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domingo, 12 de abril de 2026

Afonso Cruz - O que a Chama Iluminou


Já tinha lido dois livros dele antes: "O Princípio de Karenina" e "Jesus Cristo bebia cerveja". Adorei os dois livros.
𝑶 𝑸𝒖𝒆 𝑨 𝑪𝒉𝒂𝒎𝒂 𝒊𝒍𝒖𝒎𝒊𝒏𝒐𝒖 é um livro que nasce de uma experiência-limite vivida por Afonso Cruz no Chile aquando dos protestos de 2019. Durante uma perseguição em Santiago, o autor escreve: “É desse lugar, em que a morte nos espreitava através do vidro escuro de um blindado, que quero escrever este livro. Dali, onde estava com R., suspenso entre a vida e a morte (…). Este livro nasce de um beco.” (p. 28). É a partir desse quase fim que o livro se abre para uma reflexão mais vasta sobre todos os fins que atravessam a existência.
A experiência pessoal funciona como detonador, mas Cruz não se encerra nela. Pelo contrário: amplia-a, desdobra-a, coloca-a em diálogo com outras formas de desaparecimento. O livro convoca o fim do amor, quando se perde o amado, o marido, o filho; o fim das palavras, quando a linguagem se gasta e já não nomeia; o fim dos povos indígenas, cuja cultura se esbate como poeira ao vento; o fim dos filhos e dos maridos desaparecidos, que as mulheres de Calama procuram com uma persistência que é, ao mesmo tempo, luto e resistência. Cada uma destas formas de fim é iluminada pela mesma chama: a consciência de que tudo é transitório, mas nada se perde totalmente. Até porque como o autor lembra “o fim pode também ser um princípio ou um recomeço (…). (p. 44)
Afonso Cruz cita vários autores que alimentam a ideia de que o fim de algo está na origem da beleza, da poesia, da arte em geral. Segundo Vicente Verdú “ O vazio é o principal luxo da arte (…) A negação, a dor, o mal, o vazio são eminentes criadores. Altamente ativos.” Estas referências surgem como parte de uma reflexão que se quer ampla e dialogante.
Em vários textos, Cruz recupera a ideia primordial de que somos feitos de pó e ao pó regressaremos, não como ruína, mas como continuidade. É aquilo que permanece quando a forma desaparece. O pó revela que o fim não é interrupção, mas transformação. Esta visão, profundamente serena, afasta o livro de qualquer sombra de medo. A morte não surge como ameaça, mas como claridade.
Outro elemento decisivo e que muito me agradou é a erudição do autor, que se manifesta nas citações, nos exemplos convocados, nas vozes que entram no texto como companheiras de pensamento. As referências funcionam como velas que iluminam diferentes ângulos da mesma questão seja ela filosófica, histórica, científica, poética e ampliam a experiência vivida.
O resultado é uma obra de não ficção que se lê avidamente. A escrita, depurada e aforística, agarra o leitor. Há silêncio entre as frases, entre os textos; há contenção; há uma serenidade que surpreende. Mesmo quando fala da morte, Cruz escreve com lucidez. A chama ilumina o fim, sim, mas ilumina também o que fica, o que continua: a memória, o gesto, o amor, a matéria que se transforma... “(…) todos morremos, mas de que lado da morte queremos estar?” (p. 130)
𝑶 𝑸𝒖𝒆 𝑨 𝑪𝒉𝒂𝒎𝒂 𝒊𝒍𝒖𝒎𝒊𝒏𝒐𝒖 é, por isso, um livro sobre o fim, mas também sobre a esperança. É um livro que nasce de um beco, mas abre-se para uma luz maior. Afonso Cruz oferece-nos uma reflexão íntima e universal, pessoal e ética, que transforma o susto em claridade e o desaparecimento em luz.

