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domingo, 25 de outubro de 2026

Eduardo Galeano - Os donos do mundo precisam que você odeie alguém

"Os donos do mundo precisam que você odeie alguém. Pode ser o imigrante, o comunista, o capitalista, o terrorista, qualquer um serve, desde que você não perceba quem são os verdadeiros ladrões."

Embora circule amplamente nas redes sociais e em publicações online associada ao seu nome, esta frase em específico funciona frequentemente como uma síntese ou adaptação livre de vários pensamentos e críticas sociais presentes na obra de Galeano (como As Veias Abertas da América Latina ou Os Filhos dos Dias), focadas na crítica ao sistema capitalista global, à manipulação mediática e à polarização política.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Dia Europeu da Ecologia


Passaram mais de 150 anos desde que a palavra ecologia foi criada, para dar nome à ciência que estuda as relações entre os seres vivos e o ambiente. Hoje, esse conhecimento continua a ser essencial para compreendermos o mundo.

O Dia da Ecologia, que hoje se celebra, lembra-nos do impacto das nossas escolhas e de como tudo está interligado: da floresta ao oceano, do ar que respiramos à comida que nos chega ao prato.

É também a ecologia que nos dá as bases científicas para encontrar caminhos para viver em maior equilíbrio com o planeta.

O Dia europeu da ecologia, Ecology Day, reúne um conjunto de atividades e recursos pedagógicos que pretende sensibilizar o público para as mais diversas questões do campo da Ecologia.

A história da ecologia é marcada pela transição de uma observação naturalista e descritiva para uma ciência quantitativa, preditiva e interdisciplinar. Em 1866, o biólogo e naturalista alemão Ernst Haeckel formalizou o termo na sua obra Generelle Morphologie der Organismen, combinando as palavras gregas oikos (casa) e logos (estudo). Haeckel definiu a ecologia como o estudo das interações entre os organismos e o seu ambiente orgânico e inorgânico, focando-se essencialmente na adaptação individual das espécies ao seu habitat natural.

Ao longo das primeiras décadas do século XX, a disciplina ganhou rigor metodológico e abrangência concetual. Em 1935, o botânico britânico Arthur Tansley introduziu o conceito seminal de ecossistema, integrando os componentes biológicos e os fatores físicos e químicos num único sistema funcional. Na mesma época, cientistas como o matemático americano Alfred J. Lotka e o físico italiano Vito Volterra desenvolveram modelos matemáticos para descrever as dinâmicas de populações e as relações predador-presa, transformando a ecologia numa ciência com capacidade preditiva.

Na segunda metade do século XX, o foco desviou-se para a circulação de matéria e energia. Os irmãos Eugene Odum e Howard Odum, com a publicação do influente manual Fundamentals of Ecology em 1953, consolidaram a ecologia sistémica ao aplicar os princípios da termodinâmica ao estudo dos biomas. Pouco depois, em 1962, a bióloga marinha Rachel Carson publicou Primavera Silenciosa, uma obra marcante que expôs os perigos dos pesticidas e impulsionou o movimento ambientalista moderno, unindo o conhecimento científico rigoroso à consciência social e política.

Na viragem do século XXI, a disciplina expandiu-se para responder à crise global da biodiversidade. Investigadores como E. O. Wilson, pioneiro da sociobiologia e defensor da conservação da biodiversidade, e ecólogos contemporâneos como Robert Costanza, focado na valoração económica dos serviços dos ecossistemas, adaptaram a ecologia à era do Antropoceno. 

Hoje, a ciência ecológica apoia-se em Big Data, sequenciamento genético ambiental (eDNA) e deteção remota por satélite para monitorizar as alterações climáticas e fundamentar decisões globais de sustentabilidade.

A SPECO – Sociedade Portuguesa de Ecologia, empenha-se na dinamização deste dia: uma iniciativa internacional que une, de forma única, a ecologia e a sociedade, rumo à construção de um desenvolvimento humano mais sustentável.

Em associação com a Federação Europeia de Ecologia (EEF), a SPECO dedica-se anualmente a este dia, com o Alto-Patrocínio da Comissão Nacional da UNESCO.

Mais informações em Ecology Day.Eu ou em Ecology Day.

"Para mim, a ecologia não deve ser um dogma, deve ser integrada em uma grande pensamento político sobre a humanidade. O problema não é apenas preservar a Natureza, mas perceber que a nossa sobrevivência está ameaçada por dentro pela nossa forma de vida, pela consumição, pela circulação, pela nossa forma de ser submetida à ditadura do lucro, que é contrária à possibilidade de regenerar os recursos do planeta. Hoje, a minha preocupação é o destino da humanidade na Terra."
  
Edgar Morin  

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

A ciência da quietude: nictinastia e ritmos naturais


A quietude que se sente no solo da floresta ao anoitecer não é uma ilusão provocada pela penumbra, mas sim um processo biológico ativo. Cenoura-brava (Daucus carota), prestes a despertar no matagal: rodeada por botões no meio de uma densa folhagem, uma única flor branca suspendeu o seu desabrochar até ao amanhecer, repousando lado a lado com pequenas flores roxas companheiras (talvez violetas) no sub-bosque húmido e sombreado.

Esta reação dinâmica à transição entre o dia e a noite ocorre através da nictinastia - um movimento funcional em resposta à ausência de luz e à descida de temperatura. As células das plantas da família Apiaceae alteram a sua pressão de turgor (a pressão da água no seu interior), fazendo com que a umbela e os seus botões imaturos se dobrem ou se fechem hermeticamente. Este mecanismo protege os delicados órgãos reprodutivos contra o frio e a humidade noturnos. Enquanto o mundo dorme, toda a flora parece descansar e desacelerar, respeitando em silêncio os ciclos ancestrais da Terra.

Entre o Sinal e o Silêncio
Enquanto a rede pulsa em cabos de luz,
e o ecrã consome o olhar distraído,
a terra, em segredo, a si se reduz,
num ritmo antigo, calmo e esquecido.

Procuramos o mundo num brilho irreal,
hiperconectados, em febre e desterro,
esquecidos do sopro do chão ancestral,
presos à ilusão do vidro e do ferro.

Mas lá fora, na sombra, a flor sabe esperar.
A cenoura-brava dobra o seu manto,
suspende o desabrochar até o sol voltar,
coberta de orvalho, de noite e de encanto.

Sem pressa, sem rede, sem código ou sinal,
a vida recolhe na sua quietude profunda.
O verdadeiro mistério do mundo real
é o silêncio da terra quando a noite o inunda.

Poema de João Soares, 03.08.2026

«A ilusão da falta de vida é apenas isso: uma ilusão. Em todo o lado há a garantia de que o ciclo se cumpriu, contendo em si os meios para a sua própria renovação.» - Rachel Carson in O Mar que Nos Cerca

domingo, 17 de maio de 2026

Pintassilgo (Carduelis carduelis) macho


"Eu não compreendo como alguém consegue olhar para uma ave e não ver um milagre da engenharia evolutiva. Cada pena, cada osso oco, cada batimento cardíaco acelerado é um poema escrito pela seleção natural para vencer a gravidade."
Richard Dawkins, biólogo evolutivo e autor do livro Flights of Fancy: Defying Gravity by Design and Evolution (2021)

Ao longo da sua vasta obra, o célebre biólogo evolutivo britânico defende que a seleção natural atua como um engenheiro cego, esculpindo cada detalhe anatómico ao longo de milhões de anos através de um processo implacável de tentativa e erro. No seu livro Flights of Fancy, Dawkins explora precisamente a forma como a vida animal desafia a gravidade, traçando paralelos impressionantes entre a engenharia mecânica humana e os mecanismos biológicos. Ele explica que a evolução não possui um plano abstrato numa folha de desenho; em vez disso, ela otimiza os organismos sobreviventes ao eliminar cruelmente os protótipos menos eficientes. É esta triagem contínua que justifica a perfeição aerodinâmica das penas de queratina, a resistência estrutural dos ossos pneumáticos reforçados por trabéculas e a eficácia incomparável do sistema respiratório de fluxo unidirecional das aves. Quando observamos o voo de um falcão ou a leveza de um passarinho, estamos a testemunhar uma obra-prima de design sem designer, onde cada batimento cardíaco acelerado é o resultado de uma pressão adaptativa extrema. Dawkins recorda-nos frequentemente de que a complexidade do mundo natural dispensa o sobrenatural, pois a ciência e a teoria da evolução oferecem uma explicação muito mais poética, elegante e mensurável para a beleza que nos rodeia.

