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terça-feira, 23 de junho de 2026

Alterações climáticas estão a causar mais extinções locais de espécies em zonas temperadas

Salamandra-europeia (Salamandra salamandra)

As alterações climáticas estão a causar mais extinções locais de espécies nas regiões temperadas do que nos trópicos, revelou um estudo da Universidade do Arizona divulgado no dia 18 de junho.

Segundo os cientistas, a principal razão é que as regiões temperadas estão a aquecer mais depressa dos que as tropicais.

Os investigadores descobriram que 49% das espécies de regiões temperadas sofreram extinção local nas áreas mais quentes em que se encontram implantadas, em comparação com 33% das espécies tropicais.

O trabalho, publicado na revista científica ‘Nature Climate Change‘, abrangeu cerca de 5.100 espécies de animais e plantas e desafia as ideias de longa data relativamente às espécies que estão mais ameaçadas, de acordo com os autores.

Entre os objetos de análise, estão centenas de espécies de borboletas e besouros, centenas de peixes e aves, mamíferos, rãs, salamandras e lagartos e quase 3.000 plantas.

A investigação, apresentada como a maior análise já realizada sobre extinções locais de espécies impulsionadas pelo clima, baseou-se em levantamentos da biodiversidade em quase 40.000 locais no mundo e permitiu comparar registos históricos com dados recolhidos mais recentemente.

“Durante décadas, os cientistas acreditaram que as espécies de climas temperados eram menos vulneráveis às alterações climáticas”, disse o autor principal do trabalho, Gopal Murali, da Universidade do Arizona, Estados Unidos, citado em comunicado. “Estamos surpreendidos com os resultados”, admitiu.

Os novos dados revelaram-se consistentes em diferentes grupos de organismos, incluindo insetos, vertebrados, plantas e espécies marinhas e de água doce.

Outro autor sénior da investigação, John Wiens, afirmou ter publicado em 2016 um estudo com 976 espécies, utilizando o mesmo tipo de dados, mas com conclusões diferentes: “Mostrou o padrão exatamente oposto, com mais extinções locais entre espécies tropicais”.

“O mundo mudou desde 2016”, disse Wiens, referindo que houve mais aquecimento na zona temperada da Terra, especialmente em latitudes mais elevadas.

“É possível que o padrão se tenha simplesmente invertido nas últimas décadas, o que ajuda a explicar a mudança nos resultados. Verificamos que as extinções em regiões temperadas superaram as das regiões tropicais”, disse.

As extinções locais observadas não significam que a espécie inteira foi extinta em todo o mundo, mas demonstram que as populações não conseguem sobreviver à transformação das condições ambientais numa determinada região.

“Perdas semelhantes ao longo da área de distribuição de uma espécie podem levar à extinção da espécie como um todo”, precisaram os cientistas.

“Normalmente, as pessoas pensam que uma espécie se move, simplesmente, para uma zona mais fria quando o clima aquece. Mas descobrimos que mais de 70% das espécies não está a fazer isso”, revelou Wiens.

“No essencial, a vida e a morte da maioria das espécies pode ser determinada por essas extinções locais e pela capacidade de as populações conseguirem, ou não, sobreviver no próprio local”, concluiu.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Dia Mundial dos Oceanos alerta para importância das áreas marinhas protegidas


O Dia Mundial dos Oceanos, que se celebra hoje, alerta para a importância de uma rede global de Áreas Marinhas Protegidas (AMP) que “restaure ecossistemas”, lembrando que “todas as nações dependem de oceanos saudáveis”.

Reconhecido pelas Nações Unidas desde 2008, o Dia Mundial dos Oceanos envolve mais de duas mil organizações em 180 países.

Este ano, a efeméride tem como tema “Áreas Marinhas Protegidas Robustas para o Nosso Planeta Azul”.

“Podemos acelerar o progresso e ajudar a criar uma rede global de Áreas Marinhas Protegidas que restaure ecossistemas, construa resiliência e inspire esperança para o futuro”, lê-se na mensagem que assinala a data.

Segundo o portal do Dia Mundial dos Oceanos, a criação de AMP “rigorosamente regulamentadas” será “essencial para transformar os compromissos globais em resultados reais de conservação” e alcançar a meta de proteção de pelo menos 30% das áreas terrestres e marinhas do planeta até 2030.

Atualmente, à escala global, menos de 17% da área terrestre e apenas 8% dos oceanos estão protegidos.

Em outubro, Portugal previa antecipar para 2026 a meta de 30% de AMP, com a criação Reserva Natural Marinha D. Carlos, que cobre 173.000 quilómetros quadrados, abrangendo uma vasta cadeia de montes submarinos e planícies abissais entre Sagres e o Arquipélago da Madeira.

“Todas as nações dependem de oceanos saudáveis [para garantir] a estabilidade climática, a biodiversidade e o bem-estar humano. A proteção dos oceanos, incluindo o alto-mar, é uma responsabilidade partilhada”, acrescenta a mensagem do Dia Mundial dos Oceanos 2026.

Em janeiro entrou em vigor o Tratado do Alto-Mar, que estabelece o enquadramento legal para a designação de AMP em águas internacionais.

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Expedição encontrou mais de 40 espécies novas no Recife do Algarve



Os primeiros resultados foram anunciados em 14 de Outubro pelos organizadores da expedição realizada no início de outubro, tendo como alvo o Parque Natural Marinho do Recife do Algarve – Pedra do Valado.

No total, foram identificadas 206 espécies marinhas, incluindo mais de 40 novos registos para esta área protegida, revela uma nota de imprensa divulgada pela Fundação Oceano Azul, pelo Oceanário de Lisboa e pelo CCMAR – Centro de Ciências do Mar, da Universidade do Algarve, ligados à organização desta iniciativa.

“Estes resultados reforçam o conhecimento científico essencial para apoiar o desenvolvimento dos instrumentos de gestão pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e para garantir a consolidação e proteção efetiva desta Área Marinha Protegida”, afirmam as três entidades.

A expedição científica aconteceu entre 2 e 7 de outubro. “Os dados continuam em análise, mas os primeiros resultados confirmam a riqueza e valor deste ecossistema”, afirma a organização. No total, foram registadas 206 espécies diferentes, incluindo 137 invertebrados, 41 peixes, 13 algas, 12 aves marinhas e três cetáceos.

Criado em janeiro de 2024, o Parque Natural Marinho do Recife do Algarve – Pedra do Valado é a primeira Área Marinha Protegida de Interesse Comunitário em Portugal Continental. “Resulta de um processo participativo pioneiro que reuniu pescadores, cientistas, autarquias e cidadãos em torno de um objetivo comum: proteger o oceano.” Em causa está uma área com 156 quilómetros quadrados – que inclui a área entre o Farol de Alfanzina, limite oeste, e a marina de Albufeira, nos municípios de Albufeira, Lagoa e Silves.

A Pedra do Valado é considerada um hotspot de biodiversidade marinha com 1059 espécies marinhas registadas, incluindo 754 invertebrados, 152 peixes vertebrados, 61 aves marinhas, 2 tartarugas marinhas, 7 espécies de cetáceos e 82 espécies de macroalgas. Naquela área marinha foram identificadas 18 espécies ameaçadas, entre as quais os cavalos-marinhos (Hippocampus spp.) e o mero (Epinephelus marginatus).

Um dos destaques da expedição foi o banco de rodólitos (algas calcárias) desta área protegida, que é “o único conhecido em Portugal continental”. “Trata-se de um habitat de elevada importância ecológica, essencial para a retenção de carbono e equilíbrio do oceano”, acrescenta a equipa, que concluiu que este “banco se mantém saudável e funcional, apesar da sua vulnerabilidade às alterações climáticas, que podem afectar a capacidade de calcificação das algas”. Mesmo após a morte dos organismos, explicam, “o carbono permanece armazenado, reforçando o papel duradouro deste habitat na mitigação das alterações climáticas.”

