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sábado, 27 de janeiro de 2024

Portugueses vão investigar alterações climáticas na Antártica a bordo de veleiro


Uma expedição científica portuguesa vai levar, em fevereiro, 11 investigadores de três universidades portuguesas, uma espanhola e outra chilena, até à Península Antártica para estudar os efeitos das alterações climáticas nas zonas costeiras da região.

Pela primeira vez, na fronteira entre o mar e a terra, durante 15 dias, uma expedição científica portuguesa vai estar a bordo de um veleiro de 24 metros, capaz de fazer chegar os investigadores até às baías da Península Antártica de mais difícil acesso.

Durante duas semanas, o El Doblón, veleiro turístico alugado para a missão, será o novo laboratório de uma equipa de investigadores das universidades de Lisboa, Algarve e Coimbra e das universidades Autónoma de Madrid, responsáveis por dez projetos que vão desde as ciências naturais até às ciências sociais. Pretende desvendar como as alterações climáticas estão a influenciar as temperaturas e os solos das zonas costeiras daquela península no hemisfério Sul.

O “COASTANTAR 2024” é a primeira expedição portuguesa de veleiro pelas baías escondias na “pontinha da vírgula” da Antártica, zonas onde os cientistas encontrarão áreas livres de gelo e rochosas. “Assistimos agora a um novo retorno do aquecimento nesta região. A temperatura tinha subido muito desde que há registo, entre 1950 e até ao ano 2000. Depois estabilizou, desceu um pouco, e começámos a ter verões com mais neve porque houve uma mudança da posição das cinturas de vento. Mas, a partir de 2015, voltámos à tendência rápida de aquecimento, pelo que será interessante observar os seus impactos”, sublinhou, em declarações ao JN, Gonçalo Vieira, coordenador da expedição e investigador do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território (IGOT) da Universidade de Lisboa, à margem da apresentação da missão, esta sexta-feira, em Lisboa.

A primeira expedição do geógrafo físico foi em 2000, mas esta será a primeira vez que irá trabalhar a bordo de um veleiro. “Neste momento, estou curioso para ver de que maneira é que a fusão do solo gelado e, essencialmente, os episódios extremos de temperatura e precipitação, que estão a ser mais frequentes, estão a ter impactos ao nível da erosão. Mas também vamos trabalhar nos fluxos de contaminantes e olhar para as encostas, tentar começar a monitorizar essas áreas, ligando com imagens satélite para ver que impactos é que está a ter na paisagem”, explicou Gonçalo Vieira.

Os investigadores, cada um responsável por um projeto diferente, irá desenvolver as suas observações e recolher amostras de contaminantes na água, neve, gelo e solo, de microrganismos na atmosfera e em espécies marinhas, fitoplâncton e microplásticos pelas zonas costeiras. A missão decorrerá durante um mês, mas o sucesso de cada dia de trabalho no terreno irá depender das condições meteorológicas e do mar. Nesta altura do ano, a equipa de cientistas irá apanhar o verão na Antártica, com tempo frio a 1ºC e a água do mar com temperaturas a rondar os zero graus, apontou o coordenador durante a apresentação.

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

Encontros Improváveis - Sylvia Earle e João Soares


Quando observo o oceano, esse vasto mundo, questiono-me com Sylvia Earle:

"Temos de mudar a nossa mentalidade. Quando olhamos para a vida selvagem, em terra, pensamos que a temos de proteger, mas quando olhamos para o mar vemos produtos. Começámos a mudar em relação às baleias ou às tartarugas, mas temos de fazer o mesmo para todos os seres vivos. Os camarões ou as lagostas são animais selvagens, como os leões ou os tigres. Os tubarões ou os atuns são os seus equivalentes, grandes predadores que fazem parte da química planetária, do ciclo do carbono e hidrogénio, parte da janela de oportunidade que mantém a terra habitável. Pode soar um pouco nerd, mas é tão básico. Sabemos que as árvores geram oxigénio e capturam o carbono, por isso sabemos que as devemos proteger, mas no mar o plâncton tem vindo a diminuir nos últimos anos, tal como os recifes de corais, as florestas de algas, as pradarias marinhas. E capturam mais dióxido de carbono e produzem mais oxigénio do que todas as florestas terrestres. Eu assisti a tudo isto, sou uma testemunha."

"Os peixes têm caras, personalidade, famílias e protegem as crias tão vigorosamente como a maior parte das criaturas que adoramos em terra. Não é aceitável explorar a vida selvagem, nem em terra nem no mar."