Aqui estão alguns dos "milagres" de engenharia que fazem das aves o que são:
  1. Penas: não servem apenas para voar. A estrutura molecular das penas, composta por queratina, cria um isolamento térmico perfeito e uma aerodinâmica inigualável. As penas de voo combinam leveza extrema com uma resistência mecânica notável.
  2. Esqueleto Pneumático: para vencer a gravidade, o peso precisa de ser minimizado. Muitas aves possuem ossos ocos que são internamente reforçados por pequenas hastes (chamadas trabéculas). Isto garante a rigidez necessária para suportar a força dos músculos peitorais sem adicionar peso extra.
  3. Sistema Respiratório: o voo exige uma quantidade massiva de energia e oxigénio. Ao contrário dos mamíferos, as aves possuem um sistema de sacos aéreos que permite um fluxo unidirecional de ar. Isto significa que o oxigénio flui continuamente pelos pulmões, tanto na inspiração como na expiração, garantindo máxima eficiência a altitudes elevadas.
  4. Metabolismo e Coração: para alimentar o voo, o metabolismo é extremamente acelerado. Os corações das aves são proporcionalmente maiores e mais eficientes que os nossos, permitindo bombear o sangue a uma velocidade e pressão elevadas.

Richard Dawkins on reverse engineering evolution’s optimal beauty
Análise do livro Flights of Fancy

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Pete Hegseth quis orar por soldado mas acabou a citar monólogo de "Pulp Fiction"


Um dos momentos mais recentes protagonizado pelo secretário da Defesa dos Estados Unidos está a gerar polémica. Durante uma oração por um soldado norte-americano resgatado depois de a sua aeronave ter sido abatida pelo Irão, Pete Hegseth acabou por recitar um discurso muito semelhante a um monólogo do filme "Pulp Fiction", de Quentin Tarantino, em vez de um versículo bíblico.

O mais recente discurso do secretário da Defesa dos Estados Unidos está a dar que falar pelas razões mais insólitas. Num momento em que fazia uma oração por um soldado norte-americano resgatado após a sua aeronave ter sido abatida pelo Irão, Pete Hegseth tentou recitar um versículo bíblico, mas acabou por proferir um dos monólogos mais icónicos da obra cinematográfica de Quentin Tarantino.

O momento que está a dar que falar na imprensa internacional aconteceu na quarta-feira, no Pentágono, perante militares e familiares. Antes de proferir o “falso” trecho bíblico, Pete Hegseth explicou que a oração era recitada pela missão de Busca e Salvamento em Combate “Sandy One”, no Irão: “Chamam-lhe CSAR 25:17, o que penso ser uma referência a Ezequiel 25:17”, afirmou.

“O caminho do aviador abatido está cercado por todos os lados pelas iniquidades dos egoístas e pela tirania dos homens maus. Bendito aquele que, em nome da camaradagem e do dever, guia os perdidos pelo vale da escuridão, pois é verdadeiramente o guardião do seu irmão e o protetor dos que se perderam. E abaterei sobre ti grande vingança e ira furiosa aqueles que tentarem capturar e destruir o meu irmão, e saberás que o meu indicativo é Sandy 1 quando exercer a minha vingança sobre ti. Ámen", proferiu.

No entanto, Pete Hegseth acabou por denunciar-se, devido às evidentes semelhanças com o monólogo de “Jules Winnfield”, o assassino contratado interpretado por Samuel L. Jackson em “Pulp Fiction” (1994), proferido antes de executar as suas vítimas, apesar de ter adaptado o versículo ao contexto militar e à operação de resgate.

Na altura, Quentin Tarantino adaptou-o a partir de um filme japonês de artes marciais, intitulado "Karate Kiba" (1973), protagonizado por Sonny Chiba.

“O caminho do homem justo está cercado por todos os lados pelas iniquidades dos egoístas e pela tirania dos homens maus. Bendito aquele que, em nome da caridade e da boa vontade, guia os mais fracos pelo vale da escuridão, pois é verdadeiramente o guardião do seu irmão e o protetor dos que se perderam. E abaterei sobre ti grande vingança e ira furiosa aqueles que tentarem envenenar e destruir os meus irmãos. E saberás que o meu nome é o Senhor quando exercer a minha vingança sobre ti", cita.

Já o verdadeiro versículo de Ezequiel 25:17, que consiste numa declaração de vingança divina contra os filisteus (povo marítimo da Idade do Bronze), diz apenas: “E executarei grande vingança contra eles com severas repreensões; e saberão que eu sou o Senhor, quando eu exercer a minha vingança sobre eles.”

Segundo os relatos, este foi o segundo culto consecutivo em que Hegseth usou versículos e mensagens violentas ao discutir a guerra no Irão: "Concedam a esta força-tarefa alvos claros e justos para a violência", orou no mês passado.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Ilwad Elman - Foco e Filosofia

"O colapso ecológico e o colapso da governação estão intrinsecamente ligados. Eles reforçam-se mutuamente. E as consequências não são apenas locais. São globais." - Ilwad Elman

Ilwad Elman é uma das mais influentes ativistas somali-canadianas da atualidade, centrando a sua atuação na intersecção entre a paz, a segurança e os direitos humanos.  Filha de pais também eles ativistas, Ilwad, nascida em 1989, na Somália, viveu parte da sua juventude no Canadá, mas decidiu regressar à Somália em 2010 para se juntar à sua mãe, Fartuun Adan, na gestão do Elman Peace and Human Rights Centre. Este centro foi fundado em memória do seu pai, Elman Ali Ahmed, um pacifista assassinado em 1996 pelo seu trabalho de reabilitação de jovens afetados pela guerra.

Em 2010, quando regressaram, o conflito ainda era intenso e a maioria das regiões de Mogadíscio e do Centro-Sul da Somália haviam sido perdidas para o controle do grupo terrorista Al-Shabaab, ligado à Al-Qaeda. Gradualmente, a organização Elman Peace foi pioneira em toda a Somália nas prioridades temáticas sobrepostas de paz e justiça, clima e segurança, direitos humanos e proteção, questões de género e igualdade, educação, meios de subsistência e criação de empregos.

Em 20 de novembro de 2019, as autoridades locais confirmaram que uma de suas irmãs, Almaas Elman, que também havia retornado à Somália como trabalhadora humanitária, foi morta a tiros num carro, perto do Aeroporto Internacional Aden Adde, em Mogadíscio

Ao longo da sua carreira, Ilwad destacou-se pela implementação de programas inovadores de desarmamento e reintegração social, focando-se especialmente na recuperação de ex-crianças-soldado e na proteção de mulheres sobreviventes de violência sexual. O seu trabalho ganhou uma dimensão global através do seu envolvimento como conselheira das Nações Unidas, onde tem defendido que a estabilidade política não pode ser dissociada da justiça social e, cada vez mais, da sustentabilidade ambiental.

