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quarta-feira, 15 de julho de 2026

Acabei de submeter o meu parecer de discordância relativamente ao Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis (PSZAER)

Ler o texto aqui


Anexei o relatório do próprio Governo (Agenda Nacional de IA) e o mais recente relatório “Global Data Centers Outlook 2026”, elaborado pela JLL.

𝐀𝐜𝐞𝐥𝐞𝐫𝐚𝐫 𝐚𝐬 𝐙𝐀𝐄𝐑 𝐚 𝐭𝐨𝐝𝐨 𝐨 𝐜𝐮𝐬𝐭𝐨? 𝐍𝐚̃𝐨 𝐚 𝐞𝐬𝐭𝐞 𝐩𝐫𝐞𝐜̧𝐨
Como o litoral e as grandes áreas metropolitanas (como Lisboa e Porto) estão com a rede elétrica severamente saturada, direcionar as ZAER para o interior ajuda a equilibrar a Rede Elétrica Nacional (REN). Ao produzir energia nestas zonas e ao acoplá-las a novos sistemas de armazenamento de grande escala (baterias), torna-se viável abastecer os grandes centros de consumo e de dados através de linhas de transporte de alta tensão que atravessam o país, sem sobrecarregar ainda mais os nós elétricos do litoral.

Isto é a narrativa por detrás das ZAER.

O grande paradoxo de toda esta história é simples: a eletricidade produzida nestes novos moldes não vai para as pessoas que vivem na região. Vai, quase toda, alimentar os servidores gigantes de multinacionais como a Amazon, a Google ou a Microsoft.

O negócio funciona através de acordos privados a longo prazo, conhecidos na gíria como PPAs (Power Purchase Agreements). Na prática, uma elétrica constrói o parque solar no Alentejo ou no interior e vende essa energia diretamente à tecnológica por um preço fechado e muito baixo durante 10 ou 15 anos. Com isto, a multinacional garante energia barata e o "selo verde" para os seus relatórios financeiros de sustentabilidade, o promotor assegura o retorno do investimento e as populações locais ficam apenas com a paisagem desfigurada e menos terra para trabalhar.

Há ainda outro pormenor que quase ninguém explica e que pesa no bolso de todos. Para que essa eletricidade viaje do interior até aos grandes centros de dados ou ao litoral, é preciso construir novas linhas de alta tensão e subestações. Quem paga esta fatura milionária de expansão da rede? Nós. O custo das infraestruturas é diluído nas tarifas de acesso à rede que aparecem na fatura da luz de qualquer família portuguesa ao fim do mês. Acabamos, no fundo, a subsidiar indiretamente a rede que serve estas tecnológicas.

A Agência Europeia do Ambiente (AEA) classifica Portugal, a par de outros países do sul do continente como Espanha, Itália e Grécia, como uma das regiões europeias mais vulneráveis e pressionadas pelo stress hídrico. A agência considera a escassez de água no território nacional um problema altamente premente que exige políticas urgentes de resiliência. Atualmente, o país encontra-se bem acima do limiar de alerta de stress hídrico da União Europeia, sendo frequentemente apontado como o sexto país com maior pressão sobre os recursos hídricos durante o período do verão. Esta classificação sazonal deve-se ao facto de o período estival combinar uma seca meteorológica acentuada com uma redução severa dos caudais dos rios e um aumento drástico das captações para a agricultura irrigada, o turismo e o consumo doméstico.

Para medir esta pressão de forma técnica, a AEA utiliza o indicador de exploração de água conhecido como WEI+, que calcula a percentagem de água doce consumida face aos recursos renováveis disponíveis em cada região. Os padrões europeus estipulam que valores acima de 20% indicam stress hídrico, ao passo que valores acima de 40% sinalizam um stress severo e um uso insustentável da água. Embora a média anual portuguesa possa parecer moderada à escala global, as análises regionais e sazonais da agência revelam que as bacias hidrográficas do sul, nomeadamente as do Sado, do Mira e do Algarve, ultrapassam com frequência e de forma alarmante o limiar crítico de 40% durante a primavera e o verão.

Claro que Portugal precisa de apostar nas renováveis e fechar as centrais poluentes. Ninguém discute isso. Mas o modelo atual tem um forte cunho extrativista: o interior arca com os custos ambientais, perde o montado ou o olival e vê a sua paisagem descaracterizada, enquanto a riqueza, a eletricidade barata e os empregos qualificados vão para as sedes das empresas e para os polos tecnológicos do litoral.

A solução não passa por travar a transição, mas por mudar as regras do jogo. O licenciamento destes grandes projetos devia obrigar à criação de comunidades de energia locais, que distribuíssem parte da eletricidade de graça ou a preço de custo a quem vive e trabalha nessas regiões. Sem regras que protejam quem lá está, as novas zonas de aceleração do interior correm o risco de ser apenas o quintal de energia barata das grandes tecnológicas.

Esta vulnerabilidade é substancialmente agravada pela elevada dependência transfronteiriça de Portugal, uma vez que o país depende fortemente dos caudais de rios internacionais como o Tejo, o Douro e o Guadiana, que nascem em território espanhol. Esta circunstância deixa a segurança hídrica nacional exposta às decisões de gestão do país vizinho, especialmente em anos de seca ibérica severa. Além disso, a AEA aponta no seu diagnóstico que o problema em Portugal é potenciado pela ineficiência no consumo, estimando que até metade da água captada para a agricultura seja perdida por sistemas de rega desatualizados, enquanto as perdas nos setores industrial e urbano também continuam elevadas. Face ao cenário de alterações climáticas, as projeções da agência apontam para reduções que podem atingir 40% nos caudais dos rios durante o verão, reforçando o aviso de que o país não pode sustentar novos projetos de consumo intensivo e inflexível de água sem uma transição urgente para a reutilização de águas residuais tratadas.

Parecer sobre o Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis e a respetiva Avaliação Ambiental Estratégica

As Organizações Não Governamentais de Ambiente (ONGA) subscritoras - Almargem, FAPAS, GEOTA, LPN, SPEA, VCF, WWF Portugal e ZERO - propõem uma aprovação globalmente favorável, mas fortemente condicionada à proposta de Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis (PSZAER). 
Estas ONGA reconhecem que a aceleração da implantação de energias renováveis constitui uma condição indispensável para alcançar os objetivos climáticos nacionais e europeus, reduzir a dependência dos combustíveis fósseis, reforçar a segurança energética e contribuir para a neutralidade climática. 
Contudo, a concretização destes objetivos não depende apenas da quantidade de capacidade renovável instalada, mas sobretudo da forma como essa capacidade é integrada no território, articulada com a proteção da biodiversidade, compatibilizada com os usos do solo, enquadrada por uma visão estratégica da economia nacional e legitimada pelas comunidades afetadas. 
Neste sentido, a criação das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis (ZAER) apenas cumprirá os objetivos que justificaram a sua introdução pela Diretiva (UE) 2023/2413 (RED III) se representar uma verdadeira evolução do modelo de planeamento territorial da transição energética e não apenas um mecanismo adicional de simplificação administrativa.

O parecer na íntegra encontra-se disponível aqui

domingo, 5 de julho de 2026

Europe to redefine oil as “sustainable”


The Council's Sustainable Finance Disclosure Regulation (SFDR) revision drops the exclusion that kept fossil fuel expansion out of Europe's transition funds. The decision landed in the middle of the continent's most severe heatwave on record.

In the same week that France logged its hottest day since national records began in 1947, the European Union moved to loosen what the word “sustainable” is allowed to mean on a fund label.

The two events were not connected by design. They were connected by date. On June 24, as a heatwave that the World Weather Attribution group of scientists described as the most severe ever recorded in the region gripped Western Europe, the Council of the European Union adopted its negotiating position on a revision of the SFDR, the EU's rulebook for sustainable financial products. The same group of scientists concluded that June heat of this intensity would have been virtually impossible fifty years ago without human-caused warming. By the end of that week, the World Health Organization's director-general said more than 1,300 excess deaths had been recorded across Europe since June 21.

That was the backdrop against which Europe decided to make room for oil in its sustainable investment rules.
The Council removed the one line that kept oil expansion out of sustainable funds


SFDR was built in 2021 to do two things: steer capital toward the low-carbon transition, and make greenwashing harder. The current revision, often called SFDR 2.0, sorts products into three new categories: sustainable, transition, and ESG basics.

