Mostrar mensagens com a etiqueta Animalismo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Animalismo. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 4 de junho de 2026

A Natureza não é um mero recurso - é onde o humano se reconecta

Toutinegra-de-bigodes-ocidental (Curruca iberiae)

Um passarinho pediu a meu irmão para ser uma árvore.
Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.
No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de sol,
de céu e de lua mais do que na escola.

No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo
mais do que os padres lhes ensinavam no internato.
Aprendeu com a natureza o perfume de Deus.
Seu olho no estágio de ser árvore, aprendeu melhor o azul.
E descobriu que uma casa vazia de cigarra, esquecida no tronco das árvores só serve para poesia.

No estágio de ser árvore meu irmão descobriu que as árvores
são vaidosas. Que justamente aquela árvore na qual meu irmão
se transformara, envaidecia-se quando era nomeada para o
entardecer dos pássaros e tinha ciúmes da brancura que os
lírios deixavam nos brejos.
Meu irmão agradecia a Deus aquela permanência em árvore
porque fez amizade com as borboletas.

Manoel de Barros, in "O Livro das Ignorãças" (1993)

O poema de Manoel de Barros, extraído de O Livro das Ignorãças, constitui um hino à sensibilidade, à infância e à capacidade de o ser humano se libertar da lógica puramente racional para se fundir com o mundo natural. Ao longo dos versos, o autor convida-nos a compreender o mundo através daquilo que apelida de "desimportâncias", valorizando o olhar sensível em detrimento da rigidez utilitária do quotidiano.

No centro da narrativa encontramos o "estágio de ser árvore". Esta expressão não evoca uma metamorfose literal, mas sim um profundo exercício de empatia, silêncio e contemplação, onde o irmão do poeta adota o tempo e o ritmo da própria terra. É através desta simbiose que surge uma crítica subtil ao ensino tradicional e dogmático. Ao afirmar que o irmão aprendeu mais sobre o sol, a lua e a santidade no tronco de uma árvore do que na escola ou no internato com os padres, o poeta exalta o saber sensorial e a vivência direta. A comunhão com o meio ambiente revela-se a verdadeira escola da vida, capaz de aproximar o indivíduo daquilo que designa como o "perfume de Deus".

Manoel de Barros foca-se também na utilidade do que parece inútil. A imagem da casa vazia da cigarra, esquecida no tronco e que "só serve para poesia", ilustra perfeitamente a sua filosofia: numa sociedade focada no lucro e na funcionalidade, a arte e a poesia residem precisamente naquilo que foi abandonado e que perdeu a sua função prática. Ao mesmo tempo, o autor humaniza a natureza ao atribuir vaidade e ciúmes à árvore, esbatendo as fronteiras entre o Homem e o meio que o rodeia, celebrando uma amizade pura com as borboletas e os pássaros.

terça-feira, 7 de abril de 2026

Os porcos são muito mais inteligentes, limpos e empáticos que a trupe MAGA e brutalistas destes tempos cinzentos

Porky (2021) por Andrea Lavery
Sobre a Pintora e o quadro
Andrea Lavery é uma conceituada artista que cresceu no ambiente rural de Newtown, Connecticut, EUA residindo e trabalha atualmente na zona costeira do mesmo estado. A sua trajetória artística é marcada por uma evolução orgânica e apaixonada; embora os seus registos biográficos privilegiem a experiência prática, a sua técnica revela um domínio consolidado dos meios tradicionais, fruto da sua formação académica com um Bacharelato em Belas Artes (BFA) pelo Paier College of Art, concluído em 1985.

O seu trabalho é amplamente classificado como Impressionismo Contemporâneo, um estilo que a própria define como "Happy Colorful Art". A temática da sua obra é profundamente inspirada pela natureza e pela vida selvagem, destacando-se as suas representações vibrantes de pássaros, abelhas, coelhos e flores. Através de pinceladas fluidas e expressivas, Lavery cria texturas ricas que privilegiam uma interpretação emocional e luminosa do objeto em detrimento de um realismo rígido.

Do ponto de vista técnico, a artista utiliza predominantemente óleos solúveis em água, recorrendo ao óleo de linhaça com a mesma propriedade para conferir transparência e fluidez às composições. Andrea Lavery é particularmente reconhecida por trabalhar em painéis de pequeno formato, nos quais consegue concentrar uma enorme densidade de cor e energia. O sucesso do seu estilo reflete-se não só em galerias, mas também no mercado de licenciamento, com as suas criações a serem aplicadas em tecidos (notavelmente para a QT Fabrics), impressões artísticas e diversos objetos de decoração.

Os porcos são muito mais inteligentes, limpos e empáticos que a trupe MAGA e brutalistas destes tempos cinzentos

O que diz a Ciência 
Apesar dos estereótipos de serem animais simplórios e desleixados, os porcos/suínos são animais extremamente inteligentes, limpos, emotivos e sociais.

A investigação contemporânea no domínio da etologia e da neurociência cognitiva tem demonstrado que os suínos (Sus scrofa domesticus) possuem uma complexidade neurocognitiva que rivaliza com a de primatas não humanos e cetáceos, destacando-se como uma das espécies mais inteligentes do reino animal. No estudo fundamental "Thinking Pigs: A Comparative Review of Cognition, Emotion, and Personality in Sus scrofa domesticus" (Marino & Colvin, 2015), os investigadores compilam evidências de que os porcos exibem uma memória a longo prazo notável e uma capacidade avançada de resolução de problemas. Um dos marcos desta inteligência é a compreensão da perspetiva espacial, demonstrada no estudo "Pigs learn what a mirror image represents and use it to obtain information" (Broom et al., 2009), onde os animais conseguiram utilizar espelhos para localizar alimento escondido, um indicador de processamento visual sofisticado.

Para além da inteligência lógica, os porcos manifestam uma vida social e emocional extremamente rica. A existência de empatia e contágio emocional foi documentada em "Indicators of positive and negative emotions and emotional contagion in pigs" (Reimert et al., 2013), revelando que estes animais não só sentem emoções complexas, como estas são influenciadas pelo estado de ânimo dos seus pares. Esta sensibilidade estende-se à interação com humanos e à capacidade de aprendizagem tecnológica, como comprovado pela recente investigação "Investigation of Video Game Play in Pigs" (Croney & Boysen, 2021), onde os suínos demonstraram competência na manipulação de joysticks para atingir objetivos num ecrã.

Contrariamente ao estigma popular, o porco é um animal instintivamente limpo; quando dispõem de espaço adequado, estabelecem áreas rigorosas para alimentação e repouso, mantendo-as afastadas das zonas de excreção. O comportamento de se refrescarem na lama é, na verdade, uma solução biológica engenhosa para a termorregulação e proteção dérmica, uma vez que a sua anatomia possui um número reduzido de glândulas sudoríparas. Em suma, a ciência moderna reitera que os porcos são seres sencientes, dotados de consciência social, capacidades cognitivas superiores e uma higiene comportamental que desafia preconceitos históricos.