Como sugere a citação na imagem, Elman é uma das vozes líderes na sensibilização para a segurança climática. Ela argumenta que a degradação ambiental e a escassez de recursos provocada pelas alterações climáticas e desigualdade promovidas por políticas belicistas e de lavagem verde, exacerbam os conflitos armados, principalmente no Sul Global e alimentam a sua instabilidade política, tornando a justiça ecológica um pilar fundamental para uma paz duradoura.

Pelo seu impacto humanitário, foi já nomeada em várias ocasiões para o Prémio Nobel da Paz, consolidando-se como uma das vozes mais respeitadas na resolução de conflitos em contextos complexos.

Recentemente, o seu percurso académico e contributo para a paz foram reconhecidos com distinções honorárias, incluindo um Doutoramento Honoris Causa em Direito (LL.D.) pela Carleton University, em reconhecimento pelo seu trabalho humanitário e liderança global.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Razan Al Mubarak - Foco e Filosofia

"O futuro do nosso planeta — o nosso futuro — dependerá da nossa capacidade de trabalhar não apenas entre setores, mas também entre geografias e entre culturas." - Razan Al Mubarak

Razan Al Mubarak nasceu em 1979, nos Emirados Árabes Unidos. Razan Al Mubarak é uma líder ambiental e gestora pública reconhecida pelo seu papel fundamental na proteção da biodiversidade e na luta contra as alterações climáticas.
𝐀𝐥 𝐌𝐮𝐛𝐚𝐫𝐚𝐤 foi incluída na lista das 𝟏𝟎𝟎 𝐏𝐞𝐬𝐬𝐨𝐚𝐬 𝐌𝐚𝐢𝐬 𝐈𝐧𝐟𝐥𝐮𝐞𝐧𝐭𝐞𝐬 𝐝𝐞 𝟐𝟎𝟐𝟒 𝐝𝐚 𝐫𝐞𝐯𝐢𝐬𝐭𝐚 𝐓𝐢𝐦𝐞, consolidando o seu estatuto como uma voz essencial para o futuro do planeta.
Al Mubarak tem um mestrado em Compreensão Pública das Alterações Ambientais pela University College London e uma licenciatura em Estudos Ambientais e Relações Internacionais pela Tufts University.

Em setembro de 2021,fez história ao ser eleita Presidente da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), para um mandato de 4 anos tornando-se a segunda mulher a liderar a organização nos seus 75 anos de história e a primeira do mundo árabe 

Percurso Profissional e Liderança
O seu impacto é sentido tanto a nível nacional como internacional:
  1. Agência do Ambiente de Abu Dhabi (EAD): actuou como Diretora-Geral, sendo a pessoa mais jovem a assumir este cargo. Sob a sua liderança, a agência expandiu significativamente os seus esforços na proteção de espécies ameaçadas e na gestão de recursos naturais.
  2. Fundo Mohamed bin Zayed para a Conservação de Espécies: é  a Diretora Executiva desta fundação, que já apoiou milhares de projetos de conservação em mais de 160 países, focando-se em salvar espécies da extinção.
  3. COP28: em 2023, desempenhou o papel crucial de Campeã de Alto Nível das Nações Unidas para as Alterações Climáticas na COP28, que decorreu no Dubai. Nesta função, foi a ponte entre o governo e os intervenientes não estatais (cidades, empresas e sociedade civil).
Foco e Filosofia
Razan Al Mubarak é uma defensora acérrima de soluções baseadas na natureza. O seu trabalho destaca-se por:
  1. Inclusão: defende que a conservação deve incluir as comunidades locais e os povos indígenas como guardiões da biodiversidade.
  2. Multidisciplinaridade: combina a conservação científica com estratégias económicas e políticas públicas eficazes.
  3. Identidade de Género: É uma voz ativa no empoderamento feminino em cargos de decisão ambiental.
"A conservação não é apenas sobre proteger a natureza de nós próprios; é sobre proteger a natureza para nós próprios." — Razan Khalifa Al Mubarak

Reconhecimento
 Em 2018, o Fórum Económico Mundial nomeou-a Jovem Líder Global do Fórum. Em 2013, a Câmara de Comércio Americana de Abu Dhabi atribuiu a Al Mubarak o Prémio Mulheres nos Negócios.

sábado, 28 de março de 2026

Albert Einstein sobre a nossa interconectividade ecológica e cósmica


"O ser humano é uma parte do todo a que chamamos 'Universo', uma parte limitada no tempo e no espaço. Ele experiencia-se a si próprio, aos seus pensamentos e sentimentos, como algo separado do resto — uma espécie de ilusão de ótica da sua consciência.

Esta ilusão é uma espécie de prisão para nós, que nos restringe aos nossos desejos pessoais e ao afeto por algumas pessoas mais próximas. A nossa tarefa deve ser libertarmo-nos dessa prisão, alargando o nosso círculo de compaixão de modo a abranger todas as criaturas vivas e a totalidade da natureza na sua beleza."

Esta passagem profunda pertence a uma carta de condolências escrita por Albert Einstein em 12 de fevereiro de 1950.

O destinatário era o Rabino Robert S. Marcus, na época Diretor Político do Congresso Judaico Mundial. O Dr. Marcus havia escrito a Einstein num momento de desespero absoluto, procurando conforto espiritual após a morte prematura do seu filho de 11 anos, vítima de poliomielite.

O Contexto da Carta
Marcus questionava Einstein sobre como conciliar a visão científica do mundo com a necessidade de acreditar na imortalidade da alma para suportar a dor da perda. Einstein respondeu com este texto, que se tornou uma das suas reflexões mais famosas sobre a espiritualidade secular e a interconexão da vida.

O Texto Original (Inglês)
"A human being is a part of the whole, called by us 'Universe,' a part limited in time and space. He experiences himself, his thoughts and feelings as something separated from the rest — a kind of optical delusion of his consciousness.

This delusion is a kind of prison for us, restricting us to our personal desires and to affection for a few persons nearest to us. Our task must be to free ourselves from this prison by widening our circle of compassion to embrace all living creatures and the whole of nature in its beauty."

Onde ler o original
Como Einstein escreveu esta carta de forma privada, ela não foi um artigo científico publicado originalmente, mas foi preservada nos Arquivos Albert Einstein. Pode encontrar o registo e transcrições em fontes arquivísticas e literárias de referência:

  1. Albert Einstein Archives: o documento está catalogado sob a referência 33-188.
  2. Livro: The New Quotable Einstein, editado por Alice Calaprice (Princeton University Press).
  3. Digital: o site The Marginalian possui um artigo detalhado que inclui a carta enviada pelo Rabino e a resposta de Einstein.
A carta completa também está no livro "The Quantum and the Lotus: A Journey to the Frontiers Where Science and Buddhism Meet", 2020

