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quarta-feira, 29 de abril de 2026

Da censura editorial à algorítmica: o legado de "A Manipulação do Público"


A obra "A Manipulação do Público" estabeleceu que a comunicação de massa não serve apenas para informar, mas para moldar o pensamento de acordo com os interesses das elites. Na era das redes sociais, os cinco filtros de Chomsky e Herman não desapareceram; tornaram-se mais rápidos, granulares e, acima de tudo, personalizados.

1. O Algoritmo como gestor de atenção
No modelo original de "A Manipulação do Público", a curadoria do que era "noticiável" residia nas mãos de editores humanos, cujas decisões eram balizadas por linhas editoriais e interesses corporativos claros. Hoje, esse papel de porteiro da realidade foi delegado ao código. O filtro algorítmico não opera com base em critérios de verdade ou interesse público, mas sim na metrificação da atenção.

Como o modelo de negócio das grandes plataformas depende do tempo de permanência do utilizador, o algoritmo privilegia conteúdos que geram conflito e indignação. Estas emoções, por serem neuroquimicamente mais viciantes, garantem que o utilizador se mantenha ligado à plataforma por mais tempo. O efeito secundário desta lógica é a criação de "bolhas" informativas: o sistema entrega a cada indivíduo uma versão da realidade que confirma os seus preconceitos, eliminando o contraditório e tornando o diálogo impossível.

O resultado é uma fragmentação social sem precedentes. A visão sistémica do poder -  necessária para compreender como as instituições funcionam e como podem ser questionadas - é substituída por narrativas polarizadas e personalizadas. Ao vivermos em realidades paralelas, perdemos a capacidade de alcançar um consenso social alargado sobre factos básicos, o que imobiliza qualquer tentativa de resistência coletiva. A "manipulação" moderna não consiste em dizer ao público o que pensar, mas em garantir que os diferentes segmentos do público nunca consigam pensar juntos.

2. A Publicidade de Precisão (Microtargeting): a engenharia das vulnerabilidades
A dependência da publicidade, que Chomsky e Herman identificaram como um filtro vital para a sobrevivência dos meios de comunicação tradicionais, atingiu um novo e inquietante patamar com o advento do Big Data. No modelo do século XX, a publicidade era uma "bomba de fragmentação": uma mensagem única lançada para uma massa uniforme, na esperança de capturar a atenção de uma percentagem do público. Hoje, a manipulação é cirúrgica e individualizada.

Através da recolha massiva de dados — que inclui desde o histórico de compras até padrões de sono e localização — o sistema já não comunica com um "público", mas com perfis psicológicos granulares. O consentimento é agora fabricado através de campanhas invisíveis de microtargeting. Isto significa que duas pessoas sentadas no mesmo sofá podem receber narrativas políticas ou corporativas opostas sobre o mesmo tema, cada uma desenhada para explorar as suas vulnerabilidades, medos ou desejos específicos.

Esta evolução altera a natureza da propaganda. Se antes a manipulação era visível e passível de ser debatida no espaço público, agora ela ocorre na esfera privada do ecrã individual. O perigo reside no facto de estas perceções serem moldadas de forma subliminar; o alvo raramente percebe que a informação que está a consumir foi otimizada para contornar as suas defesas racionais. Ao transformar o cidadão num conjunto de pontos de dados, o filtro da publicidade moderna consegue fabricar um consentimento que não nasce da argumentação, mas da estimulação psicológica pré-consciente, tornando a resistência intelectual muito mais difícil de exercer.

3. O Novo "Flak": o disciplinamento digital e o silenciamento invisível
No modelo original de "A Manipulação do Público", o Flak manifestava-se como uma resposta barulhenta e institucional: processos judiciais, cartas de protesto ou editoriais de ataque agressivo. Na era digital, este filtro tornou-se descentralizado e muito mais sofisticado. Hoje, o Flak opera em duas frentes complementares: o ataque público coordenado e o silenciamento algorítmico invisível.

A primeira frente é a da retaliação instantânea. O filtro da pressão deixou de ser exclusivo das elites para se tornar uma ferramenta de massa através do "cancelamento", de campanhas de difamação e do uso de exércitos de bots. Jornalistas ou figuras públicas que ousem desafiar as narrativas hegemónicas enfrentam uma avalanche de ataques que funciona como uma ferramenta de disciplina social, gerando um clima de autocensura digital permanente.