Saber mais:
Fernando Alvim conversa com Afonso Cruz sobre a eminência do fim, pessoal  e colectivo, daí resultando esta novela-ensaio, reflexão terna e desapiedada sobre o fim das coisas.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Documentário - Leo from Chicago


1. Documentário do Vaticano
O documentário "Leo from Chicago", realizado pelo cineasta James Keach, é um retrato profundamente humanista e comovente que narra a extraordinária trajetória de Leo, um homem que viveu durante décadas nas ruas de Chicago. Longe de ser uma abordagem assistencialista, Keach utiliza a sua lente para capturar a essência de um indivíduo que, apesar de mergulhado na pobreza extrema e na invisibilidade social, nunca abandonou a sua dignidade ou a sua fé inabalável. Em Chicago, Leo era conhecido não apenas pela sua condição de sem-abrigo, mas pela sua inteligência, pela doçura do seu trato e por uma resiliência silenciosa que o tornava uma figura respeitada na sua comunidade urbana.

A narrativa ganha uma dimensão quase transcendente quando descreve como Leo chegou ao Vaticano. Através de uma rede de amizades e do apoio de pessoas que reconheceram nele uma luz espiritual invulgar, Leo foi convidado a viajar até Roma. Este percurso simboliza um contraste visual e emocional poderoso: a transição das calçadas frias e hostis do Midwest americano para a grandiosidade secular e o mármore dos palácios pontifícios. O documentário culmina no encontro simbólico entre Leo e a cúpula da Igreja Católica, personificando a visão de uma "Igreja para os pobres" e demonstrando que a verdadeira riqueza não se encontra na opulência dos edifícios, mas na pureza de coração de quem nada possui. É uma obra elegante que nos recorda que, independentemente das circunstâncias materiais, a essência humana permanece sagrada.

2. Outro Documentário: Robert Prevost - De Chicago ao Papa Leão XIV
Um Papa diferente de todos os outros. Na primavera de 2025, o mundo assistiu ao fumo branco a subir sobre a Basílica de São Pedro, assinalando um novo capítulo na história católica. O homem escolhido: Robert Prevost — um antigo coroinha de Chicago, missionário no Peru e humilde frade agostiniano. Agora, é o Papa Leão XIV, o primeiro norte-americano a liderar a Igreja Católica global.

Neste documentário aprofundado traça a vida extraordinária do Papa Leão XIV, desde a sua infância cheia de fé no coração da América até aos bairros poeirentos do Peru, aos corredores do Vaticano e, finalmente, à varanda papal. Testemunhe como um construtor de pontes moldado pela compaixão, justiça e humildade ascendeu para pastorear 1,4 mil milhões de almas.

Através de uma narrativa cinematográfica e de uma rica perceção histórica, exploramos o homem, a missão e a mensagem por detrás de Leão XIV — um Papa que convoca o mundo para a unidade, a paz e a renovação missionária.

segunda-feira, 23 de março de 2026

Pierre Reverdy - A ética é a estética de dentro


Esta máxima sugere que o comportamento ético - a conduta moral e correta - é uma forma de beleza interior, uma harmonia da alma que se reflete no caráter, comparando a beleza moral à beleza estética.

O Significado da Frase (inserida no seu Livro Le Livre de mon bord (1948)
  1. Beleza interior e ação: Reverdy sugere que a verdadeira beleza (estética) não está apenas na aparência externa, mas sim na correção moral, no caráter e nas atitudes (ética).
  2. Integridade: a ética representa a harmonia, a "beleza" interior de um indivíduo, traduzida em suas ações.
  3. Conexão: a ideia é que o comportamento virtuoso tem uma qualidade estética, tornando a bondade e a retidão algo belo de se ver e viver.
Pierre Reverdy (1889-1960) foi um poeta francês notável, associado ao movimento surrealista e conhecido por sua influência na poesia moderna. Sua obra é caracterizada pela experimentação com a linguagem e pela exploração de temas como a solidão, a busca espiritual e a condição humana. Reverdy deixou um legado significativo na literatura francesa, sendo reconhecido por sua originalidade e profundidade poética. 
Reverdy teve uma biografia muito interessante. Viveu intensamente Paris e o nascimento das correntes cubistas e surrealistas, conviveu com os maiores nomes dessa época : Guillaume Apollinaire, Max Jacob, Louis Aragon, André Breton, Philippe Soupault, Henri Matisse, Max Jacob, Pablo Picasso, Juan Gris, and Georges Braque Tristan Tzara e um romance intenso por Coco-Chanel. Aos 37 anos retirou-se da "movida parisiense" e foi com sua esposa, viver para Solesmes, numa vida ascética e espiritual, numa casa muito simples, próxima da Abadia de Solesmes (ver foto).
Muitos poetas prestaram homenagem a Pierre Reverdy, dedicando-lhe artigos ou poemas, entre os quais André du Bouchet, Jacques Dupin, Edmond Jabès, Ricardo Paseyro, Pablo Neruda, Kateb Yacine. René Char disse dele que era "um poeta sem chicote nem espelho".

