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quinta-feira, 16 de julho de 2026

Pixies - Gouge Away: uma das obras-primas mais desconfortáveis, influentes e magnéticas da história do rock

Melhor som aqui

Letra

[refrão]
Gouge away
You can gouge away
Stay all day
If you want to

Missy aggravation
Some sacred questions
You stroke my locks
Some marijuana if you got some

[refrão]

Sleeping on your belly
You break my arms
You spoon my eyes
Been rubbing a bad charm with holy fingers

[refrão]

Chained to the pillars
A three day party
I break the walls
And kill us all with holy fingers

[refrão]

Entre o templo e o abismo: a anatomia de "Gouge Away" dos Pixies
Lançada em 1989 como a faixa de encerramento do lendário álbum Doolittle, "Gouge Away" sintetiza a genialidade dos Pixies em equilibrar o belo e o grotesco, o sagrado e o profano. Através de uma poética cortante, a canção utiliza o mito bíblico de Sansão e Dalila, extraído do Livro dos Juízes, não como uma pregação moralista, mas como uma violenta alegoria sobre a autodestruição, a traição e a codependência. Ao retratar a mutilação física do herói hebreu - cujos olhos foram arrancados pelos filisteus após ter o seu segredo revelado pela amante -, o compositor Black Francis despe a narrativa de qualquer heroísmo épico. Em vez disso, ele foca-se no realismo visceral do abuso físico e psicológico, aproximando-se da estética do surrealismo cinematográfico ao transformar a dor extrema numa metáfora para a cegueira emocional e a apatia diante do próprio fim.

Filosoficamente, a faixa ressoa com um existencialismo niilista e flerta abertamente com a pulsão de morte freudiana. No apelo masoquista do refrão - onde o eu lírico convida o agressor a continuar a tortura por quanto tempo desejar -, revela-se um indivíduo que encontra uma mórbida libertação na entrega absoluta ao seu carrasco. Essa tensão psicológica é perfeitamente traduzida pela arquitetura musical da banda, que pavimentou o caminho para a revolução do rock alternativo dos anos 1990. Estruturada sobre a icónica dinâmica de "sussurro e grito", a canção transita do minimalismo sombrio dos seus versos - guiados apenas por uma linha de baixo hipnótica e vocais contidos - para a explosão catártica e distorcida do seu refrão. O contraste entre os gritos desesperados de Black Francis e os coros doces e melódicos de Kim Deal funciona como um diálogo espectral de sedução e ruína, consolidando "Gouge Away" como uma das obras-primas mais desconfortáveis, influentes e magnéticas da história do rock.

Versão acústica
Versão indie pop/ synth pop /new wave/ minimal synth dos Nation of Language

terça-feira, 30 de junho de 2026

Haunted House - Deep


Letra
In the corners, where the secrets creep,
You bury your lusts in the heart of sleep.
Whispers of sin that you can’t confess,
Locked in the dark, where the demons rest.

Eyes wide shut, but the visions burn,
Desires so deep, they twist and turn.
Tangled in chains of your own design,
Craving the edge where the darkness binds.

deep, so deep

Fetish of flesh, a forbidden rite,
A dance with the void in the dead of night.
You taste the taboo, it’s bittersweet,
The deeper you go, the more you’re complete.

You drown in the dark, where your fears reside,
No escape from the thrill, no place to hide.
Desire and dread in a twisted embrace,
In the deep, you’ve found your place.

deep so deep

O projeto musical Haunted House, lançado pela editora alemã Cold Transmission Music e concebido pelo músico Philippe Marlat (frequentemente associado à cena eletrónica e darkwave europeia, com fortes ramificações em Itália e França), destaca-se na cena vanguardista de horror abstrato e música eletrónica sombria. No que toca ao estilo musical e visual do tema "Deep", o som de fundo combina elementos de Witch House, Dark Ambient, Industrial e Glitchcore, resultando numa estética musical de vanguarda que recorre a ruídos, batidas distorcidas, sons de estática e frequências desconfortáveis propositadamente desenhadas para gerar ansiedade. Visualmente, o vídeo de animação digital adere à vertente do CGI Surrealista e Voidcore, utilizando uma modelagem 3D intencionalmente rudimentar — ao estilo low-poly ou de jogos de computador antigos — enriquecida com texturas fotorrealistas sobrepostas, como o sangue e os vermes, que visam causar um efeito imediato de asco, estranheza e transe hipnótico.

Relativamente ao significado do vídeo "Deep", e como sucede com a maioria das obras de arte surrealistas e abstratas, não existe uma resposta única ou de "manual", mas a comunidade de arte digital e de horror psicológico costuma interpretá-lo através de metáforas bastante pesadas sobre o subconsciente. Por um lado, a cruz a sangrar representa a espiritualidade corrompida, simbolizando a perda da fé, a culpa religiosa ou o peso do pecado, ao mesmo tempo que mostra o sagrado a ser violado pelo profano, servindo de representação visual de uma mente em sofrimento moral ou espiritual profundo. Por outro lado, a presença dos vermes remete para a decomposição em vida, representando a inevitabilidade da morte, a podridão e a decadência; no contexto do vídeo, estes sugerem que algo dentro da personagem, seja uma memória, um sentimento ou a própria sanidade, está a apodrecer enquanto esta permanece "viva" e se move naquele ritmo mecânico e inexplicável. Por fim, o próprio título "Deep" (Profundo) refere-se ao ato de mergulhar fundo na própria psique, acedendo às partes da mente que habitualmente tentamos esconder, tais como os nossos traumas, medos biológicos, como a aversão a vermes e o medo de sangue, e crises existenciais. Em resumo, o vídeo configura uma representação abstrata de uma mente em colapso ou num estado de depressão profunda, sendo como se o criador tivesse transformado a sensação de agonia interna e de culpa em imagens de um pesadelo computadorizado.

