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segunda-feira, 20 de julho de 2026

IAMTHESHADOW - Bleed Dry

Melhor som aqui

Letra
Take my love
And drown it
In the empty dark sky
Hold my breath
Explode me
From the memories of your mind

A place of loss
Has found me
A slice of what was light
And drowned in flames
To bleed dry
The tomb of my mind

Took me a life to be here
Cost me a life to stay near

Built my fate
Around this
Lost and empty sight
And drowned in flames
To bleed dry
The tomb of my mind

Took me a life to be here
Cost me a life to stay near

A noite portuense como espelho da alma darkwave
A sonoridade texturada e melancólica dos IAMTHESHADOW encontra na noite do Porto o seu cenário conceptual perfeito, transformando a geografia da cidade numa extensão física das emoções que moldam "Bleed Dry". Sob a capa da escuridão, o projeto liderado por Pedro Code e Vitor J Moreira cruza a herança estética do Post-Punk e da Coldwave com a essência gótica e introspetiva da Invicta, resultando numa simbiose perfeita entre música, filosofia e arquitetura. 

Quando a luz do dia desaparece, o Porto despe-se da azáfama quotidiana e veste-se de sombras, revelando um labirinto urbano que parece saído diretamente de um conto do romantismo sombrio do século XIX. Caminhar pelas ruelas desertas da Sé ou de Miragaia a estas horas, onde o eco dos passos rebate no granito húmido e nas calçadas escuras, evoca a exata sensação de claustrofobia e isolamento psicológico descrita na letra, que explora de forma visceral a perda e o esgotamento emocional de quem se mantém preso a algo destrutivo. 

A própria humidade e o nevoeiro que frequentemente sobem do rio Douro funcionam como uma neblina cinematográfica real, confundindo as fronteiras entre o espaço físico e a "tumba da mente" a que a voz barítona e aveludada do vocalista se refere, remetendo diretamente para o arquétipo freudiano e junguiano da "sombra" interior e para a tradição literária de autores como Edgar Allan Poe ou Lord Byron. 

Musicalmente, a base rítmica eletrónica marcada e os sintetizadores gélidos da canção encontram um reflexo visual nas luzes públicas que cintilam no chão molhado da cidade, criando uma atmosfera simultaneamente industrial e etérea, onde lendas do género como Joy Division ou Clan of Xymox ganham uma roupagem contemporânea. 

À noite, a imponência das estruturas de ferro e o abismo negro da água que corre em direção à Foz materializam o vazio existencial, o niilismo e o "céu escuro" da composição, onde o sofrimento é esgotado - sangrado até secar - para dar lugar a uma catarse artística. 

O próprio videoclipe da banda, com o seu jogo geométrico de feixes de luz que rasgam a penumbra de forma minimalista, ganha assim uma nova dimensão interpretativa: a luz que corta a escuridão do estúdio é a mesma que tece o contorno dos edifícios históricos do Porto na madrugada, transformando a cidade não apenas num pano de fundo geográfico, mas sim numa cúmplice silenciosa que converte a dor psicológica numa obra de arte incrivelmente bela e hipnótica.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Pixies - Gouge Away: uma das obras-primas mais desconfortáveis, influentes e magnéticas da história do rock

Melhor som aqui

Letra

[refrão]
Gouge away
You can gouge away
Stay all day
If you want to

Missy aggravation
Some sacred questions
You stroke my locks
Some marijuana if you got some

[refrão]

Sleeping on your belly
You break my arms
You spoon my eyes
Been rubbing a bad charm with holy fingers

[refrão]

Chained to the pillars
A three day party
I break the walls
And kill us all with holy fingers

[refrão]

Entre o templo e o abismo: a anatomia de "Gouge Away" dos Pixies
Lançada em 1989 como a faixa de encerramento do lendário álbum Doolittle, "Gouge Away" sintetiza a genialidade dos Pixies em equilibrar o belo e o grotesco, o sagrado e o profano. Através de uma poética cortante, a canção utiliza o mito bíblico de Sansão e Dalila, extraído do Livro dos Juízes, não como uma pregação moralista, mas como uma violenta alegoria sobre a autodestruição, a traição e a codependência. Ao retratar a mutilação física do herói hebreu - cujos olhos foram arrancados pelos filisteus após ter o seu segredo revelado pela amante -, o compositor Black Francis despe a narrativa de qualquer heroísmo épico. Em vez disso, ele foca-se no realismo visceral do abuso físico e psicológico, aproximando-se da estética do surrealismo cinematográfico ao transformar a dor extrema numa metáfora para a cegueira emocional e a apatia diante do próprio fim.

Filosoficamente, a faixa ressoa com um existencialismo niilista e flerta abertamente com a pulsão de morte freudiana. No apelo masoquista do refrão - onde o eu lírico convida o agressor a continuar a tortura por quanto tempo desejar -, revela-se um indivíduo que encontra uma mórbida libertação na entrega absoluta ao seu carrasco. Essa tensão psicológica é perfeitamente traduzida pela arquitetura musical da banda, que pavimentou o caminho para a revolução do rock alternativo dos anos 1990. Estruturada sobre a icónica dinâmica de "sussurro e grito", a canção transita do minimalismo sombrio dos seus versos - guiados apenas por uma linha de baixo hipnótica e vocais contidos - para a explosão catártica e distorcida do seu refrão. O contraste entre os gritos desesperados de Black Francis e os coros doces e melódicos de Kim Deal funciona como um diálogo espectral de sedução e ruína, consolidando "Gouge Away" como uma das obras-primas mais desconfortáveis, influentes e magnéticas da história do rock.

Versão acústica
Versão indie pop/ synth pop /new wave/ minimal synth dos Nation of Language

domingo, 12 de abril de 2026

IAMTHESHADOW - Unfold

Videoclipe realizado por Lola Argiriou

Letra
Write on
The lines of my hand
Unfold
My twisted fate
My twisted fate

tell me
if all was worth
write on
the lines of my hand

Write on the lines, of my hand
Write on the lines of my hand

Unveil
All The words I couldn`t say
Show me
the steps I couldn’t make
Unfold
My twisted fate
Unveil

A canção "Unfold", do projeto português IAMTHESHADOW, é uma imersão profunda nas camadas da consciência humana, servindo como um manifesto da estética Darkwave contemporânea. Em um texto corrido, podemos interpretar a obra como uma crônica da vulnerabilidade. O termo "unfold" (desdobrar) funciona como o eixo central da narrativa, descrevendo o doloroso, porém necessário, processo de remover as blindagens emocionais que construímos para enfrentar o quotidiano. A letra evoca um estado de isolamento existencial onde o eu lírico se confronta com o vazio e a transitoriedade do tempo, sugerindo que a verdadeira identidade só emerge quando nos permitimos desmoronar ou abrir mão das certezas superficiais.

Sob a voz densa e melancólica de Rodrigo Almeida, a música transita entre a opressão da escuridão e uma busca espiritual por clareza. Não se trata de uma tristeza estática, mas de um movimento de introspecção ativa; é o ato de encarar as próprias sombras para encontrar uma forma de libertação. A sonoridade atmosférica, repleta de sintetizadores etéreos e linhas de baixo marcantes, reforça essa sensação de estar perdido num espaço vasto, onde o "desdobrar-se" é a única via para a cura. Em última análise, a canção sugere que a beleza reside na fragilidade e que aceitar a própria sombra é o primeiro passo para que o indivíduo possa, enfim, se expandir e respirar sem o peso das máscaras sociais.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Capitalismo e Esquizofrenia - dossier Anti-Édipo

Edição Antiga. A mais recente é da Assírio Alvim 

Em 1972 saía em França "O Anti-Édipo", imediatamente transformado em livro de referência. O "Anti-Édipo" foi o volume inaugural de "Capitalismo e Esquizofrenia", concluído com "Mil Planaltos", também publicado em Portugal.

Anos volvidos, depois da morte trágica de Deleuze e do triunfo do liberalismo capitalista, "O Anti-Édipo" readquire uma renovada importância com reedições em vários países.