No entanto, os trabalhos científicos revelaram também o desaparecimento das pradarias marinhas anteriormente identificadas nesta zona, “um sinal preocupante que poderá estar associado à proliferação da alga invasora asiática Rugulopterix okamurae”.

Quanto aos jardins de gorgónias apresentaram bom estado ecológico, com o registo de novas espécies de profundidade e de corais duros pela primeira vez nesta área.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

A história da relação entre os humanos e os cetáceos (baleias, golfinhos e toninhas) em Portugal


Um estudo inovador, recentemente publicado na prestigiada revista científica PLOS ONE, lança uma nova perspectiva sobre a história da relação entre os humanos e os cetáceos (baleias, golfinhos e toninhas) em Portugal, graças ao trabalho de especialistas de diversas instituições europeias, incluindo investigadores do Centro de Arqueologia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (UNIARQ).

A investigação, liderada por Mariana Nabais do IPHES-CERCA (Tarragona, Espanha), contou com a participação da UNIARQ, que contribuiu na escavação e análise de vestígios arqueológicos, fundamentais para a identificação da cronologia das descobertas e para a interpretação do papel dos cetáceos no quotidiano das antigas sociedades portuguesas. “As nossas descobertas revelam uma ligação humana de longa data com os cetáceos, desde o aproveitamento oportunista de animais encalhados no Paleolítico até à pesca baleeira organizada em períodos posteriores”, explica a responsável. “Estas descobertas desafiam a visão simplista das sociedades interiores portuguesas antigas como exclusivamente dependentes de recursos terrestres”.

Esta investigação, para além de enriquecer a informação existente sobre a vida antiga em Portugal, oferece dados muito interessantes sobre a ecologia histórica do país, destacando os impactos duradouros da pesca baleeira nas populações marinhas, tais como a baleia-franca-do-atlântico-norte, actualmente extinta nas águas portuguesas.

A colaboração entre a UNIARQ e parceiros internacionais, como o Instituto Catalão de Paleoecologia Humana e Evolução Social (IPHES-CERCA) e a Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia (NTNU) reforça a importância da cooperação internacional na descoberta e interpretação da relação complexa entre humanos e ecossistemas marinhos ao longo do tempo.

Este trabalho sublinha o compromisso da UNIARQ em aliar métodos de investigação tradicionais a tecnologias de ponta, contribuindo para um entendimento mais profundo da história.

domingo, 2 de junho de 2024

Descobertos fósseis que podem ter sido dos maiores animais do mundo


Entre 1976 e 1990 foram descobertos restos fósseis que pertencem a três novos ictiossauros na Formação Kössen, nos Alpes Suíços. Os paleontólogos encontraram um dente que acreditam ser o maior de que há registo, com uma largura duas vezes maior do que qualquer réptil aquático conhecido. Além disso, encontraram também a maior vértebra de tronco da Europa, que pertencia a um ictossauro, e que compete com o maior fóssil de réptil marinho descoberto até hoje – um da espécie Shastasaurus sikkanniensis, com 21 metros de comprimento. O grupo acredita, por isso, que estes fósseis desenterrados na Suíça podem pertencer aos maiores animais que já viveram no Planeta.

“Talvez existam mais restos das gigantes criaturas marinhas escondidas debaixo das geleiras”, sugere Martin Sander, principal autor do estudo. “Haviam apenas três grupos de animais que tinham massas superiores a 10-20 toneladas métricas: dinossauros de pescoço longo (saurópodes); baleias; e os ictiossauros gigantes do Triássico”, explica.

Os ictiossauros surgiram na Terra há cerca de 250 milhões de anos atrás, e atingiram a sua maior diversidade no Triássico Médio, tendo ainda algumas persistido durante o período Cretáceo. O seu corpo era idêntico ao das baleias, e o focinho muito parecido ao dos golfinhos.

Os espéciemes gigantes foram encontrados principalmente na América do Norte, mas também nos Himalaias e na Nova Caledónia. Contudo, esta descoberta confirma a expansão dos mesmos, que era ainda desconhecida.

“Em Nevada, vemos o início dos verdadeiros gigantes, e nos Alpes, o fim. Apenas os golfinhos de médio a grande porte – e com formas semelhantes às orcas sobreviveram no Jurássico”, afirma Martin Sander.

sexta-feira, 24 de maio de 2024

Alterações climáticas colocam em risco a dieta das baleias


Um novo estudo conduzido pela Universidade Griffith prevê que as alterações climáticas futuras poderão perturbar a dieta rica em krill que as baleias jubarte do hemisfério sul consomem.

Jasmin Groß, que conduziu o estudo como candidata a doutoramento no Centro de Saúde Planetária e Segurança Alimentar da Griffith, analisou ácidos gordos e isótopos estáveis de amostras de gordura e pele de cinco populações diferentes de baleias jubarte do hemisfério sul.

Estes níveis foram depois comparados com os da sua presa principal, o krill do Antártico.

A equipa descobriu que, embora existissem diferenças distintas nos perfis bioquímicos, a dieta de todas as populações de baleias jubarte testadas era o krill do Antártico, que proporciona uma dieta com elevado teor de gordura, ideal para o estilo de vida migratório destas populações, afirmou Groß.

“O estilo de vida migratório das baleias jubarte requer uma produtividade previsível do ecossistema e, por isso, podemos esperar que as populações que se alimentam em áreas sujeitas aos impactos mais fortes das alterações climáticas tenham mais probabilidades de mostrar os primeiros sinais de um afastamento da sua dieta de krill de alta qualidade”, afirmou.

“Atualmente, não há provas de um afastamento de uma dieta de krill de alta qualidade, mas o sinal isotópico caraterístico que descobrimos nas baleias que se alimentam em áreas produtivas de ressurgência ou na zona marginal de gelo marinho implica que futuras reduções na extensão e duração do gelo marinho e o aumento da temperatura do oceano podem afetar sua ecologia alimentar”, acrescentou.

Biópsias de pele e gordura de baleia jubarte foram coletadas em agosto e setembro de 2019 em ou perto das respetivas áreas de reprodução no Brasil, Austrália Ocidental e Oriental, Nova Caledônia e Colômbia.

As amostras de krill foram recolhidas em zonas de alimentação a bordo de três navios diferentes entre janeiro e março de 2019.

Groß afirmou que a importância deste estudo, ao confirmar que cada população seguiu uma dieta de krill antártico de elevada fiabilidade, pode ser utilizada como conhecimento de base para avaliar a extensão dos impactos das alterações climáticas nas zonas de alimentação em estudos futuros.

O estudo “No distinct local cuisines among humpback whales: A population diet comparison in the Southern Hemisphere” foi publicado na revista Science of the Total Environment.

sexta-feira, 15 de março de 2024

O mar não está para peixe!


Auntlantis: 2Sweeping the Floor2
A typical mundane workday for the Aunties of Auntlantis.Aunties take a break on the beach after a day of cleaning the ocean.
A nap on the beach is the best way to relax.
Inspired by Plato, great pacific garbage patch and poor birdies with bellies full of plastic trash.

This is an incredible video by Nice Aunties, an ground-breaking and innovative Japanese activist group who draw attention to a wide range of issues relating to ocean conservation and the destruction of our planet with outstandingly creative communications.

