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segunda-feira, 27 de julho de 2026

TR/ST - Gloryhole

Melhor som aqui
Letra

Warmth of your shiny breast
This season gives you white
Persistence and practice
My begging mother
Please hold me tight

[refrão] 2X
Wasted youth is smoldering
Our lust fell in from stars
Shall only pass this once
Devote only so far
Warmed as your season
Consistently white
Expensive swallow fills my throat
Warned off the preaching in wavering white
Lost in glossy now I know

"Gloryhole" dos TR/ST: significado, estética Queer e música de Intervenção
Apesar de surgir num contexto de música eletrónica de clube e de estética soturna, Gloryhole pode ser interpretada sob o prisma da música de intervenção, ainda que distanciada dos moldes tradicionais do protesto político direto. Em vez de utilizar panfletos ideológicos ou palavras de ordem explícitas, a canção atua como uma forma de intervenção social, corporizada e existencial ao dar voz à margem, ao anonimato e ao desejo dissidente. O próprio termo refere-se a um buraco numa divisória, habitualmente em casas de banho públicas ou espaços clandestinos, projetado para práticas sexuais anónimas sem contacto interpessoal direto. Enquanto a música de intervenção clássica se foca na denúncia de instituições, na crítica económica ou no combate a regimes, o TR/ST opera no plano da política do corpo. Ao centrar a narrativa no erotismo anónimo, no desejo visceral e nos espaços subterrâneos da subcultura queer, a canção recusa a higienização e a assimilação da identidade por parte das normas heteronormativas e da moralidade burguesa. Reivindicar a obscuridade, a abjeção e o perigo do desejo cru torna-se uma tomada de posição subversiva que nega a necessidade de pedir licença para existir.

O conceito do gloryhole representa uma arquitetura da clandestinidade que, historicamente, nasceu da sobrevivência e da fuga à perseguição policial e social. Ao trazer esta realidade erótica e marginal para o centro da obra, a música intervém no espaço público e força o ouvinte a confrontar geografias subterrâneas de prazer e dor que a sociedade prefere invisibilizar, transformando o estigma num espaço de validação da memória e de libertação. Esta dimensão de protesto cultural é amplificada pela popular associação visual ao filme Funeral Parade of Roses, de Toshio Matsumoto, conectando a sonoridade de TR/ST à história da contracultura queer dos anos 60 e à luta pelo direito à existência fora dos padrões impostos.

Neste cenário, o hedonismo sombrio e os versos que evocam uma juventude desperdiçada funcionam como uma resposta existencial ao desespero do mundo contemporâneo. Perante um futuro incerto ou sufocante, entregar-se ao efémero e encontrar beleza no que é rotulado de impróprio torna-se uma ferramenta de sobrevivência imediata, afirmando que o corpo e a vida pertencem ao indivíduo e não ao controlo social. A nível sonoro, a fusão de darkwave e EBM com vocais guturais atua como um manifesto contra a sonoridade comercial genérica, criando no espaço do clube subterrâneo um santuário de transe coletivo onde o trauma, a solidão e a vergonha são expurgados através da dança. Assim, a intervenção aqui não é partidária, mas sim profundamente política na forma como usa o corpo, o desejo e a transgressão estética para resistir à norma e resgatar a liberdade individual.

Mais info:
TR/ST (Album) wikipedia

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Morcheeba - The Moon


A canção "The Moon", lançada pela banda britânica Morcheeba no álbum Blackest Blue em 2021, é um excelente exemplo da sofisticação e da identidade alternativa que o grupo preserva desde a sua formação em Londres, nos meados dos anos 90. Estilisticamente, a faixa ancora-se no trip-hop e no downtempo, fundindo batidas eletrónicas lentas e psicadélicas com uma atmosfera densa e o vocal inconfundível, suave e aveludado de Skye Edwards. O que afasta este tema dos circuitos puramente comerciais e da pop de consumo rápido é a sua estrutura flutuante e o seu andamento vagoroso, que recusam as fórmulas rígidas de ganchos fáceis e refrões explosivos. Em vez disso, a produção aposta numa sonoridade noturna, misteriosa e quase hipnótica, onde as guitarras ecoantes e os sintetizadores imersivos convidam a uma audição atenta. Ao abdicar dos efeitos vocais artificiais e das batidas aceleradas feitas para as pistas de dança, os Morcheeba preferem focar-se na textura e na intimidade da canção, aproximando "The Moon" de uma estética indie e neopsicadélica que prioriza a arte e a ambiência em detrimento do apelo comercial imediato.