The European Commission's own proposal would have excluded companies expanding their fossil fuel activities from the transition category altogether. The Council deleted that exclusion. In its place, a company opening new oil and gas fields can still qualify for a transition label, provided that around 20% of its capital expenditure is aligned with the EU taxonomy of green activities, and that it adopts a time-bound plan to reduce its operational emissions.

Consider a company that pours the bulk of its capital into expanding oil production and a fifth into wind and solar. Under the Council's proposal, it could still carry a transition label. That label is not cosmetic. Transition and sustainable funds shape how pension funds, insurers, and asset managers allocate trillions of euros, so what the word certifies is not a technicality.

A 20% test on the wrong emissions cannot capture an oil company's real footprint
Here is the detail the headline number hides. The requirement to cut emissions covers a company's Scope 1 and Scope 2, the pollution from running its own operations. It does not touch Scope 3, the emissions released when customers burn the oil and gas the company sells. For a fossil fuel producer, Scope 3 is the overwhelming majority of the harm, by many estimates 80% to 95% of the total. The rule scores the small share and ignores the rest.

The scale of the mismatch is easy to miss. Global clean energy investment is on track to reach around $2.2 trillion in 2026, close to double the money flowing into fossil fuels, according to the International Energy Agency. Yet oil and gas companies account for less than 5% of that clean energy spending. A rule that rewards a 20% capex slice, while ignoring the product itself, measures the smallest part of the story.

A few billion invested in renewables does not cancel out billions spent locking in new fossil production for decades. One reduces future emissions; the other commits them. They are not equivalent, financially or scientifically.

The new definition mirrors the position of a company a court has already faulted
The Council did not invent these criteria in a vacuum. They closely resemble arguments long advanced by parts of the oil industry, which has pressed for a transition category broad enough to take in continued fossil production. TotalEnergies is the most visible example. Between January and June 2026, according to European Parliament transparency records, the company held around 35 meetings with members of the Parliament, several referencing SFDR directly, and its own strategy targets putting 20% of its portfolio into power and low-carbon energy by 2030, the same one-fifth threshold the Council settled on. That is not proof that one produced the other. It is a striking convergence between what an oil major asked for and what member states agreed.

There is a sharper irony in the timing. In October 2025, the Paris Judicial Tribunal found that TotalEnergies had misled consumers with claims about its ambition to reach carbon neutrality by 2050, made while it continued to expand oil and gas production, and ordered the offending statements removed. The company said it would not appeal, and the judgment became final. Less than a year later, the Council is proposing a definition of transition that would let a company doing what the court described, expanding fossil fuels while investing a minority share in cleaner energy, carry a transition label across Europe.

The court's reasoning lands on the same point the fund rule misses. What made the claim misleading was the gap between a transition image and continued fossil expansion. The Council's 20% test widens that gap and stamps it as compliant.

I put these questions to TotalEnergies before publication of this article. In response, a company spokesperson said:
“TotalEnergies' position on the SFDR is well known and has been publicly expressed by the Company in its response to the European Commission's consultation dated 6 April 2026. It is available on the European Commission's website.”
On the court ruling, the spokesperson referred me to a company clarification.

In that clarification, TotalEnergies stresses that the tribunal dismissed most of the claims against it, that the decision concerned three paragraphs about its carbon-neutrality ambition on a French affiliate's customer website rather than its advertising, and that no advertising by its French affiliates was condemned. The company rejects the charge of greenwashing and sets out its record at length: more than €20 billion invested in low-carbon energy worldwide since 2020, €4 billion of it in France; 32 gigawatts of installed renewable capacity producing 50 terawatt-hours of electricity in 2025, up from close to zero in 2020; selection to build France's largest ever renewables project, a €4.5 billion offshore wind farm; and cuts of 36% in emissions from its operated oil and gas facilities between 2015 and 2024, and 55% in methane between 2020 and 2024.

Those last figures, though, are reductions on the company's own operations, the Scope 1 and 2 the fund rule already counts, not on the far larger emissions released when the oil and gas it sells are burned.
The Council says fossil fuel companies still have a role to play

Asked about the greenwashing criticism, a Council spokesperson said companies active in the fossil fuel sector can still contribute to the transition, for example by developing low-carbon fuels or building electric vehicle charging infrastructure.

Campaigners see it differently. Reclaim Finance argued that governments had given in to lobbying from oil majors and opened the door to greenwashing of fossil fuel investment, framing the coming parliamentary vote as a choice between a fossil future and the wellbeing of European citizens.
A weaker label still has to point in the right direction

The Council's defenders make a real argument, and it deserves a fair hearing. The transition category was never meant to be the strictest tier. It exists to finance messy, real-world decarbonization rather than a handful of already-clean companies, and drawing the line too hard, they warn, would only push capital out of Europe into markets with weaker disclosure, or starve the hard-to-abate sectors that most need it.

The argument holds until you look at what the test actually rewards. A transition label, however lenient, has to certify one thing, that a company is moving away from fossil fuels. The Council's version does not require even that. A company can raise its oil output year after year and still qualify, as long as a fifth of its spending points elsewhere. That is not a permissive standard for transition. It is the absence of one, on the single variable that decides whether a transition is happening at all.

There is also a cleaner way to do the thing the rule claims to enable. An oil company that wants to raise money for a wind farm can already issue a green bond, where the proceeds are ring-fenced to that named project and reported on. The capital reaches the clean asset without the parent company's oil expansion borrowing the "sustainable" label. That is the honest instrument, and it exists. What the Council's change adds is not access to green finance but permission to badge the whole enterprise, oil growth included, as transition.

And the fear of capital fleeing Europe cuts the other way. A label that certifies expansion in order to keep money onshore has not kept the money honest. It has moved the greenwashing inside the rulebook.
The decision is not final, and that is where the leverage sits

The Council has agreed only its negotiating position. The European Parliament's economic affairs committee is due to vote on its amendments on July 15, with the full Parliament expected to adopt its position after the summer, before trilogue negotiations with the Council and the Commission later in the year. The direction can still change.

The exclusion the Council stripped out was the Commission’s own. Under the Commission’s proposal, companies expanding their fossil fuel activities are barred from the transition category outright. But the Commission is not a bystander here. It opened the SFDR up in the name of simplification, a drive to cut reporting burdens on the financial industry, and the Council followed that logic a step further. A revision the Commission sold as a remedy for greenwashing is turning into a license for it.

I asked the European Commission directly whether it stands by that exclusion and will defend it in the negotiations. Its full, on-the-record reply was this:

“The Commission remains fully committed to engaging constructively with the co-legislators to achieve a balanced and timely agreement on the proposal.”
A spokesperson also referred me to the Commission's published reasoning, which sets out the exclusion in its own text.

The response leaves the Commission's position open to interpretation. While it does not say the Commission has abandoned its original proposal, it also does not explicitly reaffirm that it will defend this particular safeguard during the negotiations. The stronger rule still exists on paper. Whether it survives the legislative process will depend on the negotiations ahead, and particularly on the outcome in the European Parliament.

The problem was never the oil. It is the label.
Here the argument is easily misread, so it is worth stating plainly. The world will keep burning oil for years while it builds the alternatives. Reasonable people can debate whether Europe is better off pumping some of its own rather than importing every barrel, and amid a run of Middle East supply shocks, that energy-security case is not frivolous. But it is a different question from the one the Council has answered.

Nobody has to call a new oil field clean in order to keep the lights on. Oil can be produced, taxed, regulated, and wound down on a schedule, without being sold to a saver as a contribution to the energy transition. The decision in front of Europe is not whether the oil comes out of the ground. It is whether pulling it out counts as sustainable investment. That is the smaller question, and the far more dangerous one.

If oil is green, nothing is
A sustainable label is not a badge of virtue. It is a piece of information. Markets run on information. A pension fund, an insurer, or a saver moving money into a green product cannot audit a company's drilling plans. They trust the label to tell them what their capital is doing. Europe's sustainably labeled fund market, worth around €10 trillion, exists because that one word is assumed to mean something specific.

Stretch the word to cover a company opening new oil fields, and it stops carrying information. If the same label sits on a wind developer and on an oil major with a 20% side project, it no longer tells them apart. The investor who wanted the real thing can no longer find it. And the company doing the genuine, expensive work of transition loses the one advantage the label was meant to confer, cheaper capital and patient shareholders who believe the plan. Economists have a plain description for markets where buyers cannot separate quality from imitation. The honest product gets crowded out, and in time nobody pays a premium for the label at all.