Contudo, é no mundo dos algoritmos que o Flak assume a sua forma mais insidiosa através do Shadowbanning. Esta ferramenta permite que o sistema discipline vozes dissidentes sem necessidade de as banir formalmente. O utilizador continua a publicar, mas o seu alcance é artificialmente reduzido ou limitado apenas aos seus seguidores mais próximos. É a forma definitiva de censura na era da abundância: não se apaga a mensagem, mas garante-se que ela se perde na imensidão do ruído.

A grande eficácia desta mutação reside na sua invisibilidade. Enquanto o banimento direto gera revolta e cria "mártires" da liberdade de expressão, o shadowbanning neutraliza a influência do indivíduo de forma silenciosa. Ao não receber o retorno habitual, o produtor de conteúdos é levado a acreditar que o seu discurso perdeu interesse ou relevância, minando a sua vontade de persistir. Assim, o sistema não só pune a dissidência, como a torna irrelevante sem nunca ter de assumir o papel de censor.

4. A barreira do custo e as fontes
A observação de que a média depende de fontes oficiais por serem "baratas" ganhou um contorno irónico na Internet. Atualmente, a informação de qualidade está frequentemente protegida por paywalls (muros de pagamento), enquanto a desinformação e a propaganda estatal ou corporativa são gratuitas e de fácil acesso. Isto cria uma desigualdade informacional profunda: quem não pode pagar pelo jornalismo independente acaba por ser o alvo mais fácil para a manipulação através de conteúdos gratuitos de baixa qualidade.

Filtro de "A Manipulação do Público"Adaptação para a Era Digital
PropriedadeConcentração de poder nas Big Techs (Google, Meta, etc.).
PublicidadeEconomia da atenção e exploração de dados individuais.
FontesInfluenciadores, grupos de fachada e Astroturfing.
FlakLinchamento virtual, censura algorítmica e ataques de bots.
IdeologiaPolarização extrema e o "Nós contra Eles" das guerras culturais.
A grande ironia contemporânea reside no facto de termos a ilusão de uma escolha infinita quando, na verdade, os filtros digitais tornaram o comportamento humano mais previsível e manejável do que nunca. O "consentimento" de hoje não é imposto; é extraído através do nosso próprio envolvimento digital.

Esta evolução do modelo de "A Manipulação do Público" revela que a arquitetura do controlo social sofreu uma mutação: passámos de um sistema de exclusão para um de saturação. No paradigma de 1988, o poder exercia-se pela escassez; como o espaço nas colunas dos jornais e o tempo de antena televisivo eram recursos finitos, os filtros operavam decidindo o que era silenciado. No entanto, na era digital, o controlo é exercido pela abundância. O algoritmo raramente se dá ao trabalho de esconder a informação dissidente; em vez disso, soterra-a sob uma avalanche de entretenimento efémero, notícias irrelevantes e ruído constante. O consentimento já não nasce do silêncio imposto, mas de uma distração perpétua que impede a reflexão profunda.

Paralelamente, a dependência de fontes oficiais, que Chomsky identificou como um filtro vital, deu lugar ao fenómeno do Astroturfing. Esta é a versão digital da manipulação de base: criam-se movimentos que aparentam ser espontâneos e populares (grassroots), mas que são, na realidade, orquestrados e financiados por grandes corporações ou interesses políticos. Através de exércitos de perfis falsos e influenciadores contratados, gera-se a ilusão de um consenso esmagador. O efeito psicológico no indivíduo é devastador: ao sentir-se isolado na sua opinião, o cidadão tende a ceder à pressão da "maioria" artificial, um fenómeno conhecido como a espiral do silêncio, agora potenciado por algoritmos.

A mudança mais radical, contudo, reside na transição de um sistema reativo para um sistema preditivo baseado na psicometria. Se a propaganda tradicional tentava convencer o público após o facto, o modelo atual antecipa-se. Através da análise minuciosa de cada like, do tempo de visualização e até da velocidade com que percorremos o ecrã (scroll), as plataformas constroem perfis psicológicos que nos conhecem melhor do que nós próprios. Este filtro invisível consegue prever quais as narrativas que nos farão mudar de opinião ou que gatilhos emocionais despertarão a nossa indignação. Assim, o consentimento é "fabricado" de forma preventiva, moldando a nossa perceção antes mesmo de termos consciência de que estamos a formar uma ideia sobre o assunto. No fim, a liberdade de escolha torna-se uma miragem dentro de um sistema que já calculou todas as nossas reações possíveis.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Análise do Livro- A Manipulação do Público escrito por Noam Chomsky e Edward Herman