Matthieu Ricard formou-se em biologia molecular, trabalhou e concluiu um Doutoramento no Instituto Pasteur, em Paris, sob a supervisão do cientista francês François Jacob, um cientista vencedor do Prémio Nobel, mas quando leu sobre filosofia budista, sentiu-se atraído pelo budismo. Eventualmente, deixou a sua vida na ciência para estudar com mestres tibetanos e é agora monge budista e tradutor do Dalai Lama, vivendo no mosteiro de Shechen, perto de Katmandu, no Nepal. Trinh Thuan nasceu numa família budista no Vietname, mas ficou intrigado com a explosão de descobertas na astronomia durante a década de 1960. Foi para o prestigiado Instituto de Tecnologia da Califórnia para estudar com alguns dos maiores nomes da área e é agora um astrofísico aclamado e especialista em como as galáxias se formaram.
Quando Matthieu Ricard e Trinh Thuan se conheceram numa conferência académica, no verão de 1997, começaram a discutir as muitas ligações notáveis ​​entre os ensinamentos do Budismo e as descobertas da ciência recente. Esta conversa transformou-se numa correspondência surpreendente, explorando uma série de questões fascinantes. O universo teve um início? Ou será que o nosso universo é apenas um numa série de universos infinitos, sem fim nem princípio? Será que o conceito de um início do tempo é fundamentalmente falho? Será que a nossa perceção do tempo é, na verdade, uma ilusão, um fenómeno criado nos nossos cérebros que não possui uma realidade última? Será que o impressionante ajuste fino do universo, que produziu as condições ideais para a evolução da vida, é um sinal de que um "princípio da criação" está em ação no nosso mundo? Se tal princípio da criação sustenta o funcionamento do universo, o que nos diz isto sobre a existência ou não de um Criador divino? Como é que a interpretação radical da realidade oferecida pela física quântica se conforma e, ao mesmo tempo, difere da conceção budista da realidade? O que é a consciência e como evoluiu? Pode a consciência existir independentemente de um cérebro que a gere?
A estimulante viagem de descoberta percorrida pelos autores nas suas discussões é recriada de forma primorosa em "O Quântico e o Lótus", escrito ao estilo de um diálogo animado entre amigos. Tanto os ensinamentos fundamentais do Budismo como as descobertas da ciência contemporânea são apresentados com grande clareza, e o leitor ficará profundamente impressionado com as muitas correspondências entre as duas correntes de pensamento e de revelação. Ao longo do seu diálogo, os autores chegam a um notável encontro de mentes, oferecendo, em última análise, uma nova e vital compreensão das muitas formas como a ciência e o budismo se confirmam e se complementam, e das formas como, como escreve Matthieu Ricard, "o conhecimento dos nossos espíritos e o conhecimento do mundo são mutuamente esclarecedores e fortalecedores".
"O Quântico e o Lótus é uma exploração instigante e reveladora dos paralelos fascinantes entre o pensamento vanguardista na física e o Budismo - uma conversa brilhante que qualquer pessoa pensante teria prazer em ouvir." — Daniel Goleman, autor de "Inteligência Emocional"
"O Quântico e o Lótus é o resultado rico e inspirador de um diálogo profundamente interessante entre a ciência ocidental e a filosofia budista. Este livro notável contribuirá muito para uma melhor compreensão da verdadeira natureza do nosso mundo e da forma como vivemos as nossas vidas." —Sua Santidade o Dalai Lama

segunda-feira, 23 de março de 2026

Pierre Reverdy - A ética é a estética de dentro


Esta máxima sugere que o comportamento ético - a conduta moral e correta - é uma forma de beleza interior, uma harmonia da alma que se reflete no caráter, comparando a beleza moral à beleza estética.

O Significado da Frase (inserida no seu Livro Le Livre de mon bord (1948)
  1. Beleza interior e ação: Reverdy sugere que a verdadeira beleza (estética) não está apenas na aparência externa, mas sim na correção moral, no caráter e nas atitudes (ética).
  2. Integridade: a ética representa a harmonia, a "beleza" interior de um indivíduo, traduzida em suas ações.
  3. Conexão: a ideia é que o comportamento virtuoso tem uma qualidade estética, tornando a bondade e a retidão algo belo de se ver e viver.
Pierre Reverdy (1889-1960) foi um poeta francês notável, associado ao movimento surrealista e conhecido por sua influência na poesia moderna. Sua obra é caracterizada pela experimentação com a linguagem e pela exploração de temas como a solidão, a busca espiritual e a condição humana. Reverdy deixou um legado significativo na literatura francesa, sendo reconhecido por sua originalidade e profundidade poética. 
Reverdy teve uma biografia muito interessante. Viveu intensamente Paris e o nascimento das correntes cubistas e surrealistas, conviveu com os maiores nomes dessa época : Guillaume Apollinaire, Max Jacob, Louis Aragon, André Breton, Philippe Soupault, Henri Matisse, Max Jacob, Pablo Picasso, Juan Gris, and Georges Braque Tristan Tzara e um romance intenso por Coco-Chanel. Aos 37 anos retirou-se da "movida parisiense" e foi com sua esposa, viver para Solesmes, numa vida ascética e espiritual, numa casa muito simples, próxima da Abadia de Solesmes (ver foto).
Muitos poetas prestaram homenagem a Pierre Reverdy, dedicando-lhe artigos ou poemas, entre os quais André du Bouchet, Jacques Dupin, Edmond Jabès, Ricardo Paseyro, Pablo Neruda, Kateb Yacine. René Char disse dele que era "um poeta sem chicote nem espelho".

O Legado de Pierre Reverdy: Entre Sablé-sur-Sarthe e a Fundação Maeght

Embora não exista uma instituição isolada com o nome do poeta, o património de Pierre Reverdy está preservado de forma exemplar em França, dividindo-se entre a conservação institucional e a gestão de direitos artísticos. O epicentro deste espólio encontra-se na cidade de Sablé-sur-Sarthe, onde o autor viveu as suas últimas três décadas em retiro espiritual e literário.

O principal ponto de referência para qualquer investigador é o Espace Pierre Reverdy, integrado na Mediateca Intermunicipal L’Apostrophe. Este fundo documental é de uma riqueza extraordinária, guardando manuscritos originais, correspondência e, sobretudo, os famosos livros de artista — edições raras onde a poesia de Reverdy se cruza com gravuras de mestres como Picasso, Braque ou Matisse. Para consultar estes documentos, é necessário um contacto prévio através do portal oficial da Médiathèque de Sablé-sur-Sarthe.

No que toca à gestão dos direitos de autor e à promoção da sua obra no contexto das artes visuais, o nome de Reverdy está intrinsecamente ligado à Fondation Maeght, localizada em Saint-Paul-de-Vence. Foi a esta fundação que a viúva do poeta confiou o seu legado material e intelectual, resultando numa simbiose constante entre a literatura e a arte moderna. Além disso, para uma pesquisa técnica sobre a localização de manuscritos específicos em bibliotecas francesas, o Catalogue Collectif de France (CCFr) da Biblioteca Nacional de França é a ferramenta digital mais completa disponível.

Este ecossistema cultural garante que a voz de Reverdy, uma das mais influentes do cubismo literário e do surrealismo, continue acessível tanto a académicos como ao público em geral.


Esta frase é frequentemente citada para destacar que a beleza real é aquela que provém do caráter e da integridade de uma pessoa. Aqui, uma crónica interessante sobre Ética, porém tem um certo viés conservador.

domingo, 15 de março de 2026

Jiddu Krishnamurti - a reforma que vale é a reforma do indivíduo


Quando os modelos estão experimentados e falham gradualmente na criação multilateral e igual de abundância e prosperidade, uma sociedade informada, sensata e consciente, deve começar a procurar novos sistemas e modelos, para que prevaleça e prospere .Ou neste caso concreto, ir buscar os exemplos onde está a sabedoria maior , na Natureza, que em muitos bilhões de anos já fez todas as experiências difíceis e criou modelos tão complexos e eficientes, que com toda a nossa tecnologia e estudo empírico, ainda só afloramos superficialmente.
A sabedoria da Natureza está em tudo o que acompanha o nosso quotidiano. Não inventamos nada, só vamos conseguindo ler e reproduzir , com o engenho e criatividade.
Este processo, seja na escala de consciência individual ou colectivo, transversalmente a tudo, deveria ser a base da nossa conduta, aceitando humildemente aquilo que não sabemos e aceitar a sabedoria da natureza, reproduzindo então com estas nossas capacidades que são o que de melhor temos.