Os oceanos produzem mais de metade do oxigénio, são o maior reservatório de dióxido de carbono e o maior regulador do clima e da temperatura. Todos os 8 mil milhões de habitantes da Terra, quer vivam perto ou longe do mar, dependem diretamente dos oceanos para a sua sobrevivência, mas os oceanos não são água. São vida, e esta está (também) seriamente em perigo.

Sobre esta temática, Extinção e Ecocídio, está disponível na rtp1 e rtpplay uma série de documentários muitíssimo interessante, Ressuscitar o Éden - Ajuda Humana Para a Resiliência da Natureza que recomendo a todos, biólogos, professores, estudantes, políticos, gestores ambientais, economistas...
A nossa pegada ecológica é tremenda e, por vezes, não temos noção do quão longe demais já fomos e como podemos ainda reverter isso... 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

A espuma do mar é mais valiosa do que parece. Fotografe-a e ajude os cientistas


O novo projecto FitoAvista quer detectar grandes concentrações de microalgas na costa portuguesa, visíveis nas espumas e nas colorações do oceano. A Wilder falou com a coordenadora, Alexandra Duarte Silva, e conta-lhe tudo.

Se estiver junto à costa e avistar espuma na praia ou no mar, ou então uma coloração diferente nas ondas – vermelha, laranja ou castanha, por exemplo – o mais provável é não ser poluição, mas sim a parte visível de um imenso mundo microscópico que habita as águas do mar: o fitoplâncton formado por microalgas unicelulares, que estão na base da teia alimentar marinha.

Concentração de espumas do mar em Vila Nova de Gaia. Foto: Maria Lobo

Agora, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) tem um novo projecto para onde pode enviar o registo dessas observações, depois de as fotografar: o FitoAvista, irmão mais novo do GelAvista (dedicado aos gelatinosos), recorre tal como este a cidadãos cientistas para serem os “olhos” dos investigadores onde estes não conseguem chegar, explica a coordenadora da iniciativa, Alexandra Duarte Silva.

A partir das fotografias que recebe no email plancton@ipma.pt, a equipa do FitoAvista consegue perceber se há uma grande concentração de microalgas num determinado local, para aí recolher amostras e analisá-las em laboratório. Até porque o IPMA dispõe de várias estações ao longo da costa portuguesa e assim consegue chegar em pouco tempo aos locais.

Comuns na costa portuguesa

“O fitoplâncton está sempre presente na água e tem uma taxa de reprodução muito rápida, podendo atingir concentrações muito elevadas num curto espaço de tempo”, descreve Alexandra Duarte Silva, que é especialista em ecologia do fitoplâncton. Estas proliferações são comuns na costa portuguesa ao longo do ano, adianta.

Espuma observada numa praia de Peniche. Foto: Associação Mar à Deriva

Em causa estão duas razões principais. A primeira, é que “em Portugal temos um fenómeno no litoral chamado ‘upwelling’ ou afloramento costeiro, que acontece quando os ventos sopram de norte e trazem as águas do mar do fundo para a superfície, que são mais frias e ricas em nutrientes, o que acontece em especial na Primavera e no Verão”.

Em segundo lugar, “já entre o final do Inverno e a Primavera, o número destas algas aumenta muitas vezes com o enriquecimento das águas do mar devido aos nutrientes que são trazidos pelos rios”. Em causa estão as actividades urbanas e agrícolas e também a própria vida que existe nos cursos fluviais.

Espuma do mar avistada numa praia em Ovar. Foto: Raquel Chumbinho

O fitoplâncton é extremamente importante, tanto para a vida marinha como terrestre, mas quando acontecem proliferações muito grandes, podem ter “um impacto severo no sector aquícola e no turismo”, sublinha a mesma responsável. Por vezes, as águas do mar ficam com um aspecto estranho ou as praias podem mesmo encerrar, quando se trata de “marés vermelhas” – muitas provocadas por microalgas tóxicas para a saúde humana.

Noutras ocasiões, certas microalgas do grupo das diatomáceas têm o poder de “irritar e entupir as guelras dos peixes” nas explorações de aquicultura. Além do mais, quando se concentram grandes quantidades de microalgas, estas por vezes “apodrecem na água e privam de luz os bivalves que estão mais abaixo”, afectando a sua sobrevivência.