No ano em que o maior intelectual vivo dos Estados Unidos da América (EUA) — Noam Chomsky — celebra 90 anos, esta é igualmente a ocasião de celebrar os 30 anos do lançamento de um dos um dos seus livros mais acutilantes. Neste caso trata-se de Manufacturing Consent – The Political Economy of the Mass Media, uma parceria com Edward Herman com quem colaborou não poucas vezes durante a carreira, tendo conjuntamente desenvolvido o modelo de Propaganda, baseado num estudo das instituições políticas, económicas (nomeadamente as os grandes conglomerados comerciais — empresas multinacionais) e as instituições que comandam os média, numa sinergia entre elas que até ao momento deste livro, tinha sido apenas aflorada.

As origens para o nome desta polémica obra remontam até ao sobrinho de Freud, Edward Bernays, que foi diretor do primeiro instituto de relações públicas nos EUA e que inclusivamente lançou um artigo seguido dum livro de seu nome “The Engineering of Consent” (em português engenharia do consentimento): a forma como se consegue influenciar as “massas ignorantes e irracionais”, fazendo assim uso da forma mais distorcida possível dos estudos do seu tio sobre a irracionalidade da espécie humana. Tudo porque como o seu contemporâneo Walter Lippmann teorizou que o “rebanho desorientado” ou “agressivo” (na versão original bewildered herd) era incapaz de se auto-regular e de fazer com que a Democracia americana fosse atingida na sua plenitude. As consequências das erráticas profecias quer de um, quer do outro, desembocaram na quinta-feira negra de Wall Street, marcando assim o primeiro “crash” económico da modernidade, em 1929; o rebanho havia sido “impelido” a entrar na bolsa via qualquer tipo de ações, tendo o mesmo fenómeno levado à euforia não-correspondente ao real estado da economia americana, facto que desregulou a bolsa – consequentemente o Mundo quase por inteiro. (cf. “The Century of the Self” por Adam Curtis)

Porém, foi mesmo uma expressão utilizada pelo influente Lippmann que levou à adoção do título do livro pelos autores, uma vez que nos seus trabalhos figurava sobremaneira a expressão “The Manufacture of Consent” sob a qual discorria numa visão não-democrática da imprensa e dos média em geral. Visão esta que contrastava com a de John Dewey, que para os crentes de uma verdadeira democracia baseada na educação dos ignorantes e para aqueles que se recusam a chamar os ignorantes de “rebanho”, foi um dos maiores filósofos americanos da primeira metade do século transacto.

Curioso será o facto de no ano em que este livro saiu 50 eram as corporações que dominavam os média americanos. Todas elas utilizando um modelo institucional igual ou bastante semelhante ao utilizado nas áreas do direito e outras áreas comerciais — ou seja, estrutura hierárquica na qual os shareholders não sabem quem são os seus trabalhadores, pouco lhes interessa, como também vice-versa, numa opacidade essencial para que estes trabalhadores queiram (ou pelo menos não rejeitem) trabalhar para estas empresas; hoje em dia são só já 6 empresas que dominam o mercado. Uma convergência que é tão visível nesta como em outras áreas da economia mundial.

Andrew Marr (BBC) – “How can you know that I’m self-censoring?”

Noam Chomsky – “I’m not saying you’re self-censoring. I’m sure you believe everything you’re saying. But what I’m saying is that if you believed something different, you wouldn’t be sitting where you’re sitting.” (Entrevista de Noam Chomsky à BBC por Andrew Marr

Mas como funcionam na prática estas empresas? São elas veiculadoras de eventos, verdades, ou mentiras? Para Lippmann como para Reinhold Niebuhr (ao bom estilo americano, um teólogo e pastor protestante que decidiu incluir nas suas reflexões temáticas como política, sociedade, liberdade, etc., sendo mais um paladino da mentira e da não-democracia), autor do termo “necessary illusions“, título análogo ao do livro de Chomsky datado de 1989, isto é o necessário:

“The naive faith of stupid masses requires ‘necessary illusions’ and ‘emotionally potent oversimplifications’ provided by the myth-creators to keep the ordinary person on course.” (Manufacturing Consent – The Political Economy of the Mass Media)

A estrutura desenhada por estas empresas, em colaboração com o poder politico-económico, vindo daqui a inovação dos autores por terem analisado em simbiose o que cada setor contribui para a “doutrinação” mais eficaz do público divide-se em: 20% da sociedade, dos quais figuram pessoas relativamente educadas, que tem um papel de decisão e que são parte integrante do poder politico-económico; e 80% do restante, o rebanho portanto, que estão incumbidos de seguir ordens e de não pensar acerca de nada (para além do seu trabalho/ofício).