Não somos sábios, mas a criatividade e engenho são dos nossos melhores atributos, como espécie .
Estes mesmos atributos trouxeram a um ponto que podemos construir ou destruir a escalas globais. Resida aqui a tal encruzilhada de escolhas .
Não querendo ser pessimista, porque não o sou, mas se não conseguirmos interiorizar isto primeiro e depois aplicar, temo que possa ser cheio de incertezas e perigos, o nosso futuro enquanto espécie neste maravilhoso e fascinante planeta e cosmos .
E que cada um vá dando o seu contributo, na sua escala e realidade, pode ser muito mais significativo do que se pensa .

Seguindo uma frase que diz que o pior erro é não fazer nada por acharmos que é pequeno ou os outros o farão.
Parece-me claro que estamos cada vez mais próximo de uma encruzilhada determinante .
E parece também que ao invés de aprendermos, só reproduzimos os mesmos erros e cada vez com mais consequências drásticas. É exponencial a capacidade que temos de destruir ou construir .
É uma escolha feita de muitas escolhas.

E-Livros de Jiddu Krishnamurti

Todos os livros traduzidos aqui

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Encontros Improváveis - John Muir

Parque Natural do Alvão
John Muir: o profeta da natureza
John Muir (1838–1914) foi o catalisador que mudou a percepção do mundo ocidental sobre a vida selvagem, movendo-a da exploração utilitária para a veneração espiritual.

"Wilderness is a necessity... there must be places for human beings to satisfy their souls." – John Muir

John Muir, frequentemente aclamado como o "Pai dos Parques Nacionais", foi uma das figuras mais influentes na formação da consciência ecológica moderna. O seu pensamento não era apenas uma teoria académica, mas uma filosofia vivida, profundamente enraizada numa visão espiritual e holística da natureza. Para Muir, o mundo natural não era um recurso a ser explorado, mas um templo sagrado onde a humanidade poderia encontrar renovação e verdade.

O panteísmo naturalista
No cerne da filosofia de Muir reside a convicção de que Deus e a Natureza são indissociáveis. Influenciado pelo transcendentalismo de Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau, Muir via em cada glaciar, árvore ou tempestade uma manifestação direta do divino. Ele rejeitava a visão antropocêntrica — a ideia de que a Terra existe apenas para servir o Homem - e argumentava que todas as espécies possuem um valor intrínseco, independentemente da sua utilidade para a civilização.

Preservacionismo vs. Conservacionismo
Muir é o principal rosto do preservacionismo. Esta postura diferenciava-o de contemporâneos como Gifford Pinchot, que defendia o "conservacionismo" (a gestão eficiente dos recursos naturais para uso humano). Enquanto Pinchot olhava para as florestas como madeira em potencial, Muir via-as como essenciais para a saúde espiritual e psicológica da humanidade. Para ele, a natureza selvagem (wilderness) deveria ser mantida intacta, protegida de qualquer intervenção comercial.

Pontos-Chave do Pensamento de Muir
  1. Interconectividade: Muir antecipou conceitos da ecologia moderna ao afirmar que, quando tentamos isolar algo na natureza, descobrimos que está "preso a tudo o resto no Universo".
  2. A Natureza como terapia: Ele acreditava fervorosamente que o contacto com o mundo selvagem era a cura para os males do materialismo industrial, descrevendo a ida para as montanhas como um "regresso a casa".
  3. Ativismo político: a sua filosofia traduziu-se em ação direta, resultando na fundação do Sierra Club e na criação de parques icónicos como Yosemite, Mount Rainier  e Sequoia.
"Milhares de pessoas cansadas, de nervos abalados e demasiado civilizadas, estão a começar a descobrir que ir para as montanhas é ir para casa; que a vida selvagem é uma necessidade." — John Muir

A herança de Muir continua viva hoje, servindo de base para o movimento ambientalista global e para a compreensão de que a preservação do planeta é, em última análise, a preservação da nossa própria essência.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Encontros Improváveis: Véronique du Boisrouvray e Albert Camus

Véronique du Boisrouvray - La Médaille (2018)

Quando vi este quadro à minha frente, pensei logo em Albert Camus: "Todo o acto de rebeldia expressa uma nostalgia pela inocência e um apelo à essência do ser." 

A Condessa Véronique du Boisrouvray nasceu em Paris, em 1951.

É uma artista autodidata de pastel e retrato
Contexto: Oriunda de uma linhagem aristocrática, a sua vida é marcada pela discrição e pela dedicação total ao aperfeiçoamento da sua arte, sendo membro de honra de prestigiadas sociedades de pastellistas.

Estilo e Técnica
A obra de Boisrouvray é frequentemente descrita como Realismo Poético ou Hiper-realismo Suave.

A Técnica do Pastel: ela utiliza o pastel seco com uma precisão cirúrgica. Ao contrário de muitos artistas que procuram um efeito "esfumado" ou impressionista, Véronique trabalha as camadas para obter uma densidade de cor e uma textura que, à primeira vista, muitos confundem com pintura a óleo.

Luz e Sombra: A sua técnica foca-se no chiaroscuro (claro-escuro), onde a luz parece emanar de dentro dos objetos, conferindo-lhes uma qualidade quase sagrada ou eterna.

Precisão: Existe um rigor técnico extremo na representação das texturas — seja a transparência de um vidro, a suavidade de uma pétala ou a rugosidade de uma fruta.

Tema Principal
A artista foca-se no retrato.
Como explora o retrato?
A artista não se limita a reproduzir uma face; ela utiliza o pastel seco para construir uma presença física e psicológica:

A Técnica da Camada: ela sobrepõe inúmeras camadas de pigmento puro para criar a "carne" do rosto. Isso permite-lhe obter tonalidades de pele extremamente realistas, onde a luz parece estar sob a epiderme, e não apenas refletida nela.

O foco no detalhe tátil: Véronique dá a mesma importância à textura de um tecido (como a blusa em "La Médaille") ou ao brilho de um fio de cabelo do que aos traços fisionómicos. Isso cria uma sensação de proximidade quase íntima com o modelo.

Iluminação de Estúdio Clássica: ela utiliza frequentemente fundos neutros e escuros (estilo tenebrismo), o que isola o sujeito e força o observador a concentrar-se na expressão e na interioridade da pessoa retratada.

Qual é a mensagem?
A mensagem central da sua obra foca-se na dignidade do silêncio e na beleza da introspeção:

A pausa no Tempo: num mundo saturado de imagens rápidas e digitais, os seus retratos convidam à lentidão. A mensagem é que existe uma beleza profunda nos momentos comuns e silenciosos.

A humanidade singular: ao pintar modelos contemporâneos com uma técnica que remete aos grandes mestres do passado, ela transmite a ideia de que a dignidade humana é intemporal.

A Espiritualidade no quotidiano: Através do uso magistral da luz, a artista eleva o modelo a algo quase sagrado. A "mensagem" não é política ou social, mas sim estética e contemplativa: um apelo para reconhecer a poesia na luz que incide sobre um rosto ou um objeto.