Este poema de Haunted House evoca uma atmosfera gótica, psicológica e intensamente visceral, transitando entre o terror psicológico, o existencialismo e o erotismo sombrio da transgressão. Na filosofia, a influência mais direta reside em Georges Bataille e a sua exploração da relação íntima entre o erotismo, o tabu e a morte, onde o fetiche da carne surge como uma tentativa de alcançar a totalidade existencial através do proibido. Este abismo dialoga com Friedrich Nietzsche e o confronto com a nossa própria escuridão interna, bem como com Sigmund Freud e o conceito de Id, onde os desejos reprimidos e os impulsos de morte e prazer se fundem no confessionário do sono.

Na poesia, o texto ressoa fortemente com as visões de Charles Baudelaire em As Flores do Mal, onde o pecado, a carne e o bizarro se transformam em arte, encontrando eco também no surrealismo violento de Conde de Lautréamont e na obsessão de Edgar Allan Poe pela culpa autoimposta e pelo confinamento da mente.

Esta herança literária e filosófica ganha uma tradução visual e interativa marcante no cinema e nos videojogos. A nível cinematográfico, a referência a "olhos bem fechados" remete imediatamente a Eyes Wide Shut, de Stanley Kubrick, com os seus rituais secretos e desejos reprimidos, cruzando-se com o universo de Hellraiser, de Clive Barker, onde o prazer extremo e a dor se abraçam na escuridão, e com o body horror de David Cronenberg, que explora a fusão entre a carne e a obsessão psicológica. Já no panorama dos videojogos, o paralelo perfeito encontra-se em Silent Hill 2, uma obra-prima sobre a punição autoimposta e monstros que materializam fetiches e traumas reprimidos. A estética gótica e industrial de Vampire: The Masquerade – Bloodlines e a descida literal e metafórica às profundezas da mente em Amnesia e SOMA completam este mosaico de referências, onde o medo e o desejo se tornam uma coisa só.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

The Young Gods, live at Hellfest Open Air 2026

Setlist 
0:00 Appear Disappear
4:07 Systemized
7:47 Hey Amour
12:30 Blackwater
19:42 All My Skin Standing
29:58 Kissing the Sun
34:14 Gasoline Man
38:59 Blue Me Away
43:00 Mes yeux de tous
49:04 Shine That Drone

Um dos grandes nomes do rock eletrónico, o trio suíço The Young Gods está entre as atrações mais prestigiadas do Hellfest deste ano. Acturam no dia 20 de junho no palco Valley.

Formado em Genebra em 1985, o projeto The Young Gods foi lançado por Franz Treichler, Cesare Pizzi e Frank Bagnoud. O mentor do grupo, Treichler, mantém-se como o único membro permanente até aos dias de hoje, após mais de quarenta anos de carreira. Bernard Trontin juntou-se a eles, substituindo Bagnoud, em 1997.

Pioneiros no seu género, os The Young Gods influenciaram muitos artistas que ultrapassaram em muito o seu próprio nível de fama, tornando-os uma referência essencial do underground. David Bowie, Nine Inch Nails, Ministry: todos veneram a prolífica banda suíça que, ao lado de outro monumento da música industrial (a banda alemã Einstürzende Neubauten), representa um dos pilares fundamentais do rock experimental e atmosférico.

Para esta edição de 2026 do Hellfest, tomam conta do palco Valley para um dos concertos mais memoráveis ​​do festival. Uma experiência imperdível trazida até si pela ARTE Concert.

Filmado a 20 de junho de 2026 no Hellfest Open Air Festival, Clisson.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Kasper Bjørke: Young Again (feat. Jacob Bellens)

Melhor som aqui

[Verse 1]
Enough is enough, no one stops the caterpillar
The weight of the world already too much to bear
You do it too loud, mix it up with vanilla
The sound is the best I have heard for a million years

[Verse 2]
From the thunder that came, I was never the same
And I would stop to think of what to do
I was taking a leap I was playing for keeps with you

[Verse 3]
Too many touches on my skin
That's lying between now and then
Too many kisses on my chin
So severe

[Verse 4]
I can't believe the state I'm in
I can't believe what's happening
We'll never be this young again
Guinevere

[Verse 5]
The comic relief that makes room for my decision
To tighten the rope so that you never will forget
The music that comes from when playing with precision
The words are too rough, I can't shake it from off my head

[Verse 6]
I was making a mess for the better I guess
With a desire to be understood
There were people around with the need to get down for good

[Verse 7]
The many touches on my skin
That's lying between now and then
The many kisses on my chin
So severe

[Verse 8]
I can't believe what's happening
I can't believe the state I'm in
We'll never be this young again
Guinevere

Significado da canção
Kasper Bjørke e Jacob Bellens são dois artistas de nacionalidade dinamarquesa que, nesta colaboração de 2009 intitulada "Young Again", criaram uma faixa que transita entre o synth-pop, o indie dance e o electro-house. Se analisarmos apenas a letra, a música foca-se na nostalgia, na efemeridade da juventude e na aceitação da passagem do tempo, deixando o aviso agridoce de que nunca seremos tão jovens como no momento presente.

O uso do nome Guinevere nesta canção baseia-se no forte simbolismo que a personagem carrega na literatura, servindo como uma metáfora perfeita para a mensagem de melancolia e nostalgia da música. O compositor Jacob Bellens, conhecido pelo seu estilo abstrato e romântico, utiliza a icónica rainha de Camelot para evocar o arquétipo do amor proibido e trágico. Na mitologia arturiana, o romance de Guinevere com Lancelot é sinónimo de uma paixão avassaladora, mas que carrega consigo a dor e a inevitabilidade da ruína, o que se alinha perfeitamente com o desabafo melancólico presente na letra da canção.