É um versão da canção original de Irena Zilic 

Embora os Morcheeba sejam conhecidos sobretudo pela sua estética sonora relaxante e atmosférica, o álbum Blackest Blue - e especificamente a canção "The Moon" - carrega um subtexto rico que dialoga com várias correntes filosóficas, literárias e poéticas.

No plano filosófico, a canção evoca o existencialismo e o estoicismo, focando-se na introspeção, no isolamento e na aceitação da pequenez humana perante a imensidão do cosmos. A lua e a noite funcionam como metáforas para o desconhecido e para o inconsciente, remetendo também para a filosofia da mente e para o conceito de "noite escura da alma", onde o indivíduo é obrigado a confrontar-se consigo mesmo longe das distrações do mundo moderno.

No que toca às influências romancistas, há um diálogo subjacente com o Romantismo literário do século XIX, particularmente com autores que exploraram o gótico e o sublime, onde a natureza (neste caso, o espaço e o ambiente lunar) é apresentada como algo belo mas simultaneamente misterioso e avassalador. A atmosfera da canção ecoa a melancolia e o isolamento de obras de Mary Shelley ou a busca interior presente na literatura existencialista do século XX, que retrata a jornada solitária do ser humano na procura de sentido.

Por fim, a nível poético, "The Moon" bebe diretamente da poesia simbolista e da poesia confessional. O uso de imagens vagas, texturas e metáforas sensoriais substitui a narrativa linear, uma técnica muito querida por poetas como Charles Baudelaire ou Arthur Rimbaud, que usavam a sinestesia para evocar estados de espírito. Há também uma forte ligação à tradição da poesia mística e romântica inglesa - como a de William Blake ou John Keats -, onde a lua é historicamente a musa da melancolia, da mudança e da intuição feminina, servindo de espelho perfeito para a interpretação vocal sussurrada e poética de Skye Edwards.

sábado, 26 de novembro de 2022

A Etiópia, onde o Ocidente mantem os olhos


Lindíssimo este tema. Zazou adaptou esta canção tradicional etíope, em memória de Arthur Rimbaud. Sublime e sedutora.
Aqui com a participação do cantor e nómada etíope Ketema Mekonnen . conhecido pelos seus temas no estilo tradicional e moderno, incluindo faixas populares como "Fano", "Bati", "Tizita" e "Shemonmuana". Com uma carreira que abrange vários sucessos, lançou recentemente o álbum Arada em 2025, com músicas como "Arada", "Ney Ney" e "Birtukane".
A Etiópia, onde o Ocidente mantem os olhos. Uma civilização muito antiga. Apaixonante.

domingo, 26 de março de 2017

Música do BioTerra- The Cure: A Strange Day

Melhor som aqui

Letra
Give me your eyes that I might see
The blind man kissing my hands
The sun is humming, my head turns to dust
As he plays on his knees

And the sand and the sea grows
I close my eyes
Move slowly through drowning waves
Going away on a strange day

And I laugh as I drift in the wind
Blind dancing on a beach of stone
Cherish the faces as they wait for the end
A sudden hush across the water
And we're here again

The sand and the sea grows
I close my eyes
Move slowly through drowning waves
Going away on a strange day

My head falls back and the walls crash down
And the sky and the impossible explode
Held for one moment I remember a song
An impression of sound
And then everything is gone forever
A strange day
A Strange Day é uma das faixas mais atmosféricas e hipnóticas de Pornography (1982), o álbum que encerra a chamada "trilogia gótica" dos The Cure, ao lado de Seventeen Seconds e Faith. O disco foi gravado num período de colapso interno da banda, marcado por um niilismo profundo, dependência de drogas e uma depressão sufocante. No entanto, ao contrário do desespero cru que domina canções como One Hundred Years, A Strange Day traz uma sonoridade fluida, quase psicadélica, que camufla uma densidade lírica impressionante.



