”, ou seja, os arquitetos da inteligência artificial. Isto suscita uma preocupação importante em relação ao controlo oligopolístico dos sistemas algorítmicos e de inteligência artificial capazes de orientar subtilmente os comportamentos e até mesmo de reescrever a história da humanidade – incluindo a história da Igreja –, muitas vezes sem que possamos ter real consciência disso.
O desafio que nos espera não é impedir a inovação digital, mas sim orientá-la, estando conscientes do seu caráter ambivalente. Cabe a cada um de nós levantar a voz em defesa das pessoas, para que estas ferramentas possam realmente ser integradas por nós como aliadas.
Esta aliança é possível, mas tem de se basear em três pilares: responsabilidade, cooperação e educação.
Em primeiro lugar, a responsabilidade. Ela pode ser definida, consoante as funções, como honestidade, transparência, coragem, visão, dever de partilhar conhecimento, direito de ser informado. Porém, em geral, ninguém pode fugir à sua responsabilidade diante do futuro que estamos a construir.
Para quem está no comando das plataformas on-line, isso significa garantir que as próprias estratégias empresariais não sejam norteadas pelo exclusivo critério da maximização do lucro, mas por uma visão clarividente que tenha em conta o bem comum, da mesma forma que cada um deles se preocupa com o bem-estar dos seus filhos.
Aos criadores e desenvolvedores de modelos de IA, é exigida transparência e responsabilidade social em relação aos princípios de criação de projetos e aos sistemas de moderação que estão na base dos seus algoritmos e dos modelos desenvolvidos, de modo a permitir um consentimento esclarecido aos utilizadores.
Igual responsabilidade é pedida aos legisladores nacionais e reguladores supranacionais, que têm a função de zelar pelo respeito da dignidade humana. Uma adequada regulamentação pode proteger as pessoas duma ligação afetiva com os chatbots e conter a disseminação de conteúdos falsos, manipuladores ou deturpados, preservando a integridade da informação face à sua simulação enganosa.
Por sua vez, as empresas dos mass media e da comunicação não podem permitir que algoritmos orientados para vencer a qualquer custo a batalha por alguns segundos de atenção a mais prevaleçam sobre a fidelidade aos seus valores profissionais, voltados para a busca da verdade. A confiança do público conquista-se com a precisão e a transparência, não com a corrida por uma participação qualquer. Os conteúdos gerados ou manipulados pela IA devem ser sinalizados e claramente distinguidos dos conteúdos criados por pessoas. A autoria e a propriedade soberana do trabalho dos jornalistas e outros criadores de conteúdo devem ser protegidas. A informação é um bem público. Um serviço público construtivo e significativo não se baseia na opacidade, mas na transparência das fontes, na inclusão dos sujeitos envolvidos e num elevado padrão de qualidade.
Todos somos chamados a cooperar. Nenhum setor pode enfrentar sozinho o desafio de liderar a inovação digital e governar a IA. Por isso, é necessário criar mecanismos de salvaguarda. Todas as partes interessadas – desde a indústria tecnológica aos legisladores, das empresas de criação ao mundo académico, dos artistas aos jornalistas e educadores – devem estar envolvidas na construção e na efetivação de uma cidadania digital consciente e responsável.
O objetivo da educação é este: aumentar as nossas capacidades pessoais de refletir criticamente, avaliar a credibilidade das fontes e os possíveis interesses por trás da seleção das informações que nos chegam, compreender os mecanismos psicológicos que elas ativam, permitir às nossas famílias, comunidades e associações a elaboração de critérios práticos para uma cultura de comunicação mais saudável e responsável.
Precisamente por isso, cada vez mais, é urgente introduzir também, em todos os níveis dos sistemas educativos, a literacia para os meios de comunicação social, a informação e a IA, que algumas instituições civis já estão a promover. Como católicos, podemos e devemos dar o nosso contributo, para que as pessoas – especialmente os jovens – adquiram a capacidade de pensamento crítico e cresçam na liberdade do espírito. Esta literacia deveria ainda ser integrada em iniciativas mais amplas de educação permanente, alcançando igualmente os idosos e os membros marginalizados da sociedade, que muitas vezes se sentem excluídos e impotentes perante as rápidas mudanças tecnológicas.