Prémios e Exposições
Apesar de não ter um currículo académico padrão, a sua qualidade técnica é tão elevada que é reconhecida por instituições de elite. É membro da Sociedade Francesa de Pastel, da Sociedade Francesa de Arte em Pastel e membro efetivo da Sociedade de Pastel da América. Expõe em mostras internacionais, nomeadamente no Festival Internacional de Pastel de Feytiat, e alcançou o estatuto de "Master Circle" na IAPS em 2023.

"A minha busca é a da harmonia e da luz. O pastel permite-me tocar a matéria de uma forma que nenhum outro meio consegue."

Por que a sua obra é relevante?
Num mundo artístico muitas vezes focado no abstrato ou no digital, Véronique du Boisrouvray mantém viva a tradição da observação meticulosa. Ela prova que o pastel, muitas vezes visto como um meio secundário ou de esboço, é capaz de uma profundidade e durabilidade monumentais.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Encontros Improváveis - somos todos parte de um mesmo planeta


"A noite é a nossa dádiva de sol aos que vivem do outro lado da Terra." - Carlos de Oliveira, no livro Sobre o Lado Esquerdo, 1978

É uma bela metáfora poética que expressa a ideia de partilha e solidariedade global, significando que enquanto aqui é noite, a luz do dia está a iluminar outra parte do mundo, e vice-versa, mostrando que o pôr do sol de um é o nascer do sol de outro, numa dança cósmica de dia e noite que une a humanidade.

Em essência, é um lembrete poético de que somos todos parte de um mesmo planeta, partilhando os ciclos da natureza e a luz e a escuridão.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

A Liberdade não se canta: vive-se!


A Liberdade é Acção  
"Os pássaros domesticados cantam sobre a liberdade. Pássaros selvagens voam." - John Lennon

Introdução
Esta breve citação encerra uma reflexão profunda sobre a forma como compreendemos e praticamos a liberdade. No seu aparente contraste simples — cantar versus voar — está implícita uma crítica poderosa aos discursos que exaltam a liberdade sem a concretizar. Este pensamento é particularmente pertinente quando analisado à luz da educação, da ecologia e da sociedade contemporânea.

Educação: ensinar a cantar ou aprender a voar?
Grande parte dos sistemas educativos afirma formar cidadãos críticos, autónomos e livres. Contudo, na prática, muitos continuam assentes em modelos de padronização, obediência e reprodução de conteúdos. Neste contexto, os estudantes tornam‑se “pássaros domesticados”: aprendem o vocabulário da liberdade, do pensamento crítico e da cidadania, mas raramente dispõem de espaço real para questionar, experimentar ou errar.

Uma educação verdadeiramente emancipadora não se limita a falar de autonomia — cria condições para que ela seja vivida. Voar, aqui, significa permitir escolhas, fomentar a curiosidade, aceitar a diversidade de percursos e reconhecer o erro como parte essencial da aprendizagem. Como defendia Paulo Freire, não há educação neutra: ou ela domestica, ou liberta.

Ecologia: discursos verdes em gaiolas douradas
No campo da ecologia, a metáfora de Lennon ganha uma força ainda mais evidente. Nunca se falou tanto de sustentabilidade, biodiversidade e proteção ambiental. No entanto, a degradação dos ecossistemas continua a acelerar. Multiplicam‑se os discursos “verdes”, mas persistem práticas económicas e políticas que mantêm a natureza confinada a uma lógica de exploração.

Cantar sobre a liberdade da natureza traduz‑se em campanhas, relatórios e compromissos internacionais; permitir que os pássaros voem implica respeitar os limites ecológicos do planeta, restaurar ecossistemas e aceitar que nem tudo pode — ou deve — ser controlado.

Uma ecologia autêntica não é apenas declarativa. É prática, ética e relacional. Reconhece que a natureza não precisa apenas de proteção, mas de autonomia funcional.

Sociedade contemporânea: a ilusão da liberdade
Vivemos numa sociedade que se apresenta como livre, aberta e plural. Contudo, muitos dos nossos comportamentos são moldados por algoritmos, padrões de consumo, pressões sociais e medo da exclusão. Fala‑se muito de liberdade de escolha, mas as escolhas são frequentemente condicionadas.

Os “pássaros domesticados” da contemporaneidade repetem discursos de liberdade enquanto permanecem presos a rotinas e expectativas impostas. Já os “pássaros selvagens” são aqueles que ousam questionar, desacelerar, resistir à normalização e viver com coerência entre valores e ações.

Voar, neste contexto, implica responsabilidade, consciência crítica e, muitas vezes, desconforto.

Conclusão: da retórica à prática
A citação de John Lennon lembra‑nos que a liberdade não se esgota na palavra. É uma experiência vivida, construída diariamente nas escolhas individuais e colectivas.

Na educação, na ecologia e na sociedade, o desafio é o mesmo: deixar de apenas cantar sobre a liberdade e criar condições reais para que ela exista. Porque, no fim, não é o canto que transforma o mundo — é o voo.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Pensamento e Filosofia de Desmond Tutu

"Esperança é conseguir ver que há luz apesar de toda a escuridão." - Desmond Tutu

Desmond Tutu (07/10/1931 26/12/2021) foi uma das figuras morais mais relevantes do século XX, articulando de forma original a filosofia africana, a teologia cristã e a ética política. O seu pensamento desenvolveu-se sobretudo como resposta a contextos históricos concretos de injustiça estrutural, em particular o regime do apartheid na África do Sul, o que confere à sua reflexão um carácter marcadamente prático e aplicado. Mais do que construir um sistema filosófico abstrato, Tutu propõe uma ética orientada para a transformação social e para a reconstrução da humanidade ferida pela opressão.

No centro do seu pensamento encontra-se o conceito africano de Ubuntu, que funciona simultaneamente como fundamento ontológico e ético. Segundo esta conceção, o ser humano não é um indivíduo isolado, mas um ser relacional, cuja identidade se constrói no interior da comunidade. A ideia de que “eu sou porque nós somos” expressa uma ontologia relacional que contrasta com modelos individualistas predominantes na tradição filosófica ocidental. Para Tutu, a realização pessoal só é possível quando as relações humanas são justas, solidárias e reconhecedoras da dignidade de todos. O Ubuntu sustenta, assim, uma ética comunitária em que o bem individual não pode ser separado do bem comum.

A noção de dignidade humana ocupa um lugar central nesta perspetiva. Tutu defende que a dignidade é intrínseca e universal, não dependendo de raça, estatuto social, cultura ou reconhecimento jurídico. Nenhum sistema político ou económico pode legitimamente negar a humanidade de um grupo sem, ao mesmo tempo, desumanizar toda a sociedade. Esta convicção fundamenta a sua crítica moral ao apartheid, entendido não apenas como um erro político, mas como uma violação profunda da condição humana, tanto das vítimas como dos opressores. A partir daqui, o pensamento de Tutu aproxima-se das éticas dos direitos humanos, rejeitando qualquer relativismo cultural que pretenda justificar a exclusão ou a violência.

Um dos contributos mais relevantes de Desmond Tutu para a reflexão ética e política contemporânea é a defesa da justiça restaurativa. Esta abordagem ganhou expressão institucional na Comissão da Verdade e Reconciliação da África do Sul, que Tutu presidiu após o fim do apartheid. Ao contrário da justiça retributiva, centrada na punição do culpado, a justiça restaurativa procura reconhecer a verdade, responsabilizar moralmente os perpetradores e, sobretudo, reparar as relações sociais destruídas pela violência. A justiça deixa de ser entendida apenas como aplicação da lei e passa a ser concebida como um processo de cura social, no qual a memória, o reconhecimento do sofrimento e o diálogo desempenham um papel fundamental.