The damage does not stop at oil. Once extraction qualifies as transition on a one-fifth capex test, every hard-to-abate sector arrives with the same claim, coal with a capture pilot, an airline with a fuel pledge, until the category describes almost everyone, which is another way of saying it describes no one. If oil extraction is green, the honest answer to what is not green becomes very little.

The timing sharpens the risk. Sustainable investing is already on the back foot, worn down by years of greenwashing scandals, funds quietly stripped of their green labels, and a political backlash that treats ESG as an insult. The SFDR move is not an isolated event. In the same days, under pressure from the Trump administration, the World Bank retired its headline target to steer 45% of lending toward projects with climate benefits, and the International Monetary Fund’s own watchdog reported a fading focus on climate, even as the underlying programs survived. That survival was not a gift: at the World Bank, a coalition of nearly 100 countries held the line and forced the plan to continue over Washington's objection, a reminder that the pressure runs both ways. Trust in the category is the scarce resource, and the SFDR revision was written to rebuild it with clearer and stricter definitions. On this one provision, it would do the reverse. It would take the reform meant to restore the meaning of sustainable finance and spend it dissolving the meaning of the word at its center.

Europe does not have to choose between energy security and climate credibility. It can pursue both. What it cannot do is tell investors that new oil production is sustainable without changing the meaning of the word itself. The July vote decides more than the fate of one regulation. It decides whether a green label still carries information an investor can trust, and with it the integrity of the market built on that single word.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

A dupla face da China: líder na transição verde esconde uma corrida às armas nucleares


A geopolítica do século XXI fixou o olhar na China sob o signo de uma profunda contradição. Aos olhos do mundo, Pequim assume-se orgulhosamente como a locomotiva incontestável da transição energética global, liderando a produção de painéis solares, turbinas eólicas e veículos elétricos. No entanto, por trás desta fachada de vanguarda ecológica e de um soft power meticulosamente desenhado para projetar a imagem de uma potência responsável, esconde-se uma realidade consideravelmente mais sombria e bélica: uma aposta sem precedentes na expansão do seu arsenal nuclear.

Durante décadas, o regime chinês manteve uma postura de dissuasão minimalista, assegurando ao plano internacional que o seu armamento atómico servia apenas como último recurso defensivo. Contudo, sob a liderança de Xi Jinping, a China iniciou uma aceleração histórica que quebrou este antigo equilíbrio. Campos de centenas de silos para mísseis balísticos intercontinentais surgiram nas zonas remotas do oeste do país, enquanto a nova "tríade nuclear" — capaz de projetar ogivas por terra, mar e ar — passou a ser exibida com pompa militar. Para lá dos mísseis de longo curso, Pequim investe agora fortemente em mísseis hipersónicos e de teatro de operações regional, armas de "capacidade dupla" que baralham as fronteiras entre o convencional e o nuclear, elevando drasticamente o risco de um erro de cálculo global.

Esta corrida ao armamento é alimentada por uma profunda paranoia estrutural face ao Ocidente e, em particular, aos Estados Unidos. Ao observar o tabuleiro internacional e o conflito na Ucrânia, os estrategas chineses retiraram uma lição clara: a ameaça nuclear russa funcionou como um escudo eficaz para paralisar a intervenção direta da NATO no terreno. É este mesmo manual que Pequim ambiciona replicar na Ásia Oriental. O objetivo desta musculação atómica não é necessariamente desencadear o Armagedon, mas sim construir uma barreira de medo tão robusta que desencoraje qualquer intervenção norte-americana ou dos seus aliados numa eventual invasão a Taiwan.

Paralelamente, a narrativa da transição verde e o investimento massivo na energia nuclear civil servem de cobertura perfeita. Enquanto o mundo aplaude os avanços tecnológicos chineses na descarbonização, o complexo militar-industrial do país absorve recursos e tecnologia de ponta para otimizar os seus vetores de destruição. O país que se vende ao exterior como o garante da sustentabilidade do planeta prepara-se, à porta fechada, para cenários de "guerra nuclear limitada", posicionando mísseis concebidos para paralisar bases inimigas no Pacífico sob uma lógica de retaliação imediata. Esta é a verdadeira distopia chinesa: um império que lidera a transição para um futuro verde com uma mão, enquanto com a outra afia as armas que têm o potencial de extinguir o amanhã.

O documentário divide-se em três partes: 

Parte 1: Do Programa Mínimo à Expansão Histórica
  • A Parada de Pequim: a China exibiu publicamente pela primeira vez a sua "tríade nuclear" completa, demonstrando uma capacidade consolidada de lançar armas nucleares por terra, mar e ar.
  • O Ritmo da Expansão: especialistas apontam que a China se encontra no meio de uma expansão nuclear histórica. O Pentágono projeta que o país alcance as 1.500 ogivas nucleares até 2035.
  • A Motivação de Xi Jinping: o líder chinês é movido pelo receio de um confronto inevitável com o Ocidente liderado pelos EUA. A sua estratégia baseia-se no realismo estrutural: demonstrar poder para forçar as potências ocidentais a abandonarem a política de contenção contra a China.
  • A Inspiração na Rússia: Xi Jinping destacou internamente que a Rússia tomou uma decisão correta após a Guerra Fria ao manter o seu grande arsenal nuclear, o que obriga os rivais a moderar as suas políticas.
  • Os Silos de Mísseis: investigadores descobriram, através de imagens de satélite, mais de 300 silos de mísseis balísticos intercontinentais (ICBM) em construção nas zonas remotas do oeste da China. Esta foi a forma mais rápida encontrada por Pequim para expandir o seu arsenal e demonstrar a sua capacidade aos EUA.
Parte 2: O Arsenal da Nova Tríade Nuclear
  • O Vetor Aéreo: a mais recente perna da tríade é o míssil balístico lançado pelo ar, conhecido como Jinglay 1 (JL-1).
  • O Vetor Marítimo e a Geografia: os novos submarinos nucleares chineses estão equipados com o míssil Juulang 3 (JL-3), com um alcance superior a 10.000 km. A China enfrenta restrições geográficas marítimas (a "primeira cadeia de ilhas"), onde os aliados dos EUA monitorizam as saídas para o oceano. É por isso que o Mar do Sul da China e a ilha de Hainan são cruciais para esconder os submarinos. O controlo sobre Taiwan daria à China acesso direto e indetetável ao Oceano Pacífico.
  • Mísseis de Teatro de Operações (Médio Alcance): o míssil DF-26 (apelidado de "Guam Killer") tem um alcance de 4.000 km e consegue atingir as forças dos EUA no Pacífico. Estes mísseis possuem "capacidade dupla", o que significa que podem transportar tanto ogivas convencionais como nucleares. Isto gera um perigo de incerteza em tempos de crise, pois os EUA podem confundir um ataque convencional com um ataque nuclear. O DF-17 é o primeiro sistema hipersónico da China, capaz de manobrar a altas velocidades para evitar as defesas antimísseis.
Parte 3: A Doutrina Nuclear e o Risco de Guerra
  • A Lição da Ucrânia: Pequim observou que as ameaças nucleares implícitas de Vladimir Putin resultaram em impedir que a NATO enviasse tropas para o terreno na Ucrânia. A China ambiciona ter a mesma capacidade de dissuasão para evitar que os EUA intervenham num cenário de invasão a Taiwan.
  • A Política de "Não Primeiro Uso" (No First Use): oficialmente, a China mantém a política de nunca ser a primeira a utilizar armas nucleares. Contudo, existem ambiguidades: analistas indicam que Pequim tem planos para ameaçar com o uso nuclear caso alvos estratégicos convencionais no seu território sejam atacados, argumentando que a política só é tecnicamente violada se as armas forem efetivamente disparadas.
  • Lançamento sob Ataque (Launch Under Attack): com a ajuda tecnológica da Rússia, a China está a desenvolver um sistema de alerta precoce para detetar mísseis inimigos. Isto permite adotar uma postura de disparar os mísseis de volta antes que os mísseis do adversário atinjam os silos chineses. O perigo reside no risco elevado de alarmes falsos e interpretações erradas durante uma crise.
  • Guerra Nuclear Limitada: o desenvolvimento de armas regionais mostra que a China está a preparar-se para a possibilidade de uma guerra nuclear limitada com os EUA. Os estrategistas chineses pensam em alvejar bases militares americanas na região (como em Guam, Japão ou Alasca) para aterrorizar os EUA e ganhar vantagem, sem provocar uma retaliação total que leve à destruição mútua global.

sábado, 2 de maio de 2026

Novo ouro negro: há uma corrida para reciclar baterias de carros elétricos

A transição global para a mobilidade elétrica está a acontecer a um ritmo alucinante nas estradas de todo o mundo. Efetivamente, mais de um em cada quatro automóveis vendidos a nível global durante o ano de 2025 já foi totalmente elétrico, dependendo inteiramente de baterias de iões de lítio para funcionar. Por isso, surge agora um problema de proporções titânicas no horizonte. O que vamos fazer quando todos estes acumuladores de energia chegarem ao fim da sua vida útil? De facto, a pressão gigantesca sobre o acesso a minerais críticos obrigou a indústria mundial a focar-se agressivamente na tecnologia de reciclagem. É por isso que há uma corrida para reciclar baterias de carros elétricos.