Além disso, a figura de Guinevere está intrinsecamente ligada ao fim de uma era dourada, já que a sua traição acabou por ditar a queda de Camelot e a destruição da Távola Redonda. Ao cruzar essa referência com o refrão que repete que nunca mais seremos assim tão jovens, a música transforma a personagem num símbolo da perda da inocência e da passagem implacável do tempo. Ao escolher um nome mítico e intemporal em vez de um nome comum, o autor eleva a pessoa a quem canta ao estatuto de uma musa distante e inalcançável, transformando a canção num lamento poético sobre as marcas que os amores intensos deixam na nossa pele e a saudade de um passado que não volta atrás.

No entanto, o conceito de biofilia - que remete para a ligação inata do ser humano com a natureza e com o mundo vivo - torna-se o pilar central da obra quando olhamos para a sua componente visual. No teledisco, realizado por Karim Huu Do , esta ligação é explorada de forma artística e surrealista, mostrando plantas, musgos e fungos a brotarem diretamente da pele e dos corpos das personagens. Esta fusão funciona como uma metáfora poética onde o ciclo da vida humana é equiparado ao ciclo botânico do nascimento, florescimento e decomposição. Assim, ao contrastar a batida eletrónica e sintética com imagens puramente orgânicas, a obra completa acaba por sugerir que, independentemente do quão urbanos ou tecnológicos nos tornemos, a nossa essência permanece biológica e inevitavelmente ligada à Terra.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

A Natureza não é um mero recurso - é onde o humano se reconecta

Toutinegra-de-bigodes-ocidental (Curruca iberiae)

Um passarinho pediu a meu irmão para ser uma árvore.
Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.
No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de sol,
de céu e de lua mais do que na escola.

No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo
mais do que os padres lhes ensinavam no internato.
Aprendeu com a natureza o perfume de Deus.
Seu olho no estágio de ser árvore, aprendeu melhor o azul.
E descobriu que uma casa vazia de cigarra, esquecida no tronco das árvores só serve para poesia.

No estágio de ser árvore meu irmão descobriu que as árvores
são vaidosas. Que justamente aquela árvore na qual meu irmão
se transformara, envaidecia-se quando era nomeada para o
entardecer dos pássaros e tinha ciúmes da brancura que os
lírios deixavam nos brejos.
Meu irmão agradecia a Deus aquela permanência em árvore
porque fez amizade com as borboletas.

Manoel de Barros, in "O Livro das Ignorãças" (1993)

O poema de Manoel de Barros, extraído de O Livro das Ignorãças, constitui um hino à sensibilidade, à infância e à capacidade de o ser humano se libertar da lógica puramente racional para se fundir com o mundo natural. Ao longo dos versos, o autor convida-nos a compreender o mundo através daquilo que apelida de "desimportâncias", valorizando o olhar sensível em detrimento da rigidez utilitária do quotidiano.

No centro da narrativa encontramos o "estágio de ser árvore". Esta expressão não evoca uma metamorfose literal, mas sim um profundo exercício de empatia, silêncio e contemplação, onde o irmão do poeta adota o tempo e o ritmo da própria terra. É através desta simbiose que surge uma crítica subtil ao ensino tradicional e dogmático. Ao afirmar que o irmão aprendeu mais sobre o sol, a lua e a santidade no tronco de uma árvore do que na escola ou no internato com os padres, o poeta exalta o saber sensorial e a vivência direta. A comunhão com o meio ambiente revela-se a verdadeira escola da vida, capaz de aproximar o indivíduo daquilo que designa como o "perfume de Deus".

Manoel de Barros foca-se também na utilidade do que parece inútil. A imagem da casa vazia da cigarra, esquecida no tronco e que "só serve para poesia", ilustra perfeitamente a sua filosofia: numa sociedade focada no lucro e na funcionalidade, a arte e a poesia residem precisamente naquilo que foi abandonado e que perdeu a sua função prática. Ao mesmo tempo, o autor humaniza a natureza ao atribuir vaidade e ciúmes à árvore, esbatendo as fronteiras entre o Homem e o meio que o rodeia, celebrando uma amizade pura com as borboletas e os pássaros.

domingo, 31 de maio de 2026

Movies that completely changed my Life (and why you should watch them)

We’ve all experienced that unique magic: the lights dim, the screen glows, and for the next two hours, you are completely transported. But every now and then, a movie does something deeper. It doesn't just entertain you for an evening; it fractures your worldview, shifts your priorities, and stays with you long after the credits roll.

These are the ten films that fundamentally changed how I view the world—and why they deserve a spot on your watch list tonight.

1. Dead Poets Society (1989)

The Lesson: Carpe Diem is easy to say, but terrifying to live.

On the surface, this is a movie about an unconventional English teacher at a strict boarding school. But beneath that, it is a masterclass in existential courage.

  • How it changed me: It forced me to confront the reality of my choices. Am I living the life expected of me, or the life I actually want? It taught me that "sucking the marrow out of life" requires shaking off conformity, standing on your desk, and daring to find your own voice.

  • Why you should watch it: If you feel stuck in a routine or find yourself living to satisfy other people’s expectations, this film is the gentle, poetic wake-up call you need.

2. The Truman Show (1998)

The Lesson: We accept the reality of the world with which we're presented.

Jim Carrey plays Truman Burbank, a man who has no idea his entire life is a 24/7 reality TV show broadcast to the entire planet.

  • How it changed me: It made me hyper-aware of the invisible scripts we follow in society. Truman's journey isn't just about escaping a literal television set; it’s a metaphor for breaking free from the comfort zones, biases, and artificial structures that keep us safe but completely unfulfilled.

  • Why you should watch it: In an era dominated by social media algorithms and curated feeds, The Truman Show feels more relevant than ever. It forces you to look at your own "set" and ask: If I walked to the edge of my world, would I have the courage to open the door and leave?