Saber mais:

1. Pig Intelligence

2. From snout to tail, there’s more to pigs than meets the eye

3. No, Pigs Aren't Dirty

4. Eight Things You Probably Didn’t Know About Pigs

quinta-feira, 5 de março de 2026

The Cure - Push


This melody means a lot to me. Released on August 30, 1985, I was 19 years old. The moment I heard it, it clung to my soul and never let go. It’s been woven into the fabric of my life for forty years.

The song begins not with words, but with an instrumental preamble that feels like a sunrise over a desolate moor - a long, glittering hallway of sound where Gallup’s bass acts as a steady, subterranean pulse. The guitars, layered in chorus and reverb, spin like silver webs catching the light, suspending the listener for two minutes in the musical equivalent of holding one’s breath until the lungs burn. We wait for the push, or perhaps the fall, until Robert Smith’s voice finally breaks through. It isn’t a whisper; it’s a desperate, melodic cry painting a portrait of fractured intimacy.

"Push" lingers as a quintessential anthem because it finds beauty in the breaking—it is the electric, terrifying thrill of the moment just before the end, the sound of a heart beating too fast in a room that’s far too quiet.

It's not just about romantic relationships. Everyone interprets it in their own way. 

For me, it healed the loss of my first love. Also, when someone (a friend) is no longer with me, or the death of a friendship, or the physical separation from an animal, or when I did everything in my power to prevent the senseless slaughter of our native woods or our urban trees, I return to this hymn because it eases my pain.


Go go go!
Push him away
No no no!
Don't let him stay...

He gets inside to stare at her
The seeping mouth
The mouth that knows
The secret you
Always you
A smile to hide the fear away
Oh! smear this man across the walls
Like strawberries and cream
It's the only way to be

Exactly the same clean room
Exactly the same clean bed
But I've stayed away too long this time
And I've got too big to fit this time.

Conflito emocional e afastamento em "Push" de The Cure
Em "Push", do The Cure, a letra explora o conflito entre o desejo de proximidade e a necessidade de afastamento. A imagem marcante de "smear this man across the walls / Like strawberries and cream" (espalhar esse homem pelas paredes / como morangos com creme) revela um impulso quase obsessivo de apagar a presença de alguém, misturando sentimentos de repulsa e fascínio. Essa metáfora sugere não só o afastamento físico, mas também a tentativa de eliminar qualquer lembrança ou influência emocional da pessoa, reforçando o tema do distanciamento.

O desconforto do narrador se intensifica quando ele admite: "But I've stayed away too long this time / And I've got too big to fit this time" (mas fiquei longe por tempo demais desta vez / e fiquei grande demais para caber desta vez). Esses versos deixam claro o sentimento de não pertencimento e a percepção de que mudanças internas o afastaram de um espaço ou relação que antes era familiar. O contexto da música, frequentemente discutido por fãs e críticos, aponta para a luta em controlar a influência do outro e a necessidade de criar barreiras emocionais. Assim, "Push" se destaca como um retrato direto e honesto do embate entre o desejo de conexão e a autopreservação, traduzindo em palavras e sons a experiência do distanciamento emocional.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

UADA - Something in the Way


A banda UADA é de nacionalidade norte-americana (originária de Portland, Oregon) e o seu estilo musical principal é o Melodic Black Metal (Black Metal Melódico).

Sobre o lançamento específico 

1. "Something in the Way" (Cover de Nirvana)

Embora a canção original seja um clássico do Grunge da banda Nirvana, o UADA lançou uma versão desta música em janeiro de 2026.

Estilo da Versão: A banda reinterpretou a canção dentro da sua estética sombria, transformando-a numa espécie de "lamento de Black Metal". Eles mantiveram a estrutura melancólica original, mas adicionaram uma atmosfera mais densa, gélida e o uso de violoncelo para acentuar o tom fúnebre.

Significado da Escolha: Segundo o vocalista Jake Superchi, a cover foi uma homenagem às influências regionais da sua juventude (o Noroeste Pacífico dos EUA, berço do Grunge) e uma exceção à regra da banda de não fazer covers.

2. Estilo Musical da Banda

O som do UADA é frequentemente caracterizado por:

Melodias Marcantes: ao contrário do Black Metal mais caótico, eles focam em harmonias de guitarra que lembram bandas como Dissection ou Mgła.

Atmosfera e Mistério: as letras abordam temas como paganismo, misticismo e escuridão. Visualmente, a banda é conhecida por atuar com os rostos cobertos por capuzes, mantendo um ar de anonimato.

USBM (United States Black Metal): Eles são considerados um dos principais nomes da nova vaga do Black Metal dos Estados Unidos.

Curiosidade: o nome "Uada" vem do latim e significa "Assombrado".

Em “Something In The Way”, dos Nirvana, a imagem de "viver debaixo da ponte" funciona como uma metáfora forte para o isolamento extremo e a sensação de estar à margem da sociedade. Apesar de muitos fãs acreditarem que a letra seja autobiográfica, refletindo um suposto período em que Kurt Cobain teria vivido como sem-teto, não há confirmação de que isso tenha realmente acontecido. A música, portanto, se apresenta mais como um retrato emocional do que um relato literal da vida de Cobain.

O verso “And the animals I've trapped have all become my pets” (E os animais que capturei viraram meus animais de estimação) mostra a solidão do personagem, que encontra companhia apenas nos animais, reforçando o sentimento de abandono. A repetição de “Something in the way” (Algo no caminho) destaca a presença de um obstáculo invisível, algo que impede o personagem de se reconectar com o mundo. Trechos como “living off of grass and the drippings from my ceiling” (vivendo de capim e do que pinga do meu teto) e “it's okay to eat fish 'cause they don't have any feelings” (tudo bem comer peixe porque eles não têm sentimentos) evidenciam a precariedade e a desumanização, além de mostrar uma tentativa de racionalizar a própria sobrevivência. O arranjo minimalista e o tom sombrio da música reforçam a sensação de resignação. A colaboração não creditada de Mark Lanegan pode ter contribuído para esse clima de desolação. A canção ganhou novo significado ao ser usada no filme “The Batman”, ilustrando o isolamento e o tormento do personagem principal, o que mostra como sua melancolia é universal e atemporal.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Ingela Alvmyren

Ingela Alvmyren (aquarelista Sueca, nascida em 1972)

Estilo e Temas
Realismo poético. Ingela procura capturar sensações, luz, atmosfera e a sensação da natureza, mais do que apenas retratar fielmente o motivo.
Os seus temas favoritos incluem natureza, paisagens, florestas e especialmente pássaros –  Ingela pinta muitas vezes cenas do ambiente natural que a rodeia.