Reciclar baterias de carros elétricos: o novo ouro negro
Em primeiro lugar precisas de ter a real noção dos números esmagadores que o mercado automóvel vai enfrentar muito em breve. As estimativas mais recentes apontam que cerca de 1,2 milhões de baterias de veículos elétricos vão atingir o limite das suas capacidades já em 2030, um número que vai explodir para uns assustadores 14 milhões até ao ano de 2040.

Neste sentido, um estudo revelador publicado em conjunto pela Organização Europeia de Patentes e pela Agência Internacional de Energia mostra que o mercado entrou em modo de sobrevivência. Como resultado, a inovação para a circularidade e reciclagem disparou de forma incrível. Os registos de novas tecnologias nesta área apresentaram um crescimento anual espantoso de 42% entre 2017 e 2023. Adicionalmente, este valor esmaga completamente a média de crescimento da inovação tecnológica geral, provando que descobrir formas de reaproveitar o lítio e o cobalto é a prioridade máxima das grandes indústrias.

O domínio absoluto da Ásia na tecnologia de ponta
Além disso, esta autêntica corrida ao ouro tecnológico não está a ser disputada de forma equilibrada no mapa global. A Ásia assumiu uma liderança verdadeiramente avassaladora neste setor crítico, representando atualmente 63% de todas as inovações internacionais registadas no último ano avaliado.

Por outro lado, o panorama asiático também sofreu reviravoltas internas impressionantes. Se até 2019 o mercado era totalmente dominado por gigantes japoneses e coreanos como a Toyota e a LG, o cenário mudou drasticamente. Desta forma, a empresa chinesa Brunp assumiu a liderança incontestável, impulsionando a quota global da China de uns meros 5% em 2013 para uns formidáveis 29% na atualidade.

A estratégia europeia de sobrevivência
Paralelamente, a Europa tenta encontrar o seu próprio espaço nesta guerra de patentes, representando cerca de 20% das inovações globais. Ao invés de se focar puramente no fabrico, o mercado europeu está a especializar-se fortemente na tecnologia de recolha complexa e na transformação química exata necessária para extrair as preciosas matérias-primas de baterias mortas e injetá-las em unidades novas.

Consequentemente, os especialistas máximos das agências europeias de patentes e de energia defendem acerrimamente que a competitividade futura do nosso continente depende da criação de um sistema circular robusto. A ideia central é que apenas com legislação favorável e inovação focada será possível aliviar a pressão brutal sobre as cadeias de abastecimento internacionais. Também reduzir o perigoso impacto ambiental da extração mineira tradicional.

Entretanto para apoiar este ecossistema vital, as plataformas digitais europeias já começaram a mapear ativamente o terreno. Ferramentas avançadas de rastreio tecnológico monitorizam agora de perto o trabalho brilhante de quase seis dezenas de startups. Também de universidades europeias que lutam diariamente nos laboratórios. Portanto, se a Europa quiser manter os seus carros a circular no futuro sem depender inteiramente de fornecedores externos, a única saída possível é dominar a arte de reciclar o passado. São sem dúvida tempos interessantes para quem está a apostar em reciclar baterias de carros elétricos.

Mais informações
  1. Acesso ao relatório completo: “Circularidade das baterias: tendências de inovação para uma futura fonte de materiais críticos
  2. O Estado da Inovação em Energia 2026 da AIE
  3. Plataforma de energia limpa da OEP inclui agora a circularidade das baterias
  4. Deep Tech Finder (DTF) da OEP
  5. Observatório de Patentes e Tecnologia da OEP
  6. Versão beta da cartografia de armazenamento de energia
  7. Pplware/SAPO - Baterias Usadas e Fábricas de Reciclagem: Detalhes sobre a nova megafábrica de reciclagem na Europa e o conceito de Schwarzmasse || Black Mass || Massa Negra
  8. AZoCleantech - Tecnologias de Reciclagem em 2026: Um guia técnico sobre os métodos de hidrometalurgia e reciclagem direta que estão a dominar o mercado este ano.
  9. GlobeNewswire - Mercado de Reciclagem 2026-2032: Relatório sobre o crescimento exponencial deste mercado, previsto para atingir biliões de dólares nos próximos anos.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Energia em Portugal: porque o nuclear não é (ainda) a resposta


Portugal está numa encruzilhada estratégica na energia: ou hesita perante soluções caras, lentas e controversas, como o nuclear, ou consolida a vantagem competitiva que já tem nas renováveis, tornando o sistema mais robusto e previsível. Neste momento, insistir em discutir centrais nucleares em Portugal é, acima de tudo, uma distração política e financeira face às oportunidades reais que temos ao alcance.

A eletricidade portuguesa é hoje, em larga medida, de origem renovável, com um peso crescente da eólica e da solar e um contributo histórico da hídrica. Isto já nos permite ter períodos prolongados em que a quase totalidade da eletricidade consumida é gerada por fontes limpas, ainda que, numa perspetiva anual, continuemos dependentes de térmicas e de importações. O desafio não está em “inventar” uma nova fonte centralizada de produção, mas em gerir melhor a variabilidade das fontes que já temos – algo que se resolve com redes mais inteligentes, flexibilidade e armazenamento, não com um salto para o nuclear.

Defender o nuclear em Portugal, hoje, é ignorar três fatores decisivos. Primeiro, o custo: construir uma central nuclear exige investimentos gigantescos, prazos de execução muito longos e um compromisso de décadas, num país sem tradição nem cadeia industrial nesse domínio. Segundo, a rigidez: num sistema em rápida transformação, uma tecnologia pesada, centralizada e pouco flexível encaixa mal numa rede que caminha para a descentralização e para a gestão ativa da procura. Terceiro, a oportunidade perdida: cada euro canalizado para nuclear é um euro que não é investido em mais solar, mais eólica, mais eficiência, mais armazenamento e em reforço de rede, onde temos retorno mais rápido, impacto ambiental mais positivo e alinhamento direto com as metas europeias.

Há quem argumente que, se houver financiamento europeu, o nuclear passa a ser uma opção “a considerar”. Discordo. A existência de fundos não transforma uma má prioridade numa boa decisão. O verdadeiro debate deveria ser: se temos acesso a financiamento europeu e internacional, onde é que esse dinheiro gera mais segurança energética, mais redução de emissões e mais competitividade económica? Em Portugal, a resposta é clara: reforçar renováveis, investir a sério em armazenamento (baterias, bombagem hidroelétrica, hidrogénio verde onde fizer sentido), modernizar a rede e apostar em eficiência. É aí que cada euro conta mais.

A intermitência das renováveis não é um argumento contra elas; é um desafio de engenharia de sistema. Sabemos que o sol não brilha sempre e que o vento não sopra todos os dias, mas também sabemos que já existem tecnologias maduras para armazenar energia e gerir melhor a procura: centrais de bombagem, grandes baterias, soluções de autoconsumo com storage, contratos de flexibilidade com a indústria, redes digitais que antecipam e suavizam picos de consumo. Em vez de usar a intermitência como pretexto para reabrir o dossier nuclear, devíamos usá‑la como catalisador para acelerar a transição tecnológica do sistema elétrico.

A mobilidade elétrica é outro ponto crítico. Multiplicar postos de carregamento e veículos elétricos sem garantir que a energia que os alimenta é renovável e que a rede aguenta essa nova carga é um erro estratégico. Mas, novamente, a resposta está nas renováveis e na gestão da rede: mais produção descentralizada junto dos pontos de consumo, armazenamento local em hubs de carregamento, tarifários inteligentes que deslocam carregamentos para horas de maior produção solar ou eólica. Tudo isto é mais rápido, mais modular e mais adaptável à realidade portuguesa do que um projeto nuclear que, mesmo decidido hoje, só veria eletrões na rede daqui a 15 ou 20 anos.