3. Arrival (2016)

The Lesson: If you knew how your story would end, would you still live it?

When mysterious spacecraft touch down across the globe, a linguistics professor named Louise Banks is recruited to communicate with the extraterrestrial visitors. As she learns their non-linear language, her perception of time and memory begins to change.

  • How it changed me: Without spoiling the ending, this movie completely rewired how I look at grief, love, and time. It taught me that the beauty of life doesn't lie in a happy ending, but in the willingness to embrace the journey fully - sorrow and all. It’s a profound shift from asking "Why me?" to saying "Yes to life."

  • Why you should watch it: This isn't your typical alien invasion action flick. It is a deeply philosophical, quiet sci-fi masterpiece that will leave you staring at the ceiling for hours after it ends, rethinking every relationship in your life.

4. Billy Elliot (2000)

The Lesson: Passion is not a choice; it’s a necessity.

Set during the grueling 1984–1985 UK miners' strike, the film follows an 11-year-old working-class boy who trades his boxing gloves for ballet shoes, facing fierce opposition from his family and community.

  • How it changed me: It completely redefined my understanding of resilience and identity. Watching Billy turn his frustration, anger, and isolation into explosive, raw choreography taught me that art is not just a hobby—it is a vital survival mechanism. It made me realize that staying true to who you are often requires fighting the very environments meant to shape you.

  • Why you should watch it: If you have ever felt like an outsider in your own world, or if you're struggling to defend a dream that others find foolish, Billy Elliot is an emotional powerhouse. It will make you laugh, cry, and want to dance through the streets.


5. Apocalypse Now (1979)

The Lesson: The thin veneer of civilization is easily stripped away away from societal control.

Francis Ford Coppola's Vietnam War epic follows Captain Willard on a secret mission down a river into Cambodia to assassinate a rogue Green Beret Colonel, Walter E. Kurtz, who has gone insane and set himself up as a god to a local tribe.

  • How it changed me: It forced me to look into the darkest corners of human nature. It's not just a movie about war; it is a psychological descent into darkness. It made me realize how fragile our moral compasses really are when separated from social rules. Kurtz isn't just a villain—he is a reflection of what happens when a man stares too long into the hypocrisy of civilization and completely breaks.

  • Why you should watch it: If you want a cinematic experience that challenges your understanding of morality, sanity, and the dual nature of man (good vs. evil), this hallucinatory masterpiece is mandatory. It is heavy, surreal, and unforgettable.

6. Breaking the Waves (1996)

The Lesson: True love and faith often look like madness to the rest of the world.

Set in a deeply religious and isolated Scottish community, Lars von Trier's masterpiece follows Bess, a naive young woman who marries an oil rig worker, Jan. After an accident paralyzes Jan, he convinces Bess that she can keep him alive and heal him by sleeping with other men and telling him the stories.

  • How it changed me: It shattered my conventional views on morality and altruism. Lars von Trier strips away all Hollywood sentimentality to ask a brutal question: what does absolute, unconditional sacrifice actually look like? It taught me that genuine grace and faith are rarely neat or socially acceptable; often, they are messy, deeply misunderstood, and painful.

  • Why you should watch it: This is raw, emotionally demanding cinema at its finest. Driven by a devastating, career-defining performance by Emily Watson, it is a haunting exploration of psychological isolation, religious rigidity, and spiritual transcendence that you will never forget.

7. Paris, Texas (1984)

The Lesson: You cannot rebuild a broken past just by showing up; some distances are internal.

A mute, disheveled man named Travis wanders out of the desert after being missing for four years. Reconnecting with his brother and the young son he abandoned, Travis gradually begins a quiet, agonizing search across Texas to find his missing wife, Jane, trying to patch together the ruins of his former life.

  • How it changed me: It completely redefined how I perceive emotional estrangement, forgiveness, and love. Travis trying to learn how to be a father again through old home movies broke my heart. The famous peep-show conversation between Travis and Jane through a one-way mirror taught me that sometimes, the only true act of love left is knowing when to let go and disappear back into the landscape.

  • Why you should watch it: Anchored by Robby Müller’s gorgeous, neon-soaked cinematography and Ry Cooder’s haunting slide guitar soundtrack, it is a masterpiece of slow-burn emotional devastation. If you’ve ever loved someone deeply but realized your own brokenness stood in the way, this movie will speak directly to your soul.

8. Until the End of the World (1991)


The Lesson: The most dangerous journey is the one we take into our own obsession.

Wim Wenders' ultimate road movie follows a woman tracking a mysterious man carrying a device that records visual data directly from the human brain, allowing the blind to see—and users to view their own dreams. The pursuit spans nine countries, ending in the Australian outback right as a global nuclear crisis threatens to break society apart.

  • How it changed me: It was a prophetic warning about the digital age that completely shifted my relationship with technology. Long before smartphones existed, Wenders showed characters becoming hopelessly addicted to viewing their own subconscious memories on handheld screens, ignoring the real world around them. It made me realize that the "end of the world" isn't always a physical apocalypse; sometimes it is the moment we stop looking each other in the eye and retreat completely into our personal digital loops.

  • Why you should watch it: It is a sweeping, visually mesmerizing epic with one of the greatest rock soundtracks in cinema history. Watch the Director's Cut if you can; it is an unmatched philosophical exploration of global wanderlust, the power of images, and human connection at the edge of existence.

9. Holy Motors (2012)

The Lesson: We are all exhausting ourselves playing roles for an audience that might not even exist.

Over the course of a single day, we follow Monsieur Oscar, a mysterious man who travels through the streets of Paris in a white stretch limousine. Guided by his driver, Celine, he transitions between 11 different "appointments," completely transforming his appearance each time to play different characters: a beggar, a dying old man, a motion-capture stuntman, and a monstrous creature.