E-Livro completo aqui

A. Introdução

A Ecologia do Desejo: Porque precisamos de ler Deleuze e Guattari para salvar a Terra
No BioTerra, falo frequentemente de sustentabilidade como um conjunto de práticas: reciclar, plantar, conservar. Mas e se a crise ambiental que enfrentamos não for apenas uma crise de recursos, mas uma crise do nosso desejo? Para mudar a forma como tratamos o planeta, precisamos primeiro de entender como o sistema capturou a nossa vontade e a transformou em consumo passivo.

É aqui que entra uma das obras mais radicais do século XX: O Anti-Édipo, de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Este "dossier" sobre o capitalismo e a esquizofrenia oferece-nos as ferramentas para uma Ecologia Profunda, que não separa o Homem da Natureza, mas vê ambos como parte de um fluxo contínuo de vida.

O Desejo como Revolução: Mergulhando no "Anti-Édipo"
Se alguma vez sentiu que a vida moderna tenta encaixar-nos em caixas cada vez mais pequenas, o livro "O Anti-Édipo", primeiro volume da série Capitalismo e Esquizofrenia, de Gilles Deleuze e Félix Guattari, é o grito de libertação que precisa de conhecer. Publicada em 1972, no rasto dos movimentos de maio de 68, esta obra não é apenas um tratado filosófico; é uma "máquina de guerra" contra as formas de controlo da subjetividade.

No cerne do livro está uma crítica feroz à psicanálise tradicional. Para os autores, Freud cometeu um erro estratégico ao confinar o desejo humano ao "teatro familiar" do Complexo de Édipo. Ao reduzir as nossas angústias e sonhos à relação com o "papá e a mamã", a psicanálise teria domesticado a força vital do ser humano. Deleuze e Guattari propõem o oposto: o inconsciente não é um palco de representações familiares, mas sim uma fábrica. O desejo é uma força produtiva, biológica e social que eles designam como "máquinas desejantes". O desejo não quer "possuir" um objeto por falta, quer sim ligar-se, fluir e criar realidades.

A obra lança também um olhar radical sobre o sistema em que vivemos. Argumentam que o Capitalismo possui uma natureza paradoxal: ele "desterritorializa", ou seja, destrói tradições e códigos antigos para libertar fluxos de dinheiro e mercadoria, mas, ao mesmo tempo, cria novas prisões — como o consumo desenfreado e a burocracia estatal — para impedir que o desejo se torne verdadeiramente revolucionário.

É aqui que entra a figura do esquizofrénico, não como uma patologia clínica a ser lamentada, mas como um "processo" de fuga. Para os autores, o "esquizo" é aquele que consegue escapar às codificações do sistema, rompendo as fronteiras do que a sociedade considera normal ou produtivo.

Para substituir a análise tradicional, o livro propõe a Esquizoanálise. Em vez de perguntar "o que é que isto significa?" em relação ao passado, o objetivo é perguntar "como é que isto funciona?" no presente. Como é que o seu desejo se liga à política, à arte, à terra e ao outro? É um convite para abandonarmos as identidades rígidas e abraçarmos o que eles chamam de Corpo sem Órgãos — um estado de pura experimentação onde a vida flui sem as amarras das hierarquias impostas.

Ler "O Anti-Édipo" é um desafio, pois o texto é denso e propositadamente caótico, espelhando a própria multiplicidade que defende. No entanto, a sua mensagem permanece urgente: a verdadeira ecologia e a verdadeira liberdade começam quando libertamos o nosso desejo das fábricas de conformismo do sistema.

Conclusão

Ligar-se à Terra, Desligar-se da Máquina
Ao transmutarmos a visão do desejo de "consumo" para "produção", a ecologia deixa de ser um dever moral e passa a ser uma forma de libertação. Ser "Bio", nesta perspetiva, é permitir que o nosso desejo se conecte novamente com os ciclos da terra, com o crescimento das plantas e com a regeneração dos ecossistemas, em vez de ser canalizado para a acumulação de objetos obsoletos.

A verdadeira sustentabilidade exige que sejamos um pouco "esquizofrénicos" aos olhos do sistema: que saibamos fugir das rotas traçadas pelo hipercapitalismo para traçarmos os nossos próprios mapas de vida. Afinal, cuidar da Terra é, antes de mais, cuidar da liberdade do nosso próprio inconsciente.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Anna von Hausswolff - The Mysterious Vanishing of Electra


My feet are not enough
My feet are not enough
My feet are not enough
My feet are not enough
Oh, to save me

Oh, to save me

His search is not enough
His search is not enough
Oh, to find me

Oh, to find me

My love is not enough
Oh, my love is not enough-ough
To save me
Oh, to save me

You search through the forest and the bottomless sea
And you cry
Push the trees, push the sky, push the air aside
You look at their faces and their meaningless loss
And you cry
Who is she, who is she, who is she who is she to say goodbye?


A Impotência perante a erda
Em "The Mysterious Vanishing Of Electra", o tema central do álbum Dead Magic (2018) ganha uma forma visceral. Anna von Hausswolff não se limita a cantar sobre o luto; ela constrói um exorcismo sonoro que explora a paralisia e a frustração humana perante o que é irreversível.

O Simbolismo da busca e o peso do Mito
O título remete imediatamente para Electra, um nome com fortes raízes na tragédia grega (o complexo de Electra) No entanto, a letra expande este arquétipo para uma narrativa de perda universal e desesperada.

A composição assenta na ideia de insuficiência:
  1. A limitação humana: A repetição de frases como "My feet are not enough" (Os meus pés não são suficientes) e "My love is not enough" sublinha que nem o esforço físico nem a devoção emocional conseguem resgatar quem se partiu.
  2. Cenários míticos: Ao evocar buscas por "florestas e mares sem fundo", a artista transporta o desespero do plano terreno para um cenário quase lendário, onde a "desaparição" de Electra parece definitiva.
  3. A incompreensão: A pergunta "Who is she to say goodbye?" (Quem é ela para dizer adeus?) revela a perplexidade e a revolta de quem fica para trás, incapaz de aceitar o destino.
Uma Performance de Pura Urgência
A estrutura da canção reflete uma urgência que é tanto física como espiritual. A repetição exaustiva dos versos, aliada aos vocais de Anna — que evoluem de melodias introspectivas para gritos guturais —, simboliza uma dor que já não cabe em palavras comuns. É o som de uma alma a tentar conter o inconformável.

A catedral de som: o Órgão de Tubos
O peso emocional da obra é sustentado por uma base sonora monumental, fruto de uma escolha artística rigorosa:
  1. O local: o instrumento foi registado na Marmorkirken (Igreja de Mármore), em Copenhaga. Anna escolheu este local pela acústica única do enorme domo, afirmando que o som do órgão parecia "cristalizar" e disparar notas como ondas hipnotizantes.
  2. O instrumento: trata-se de um órgão Marcussen & Søn de 1963, que incorpora tubos originais de 1894, conferindo uma textura histórica e imponente à faixa.
  3. Produção: gravado ao vivo em estéreo com o produtor Randall Dunn, o órgão cria o drone cavernoso que serve de fundação à música.
Embora o videoclipe oficial, realizado por Maria von Hausswolff, apresente uma estética visual sombria em cenários exteriores, é a reverberação das paredes desta igreja dinamarquesa que ancora a sensação de isolamento e transcendência da canção.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

A era das relações tóxicas


“Todos estamos em perigo”, disse Pasolini em sua última entrevista, poucas horas antes de ser assassinado. Esta frase me vem à mente ao ler o último livro da psicanalista Clotilde Leguil, A Era do Tóxico – Ensaio sobre o novo mal-estar na civilização [sem tradução para no Brasil]. Todos estamos em perigo não apenas pela ameaça externa de poderes destrutivos para a vida, mas também pela possibilidade de que o veneno da destrutividade atue e se espalhe a partir do nosso próprio interior. Nós somos parte do perigo.

É isso que Leguil se propõe a pensar, escutando o que diz uma palavra-sintoma que circula hoje por toda parte: o “tóxico”. Com o auxílio da literatura, do cinema e da psicanálise, Leguil interpreta o tóxico como um novo imperativo de gozo, a compulsão por uma satisfação bruta e imediata, uma voracidade que não pode ser saciada de forma alguma. O mal do ilimitado. O regime do hiper (hiperatividade, hiperestimulação, hipersexualização).