Uma das 20.000 espécies de diatomáceas conhecidas, fotografada ao microscópio. 
Foto: Alexandra Duarte Silva

Assim, se o IPMA analisar as amostras de água do mar e descobrir que estão em causa microalgas nocivas ou tóxicas, podem ser emitidos avisos. No caso de microalgas nocivas, estão em causa espécies que atacam as guelras dos peixes, por exemplo, pelo que a sua detecção pode ajudar a avisar os produtores para tomarem medidas.

Já as microalgas tóxicas prejudicam a saúde humana e também a dos mamíferos marinhos, e se forem encontradas podem levar à proibição de venda de bivalves em determinados locais da costa. É o que acontece por vezes durante o Verão, ajudando a impedir intoxicações alimentares e outras indisposições graves. É que algumas espécies de microalgas têm toxinas naturais que passam para as amêijoas e outros bivalves, que não são afectados, mas que concentram essas substâncias e podem afectar quem os ingere. “Não sabemos como o nosso organismo vai reagir a estas toxinas e, por isso, quando são emitidos alertas quanto ao consumo de bivalves, é importante termos todo o cuidado”, adverte Alexandra Duarte Silva.

Em poucos dias, 78 avistamentos

Entretanto, no espaço de uma semana, entre o último dia 17, quando foi lançado nas redes sociais, e a manhã de dia 25, o projecto FitoAvista já tinha recebido informação de 78 avistamentos de espumas e colorações no mar, de Viana do Castelo a Aljezur, enviada por cerca de 40 cidadãos cientistas.

Espuma observada na Praia Grande. Foto: José Azevedo

Este grande número de participações em pouco tempo surpreendeu a equipa e terá sido ajudado por uma parceria com o GelAvista, uma vez que uma parte dos observadores colaboram com os dois projectos. Além de Alexandra Duarte Silva, o FitoAvista é realizado por Antonina dos Santos, especialista em ecologia marinha de zooplâncton e coordenadora do GelAvista, e por Isabel Cruz, da área da comunicação.

“Temos várias pessoas que já incorporaram esta rotina [de reportar o que vêem] no seu dia-a-dia”, explica Alexandra, que adianta que essa consistência é muito importante para a análise dos dados. Ou seja, se registarmos diariamente concentrações de espuma num determinado local, e chegar um dia em que já não haja lá nada, esse “avistamento zero” também tem significado para os cientistas, sublinha. Entretanto, se tudo correr bem, o objectivo da equipa é dentro de algum tempo oferecer formação a quem queira participar na recolha de amostras de espuma e água do mar.

Agora é a sua vez.

Costuma passar junto ao litoral em passeio ou no caminho para o trabalho? Fotografe os avistamentos de fitoplâncton e envie-os, juntamente com o local, data e hora, para plancton@ipma.pt. Pode ver mais informações sobre o que é necessário nas páginas de Facebook e de Instagram do FitoAvista.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

Medusas estão a tomar conta dos oceanos devido às alterações climáticas


As alterações climáticas e a atividade humana têm impactos que se repercutem em todos os ecossistemas. Os seus efeitos negativos podem levar a desequilíbrios populacionais através destes vários ecossistemas. Embora as populações de muitas espécies estejam em declínio porque não conseguem sobreviver às rápidas mudanças ambientais, este não é muitas vezes o caso da vida aquática venenosa como os ouriços-do-mar e as medusas. De facto, estas populações estão a aumentar em todo o mundo, com efeitos prejudiciais para outros organismos aquáticos vivos e para a atividade humana, avança o “Inhabitat”.

Segundo a mesma fonte, as medusas são um dos principais tipos de animais marinhos que conheceram um rápido crescimento populacional nos últimos anos. As medusas não são na realidade peixes – são um tipo de plâncton. Em vez de nadar, o plâncton flutua através do oceano, empurrado pelas correntes. As medusas existem há 500 milhões de anos e são um dos poucos tipos de plâncton que são visíveis a olho nu. Devido à sua classificação como plâncton, encontram-se no fundo da pirâmide alimentar do oceano e são consumidas por aves marinhas, peixes (incluindo tubarões), tartarugas e baleias.

As medusas podem variar de cerca de um centímetro a 40 centímetros (0,4 a 15 polegadas) de tamanho, mas algumas podem ser muito maiores. Isto inclui a medusa Lion’s Mane, que pode ter até 1,8 metros (5,9 pés) de largura com tentáculos que se estendem por 15 metros (49 pés)!