O Legado de Pierre Reverdy: Entre Sablé-sur-Sarthe e a Fundação Maeght

Embora não exista uma instituição isolada com o nome do poeta, o património de Pierre Reverdy está preservado de forma exemplar em França, dividindo-se entre a conservação institucional e a gestão de direitos artísticos. O epicentro deste espólio encontra-se na cidade de Sablé-sur-Sarthe, onde o autor viveu as suas últimas três décadas em retiro espiritual e literário.

O principal ponto de referência para qualquer investigador é o Espace Pierre Reverdy, integrado na Mediateca Intermunicipal L’Apostrophe. Este fundo documental é de uma riqueza extraordinária, guardando manuscritos originais, correspondência e, sobretudo, os famosos livros de artista — edições raras onde a poesia de Reverdy se cruza com gravuras de mestres como Picasso, Braque ou Matisse. Para consultar estes documentos, é necessário um contacto prévio através do portal oficial da Médiathèque de Sablé-sur-Sarthe.

No que toca à gestão dos direitos de autor e à promoção da sua obra no contexto das artes visuais, o nome de Reverdy está intrinsecamente ligado à Fondation Maeght, localizada em Saint-Paul-de-Vence. Foi a esta fundação que a viúva do poeta confiou o seu legado material e intelectual, resultando numa simbiose constante entre a literatura e a arte moderna. Além disso, para uma pesquisa técnica sobre a localização de manuscritos específicos em bibliotecas francesas, o Catalogue Collectif de France (CCFr) da Biblioteca Nacional de França é a ferramenta digital mais completa disponível.

Este ecossistema cultural garante que a voz de Reverdy, uma das mais influentes do cubismo literário e do surrealismo, continue acessível tanto a académicos como ao público em geral.


Esta frase é frequentemente citada para destacar que a beleza real é aquela que provém do caráter e da integridade de uma pessoa. Aqui, uma crónica interessante sobre Ética, porém tem um certo viés conservador.

terça-feira, 10 de março de 2026

A Naifa - Bolero Do Coronel Sensível Que Fez Amor Em Monsanto


Poema original e o álbum aqui 

Poema escrito e cantado em 1992 [1] e infelizmente continua a ser assim
Este poema de António Lobo Antunes é uma das peças mais cortantes da literatura contemporânea portuguesa, servindo como uma autópsia da hipocrisia burguesa e da profunda desigualdade social. A narrativa centra-se num homem que se descreve como alguém extremamente sensível — "eu que me comovo por tudo e por nada" — mas que, na prática, revela uma frieza absoluta e uma capacidade de desumanização assustadora. Ao longo do texto, assistimos à descrição de um encontro sexual pago com uma adolescente, entre os quinze e os dezassete anos, cujo corpo é tratado como um objeto descartável: ele "usa", "paga", "esquece o nome" e "limpa-se com o lenço".

A crueza do relato é acentuada pelos detalhes da miséria da rapariga, que cheira a "mato", à "sopa dos pobres" e ao "suor" da carência, contrastando com a transação clínica de quinhentos escudos. O autor utiliza a metáfora da "coxa em semifusa" e do "rosto de aguarela" para sublinhar a fragilidade e a rapidez com que aquela vida é consumida e deixada para trás, "parada na berma da estrada", enquanto o narrador retoma a sua existência de classe média.