Técnica 
A principal técnica que utiliza é aquarela, explorando as suas possibilidades de luz e textura. 
Forte ênfase em luz, movimento, transparência e sensação, mais do que em detalhe anatómico rigoroso.
Uso expressivo da aquarela, deixando a água, as manchas e os vazios participarem da imagem.


segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Craig, elefante ícone de Conservação da Natureza, morreu este fim-de-semana


Craig, o velho elefante que vivia no parque nacional de Amboseli, Quénia, morreu este fim-de-semana aos 54 anos de idade, aparentemente de velhice e devido ao desgaste da sua última série de molares. Este indivíduo era um símbolo, conhecido de muita gente

Apesar deste desfecho triste é positivo que Craig tenha conseguido ter uma vida longeva, a salvo das ameaças que continuam a pairar sobre esta espécie. As autoridades de conservação quenianas acompanharam a situação e tomaram as medidas para garantir que as presas deste magnífico animal, com 45 kg cada, não foram desviadas para fins ilícitos.

Fonte: Amboseli Trust for Elephants

domingo, 28 de dezembro de 2025

Brigitte Bardot: polémicas, grandes paixões, drogas e lutas. Recorde a lenda do cinema francês, que acabou sozinha e abandonada pelo filho


"A Fundação Brigitte Bardot anuncia com profunda tristeza a morte da sua fundadora e presidente, Madame Brigitte Bardot, atriz e cantora mundialmente reconhecida, que escolheu abandonar a sua prestigiada carreira para dedicar a sua vida e energia ao bem-estar animal e à sua fundação".

Foi assim que o mundo soube, este domingo, dia 28, da morte de Brigitte Bardot, aos 91 anos de idade.

Musa dos maiores cineastas e músicos franceses, de Godard a Gainsbourg, BB, como era conhecida, foi símbolo de libertação sexual e da emancipação da mulher e ícone da sétima arte, tendo participado em 47 filmes em pouco mais de duas décadas.

Nascida em 1934 numa família parisiense rica e educada numa escola católica, a jovem Brigitte recebeu uma educação particularmente rigorosa. Desde a infância, foi incentivada a dançar pela sua mãe, Anne-Marie. A dança viria a 'esculpir' o seu famoso corpo, a sua graça e elegância, mas foi diante das câmeras que BB encontrou a sua vocação.

Com apenas 15 anos, foi capa da revista 'Elle', graças a um pedido especial da sua mãe a uma amiga, que era editora da revista. Foi assim que conseguiu a sua primeira audição para um filme do realizador Marc Allégret, onde viria a conhecer e a apaixonar-se pelo seu assistente, Roger Vadim.

Os dois casaram em 1952, quando BB tinha 18 anos, e separaram-se em 1956. Foi Vadim quem deu a BB o seu primeiro grande papel - e um dos mais icónicos da sua carreira - depois de algumas participações menores: 'E Deus Criou a Mulher', que foi um sucesso mundial que catapultou a carreira da jovem atriz.

Provocativa e moderna, livre e sensual, num piscar de olhos Brigitte Bardot tornou-se um símbolo sexual, uma estrela de cinema e um dos rostos mais famosos do planeta.

Depois de 'Une Parisienne' e 'Babette s'en va-t-en guerre', BB protagonizou 'La Vérité' em 1960, uma produção extremamente desgastante durante a qual foi maltratada pelo realizador, Henri-Georges Clouzot. O filme foi um sucesso, mas terá sido o início do desencanto de BB com o mundo do cinema. Em apenas três anos, a atriz fora alvo de todo o tipo de comentários, tanto admirada como insultada.

A tentativa de pôr fim à vida
No meio do turbilhão que foram os primeiros anos da sua carreira, com a fama súbita e as más-línguas sobre os seus inúmeros 'affairs' e a sua imagem sexual, BB chegou mesmo a tentar o suicídio e também recorreu às drogas, tendo tido uma overdose em 1958.

A própria atriz admitiu que as suas relações nunca duravam muito porque fartava-se rapidamente. "Sempre procurei paixão. Era por isso que era muitas vezes infiel. Quando a paixão começava a desaparecer, ia fazer as malas", contou.

Depois de Vadim, BB foi casada mais três vezes, com Jacques Charrier - o pai do seu único filho, Nicolas-Jacques, com quem nunca teve uma relação próxima por nunca ter realmente querido ser mãe - com o milionário Gunter Sachs e com Bernard d'Ormale, a sua relação mais duradora. Pelo meio ficaram inúmeros romances e affairs extraconjugais, entre os quais com o ator Alain Delon ou o músico Sacha Distel. Relações "oficiais" terão sido 17, segundo contas da própria atriz.

BB chegou também a fazer carreira na música, com êxitos como 'Harley-Davidson' e 'Bonnie and Clyde' e, em 1973, decidiu abandonar de vez o mundo do cinema, com apenas 38 anos. No set do seu último filme, a atriz, prestes a reformar-se, resgatou uma cabra. E os animais tornaram-se então a sua maior paixão.

Em 1976, dedicou-se integralmente à defesa das focas, abatidas por sua pele, um produto de luxo que Brigitte Bardot conseguiu banir em França e, posteriormente, na Europa.

Em 1986, criou então a Fundação Brigitte Bardot, à qual dedicaria todo o seu tempo e fortuna, envolvendo-se nas mais variadas campanhas de bem-estar animal, por vezes de forma radical.

Nas últimas décadas, BB escolheu retirar-se da vida pública e viver em reclusão na sua propriedade em Saint-Tropez.

A aproximação à extrema-direita
Os seus últimos anos ficaram marcados por posicionamentos controversos, entre os quais o seu apoio público a Marine Le Pen. Mas estas polémicas também faziam parte da liberdade de Bardot.


quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Peter Singer- Libertação Animal

E-livro aqui

Como muitos dos debates internacionais que animam a opinião pública, as universidades e os intelectuais dos países mais desenvolvidos, o problema dos direitos dos animais tem passado despercebido em Portugal. Temos até o caso de Barrancos a lembrar-nos até onde a crueldade portuguesa pode ir em nome da tradição (como se qualquer tradição, só por ser uma tradição, devesse ser respeitada — afinal, também a escravatura era uma tradição milenar e foi abandonada). Com a publicação em Portugal da obra Libertação Animal, de Peter Singer, a Via Óptima vem dar aos portugueses a possibilidade de participar no debate internacional de ideias e de repensar algumas das suas convicções mais enraizadas. Esta obra foi originalmente publicada em 1975 e foi responsável pela vitalidade dos mais importantes movimentos em prol dos direitos dos animais. A edição a que agora temos acesso em português, traduzida por Maria de Fátima St. Aubyn, é a edição revista de 1990.