Adiar o debate nuclear não é ser ingénuo nem ideológico; é ser pragmático.

Num país com recursos renováveis abundantes, escala limitada e finanças públicas pressionadas, faz pouco sentido apostar numa tecnologia cara, lenta, dependente de cadeias externas e que não resolve os desafios imediatos de integração de renováveis e de modernização da rede. O que faz sentido é concentrar esforços onde o retorno é mais rápido e mais certo: sol, vento, água, armazenamento e eficiência.

Portugal já está no grupo da frente da eletricidade limpa. A pior coisa que poderíamos fazer agora era dispersar-nos numa fuga para a frente nuclear que não se ajusta à nossa realidade. O caminho, pelo menos nesta década, é claro: consolidar e aprofundar a aposta nas renováveis, construir um sistema energético resiliente e flexível e usar o debate nuclear, quando muito, como exercício de prospetiva – não como desculpa para adiar decisões que podemos e devemos tomar já.

sexta-feira, 20 de março de 2026

Quem tem medo da transição verde? O que diz o novo estudo sobre o apoio ao Pacto Ecológico Europeu

Fonte: aqui

Um relatório do  Instituto Sindical Europeu designado por Who supports a (just) green transition? chegou às seguintes conclusões:
  1. O Medo do Desemprego Verde é Real: existe uma perceção generalizada de "risco socioecológico". A preocupação com a perda de postos de trabalho devido às políticas climáticas é muito forte em todos os países analisados. Este receio afeta sobretudo as pessoas com menores rendimentos, menor nível de escolaridade e trabalhadores em situações de maior precariedade laboral.
  2. Os Impostos Verdes são os mais impopulares: o estudo divide as preferências por tipo de política e conclui que as taxas e impostos ecológicos são a medida que colhe menos simpatia junto do público. Em contrapartida, as políticas de proteção social têm um apoio massivo entre os grupos mais vulneráveis.
  3. Pontes entre o Social e o Ecológico: nem tudo é divisão. O relatório descobriu que certos grupos profissionais — e não apenas os mais privilegiados ou bem posicionados no mercado de trabalho - apoiam simultaneamente tanto as políticas ambientais como as sociais.
  4. A "Fórmula Mágica" para o apoio público: o apoio à transição verde aumenta significativamente quando o ambiente é associado a medidas de compensação social. O estudo demonstra que combinar políticas ambientais com o apoio direto aos trabalhadores e a criação de impostos sobre as grandes fortunas (wealth taxes) ajuda a reduzir os conflitos distributivos e a conquistar a opinião pública.
Conclusões Detalhadas do Relatório
O estudo baseia-se num inquérito internacional realizado em sete países europeus: Alemanha, Espanha, França, Itália, Polónia, Suécia e Reino Unido.

1. O Medo do Desemprego Afeta 1 em cada 5 Europeus: Mais de 20% dos inquiridos temem perder o emprego devido às políticas de transição ecológica. Este medo (chamado no estudo de "risco socioecológico indireto") é o grande motor da resistência política (green backlash) e afeta sobretudo os trabalhadores fabris/de produção (production workers), pessoas com menor escolaridade e baixos rendimentos.

2.O Duplo Risco: Curiosamente, o estudo descobriu uma ligação direta: as pessoas que vivem em regiões mais expostas às alterações climáticas (risco direto) são frequentemente as mesmas que mais temem perder o emprego devido às leis ambientais (risco indireto).

3. Radiografia dos Grupos Profissionais e Apoios:
  • Trabalhadores de Produção (Fábricas): Apoiam fortemente a proteção social tradicional, mas rejeitam os impostos verdes por medo do desemprego.
  • Profissionais de Escritório, Serviços de Baixa Qualificação e Setor Socio-Cultural: Apoiam tanto as políticas sociais como as ambientais. O relatório identifica-os como a base eleitoral chave para avançar com uma transição justa.
  • Gestores e Quadros Superiores (Managers): Revelaram-se o grupo mais oposto à estratégia de transição justa, rejeitando tanto a intervenção pública na área social (como impostos sobre a riqueza) como a regulação ambiental.
4. Atitude Perante as Políticas: Os subsídios verdes são as medidas mais populares em geral. Os impostos e as regulações são fortemente rejeitados pelas classes mais vulneráveis e pelos gestores, encontrando apoio quase exclusivo nos cidadãos com ensino superior.

segunda-feira, 9 de março de 2026

Mais de metade das empresas quer aumentar participação no mercado voluntário de carbono até 2030


À medida que as regulamentações ambientais, sociais e de governação (ESG) enfrentam novos desafios políticos e económicos, um novo inquérito global da SE Advisory Services — o ramo de consultoria global da Schneider Electric, empresa de tecnologia energética — aponta para uma mudança no posicionamento das empresas: os líderes empresariais e os profissionais de sustentabilidade estão a confiar cada vez mais nos créditos de carbono como instrumentos credíveis de ação climática.

De acordo com o relatório Carbon Credit Outlook 2025, dois terços das empresas já utilizam normas certificadas pela International Carbon Reduction and Offset Alliance (ICROA), enquanto 55% aplicam os Princípios Fundamentais de Carbono (CCPs) do Integrity Council for the Voluntary Carbon Market (ICVCM) para avaliar a qualidade dos projetos. Estes dados indicam que as normas, os sistemas de verificação e as infraestruturas associadas aos créditos de carbono de elevada integridade estão cada vez mais consolidados.

O que anteriormente era visto como um mercado envolto em ceticismo tem vindo a amadurecer, tornando-se mais estruturado e orientado para resultados. Segundo o estudo, 40% dos inquiridos afirma que as suas organizações já participam em atividades relacionadas com créditos de carbono, utilizando-os para gerir o risco climático, reforçar a resiliência das cadeias de abastecimento e criar valor a longo prazo.

A tendência deverá intensificar-se nos próximos anos. Mais de metade das empresas (55%) planeia aumentar a sua participação no mercado voluntário de carbono até 2030, enquanto apenas 12% afirma não integrar estes instrumentos na sua estratégia climática.

“Num contexto em que a descarbonização global exige investimentos sem precedentes — sendo que só os países em desenvolvimento necessitam de um bilião de dólares por ano até 2030 —, os créditos de carbono oferecem um mecanismo comprovado para as organizações apoiarem ações climáticas verificadas, ao mesmo tempo que constroem valor estratégico”, afirma Mathilde Mignot, diretora do grupo de Soluções Baseadas na Natureza e na Tecnologia da SE Advisory Services.

Segundo a responsável, a perceção empresarial está a mudar. “Quando quase um em cada cinco inquiridos está a desenvolver os seus próprios projetos, torna-se claro que o mercado está a ganhar dinamismo. Estas empresas reconhecem que controlar a sua própria estratégia de carbono lhes permite também controlar a sua narrativa climática”, acrescenta.

O estudo revela ainda que as empresas estão a diversificar os seus portefólios de créditos de carbono. Os créditos de remoção baseados na natureza — como projetos de florestação, reflorestação e restauração de ecossistemas — continuam a ser a prioridade para metade dos inquiridos (50%), sobretudo pelo impacto climático imediato e pelos benefícios associados à biodiversidade e às comunidades locais.

Em segundo lugar surgem os créditos de prevenção e redução de emissões, que incluem iniciativas de proteção florestal, energias renováveis e eficiência energética, priorizados por 34% das empresas. Já 16% dos inquiridos dá preferência a soluções tecnológicas ou híbridas de remoção de carbono, como a captura direta de carbono do ar (DAC), a bioenergia com captura e armazenamento de carbono (BECCS) e o biocarvão, refletindo um reconhecimento crescente do papel destas tecnologias nas estratégias climáticas de longo prazo.

Apesar do crescente interesse, persistem obstáculos à expansão do mercado. Quase metade dos participantes no inquérito (46%) identifica a falta de orientações claras sobre a integração dos créditos de carbono nas atuais estruturas climáticas como o principal entrave, enquanto 40% aponta a incerteza nas políticas governamentais.

“Os líderes empresariais estão cada vez mais confiantes na infraestrutura de qualidade que já existe, mas precisam de orientações claras sobre como os créditos de carbono voluntários complementam os sistemas de conformidade”, afirma William Theisen, diretor comercial de Soluções Baseadas na Natureza e na Tecnologia da SE Advisory Services. “Criar caminhos transparentes entre a ação voluntária e a regulamentada ou apoiada pelo governo é o próximo passo para permitir uma ação corporativa credível e em larga escala.”