Porque é que as populações de medusas estão a aumentar?

Aquecimento dos oceanos

Estudos mostram que ao longo do último século, a temperatura média da superfície do oceano subiu aproximadamente 0,9 graus Celsius. Este aumento indica que, desde a década de 1980, o oceano adquiriu um bilião de vezes a energia calorífica das bombas atómicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki. O excesso de calor é o resultado de fatores relacionados com o homem, tais como a atividade industrial e a poluição que induzem o aquecimento global.

Embora 0,9 graus Celsius ainda possa não parecer um grande aumento de temperatura, tem um imenso impacto nos padrões climáticos e nas alterações climáticas. Isto porque a água superficial mais quente evapora facilmente e pode afetar a precipitação, a humidade e fenómenos como os ciclones.

Estas temperaturas crescentes do mar também têm impacto sobre as populações aquáticas. O aquecimento dos oceanos significa que as criaturas marinhas podem viver em áreas que historicamente têm sido demasiado frias para sobreviverem. Isto inclui o movimento para as regiões temperadas e mesmo para os polos. Através destas migrações, estas novas espécies podem tomar conta das espécies endémicas dessa região e causar problemas dentro da cadeia alimentar. Por exemplo, as espécies de medusas de água quente são tipicamente mais pequenas e menos nutritivas do que as espécies de água fria. Isto pode ter impacto na saúde da vida marinha que depende das medusas para a alimentação.

Níveis de oxigénio marinho

Como resultado do aumento das temperaturas e da poluição, o oxigénio nos ecossistemas aquáticos diminuiu 2% nos últimos 50 anos. Enquanto muitas espécies lutam para se adaptarem a ambientes pouco oxigenados, as medusas (ao contrário de outras espécies de plâncton) podem tolerá-las bastante bem. Acredita-se que isto se deve à sua reduzida utilização de oxigénio em condições de baixo nível de oxigénio e à sua capacidade de o armazenar nos seus tecidos gelatinosos. Estas propriedades físicas levam a uma abundância de medusas nestas áreas e à dominância de medusas em ambientes de baixa oxigenação em comparação com outras espécies marinhas.

Sobrepesca

A sobrepesca de certas espécies levou a uma diminuição das populações de predadores de medusas. Estes incluem espécies de peixes como o atum e o espadarte, que de outra forma poderiam ajudar a regular o aumento das populações de alforrecas. Também tem havido um aumento na pesca das espécies que têm uma dieta semelhante à das medusas, como é o caso do biqueirão. Sem estas espécies para competir pela alimentação, as populações de alforrecas aumentam inevitavelmente e sobrepovoam o oceano.

Porque é que é um grande problema?

Picadas dolorosas

Uma das razões pelas quais o aumento das populações de medusas é prejudicial é devido às suas interações indesejadas com os seres humanos. Como resultado de linhas costeiras mais quentes, grandes números de medusas derivam para a costa e podem potencialmente picar os humanos. Em Queensland, Austrália, numa só semana em junho de 2019, foi registado um número de 13.000 picadas de alforrecas.

Na maioria das vezes, as picadas de medusas são mais dolorosas do que prejudiciais para os seres humanos. Isto deve-se ao veneno transmitido através de milhões de farpas microscópicas em tentáculos de alforrecas. Tipicamente, a dor, vermelhidão e inchaço são localizados na(s) área(s) onde os farpas entraram em contacto com a pele. No entanto, dependendo da espécie e do indivíduo, pode haver reações ou sintomas de corpo inteiro, como náuseas e dores de cabeça.

Em ocasiões estranhas, as picadas de medusas podem ser letais. Isto também depende do veneno de determinadas espécies, tais como a medusa de caixa. Estas picadas podem resultar em morte dentro de poucos minutos após o contacto. Infelizmente, a população de medusas-caixas está a crescer como outras espécies de medusas e estão agora a ser mais frequentemente encontradas ao longo da costa.

Impactos nas indústrias

Para além de arruinar excursões de praia, as medusas podem ter impacto nas atividades industriais situadas ao longo da costa. Um desses exemplos é impedir as centrais nucleares de funcionar. As centrais de energia nuclear podem refrigerar a água do mar ou dessalinizá-la para a purificação. As medusas podem facilmente perturbar estas atividades, obstruindo os filtros de arrefecimento ou sobre-saturalizando o abastecimento de água, o que pode exigir o encerramento destas centrais durante longos períodos. Instâncias como estas ocorreram na Escócia na central elétrica de Torness e na central elétrica de Oskarshamn na Suécia.

