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quinta-feira, 23 de abril de 2026
A Verdade sobre o Genocídio Arménio
terça-feira, 17 de março de 2026
As análises contundentes e realísticas de Yanis Varoufakis sobre a Guerra no Irão
Análise da Varoufakis sobre o bloqueio do estreito de Ormuz, hoje 17.03.206
Nesta entrevista concedida a Chris Hedges, o economista Yanis Varoufakis apresenta um diagnóstico sombrio sobre o impacto da guerra com o Irão, afirmando que o mundo entrou numa espiral de crise que ultrapassa a mera questão militar. O ponto central da análise é o bloqueio do Estreito de Hormuz, uma artéria vital por onde passa 20% da energia global, o que já provocou uma subida em flecha do preço do petróleo e, consequentemente, dos combustíveis e fertilizantes. Segundo Varoufakis, este aumento nos fertilizantes terá um efeito dominó catastrófico nos preços dos alimentos, ameaçando a estabilidade social a nível mundial e empurrando a economia para uma depressão.
Varoufakis argumenta que Donald Trump caiu numa armadilha estratégica montada por Benjamin Netanyahu, sublinhando que esta crise é estruturalmente diferente das tensões comerciais do passado. Se anteriormente o crescimento do setor da Inteligência Artificial conseguia camuflar certas fragilidades económicas, agora a própria IA está em risco devido ao seu consumo energético massivo. O economista prevê que o Ocidente não enfrentará uma hiperinflação, mas sim algo mais perverso: a estagflação. Neste cenário, os bancos centrais deverão subir as taxas de juro para proteger os ativos das classes dominantes, o que resultará num aumento drástico do desemprego e no esmagamento do poder de compra das classes trabalhadoras, de forma semelhante ao que aconteceu nos anos 70.
No contexto europeu, Varoufakis descreve uma União Europeia profundamente fragmentada e enfraquecida. Ele aponta o exemplo da Grécia, onde a submissão aos interesses geopolíticos dos Estados Unidos e de Israel, aliada a regimes oligárquicos locais, resultou em preços de eletricidade incomportáveis para a população. Esta "desunião" europeia, dividida entre países que pressionam por mais militarismo e outros que tentam manter alguma autonomia, retira à Europa qualquer capacidade de influenciar o desfecho do conflito.
Por fim, a entrevista aborda a deriva autoritária que acompanha estas crises económicas. Varoufakis alerta que o fascismo é a resposta histórica do capitalismo quando este perde o controlo sobre as suas próprias crises. Ele denuncia a repressão de jornalistas e a suspensão de direitos civis na Europa e nos EUA, onde vozes críticas são marginalizadas ou silenciadas por meios administrativos. O economista conclui que, perante este cenário de colapso do modelo de negócio global e de erosão democrática, a única saída reside na organização política coletiva e na resistência contra as elites que beneficiam com a economia de guerra.
Análise de Varoufakis, em 14. 03.2026
Nesta entrevista concedida a Glenn Diesen, Yanis Varoufakis apresenta uma análise incisiva sobre como o conflito com o Irão está a acelerar o colapso do modelo económico e geopolítico do Ocidente. O economista começa por destacar a natureza assimétrica desta guerra, onde o Irão, apesar da inferioridade militar convencional, utiliza o bloqueio do Estreito de Ormuz como uma arma económica devastadora. Este bloqueio expõe a fragilidade das potências ocidentais que, após décadas de políticas neoliberais e desindustrialização, perderam a sua soberania produtiva e tecnológica, tornando-se reféns de cadeias de abastecimento globais que agora se rompem.
Varoufakis critica severamente a falta de uma estratégia de saída por parte da administração de Donald Trump, sugerindo que o presidente norte-americano foi "atraído para uma armadilha" por Benjamin Netanyahu. Na sua visão, a estratégia de Israel passa por fomentar uma guerra permanente e um estado de insegurança regional que sirva de cobertura para a anexação da Cisjordânia e a continuação da limpeza étnica na Palestina. O economista aponta ainda o cinismo das justificações humanitárias, argumentando que a narrativa de "libertar as mulheres iranianas" através de bombardeamentos é um absurdo histórico, uma vez que a verdadeira libertação não pode ocorrer sobre as ruínas de um Estado falhado, como aconteceu na Líbia ou na Síria.
No campo militar, Varoufakis alerta para uma mudança radical no paradigma da guerra devido à tecnologia de drones e à Inteligência Artificial. Ele sublinha a insustentabilidade económica de utilizar mísseis de milhões de dólares para abater drones de baixo custo, o que favorece potências como a China e a Rússia, que dominam as cadeias de produção destes componentes. Além disso, expressa uma preocupação existencial com a automação do campo de batalha, onde drones autónomos podem tomar decisões de vida ou morte, empurrando a humanidade para um cenário de "tecnofeudalismo" militar onde a paz se torna um erro de sistema e a guerra o estado padrão.
Finalmente, Varoufakis aborda o dilema moral da esquerda ocidental. Embora se declare um opositor ferrenho do regime teocrático iraniano, ele recusa-se a escolher entre a teocracia e o imperialismo. Para o economista, o dever primordial dos cidadãos no Ocidente é responsabilizar e travar os seus próprios governos, que utilizam o dinheiro público para financiar crimes de guerra. Ele conclui que os grandes perdedores deste conflito são as classes trabalhadoras globais, que enfrentam agora preços de energia e alimentos incomportáveis, enquanto as elites políticas e económicas consolidam o seu poder através do caos. Ler mais: Recorde-se que o bloqueio do estreito de Ormuz foi feito em 02.03.2016
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sexta-feira, 6 de março de 2026
Europol alerta para aumento do risco de terrorismo na UE

A Europol avisou esta sexta-feira, 6 de março, que o nível de ameaça terrorista e de extremismo violento no território da UE é atualmente considerado elevado, devido à guerra no Médio Oriente, e advertiu que o risco de ciberataques também deverá aumentar.
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domingo, 13 de julho de 2025
O Império é um constante insulto à nossa inteligência
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| Fonte: Caitlin Johnstone |
Os EUA impuseram sanções à relatora especial do Conselho dos Direitos do Homem da ONU, Francesca Albanese, por ter usado a sua posição para se opor ao genocídio mais exaustivamente documentado da história.
Simultaneamente, os EUA retiraram o HTS, o franchising sírio da Al-Qaeda, da sua lista de organizações terroristas, porque o seu líder levou a cabo com êxito a mudança de regime em Damasco que o império ocidental perseguia há anos.
Ao mesmo tempo, o Reino Unido acrescentou o grupo de ativismo não violento anti-genocídio Palestine Action à sua lista de organizações terroristas proibidas por se opor ao holocausto de Gaza.