O livro tem 6 capítulos, dois prefácios (referentes às edições de 1975 e de 1990), três apêndices e várias fotografias ilustrativas do modo como os animais são tratados. Os apêndices apresentam uma útil bibliografia comentada, indicações que ajudam a viver sem pactuar com a crueldade para com os animais, e ainda uma listagem de organizações que, um pouco por todo o mundo, lutam contra o modo como tratamos os animais. O editor português incluiu nesta lista, e bem, referências a organizações congéneres portuguesas.

O primeiro capítulo é semelhante ao capítulo 2 da obra Ética Prática e tem por título "Todos os animais são iguais". Trata-se de discutir a ideia de igualdade e de mostrar que restringir esta ideia aos seres humanos é uma forma de "especismo" — um preconceito indefensável e semelhante em tudo ao racismo. A ideia de igualdade é muitas vezes mal compreendida pelo grande público. Pensa-se que as mulheres e os negros ou os ciganos têm os mesmos direitos que as outras pessoas por serem iguais às outras pessoas. Mas isto esconde ainda uma forma de racismo e de sexismo. Em primeiro lugar, os homens são muito diferentes das mulheres: têm sexos diferentes. Mas daí não se segue que os direitos das mulheres se subordinem aos direitos dos homens. Em segundo lugar, é óbvio que há pessoas mais inteligentes que outras. Newton ou Einstein ou Descartes foram mais inteligentes do que a maior parte de nós; mas daí não se segue que tenham mais direitos do que nós. Em conclusão: não é por os ciganos, negros, etc. serem iguais aos outros seres humanos que têm os mesmos direitos. É verdade que são realmente iguais, em termos genéricos, nomeadamente quanto à inteligência; mas mesmo que não fossem, isso não determinaria que tivessem menos direitos. Afinal, um deficiente mental não tem a mesma inteligência de uma pessoa normal, mas não deve ser discriminada por isso.

Quando compreendemos a igualdade correctamente, compreendemos que é difícil não a alargar aos outros animais; discriminar com base na espécie é tão aleatório como discriminar com base na etnia ou no sexo. O que é moralmente relevante para ter direitos é a possibilidade de sofrer. Dado que os animais podem sofrer, têm direitos. No primeiro capítulo, Singer procura mostrar que a correcta compreensão da noção de igualdade implica que os animais têm direitos, respondendo a muitas das objecções que é comum levantar neste ponto do debate: será que os animais sofrem realmente, ou serão meros autómatos incapazes de sentir dor por não terem alma, como defendia Descartes? Será que faz sentido falar de direitos dos animais quando eles não têm sequer a noção do que é um direito? Singer responde com imparcialidade, rigor e bonomia a estas e outras objecções.

O segundo capítulo, intitulado "Instrumentos para a investigação" apresenta a realidade das experiências científicas com animais. Tanto este capítulo como o seguinte baseiam-se em ampla documentação. O autor conduziu uma investigação sobre o modo como os animais são usados na investigação científica — e os resultados são surpreendentes. A ideia que se tem geralmente é que as experiências com animais permitem avanços importantes em medicina, o que ajuda a salvar vidas humanas. Isto é falso. Grande parte das experiências científicas com animais são levadas a cabo por psicólogos que estudam o comportamento dos animais em situações anormais. Por exemplo: colocam um cão vivo numa espécie de forno, o qual aquecem lentamente até o cão morrer por ser incapaz de suportar o calor. Dão choques eléctricos a ratos e cães, para determinar como reagem a situações de dor permanente. Grande parte deste capítulo consiste em descrever experiências deste género, com base nos relatórios publicados nas revistas da especialidade.

Além de grande parte das experiências com animais levadas a cabo pelos cientistas ser perfeitamente irrelevante para o progresso do conhecimento, não é também verdade que algumas experiências sejam determinantes para salvar vidas humanas. Na verdade, nunca tal coisa aconteceu; e o contrário está mais próximo da verdade. Alguns avanços médicos cruciais que salvaram milhares de vidas jamais teriam sido alcançados caso se baseassem em experiências com animais: "a insulina pode provocar deformações em coelhos e ratos pequenos, mas não nos seres humanos. A morfina, que actua como calmante nos seres humanos, provoca delírios em ratos" (p. 53). E a penicilina é tóxica para os porquinhos-da-índia.

A maior parte das pessoas que defendem os direitos dos animais estarão dispostas a concordar com os argumentos do autor até chegarem ao capítulo 3, intitulado "Visita a uma unidade de criação intensiva". Neste capítulo descreve-se a forma como os animais que comemos são tratados pelas modernas unidades de criação intensiva e o sofrimento a que são sujeitos. E é aqui que começam as dificuldades para o defensor dos animais, pois agora não se trata só de uma opinião sobre coisas que não o afectam; para ser consequente, o defensor dos direitos dos animais terá de deixar de comer animais, dado que é o nosso gosto por carne e peixe que determina o modo como os animais são tratados. O modo como as galinhas, os porcos e as vacas são tratados nas unidades de criação intensiva é descrito de forma imparcial, com base nas revistas da especialidade.

Dada a forma como os animais são tratados para produzirem carne, ovos e leite, que pode o defensor dos direitos dos animais fazer para ajudar a resolver a situação? O tema do capítulo 4, "Ser vegetariano", defende um estilo de vida vegetariano como resposta a esta questão, para que o defensor dos direitos dos animais não seja hipócrita e inconsequente, defendendo com palavras o que contraria nos seus actos: "É fácil tomar posição acerca de uma questão remota, mas os especistas, como os racistas, revelam a sua verdadeira natureza quando a questão se torna mais próxima. Protestar contra as touradas em Espanha, o consumo de cães na Coreia do Sul ou o abate de focas bebés no Canadá enquanto se continua a comer ovos de galinhas que passam as suas vidas amontoadas em gaiolas, ou carne de vitelas que foram privadas das mães, do seu alimento natural e da liberdade de se deitarem com os membros estendidos, é como denunciar o apartheid na África do Sul enquanto se pede aos vizinhos para não venderem a casa a negros" (p. 152).

Surpreendentemente, há ainda outras razões para abandonar o consumo de carne. A produção intensiva de animais para abate é, em termos ecológicos, um disparate. "São necessários cerca de 11 kg de proteínas em ração para produzir o 1/2 kg de proteína que chega aos seres humanos. Recuperamos menos de 5 % daquilo que investimos" (p. 155). As fezes dos animais que são produzidos para abate contribuem em larga medida para o efeito de estufa; as urinas contaminam os solos e os lençóis subterrâneos de água. A água é consumida em grandes quantidades pelos animais para abate, contribuindo assim para o esgotamento progressivo das reservas de água potável. "A água necessária a um boi de 500 kg faria flutuar um contratorpedeiro" (p. 157). Os animais para abate são alimentados com rações que são produzidas a partir de cereais que os seres humanos podem consumir directamente, de forma muito mais vantajosa. "Se os americanos reduzissem o seu consumo de carne em 10 % durante um ano, libertariam pelo menos 12 milhões de toneladas de cereal, que […] seria suficiente para alimentar 60 milhões de pessoas" (p. 156).