A literacia para os meios de comunicação, a informação e a IA ajudará todos a não se adaptarem à tendência de antropomorfização destes sistemas, mas a tratá-los como ferramentas, a recorrer sempre a uma validação externa das fontes – que podem ser imprecisas ou erradas – fornecidas pelos sistemas de IA, a proteger a própria privacidade e os próprios dados, conhecendo os parâmetros de segurança e as opções de reclamação. É importante educar e educar-se para utilizar a IA de forma intencional e, neste contexto, proteger a própria imagem (fotos e áudio), o próprio rosto e a própria voz, para evitar que sejam utilizados na criação de conteúdos e comportamentos prejudiciais, como fraudes digitais, ciberbullying, deepfake, que violam a privacidade e a intimidade das pessoas sem o seu consentimento. Assim como a revolução industrial exigiu uma alfabetização mínima para permitir que as pessoas reagissem às novidades, também a revolução digital exige uma literacia digital (com uma formação humanística e cultural) para compreender como os algoritmos moldam a nossa perceção da realidade, como funcionam os preconceitos da IA, quais são os mecanismos que determinam o aparecimento de determinados conteúdos nos nossos fluxos de informação (feeds), quais são e como podem mudar os pressupostos e modelos económicos da economia da IA.
É necessário que o rosto e a voz voltem a dizer a pessoa. É necessário preservar o dom da comunicação como a mais profunda verdade do ser humano, para a qual também se deve orientar toda a inovação tecnológica.
Ao propor estas reflexões, agradeço a todos aqueles que estão a trabalhar para os objetivos aqui apresentados e, de coração, abençoo quantos trabalham para o bem comum através dos meios de comunicação.
Vaticano, na Memória de São Francisco de Sales, 24 de janeiro de 2026.
LEÃO XIV PP.
[1] «Ter sido criado à imagem de Deus significa que foi impresso no homem, desde o momento da sua criação, um carácter régio [...]. Deus é amor e fonte de amor: o divino Criador também colocou esta característica no nosso rosto, para que, através do amor – reflexo do amor divino –, o ser humano reconheça e manifeste a dignidade da sua natureza e a semelhança com o seu Criador» (cf. São Gregório de Nissa, A criação do homem: PG 44, 137).
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sexta-feira, 10 de abril de 2026
Ensaio - O mundo com IA e As Mãos
sexta-feira, 20 de março de 2026
Quem tem medo da transição verde? O que diz o novo estudo sobre o apoio ao Pacto Ecológico Europeu
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| Fonte: aqui |
Um relatório do Instituto Sindical Europeu designado por Who supports a (just) green transition? chegou às seguintes conclusões:
- O Medo do Desemprego Verde é Real: existe uma perceção generalizada de "risco socioecológico". A preocupação com a perda de postos de trabalho devido às políticas climáticas é muito forte em todos os países analisados. Este receio afeta sobretudo as pessoas com menores rendimentos, menor nível de escolaridade e trabalhadores em situações de maior precariedade laboral.
- Os Impostos Verdes são os mais impopulares: o estudo divide as preferências por tipo de política e conclui que as taxas e impostos ecológicos são a medida que colhe menos simpatia junto do público. Em contrapartida, as políticas de proteção social têm um apoio massivo entre os grupos mais vulneráveis.
- Pontes entre o Social e o Ecológico: nem tudo é divisão. O relatório descobriu que certos grupos profissionais — e não apenas os mais privilegiados ou bem posicionados no mercado de trabalho - apoiam simultaneamente tanto as políticas ambientais como as sociais.