Ao mesmo tempo, o Primeiro-Ministro israelita que está a levar a cabo esse holocausto nomeou para o Prémio Nobel da Paz o Presidente americano que está a ajudar a perpetrar atrocidades genocidas. (…) O império ocidental é um insulto incessante à nossa inteligência.
Os defensores da paz são terroristas, os arquitetos do genocídio merecem prémios da paz, os jornalistas são perigosos (…)
Fazem tudo o que podem para nos tornar estúpidos através da propaganda, do controlo da informação de Silicon Valley e de sistemas de ensino doutrinários, e depois tratam-nos como se fôssemos idiotas para o resto das nossas vidas. O império depende da ignorância. Quanto mais estúpidos, racistas, ingénuos e facilmente distraídos nos tornarmos, mais agendas nefastas o império pode implementar. (…)”
The US has imposed sanctions on UN Human Rights Council Special Rapporteur Francesca Albanese for using her position to oppose the most thoroughly documented genocide in history.
At the same time, the US has removed Syria’s Al Qaeda franchise HTS from its list of designated terrorist organizations, because its leader successfully carried out the regime change in Damascus that the western empire had been chasing for years.
At the same time, the UK has added nonviolent anti-genocide activism group Palestine Action to its list of banned terrorist organizations for opposing the Gaza holocaust.
At the same time, the Israeli prime minister who is carrying out that holocaust has nominated the American president who is helping him perpetrate genocidal atrocities for a Nobel Peace Prize.
At the same time, Israel has continued its ban on foreign journalists entering Gaza, while also arresting the Israeli journalist who helped expose the IDF officials who cooked up fake atrocity propaganda about burnt babies on October 7.
At the same time, the Trump administration has enraged its MAGA base by concluding that Jeffrey Epstein had no client list for any kind of sexual blackmail operation and definitely committed suicide.
The western empire is one nonstop insult to our intelligence. The peace advocates are terrorists, the genocide architects deserve peace prizes, the journalists are dangerous, and Epstein was just a wealthy socialite who made a few mistakes.
They do everything they can to make us stupid via propaganda, Silicon Valley information control, and indoctrination schooling systems, and then they treat us like we’re morons for the rest of our lives.
The empire depends on ignorance. The more stupid, racist, gullible, and easily distracted we become, the nastier agendas the empire can roll out. Now here we are watching a live-streamed genocide unfold right in front of our eyes for nearly two years while being tube fed a daily diet of the most ridiculous lies imaginable.
As Aaron Bushnell said, this is what our ruling class has decided will be normal.
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sexta-feira, 20 de junho de 2025
Dia Mundial do Refugiado - Ahmad Joudeh Dance
Ahmad Joudeh é um bailarino e coreógrafo holandês. Ele nasceu e foi criado como refugiado apátrida na Síria. Mudou-se para a Holanda com a ajuda da Companhia Nacional Holandesa de Ballet em 2016. Atualmente atua internacionalmente como artista. Em 2021, obteve a cidadania holandesa.
É importante celebrarmos o Dia Mundial do Refugiado porque as pessoas precisam de perceber o que os outros estão a passar e parar de tratar mal as pessoas consideradas refugiadas. Guerras, conflitos e outras dificuldades podem destruir a realidade de uma criança nos dias de hoje. Podemos ajudá-las a salvar o seu futuro.
Gostava que não ouvíssemos a palavra "refugiado" o tempo todo. A rotulagem tem um impacto enorme. Eu cresci a ser chamado de "refugiado" o tempo todo. O que é um "refugiado"? Como pode uma criança pequena compreender o conceito de "refugiado"?
As crianças não compreendem o que está a acontecer se elas e as suas famílias precisam de fugir e estão em constante movimento. E não conseguem perceber se vivem noutro país e continuam a ser chamadas de "refugiadas". Até quando uma pessoa pode ser considerada "refugiada"?
É a complexidade da pertença. As pessoas apoiam-se em rótulos para criar uma divisão, para fazer com que os outros pareçam inferiores e excluí-los sistematicamente.
Como podemos ser tão cruéis e deixar uma criança crescer sentindo que nunca pertence a lado nenhum? Que nunca se sentirá em casa e que não se poderá sentir segura.
Uma mudança não pode começar com ações de sistemas ou governos, mas precisa de começar na mente das pessoas.
As pessoas devem começar a reparar na forma como se olham e se tratam. Para isso, cada pessoa precisa de começar por si própria.
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Dia Mundial dos Refugiados - cortes brutais na ajuda humanitária estão a sufocar a assistência
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| UN High Commissioner for Refugees Filippo Grandi greets women and children returning to Syria from Lebanon on a bus at the Jdeidat-Yabous border crossing. |
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terça-feira, 27 de maio de 2025
A migração espectacular de um falcão fêmea
Um falcão fêmea equipada com um rastreador GPS, fez uma jornada da África do Sul até a Finlândia, percorrendo cerca de 230 km por dia.
Ela voou em linha reta pelas terras africanas até chegar ao deserto no norte, depois seguiu o caminho do Rio Nilo pelo Sudão e Egito e evitou sobrevoar o Mar Mediterrâneo.
Ela cruzou a Síria e o Líbano e também evitou sobrevoar o Mar Negro, pois se tivesse sede, não poderia beber dele.
Ela continuou em linha reta e chegou à Finlândia depois de 42 dias.
Sobre o ataque à facada por uma mulher alemã
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| Syrian Citizen Muhammad Al Muhammad |
Na semana passada, uma mulher alemã com problemas psiquiátricos graves desatou à facada na estação de caminho de ferro de Hamburgo, ferindo dezoito pessoas. A boa notícia: já nenhum dos feridos se encontra em risco de vida.
Muhammad Al Muhammad também estava nesse cais. Quando viu todas as pessoas a correr numa direcção, o refugiado sírio, de 19 anos, decidiu correr na direcção oposta, para travar a mulher. Quando chegou, viu que outro homem já estava a oferecer-lhe resistência. Era um tchetcheno.
Juntos, conseguiram dominar a mulher.
Já não é a primeira vez que acontece algo deste género. Há alguns anos, refugiados sírios deram-se conta de que havia entre eles um a preparar um ataque na Alemanha. Foram a casa dele, dominaram-no, e entregaram-no à polícia, bem atado e tudo.
O que mais me impressiona no caso de Muhammad Al Muhammad é ele ter fugido da Síria com 16 anos para salvar a vida, e escolheu pô-la em perigo para salvar os outros.
Mas claro que nada disto tem algum valor para pessoas que decidiram adoptar o ódio e o preconceito como estratégia de afirmação e valorização pessoal. E os partidos oportunistas escolhem dizer-lhes o que elas querem ouvir. Por muito mentira que seja.
