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quinta-feira, 21 de maio de 2026

O Prémio ao Cimento: Cavaco Silva e o "Whitewashing" à Europeia


Bom dia. Acordei a meio da noite para ir à casa de banho e, na ingenuidade de quem acha que consegue controlar tudo (inclusive o tempo), dei uma espreitadela no telemóvel com o intuito de voltar a adormecer... O resto é algo que podem imaginar — algumas horas de sono perdidas. Li esta notícia: "
Cavaco Silva condecorado com a Ordem Europeia do Mérito em Estrasburgo" - fui de imediato ver se era alguma partida de 1 de abril ou mais uma "exclusividade" da edição digital da Folha Nacional - que, para quem anda distraído, é o jornal oficial e o órgão de propaganda do partido Chega. Mas nem uma coisa, nem outra. Aconteceu mesmo!
Logo hoje, que eu ia usar o meu precioso tempo para falar das escolhas (fortemente questionáveis) do selecionador nacional para o Mundial de 2026... Quero que saibam que estou desde as 05:30 (e já passa das 08:00!) a escrever este texto. Porquê? Porque me dei ao hercúleo trabalho de procurar algo que este homem tenha feito para merecer tamanha distinção. Confesso que de pouca coisa me lembrava; tive de fazer arqueologia política, escavar muito numa rocha a que chamam de Google, isto para não fazer má figura, nem enganar ninguém.
Meus amigos, aconteceu terça-feira, na cidade de Estrasburgo, França, Europa — a uns 2.000 quilómetros de Lisboa. No meio de palminhas ensaiadas e sorrisos amarelos, a Múmia de Boliqueime — aquele ser de uma modéstia ímpar que dizia que "nunca tinha dúvidas e raramente se enganava" — recebeu uma medalha do tamanho do seu ego chamada Ordem Europeia do Mérito. Sim, deram-lhe um prémio daqueles grandes, com fitinha dourada e tudo!
E quem melhor para receber um prémio da Europa do que o nosso Doutor Alcatrão, o homem que transformou Portugal num parque de estacionamento gigante? A escolha foi feita por um júri de líderes europeus e, vejam bem a ironia, um deles era Durão Barroso. Alguém que não o conhece de lado nenhum, nem nunca tinha ouvido falar dele, decidiu dar nota positiva ao morto-vivo da nossa política. E lá estava ele, parecia preso por arames (pelas fotos que acompanham a notícia), a receber a medalha ao lado de figuras de relevo mundial, como a alemã Angela Merkel — a "Chanceler de Ferro", também conhecida por "Mamãzinha" no tempo em que controlava os seus subalternos europeus. Imagino a conversa de circunstância em "bom alemão"...
Se bem se lembram, enquanto os outros mandavam de facto nos seus países, o "Bolo Rei" do nosso orçamento limitou-se a gerir o alcatrão de estradas como a A1 e a EN125. Os chefes da Europa acham que ele mereceu o prémio por nos enfiar na UE, mas nós cá na paróquia lembramo-nos bem do que ele fez nos anos 80 e 90 — pormenores que a medalha finge esquecer. Foi a autêntica loucura do betão. Entrou tanto dinheiro vindo de Bruxelas e, em vez de modernizar o país, construir escolas de futuro e hospitais, o agora medalhado gastou quase tudo em autoestradas para podermos viajar mais depressa e gastarmos mais combustível.
Depois, veio o crime no setor primário: o governo aceitou as ordens de Bruxelas de cabeça baixa e trocou os nossos barcos e campos por subsídios para pescadores e agricultores ficarem em casa a ver as telenovelas. O interior esvaziou e passámos a comprar tomates a Espanha com o dinheiro que vinha de fora (porque os nossos já tinham ido à vida). Ainda hoje não os temos.
Para além disso, privatizou bancos e empresas estatais quase às escondidas, num número  de magia financeiro. E quem esquece aquele feitio altivo, com laivos pidescos? Um chefe teimoso e prepotente que ignorou a revolta do buzinão da Ponte 25 de Abril e os protestos dos estudantes contra as propinas. A brilhante ideia de mandar polícias avançar à força contra os seus próprios colegas - a que deram  ao episódio os "Secos e Molhados" — um espetáculo absolutamente lastimável. E, claro, como o homem gostava de silêncio, houve até espaço para a censura, ao proibir um livro do nosso único Nobel da Literatura, José Saramago.
Não esquecendo que essa múmia também não quis dar uma pensão a Salgueiro Maia. Não esquecendo que essa múmia também, umas semanas antes do BES ter entrado em falência, disse sem hesitação que o BES era um banco seguro. E por coincidência o genro dele de nome António Montez ganhou a compra, por proposta em "carta fechada" da atual MEO Arena, quando essa personagem estava falida. 
Durante os seus mandatos presidenciais, a par da governação PSD/CDS-PP liderada por Passos Coelho, o país implementou as duras medidas de austeridade associadas ao resgate da Troika, um rumo que Cavaco Silva chancelou. 
Mas a internet não perdoa e o timing é cruel. Enquanto o para mim "inexpressivo de Boliqueime" subia ao palco todo vaidoso a receber o metal, o feed das redes sociais dava atenção a um jovem, em França, que saltou para um rio perigoso para salvar um pato bebé. A piada faz-se mesmo sozinha: um rapaz arrisca a vida por um patinho indefeso, enquanto a Europa dá uma medalha de ouro ao agora surdo-mudo Cavaco - o homem que usou a força do cimento para empurrar a nossa agricultura e a nossa pesca para o fundo do poço.
Parabéns! Eu não, mas a Europa agradece penhoradamente por nos teres deixado permanentemente agarrados ao soro deles.
Texto adaptado de Luís Santos