O clímax do poema reside no regresso a casa. O narrador veste a máscara da normalidade, mente à mulher e ao filho dizendo que "fez serão" (trabalhou até tarde), janta calmamente e deita-se. Contudo, a imagem da jovem não o larga. O final sugere que a sua suposta sensibilidade não é empatia, mas sim uma obsessão perturbadora ou um remorso estéril. Ele está na segurança do seu lar, mas o seu pensamento permanece naquele corpo explorado, reforçando a ideia de uma sociedade que se comove com abstrações ou sentimentalismos baratos, mas que é capaz de conviver com a exploração e a degradação humana mais abjeta sem perder o apetite ou o sono.

[1] Nota Linguística: o poema utiliza termos muito específicos do quotidiano português do século XX, como o "alcatrão" (asfalto), o "serão" (trabalho noturno) e os "escudos". É uma crítica social feroz à "boa sociedade" que, por trás das portas, explora a miséria mais profunda.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Aiko Sakamoto

Rapariga com borboletas, da série Nocturnos (2022)

Aiko Sakamoto é uma artista plástica nascida em 1977 na província de Tóquio, no Japão, onde reside e trabalha actualmente. A sua formação académica foi realizada na Universidade de Arte Tama (Tama Art University), onde se graduou no Departamento de Pintura Japonesa e, posteriormente, concluiu o mestrado na mesma especialidade.
O seu estilo é profundamente enraizado no Nihonga (pintura tradicional japonesa), mas apresenta uma abordagem contemporânea e lírica que explora a relação entre o visível e o invisível. Utiliza técnicas que misturam pigmentos minerais, pó de ouro e prata sobre papel japonês (washi), destacando-se pela criação de borboletas tridimensionais feitas de papel e folha metálica que são aplicadas sobre a tela plana. Esta técnica permite que a luz seja refletida de diferentes ângulos, conferindo uma sensação de vitalidade e movimento às obras.

Os seus temas centram-se em fenómenos naturais efémeros e conceitos abstratos, como o vento, o som, as ondas e as flutuações da luz e da água. Através de uma paleta onde predominam o azul profundo e o preto denso, Sakamoto procura expressar a essência da existência humana e a circulação da vida em ciclos infinitos, fundindo figuras biomórficas com o cosmos e o silêncio.


A sua obra encerra um simbolismo contemporâneo que nos convoca ao desvelar de uma liberdade ancestral, sintonizando o ser com a génese de Gaia e o repouso absoluto de uma harmonia que transcende o visível.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

The Smashing Pumpkins - There It Goes

Melhor som aqui

Letra
there It Goes
Something's wrong, I can see it in your eyes
You're not the same, it's no surprise
And I don't know what I'm supposed to do
When everything I have is because of you

[Chorus]
And there it goes, it's slipping away
And there it goes, another day
And there it goes, it's out of my hands
And there it goes, I don't understand

I try to speak, but the words don't come out right
I'm losing sleep, I'm losing the fight
And I don't know where we went wrong
But I've been waiting for so long

[Chorus]

Maybe I'm wrong, maybe I'm right
Maybe I'll see you in the light
But for now, I'll just close my eyes
And say goodbye to all the lies

[Chorus]


O significado de "There It Goes" reside na melancolia da impotência e na aceitação dolorosa do fim. A letra descreve o momento exato em que percebemos que algo valioso - seja um amor de juventude ou uma etapa da vida — está a escapar por entre os dedos, e não há absolutamente nada que possamos fazer para o impedir. É uma canção sobre o inevitável.

Billy Corgan explora a frustração da falta de comunicação, onde as palavras falham precisamente quando são mais necessárias, criando um abismo entre duas pessoas que antes eram próximas. O refrão, com a repetição da frase "it's out of my hands" (está fora das minhas mãos), reforça este sentimento de perda de controlo e a resignação de assistir ao tempo a passar enquanto as promessas se desmoronam. No desfecho, a música sugere que, embora o adeus seja difícil, ele traz a libertação de todas as ilusões e mentiras que sustentavam aquela situação. É o retrato de um jovem compositor ainda despido de metáforas complexas, a lidar com a vulnerabilidade crua de ver o seu mundo mudar sem o seu consentimento.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Ego Eris - Tempo Implacável


Curiosidade sobre o nome
O nome vem da frase em latim "Tu fui, ego eris", que significa "O que tu és, eu fui; o que eu sou, tu serás". É uma expressão clássica encontrada em epitáfios e mementos mori, lembrando a todos sobre a inevitabilidade da morte — um tema central na estética da banda.