O filósofo Félix Guattari propôs, há vinte e cinco anos, pensar interligados três “ecossistemas”: o íntimo, o relacional e o planetário. O ensaio de Leguil reflete sobre o “veneno” que hoje ameaça desertificar os três, esgotando o corpo individual, social e terrestre. E propõe uma ética do desejo, da responsabilidade perante o nosso desejo, como resistência e limite.

O mal-estar do ilimitado
Apesar de Heidegger, que afirmava que a fala corrente é uma fala “inautêntica”, repleta de clichês, a senhora decide escutar o mal-estar na linguagem ordinária e fixa-se numa palavra de uso corrente hoje: o tóxico. Um exercício de escuta analítico, poderíamos dizer, de um sintoma de época. Quais possibilidades e riscos tem este exercício de escuta? A senhora teme ter contribuído para legitimar uma palavra que provém do âmbito da autoajuda, do coaching, da educação sentimental das redes sociais?
Interessei-me por este significante do “tóxico” a partir do seu novo uso, que me fez levantar questões. Apostei em levar a sério esta extensão do termo, própria da nossa época. Hoje em dia, o tóxico já não designa apenas as substâncias em si, mas uma modalidade de relação com o outro, que se assemelharia a um veneno. Partindo desta constatação, tentei interpretar esta nova metáfora do nosso mal-estar, uma nova metáfora que capturei primeiro através da linguagem, do discurso concreto, da forma como os sujeitos falam do seu mal-estar. Não se trata apenas de usar esta palavra para legitimá-la, mas de interpretá-la e tentar ver o que ela abrange, de que é sintoma.

O tóxico, diz a senhora, fala-nos de um novo mal-estar, do mal-estar específico da nossa época. Já não estamos na época em que o mal-estar tinha a ver com a proibição e a lei, com um esmagamento do desejo através da repressão, mas houve uma mudança. Do que se trata?
Efetivamente, interpretei esta influência do tóxico nas relações humanas a partir da psicanálise. Na minha opinião, ela testemunha uma nova figura do Supereu, aquela que Lacan definiu em seu escrito Kant com Sade em 1963. Estaríamos nos encontrando perante uma inversão do Supereu da proibição, do Supereu freudiano. E esta inversão revelaria também a verdadeira função do Supereu, que é sempre da ordem da forçatura, do forçamento. Este novo Supereu é aquele que força a gozar cada vez mais. Produz o que Lacan chamou a busca de um plus de gozo, que se impõe a cada um. O termo “tóxico” poderia dar testemunho dos efeitos deste “excesso” de gozo, não no sentido de “excesso” de prazer, mas no sentido de “excesso” de forçamento do prazer, de exigências pulsionais que aniquilam o desejo.

O tóxico, no uso corrente do termo, faz-nos pensar sempre que é um problema do outro. O outro é a pessoa tóxica da qual convém afastar-se, o tóxico vem de fora, etc. No entanto, a senhora complexifica o termo para nos dar a entender que o tóxico está em nós mesmos. O “fora”, o que vem de fora, articula-se ou ativa algo “dentro”, no nosso próprio interior. Como é essa dialética dentro-fora?
Sim, a experiência tóxica, tal como a interpreto, é da ordem de uma nova dialética entre o exterior e o interior. Algo do outro vem tocar o nosso corpo, como uma flecha envenenada que nos fere, mas, antes disso, também nos embriaga. É o lado anfibológico do tóxico: por um lado, a experiência tóxica faz experimentar uma forma de prazer estranho e novo; por outro lado, conduz a derivar para um gozo mau e destrutivo.

A marca do excesso no nosso interior, diz a senhora, é a “pulsão”. O mandato de época impele à satisfação pulsional total. Mas, o que é a pulsão? É biológica, é cultural? É ontológica, é histórica? Um cruzamento de ambas?
A pulsão, tal como a define Freud, é uma força libidinal que se situa entre o somático e o psíquico. Direi com Lacan que a pulsão é também o que responde no corpo a uma angústia perante o desejo do outro. É a forma como o vínculo com o outro pode suscitar uma espécie de exigência pulsional, à qual o sujeito não consegue dizer “não”. A dimensão da hýbris, do excesso, poderia ser a que evoca o termo “tóxico”. Há algo que é “demasiado” e que provoca angústia.

No gozo, no tóxico, o outro, o diferente, desaparecem. Desaparece o vínculo, desaparece o tempo como duração, desaparece o mundo compartilhado. Evaporam-se como simples instrumentos ou ocasiões de gozo. Isso tem efeitos terríveis sobre o que Félix Guattari chamava de “as três ecologias”: o ecossistema pessoal, o ecossistema social e o ecossistema terrestre. Em todos os três casos, um tipo de forçamento ameaça chegar até o colapso e o esgotamento (da energia, da atenção, dos vínculos).
Sim, no meu ensaio interessei-me por estes três campos: o campo íntimo, o campo ecológico e o campo político. Porque o interesse deste termo “tóxico” é que se situa na encruzilhada dos três. Em cada um deles, o que se denomina “tóxico” é o que põe em perigo a vida, o que obriga os seres vivos a suportar uma estimulação que vai além do suportável.

O tóxico articula-se com a linguagem. Há uma palavra que envenena. Como entender isto?
Situo a experiência tóxica no nível de uma modalidade do discurso que exige uma forma de forçamento pulsional que coloca o sujeito em perigo: uma frase tóxica seria uma frase que envenena o sujeito, injetando em seu corpo uma forma de crença, mas também transgredindo uma fronteira. Penso nos discursos tóxicos como aqueles que te fazem abandonar toda ética.

Poderíamos entender assim o discurso das novas ultradireitas? Um discurso que induz e justifica a rejeição ao diferente (as mulheres, os migrantes), a cegueira em relação aos limites (as desigualdades, o entorno natural), etc. Judith Butler fala do “sadismo desavergonhado” de Trump como novo tipo de poder, uma nova retórica de poder, uma nova exibição do poder.
Podemos falar de toxicidade do poder, pensando na dimensão predatória de certa modalidade de exercício do poder. O que há então de tóxico nestes discursos é a abolição de toda relação com a verdade, a história e a ética. É também o que se denomina pós-verdade, que permite reescrever a História. O apagamento da verdade histórica é sempre um mau augúrio. Lembremos 1984, de George Orwell. O regime do Grande Irmão, mediante uma propaganda contínua, tenta envenenar a psique dos indivíduos até fazê-los renunciar a toda singularidade. O poder tóxico é aquele que conduz à renúncia de toda ética. Portanto, continua a ser necessário perguntar-se sempre: “A que obedecemos? Em que acreditamos? A que consentimos?”.

A resistência do desejo
Não é fácil limitar o gozo. Não se trata de uma questão racional, de informação, de melhores argumentos ou novas pedagogias, mas sim de algo do corpo. O mal, o perigo, estão no corpo. O que cura, o que salva, portanto, também deve provir do corpo. Aqui encontro um limite ao racionalismo progressista da esquerda, tão confiante sempre no discurso, na política da explicação, mas tão ignorante por vezes do corpo, da realidade pulsional.

A busca de um limite é o resultado de uma forma de angústia perante esta desmedida, perante esta deriva. Mas este limite não dependerá de nenhuma pedagogia. Porque, com a experiência tóxica, trata-se daquilo que o sujeito não compreende, não sabe, não vê. Portanto, trata-se também do inconsciente. E de um inconsciente que se acopla ao corpo, como diz Lacan em Televisão. Por isso, a palavra na psicanálise não é da mesma ordem que uma racionalização ou uma introspecção. Trata-se de poder dizer o que nos supera, o que nos transborda, o que nos confronta também com um enigma na relação com o desejo e o gozo.

Os limites clássicos evaporam-se: o Saber, o Pai, a Lei mostram hoje uma face obscura, muito inquietante para o pensamento ilustrado. Retomando a análise de Lacan, a senhora faz uma crítica das insuficiências de Kant e do seu imperativo categórico. Em que consiste essa crítica?
Lacan mostrou em Kant com Sade – escrito que a princípio era um prefácio para A Filosofia no Boudoir do Marquês de Sade – uma proximidade entre o dever moral kantiano e o imperativo do gozo sádico. Um seria a outra face do outro. Tanto no imperativo categórico kantiano quanto no imperativo do gozo sadiano, trata-se de sacrificar algo do próprio desejo e da relação com o objeto do desejo. Em Kant, este sacrifício faz-se em nome da relação com o universal; em Sade, este sacrifício faz-se em nome da necessidade de obedecer à natureza, que segundo ele quer o crime, ou seja, o prazer sem limites. Portanto, deve existir uma terceira via, que abra caminho ao desejo.