Outro exemplo de medusas com impacto negativo na atividade humana é o impedimento de atividades agrícolas e de colheita que têm lugar perto da linha de costa. Na Irlanda, as medusas têm dificultado a criação de salmão, enquanto no Mar Cáspio têm impedido a criação de caviar beluga, afetando assim os meios de subsistência e o comércio local.

O que podemos fazer?

Há algumas formas de impedir as condições ideais para o crescimento da população de medusas. Um exemplo é a limitação do aquecimento global e da poluição. Isto pode ser feito através da mudança para energia limpa e práticas que não emitam gases com efeito de estufa. Através de práticas sustentáveis, as temperaturas à superfície dos oceanos podem também ser reguladas a níveis apropriados, impedindo que as medusas se aventurem em ambientes quentes e/ou de baixa oxigenação.

Podemos também optar por práticas de pesca sustentáveis e limitar o consumo de peixe. Ao fazê-lo, as espécies predadoras podem aumentar em número e ajudar a regular a sobrepopulação de alforrecas.

Finalmente, algumas espécies de alforrecas são consideradas comestíveis. Esta é uma abordagem potencial para lidar com as populações sobreabundantes. Recentemente, os chefes de cozinha experimentaram este conceito e tentaram incorporá-las na gastronomia. Algumas criações incluem hóstias estaladiças “geleia” e pãezinhos de sushi.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Recuperar as populações de baleias ajuda a combater as alterações climáticas



As baleias podem ser grandes aliadas no combate às alterações climáticas e no aumento da produtividade dos oceanos, sugere um novo estudo, publicado na revista científica Nature.

Os cientistas descobriram que as baleias de barbatana, ou seja de espécies como a baleia-comum, a baleia-azul e a baleia-jubarte, comem três vezes mais por ano, do que se pensava. Esta alimentação varia consoante o ecossistema. mas as baleias destas espécies que vivem nas águas da Califórnia comem, cada uma, mais de 2 milhões de toneladas de alimentos anualmente.

Mas a caça baleeira no século XX levou a uma perda em massa das populações de baleias em todo o mundo. À época, estima-se que as populações de baleias do Oceano Antártico consumiam, anualmente, 430 milhões de toneladas de krill antártico, o dobro da quantidade que se estima que existe hoje.

Ao se alimentarem, as baleias acabam por defecar e os seus excrementos são uma fonte essencial de nutrientes para o oceano. Ao serem libertados, estes nutrientes ficam à superfície na coluna da água, onde alimentam o fitoplâncton que, por sua vez, são a base da cadeia alimentar aquática e absorvem carbono.

“Sem as baleias, estes nutrientes afundam mais rapidamente no fundo do mar, o que pode limitar a produtividade em certas partes do oceano e limitar a capacidade dos ecossistemas oceânicos de absorver o dióxido de carbono que aquece o planeta”, explicam os autores.

Os excrementos das baleias são também uma fonte de ferro: no Oceano Antártico, as baleias reciclam cerca de 1.200 toneladas métricas de ferro por ano. Este número, no início do século XX, ascendia às 12 mil toneladas métricas de ferro, uma quantidade dez vezes superior.

Assim, os especialistas sugerem recuperar o número de baleias que existiam antes da caça, a fim de aumentar a produtividade marinha em 11% no Oceano Antártico, e de reduzir cerca de 215 milhões de toneladas métricas de carbono. Para Nicholas Pyenson, curador de fósseis de mamíferos marinhos do Museu Nacional de História Natural de Smithsonian e autor do estudo, trata-se de uma “solução climática natural”, e que equivale à “contribuição dos ecossistemas florestais de alguns continentes”.

“Os nossos resultados dizem que se restaurarmos as populações de baleias aos níveis anteriores à caça das baleias, vistos no início do século 20, restauraremos uma grande quantidade de funções perdidas nos ecossistemas oceânicos”, explica Nicholas Pyenson, sublinhando que esta é “a mais clara leitura até agora sobre o enorme papel das baleias grandes no nosso planeta.”

sábado, 4 de setembro de 2021

O oceano está sobrecarregado de microfibras de plástico. E o plâncton consome-as.



A contaminação provém de minúsculas embalagens tóxicas.