Original version posted on Instagram on 9 March 2024

sexta-feira, 1 de março de 2024

Parlamento Europeu - Primeiro organismo internacional a criminalizar casos “comparáveis ao ecocídio”


Os países terão dois anos para transpor a directiva actualizada, que abrange crimes “comparáveis ​​ao ecocídio”, para a legislação nacional.

A União Europeia tornou-se o primeiro organismo internacional a criminalizar os casos mais graves de danos ambientais que sejam “comparáveis ​​ao ecocídio”.

A destruição dos ecossistemas, incluindo a perda de habitat e a exploração madeireira ilegal, será punida com penas mais duras e penas de prisão ao abrigo da directiva actualizada da UE sobre crimes ambientais.

Numa votação no Parlamento Europeu na terça-feira, os legisladores da UE apoiaram esmagadoramente a medida com 499 votos a favor, 100 contra e 23 abstenções.

Os Estados-Membros têm agora dois anos para consagrá-lo na legislação nacional.

Aqui está o que você precisa saber sobre a lei atualizada, que os especialistas chamam de revolucionária.

Crime ambiental: uma nova página na história da Europa
De acordo com Marie Toussaint, advogada francesa e eurodeputada do grupo Verdes/Aliança Livre Europeia, a UE está “adoptando uma das legislações mais ambiciosas do mundo”.

“A nova directiva abre uma nova página na história da Europa, protegendo contra aqueles que prejudicam os ecossistemas e, através deles, a saúde humana. Significa pôr fim à impunidade ambiental na Europa, o que é crucial e urgente”, afirma.

De acordo com Toussaint, as actuais legislações da UE e nacionais não dissuadem os infractores de cometer crimes ambientais , porque as infracções são demasiado limitadas e as sanções muito baixas.

“Os crimes ambientais estão a crescer duas a três vezes mais rapidamente do que a economia global e tornaram-se, em poucos anos, o quarto maior sector criminoso do mundo”, diz ela.

Os crimes ambientais ainda ocorrem na Europa. No seu relatório sobre a luta contra a criminalidade ambiental na Europa, o Gabinete Europeu do Ambiente cita numerosos exemplos de crimes ambientais que continuavam impunes porque não estavam incluídos na antiga directiva.

Estes incluem a pesca ilegal de atum rabilho , a poluição agroindustrial em áreas protegidas, bem como práticas ilegais de caça e fraude no mercado de carbono.

Crimes ambientais comparáveis ​​ao 'ecocídio'
Os proponentes de tornar o ecocídio o quinto crime internacional no Tribunal Penal Internacional argumentam que a directiva actualizada criminaliza efectivamente o ecocídio . Embora a directiva não inclua a palavra directamente, no seu preâmbulo refere-se a “casos comparáveis ​​ao ecocídio”.

O ecocídio é definido como “atos ilegais ou arbitrários cometidos com o conhecimento de que existe uma probabilidade substancial de danos graves, generalizados ou de longo prazo ao meio ambiente serem causados ​​por esses atos”.

Foi formulado em 2021 por 12 advogados de todo o mundo e apresentado pela Stop Ecocide International.

No ano passado, o Parlamento propôs incluir o ecocídio na legislação da UE.

Penas de 10 anos de prisão por prática de crimes ambientais
A captação de água , a reciclagem e a poluição de navios , a introdução e propagação de espécies exóticas invasoras e a destruição do ozono são todas identificadas como actividades ambientais na nova directiva.

Contudo , não menciona a pesca, a exportação de resíduos tóxicos para países em desenvolvimento ou a fraude no mercado do carbono .

Para indivíduos – como CEOs e membros de conselhos de administração – as consequências da prática de crimes ambientais podem ser penas de prisão até oito anos, aumentando para 10 se causarem a morte de qualquer pessoa.

O advogado Antonius Manders, eurodeputado holandês do Grupo do Partido Popular Europeu (Democratas-Cristãos), descreveu as mudanças como muito esperançosas.

“Os CEOs podem arriscar uma multa, mas não querem se envolver pessoalmente. Eles nunca querem ir para a cadeia”, diz ele.

Os indivíduos podem ser responsabilizados se estiverem conscientes das consequências das suas decisões e se tiverem o poder de as impedir, explica Manders.

“Por exemplo, a defesa de uma licença não é mais possível, pois as pessoas têm o dever de cuidar. Se novas informações mostrarem que o comportamento está causando danos irreversíveis à saúde e à natureza – você terá que parar.”

Michael Faure, professor de direito ambiental comparado e internacional na Universidade de Maastricht concorda.

“Quando implementado pelos Estados-membros, os operadores devem estar cientes de que o simples cumprimento de uma licença já não os isenta de responsabilidade criminal. E isso não é menos que uma revolução”, diz ele.

Ao abrigo da anterior directiva da UE sobre crimes ambientais e da maioria das leis dos Estados-Membros, o crime ambiental só pode ser punido quando existe ilegalidade, mas desde que uma empresa cumpra as condições de uma licença, as suas acções não serão consideradas ilegais.

“Como resultado, poderá haver casos graves de poluição ambiental, mesmo com danos concretos à saúde humana como consequência. Mas, desde que um operador cumprisse as condições de uma licença, não haveria ilegalidade”, afirma Faure.

Um exemplo, explica Manders, é que a indústria química nos Países Baixos recebeu em 1982 uma licença para poluir a água com PFAS , antes de estes produtos químicos serem identificados como prejudiciais à saúde humana.

“Mas hoje sabemos que os produtos químicos causam câncer e até a morte. Portanto, num processo judicial como o da empresa química Chemours , embora a empresa tenha licença, quando a nova directiva entrar em vigor, tem de parar, uma vez que está provado que o PFAS prejudica as pessoas”, acrescenta Manders.

Será que a directiva ambiental actualizada vai suficientemente longe?
Os Estados-Membros terão dois anos para implementar a directiva revista na legislação nacional.

Entre outras coisas, terão a flexibilidade de escolher entre introduzir multas para as empresas com base numa proporção do seu volume de negócios - até cinco por cento, dependendo do crime, ou multas fixas até 40 milhões de euros.

“Gostaríamos de ter ido muito mais longe”, diz Toussaint.

Caberá também aos Estados-Membros se os crimes cometidos fora das fronteiras da UE em nome de empresas da UE forem abrangidos pela nova directiva, uma vez que isto ainda não foi acordado pela UE.

Embora seja de facto “revolucionário”, Manders defende a existência também de um procurador público a nível da UE.

“Esse é o futuro. No entanto, dependerá da avaliação do mandato da Procuradoria Europeia – e se no futuro a UE poderá lidar com tais casos”, afirma.

Toussaint concorda e afirma que é crucial manter-se atento às negociações em curso no Conselho da Europa, onde a Convenção sobre a Protecção do Ambiente através do Direito Penal - equivalente à directiva da UE, mas a nível do Conselho da Europa - está actualmente a ser revisado.

“Esta convenção, originalmente adoptada em 1998, nunca foi ratificada e, portanto, nunca entrou oficialmente em vigor. A actual revisão da directiva europeia poderá assim ter uma grande influência nas negociações em curso e um impacto fora do território da UE”, afirma.

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

Encontros Improváveis - Sylvia Earle e João Soares


Quando observo o oceano, esse vasto mundo, questiono-me com Sylvia Earle:

"Temos de mudar a nossa mentalidade. Quando olhamos para a vida selvagem, em terra, pensamos que a temos de proteger, mas quando olhamos para o mar vemos produtos. Começámos a mudar em relação às baleias ou às tartarugas, mas temos de fazer o mesmo para todos os seres vivos. Os camarões ou as lagostas são animais selvagens, como os leões ou os tigres. Os tubarões ou os atuns são os seus equivalentes, grandes predadores que fazem parte da química planetária, do ciclo do carbono e hidrogénio, parte da janela de oportunidade que mantém a terra habitável. Pode soar um pouco nerd, mas é tão básico. Sabemos que as árvores geram oxigénio e capturam o carbono, por isso sabemos que as devemos proteger, mas no mar o plâncton tem vindo a diminuir nos últimos anos, tal como os recifes de corais, as florestas de algas, as pradarias marinhas. E capturam mais dióxido de carbono e produzem mais oxigénio do que todas as florestas terrestres. Eu assisti a tudo isto, sou uma testemunha."