A palavra é toxikon e phármakon. Pode envenenar o corpo, como dissemos antes, mas também pode acalmá-lo, aliviá-lo, curá-lo. Que tipo de palavra é essa que cura, ou pode curar, diferente, pelo que entendo, do mero Logos-Lei (deves/não deves)?
Se algumas palavras podem ser tóxicas, ou seja, empurrar para a pulsão de morte, outras palavras podem ser remédios. A cura pela palavra que é a psicanálise faz da experiência de “dizer” um phármakon. Tentar “dizer” o que nos envenenou também nos leva a desfazermo-nos disso, a desprender-nos disso, a separar-nos disso. Através da palavra como phármakon, o sujeito volta a conectar com o seu desejo, ou seja, com o seu poder de agir. Porque, ao interpretar os conflitos e tormentos da sua existência, também pode perceber o ponto em que tem certa responsabilidade na forma como responde aos acontecimentos da sua existência.

O que pode limitar o gozo é o desejo. É a proposta forte do livro, desenvolvida na sua última parte. Qual é a diferença entre gozo e desejo? Por que “só o desejo pode desintoxicar-me”?
Sim, esta distinção lacaniana entre desejo e gozo é fundamental, já que proporciona uma orientação ética. Permite ver com maior clareza a questão: “Mas o que é o bom?” Ou também: “Como saber o que devo fazer?”, “Como saber se devo dar rédea solta a uma forma de gozo ou se devo virar noutra direção?”. A fórmula de Lacan no seu seminário sobre A Ética da Psicanálise, “não ceder no desejo”, permite valorizar o desejo como um antídoto contra a pulsão de morte.

Essa última parte, aviso, está escrita em primeira pessoa. Pensando o tempo todo que o seu livro aborda o problema do gozo nos seus aspetos sociais, coletivos, políticos (emergência climática, management, poder tóxico), pergunto-me: há uma dimensão ou declinação coletiva, política, partilhada do desejo? Podemos conceber “políticas do desejo”, antídotos coletivos?
A relação com o desejo não é alheia à civilização e trata-se precisamente de abrir um caminho ao desejo para que a civilização seja em si mesma desejável. Neste sentido, há uma dimensão política na ética do desejo.

Em cada um dos meus livros, direi que há um elogio da singularidade do sujeito, do valor do desejo, mas também da necessidade do encontro. Porque o desejo sempre supõe também o encontro com o “desejo do outro”. Como escreveu Alexandre Kojève, o grande introdutor de Hegel em França, a nossa história é sempre a dos “desejos desejados”. Este é, a propósito, o tema do meu novo ensaio: O Desprendimento – Ensaio sobre as molas íntimas da desobediência, que acaba de ser publicado.

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Por que os vampiros e lobisomens fascinam a literatura, o cinema e a música?

Cena do filme Crepúsculo (2008)

O vampiro e o lobisomem não são apenas monstros assustadores que povoam os nossos pesadelos; eles são espelhos perfeitos das maiores ansiedades, desejos e conflitos internos da humanidade. Desde o século XIX, na literatura gótica, até aos blockbusters cinematográficos e streaming e palcos de música atuais, estas duas figuras nunca passam de moda porque representam os dois extremos da nossa própria natureza: a repressão sedutora e o instinto animal.

A evolução destas criaturas começou muito antes do nascimento das salas de cinema, fincando as suas raízes no folclore camponês europeu, onde eram usadas para explicar surtos de raiva, deformidades físicas ou a própria decomposição dos corpos. No território do vampirismo, a fundação do mito moderno deve-se inevitavelmente ao irlandês Bram Stoker, cujo romance Dracula (1897) não só definiu o aristocrata das trevas, como também estabeleceu a ligação íntima entre o vampiro e o lobo, já que o próprio Conde tinha o poder de se transformar em canídeo e comandar as alcateias. Antes dele, John William Polidori já tinha lançado as bases do predador sedutor com The Vampyre (1819), e Sheridan Le Fanu introduzira o erotismo e a ambiguidade com a novela Carmilla (1872). A transição para a contemporaneidade e a humanização do monstro operou-se de forma magistral pelas mãos de Anne Rice, cujas Crónicas Vampíricas trouxeram dilemas existenciais e uma carga filosófica que moldou toda a subcultura gótica do final do século XX.

Já o lobisomem, ou a licantropia, encontrou o seu expoente literário em autores que exploraram a dualidade entre a civilização e a bestialidade humana. Guy de Maupassant, no seu conto Le Loup (1882), e Clemence Housman, com a novela The Were-Wolf (1896), foram pioneiros ao trazer a ameaça do lobo para o centro do horror psicológico e social. Guy Endore, com o livro The Werewolf of Paris (1933), consolidaria mais tarde esta transição ao usar a licantropia como uma metáfora visceral para a violência política. Foi, contudo, a britânica Angela Carter quem revolucionou o mito em The Bloody Chamber (1979), reescrevendo contos de fadas tradicionais sob uma perspetiva visceral, onde o lobo representa o despertar dos instintos mais profundos, a carne e a paixão selvagem.

Com a chegada do cinema no século XX, estas narrativas literárias ganharam rostos, movimentos e uma nova escala de terror, iniciando uma era de ouro que definiu o imaginário visual do género. O expressionismo alemão entregou Nosferatu em 1922, realizado por F.W. Murnau, que chocou o público com uma representação cadavérica do vampiro. Nas décadas de 1930 e 1940, os estúdios Universal assumiram o controlo dos monstros, transformando Bela Lugosi no Drácula definitivo e Lon Chaney Jr. no trágico lobisomem de The Wolf Man (1941), estabelecendo as regras cinematográficas de que a prata e a lua cheia controlavam a besta - abrindo também caminho para o fenómeno pop de Stephenie Meyer com a saga Crepúsculo nos anos 2000.

Esta evolução da criatura assustadora para o ícone melancólico, rebelde e incompreendido foi o combustível perfeito para o mundo da música. No final dos anos 1970, o surgimento do pós-punk e do rock gótico adotou os vampiros como estética oficial, tendo a banda Bauhaus lançado o hino Bela Lugosi's Dead em 1979. Nas décadas de 1980 e 1990, o metal extremo e o metal sinfónico abraçaram completamente o tema: bandas como Cradle of Filth dedicaram álbuns inteiros à condessa Elizabeth Báthory, enquanto os alemães Powerwolf criaram uma carreira assente na iconografia de lobisomens e batalhas épicas. Até a música pop usou o tema com maestria, sendo o exemplo máximo Michael Jackson no videoclipe de Thriller (1983), onde se transforma num lobisomem.

Ao fundir a imortalidade trágica do vampiro com a lealdade e a fúria da alcateia do lobisomem, a literatura, o cinema e a música celebram a eterna luta humana contra a sua própria finitude. Nas artes, estas figuras deixaram de ser apenas personagens de terror para se tornarem símbolos de contracultura, sensualidade e liberdade, transformando o medo da noite numa ode à memória daqueles que caminham nas sombras.

Por que os vampiros e lobisomens temem um ao outro
A rivalidade ancestral entre vampiros e lobisomens é um dos mitos mais enraizados na cultura popular, alimentada por um medo mútuo que decorre de uma profunda oposição biológica e psicológica. Na sua essência, este temor não nasce apenas da capacidade que cada um tem de destruir o outro, mas sim do facto de representarem forças da natureza absolutamente antagónicas. O vampiro é a personificação da imortalidade estática, do controlo frio, da sofisticação aristocrática e da escuridão eterna. Move-se nas sombras com uma elegância calculada e vê o mundo através de uma lente de superioridade intelectual e desapego emocional. Em contrapartida, o lobisomem encarna a fúria implacável da natureza indomada, a volatilidade da carne, o calor do sangue e o caos instintivo. Para um vampiro, o lobisomem é uma abominação imprevisível e animalesca, cuja força bruta e descontrolo representam uma ameaça real à sua existência eterna e meticulosamente planeada; o lobisomem possui uma vitalidade selvagem que o vampiro perdeu e que nunca poderá recuperar, tornando-se um lembrete vivo da sua própria corrupção estéril.