Letra
Se abraçando à fúria que sufoca 
Pra tentar esquecer
Se agarrando à fuga que lhe trás a paz
Sem ter que adormecer

Aprisionado em tristes e simples ilusões 
Não há mais nada para ver
Feliz enquanto voa em seus sonhos
Antes do anoitecer

Encontraria a chave que lhe prende
Libertaria todo aquele mal
Sem pensar

Como podemos ter tempo se é o tempo que nos tem?
Não conhecemos o nosso fim, mas o nosso fim nos conhece [2X]

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

László Krasznahorkai - Herscht 07769


László Krasznahorkai, escritor húngaro de prestígio internacional, acabado de ser galardoado com o Prémio Nobel de Literatura, é conhecido pela sua prosa densa e pela abordagem singular dos temas existenciais. Em “Herscht 07769”, Krasznahorkai oferece-nos uma obra que desafia as convenções literárias, mergulhando o leitor numa narrativa onde o tempo, o espaço e o próprio sentido da realidade são postos em causa.

A escrita fragmentada e as frases longas, características do autor, são muito evidentes neste livro. Aliás, “Herscht 07769” não tem frases longas: mais do que isso, é uma única frase da primeira à última página. O único ponto final está na página 379, ou seja, no fim do livro.

“Herscht 07769” explora a vida dos habitantes de Kana, uma pequena localidade alemã. Krasznahorkai constrói um ambiente quase claustrofóbico, onde o quotidiano daquela população se transforma numa reflexão filosófica sobre o destino, a solidão e a busca de sentido. O número 07769, que aparece no título, remete para o código postal da vila. Florian Herscht, o personagem central, passa o livro todo a escrever cartas para Angela Merkel, a chanceler alemã, nas quais indica no remetente somente o seu nome e o código postal. Toda a gente o conhece em Kana e o código postal é suficiente para os Correios identificarem a localidade de destino da resposta da Chanceler. Esta simplificação simboliza a universalidade das questões abordadas: o que significa existir num mundo aparentemente insignificante, face à imensidão do universo? Efetivamente, o autor mostra como Kana, na sua pequenez, encerra em si todas as questões do ser humano, da natureza, da Alemanha, do mundo, da galáxia, de todo o universo, o assunto que Herscht, na sua simplicidade, desenvolve nas suas cartas.

Um dos grandes méritos de Krasznahorkai é a sua capacidade de transformar o banal em algo profundamente metafísico. O autor questiona a essência da existência humana, o papel do acaso na vida, e as limitações da linguagem para expressar o indizível. O ambiente rural, isolado e quase estagnado em que Herscht vive, serve de palco para estas reflexões, funcionando como um microcosmo da condição humana.

A obra aborda a alienação, tanto social como espiritual, e a dificuldade de comunicação entre os personagens, que muitas vezes parecem falar para si próprios ou para um vazio existencial.

A prosa de Krasznahorkai é notoriamente exigente. “Herscht 07769” não foge à regra: o autor utiliza pontuação mínima numa construção narrativa labiríntica, que só termina na última página. Se não fosse a extensão do livro (que é maior do que parece, dada a falta de parágrafos e a formação justificada – linhas encostadas à direita e à esquerda), dava vontade de ler sem parar, mesmo sem respirar, se fosse possível. Os temas surgem encadeados, sem soluções de continuidade, como pulsações. Este estilo pode desafiar o leitor, mas recompensa quem aceita o convite para mergulhar na densidade do texto. O ritmo lento e a atenção aos detalhes criam uma atmosfera hipnótica, que obriga à introspeção.