  • How it changed me: It completely redefined my view on modern identity. Carax uses this surreal journey as a brilliant metaphor for social existence. In life, just like Oscar, we shift masks continuously—from professional colleague to digital persona, to caregiver, to lover. It taught me that the great modern tragedy isn't that we play roles, but the exhaustion that comes from doing it when the "invisible cameras" have stopped rolling and we no longer know who we are underneath.

  • Why you should watch it: It is a wildly original, anarchic, and gorgeous fever dream. Driven by Denis Lavant's staggering physical performance and featuring an unforgettable accordion intermission, it challenges everything you think you know about traditional narrative storytelling.

10. Stalker (1979)

The Lesson: The hardest place to look is into the center of your own desires.

In a dystopian wasteland, a guide known as a "Stalker" leads a melancholy Writer and a cynical Professor into "The Zone"—a dangerous, post-apocalyptic region sealed off by the government. At the heart of the Zone lies a legendary room that is rumored to grant the deepest, most subconscious desires of anyone who steps inside.

  • How it changed me: It completely shifted my understanding of what a movie can achieve. Tarkovsky doesn't use Hollywood special effects; instead, he uses rain, damp soil, rusty metal, and time itself to create an atmosphere of immense spirituality. It taught me a terrifying but beautiful truth about human nature: we often think we know what we want, but if our truest, most hidden subconscious desires were suddenly granted, they might reveal us to be monsters or cowards. It made me realize that faith and self-reflection are not comforting answers, but exhausting, ongoing psychological journeys.

  • Why you should watch it: Stalker is not a film you simply watch—it is an experience that you absorb like a meditation. If you are willing to slow down your breathing, accept its mesmerizing rhythm, and let its philosophical poetry sink in, it will permanently change the way you look at a cinema screen and your own soul.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Encontros Improváveis: Paul Éluard e Steven Mcloughlin


O perfume do espelho verde

A terra acorda vestida de azul,
Uma nudez de pétalas onde o vento se perde.
Não há caminhos entre as árvores,
Há apenas o olhar que se dissolve no infinito.

Eu toco na luz que atravessa as folhas,
Como quem toca nos teus cabelos ao amanhecer.
O bosque não esconde os seus segredos,
Exibe-os nesta tapeçaria de silêncio e cor.

Aqui, o tempo é um rio estagnado de flores,
Onde o rosa e o azul disputam a primazia da sombra.
Viver é este deslumbramento:
Ser árvore, ser haste, ser a claridade que nos salva.

O mundo é belo como um rosto reencontrado
No fundo de uma floresta que nunca termina.

Meu poema, baseado na leitura do livro Capitale de la douleur (1926), de Paul Éluard

Steven McLoughlin é um reputado artista britânico, nascido em 1970 em Derbyshire, Inglaterra, que se tem vindo a destacar no panorama da arte contemporânea pelo seu olhar único sobre as paisagens do Reino Unido. Maioritariamente autodidata, McLoughlin trabalhou durante vários anos no setor da arte comercial, um percurso que lhe permitiu consolidar uma extraordinária destreza técnica antes de se dedicar por inteiro à pintura de estúdio e de ar livre.

O seu estilo artístico insere-se num Impressionismo Atmosférico Contemporâneo. Mais do que uma reprodução literal ou fotográfica da realidade, o pintor procura captar o "estado de espírito" (mood) e a carga emocional de um lugar, deixando-se guiar pelas constantes mutações do clima e das estações do ano. As suas telas evocam uma profunda sensação de tranquilidade e nostalgia, convidando quem as observa a entrar na narrativa visual da obra, seja através de um caminho sugerido ou de uma clareira de luz.

No que toca à técnica, a luminosidade quase etérea que se observa em obras como Bluebell Forest é alcançada através de um processo minucioso. McLoughlin combina óleos e meios mistos, recorrendo frequentemente à técnica de vitrificação (glazing). Este método consiste na aplicação sobreposta de múltiplas camadas de tinta extremamente finas e translúcidas. Como resultado, a luz consegue penetrar estas películas e refletir-se a partir das camadas inferiores, conferindo ao tapete de jacintos-azuis e à folhagem das árvores um brilho vibrante, profundo e tridimensional que parece emanar do interior da própria tela.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Nikolai Gogol - sobre a corrupção de uma classe decadente que domina o povo ignorante e escravo do Estado


Há momentos em que é impossível encaminhar a sociedade, ou mesmo uma geração inteira, para o belo sem revelar toda a profundidade da sua verdadeira abominação.

Esta frase de Nikolai Gogol carrega o peso do realismo fantástico e da sátira social que definiram a sua obra. Gogol não era apenas um contador de histórias; era um observador clínico das falhas humanas. Para compreender o que ele pretende dizer, precisamos de olhar para a ideia de choque de realidade.

Em primeiro lugar, surge a necessidade do espelho cruel. Gogol sugere que a sociedade vive frequentemente num estado de negação ou hipocrisia e, para ele, falar sobre beleza, virtude ou progresso moral é inútil se os alicerces da sociedade estiverem podres. O conceito é simples: não se pode curar uma doença se o paciente se recusa a admitir que está doente. Assim, a acção da arte ou da história deve ser a de actuar como um espelho que não embeleza, revelando a abominação — as injustiças, a corrupção e a mediocridade — para que o horror da própria imagem force a mudança.

Esta abordagem liga-se à catarse pelo grotesco, estilo pelo qual Gogol é famoso. Em obras como O Inspector Geral ou Almas Mortas, o autor retrata burocratas corruptos e proprietários de terras absurdos, não apenas para fazer rir, mas para causar um desconforto profundo. Ele acredita que a beleza não pode florescer em solo contaminado por mentiras não reveladas e que a sociedade só se sentirá motivada a procurar a beleza e a ordem moral quando o peso do seu próprio vazio se tornar insuportável. É a ideia de que é preciso chegar ao fundo do poço para, finalmente, olhar para cima.