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domingo, 11 de maio de 2025
O paradoxo militar e autoritário de Israel
sábado, 19 de abril de 2025
Coelho da Páscoa: porquê um coelho?
Uma das versões que tem sido disseminada ao longo dos séculos, é a de que Maria Madalena teria ido antes do amanhecer de domingo ao sepulcro de Jesus de Nazaré levando consigo material para ungir o corpo. Ao chegar ao local, teria visto a sepultura entreaberta. Um coelho, que teria ficado preso no túmulo aberto na rocha, seria o primeiro ser vivo a testemunhar a ressurreição de Jesus. Por essa razão, ganhou o privilégio de ser associado à data. Na imagem, um vaso esculpido com grande habilidade há cerca de 8.000 anos perto do rio Eufrates, actual Síria. Boa Páscoa!
A peça encontra-se no Museum of Fine Arts Boston, EUA.
sexta-feira, 31 de janeiro de 2025
Relembrando a odisseia de Freya Stark
Remembering the explorer/writer/photographer, Freya Stark, today on her birthday
Born in Paris, the British/Italian woman was gifted as a little girl, the book “A Thousand and One Nights”, which inspired her later travels. She served as a VAD (“Voluntary Aid Detachment”, i.e, a volunteer civilian nurse), in Italy during WWI, and learned a bevy of languages, including Arabic, Persian, Italian, English and others.
In 1927, Stark embarked on her first trip to the Near East, carrying only a fur coat, a revolver, and a little money. In the late 1920s/30s, she traveled throughout Syria, Lebanon, Iraq, Yemen, Kuwait, Iran and beyond. Occasionally, she ran into the politically charged reality of an area that, at the time, was under the colonial rule of France, Britain, et al. Writing about dealing with authorities, Stark wrote, “The great and almost only comfort about being a woman, is that one can always pretend to be more stupid than one is, and no one is surprised.”
Stark preferred to travel into dangerous and contested areas - she once inserted herself into a harem while in Iraq, providing a unique insight into a hidden world. She wrote about Bedouin peasants and tribal leaders, and was comfortable speaking with both.
Stark’s travels differed from those of her fellow female explorers, Gertrude Bell some years earlier, and her contemporary Aloha Wanderwell: Bell was an upper-class English aristocratic woman who stayed in fine hotels, and held parochial views towards indigenous peoples at times; Wanderwell traveled with a huge well-funded expedition. Stark, however, traveled alone, living and interacting with local peoples, speaking their language.
Stark’s work and viewpoints on the Near East would be controversial today. During WWII, she was essentially used as a propagandist for the British side.
Her last trip was to Afghanistan in 1968 when she was 75 years old, to see the 12th century brick-built Minaret of Jam, located in the inaccessible Hindu Kush region towards the northwest of the country.
Stark left approx 6,000 photographs, 50,000 negatives, and dozens of writings, of which her most well known is 1934’s “The Valley of the Assassins and Other Persian Travels”.
Freya Stark died in Italy in 1993 at the age of 100.
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domingo, 5 de janeiro de 2025
Quando Encontrares Um Homem
«Quando encontrares um homem
Que transforme
Cada partícula tua
Em poesia,
Que faça de cada um dos teus cabelos
Quando encontrares um homem
Capaz,
Como eu,
De te lavar e adornar
Com poesia,
Hei-de implorar-te
Que o sigas sem hesitação
Pois o que importa
Não é que sejas minha ou dele
Mas sim da poesia.»
terça-feira, 16 de abril de 2024
José Goulão – o sionismo explicado pelos sionistas. Como pensa e age a “raça pura”
Os árabes e muçulmanos… Sempre os árabes e muçulmanos culpados por tudo de mau que acontece aos judeus, a começar por quererem manter-se numa terra que não lhes pertence, uma vez que, voltando a citar o ex-primeiro-ministro israelita Naftali Bennet em 2022, «ainda vocês trepavam às árvores já nós tínhamos um Estado». Esta é uma das essências do sionismo e do seu racismo fundamentalista. Não é que existam formas benignas de racismo mas, tal como o regime de apartheid – cujo ideólogo, Cecil Rhodes, foi tão enaltecido pelo fundador do sionismo –, a teoria e prática em que assentam o Estado de Israel são um caso extremo e psicopata de racismo cultivado num ambiente doentio em que se cruzam aberrações teológicas, a crueldade mística e sádica emanando do Antigo Testamento, os mitos do «povo escolhido» e da «terra prometida» encarados como preceitos divinos a respeitar acima de quaisquer leis terrenas e das decisões tomadas pelos humanos não-judeus, que afinal existem «apenas para nos servir».
À resultante desta mistela de elucubrações tonificadas por uma ficção delirante na qual o ser humano que não seja «judeu» é a menor das preocupações do deus do sionismo, chama o Ocidente colectivo «a única democracia do Médio Oriente».
A função de Israel como um «polo da civilização no meio da barbárie», ou seja, o argumento que está na base do papel colonial e imperial geostratégico que o regime de Telavive continua a desempenhar, com a crueldade inerente, vem dos primórdios do sionismo; isto é, a componente mística e a nova cruzada na Palestina tiveram também no bojo os interesses económicos, financeiros e o controlo de rotas comerciais e matérias-primas dos poderes mundiais dominantes, na altura o Império Britânico. Não é por acaso que este assumiu o mandato internacional da Palestina, preparando o terreno para que o papel de colonizador transitasse para o sionismo.
Theodor Herzl especificou, no seu trabalho fundador, que um Estado judaico construído pelo sionismo será «um muro de defesa da Europa na Ásia, um posto avançado da civilização contra a barbárie (…) pelo que a Europa deverá garantir a nossa segurança». Herzl tinha, por certo, veia de «profeta», embora sem o mérito dos de antanho porque o desfecho era previsível perante um quadro de relação de forças tão definido como o da época, tal como o actual – embora este seja bem mais periclitante. Aliás, Joseph Biden parece ter herdado uma costela de Herzl: nos anos oitenta, quando ainda não era guiado pelos auriculares e pelo teleponto, dizia que «o Estado de Israel se não existisse teria de ser inventado».
Não é por acaso que o actual presidente dos Estados Unidos se define como «um cristão sionista». O sionismo assegura os interesses terrenos dominantes; a religião, que afinal pode não ser apenas a judaica, garante a mistificação da História e das realidades próprias do colonialismo, quando não do fascismo, independentemente das épocas. Um singelo exemplo doméstico: D.ª Lucinda Ribeiro Alves, uma fundadora do Chega, diz-se uma «evangélica cristã sionista», além de seguidora de Bolsonaro.