Neste contexto, o perdão assume uma dimensão ética e política central. Para Tutu, perdoar não significa esquecer nem negar a gravidade do mal cometido. O perdão pressupõe a verdade e a responsabilização, mas recusa a perpetuação do ressentimento como base da vida coletiva. Trata-se de um ato moral exigente, que rompe ciclos de vingança e cria condições para uma convivência futura. O perdão é, assim, entendido como uma forma de práxis transformadora, capaz de libertar tanto as vítimas como os ofensores da lógica da violência contínua.

A relação entre religião, ética e política é outro eixo fundamental do pensamento de Tutu. Embora profundamente enraizado na tradição cristã, ele rejeita uma separação absoluta entre fé e esfera pública. A religião, na sua perspetiva, deve funcionar como consciência crítica da sociedade, denunciando estruturas de injustiça e interpelando o poder quando este viola a dignidade humana. A sua célebre frase resume bem esta posição:“Se és neutro em situações de injustiça, escolheste o lado do opressor.” A neutralidade perante a injustiça é, para Tutu, uma forma de cumplicidade moral, o que levanta importantes questões filosóficas sobre responsabilidade ética, compromisso cívico e o papel das convicções morais na vida pública.

Em síntese, o pensamento de Desmond Tutu pode ser compreendido como uma ética da interdependência humana, fundada no Ubuntu, na dignidade universal e na convicção de que a justiça deve restaurar, e não apenas punir. A sua reflexão permanece particularmente актуada em contextos de pós-conflito, nos debates sobre memória histórica, reconciliação e direitos humanos, bem como na educação para a cidadania democrática. Trata-se de uma filosofia que, partindo de uma experiência histórica concreta, propõe princípios com clara relevância universal, convidando à construção de sociedades mais justas, solidárias e humanas.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Maya Angelou



"Peace is like happiness. It’s an ideal. And yet it’s not. It’s attainable everyday. I can find peace for a moment or an hour somehow, somewhere. I can actually create peace. Maybe only for a moment. Maybe only for an hour. Somehow, somewhere. Maybe more?
We can create peace. For someone. For ourselves. Maybe only for a moment. Maybe for an hour. Somehow, somewhere. Let’s do that. If we all just do that."

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Dia Internacional dos Direitos Humanos e Dia Internacional dos Direitos dos Animais


O astronauta da NASA Ron Garan, que passou 178 dias no espaço, afirma que a humanidade está “vivendo uma mentira” após ver, com os próprios olhos, a fragilidade da Terra e vivenciar o profundo Efeito Perspectiva (Overview Effect).

Ao observar o planeta da órbita, Garan percebeu como nossas prioridades estão invertidas: colocamos a economia em primeiro lugar e o planeta por último, mesmo sabendo que a fina atmosfera da Terra é a única barreira que protege toda a vida. Para ele, a verdadeira ordem de importância deveria ser: Planeta → Sociedade → Economia, já que sem uma Terra saudável, nem as pessoas nem os sistemas conseguem sobreviver.

Ele descreve a “mentira” como a ilusão da separação — a falsa crença de que somos divididos por nações, políticas ou identidades. Na realidade, segundo Garan, somos uma única família humana compartilhando um lar frágil. Sua mensagem é um apelo urgente por união, consciência e sustentabilidade, antes que seja tarde demais.

domingo, 16 de novembro de 2025

Dia de José Saramago


José Saramago, nascido em 1922 na aldeia ribatejana de Azinhaga e falecido em 2010, em Lanzarote, consolidou-se como uma das vozes literárias mais singulares e influentes da língua portuguesa. A sua vida, marcada por origens humildes, por um percurso autodidata e por uma profunda consciência social, moldou uma obra que interroga, de forma obstinada, as estruturas de poder, as fragilidades humanas e as possibilidades éticas do mundo contemporâneo. Tipógrafo, serralheiro mecânico, funcionário público, tradutor e jornalista, Saramago chega à literatura “tarde”, mas com uma maturidade que lhe permite transformar o romance num espaço de experimentação filosófica, histórica e política.

A obra saramaguiana caracteriza-se por uma escrita inconfundível: longos parágrafos, uso singular da pontuação, diálogos integrados no fluxo narrativo e um narrador irónico, muitas vezes cúmplice, que desmonta convenções literárias e desafia o leitor a participar no processo interpretativo. Essa forma, longe de ser mero artifício, revela uma visão do mundo onde a realidade é sempre problemática, polifónica, sujeita a reinterpretações constantes. A sua linguagem, simultaneamente coloquial e metafísica, cria um espaço literário em que o quotidiano se cruza com o fantástico, não como fuga, mas como método de conhecimento.

O pensamento de Saramago assenta numa postura humanista e crítica. Ateu declarado, questionador pertinaz de instituições — sobretudo políticas e religiosas —, o escritor vê a literatura como instrumento de desvelamento do que se oculta por trás dos discursos oficiais. Em obras como Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis ou História do Cerco de Lisboa, revisita a História para expor as suas lacunas e manipulações, revelando a força das narrativas no exercício do poder. Noutros romances, como Ensaio sobre a Cegueira e Ensaio sobre a Lucidez, constrói alegorias sociais que expõem a fragilidade das democracias, a tendência humana para a violência e a responsabilidade moral que cada indivíduo carrega, mesmo — ou sobretudo — quando tudo parece ruir.

A dimensão ética está também presente na centralidade que atribui à compaixão, à solidariedade e à memória das injustiças. Para Saramago, a humanidade só se reconhece plenamente quando se vê ao espelho das suas próprias misérias e contradições. Daí a insistência em narrativas que funcionam como experiências-limite, onde personagens comuns enfrentam situações extremas que as obrigam a reflectir sobre o sentido da liberdade, da dignidade e da convivência social.

A vida de Saramago, especialmente após conquistar o Prémio Nobel da Literatura em 1998, tornou-se também um gesto público de coerência com suas ideias. Ele utilizou a visibilidade para afirmar posições políticas contundentes, muitas vezes polémicas, mas sempre sustentadas por uma convicção ética profundamente enraizada. A sua mudança para Lanzarote após o episódio de censura de O Evangelho segundo Jesus Cristo é emblemática do modo como articulava criação literária, vida pessoal e intervenção pública.

No conjunto, vida, obra e pensamento formam uma unidade coerente: Saramago é um escritor que concebe a literatura como forma de resistência e de revelação; um intelectual que recusa simplificações e dogmas; um observador crítico que acredita, apesar de tudo, na possibilidade de o ser humano se tornar melhor. A sua escrita permanece como convite — e desafio — para que continuemos a interrogar o mundo com a mesma lucidez inconformada que ele cultivou ao longo de toda a vida.

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

E.O.Wison e a renaturalização

"There can be no purpose more enspiriting than to begin the age of restoration, reweaving the wondrous diversity of life that still surrounds us." We have ancient and new born trees, according to old registrations.
A walk in our preserved forest makes us feel quite proud, and it's all thanks to nature. Finally : the true meaning of life is to plant native trees, under whose shade you do not expect to sit. Hope our legacy will continue for next generations!