Atualmente, 37 jurisdições já integram sistemas de créditos ou de fixação de preços de carbono nas suas políticas nacionais. A SE Advisory Services prevê que estes instrumentos assumam um papel cada vez mais central nas estratégias de descarbonização de empresas e governos.

O relatório destaca ainda o surgimento, em 2025, de coligações governamentais destinadas a reforçar os mecanismos do mercado voluntário de carbono e a harmonizar padrões de qualidade. Para transformar a confiança empresarial em impacto real, a consultora defende uma maior coordenação entre governos, entidades reguladoras e investidores, criando estruturas claras que permitam mobilizar capital privado na escala necessária para alcançar os objetivos globais de neutralidade carbónica.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

The Youth Movement in a Post-Growth World


Bringing about alternatives to our capitalist growth system at the speed and scale needed is no easy task. The herculean work to develop transformative worldviews, including theories toward a steady state economy, is ongoing and increasingly cross-sectoral. At the core of this endeavor is the recognition that we cannot implement alternatives to growth capitalism without first addressing cultural and social dynamics deeply rooted in colonialism and cultural appropriation.

In this context, youth movements, particularly those focusing on environmental justice, have led the way for many. Youth activists often draw clear connections among the fossil-fueled economy, extractivism in general, colonialism, and a range of other systemic issues, such as racial justice.

The Young Feminist Fund (FRIDA), for example, has established the parallel nature of several struggles for justice. They have articulated the need to stand up to ecocide and genocide and move beyond capitalism, which they see (logically enough) as linked at the hip with growth. FRIDA’s recently published report states: “Neoliberal capitalism thrives in power-over structures that keep decision-making in the hands of those with privilege, access, and wealth.”

Let’s take a closer look at the Youth Movement and assess how it might help society move beyond the capitalist growth system.

Youth Aren’t Always Radical
The Youth Movement is not a unified voice that shares the same vision of the future. Nor do youth-led organizations employ the same methods to actualize their visions. Some take a more radical approach than others. The radicality of an organization is often assessed by its relationship to power, in terms of funding as well as access to decision-making spaces and representation.

A large number of youth-led organizations take the “moderate” approach. The majority of environmental organizations are quite in line with this approach, as steady staters have long lamented. Moderate youth activists believe that, though the system is not great, it could be improved with the right champions in place or the right voices speaking on the right panels.

Youth organizations that take a moderate approach, explicitly or not, make the assumption that if enough funding flows through the right organizations, transformative change is possible. But it’s hard to imagine that reforming our economic system—based on interest-bearing debt and rooted in growth capitalism—is simply an issue of funding or access to decision-making spaces.

Vanessa Andreotti addresses the question of what it will take to transform our dying system (death being the ultimate outcome of unsustainability) in her book Hospicing Modernity. She writes about methodological, educational, and ontological (relating to being) interventions. Andreotti argues that only the latter can truly lead to systemic change.

Youth Activism and Professional-Class Liberalism
The Youth Movement has achieved a lot over the last few years. It has self-organized first at the local level, through volunteering, and grown into a global movement acting at the policy level. Throughout that time, youth activists have undergone a professionalization process, becoming highly trained.

In many ways, this is a positive development. There are more panels, workshops, and seminars with young activists (for instance at UN Climate Conferences) than ever. At these events, youth are making the case for more action to address the environmental emergency.

However, there are concerns about the Youth Movement joining the elite club of professional-class liberals. This club includes lawyers, economists, policy experts, and nonprofit executives. The global expansion of graduate and professional education has been a key driver of growth in this elite club.

The Youth Movement is organizing increasingly through the creation of non-profit organizations, sharing decision-making power with governing and advisory boards. They are also developing fundraising strategies and advocacy and communication plans. All of this makes them professional activists and members of the informal club of professional-class liberals. At what cost?

The Youth Movement is a diverse collection of individuals with different socio-economic backgrounds, lived realities, and opinions. However, only a handful of groups are made visible on the international stage. The level of visibility awarded to young activists often correlates with their willingness to adopt a “soft critique” of growth capitalism, far from the radical discourse they often come from. In other words, those in power are telling youth groups: We are willing to talk to you as long as you do not say anything to make us too uncomfortable. One gets the impression that some of the most visible youth organizations seek simply a piece of the cake, not to re-bake the cake.

Some youth-led organizations do recognize growth capitalism as the root cause of environmental breakdown. However, seldom are they equipped with a shared and coherent theory of change. They don’t have the tools to 
1) recognize biases and the ways in which they might be part of the problem; 
2) engage in decolonizing languages and narratives; and 
3) mobilize funding to sustain radical work.

YOUNGO’s latest Strategic Policy Position is an example of how the Youth Movement is stuck at methodological and epistemological levels of analysis, not reaching the ontological level necessary for systemic change. One of the organization’s most important policy recommendations is to “incorporate the participation of children and youth as agents of change, as well as considerations of intergenerational equity throughout all decision-making.” However, this promotion of youth feels weak without an alternative theoretical framework. Which youth will they prioritize for participation, and to bring about what change?

Youth inclusion should not be a goal by itself; it should be a means to an end. The end we need is a comprehensive and radical change away from the capitalist growth system.

Embracing Radicality
A “radical” approach to youth-led activism targets growth capitalism as the root cause of ecological breakdown. It also targets the cultural and social components of the capitalist growth system. For the Youth Movement to embrace radicality further, activists must develop a sharp understanding of the fundamentals of this system. They must also unlearn many of the mental projections internalized over the years, at a collective and individual level. For instance, many youth have internalized consumerism, mass advertising, and “self-exploitation,” turning their activism into a spectacle and a competition.

At the end of the day, what determines an organization’s ability to embrace radicality—and contribute to a genuine alternative—is its relationship to all forms of power. To what extent is a group identifying, calling out, and challenging the status quo? Without an analysis of power dynamics, the risk is that youth environmental groups will limit their focus to reforms that those in power approve of. They may not dedicate enough time to sensibly think, dream, and feel about a future worth fighting for.

The Youth Movement can be proud of what it has achieved. So many youth organizations focus on important issues: access to funding, decision-making spaces, and climate education, for example. But the Youth Movement must not stop here. Taking down cultural and social dynamics deeply rooted in pro-growth capitalism means asking some tough questions. What privileges am I willing to let go of? Do I actually want to change the system, or do I just feel bad about not being part of it?

We need all hands on deck to ideate new ways to equip the Youth Movement with a holistic, radical approach. To generate systemic change, young activists must be brave in their criticism of capitalism and growth.

Unfortunately, they must also get comfortable with doubt, not knowing exactly what tomorrow will look like. Fonte

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Espetacular vitória dos ecologistas galegos: a Junta da Galiza rejeita o projeto da multinacional portuguesa Altri de construir uma celulose em plena Galiza verde


O governo da Galiza negou a autorização ambiental à Altri devido à recusa do governo central em conectar a fábrica de celulose à rede elétrica.

O governo de Alfonso Rueda admite que o projeto de uma fábrica de celulose em Palas de Rei (Lugo) é inviável, após o governo central tê-lo excluído do planejamento energético do estado.

Várias pessoas seguram cartazes após uma performance em Palas de Rei (Lugo) organizada na primavera passada por moradores contrários à Altri, juntamente com a construtora Concomitentes. 

O governo da Galiza decidiu não aprovar a autorização ambiental integrada para o projeto de macrocelulose que a multinacional de papel Altri e a empresa galega de eletricidade Greenalia pretendiam instalar na cidade de Palas de Rei, em Lugo, e que nos últimos anos provocou a maior reação social vista na Galiza desde o desastre da fábrica Prestige, em 2002.

A informação foi anunciada na sexta-feira pela Ministra da Economia e Indústria do Governo de Alfonso Rueda , María Jesús Lorenzana , que se baseou na inviabilidade do projeto da empresa dirigida por José Soares de Pina, após o Governo de Pedro Sánchez ter excluído a Altri, no ano passado, dos seus planos de desenvolvimento energético para os próximos anos, privando-a, assim, da ligação à rede elétrica necessária para o seu funcionamento.

"Cabia ao governo central fornecer a ligação à empresa. O arquivamento [do processo] e sua expiração estão ligados à falta de ligação; se não houver ligação à subestação, o projeto é arquivado ", afirmou Lorenzana, acrescentando que considera "difícil" reviver a ideia da fábrica de celulose de Palas porque a próxima revisão do planeamento energético do Estado só ocorrerá em 2030.