O sionismo é uma doutrina doentia, aberrante, oportunista e violenta que não pode, nem deve, ser confundida com o judaísmo e a cultura hebraica, muito menos com os povos semitas. O sionismo, seguindo a teoria e a prática dos seus mentores, é uma ideologia antissemita. David Ben Gurion, considerado o fundador do Estado de Israel, que se considerava laico e trabalhista, não deixou dúvidas quanto a isso ao afirmar que «as considerações sionistas prevalecem sobre os sentimentos judaicos e quando o digo não faço mais do que ter em conta os preceitos sionistas».
Os conceitos de «raça pura» e «povo escolhido» elevam, porém, o Estado de Israel para um patamar transcendente; são conceitos assustadores a todos os níveis e sob quaisquer perspectivas porque sustentam uma entidade supostamente dotada de imunidade, impunidade e de uma missão escatológica associada ao fim do mundo, o Armagedão, a luta final entre o bem e o mal biblicamente programada para o lugar de Meggido, por sinal no interior do território israelita. Não se creia que estamos apenas perante delírios místicos. Ariel Sharon, criminoso de guerra com o sangue dos mártires de Sabra e Chatila nas mãos e ex-primeiro ministro de Israel, garantiu numa entrevista ao jornal britânico Guardian que, em caso de confrontação limite no planeta, «temos capacidade para destruir o mundo e garanto que isso acontecerá antes de Israel se afundar».
Sharon nunca foi conhecido por ter muita garganta e ser um fanfarrão.
«Um projecto nacionalista, mais nada»
Sionismo e racismo são indissociáveis. Assentam na ficção mística e têm como objectivo terreno a expansão do poder judaico de origem europeia, dotado de um estatuto civilizacional e humanista de que o Ocidente colectivo se declarou proprietário, através de vastas zonas de influências económicas, estratégicas e, sobretudo, militares do Médio Oriente.
Pode dizer-se que o Estado de Israel é um pequeno território. Pode até acrescentar-se um desabafo da antiga primeira-ministra sionista Golda Meir: «A única coisa que tenho contra Moisés é ele ter andado 40 anos no deserto para nos conduzir ao único lugar no Médio Oriente que não tem petróleo. Se Moisés tivesse virado à direita em vez de ter virado à esquerda teríamos petróleo e os árabes areia».
O errado palpite geográfico de Moisés, no entanto, é uma coisa que se corrige. Segundo a mesma Golda Meir, «a fronteira de Israel é onde os judeus vivem, não onde existe uma linha no mapa».
Considerações afins já tinham sido proferidas por Ben Gurion vinte a trinta anos antes ao enunciar o dogma de que «a pedra de toque do sionismo é a verdadeira colonização conduzida por judeus em todas as regiões da Terra de Israel», um conceito que então ainda deixou em aberto. Posteriormente o primeiro primeiro-ministro de Israel avançou na especificação dessa ideia, embora sem desvendar ainda totalmente o jogo, ao declarar que «o Estado será apenas uma etapa na realização do sionismo e a sua tarefa é preparar a expansão; o Estado deverá preservar a ordem não apenas pregando a moralidade mas também com metralhadoras, se necessário».
Dito e feito. No «protocolo de governo» quando se tornou primeiro-ministro, em 1948, Ben Gurion estabeleceu que «devemos partir para a ofensiva com o objectivo de esmagar o Líbano, a Transjordânia (actualmente Jordânia) e a Síria». Citado pelo Times of Israel, o lendário dirigente sionista e israelita desvendou a sua estratégia militar: «quando bombardearmos Amã eliminaremos também a Cisjordânia e então a Síria cairá; sem qualquer esforço militar especial que ponha em perigo as outras frentes, apenas usando as tropas já designadas para essa tarefa, poderemos limpar a Galileia», no norte do território actual de Israel até à fronteira com o Líbano, o que implicou a expulsão de pelo menos 100 mil palestinianos. Ben Gurion «limpou» a Galileia, é certo, mas outras alíneas do programa continuam por cumprir – percebendo-se, no entanto, que não foram retiradas do pacote de ambições sionistas.
Num conselho ao então jovem oficial Ariel Sharon, dado no seguimento do massacre na aldeia de Qibya em 1953 – chacina de 70 pessoas, dois terços das quais eram mulheres e crianças, não faltaram mestres aos genocidas de agora em Gaza – Ben Gurion disse que «a única coisa que interessa é podermos existir aqui na terra dos nossos antepassados; e que mostremos aos árabes que há um alto preço a pagar pelo assassínio de judeus». «Existir» nesta terra, de acordo com o pensamento do primeiro chefe de um governo israelita, significa «que devemos aceitar as fronteiras de hoje, mas os limites das aspirações sionistas são uma questão do povo judaico e nenhum factor externo será capaz de limitá-lo». Palavras que são todo um inequívoco programa político-militar genocida, ignorando deliberadamente o direito internacional.
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terça-feira, 20 de fevereiro de 2024
I Can't Focus On Anything Since This Genocide Began por Yanis Varoufakis e Raoul Martinez
A 6-part documentary series on democracy, capitalism and the future of humanity
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quinta-feira, 18 de janeiro de 2024
Juntos somos um Só(nho)
Tenho amigos casados com japonesas, outros com vietnamitas, muitos casados com pessoas dos países da CPLP. Os meus vizinhos são uma família de brasileiros. Tive na minha carreira docente turmas multiculturais. Dei-me bem. Ucranianos, russos, sírios, judeus, afrodescendentes, japoneses, chineses, alemães, belgas, franceses e brasileiros. Era uma festa!
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quarta-feira, 27 de dezembro de 2023
Documentário: 1948 - Creation and Catastrophe
Directed by: Andy Trimlett & Ahlam Muhtaseb
Released: 2018 (educational)
Year of Production: 2017
Running Time: 85 min.
Language: English, Arabic and Hebrew with English Subtitles
Includes English Closed Captioning
Subtitle Options: Arabic, English, French, Hebrew & Spanish
Subjects: Middle Eastern Studies, Multicultural Studies, Religion and Spirituality Studies, Sociology, Immigration and Refugees,
"1948 makes the Nakba uncannily real for the doubting spectator" - Arab Studies Quarterly
Through riveting and moving personal recollections of both Palestinians and Israelis, 1948: Creation & Catastrophe reveals the shocking events of the most pivotal year in the most controversial conflict in the world. It tells the story of the establishment of Israel as seen through the eyes of the people who lived it. It is simply not possible to make sense of what is happening in the Israeli-Palestinian conflict today without an understanding of 1948. This documentary was the last chance for many of its Israeli and Palestinian characters to narrate their first-hand accounts of the creation of a state and the expulsion of a nation.
An estimated 700,000 Palestinians fled or were expelled and hundreds of towns and villages were depopulated and destroyed in Israel. Because of this, on May 15, Nakba Day or "Day of the Catastrophe" is commemorated, the day after the Israeli Independence Day. For Palestinians, this is a day of commemoration of the displacement during the Israeli Declaration of Independence in 1948.