- A "Fórmula Mágica" para o apoio público: o apoio à transição verde aumenta significativamente quando o ambiente é associado a medidas de compensação social. O estudo demonstra que combinar políticas ambientais com o apoio direto aos trabalhadores e a criação de impostos sobre as grandes fortunas (wealth taxes) ajuda a reduzir os conflitos distributivos e a conquistar a opinião pública.
Conclusões Detalhadas do Relatório
O estudo baseia-se num inquérito internacional realizado em sete países europeus: Alemanha, Espanha, França, Itália, Polónia, Suécia e Reino Unido.
1. O Medo do Desemprego Afeta 1 em cada 5 Europeus: Mais de 20% dos inquiridos temem perder o emprego devido às políticas de transição ecológica. Este medo (chamado no estudo de "risco socioecológico indireto") é o grande motor da resistência política (green backlash) e afeta sobretudo os trabalhadores fabris/de produção (production workers), pessoas com menor escolaridade e baixos rendimentos.
2.O Duplo Risco: Curiosamente, o estudo descobriu uma ligação direta: as pessoas que vivem em regiões mais expostas às alterações climáticas (risco direto) são frequentemente as mesmas que mais temem perder o emprego devido às leis ambientais (risco indireto).
3. Radiografia dos Grupos Profissionais e Apoios:
- Trabalhadores de Produção (Fábricas): Apoiam fortemente a proteção social tradicional, mas rejeitam os impostos verdes por medo do desemprego.
- Profissionais de Escritório, Serviços de Baixa Qualificação e Setor Socio-Cultural: Apoiam tanto as políticas sociais como as ambientais. O relatório identifica-os como a base eleitoral chave para avançar com uma transição justa.
- Gestores e Quadros Superiores (Managers): Revelaram-se o grupo mais oposto à estratégia de transição justa, rejeitando tanto a intervenção pública na área social (como impostos sobre a riqueza) como a regulação ambiental.
4. Atitude Perante as Políticas: Os subsídios verdes são as medidas mais populares em geral. Os impostos e as regulações são fortemente rejeitados pelas classes mais vulneráveis e pelos gestores, encontrando apoio quase exclusivo nos cidadãos com ensino superior.
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quinta-feira, 19 de novembro de 2020
Que Educação para a Era Pós-Covid-19?
Este texto reúne as ideias que apresentei em 8 de Maio de 2020 na semana virtual do Departamento de Ciência e Tecnologia da Universidade Portucalense, onde procurei apontar algumas mudanças chave a imprimir à educação em Portugal na era pós-Covid-19. Nele abordo a autonomia das escolas, a sua futura dimensão online, a apropriação cultural do telemóvel para a educação e o papel da televisão como elemento chave de uma desejável educação não escolar.
1. A autonomia das escolas
Antes desta pandemia, o relatório TALIS 2018, publicado em 2020, colocava a autonomia dos professores portugueses na posição mais baixa de todos países da OCDE. Apesar dessa falta de autonomia, um mês depois da transição forçada para o espaço online, as aulas das escolas portuguesas, praticamente desligadas do Ministério da Educação e entregues à iniciativa dos professores, funcionavam acima de todas as expectativas.
Infelizmente, muitos alunos não tinham computadores em casa nem acesso à Internet e os servidores da maioria das escolas eram antiquados e vergavam sob a carga das transferências. Mesmo assim, os professores não baixaram os braços e ao fim de alguns dias o tráfego escolar online tinha atingido níveis nunca vistos. Entretanto, professores, escolas, pais, autarquias e algumas empresas desdobravam-se em iniciativas para levarem PCs, tabletes e conectividade aos alunos isolados, que os professores tentavam incorporar no movimento.
E no país vizinho, o que terá acontecido? Em Espanha, segundo afirmava Andreas Schleicher, diretor de educação da OCDE numa entrevista ao El País, os esforços que o governo investiu na transição para a distância esbarraram frontalmente contra o desinteresse da maioria dos professores. Desinteresse esse agravado pela falta de tradição de colaboração e partilha de soluções pedagógicas entre os professores, um indicador onde a Espanha pontua muito abaixo da média dos países da OCDE.