Desta forma, o papel do artista é o de um revelador. Para Gogol, o escritor não deve apenas entreter, mas sim realizar uma espécie de exorcismo social. Ele afirma que é impossível conduzir uma geração pela lógica ou pelo incentivo gentil porque as pessoas estão anestesiadas. O choque provocado pela revelação da profundidade da verdadeira abominação é o que possui a energia cinética necessária para retirar uma sociedade da sua inércia moral.

Em resumo, Gogol defende que a regeneração moral exige honestidade brutal. Ele acredita que a luz só será valorizada e procurada quando todos compreenderem plenamente a extensão das trevas em que estão mergulhados. É uma visão pessimista no diagnóstico, mas esperançosa no objectivo final: a transformação através da verdade.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Morreu Desmond Morris, o zoólogo que confiou o seu conhecimento à Universidade do Porto

The Trap, 2020

Ficou conhecido pelos seus estudos inovadores sobre o comportamento humano e animal, mas foi também um destacado comunicador, autor de dezenas de livros e ainda pintor surrealista. Era, sobretudo, um “fascinado pelo mundo”, movido pela “alegria de observar o que nos rodeia”. A mesma “missão” que, em 2014, confiou à Universidade do Porto quando doou ao Museu de História Natural e da Ciência (MHNC-UP) o seu vasto arquivo científico. Desmond Morris morreu, no passado dia 19 de abril, aos 98 anos.

Natural do Wiltshire, onde nasceu em 1928, Desmond Morris desde cedo adotou os animais e a arte como as suas grandes paixões. O estudo dos animais levou-o a formar-se na Universidade de Birmingham, em 1951, e a prosseguir um doutoramento (e pós-doutoramento) em Oxford. Em 1956, aceitou o cargo de diretor da unidade televisiva e de filmagens do Jardim Zoológico de Londres e, em 1959, assumiu o lugar de curador de mamíferos.


Em 1967, deixou o Zoo para se tornar diretor do Institute of Contemporary Arts. Nesse mesmo ano, publica The Naked Ape (O Macaco Nu), obra precursora da etologia humana (na qual propôs uma leitura inovadora do ser humano à luz da biologia evolutiva) e com o qual viria a ganhar notoriedade internacional.

Em 1968, mudou-se para Malta, onde nasceu o filho Jason. Regressou a Oxford em 1974 e aí permaneceu até 2019, altura em que, na sequência da morte da mulher, Ramona, se mudou para a Irlanda, para ficar junto da família e dedicar-se ativamente à escrita e à pintura.

Autor de dezenas de artigos científicos, Morris escreveu 80 livros e foi traduzido para 43 línguas ao longo de seis décadas de uma carreira multifacetada, que cruzou ciência, comunicação e artes visuais. Entre 1956 e 1998, apresentou mais de 700 programas televisivos. Pintou também mais de 3.400 quadros e apresentou mais de 60 exposições individuais.

“Compete-nos continuar a cuidar deste tesouro”
Em 2014, Desmond Morris surpreendeu o mundo quando decidiu doar ao Museu de História Natural e da Ciência da U.Porto (MHNC-UP) o seu arquivo científico, composto por todos os seus livros publicados, respetivas traduções, registos e notas de investigação, correspondência, coleções de revistas científicas, artigos científicos, coleções de fotografias e negativos, gravações vídeo e áudio e artefactos vários. Em troca, uma promessa feita meses antes pelo então Diretor do MHNC-UP, Nuno Ferrand de Almeida: “Se nos deixarem ficar com o seu arquivo, não vamos apenas guardá-lo, vamos utilizá-lo, analisá-lo. Teremos investigadores a trabalhar nele”.

Aquando da doação, ficou também estabelecida a preferência para que a sua editora em Portugal fosse a Arte e Ciência, título do primeiro projeto editorial do MHNC-UP, lançado em 2018. Desde essa data, foram publicados os livros A Tribo do Futebol (com prefácio de José Mourinho) e a reedição de O Macaco Nu , com uma nova tradução de Carla Morais Pires e prefácio de Jorge Rocha, e, com a mesma tradutora, O Macaco Criativo e Observar.

terça-feira, 7 de abril de 2026

Archive - City Walls


Melhor som aqui
[Verse 1]
Well, you broke the shell and found yourself
In another field, in another place, in another world
Where the buildings rise tall as anything
They're surrounded by all the places where you could die

[Chorus]
But we're always trapped in the city walls
We're always caught within the city walls
Looking in, looking in
But I'm here with you in the city walls
And they can't hurt us within the city walls
'Cause if they do, if they do

[Post-Chorus]
They lose

[Verse 2]
Are you still aware of the spacе and time?
Do you think they know that they'rе only wasting their mind?
Although the world doesn't work for us
We can make our way 'til we finally turn to dust

[Chorus]
But we're always trapped in the city walls
We're always caught within the city walls
Looking in, looking in
But I'm here with you in the city walls
And they can't hurt us within the city walls
'Cause if they do, if they do

[Post-Chorus]
They lose

[Instrumental Break]

[Verse 3]
We embrace the dirt, celebrate the hurt
'Til we find a way to a different everyday
And we will drown walls to the city falls
And we stay in place 'cause there's nowhere else we know

[Chorus]
But we're always trapped in the city walls
We're always caught within the city walls
Looking in, looking in
But I'm here with you in the city walls
And they can't hurt us within the city walls
If they do, 'cause if they do
But we're always trapped in the city walls
We're always caught within the city walls
Looking in, looking in
But I'm here with you in the city walls
And you can't hurt us within the city walls
'Cause if they do, if they do