A nível de significado, a música descreve o que parece ser o fim do mundo, mas abordado sob uma ótica entorpecida, estética e surpreendentemente pacífica. Em vez do pânico que normalmente acompanha um cenário apocalíptico, há uma aceitação resignada da destruição. Robert Smith canta sobre estar numa praia de seixos enquanto o céu explode e o mar sobe para o engolir, transformando o colapso espiritual e literal num transe belo e definitivo. Nos primeiros anos da década de 1980, o medo de um holocausto nuclear devido à Guerra Fria era um sentimento generalizado entre os jovens britânicos, e a letra canaliza esse pavor existencial transmutando-o numa espécie de libertação.


Esta envolvência lírica bebe diretamente de várias obsessões literárias e filosóficas de Robert Smith, um leitor voraz que sempre moldou o universo do grupo através dos livros. O existencialismo e a filosofia do absurdo de Albert Camus são as referências mais evidentes. A imagem de alguém que caminha por uma praia, observando o mar sob um sol sufocante enquanto o mundo desaba, ecoa fortemente o clássico O Estrangeiro. A apatia do protagonista Meursault diante da vida e da morte reflete-se no eu lírico de A Strange Day, que chega a rir enquanto flutua no vento, demonstrando o mesmo desapego e riso absurdo perante o fim inevitável.


The Cure (youtube)
The Cure (site)

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Arthur Rimbaud - Ville

Reproduzo no original, de tão belo é este texto.

Je suis un éphémère et point trop mécontent citoyen d'une métropole crue moderne, parce que tout goût connu a été éludé dans les ameublements et l'extérieur des maisons aussi bien que dans le plan de la ville. Ici vous ne signaleriez les traces d'aucun monument de superstition. La morale et la langue sont réduites à leur plus simple expression, enfin ! Ces millions de gens qui n'ont pas besoin de se connaître amènent si pareillement l'éducation, le métier et la vieillesse, que ce cours de vie doit être plusieurs fois moins long que ce qu'une statistique folle trouve pour les peuples du continent. Aussi comme, de ma fenêtre, je vois des spectres nouveaux roulant à travers l'épaisse et éternelle fumée de charbon, - notre ombre des bois, notre nuit d'été ! - des Erynnies nouvelles, devant mon cottage qui est ma patrie et tout mon coeur puisque tout ici ressemble à ceci, - la Mort sans pleurs, notre active fille et servante, un Amour désespéré et un joli Crime piaulant dans la boue de la rue.

  1. Sobre o poeta Arthur Rimbaud no wikipedia
  2. Hoje conheci um sítio fabuloso na inter-rede sobre Rimbaud aqui, com biografia, artigos do poeta, cartas e galerias. Atenção também à secção de ligações. Em francês e inglês.

quarta-feira, 30 de março de 2005

Hector Zazou - Harar et les Gallas(feat. Ketema Mekonen & Ryuichi Sakamoto)

Zazou adaptou uma canção tradicional etíope, em memória de Arthur Rimbaud. Sublime e sedutora.


Do álbum "Sahara Blue" - 1992; Voz de Ketema Mekonen.

Oferta de Zazou em 1992, Sahara Blue, foi baseada numa ideia de Jacques Pasquier. Pasquier sugeriu Zazou comemorar o 100 º aniversário da morte do autor Arthur Rimbaud através da criação de música com poesia de Rimbaud. Contribuições incluem palavras faladas de Gérard Depardieu, Dominique Dalcan e música de Brendan Perry e Lisa Gerrard dos Dead Can Dance, Tim Simenon, e David Sylvian.
Hector Zazou (11 de julho de 1948, 08 setembro de 2008) foi um prolífico compositor e produtor musical francês que trabalhou, produziu e colaborou com uma série de artistas internacionais. Ele trabalhou nos seus próprios álbuns e de outros artistas , incluindo Sandy Dillon, Mimi Goes, Barbara Gogan, Sevara Nazarkhan, Carlos Núñez, o grupo italiano PGR, Anne Grete Preus, Laurence Revey, e desde 1976 com Sainkho Namtchylak.