O governo galego (Xunta) tomou a sua decisão após meses de protestos em torno de um projeto que o governo de Alberto Núñez Feijóo tentou disfarçar como uma fábrica de fibras têxteis ecológicas, mas que causou indignação na sociedade galega quando se descobriu que se tratava de uma fábrica de celulose convencional, a ser instalada numa área protegida junto a um sítio Natura 2000 e ao Caminho de Santiago, que emitiria gases e partículas tóxicas através de uma chaminé de 75 metros, equivalente às emissões de CO2 de 21.500 carros , e que extrairia 46 milhões de litros de água do rio Ulla, dos quais 30 milhões de litros, purificados mas ainda contaminados, seriam devolvidos ao aquífero que desagua no estuário do rio Arousa .

Apesar de tudo, o governo galego (Xunta) emitiu um parecer favorável sobre o impacto ambiental da Altri no ano passado , um primeiro passo que foi posteriormente condicionado à exclusão do projeto do financiamento europeu através de fundos de descarbonização que a multinacional procurava. A Ministra da Indústria, Rueda, também indicou que "esta semana" informou a empresa de que ela tem três meses, o prazo legalmente estipulado, para "justificar a ligação" que apresentou na proposta do projeto, a qual o governo central negou. Caso não o faça, " o arquivamento formal do processo da Altri será automático ".

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Podemos ir além do modelo capitalista e salvar o clima – eis os três primeiros passos



Temos uma responsabilidade urgente. O nosso sistema económico actual é incapaz de lidar com as crises sociais e ecológicas que enfrentamos no século XXI. Quando olhamos em redor, vemos um paradoxo extraordinário. Por um lado, temos acesso a novas tecnologias notáveis ​​e a uma capacidade coletiva de produzir mais alimentos, mais bens do que aqueles de que necessitamos ou do que o planeta pode suportar. No entanto, ao mesmo tempo, milhões de pessoas sofrem em condições de extrema privação.

O que explica este paradoxo? O capitalismo. Por capitalismo, não nos referimos aos mercados, ao comércio e ao empreendedorismo, que existem há milhares de anos, muito antes do aparecimento do capitalismo. Por capitalismo, referimo-nos a algo muito peculiar e específico: um sistema económico que se resume a uma ditadura controlada por uma ínfima minoria que detém o capital – os grandes bancos, as grandes corporações e o 1% que detém a maior parte dos ativos investíveis. Mesmo vivendo em democracia e tendo opções no nosso sistema político, as nossas escolhas nunca parecem alterar o sistema económico. São os capitalistas que determinam o que produzir, como utilizar a nossa força de trabalho e quem beneficia. O resto de nós – as pessoas que de facto produzem – não tem voz.

Para o capital, o objectivo primordial da produção não é satisfazer as necessidades humanas ou alcançar o progresso social, muito menos atingir metas ecológicas. O objetivo é maximizar e acumular lucro. Esse é o objetivo primordial. Esta é a lei capitalista do valor. E para maximizar os lucros, o capital exige um crescimento perpétuo – produção agregada sempre crescente, independentemente de ser necessária ou prejudicial.

Assim, acabamos com formas irracionais de produção como resultado: temos a produção em massa de coisas como SUVs , mansões e moda rápida, porque estas coisas são altamente lucrativas para o capital, mas uma subprodução crónica de coisas obviamente necessárias, como habitação pública e transportes públicos, porque estas são muito menos lucrativas para o capital, ou não lucrativas de todo.

O mesmo acontece com a energia. As energias renováveis ​​já são muito mais baratas do que os combustíveis fósseis. Infelizmente, os combustíveis fósseis são até três vezes mais rentáveis ​​. Assim, o capital obriga os governos a ligar os preços da electricidade ao preço do gás natural liquefeito mais caro, e não ao da energia solar barata. Da mesma forma, a construção e manutenção de autoestradas é muitas vezes mais rentável para os empreiteiros privados, fabricantes de automóveis e companhias petrolíferas do que uma moderna rede de caminhos-de-ferro públicos seguros e de alta velocidade. Por conseguinte, os capitalistas continuam a pressionar os nossos governos para subsidiar os combustíveis fósseis e a construção de estradas, mesmo enquanto o mundo arde.

Desde a eleição de Donald Trump, muitas grandes empresas de investimento abandonaram com entusiasmo os seus compromissos climáticos , que, em prol do bem comum, tinham limitado a sua rentabilidade. Este deveria ser um momento esclarecedor para todos nós: o capitalismo preocupa-se com as perspectivas da nossa espécie tanto quanto um lobo se preocupa com as de um cordeiro.

E aqui estamos nós: presos às prioridades do capitalismo, que são incompatíveis com as da humanidade. O engenho humano legou-nos tecnologias e capacidades esplêndidas. Mas, como divindade cruel, o capital não só nos impede de as utilizar para o nosso bem colectivo, como também nos obriga a empregá-las para a nossa ruína colectiva.

O sistema também nos prende em ciclos intermináveis ​​de violência imperialista. A acumulação de capital nas economias avançadas depende de inputs maciços de mão-de-obra barata e de recursos naturais do Sul global. Para manter este arranjo, o capital utiliza todas as ferramentas ao seu dispor – dívida, sanções, golpes de Estado e até invasões militares directas – para manter as economias do Sul subordinadas.

A solução está mesmo à frente dos nossos olhos. Precisamos urgentemente de ultrapassar a lei capitalista do valor e democratizar a nossa economia, para que possamos organizar a produção em torno de prioridades sociais e ecológicas urgentes. Afinal, somos os produtores dos bens, dos serviços e das tecnologias. É o nosso trabalho e os recursos do nosso planeta que estão em causa. Por isso, devemos reivindicar o direito de decidir o que é produzido, como e com que finalidade.

Como pode ser feito? Existem três condições necessárias para a transformação da nossa economia, de uma ditadura sem futuro para uma economia democrática, funcional e ecologicamente sustentável.

A primeira condição é uma nova arquitectura financeira que penalize “investimentos” privados destrutivos e possibilite o financiamento público para fins públicos. No cerne desta arquitectura, precisamos de um novo banco público de investimento que, em associação com os bancos centrais, converta a liquidez disponível em tipos de investimento compatíveis com a prosperidade comum e sustentável.

A segunda condição é a utilização extensiva da democracia deliberativa para decidir metas sectoriais, regionais e nacionais (por exemplo, em relação ao crescimento ou mesmo à redução de diferentes produtos) para as quais as novas ferramentas de financiamento público serão dirigidas.

E a terceira condição é uma Grande Lei de Reforma Corporativa com o objetivo de democratizar as corporações, favorecendo e promovendo a formação de empresas geridas segundo o princípio de um funcionário, uma ação, um voto.

Vivemos à sombra do mundo que poderíamos criar. Um mundo no qual seríamos capazes de evitar um colapso ecológico quase certo, em vez de estarmos à espera que o capitalismo nos empurrasse para além do ponto de não retorno. Um mundo onde a abolição da insegurança económica, da precariedade, da pobreza, do desemprego e da indignidade seja possível, enquanto levamos vidas com sentido dentro dos limites planetários. Isto não é um sonho distante. É uma perspectiva tangível.

Jason Hickel é professor na Universidade Autónoma de Barcelona e investigador sénior visitante na LSE. 

Yanis Varoufakis é o líder do MeRA25, antigo ministro das Finanças e autor de Tecnofeudalismo: O Que Matou o Capitalismo .

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Carbofascismo, Transição Verde e o ICNF

No discurso final de Davos, os principais actores mundiais (Donald Trump,Mark Carney,Emmanuel Macron,Friedrich Merz,Ursula Leyen,Volodymyr Zelensky) não disseram uma palavra sequer sobre a crise climática.

Quanto a Portugal não me escapa comentar o recente episódio das declarações do Ministro da Agricultura, enviadas via vídeo aos dirigentes do ICNF. Quando a tutela sugere um caminho de maior agilidade que resvala no facilitismo, o que está em causa não é apenas um deslize comunicacional, mas um sinal político perigoso que ameaça a autonomia da conservação da natureza em Portugal.