[Outro]
They lose
They lose

A canção "City Walls" é uma peça atmosférica e melancólica da banda britânica de rock progressivo e eletrónico Archive. A faixa faz parte do álbum intitulado Glass Minds (2026), uma obra que explora sonoridades densas e paisagens sonoras cinematográficas. Através de uma letra que evoca o isolamento e a claustrofobia das metrópoles modernas, a música utiliza a metáfora das "muralhas da cidade" para descrever as barreiras emocionais e sociais que nos rodeiam. O clipe, carregado de imagens surreais geradas com recurso a inteligência artificial, complementa esta mensagem ao apresentar figuras anacrónicas, como o médico da peste e astronautas em ambientes decrépitos, reforçando a ideia de que a humanidade vive num ciclo perpétuo de decadência e estranheza. É uma obra que convida à reflexão sobre a alienação urbana e a fragilidade da nossa existência perante o tempo e o progresso.

segunda-feira, 23 de março de 2026

Pierre Reverdy - A ética é a estética de dentro


Esta máxima sugere que o comportamento ético - a conduta moral e correta - é uma forma de beleza interior, uma harmonia da alma que se reflete no caráter, comparando a beleza moral à beleza estética.

O Significado da Frase (inserida no seu Livro Le Livre de mon bord (1948)
  1. Beleza interior e ação: Reverdy sugere que a verdadeira beleza (estética) não está apenas na aparência externa, mas sim na correção moral, no caráter e nas atitudes (ética).
  2. Integridade: a ética representa a harmonia, a "beleza" interior de um indivíduo, traduzida em suas ações.
  3. Conexão: a ideia é que o comportamento virtuoso tem uma qualidade estética, tornando a bondade e a retidão algo belo de se ver e viver.
Pierre Reverdy (1889-1960) foi um poeta francês notável, associado ao movimento surrealista e conhecido por sua influência na poesia moderna. Sua obra é caracterizada pela experimentação com a linguagem e pela exploração de temas como a solidão, a busca espiritual e a condição humana. Reverdy deixou um legado significativo na literatura francesa, sendo reconhecido por sua originalidade e profundidade poética. 
Reverdy teve uma biografia muito interessante. Viveu intensamente Paris e o nascimento das correntes cubistas e surrealistas, conviveu com os maiores nomes dessa época : Guillaume Apollinaire, Max Jacob, Louis Aragon, André Breton, Philippe Soupault, Henri Matisse, Max Jacob, Pablo Picasso, Juan Gris, and Georges Braque Tristan Tzara e um romance intenso por Coco-Chanel. Aos 37 anos retirou-se da "movida parisiense" e foi com sua esposa, viver para Solesmes, numa vida ascética e espiritual, numa casa muito simples, próxima da Abadia de Solesmes (ver foto).
Muitos poetas prestaram homenagem a Pierre Reverdy, dedicando-lhe artigos ou poemas, entre os quais André du Bouchet, Jacques Dupin, Edmond Jabès, Ricardo Paseyro, Pablo Neruda, Kateb Yacine. René Char disse dele que era "um poeta sem chicote nem espelho".

O Legado de Pierre Reverdy: Entre Sablé-sur-Sarthe e a Fundação Maeght

Embora não exista uma instituição isolada com o nome do poeta, o património de Pierre Reverdy está preservado de forma exemplar em França, dividindo-se entre a conservação institucional e a gestão de direitos artísticos. O epicentro deste espólio encontra-se na cidade de Sablé-sur-Sarthe, onde o autor viveu as suas últimas três décadas em retiro espiritual e literário.

O principal ponto de referência para qualquer investigador é o Espace Pierre Reverdy, integrado na Mediateca Intermunicipal L’Apostrophe. Este fundo documental é de uma riqueza extraordinária, guardando manuscritos originais, correspondência e, sobretudo, os famosos livros de artista — edições raras onde a poesia de Reverdy se cruza com gravuras de mestres como Picasso, Braque ou Matisse. Para consultar estes documentos, é necessário um contacto prévio através do portal oficial da Médiathèque de Sablé-sur-Sarthe.

No que toca à gestão dos direitos de autor e à promoção da sua obra no contexto das artes visuais, o nome de Reverdy está intrinsecamente ligado à Fondation Maeght, localizada em Saint-Paul-de-Vence. Foi a esta fundação que a viúva do poeta confiou o seu legado material e intelectual, resultando numa simbiose constante entre a literatura e a arte moderna. Além disso, para uma pesquisa técnica sobre a localização de manuscritos específicos em bibliotecas francesas, o Catalogue Collectif de France (CCFr) da Biblioteca Nacional de França é a ferramenta digital mais completa disponível.

Este ecossistema cultural garante que a voz de Reverdy, uma das mais influentes do cubismo literário e do surrealismo, continue acessível tanto a académicos como ao público em geral.


Esta frase é frequentemente citada para destacar que a beleza real é aquela que provém do caráter e da integridade de uma pessoa. Aqui, uma crónica interessante sobre Ética, porém tem um certo viés conservador.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Gabriel Pacheco

Gabriel Pacheco (ilustrador Mexicano, nascido em 1973), actualmente a viver em Itália.