"Os peixes têm caras, personalidade, famílias e protegem as crias tão vigorosamente como a maior parte das criaturas que adoramos em terra. Não é aceitável explorar a vida selvagem, nem em terra nem no mar."

Os oceanos produzem mais de metade do oxigénio, são o maior reservatório de dióxido de carbono e o maior regulador do clima e da temperatura. Todos os 8 mil milhões de habitantes da Terra, quer vivam perto ou longe do mar, dependem diretamente dos oceanos para a sua sobrevivência, mas os oceanos não são água. São vida, e esta está (também) seriamente em perigo.

Sobre esta temática, Extinção e Ecocídio, está disponível na rtp1 e rtpplay uma série de documentários muitíssimo interessante, Ressuscitar o Éden - Ajuda Humana Para a Resiliência da Natureza que recomendo a todos, biólogos, professores, estudantes, políticos, gestores ambientais, economistas...
A nossa pegada ecológica é tremenda e, por vezes, não temos noção do quão longe demais já fomos e como podemos ainda reverter isso... 

sábado, 6 de janeiro de 2024

Poderá 2024 ser o ano em que os direitos da natureza entrarão na corrente política?


O movimento está crescendo para dar direitos legais e representação política a animais, espécies e lugares não humanos.

Duas novas coligações de cientistas, advogados, filósofos e artistas juntaram-se à crescente campanha global para que os ecossistemas e outras espécies tenham direitos legais e até representação política.

O projecto More Than Human Rights (Moth) e Animals in the Room (Air) estão a explorar tácticas ousadas para promover a sua causa, incluindo reivindicações de autoria para florestas, defesa de políticas em nome de ursos e baleias, e estratégias fúngicas para difundir o pensamento ecológico.

Representam uma nova onda de movimentos pela natureza e pelos direitos dos animais que ganham força no meio da frustração com a relação ultraexploradora da humanidade com outras espécies e da crescente preocupação com as deficiências da abordagem tecnológica e de mercado à crise climática.

“Queremos levar a ideia dos direitos da natureza da margem para o mainstream. A ideia é incorporar a sociedade na biosfera”, disse César Rodríguez-Garavito , um jurista colombiano que dirige a Clínica de Defesa dos Direitos da Terra na Universidade de Nova Iorque.

Rodríguez-Garavito é o fundador da Moth, que pretende estabelecer um precedente legal ao estabelecer os direitos criativos da floresta nublada Los Cedros, no norte do Equador, que já foi reconhecida como uma entidade possuidora de personalidade jurídica e direitos sob um julgamento histórico de 2021 por o tribunal constitucional do Equador.

Num caso de teste, Moth argumentará que uma nova peça musical foi co-criada pela floresta com o músico britânico Cosmo Sheldrake . Em Song of the Forest, Sheldrake gravou as vozes da floresta, incluindo pássaros, animais e árvores, e depois misturou isso com suas próprias palavras e as de outros membros do Moth, incluindo o autor britânico Robert Macfarlane . Sheldrake apresentará a música na capital do Equador, Quito, no próximo ano, após o que Rodríguez-Garavito e advogados equatorianos reivindicarão a coautoria de Los Cedros.

Cosmo Sheldrake, que produziu músicas usando canções gravadas de pássaros britânicos raros. 

“Eu queria conceder alguns dos direitos criativos a criaturas ou ecossistemas, mas percebi que não existe nenhuma estrutura”, disse Sheldrake. Como comparação mais próxima, ele citou a Earth Percent, uma empresa fundada por Brian Eno que visa reconhecer o planeta como uma parte interessada na criação musical, mas Sheldrake disse que mesmo isso “não aborda a questão fundamental dos direitos de autoria para pássaros e outras criaturas, ou lugares”.

Se for bem sucedido, isto alargará o domínio dos direitos intelectuais, que até agora foram reconhecidos apenas para criadores humanos. No caso da “ selfie do macaco ”, em 2011, por exemplo, um fotógrafo foi processado por uma organização de defesa animal por ganhar dinheiro com uma fotografia que um macaco havia tirado no celular do homem. O juiz recusou-se a aceitar que os não-humanos possam ter direitos de propriedade.

A selfie tirada por um macaco na ilha indonésia de Sulawesi  pelo fotógrafo David Slater

Elephant AI para proteção contra fungos
O próximo caso da floresta, ou “Copygreen”, foi uma das várias ideias de direitos da natureza discutidas por Moth num workshop de uma semana no Chile.

Entre os participantes estava o geofilósofo e ecologista profundo David Abram , que primeiro cunhou o termo "mais que humanos". “Precisamos de uma ecologia da linguagem. O que dizemos afeta profundamente nossos sentidos”, disse ele. “Também precisamos reconhecer que os humanos não são a única espécie capaz de linguagem.”

Outros oradores incluíram desde especialistas de Silicon Valley, que explicaram como a inteligência artificial está a ser utilizada para interpretar a linguagem dos elefantes e das baleias, até micologistas que imaginaram uma campanha modelada na proliferação “em todo o lado, ao mesmo tempo” de esporos de fungos. Giuliana Furci , a fundadora anglo-chilena da Fungi Foundation , disse que já tinha persuadido o seu governo a incorporar a protecção de fungos ameaçados em todos os projectos de infra-estruturas. “Eles são como uma espécie-chave”, explicou ela. “Se você protege um que cobre uma área ampla, você preserva todo um ecossistema ou habitat.”

Lichenomphalia altoandina foi encontrada no Chile e descrita como uma nova espécie em 2017. 

José Gualinga , um líder do povo Sarayaku do Equador, instou Moth a seguir o exemplo de sua comunidade. “Estamos tentando convencer as pessoas de que a floresta é um ser vivo”, disse ele. Além dos direitos da natureza, ele enfatizou as responsabilidades dos seres humanos. “Os humanos não indígenas veem a natureza como algo separado deles. Eles esquecem que fazemos parte da natureza.”

O movimento mais amplo pelos direitos da natureza remonta pelo menos a 1972, quando Christopher D Stone, professor de direito na Universidade do Sul da Califórnia, escreveu um artigo de jornal intitulado As árvores deveriam ter pé, no qual propunha dar direitos legais à natureza.

Desde então, expandiu-se em surtos. O Centro de Direitos Ambientais compilou uma lista de países, regiões e sistemas jurídicos que possuem direitos reconhecidos para a natureza. Equador, Bolívia, Uganda, Estados Unidos, Canadá, Brasil, Nova Zelândia, México e Irlanda do Norte têm algum reconhecimento dos direitos da natureza nas suas constituições, leis nacionais ou regulamentos locais. As decisões judiciais na Índia e na Colômbia reconheceram os direitos dos ecossistemas ou dos rios. A Irlanda poderá ser a próxima a seguir, dependendo do resultado de um referendo proposto sobre a protecção da biodiversidade .

As Nações Unidas também estão a analisar as implicações jurídicas dos direitos da natureza, que foram mencionados na última reunião da Convenção sobre a Diversidade Biológica.