1948 is a powerful record of this important time. The film crew conducted over 90 interviews, poured over 20,000 pages of history, collected more than 2,000 photographs from three dozen sources, combed through hours of archival film and gathered dozens of documents from Israeli military archives.
1948 Features:
First-hand accounts of 1948 from Israelis and Palestinians
Renowned historians Charles D. Smith, Rashid Khalidi, Benny Morris, Avi Shlaim, Ilan Pappe, Nur Masalha and Sharif Kanaaneh.
Military orders and intelligence documents
Over 200 archival photographs and film clips
Awards
Winner - Rebuilding Alliance's "Storytellers: Media & Education" Award
Screenings and Events:
The Middle East Studies Association Film Festival, DC
Palestine Solidarity Week, Memphis, TN
The American University in Cairo, Egypt
Reel Palestine Festival, Dubai, UAE
AMP Conference, Chicago, IL
University of Oxford, UK
Georgetown University, DC
Boston Palestine Film Festival, Cambridge, MA
San Diego Arab Film Festival, San Diego, CA
University of Maryland
University of Illinois, Champaign-Urbana, IL
UC Berkeley, CA
San Francisco State University, CA
San Diego State University, CA
Carnegie Library East Liberty, Pittsburgh, PA
Jewish Voice for Peace, New York at CUNY
Kuwait Engineering Association, Kuwait
California State University - San Bernardino, CA
Eastern Michigan University, Ypsilanti, MI
Islamic Association of Greater Hartford, CT
North Carolina State University, Raleigh, NC
California State University, Fresno, CA
Academic and Expert Reviews:
"Despite these issues, 1948 makes its undeniable intervention into the contemporary media scape as an asymmetrical balancing of Zionism’s unbalanced symmetry between Palestinian and Jewish suffering, and on this basis the film represents a landmark in the cinematic treatment of the topic." - Arab Studies Quarterly
"Arguably, the most important contribution that 1948 provides are the interviews with the survivors and witnesses which, due to the ages of the participants, could be the last chance to record their stories; the value of these oral testimonies cannot be understated... 1948: Creation and Catastrophe presents the duality of the elation surrounding the creation of the state of Israel and the catastrophe of the loss of life and homeland that resulted from the displacement of the Arab Palestinians." - History in the Making, California State University San Bernardino Journal of History
"[1948] is terrific! Heart-wrenching... a very important film that illuminates many things that most people (including me) did not know but need to know." - Lawrence R. Frey, PhD, Dept. of Communication, University of Colorado Boulder
“The access you had to Israeli 'old' soldiers interviews gave a great new angle to the story, the very clear and professional graphics, the wise use of archive and sound effects and the straight forward clear narration, made the storytelling of the 1948 story both informative and dramatic… a combination of a great team work and great work.” - Rawan Damen
"[1948] is the best film I've ever seen on Palestine. I think it's truly excellent, has an amazing collection of archival photos and film clips, and interviews quite a number of Palestinians who remember 1948 and Israelis who participated in the war/ethnic cleansing. It's a real masterpiece." - Kathleen Christison, Author and Political Analyst on Israeli-Palestinian Conflict
"Straightforward in style but dense with information, Andy Trimlett and Ahlam Muhtaseb's documentary on the partition of Palestine and the subsequent Arab-Israeli War incorporates often harrowing firsthand testimony from both sides. Essentially, however, this is the story from the Palestinian perspective – which in itself is worth the attention of anyone who wants to understand the world today." - The Sydney Morning Herald
"1948 is exactly the kind of film many people would do well to watch. Informative and timely (the release of the film marks 70 years after the creation of the Israeli state), especially when seen in light of the ongoing claims of anti-Semitism rife within the labour party, or recent protests outside the University Union by University of Leeds Palestinian Solidarity Group. An understanding of the conflict is essential and 1948: Creation and Catastrophe provides an insightful and emotional coverage of its very beginnings." - Don Pickworth, The Gryphon (University of Leeds)
"In 1948: Creation & Catastrophe, Andy Trimlett and Ahlam Muhtaseb offer first-person accounts of survivors, along with commentary from perpetrators of the Nakba... The expertise of the interviewed historians and analysts from both sides of the divide in the documentary is impressive." - Hatim Kanaaneh, Middle East Eye
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Andy Trimlett, Director/Executive Producer

Andy Trimlett has a Master’s degree in Middle East Studies from the University of Washington and a Bachelor’s degree in International Security and Conflict Resolution from San Diego State University. He has a decade of experience in public television, having served as senior producer, associate producer, editor and camera operator on a wide range of productions. He has worked on PBS programs in the United States, Hungary and Austria, winning a regional Emmy for a 30-minute documentary he co-produced about property tax law in California.
Ahlam Muhtaseb, Co-Director/Executive Producer

Ahlam Muhtaseb is a professor of media studies at California State University, San Bernardino. Her research interests include digital communication, social media, and diasporic communities. She has published her scholarship on digital communication and other communication sub-topics, and has presented her scholarship to national and international conventions and scholarly meetings. Her most recent project is the documentary 1948: Creation & Catastrophe, a film on the year 1948 and its catastrophic consequences which has originated from her field work in the Palestinian refugee camps in the Lebanon, Syria, and Palestine. In addition, most of her recent research focuses on digital media and social movements online (cyber activism), and Arab and Muslim images in the media.
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quarta-feira, 13 de dezembro de 2023
O Genocídio Arménio
O Genocídio Arménio, ocorrido essencialmente entre 1915 e 1917, representa um dos capítulos mais sombrios da história do século XX e permanece, ainda hoje, um tema de intensa sensibilidade diplomática. Para compreender a magnitude deste evento, é necessário recuar à identidade deste povo: os arménios são considerados um povo milenar porque a sua presença no Planalto Arménio remonta a mais de 3.000 anos. Foram a primeira nação do mundo a adotar o Cristianismo como religião oficial, em 301 d.C., desenvolvendo uma língua e um alfabeto únicos que serviram de baluarte cultural contra as sucessivas invasões e domínios de impérios vizinhos.
Causas e Contexto Histórico
A génese do conflito reside na decadência do Império Otomano no final do século XIX. Os arménios, uma minoria cristã sob domínio otomano muçulmano, começaram a exigir reformas civis e maior autonomia, inspirados pelos ideais liberais europeus. Em resposta, o regime do Sultão Abdul Hamid II levou a cabo massacres preliminares na década de 1890. No entanto, a situação deteriorou-se drasticamente com a subida ao poder dos Jovens Turcos em 1908. Inicialmente prometendo igualdade, o movimento radicalizou-se para um nacionalismo pan-túrquico, que via os arménios como um "corpo estranho" e um obstáculo à homogeneidade do império, especialmente com o eclodir da Primeira Guerra Mundial, onde foram injustamente acusados de conspirar com a Rússia czarista.