Em Portugal, do lado de cá da fronteira, as redes sociais fervilhavam de colaboração, com os professores a convergirem e colaborarem num conjunto restrito de grupos online, alguns dos quais adquiriram em poucos dias dezenas de milhares de membros.
Como se explica este prodígio português? O que aconteceu foi que, ao reduzir a pesada linha de comando que ligava o Ministério da Educação às escolas, a pandemia devolveu aos professores uma iniciativa que há muito lhes tinha sido retirada e libertou a sua criatividade e talento para projetos pedagógicos de escola desobrigados de estreitas diretrizes vindas “de cima”.
A moral desta experiência é que seria uma tragédia para a educação em Portugal se o espantoso capital de iniciativa e energia dos professores, que este período de emergência revelou, não fosse posto de imediato ao serviço de uma nova visão da autonomia das escolas em Portugal.
A primeira evidência que este período de pandemia revelou para a educação em Portugal foi, assim, a da necessidade de uma autonomia inteiramente nova para as escolas portuguesas.
2. Uma dimensão online para as escolas
As escolas nacionais, tal como as escolas de quase todo o mundo, não estavam preparadas para a súbita transição para a distância. Compreende-se, por isso, que tenham tido grande dificuldade em adaptar-se.
Não se compreenderia, no entanto, se agora que se prevêem novos surtos e se antecipam novas pandemias e catástrofes climáticas, as instituições continuassem a não fazer nada e, quando as catástrofes surgissem, alegassem que não estavam a contar com elas. Errar é humano, mas cometer duas vezes o mesmo erro é incompetência.
Justifica-se assim que as escolas, tirando partido da experiência de terreno que estão a desenvolver neste momento, comecem a construir desde já o seu prolongamento online permanente, que possa ser posto à carga plena se, e quando, vier a ser necessário.
Será de esperar, assim, que cada escola, ou cada agrupamento, passe a ter uma infraestrutura tecnológica de gestão de aprendizagem (LMS), uma seleção de tecnologias regularmente atualizadas, um repositório crescente de conteúdos, um acervo crescente de práticas, e toda uma cultura de partilha entre professores, entre professores, alunos e encarregados de educação, e entre escola e sociedade.
Daqui resulta a segunda evidência para a educação revelada por este período de pandemia: a necessidade de constituir e explorar, em cada escola ou agrupamento, uma infraestrutura tecnológica sustentável e um padrão de práticas regulares que prolonguem a escola, de forma permanente, para o espaço online.
Este prolongamento seria o embrião de uma unidade de ligação da escola com a sua comunidade interna e externa, de reforço da sua imagem institucional e, acima de tudo, de educação online e de b-learning, a usar sempre que desejável.
No âmbito dessa presença online, seria importante que a escola começasse a desenvolver as competências dos seus docentes para ensinarem online, não em situações improvisadas, de emergência, mas de forma sustentada e com a qualidade e profissionalismo que o mundo de hoje exige e a competência pedagógica dos educadores experimentados coloca ao seu alcance. Um bom professor do século XXI deverá, idealmente, ser um bom professor tanto presencialmente como online.
3. As tecnologias na educação
Existem duas tradições da utilização das tecnologias nas escolas em Portugal: a dos computadores pessoais e a dos equipamentos configuráveis. A tradição dos computadores pessoais remonta ao início dos anos oitenta e privilegia o uso dos computadores na perspectiva do utilizador. À medida que as tecnologias evoluíram, esta tradição estendeu-se para a exploração online e nos últimos anos começou a integrar também o recurso a tabletes.
A tradição dos equipamentos configuráveis, mais recente, baseia-se no recurso a computadores em circuito impresso, ou micro-controladores, como o Arduino, Raspberry Pi, BeagleBone, Nanode e outros. Estes equipamentos são a base de riquíssimos contextos de aprendizagem baseada em projetos, de criação de soluções informáticas e robóticas e de aprendizagem da programação.