É objeto de pesquisa acadêmica. “A lei pode conceder direitos a todos os tipos de entidades se encontrar razões para o fazer”, observaram os estudiosos Guillaume Chapron, Yaffa Epstein e José Vicente López-Bao num artigo na Science . “As empresas, os sindicatos e os estados são entidades não-humanas que têm direitos e deveres previstos na lei. Eles têm o direito de litigar se forem feridos e o dever de não violar os direitos de terceiros. O sistema jurídico não tem dificuldade em julgar os direitos não-humanos.”

O trio previu que a decisão sobre os conflitos entre os direitos da natureza e as actividades humanas seria controversa, mas não mais do que os conflitos entre os direitos humanos à liberdade de expressão e à não discriminação. “Os conflitos entre a natureza e as atividades humanas acontecem numa escala massiva e sistemática. Quando as pessoas e as empresas têm direitos e a natureza não, a natureza perde frequentemente, como evidenciado pela contínua deterioração do ambiente. Os direitos da natureza podem ajudar a evitar este resultado unilateral.”

sábado, 30 de dezembro de 2023

Os golfinhos parecem usar peixes-balão tóxicos para se "pedrarem"


Os seres humanos não são as únicas criaturas que sofrem de problemas de abuso de substâncias. Os cavalos comem ervas alucinogénias, os elefantes embriagam-se com frutos demasiado maduros e os carneiros selvagens adoram líquenes narcóticos. Alguns investigadores pensam que a atração dos macacos por frutas ricas em açúcar e que contêm etanol pode, de facto, explicar a nossa própria atração pelo álcool.

Agora, os golfinhos podem juntar-se a essa lista. Imagens de uma nova série documental da BBC, "Spy in the Pod", revelam o que parecem ser golfinhos a "pedrarem-se" com peixes-balão. O peixe-balão produz um químico defensivo potente, que expele quando se sente ameaçado. A toxina, conhecida como tetrodotoxina, é letal em grandes doses. Em doses suficientemente pequenas, no entanto, a toxina parece induzir um "estado de transe" nos golfinhos que entram em contacto com ela, relata o Daily News:

Os golfinhos foram filmados a brincar suavemente com o peixe-balão, passando-o uns aos outros durante 20 a 30 minutos de cada vez, ao contrário dos peixes que capturavam como presa, que eram rapidamente despedaçados.

O zoólogo e produtor da série, Rob Pilley, afirmou que foi a primeira vez que golfinhos foram filmados a comportar-se desta forma.

A certa altura, vêem-se os golfinhos a flutuar logo abaixo da superfície da água, aparentemente hipnotizados pelos seus próprios reflexos.

O manuseamento especializado e deliberado do aterrorizado peixe-balão por parte dos golfinhos, disse Pilley ao Daily News, sugere que esta não é a primeira vez que participam neste "rodeo" alucinogénio.


sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

Finalmente a nossa Zona Económica Exclusiva é completamente uma Área Protegida


Portugal tem a maior ZEE da Europa e vejo agora no mapa das Áreas Marinhas Ecologicamente ou Biologicamente Significativas, que esta região já consta da lista. Burocracias à parte, Portugal submeteu, em 2019, uma proposta às Nações Unidas para a extensão da sua plataforma continental, sobre a qual aguardou uma decisão. Em 2022, a nossa proposta mereceu aprovação formal na COP15. 4 anos depois. Finalmente conseguimos.

Competiu à DGRM (Direção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos) propor a criação de áreas marinhas protegidas, em articulação com a autoridade nacional para a conservação da natureza e biodiversidade, ICNF. 

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quarta-feira, 22 de novembro de 2023

Golfinhos da espécie burrunan sofrem os mais elevados níveis conhecidos de poluentes tóxicos


De acordo com uma nova investigação, os golfinhos em perigo de extinção nas águas ao largo de Melbourne e Gippsland apresentam as concentrações mais elevadas de produtos químicos PFAS registadas em golfinhos em todo o mundo.

O estudo conjunto realizado por cientistas da Marine Mammal Foundation, da RMIT e da Universidade de Melbourne revelou concentrações alarmantes destes produtos químicos – amplamente utilizados em embalagens de alimentos, espuma de combate a incêndios e utensílios de cozinha antiaderentes e notoriamente conhecidos como “produtos químicos eternos” por não se decomporem – nos golfinhos da espécie burrunan de Victoria, que se encontram em perigo crítico de extinção.

Foram recolhidas amostras de 38 golfinhos de várias espécies encontrados encalhados ao longo da costa de Vitória, mas foram encontradas concentrações hepáticas de PFAS especialmente elevadas nas populações de golfinhos da espécie burrunan de Port Phillip Bay e Gippsland Lakes.

As concentrações médias de alguns produtos químicos nestas populações eram mais de 10 vezes superiores ao que os cientistas acreditam causar toxicidade hepática e uma série de problemas de saúde.

Um golfinho-burrunan juvenil da Baía de Port Phillip tinha uma concentração hepática de PFAS de 19 500 nanogramas por grama – o nível mais elevado registado num golfinho a nível mundial.

A autora principal do estudo, Chantel Foord, afirmou que estes resultados são simultaneamente muito preocupantes e globalmente significativos.

“Não só encontrámos os níveis mais elevados destes tóxicos artificiais numa espécie que já está criticamente ameaçada – incluindo em recém-nascidos e juvenis – como também encontrámos um golfinho da Baía de Port Phillip com concentrações de PFAS quase 30% mais elevadas do que qualquer outro golfinho individual registado a nível mundial”, afirmou Foord, que é investigadora de doutoramento conjunta do Grupo de Investigação em Ecotoxicologia da RMIT e da Marine Mammal Foundation.

Foord adiantou que estes resultados não significam necessariamente um risco para os seres humanos nas águas vitorianas: os golfinhos ingerem peixe inteiro, incluindo o fígado, que acumula estes poluentes, enquanto nós apenas comemos tecido muscular de peixe.

As principais fontes de PFAS no ambiente aquático foram atribuídas a efluentes de fabrico, descargas de estações de tratamento de águas residuais, escoamento urbano e de aterros e espumas de combate a incêndios utilizadas em terra perto de cursos de água.

Embora exista regulamentação internacional para alguns destes produtos químicos, a Austrália ainda não ratificou na íntegra a Convenção de Estocolmo sobre Poluentes Orgânicos Persistentes, o que permite a sua importação para utilização numa série de produtos ao longo de décadas.

A investigação inovadora, publicada na revista de topo Science of the Total Environment, realça o mistério por detrás desta poluição dos mamíferos marinhos, uma vez que não há fabrico de PFAS na Austrália.

Foord sublinhou a necessidade de identificar as fontes e de compreender o comportamento destes produtos químicos no ambiente.

“Embora fosse de esperar concentrações mais elevadas nos locais onde estes produtos químicos são fabricados, não foi isso que este estudo encontrou”, afirmou, acrescentando “portanto, se o fabrico não ocorre na Austrália, porque estamos a registar estes níveis alarmantes de PFAS?”

“Mais importante ainda, como é que vão afetar a viabilidade destas populações de golfinhos?”, questionou.

O estudo também revelou contaminantes emergentes no ambiente, indicando que os produtos químicos de substituição mais recentes já estão a ser bioacumulados através da rede alimentar até aos golfinhos.

Um golfinho criticamente ameaçado
O golfinho-burrunan foi descrito pela primeira vez como uma espécie separada em 2011 pela Diretora da Marine Mammal Foundation, Kate Robb, também coautora deste estudo. Infelizmente, já está criticamente ameaçado de extinção.

Robb disse que as duas únicas populações conhecidas – na Baía de Port Phillip e nos Lagos Gippsland – são ambas pequenas e já estão em alto risco de extinção localizada.