𝐎 𝐅𝐚𝐜𝐢𝐥𝐢𝐭𝐢𝐬𝐦𝐨 𝐜𝐨𝐦𝐨 𝐑𝐢𝐬𝐜𝐨: 𝐚 m𝐢𝐬𝐬𝐚̃𝐨 𝐝𝐨 𝐈𝐂𝐍𝐅 𝐧𝐚̃𝐨 𝐞́ 𝐝𝐞𝐬𝐩𝐚𝐜𝐡𝐚𝐫 𝐏𝐫𝐨𝐜𝐞𝐬𝐬𝐨𝐬
A Integridade do "Não"
É urgente reafirmar o óbvio: o ICNF não é uma agência de promoção de investimentos. A sua função primordial é o escrutínio rigoroso. No equilíbrio ecológico, a reprovação de um projeto não representa um bloqueio ou uma falha de sistema; pelo contrário, é frequentemente o maior indicador de que as salvaguardas ambientais estão a funcionar.

O ICNF existe para: avaliar, monitorizar e garantir o cumprimento da lei.
O ICNF não existe para: "acelerar" processos à custa da fundamentação técnica ou "facilitar" licenciamentos em nome do crescimento económico imediato.

A erosão da Autoridade Técnica
Pressionar, ainda que de forma implícita, para que se aprove mais ou se decida mais rápido, desvirtua a missão institucional e fragiliza a autoridade científica dos técnicos que estão no terreno. Quando a política tenta ditar o ritmo à biologia e ao direito ambiental, quem perde é o património natural do país. A missão do ICNF é proteger o território, e essa proteção exige o tempo e o rigor que a lei impõe — sem atalhos.

Não podemos nem devemos aceitar os apelos nacionalistas e de eugenia. O tempo dos recuos nacionalistas esgotou-se perante a emergência climática. Em 2026, a soberania reside na capacidade de tecer alianças transfronteiriças. A nossa única saída é a construção de uma ecologia política comum, fundamentada na transparência e numa economia que respeite, finalmente, os limites planetários.

domingo, 11 de janeiro de 2026

Ataque directo: Trump reverte avanços na acção climática nos primeiros 10 dias de 2026



Passados apenas 10 dias de 2026, Donald Trump já lançou uma série de ataques sucessivos ao clima.

A administração dos EUA tem vindo a afastar-se gradualmente de reconhecer o seu envolvimento na crise climática ou de a enfrentar, apesar de ser o segundo maior emissor anual de gases com efeito de estufa e, historicamente, o maior contribuinte para o aquecimento global.

No ano passado, os EUA não enviaram qualquer delegação às negociações da COP30 e, desde então, apagaram todas as referências a combustíveis fósseis do site da sua Agência de Proteção Ambiental. Entretanto, Trump tem criticado o boom das energias renováveis e levado a sua atitude "drill baby drill" ao plano global.

Eis um resumo do que o Presidente dos EUA fez até agora, com menos de duas semanas de 2026.

EUA retiram-se de tratado climático da ONU

Esta semana, o Presidente foi acusado de "descer a um novo mínimo" depois de retirar os EUA de um tratado climático crucial numa retirada abrangente das instituições globais.

Num Memorando Presidencial assinado a 7 de janeiro, Trump argumentou ser "contrário aos interesses dos EUA" permanecer membro, participar ou prestar apoio a mais de 60 organizações, tratados e convenções internacionais.

Isto inclui a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (UNFCCC), que visa estabilizar as emissões de gases com efeito de estufa, e o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC), a principal autoridade mundial em ciência do clima.

"Numa altura em que a subida do nível do mar, o calor recorde e desastres mortais exigem ação urgente e coordenada, o governo dos EUA escolhe recuar", afirma Rebecca Brown, presidente e CEO do Center for International Environmental Law (CIEL).

"A decisão de retirar financiamento e sair da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (UNFCCC) não absolve os EUA das suas obrigações legais de prevenir as alterações climáticas e reparar os danos climáticos, como o mais alto tribunal do mundo deixou claro no ano passado".

Venezuela: controlo do petróleo
Após forças especiais dos EUA terem capturado o Presidente da Venezuela e a sua mulher numa operação relâmpago, Trump mostrou claro interesse nas reservas de petróleo.

A Venezuela detém as maiores reservas provadas de petróleo bruto do mundo, estimadas em 303 mil milhões de barris (Bbbl), superando petroestados como a Arábia Saudita e o Irão.

Trump confirmou de imediato que os EUA estariam "muito fortemente envolvidos" na indústria petrolífera do país, com planos para enviar grandes empresas norte-americanas para reparar a infraestrutura petrolífera da Venezuela e "começar a fazer dinheiro para o país". Numa entrevista a 8 de janeiro, disse que os EUA poderiam explorar as reservas de petróleo da Venezuela durante anos.

"Numa era de agravamento acelerado da crise climática, cobiçar as vastas reservas de petróleo da Venezuela desta forma é simultaneamente imprudente e perigoso", diz Mads Christensen, da Greenpeace International.

"O único caminho seguro passa por uma transição justa longe dos combustíveis fósseis, que proteja a saúde, salvaguarde os ecossistemas e apoie as comunidades, em vez de as sacrificar por lucros de curto prazo".

Novas orientações alimentares
Os Departamentos de Saúde e Serviços Humanos e da Agricultura dos EUA foram alvo de críticas após publicarem as orientações alimentares de 2026, que incentivam as famílias norte-americanas a privilegiarem dietas assentes em "alimentos integrais e densos em nutrientes".

A nova pirâmide alimentar coloca uma imagem de um bife de vaca e carne de vaca picada no topo, na secção "proteína", apesar de a carne de vaca ser responsável por emissões de gases com efeito de estufa 20 vezes superiores por grama de proteína do que alternativas de base vegetal, como feijões e lentilhas.

Nenhum destes alimentos surge na pirâmide alimentar, mas ambos são referidos nas orientações completas.

"Embora existam muitas formas de satisfazer as nossas necessidades de proteína, nem todas as fontes de proteína têm o mesmo impacto nas pessoas ou no planeta", afirma Raychel Santo, investigadora de alimentação e clima no World Resources Institute (WRI).

"A carne de vaca e o borrego, em particular, têm alguns dos custos ambientais mais elevados entre os alimentos ricos em proteína, com emissões de gases com efeito de estufa, uso do solo e poluição da água significativamente superiores por onça de proteína face à maioria das alternativas".

Bloqueio de Trump às renováveis
No ano passado, a administração Trump suspendeu concessões em todos os projetos eólicos offshore nos EUA, invocando preocupações de segurança nacional. A medida travou trabalhos em cinco locais, incluindo os parques Revolution Wind e Sunrise Wind da Ørsted, bem como áreas de empresas como a Equinor e a Dominion Energy.

Segue-se à crítica constante de Trump às energias renováveis, que já descreveu como a "burla do século". Mas a decisão teve consequências dispendiosas que transitaram para o novo ano.

Na semana passada, Ørsted apresentou uma ação judicial contra a suspensão do governo dos EUA, argumentando que já tinha obtido todas as licenças federais e estaduais exigidas em 2023. O seu projeto Sunrise Wind deverá custar ao promotor mais de 1 milhão de dólares por dia (cerca de 859 100 euros).

O Departamento do Interior afirmou, em dezembro, que a pausa daria ao governo "tempo para trabalhar com concessionários e parceiros estaduais na avaliação da possibilidade de mitigar os riscos de segurança nacional colocados por estes projetos".

Interesse de Trump na Gronelândia
A obsessão crescente de Trump com a Gronelândia suscitou preocupações entre ambientalistas relativamente aos seus recursos minerais críticos, vistos como "essenciais" para a transição para a energia verde.

Um levantamento de 2023 concluiu que 25 dos 34 minerais considerados "matérias-primas críticas" pela Comissão Europeia foram encontrados na Gronelândia. Estima-se que o território detenha entre 36 e 42 milhões de toneladas métricas de óxidos de terras raras, o que o torna a segunda maior reserva depois da China.

Explorar estes recursos poderia ajudar os EUA a reduzir a dependência da China, que atualmente processa mais de 90 por cento dos minerais de terras raras do mundo, e reforçar a posição dos EUA à medida que a procura aumenta.

Desde o primeiro mandato, Trump tem procurado responder a este tema, aprovando leis para aumentar a produção mineral norte-americana e intensificando a mineração em mar profundo, tanto em águas dos EUA como em águas internacionais.

No entanto, alguns especialistas acreditam que as reservas minerais da Gronelândia podem ser apenas uma cortina de fumo para os verdadeiros motivos de Trump.