Por outro lado, o medo que o lobisomem sente em relação ao vampiro baseia-se na aversão ao que é antinatural e manipulador. O lobisomem, intimamente ligado aos ciclos da lua e à terra, vê no vampiro um parasita morto-vivo que desafia a ordem natural da vida e da morte. A frieza do vampiro, a sua capacidade de hipnotizar e a sua propensão para a manipulação mental são armas contra as quais a força física pouco pode fazer. O lobisomem teme ser caçado não por um igual, mas por um predador invisível que ataca a partir do manto do intelecto e da ilusão, alguém capaz de corromper a mente e transformar a própria alcateia contra si mesma. Adicionalmente, em muitas mitologias e universos de ficção, o sangue ou a mordedura de uma destas criaturas funciona como um veneno letal para a outra, transformando o confronto físico num risco absoluto de extinção mútua. Assim, o temor que partilham não é apenas o medo da morte, mas sim o pavor existencial de serem consumidos ou dominados por uma força que subverte completamente a sua própria natureza, resultando numa trégua tensa ou numa guerra perpétua onde nenhum dos lados pode alguma vez baixar a guarda.

O espelho do inconsciente: a explicação psicanalítica do mito
A recorrência destes monstros na cultura pop ganha uma profundidade ainda maior quando analisada à luz da psicanálise freudiana, uma vez que o vampiro e o lobisomem funcionam como projeções anatómicas das forças ocultas da mente humana. O lobisomem surge como a personificação mais pura do id, aquela camada do nosso inconsciente governada pelos instintos mais primitivos, pela agressividade e pelo princípio do prazer. A transformação sob a lua cheia representa a rutura total das amarras da civilização, o momento em que o verniz social estala e o homem é engolido pela fúria e pela herança animal que tenta recalcar no dia a dia. O drama desta criatura é, no fundo, o drama do próprio homem moderno, dividido entre a satisfação dos seus impulsos viscerais e o choque do ego na manhã seguinte, quando o lado consciente acorda devastado pela culpa e pelo horror das suas próprias ações.

Por outro lado, o vampiro opera num território onde a sexualidade e a morte se fundem de forma sofisticada, ilustrando na perfeição o embate entre as pulsões de vida e de morte - eros e thánatos - descritas por Sigmund Freud. O ato de morder o pescoço, carregado de uma sensualidade soturna, serve na ficção como um substituto claro para o desejo sexual proibido, expressando o conceito do "retorno do reprimido". Não é por acaso que o Drácula de Bram Stoker se tornou um fenómeno na era vitoriana, uma época marcada por uma repressão moral extrema; o público encontrava no predador aristocrata uma libertação catártica para os seus próprios tabus. Assim, a arte e a psicologia cruzam-se para demonstrar que o verdadeiro fascínio por estas figuras não nasce do medo do desconhecido, mas sim do confronto com aquilo que reconhecemos em nós próprios: o lobisomem como a fúria que tentamos domar e o vampiro como o desejo de imoralidade, poder e sedução que a sociedade nos obriga a esconder nas sombras.

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Longas são as noites : A Projection - Careless


You cannot spend
You cannot spend your life in a day
They want to know if you're alright
The truth is in
The truth is in the song but, hey
It shines in many different lights

There was a girl
There was a girl that could save me
We used to dance, so long ago
I wish her all
I wish her all the best, you see
I'd like to see her before I go

But I can't stand
But I can't stand this pressing weight
This urgency is going to be my end
I need to
I need to get out, seal my fate

[Chorus]
This carelessness's what scares your friends
Scarеs your friends

Saber mais
Projection aqui, aqui e aqui

sábado, 12 de julho de 2025

Marci Shore saiu dos EUA e agora deixa o aviso: "A Europa não deve absolutamente confiar em nós"



A grande questão neste momento, defende Marci Shore, "é saber quem vai forçar quem" na "situação sem precedentes" em que os Estados Unidos se encontram. "Trump e Vance não são omnipotentes nem imortais, são habilitados por muitas outras pessoas, incluindo quase todos os republicanos".

Isso é notório, por exemplo, na recente aprovação da "lei grande e bela" que vai enriquecer os mais ricos e empobrecer os mais pobres, num país que está a resvalar para o autoritarismo. "O terror atomiza-nos, e os regimes tirânicos alimentam-se dessa atomização – e o único antídoto é a solidariedade ", ressalta a historiadora especializada em fascismo.

Aos que dizem que a América será salva pelos "pesos e contrapesos" que sempre orientaram a política norte-americana, Shore deixa um aviso. "As estruturas e instituições não são proteções mágicas e sobrenaturais, são criadas e geridas por pessoas" – e se a História nos mostra algo, é a facilidade com que coisas impensáveis são normalizadas. "Os seres humanos têm uma capacidade extraordinária de normalizar o anormal; o que parecia inconcebível num dado momento pode tornar-se o novo normal alguns meses mais tarde, e mal nos apercebemos de como as fronteiras recuaram."

Com uma carreira de décadas dedicada à cultura eslava e à Europa Central e de Leste, Shore trocou a Universidade de Yale, nos EUA, pela Universidade de Toronto, no Canadá, uma decisão que, garante, foi tomada após muita ponderação em família. Se dependesse do marido, o historiador e escritor Timothy Snyder, é possível que a mudança nunca tivesse acontecido. "O meu marido não é uma pessoa ansiosa por natureza. Se estivesse sozinho, teria regressado a New Haven, não apesar, mas precisamente por causa da vitória de Trump, para lutar pela democracia dos Estados Unidos."

Ao ver o vídeo que o NYT fez consigo e com outros dois especialistas em Fascismo da Universidade de Yale, Jason Stanley e o seu marido, Timothy Snyder, achei muito marcante a analogia que faz com o Titanic, em relação a esta ideia do ‘excecionalismo americano’. Continua a haver muita gente, dentro e fora dos Estados Unidos, a acreditar que os pesos e contrapesos vão impedir o navio de se afundar, apesar de a realidade apontar na direção oposta. Vislumbra alguma forma de esses pesos e contrapesos prevalecerem, por exemplo, por via das eleições intercalares no próximo ano ou do ramo judiciário? Ou estamos destinados a ver o navio afundar-se?
Não existe nada “destinado”. Os “pesos e contrapesos” referem-se a estruturas e instituições – não são proteções mágicas e sobrenaturais, são criadas e geridas por pessoas. Há certamente juízes que estão a recuar e a dizer ‘não’ – e a administração Trump está, muitas vezes, a recusar-se a honrar essas decisões judiciais. Torna-se então uma questão de saber quem vai forçar quem. Esta é, de certa forma, uma situação sem precedentes nos Estados Unidos.

E como se sai dessa situação?
Tudo depende das pessoas. Trump não é omnipotente nem imortal – e JD Vance também não. Eles são habilitados por muitas outras pessoas – incluindo quase todos os membros republicanos do Congresso, que fizeram barganhas faustianas. Esta “Lei Grande e Bela”, que priva milhões de americanos de cuidados de saúde e milhões de crianças de comida, não teria sido aprovada se o Partido Republicano não tivesse alinhado com Trump. Eles podiam dizer ‘não’.

A votação no Senado estava a 50-50 antes de JD Vance ter dado o voto de desempate na sua qualidade de vice-presidente. Juntamente com todos os democratas, três senadores republicanos votaram contra. Se mais um senador republicano tivesse votado contra, o projeto de lei não teria sido aprovado.

Logo após o voto, o meu irmão, que é compositor de ópera, publicou este vídeo [uma música chamada “Na noite passada sonhei que vi Jesus”, que termina com o verso “E ele disse-me que eu podia ir para o inferno” e com a adenda: “Mantenham-se seguros, amigos – e não fiquem doentes”. Desde a eleição de Trump, Dan Shore tem usado os seus dotes musicais para compor sátiras políticas de protesto contra as políticas da administração.]