“Com apenas 250 indivíduos nestas populações, aumentar a nossa compreensão dos processos de ameaça é absolutamente crucial para a conservação e proteção do golfinho-burrunan, bem como para a gestão e mitigação dessas ameaças”, afirmou.

Kate Robb disse ainda que, “dados os atuais riscos de comprometimento imunitário e impactos na saúde associados à exposição a PFAS, é incrivelmente preocupante que estes golfinhos da espécie Burrunan estudados tenham o nível mais elevado de PFAS documentado em todo o mundo, especialmente devido à sua elevada vulnerabilidade e risco de extinção.”

“Este estudo realça o quão crucial é continuarmos a nossa investigação vital para garantir o futuro da espécie”, concluiu.

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terça-feira, 14 de novembro de 2023

Áreas Marinhas Protegidas dos Açores - Implementação Urgente


O que falta para termos as Áreas Marinhas Protegidas dos Açores?
A resposta é simples: falta a sua implementação. A proposta de criação da Rede de Áreas Marinhas Protegidas dos Açores já esteve em consulta pública e falta que seja efetivamente aprovada e transformada em lei pela Assembleia Regional dos Açores.

O mar dos Açores, historicamente tão importante para a economia e identidade Açorianas, tem vindo a sofrer, ao longo das últimas décadas, de clara sobre-exploração.

O que se pretende com esta petição?
O apoio da sociedade civil para:

1. Que se aprovem, sem mais demoras, o enquadramento legal geral e as zonas de proteção oceânicas tal como preconizados na proposta da RAMPA, com proteção total de 15% das áreas oceânicas e proteção parcial de outros 15%.

2. Que a Rede de Áreas Marinhas Protegidas dos Açores seja estendida, o mais brevemente possível, às zonas costeiras.

3. Que estejam previstos, no orçamento da Região, os recursos necessários ao acompanhamento científico destas reservas marinhas.

4. Que as autoridades responsáveis pela fiscalização, nomeadamente, Inspeção das Pescas, Polícia Marítima e GNR, sejam dotadas dos recursos humanos e materiais e do enquadramento legal necessários para garantir a efetividade das zonas de proteção.

5. Que este projeto, iniciado na legislatura anterior e fortemente impulsionado pelo atual Governo Regional, seja abraçado por todos os partidos da Assembleia Legislativa Regional. A proteção do mar tem de ser um desígnio estrutural dos Açores. Adiar mais uma vez avanços nesta matéria, como se tem vindo a fazer nas últimas décadas, seria de uma enorme falta de visão, sem preocupação com as gerações futuras.

Assine e partilhe esta petição pela defesa do oceano neste link

quarta-feira, 23 de agosto de 2023

Golfinhos do Mar Negro são vítimas invisíveis da guerra na Ucrânia


A verdade sobre os golfinhos
A atividade naval russa no Mar Negro levou milhares de golfinhos à morte, desde o início do conflito na Ucrânia. Um biólogo experiente tem feito tudo para revelar como os estragos gerados pela guerra destroem a vida selvagem da região.

O especialista alerta
Ivan Rusev é o chefe do Departamento de Pesquisa do Parque Nacional dos Estuários de Tuzly, na Ucrânia. No início de maio, ele postou no Facebook informações sobre a trágica perda de outros 100 golfinhos do Mar Negro, no mês anterior.
“Infelizmente, em abril de 2023, mais de cem golfinhos mortos foram encontrados nas baías de Sebastopol e outras praias da Crimeia, nas proximidades de Novorossyska, Sochi e Gelendzhik”, escreveu Rusev, de acordo com o USA Today.

Submarinos russos no Mar Negro
"Esta é a confirmação de que a atividade dos submarinos naquela parte do Mar Negro, perto da Crimeia e Novorossiysk, é prejudicial", escreveu Rusev.

Esta não é a primeira vez que Rusev alerta sobre a ameaça sofrida pela população de golfinhos do Mar Negro. Em agosto de 2022, o biólogo ucraniano disse estar preocupado, pois contabilizava a morte de cerca de 5 mil golfinhos, desde o início da guerra.

Devastador
“Eu nunca vi isso antes, é algo absolutamente novo e aterrorizante para os cientistas”, disse Rusev em entrevista ao Kyiv Independent.

De quem é a culpa?
Rusev relaciona as mortes dos animais aos navios e submarinos russos presentes no Mar Negro, alegando que seu sonar afeta a saúde da vida submarina.
“Os golfinhos caem na zona de radiação dos dispositivos de navegação dos navios, desativando seus próprios órgãos de ecolocalização”, disse o biólogo.

O perigo do sonar
O sonar é particularmente perigoso para mamíferos como os golfinhos, porque eles usam o som subaquático para deslocamento, captura de presas e comunicação com o restante de seu grupo.
O sonar militar de baixa frequência gera ondas sonoras que podem viajar por centenas de quilómetros debaixo d'água, podendo causar ferimentos e até a morte em alguns animais.

Como o sonar afeta os golfinhos?
De acordo com a jornalista do The Verge, Alessandra Potenza, “o sonar militar prejudica alguns animais, pois interrompe o seu acasalamento, sua comunicação e faz com que se separem de seus filhotes, causando estresse”.

Os golfinhos do Mar Negro não conseguem comer
Rusev afirmou que o sonar usado pelas forças navais russas danifica o sistema de comunicação acústica dos golfinhos no Mar Negro, impedindo-os de comer.

“Os golfinhos não conseguem se orientar no mar para pescar, portanto perdem peso e seu sistema imunológico enfraquece”, disse Rusev.

Uma catástrofe ambiental para o Mar Negro
Rusev também observou que tanto as minas quanto as explosões subaquáticas aumentam o número de mortes de golfinhos. Segundo ele, está instaurada uma catástrofe ambiental na costa ucraniana do Mar Negro.
Por 40 anos, Rusev monitorou a costa da Ucrânia e nunca havia visto nada parecido.

Qual o total de animais mortos?
“No total, estimamos que entre 50 e 100 mil golfinhos tenham morrido”, disse Rusev, durante uma entrevista em vídeo à Radio Free Europe.
De acordo com o Ministério de Proteção Ambiental e Recursos Naturais da Ucrânia, existem apenas cerca de 253 mil golfinhos no Mar Negro.

O cenário é preocupante
Se as estimativas de Rusev forem verdadeiras, isso significa que mais de um terço da população de golfinhos do Mar Negro pode ter morrido em decorrência da guerra.

E se a guerra continua?
Durante uma entrevista à Radio Free Europe, Rusev disse que havia acabado de encontrar 12 golfinhos mortos e observou que, antes da invasão da Rússia, nunca havia encontrado um único cadáver  de golfinho naquela parte da costa da Ucrânia, um sinal preocupante à medida que a guerra da Rússia se estende.

domingo, 16 de julho de 2023

ICNF interdita observação de golfinhos na entrada do estuário do Sado


A medida destina-se a proteger a população local de golfinhos roazes e aplica-se a partir deste sábado, 15 de Julho até ao final de Agosto, anunciou o instituto que tutela a conservação da natureza.

Desta forma, até ao próximo dia 30 de Agosto, “não é permitida a observação de cetáceos – nomeadamente de golfinhos – e a permanência de embarcações marítimo-turísticas e recreativas na entrada do estuário do Sado”, sendo possível apenas a circulação ou a passagem de embarcações no local.

A informação foi divulgada esta sexta-feira numa nota de imprensa do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), responsável pela decisão sobre este medida de exclusão, divulgada também em edital.