sábado, 21 de setembro de 2024

Não aos Eucaliptos: Veiga de Lila, 34 anos depois


Ler Há 28 anos um povo lutou contra os eucaliptos. E a terra nunca mais ardeu (Notícias Magazine, 2017)


Em 1989 houve uma guerra no vale do Lila, em Valpaços. Centenas de pessoas juntaram-se para destruir 200 hectares de eucaliptal, com medo que as árvores lhes roubassem a água e trouxessem o fogo. A polícia carregou sobre a população, mas o povo não se demoveu.
A 31 de março de 1989 o povo de Valpaços invadiu uma quinta no vale do Lila para arrancar os 200 hectares de eucalipto que a Soporcel tinha plantado na região. [Arquivo JN]
«Foi o nosso 25 de Abril», diz Maria João Sousa, que tinha 15 anos quando a revolução chegou à sua terra. No dia 31 de março de 1989, a rebate do sino, 800 pessoas juntaram-se na Veiga do Lila, uma pequena aldeia de Valpaços, e protagonizaram um dos maiores protestos ambientais que alguma vez aconteceram em Portugal.
A ação fora concertada entre sete ou oito povoações de um escondidíssimo vale transmontano, e depois juntaram-se ecologistas do Porto e de Bragança à causa. Numa tarde de domingo, largaram todos para destruir os 200 hectares de eucalipto que uma empresa de celulose andava a plantar na quinta do Ermeiro, a maior propiedade agrícola da região.
À sua espera tinham a GNR, duas centenas de agentes. Formavam uma primeira barreira com o objetivo de impedir o povo de arrancar os pés das árvores, mas eram poucos para uma revolta tão grande.
A polícia respondeu com uma carga à população, mas revelou-se incapaz de travar os avanços de 800 populares sobre a propriedade. [Arquivo JN]
«Naquele dia ninguém sentia medo. Eles atiravam tiros para o ar e parecia que tínhamos uma força qualquer a fazer-nos avançar», lembra Maria João Sousa.
Maria João, que nesse dia usava uma camisola vermelha impressa com a figura do Rato Mickey, nem deu pelo polícia que lhe agarrou no braço. «Ide para casa ver os desenhos animados», atirou-lhe, mas a rapariga restaurou a liberdade de movimentos com um safanão: «Estava tão convicta que não sentia medo nenhum. Naquele dia ninguém sentia medo nenhum. Eles atiravam tiros para o ar e parecia que tínhamos uma força qualquer a fazer-nos avançar.»
A tensão subiria de tom ao longo da tarde. «Houve ali uma altura em que pensei que as coisas podiam correr para o torto», diz agora António Morais, o cabecilha dos protestos. Havia agentes de Trás os Montes inteiros, da Régua e de Chaves, de Vila Real e Mirandela.
Mas também lá estava a imprensa, e ainda hoje o homem acredita que foi por isso que a violência não escalou mais. Algumas cargas, pedrada de um lado, cacetadas do outro, mas nada que conseguisse calar um coro de homens e mulheres, canalha e velharia: «Oliveiras sim, eucaliptos não».