Em tempos como estes, as pessoas tentam encontrar esperança onde quer que seja e muitas estão algo esperançosas perante notícias recentes como a libertação de Mahmoud Khalil, ativista da Universidade de Columbia, e a vitória de Zohran Mamdani nas primárias democratas à Câmara Municipal de Nova Iorque. O que podem estes eventos indiciar no contexto da busca por um caminho alternativo para os EUA?
Os Estados Unidos são um país profundamente dividido, é por isso que todas as eleições presidenciais são uma competição por um grupo demográfico relativamente mínimo, os chamados “swing voters”, ou eleitores indecisos. Há uma verdadeira resistência, há momentos de esperança, e é importante estar ciente e reconhecer esses momentos.

Estou a participar numa iniciativa do Seminário de Democracia da New School para documentar “pequenos atos de resistência democrática”. Este site pretende ser uma plataforma de solidariedade, reconhecimento e apoio moral, mas também um recurso para jornalistas, especialmente jornalistas fora dos Estados Unidos.

Recentemente, deu uma palestra na Universidade Metropolitana de Toronto onde avisou os canadianos – numa mensagem também dirigida, presumo, aos europeus e a outras sociedades – que “não podem confiar” no atual governo americano e que, por conseguinte, não podem confiar nos Estados Unidos. A verdade, porém, é que a arquitetura da relação transatlântica assenta nesta dependência europeia dos EUA, por exemplo, em matéria de defesa e segurança. Quão exequível seria “sair” desta relação? Ou existe outra forma de negociar (e fazer acordos) com os EUA, reduzindo essa dependência?

Eu nem sequer o descreveria como uma mudança de paradigma, mas sim como um salto para o niilismo. Para Trump, não existe a verdade versus a mentira ou o bem versus o mal; existe apenas o que é vantajoso ou desvantajoso para si próprio num dado momento. Todas as relações são puramente transacionais. Não existem valores ou princípios.

Estamos a olhar para um abismo. Pode acontecer, claro, que algo que Trump entenda como sendo do seu interesse num determinado momento tenha, por acaso, efeitos positivos – mas isso não deve ser mal interpretado como uma política coerente ou um paradigma que reflita qualquer tipo de valores consistentes.

A Europa não deve absolutamente confiar em nós. É isto mesmo: o fim do namoro.

Num artigo que escreveu em maio, afirmava que se deve “evitar fetichizar” conceitos como autocracia, fascismo, autoritarismo, etc., porque “nenhuma situação histórica é exatamente igual a outra”. Ainda assim, impõe-se a pergunta: que lições é que o passado pode ensinar-nos no que toca a lutar contra este sentimento de paralisia da sociedade?
Conceitos como o fascismo são muito úteis, só não devem ser fetichizados. Quanto às lições: os seres humanos têm uma capacidade extraordinária de normalizar o anormal. O que parecia inconcebível num dado momento pode tornar-se o novo normal alguns meses mais tarde, e mal nos apercebemos de como as fronteiras recuaram. Habituamo-nos a uma nova realidade e depois não conseguimos ver verdadeiramente o que está a acontecer à nossa volta.

Após as eleições de novembro de 2016, o comediante John Oliver disse ao seu público televisivo: "Vai ser demasiado fácil as coisas começarem a parecer normais – especialmente se se for alguém que não é diretamente afetado pelas ações [da administração Trump]. Por isso, lembrem-se: isto não é normal. Escreva-o num post-it e cole-o no seu frigorífico." O contexto era um programa de comédia política, mas isto não era uma piada, e o conselho de John Oliver foi absolutamente correto.

Há aqui dois desafios: abanar a sociedade, para que reconheça as implicações aterradoras da livre expressão da violência e da crueldade, e encontrar métodos para fundamentar o nosso discurso na verdade empírica"

É essencial não normalizar o anormal. É também essencial insistir na verdade – procurando-a, dizendo-a em voz alta. O terror atomiza-nos, e os regimes tirânicos alimentam-se dessa atomização. O único antídoto para isso é a solidariedade. Conhecemos a famosa citação de Martin Niemöller, o simpatizante da direita alemã que se tornou prisioneiro político dos nazis: "Primeiro vieram atrás dos socialistas, e eu não me pronunciei – porque não era socialista. Depois vieram atrás dos sindicalistas, e eu não falei – porque não era sindicalista. Depois vieram buscar os judeus, e eu não falei – porque não era judeu. Depois vieram atrás de mim – e já não havia ninguém para falar por mim".

Líderes como Donald Trump são regularmente aplaudidos pela sua “honestidade”, mas essa honestidade não corresponde à ideia de falar verdade no sentido do que se pode empiricamente provar como verdadeiro – corresponde, antes, a falar sem qualquer filtro, mesmo quando o que se está a dizer é o oposto do que é verdadeiro. Isto coloca um desafio aos cidadãos em geral, e aos jornalistas em particular, tornando ainda mais difícil navegar a realidade e reportá-la nos dias que correm. Desde que Trump anunciou a sua primeira candidatura à presidência, há uma década, os jornalistas têm tentado combater a desinformação com factos, mas isso não parece ser suficiente, nem nos EUA, nem na Europa. Qual é o caminho?
O que os apoiantes de Trump entendem como “honestidade” é o tipo de libertação da repressão que Freud descreveu em “A Civilização e os seus Descontentamentos: a livre expressão de Eros e Thanatos”. Hoje, se virmos uma mulher a andar na rua e desejarmos violá-la, é perfeitamente admissível expressá-lo em voz alta. Freud dir-nos-ia que a civilização se baseia na repressão. A libertação dessa repressão é a verdadeira libertação – pela qual pagamos o pequeno preço da destruição da civilização. E estamos a pagar esse preço.

As possibilidades tecnológicas de disseminação e consumo de informação – e desinformação – não têm precedentes. É um alvo em movimento: a tecnologia acelera mais rapidamente do que conseguimos compreender o problema e formular soluções. Em 2016, os jornalistas americanos ficaram sem saber o que fazer. Estavam habituados a verificar factos individuais – não estavam habituados a um completo afastamento da realidade empírica. E ninguém conseguia verificar os factos tão rapidamente quanto Trump conseguia mentir.

Portanto, há aqui dois desafios. Um é abanar a sociedade, para que reconheça as implicações aterradoras da livre expressão da violência e da crueldade. O outro é encontrar métodos para fundamentar o nosso discurso na verdade empírica.

Diz que “a grande lição de 1933 é que se deve sair mais cedo do que tarde”, num paralelismo entre o que aconteceu na Alemanha, com a ascensão de Adolf Hitler ao poder, e o que está a acontecer agora nos EUA. Porque é que decidiu abandonar o seu país-natal?
Receio que a mudança da minha família para Toronto tenha sido um pouco dramatizada de forma absurda. Na verdade, não é assim tão dramática. Foi uma decisão familiar muito gradual e complexa, que começou muito antes das eleições. Por um lado, Yale é uma instituição excecional; adorei ensinar em Yale, tenho lá amigos e colegas de quem sentirei muitas saudades. Por outro lado, nunca pensei ficar tanto tempo na mesma cidade ou na mesma instituição; parecia que estava na altura de mudar a meio da carreira.

Há muito que queria criar os meus filhos num lugar onde não houvesse tanta violência armada – mesmo em tempos muito melhores politicamente, a quantidade de violência armada nos Estados Unidos é horrível. New Haven [a cidade do Connecticut que alberga a Universidade de Yale] fica a menos de uma hora de Sandy Hook, onde uma turma inteira de alunos do primeiro ano foi assassinada por um atirador numa escola primária há pouco mais de 12 anos. Na altura, um dos meus alunos de licenciatura trabalhava como paramédico a tempo parcial e foi um dos primeiros a responder. Chegou ao local e não havia nada a fazer – estavam todos mortos.

A posse de armas per capita é mais elevada nos Estados Unidos do que em qualquer outra parte do mundo. Sou eslava e sabe o que Anton Chekhov disse sobre as armas? "Quando a arma está em cena, tem de disparar até ao fim do último ato." Receio que isso seja verdade tanto na vida quanto no teatro. Em qualquer sábado à noite em New Haven, as urgências estão cheias de vítimas de ferimentos provocados por armas de fogo.