“Herscht 07769” foi recebido com entusiasmo pela crítica internacional, que destaca a originalidade da abordagem e a profundidade filosófica da obra. Este romance, o seu livro mais recente, confirma Krasznahorkai como um dos grandes nomes da literatura contemporânea europeia, capaz de reinventar a forma como pensamos o romance.

Apesar de não ser uma leitura fácil, “Herscht 07769” é uma experiência literária marcante, recomendada para leitores que apreciam desafios intelectuais e que procuram obras que sejam mais do que mero entretenimento.

Em conclusão: “Herscht 07769” é um livro que exige tempo, paciência e disponibilidade emocional. Krasznahorkai oferece-nos uma viagem ao coração da existência, onde cada página é uma oportunidade de reflexão sobre o sentido da vida, a passagem do tempo e o papel do indivíduo no mundo. Uma obra imperdível para quem valoriza a literatura como arte e como instrumento de autoconhecimento.

sexta-feira, 25 de julho de 2025

Of The Wand And The Moon - Lets Take A Ride (My Love)


Oh, my love, help me through the city
It's coming down again, oh Lord, have pity
Oh, my love, let's take a ride
Or wait for me on the other side
I got nothing more to lose
As you know, the harder you struggle, the tighter the noose

And people, they shy away
But we are lost in time anyway, babe
So take my hand and don't let go
Time left behind, it only goes to show
Let's drink up and leave this town
All this emptiness just brings me down
Let's break from path, head out to sea
Leave this place, just you and me
Please


Esta canção faz parte do ábum Your Love Can't Hold This Wreath Of Sorrow (2021)

domingo, 19 de setembro de 2021

George Steiner e António Lobo Antunes, à conversa


George Steiner foi, acima de tudo, um filósofo da linguagem e um guardião da memória europeia, cuja obra é atravessada por uma angústia central: o fracasso da alta cultura em humanizar o homem. Para Steiner, a linguagem é o milagre que nos permite conceber o futuro e a esperança, mas é também a ferramenta que pode ser pervertida para a mentira e a barbárie. Ele dedicou grande parte de sua vida a investigar como o século XX, o século de maior avanço técnico e literário, pôde produzir o Holocausto. Ele notava com amargura que o humanismo clássico não serviu de barreira contra o mal; pelo contrário, percebia que um indivíduo podia ser profundamente tocado pela música de Bach ou pela poesia de Rilke e, ainda assim, exercer a crueldade absoluta.

Essa desilusão o levou a explorar o conceito do silêncio. Steiner sugeria que, diante do horror indescritível, a linguagem pode "morrer" ou tornar-se insuficiente, restando apenas o silêncio como forma de respeito ou como reconhecimento do limite humano. Por outro lado, em sua defesa das "Presenças Reais", ele argumentava que a grande arte nunca é meramente estética; ela carrega uma dimensão transcendente. Para ele, ler um grande livro ou observar uma obra-prima é um ato de "hospitalidade" onde o leitor se torna um hóspede da verdade do autor, um encontro que pressupõe a existência de algo maior que o puro materialismo.

Como poliglota e cosmopolita, Steiner também revolucionou a teoria da tradução em obras como Depois de Babel. Ele via no multilinguismo a maior riqueza da espécie humana, pois cada língua ofereceria uma janela única para o mundo. Para ele, "compreender é traduzir": toda comunicação humana, mesmo dentro de um mesmo idioma, é um esforço de interpretação do "outro". Ele rejeitava o nacionalismo e as raízes fixas, preferindo a condição do intelectual como um nómada cultural, alguém cuja pátria não é um território, mas a própria palavra e a tradição literária que sobrevive ao tempo. Um verdadeiro meteco

sexta-feira, 9 de março de 2018

António Lobo Antunes - Bolero do Coronel Sensível Que Fez Amor em Monsanto

Gustave Courbet - “La Bacchante” (1844-1847)