«Não queríamos arder aqui todos»
A guerra tinha começado a ser preparada um par de meses antes, quando António Morais, proprietário de vários hectares de olival no Lila, percebeu que uma empresa subsidiária da Soporcel se preparava para substituir 200 hectares de oliveiras por eucaliptal para a indústria do papel. «Tinham recebido fundos perdidos do Estado para reflorestar o vale sem sequer consultarem a população», revolta-se ainda, 28 anos depois.
«Nessa altura o ministério da agricultura defendia com unhas e dentes a plantação de eucalipto.» Álvaro Barreto, titular da pasta, fora anos antes presidente do conselho de administração da Soporcel e tornaria ao cargo em 1990, pouco depois das gentes de Valpaços lhe fazerem frente.
António Morais foi o cabecilha dos protestos. Percorrendo as aldeias depois da missa foi convencendo o povo que o lucro fácil trairia prejuízos a médio prazo.
«A tese dominante dos governos de Cavaco Silva era que urgia substituir o minifúndio e a agricultura de subsistência por monoculturas mais rentáveis, era preciso rentabilizar a floresta em grande escala», diz António Morais. O eucalipto adivinhava-se uma solução fácil.
Crescia rápido e tinha boas margens de lucro. Portugal, aliás, ganharia em poucos anos um papel de destaque na indústria de celulose e os pequenos proprietários poderiam resolver muitos problemas de insolvência abastecendo as grandes empresas com uma floresta renovada. A teoria acabaria por vingar em todo o país, sobretudo no interior centro e norte. Mas não em Valpaços.
«Numa região onde a água é tudo menos abundante, teríamos [por causa do eucalipto] problemas de viabilidade das outras culturas», diz António Morais.
«Comecei a ler coisas e percebi que o eucalipto nos traria grandes problemas», continua António Morais. «Por um lado, numa região onde a água é tudo menos abundante, teríamos grandes problemas de viabilidade das outras culturas. Nomeadamente o olival, que sempre foi a riqueza deste povo. E depois havia os incêndios, que eram o diabo. São árvores altamente combustíveis e que atingem uma altura muito grande.»
Na terra quente transmontana o ano são oito meses de inverno e quatro de inferno. O fogo, tinha ele a certeza, chegaria com aquele arvoredo.
Uns meses antes da guerra, começou a conversar sobre o seu medo com algumas das mais relevantes personalidades do vale. Grandes proprietários, políticos da terra, as famílias mais reconhecidas. «Lentamente começou a formar-se um consenso de que o lucro fácil do eucalipto seria a médio prazo a nossa desgraça. Não queríamos deixar secar a nossa terra. E não queríamos arder aqui todos. Tínhamos de destruir aquele eucaliptal, custasse o que custasse.»
Anatomia da conspiração