O Processo de Extermínio
O genocídio teve o seu marco inicial a 24 de abril de 1915, com a detenção e execução de centenas de intelectuais e líderes comunitários arménios em Constantinopla. Seguiu-se a "Lei de Deportação", que autorizou a remoção forçada da população civil. O método principal não foram apenas as execuções diretas, mas as marchas da morte em direção ao deserto de Deir ez-Zor, na atual Síria. Homens em idade militar foram maioritariamente fuzilados ou submetidos a trabalhos forçados até à exaustão, enquanto mulheres, crianças e idosos foram forçados a caminhar centenas de quilómetros sem água ou comida, expostos a ataques de milícias e às intempéries.
Relatos de Violações e Atrocidades
Os relatos da época, documentados por missionários, diplomatas estrangeiros (como o embaixador americano Henry Morgenthau) e sobreviventes, descrevem um cenário de horror sistemático. As violações de direitos humanos incluíam:
- Violência sexual: o uso da violação sistemática e da escravatura sexual contra mulheres e raparigas arménias como arma de humilhação e destruição biológica.
- Confisco de bens: a pilhagem total de propriedades e a destruição de igrejas e monumentos para apagar o rasto cultural da presença arménia.
- Experiências e tortura: Relatos de afogamentos em massa no Mar Negro e o uso de comboios de gado para transportar deportados em condições desumanas.
Número de Mortes e Consequências
Embora os números sejam objeto de debate político, a maioria dos historiadores independentes estima que entre 1 milhão e 1,5 milhões de arménios tenham perecido. As consequências foram devastadoras: a quase total aniquilação da presença arménia na Anatólia Oriental e a criação de uma vasta diáspora espalhada pela Europa, Américas e Médio Oriente.
Atualmente, o legado do genocídio é marcado pela luta pelo reconhecimento internacional. Enquanto muitos países (incluindo Portugal, que o reconheceu formalmente em 2019) e organizações internacionais classificam os eventos como genocídio — seguindo a definição jurídica de Raphael Lemkin, que se baseou precisamente no caso arménio para cunhar o termo — a Turquia, sucessora do Império Otomano, reconhece as mortes mas nega que tenha havido um plano sistemático de extermínio, atribuindo as perdas ao contexto caótico da guerra e a revoltas internas.
domingo, 26 de novembro de 2023
Monge eremita Santo Antão, o Anacoreta, o Pai de Todos os Monges
Conversa ficcionada com um erudito, sobre temas ligados ao cristianismo, que só muito tarde aprendi e que sei que a maioria dos leitores terá interesse em conhecer.
- Comecemos, então, por dizer que as palavras sinónimas mosteiro e monastério radicam nos elementos gregos monós, que quer dizer sozinho, e terion, que alude ao lugar para fazer algo. Devo dizer que, originalmente, todos os monges cristãos eram eremitas, ou seja, homens que, usualmente por penitência, religiosidade, misantropia ou simples amor à natureza, viviam sozinhos, em um lugar isolado, longe do mundo, designado eremitério. Sabeis que houve um eremita que ficou na história do monaquismo cristão?
- Não sei. A minha ignorância é muita. Mas sei que a palavra eremita radica no grego erémos, que significa deserto, desabitado, étimo que serviu de raiz ao termo latino eremita, com o significado de "morador do deserto", e à nossa palavra ermo, que quer dizer, deserto, no sentido de desabitado.
- Foi Santo Antão, o Anacoreta, o Pai de Todos os Monges. Muito jovem abraçou o Evangelho como único caminho para a salvação, desfez-se de todos os seus bens, que distribuiu pelos pobres, partindo, depois, para o deserto, onde iniciou uma inspiradora vida monacal.
- Só sei que fui baptizado na igreja que lhe foi dedicada, em Évora.
- Também ficou conhecido por Santo Antão do Egipto, Santo Antão, o Grande e Santo Antão, o Eremita. Natural do Egipto, viveu entre os séculos III e IV, com grande destaque entre os chamados Padres do Deserto, de que foi fundador, sendo lembrado pelo seu papel no desenvolvimento da vida monástica. A vida de Santo Antão e as suas tentações inspiraram numerosos artistas, como Bosch, Brueghel, Velázquez, Flaubert, Zurbarán e Dali.
Falai-me, se puderdes, das Tentações de Santo Antão.
- Sei que mostram um mundo angustiante, entregue ao pecado, dominado por monstros e forças demoníacas, face aos quais, a única esperança e salvação estavam em Cristo. A lição que delas tiramos é que, só pela força da renúncia e fortemente apoiados na Fé nos podemos libertar-se dos demónios que nos atormentam.
- E os Padres do Deserto?
- Foram monges eremitas que viveram e exerceram a sua acção evangelizadora, sobretudo, no deserto da Nítria, a Oeste do delta do Nilo, entre Alexandria e o Cairo. Deste grande santo dizia-se que, por sua acção, “o deserto se tinha tornado uma cidade”.
- Bonita imagem!
- Os Padres do Deserto tiveram uma enorme influência nos primeiros tempos do cristianismo, que podemos dizer primitivo. Quer o monaquismo oriental, representado no Monte Athos, na Grécia, quer o ocidental, definido na Regra de São Bento de Núrsia, escrita na abadia de Monte Cassino, em Itália, quer, em geral, todo o monaquismo medieval, revelam acentuada inspiração nas práticas iniciadas no deserto. Crenças religiosas recentes como o metodismo saído da Igreja anglicana inglesa, o evangelismo alemão e o pietismo do estado norte-americano da Pensilvânia, nascido na Igreja Luterana alemã, têm algumas das suas raízes nos Padres do Deserto. Também a Igreja Ortodoxa tem, nestes padres, as suas raízes.
- Depois deste interessante desvio, continuemos a conversa sobre mosteiros, conventos e abadias.
- Se nos reportarmos aos mosteiros cristãos ocidentais, podemos chamar-lhes conventos cartuxos, conventos de frades, abadias e priorados. Volto a dizer que um mosteiro é uma instituição edificada que alberga uma comunidade de monges ou de monjas, levando uma vida de oração e trabalho, em completo afastamento da sociedade.