O emaranhado de microfibras que se vê em cima tem menos de quatro milímetros de diâmetro, aproximadamente o tamanho dos pequenos organismos aquáticos conhecidos como plâncton.

Semanalmente o cientista Richard Kirby parte da costa de Plymouth, em Inglaterra, com uma rede de arrasto enganchada ao seu barco para recolher plâncton. Ultimamente, encontra quase tanto plástico como plâncton.

Estima-se que anualmente mais de 600 mil toneladas de microfibras de plástico, libertadas durante a lavagem de lãs, poliéster e outros tecidos sintéticos, cheguem ao oceano. O plâncton pode comê-las ou ficar enredado nelas, e os impactes ecológicos ainda não são conhecidos. “A nossa poluição estendeu-se até ao fim da cadeia alimentar marinha”, diz Kirby. “Alterámos o plâncton, causando efeitos que durarão séculos ou milénios.” 

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Microplásticos: 1 milhão de vezes mais abundantes nos oceanos do que se pensava


De acordo com um novo estudo da Instituição Scripps de Oceanografia, poderá haver um milhão de vezes mais pedaços de plástico nos oceanos do que se estimava.

Utilizando um método diferente do habitual, a oceanógrafa Jennifer Brandon descobriu microplásticos – pedaços de plástico com menos de 5 mm – na água do mar a concentrações muito mais elevadas do que as registadas anteriormente.

A investigadora acredita que a técnica habitual deixa escapar as partículas mais pequenas. Segundo as suas estimativas, os oceanos poderão estar contaminados por 8,3 milhões de “mini-microplásticos” por metro cúbico de água.

“Durante anos, temos estudado os microplásticos da mesma forma, utilizando uma rede para recolher amostras”, disse a oceanógrafa. “Mas tudo o que for mais pequeno que a malhagem da rede tem escapado.”

O método de Brandon e da sua equipa implicou a utilização de salpas, animais marinhos de corpo gelatinoso que filtram a água do mar para capturar o fitoplâncton de que se alimentam. Durante este processo, os animais também ingerem microplásticos.

Todas as 100 salpas analisadas – provenientes de amostras de água recolhidas em 2009, 2013, 2014, 2015 e 2017 – tinham “mini-microplásticos” nos aparelhos digestivos.

“Apesar do grande interesse nos microplásticos, só agora começamos a compreender a dimensão e os efeitos destes contaminantes oceânicos”, disse Dan Thornhill, diretor de programas da Divisão de Ciências Oceânicas da National Science Foundation, que financiou o trabalho de investigação.

“Este estudo demonstra que os plásticos marinhos são muito mais abundantes do que nos tínhamos dado conta e que se encontram por todo o oceano. É preocupante, especialmente porque as consequências para o ambiente e para a saúde humana continuam amplamente desconhecidas.”

O estudo foi publicado na revista científica Limnology and Oceanography Letters.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Os bizarros e pequenos organismos que compõem o plâncton (com fotos)

Mais fotos aqui
A comunidade científica revelou recentemente a análise mais abrangente alguma vez feita ao plâncton oceânico – os pequenos organismos que servem de alimento a vários animais, tal como a grande baleia-azul e fornecem metade do oxigénio que respiramos.

Os investigadores passaram três anos e meio a bordo de um veleiro, a partir do qual recolheram 35.000 amostras de plâncton de 210 locais distintos. Pela primeira vez foi possível determinar a distribuição dos organismos, perceber como interagem uns com os outros e efectuar várias análises genéticas.

O plâncton é composto por plantas e animais microscópicos, larvas de peixe, vírus, bactérias e outros organismos que flutuam pelos oceanos.

“O plâncton é muito mais que comida para baleias”, assevera Chris Bowler, investigador principal no Centro Nacional de Investigação Científica de França e um dos investigadores que participou no estudo, cita o Daily Mail. “Embora sejam pequenos, estes organismos são uma parte vital do sistema de suporte de vida da Terra, fornecendo metade do oxigénio produzido todos os anos no planeta através da fotossíntese e constituindo a base da cadeia alimentar de toda a vida que existe nos oceanos”, acrescenta.

Durante o estudo, os investigadores realizaram a maior sequenciação de ADN alguma vez feita no campo das Ciências Marinhas, identificando cerca de 40 milhões de genes de plâncton, a maioria desconhecida anteriormente.