Esta nova medida, de carácter “experimental”, inclui-se entre várias propostas de acções a aplicar a curto prazo. Foi tomada com base nas conclusões e nas propostas de um estudo de reavaliação da capacidade de carga de observação de cetáceos no Estuário do Sado e na zona marinha adjacente, explica o instituto.

Para esta decisão, foi tomada também em consideração a “fragilidade” da população local de golfinhos. Em causa está o “número reduzido” de indivíduos e a “probabilidade de não ocorrer um aumento populacional até ao final de 2030”, acrescenta a nota de imprensa.

A população residente de golfinhos roazes (Tursiops truncatus) do estuário do Sado conta atualmente com cerca de 25 indivíduos, muitos dos quais com idade superior a 40 anos, adianta o instituto.

“Após a tendência de declínio observada na década de 90, seguiu-se um ligeiro incremento com a sobrevivência das crias nascidas a partir de 2010. Continuam, no entanto, a existir factores de risco que podem dificultar a capacidade de recuperação da população e a tornam especialmente vulnerável a perturbações causadas pelas atividades humanas.”

quinta-feira, 6 de julho de 2023

Proteger os nossos oceanos e o meio ambiente do 5G e da radiação sonar sem fios


Tecnoecocídio: a destruição sistemática de nosso ecossistema pelo uso abusivo da tecnologia

Embora muitos tenham visto anúncios promovendo as capacidades sem fio rápidas do 5G conectando tudo e todos...e prometendo que essas tecnologias inteligentes fornecerão um futuro de energia renovável, a pesquisa científica e os esforços de defesa ambiental mostram o oposto do que essas indústrias com fins lucrativos prometem - com centenas de cientistas , ativistas de alterações climáticas e especialistas em saúde pública exigindo uma moratória na implantação dessas tecnologias.

Nossa missão é apoiar o movimento global para controlar a expansão sem fio na Terra, nos céus e no oceano porque representa uma ameaça imediata a toda a vida. É nossa esperança trazer uma maior consciencialização pública sobre os danos do 5G, satélites e oceanos “inteligentes” e iniciar um diálogo sobre opções tecnológicas mais sábias e equilibradas para um futuro mais seguro e que afirme a vida.

terça-feira, 4 de julho de 2023

Livro de Giorgos Kallis- O erro de Malthus (revisão)

Limits: Why Malthus Was Wrong and Why Environmentalists Should Care

Um dos conceitos básicos em Ecologia é o dos limites: qualquer população de seres vivos tem o potencial de crescer exponencialmente. Num modelo simples há uma altura que que começa a não haver recursos suficientes (alimento, espaço) para suportar este crescimento populacional. Num cenário otimista a taxa de reprodução diminui e a taxa de mortalidade aumenta, fazendo com que a população estabilize naquilo que se designa por “capacidade de sustento”. No cenário pessimista a taxa de crescimento mantém-se, a população excede a capacidade de sustento, os recursos esgotam-se ou degradam-se e os efetivos colapsam, para eventualmente retomar o ciclo mais tarde. No primeiro cenário colocam-se espécies como as baleias ou os elefantes (que se autolimitam), no segundo ratos, moscas ou baratas (que são limitadas catastroficamente pelos fatores externos).
Para alguém com um conhecimento básico de Ecologia, portanto, a existência de limites é um dado de partida, assim como o são os mecanismos que resultam desses mesmos limites. Deste ponto de vista, a insistência dos economistas num crescimento exponencial contínuo só pode ser entendida como irrealista, e o apoio político que ela recebe como irracional. Neste contexto as ideias de Thomas Malthus são muitas vezes citadas. Na interpretação vulgar existem limites maltusianos porque a população humana cresce muito mais depressa do que a produção de alimentos. O que acontece a seguir é menos claro, mas o adjetivo “malthusiano” continua a aplicar-se à perspetiva (e realidade) de guerras e fomes alegadamente causadas pelo excesso populacional.
É aqui que entra o último livro de Giorgos Kallis. O autor começa por clarificar que Malthus não fala de limites. A sua teoria da diferença entre os ritmos de crescimento da população humana e da capacidade de produção de alimento foi utilizada não só para justificar a existência da pobreza (os recursos não chegam para todos) mas também para justificar a eliminação da assistência aos pobres (o impulso de sair da pobreza cria o espírito empreendedor necessário para o progresso). De facto, Malthus advoga o crescimento contínuo quer da população quer da tecnologia.
GK parte desta incompreensão generalizada dos conceitos de Malthus para chamar a atenção do movimento ambiental para o problema de basear uma linha de ação política em limites externos, como os 2ºC do Acordo de Paris. O argumento não é intuitivo, mas o esforço de o compreender compensa, pela nova perspetiva que proporciona e pelas orientações políticas que dela emanam.
O argumento de GK é que os limites não são impostos pela natureza, são definidos por nós. Um limite implica um objetivo, um propósito. Queremos limitar o aquecimento global a 1,5ºC porque a ciência nos diz que acima disso o clima mudará de tal forma que o tipo de civilização que temos agora poderá deixar de ser possível. Mas não vai acontecer nada de particular no dia em que o planeta ultrapassar esse limite. Se o ultrapassarmos (quando o ultrapassarmos) teremos um clima diferente e uma civilização diferente porque foi essa a escolha que, coletivamente, fizemos ou deixámos que fizessem por nós.
Não há limites, a não ser os que nós colocamos. E é esse o segundo argumento de GK- que os ambientalistas e as forças políticas progressistas deviam intervir defendendo limites internos positivos em substituição das atuais bandeiras negativas, que os colocam como profetas da desgraça. GK constrói um argumento poderosíssimo em torno da auto-limitação, concebida em função dos objetivos que queremos atingir. A mensagem passa assim a ser positiva: isto é o que queremos e para isso estas são as medidas que precisamos de ser implementadas e estes os limites (agora sim!) que não podem ser excedidos.
Esta é uma chamada de atenção muito importante: chega de dissecar o que está mal, chega de gastar energias a criticar o crescimento ou o capitalismo. É difícil entusiasmar-se com o decrescimento, e a mobilização contra o capitalismo é impossível sem uma ideia clara de como o queremos substituir. Todas as forças progressistas deviam analisar esta mensagem e procurar nela os pontos de união que lhes conferirão o poder de mudar o mundo.

Saber mais:
Book review - Limits: Why Malthus Was Wrong and Why Environmentalists Should Care

quinta-feira, 29 de junho de 2023

Porque saltam os golfinhos?

Tejo. Lisboa

Se nada é por acaso, acha que os Golfinhos saltam só porque sim? Leia a descrição e descubra o porquê!
- Os saltos ajudam a caçar: seja para avistar cardumes ou como manobra de distração numa emboscada; 
- Para respirar: os golfinhos são mamíferos, têm pulmões e precisam de vir à superfície para respirar pelo espiráculo;
- Como forma de comunicação: os golfinhos são animais gregários e ao saltarem indicam o caminho ao bando ou procuram-no quando se perdem; 
- Para conservar energia: os golfinhos nadam constantemente e a longas distâncias. Saltar fora de água permite-lhes diminuir a fricção, pois a atmosfera é menos densa que o meio aquático;

segunda-feira, 26 de junho de 2023

“Não estamos a escolher a Terra”: Para salvar o planeta não basta falar. É preciso agir e agora


Esta quinta-feira, cientistas, empresários e ativistas reuniram-se em Madrid, Espanha, para reiterar que o planeta está em crise e para sublinhar que a sua proteção não se faz apenas com palavras bonitas e com discursos chamativos. É preciso agir e o mais rapidamente possível para evitar desfechos devastadores, para os humanos e para todas as outras formas de vida.