O telemóvel manteve-se conspicuamente afastado desta realidade. No ano 2000, começaram a surgir telemóveis nas mãos dos alunos, e a sua presença nas escolas tornou-os de imediato em elementos de perturbação e conflito. Em muitas escolas, passaram, mesmo, a ser proibidos. Com a emergência dos smartphones, surgiram alguns projetos interessantes em escolas portuguesas e a UNESCO publicou, em 2013, um estudo que incentivava o seu uso na educação, mas as limitações de que ainda padeciam não estimularam a sua adopção para utilizações pedagógicas regulares.
Acontece que, nos últimos dois anos, as características técnicas e os preços dos smartphones transformaram radicalmente o seu potencial como instrumentos de aprendizagem para os tempos que vivemos. É hoje possível adquirir por cerca de 200 €, ainda sem desconto de quantidade, smartphones com câmaras de alta qualidade, ecrãs de 6.3”, 6 GB de RAM e memória de 128 a 256 GB. Por outro lado, a sua utilização pela faixa etária escolar tornou-se quase total. Segundo a Marktest, citada pela revista Marketeer em agosto de 2018, a utilização de smartphones superava os 99% junto dos jovens portugueses entre os 10 e os 24 anos.
Um smartphone serve, hoje, para tudo. É livro, dicionário, enciclopédia, biblioteca, câmara fotográfica, laboratório fotográfico, câmara de vídeo, estúdio de cinema, sala de aula, oficina de artes gráficas, digitalizador de texto e imagem, redação de jornal, sala de reuniões, museu, calculadora científica e gráfica, ambiente de cálculo matemático, sistema de gestão de bases de dados, processador de texto, folha de cálculo, instrumento de comunicação, equipamento de medida, simulador, coletor de dados biológicos, identificador de plantas e animais, instrumento de diagnóstico de doenças, mapa, atlas, bússola, instrumento de navegação … A lista é interminável!
Uma criança de catorze anos que viajasse para um planeta desconhecido levando no bolso um telemóvel destes, e que o usasse nas funções acima mencionadas, seria vista como um prodígio. Uma criança dos nossos dias, com um telemóvel destes na mão, é, de facto, um prodígio … se souber utilizá-lo. Mas saberá utilizá-lo em todas essas funções? Se sabe, quem a ensinou? Certamente que não foi a escola!
Por outro lado, se não foi a escola, haverá crianças mais favorecidas que se transformam em prodígios porque alguém as ensinou, e haverá crianças menos favorecidas que não serão prodígios porque a escola não as ensinou. A simples existência de telemóveis no mundo de hoje, gostemos deles, ou não, pode criar desigualdades gritantes se a escola lhes voltar as costas.
Outro aspeto a ter em conta é o da cibersegurança. Não caberá à escola desenvolver as competências essenciais das crianças para esta dimensão chave do mundo de hoje? Se sim, fará algum sentido a escola ensinar as práticas do uso do telemóvel sem o integrar plenamente na sua atividade? Se não integrar o telemóvel nas suas práticas, como é que a escola ensinará cibersegurança? Fazendo palestras e projeções de slides?
O que se torna hoje evidente é que o telemóvel se transformou no mais poderoso instrumento pessoal de ligação entre o ser humano e o mundo. Por isso, ou a escola inscreve o telemóvel nas suas práticas, ou corre o risco de, como escola, reduzir a sua relevância para o mundo. Por muito que nos custe reconhecê-lo, o acesso ao mundo de hoje está cada vez mais no telemóvel e cada vez menos nas práticas da aula tradicional.
E os computadores? Ao contrário do que aconteceria com o telemóvel, os computadores são usados nas escolas como meros instrumentos. Não promovem, nem poderiam promover, uma interiorização cultural porque não se inscrevem em práticas sociais regulares, intensivas e permanentes. Ora, a História da Humanidade mostra-nos que os seres humanos se mantiveram primitivos enquanto se limitaram a explorar as tecnologias como instrumentos, sem as consolidarem em torno de práticas socioculturais plenas, como as que, só mais tarde, conduziram à descoberta da agricultura e das indústrias.