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quarta-feira, 22 de novembro de 2023
Leila Ghanem - O 7 de Outubro foi uma derrota para o Ocidente imperialista
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| Fonte: Coordenação dos Núcleos Comunistas |
Nesta entrevista com a antropóloga e dirigente comunista libanesa Leila Ghanem há muita informação esclarecedora. Sobre o significado da operação de 7 de Outubro. Sobre o Hamas e sobre o Eixo da Resistência. Sobre as atrocidades anteriores e actuais cometidas pelo Estado sionista, no desempenho da missão que lhe foi atribuída pelo imperialismo ocidental: a de ser a cabeça de ponte para controlar rotas marítimas estratégicas, recursos vitais como o petróleo, o gás e o urânio, e de ser a chave para consolidar o seu domínio sobre esta área de enorme importância. À custa do martírio do povo palestiniano e dos povos da região.
1. Porque é que a operação militar do Hamas de 7 de Outubro abalou o Médio Oriente e até o mundo? Qual é o impacto histórico deste acontecimento nos movimentos de resistência do Médio Oriente?
Não há dúvida de que para o povo palestiniano, e mesmo para o povo árabe, o “dilúvio de Al-Aqsa” de 7 de Outubro foi uma operação militar de proporções míticas; em qualquer caso, sem precedentes desde a ocupação da Palestina em 1948, uma espécie de epopeia lendária aos olhos dos povos árabes. Alguns escritores remontam a Homero para evocar a imagem da Ilíada, uma lenda heroica “em que os fracos conseguem derrotar o seu colonizador numa inimaginável relação de forças”. Em apenas duas horas a maior potência do Médio Oriente, o quinto maior exército do mundo, sofreu uma derrota esmagadora às mãos de uma modesta unidade de comandos apelidada de “Distância Zero” (para sublinhar o confronto do corpo contra o tanque), composta por uma centena de homens modestamente armados mas dotados de uma coragem heroica. Vinte colonatos libertadas, bases militares ocupadas - uma das quais abrigava o quartel-general do Tsahal no sul -, um observatório militar de alta tecnologia encarregado de vigiar a fronteira, a unidade de investigação 545 e a unidade de informações 414 foram neutralizadas e dois generais capturados. A lenda sionista-ocidental da invencibilidade do Estado sionista foi destruída. Numa questão de horas, Gaza transformou-se em Hanói. E recordamos a célebre frase do general Giap durante a sua visita a Argel, em Dezembro de 1970: “Os colonialistas são maus alunos de História”.
Para o escritor e activista palestiniano Saif Dana, o exemplo que mais se aproxima desta vitória militar, apesar do desequilíbrio na relação de forças entre colonizados e colonizadores, é a “Revolução Haitiana”, que foi e continua a ser um símbolo importante para as pessoas de cor de todo o mundo. Armados de coragem e da “vontade de emancipação”, os haitianos, liderados por Dessalines, lançaram-se numa batalha decisiva contra os colonos franceses, que tinham acabado de receber reforços sob o comando do general Rochambeau. Esta batalha parecia estrategicamente impossível, mas após quatro ataques heroicos dirigidos pelo líder negro Cabuat, os franceses foram finalmente forçados a capitular em 18 de Novembro de 1803, no Forte Vertières, embora os haitianos tenham sofrido uma perda considerável de vidas. As guarnições francesas renderam-se uma a uma, o que permitiu à antiga colónia proclamar a sua independência em 1 de Janeiro de 1804. A partir de então, passou a chamar-se Haiti. Esta lendária batalha ficou registada nos anais da história. Mais tarde, inspirou revoltas de escravos noutros locais, como a rebelião de Aponte em Cuba, em 1812, ou a conspiração de Denmark Vesey na Carolina do Sul, em 1822. Esta vitória teve também uma influência decisiva em Simón Bolívar e outros líderes de movimentos independentistas na América Latina, embora se tivesse de esperar até 1834 para abolir a escravatura.
O que aconteceu a 7 de Outubro na Palestina é tão lendário como a batalha do Haiti e ficará para sempre nos anais da história, tal como as batalhas de Hittin, El Kadissiya, etc., no tempo de Saladino.
Imaginem o terramoto que abalou todo o sistema do Império Ocidental perante a súbita derrota da sua mão direita, na qual tinha investido milhares de milhões de dólares durante quase um século. A mesma potência a quem o Império tinha confiado o papel de ser a cabeça de ponte imperial para controlar as rotas marítimas estratégicas, os recursos vitais como o petróleo, o gás e o urânio, e de ser a chave para consolidar o seu domínio desestabilizando os inimigos do Império, introduzindo relações de classe em benefício dos opressores…. Israel estava no centro deste sistema capitalista que tinha de manter os países do Sul dependentes dele; para isso, o povo palestiniano tinha de se converter num cenário precursor, um modelo a seguir… Para o conseguir, era necessário despossuí-lo, desumanizá-lo, mantê-lo sob bloqueio, massacrar os seus líderes históricos… Isto exigia um estatuto específico para os seus fantoches e protecção política, institucional, financeira e mediática…
O alarme imediato que abalou todos os dirigentes do mundo capitalista no dia 8 de Outubro, que acorreram em massa a Telavive, é a prova irrefutável do investimento do mundo ocidental neste Estado constituído à margem da lei, à margem de todos os direitos e normas humanas. Direitos e normas criados pelo próprio Ocidente.
O 7 de Outubro foi uma derrota para o Ocidente imperialista. E, a partir de agora, haverá um antes e um depois desse 7 de Outubro.
2. O Hamas é uma organização terrorista?
Comecemos por dizer que, para além dos EUA e da UE, nenhum outro país do mundo acusa o Hamas de terrorismo.
Se olharmos para a história, o termo “terrorista” nem sempre teve um carácter pejorativo. Os revolucionários usaram o “terror” contra os seus inimigos de classe. Foi durante a Revolução Francesa que o termo “terrorista” foi utilizado pela primeira vez, por Gracchus Babeuf, quando falou dos “patriotas terroristas do segundo ano da República”. Para o marxismo, o Terror não era em absoluto um fim político, mas uma ferramenta, o instrumento de uma política, e deve ser julgado em relação aos objectivos dessa política. Isto levanta duas questões diferentes: 1ª, a questão da legitimidade dos fins políticos. 2ª A adequação dos meios. Condenar o Terror como um “sistema” metafísico esconde um interesse em deslegitimar os objectivos políticos que ele se propôs.
Tomemos o exemplo da Comuna de Paris, ponto culminante da guerra civil francesa. Após a sua derrota, foram rotulados, para citar apenas Le Figaro, o órgão da reacção de Versalhes, como “terroristas do Hôtel de Ville”[da Câmara Municipal] ou “terroristas do 18 de Março” ou “a Comuna terrorista”.
O Terror foi defendido ou combatido em função dos objectivos que as diferentes classes sociais e facções políticas procuravam atingir, e que cada uma considerava legítimos.