O núcleo duro estava formado, era constituído por dezena e meia de agricultores capazes de mobilizar o resto do povo. «Aos domingos, íamos às aldeias e no fim da missa explicávamos às pessoas o que podia acontecer à nossa terra», lembra Natália Esteves, descendente de uma família de grandes produtores de azeite feita de repente líder de protesto ecológico. «E também íamos de casa em casa, esclarecer quem não tinha estado nas assembleias.»
Ao início houve renitência, a madeira valeria sempre mais do que a azeitona, e a castanha ainda não rendia o que rende hoje. «Mas tentámos sempre centrar a conversa no que aconteceria daí a uns anos, dizer que os eucaliptos secariam os solos e o povo ficaria refém de uma única cultura, que se alguma coisa corresse mal não teriam mais nada.»
João Sousa esteve na organização dos protestos à socapa, era presidente da freguesia da Veiga do Lila. «Dizem que somos um povo sem educação mas afinal nós é que estávamos certos.»
O que mais assustava aquela gente, no entanto, era o fogo. «Onde há eucalipto, tudo arde. E então o povo já não chamava a árvore pelo nome, mas por fósforos.» A primeira batalha estava ganha: tinham o apoio da população.
João Sousa era nessa altura presidente da junta da Veiga do Lila. «Oficialmente não podia dizer que era contra os eucaliptos, nem ir contra a polícia. Mas, quando falava com as pessoas, dizia-lhes o que haviam de fazer», conta agora com uma gargalhada e sem ponta de medo.
«Vê, nem um eucalipto plantado. E o nosso vale há mais de 30 anos que não arde», diz João de Sousa.
«Então se tínhamos o melhor azeite do país íamos dar cabo dele para enriquecer uns ricalhaços de fora?» Tem 86 anos e uma destreza de 30, hoje estuga o passo para mostrar a zona que podia ter sido caixa de fósforos. «Vê, nem um eucalipto plantado. E o nosso vale há mais de 30 anos que não arde. Se o povo não se tem unido hoje estávamos a viver a mesma desgraça que vimos por esse país fora.»
Essa é aliás a conversa mais recorrente por estes dias no vale do Lila. A tragédia florestal portuguesa dá a este povo a impressão que eles sim, tinham razão há muitos anos, quando o governo e as autoridades lhes diziam o contrário.
«Podem achar que somos gente do campo, sem educação nem conhecimento, mas nós cá soubemos defender a nossa terra», diz o velhote. «Temos chorado muito por esta gente que perdeu vidas e animais e casas. E há uma coisa que o meu povo sabe: se temos deixado ficar os eucaliptos, também hoje choraríamos pelos nossos.»
A guerra
Há uns dias que os combates tinham começado. Ataques furtivos do povo, desorganizadamente, para arrancar pés de eucalipto nos limites do Ermeiro. Duas semanas antes da guerra, no Domingo de Ramos, as coisas aqueceram.
«Juntámos duas centenas de pessoas aqui destas aldeias e os donos da empresa chamaram a GNR», lembra António Morais. «Quando eles chegaram já tínhamos dado cabo de uns bons 50 hectares de eucaliptal.» Nesse dia não houve confrontos, porque o povo fugiu. Mas anunciaram a alto e bom som que voltariam depois da Páscoa.
Esse ataque tinha feito notícia no Jornal de Notícias e trazido uma mão-cheia de jornalistas à terra, nomeadamente Miguel Sousa Tavares, da RTP. «Percebi que as coisas estavam a tornar-se muito grandes e foi então que contactei a Quercus. Precisávamos de ajuda.»
A 31 de março de 1989 o povo de Valpaços invadiu uma quinta no vale do Lila para arrancar os 200 hectares de eucalipto que a Soporcel tinha plantado na região. [Arquivo JN]
Do outro lado da linha atendeu Serafim Riem, que dirigia o núcleo do Porto da organização ambientalista. O ecologista partiu imediatamente para o terreno. Nesses dias ouviriam do parlamento em Lisboa várias palavras de solidariedade. Sobretudo do PCP, d’Os Verdes e de um jovem deputado socialista chamado José Sócrates.
Agora não valia a pena esconder mais nada. A 31 de março de 1989, domingo depois da Páscoa, o povo juntar-se-ia todo na Veiga do Lila para dar cabo do eucaliptal que restasse. A aldeia enchera-se de jornalistas, havia até um helicóptero a cobrir os acontecimentos do ar.
A direção nacional da Quercus demarcar-se-ia da organização dos protestos através de um comunicado, mas os núcleos do Porto e Bragança encheriam cada um o seu autocarro de ambientalistas carregados de cartazes. Às duas da tarde o sino começou a tocar a rebate. Oito centenas de vozes entoavam «oliveiras sim, eucaliptos não» e largaram por um caminho de terra batida para a quinta do Ermeiro.
Numa hora, foram arrancados 180 hectares de pequenas árvores. «Alguns gozavam com os agentes na cara e levaram umas bastonadas», recorda Natália Esteves.