O capítulo 5, intitulado "O domínio do Homem" procura dar conta das origens históricas do especismo. O pensamento grego, romano, islâmico e cristão é profundamente especista — coloca os animais fora da consideração moral, tratando-os como meros objectos inanimados. A ideia de ver um animal a sofrer e de explorar o seu comportamento nessa situação tem raízes antigas, subsistindo ainda nos dias de hoje em espectáculos como a tourada. Peter Singer acompanha a história do especismo, que começa a tornar-se cada vez mais difícil de sustentar, sobretudo depois de Darwin. Mas trata-se de um preconceito de tal modo enraizado que mesmo T. H. Huxley, um dos maiores defensores do darwinismo, compreendendo que não há um fosso biológico entre nós e os outros animais, continua a acreditar nele, resistindo à refutação do especismo. Mas "a resistência à refutação é uma característica distintiva de uma ideologia. Se os fundamentos de uma posição ideológica lhe forem retirados, encontrar-se-ão novas construções ou, então, a posição ideológica permanecerá suspensa, desafiando o equivalente lógico da lei da gravidade" (p. 197).

O capítulo final do livro, "O especismo hoje", apresenta objecções e respostas à causa dos direitos dos animais e alguns dos resultados prometedores a que já se chegou. Diz-se por vezes que os animais não podem ter direitos porque não têm deveres nem entendem o que é ter direitos. Mas os deficientes mentais e os bebés também não têm deveres nem compreendem o que é ter direitos — e no entanto têm direitos. Afirma-se também por vezes que os seres humanos não podem passar sem comer carne; mas isto é pura e simplesmente falso, como o atestam os milhões de vegetarianos saudáveis em todo o mundo. Também se coloca por vezes a questão de saber por que motivo nos devemos coibir de matar os animais para comer, se os animais se matam uns aos outros com o mesmo fim. Mas ninguém acha que podemos matar outros seres humanos para comer, apesar de sabermos que os animais matam seres humanos para comer se tiverem oportunidade de o fazer.

Libertação Animal é uma obra de leitura obrigatória. Pela clareza, seriedade e honestidade. Pelo rigor lógico. Pela inteligência dos seus argumentos. Está de parabéns a Via Optima. E quando uma editora está de parabéns, somos todos nós que ganhamos.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Dia Internacional dos Direitos Humanos e Dia Internacional dos Direitos dos Animais


O astronauta da NASA Ron Garan, que passou 178 dias no espaço, afirma que a humanidade está “vivendo uma mentira” após ver, com os próprios olhos, a fragilidade da Terra e vivenciar o profundo Efeito Perspectiva (Overview Effect).

Ao observar o planeta da órbita, Garan percebeu como nossas prioridades estão invertidas: colocamos a economia em primeiro lugar e o planeta por último, mesmo sabendo que a fina atmosfera da Terra é a única barreira que protege toda a vida. Para ele, a verdadeira ordem de importância deveria ser: Planeta → Sociedade → Economia, já que sem uma Terra saudável, nem as pessoas nem os sistemas conseguem sobreviver.

Ele descreve a “mentira” como a ilusão da separação — a falsa crença de que somos divididos por nações, políticas ou identidades. Na realidade, segundo Garan, somos uma única família humana compartilhando um lar frágil. Sua mensagem é um apelo urgente por união, consciência e sustentabilidade, antes que seja tarde demais.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Habita a Terra como ela te habita


"Caminho descalço para aprender o chão.
Cada grão de pó é um irmão mais velho
que me ensina a leveza do peso
e a gravidade das minhas escolhas.
A terra respira por baixo de mim,
larga e silenciosa,
como se guardasse no húmus
uma lei sem nome:
a de não ferir o que vive.
Toco nas pedras com as mãos abertas,
procuro nelas o fogo antigo
que nunca reclamou conquistas,
apenas lugar.
E penso que também eu devia ser assim:
habitar, não possuir.
O vento atravessa o vale —
não reclama nada,
apenas desloca o mundo com a sua suavidade.
Deixa-me limpo de excessos,
como tronco depois da chuva.
Então compreendo:
a força é um animal oculto que caminha sem pegadas,
e uma semente rasga o véu do subterrâneo
como um astro minúsculo acendendo luz
no ventre intacto da noite.
E quando a luz se deita sobre o campo,
percebo que o mundo é um corpo
que me empresta abrigo.
Em troca só me pede isto:
caminha suave,
não abras feridas
onde a vida se faz inteiro."
Joao Soares 03.12.2025

domingo, 30 de novembro de 2025

Islamismo, cães, gatos, FIFA e legislação sobre alimentação de animais de rua em Portugal


Marrocos estará a considerar o abate de 3 milhões de cães de rua antes do Campeonato do Mundo de Futebol de 2030 para "melhorar" a aparência da cidade. Os activistas dos direitos dos animais estão indignados. Cerca de 300 mil cães são mortos todos os anos, e este número tem aumentado desde que Marrocos foi escolhido como um dos países anfitriões.

A maioria dos muçulmanos acredita que os cães são animais impuros e, inclusive , procuram evitar todo e qualquer contato com eles, principalmente com a saliva do animal.
O engraçado é que essa crença, ao contrário do que muitos deles pensam, não está no Alcorão. O Alcorão (ou seja, Allah) não fala que os cães são impuros. O que acontece é que os muçulmanos seguem, além do Alcorão, suas interpretações: as Sunas e os Hadiths.

Sunas são as tradições e os ensinamentos transmitidos pelo profeta Muhammad (Maomé em português), que é o mais recente e último profeta do Deus de Abraão.

Hadith é um corpo de leis, lendas e histórias sobre a vida do profeta Muhammad. 

No fundo em todas as religiões do mundo há contradições e modificar uma postura incongruente e pouco ética de cada religião, demora o seu tempo.

Não deveria acontecer em parte nenhuma do mundo, infelizmente nuns países pior do que noutros e Portugal, não é exceção. Até há regulamentos municipais em Portugal que proíbem, com coimas, alimentar cães e gatos de rua.

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

André Ventura, mentiroso e racista

André Ventura, mentiroso e racista. Criou um vídeo da IA, dizendo que ocorreu maus-tratos de um cavalo em Portugal, por parte dos ciganos. É falso!