“The point is you have to work. That’s why the propaganda system is so successful. Very few people will have the time, the energy or the commitment to carry out the constant battle that’s required to get outside.” (Manufacturing Consent – The Political Economy of the Mass Media)

Contudo, existem 5 filtros que são os que definem a razão pela qual a máquina continua em tão saudável funcionamento pese embora crie tão nocivos efeitos (sem que “ninguém” note):

Estrutura: estas empresas de média são possuídas por grandes corporações cujo objetivo final é a maximização de lucros a todo o custo; logo, não são fomentadas pelo desejo de instigar o jornalismo crítico de forma a que se converta num milieu de educação para o grande público daquilo que é o pensamento crítico;

Publicidade: a televisão e os jornais são bens quase gratuitos; refraseando — o grande público não paga imenso por estes serviços. Quem é que então financia os aumentos tecnológicos ou as inovações de que o setor beneficia? As empresas que querem que os consumidores paguem pelos seus produtos. Desta forma, a publicidade paga pelas audiências que a televisão necessita, num movimento em que as empresas publicitárias adquirem igualmente o público com ajuda das empresas de média, “viciando-o” nos seus produtos (uma fase pré redes-sociais nas quais as nossas preferências não são vendidas direta como hoje em dia o são, mas indiretamente — a era dos mass media ainda não seria a era do big data);

Cumplicidade: em nome de quem irá ser feita a representação senão de quem tem dinheiro e/ou poder? A máquina é bem oleada por este “media game” como os autores lhe chamam;

Estórias inconvenientes (flak): quando alguma surge, as fontes são sempre desacreditadas. É uma forma de censura implícita, na qual o desejo de verdade é absolutamente ignorado vis-à-vis o bem-estar dos implicados na estória — pobre Nixon e pobre Clinton, e talvez também George H. W. Bush que só durou um mandato com conquistas sociais que só no mandato de Johnson foram ultrapassadas, tendo havido certamente alguém que gostou pouco do que fizeram; e louvado Gaddafi, que os media americanos tanto encimaram, para justificar outros fins! (cf. “Hypernormalisation” por Adam Curtis)

Inimigo Comum: este último ponto toca no que referi sobre Gaddafi, que também tinha como inimigo o presidente Assad da Síria e que o inglês Adam Curtis tão bem demonstra no seu documentário como o primeiro foi usado pelos decision-makers americanos para fins que só os beneficiavam a eles; o brainwashing, sobretudo nos EUA onde grandes percentagens da população acredita em OVNI’s, que anjos habitam e caminham a Terra, e que o 9/11 foi encetado pela Al-Qaeda enquanto que o estado iraquiano nada tinha que ver com o ataque, fazem com que a ação dos média seja muito mais fácil (ou dos que a comandam!). Enquanto existir Comunismo e Terrorismo e outros ismos inventados pela criatividade intrínseca da imprensa, a verdade jornalística — ou seja, a mentira real — prevalecerá e mais atrocidades continuarão no mundo, como a do Iémen nos nossos dias, que não são reportadas em lado nenhum.


É assim que funciona um modelo de propaganda. É este “véu da ignorância” que é lançado sobre nós e com o qual vivemos no dia a dia sempre pensando que aquilo que lemos no Público ou Expresso (não comento nada sobre o Observador) reflete em algum nível o que outrora se chamou de “verdade”. A verdade, a sê-la, quiçá seja esta:

 “A propaganda model… traces the routes by which money and power are able to filter out the news fit to print, marginalize dissent, and allow the government and dominant private interests to get their messages across the public.”  (Manufacturing Consent – The Political Economy of the Mass Media)