Eu que me comovo
Por tudo e por nada
Deixei-te parada
Na berma da estrada

Usei o teu corpo
Paguei o teu preço
Esqueci o teu nome

Limpei-me com o lenço
Olhei-te a cintura
De pé no alcatrão

Levantei-te as saias
Deitei-te no banco
Num bosque de faias

De mala na mão
Nem sequer falaste
Nem sequer beijaste

Nem sequer gemeste,
Mordeste, abraçaste
Quinhentos escudos

Foi o que disseste
Tinhas quinze anos
Dezasseis, dezassete

Cheiravas a mato
À sopa dos pobres
A infância sem quarto

A suor, a chiclete
Saíste do carro
Alisando a blusa

Espiei da janela
Rosto de aguarela
Coxa em semifusa

Soltei o travão
Voltei para casa
De chaves na mão

Sobrancelha em asa
Disse: fiz serão
Ao filho e à mulher

Repeti a fruta
Acabei a ceia
Larguei o talher

Estendi-me na cama
De ouvido à escuta
E perna cruzada

Que de olhos em chama
Só tinha na ideia
Teu corpo parado

Na berma da estrada
Eu que me comovo
Por tudo e por nada

In “Eu me comovo por tudo e por nada”, 1992 álbum de Vitorino Salomé, com poemas de António Lobo Antunes

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Música do BioTerra: Beth Orton- Concrete Sky


Faith has a good side still everyone she ever loved they all turned bad
Constance his own way of breathing and you know
You couldn't will him to survive
Couldn't will him if you if you tried, and there's a concrete sky
Falling from the trees again and you know now why
It's not coming round too soon
It's harder than a heartbreak too

I've seen your good side but I still don't know just what it is
That you might want
See you've got your own way of moving
And you know you could save me
Save your soul, I'll save some of you
Save my soul, feel like I'm falling fell like I'm falling
And there's a concrete sky
Falling from the trees again and you know now why
It's not coming round too soon, it's harder than a heartbreak too
It's tough enough what love will do

So much time gets lost in my mind
But I know now what I must rely on
It's a sound and forgetting, ain't the worst thing
I've been out walking don't do too much talking
Wouldn't take too much time, wouldn't take all your time
Cos it's as precious as mine Save my soul, I'll save some for you
Save my soul feel like I'm falling feel like I'm falling
And there's a concrete sky
Falling from the trees again and you know now why
It's not coming round too soon, it's harder than a heartbreak too
It's tough enough what love will do
And you're as precious as mine

A cantora e compositora Beth Orton é de nacionalidade britânica, tendo nascido em Inglaterra, e tornou-se uma das figuras mais emblemáticas da cena musical dos anos 1990 e 2000 ao consolidar um estilo musical conhecido como "folktronica". Este género promove um casamento pioneiro entre o calor acústico do folk tradicional — guiado por violas e vocais íntimos — e a envolvência da música eletrónica de vanguarda, que inclui batidas trip-hop, sintetizadores subtis e loops. Em "Concrete Sky", uma das faixas mais célebres do seu álbum Daybreaker (2002), esta fusão estilística ganha contornos de art pop e indie pop, contando ainda com a colaboração de Johnny Marr (ex-guitarrista dos Smiths) na composição e nas guitarras, o que confere à música uma atmosfera melancólica e levemente ensolarada ao mesmo tempo.

Em termos de significado, "Concrete Sky" ("Céu de Cimento" ou "Céu de Betão", em tradução livre) funciona como uma metáfora poética sobre a rigidez e o peso emocional que esmagam o indivíduo diante da vulnerabilidade humana, da perda e da inevitabilidade do fim. A letra justapõe a fragilidade da vida — mencionando a impotência perante a sobrevivência de alguém que se ama — com a imagem opressiva de um céu feito de betão a cair sobre a cabeça, uma representação visual de uma dor que é descrita pela própria cantora como "mais dura do que um coração partido". À medida que o tema avança, a canção transforma o isolamento e o tempo perdido em pensamentos num processo de cura e autodescoberta. Beth Orton canta sobre a necessidade de autopreservação e sobre reconhecer o valor do próprio tempo, transformando a desolação inicial num hino subtil sobre encontrar um ponto de apoio interno quando o mundo exterior desaba.