Foi por isso que decidiu ir dar aulas na Universidade de Toronto?
A Munk School for Global Affairs começou a recrutar-me a mim e ao meu marido, Tim Snyder, há cerca de três anos. E há muitas razões pelas quais não só Toronto em geral, mas também a Munk School da Universidade de Toronto em particular, eram especialmente atrativas. Estudei na Universidade de Toronto nos anos 90 e adorei tanto a cidade como a universidade. A Munk foi concebida para promover e apoiar a interdisciplinaridade, o envolvimento, tanto académico como público. Há lá um grupo fantástico de académicos, liderado pela extraordinária cientista política Janice Stein, muito inspiradora para mim.

O Tim e eu viemos para Toronto em agosto de 2024 com os nossos filhos, num ano sabático de Yale. Por isso, já estávamos a viver aqui durante as eleições de novembro. E é muito provável que tivéssemos ficado em Toronto e aceitado as ofertas da Munk mesmo que Kamala Harris tivesse vencido. O meu marido não é uma pessoa ansiosa por natureza; se estivesse sozinho, teria regressado a New Haven, não apesar, mas precisamente por causa da vitória de Trump, para lutar pela democracia dos Estados Unidos.

Mas aceitou mudar-se pela família?
Sim, concordou em ficar em Toronto por mim e pelos nossos filhos. Estou muito disposta a assumir a minha própria ansiedade, mas encolho-me quando vejo a imprensa infligir-lhe a minha ansiedade e cobardia. “Fugir” é o tipo de palavra que quer Jason Stanley quer eu, enquanto judeus neuróticos, usaríamos – mas o Tim não foge.

A minha posição é influenciada pelo facto de, apesar de ser americana, não ser uma americanista – ou seja, o meu trabalho intelectual sempre se centrou na Europa Central e de Leste. Há muito que estou mais empenhada na Ucrânia do que nos Estados Unidos, e muito do que faço é desempenhar o papel de mediadora cultural, ajudando os americanos a compreender a Europa de Leste.

A minha vida intelectual nunca esteve centrada no meu próprio país, o que talvez contribua para o meu sentimento geral de que é possível trabalhar em prol do bem a partir de onde quer que seja – ainda que de formas diferentes. Além disso, tendo saído dos Estados Unidos, sinto-me ainda mais obrigada a falar sobre o que se está a passar lá, em nome dos meus amigos e colegas que se encontram em posições mais vulneráveis.

sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Conectividade - Um ensaio de Michael Marder

A Lua Cheia está a chegar e eu encanto-me com leituras sobre conectividade, ecologismo, nossa Gaia, a tecnologia e o Universo.

"O mal-estar na civilização", um livro que Sigmund Freud escreveu há quase cem anos, começa com uma consideração sobre “o sentimento oceânico”, “um sentimento de algo ilimitado, ilimitado”, “um sentimento de um vínculo indissolúvel, de ser um com o mundo externo como um todo.” Freud, que confessou ser incapaz de descobrir esse afecto em si mesmo, certamente não cunhou o termo, que apareceu pela primeira vez numa carta de 1927 de seu amigo, o escritor francês e vencedor do Nobel Romain Rolland. O que o psicanalista propõe é uma interpretação original, segundo a qual a sensação de “ser um com o mundo externo como um todo” é um sintoma de desvanecimento das fronteiras do ego, lembrando o estado de uma criança no seio materno, ainda incapaz de “ser capaz de lidar”. distinguir seu ego do mundo externo como a fonte das sensações que fluem sobre ele.”

Na fusão primária e secundária com o mundo, porém, já não existe ou ainda não existe uma relação com esse mundo: fundir-se no outro é tão prejudicial para a lógica da relacionalidade como a separação e o desapego absolutos. Será que, como resultado, relações de qualquer tipo dependem de atos cuidadosos de calibração da distância (física ou não) entre o que se relaciona e o que se relaciona? Talvez, mas esta intuição deixa escapar algo crucial sobre relações e conexões que não são posteriores aos termos inter-relacionados nem limitadas às suas aproximações positivas. É necessário cavar ou aprofundar um pouco mais para começar a entender como eles funcionam.

A textura elementar do sentimento que Rolland expressa em palavras e sobre a qual Freud expressa as suas dúvidas é importante. O sentimento oceânico dissolve, ao liquefazer, as fronteiras entre o ego e o mundo. Hoje, outro tipo de sentimento está em ascensão, o “sentimento terreno”, que é o análogo do sentimento oceânico, desta vez direcionado para a terra. Tanto os críticos do Antropoceno como os defensores da ecologia profunda ou da teoria de Gaia têm este sentimento, tingido de um misto de nojo e fascínio, repulsa e atração. Ao contrário da água, a terra é um substrato duro para a existência física, mas também é múltipla na sua unidade, combinando, acomodando todos os outros elementos na sua superfície e nas suas profundezas. Não podemos nos fundir com ele por fusão, mas podemos decair nele, tornando-nos parte dele, como resultado, que é o que acontece na morte, pelo menos de acordo com alguns ritos funerários. E também podemos obstruí-lo com materiais não decomponíveis. Qualquer que seja a nossa posição, o século XXI obriga-nos a estabelecer uma relação com a terra e a clarificar a própria lógica da relacionalidade no processo.

Como é possível calibrar a nossa relação com a Terra numa situação em que estamos simultaneamente demasiado longe e demasiado perto dela?

A dificuldade da tarefa em questão é que a inclusão imanente no rebanho terreno do ser chamado “humano” (o grego antropos) é simultaneamente perturbada e exacerbada hoje. A era das viagens espaciais, pressagiada pelo movimento intelectual conhecido como cosmismo russo, coloca-nos à distância do planeta, mesmo que nunca tenhamos saído da sua superfície. O avanço tecnológico que nos permitiu ver a Terra tal como ela é vista do espaço exterior atribui-nos o papel de observadores externos, desvinculados do planeta. Na formulação contundente de Kelly Oliver, “as fotografias da Terra vistas do espaço provocam a reação de ‘ame-a ou deixe-a’ que alimenta a ilusão de controle e domínio ao sugerir que devemos, ou podemos, escolher um ou outro, mas não ambos. ” Ninguém pode deixar de ser afetado por esta provocação; até o príncipe William opina sobre o assunto. Por outro lado, o Antropoceno, com resíduos industriais incrustados nos estratos da Terra e presentes em todos os ecossistemas do planeta, sinaliza o envolvimento inextricável dos nossos “corpos tecnológicos” transgeracionais na geofisicalidade do planeta. Como é possível calibrar a nossa relação com a Terra numa situação em que estamos simultaneamente demasiado longe e demasiado perto dela? Não será a relação da Terra connosco, em última análise, desregulamentada e irregulável, apesar de toda a ousadia da geoengenharia?

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

Criticar Israel não é ser antissemita



53% dos judeus que afirmam sua judaicidade não dão apoio ao Estado de Israel e sobretudo ao Likud. Israel deveria ser um estado democrático e que dissolvesse a dominação colonial do povo palestino em Gaza e na Cisjordânia. Recomendo este livro.

Por meio de uma formulação teórica consistente, o livro, escrito em 2017, retoma o diálogo sobre a coabitação e o impossível-possível estabelecimento de um Estado binacional formado por Israel/Palestina.

A partir da importante obra de Hannah Arendt, Butler apresenta sua crítica ao sionismo e retoma a questão da judaicidade como categoria cultural, histórica, política, não religiosa e representada por uma multiplicidade de modos sociais de identificação. Discorre sobre uma gama de autores judaicos como Primo Levi, Martin Buber, Hans Kohn e Emmanuel Lévinas, buscando demonstrar a vinculação entre a judaicidade e a justiça social.

Caminhos divergentes: judaicidade e crítica do sionismo salienta que os valores judaicos mais elevados estão baseados no convívio e no respeito. A autora apresenta, de forma instigante, o ser judeu e sua relação com o não judeu, a questão do outro – como eu ou não eu. Ao discutir a alteridade como constitutiva da identidade, demonstra como a dispersão dos judeus de outrora se assemelha à dos palestinos de hoje. Defende, portanto, uma organização política possível, em que nenhuma religião ou nacionalidade tenha soberania sobre a outra.

De forma notável, Judith Butler retoma e amplifica a obra de Edward Said, em especial seu último livro, Freud e os não europeus, assim como propaga a poesia de Mahmoud Darwish. Ao tratar do tema da diáspora e do exílio e de uma perspectiva não eurocêntrica da judaicidade, desafia-nos a pensar como duas tradições de deslocamentos, árabe e judaica, podem produzir uma forma de política pós-nacional, que contemple o direito comum, inclusive dos refugiados. Assim, o convívio entre judeus e árabes torna-se plenamente possível e baseia-se na construção de um modelo de Estado não colonial, porém igualitário para todos os habitantes de Israel/Palestina.