Não era preciso usar enchadas nem sacholas, os eucaliptos tinham sido plantados há pouco tempo e arrancavam-se com as mãos. A polícia tentava fazer uma linha de defesa, mas duas centenas de agentes não chegavam para aquela gente toda.
Numa hora, foram arrancados 180 hectares de pequenas árvores. «Alguns gozavam com os agentes na cara e levaram umas bastonadas das boas», recorda Natália Esteves. Os que eram de perto diziam-lhes assim: «Tendes razão, por isso vamos fingir que não vemos.» Viravam as costas e o povo ia subindo o terreno.
Num instante, o casario da quinta tornava-se no último reduto da investida. Uma dezena de guardas saíram a cavalo, era demonstração de força mas não surtiu resultado. A Soporcel tinha construído socalcos para plantar os eucaliptos e, agora, os animais não conseguiam descê-los.
«O povo ia atirando pedras aos guardas, houve um que acertou no cavalo e mandou-o abaixo», diz João Morais. Foi nesse momento que entrou em campo o corpo de intervenção, disposto a levar toda a gente pela frente. «Aí as coisas podiam ter descambado definitivamente.»
Todos por um
A guarda especializada avançava agora colina abaixo com escudos e capacetes. José Oliveira, um agricultor da pequena aldeia de Émeres, tentou escapar pela lateral, mas foi logo caçado pela guarda. No bolso trazia um revólver e foi isso que o tramou. «Levaram-no logo detido para dentro do jipe por posse de arma ilegal», conta agora a sua viúva, Ester.
Aquela detenção marcaria o início do fim da guerra. «As pessoas tinham recuado por causa do corpo de intervenção, mas quando se aperceberam que um dos nossos estava preso começaram a gritar que não arredariam pé enquanto ele não fosse solto», diz João Morais. Ester anui, «foi o vale inteiro que salvou o meu homem.» Agora já não havia pedras, havia gritos. Que libertassem o tio Zé e rápido.
Ester Oliveira viu o marido, José Oliveira, ser detido durante os confrontos por posse de arma ilegal. «Foi o povo que o salvou por dizer que não arredava pé enquanto ele não fosse libertado.»
Serafim Reim, o homem da Quercus, é que foi lá negociar a libertação com os guardas. Sobravam menos de 20 hectares de eucalipto, o povo deixá-los-ia em paz se soltassem o velhote. Uma hora depois, houve consenso. Identificaram José Oliveira, caçaram-lhe a arma e mais tarde levaram-no a tribunal, mas naquele dia saiu pelo seu pé para os braços da mulher, e daí para casa.
António Morais, Natália Esteves, João Sousa e mais uma dezena de organizadores do protesto também seriam chamados à barra da justiça, um ano depois enfrentaram acusação de invasão de propriedade privada e foram condenados com pena suspensa.
«Ainda vieram uns engenheiros da Soporcel dizer que retirariam a queixa se nos comprometêssemos a não destruir uma nova plantação de eucalipto. Disse-lhes que nem pensar, aqui nunca teríamos árvores dessas no nosso vale.»
Nas noites seguintes arrancou-se à socapa quase tudo o que faltava, ficaram apenas meia dúzia de hectares a rodear o casario da quinta, mais passível de vigia. A Soporcel acabaria por desistir e vender a propriedade e a família que a comprou, quando ousou confessar a Natália Esteves que pensavam plantar eucaliptos, foram logo avisados: «Se os botais nós os arrancamos.»
«A única maneira de travar os incêndios em Portugal é reduzir o eucaliptal e substituí-lo pela floresta autóctone», diz o ambientalista Serafim Riem.
Hoje, o Ermeiro é terra de nogueiras e amendoeiras, oliveiras e pinho. Nunca ardeu. Serafim Riem, o ambientalista da Quercus, diz que até hoje a guerra do povo de Valpaços é um marco, a maior ligação jamais vista no país entre o mundo rural e o ativismo ecológico.
«A única maneira de travar os incêndios em Portugal é reduzir drasticamente o eucaliptal e substituí-lo pela floresta autóctone, que não só tem melhor imunidade ao fogo como gera uma riqueza mais diversificada para as populações.»
Naquele 31 de março de 1989, o povo uniu-se e, diz agora, salvou-se. «Nós é que tínhamos razão», repetem uma e outra vez, repetem todos. Às seis da tarde, depois de José Oliveira ser libertado, um vale inteiro voltou pelo mesmo caminho e juntou-se no principal largo de Veiga do Lila. Mataram-se dois borregos e um leitão, abriram-se presuntos e deitaram-se alheiras à brasa, houve até quem trouxesse uma pipa de vinho. A festa durou noite dentro e foi maior do que qualquer romaria de Santa Bárbara.
À volta da fogueira acabariam por juntar-se também os guardas que horas antes defendiam o Ermeiro. E ali ficaram a comer e beber, vencedores e vencidos, que em Trás-os-Montes nunca se nega hospitalidade. Maria João Sousa nunca tinha visto uma coisa daquelas, nem nunca voltaria a vê-la na sua terra. Foi o 25 de Abril da sua gente. «Há lá coisa mais bonita do que uma revolução.»