Verdade dos Factos
O vídeo é antigo e passa-se no Egipto
2º  Uma imagem desse vídeo (captura de ecrã) é mostrado num crowdfunding de uma cidadão belga, que registou o mesmo problema em Marrocos
O cavalo em questão é Montana, um magnífico garanhão árabe berbere puro-sangue! Nasceu em Marrocos há 12 anos e passou a maior parte da sua vida como cavalo de charrete.
Sabe como é a vida de um cavalo de charrete lá?
Bem, é simples: uma vida de sofrimento! Dia após dia, puxam cargas extremamente pesadas, transportando muitas vezes turistas inocentes que desconhecem o seu sofrimento! Do amanhecer ao anoitecer, puxam sob o calor intenso, sem comida nem água, porque os seus donos muitas vezes não têm condições para os alimentar! Um veterinário? Muito caro ou indisponível! Um ferrador? Qual a vantagem quando "sabe" como fazer você mesmo! Desparasitação, vacinas, osteopatia, etc. Longe de ser uma prioridade! Depois sofrem com os ferimentos causados ​​pelo atrito do arreio, pelas chicotadas e pelos golpes que recebem por já não se conseguirem mover para a frente…
Muitas vezes, desmaiam de exaustão, desidratação, fome e dor… Depois ou morrem, ou são vendidos nos souks. Montana teve a sorte de ser muitos outros... Caiu nas mãos de Manon e Brahim e foi parar ao estábulo Amazir Cheval, onde cuidaram dele como merecia.
Trataram-lhe das feridas, alimentaram-no, prestaram-lhe todos os cuidados necessários (veterinário, osteopata, dentista, nutricionista, ferrador, etc.) e, acima de tudo, muito amor!
E uma cidadã belga Céline Trullemans  recorreu ao crowdfunding para que Montana ficasse na Bélgica.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Relatórios e críticas académicas sobre o REACH

Em complemento ao que já foi dito aqui, sugiro a leitura da seguinte informação. Apesar dos seus progressos, diversos estudos académicos têm apontado limitações importantes que comprometem a sua eficácia ambiental.

Entre as principais críticas destaca-se a lentidão dos processos de avaliação e autorização, que faz com que muitas substâncias perigosas permaneçam no mercado durante anos antes de qualquer restrição efetiva. A qualidade e transparência dos dados submetidos pelas empresas também suscitam dúvidas: análises recentes revelam que mais de metade dos estudos utilizados não seguem padrões regulatórios consistentes.

Outro ponto central é a avaliação insuficiente dos efeitos combinados de misturas químicas. O REACH tende a analisar substâncias isoladamente, ignorando o chamado efeito cocktail, em que misturas de compostos aparentemente inofensivos podem causar sérios impactos sobre ecossistemas aquáticos e terrestres. Investigadores e organizações ambientais defendem a introdução de um mixture assessment factor para refletir melhor a realidade ecológica.

Estudos em ecotoxicologia demonstram que os dados de toxicidade ambiental no REACH são incompletos ou de baixa qualidade, o que dificulta a avaliação da pegada ecológica das substâncias. Isto tem implicações diretas na biodiversidade, na contaminação da água e do solo, e na saúde dos ecossistemas.

Além disso, há disparidades na aplicação entre Estados-Membros, o que fragiliza a coerência da proteção ambiental. A indústria, por seu lado, reconhece o valor do REACH, mas critica os custos e a burocracia associados.

1. Comissão Europeia / ECHA


Socio-economic analysis in REACH. Portal da ECHA que explica como são feitas as análises socioeconómicas para autorizações e restrições.

Evaluation under REACH. Página da ECHA que explica como funcionam os processos de avaliação (compliance check, substance evaluation, testing proposals).


2. Relatórios de avaliação económica ou de custo-benefício

SWD (2018) – Cost and benefit assessments in the REACH restriction dossiers. Este é um relatório da Comissão Europeia (Serviço de Apoio) que analisa os custos e benefícios das restrições propostas sob o REACH (Anexo XVII).

ECHA (2021) “REACH authorisation has positive health and environmental impacts”. Notícia / estudo de impacto socioeconómico que mostra que a exigência de autorização fez muitas empresas substituir substâncias muito preocupantes.

10 REACH Tests (ECHA) — relatório da EEB (European Environmental Bureau) com críticas sobre a metodologia socioeconómica da ECHA e propondo “10 testes” para melhorar a atuação da agência.


3. Críticas Académicas e Impactos Ambientais

1.Santos, A. C. T. e outros. Towards a more effective REACH legislation in protecting human health. Toxicological Sciences. Este artigo discute a lentidão do processo de avaliação/substância e a necessidade de decisões mais rápidas sob o REACH.

2.Spielmann, H. e outros   A critical evaluation of the 2011 ECHA reports on compliance with the REACH and CLP regulations and on the use of alternatives to testing on animals for compliance with the REACH regulation.  Este artigo faz uma crítica aos primeiros relatórios da ECHA sobre conformidade e uso de alternativas a testes em animais.


4. Beyer, Petersen, Song, Ruus, Grung, Bakke, Tollefsen (2014) — Environmental risk assessment of combined effects in aquatic ecotoxicology: a discussion paper. Efeitos combinados de contaminantes aquáticos; relação com REACH, Water Framework Directive (WFD) e Marine Strategy Framework Directive (MSFD).  Aborda desafios ecológicos concretos — misturas aquáticas, biodiversidade, várias espécies de fauna aquática

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

REACH: Entre a Protecção e a Burocracia Química


Quando foi criado em 2007, o REACH (Registration, Evaluation, Authorisation and Restriction of Chemicals) prometia uma revolução silenciosa: tornar o mercado europeu mais seguro para as pessoas e o ambiente, obrigando as empresas a provar que as suas substâncias químicas são seguras antes de as colocarem no mercado. O princípio era simples e poderoso — “sem dados, sem mercado” — e pretendia inverter a lógica que, durante décadas, permitiu a comercialização de produtos cujos riscos eram pouco conhecidos.

Quase duas décadas depois, o balanço do REACH é ambivalente. O regulamento é, sem dúvida, um dos mais ambiciosos instrumentos de política ambiental e de saúde pública da União Europeia. Graças a ele, milhares de substâncias foram avaliadas, algumas restringidas e outras substituídas por alternativas menos perigosas. Porém, o seu percurso tem sido marcado por contradições, entraves administrativos e dilemas éticos que merecem reflexão.

A promessa e o peso da burocracia
O REACH é um sistema complexo. Exige que as empresas recolham, testem e submetam à Agência Europeia dos Produtos Químicos (ECHA) extensos dossiês de informação sobre cada substância fabricada ou importada. Na prática, isso traduziu-se num fardo burocrático pesado, sobretudo para pequenas e médias empresas, que raramente dispõem de recursos técnicos e financeiros para cumprir todos os requisitos.

A boa intenção de responsabilizar a indústria acabou, por vezes, transformada numa teia de procedimentos administrativos, onde a transparência e a qualidade dos dados nem sempre acompanham o volume de informação exigido. Muitos dossiês submetidos contêm lacunas, atrasando as avaliações e comprometendo a eficácia do sistema.