Gabriel Pacheco formou-se em cenografia no Instituto Nacional de Belas Artes do México e estudou desenho e figura humana na ENAP (Guatemala). A sua obra é frequentemente associada ao surrealismo visionário, distinguindo-se pela criação de universos oníricos onde o real e o imaginário se cruzam. As suas imagens apresentam atmosferas misteriosas e personagens de forte intensidade emocional.
Trabalha sobretudo na ilustração de livros infantis e juvenis, mas também ilustra contos, poesia e textos clássicos. Recorre frequentemente a elementos simbólicos e narrativos, estabelecendo um diálogo profundo entre imagem e texto. Entre as suas principais influências encontram-se Hieronymus Bosch e Marc Chagall.
Ainda assim, afirma que, de um modo geral, foram os escritos de Octavio Paz, a visão do cineasta Theo Angelopoulos e a dramaturgia da coreógrafa Pina Bauch que o ensinaram a observar o mundo.
Do ponto de vista técnico, combina técnicas tradicionais e digitais, utilizando contrastes cromáticos, texturas subtis e composições cuidadas, que conferem às suas ilustrações um carácter poético e cinematográfico.
O seu trabalho tem sido amplamente reconhecido em mostras e prémios internacionais, destacando-se a Feira do Livro Infantil de Bolonha, a Ilustrarte (Portugal) e distinções como o Bolonha Ragazzi Award e o CJ Picture Book Award.
Outro facto interessante é que Luis é um fã leal de Federico García Lorca, famoso pela sua tentativa de introduzir o surrealismo na cultura espanhola.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Hideo Tanaka


Hideo Tanaka (pintor, Japonês, nascido em 1959) - "Flowers", 2020

Hideo Tanaka não é propriamente um pintor hiper-realista. Digamos que é um pintor realista e neo-surrealista.

Tanaka pinta com um olhar muito atento ao detalhe, unindo realismo com elementos surreais.

As suas obras figurativas frequentemente retratam mulheres — muitas vezes “empoleiradas” em postes eléctricos ou semáforos — num ambiente onírico / surreal, como se estivessem prestes a uma epifania. Outras em posições fetais.

Também abundam quadros com vasos, luzes e lâmpadas, ou até refeições, convocando o espectador a uma reflexão profunda sobre a energia, o significado simbólico da luz e do nutrimento.

Apesar da componente surreal e imaginativa, os seus retratos e composições mantêm uma precisão realista nos elementos representados — gerando uma sensação nostálgica, contemplativa, em vez de assombro imediato.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

Jacky Gerritsen


Jacky Gerritsen (pintora Holandesa, nascida em 1972)

Estilo artístico:
Trabalha principalmente com arte abstrata e media mista, incluindo montagens fotográficas conceituais. 

O seu estilo flerta com o magico-realismo e o surrealismo, usando cores vibrantes, atmosferas imaginativas e trabalhos que evocam uma jornada visual e emocional. 

As obras combinam realidade e fantasia, frequentemente com forte carga de imaginação, cor e atmosfera. 

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Paul Éluard - Liberdade

Primeira Edição: Era o grande brado do Poeta, identificado com as dores e os anseios do povo e da Pátria. Além de ser um magnífico poema do ponto de vista literário, "Liberté", de Paul Éluard, carrega consigo o peso da História. Escrito em 1942, com o título "Une Seule Pensée" (Um Único Pensamento), esse texto foi transportado clandestinamente da França, ocupada pelos nazis, para a Inglaterra. Em 1943, traduzido para vários idiomas, o poema foi distribuído como um panfleto, lançado por aviões aliados nos céus da Europa conflagrada. O responsável por contrabandear essa preciosidade da França ocupada para a Inglaterra foi um brasileiro, o pintor pernambucano Cícero Dias (1907-2003). Em reconhecimento a essa proeza, Dias foi condecorado pelo governo francês com a Ordem Nacional do Mérito, em 1998.

Cícero Dias, Mulher na Janela, 1942

"Nos meus cadernos de escola
Nas carteiras e nas árvores
Nas areias e na neve
Escrevo teu nome
Em toda página lida
Em toda página em branco
Pedra, papel, sangue ou cinza
Escrevo teu nome
Em toda imagem doirada
E nas armas dos guerreiros
Ou nas coroas dos reis
Escrevo teu nome
Na floresta e no deserto
Nos ninhos e nas giestas
Nos ecos de minha infância
Escrevo teu nome
Nas maravilhas da noite
No pão branco da manhã
Nas estações em noivado
Escrevo teu nome
Em todo farrapo azul
No tanque de água mofado
No lago de lua viva
Escrevo teu nome
Nos campos e no horizonte
Nas asas dos passarinhos
E nos moinhos de sombra
Escrevo teu nome
Em todo sopro da aurora
No mar e em cada navio
Na montanha adormecida
Escrevo teu nome
Nas espumas e nas nuvens
Nos suores da tormenta
Na chuva densa e enfadonha
Escrevo teu nome
Nas formas resplandecentes
Nos sinos de várias cores
Em toda verdade física
Escrevo teu nome
Nos caminhos acordados
E nas estradas vistosas
Ou nas praças transbordantes
Escrevo teu nome
Na lâmpada que se acende
Na lâmpada que se apaga
Em minhas casas reunidas
Escrevo teu nome
Na fruta cortada ao meio
Do meu espelho e meu quarto
No leito concha vazia
Escrevo teu nome
No meu cão guloso e terno
De orelhas que estão em guarda
Nas suas patas sem jeito
Escrevo teu nome
Na minha porta de entrada
Nos objetos familiares
Nas ondas de fogo lento
Escrevo teu nome
Em toda carne cedida
Na fronte de meus amigos
Em cada mão que se estende
Escrevo teu nome
Na vidraça das surpresas
E nos lábios sempre atentos
Bem acima do silêncio
Escrevo teu nome
Nos refúgios destruídos
Nos faróis desmoronados
Nas paredes de meu tédio
Escrevo teu nome
Nas ausências sem desejo
Na solidão toda nua
Nesta marcha para a morte
Escrevo teu nome
Na saúde que retorna
No perigo que passou
Nas esperanças sem eco
Escrevo teu nome
E ao poder de uma palavra
Recomeço minha vida
Nasci para conhecer-te
E chamar-te
Liberdade."

Paul Éluard : "Liberté" (dit par l'auteur)