terça-feira, 27 de setembro de 2022

Cavaco e o fim de 800 kms de ferrovia

Pois o Cavaquistão, de má memória, foi o principal responsável pelo fim do direito a acesso a boas ferrovias e bons transportes públicos, dentro das nossas cidades e entre cidades. Agora andamos zonzos com discussão fútil de coesão territorial. O dano foi muito grave. Restaurar com ecopistas, é um placebo. Desindustrializou o País e aumentamos a dívida pública. Tínhamos uma rede ferroviária muito competitiva. Era uma questão depois de investir na mudança de bitola, modernizar as locomotivas das linhas em serviço e não um País assolado de transportes TIR, motoristas com salários precários, etc. Quanto aos transportes públicos intercidades morreu. As garagens de muitas empresas intercidades fecharam. Um desastre. Depois não me venham falar que vivemos numa "ditadura do automóvel".

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Wem gehört die Welt? Who owns the world? Quem manda no Mundo?

O título é de propósito para que os ALEMÃES e germano-falantes compreendam de vez como também estão ENGANADOS. Se tiverem amigos por lá, façamos o que o serôdio e mesquinho Cavaco não teve verticalidade para calar o presidente Checo. Enviem este vídeo como votos de um excelente 2013 mais justo que 2012.
Políticos deviam passar por testes psiquiátricos anualmente!

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Valete - Serviço Público

Verso 1 - Valete

Esta é logo pos vossos top rappers
Com essa musica que fede
Amam hip-hop mas põem-lhe os cornos com pop-rap
É so bling bling os sons que vocês sentem
De rappers que se vendem nem valem 50 cêntimos
C'o valete não há paralelo

Desliga o mic, eu rimo com uma foice e um martelo
A verdade doí eu trago assim incolor
Mas vocês vêm TV só para atenuar a dor
Do cavaquismo, ao guterrismo, até ao socratismo
Mudam o ismos mas a gente continua no mesmo

Vocês ultrajam gays e é de serem machos que se gabam
Mas de quatro em quatro anos votam naqueles que vos enrabam
Legitimam o sistema vilão que nos consome

Quem é o Sócrates para amassar o pão c'a gente come
É só retórica e enrolamento

Que se foda Valete e Sam, os storytellers 'tão no parlamento
Mentores da escola que desinteressa a muitos intelectos
A mesma escola que forma doutores analfabetos
Põem-vos num trabalho para serem explorados com agrado
Vocês são todos escravos e ainda por cima assinam contratos

Sample - Hugo Chavez

"A nosotros nos toca compañeros y compañeras ser el partero de nueva vitoria"
Refrão - Valete

Traz o teu povo vem combater
Aponta a arma não temos nada a perder
Já faltou mais p'a podermos abater
O opressor

Verso 2 - Valete
Capitalismo é a religião das massas nos nossos dias
Deixem Jesus em paz, o dinheiro é o vosso Messias
Igrejas são templos de estupidificação
Eu interpreto a vossa bíblia com um isqueiro na mão
Deus é omnipotente, omnipresente
Então vai à casa branca porque Deus está lá dentro
E é seguido por governantes que tens aplaudido

Governantes que deviam ter Lewinsky no apelido
E discursam de boca suja acelerados como Senna
É que o Bush não ejacula esperma, ejacula gasolina

Diz p'a saírem do Iraque e virem ter com o Keidje Lima
Que eu tenho armas de destruição maciça no meu bloco de rimas
Há 10% a engordar com 90% do guito
Põem 90% do people a fazer dietas, o que é que é isso?
É o terrorismo da globalização financeira

Que fode o 3º mundo de G-8 maneiras
E já não há forma de abrandarem (Não)
Eles destroem a Amazónia porque basta petróleo p'a respirarem
Este é o nosso mundo nu e cru
Se Adão soubesse no que isto ia dar só teria fodido a Eva no cu, nigga

Scratch - Hugo Chavez

"No hay imperialismo que haya sobrevivido cuando los pueblos nos decidimos a ser libres"
Refrão - Valete

Traz o teu povo vem combater
Aponta a arma não temos nada a perder
Já faltou mais p'a podermos abater
O opressor

Outro - Selma & Valete
Traz outros manos contigo e vem pró batalhão
Precisamos de mais tropas p'á revolução
Não quero fama nem glória
Só uma t-shirt de Che Guevara