O dilema dos testes em animais
Um dos pontos mais sensíveis do REACH é a questão dos testes toxicológicos em animais. Embora o regulamento promova métodos alternativos, a realidade mostra que, para muitas substâncias, ainda se recorre a ensaios dolorosos e dispendiosos. Organizações de proteção animal criticam o paradoxo de um sistema que pretende ser moderno e ético, mas que mantém práticas experimentais ultrapassadas em nome da segurança humana.

Competitividade e desigualdade global
A indústria química europeia argumenta que o REACH, ao elevar os padrões ambientais e de segurança, também aumentou os custos de produção e reduziu a competitividade face a países onde a regulação é mais branda. Alguns setores alertam para a deslocalização da produção para fora da Europa — um efeito colateral que, paradoxalmente, pode aumentar os impactos ambientais a nível global, ao deslocar a poluição em vez de a reduzir.

Além disso, a ausência de harmonização internacional dificulta o comércio e cria barreiras técnicas, já que outras regiões do mundo não adotaram sistemas equivalentes. O ideal europeu esbarra, assim, na realidade de uma economia global desigual.

A lenta substituição das substâncias perigosas
Outro objetivo central do REACH era incentivar a inovação química verde. Mas a substituição de substâncias perigosas tem sido mais lenta do que o esperado. Muitas vezes, as alternativas introduzidas no mercado revelam-se apenas ligeiramente menos tóxicas — um fenómeno conhecido como regrettable substitution.

Este impasse mostra que o desafio não é apenas regulatório, mas também científico e económico: criar produtos verdadeiramente seguros requer investimento em investigação e vontade política para transformar cadeias produtivas inteiras.

Entre o avanço e a estagnação
Apesar das suas falhas, o REACH continua a ser um marco global. Inspirou legislações fora da Europa e forçou um debate inadiável sobre a responsabilidade da indústria química. No entanto, permanece a necessidade de simplificar processos, melhorar a transparência e acelerar a substituição de substâncias perigosas.

Nomeadamente a fraca qualidade de muitos dossiers relativos a substâncias químicas registadas, implica que muitas substâncias continuam a ser usadas, sem que se tenha informação suficiente para avaliar a sua segurança para a saúde e o ambiente.

Também os processos de restrição de substâncias chegam a demorar mais de uma década para ser completado, com graves perdas para a saúde humana e para o ambiente.

A anterior Comissão Europeia tinha prometido rever o Regulamento REACH durante o seu mandato para o tornar mais eficaz. Contudo, essa promessa não foi cumprida. O atraso existe desde o primeiro trimestre de 2023 (31 de março de 2023), altura em que deveria ter sido publicada a proposta de revisão.

Em resumo
O equilíbrio entre proteção ambiental, bem-estar animal e competitividade económica é delicado — e o REACH é o espelho dessa complexidade. É um exemplo notável de progresso regulatório, mas também um lembrete de que a transição ecológica exige mais do que boas intenções: precisa de coerência, inovação e coragem política.

terça-feira, 30 de setembro de 2025

A beleza da Perdiz-Vermelha e o dilema invisível nos nossos campos

A natureza tem uma forma única de nos desarmar. Recentemente, cruzei-me com uma imagem que me fez parar: uma perdiz-vermelha (Alectoris rufa), com o seu colar preto bem marcado e o bico de um vermelho vivo, a caminhar livremente pelo campo. Completamente selvagem e alheia ao mundo dos humanos. É uma imagem pacífica, mas para quem conhece a realidade do nosso mundo rural, ela traz consigo um dilema profundo. À medida que as temperaturas descem e o mês de outubro avança, os campos portugueses ganham uma nova dinâmica com a abertura da época venatória. É o momento em que a tradição e a conservação colidem.

A caça à perdiz-vermelha é considerada por muitos o pináculo da caça menor em Portugal. O "arranque" - o voo súbito, ruidoso e extremamente rápido da ave quando se sente encurralada - exige reflexos rápidos e perícia por parte do caçador. Nesta atividade, o papel dos cães é absolutamente central. Raças excecionais como o nosso autóctone Perdigueiro Português ou o ágil Epagneul Breton são fundamentais no terreno através de duas funções principais: a parada, onde o cão deteta o odor da ave e paralisa no terreno, apontando a sua direção; e o cobro, que acontece após o disparo, quando o cão localiza e traz a ave de volta, evitando que esta se perca inutilmente no mato.

Por trás da perícia da caça esconde-se, contudo, uma ameaça invisível: as munições de chumbo. Durante décadas, toneladas de pequenos bagos de chumbo foram acumulando-se nos solos, gerando um impacto ambiental devastador. Este problema manifesta-se sobretudo através do saturnismo, que ocorre quando as aves confundem o chumbo com pequenas pedras necessárias para moer o alimento no moageiro e o ingerem, sofrendo uma morte lenta por envenenamento. Além disso, assiste-se à contaminação da cadeia alimentar, dado que os predadores que consomem estas aves, bem como os humanos que comem a sua carne, acabam por acumular este metal pesado no organismo.

Para combater este cenário, a União Europeia implementou restrições severas. Atualmente, segundo as diretrizes da Agência Europeia dos Produtos Químicos (ECHA), é totalmente proibido o uso de chumbo em zonas húmidas e num raio de 100 metros destas, forçando a transição para alternativas ecológicas como o aço ou o tungsténio. No entanto, a transição em Portugal ainda enfrenta resistência no terreno devido ao custo dos novos cartuchos, à incompatibilidade com espingardas mais antigas e à complexidade da fiscalização por parte das autoridades.

Perante este cenário, muitos ponderam a criação de perdiz-vermelha em cativeiro para consumo alimentar ou repovoamento. Embora seja uma atividade legal, o processo está longe de ser simples. Para avançar, o criador enfrenta um labirinto burocrático que exige licenciamento junto do ICNF para a detenção de espécies cinegéticas, além do cumprimento das estritas normas sanitárias,  e de bem-estar animal exigidas pela DGAV (Direção-Geral de Alimentação e Veterinária). Esta enorme barreira burocrática e financeira muitas vezes afasta os pequenos produtores locais, que gostariam apenas de desenvolver um negócio artesanal.