O único instrumento susceptível de apropriação cultural plena, porque é pessoal e se integra na vivência do dia-a-dia, onde quer que estejamos, é o telemóvel. Em boa verdade, o telemóvel é o único instrumento pessoal universal para a literacia digital, quer seja usado por crianças, por adultos ou por pessoas idosas.
Aliás, não deixa de ser irónico pensar que muitas das dificuldades que vivemos nestes tempos de transição forçada para o espaço online teriam sido evitadas se as crianças das nossas escolas já fossem os tais prodígios de telemóvel no bolso. Mesmo que alguns dos seus equipamentos fossem limitados, e as condições de acesso problemáticas, uma compra maciça de smartphones e de contas de dados teria sido muito mais fácil e económica do que a aquisição caótica de computadores pessoais cujas manutenções virão a ser problemáticas.
Daqui resulta mais uma evidência para a educação, tornada clara por este período de pandemia: a importância de encetar um percurso gradual de apropriação cultural do telemóvel para a prática pedagógica.
Esta apropriação não será fácil nem rápida. Envolve um projeto muito ambicioso de renovação dos currículos e das práticas escolares em torno do uso do telemóvel. Em alguns domínios do saber, como a Matemática, há muito trabalho já feito, no âmbito de soluções poderosas, como as do Wolfram Alpha. Noutros domínios, há algum trabalho internacional valioso, que apenas tem de ser transposto para português. Mas noutros domínios haverá que começar do zero, uma tarefa difícil, mas também aliciante porque abre perspectivas para inovar a nível internacional.
4. Brevemente numa televisão perto de si
As sociologias da inovação dizem-nos que em sistemas sociais complexos onde a diversidade dos atores cresce e a interação entre atores se intensifica, a tendência para emergirem fenómenos de inovação tende a aumentar. O lançamento da iniciativa #EstudoEmCasa, uma variação da extinta Telescola, parece configurar um destes fenómenos. Acolhida de forma globalmente positiva, não apenas pelos alunos a quem se destinava, mas também pelos pais e avós, o modelo do #EstudoEmCasa pode vir a ser um contributo relevante para uma educação que transcenda o meio escolar.
Num país onde a televisão penetra por todo o lado, mas onde existem grandes desequilíbrios no acesso à educação por vários sectores da sociedade, o recurso a um espaço público de educação televisiva de qualidade poderia contribuir de forma transformadora para a melhoria da qualidade de vida de várias populações. Desde logo, para preencher um espaço deixado vazio no que se refere à literacia da leitura e da escrita, sobretudo para os mais idosos, mas também para auxiliar a superar as carências crescentes de literacia digital, num país e num mundo onde a incapacidade para usar meios digitais se tornou gravemente debilitante.
É chocante que um cidadão seja hoje legalmente obrigado a recorrer a serviços online, para os quais não tem alternativa, sem que o Estado tenha assumido, alguma vez, a responsabilidade de o educar para o efeito.
Daqui resulta mais evidência para a educação, que este período de pandemia tornou clara. A importância de manter um serviço pedagógico televisivo de alta qualidade para as populações desejosas de aprenderem, mas que não têm alternativas.
Em resumo, são estes os desafios que se colocam à educação em Portugal a partir do próximo mês de setembro:
- Reforçar radicalmente a autonomia nas escolas.
- Assegurar que cada escola ou agrupamento constitui uma infraestrutura tecnológica sustentável e um padrão de práticas que a prolongue de forma permanente para o espaço online.
- Desenvolver de forma gradual a competência dos professores para a educação online.
- Iniciar um percurso gradual de apropriação cultural do telemóvel para a prática pedagógica.
- Manter um serviço público, pedagógico, televisivo de alta qualidade para as populações que pretendam aprender mas não têm alternativas e assegurar, desde já, através desse serviço, um programa de alfabetização e de literacia digital.
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terça-feira, 12 de junho de 2018
Aaron Swartz on The Open Library
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