Últimas Novidades

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

O Chega e o Ódio - "Ódio é muitas vezes demasiada importância ao que é somente desprezível"


Já li o livro excelente de Miguel Carvalho- "𝐏𝐨𝐫 𝐃𝐞𝐧𝐭𝐫𝐨 𝐝𝐨 𝐂𝐡𝐞𝐠𝐚 -𝐀 𝐟𝐚𝐜𝐞 𝐨𝐜𝐮𝐥𝐭𝐚 𝐝𝐚 𝐞𝐱𝐭𝐫𝐞𝐦𝐚-𝐝𝐢𝐫𝐞𝐢𝐭𝐚 𝐞𝐦 𝐏𝐨𝐫𝐭𝐮𝐠𝐚𝐥".
A narrativa inflamada, os epítetos boçais, a opacidade das contas (afinal cai o pano de "Limpar Portugal" e financiamento deste "partido" (corrupto, quando acabamos de ler o livro) é também racista, fascista e xenófobo.
Outro aspecto que André Ventura e sua comandita proclamam é o candidato “do povo” contra as “elites. Nada mais falso. É alimentado por uma elite económica nacional e internacional que depois, caso chegue ao poder, vai cobrar e os portugueses ficam mais pobres e haverá austeridade.

Em junho de 2020 a Revista Visão já havia publicado extensa matéria sobre um banquete na luxuosa Quinta do Barruncho, nos arredores de Lisboa. O centro das atenções era André Ventura, que recém havia lançado o Chega (2019). Entre os convidados estava João Maria Bravo, dono da Sodarca, empresa com contratos milionários de fornecimento de armas às forças de segurança e ao exército.

Outro grande empresário presente era Miguel Félix da Costa, cuja família representou durante 75 anos a marca de lubrificantes Castrol em Portugal, atual homem forte da Slil, uma sociedade gestora de participações nas áreas do imobiliário e turismo, e que conta ainda com interesses na agricultura e na criação de cavalos. A eles se juntou Humberto Pedrosa, dono do grupo Barraqueiro, então administrador acionista da TAP, e João Pedro Gomes, do grande escritório de advogados BSGG.

Também comensal da Quinta do Barruncho foi Francisco Cruz Martins, que administra as imobiliárias Mocaja e Xaroco, ambas pertencentes à Breteuil Strategies, sediada no Chipre, um dos mais importantes paraísos fiscais europeus. O nome do advogado foi amplamente citado no escândalo dos “Papéis do Panamá”, por causa das ligações a sociedades offshore.

𝗤𝘂𝗲𝗺 𝗽𝗮𝗴𝗮 𝗼 𝗯𝗮𝗻𝗾𝘂𝗲𝘁𝗲 𝗲𝘀𝗰𝗼𝗹𝗵𝗲 𝗼 𝗽𝗿𝗮𝘁𝗼
Além deles, outros 70 grandes empresários de diversos ramos económicos portugueses, como representantes do antigo Grupo Espírito Santo. Carlos Barbot, dono do império empresarial das Tintas Barbot, e Paulo Mirpuri, ex-dono da falida operadora de aviação Air Luxor, CEO da Mirpuri Investments e da Hi-Fly, também estiveram nos almoços do Chega.
Entre os doadores do Chega já foram detectados membros da família Champalimaud, que figuram como maiores acionistas da CTT (Correios e banco) e do hotel de luxo The Oitavos, em Cascais, onde o partido organiza encontros com financiadores, dentre outros ramos de negócios.
O episódio recente da CNN foi mais um acto de vitimização, próprio dos ditadores. Recordo que André Ventura num debate para as Legislativas de 2024 disse "𝗘𝘂 𝗶𝗻𝘁𝗲𝗿𝗿𝗼𝗺𝗽𝗼 𝘀𝗲𝗺𝗽𝗿𝗲 𝗾𝘂𝗲 𝗾𝘂𝗶𝘀𝗲𝗿”. Lembram-se? Um total de 1.661 interrupções e cerca de 30% das interrupções foram feitas pelo líder do Chega.

𝗢 𝗴𝗿𝘂𝗽𝗼 𝗽𝗮𝗿𝗹𝗮𝗺𝗲𝗻𝘁𝗮𝗿 𝗱𝗼 𝗖𝗵𝗲𝗴𝗮 𝗱𝗶𝘀𝘀𝗲𝗺𝗶𝗻𝗮 𝗺𝗲𝗻𝘁𝗶𝗿𝗮𝘀
Obriga frequentemente ao uso de fact-checking. Agora aprimoraram-se na deepfake recorrendo à Inteligência Artificial.
A camada principal do Chega é polarizar a nossa sociedade e instrumentalizar e promover o ódio e a intolerância.
Já dizia Camilo Castelo Branco, um grande escritor e por vezes muito esquecido entre nós, tal como p.ex. Aquilino Ribeiro escreveu o seguinte - "Ó𝐝𝐢𝐨 é 𝐦𝐮𝐢𝐭𝐚𝐬 𝐯𝐞𝐳𝐞𝐬 𝐝𝐞𝐦𝐚𝐬𝐢𝐚𝐝𝐚 𝐢𝐦𝐩𝐨𝐫𝐭â𝐧𝐜𝐢𝐚 𝐚𝐨 𝐪𝐮𝐞 é 𝐬𝐨𝐦𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐝𝐞𝐬𝐩𝐫𝐞𝐳í𝐯𝐞𝐥"  (Trecho retirado do seu romance "A Neta do Arcediago")
"Somente desprezível" significa que algo ou alguém é digno de desprezo e nada mais. Refere-se a algo ou alguém que não merece consideração, que é vil, abjeto ou sem valor, não apresentando qualquer outra qualidade.
Que merece ser desprezado: A expressão destaca a falta de valor e a indignidade.
Que não merece respeito: Implica que a pessoa ou coisa em questão é de baixo caráter, abjeta ou sórdida.
Sem outras qualidades: Sugere que, além de desprezível, não há nada de positivo a ser dito sobre o assunto.
Uma situação e efeito do ódio é a nível psicológico e de abalos de valores pessoais e colectivos. Ver estudo académico "Why we hate". 
Porém o aspecto perigoso do ódio é quando ele está na política, num partido, num agregado social. O ódio deriva de uma mentalidade “nós contra eles”, ao mesmo tempo que é um método simplificado para a difícil tarefa de gerir a diferença.

𝐏𝐨𝐥𝐚𝐫𝐢𝐳𝐚𝐫 𝐧ã𝐨 𝐬𝐢𝐠𝐧𝐢𝐟𝐢𝐜𝐚 𝐚𝐥𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐚𝐫 𝐨 𝐜𝐨𝐧𝐟𝐥𝐢𝐭𝐨 𝐠𝐫𝐚𝐭𝐮𝐢𝐭𝐨 — 𝐬𝐢𝐠𝐧𝐢𝐟𝐢𝐜𝐚 𝐭𝐨𝐦𝐚𝐫 𝐩𝐨𝐬𝐢çã𝐨.
A política não se esgota no consenso, pelo que também é confronto quando o que está em jogo a dignidade de vidas inteiras. Polarizar não é rejeitar o diálogo, mas sim recusar a normalização da violência arbitrária. É traçar uma linha ética, mas não moralista, que diga que daqui não se ultrapassa. 

Afinal, existem momentos em que a empatia exige a tomada de posições e a capacidade de ouvir o outro cede lugar à resistência.

Contudo, o exercício da empatia não se restringe apenas aos opositores de opinião. Dentro dos nossos próprios espaços políticos, deve imperar a capacidade de ouvir o outro e de respeitar a sua humanidade, independentemente das diferenças. Na luta por um mundo mais justo, a empatia deve ser o alicerce de todas as nossas relações, não apenas com aqueles que pensam de forma diferente, mas também dentro dos espaços que ocupamos.

Em conclusão, é preciso mais do que nunca, resgatar a política como exercício de cuidado, como espaço de construção comum. Porque sem empatia, sem estratégia de educação ambiental e relações de proximidade a política perde o seu sentido.