Em meados de outubro, com a época de caça oficialmente aberta - cujos períodos regulamentares podem ser consultados em detalhe no Calendário Venatório do ICNF -, os nossos campos tornam-se o palco deste eterno braço de ferro entre a exploração dos recursos e a conservação da biodiversidade. Ao olhar para a perdiz selvagem da fotografia, o meu desejo imediato era que o mundo não olhasse para tudo o que é belo apenas como um recurso regulado, licenciado ou consumível. Proteger a natureza e garantir que estas aves continuem a voar livres e sem a ameaça de contaminação nos nossos campos não devia ser um dilema burocrático ou cultural - devia ser a nossa única escolha.

terça-feira, 8 de julho de 2025

Robin Wall Kimmerer on What Nature Teaches Us About Giving Back


Neste episódio profundamente reflexivo de "A Grande Questão", Robin Wall Kimmerer, botânica, autora de "Braiding Sweetgrass" e "The Serviceberry", professora e membro da Nação Potawatomi, junta-se a Eva Cornman, do Museu de Ciência, para explorar a relação entre os seres humanos e a Terra. Juntas, nesta entrevista completa, mergulham nas mundividências indígenas, na ideia da economia da dádiva e em como honrar a reciprocidade com a natureza nos pode guiar para soluções climáticas enraizadas na gratidão, e não na dominação.

Quer seja ambientalista, estudante, educador ou simplesmente alguém em busca de esperança e reconexão, este vídeo oferece insights valiosos de uma das vozes ecológicas mais importantes da nossa época.

terça-feira, 3 de junho de 2025

Democracia No Reino Animal



Quando a necessidade prevalece no mundo selvagem, a cooperação torna-se crucial. No Botswana, entre as sociedades animal mais hierárquicas, o líder consulta os membros do seu grupo antes de ter alguma ação. Cada espécie prossegue à sua maneira para que o seu ponto de vista seja ouvido pelo seu líder. Os cães (os cães selvagens) espirram, os babuínos caminham numa determinada direção, os elefantes roncam e os suricatas gritam. E se a democracia tiver sido inventada pelos animais?


A maioria é uma garantia mais eficaz da sobrevivência do que qualquer tirania. Uma viagem para conhecer os animais europeus em que o povo governa através de votações… Espécies compostas por dezenas, centenas ou até milhares de indivíduos tomam as suas decisões democraticamente sem seguirem um líder. Búfalos, abelhas, veados e pombos decidem juntos o que fazer e onde ir. Nestes animais, o grupo está em primeiro lugar.

Há imensa literatura científica sobre "democracia" e empatia. Quando os indivíduos dominantes excluem os subordinados da partilha de alimentos, os subordinados iniciam um movimento coletivo para restaurar o equilíbrio de poder. Diante disso, as posições são trocadas: o alfa abandona a liderança e passa a seguir os comandos estabelecidos pelo grupo. Os resultados do estudo revelam o papel da tomada de decisão partilhada na manutenção do equilíbrio de influência nas sociedades animais.

domingo, 4 de maio de 2025

Cientistas confirmam que os caranguejos podem mesmo sentir dor



Os crustáceos podem ter um aspeto exterior duro, mas no seu interior podem ser mais sensíveis do que geralmente se supõe.

Pela primeira vez, os cientistas mostraram que os cérebros dos caranguejos-de-praia vivos (Carcinus maenas ) conseguem processar a dor de formas diferenciadas, dependendo da gravidade e da localização dos danos.

A descoberta deixa em aberto a possibilidade de que os caranguejos e crustáceos relacionados possam realmente sentir dor. E embora seja necessária mais investigação, isto significa que os humanos que fervem ou cortam estas criaturas vivas podem estar a causar sofrimento indevido.

"Precisamos de encontrar formas menos dolorosas de matar marisco se quisermos continuar a comê-lo", defende a zoofisiologista Lynne Sneddon, da Universidade de Gotemburgo.

"Porque agora temos provas científicas de que sentem e reagem à dor."
Os locais onde foram testados os estímulos dolorosos, incluindo os estímulos químicos (vermelho) e os estímulos mecânicos (preto). (Kasiouras et al., Biologia , 2024)

Os cientistas debatem há muito tempo o que significa sentir dor e, nos últimos anos, alguns especialistas têm defendido que é possível que os peixes , anfíbios e polvos respondam a estímulos nocivos a um nível cognitivo historicamente reservado aos vertebrados.

No início deste ano, por exemplo, um estudo descobriu que os caranguejos-da-praia mostraram sinais de ansiedade perante choques elétricos e luzes brilhantes, aprendendo a evitar os estímulos com o tempo. Isto é consistente com as previsões de que os crustáceos podem sentir dor. Mas alguns cientistas céticos defendem que isso é apenas reflexo.

Afinal, mesmo os animais com sistemas nervosos básicos podem responder a estímulos dolorosos e aprender a evitá-los. Esta é uma parte muito importante da sobrevivência. Mas normalmente estas respostas são consideradas inconscientes, desencadeadas pelo sistema nervoso periférico.

O reconhecimento "consciente" do dano requer a integração de um sistema nervoso centralizado, e é isso que os investigadores mostraram agora ser possível nos caranguejos-da-praia.

A atividade do sistema nervoso do caranguejo foi monitorizada através de um instrumento semelhante a um eletroencefalograma (EEG), que regista a atividade elétrica do cérebro humano a partir do crânio.

Neste caso, foram colocados elétrodos em cascas de caranguejo, e os investigadores iniciaram um teste padrão de dor utilizado em vertebrados e peixes.

O sistema nervoso de um caranguejo-da-praia. (Kasiouras et al., Biologia , 2024)

Quando uma forma de vinagre com acidez variável foi espalhada nos tecidos moles em redor do corpo de vários caranguejos, os cientistas conseguiram ver recetores de dor no sistema nervoso periférico a sinalizar partes do cérebro.

Quanto maior for a concentração de ácido, maior será a resposta do sistema nervoso central do caranguejo.

Quando os caranguejos foram picados com um estímulo mecânico doloroso, em vez de um químico, o seu sistema nervoso central mostrou uma amplitude ainda maior de atividade elétrica, embora codificada num padrão diferente.

De facto, os investigadores conseguiram dizer apenas pela atividade cerebral do caranguejo se este estava a processar estímulos químicos ou mecânicos.

Neste momento, não é claro se a resposta cerebral ao estímulo mecânico se deveu ao toque ou à dor.

São necessários mais estudos para esclarecer os detalhes, mas esta é uma das primeiras experiências a utilizar sinais eletrofisiológicos para demonstrar respostas semelhantes à dor em todo o corpo de um crustáceo vivo.

Os autores esperam que as suas descobertas possam orientar as práticas de bem-estar animal para garantir o mínimo de sofrimento possível.

"É um dado adquirido que todos os animais precisam de algum tipo de sistema de dor para lidar com a falta de perigo. Não creio que precisemos de testar todas as espécies de crustáceos, pois têm uma estrutura semelhante e, portanto, sistemas nervosos semelhantes", afirma o biólogo Eleftherios Kasiouras, da Universidade de Gotemburgo.

"Podemos assumir que os camarões, os lagostins e as lagostas também podem enviar sinais externos sobre estímulos dolorosos para o cérebro, que processará essa informação."

O estudo foi publicado na revista Biology