Numa carta à sua mãe, Friedrich Engels explicava-lhe: “Dos poucos reféns que foram fuzilados à maneira prussiana, dos poucos palácios queimados à maneira prussiana, fala-se muito, porque tudo o resto é mentira; mas dos 40.000 homens, mulheres e crianças que os Versalheses massacraram com metralhadoras depois de terem sido desarmados, ninguém fala”.
Poder-se-ia pensar que esta descrição de Engels se refere aos acontecimentos em Gaza. Poder-se-ia pensar que ele está a descrever a forma como os meios de comunicação ocidentais avaliaram desproporcionadamente (e continuam a fazê-lo) o impacto do ataque do Hamas em 7 de Outubro e o genocídio que se seguiu com a retaliação sangrenta do exército Tsahal - o exército de Israel - apoiado pelas forças Delta dos EUA e pelos seus três porta-aviões no Mediterrâneo. Aqueles que falaram da Hiroshima de Gaza não estão longe do número das 70 000 vítimas que caíram no Japão em Agosto de 1945. Em Gaza, o número de civis mortos sobe para 50 000.
Os Estados imperialistas-coloniais têm denunciado habitualmente o terrorismo das lutas dos povos sob o seu domínio e tratado os seus combatentes como terroristas. Recordemos, uma vez mais, que várias organizações terroristas, colocadas no pelourinho ao longo da história, se tornaram interlocutores legítimos; foi o caso do Viet Cong, do Exército Republicano Irlandês (IRA), da Frente Argelina de Libertação Nacional, do Congresso Nacional Africano (CNA) e de muitas outras organizações que foram elas próprias qualificadas de “terroristas”, como a OLP e a FPLP na Palestina.
Este termo tinha e tem por objectivo despolitizar a sua luta, apresentá-la como um confronto entre o Bem e o Mal.
De cada vez que os palestinianos se revoltam, o Ocidente - tão rápido a glorificar a resistência dos ucranianos - invoca o terrorismo. Fê-lo durante a primeira Intifada, em 1987, e a segunda, em 2000, durante as acções armadas na Cisjordânia ou as mobilizações por Jerusalém, durante os confrontos em torno de Gaza, cercada desde 2007 e vítima de seis guerras em 17 anos.
Falta falar da questão da legitimidade de Israel para se defender e desarmar o Hamas. Alguns meios de comunicação sionistas chegam ao ponto de invocar Thomas Hobbes e a sua percepção daquilo a que chama a posse pelas classes dominantes do “monopólio da força física legítima”. Ignoram que essa legitimidade não pode ser aplicada a um Estado de colonos, legitimidade impugnada antes de mais pelos palestinianos, pelos povos dos países vizinhos atacados (libaneses, sírios, iraquianos, iemenitas, iranianos…) e por todos aqueles que o consideram um Estado de colonos. Antes da farsa do “Acordo de paz” de Oslo, a maioria dos países do mundo não reconhecia Israel. A sua legitimidade baseia-se simplesmente numa decisão da ONU, enquanto Israel tem rejeitado sistematicamente todas as decisões relativas ao povo palestiniano (resoluções 242, 323, 194, direito de regresso dos palestinianos ao seu país).
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segunda-feira, 16 de outubro de 2023
E se a crise Hamas-Israel ganhasse outra dimensão geográfica? O impacto na economia mundial poderia ser catastrófico
Com o conflito militar em curso na Ucrânia, e depois da pandemia de covid-19, desponta mais uma tragédia mundial: a guerra Hamas-Israel.
Nesta fase, como consequência do ataque inicial do Hamas e da resposta de Israel, são já milhares de vidas perdidas.
No plano económico, ainda antes do conflito Hamas-Israel, o contexto global era já de muita imprevisibilidade e apreensão. Ao contrário do que podia parecer, a economia mundial mantinha-se em suspenso e submetida a um elevado grau de instabilidade. O atual corte na produção de petróleo, estrategicamente levado a cabo pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo e seus aliados, é um importante impulsionador da inflação. Por outro lado, a suspensão do acordo do Mar Negro, que impacta muito negativamente nos mercados de cereais, também configura um problema central à escala mundial. Com os preços dos combustíveis e dos cereais sob stress permanente, o ressurgimento da inflação manter-se-á latente. As partes que dominam petróleo, gás e cereais têm o poder de regular a estabilidade global.
Com a guerra Hamas-Israel, o enquadramento económico global agrava-se ainda mais. A agência de notícias financeiras norte-americana Bloomberg coloca em equação três cenários possíveis.
No caso de conflito permanecer confinado ao território palestiniano, o impacto nos preços do petróleo e na economia mundial será “reduzido”. Recorda-se que o recente desagravamento das relações entre EUA e Irão permitiu a este último aumentar significativamente a produção diária de petróleo. No entanto, como Teerão tem apoiado declaradamente grupos islâmicos que se opõem a Israel, qualquer envolvimento iraniano no ataque do Hamas a Israel poderia desencadear um confronto bélico de escala muito superior. Neste caso, o reforço das sanções dos EUA ao petróleo do Irão poderia penalizar os mercados mundiais em cerca de 700 mil barris desta matéria-prima por dia. Se assim fosse, segundo a Bloomberg, registar-se-ia um aumento estimado de três a quatro dólares nos preços do petróleo. O PIB mundial diminuiria 0,1 pontos percentuais. O impacto na inflação seria de 0,1 p.p.
Já se o conflito alastrasse ao Líbano e à Síria, o choque económico seria bastante mais significativo. O Irão apoia alguns grupos importantes nestes dois países. Um destes grupos é a organização política e paramilitar fundamentalista islâmica Hezbollah. O Hezbollah tem um papel central no Líbano. Com Líbano e Síria geograficamente envolvidos no atual confronto, as estimativas da Bloomberg apontam para uma subida de oito dólares no preço do barril de petróleo. O PIB mundial cairia 0,3 p.p. e a inflação registaria um aumento de 0,2 pontos percentuais.
Já um cenário ainda mais grave, de confronto militar direto entre Irão e Israel, poderia originar uma recessão global. A ameaça nuclear e a proximidade política e estratégica entre Irão e Rússia são dois pressupostos alarmantes. Por outro lado, a desestabilização efetiva de todo o Médio Oriente seria um acontecimento de consequências imprevisíveis e potencialmente catastróficas. Neste caso, segundo a Bloomberg, assistir-se-ia a um aumento de sessenta e quatro dólares no preço do barril de petróleo, a uma queda de 1,0 p.p. no PIB mundial e a um acréscimo de 1,2 pontos percentuais na inflação à escala global.
Independentemente dos três cenários traçados pela Bloomberg, o confronto Hamas-Israel é mais um acontecimento mundial que impulsiona a incerteza económica e financeira. Por esta razão, a volatilidade dos mercados começou já a fazer-se sentir.
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