Os investigadores descobriram que o plâncton era geneticamente muito mais diverso do que se pensava. Contrariamente, a diversidade dos vírus revelou-se menor que o antecipado. Os cientistas descobriram ainda que maior parte das interacções entre os organismos do plâncton eram parasíticas.

quarta-feira, 7 de abril de 2004

Luiz Vieira Caldas Saldanha (1937-1997)


Por Fernando Reis, para o Instituto Camões-Ciência


Luiz Saldanha nasceu em Lisboa em 1937. Estudou no liceu francês e depois na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, onde se doutorou com um trabalho sobre a ecologia animal na costa da Arrábida. A partir de 1970, foi docente dessa faculdade. Aí foi professor catedrático desde 1979 até à altura do seu falecimento.

Desempenhou vários cargos de liderança institucional. Foi presidente do Instituto Nacional de Investigação das Pescas e do Instituto do Mar. Como responsável pelo Laboratório Marítimo da Guia, situado na estrada do Guincho, perto de Cascais, foi pioneiro no domínio da Biologia Marinha, tendo publicado vários trabalhos fundamentais para o desenvolvimento desta ciência em Portugal.



Actividade Científica

O Professor Luiz Saldanha foi um dos mais conhecidos biólogos marítimos portugueses. Foi o iniciador em Portugal do ensino universitário de Oceanografia Biológica e de Ictiologia (ramo da zoologia que estuda os peixes) e a grande força por detrás do actual envolvimento português na investigação internacional das profundidades marítimas.

Saldanha foi um grande impulsionador da intensa actividade de investigação da biologia marinha que actualmente se desenvolve em Portugal. Não descurava nem o ensino nem a divulgação científica, tendo produzido, por exemplo, os textos da série televisiva «O Mar e a Terra». Cientista de campo, Luiz Saldanha participou em numerosos projectos de investigação nacionais e internacionais. Trabalhou por diversas vezes durante longos períodos em laboratórios marinhos de França, Reino Unido, Estados Unidos e Mónaco. Participou em expedições oceanográficas no Mediterrâneo, Atlântico, Ártico, Antártida, Oceano Índico, e Oceano Pacífico.

Mergulhou regularmente nos submersíveis franceses «Archimède» e «Nautile» e no submersível norte-americano «Alvin». No decorrer dessas missões descobriu chaminés submarinas ao largo dos Açores, descoberta de grande alcance para o estudo da fauna e flora de grandes profundidades.

Foi Luiz Saldanha quem teve a audácia de sugerir que os portugueses deveriam avançar com uma missão de descobertas, agora no fundo do mar, pelo que os sucessos alcançados lhe pertencem em grande medida.
Entre outras honras, Luiz Saldanha tem uma espécie lepidóptera de Angola com o seu nome, a «Charaxes lucretius saldanhai», e um relevo submarino que se chama Monte Saldanha.

Publicações

Produziu cerca de 115 textos científicos em revistas especializadas nacionais e estrangeiras, e 5 livros. Dada a longa lista de publicações do Professor Luiz Saldanha, apresentam-se apenas alguns títulos como referência. Listagens mais completas podem ser consultadas nas páginas indicadas em Apontadores.
SALDANHA, Luiz, Estudo do povoamento dos horizontes superiores da rocha litoral da costa da Arrábida, Arquivos do Museu Bocage, V (1), 1-382, 1974. [Tese de doutoramento].
SALDANHA, Luiz, Sobre a forma das grandes profundidades marinhas e sua origem, Lisboa, L.V. Saldanha, 1974 [Prova complementar de Doutoramento].
SALDANHA, Luiz, Fauna submarina atlântica, Mem Martins, Publicações Europa-América, s.d. [1980].
SALDANHA, Luiz, Estudo ambiental do esturio do Tejo : povoamentos bentónicos, peixes e ictioplancton do esturio do Tejo, Lisboa :Comissão Nacional do Ambiente, 1980.
SALDANHA, Luiz, Fauna submarina Atlântica : Portugal, Açores, Madeira, 2ª edição, revista e aumentada, Lisboa, Europa-América, 1995.
SALDANHA, Luís & RÉ, Pedro, eds., One hundred years of Portuguese Oceanography. In the footsteps of King Carlos de Bragança, Publicações avulsas do Museu Bocage, 2ª série (2), 1997.

Apontadores
TriploV – Bibliografia de Luis Saldanha
Laboratório Marítimo da Guia
Article - Luiz Saldanha, Passion for the Sea