Haverá ainda relevância que nos leve ao reencontro do que foi escrito pelos autores sobre o papel dos média? Ou o foco deverá voltar-se agora para os grandes gigantes tecnológicos que nos controlam como se num panopticon digital vivêssemos? (sobre este ponto refletirei em breve). O desígnio de ambos é o de nos isolar. Dos outros e de nós mesmos, não de tentar corrigir mas aumentar o nosso desnorte. Como Chomsky diz no documentário de 1992 que nasceu do livro — “the beauty of their system is to isolate everybody”. Ou talvez devamos fazer como o aniversariante Noam que no começo de cada dia consulta as páginas do “inimigo” — New York Times — como o faz todos os dias que acorda, num exercício infatigável de se manter a par com o que o “mais reputado jornal do mundo” conta sobre o mesmo mas desconfio também para escrutinar se, com o passar dos anos, o panfleto tem aumentado o tamanho do seu nariz ou não.

Que sorte têm sempre os apóstolos da mentira (como Bernays, Lippmann e Niebuhr) por nunca presenciarem aquilo que advogam, seja por circunstância do seu próprio privilégio em vida ou por ser demasiado longe no tempo que os efeitos nefastos são sentidos. E vão-se eles desta vida pensando que venceram por serem mais inteligentes que os outros sem nunca tentarem equivaler o nível de inteligência do resto da população para que aí sim, houvesse um debate de ideias justo.

Talvez Adorno estivesse certo ao crer que Walt Disney foi o homem mais cruel do século XX por ter criado o enclausurante momento de lazer e por ter retirado as famílias dos parques, onde a vida é real, e tudo está certo (ou como Mia Couto disse em Viseu há pouco tempo “A rua já não pertence à infância”). Ou mais certo estará Bauman quando nos fala da interdependência global gerada pelas redes de comunicações estabelecidas pelo mundo inteiro, que nos distrai e nos traz uma facilidade demasiado grande a desconectar da vida real. Só mesmo a política do silêncio de Deleuze ou a política da solidariedade de Berardi nos salve, mas a hora já se faz tarde e afinal o que importa é que existam a Fox News e o Correio da Manhã.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Noam Chomsky - The Political Economy of the Mass Media


O livro a que se refere — cujo título exato é Manufacturing Consent: The Political Economy of the Mass Media (1988), escrito por Noam Chomsky e Edward S. Herman — é uma das críticas mais influentes à forma como a grande imprensa opera nas democracias ocidentais, especialmente nos Estados Unidos.

A tese central que Chomsky defende é a de que os meios de comunicação de massa não funcionam como um contra-poder independente, mas sim como um sistema de propaganda que molda a opinião pública para defender os interesses económicos e políticos das elites.

Para explicar como isso acontece sem que haja censura estatal direta, eles criaram o "Modelo de Propaganda", que se baseia em 5 filtros pelos quais a informação tem de passar antes de chegar ao público:

Os 5 Filtros da Informação
  1. Propriedade e Dimensão: a maioria dos grandes meios de comunicação pertence a gigantescas corporações cujo objetivo principal é o lucro. Os seus interesses estão desalinhados com o jornalismo puramente independente.
  2. Financiamento por Publicidade: o verdadeiro cliente do jornal não é o leitor, é o anunciante. As notícias são o "isco" para vender a atenção do público às empresas que pagam a publicidade. Conteúdos que ameacem o ambiente de negócios tendem a ser marginalizados.
  3. Fontes de Informação Oficiais: para reduzir custos, os jornalistas dependem de fontes "fiáveis" e baratas: comunicados do governo, conferências de imprensa da polícia, Pentágono ou grandes empresas. Isto permite que o poder defina a narrativa.
  4. "Flak" (Fogo Cruzado/Disciplinação): se um jornalista ou canal sai da linha institucional, sofre pressões imediatas — processos judiciais, boicotes de anunciantes ou campanhas de difamação para o desacreditar.
  5. O Inimigo Comum (Ideologia Antagonista): Originalmente, Chomsky identificou o Anticomunismo como o grande filtro de controlo. Mais recentemente, este filtro foi adaptado para a "Guerra ao Terror", o "Medo ao Imigrante" ou a polarização extrema, criando um mecanismo de "nós contra eles" que mobiliza a opinião pública através do medo.
A essência da crítica: nas ditaduras, o controlo da população faz-se pela força (o bastão). Nas democracias, onde o Estado não pode usar a força bruta para calar os cidadãos, o controlo faz-se através da gestão do pensamento. O consentimento da população para políticas que muitas vezes a prejudicam é "manufaturado" (fabricado) pelos media.