No evento ‘We Choose Earth 2023’, promovido pela EDP, Miguel Stilwell d’Andrade, CEO da elétrica portuguesa, esteve à conversa com Amal Clooney, defensora e ativista dos direitos humanos.

O português, recordando que a EDP pretende tornar-se totalmente verde até 2030, destacou que a transição energética deve ser justa e servir todas as comunidades, e que exige uma mobilização de toda a sociedade, sem exceções.

“A mudança não pode ser alcançada por um só agente”, afirmou, à conversa com Amal Clooney, que sublinhou que além de protegermos a Terra é preciso também proteger “as pessoas que nele habitam”, porque “escolher proteger o futuro do planeta de nada serve sem o poder das pessoas”.

“E que tipo de planeta queremos deixar aos nossos filhos? Eu quero um em que se sejam protegidos os direitos das minorias e em que aquele aqueles que tenham cometido os piores crimes acabem por pagar por eles”, defendeu a ativista.

Outro dos oradores foi Peter Frankopan, professor de História Global na Universidade de Oxford. Recordando uma série de desastres naturais causados pelos desequilíbrios climáticos – a tragédia das cheias no Paquistão, os incêndios florestais devastadores no Canadá, as ondas de calor extremo na Ásia, a seca na Península Ibérica –, o académico frisou que os mais pobres e as mulheres são os grupos humanos que mais sofrem num planeta em franca convulsão causada pela forma como o temos tratado ao longo de séculos.

E lembrou também estamos perante “desafios existenciais não apenas para nós, mas para outras formas de vida”.

Olhando para o passado, Frankopan afirmou que desde 1971 os oceanos já terão absorvido uma quantidade de calor equivalente a 25 mil milhões de explosões como a que dizimou Hiroxima nos anos 40. E que se nada for feito para travar o aquecimento oceânico, nada de bom se poderá esperar do futuro.

O historiador destacou ainda a poluição do ar como um dos reflexos mais nefastos e visíveis da ação humana na Terra, indicando que no norte da Índia, devido ao mau estado da qualidade do ar, a esperança média de vida é seis anos inferior ao que seria se o ar tivesse uma qualidade considera boa.

“Não estamos a escolher a Terra”, lamentou, alertando, em referência ao aumento da população humana global, que deverá ultrapassar os 10 mil milhões de pessoas até ao final do século, que precisamos de fazer escolhas mais acertadas na forma como extraímos, produzimos e consumimos, “porque somos cada vez mais”.

E sobre a vulnerabilidade das sociedades humanas às alterações climáticas, deixou uma mensagem contundente: “O registo histórico está pejado de cidades que não se conseguiram adaptar”.

As “mentiras e desinformação” da indústria dos combustíveis fósseis

Enrique Dans, especialista em inovação e sobre como a tecnologia está a mudar o mundo, não poupou críticas à indústria dos combustíveis fósseis, que acusa de continuar a mentir à população e de tentar impedir a emergência de sociedade realmente assentes na energia renovável e limpa.

Professor na IE Business School, em Madrid, Enrique Dans, embora reconheça os avanços possibilitados por essa indústria, acusou os seus líderes de disseminarem “mentiras e desinformação” sobre a impossibilidade de abandonar de vez os combustíveis fósseis, considerando que as energias renováveis só ainda não são a norma por causa dos obstáculos criados por essas empresas e conglomerados, respaldados por outros poderes económicos e políticos.

O académico apontou também que outra “mentira” lançada pelo setor é de que não existem matérias-primas suficientes para generalizar as renováveis, dizendo que isso se trata de uma “ficção”.

“Não há escassez de materiais”, garantiu, observando que antes de se começar realmente a procurar por ele, o lítio, usado nas baterias dos veículos elétricos e em unidades de armazenamento de energia renovável, era também considerado um elemento em fraca abundância no planeta e que agora “estamos a descobrir depósitos de lítio em muitos locais”.

Por isso, Enrique Dans apelou a uma mobilização de todas as populações mundiais, incitando-as a exigirem mais ação por parte dos seus governos para travar práticas e atividade prejudiciais aos ecossistemas dos quais todos dependemos.

O Ensino como pedra-angular da mudança que é precisa
E a mudança deve começar logo nas escolas e instituições de Ensino Superior. Júlia Seixas, Pró-Reitora da Universidade Nova de Lisboa e com uma experiência de vários anos em questões de sustentabilidade, alertou que “as universidades estão a formar a próxima geração de líderes”, mas “não estamos a fazer o nosso trabalho devidamente”.

Para Júlia Seixas, as temáticas da sustentabilidade e da proteção do planeta devem ser cada vez mais integradas nos programas curriculares do Ensino Superior, perpassando todas as áreas de conhecimento. Acredita que só assim será possível preparar as gerações mais novas para os desafios que terão de enfrentar e para que não cometam os erros do passado e os que ainda hoje continuam a ser cometidos.

A académica deixou também algumas palavras sobre as renováveis. No que pode ser interpretado como um piscar de olhos a Portugal, Júlia Seixas afirmou que quando se lançam leilões e quando são elaborados projetos de energia renovável não podemos apenas focar-nos na capacidade de produção das tecnologias que se pretende usar, mas é preciso também atentar nos impactos que elas terão sobre a biodiversidade que será afetada por esses empreendimentos.

“Não há vida sem mar”
Uma das intervenções mais antecipadas deste evento foi a de Céline Costeau, documentarista, exploradora, ativista ambiental e neta do célebre oceanógrafo Jacques Costeau.

Céline Costeau recordou-nos de que “não há vida sem mar”, apontando que é nesses ecossistemas que cerca de metade do oxigénio que respiramos, e que muitas vezes tomamos por garantido, é produzido.

“Estamos interligados a tudo”, afirmou, desde os organismos mais pequenos que os nossos olhos humanos não conseguem ver até aos grandes animais que rumam pelo nosso planeta, em terra e no mar.

Enquanto pessoa que passou grande parte da sua vida a experienciar e a observar os ecossistemas marinhos, Céline Costeau lembrou que devemos ser humildes perante da Natureza e não pensar que estamos acima de tudo e de todos.

A exploradora recordou um momento de mergulho em que um colega de equipa foi mordido por um tubarão, “uma das espécies mais controversas dos nossos oceanos” e sobre qual é muitas vezes construída uma imagem negativa. Céline Costeau disse que, através de documentários e filmes, nos é mostrada apenas uma pequena parte da existência desses animais, deixando de fora todas as interações positivas que ocorrem.

“Quando entramos nestes ecossistemas estamos a entrar no lar destas espécies”, apontou, pelo que temos de mostrar “respeito” para com os outros animais que connosco partilham a Terra.

Céline Costeau referiu-se também ao Tratado do Alto Mar adotado recentemente pelos governos das Nações Unidas, lamentando todo o tempo que foi preciso para se chegar a esse desfecho.

“Demorou 20 anos para as nações da ONU reconhecerem que o alto mar precisa de proteção”, afirmou, e reconhece a sua importância para acabar com os crimes que são cometidos em águas internacionais, sobretudo o trabalho escravo e a sobrepesca.

“Não podemos desligar as causas ambientais das causas humanitárias”, declarou.

Argumentou ainda que é fundamental reconhecer os direitos dos povos indígenas às suas terras ancestrais, que considera serem os “guardiões da biodiversidade”, uma vez que, embora representem apenas 5% da população mundial, “protegem 80% da biodiversidade global”.

Para denunciar a ideia enganosa de que podemos manter o atual estado de coisas e resolver os problemas que hoje temos diante de nós, Céline Costeau terminou a sua intervenção recordando uma expressão de Albert Einstein: “os problemas não podem ser resolvidos com a mesma mentalidade que os criou”.