Embora a tarefa da coabitação e do binacionalismo pareça impossível, Judith Butler é contundente ao afirmar o quanto ela é necessária, pois, se ninguém mais pensar sobre isso, viveremos “num mundo radicalmente empobrecido”. Caminhos divergentes é um convite irresistível a essa reflexão-ação, especialmente num mundo repleto de movimentações e, ao mesmo tempo, carente de transformações.

domingo, 20 de agosto de 2023

Música do BioTerra: Clan of Xymox - Medusa

Medusa

Finally
I have seen the lights in your eyes
And now
I am glorifying my tragic destiny
Dreams can be wholesome for me
Life is a tormented dream for me

Mesmerize me, enchant me
Mesmerize with your eyes, now

Enchant me, hypnotize me
Enchant me, mesmerize me
Enchant me, hypnotize me
I found the lies in your words
And now
I am glorifying my tragic destiny

Dreams can be hard and mean
I still wonder if you are aware of this
Dreams can be hard and mean
Life is a tormented time, now

Medusa, Medusa
Medusa
Enchant me, mesmerize me

My digital art is based in Medusa song by Clan of Xymox


Ouvir também:
Capicua - "Medusa" com Valete (Beat: Roger Plexico) - Letra Video

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Documentário: Byung-Chul Han - Sociedade do Cansaço


Este ensaio-filme envolve o fenómeno do cansaço nas nossas sociedades capitalistas e os seus sintomas como depressão, esgotamento e burnout. A artista visual Isabella Gresser tece as observações cinematográficas, fotográficas e desenhadas que fez na Coreia do Sul e Berlim, com textos falados e trechos de palestras de Byung-Chul Han. 

Neste documentário o filósofo traz discussões sobre sociedade disciplinar, sociedade do controle, sociedade do cansaço e sociedade da transparência. Além disso comenta sobre Hegel, Peter Handke, Wim Wenders, conversa com o diretor de cinema Park Chan-wook, fala da sua juventude e visão atual sobre Berlim e Seul. Por fim, cabe destacar também as reflexões que Han faz acerca dos suicídios na Coreia do Sul.

Há uns meses, encontrei um livro de um filósofo coreano, Byung-Chul Han, que me deu luzes em relação a uma característica da nossa sociedade: a livre autoexploração dos indivíduos por eles mesmos.

A quantidade assustadora de burnouts e depressões leves a que assistimos ou da qual até nós mesmos já fomos vítimas, faz-nos pensar no que possa ser a causa destes fenómenos. O trabalho parece ser sempre mais exigente do ponto de vista físico, intelectual e psíquico e muitas pessoas saudáveis acabam por se ver afetadas por episódios depressivos.

É comum pensar que são os empregadores e as lideranças que exigem que as pessoas trabalhem acima de níveis considerados razoáveis. Embora possa ser verdade que um ou outro gestor exige demasiado dos seus trabalhadores, corresponde muito mais à minha experiência o facto de os líderes estarem preocupadas com estes fenómenos, mas não conseguirem mudar os seus comportamentos e os das equipas que coordenam. E qual seria a causa? A interpretação de Byung-Chul Han é que estamos num momento em que os próprios indivíduos se constituíram em exploradores de si próprios: “se posso mais, devo mais!” As motivações podem ser muitas: a incerteza de um mundo em constante mudança, o contacto permanente com todos os países que nos faz querer pertencer ao grupo dos melhores ou que nos faz sentir responsáveis por todos os desastres do planeta, o prazer de nos sentirmos reconhecidos.

É difícil encontrar uma só motivação, são muitas e subtis, de tal modo que o indivíduo continua a explorar-se e a sentir-se livre. Explica Byung-Chul Han “o excesso de trabalho e de produção conduz, a um nível mais elevado, à autoexploração. Esta é mais eficaz do que a exploração por terceiros, uma vez que vem associada a um sentimento de liberdade. O ser explorado é simultaneamente o que explora – agente e vítima já não se distinguem entre si. Esta autorreferencialidade gera uma liberdade paradoxal que, em virtude das estruturas coercivas que lhe são intrínsecas, se converte em violência. As doenças psíquicas da sociedade da produção nada mais são do que manifestações patológicas desta liberdade paradoxal.”[fonte]

Se a hipótese de Byung-Chul Han é verdadeira, só será possível devolver à sociedade e a cada indivíduo um estilo de vida que promova uma liberdade autêntica, através de um esforço concertado por mudar hábitos, formas específicas de educação e características culturais. As organizações poderão e deverão alertar para este facto, aumentando o nível de awareness, e criando políticas promotoras do equilíbrio dos indivíduos e da sua saúde mental, mas apenas isto não será suficiente.

É desconcertante e paradoxal que vivendo num mundo com muito mais possibilidades do que as gerações e sociedades anteriores, vivamos mais infelizes e mais débeis. Convido a todos a tomar uma atitude resoluta e audaz: não podemos dar-nos ao luxo de assumir que as pessoas são mais fracas do que noutras épocas. Parece-me importante iniciar uma plataforma de reflexão e debate que seja capaz de chegar a perceber o modo mais humano e equilibrado de gerir a informação e as possibilidades a que temos acesso.

Byung- Chul Han diz que a nossa sociedade tem “excesso de positividade” – que pode ser excesso de possibilidades, excesso de estímulos, excesso de responsabilidade – e que o perigo do excesso de positividade em relação ao excesso de negatividade é não termos anticorpos ou mecanismos de defesa que reajam a um elemento agressor. É mais difícil combater um inimigo sem rosto, mas eu diria que é urgente, sob pena de perecermos no âmbito de tanta positividade.

sábado, 29 de julho de 2023

Capitalismo e Pulsão de Morte


Sinopse

Aquilo a que hoje chamamos crescimento é na verdade uma excrescência, uma proliferação cancerosa que destrói o organismo social. Essas excrescências metastizam-se com uma vitalidade inexplicável. A certa altura, esse crescimento já não é produtivo, mas destrutivo. Há muito que o capitalismo ultrapassou este ponto crítico. As suas forças destrutivas produzem não apenas catástrofes ecológicas ou sociais, mas também mentais. Os efeitos devastadores do capitalismo sugerem a existência de um instinto de morte.
Depois de inicialmente Sigmund Freud ter introduzido o conceito de instinto de morte de forma hesitante, confessou que «não poderia pensar de outra forma», porque a ideia ganhara poder sobre ele.
Pensar hoje no capitalismo é impossível sem considerar o instinto de morte.

" Aquilo a que hoje chamamos crescimento é, na realidade, uma proliferação carcinomatosa, desprovida de objectivo. Atualmente assistimos a uma euforia de produção e de crescimento que faz lembrar um delírio de morte. Simula uma vitalidade que oculta a aproximação de uma catástrofe mortal. A produção assemelha-se cada vez mais a uma destruição. É possível que a autoalienação da humanidade tenha atingido aquele grau que lhe permite experimentar o seu próprio aniquilamento como uma fruição estética. O que Walter Benjamim disse outrora sobre o fascismo pode hoje aplicar-se ao capitalismo."

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Documentário: Paulo Freire, 100 anos


Na semana em que se comemoram os cem anos de nascimento do patrono da educação brasileira, Paulo Freire, a TV Cultura exibe um documentário inédito sobre o educador, produzido pelo departamento de jornalismo da emissora. Apresentada pelo jornalista e diretor Leão Serva. 
O livro Pedagogia do Oprimido é um marco na obra de Paulo Freire, um grande pensador brasileiro das ciências humanas e um dos mais reconhecidos em todo o planeta. Ele foi professor das universidades de Harvard, nos Estados Unidos, e Cambridge, na Inglaterra, e teve mais de 40 títulos de doutor honoris causa em universidades como Oxford, na Inglaterra, e Coimbra, em Portugal. 

Paulo Freire,100 Anos traz os principais estudiosos da obra do educador para explicar a sua importância e, ao mesmo tempo, os motivos dele estar sendo vítima de tantos ataques extremistas.

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